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quarta-feira, 25 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX


A ausência que mata?

No dia 20 de junho de 2025, a jovem brasileira Juliana Marins caiu na cratera do vulcão Rinjani, na Indonésia. Ela sobreviveu por quase quatro dias, ferida, sozinha, esperando por ajuda. Lutou porque queria viver. Queria viver com intensidade, amava as montanhas, a natureza e a liberdade. Sua última imagem mostra o rosto de alguém que ainda acreditava — mesmo em meio ao abismo.

A ajuda, no entanto, não chegou a tempo. As decisões foram lentas. A presença falhou. Juliana morreu não porque desistiu da vida, mas porque foi deixada sozinha. Sua morte expõe uma realidade mais ampla: a ausência como prática social naturalizada. A partir dela, precisamos refletir sobre a banalização do abandono em nossa cultura.

Vivemos numa sociedade em que o abandono foi normalizado. Netos não visitam mais seus avós. Pais e mães não têm tempo para seus filhos. Filhos adultos ignoram os pais em nome da autonomia. Há lares emocionalmente desconectados, marcados por silêncios prolongados e afastamentos justificados por agendas ou ressentimentos. Esse distanciamento causa o colapso de vínculos afetivos fundamentais, gerando o que podemos chamar de “morte social”: a sensação de que se está vivo, mas esquecido, ignorado, descartado.

O abandono, portanto, não se restringe ao âmbito privado. Ele é estrutural, cultural e espiritual. Em muitos contextos, quem sofre passa a ser visto como incômodo. Pessoas que expressam dor ou tentam restaurar vínculos são frequentemente taxadas de exageradas. A recusa em dialogar, a desvalorização do cuidado mútuo e o desprezo pelas pequenas presenças revelam uma sociedade doente pela indiferença.

As Escrituras não silenciam diante disso. Os profetas denunciam o abandono como infidelidade à aliança. Jeremias acusa o povo de abandonar a fonte de água viva (Jr 2,13). Isaías mostra um povo que honra com os lábios, mas vive longe de Deus no coração (Is 29,13). Oseias revela o sofrimento divino com a pergunta: “Como posso te abandonar, ó Efraim?” (Os 11,8). Jesus, por sua vez, chorou sobre Jerusalém porque ela recusou o cuidado e a escuta (Lc 13,34).

Na sabedoria dos povos indígenas, a ideia de abandono é inconcebível. Os Guarani falam do teko porã, o bem viver coletivo, onde cada pessoa é parte do equilíbrio de todos. Os Yanomami ensinam que escutar é um ato espiritual e que a dor de um membro afeta o corpo inteiro da comunidade. Ailton Krenak, pensador indígena contemporâneo, alerta que a humanidade está adoecida por não conseguir mais sentir junto com o outro.


Na cosmologia dos Orixás, a ausência tem significado ético. Oxóssi, o caçador, se afasta da aldeia quando a floresta é desrespeitada. Sua ausência é pedagógica: ensina que o sagrado se retira quando os laços são violados. Iansã, senhora dos ventos, também se recolhe diante da mentira. O sagrado, nessas tradições, se retira quando a verdade e o respeito deixam de habitar as relações.

Na tradição greco-romana, o abandono é frequentemente retratado como tragédia. Antígona, Édipo, Medeia — todos são figuras atravessadas por rompimentos e pela incapacidade da cidade de sustentar os vínculos fundamentais. A pietas romana, que exigia fidelidade aos pais, aos deuses e à pátria, mostrava que abandonar era também perder a própria humanidade.

A teologia profética nos alerta que o abandono não é apenas negligência: é idolatria. É preferir o conforto à compaixão, o individualismo ao vínculo, a produtividade ao cuidado. Quando os pequenos são ignorados, o projeto de Deus é traído. Quando o sofrimento é normalizado, a presença divina é banida dos relacionamentos.

Diante disso, precisamos reconhecer que há momentos em que encerrar vínculos é um ato de maturidade. Buscar continuamente quem não quer ser encontrado, insistir onde há apenas indiferença, é tornar-se cúmplice do próprio esvaziamento. Chega o tempo de parar de explicar o óbvio: que o amor exige reciprocidade, e a presença, comprometimento.

Assim como Oxóssi que se retira para proteger o sagrado, como Iansã que recolhe o vento quando a palavra é violada, e como Jesus que se cala diante do desprezo, também nós aprendemos a nos afastar. Não por mágoa, mas por dignidade. Não por desamor, mas por sanidade. Não por derrota, mas por fé.

Quem quiser estar, que esteja de verdade. Quem quiser amar, que apareça com integridade. Quem continua ausente, que aceite perder o lugar que recusou ocupar.

Porque já enterramos demais. E há vivos que continuam respirando, mas vivem sepultados na memória dos que um dia os amaram com verdade, entrega e coragem.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

Vale a pena ler

Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 




segunda-feira, 9 de junho de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIX

 


Entre Razões e Emoções: A teologia do amor que fica

Há músicas que não apenas nos tocam — elas nos despem por dentro. Como espelhos cruéis, revelam histórias que às vezes nem conseguimos colocar em palavras. “Razões e Emoções”, da banda NX Zero, é exatamente uma dessas. Uma oração desesperada de quem amou demais e não foi escolhido. Um grito contido, um apelo em forma de melodia, um amor que não coube no mundo real, mas que explodiu dentro da nossa alma.

“Dizer, o que eu posso dizer, se estou cantando agora pra você ouvir com outra pessoa...”

Essa frase nos corta fundo. O amor foi vivido, foi verdadeiro — mas não foi suficiente. Agora, só sobra a canção. Como se fosse o último respiro desse sentimento que não encontrou espaço. Como se cantar com dor fosse o único jeito de dizer aquilo que ficou preso, sufocado no momento certo.

Vemos histórias assim o tempo todo. Histórias que não acabam porque falta sentimento, mas porque alguém teve que escolher. Escolher entre o que é seguro e o que o coração pedia. O amor estava ali, vivo, pulsante, sincero — mas alguém preferiu voltar atrás. Por medo. Por conveniência. Por não ter coragem para romper com o que já conhece.

Quantas vezes isso acontece com a gente? 

Quantas vezes preferimos a segurança de uma relação que já não dá certo a nos jogar no risco de um amor que exige entrega total?

“É que às vezes acho que não sou o melhor pra você, mas às vezes acho que poderíamos ser o melhor pra nós dois...”

Isso dói demais. Um coração partido entre o medo e a fé. Entre a dúvida sobre nós mesmos e a esperança tola — ou talvez não tão tola assim — de que o amor inteiro poderia mudar tudo. E é justamente aí que mora o drama: quando há amor, mas falta coragem.

Vivemos num tempo em que a intensidade assusta. Nos apaixonamos, mas temos medo do que sentimos. Preferimos ficar em relações mornas do que nos entregarmos a um sentimento que mexe com tudo. Fugimos de um amor grande simplesmente porque não sabemos lidar com a alma exposta, vulnerável.

“Pois Deus não nos deu espírito de medo, mas de poder, amor e equilíbrio.” (2Tm 1,7)

Mas amar de verdade é justamente isso: romper com o confortável, enfrentar o desconhecido. Nem todos aguentam.

Então sobra a espera. Não aquela espera idealizada, romântica, mas uma espera silenciosa, quase involuntária. Uma espera que não está ali para que o outro volte, mas que carrega a ausência como se fosse presença.

“Entre razões e emoções, a saída é fazer valer a pena... se não agora, depois não importa... por você, posso esperar.”

Esse “posso esperar” se repete feito um eco triste dentro do peito de quem ficou. É a forma de dizer “ainda estou aqui”, mesmo quando tudo parece ter se calado.

A verdade é que quem parte nem sempre sai por falta de amor. Muitas vezes, sai porque não sabe amar. Ou porque não acredita que merece ser amado de verdade. E quem fica... fica tentando entender. Fica tentando engolir o silêncio, a ausência, o retrocesso do outro. Fica agarrado a um futuro que foi arrancado. E mesmo assim, mesmo ferido, quem fica sabe: tudo valeu a pena. Porque amou. Porque mergulhou. Porque foi real.

Temos visto gente que volta para antigos lugares não porque quer reencontrar, mas porque tem medo de seguir em frente. Que escolhe o conhecido, mesmo ferido, em vez de se lançar no desconhecido com quem poderia ser a história mais linda da vida. E quando isso acontece, não é só o amor que se frustra. É a esperança que se despedaça.

Mas mesmo diante da dor, da ruptura, da não-escolha, existe algo maior: a dignidade de quem amou de verdade. De quem não se escondeu com medo. De quem esperou o tempo que foi preciso, não para alimentar ilusão, mas porque sabia que sentimentos reais não desaparecem da noite para o dia.

 “A esperança não decepciona...” (Rm 5,5)

Se a história acabou, foi porque o outro não sustentou. Porque o outro voltou atrás. Porque escolheu o mais fácil.

E mesmo com o coração quebrado, seguimos. Não com raiva, não com amargura, mas com gratidão. Porque o amor vivido deixou marcas que nunca se apagam. Porque, mesmo doendo, foi lindo. Porque o que sentimos foi tão grande, tão profundo, que o fim não destruiu — só transformou em memória.

Amores impossíveis existem, sim. Mas o que os torna impossíveis quase nunca são as circunstâncias — são as fragilidades da gente. São as portas que fechamos por medo, as escolhas feitas por covardia. 

 “O amor nunca falha.” (1Cor 13,8)

E no fim, o que sobra é respirar fundo e continuar. Com a alma marcada, sim, mas o coração intacto. Porque amar nunca foi um erro. O erro não é amar — é fugir do amor por medo de viver. Porque amar, mesmo que doa, é um gesto que toca a eternidade.

Por tudo isso, essa música não é só uma canção. É o retrato silencioso do que muita gente vive por dentro. Uma prece cantada por quem ficou esperando, não por fraqueza, mas por fidelidade ao que sentiu. E mesmo que o outro tenha partido, o amor que ficou não morreu. Só mudou de lugar,  porque amar é sempre o primeiro passo para a eternidade que nos espera

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Prof. DNonato — Teólogo do Cotidiano, entre razões e emoções, a dignidade está em termos amado de verdade.

Leia também 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIV


Desde o Éden, quando Adão apontou Eva e Eva a serpente, o gesto de transferir a culpa parece ter se fixado em nosso código existencial. 
Terceirizar a responsabilidade, colocar a culpa no outro por nossas omissões ou leviandades, é um reflexo ancestral. Somos assim: tantas vezes relutantes em reconhecer nossas fragilidades e desvios. Queremos que o outro seja o ser humano perfeito, repleto de qualidades, mas não nos empenhamos em ser esse humano para o outro.
Ansiamos por paz, mas frequentemente oferecemos conflito. Desejamos amor, mas semeamos o rancor. E, mesmo assim, insistimos em afirmar que o defeito está no outro, que ele é o culpado. Exigimos que aceitem nossas imperfeições, enquanto cobramos do outro aquilo que, muitas vezes, não conseguimos oferecer.
Esperamos que o outro seja comoum anjo — sem vontades, sem desejos próprios —, apenas um servo da nossa segurança emocional. No entanto, ser autêntico, dizer “não” a quem se ama, ou indignar-se diante de atitudes injustas, não nos torna inimigos. Pelo contrário: isso é maturidade. É amor que não se acomoda, mas cresce.
Relacionamentos humanos são construídos entre pessoas distintas, com histórias, ideias, dores e alegrias únicas. Muitas vezes, reclamamos do excesso ou da ausência de cuidado do outro, sem perceber que também exageramos ou faltamos. Enfim, somos humanos. E, como tais, temos o direito — e o dever — de buscar caminhos para nossos próprios conflitos. Não é justo cobrar o que não damos, nem esperar que o outro seja uma espécie de “anjo da guarda” que nos acompanha em silêncio, engolindo tudo sem questionar.
Aliás, até os anjos, segundo a tradição religiosa, têm a missão de advertir. Não são bonecos decorativos nem sombras obedientes. Nos alertam sobre escolhas erradas. Mas preferimos não escutar, como se fossem apenas presságios ou intuições vagas.
E aqui vale lembrar: um dia houve um anjo que, fascinado por sua própria beleza e luz, quis ocupar o lugar de Deus. Não suportou ser apenas uma criatura entre outras — desejava ser adorado, desejava que sua vontade fosse absoluta, que sua luz ofuscasse todas as demais. Esse anjo, tomado por orgulho, não queria servir: queria ser servido. Não queria comunhão: queria domínio. E ao tentar impor sua grandeza acima da humildade, transformou a própria luz em sombra, e foi precipitado no abismo que ele mesmo cavou com sua vaidade.
Esse anjo representa mais do que uma figura teológica: ele é o espelho dos nossos egos inflados. Sempre que nos recusamos a reconhecer o outro como legítimo em sua diferença, sempre que exigimos centralidade, aplauso, controle absoluto sobre os afetos e ações alheias, encenamos esse mesmo drama celeste. Tentamos nos tornar “deuses” nos relacionamentos, desejando que o outro orbite ao nosso redor — sem crítica, sem vontade, sem voz. Mas todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.
Enquanto esse anjo caía por tentar subir demais, Cristo, sendo Deus, escolheu descer: esvaziou-se de sua glória (cf. Fl 2,6-8), tomou a forma de servo, e mostrou que a verdadeira grandeza está em se entregar. Amar é descer do trono do ego e sentar-se à mesa da partilha.
Temos o péssimo hábito de querer que o outro se encaixe no nosso ideal, moldando-o com críticas: se é gordo ou magro, solteiro ou casado, religioso ou não. Esquecemos de nos olhar no espelho e avaliar nossas próprias condutas. E não se trata apenas de um espelho de vidro, mas daquele que nos mostra as sombras que escondemos. Quem se recusa a olhar para si vive de projetar no outro aquilo que teme encarar.
Se alguém nos liga, reclamamos; se não liga, também nos queixamos. Se somos cuidados, achamos sufocante; se nos faltam, nos vitimizamos. Até quando viveremos essa gangorra emocional? Quantas vezes exigimos do outro o que nós mesmos não ousamos entregar? Até quando tentaremos ser deuses nos afetos, sem assumir a humildade de simplesmente amar?
Como nas avenidas, em que há tráfego nos dois sentidos, os relacionamentos também são assim: se você oferece amor, receberá amor. Se transmite insegurança e desconfiança, é isso que colherá. Se não aceita os defeitos do outro, também não terá os seus aceitos. Essa é a lei da vida.
Se você permite que todos decidam por você, ignorando os valores que moldaram seu caráter, sua vida poderá parecer exemplar — mas talvez esteja imitando aquele anjo que, em nome da própria virtude, desejou ser mais que Deus. Há um tipo de “virtude” que se disfarça de luz, mas carrega orgulho e controle.
Somos homens e mulheres guiados por emoções, e essas emoções podem nos elevar ou nos arruinar. É isso que nos diferencia dos anjos. Saber conduzir esse turbilhão emocional pode nos tornar mais humanos e, quem sabe, mais próximos do divino.
Amar alguém não deve nos anular, nem nos transformar em zumbis emocionais. Amar é corresponsabilidade: uma troca consciente, constante e real. Quem ama só pode cobrar aquilo que está disposto a oferecer. Se você faz o outro sofrer, inevitavelmente também sofrerá. Se provoca lágrimas, também chorará. A vida é uma via de mão dupla — e a sinalização é feita pelas nossas atitudes.
Os conflitos surgem quando, no meio dessa via, o outro freia bruscamente ou você invade o espaço dele. Não somos imortais, nem anjos, e o conflito emocional constante pode nos matar aos poucos. Morremos emocionalmente — matamos nossos sonhos, nossos desejos, nossa felicidade — e nos tornamos zumbis sociais, reféns das expectativas alheias.
Precisamos de alteridade. Precisamos romper o ciclo da infantilidade — e seguir quem realmente somos, enfrentando nosso orgulho, nossa carência, nossa imaturidade. A felicidade começa quando deixamos de esperar um anjo ao nosso lado e aceitamos o humano que caminha conosco. Ainda é tempo de parar na beira da estrada, rever a rota e seguir mais leves — sem exigir asas do outro, mas oferecendo mãos.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado. “Todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.”

1.       Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XX.

Foto do dia do evento  

Vivemos neste mundo como numa travessia: podemos seguir por caminhos de conforto ou enfrentar o percurso no sacrifício. O que narro abaixo aconteceu num primeiro sábado de janeiro de 2017. Não sou homem de indecisões ou hesitações, e talvez meu maior erro seja esperar dos outros aquilo que levo comigo. Sou um teórico da vida — mas, convenhamos, quem não é? Como não se revoltar?

Meu carro passou uma semana na oficina para consertar o ar-condicionado (confio nos profissionais que cuidaram dele). O problema foi resolvido, e não saiu barato. Contudo, o motor superaqueceu no Arco Metropolitano¹, e não havia sinal algum no painel que indicasse isso. Então você encosta, espera o motor esfriar, completa a água e a ventoinha volta a funcionar — como todo dono de carro velho um dia aprende a fazer. Segue viagem como se o mundo fosse cor-de-rosa. Chegando em casa, verifica tudo de novo… e a ventoinha silencia. A alternativa é chamar o reboque. E foi o que fiz.

A verdade é que cada decisão que tomei, mesmo aquelas que me feriram, foi uma tentativa de continuar. Mas prosseguir exige renúncia. Como dizia aquele verso que me atravessa em silêncio: cada escolha, uma renúncia². E nem todo mundo está disposto a abrir mão — nem do outro, nem de si. E o que isso tem a ver com as nossas escolhas? Às vezes, estamos com o motor interno fervendo, e quem está ao nosso lado não percebe — acha que está tudo bem. Então você para, tenta esfriar, segue viagem sem acionar o socorro… e quando enfim alcança o destino, o estrago já foi feito. Talvez sem conserto. (No meu caso, foi uma viagem curta — havia solução. Minha “Lindinha”, como chamo o carro, sobreviveu.)

As  vezes, os sinais estão todos acesos, mas a gente insiste em continuar. Recusamos parar, sufocamos o incômodo e fingimos normalidade. Fazemos uma jornada desconfortável e, no fim, perdemos tudo. Eu, hoje, escolho frear. Não deixarei meu motor ferver, nem abrirei mão da minha paz por situações que não têm volta. Com a convicção de que não há destino, sigo leve, sem as inseguranças alheias e a dor do que nunca se realizará.

Há dias em que o peito parece conversar com um velho samba triste. E eu escuto, mesmo sem querer, aquele conselho murmurado entre amargura e lucidez: ah, se soubessem o que eu sei... talvez não fossem ao inferno em busca de luz³. Porque há sofrimentos que não desejo a ninguém. E há amores que, se voltassem, eu deixaria passar. Somos teóricos, sim. Mas a teoria, quando se mistura ao barro da estrada, não é fuga — é bússola. Ela amplia o olhar, abre a mente às possibilidades. E, às vezes, a possibilidade é essa: ser ou não ser feliz?

E quando penso em tudo o que caminhei até aqui, nos silêncios que suportei, vem uma melodia antiga que me acompanha sem pedir licença: ninguém sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui⁴. E não sabem mesmo. O mundo aplaude a chegada, mas ignora os tropeços, os atalhos, os dias escuros em que a gente só queria frear. Talvez este texto seja isso: um ponto de parada. Um respiro na beira da estrada. Um lembrete para quem insiste em acelerar com o coração sobreaquecido. Eu escolho não seguir por seguir. Escolho cuidar, frear, se for preciso, até recomeçar com leveza.

Leia tambèm:  A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.

DNonato – Teólogo do cotidiano,Graduado em História


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¹ Arco Metropolitano – Estrada que liga municípios da Baixada Fluminense, como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Japeri, ao Porto de Itaguaí. Conecta-se à antiga Rio-Santos e à Rodovia Presidente Dutra. Inaugurada há menos de 15 anos, carrega hoje um histórico de abandono e insegurança.

² Trecho de "Só os Loucos Sabem", da banda Charlie Brown Jr. (2010), música que traduz os conflitos entre razão e emoção.

³ Verso de "Esses Moços (Pobres Moços)", samba de Lupicínio Rodrigues, composto como conselho amargo a um jovem apaixonado. Uma dor transformada em melodia.

⁴ Linha da canção "A Estrada", da banda Cidade Negra (1994), símbolo de resiliência e superação.

terça-feira, 10 de março de 2015

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XIII

  • O que irradia beleza e luz nos dias mais sombrios.
  • O que dobra a alma ao meio para suportar tanta sensibilidade e força.
  • O que conquista o mundo com uma coragem que não vacila.
  • O que acende o olhar com paixão.
Sinceramente
só desejo que sintas o que me consome. Então saberias como as noites se arrastam, como os dias se tornam tormentos, e quão difícil é simplesmente continuar de pé. Minha indignação — nossa tristeza — tem uma única raiz: a ausência de algo que nos desperte para a vida, que nos arranque deste pesadelo que parece interminável.
Não pedi por isso. E sei que tu também não.
Não precisamos dessa tempestade, tampouco queremos causar ou suportar sofrimento. Perecer sob teu desprezo é punição cruel demais para um homem que já cometeu todos os pecados contra os céus.

Precisamos nos perguntar: 
Qual foi nosso crime? 
Que culpa é essa que nos condena a dias longos e noites arrastadas?

Trabalho, amigos — teus e meus — onde estamos nós nessa lista de prioridades?
Não somos ricos nem miseráveis, mas perdemos nossos valores cada vez que nos afastamos por capricho alheio.
Como entender que alguém que diz:

 “Te amo” também diga “Fique longe”?

Não buscamos momentos passageiros. E não desejamos só intimidade.
Com o que temos, poderíamos comprar isso nas esquinas do mundo.
O que precisamos é de presença — de alguém que reconhece seus erros, pede perdão e sabe amar com o coração inteiro.

Acreditamos numa felicidade que não foge ao sacrifício.
Porque, mesmo em meio à dor, há sempre a esperança de um novo amanhecer.

Santo Agostinho escreveu: “Ama e faze o que quiseres.” Mas que esse amor não seja covarde. Que não ignore o grito do outro.
Que seja inteiro, responsável, atento ao que se viveu — e disposto a continuar, mesmo quando tudo dói.

Esse ideal de felicidade nos foi tirado, e o que restou foi a mágoa.
Mágoa da falta de coragem para assumir o que se sente — algo tão forte, e ao mesmo tempo, tão pouco vivido.
Não queremos beijos e abraços vazios.
Queremos presença. Atenção. Cuidado com aquilo que vivemos e que ainda pulsa em nós.

Menina, se um simples “bom dia” nos sufoca, se um sorriso nos desmonta, será que assumir o que sentimos vai sufocar o que somos um para o outro?

Estamos sendo asfixiados pela ausência do beijo, pela falta daquela presença amiga que nos lembra que não nascemos para a solidão em meio à multidão.

Somos vítimas do destino? Do coração? Das circunstâncias?
Ou de algo que começou quando talvez nem deveria?

Nos afastamos demais. E agora, alguém está sem paraquedas.
Estamos em queda livre, inexoravelmente puxados para o chão.
Precisamos dar as mãos. Nos abraçar. Nos entregar. Conceder à graça a chance de nos salvar.
Acreditar um no outro.
Entender que a vida vai além do que se tem: ela mora no que já fomos — e no que ainda podemos ser.

Não sabemos o que o futuro guarda, mas já provamos o gosto do presente.
Somos o que deveríamos ser ,  como naquela antiga canção dos Engenheiros do Hawaii, quando até as nuvens deixaram de ser de algodão.

Ainda assim, somos a razão de uma graça e de uma alegria — se aceitarmos essa verdade com leveza e coragem. Porque o amor verdadeiro não se esgota. Ele resiste ao tempo, ao orgulho, ao silêncio.
E se ainda arde, mesmo ferido, é porque insiste em nos lembrar que vale a pena. Não desistamos antes de tentar de verdade.
Talvez sejamos, enfim, a resposta que pedimos a Deus nos dias em que a dor parecia invencível.




DNonato – Teólogo do cotidiano, Graduado em História

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XIV

Ontem te vi chorar de novo. Ficamos ali, parados, apenas contemplando o silêncio do teu olhar molhado, tentando dizer, sem palavras, que eu também não sabia onde guardar tanta emoção. Não havia resposta exata, apenas atitude — no encontro dos nossos lábios, no abraço desesperado pedindo um pouco de afeto — para dar algum sentido a essa vida confusa que insiste em nos afastar e nos proibir de sermos, simplesmente, um homem e uma mulher.  Sofrer por amar e não ser amado é algo que todo ser humano experimenta em sua vida em algum momento. Sabemos, em nossos corpos — pra não dizer na alma —, o que carregamos. Somos inteiros divididos em dois mundos. Somos parte da mesma  essência, mas obrigados, por nossas escolhas, a seguir caminhos opostos: eu, rumo à solidão por escolha; você, em direção a uma prisão sem muros.
Entre nós dois não há inocentes. Também não há culpados. Somos o que somos: humanos. Experimentamos um envolvimento de corpos, um encontro por prazer, por desejo de encontrar um instante de felicidade. Nosso sentir, nosso ser, não podem ser reduzidos a uma aventura ou a um fogo em carpela. Somos frágeis — e em nossa fragilidade, um vulcão nos consome.

Esse vulcão nos incendeia, nos toma por inteiro, nos faz sofrer por querermos estar juntos por mais que minutos ou horas. Queremos uma eternidade vivida em um dia — mesmo que isso signifique o fim do mundo amanhã. Na tentativa de evitar esse fim, tu revelas tuas imaturidades, tua “chicha” — e sabes, no fundo, que o que temos é algo mais.

Uma carta de uma amiga me veio à mente:

"Certa vez, tive um sonho de ser feliz. Esse sonho me levou ao encontro de uma pessoa que me fez sentir algo maior que a própria felicidade, por certo tempo. O castelo construído na base de um sentimento real foi se revelando ilusão… e, aos poucos, desmoronou.
"Amo-te há tanto tempo… mas também te odeio, pelas poucas vezes em que trouxeste o sofrimento à tona. No meu coração, na minha vida, só um desejo: Te fazer feliz. Sei que cheguei perto. Naquela loucura vivida, naquela entrega, fui inteira.
"É muito estranho. Destruí meu único refúgio, que era você. Nos tornamos amargos, tristes, e precisamos reconhecer — no brilho dos olhos, no sorriso escondido, nos momentos secretos — que ainda precisamos um do outro, para cessar a dor acumulada de tantas desventuras."

Somos como crianças que não sabem onde esconder o rosto depois de aprontar. Somos imaturos, tolos nas atitudes. Mas, como diz o poeta: 

"É preciso perder um pouco para ganhar o inteiro". 

E tudo que fizeste… foi perder toda a graça que tinhas, por alguns minutos.
Espero te reencontrar… Mesmo destruídos, mesmo sufocados por essa utopia do sentimento. Talvez, nesse reencontro, possamos encontrar um pouco daquilo que perdemos. E tudo que fizeste… foi perder toda a graça que tinhas, por alguns minutos...



Daniel Nonato – Teólogo do cotidiano, P em História

sábado, 19 de janeiro de 2013

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - VI

Quando até a memória se cala

Às vezes, é no fundo de uma gaveta que reencontramos o que fomos. Relíquias esquecidas, memórias que resistem ao tempo — e silêncios que falam mais alto do que palavras. Como o silêncio que envolve a grande serpente que rasteja nas profundezas do mito, quando ela, em sua quietude, traz à tona verdades esquecidas que ainda aguardam a hora de emergir.

No meio das cartas da primeira namorada, dos bilhetes de amigos que o tempo levou, das mensagens de quem jurava nunca partir, o que mais nos surpreende não é o que encontramos — mas quem não encontramos. Sua ausência ali é gritante, como o eco das palavras do profeta que, ao anunciar a desolação, vê a ausência daquilo que um dia foi pleno, mas que foi diluído no vento da desilusão. Sua lembrança foi colocada à parte. Um espaço reservado, onde apenas alguns saberão por que foi necessário isolá-la. Não apagamos o que houve, pois seria desonesto negar. Mas não poderíamos mantê-la entre as relíquias preciosas, pois você escolheu desprezar o que, por um instante, foi sentido como graça.
Havia cansaço. Havia rotina. E de repente, havia sentido. Você o recebeu como dádiva, mas escolheu destruir o que nos sustentava. Hoje, somos julgados por rostos que desconhecem sua verdadeira face. Carregamos na alma uma cicatriz: ela provou a alegria, mas ficou com o amargor da sua inconsequência. Como na mitologia das civilizações antigas, onde os heróis se viam forçados a lutar com monstros que simbolizam as feridas que não podem ser curadas, assim também o tempo transforma a dor em algo que, ao ser encarado, pode se tornar uma chave para a compreensão de um novo ciclo.

Sabemos do seu canto de vitória. Da sua forma de interpretar o jogo. Você acredita que perdemos — e talvez, em termos humanos, tenha razão. Mas há derrotas que redimem. Há cruzes que salvam. Recusar-se a lutar não é sinal de vitória, é medo de perder a si mesmo. Como a lendária jornada do herói que enfrenta suas sombras para finalmente se encontrar, talvez o verdadeiro prêmio resida na travessia que você se recusou a fazer, ainda que o caminho tenha sido longo e tortuoso.

No reencontro de ontem, seus olhos disseram mais do que sua boca ousou admitir. Vimos ali as mágoas que você coleciona, frutos das escolhas que fez sem medir o caminho. Seu olhar hesitou — e nesse instante, soubemos da verdade que a boca não quis dizer. Há dor demais por trás das palavras. E talvez, sem perceber, você esteja presa a decisões que ainda não compreende. Como uma antiga profecia não cumprida, as palavras ficaram suspensas no ar, esperando por um significado que talvez nunca venha.

Não houve gratidão naquele olhar cruzado. Apenas frustração e um cansaço antigo. Poderíamos ter sido mais do que conhecidos — talvez amigos, ou algo mais sereno e bonito. Mas suas decisões ignoraram o arrependimento. Ainda hoje, encontramos em seus lábios as mesmas mentiras de ontem. O erro não é uma sentença, mas uma marca no tecido do tempo que, se bem olhada, pode ser o fio que nos leva ao entendimento. O que falta não é a lembrança do passado, mas a capacidade de transformar o que foi perdido em um novo caminho de reconciliação.
Seja honesta. Saia da sombra dos próprios erros. Busque refazer o que destruiu. O que foi quebrado pode ser consertado, como as antigas alianças que se forjam novamente com um novo metal, mais forte e resistente. E, assim como em muitos mitos, a verdadeira transformação começa quando o herói se dispõe a encarar a verdade, por mais dolorosa que ela seja.

Você tirou quase uma década daqueles que jurava amar. E ainda assim ousa se ver como anjo, quando agiu com frieza. Se isso que carrega no peito é amor, preferimos não imaginar o que seria o ódio. O amor, em sua pureza, não pode ser confundido com egoísmo. Assim como nas histórias de grandes encontros e desencontros, onde o destino dos heróis se entrelaça em um mistério maior, o amor verdadeiro não faz escolhas baseadas na conveniência, mas sim na força da entrega e do respeito mútuo.

Foi isso que vimos ontem: o peso do que foi perdido, e a distância entre quem você é e quem ainda pode ser. Que a verdade — dura, sim, mas libertadora — seja o primeiro passo para aquilo que ainda pode ser restaurado. E que, tal como as fênix que renascem das cinzas, seja na dor do confronto com o passado que a liberdade verdadeira possa nascer.


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DNonato – aquele que você não encontrou nas relíquias, mas que ainda se lembra do que fomos.