sábado, 3 de outubro de 2026

 
No 27º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana nos coloca diante de quatro textos que formam uma única grande meditação: Isaías 5,1-7, o Salmo 79(80), Filipenses 4,6-9 e Mateus 21,33-43.

  •  Isaías 5,1-7:  apresenta Deus como aquele que planta uma vinha, cuida dela com dedicação e espera justiça, mas encontra violência
  • O salmo 79(80) transforma a imagem da vinha em oração, pedindo que Deus visite e restaure sua plantação
  •  Paulo, em Filipenses 4,6-9, convida a comunidade a cultivar aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e digno de louvor, colocando em prática aquilo que recebeu.
Jesus em Mateus 21,33-43 retoma a mesma imagem para denunciar administradores que esqueceram que a vinha não lhes pertencia. A mesma parábola, acrescida dos versículos 45-46, é proclamada na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, quando adquire especial força penitencial e chama à conversão diante da resistência humana à Palavra. A liturgia, portanto, nos coloca diante de uma pergunta que ultrapassa épocas, instituições e confissões: Que frutos Deus encontra na vinha que colocou em nossas mãos?

Para compreender a força dessa pergunta, é necessário entrar no contexto narrativo de Mateus. Jesus está em Jerusalém, aproximando-se decisivamente da paixão. Sua entrada na cidade acontece montado num jumento, evocando Zacarias 9,9 e apresentando um Messias diferente dos modelos de poder dominador. Ele não chega com cavalaria, armas ou aparato imperial. Chega com a humildade de quem revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica dos impérios. Em seguida, entra no templo e expulsa vendedores e cambistas, retomando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. O gesto é profundamente profético porque denuncia a transformação de um espaço destinado à oração em lugar contaminado por interesses econômicos e religiosos. Jesus cura cegos e coxos, acolhe o louvor das crianças e, depois, enfrenta os sumos sacerdotes e os anciãos, que perguntam de onde vem sua autoridade, conforme Mateus 21,23. É dentro desse conflito que aparecem três parábolas decisivas. 

Existe uma progressão evidente: Jesus está desmascarando uma religião que pode possuir linguagem correta, estruturas sólidas e aparência de fidelidade, mas que se torna incapaz de reconhecer a visita de Deus quando ela exige justiça, misericórdia e conversão. O  pré-texto fundamental dessa parábola está em Isaías 5,1-7. O profeta apresenta um cântico de amor à vinha. Deus escolhe uma encosta fértil, remove as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo está preparado para a produção de bons frutos. Porém, quando chega a colheita, aparecem uvas ruins. A própria vinha se torna objeto de julgamento. Isaías explica a metáfora: a vinha do Senhor é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu gritos. A imagem é poderosa porque revela que Deus não olha apenas para o culto, para a identidade religiosa ou para a aparência da comunidade. Ele olha para os frutos sociais da aliança. A pergunta não é somente se Israel pertence a Deus, mas o que essa pertença produz na história. Jesus retoma quase todos os elementos de Isaías em Mateus 21,33: o proprietário, a vinha, a cerca, o lagar e a torre. Entretanto, introduz uma mudança decisiva. O problema já não aparece apenas como esterilidade da vinha. Agora existem arrendatários encarregados de administrar aquilo que pertence ao proprietário. A crítica desloca-se para a responsabilidade daqueles que receberam uma missão e passaram a comportar-se como donos. Essa diferença é fundamental. A parábola não é apenas sobre uma plantação que não produz; é sobre o perigo de transformar responsabilidade em posse.

Se faz necessário  lembrar  que a Judeia do primeiro século estava submetida ao poder romano e marcada por tributação, desigualdade econômica, concentração de terras e relações sociais profundamente assimétricas. Uma vinha não era uma imagem abstrata, representava terra, trabalho, produção, riqueza, tributo, alimento e sobrevivência. Os ouvintes de Jesus conheciam a realidade dos arrendamentos e das relações entre proprietários e trabalhadores. A narrativa dos vinhateiros que recusam entregar a produção, violentam os enviados e finalmente assassinam o filho possui, portanto, uma dimensão social evidente. Entretanto, Jesus vai além de uma crítica econômica circunstancial. A parábola revela uma dinâmica  daquilo que recebemos como dom e pode transformar-se lentamente em objeto de posse. 

  1. Primeiro dizemos que cuidamos.
  2.  Depois começamos a dizer que é nosso 
  3. finalmente passamos a defender essa suposta propriedade contra qualquer pessoa que nos recorde que somos apenas administradores. 

Esse processo pode acontecer dentro de uma família, de uma empresa, de um partido político, de uma instituição pública, de uma comunidade religiosa ou de uma estrutura social. O pecado começa quando o servidor esquece que serve. A autoridade deixa de ser responsabilidade e transforma-se em privilégio. A função passa a valer mais que a pessoa. A instituição começa a defender sua própria sobrevivência em vez de proteger aqueles para os quais deveria existir.

A vinha possui uma riqueza simbólica extraordinária. Dentro da tradição bíblica, ela representa Israel, o povo amado e escolhido, mas a própria narrativa permite compreender a vinha como imagem da realidade confiada à responsabilidade humana. A cerca indica cuidado e proteção. O lagar aponta para a colheita e para a transformação dos frutos em vinho. A torre recorda vigilância. Nada foi improvisado. O proprietário preparou tudo com atenção. Depois, confiou a vinha aos arrendatários. Existe nessa atitude uma pedagogia da liberdade. Deus confia. Ele não transforma o ser humano em marionete. A liberdade é um dom, mas também uma responsabilidade. O tempo em que o proprietário não aparece diretamente não significa que Deus tenha abandonado a vinha. Significa que os administradores precisam demonstrar o que farão com aquilo que receberam. Salmo 24,1 proclama que a terra pertence ao Senhor e tudo o que nela existe. Salmo 115,16 afirma que os céus pertencem ao Senhor, enquanto a terra foi confiada aos seres humanos. A Bíblia não apresenta a humanidade como proprietária absoluta da criação, mas como responsável por ela. Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. A crise ecológica contemporânea pode ser lida também como crise espiritual porque revela uma civilização que frequentemente confunde administração com posse. Quando rios são tratados apenas como recursos, florestas como mercadorias e territórios como objetos de exploração ilimitada, repetimos a lógica dos vinhateiros. Esquecemos que a vinha tem dono.

Os servos enviados pelo proprietário evocam a longa tradição profética de Israel. Deus não abandona seu povo à própria lógica. Ele envia pessoas capazes de interpretar a realidade à luz da aliança. 

  • Jeremias conhece perseguição, prisão e violência, conforme Jeremias 38. 
  • Amós enfrenta Amazias em Betel depois de denunciar a injustiça, como registra Amós 7,10-17. 
  • Zacarias é morto no templo, segundo 2Crônicas 24,20-22.
 Jesus posteriormente lamentará sobre Jerusalém porque ela mata os profetas e apedreja os enviados, conforme Mateus 23,37. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros. É alguém que olha para o presente diante de Deus e denuncia aquilo que a sociedade normalizou. Isaías 1,17 ordena buscar a justiça, defender o oprimido, fazer justiça ao órfão e defender a causa da viúva. 

  • Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como rio permanente. 
  • Miquéias 6,8 pergunta o que Deus espera do ser humano e responde: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O profeta incomoda porque não permite que a religião se esconda atrás de cerimônias. Uma comunidade pode cantar, rezar e possuir magníficas estruturas religiosas e, ainda assim, produzir frutos de injustiça. A pergunta profética atravessa a aparência e procura a verdade da vida.

Por isso, uma religião que não suporta a crítica profética corre o risco de construir mecanismos para proteger suas próprias estruturas contra Deus. O profeta não é inimigo da fé; é precisamente porque leva Deus a sério que denuncia sua falsificação. A voz profética incomoda quando o culto não corresponde à vida, quando a doutrina é usada para justificar privilégios, quando a tradição serve para preservar interesses ou quando a autoridade se torna mecanismo de silenciamento. Jesus está dentro da tradição profética de Israel. Sua crítica aos líderes religiosos não é uma rejeição do povo judeu nem uma condenação de Israel como povo. Ele próprio é judeu, seus discípulos são judeus, os profetas são parte da história de Israel e a primeira comunidade cristã nasce dentro dessa tradição. A parábola deve ser lida como  à infidelidade de determinadas lideranças, e não como fundamento para hostilidade contra os judeus. Mateus 21,45-46 mostra que os chefes dos sacerdotes e os fariseus percebem que Jesus falava deles. A responsabilidade é direcionada a agentes concretos. Mais tarde, Paulo advertirá os cristãos de origem gentílica contra qualquer soberba diante de Israel em Romanos 11,17-21. A salvação não autoriza arrogância. A Igreja também pode tornar-se infiel. A parábola não oferece aos cristãos um lugar permanente de superioridade, mas coloca diante deles um espelho. O ponto culminante aparece quando o proprietário envia o filho. Mateus 21,37 apresenta uma expectativa quase surpreendente: eles respeitarão meu filho. No conjunto do Evangelho, o Filho possui identidade cristológica decisiva, que:  

  • No batismo, Mateus 3,17 apresenta Jesus como Filho amado. 
  • Na transfiguração, Mateus 17,5 confirma essa identidade e acrescenta uma ordem: escutai-o. 
  • Agora o Filho é enviado à vinha. Os arrendatários reconhecem o herdeiro e decidem eliminá-lo para tomar sua herança. 
A lógica é terrível porque revela que a violência não nasce simplesmente de desconhecimento. Eles sabem quem ele é e, justamente por isso, percebem nele uma ameaça aos seus interesses. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma disputa abstrata de opiniões religiosas. Sua presença questiona uma determinada maneira de exercer poder. Ele cura, acolhe pecadores, aproxima-se dos marginalizados, denuncia hipocrisias, coloca a misericórdia acima do legalismo e proclama um Reino no qual os últimos podem tornar-se primeiros. Sua autoridade não se sustenta pela violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus contrasta a dominação dos governantes com a lógica do discipulado: entre seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. João 10,10 apresenta o critério do bom pastor: sua presença deve produzir vida abundante. A verdadeira autoridade cristã não é medida pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vida que floresce sob seu cuidado. É nesse ponto que a crítica ao clericalismo encontra seu lugar mais profundo. O problema não está na existência de presbíteros, bispos, ministérios, lideranças ou estruturas. A comunidade cristã necessita de responsabilidades e serviços. O problema começa quando o servidor passa a comportar-se como proprietário do povo, da consciência dos outros ou da missão que recebeu. O ministério ordenado existe para servir à comunidade e conduzi-la a Cristo, não para criar dependência psicológica ou espiritual em torno da personalidade de quem exerce a função. Jesus lava os pés dos discípulos em João 13,1-15 e transforma o gesto de um escravo em modelo de liderança. A autoridade cristã deveria possuir o formato da toalha, não o formato do trono. A vinha não pertence ao padre, ao bispo, ao movimento, à pastoral, ao grupo de oração ou ao líder carismático. Pertence a Deus. Essa afirmação é simples, mas profundamente libertadora. Ela impede que o sagrado seja utilizado para construir pequenas monarquias pessoais. Também impede que a fé seja confundida com submissão cega. Atos 5,29 estabelece um limite decisivo: é preciso obedecer a Deus antes que aos homens. A fidelidade cristã não é servilismo. É discernimento responsável diante de Deus.

A reação dos ouvintes revela a inteligência  daqueles ouvem a  parábola. Jesus pergunta o que o proprietário fará e eles mesmos respondem que os maus arrendatários serão destruídos e a vinha entregue a outros que produzam frutos. Sem perceber imediatamente, eles pronunciam julgamento sobre a própria lógica. Algo semelhante acontece em 2Samuel 12,1-7, quando Natã conta a Davi a história do homem rico que toma a única ovelha de um pobre. O rei condena o personagem antes de ouvir a frase decisiva: tu és esse homem. A Palavra de Deus funciona como espelho. Ela nos permite enxergar nos outros aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Por isso seria fácil utilizar a parábola apenas para condenar os líderes religiosos do tempo de Jesus. Mais difícil é permitir que ela atravesse nossas próprias estruturas.

  • Quantas vezes dizemos minha comunidade, meu ministério, minha obra, meu grupo, minha tradição, meu templo, como se o Reino pudesse ser registrado em nosso nome?
  • Quantas vezes confundimos fidelidade ao Evangelho com fidelidade à nossa preferência política, ideológica ou institucional? Quantas vezes protegemos a reputação de uma instituição enquanto ignoramos a dor de alguém ferido por ela? 
A parábola exige uma conversão pessoal, mas também comunitária e institucional. O Evangelho não pede somente indivíduos melhores. Pede estruturas que produzam frutos de justiça. A expressão decisiva de Mateus 21,43 é produzir frutos. Esse tema percorre o Evangelho. João Batista chama à produção de frutos dignos de conversão em Mateus 3,8,  Jesus afirma em Mateus 7,16-20 que a árvore é conhecida pelos frutos e em Mateus 12,33, novamente o fruto revela a qualidade da árvore. 
Agora o Reino é entregue a quem produz seus frutos. O critério de discernimento não é aparência religiosa, discurso correto, quantidade de seguidores ou posição social. É fecundidade. Uma fé que produz ódio precisa ser examinada. Uma espiritualidade que alimenta desprezo pelos pobres contradiz o Evangelho. Uma religião que legitima violência, mentira ou desumanização precisa ouvir novamente os profetas. Uma comunidade que possui grande discurso sobre Deus, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, corre o risco de produzir folhas sem frutos. Gálatas 5,22-23 apresenta o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tiago 2,14-17 pergunta de que serve dizer que se tem fé quando o irmão permanece sem roupa e sem alimento. A fé bíblica possui consequências históricas. Ela se transforma em cuidado, solidariedade, justiça e serviço. A questão fundamental não é apenas o que dizemos crer, mas o que nossa crença produz na vida daqueles que convivem conosco. Essa perspectiva nos conduz diretamente à desigualdade social. A pergunta da vinha não é somente quanto uma sociedade produz, mas quem recebe seus frutos. Pode existir crescimento econômico acompanhado de fome, avanço tecnológico acompanhado de exclusão, templos cheios acompanhados de indiferença, riqueza concentrada enquanto trabalhadores não conseguem viver com dignidade. Amós 5,11-15 denuncia aqueles que constroem casas de pedra enquanto negam justiça aos pobres. Isaías 10,1-3 questiona aqueles que elaboram leis injustas para retirar direitos dos necessitados. Tiago 5,1-6 denuncia riquezas acumuladas enquanto trabalhadores permanecem privados de seu salário. O Evangelho não apresenta um programa econômico completo, mas estabelece um critério moral: a vida humana não pode ser subordinada à acumulação ilimitada. Jesus não demoniza simplesmente os bens materiais. Ele denuncia sua transformação em senhor. Mateus 6,24 afirma que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12,13-21 apresenta o homem rico que amplia seus celeiros e imagina ter garantido a própria vida. O problema não é produzir, trabalhar ou possuir. O problema é transformar a existência em acumulação autocentrada. A vinha produz frutos para a vida, não para alimentar uma pequena elite de administradores.

Essa mesma lógica precisa ser aplicada às formas contemporâneas de mercantilização da religião. Há expressões religiosas que apresentam Deus segundo uma lógica de investimento, como se a fé fosse uma operação destinada a produzir retorno financeiro. É necessário distinguir esperança cristã de uma teologia que transforma bênção em recompensa automática e sofrimento em sinal de pouca fé. Jesus afirma em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância dos bens. O Evangelho anuncia dignidade, providência, partilha e esperança, não uma fórmula religiosa de enriquecimento. Quando o pobre é responsabilizado por sua própria pobreza porque não teria fé suficiente, o Evangelho é invertido. Quando a contribuição financeira se torna medida de espiritualidade, o sagrado pode ser transformado em mercado. Quando líderes utilizam a esperança dos vulneráveis para construir patrimônio pessoal, a lógica dos vinhateiros reaparece. A vinha pertence a Deus. Seus frutos devem produzir vida. A religião não existe para enriquecer seus administradores, mas para aproximar pessoas de Deus, libertar consciências, fortalecer comunidades e promover a dignidade humana. A questão ecológica também pertence à parábola: 

  • Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivar e guardar. 
  • Salmo 24,1 recorda que a terra pertence ao Senhor. A criação não é propriedade absoluta de nenhuma geração. 
Recebemos um mundo que não criamos e que deixaremos para outros. A crise climática, a destruição das florestas, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade mostram as consequências de uma cultura que trata a terra como objeto de exploração ilimitada. A imagem da vinha ajuda a perceber que cuidar não significa simplesmente utilizar. Significa reconhecer limites, respeitar ciclos, preservar possibilidades e pensar nos que ainda nascerão. Laudato Si' desenvolve essa responsabilidade em linguagem contemporânea ao insistir na relação entre cuidado da criação, justiça social e destino comum. Os mais pobres frequentemente sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos da degradação ambiental. A ecologia, portanto, não é um luxo reservado aos que já possuem segurança. É questão de justiça. Quando devastamos a casa comum para aumentar lucros imediatos, agimos como administradores que esqueceram que a vinha pertence a outro. Marcos 12,1-12 e Lucas 20,9-19 confirmam e aprofundam essa leitura. Os três Sinóticos conservam a estrutura essencial da narrativa: existe uma vinha, um proprietário, arrendatários, servos enviados, violência, o filho e a rejeição da pedra. Marcos enfatiza a sequência de servos e apresenta o filho amado. Lucas mantém a mesma tensão dentro do confronto de Jesus com as autoridades do templo. Mateus, entretanto, acentua particularmente a questão dos frutos e afirma que o Reino será dado a um povo que os produza. As diferenças redacionais não significam necessariamente contradição. Elas mostram comunidades transmitindo a tradição apostólica segundo necessidades e perspectivas teológicas próprias. João não possui a mesma parábola, mas apresenta uma elaboração complementar da imagem em João 15,1-8: Jesus é a videira verdadeira, o Pai é o agricultor e os discípulos são os ramos. Permanecer em Cristo produz fruto. Em João 15,12, esse fruto recebe uma definição concreta: amar uns aos outros como Jesus amou. A imagem da vinha atravessa, assim, diferentes tradições do Novo Testamento e converge para uma certeza: a comunhão com Deus precisa tornar-se fecundidade na história. Não existe permanência verdadeira em Cristo sem transformação da vida.

A pedra rejeitada amplia o horizonte cristológico. Jesus cita Salmo 118,22-23: aquilo que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Essa imagem reaparece em Atos 4,10-12 e em 1Pedro 2,4-8. O rejeitado é confirmado por Deus. A cruz, portanto, não é a palavra final da violência. Os administradores acreditam que, eliminando o herdeiro, controlarão a vinha. Deus, porém, transforma o rejeitado em fundamento. A lógica da ressurreição desmonta a pretensão humana de controlar definitivamente a história. Filipenses 2,5-11 apresenta o caminho de Cristo como esvaziamento, serviço e obediência, não como apropriação de poder. Por isso a pedra angular não é uma instituição, uma liderança, uma ideologia ou um projeto político. É Cristo. Toda comunidade cristã precisa medir suas práticas por ele. Romanos 11,17-21 também impede qualquer triunfalismo cristão diante de Israel. Paulo adverte os cristãos de origem gentílica a não se tornarem arrogantes. Ninguém permanece na história da salvação por mérito próprio. A graça recebida não autoriza soberba. A Igreja recebe a vinha como missão, não como propriedade. Recebe o Evangelho como dom, não como arma. Recebe autoridade para servir, não para dominar. Filipenses 4,6-9 oferece uma chave espiritual para viver essa missão. Paulo chama a comunidade a apresentar suas necessidades a Deus em oração, súplica e ação de graças. Depois orienta o pensamento para aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Finalmente, insiste na prática: aquilo que foi aprendido, recebido, ouvido e visto precisa ser colocado em ação. A paz cristã não é anestesia diante da injustiça. É força interior para permanecer no caminho do bem sem reproduzir a violência daqueles que se combate. O Salmo 79(80) também não é resignação. O povo clama para que Deus visite sua vinha, restaure sua plantação e faça resplandecer seu rosto. Isaías denuncia, o salmo suplica, Paulo orienta a vida e Jesus chama à responsabilidade. A liturgia une contemplação, discernimento, oração e prática. O culto não termina quando a assembleia deixa o templo. Ele continua na maneira como tratamos o trabalhador, o pobre, o estrangeiro, o adversário, o imigrante, a criação, o dinheiro e aqueles que não podem nos oferecer qualquer benefício. Tiago 1,22 insiste que devemos ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes. A vinha exige frutos.

Chegamos, então, ao centro da parábola. Talvez o maior pecado dos vinhateiros não tenha sido trabalhar na vinha, mas esquecer que ela nunca lhes pertenceu. Essa tentação atravessa a história humana. Queremos possuir pessoas, controlar consciências, monopolizar verdades, dominar instituições e transformar dons recebidos em instrumentos de poder. Às vezes fazemos isso em nome de Deus, tornando a deformação ainda mais perigosa. Jesus não destrói a vinha. Ele denuncia aqueles que a sequestraram. O Reino continua. Deus continua esperando frutos. Essa esperança impede que a crítica profética se transforme em cinismo. Instituições podem adoecer e podem ser reformadas. Comunidades podem errar e podem converter-se. Sociedades podem produzir injustiça e podem escolher outro caminho. Ezequiel 18,23 recorda que Deus não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. O julgamento bíblico não é mero prazer de condenar. É um chamado a despertar antes que a esterilidade se torne definitiva. A graça não elimina a responsabilidade, mas abre a possibilidade de recomeço. Deus continua enviando sua Palavra porque ainda espera frutos.

Por isso, o Evangelho deste domingo não nos permite permanecer espectadores. Ele entra em nossas casas, comunidades, relações, instituições e escolhas. A pergunta não é apenas o  que fizeram os vinhateiros de Jerusalém. A pergunta é:

  •  O que fazemos nós com aquilo que recebemos?
  • O que produz nossa fé? 
  • Produz acolhimento ou exclusão? 
  • Justiça ou privilégio? 
  • Misericórdia ou condenação?
  • Liberdade ou medo? 
  • Solidariedade ou competição?
  •  Verdade ou manipulação? 
  • O que produz nossa atuação política? 
  • O que produz nossa autoridade profissional? 
  • O que produz nossa presença dentro da Igreja? 
A parábola termina deixando diante de nós uma ferida e uma esperança,  a vinha continua pertencendo a Deus, a  pedra rejeitada tornou-se fundamento. O Filho que os homens quiseram eliminar foi ressuscitado pelo Pai,  a história não pertence definitivamente aos poderosos. O Evangelho afirma que Deus pode fazer nascer futuro onde os seres humanos decretaram fracasso. Por isso a Igreja não deve temer a verdade sobre si mesma. Uma comunidade que aceita ser examinada pela Palavra torna-se mais livre. Um ministério que aceita prestar contas torna-se mais evangélico.  Isaías continua perguntando por que a vinha produziu violência, o salmo continua pedindo que Deus visite sua plantação e  Paulo continua chamando nossa mente para a verdade e nossa prática para o bem. Jesus continua perguntando pelos frutos.

Que o Espírito Santo nos dê coragem para reconhecer onde transformamos serviço em posse, autoridade em domínio, religião em espetáculo, tradição em arma e fé em instrumento de interesse pessoal. Que nos ensine a ouvir os profetas antes que seja tarde, a reconhecer Cristo nos pequenos, a defender os vulneráveis, a cuidar da criação e a construir relações nas quais a dignidade humana esteja acima do lucro, do prestígio e da disputa. Que a Igreja nunca se comporte como proprietária do Reino, mas como servidora de uma graça que a precede e a supera. Que nossos templos não sejam apenas lugares de culto, mas escolas de justiça, misericórdia e fraternidade. Que nossa oração não seja fuga da realidade, mas fonte de coragem para transformá-la. E que, quando o Senhor olhar para a vinha que nos confiou, encontre não apenas folhas de aparência religiosa, mas frutos concretos de amor, justiça e misericórdia. Porque a vinha é de Deus, a vida é dom, a autoridade é serviço, Cristo é a pedra angular e o Reino pertence àqueles que permitem que a graça produza frutos de justiça, misericórdia e vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O PRESBITÉRIO NÃO É PALANQUE

A Eucaristia está acima das nossas bandeiras ideológicas, das disputas partidárias e das paixões eleitorais. Há alguns dias, recebemos o áudio de parte de uma pregação realizada por um presbítero em uma paróquia de uma das dioceses do Brasil, na qual, ao abordar  tematica sobrenaa eleições , ele toma  partido  de certo candidato e determinado partido político, chegou-se a propor a negação da Sagrada Comunhão aos militantes e eleitores de um dos partidos. O conteúdo dessa fala nos provocou não apenas pela gravidade da proposta, mas principalmente pela necessidade de perguntar, com serenidade e responsabilidade, se tal compreensão encontra respaldo no Evangelho, na tradição da Igreja, no Magistério e no Direito Canônico. Não nos cabe julgar a intenção pessoal daquele sacerdote, nem presumir sua formação ou suas motivações; cabe-nos, porém, examinar aquilo que foi publicamente afirmado e confrontá-lo com a fé que professamos. Não fazemos isso para defender candidato, partido ou corrente ideológica, muito menos para transformar uma divergência política em conflito religioso, mas porque entendemos que há momentos em que o silêncio diante de determinadas práticas pode acabar confundindo o Evangelho com interesses humanos. A Igreja tem o dever de formar consciências, anunciar a verdade, defender a dignidade humana e denunciar toda forma de injustiça, a própria CNBB ja se posicionou sobre apoio a esse ou aquele  candidato. E preciso  ter consciência  que Eucaristia não pode ser convertida em instrumento de disputa eleitoral, nem o altar em espaço de enquadramento político dos fiéis. Cristo não se entrega à Igreja para que sua mesa seja transformada em fronteira entre os que pertencem a este ou àquele partido, mas para reunir um povo chamado à conversão, à comunhão, à justiça e à caridade. É justamente por amor à Igreja, à Eucaristia e respeito à missão dos ministros ordenados que desejamos refletir sobre essa questão, recordando que o presbítero é chamado a servir a Cristo e ao seu povo, e não a transformar o lugar sagrado em extensão de qualquer palanque. É a partir dessa inquietação, iluminada pelo Evangelho e pelo ensinamento da própria Igreja, que nasce esta reflexão.

Há momentos em que a Igreja precisa voltar ao silêncio diante do altar para ouvir novamente aquilo que o Evangelho diz antes que nossas paixões políticas comecem a falar, a Eucaristia não nasceu de uma disputa eleitoral, não foi instituída para consagrar projetos de poder nem pode ser transformada em instrumento de pressão sobre a consciência dos fiéis. Ela nasce na noite em que Jesus foi entregue: naquela mesa estavam discípulos que ainda não compreendiam plenamente a cruz, aquele que o negaria e aquele que o trairia; mesmo assim, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e entregou-o, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19). A Eucaristia nasce, portanto, do amor que se entrega quando o poder humano já prepara a violência, e não da lógica de quem divide as pessoas entre as que merecem estar à mesa e as que devem ser afastadas dela.

É preciso  lembrar  que o Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo, sacrifício sacramental, presença real, banquete pascal, sinal de unidade e vínculo de caridade (CIC 1322-1323; 1362-1367; 1382-1383) e na celebração eucarística, a Igreja não celebra uma ideia, uma ideologia ou uma identidade política, mas o próprio mistério de Cristo morto e ressuscitado. Quem se aproxima da mesa do Senhor não recebe uma bandeira, recebe Cristo; e quem serve o altar não recebe autoridade para transformar o Sacramento em instrumento de uma preferência eleitoral. Isso não significa banalizar a Comunhão, pois a santidade da Eucaristia exige fé, conversão e exame de consciência. São Paulo advertiu severamente a comunidade de Corinto sobre o modo indigno de participar da Ceia do Senhor (1Cor 11,27-29), e o Catecismo ensina que quem tem consciência de pecado grave deve receber previamente o sacramento da Reconciliação (CIC 1385). A Igreja, portanto, não relativiza a dignidade do Sacramento; justamente porque a Eucaristia é santa, sua disciplina não pode ser substituída por critérios inventados segundo circunstâncias eleitorais. O Catecismo ensina que a consciência é o núcleo mais secreto da pessoa, onde ela se encontra a sós com Deus, e afirma o dever de formá-la de acordo com a verdade e o bem (CIC 1776-1782). Essa consciência não é uma licença para chamar de bom tudo aquilo que desejamos, pois precisa ser educada pela Palavra de Deus, pela razão, pela prudência, pelo ensino da Igreja, pela oração e pelo discernimento responsável (CIC 1783-1789). Entretanto, precisamente por ser lugar de responsabilidade diante de Deus, ela não pode ser sequestrada por uma autoridade humana. O ministro ordenado deve ajudar o fiel a formar sua consciência na verdade, não ocupar o lugar daquele que, diante de Deus, responderá pelos próprios atos. Essa distinção torna-se ainda mais necessária quando a política entra no espaço litúrgico, porque uma opinião pronunciada numa conversa particular não possui o mesmo peso de uma afirmação feita no ambão durante a celebração por alguém investido do ministério ordenado

Acreditamos  que o referido  padre  conhece  o Código de Direito Canônico  que estabelece que todo batizado a quem o direito não proíba pode e deve ser admitido à sagrada Comunhão (cân. 912), enquanto o cân. 915 trata de situações jurídicas e morais determinadas, entre elas os excomungados e interditados após a imposição ou declaração da pena e aqueles que obstinadamente perseveram em pecado grave manifesto. Esse cânon não confere ao ministro poder discricionário para criar, segundo sua avaliação política pessoal, novas causas de exclusão da Comunhão. Uma preferência partidária, por si mesma, não constitui causa canônica autônoma de impedimento à Eucaristia. Isso não significa que escolhas políticas sejam moralmente neutras em qualquer circunstância: um partido pode ser criticado, uma candidatura pode ser rejeitada, uma proposta política pode ser considerada incompatível com princípios fundamentais da fé e determinadas decisões públicas podem exigir sério discernimento moral. A Igreja possui o direito e o dever de anunciar a verdade moral, defender a dignidade humana, denunciar a injustiça e formar as consciências; o que não pode fazer é transformar esse dever em substituição da consciência pessoal ou em uma espécie de sanção sacramental fundada simplesmente na escolha eleitoral.  

Diante  da assembleia  litúrgica  o ministro  ordenado   recebe uma autoridade que ultrapassa a pessoa que as pronuncia, razão pela qual o ministro precisa discernir não apenas se determinada opinião corresponde à sua convicção pessoal, mas também se a maneira de apresentá-la corresponde à missão pastoral que recebeu. O presidente  da assembleia  é ministro da Palavra, dos sacramentos e da comunhão eclesial, não proprietário da consciência dos fiéis;  o bispo é um  servidor da comunhão e da verdade, não autoridade eleitoral,  a sua  autoridade pastoral existe para conduzir à verdade e à liberdade dos filhos de Deus, e não para fabricar dependências políticas. Quando o ministro passa de formador da consciência a substituto da consciência, o serviço pastoral corre o risco de degenerar  o próprio  ministério  e vocação. O ministro ordenado é pastor, não proprietário da fé; a diocese, a paróquia deve ser comunidade de discípulos, não comitê eleitoral; o ambão é lugar de anúncio do Evangelho, não palanque; e o altar é lugar do sacrifício de Cristo, não território de qualquer projeto político.

Mateus 21,28-32 proclamdo no 26⁰  domingo do Tempo Comum  do ano.A ajuda a perceber a gravidade dessa inversão. A parábola dos dois filhos está inserida num confronto de Jesus com as autoridades religiosas e nasce de uma pergunta sobre autoridade. Jesus não oferece uma classificação eleitoral dos bons e dos maus; confronta uma religiosidade que pode dizer “sim” com os lábios e, entretanto, recusar a vontade do Pai com a própria vida. A pergunta decisiva não é “de que lado vocês estão?”, mas qual dos dois fez a vontade do pai. O critério do Evangelho é a obediência concreta à vontade de Deus, não a identidade pública que reivindicamos. Utilizar essa passagem para estabelecer uma fronteira partidária na Eucaristia seria inverter sua direção, transformando uma palavra de conversão em instrumento de classificação eleitoral. O Evangelho desinstala tanto o pecador que precisa converter-se quanto o religioso que acredita já estar justificado; não entrega ao discípulo uma régua para medir o outro, mas uma palavra que começa por nós mesmos. Essa perspectiva está em plena sintonia com a compreensão da Igreja sobre sua relação com a comunidade política. A Gaudium et Spes ensina que a Igreja não se confunde com a comunidade política nem está ligada a qualquer sistema político determinado, reconhecendo a autonomia de ambas em seus respectivos campos e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade diante da pessoa humana e do bem comum. Essa autonomia não significa uma Igreja indiferente à política; significa uma Igreja livre. Uma Igreja livre não é uma Igreja silenciosa, mas uma Igreja capaz de falar a todos porque não pertence inteiramente a nenhum grupo. Pode denunciar a corrupção quando aparece no adversário e quando aparece no aliado, condenar a mentira quando favorece aqueles de quem gostamos e quando favorece aqueles de quem discordamos, defender a vida humana desde sua origem até a morte natural e, simultaneamente, denunciar a fome, a violência, a exploração, a tortura, a guerra, o abandono, a miséria e todas as formas pelas quais a dignidade humana é ferida.

A Lumen Gentium recorda que a Igreja é, em Cristo, “como que o sacramento, ou seja, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). Essa afirmação possui consequências concretas para a vida eclesial: se a Igreja é sinal de unidade, suas diferenças políticas não podem transformar-se em mecanismos permanentes de desumanização. A pluralidade legítima dos fiéis não precisa desaparecer diante do altar, mas precisa encontrar ali um limite: ninguém pode fazer da própria posição política um critério absoluto para reconhecer quem pertence ou não ao Corpo de Cristo. São Paulo exprime essa realidade de modo ainda mais concreto: “há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia manifesta sacramentalmente essa comunhão, e por isso instrumentalizá-la para produzir exclusões políticas contradiz a própria realidade que o Sacramento celebra.

A fé cristã também não permite reduzir a pessoa à sua utilidade eleitoral. Em Mateus 25, Jesus não pergunta ao faminto em quem ele votou antes de oferecer-lhe alimento, nem pergunta ao estrangeiro qual era sua ideologia antes de acolhê-lo; o critério apresentado é concreto: dar de comer ao faminto, de beber ao sedento, acolher o estrangeiro, vestir quem está nu, cuidar do enfermo e visitar o preso (Mt 25,31-46). A Doutrina Social da Igreja traduz essa responsabilidade em princípios como dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e participação, reconhecendo que a política pertence à vida humana e pode ser lugar de serviço. Os fiéis leigos são chamados a atuar na ordem temporal segundo sua consciência cristã, buscando justiça, paz, liberdade, dignidade humana e bem comum. A Nota Doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política reconhece a legítima pluralidade de opções políticas entre os fiéis, ao mesmo tempo em que recorda que essa pluralidade não significa relativizar os princípios morais fundamentais.

O cristão, portanto, não precisa encontrar um partido que reproduza perfeitamente toda a riqueza da fé católica, porque a realidade política é contingente, complexa e histórica; diferentes estratégias podem ser propostas para alcançar determinados bens sociais, e cidadãos igualmente comprometidos com sua fé podem chegar a conclusões políticas diferentes. O Magistério forma e ilumina a consciência, mas não transforma cada questão temporal contingente numa única solução partidária obrigatória. Ao mesmo tempo, liberdade política não significa indiferença moral: existem princípios fundamentais da dignidade humana que não podem ser abandonados em nome da conveniência eleitoral. É justamente por isso que nenhuma ideologia possui o Evangelho inteiro e toda forma de radicalização política que sacralize o líder, absolutize a nação, transforme adversários em inimigos absolutos, legitime a violência ou utilize a religião para conferir caráter sagrado a um projeto humano precisa ser examinada à luz do Evangelho. Essa crítica não pertence exclusivamente a um campo ideológico: pode dirigir-se à direita, à esquerda, ao centro ou a qualquer movimento que transforme mentira, violência, corrupção, intolerância ou desumanização em instrumentos de poder.

Há  um  conflito real  quando o  relativo passa a ocupar o lugar do absoluto,  quando uma bandeira política se transforma em símbolo quase religioso, um líder passa a ser tratado como salvador, a pátria é apresentada como realidade acima de toda crítica, o adversário deixa de ser reconhecido como pessoa ou a mentira passa a ser tolerada porque protege “os nossos”. Quando símbolos cristãos são utilizados para conferir legitimidade espiritual a projetos de poder, a religião deixa de iluminar a política e corre o risco de ser capturada por ela. A Escritura conhece essa tensão: 

  • Natã enfrentou Davi (2Sm 12,1-13)
  •  Elias enfrentou Acab diante da injustiça cometida contra Nabot (1Rs 21)
  • Amós levantou sua voz contra aqueles que esmagavam os pobres (Am 2,6-7; 5,11-15)
  •  Isaías denunciou os que promulgavam leis injustas e privavam os pobres de seus direitos (Is 10,1-2)
  •  João Batista confrontou Herodes (Mc 6,17-20). 
O profeta não pergunta primeiro de que lado está o poder; pergunta se o poder está submetido à justiça de Deus. Jesus também recusou a lógica da dominação. Quando Pedro desembainhou a espada, ordenou que a guardasse (Mt 26,52); quando alguns discípulos quiseram fazer descer fogo do céu sobre aqueles que não haviam recebido Jesus, foram repreendidos (Lc 9,51-56); quando os discípulos discutiam sobre poder e grandeza, Jesus colocou o serviço no centro: “entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). O cristianismo não pode utilizar o nome daquele que lavou os pés dos discípulos para justificar a lógica da dominação e  a cruz é ainda mais radical: Cristo não venceu derramando o sangue de seus inimigos, mas entregando o próprio sangue. O mártir cristão não é aquele que mata por uma causa religiosa, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando sofre violência. A cruz não fornece autorização para matar; o sangue de Cristo não pode ser utilizado para santificar o sangue humano.

Antes de ser eleitor, simpatizante, militante, conservador ou progressista, cada ser humano permanece criatura de Deus, portador de uma dignidade que nenhuma disputa eleitoral pode retirar e o outro não deixa de ser pessoa porque vota diferente ou  o adversário político não perde sua dignidade porque defende ideias que consideramos equivocadas. A crítica às ideias pode ser firme, contudo  a desumanização da pessoa é incompatível com a antropologia cristã. O Evangelho exige algo mais difícil do que escolher um inimigo: exige conversão, reconhecimento da verdade quando ela vem de alguém de quem discordamos e rejeição da mentira mesmo quando pronunciada por alguém de quem gostamos. Exige denunciar a injustiça quando atinge o adversário e quando ameaça o aliado, amar o próximo quando o próximo pensa diferente e levar a sério as palavras de Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).

Olhando para Maria e  lendo o Magnificat  que  crituca a religião domesticada pelo poder. Seu canto proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos, exalta os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,52-53). O Magnificat não pertence a uma legenda partidária; pertence ao Evangelho e recorda que nenhum poder humano é absoluto, pois Deus não pode ser colocado como avalista de nossas ambições. Talvez seja justamente disso que a Igreja precise lembrar em tempos de polarização:

  •  Cristo não morre para produzir vencedores e vencidos dentro de sua Igreja, mas para reconciliar.
  •  Não morre para que seus discípulos aprendessem a odiar melhor seus adversários, mas para que aprendessem a amar até mesmo aqueles que os perseguem
  • Não entrega seu Corpo para que construíssemos muros em torno da mesa, mas para que, recebendo o mesmo pão, aprendêssemos a reconhecer que pertencemos a um único Corpo.

Toda  a comunidade cristã se reúne em torno da Eucaristia e  o eleitor A  encontra o eleitor B,  o pobre encontra o rico, o conservador encontra o progressista, o que pensa como nós encontra aquele que pensa diferente  e todos permanecem diante do mesmo Senhor. Nenhum deles se torna proprietário de Cristo,  a Eucaristia não elimina as diferenças legítimas, mas impede que essas diferenças sejam transformadas em motivo de desumanização. Por isso, nenhuma preferência eleitoral pode ocupar o lugar da fé, nenhum líder político pode receber aquilo que pertence somente a Cristo, nenhuma ideologia pode transformar-se em critério absoluto de pertença eclesial e nenhum partido pode reivindicar a Eucaristia como território próprio. O cristão pode participar legitimamente de um partido; nenhum partido pode apropriar-se de Cristo. Pode exercer sua liberdade eleitoral sem transformar sua escolha contingente em dogma, pode combater ideias sem transformar aquele que pensa diferente em inimigo de Deus e pode participar da vida pública sem entregar à política aquilo que pertence ao Evangelho.

A Eucaristia não elimina a responsabilidade política do cristão; ela a purifica e a envia para a vida concreta, onde o discípulo deve buscar justiça, verdade, reconciliação e cuidado com os vulneráveis. A política pode ser lugar de serviço, mas não pode tornar-se objeto de adoração; a fé pode iluminar a política, mas a política não pode capturar a fé. Diante do altar, nossas bandeiras precisam baixar não porque nossas convicções deixem de existir, mas porque nenhuma delas é absoluta. Ali não está a vitória de um grupo sobre outro, mas o memorial daquele que se entregou; não está a consagração de um projeto de poder, mas a presença daquele que veio servir; não está uma fronteira entre os puros e os impuros, entre os nossos e os outros, mas o chamado permanente à conversão. Quando Cristo é colocado acima das bandeiras, a Igreja permanece livre para anunciar o Evangelho a todos, inclusive aos que pensam de maneira diferente. 

Quando as bandeiras humanas se erguem acima de Cristo, a Igreja corre o risco de esquecer sua origem, sua missão e sua liberdade; por isso, o presbitério, confiado ao ministério ordenado, deve permanecer lugar de serviço, de escuta da Palavra e de celebração do mistério da fé, preservado das disputas eleitorais que passam com o tempo. A Eucaristia pertence ao Senhor e manifesta sacramentalmente o amor daquele que se entrega por todos e reúne os dispersos em um só Corpo, e nenhum partido, nenhuma preferência política ou projeto de poder pode apropriar-se daquilo que Deus confiou à sua Igreja. As eleições passarão, os governos mudarão, os partidos se reorganizarão e as bandeiras que hoje parecem invencíveis serão recolhidas pelo próprio curso da história; permanecerá, porém, aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), diante de quem toda autoridade humana encontra seu limite e toda consciência é chamada à verdade. Que a Igreja não entregue sua liberdade às paixões de nenhuma época, não permita que o altar seja capturado pelos interesses dos homens e não transforme a comunhão dos filhos de Deus em instrumento de qualquer disputa terrena; que permaneça de pé, como sentinela do Evangelho, anunciando a verdade quando for conveniente e quando for incômodo, defendendo os pequenos quando tiver apoio e quando estiver sozinha, denunciando a injustiça venha ela de onde vier e recordando aos poderosos que nenhum trono é eterno diante do Reino de Deus. Aquele que na noite em que foi entregue não ofereceu aos seus discípulos uma bandeira para conquistar o mundo, mas seu próprio Corpo para a vida do mundo, continua sendo o centro da fé e da missão da Igreja; por isso, a Eucaristia permanecerá acima das disputas eleitorais, como presença viva de Cristo que se entrega, reúne, alimenta, reconcilia e envia seu povo para testemunhar o Evangelho no coração da história. 

Quando as vozes dos poderes deste mundo finalmente se calarem, permanecerá a voz do Senhor, e diante dele toda a Igreja reconhecerá que a única vitória que não passa é aquela que nasce da cruz e conduz à vida. A Ele, Senhor da Igreja e da história, pertencem toda honra e toda glória, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.

DNonato - Cristão  e Eleitor  Brasileiro 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 10,1-12

A passagem de Lucas 10,1-12 é proclamada na liturgia  na quinta-feira da 26ª semana do Tempo Comum no calendário litúrgico da Igreja Católica Romana  oferece uma chave particularmente fecunda para compreendê-la. Na liturgia ferial, ela é acompanhada por Jó 19,21-27 e pelo Salmo 27, formando um tríptico espiritual em que o sofrimento humano, a confiança no Redentor e a missão dos discípulos se iluminam mutuamente.

  •  A Igreja escuta primeiro a voz de Jó, ferido, incompreendido e quase esmagado pela existência, que, apesar de tudo, proclama sua esperança no Redentor.
  •  Escuta o salmista afirmar que o Senhor é luz, salvação e fortaleza

E finalmente encontra Jesus enviando discípulos para levar paz, cuidado e anúncio às cidades e casas e texto do Evangelho também  é proclamado   no 14⁰  Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Lucas 10,1-12.17-20 também é proclamado na festa de alguns Apóstolos. Jesus não envia seus discípulos para conquistar territórios religiosos, controlar consciências ou construir prestígio institucional, mas para caminhar entre pessoas concretas, anunciar a proximidade do Reino, curar feridas e testemunhar uma paz que nasce de Deus.

Lucas apresenta esse envio depois de uma decisão fundamental de Jesus: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51) logo após o chamado do evangelho proclamado  no dia anterior Lucas 9, 57-62 . Essa informação é decisiva para a hermenêutica da passagem. O caminho dos discípulos nasce do caminho do próprio Cristo. Eles não inventam a missão; participam de uma missão que já está em movimento. Jesus havia enviado os Doze em Lucas 9,1-6, concedendo-lhes autoridade sobre demônios e enfermidades e enviando-os para proclamar o Reino de Deus. Agora, em Lucas 10, amplia o círculo e envia outros discípulos, dois a dois, diante dele, para toda cidade e lugar onde ele próprio deveria ir. O Evangelho revela assim que a missão não é privilégio de uma pequena elite religiosa. O anúncio do Reino exige uma comunidade inteira mobilizada. A Igreja não existe para contemplar a própria imagem, mas para preparar caminhos para aquele que vem.

O número dos enviados aparece como setenta em alguns manuscritos e setenta e dois em outros. A diferença textual não altera o núcleo da narrativa, mas a amplitude simbólica permanece importante. A tradição bíblica conhece setenta anciãos associados a Moisés em Números 11,16-25 e apresenta em Gênesis 10 uma relação das nações que compõem o horizonte humano conhecido pela tradição israelita. Lucas parece ampliar simbolicamente o horizonte missionário. O Evangelho não está destinado a um pequeno grupo fechado. A promessa feita a Abraão de que todas as famílias da terra seriam alcançadas pela bênção (Gn 12,3) começa a ganhar dimensão missionária. Isaías havia contemplado povos caminhando para a luz de Deus (Is 2,2-4; 60,1-3), e Jesus agora envia discípulos para atravessar cidades, fronteiras sociais e ambientes culturais. O Reino não se fecha dentro de uma fronteira religiosa.

Entretanto, antes de falar sobre métodos missionários, Jesus apresenta uma realidade inquietante: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2). A imagem agrícola possui profunda densidade bíblica. A colheita pode representar o tempo do julgamento, como em Joel 4,13, mas também pode expressar a reunião dos frutos amadurecidos pela ação de Deus. Jesus percebe diante de si uma humanidade sedenta de sentido. O problema não é ausência de pessoas procurando vida, mas escassez de trabalhadores dispostos a servir. Por isso, a primeira orientação é oração: “Pedi ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita”. O sujeito último da missão continua sendo Deus. Nenhum pregador é dono do Evangelho. Nenhum sacerdote, bispo, líder religioso ou comunidade pode apropriar-se do Reino como propriedade particular. A Igreja administra um mistério que não lhe pertence.

Depois vem uma imagem desconcertante: “Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3). Jesus não promete segurança institucional, domínio cultural ou triunfo político. O discípulo é enviado vulnerável. Essa vulnerabilidade não significa covardia diante da injustiça, mas rejeição da lógica predatória. O cordeiro não se transforma em lobo para cumprir sua missão. A Igreja perde sua identidade quando combate a violência reproduzindo a violência, quando responde ao ódio com outro ódio, quando transforma adversários em inimigos absolutos ou quando usa Deus para justificar agressões. Jesus já havia repreendido a tentativa de recorrer à espada em sua defesa (Mt 26,52) e afirmado diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), não significando que seu Reino seja indiferente à história, mas que não opera segundo a lógica dos poderes coercitivos. O envio sem bolsa, alforje e sandálias deve ser compreendido dentro da realidade da missão itinerante antiga. Não é uma condenação simplista dos recursos materiais, mas uma pedagogia da dependência. O discípulo não chega como conquistador. Ele precisa receber hospitalidade. Precisa sentar-se à mesa. Precisa ouvir. Precisa aceitar a vulnerabilidade de depender do outro. Isso é teologicamente profundo porque impede que a missão se transforme em exercício de superioridade. Quem anuncia também precisa receber. Quem evangeliza também precisa ser evangelizado pela realidade encontrada. A hospitalidade torna-se espaço de encontro. Em Lucas, a mesa possui enorme importância teológica: 

  • Jesus come com pecadores (Lc 5,29-32)
  •  Aceita hospitalidade de Marta e Maria (Lc 10,38-42)
  • Entra na casa de Zaqueu (Lc 19,1-10) 
  • Depois da ressurreição, torna-se reconhecido no partir do pão (Lc 24,30-35). 

O Reino chega também através de uma mesa compartilhada. O primeiro anúncio dentro da casa é “Paz a esta casa” (Lc 10,5). Não se trata de uma fórmula superficial. O conceito bíblico de shalom envolve integridade, reconciliação, segurança, justiça e vida em plenitude. O discípulo chega oferecendo paz, não medo. Essa palavra confronta uma religiosidade baseada na ameaça permanente, na manipulação da culpa e na exploração da fragilidade humana. Jeremias denuncia profetas que proclamavam “paz, paz” quando não havia paz (Jr 6,14). Isaías ensina que o jejum agradável a Deus envolve romper as cadeias da injustiça, repartir o pão com o faminto e acolher o necessitado (Is 58,6-8). Tiago afirma que desejar paz a quem está faminto sem oferecer alimento é uma fé morta (Tg 2,15-17). A paz cristã nunca pode ser utilizada para esconder estruturas que produzem sofrimento.

Por isso Jesus acrescenta: “Curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo” (Lc 10,9). Palavra e ação permanecem inseparáveis. O anúncio do Reino precisa tocar a vida concreta. Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão mediante a linguagem de Isaías: boa notícia aos pobres, libertação aos cativos, recuperação da vista e liberdade aos oprimidos. Em Lucas 7,22, as curas e o anúncio aos pobres aparecem como sinais da ação messiânica. A evangelização, portanto, não pode ser reduzida à transmissão de fórmulas religiosas. Se o Evangelho é anunciado, mas os vulneráveis continuam abandonados, alguma coisa essencial foi perdida. A cura bíblica também possui dimensão social: reintegrar pessoas excluídas, devolver dignidade, romper estigmas e permitir que alguém volte a participar da comunidade.

Hoje ainda  existem milhões de pessoas cercadas por comunicação e, ao mesmo tempo, mergulhadas em solidão. Existem famílias destruídas pela violência, trabalhadores submetidos à precarização, populações empurradas para as margens urbanas, crianças expostas à fome e à violência, idosos esquecidos, migrantes tratados como ameaça, jovens atravessados por ansiedade e crise de sentido. Há sociedades tecnologicamente avançadas que continuam incapazes de distribuir dignidade. Existe riqueza suficiente para alimentar multidões, mas permanecem pessoas sem o necessário. O problema contemporâneo não é simplesmente escassez; frequentemente é concentração, indiferença e incapacidade política e social de colocar a vida acima da acumulação. Lucas 10 pergunta à Igreja onde estão seus pés diante dessas feridas. .Jesus não envia os discípulos para conquistar consciências, fabricar dependentes ou controlar votos. A missão cristã não pode confundir evangelização com propaganda ideológica. A consciência humana possui dignidade diante de Deus. Jesus chama, ensina, confronta e convida, mas não cria uma espiritualidade baseada na coerção. Em João 8,11, diante da mulher acusada, ele não banaliza o pecado, mas também não permite que a pessoa seja reduzida à sua culpa. Em Marcos 10,42-45, contrapõe a lógica do Reino à lógica dos governantes que dominam os povos: entre os discípulos, quem quiser ser grande deve servir. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço, não na capacidade de controlar.

Quando uma cidade rejeita os enviados, Jesus ordena que sacudam o pó dos pés e continuem. Esse gesto possui dimensão profética. O discípulo não controla a liberdade de quem escuta. A missão inclui a possibilidade da recusa. A Igreja precisa recuperar essa liberdade porque uma fé que necessita de coerção já perdeu a confiança na força da Palavra. Ezequiel é enviado a uma casa rebelde e Deus lhe diz que, quer ouçam, quer deixem de ouvir, saberão que houve profeta entre eles (Ez 2,5). Paulo e Barnabé, em Atos 13,46-51, diante da rejeição, seguem adiante. O Evangelho não depende da aprovação universal. A verdade não precisa ser imposta para ser verdadeira.

A advertência sobre Sodoma, em Lucas 10,12, tampouco pode ser usada como instrumento de maldição contra adversários. Sodoma tornou-se símbolo bíblico de corrupção e violência, mas Ezequiel oferece uma interpretação particularmente importante: “Eis qual foi a culpa de Sodoma: orgulho, fartura de pão e despreocupada tranquilidade, mas não amparava o pobre e o necessitado” (Ez 16,49). A denúncia profética revela que o pecado não está somente em atos individuais, mas também em estruturas de indiferença. Uma sociedade que possui abundância e permite que pessoas sejam descartadas precisa escutar novamente essa palavra. A fé não pode ser uma cortina colocada diante da desigualdade.

É nesse ponto que a primeira leitura de Jó ilumina profundamente o Evangelho. Jó pergunta por que seus amigos o tratam como culpado quando ele está sofrendo e clama: “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25). O sofrimento humano não é automaticamente prova de culpa. Essa afirmação precisa ser ouvida numa sociedade que frequentemente responsabiliza a vítima por sua própria dor. 

  • O pobre é acusado de não ter se esforçado
  • O dependente é reduzido ao vício
  • A mulher violentada é interrogada sobre sua conduta
  • O desempregado é culpabilizado por sua situação
  • O doente é julgado moralmente. 

Jó rompe essa lógica. O sofrimento exige proximidade, não acusação. E Lucas 10 envia discípulos justamente para lugares onde pessoas precisam encontrar paz, cuidado e esperança. O Salmo proclamado nesse contexto recorda que o Senhor é luz, salvação e fortaleza. A fé bíblica não nega a escuridão; atravessa-a. O discípulo não é enviado porque possui todas as respostas, mas porque recebeu uma esperança que precisa tornar-se serviço. A comunidade cristã deve ser lugar onde a pessoa ferida possa respirar novamente, onde a verdade não seja usada para esmagar, onde a correção não destrua a dignidade e onde a misericórdia não seja confundida com permissividade. A profecia cristã denuncia o pecado justamente porque acredita na possibilidade de conversão. 

A passagem, portanto, não oferece somente um programa missionário. Ela apresenta uma antropologia espiritual,  o ser humano precisa de sentido, vínculo, reconhecimento, esperança e justiça. Uma Igreja que oferece apenas respostas religiosas prontas, sem escutar a experiência humana, corre o risco de produzir dependência em vez de maturidade. O discípulo entra na casa, escuta, recebe hospitalidade, anuncia, cura e parte e não ocupa a casa. Não se torna proprietário da consciência alheia. Essa imagem deveria provocar profundo exame de consciência nas comunidades cristãs. Ministro ordenado é pastor, não proprietário. Líder religioso é servidor, não soberano. Comunidade é lugar de comunhão, não comitê de interesses. A autoridade cristã só permanece evangélica quando se deixa julgar pelo Cristo servidor.

O Reino de Deus está próximo. Essa frase não aponta simplesmente para um acontecimento futuro. O Reino começa a aparecer quando a realidade humana é tocada pela justiça de Deus. Aproxima-se quando uma criança deixa de passar fome, quando uma vítima encontra proteção, quando uma família encontra reconciliação, quando um trabalhador recebe dignidade, quando alguém discriminado recupera sua voz, quando uma comunidade rompe com o racismo, quando uma liderança abandona a vaidade, quando uma religião deixa de manipular e começa a formar consciências livres, responsáveis e solidárias. O Reino aproxima-se quando a misericórdia se torna prática. Mateus 25,31-46 mostra que o encontro com o necessitado possui dimensão escatológica. Não existe neutralidade diante da fome, da violência e da humilhação humana. Por isso Lucas 10 permanece uma palavra incômoda. Jesus continua caminhando à frente, e os discípulos precisam caminhar atrás dele. A Igreja não é chamada a ocupar o lugar de Cristo, mas a preparar seus caminhos. Somos enviados como cordeiros, não como lobos; como servidores, não como dominadores; como hóspedes, não como proprietários; como testemunhas, não como donos da verdade. O mundo continua sendo uma grande colheita, marcada por sofrimento e esperança. Há casas esperando paz, pessoas esperando cuidado, consciências procurando sentido e sociedades necessitando de justiça. A pergunta decisiva não é quantas pessoas frequentam nossos templos, mas que transformação acontece porque o Evangelho passou por nossas vidas. Que o Senhor da colheita nos livre da religião vazia, da vaidade espiritual, da manipulação e da indiferença. 

Que  Jesus nos envie.e nos conceda coragem profética para denunciar aquilo que destrói a dignidade humana e  também  nos conceda  a humildade suficiente para reconhecer nossas próprias contradições. E que, caminhando com Jesus, possamos entrar nas estradas de nosso tempo anunciando não uma religião de medo, mas a Boa Nova que cura, reconcilia, liberta e devolve esperança: o Reino de Deus está próximo. 

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 27 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,46-50.

A liturgia da 26ª segunda-feira do Tempo Comum  no trás Lucas 9,46-50 no calendário romano. O Evangelho é proclamado depois da primeira leitura de Jó 1,6-22 e do Salmo 16(17), e aparece imediatamente depois de Lucas 9,43b-45, proclamado no sábado anterior, quando Jesus anuncia novamente que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. Essa sequência litúrgica é importante porque impede que a discussão dos discípulos sobre quem seria o maior seja lida como um episódio isolado. Lucas coloca a disputa por grandeza imediatamente depois do anúncio da paixão, criando um contraste deliberadamente desconcertante: 

  • Enquanto Jesus fala de entrega, os discípulos pensam em posição
  • Enquanto o Mestre anuncia vulnerabilidade, eles discutem precedência
  • Enquanto Jesus caminha para Jerusalém e para a cruz, seus seguidores ainda carregam dentro de si uma expectativa de poder. 
O calendário litúrgico, portanto, permite perceber uma unidade narrativa que o leitor poderia perder se separasse artificialmente os episódios. Outras tradições cristãs históricas organizam suas leituras de maneira diferente, pois não existe um único lecionário utilizado por todas as Igrejas, mas a diversidade dos calendários não elimina a convergência fundamental em torno da tradição evangélica: Jesus redefine a grandeza, deslocando-a do domínio sobre os outros para a capacidade de acolher, servir e colocar-se junto daqueles que não ocupam posições de prestígio. Lucas conduz o leitor até essa cena por um caminho cuidadosamente construído. Em Lucas 9,1-6, proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, Jesus envia os Doze para anunciar o Reino de Deus e curar os enfermos. Em Lucas  9,10-17, a multidão faminta coloca diante dos discípulos uma necessidade concreta que eles não podem simplesmente transferir para outro lugar. O problema do pão passa a fazer parte da missão e em Lucas  9,18-22 na sexta-feira da 25ªsemanadoTempoComum, Pedro reconhece Jesus como o Cristo, mas imediatamente precisa aprender que o Messias não corresponde às expectativas triunfalistas que poderiam acompanhar esse título logo após Lucas 9, 7-9 quando Herode deseja saber quem é Jesus. 
Jesus ao  anunciar sua paixão, a cruz e a necessidade de perder a vida para encontrá-la tal contexto ocorre  com os discípulos  logo apos lucas  9,28-36, a transfiguração manifesta a glória do Filho, mas a experiência da glória não elimina o caminho do sofrimento. Logo depois, quando todos estão admirados com as obras realizadas por Jesus, ele declara que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. É exatamente nesse momento que os discípulos começam a discutir sobre quem seria o maior. A sequência revela uma contradição profundamente humana: Jesus está ensinando uma lógica de entrega, enquanto eles ainda raciocinam segundo uma lógica de posição. O Evangelho não esconde essa imaturidade porque não pretende construir uma imagem idealizada dos primeiros discípulos. Ao contrário, mostra homens que amam Jesus, recebem uma missão e, simultaneamente, precisam permitir que sua maneira de pensar seja transformada pelo caminho do Mestre.

Lucas  ao afirma que surgiu entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior,  não se trata simplesmente de uma curiosidade sobre cargos ou funções. A pergunta revela uma forma de construir identidade por meio da comparação. A pessoa deseja saber quem é perguntando onde está em relação aos outros, a grandeza passa a depender da posição ocupada numa escala de reconhecimento e  esse mecanismo não pertence apenas ao mundo antigo. Ele continua presente na experiência humana contemporânea, nas relações familiares, profissionais, políticas, religiosas e digitais. A comparação pode produzir competição permanente porque o valor pessoal passa a depender da superioridade percebida diante de alguém. 

  • Em vez de perguntar quem sou e para que existo, o indivíduo passa a perguntar se é mais reconhecido, mais influente, mais inteligente, mais rico, mais importante ou mais próximo do centro do poder do que os outros. 

A disputa dos discípulos, portanto, possui uma dimensão antropológica e psicológica profunda. Eles não estão apenas discutindo posições; estão tentando estabelecer seu próprio valor dentro do grupo. A linguagem bíblica do coração ajuda a compreender a profundidade dessa questão, na Escritura, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o centro da pessoa, onde desejos, decisões, projetos e orientações fundamentais se articulam. 

  • Jeremias 17,10 apresenta Deus como aquele que perscruta o coração e examina os pensamentos.
  • O Salmo 139 afirma que Deus conhece os caminhos humanos antes mesmo que sejam plenamente expressos. 
Jesus, portanto, não precisa apenas corrigir o comportamento externo dos discípulos. Ele precisa atingir a fonte interior da disputa. A ambição pode aparecer revestida de linguagem religiosa e até de aparência de serviço. Alguém pode pregar para ser admirado, estudar para humilhar quem sabe menos, coordenar para controlar, servir para acumular reconhecimento ou ocupar um ministério para transformar uma responsabilidade comunitária em território pessoal. A autoridade, entretanto, não é apresentada por Jesus como um mal em si mesma. Toda comunidade necessita de responsabilidades, organização, liderança e discernimento. O problema começa quando a missão se transforma em propriedade, quando a autoridade deixa de ser serviço e passa a funcionar como mecanismo de autopromoção, imunidade ou domínio sobre a consciência dos outros. É nesse contexto que Jesus realiza um gesto simples e profundamente subversivo. Ele toma uma criança, coloca-a junto de si e utiliza aquela presença para ensinar aos discípulos o que significa ser grande. Para compreender o gesto, é necessário evitar uma leitura sentimental que simplesmente projete sobre o mundo antigo a imagem moderna da criança como centro afetivo da família. No ambiente mediterrâneo do primeiro século, a criança dependia profundamente dos adultos e possuía pouca autonomia social, econômica e jurídica. Não representava prestígio, poder ou capacidade de retribuição. Sua condição era marcada pela dependência. Por isso, o gesto de Jesus não deve ser reduzido à ideia abstrata de que crianças são inocentes e, por isso, devemos imitá-las. O ponto narrativo é mais radical: Jesus coloca no centro alguém que não ocupava o centro. Ele introduz na discussão sobre grandeza uma pessoa cuja posição social não conferia prestígio. Aquele que os discípulos provavelmente não escolheriam como referência para uma disputa de poder torna-se a chave para compreender a grandeza no Reino de Deus.

Jesus não responde à pergunta sobre quem é o maior colocando alguém acima dos demais; ele coloca uma criança no meio deles e, assim, muda a própria pergunta. Essa inversão é essencial. O Reino de Deus não cria uma competição religiosa mais sofisticada na qual os humildes competem para demonstrar quem é o mais humilde. Jesus desmonta a própria lógica que transforma a dignidade em uma escala de superioridade. A criança torna-se sinal de uma condição que exige acolhimento, cuidado e responsabilidade. A grandeza passa a ser medida não pelo domínio exercido sobre aqueles que estão abaixo, mas pela disposição de aproximar-se daqueles que não possuem poder para oferecer prestígio em troca. Por isso, a palavra de Jesus sobre receber uma criança em seu nome possui uma profundidade cristológica. Quem recebe uma criança em nome de Jesus recebe o próprio Jesus, e quem recebe Jesus recebe aquele que o enviou. A cadeia da acolhida revela uma teologia da presença e da missão: o enviado não está separado daquele que o envia. Acolher aquele que não pode retribuir torna-se, portanto, uma forma concreta de acolher o próprio Deus. A lógica atravessa toda a Escritura. 

  • Êxodo 3,7-10, Deus escuta o clamor dos escravizados e envia Moisés para libertá-los. 
  • Isaías 58,6-7, o culto agradável ao Senhor está ligado ao rompimento das opressões, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre. 
  • Amós 5,21-24 denuncia uma religiosidade que celebra solenidades enquanto tolera injustiça e exige que a justiça corra como água. 
  • Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. 
  • No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes. 
  • Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão em termos de boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e restauração aos oprimidos.
 A criança de Lucas 9 pertence, portanto, à mesma gramática bíblica da inversão pela qual Deus revela sua presença justamente onde a lógica do prestígio tende a enxergar pouca importância. Quando Jesus afirma que o menor entre todos é grande, ele não está simplesmente criando uma nova tabela de posições. Ele está questionando o próprio princípio segundo o qual o valor humano depende do lugar ocupado diante dos outros. 

  • Marcos 9,33-37 torna explícita a relação entre o primeiro lugar e o serviço, afirmando que quem deseja ser o primeiro deve ser o último e servo de todos. 
  • Mateus 18,1-5 aproxima a pergunta sobre quem é o maior da criança e relaciona essa questão à conversão e à acolhida dos pequenos.
 Lucas possui sua própria ênfase narrativa: coloca a criança ao lado de Jesus e estabelece uma relação entre acolhida, missão e representação daquele que enviou o Filho. As diferenças entre os Evangelhos não precisam ser apagadas em uma harmonização artificial. Marcos enfatiza o serviço, Mateus aprofunda a conversão comunitária e a responsabilidade pelos pequenos, enquanto Lucas relaciona a acolhida do pequeno com a própria acolhida de Jesus e do Pai. As três tradições preservam, entretanto, a mesma ruptura fundamental com uma mentalidade baseada no prestígio. A grandeza cristã, desse modo, não consiste em ocupar uma posição superior, mas em assumir uma existência orientada para o outro. Isso muda também a compreensão da autoridade. O Evangelho não elimina autoridade, liderança ou organização; ele redefine sua finalidade. A autoridade cristã encontra sua legitimidade quando protege, serve, orienta, corrige com justiça, presta contas e cria condições para que os outros cresçam. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para servir e para responder diante daqueles que dependem daquela autoridade. Em Marcos 10,42-45, Jesus contrapõe o modelo dos governantes que dominam ao caminho do Filho do Homem que serve. Em João 13,1-17, o lava-pés transforma essa lógica em gesto corporal. O poder, no Evangelho, não desaparece; ele é convertido em serviço. Quando uma função religiosa passa a funcionar como privilégio, blindagem pessoal ou instrumento de dependência, ela se distancia da lógica apresentada pelo próprio Cristo.

A segunda cena de Lucas 9,46-50 parece mudar de assunto, mas na verdade revela a mesma raiz espiritual. João informa que os discípulos encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque ele não caminhava com eles. O problema agora não é apenas quem é o maior dentro do grupo, mas quem possui o direito de agir fora dele. Primeiro os discípulos querem saber quem ocupa o primeiro lugar entre os seus; depois querem impedir alguém que não pertence ao círculo. Em ambos os casos aparece a mesma tentação de controlar a definição de quem importa, quem pertence e quem pode participar da ação de Deus. A expressão “não anda conosco” é reveladora porque desloca o centro da missão: em vez de perguntarem se uma pessoa está libertando alguém do sofrimento, preocupam-se com sua vinculação ao grupo. Jesus rejeita essa lógica. O bem realizado por outro não precisa carregar a assinatura dos discípulos para ser reconhecido como bem. A questão não significa que Jesus esteja ensinando ausência de discernimento. O Novo Testamento conhece a necessidade de examinar os espíritos, avaliar ensinamentos e distinguir verdade de engano. Primeira João 4,1, por exemplo, recomenda que os espíritos sejam provados. Paulo também oferece critérios para discernir a vida comunitária e seus frutos. O problema é transformar discernimento em monopólio. Discernir significa avaliar segundo a verdade e os frutos; monopolizar significa presumir que somente aquilo que passa pelo nosso controle pode ser legítimo. Lucas 9,50 preserva uma palavra de Jesus que impede essa captura da ação de Deus: “quem não é contra vós é a vosso favor”. A fidelidade a Cristo não significa controlar tudo aquilo que Deus pode realizar por meio de pessoas que não pertencem ao nosso círculo.

Essa advertência possui grande força para as comunidades cristãs contemporâneas. Toda religião organizada corre o risco de transformar fidelidade em propriedade. Um ministério pode tornar-se território pessoal, um carisma pode transformar-se em marca, uma liderança pode exigir dependência emocional e uma estrutura religiosa pode começar a agir como se Deus estivesse obrigado a respeitar suas fronteiras institucionais. O problema torna-se ainda mais grave quando a linguagem espiritual é utilizada para capturar a consciência. A autoridade religiosa pode ser apresentada como vontade divina, a discordância pode ser chamada de rebeldia, perguntas legítimas podem ser tratadas como falta de fé e vítimas podem ser silenciadas em nome da preservação da instituição. Nesse ponto, a religião deixa de conduzir a pessoa à liberdade diante de Deus e começa a produzir dependência diante de líderes.

Jesus oferece outro caminho. Ele não permite que seu nome seja transformado em propriedade privada ou em cabo eleitoral de A ou B. Sua missão não é criar uma elite religiosa capaz de controlar o acesso ao sagrado, mas anunciar e manifestar o Reino de Deus. A comunidade cristã precisa, portanto, aprender a discernir sem controlar, corrigir sem humilhar, exercer autoridade sem dominar e proteger a verdade sem fabricar donos de Deus. O Evangelho não autoriza ninguém a colocar-se no lugar da consciência do outro. A fé cristã pode orientar, ensinar e corrigir, mas não deve transformar o nome de Deus em instrumento para impedir a responsabilidade pessoal, a investigação honesta e a dignidade humana.  Jesus viveu em uma sociedade mediterrânea estruturada por relações de honra e vergonha, patronagem, hierarquias familiares, diferenças econômicas e formas religiosas de pertencimento. A Galileia e a Judeia estavam inseridas no mundo político do Império Romano, embora apresentassem configurações locais complexas e diferentes níveis de administração e autonomia. Nesse universo, honra pública constituía importante forma de capital social. Ser reconhecido como maior significava possuir precedência, voz, influência e capacidade de estabelecer relações favoráveis. A pergunta dos discípulos não é, portanto, uma curiosidade psicológica desligada do mundo social. Ela participa de uma cultura em que posição e dignidade frequentemente se confundiam. Jesus interrompe essa associação. Ele não afirma que responsabilidades sejam desnecessárias, mas recusa a ideia de que uma pessoa seja mais digna porque ocupa uma posição superior.

Ainda hoje a grandeza pode ser medida por seguidores nas redes sociais, patrimônio, visibilidade, cargo, títulos, influência política, proximidade com pessoas poderosas, consumo ou capacidade de produzir audiência. A atenção tornou-se uma espécie de moeda social. Nesse ambiente, o outro pode deixar de ser próximo para tornar-se concorrente, e o valor da pessoa pode ser calculado segundo aquilo que ela consegue produzir, exibir ou devolver. A lógica de Lucas 9 nos obriga a perguntar quem permanece invisível quando construímos nossas prioridades. A pessoa em situação de rua pode ser vista apenas como problema urbano; o migrante pode ser reduzido a estatística; o trabalhador precarizado pode ser lembrado somente quando sua ausência interrompe algum serviço; a criança vítima de violência pode desaparecer do debate quando sua história deixa de produzir audiência. A criança colocada por Jesus no centro da cena questiona precisamente uma sociedade que tende a conceder visibilidade proporcionalmente ao poder de quem aparece. E essa inversão também desafia a incoerência de uma sociedade que afirma proteger os vulneráveis enquanto tolera fome, abandono, violência, exploração, racismo, desigualdade e falta de oportunidades. Uma comunidade pode construir estruturas religiosas grandiosas e permanecer indiferente ao sofrimento cotidiano. Pode falar continuamente sobre família e ignorar crianças expostas à violência. Pode defender a vida em linguagem abstrata e, ao mesmo tempo, não se comprometer com as condições concretas necessárias para que a vida floresça. Tiago 2,14-17 pergunta qual é o valor de uma fé que deseja paz ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. A nossa  fé  não devia  permitir a  separação  entre o culto e a justiça. A fé não pode funcionar como anestesia diante das estruturas que produzem sofrimento.

A Igreja necessita de ministérios, responsabilidades, organização e autoridade. O problema aparece quando a função se converte em privilégio, quando a autoridade passa a significar imunidade à correção, quando a voz de quem sofre é considerada menos digna de escuta simplesmente porque não possui cargo ou título, ou quando uma instituição protege sua imagem em detrimento da verdade. Jesus coloca uma criança ao lado de si, e esse gesto estabelece uma medida para o exercício do poder. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para proteger os vulneráveis, prestar contas e ouvir aqueles que possuem menos voz. A autoridade cristã não deveria perguntar primeiro quantas pessoas obedecem, mas quantas pessoas encontram proteção, dignidade, liberdade e espaço para crescer.

A narrativa de Lucas mostra que essa conversão não acontece de uma vez e em  Lucas 9,51, Jesus toma a decisão de caminhar para Jerusalém. O caminho do Messias será marcado por rejeição, sofrimento, morte e ressurreição. A discussão sobre grandeza ocorre, portanto, diante de uma cruz que os discípulos ainda não conseguem compreender. Mais tarde, em Lucas 22,24-27, já próximo da paixão, eles voltam a discutir sobre quem seria o maior. Jesus responde novamente que está entre eles como aquele que serve e essa repetição é teologicamente importante porque mostra que o discipulado é um processo. Os discípulos recebem a missão, experimentam o poder de anunciar, presenciam milagres, reconhecem Jesus como Messias e, mesmo assim, continuam carregando estruturas de pensamento incompatíveis com o caminho da cruz. O Novo Testamento não esconde esse processo. A comunidade apostólica aprende, erra, discerne, entra em conflito e precisa ser corrigida. Essa honestidade impede tanto a arrogância institucional quanto o desespero diante das fragilidades humanas. A pergunta profética que nasce de Lucas 9,46-50, portanto, não é simplesmente quem ocupa o primeiro lugar. A pergunta mais profunda é:

  •  Quem está sendo colocado no centro quando decidimos, distribuímos recursos, exercemos autoridade e definimos quem merece ser ouvido.
  1.  Uma paróquia pode possuir muitas atividades e ainda estar organizada em torno da visibilidade de poucos
  2.  Um movimento pode denunciar injustiças externas e reproduzir autoritarismo internamente
  3. Uma liderança pode falar constantemente sobre humildade e produzir dependência. 
  4. Uma instituição pode defender a dignidade humana em seus documentos e tratar pessoas concretas como inconvenientes quando elas ameaçam sua imagem. 
O Evangelho exige que também examinemos o modo como utilizamos o poder quando ele passa por nossas mãos, não basta denunciar o poder quando está nas mãos dos adversários, a pergunta de Jesus torna-se especialmente séria quando o poder está do nosso lado..Também é necessário reconhecer o mecanismo que sustenta muitas dessas disputas. A comparação oferece ao indivíduo uma maneira aparentemente simples de definir seu valor: 

  • Sou alguém porque sou mais reconhecido do que outro. 
  • porque tenho mais influência.
  • porque minha opinião pesa mais
  •  porque pertenço a um grupo considerado superior. 
O problema é que essa identidade precisa ser constantemente defendida. Quem constrói seu valor sobre superioridade precisa encontrar continuamente alguém que esteja abaixo. O Evangelho rompe esse mecanismo ao substituir a pergunta “sou maior que quem?” por outra completamente diferente: “a quem estou servindo?”. A primeira pergunta constrói identidade por comparação; a segunda constrói identidade por responsabilidade. Na lógica de Jesus, a maturidade não consiste em vencer a competição pela humildade, mas em deixar de precisar da competição para saber quem somos. Por isso, Lucas 9,46-50 permanece como palavra de juízo e também como palavra de esperança. 

  • É juízo contra a soberba que transforma serviço em autopromoção, contra a religião que fabrica donos de Deus, contra a instituição que esquece os pequenos e contra a comunidade que confunde unidade com uniformidade. 
  • Mas é também esperança porque Jesus não abandona os discípulos por causa de sua imaturidade. Ele os educa. Coloca o pequeno no centro, amplia o horizonte da missão e ensina que o bem não precisa carregar nossa assinatura para ser reconhecido como bem. 
O Reino de Deus cresce quando pessoas encontram libertação, quando vítimas são ouvidas, quando famintos recebem pão, quando crianças são protegidas, quando pobres recuperam dignidade e quando comunidades aprendem a servir sem exigir aplausos. O contraste entre Lucas 9,43b-45 e Lucas 9,46-50 continua sendo  uma das imagens mais fortes para compreender o discipulado cristão. Jesus anuncia que será entregue, enquanto os discípulos discutem quem será o maior. O Filho do Homem caminha em direção à vulnerabilidade, enquanto seus seguidores ainda imaginam a grandeza como posição. A cruz revela, então, o verdadeiro critério da autoridade cristã. O Cristo que será entregue não conquista sua grandeza dominando os outros, mas oferecendo-se por eles. Por isso, qualquer autoridade cristã que se afaste radicalmente da lógica da entrega perde o centro cristológico de sua própria legitimidade. A cruz não é apenas um acontecimento do passado; ela é também o critério pelo qual o poder cristão deve ser julgado.

Que este Evangelho atravesse nossas consciências como palavra viva e revele as disputas escondidas em nosso coração, as estruturas que produzem pequenos e as formas religiosas pelas quais tentamos transformar Deus em instrumento de poder. Que a Igreja tenha coragem de renunciar ao prestígio que não nasce do serviço e reconheça a ação de Deus onde a vida está sendo restaurada, mesmo quando essa ação não acontece dentro das fronteiras que gostaríamos de controlar. Que nossas comunidades sejam conhecidas não pelo tamanho de seus templos, pela celebridade de seus líderes, pela força de suas marcas ou pela quantidade de pessoas que conseguem reunir, mas pela maneira como acolhem aqueles que nada podem oferecer em troca. A grandeza cristã não se encontra acima do outro, mas junto dele; não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que encontram espaço para respirar, crescer e recuperar dignidade. Na  verdade, Jesus não apenas responde à pergunta dos discípulo e as nossas; ele desmonta a pergunta quando ela nasce de uma lógica de competição. A criança colocada no centro revela que o Reino não começa quando os poderosos aprendem a parecer humildes, mas quando aqueles que normalmente seriam empurrados para a margem passam a ser vistos, ouvidos e acolhidos. A segunda cena amplia a mesma revelação ao mostrar que Deus não pode ser aprisionado pelas fronteiras de um grupo. Assim, o Evangelho confronta simultaneamente nossa necessidade de superioridade e nossa necessidade de controle. Ele nos chama a abandonar a obsessão por estar acima e a desenvolver a disposição de estar junto. Diante do Deus revelado em Jesus, toda autoridade encontra sua verdade quando se faz serviço, toda fé encontra sua autenticidade quando produz misericórdia e toda comunidade encontra sua grandeza quando sabe acolher o pequeno. A pergunta permanece diante de cada discípulo e de cada comunidade: quem estamos colocando no centro e quem estamos empurrando para a margem? A resposta será encontrada menos em nossas palavras religiosas do que na maneira como usamos o poder, tratamos os vulneráveis, reconhecemos o bem realizado por outros e organizamos nossa própria vida. Enquanto Jesus caminha para a entrega de si, o discípulo é convidado a abandonar a disputa por posição e aprender, pouco a pouco, que no Reino de Deus a verdadeira grandeza não consiste em estar acima de alguém, mas em tornar-se presença de cuidado, justiça e misericórdia junto daqueles que o mundo insiste em considerar pequenos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano.