- A Igreja escuta primeiro a voz de Jó, ferido, incompreendido e quase esmagado pela existência, que, apesar de tudo, proclama sua esperança no Redentor.
- Escuta o salmista afirmar que o Senhor é luz, salvação e fortaleza
E finalmente encontra Jesus enviando discípulos para levar paz, cuidado e anúncio às cidades e casas e texto do Evangelho também é proclamado no 14⁰ Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Lucas 10,1-12.17-20 também é proclamado na festa de alguns Apóstolos. Jesus não envia seus discípulos para conquistar territórios religiosos, controlar consciências ou construir prestígio institucional, mas para caminhar entre pessoas concretas, anunciar a proximidade do Reino, curar feridas e testemunhar uma paz que nasce de Deus.
Lucas apresenta esse envio depois de uma decisão fundamental de Jesus: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51) logo após o chamado do evangelho proclamado no dia anterior Lucas 9, 57-62 . Essa informação é decisiva para a hermenêutica da passagem. O caminho dos discípulos nasce do caminho do próprio Cristo. Eles não inventam a missão; participam de uma missão que já está em movimento. Jesus havia enviado os Doze em Lucas 9,1-6, concedendo-lhes autoridade sobre demônios e enfermidades e enviando-os para proclamar o Reino de Deus. Agora, em Lucas 10, amplia o círculo e envia outros discípulos, dois a dois, diante dele, para toda cidade e lugar onde ele próprio deveria ir. O Evangelho revela assim que a missão não é privilégio de uma pequena elite religiosa. O anúncio do Reino exige uma comunidade inteira mobilizada. A Igreja não existe para contemplar a própria imagem, mas para preparar caminhos para aquele que vem.
O número dos enviados aparece como setenta em alguns manuscritos e setenta e dois em outros. A diferença textual não altera o núcleo da narrativa, mas a amplitude simbólica permanece importante. A tradição bíblica conhece setenta anciãos associados a Moisés em Números 11,16-25 e apresenta em Gênesis 10 uma relação das nações que compõem o horizonte humano conhecido pela tradição israelita. Lucas parece ampliar simbolicamente o horizonte missionário. O Evangelho não está destinado a um pequeno grupo fechado. A promessa feita a Abraão de que todas as famílias da terra seriam alcançadas pela bênção (Gn 12,3) começa a ganhar dimensão missionária. Isaías havia contemplado povos caminhando para a luz de Deus (Is 2,2-4; 60,1-3), e Jesus agora envia discípulos para atravessar cidades, fronteiras sociais e ambientes culturais. O Reino não se fecha dentro de uma fronteira religiosa.
Entretanto, antes de falar sobre métodos missionários, Jesus apresenta uma realidade inquietante: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2). A imagem agrícola possui profunda densidade bíblica. A colheita pode representar o tempo do julgamento, como em Joel 4,13, mas também pode expressar a reunião dos frutos amadurecidos pela ação de Deus. Jesus percebe diante de si uma humanidade sedenta de sentido. O problema não é ausência de pessoas procurando vida, mas escassez de trabalhadores dispostos a servir. Por isso, a primeira orientação é oração: “Pedi ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita”. O sujeito último da missão continua sendo Deus. Nenhum pregador é dono do Evangelho. Nenhum sacerdote, bispo, líder religioso ou comunidade pode apropriar-se do Reino como propriedade particular. A Igreja administra um mistério que não lhe pertence.
Depois vem uma imagem desconcertante: “Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3). Jesus não promete segurança institucional, domínio cultural ou triunfo político. O discípulo é enviado vulnerável. Essa vulnerabilidade não significa covardia diante da injustiça, mas rejeição da lógica predatória. O cordeiro não se transforma em lobo para cumprir sua missão. A Igreja perde sua identidade quando combate a violência reproduzindo a violência, quando responde ao ódio com outro ódio, quando transforma adversários em inimigos absolutos ou quando usa Deus para justificar agressões. Jesus já havia repreendido a tentativa de recorrer à espada em sua defesa (Mt 26,52) e afirmado diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), não significando que seu Reino seja indiferente à história, mas que não opera segundo a lógica dos poderes coercitivos. O envio sem bolsa, alforje e sandálias deve ser compreendido dentro da realidade da missão itinerante antiga. Não é uma condenação simplista dos recursos materiais, mas uma pedagogia da dependência. O discípulo não chega como conquistador. Ele precisa receber hospitalidade. Precisa sentar-se à mesa. Precisa ouvir. Precisa aceitar a vulnerabilidade de depender do outro. Isso é teologicamente profundo porque impede que a missão se transforme em exercício de superioridade. Quem anuncia também precisa receber. Quem evangeliza também precisa ser evangelizado pela realidade encontrada. A hospitalidade torna-se espaço de encontro. Em Lucas, a mesa possui enorme importância teológica:
- Jesus come com pecadores (Lc 5,29-32)
- Aceita hospitalidade de Marta e Maria (Lc 10,38-42)
- Entra na casa de Zaqueu (Lc 19,1-10)
- Depois da ressurreição, torna-se reconhecido no partir do pão (Lc 24,30-35).
O Reino chega também através de uma mesa compartilhada. O primeiro anúncio dentro da casa é “Paz a esta casa” (Lc 10,5). Não se trata de uma fórmula superficial. O conceito bíblico de shalom envolve integridade, reconciliação, segurança, justiça e vida em plenitude. O discípulo chega oferecendo paz, não medo. Essa palavra confronta uma religiosidade baseada na ameaça permanente, na manipulação da culpa e na exploração da fragilidade humana. Jeremias denuncia profetas que proclamavam “paz, paz” quando não havia paz (Jr 6,14). Isaías ensina que o jejum agradável a Deus envolve romper as cadeias da injustiça, repartir o pão com o faminto e acolher o necessitado (Is 58,6-8). Tiago afirma que desejar paz a quem está faminto sem oferecer alimento é uma fé morta (Tg 2,15-17). A paz cristã nunca pode ser utilizada para esconder estruturas que produzem sofrimento.
Por isso Jesus acrescenta: “Curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo” (Lc 10,9). Palavra e ação permanecem inseparáveis. O anúncio do Reino precisa tocar a vida concreta. Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão mediante a linguagem de Isaías: boa notícia aos pobres, libertação aos cativos, recuperação da vista e liberdade aos oprimidos. Em Lucas 7,22, as curas e o anúncio aos pobres aparecem como sinais da ação messiânica. A evangelização, portanto, não pode ser reduzida à transmissão de fórmulas religiosas. Se o Evangelho é anunciado, mas os vulneráveis continuam abandonados, alguma coisa essencial foi perdida. A cura bíblica também possui dimensão social: reintegrar pessoas excluídas, devolver dignidade, romper estigmas e permitir que alguém volte a participar da comunidade.
Hoje ainda existem milhões de pessoas cercadas por comunicação e, ao mesmo tempo, mergulhadas em solidão. Existem famílias destruídas pela violência, trabalhadores submetidos à precarização, populações empurradas para as margens urbanas, crianças expostas à fome e à violência, idosos esquecidos, migrantes tratados como ameaça, jovens atravessados por ansiedade e crise de sentido. Há sociedades tecnologicamente avançadas que continuam incapazes de distribuir dignidade. Existe riqueza suficiente para alimentar multidões, mas permanecem pessoas sem o necessário. O problema contemporâneo não é simplesmente escassez; frequentemente é concentração, indiferença e incapacidade política e social de colocar a vida acima da acumulação. Lucas 10 pergunta à Igreja onde estão seus pés diante dessas feridas. .Jesus não envia os discípulos para conquistar consciências, fabricar dependentes ou controlar votos. A missão cristã não pode confundir evangelização com propaganda ideológica. A consciência humana possui dignidade diante de Deus. Jesus chama, ensina, confronta e convida, mas não cria uma espiritualidade baseada na coerção. Em João 8,11, diante da mulher acusada, ele não banaliza o pecado, mas também não permite que a pessoa seja reduzida à sua culpa. Em Marcos 10,42-45, contrapõe a lógica do Reino à lógica dos governantes que dominam os povos: entre os discípulos, quem quiser ser grande deve servir. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço, não na capacidade de controlar.
Quando uma cidade rejeita os enviados, Jesus ordena que sacudam o pó dos pés e continuem. Esse gesto possui dimensão profética. O discípulo não controla a liberdade de quem escuta. A missão inclui a possibilidade da recusa. A Igreja precisa recuperar essa liberdade porque uma fé que necessita de coerção já perdeu a confiança na força da Palavra. Ezequiel é enviado a uma casa rebelde e Deus lhe diz que, quer ouçam, quer deixem de ouvir, saberão que houve profeta entre eles (Ez 2,5). Paulo e Barnabé, em Atos 13,46-51, diante da rejeição, seguem adiante. O Evangelho não depende da aprovação universal. A verdade não precisa ser imposta para ser verdadeira.
A advertência sobre Sodoma, em Lucas 10,12, tampouco pode ser usada como instrumento de maldição contra adversários. Sodoma tornou-se símbolo bíblico de corrupção e violência, mas Ezequiel oferece uma interpretação particularmente importante: “Eis qual foi a culpa de Sodoma: orgulho, fartura de pão e despreocupada tranquilidade, mas não amparava o pobre e o necessitado” (Ez 16,49). A denúncia profética revela que o pecado não está somente em atos individuais, mas também em estruturas de indiferença. Uma sociedade que possui abundância e permite que pessoas sejam descartadas precisa escutar novamente essa palavra. A fé não pode ser uma cortina colocada diante da desigualdade.
É nesse ponto que a primeira leitura de Jó ilumina profundamente o Evangelho. Jó pergunta por que seus amigos o tratam como culpado quando ele está sofrendo e clama: “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25). O sofrimento humano não é automaticamente prova de culpa. Essa afirmação precisa ser ouvida numa sociedade que frequentemente responsabiliza a vítima por sua própria dor.
- O pobre é acusado de não ter se esforçado
- O dependente é reduzido ao vício
- A mulher violentada é interrogada sobre sua conduta
- O desempregado é culpabilizado por sua situação
- O doente é julgado moralmente.
Jó rompe essa lógica. O sofrimento exige proximidade, não acusação. E Lucas 10 envia discípulos justamente para lugares onde pessoas precisam encontrar paz, cuidado e esperança. O Salmo proclamado nesse contexto recorda que o Senhor é luz, salvação e fortaleza. A fé bíblica não nega a escuridão; atravessa-a. O discípulo não é enviado porque possui todas as respostas, mas porque recebeu uma esperança que precisa tornar-se serviço. A comunidade cristã deve ser lugar onde a pessoa ferida possa respirar novamente, onde a verdade não seja usada para esmagar, onde a correção não destrua a dignidade e onde a misericórdia não seja confundida com permissividade. A profecia cristã denuncia o pecado justamente porque acredita na possibilidade de conversão.
A passagem, portanto, não oferece somente um programa missionário. Ela apresenta uma antropologia espiritual, o ser humano precisa de sentido, vínculo, reconhecimento, esperança e justiça. Uma Igreja que oferece apenas respostas religiosas prontas, sem escutar a experiência humana, corre o risco de produzir dependência em vez de maturidade. O discípulo entra na casa, escuta, recebe hospitalidade, anuncia, cura e parte e não ocupa a casa. Não se torna proprietário da consciência alheia. Essa imagem deveria provocar profundo exame de consciência nas comunidades cristãs. Ministro ordenado é pastor, não proprietário. Líder religioso é servidor, não soberano. Comunidade é lugar de comunhão, não comitê de interesses. A autoridade cristã só permanece evangélica quando se deixa julgar pelo Cristo servidor.
O Reino de Deus está próximo. Essa frase não aponta simplesmente para um acontecimento futuro. O Reino começa a aparecer quando a realidade humana é tocada pela justiça de Deus. Aproxima-se quando uma criança deixa de passar fome, quando uma vítima encontra proteção, quando uma família encontra reconciliação, quando um trabalhador recebe dignidade, quando alguém discriminado recupera sua voz, quando uma comunidade rompe com o racismo, quando uma liderança abandona a vaidade, quando uma religião deixa de manipular e começa a formar consciências livres, responsáveis e solidárias. O Reino aproxima-se quando a misericórdia se torna prática. Mateus 25,31-46 mostra que o encontro com o necessitado possui dimensão escatológica. Não existe neutralidade diante da fome, da violência e da humilhação humana. Por isso Lucas 10 permanece uma palavra incômoda. Jesus continua caminhando à frente, e os discípulos precisam caminhar atrás dele. A Igreja não é chamada a ocupar o lugar de Cristo, mas a preparar seus caminhos. Somos enviados como cordeiros, não como lobos; como servidores, não como dominadores; como hóspedes, não como proprietários; como testemunhas, não como donos da verdade. O mundo continua sendo uma grande colheita, marcada por sofrimento e esperança. Há casas esperando paz, pessoas esperando cuidado, consciências procurando sentido e sociedades necessitando de justiça. A pergunta decisiva não é quantas pessoas frequentam nossos templos, mas que transformação acontece porque o Evangelho passou por nossas vidas. Que o Senhor da colheita nos livre da religião vazia, da vaidade espiritual, da manipulação e da indiferença.
Que Jesus nos envie.e nos conceda coragem profética para denunciar aquilo que destrói a dignidade humana e também nos conceda a humildade suficiente para reconhecer nossas próprias contradições. E que, caminhando com Jesus, possamos entrar nas estradas de nosso tempo anunciando não uma religião de medo, mas a Boa Nova que cura, reconcilia, liberta e devolve esperança: o Reino de Deus está próximo.
DNonato - Teólogo do Cotidiano





