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quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15, 3-7


A Ovelha Perdida e o Coração que Ama Até o Fim

Na liturgia do Sagrado Coração de Jesus, contemplamos o mistério de um amor que se dá por inteiro, que se consome em fidelidade, e que insiste em amar mesmo quando não é amado (cf. Os 11,1-4; Jr 31,3). Neste dia, a Palavra nos coloca diante de uma das imagens mais conhecidas e paradoxais do Evangelho: o Pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para ir em busca da única que se perdeu (Lc 15,3-7). O que parece, aos olhos da lógica racional, uma atitude imprudente ou até negligente, é, na verdade, a mais pura revelação da radicalidade do amor de Deus.

Este texto faz parte de um capítulo profundamente unitário no evangelho de Lucas. Todo o capítulo 15 — com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida (vv. 8-10) e do filho pródigo (vv. 11-32)  proclamado no 4⁰ Domingo da Quaresma  e retorna  no 24⁰ domingo  do Tempo  Comum  inserido  de forma fluida  na proclamação  de Lucas 15, 1-32 — constitui uma resposta de Jesus às murmurações dos fariseus e escribas, que o criticavam por acolher pecadores e comer com eles (Lc 15,1-2). Não estamos diante de três parábolas soltas, mas de uma tríade pedagógica que revela, em crescendo, o escândalo da misericórdia divina e a centralidade do “buscar e encontrar”. A estrutura é repetida: algo se perde, alguém busca, algo é encontrado, e há festa.

"Qual de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma..."

 Jesus inicia a parábola com uma pergunta que desestabiliza o senso comum. Quem, de fato, deixaria noventa e nove para buscar uma? Nenhum pastor sensato faria isso. E é justamente aí que se revela a diferença entre Deus e o homem. Como diz Isaías, “meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8). O que para nós parece irracional, para Deus é sinal de justiça e fidelidade. A justiça de Deus não se mede por quantidade ou mérito, mas por um compromisso visceral com cada vida, especialmente com a que está à margem.

O texto carrega ecos do Antigo Testamento. O próprio Deus, no livro de Ezequiel, se apresenta como pastor que busca a ovelha perdida: “Procurarei a que estiver perdida, reconduzirei a que se desgarrar, enfaixarei a ferida, darei força à fraca” (Ez 34,16). Jesus não apenas narra essa parábola: Ele encarna esse Deus-pastor, que se lança em missão até as periferias humanas (cf. Mt 9,36; Mc 6,34). Não é por acaso que o Bom Pastor da parábola carrega nos ombros a ovelha reencontrada — gesto de ternura, de responsabilidade, de dignidade restaurada (cf. Is 40,11).

Esse reencontro é celebrado com alegria, porque “há mais alegria no céu por um só pecador que se converte” (Lc 15,7). A festa no céu contrasta com a frieza dos religiosos que murmuravam contra Jesus por acolher os pecadores (Lc 15,2). A parábola, portanto, não é apenas doutrina; é denúncia. Ela põe em xeque uma religião que contabiliza fiéis, mas não conhece seus nomes; que exige pureza moral, mas não tem compaixão; que se envergonha dos fracos e bajula os fortes. Jesus, ao contrário, não se envergonhava de se deixar tocar por leprosos, comer com publicanos, dialogar com samaritanas, curar em dia de sábado. Ele é o Coração que sangra por amar (cf. Jo 19,34).

Nesse sentido, a ovelha que se perde pode ser também aquela que não suportou mais a hipocrisia do redil. Talvez não tenha se desviado por rebeldia, mas por fome de sentido. Talvez tenha sido empurrada para fora por uma comunidade que, ao invés de pastorear, policiava. Quantas vezes a ovelha se afasta porque a Igreja falhou em ser refúgio? Quantas vezes nossas estruturas eclesiais — marcadas por clericalismo, legalismo, autorreferência — produziram mais afastamento que comunhão? Como advertia o Papa Francisco, de santa memória, em sua exortação Evangelii Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada por sair às ruas do que uma Igreja doente por se fechar em si mesma” (EG, 49). Francisco recuperava com força a intuição de que a fé cristã é caminho, dinamismo, travessia. Como a mulher que acende a lâmpada ou o pastor que atravessa o deserto, também a comunidade eclesial é chamada a sair, a iluminar, a buscar com perseverança — mesmo aquilo que outros julgariam perdido para sempre.

A pastoral do coração não calcula perdas, mas busca o que falta. A missão do Cristo, revelada no próprio evangelho de Lucas, é “buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). O mesmo verbo usado para descrever a missão de Jesus reaparece aqui na ação do pastor: ele vai atrás da ovelha. A fé cristã não é estática. É movimento, saída, peregrinação. O amor do Sagrado Coração é dinâmico, inquieto, sempre em busca.

Essa busca envolve riscos. O deserto é perigoso. As noventa e nove ficam desprotegidas. Mas o que está em jogo não é uma organização pastoral eficiente; é o coração do Evangelho. Jesus jamais fundou um modelo de controle, mas de compaixão. Ele mesmo diz que o pastor verdadeiro não foge diante do lobo, mas entrega a vida (Jo 10,11-15). E o apóstolo Paulo interpreta esse gesto como loucura do amor: “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Ou seja, antes mesmo do arrependimento, o amor já nos alcançou. Nesse movimento de busca e encontro, revela-se também a dimensão eucarística da parábola. A festa ao reencontrar a ovelha é um banquete de reconciliação. Lembra o pai do filho pródigo que manda matar o novilho gordo para celebrar o retorno (Lc 15,23). Na Eucaristia, a Igreja revive essa alegria do reencontro, mas ela só é autêntica quando todos têm lugar à mesa. Não podemos comungar o Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, excluir os corpos concretos dos irmãos e irmãs feridos. Não há comunhão sem inclusão.

O drama da religião sem coração, do rito sem vida, é a cegueira diante da ovelha ferida. A extrema-direita religiosa, ao instrumentalizar o cristianismo para justificar políticas de exclusão, violência e supremacia, trai o Evangelho do Pastor que se perde por amor. A verdadeira tradição eclesial está ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos que choram (cf. Mt 5,3-12). A ovelha perdida, para muitos desses movimentos, é escandalosa. Mas é ela que provoca a festa no céu e  talvez seja necessário ir além: quem disse que a ovelha perdida está fora? E se o redil não for sinal de comunhão, mas de conformismo? E se o que chamamos de “segurança” for, na verdade, o aprisionamento de consciências? O profeta Isaías já dizia: “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho” (Is 53,6). A ovelha perdida, portanto, não é exceção: é espelho. Todos somos, de algum modo, buscados por um amor que se recusa a desistir de nós. 

A crítica filosófica pode nos iluminar aqui: Friedrich Nietzsche, embora crítico da religião institucional, intuía que muitas vezes é o doente quem enxerga melhor a doença da sociedade. A ovelha "perdida", nesse sentido, pode ser a mais lúcida. Há uma denúncia implícita contra uma espiritualidade massificada, onde a segurança de estar “dentro” faz com que ninguém mais questione se o caminho é realmente justo. A ovelha perdida pode ser o artista que se afastou porque não havia espaço para sua sensibilidade na rigidez litúrgica; pode ser a mulher excluída por ser mãe solteira; pode ser o jovem que se levantou contra o racismo estrutural da comunidade de fé; pode ser o pobre que se cansou de ouvir sermões sobre obediência enquanto era oprimido.

Nesse sentido, ela não apenas precisa ser buscada — ela nos desafia. O retorno da ovelha perdida não é apenas salvação pessoal, é uma provocação comunitária. Ela carrega consigo o clamor de uma Igreja mais inclusiva, mais humana, mais aberta ao Evangelho como libertação. E é nesse reencontro — com suas feridas, perguntas e esperanças — que o Coração de Jesus se regozija e nos convida a fazer festa.

O Sagrado Coração de Jesus, transpassado e vivo, continua a pulsar por cada um que se distancia. Ele não pergunta o motivo da perda, mas se lança na busca. E o faz com pressa, como a mulher que varre a casa para encontrar a moeda (Lc 15,8-10), como o pai que corre ao encontro do filho (Lc 15,20). Esse Deus corre, busca, carrega, celebra.

Que esta parábola — breve, mas abismal — nos desinstale. Que nos liberte da ilusão de estarmos já salvos só porque permanecemos no “rebanho”. Que nos converta a um cristianismo do coração, onde a prioridade seja sempre o que está fora, ferido, perdido. E que a Igreja, à imagem do seu Senhor, tenha a coragem de deixar os noventa e nove e sair pelas estradas, pelos becos, pelos desertos... até encontrar a que falta. Porque é ela que faz falta ao Coração de Deus e talvez essa saída não seja apenas para buscar, mas para aprender. Talvez o reencontro com a ovelha nos mostre o que esquecemos no redil: o frescor do Evangelho, a dor do povo, o clamor por justiça, o grito de quem nunca foi ouvido. A festa no céu, afinal, começa quando o amor vence o medo, e a misericórdia desfaz os muros da indiferença.

Celebrar o Coração de Jesus é comprometer-se com sua compaixão que não calcula, com sua ternura que não se escandaliza, com sua fidelidade que não desiste. Se nos deixarmos encontrar por esse amor — e se formos capazes de buscá-lo nos caminhos esquecidos — então a parábola deixa de ser apenas palavra e se faz carne em nós e  a Igreja se tornará, enfim, o que é chamada a ser: não um curral fechado de justos, mas casa aberta onde até a ovelha mais ferida encontre abrigo, dignidade e pão.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 25 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX


A ausência que mata?

No dia 20 de junho de 2025, a jovem brasileira Juliana Marins caiu na cratera do vulcão Rinjani, na Indonésia. Ela sobreviveu por quase quatro dias, ferida, sozinha, esperando por ajuda. Lutou porque queria viver. Queria viver com intensidade, amava as montanhas, a natureza e a liberdade. Sua última imagem mostra o rosto de alguém que ainda acreditava — mesmo em meio ao abismo.

A ajuda, no entanto, não chegou a tempo. As decisões foram lentas. A presença falhou. Juliana morreu não porque desistiu da vida, mas porque foi deixada sozinha. Sua morte expõe uma realidade mais ampla: a ausência como prática social naturalizada. A partir dela, precisamos refletir sobre a banalização do abandono em nossa cultura.

Vivemos numa sociedade em que o abandono foi normalizado. Netos não visitam mais seus avós. Pais e mães não têm tempo para seus filhos. Filhos adultos ignoram os pais em nome da autonomia. Há lares emocionalmente desconectados, marcados por silêncios prolongados e afastamentos justificados por agendas ou ressentimentos. Esse distanciamento causa o colapso de vínculos afetivos fundamentais, gerando o que podemos chamar de “morte social”: a sensação de que se está vivo, mas esquecido, ignorado, descartado.

O abandono, portanto, não se restringe ao âmbito privado. Ele é estrutural, cultural e espiritual. Em muitos contextos, quem sofre passa a ser visto como incômodo. Pessoas que expressam dor ou tentam restaurar vínculos são frequentemente taxadas de exageradas. A recusa em dialogar, a desvalorização do cuidado mútuo e o desprezo pelas pequenas presenças revelam uma sociedade doente pela indiferença.

As Escrituras não silenciam diante disso. Os profetas denunciam o abandono como infidelidade à aliança. Jeremias acusa o povo de abandonar a fonte de água viva (Jr 2,13). Isaías mostra um povo que honra com os lábios, mas vive longe de Deus no coração (Is 29,13). Oseias revela o sofrimento divino com a pergunta: “Como posso te abandonar, ó Efraim?” (Os 11,8). Jesus, por sua vez, chorou sobre Jerusalém porque ela recusou o cuidado e a escuta (Lc 13,34).

Na sabedoria dos povos indígenas, a ideia de abandono é inconcebível. Os Guarani falam do teko porã, o bem viver coletivo, onde cada pessoa é parte do equilíbrio de todos. Os Yanomami ensinam que escutar é um ato espiritual e que a dor de um membro afeta o corpo inteiro da comunidade. Ailton Krenak, pensador indígena contemporâneo, alerta que a humanidade está adoecida por não conseguir mais sentir junto com o outro.


Na cosmologia dos Orixás, a ausência tem significado ético. Oxóssi, o caçador, se afasta da aldeia quando a floresta é desrespeitada. Sua ausência é pedagógica: ensina que o sagrado se retira quando os laços são violados. Iansã, senhora dos ventos, também se recolhe diante da mentira. O sagrado, nessas tradições, se retira quando a verdade e o respeito deixam de habitar as relações.

Na tradição greco-romana, o abandono é frequentemente retratado como tragédia. Antígona, Édipo, Medeia — todos são figuras atravessadas por rompimentos e pela incapacidade da cidade de sustentar os vínculos fundamentais. A pietas romana, que exigia fidelidade aos pais, aos deuses e à pátria, mostrava que abandonar era também perder a própria humanidade.

A teologia profética nos alerta que o abandono não é apenas negligência: é idolatria. É preferir o conforto à compaixão, o individualismo ao vínculo, a produtividade ao cuidado. Quando os pequenos são ignorados, o projeto de Deus é traído. Quando o sofrimento é normalizado, a presença divina é banida dos relacionamentos.

Diante disso, precisamos reconhecer que há momentos em que encerrar vínculos é um ato de maturidade. Buscar continuamente quem não quer ser encontrado, insistir onde há apenas indiferença, é tornar-se cúmplice do próprio esvaziamento. Chega o tempo de parar de explicar o óbvio: que o amor exige reciprocidade, e a presença, comprometimento.

Assim como Oxóssi que se retira para proteger o sagrado, como Iansã que recolhe o vento quando a palavra é violada, e como Jesus que se cala diante do desprezo, também nós aprendemos a nos afastar. Não por mágoa, mas por dignidade. Não por desamor, mas por sanidade. Não por derrota, mas por fé.

Quem quiser estar, que esteja de verdade. Quem quiser amar, que apareça com integridade. Quem continua ausente, que aceite perder o lugar que recusou ocupar.

Porque já enterramos demais. E há vivos que continuam respirando, mas vivem sepultados na memória dos que um dia os amaram com verdade, entrega e coragem.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

Vale a pena ler

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domingo, 15 de junho de 2025

Santidade existe? Entre os quatro "erres" da Rua, da Rejeição, do Reino e da Religião


Diante de um mundo que mercantiliza a fé, surge a pergunta: Santidade existe?

Entre a Rua, a Rejeição, o Reino e a Religião, buscamos a resposta. As Escrituras nos conclamam: 
  • "Sede santos, porque Eu sou santo" (Lv 19,2)
  • "Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48)
  • "Tornai-vos santos em todo o vosso proceder" (1Pd 1,15)
Contudo, essa santidade não está à venda. Ela não se encontra nas vitrines da fé, nem nos púlpitos dourados onde a espiritualidade se tornou um mero mercado. Jesus, em sua indignação, entrou no templo e expulsou os vendedores (Mt 21,12).

E por que Ele o fez? 

Porque a santidade não se negocia.  Ela é inegociável. Vale lembrar que, no contexto do Segundo Templo, os comerciantes e cambistas se beneficiavam do sistema sacrificial, transformando a casa de oração num espaço de opressão econômica e exclusão social. A ação de Jesus foi mais que simbólica: foi profética e revolucionária, uma denúncia contra a religião institucionalizada e vendida. A verdadeira santidade nasce na rua, no cotidiano, na realidade  sofrida  da quebrada, da comunidade, ela sofre na rejeição, nas incompreensões do mundo, vive pelo Reino, em serviço e amor, e resiste à religião do domínio que, por vezes, perdeu o coração.  
A Santidade é amor que não se dobra diante das adversidades, é a justiça que não se vende por preço algum, é a graça que não se compra, mas se recebe e se doa livremente. 

A santidade, no Antigo Testamento, é chamada à separação para Deus e compromisso ético com o próximo. Esse compromisso está enraizado na Torá, onde ser santo implica viver de forma justa, defender o estrangeiro, o órfão e a viúva — e isso se prolonga nos profetas.
Não esqueçamos: foi fora do templo que crucificaram o Santo. E é fora dos holofotes que muitos santos ainda caminham hoje, sem aplauso, sem reconhecimento, mas com inabalável fidelidade.

Essa reflexão surgiu em uma madrugada, quando assistimos a um filme nada ortodoxo, quase bobo, chamado “Um Santo Vizinho” (St. Vincent, 2014), estrelado por Bill Murray. O filme apresenta Vicente, um senhor alcoólatra e ranzinza que, apesar de parecer o avesso da santidade para os puritanos, encarna uma realidade dura e um amor profundo: cuida da esposa com Alzheimer, a quem se mantém fiel e dedicado (chegando a se vestir de médico, lembrando seu passado como herói de guerra condecorado), e ainda ajuda uma prostituta do bairro que  esta gravida (Naomi Watts) e uma mãe solo com uma criança necessitada de atenção (Melissa McCarthy).
Um garoto, Oliver (interpretado por Jaeden Martell), diz que não crê em santos durante uma aula e professor passa uma tarefa de cada um pesquisar um santo para apresentar em seminário da escola. Sabemos  que sua descrença nasce dos modelos que ele conhece: pessoas que rezam muito e vivem somente na igreja, mas sem praticar o amor, a compaixão e a solidariedade no cotidiano. Sua fé parece oca, como alerta a Escritura: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Será que tal fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisando de alimento diário, e um de vocês lhes disser: 'Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se', sem, contudo, lhes dar o que comer, de que adiantará isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta” (Tiago 2,14-17).

Oliver, contudo, reconhece a santidade encarnada em Vicente, que não tem “cara de santo”, mas vive o amor concreto. O menino, mesmo em sua ingenuidade, pratica uma leitura espiritual mais autêntica e coerente do que muitos adultos de fé institucionalizada.
Esse filme nos recordou outro clássico brasileiro, “Deus é Brasileiro” (2003), dirigido por Carlos Diegues, com Antônio Fagundes no papel de Deus e Wagner Moura como Quinca das Mulas — um pescador ateu do sertão que é considerado por Deus como possível substituto para governar o céu enquanto Ele tira férias. Curiosamente, Quinca, mesmo sem fé institucional, vive uma santidade prática e profunda, mais real que a de muitos cristãos nominais. Ele é generoso, justo, cuidadoso com os outros, e sobretudo, profundamente humano.

Esses dois personagens, Vicente e Quinca, de mundos tão distintos, e longe dos modelos pintados em nossas Igrejas, convergem em um ponto crucial: nos ajudam a compreender que a santidade não é uma moldura religiosa nem um diploma canônico. É presença, é serviço, é ternura concreta. É a mística do cotidiano que se transforma em prática amorosa.
Isso ecoa a exortação de Paulo em Filipenses 2,3-4: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”

E como Jesus mesmo ensinou:
“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20,26-28).

A Bíblia está cheia de histórias assim, onde Deus age de maneiras inesperadas e através de pessoas improváveis, mostrando que sua escolha vai além da lógica humana:
“Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Escolheu as coisas humildes do mundo, as desprezadas e as que não são, para anular as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na sua presença” (1 Coríntios 1,27-29).

Naamã, o sírio pagão, cura-se pela fé e pelo gesto humilde de obedecer à palavra do profeta (2Rs 5). A viúva de Sarepta acolhe Elias com o pouco que tem e é exaltada por Jesus (Lc 4,26). A mulher samaritana, rejeitada e marcada por feridas existenciais, se torna evangelizadora (Jo 4). Pedro negou, Paulo perseguiu — mas ambos foram alcançados pela graça que ultrapassa qualquer doutrina.
“O homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7).
Essa verdade é um chamado à autenticidade. O profeta Oséias já nos lembrava: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oséias 6,6).

A verdadeira adoração não está nos ritos vazios, nas missa, cultos  mas na transformação do coração em atos de justiça e bondade, como clamava Isaías: “Aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, ajudai o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva” (Isaías 1,17).

Dom Oscar Romero, mártir do nosso tempo, viveu a santidade profética da compaixão. Enfrentou as “semanas injustas” com o corpo e a voz em defesa dos pobres. Sua santidade nasceu da fidelidade à carne ferida do povo. Um episódio marcante foi sua homilia em 23 de março de 1980, onde, diante das Forças Armadas salvadorenhas, exclamou:
“Em nome de Deus, e em nome deste povo sofrido, cujas lamentações sobem até o céu cada dia mais tumultuosas, eu lhes peço, eu lhes suplico, eu lhes ordeno: parem com a repressão!”
No dia seguinte, foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia. Sua vida, como a dos profetas, foi semente de um novo mundo.

E como repete um velho padre sábio:
“Há mais comunhão entre cachaceiros e prostitutas do que em muitas igrejas"  e ousamos  completar: Deus falou por uma jumenta contra um profeta vendido (Nm 22,28); por que não falaria hoje por pecadores rejeitados por normativas que fecham a porta para eles, enquanto tantos de batina , de mitra e com milhares de seguidores nas redes vendem o nome de Deus a serviço do poder? 
 Jesus mesmo declarou diante dessa realidade: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31).

Santidade não se mede por presença em cultos,  conhecimento  teológico ou diploma de sacramento  recebido, mas pela capacidade de encarnar o amor de Deus no mundo.
Como diz a canção popular de Fernando Mendes: “Não adianta ir à igreja e fazer tudo errado. Você quer a frente das coisas olhando de lado
O céu que te cobre não cobra a luz da manha. Desperte pra vida, acredite: a sorte é irmã”

E ainda:
“Não adianta um pé de coelho no bolso traseiro. Nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta
Pois toda sorte tem quem acredita nela”
É quase como dizer: não adianta ter aparência de fé sem uma vida de fé. A “sorte” da santidade é irmã da confiança, da prática, da coerência — não do teatro.
E essa mesma denúncia atravessa o rap profético de Godzila do Rap, no seu “Evangelho dos Fariseus”, que questiona a hipocrisia dos que oram alto e pregam prosperidade, mas ignoram o pobre à porta. Godzila, com sua linguagem contundente, escancara a contradição de uma fé que acumula e exclui. É voz periférica, profética, que remete aos clamores dos salmos e dos profetas.
E nessa mesma trilha, o saudoso Papa Francisco, profeta da ternura e da coerência, dizia com firmeza: “É melhor ser ateu do que um cristão hipócrita.” (Audiência Geral, 23 de fevereiro de 2017).
Ele nos lembrava que não basta usar o nome de Cristo — é preciso viver como Ele viveu: com compaixão, verdade, justiça e serviço. O escândalo não está no mundo, mas em cristãos que dizem crer, mas agem como se Deus fosse uma ideia vazia ou uma moeda de troca religiosa.
Essa crítica poética nos remete diretamente ao Evangelho segundo Mateus 25,35-40, onde Jesus aponta com clareza os critérios do juízo final:
Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes me ver.”
“Sempre que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”

A pergunta que emerge é dura:  Quem são, então, os verdadeiros santos? 

Aqueles que rezam e condenam, ou aqueles que amam sem alarde, servem sem palco e cuidam sem manual? Jesus foi direto: Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do Pai” (Mt 7,21).
E qual é essa vontade, senão amar como Ele amou (Jo 13,34), fazer da vida um dom para os outros (1Jo 3,16), e ser presença viva de ternura e justiça?
“Deus é amor, e aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4,7-8).
“Não há amor maior do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13).
Talvez por isso, aquele garoto no filme, mesmo sem saber rezar o credo, conseguiu fazer o mais verdadeiro dos atos de fé: reconhecer um santo onde o mundo só via um velho bêbado. Porque santo é quem ama. Santo é quem cuida. Santo é quem fica, mesmo quando todos vão embora.
E isso, nenhuma norma consegue medir. 
Nenhuma teologia sistemática consegue conter. Só a vida, vivida em profundidade,  consegue revelar.

DNonato – Teólogo do Cotidiano, longe da santidade pintada por muitos

segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIX

 


Entre Razões e Emoções: A teologia do amor que fica

Há músicas que não apenas nos tocam — elas nos despem por dentro. Como espelhos cruéis, revelam histórias que às vezes nem conseguimos colocar em palavras. “Razões e Emoções”, da banda NX Zero, é exatamente uma dessas. Uma oração desesperada de quem amou demais e não foi escolhido. Um grito contido, um apelo em forma de melodia, um amor que não coube no mundo real, mas que explodiu dentro da nossa alma.

“Dizer, o que eu posso dizer, se estou cantando agora pra você ouvir com outra pessoa...”

Essa frase nos corta fundo. O amor foi vivido, foi verdadeiro — mas não foi suficiente. Agora, só sobra a canção. Como se fosse o último respiro desse sentimento que não encontrou espaço. Como se cantar com dor fosse o único jeito de dizer aquilo que ficou preso, sufocado no momento certo.

Vemos histórias assim o tempo todo. Histórias que não acabam porque falta sentimento, mas porque alguém teve que escolher. Escolher entre o que é seguro e o que o coração pedia. O amor estava ali, vivo, pulsante, sincero — mas alguém preferiu voltar atrás. Por medo. Por conveniência. Por não ter coragem para romper com o que já conhece.

Quantas vezes isso acontece com a gente? 

Quantas vezes preferimos a segurança de uma relação que já não dá certo a nos jogar no risco de um amor que exige entrega total?

“É que às vezes acho que não sou o melhor pra você, mas às vezes acho que poderíamos ser o melhor pra nós dois...”

Isso dói demais. Um coração partido entre o medo e a fé. Entre a dúvida sobre nós mesmos e a esperança tola — ou talvez não tão tola assim — de que o amor inteiro poderia mudar tudo. E é justamente aí que mora o drama: quando há amor, mas falta coragem.

Vivemos num tempo em que a intensidade assusta. Nos apaixonamos, mas temos medo do que sentimos. Preferimos ficar em relações mornas do que nos entregarmos a um sentimento que mexe com tudo. Fugimos de um amor grande simplesmente porque não sabemos lidar com a alma exposta, vulnerável.

“Pois Deus não nos deu espírito de medo, mas de poder, amor e equilíbrio.” (2Tm 1,7)

Mas amar de verdade é justamente isso: romper com o confortável, enfrentar o desconhecido. Nem todos aguentam.

Então sobra a espera. Não aquela espera idealizada, romântica, mas uma espera silenciosa, quase involuntária. Uma espera que não está ali para que o outro volte, mas que carrega a ausência como se fosse presença.

“Entre razões e emoções, a saída é fazer valer a pena... se não agora, depois não importa... por você, posso esperar.”

Esse “posso esperar” se repete feito um eco triste dentro do peito de quem ficou. É a forma de dizer “ainda estou aqui”, mesmo quando tudo parece ter se calado.

A verdade é que quem parte nem sempre sai por falta de amor. Muitas vezes, sai porque não sabe amar. Ou porque não acredita que merece ser amado de verdade. E quem fica... fica tentando entender. Fica tentando engolir o silêncio, a ausência, o retrocesso do outro. Fica agarrado a um futuro que foi arrancado. E mesmo assim, mesmo ferido, quem fica sabe: tudo valeu a pena. Porque amou. Porque mergulhou. Porque foi real.

Temos visto gente que volta para antigos lugares não porque quer reencontrar, mas porque tem medo de seguir em frente. Que escolhe o conhecido, mesmo ferido, em vez de se lançar no desconhecido com quem poderia ser a história mais linda da vida. E quando isso acontece, não é só o amor que se frustra. É a esperança que se despedaça.

Mas mesmo diante da dor, da ruptura, da não-escolha, existe algo maior: a dignidade de quem amou de verdade. De quem não se escondeu com medo. De quem esperou o tempo que foi preciso, não para alimentar ilusão, mas porque sabia que sentimentos reais não desaparecem da noite para o dia.

 “A esperança não decepciona...” (Rm 5,5)

Se a história acabou, foi porque o outro não sustentou. Porque o outro voltou atrás. Porque escolheu o mais fácil.

E mesmo com o coração quebrado, seguimos. Não com raiva, não com amargura, mas com gratidão. Porque o amor vivido deixou marcas que nunca se apagam. Porque, mesmo doendo, foi lindo. Porque o que sentimos foi tão grande, tão profundo, que o fim não destruiu — só transformou em memória.

Amores impossíveis existem, sim. Mas o que os torna impossíveis quase nunca são as circunstâncias — são as fragilidades da gente. São as portas que fechamos por medo, as escolhas feitas por covardia. 

 “O amor nunca falha.” (1Cor 13,8)

E no fim, o que sobra é respirar fundo e continuar. Com a alma marcada, sim, mas o coração intacto. Porque amar nunca foi um erro. O erro não é amar — é fugir do amor por medo de viver. Porque amar, mesmo que doa, é um gesto que toca a eternidade.

Por tudo isso, essa música não é só uma canção. É o retrato silencioso do que muita gente vive por dentro. Uma prece cantada por quem ficou esperando, não por fraqueza, mas por fidelidade ao que sentiu. E mesmo que o outro tenha partido, o amor que ficou não morreu. Só mudou de lugar,  porque amar é sempre o primeiro passo para a eternidade que nos espera

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Prof. DNonato — Teólogo do Cotidiano, entre razões e emoções, a dignidade está em termos amado de verdade.

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quinta-feira, 29 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 16,20-23a

No coração do Tempo Pascal da Igreja Católica Romana, a perícope de João 16,20-23a ocupa um lugar profundamente significativo na caminhada litúrgica da Igreja. Este texto é proclamado tradicionalmente na sexta-feira da sexta semana da Páscoa, dentro da sequência espiritual que prepara a comunidade cristã para Pentecostes. A liturgia o insere no grande discurso de despedida de Jesus no Evangelho segundo João, texto de densidade espiritual singular, onde o Cristo prepara seus discípulos para a experiência da ausência visível, da perseguição, do medo e, ao mesmo tempo, da irrupção inesperada da alegria pascal. Variantes temáticas desta passagem também ecoam nas celebrações do Tempo Pascal em diversas tradições cristãs históricas, como nas Igrejas Ortodoxas do Oriente, nas tradições anglicanas, luteranas e reformadas históricas, especialmente nas leituras relacionadas à ressurreição, ao sofrimento da Igreja e à esperança escatológica. O motivo da tristeza transformada em alegria atravessa toda a espiritualidade cristã primitiva e se torna uma das grandes chaves hermenêuticas da fé pascal.

O texto de João 16,20-23a está inserido no chamado Livro da Glória, que compreende os capítulos 13 a 21 do Quarto Evangelho. Trata-se de uma seção profundamente simbólica, construída não apenas como narrativa histórica, mas como catequese espiritual para comunidades marcadas pela perseguição, pelo conflito interno e pela tensão com o poder religioso e político do final do primeiro século. O Evangelho joanino nasce em um contexto de ruptura traumática entre grupos cristãos e setores da sinagoga judaica após a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo Império Romano. A comunidade joanina experimentava exclusão religiosa, marginalização social e perseguição cultural. Por isso, o discurso de Jesus sobre tristeza, dor e alegria não é abstrato nem meramente espiritualizado. Ele emerge de um chão histórico concreto, marcado pelo sofrimento real das comunidades. Quando Jesus afirma: “Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará” (Jo 16,20), Ele não apenas descreve a dor imediata dos discípulos diante da paixão iminente. Ele revela uma estrutura permanente da história humana. Há um conflito entre a lógica do Reino de Deus e a lógica do mundo. No Evangelho de João, o termo “mundo” possui múltiplos sentidos. Em alguns momentos, designa a criação amada por Deus, como em João 3,16. Em outros, representa o sistema organizado de oposição à vida, à verdade e à justiça. Aqui, claramente, “o mundo” é o conjunto das estruturas de poder que celebram a morte dos inocentes, naturalizam a violência e transformam a opressão em normalidade política, econômica e religiosa.
Jesus pronuncia estas palavras poucas horas antes de sua prisão. O pré-texto imediato é o lava-pés de João 13, gesto profundamente revolucionário numa sociedade marcada pela hierarquia e pela pureza ritual. O Mestre ajoelha-se diante dos discípulos, assume a condição do servo e desmonta toda compreensão autoritária do poder religioso. Em seguida, anuncia traição, abandono e sofrimento. A ceia joanina não possui a instituição explícita da Eucaristia como nos Sinóticos, mas possui algo talvez ainda mais radical: a revelação de que a comunhão verdadeira só existe quando o poder se transforma em serviço.

Nesse horizonte, a tristeza dos discípulos não é apenas emocional. Trata-se do colapso de suas expectativas messiânicas. Eles ainda esperavam um Reino glorioso segundo categorias políticas convencionais. Esperavam triunfo visível, estabilidade, restauração nacional. A cruz destrói essas projeções. A morte de Jesus desmascara a violência do Império Romano, a cumplicidade das elites religiosas e a fragilidade humana dos próprios discípulos. O Cristo não morre apenas pelas mãos de Roma. Morre também pela aliança entre religião e poder..Esse dado possui enorme relevância contemporânea. Em todas as épocas, inclusive em nosso tempo, existe a tentação permanente de instrumentalizar Deus para legitimar projetos de dominação. A religião frequentemente é capturada por ideologias de controle social, nacionalismos autoritários e sistemas econômicos excludentes. Quando a fé perde sua dimensão profética, ela deixa de ser Boa Nova para os pobres e se transforma em aparato de manutenção da ordem. Jesus denuncia precisamente essa perversão.
A metáfora do parto utilizada em João 16,21 é uma das imagens antropológicas mais belas e profundas do Novo Testamento. “A mulher, quando vai dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra do sofrimento, por causa da alegria de ter vindo um ser humano ao mundo.” O símbolo do parto atravessa toda a tradição bíblica. Em Isaías 66,7-14, Sião aparece como mulher que gera um povo novo. Em Miqueias 4,9-10, o sofrimento do parto torna-se imagem da esperança coletiva. Em Romanos 8,22, Paulo afirma que toda a criação geme em dores de parto aguardando redenção.
No mundo bíblico, o parto era experiência profundamente arriscada. A mortalidade materna era elevada. Não havia anestesia, segurança hospitalar ou assistência adequada para a maioria das mulheres pobres. A dor do parto simbolizava vulnerabilidade extrema, mas também potência criadora. Jesus utiliza precisamente essa experiência para revelar que o Reino nasce no interior da dor histórica. Não existe ressurreição sem travessia da cruz.
A antropologia cultural nos ajuda a compreender que sociedades antigas frequentemente associavam o sofrimento do parto à ambiguidade da vida humana: dor e esperança coexistindo inseparavelmente. O nascimento é ruptura traumática, passagem, transformação radical. Assim também acontece com a experiência espiritual e histórica das comunidades humanas. Nenhuma transformação profunda ocorre sem crise.

Por isso, o cristianismo autêntico jamais pode ser reduzido a espiritualidade alienante, triunfalismo religioso ou teologia da prosperidade. O Evangelho não promete imunidade ao sofrimento. Promete sentido, presença e esperança dentro da travessia histórica. A lógica neoliberal contemporânea, porém, transforma felicidade em mercadoria e sofrimento em fracasso individual. A fé mercantilizada vende sucesso pessoal, riqueza financeira e vitória social como sinais automáticos da bênção divina. Tal perspectiva contradiz frontalmente o Evangelho de Jesus.
A chamada teologia da prosperidade, difundida em diversos ambientes religiosos contemporâneos, representa uma profunda distorção hermenêutica da tradição bíblica. Ela substitui o Deus do Êxodo pelo deus do mercado. Troca a cruz pelo consumo. Reduz oração a técnica motivacional. Nessa lógica, pobres são culpabilizados por sua própria pobreza, enquanto ricos são apresentados como modelos espirituais. Jesus, porém, jamais associou riqueza à santidade. Pelo contrário. Em Lucas 6,20, proclama: “Bem-aventurados vós, os pobres.” Em Mateus 25,31-46, identifica-se diretamente com os famintos, presos e excluídos..João 16 denuncia precisamente o escândalo de um mundo que se alegra enquanto os justos choram. Essa dinâmica permanece brutalmente atual. Vivemos em uma civilização marcada pela concentração obscena de riqueza, pela destruição ambiental, pela precarização da vida e pela naturalização da violência. Crianças morrem de fome enquanto mercados financeiros celebram lucros recordes. Povos indígenas são expulsos de seus territórios em nome do agronegócio predatório. Migrantes são tratados como ameaça. Mulheres continuam vítimas de violência estrutural em sociedades patriarcais. Negros seguem morrendo nas periferias sob o peso histórico do racismo.

Nesse contexto, recordar os ataques sofridos por figuras públicas comprometidas com a justiça socioambiental revela a permanência da lógica denunciada pelo Evangelho. Quando mulheres são silenciadas, ridicularizadas ou violentadas em espaços institucionais, manifesta-se não apenas misoginia individual, mas uma estrutura histórica de dominação. A reação hostil contra mulheres que resistem ao poder autoritário reproduz mecanismos antigos de exclusão. O corpo feminino continua sendo território de disputa simbólica e política.
Jesus utiliza justamente a figura da mulher que dá à luz para revelar que a vida nova nasce das dores históricas dos marginalizados. Há aqui uma profunda inversão teológica. O Reino não nasce nos palácios imperiais nem nos templos aliados ao poder. Nasce nas periferias da história. Nasce no ventre das mulheres pobres. Nasce entre pescadores da Galileia. Nasce entre trabalhadores explorados pelo sistema tributário romano.. A geografia do Evangelho é profundamente significativa. A Galileia do século I era região marginalizada economicamente em relação à Judeia. Era espaço de mistura cultural, tensão política e exploração econômica. O campesinato galileu sofria com impostos abusivos, concentração fundiária e presença militar romana. Jesus nasce e atua nesse contexto de sofrimento social concreto. Sua mensagem não é abstrata. É encarnada.

A sociologia da religião ajuda a compreender como movimentos espirituais frequentemente surgem entre populações marginalizadas. O cristianismo primitivo foi, inicialmente, movimento de pobres, mulheres, escravizados e excluídos. Seu anúncio subvertia hierarquias tradicionais ao afirmar que todos possuem dignidade diante de Deus. Paulo escreve em Gálatas 3,28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher.” Essa afirmação era explosiva no mundo antigo.
Por isso, a alegria prometida por Jesus é profundamente política no sentido mais elevado do termo. Não política partidária estreita, mas política da dignidade humana, da justiça e da comunhão. O Magnificat de Maria em Lucas 1,46-55 já anunciava essa subversão: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta humildes. O cristianismo perde sua alma quando abandona os pobres.
O Concílio Vaticano II recuperou fortemente essa dimensão histórica da fé. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Aqui ressoa diretamente João 16. A Igreja é chamada a compartilhar as dores do mundo, não a fugir delas.

A Conferência de Medellín em 1968 aprofundou essa perspectiva ao denunciar estruturas de pecado presentes na sociedade latino-americana. Puebla, em 1979, reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida, em 2007, insistiu na necessidade de uma Igreja em saída missionária, próxima dos sofrimentos reais do povo. O Papa Francisco retoma continuamente essa tradição ao denunciar “uma economia que mata” e ao criticar o clericalismo como deformação da vida eclesial. O clericalismo constitui uma das patologias espirituais mais graves da Igreja contemporânea. Ele transforma ministério em privilégio, autoridade em dominação e serviço em poder. No Evangelho de João, Jesus desmonta radicalmente essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. Onde existe clericalismo, a comunidade deixa de ser povo de Deus e se converte em estrutura piramidal de controle. O clericalismo infantiliza os leigos, silencia mulheres e sufoca a dimensão profética da fé.

Psicologicamente, sistemas religiosos autoritários frequentemente produzem culpa patológica, dependência emocional e medo espiritual. A manipulação religiosa utiliza símbolos sagrados para controlar consciências. Jesus, porém, age de modo oposto. Ele liberta. Ele cura. Ele restitui dignidade. Ele rompe mecanismos de exclusão religiosa. Em Marcos 2,27 afirma: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” A extrema direita religiosa contemporânea frequentemente instrumentaliza o cristianismo como ferramenta identitária e ideológica. Constrói inimigos morais, promove pânico social e reduz o Evangelho a guerra cultural. Nesse processo, o Cristo das bem-aventuranças é substituído por um messias nacionalista e violento. A cruz deixa de ser solidariedade com os crucificados da história e se transforma em símbolo de poder tribal.

Os Evangelhos Sinóticos ajudam a iluminar ainda mais João 16. Em Marcos 8,34, Jesus afirma: “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.” Em Mateus 5,4 proclama: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Em Lucas 24,26 pergunta aos discípulos de Emaús: “Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” João aprofunda teologicamente essa tradição ao apresentar a cruz já como glorificação. No Quarto Evangelho, a paixão não é derrota definitiva, mas revelação máxima do amor.
Existe também diferença redacional importante. Enquanto os Sinóticos enfatizam mais explicitamente o abandono e a angústia de Jesus, João apresenta um Cristo soberano que atravessa livremente a paixão. Essa perspectiva não elimina o sofrimento, mas sublinha que o amor permanece mais forte que a violência.

A psicologia da esperança humana revela que pessoas e comunidades conseguem resistir ao sofrimento quando encontram significado coletivo para sua dor. Viktor Frankl observou que o sentido sustenta a existência mesmo em condições extremas. O Evangelho oferece precisamente uma esperança histórica e transcendente capaz de impedir que a dor se transforme em desespero absoluto..João 16,22 afirma: “A vossa alegria ninguém poderá tirar.” Trata-se de afirmação extraordinária. Jesus não promete ausência de perseguição. Pelo contrário. O próprio Evangelho joanino fala de expulsão das sinagogas e hostilidade do mundo. A alegria cristã não depende de estabilidade econômica, reconhecimento social ou sucesso político. Ela nasce do encontro com o Ressuscitado e da experiência de comunhão solidária.

Essa alegria possui dimensão escatológica. Ela aponta para a plenitude futura do Reino. Contudo, também possui dimensão histórica concreta. Ela já se manifesta onde existe compaixão, justiça e resistência ao mal. Surge nas comunidades que partilham pão. Nas mães que sustentam filhos em contextos de pobreza extrema. Nos povos indígenas que defendem a terra como sacramento da vida. Nos agentes pastorais perseguidos por defender direitos humanos. Nos jovens que recusam discursos de ódio. Nos trabalhadores que lutam por dignidade.
A tradição profética bíblica sempre denunciou religião vazia e culto desvinculado da justiça. Isaías 1,11-17 rejeita sacrifícios sem compromisso ético. Amós 5,21-24 proclama: “Quero ver o direito brotar como fonte.” Miqueias 6,8 resume a vontade divina: praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Jesus se insere integralmente nessa tradição. Por isso, não existe espiritualidade cristã autêntica compatível com indiferença diante da fome, do racismo, da misoginia e da destruição ambiental. A fé que ignora o sofrimento humano torna-se idolatria religiosa. A cruz de Cristo revela que Deus não está do lado dos impérios da morte, mas dos crucificados da história.

O CELAM insiste repetidamente na necessidade de uma evangelização libertadora e encarnada. O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve ser “advogada da justiça e defensora dos pobres”. Essa missão exige discernimento crítico diante das ideologias contemporâneas. Nem todo discurso religioso é evangélico. Nem toda invocação do nome de Deus produz vida.
A crise contemporânea também é crise de sentido. Milhões vivem esmagados pela lógica do desempenho, pela hipercompetitividade e pelo isolamento social. O individualismo neoliberal destrói vínculos comunitários e transforma pessoas em consumidores permanentes. Nesse cenário, João 16 oferece horizonte profundamente humano. A tristeza não é negada. O sofrimento não é romantizado. Mas a dor não possui a última palavra.
A ressurreição não apaga as feridas de Cristo. O Ressuscitado continua marcado pelos cravos. Isso significa que a memória do sofrimento permanece integrada na história da salvação. O cristianismo não é amnésia espiritual. É transformação da dor em solidariedade.

Há também profunda dimensão contemplativa nesse texto. Jesus convida os discípulos a atravessarem a noite confiando na fidelidade do Pai. Trata-se de espiritualidade da esperança teimosa. Não esperança ingênua, mas esperança resistente. A esperança bíblica nasce frequentemente em contextos de exílio, perseguição e aparente fracasso.
A própria história da Igreja testemunha isso. Mártires antigos e contemporâneos revelam que a alegria do Evangelho floresce mesmo sob perseguição. Oscar Romero, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia em El Salvador, afirmava que a Igreja deve estar onde o povo sofre. Dorothy Stang entregou a vida defendendo os pobres da Amazônia. Dom Hélder Câmara denunciou as estruturas de opressão que produzem fome e violência. Essas testemunhas encarnam João 16. O Reino continua germinando silenciosamente nas periferias do mundo. Continua nascendo em comunidades invisíveis aos olhos dos poderosos. Continua florescendo onde alguém reparte pão, acolhe feridos e resiste à lógica da morte. O Cristo Ressuscitado permanece caminhando entre os pobres.

A conclusão dessa perícope é profundamente significativa. Jesus afirma: “Naquele dia, não me perguntareis mais nada” (Jo 16,23a). Não se trata da eliminação do pensamento crítico ou das perguntas humanas. Trata-se da plenitude da comunhão. O encontro definitivo com Deus dissipará as ambiguidades da história. Contudo, enquanto caminhamos neste mundo, continuamos perguntando, buscando, discernindo e lutando.
A fé cristã madura não foge das perguntas difíceis. Ela atravessa a dúvida sem abandonar a esperança. O próprio Cristo clamou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). O Evangelho legitima o grito humano diante da dor. Por isso, a Igreja não pode oferecer respostas simplistas ao sofrimento do mundo. Sua missão é caminhar solidariamente com os que choram, denunciar estruturas de injustiça e anunciar que a vida é mais forte que a morte. João 16 não é convite à resignação passiva. É convocação à esperança ativa.
Em tempos marcados pela banalização da violência, pelo crescimento de fundamentalismos religiosos e pelo avanço de discursos autoritários, o Evangelho continua sendo palavra profundamente subversiva. Jesus permanece desafiando sistemas que transformam pessoas em descartáveis. Permanece denunciando alianças perversas entre religião e poder. Permanece chamando discípulos e discípulas para uma espiritualidade encarnada, solidária e libertadora.
A alegria prometida por Cristo continua sendo perigosa para os impérios da morte porque ela gera resistência. Quem experimenta essa alegria não aceita facilmente a lógica da opressão. Não se conforma com injustiças naturalizadas. Não transforma fé em mercadoria. Não adora líderes políticos como salvadores messiânicos.

A verdadeira alegria cristã nasce da certeza de que Deus continua agindo na história, mesmo quando tudo parece perdido. Ela floresce no interior da luta coletiva por dignidade. Surge quando comunidades escolhem partilhar em vez de acumular. Quando a compaixão vence o medo. Quando o amor rompe os ciclos de violência.
João 16,20-23a permanece, assim, como uma das mais profundas sínteses da espiritualidade pascal. O Cristo não promete fuga da história, mas presença no interior dela. Não promete ausência de lágrimas, mas transformação das lágrimas em esperança. Não promete vitória triunfalista segundo os critérios do mundo, mas fidelidade amorosa capaz de atravessar a cruz. E talvez seja precisamente essa a grande tarefa espiritual do nosso tempo. Permanecer humanos em meio à brutalidade. Permanecer compassivos em meio ao ódio. Permanecer solidários em meio ao individualismo. Permanecer proféticos em meio à manipulação religiosa. Permanecer discípulos do Ressuscitado quando tantos desejam transformar o Evangelho em instrumento de dominação.
A tristeza dos discípulos se transformará em alegria porque o amor crucificado ressuscitou. E toda vez que alguém escolhe a justiça em vez da violência, a partilha em vez da acumulação, a misericórdia em vez da condenação, essa ressurreição continua acontecendo na história.

Que a Igreja jamais esqueça isso. Que nunca troque o Reino pelo poder. Que nunca transforme o altar em palco de ideologias autoritárias. Que nunca abandone os pobres. Que nunca silencie diante das vítimas da história. Porque o Cristo continua vivo entre os que resistem. Continua ressuscitando nas periferias do mundo. Continua chorando nos crucificados da história e sorrindo nas pequenas vitórias da dignidade humana.
E ninguém poderá tirar essa alegria daqueles que aprenderam a reconhecer o Ressuscitado no rosto dos pobres, dos perseguidos e dos que continuam acreditando, mesmo em meio à noite, que a vida vencerá.

Por isso, mesmo em meio às lágrimas e ao peso das injustiças, seguimos firmes, alimentados por essa promessa: a tristeza se transformará em alegria. Não caminhamos em vão. A cruz que carregamos hoje é semente de ressurreição. A esperança que floresce do chão dos oprimidos é sinal de que o Reino está próximo,   e já desponta entre nós, nas pequenas vitórias do amor, da solidariedade e Que assim seja.... fé que não desiste. 

DNonato – Vigia das alegrias indomáveis do Reino, teólogo do cotidiano, indignado pela justiça e indigente do sagrado.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

A vida é apenas um Jogo.

Senhores e Senhores.
As vezes as coisas acontecem sem você querer e tentam te culpar alegando um monte coisa, que não vale a pena citar.
Não saber perder ou não perceber o quanto ganhamos com nossa escolhas. Sabemos, que alguns ditos vencedores não percebem o quanto perderam e acham que venceram. 
Perde ou ganhar e algo relativo, basta olha a história. Quantos sofreram o martírio em nome de um causa e hoje são proclamados vencedores. Quantos foram aparentemente vencidos e no fim brilhou forte a Justiça do Divino (Adonay, Alá, Jesus de Nazaré ou qualquer outro nome que usamos para nos conectar com o sagrado) 
Não nos sintamos derrotados ou vencidos pelas escolhas de outras pessoas, não nos comportemos como fracassado por não ter tido a opção de optar, não somos os responsáveis pela regra do jogo ou  da escalação do time . 
Contudo, somos vencedores no momento em que decidimos ser felizes e fieis a uma causa e o ideal de uma vida, pois essa é a única riqueza. Não adianta conta no banco ou pegar um empréstimo e comprar uma casa ou carro caro pra se fazer notar por um sociedade consumista e hedonista. Aqueles que são amigos e amigas são por causa de nosso jeito as vezes de moleques, mas com uma responsabilidade de um coração adulto. 

Somos, simplesmente um time neste jogo da vida, que as vezes quebra uma regra e devíamos nos envergonha e não ter coragem de contar, somos nós com alguns poucos amigos, com muitos defeitos. Porém um defeito que não pode ser computado é a falta de carácter e se conquistarmos algo na vida, que não seja pisando ou explorando o suor alheio e jamais construiremos uma amizade ou qualquer tipo relação por simples interesse naquilo que a pessoa poderá nos proporcionar.
Senhores e senhoras somos simplesmente humanos, que ainda deveria ousar sonha e acredita que se hoje não vencemos, amanhã vamos combater de novo e depois de novo, pois esse é jogo da vida e só se se encerra
depois da prorrogação e do apito do juiz apontando o centro do campo, onde tudo teve inicio. Nós não perdemos o jogo, pois ele ainda nem começou e se temos os amigos certos, eles competiram no nosso lugar quando deixarmos o campo. Agora se a amizade é baseada no interesse eles nos deixaram e procuraram outros para se aliar.