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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXV

Quando resolvi interromper a escrita sobre o sentimento, lá em 2018, não foi desistência. Foi um silêncio urgente, pesado — um afastamento necessário para enfrentar emoções que gritavam por dentro, mas que eu ainda não conseguia traduzir em palavras. Era como se algo se rompesse no peito, algo que eu não podia nomear, mas que me exigia recuar para não me perder. Uma fuga com destino — a música. Passei a colocar minha voz em algumas canções no canal do YouTube. (Visite nosso canal) Canções no quadro Caminhos da Tradução que falam daquilo que todos temos, mesmo que não confessemos: frustração.

Frustração por ter acreditado, apostado, lutado por um projeto que não vingou. Mas seguimos. Sempre seguimos. É assim que a vida é. Somos homens e mulheres feitos de emoção — e essa emoção pode nos lançar ao céu ou ao inferno. Isso nos distancia dos anjos. Mas também pode nos tornar divinos, se aprendermos a cavalgar esse turbilhão. Amar alguém não pode nos apagar, não pode nos transformar em zumbis sentimentais.

Amar envolve presença, atitude, corresponsabilidade. E vice-versa.

Como eu disse em 2018, vítimas somos todos. Daquilo que escolhemos, ou daquilo que a vida nos impôs.  Aquele velho ditado:  “quando um não quer, dois não brigam”  talvez precise ser corrigido: quando um não quer, os dois ficam feridos. A briga por amor, ou por puro orgulho, tem empurrado tanta gente para as trevas da solidão...

E às vezes, o caminho da luz está ali, fácil, claro — mas o medo ou o ego não deixam a gente atravessar. Foi nesse tempo que surgiu a canção “All of Me”, de John Legend. Não foi escolha aleatória. Foi pedida com o coração. Com intenção. A letra dizia tudo o que, talvez, já não cabia mais nas conversas.

“Tudo de mim ama tudo em você”, é isso que canta quem se entrega. Quem já foi ao fundo do sentimento e voltou com as mãos cheias. 

Não se trata de um amor perfeito. Muito menos de um amor fácil. É aquele tipo que dá paz e depois bagunça tudo. Que acolhe e depois exige. Que assusta e cura. 

E, sim, infelizmente, o casal que pediu a tradução da canção não ficou junto. Mas a música ficou. A tradução também.

E talvez o amor — esse que não se apaga — ainda esteja por aí, suspenso no tempo, esperando a hora certa.

Porque quando uma canção te traduz, é porque ela te conhece por dentro. E quem se reconhece numa canção, nunca está sozinho. Que não nos falte coragem — a nós, a quem nos lê — de viver um amor de verdade. 

Mesmo que doa. Mesmo que tarde. 

Mesmo que seja preciso recomeçar.

Não deixe de ler: 
Visite a Playlist: Caminhos da Tradução

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIV


Desde o Éden, quando Adão apontou Eva e Eva a serpente, o gesto de transferir a culpa parece ter se fixado em nosso código existencial. 
Terceirizar a responsabilidade, colocar a culpa no outro por nossas omissões ou leviandades, é um reflexo ancestral. Somos assim: tantas vezes relutantes em reconhecer nossas fragilidades e desvios. Queremos que o outro seja o ser humano perfeito, repleto de qualidades, mas não nos empenhamos em ser esse humano para o outro.
Ansiamos por paz, mas frequentemente oferecemos conflito. Desejamos amor, mas semeamos o rancor. E, mesmo assim, insistimos em afirmar que o defeito está no outro, que ele é o culpado. Exigimos que aceitem nossas imperfeições, enquanto cobramos do outro aquilo que, muitas vezes, não conseguimos oferecer.
Esperamos que o outro seja comoum anjo — sem vontades, sem desejos próprios —, apenas um servo da nossa segurança emocional. No entanto, ser autêntico, dizer “não” a quem se ama, ou indignar-se diante de atitudes injustas, não nos torna inimigos. Pelo contrário: isso é maturidade. É amor que não se acomoda, mas cresce.
Relacionamentos humanos são construídos entre pessoas distintas, com histórias, ideias, dores e alegrias únicas. Muitas vezes, reclamamos do excesso ou da ausência de cuidado do outro, sem perceber que também exageramos ou faltamos. Enfim, somos humanos. E, como tais, temos o direito — e o dever — de buscar caminhos para nossos próprios conflitos. Não é justo cobrar o que não damos, nem esperar que o outro seja uma espécie de “anjo da guarda” que nos acompanha em silêncio, engolindo tudo sem questionar.
Aliás, até os anjos, segundo a tradição religiosa, têm a missão de advertir. Não são bonecos decorativos nem sombras obedientes. Nos alertam sobre escolhas erradas. Mas preferimos não escutar, como se fossem apenas presságios ou intuições vagas.
E aqui vale lembrar: um dia houve um anjo que, fascinado por sua própria beleza e luz, quis ocupar o lugar de Deus. Não suportou ser apenas uma criatura entre outras — desejava ser adorado, desejava que sua vontade fosse absoluta, que sua luz ofuscasse todas as demais. Esse anjo, tomado por orgulho, não queria servir: queria ser servido. Não queria comunhão: queria domínio. E ao tentar impor sua grandeza acima da humildade, transformou a própria luz em sombra, e foi precipitado no abismo que ele mesmo cavou com sua vaidade.
Esse anjo representa mais do que uma figura teológica: ele é o espelho dos nossos egos inflados. Sempre que nos recusamos a reconhecer o outro como legítimo em sua diferença, sempre que exigimos centralidade, aplauso, controle absoluto sobre os afetos e ações alheias, encenamos esse mesmo drama celeste. Tentamos nos tornar “deuses” nos relacionamentos, desejando que o outro orbite ao nosso redor — sem crítica, sem vontade, sem voz. Mas todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.
Enquanto esse anjo caía por tentar subir demais, Cristo, sendo Deus, escolheu descer: esvaziou-se de sua glória (cf. Fl 2,6-8), tomou a forma de servo, e mostrou que a verdadeira grandeza está em se entregar. Amar é descer do trono do ego e sentar-se à mesa da partilha.
Temos o péssimo hábito de querer que o outro se encaixe no nosso ideal, moldando-o com críticas: se é gordo ou magro, solteiro ou casado, religioso ou não. Esquecemos de nos olhar no espelho e avaliar nossas próprias condutas. E não se trata apenas de um espelho de vidro, mas daquele que nos mostra as sombras que escondemos. Quem se recusa a olhar para si vive de projetar no outro aquilo que teme encarar.
Se alguém nos liga, reclamamos; se não liga, também nos queixamos. Se somos cuidados, achamos sufocante; se nos faltam, nos vitimizamos. Até quando viveremos essa gangorra emocional? Quantas vezes exigimos do outro o que nós mesmos não ousamos entregar? Até quando tentaremos ser deuses nos afetos, sem assumir a humildade de simplesmente amar?
Como nas avenidas, em que há tráfego nos dois sentidos, os relacionamentos também são assim: se você oferece amor, receberá amor. Se transmite insegurança e desconfiança, é isso que colherá. Se não aceita os defeitos do outro, também não terá os seus aceitos. Essa é a lei da vida.
Se você permite que todos decidam por você, ignorando os valores que moldaram seu caráter, sua vida poderá parecer exemplar — mas talvez esteja imitando aquele anjo que, em nome da própria virtude, desejou ser mais que Deus. Há um tipo de “virtude” que se disfarça de luz, mas carrega orgulho e controle.
Somos homens e mulheres guiados por emoções, e essas emoções podem nos elevar ou nos arruinar. É isso que nos diferencia dos anjos. Saber conduzir esse turbilhão emocional pode nos tornar mais humanos e, quem sabe, mais próximos do divino.
Amar alguém não deve nos anular, nem nos transformar em zumbis emocionais. Amar é corresponsabilidade: uma troca consciente, constante e real. Quem ama só pode cobrar aquilo que está disposto a oferecer. Se você faz o outro sofrer, inevitavelmente também sofrerá. Se provoca lágrimas, também chorará. A vida é uma via de mão dupla — e a sinalização é feita pelas nossas atitudes.
Os conflitos surgem quando, no meio dessa via, o outro freia bruscamente ou você invade o espaço dele. Não somos imortais, nem anjos, e o conflito emocional constante pode nos matar aos poucos. Morremos emocionalmente — matamos nossos sonhos, nossos desejos, nossa felicidade — e nos tornamos zumbis sociais, reféns das expectativas alheias.
Precisamos de alteridade. Precisamos romper o ciclo da infantilidade — e seguir quem realmente somos, enfrentando nosso orgulho, nossa carência, nossa imaturidade. A felicidade começa quando deixamos de esperar um anjo ao nosso lado e aceitamos o humano que caminha conosco. Ainda é tempo de parar na beira da estrada, rever a rota e seguir mais leves — sem exigir asas do outro, mas oferecendo mãos.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado. “Todo ego que se pretende absoluto é, no fundo, um precipício disfarçado de trono.”

1.       Não precisa de uma sequência  para essa leitura, escolha ou faça a sua 

  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
  15. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XV
  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII



terça-feira, 27 de junho de 2017

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXIII



Esses dias, ouvindo um pregador, ele dizia que sabemos o quanto somos amados quando somos perdoados pelas nossas maiores tolices. Aí, recordamos o texto número 21 da nossa trilogia A Questão do Sentimento e o Respeito a Si Mesmo¹
 “Quando não aprendemos que o amor, o sentimento nobre, envolve aceitar o outro como é, como de fato ele se revela — e não uma casca de comportamentos e regras sociais —, quando temos aceitação do outro como um todo, com suas virtudes e defeitos, certamente nos aceitaremos como pessoa humana. Assim, seremos pessoas melhores e, sendo melhores, tocaremos o divino. O sentimento vai envolver todos os sentidos, e o perdão brotará como algo simples e verdadeiro, sendo a maior prova de amor.”²
Aceitar o outro não quer dizer que devemos negar os valores que herdamos de nossa família.
Aceitar o outro é saber que ele é objeto de amor, amado, mas que você também merece um pouco desse amor.
Ouvindo essa canção, recordamos a interrogação que temos no fim de uma relação — sobretudo quando é uma relação que durou 2, 3 anos ou o tempo suficiente para sabermos o quanto valeu a pena o amor.
“O que fazer da vida sem você?” — nos interrogamos, nos perguntamos e nos questionamos: qual foi o nosso maior erro na relação?
Talvez o maior erro na relação tenha sido esperar do outro aquilo que não oferecemos, ou aquilo que demos em excesso. Um cantor diz, em uma canção, que “ser amado em excesso faz tão mal quanto não ser”³
Às vezes, nos preocupamos tanto em provar que amamos, que esquecemos o quanto de nós precisa de nós mesmos.
Somos assim: miramos no externo e esquecemos o interior. E a cegueira de um amor nos leva ao estado de desespero. Com isso, a pergunta de Fernando Mendes[4] fica rodando em nossa cabeça e nos obriga a noites acordadas. O sentimento por si mesmo pode nos levar ao delírio da ausência do eu real.
Sinceramente, sempre esperamos o retorno da pessoa amada, dizendo que aquilo foi um pesadelo — o pesadelo que você viveu. Contudo, antes do outro voltar, esteja pronto para você ser feliz do jeito certo e da forma correta, aceitando seus deslizes e acertos.
Pois, só pode amar alguém quem aprendeu a amar a si mesmo primeiro.
E agora? O que fazemos da vida sem você?⁴
Vamos em frente, conscientes de que fizemos o que foi possível. Se não voltou, é porque não devia ter vindo — ou entrou em nossa vida para nos levar ao deserto ou ao alto-mar.



[1]  Publicado  na sexta-feira, 24 de março de 2017
[2] DNonato
[3] Padre Fabio Melo
[4] Você não me ensinou a te esquecer iinterpretado por  Zé  Valdo e Márcio  Queiroz 

domingo, 13 de novembro de 2016

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XVIII.

Por DNonato¹

Assim que funciona: somos seres criados para a felicidade. Mas, na caminhada, por não possuirmos o dom da vidência, mesmo quando avisados, costumamos duvidar. No peito mora uma emoção que não se explica. Por isso, fazemos escolhas erradas. Somos assim: duvidamos do improvável, do impossível e de tudo mais que brilha aos nossos olhos, revelando, depois, nossas decisões estúpidas.
Olhamos para nossa história e nos lembramos da nossa trilha sonora, embalada por canções que falavam de amor e de uma presença real que nos transformava em duas crianças num corpo de adulto. Sim, um corpo, pois assim sentíamos. Contudo, descobrimos que era preciso crescer. Um de nós brincava de ser feliz na vida do outro. E, quando rezávamos, pedíamos a Deus que fosse feita a Sua vontade, Ele, que habita o eterno e conhece a verdadeira felicidade.
Mas, com uma honestidade que ainda nos confronta, a memória persiste daquele prazer que incendiava a pele, um turbilhão de sensações que por vezes toldava a razão, mas que invariavelmente deixava um eco vazio na alma. Era um fogo que aquecia a superfície, sem jamais alcançar a profundidade do peito, onde um frio constante parecia residir. Experimentamos a vertigem dos encontros fugazes, o arrepio momentâneo do toque, o suspiro breve da satisfação física, mas tudo isso se dissipava como fumaça, sem deixar o calor duradouro de uma conexão genuína. No coração, restava apenas a sensação de incompletude, um espaço oco que a intensidade do corpo jamais conseguiu preencher, como se nos agarrássemos à casca vibrante de um fruto, ignorando a polpa nutritiva que poderia nos saciar de verdade.

E foi nessa mesma priorização do efêmero, nessa recusa em buscar a profundidade, que se firmou a postura daquele que... A pessoa que sempre preferiu, de forma egoísta e radical, as escolhas erradas, nunca esteve disposta a partilhar sua essência, seu ser inteiro. Viveu uma vida ilusória, onde o sentimento não importava. E agora vive na dor dessas mesmas escolhas, guiadas por conselhos de quem jamais experimentou a vida como nós a vivemos.
Diante desse quadro, dessa constatação das escolhas e suas consequências, inevitavelmente nos voltamos para dentro, confrontados por indagações cruciais:
Olhamos tudo isso e nos perguntamos: Será que, em meio aos erros e desilusões, não há também um valor intrínseco naquilo que aprendemos sobre nós mesmos e sobre a natureza humana? Será que a própria experiência, por mais dolorosa que tenha sido em certos momentos, não nos transformou de alguma forma essencial, conferindo um novo significado à pergunta: valeu a pena?

Será que essa nossa sofisticada capacidade de construir intrincados contratos sociais e desenvolver uma lógica racional, que tanto nos orgulha como espécie, ironicamente nos afasta daquela forma mais pura e instintiva de reconhecimento e respeito mútuo que observamos em certas criaturas? Os animais, desprovidos da nossa elaborada teia de intelecto, parecem, em suas interações mais elementares, exibir uma consideração fundamental pelo outro, talvez guiados por uma sabedoria emocional que precede a razão. A nossa "prática de ignorar a pessoa do outro", seja por egoísmo, conveniência ou pela crença em uma superioridade racional, não nos degrada a um nível onde a própria essência da conexão e da empatia se torna turva, colocando-nos, em certos aspectos cruciais do sentir, em uma posição inferior àqueles que vivem desimpedidos pelas armaduras da nossa própria racionalidade?
Por que, quando um animal nos elege para depositar sua lealdade e afeto, a escolha parece emanar de um lugar tão puro, de uma necessidade visceral de conexão e segurança, desprovida de segundas intenções ou cálculos estratégicos? Observamos a fidelidade inabalável de um cão, o ronronar afetuoso de um gato — gestos que parecem brotar de uma sabedoria emocional essencial. Em contraste, nós, seres humanos, com nossa sofisticação intelectual e nossa capacidade de dissimulação, tantas vezes maculamos a "arte do sentimento" com egoísmo, manipulação e uma desconcertante incapacidade de manter a mesma coerência e entrega que vemos no reino animal. Será que a simplicidade de suas necessidades emocionais os conduz a escolhas mais autênticas e duradouras, enquanto a complexidade dos nossos desejos nos torna mestres na arte da desumanidade sentimental?

Essas perguntas ecoam em nosso íntimo, expondo as contradições entre nossos anseios mais profundos e as escolhas que, por vezes, fazemos. E talvez seja nessa busca incessante por preencher um vazio, nessa tentativa de encontrar sentido, que acabamos por supervalorizar... Valorizamos o prazer do corpo, o luxo, o poder. Como toda droga, o sentimento tóxico também exige desintoxicação. Não se trata de substituir um amor por outro ou viver a ilusão de uma libertação inexistente. Trata-se de olhar para trás e reconhecer: vivemos, erramos, sentimos. Foi real. E sim, valeu a pena.

  • Por que não nos perdoamos pelos erros?
  • Por que não celebramos os acertos?
  • Por que não conseguimos viver o hoje?
São perguntas que nos fazemos todos os dias ao levantar e ao deitar. Elas nos consomem por dentro. Mas a resposta é simples: ainda somos aquela criança com medo do escuro, com medo do futuro, esquecidos de que a oração termina com a súplica: “Livrai-nos do mal”. E Deus, que habita o eterno, cuida de cada um de nós de forma especial.
E então, como na canção "Pais e Filhos"², misturamos fé e dor, tocamos o sagrado com mãos profanas. Como Judas³, que entregou com um beijo aquele a quem dizia amar. Como os gladiadores⁴, como William Wallace⁵, como Jesus⁶ — derrotados aos olhos do mundo, mas símbolos eternos de coragem, fé e sacrifício.

Na sombra dos nossos desejos, há também o eco do prazer erótico, intenso, muitas vezes egoísta, que nos expôs como em uma confissão íntima. Santo Agostinho⁷ já dizia: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova...”, e em nós, essa beleza do sentir também chegou tarde, marcada por cicatrizes.
O amor, como nos ensinou Paulo⁸, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta — mas isso exige maturidade, exige alma. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos... se não tivesse amor, nada seria.”
E como em "Monte Castelo"⁹, carregamos as palavras da Bíblia na boca e as contradições no peito. Somos esse amálgama de fé e instinto, de oração e gozo, de carne e eternidade.


Vivemos também os nossos amores impossíveis, como o Super-Homem¹⁰, dividido entre Lana Lang e Lois Lane — uma história entre o que se deseja e o que se pode ter. Amores que parecem inalcançáveis desde a origem. E como ele, passamos a vida tentando salvar os outros, enquanto sufocamos o que sentimos.

Somos, no fundo, esse paradoxo entre Ícaro¹¹ e a Fênix¹². Provamos o sabor do voo, aquele êxtase de quem se entrega sem medir altura, sem temer o sol. Mas há sempre um despertar na queda — o momento em que as asas derretem e nos confrontamos com o chão da realidade.

E renascer... ah, renascer é mais difícil do que cair. Exige silêncio, humildade e o autoperdão das escolhas que fizemos ou que deixamos fazer por nós. Mas só quem aceita as cinzas consegue, um dia, novamente, arder.
E mesmo quando rezamos, mesmo na introspecção mais sincera, sentimos aquela dívida da saudade: o que nos consumiu ainda queima dentro, como se o tempo não fosse capaz de apagar totalmente o cheiro da antiga chama.
Porque só quem já caiu experimentou o gosto acre da trama no impacto com o chão. Só quem já se consumiu inteiro pode renascer com verdade. E só quem renasce com verdade é capaz de, enfim, viver o carpe diem¹³ — não como fuga, mas como fé. Fé no agora. Fé em si. Fé no eterno que nos reconstrói

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¹ DNonato: Teólogo do cotidiano | Historiador de vivências, Padre sem ordem / sem batina, sacerdote pelo batismo. Foi soldado de saúde, enfermeiro e padioleiro. Fala duro, mas seu coração é frágil e ferido, com asas de cera e em reconstrução no voo da vida.
² Pais e Filhos – Canção da Legião Urbana que fala sobre relações familiares, incompreensão, perdas e suicídio.
³ Judas Iscariotes – Um dos doze apóstolos de Jesus, que o traiu com um beijo por trinta moedas de prata.
⁴ Gladiadores – Escravos ou homens livres que lutavam entre si ou contra feras no Coliseu romano, muitas vezes em nome de um espetáculo brutal.
⁵ William Wallace – Líder escocês do século XIII que lutou contra a dominação inglesa. Traído e executado, tornou-se símbolo da liberdade.
⁶ Jesus Cristo – Figura central do Cristianismo, condenado à morte, traído e crucificado; para os cristãos, sua morte e ressurreição redimem a humanidade.
⁷ Santo Agostinho – Teólogo e filósofo cristão do século IV. Em suas “Confissões”, expressa seu amor tardio por Deus e a beleza da fé.
⁸ 1 Coríntios 13 – Trecho bíblico conhecido como “Hino ao Amor”, escrito por São Paulo aos coríntios.
⁹ Monte Castelo – Canção da Legião Urbana que mistura Coríntios 13 e o poema “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes.
¹⁰ Super-Homem – Herói dos quadrinhos dividido entre o amor por Lana Lang (passado) e Lois Lane (presente). Seu dilema amoroso representa o embate entre destino e desejo.
¹¹ Ícaro – Personagem da mitologia grega que tentou voar com asas feitas de cera e penas. Ao se aproximar demais do sol, suas asas derreteram e ele caiu.
¹² Fênix – Ave mítica que, ao morrer queimada, renasce das próprias cinzas; símbolo de renovação.
¹³ Carpe diem – Expressão latina que significa “aproveite o dia”, celebrando a urgência e plenitude do agora.