sábado, 21 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 4,1-11 - 1⁰ domingo da quaresma

Não escrevemos esta reflexão como representantes desta ou daquela Igreja, grupo ou pastoral. Apresentamos apenas um ponto de vista, que pode ser questionado ou contestado por qualquer pessoa, mas que nasce de nossa experiência, formação e vivência, e por isso se propõe como uma reflexão sincera e legítima dentro do horizonte da fé.
Iniciamos a caminhada quaresmal sob a luz de uma arquitetura bíblica que não é mera sequência litúrgica, mas revelação progressiva da condição humana e da iniciativa divina: Gênesis 2,7-9.3,1-7 Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a) Romanos  5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19 é Mateus 4,1-11 l.  A criação manifesta vocação para comunhão; a queda revela ruptura da confiança; o salmo penitencial exprime consciência da ferida interior; a carta paulina proclama a solidariedade universal no pecado e a superabundância da graça; o deserto inaugura a nova humanidade obediente. Não se trata apenas de recordar eventos passados, mas de discernir uma estrutura permanente da história humana.

Em Gênesis 2,7 o ser humano é formado do pó da terra e recebe o sopro divino. A antropologia bíblica afirma simultaneamente fragilidade e dignidade. O pó indica limite; o sopro indica transcendência. Em seguida, Gênesis 2,15 afirma que o ser humano é colocado no jardim “para cultivar e guardar”. O verbo guardar (shamar) é o mesmo utilizado para designar a observância da aliança. A vocação humana é sacerdotal e ética. O pecado, portanto, não é apenas desobediência pontual; é abandono da missão de cuidar da vida.

A queda em Gênesis 3 nasce não da fome biológica, mas da suspeita. A serpente introduz distorção hermenêutica: “Foi mesmo assim que Deus disse?” A crise começa na interpretação da Palavra. O desejo, que em si é bom, torna-se desordenado quando rompe a confiança. Essa dinâmica será retomada em Tiago 1,14-15: o desejo seduz, concebe e gera morte. Quando Gênesis 3 apresenta o fruto como “bom para comer, agradável aos olhos e desejável para adquirir sabedoria” (Gn 3,6), delineia-se uma tríplice estrutura do desejo que reaparecerá no deserto.

A liturgia quaresmal, portanto, não se esgota na contraposição entre Adão e Cristo. Ela revela uma pedagogia divina que atravessa toda a Escritura. No jardim, o alimento é abundante; a tentação nasce da desconfiança. No deserto, a fome é real; a tentação nasce da instrumentalização do poder. Essa inversão é teologicamente decisiva. Jesus não enfrenta o mal em condições ideais, mas na vulnerabilidade concreta. Isso revela uma cristologia profundamente encarnada. Ele não responde como um ser distante do sofrimento humano, mas como aquele que partilha da fragilidade.

O paralelo com o deserto revela inversão redentora. No Éden há abundância e proximidade; no deserto há escassez e solidão. No Éden, a humanidade apropria-se; no deserto, o Filho confia. A tradição de Irineu de Lião desenvolveu a teologia da recapitulação: Cristo refaz o caminho de Adão, não por anulação, mas por obediência histórica concreta. Paulo amplia essa tipologia em Romanos 5 e 1 Coríntios 15,22: se por um homem entrou o pecado, por um homem vem a vida.

O deserto evoca também o Êxodo. Em Êxodo 16, o povo murmura pela fome; em Êxodo 17, pela sede; em Números 14, pelo medo. Em Deuteronômio 8, Moisés interpreta o deserto como pedagogia que revela o que está no coração. Quando Jesus responde às tentações citando Deuteronômio 6–8, assume o lugar de Israel. Ele encarna a fidelidade que o povo não sustentou. O Filho torna-se o Israel fiel, condensando em si a vocação coletiva.

O deserto é lugar de constituição identitária de Israel. A experiência do Êxodo, narrada em Êxodo 12–17, não é apenas libertação política, mas formação espiritual. O maná em Êxodo 16 ensina dependência diária. Não podia ser acumulado. A tentativa de armazenar produzia corrupção. Há aqui uma crítica estrutural à lógica de acumulação. A pedagogia do maná confronta sistemas econômicos baseados na retenção excessiva. Jesus, ao citar Deuteronômio 8,3, não apenas recita um texto; ele reivindica toda essa memória histórica. o deserto simboliza desinstalação. As falsas seguranças são removidas. Em sociedades marcadas por consumo contínuo, o jejum torna-se ato contracultural. Ele denuncia a absolutização da necessidade. 

  • A primeira tentação toca o eixo do prazer e da necessidade. “Transforma estas pedras em pão.” A fome é real. O problema não está na necessidade, mas na instrumentalização do poder para satisfação autossuficiente. Em uma cultura contemporânea marcada pelo consumo permanente, a tentação de reduzir vida à satisfação imediata tornou-se sistema. A economia transforma carência em mecanismo estrutural de lucro. A fome do mundo convive com desperdício abundante. Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem.” O pão é necessário, mas não absoluto. Em Mateus 14 e 15, a multiplicação dos pães revela alternativa: partilha gera abundância. A lógica do Reino subverte a lógica da acumulação.Essa dimensão dialoga com mecanismos psicológicos de compensação. A ansiedade busca alívio imediato. A cultura digital acelera impulsos e encurta espera. A espiritualidade bíblica, porém, forma paciência histórica. O jejum quaresmal não é desprezo do corpo, mas reordenação do desejo. Agostinho falará do amor desordenado como raiz da queda. Converter-se é ordenar o amor. A primeira tentação não é simplesmente sobre pão; é sobre transformar dom em direito absoluto e poder em instrumento privado. A fome de Jesus revela humanidade plena. Sua resposta revela liberdade interior.
  • A segunda tentação desloca-se para o eixo do ser, da identidade e da visibilidade. “Se és Filho de Deus…” A identidade já havia sido proclamada no batismo em Mateus 3,17. A tentação consiste em provar aquilo que já foi dado gratuitamente. Trata-se da sedução do espetáculo religioso. O salto do templo é dramatização pública da fé. A religião pode tornar-se palco de autopromoção. Jeremias 17,9 alerta para a ambiguidade do coração humano. O Salmo 131 propõe outra via: confiança silenciosa como criança nos braços da mãe. Vivemos era da performatividade. Identidade é medida por seguidores, visibilidade e validação pública. O templo contemporâneo pode ser qualquer plataforma onde fé vira produto e liderança espiritual converte-se em celebridade. A resposta de Jesus recusa manipular Deus para legitimar autoimagem. Fé não é espetáculo; é confiança perseverante. A voz do batismo precede qualquer ação pública. Em Romanos 8,15, Paulo fala do Espírito que clama “Abbá”. A filiação não é conquista; é dom. A tentação consiste em transformar dom em exibição. Essa tentação aprofunda a questão hermenêutica. O adversário cita o Salmo 91, texto de confiança. No entanto, retira-o de seu contexto de confiança humilde e o transforma em promessa de imunidade espetacular. A Escritura pode ser usada para legitimar imprudência ou manipulação religiosa. Esse conflito interpretativo atravessa a história. Em Mateus 22,29, Jesus afirma que o erro nasce do desconhecimento das Escrituras e do poder de Deus. A verdadeira hermenêutica integra texto e espírito, promessa e responsabilidade.
  • A terceira tentação toca o eixo do ter e do poder. “Tudo isto te darei.” O poder político, econômico e simbólico aparece como atalho messiânico. O Antigo Testamento já conhecia essa ambiguidade. Em 1 Samuel 8, o pedido de um rei “como as outras nações” nasce do desejo de segurança, mas produz centralização e opressão. Daniel 7 descreve impérios como bestas. Apocalipse 13 retoma a imagem para denunciar poderes que exigem adoração. A recusa de Jesus revela que o Reino não nasce da dominação. A história mostra que toda vez que fé se alia a projetos de supremacia, repete-se a tentação do monte alto. A instrumentalização religiosa do poder político distorce o Evangelho. A cruz, e não o trono imperial, torna-se sinal do Reino. Em Mateus 20,25-28, Jesus redefine autoridade como serviço. O poder é transfigurado em entrega. A própria Igreja nem sempre resistiu à tentação do poder. A partir do século IV, com Constantino, iniciou-se uma relação complexa entre fé e império. Essa memória histórica exige discernimento. Sempre que a fé se funde de modo acrítico com projetos políticos autoritários, o deserto é esquecido. O Cristo que rejeitou atalhos é substituído por um messias utilitário. A terceira tentação, relacionada aos reinos do mundo, precisa ainda ser lida à luz da tradição profética e apocalíptica. Em Daniel 2 e 7, os impérios são representados por estátuas frágeis e bestas violentas. O poder que se absolutiza torna-se monstruoso. Apocalipse 13 retoma essa imagem ao descrever a besta que exige adoração. Jesus recusa essa lógica. Sua realeza, conforme João 18,36, não nasce da violência. A cruz revela um reinado paradoxal.

A patrística oferece chave adicional.

  •  Irineu vê Cristo como aquele que recapitula toda a história humana.
  •  Agostinho desenvolverá a noção de dois amores que constroem duas cidades: amor de si até o desprezo de Deus e amor de Deus até o desprezo de si. As tentações do deserto podem ser lidas à luz dessa tensão. O amor desordenado gera idolatria; o amor ordenado gera liberdade.

A comparação sinótica aprofunda o sentido. Mateus culmina no monte, antecipando a autoridade universal de 28,18. Lucas encerra no templo, preparando Jerusalém como centro do drama pascal e da missão em Atos. Marcos menciona feras e anjos, sugerindo conflito cósmico e reconciliação escatológica. Cada evangelista oferece lente teológica própria, mas converge na afirmação da fidelidade do Filho.

Sacramentalmente, o deserto prepara o Batismo e a Eucaristia. Romanos 6 fala da morte e ressurreição com Cristo. João 6 apresenta o pão da vida. A Quaresma, historicamente ligada à catequese batismal, recorda que a vida cristã nasce de travessia. Não há ressurreição sem deserto.

Romanos 8 amplia a visão para dimensão cósmica: a criação geme aguardando redenção. Colossenses 1,20 anuncia reconciliação de todas as coisas. A vitória no deserto não é apenas moral; é início da restauração universal. A obediência do Filho inaugura nova criação.

Os Padres do Deserto compreenderam que o combate não era contra a matéria, mas contra paixões desordenadas. A luta espiritual revela dimensão interior da história. A tentação do pão reaparece na idolatria do consumo; a do templo, na busca de reconhecimento religioso; a do reino, na sacralização de projetos de dominação.

Isaías 58 denuncia jejum que ignora justiça. Mateus 23 critica religiosidade ostentatória. A verdadeira conversão une oração, partilha e compromisso com os vulneráveis. A espiritualidade bíblica não separa culto e ética.

Escatologicamente, Apocalipse 21–22 descreve cidade onde não há mais fome nem opressão. A fidelidade de Cristo no deserto aponta para essa plenitude. Hebreus 4,15 recorda que ele foi tentado em tudo, menos no pecado, tornando-se solidário conosco.

Do ponto de vista antropológico, alimento, honra e poder são eixos estruturantes de qualquer sociedade. Em culturas antigas, banquetes afirmavam status; honra definia lugar social; domínio territorial garantia sobrevivência. A narrativa do deserto não nega essas dimensões, mas redefine sua centralidade. O pão deve ser partilhado, a honra deve ser recebida como dom, o poder deve ser exercido como serviço.

A teologia paulina amplia a dimensão cósmica dessa vitória. Em Romanos 8,19-22, toda criação geme aguardando redenção. O pecado não afeta apenas indivíduos, mas estruturas e ecossistemas. A recusa de Cristo no deserto inaugura processo de restauração que culmina na nova criação descrita em Apocalipse 21–22. O deserto antecipa o jardim restaurado.

Há ainda uma dimensão escatológica implícita. Em Mateus 4,11, os anjos servem a Jesus. Esse detalhe ecoa a promessa de reconciliação da criação. Marcos menciona que ele estava entre as feras, evocando Isaías 11,6, onde lobo e cordeiro convivem em paz. O deserto torna-se sinal do mundo reconciliado.

A espiritualidade quaresmal, portanto, não é moralismo, mas reconfiguração estrutural do desejo. O jejum confronta a compulsão. A oração confronta o narcisismo. A esmola confronta a acumulação. Essas práticas não são meros exercícios individuais; possuem dimensão política e social. Elas questionam sistemas que transformam necessidade em lucro, fé em espetáculo e poder em dominação.

A tipologia Adão-Cristo não é simples comparação literária. Ela expressa mudança de paradigma antropológico. Em Adão, a humanidade busca ser como Deus pela apropriação. Em Cristo, a humanidade participa da vida divina pela comunhão obediente. Filipenses 2,6-8 descreve o esvaziamento como caminho de exaltação verdadeira.

O deserto também revela que tentação não é pecado. Hebreus 4,15 afirma que ele foi tentado em tudo, exceto no pecado. Isso confere dignidade à luta humana. A fidelidade de Cristo não elimina conflito; ela oferece horizonte de esperança.

Assim, a caminhada quaresmal é mais que memória ritual. É inserção na dinâmica da nova criação. O pó animado pelo sopro encontra no Espírito do Ressuscitado sua plenitude. A suspeita do jardim é vencida pela confiança do Filho. O pecado estrutural é confrontado pela graça superabundante.

Prazer, ser e ter continuam organizando culturas. O Evangelho não os destrói; redime-os. Comer torna-se partilhar. Ser torna-se filiação. Ter torna-se serviço. A narrativa que começou no pó encontra no Filho obediente o novo princípio da humanidade. Onde o jardim foi perdido pela suspeita, o deserto torna-se lugar de reconquista pela confiança. A graça supera a queda. A história, marcada por falhas humanas, encontra em Cristo não fuga do mundo, mas transformação da própria condição humana.

O itinerário iniciado em Gênesis encontra sua plenitude na Páscoa. A cruz não é derrota, mas coroamento da fidelidade iniciada no deserto. A ressurreição é a confirmação de que a obediência é mais forte que o poder violento. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.  A Quaresma, portanto, não é fuga do mundo, mas aprendizagem de liberdade dentro dele. O deserto torna-se lugar de verdade. A criação ferida aguarda filhos e filhas que, unidos ao Filho obediente, escolham vida, justiça e comunhão.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 5,27-32

 No início do caminho quaresmal, no sábado depois das cinzas,  quando as cinzas ainda marcam a fragilidade humana e a liturgia nos conduz ao deserto interior, a Igreja coloca diante de nós o episódio do chamado de Levi  Lucas 5,27-32 que também  esta nos sinóticos   Mateus 9,9-13 e Marcos 2,13-17,  Não é escolha casual. A pedagogia litúrgica apresenta, logo nos primeiros passos da conversão, uma cena concreta, histórica e profundamente teológica: Jesus que passa, vê, chama e partilha a mesa com pecadores. O fato de essa narrativa estar presente nas três tradições sinóticas revela sua centralidade na memória apostólica. Não se trata apenas de registro biográfico, mas de núcleo interpretativo do próprio ministério de Cristo. Aqui se concentra uma síntese do Evangelho: iniciativa divina, ruptura existencial, misericórdia que antecede mérito e comunhão que escandaliza sistemas religiosos fechados. A Quaresma, à luz desse texto, deixa de ser mero exercício ascético ou código moral abstrato. Torna-se experiência de encontro. O chamado de Levi manifesta o dinamismo da graça que antecede qualquer purificação. Antes de exigir, Cristo se aproxima; antes de corrigir, olha; antes de condenar, convida. Romanos 5,8 recorda que Deus nos amou quando ainda éramos pecadores. A conversão cristã nasce desse primado da misericórdia.

Situado à beira do lago, num contexto de opressão fiscal romana e profundas desigualdades sociais na Galileia do século I, o chamado acontece no interior de uma estrutura marcada por injustiça. Levi não é figura abstrata; é agente inserido numa engrenagem econômica que explorava camponeses endividados. O Evangelho não ignora a realidade histórica. A graça irrompe no concreto, no lugar onde pecado pessoal e estruturas sociais se entrelaçam.

Assim, já na abertura do itinerário quaresmal, somos confrontados com uma pergunta decisiva: permanecer sentados nas nossas “coletorias”, espaços de segurança, poder ou acomodação  ou levantar-nos ao ouvir o “segue-me”? A narrativa não oferece teoria espiritual; apresenta um acontecimento que exige resposta.

O chamado de Levi é, portanto, paradigma da conversão: encontro que desloca, misericórdia que cura, comunhão que inclui e Reino que subverte fronteiras religiosas e sociais. Aqui começa a verdadeira travessia quaresmal. Lucas narra que Jesus “saiu”. O verbo é teologia em movimento. O Deus bíblico não é estático. Em Gênesis 3,8, Ele caminha pelo jardim; em Êxodo 3,7-8, desce para libertar; em Isaías 52,7, aproxima-se trazendo paz; em João 1,14, arma sua tenda entre nós. A encarnação é deslocamento. A missão é êxodo permanente. A iniciativa parte de Deus. A graça antecede o mérito.

Ele vê Levi.

Na antropologia bíblica, o olhar não é superficial. Ver é reconhecer, é atribuir dignidade. Quando Deus “viu” a opressão do seu povo (Ex 3,7), decidiu agir. O olhar de Jesus não classifica; recria. Levi, antes identificado por sua função e reputação, passa a ser identificado por um chamado. O encontro precede a exigência. Levi está sentado na coletoria. A cena é socialmente carregada. A Galileia do século I vivia sob forte pressão fiscal romana. O sistema de impostos era terceirizado; publicanos compravam o direito de arrecadar e frequentemente cobravam além do devido. Camponeses endividados perdiam terras. A concentração fundiária aumentava. A coletoria simbolizava colaboração com uma engrenagem injusta. Lucas escreve para comunidades que conhecem o peso da desigualdade. O chamado de Levi não ignora essa estrutura, mas começa pela conversão de quem está inserido nela. Ezequiel 11,19 anuncia a troca do coração de pedra por coração de carne. Sem transformação interior, reformas externas tendem a repetir opressões com nova linguagem.

“Segue-me.”

O chamado ecoa toda a Escritura: Abraão deixa sua terra (Gn 12,1), Moisés enfrenta Faraó (Ex 3,10), Samuel responde (1Sm 3,10), Isaías se oferece (Is 6,8), Eliseu abandona os bois (1Rs 19,21), pescadores deixam redes (Lc 5,11), Paulo se levanta após a queda (At 9). O discipulado implica ruptura e reorientação. Metanoia é mudança de mentalidade e de direção. Levi levanta-se e deixa tudo. O verbo “levantar-se” possui ressonância pascal. A mesma linguagem descreve a ressurreição. Toda conversão participa da dinâmica da Páscoa: morrer para um modo antigo de viver e iniciar vida nova (Rm 6,4). Em uma cultura onde riqueza significava segurança e honra, abandonar a coletoria era romper com identidade validada socialmente. O Evangelho desloca o centro do valor humano: não somos definidos pelo que acumulamos, mas por quem seguimos. Em tempos que absolutizam produtividade e performance, essa afirmação é profundamente subversiva.

A fé, nesse episódio, não aliena; desinstala. Jesus não promete prosperidade material. Afirma que o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). 1Timóteo 6,9-10 adverte contra o amor ao dinheiro; Lucas 12,15 alerta contra a avareza; 2Coríntios 8,9 recorda que Cristo, sendo rico, fez-se pobre. O discipulado não é estratégia de ascensão econômica. A bênção bíblica é comunhão com Deus, não acúmulo.

Após o chamado, Levi oferece um grande banquete. A conversão gera alegria. O Salmo 126 fala da boca cheia de riso após a restauração; Isaías 25,6 anuncia o banquete preparado para todos os povos. A mesa, na tradição bíblica, significa pertença. Comer juntos é reconhecer comunhão. Por isso a presença de publicanos e pecadores provoca escândalo.

No judaísmo do século I, “pecador” designava também categorias socialmente excluídas. A pureza ritual delimitava fronteiras. Comer com alguém era gesto teológico. Os fariseus murmuram, repetindo atitude já vista em Êxodo 16 e novamente em Lucas 15. A murmuração revela resistência à graça que ultrapassa esquemas humanos.

Jesus redefine a santidade. Ao tocar o leproso (Lc 5,13), não se contamina; comunica pureza. Em Mateus 9,13, cita Oseias 6,6: “Quero misericórdia e não sacrifício.” Isaías 1,13-17 e Amós 5,21-24 denunciam culto desvinculado da justiça. Tiago 1,27 define religião pura como cuidado dos vulneráveis. A santidade evangélica não é isolamento defensivo, mas força restauradora.

“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.”

A metáfora médica revela antropologia integral. O pecado não é apenas infração jurídica; é ruptura relacional (Gn 3–4). Jeremias 17,9 fala do coração enigmático; o Salmo 51 suplica purificação interior; 1João 1,8 alerta contra autoengano. A ironia está nos “justos”: Romanos 3,23 afirma que todos pecaram. O perigo não é reconhecer-se pecador, mas considerar-se autossuficiente. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) confirma essa verdade.

A Igreja reconhece essa condição. A Lumen Gentium 8 afirma que ela é santa e sempre necessitada de purificação. A comunidade cristã não é assembleia de perfeitos, mas de reconciliados em processo. 1Pedro 5,2-3 adverte contra o domínio; Jesus lava os pés (Jo 13,14). O clericalismo contradiz o Evangelho quando transforma serviço em privilégio.

A mesa de Levi antecipa a Eucaristia. Em Lucas 22,19, o pão é partido entre discípulos frágeis. 1Coríntios 10,16-17 afirma que, ao partilhar o mesmo pão, formamos um só corpo; 1Coríntios 11 denuncia incoerência entre altar e indiferença aos pobres. Cada celebração eucarística exige coerência ética. Não há comunhão sacramental sem compromisso com a justiça.

A conversão de Levi é também comunitária. Ele não guarda a experiência; partilha-a. Atos 2,44-45 descreve comunidade que compartilha bens. 1Coríntios 12 recorda que somos membros uns dos outros. A fé cristã não é intimismo isolado. Isaías 58 conecta jejum com libertação; Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus: justiça, misericórdia e humildade.

No contexto contemporâneo, a cultura do cancelamento fixa identidades pelo erro. Ezequiel 18 insiste que o ímpio pode converter-se e viver. Romanos 8,1 proclama que não há condenação para os que estão em Cristo. A misericórdia não elimina responsabilidade; inaugura futuro. Zaqueu restitui (Lc 19,8); Pedro é restaurado (Jo 21,17).

Há também advertência contra a instrumentalização da fé para projetos de poder. João 18,36 recorda que o Reino não se impõe pela lógica do domínio. Filipenses 2,6-11 apresenta o caminho da kenosis. Sempre que religião se converte em hegemonia cultural ou controle moral, trai o Crucificado.

A Quaresma inicia-se sob o sinal austero das cinzas: “Tu és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Não é ameaça, mas verdade antropológica. A criatura não é autossuficiente. A fragilidade não é fracasso; é condição para a graça. Quando a liturgia traça o pó sobre a fronte, desmonta a ilusão prometeica de autonomia absoluta e nos reconduz ao real. Somos finitos, vulneráveis, necessitados de redenção. Mas o profeta Joel desloca o foco do gesto exterior para a interioridade: “Rasgai o vosso coração” (Jl 2,13). A conversão bíblica não é teatralidade penitencial, mas transformação do centro da pessoa. Isaías 58 aprofunda a crítica: jejum que ignora o oprimido é caricatura religiosa. A verdadeira ascese rompe cadeias injustas, partilha o pão com o faminto, acolhe o desabrigado. A espiritualidade que não toca as estruturas da vida concreta converte-se em ritual vazio — exatamente aquilo que os profetas denunciaram com vigor.

É nesse horizonte que o chamado de Levi ilumina o início do caminho quaresmal. Conversão não é autopunição nem moralismo ansioso. É encontro que recria. Cristo não começa exigindo reparações; começa oferecendo presença. Romanos 2,4 recorda que é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento. A iniciativa é sempre divina. Ele continua passando por nossas “coletorias” contemporâneas: sistemas econômicos que naturalizam exclusões, ambientes eclesiais fechados em autorreferencialidade, discursos que confundem ortodoxia com dureza de coração, espiritualidades que protegem privilégios sob aparência de zelo religioso. O Evangelho não poupa nem a religião quando ela se torna instrumento de distinção e poder. Amós 5,24 ainda ressoa: “Corra o direito como água.”

O Ressuscitado permanece à porta (Ap 3,20). Não arromba consciências; chama. A fé não é imposição cultural, mas resposta livre. Hebreus 12,2 convida a fixar os olhos naquele que inaugura e consuma a fé. O olhar que salva antecede qualquer esforço humano.

A decisão, como em Josué 24,15, é inevitável. Permanecer sentado na segurança de estruturas conhecidas ou levantar-se para a imprevisibilidade do Reino. Defender fronteiras identitárias ou atravessá-las com misericórdia. Murmurar como quem se considera justo ou sentar-se à mesa reconhecendo-se necessitado de cura. Lucas 5,27-32 revela o núcleo pulsante do Evangelho: Deus toma a iniciativa, chama quem está à margem, moral ou social —, cura o coração ferido, desmonta barreiras de pureza excludente e transforma a mesa em espaço de reconciliação. A santidade que Jesus inaugura não é isolamento defensivo, mas comunhão restauradora.

A Quaresma começa verdadeiramente quando nos levantamos. Levantar-se é gesto pascal. É sair da lógica da autopreservação e entrar na dinâmica da graça. É abandonar a coletoria da indiferença, da autossuficiência ou do conformismo. É permitir que o Médico toque as feridas que escondemos sob discursos religiosos ou ideológicos. Cristo continua chamando. A cada geração, a cada comunidade, a cada consciência. O caminho está aberto. A resposta permanece.

DNonato - Teólogo do Cotidiano

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-15.


Na Quarta-feira de Cinzas, quando a Igreja impõe as cinzas e proclama “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) ou “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19), não se inaugura apenas um tempo litúrgico, mas um itinerário antropológico e espiritual que atravessa a história da salvação. A liturgia desse dia é austera, mas profundamente densa: Joel 2,12-18 convoca ao retorno do coração; o Salmo 50 suplica um coração puro; 2Coríntios 5,20–6,2 anuncia o tempo favorável; Mateus 6,1-6.16-18 purifica a prática da esmola, da oração e do jejum. Poucos dias depois, na sexta-feira depois das Cinzas, proclama-se Mateus 9,14-15. A pedagogia da Igreja é clara: a conversão interior anunciada na Quarta-feira encontra seu fundamento cristológico na revelação do Noivo. Mateus 9,14-15 situa-se no bloco narrativo de Mateus 8–9, onde dez milagres são organizados em dois conjuntos intercalados por ensinamentos sobre o discipulado. O evangelista não constrói uma crônica dispersa, mas uma catequese estruturada. O chamado de Mateus, a refeição com pecadores, a controvérsia sobre o jejum e as parábolas do remendo novo e do vinho novo formam um conjunto coerente. O problema levantado pelos discípulos de João não é meramente ascético; é eclesiológico e cristológico. Se os fariseus jejuam e os discípulos de João também, por que os discípulos de Jesus não o fazem? A resposta desloca o eixo da prática para a presença do Esposo.

A imagem nupcial possui densidade veterotestamentária. Oséias 2 apresenta Deus como esposo fiel diante da infidelidade de Israel. Isaías 54 proclama: “Teu criador é teu esposo”. Isaías 62 anuncia que o Senhor se alegrará com seu povo como o noivo com a noiva. Ezequiel 16 descreve a história de amor e traição. O Cântico dos Cânticos canta a reciprocidade apaixonada. Ao afirmar-se como Noivo, Jesus reivindica uma identidade divina implícita. Mateus escreve para uma comunidade que reconhece nessa linguagem o cumprimento das promessas. A hermenêutica cristã lê o texto não como abolição do jejum, mas como sua transformação pascal.

“Dias virão em que o noivo lhes será tirado.” A expressão anuncia a paixão. O verbo sugere violência, antecipando a cruz. A comunidade pós-pascal vive nesse intervalo entre a retirada e a manifestação gloriosa. O jejum cristão nasce dessa tensão escatológica. Ele não é negação da bondade da criação, pois 1Timóteo 4,4 afirma que tudo o que Deus criou é bom, mas é exercício de liberdade diante do bem criado. A Escritura apresenta múltiplas formas de jejum: Moisés jejua quarenta dias (Ex 34,28); Elias caminha sustentado pelo alimento recebido (1Rs 19,8); Davi jejua em intercessão (2Sm 12,16); Nínive proclama jejum coletivo (Jn 3,5); Ester convoca três dias de abstinência (Est 4,16). O jejum é súplica, luto, preparação, discernimento.

No Novo Testamento, além de Mateus 6 e 9, encontramos Atos 13,2-3 e 14,23, onde a comunidade jejua antes de enviar missionários e instituir presbíteros. O jejum está ligado ao discernimento e à missão. Não é gesto isolado, mas eclesial. Paulo, em 1Coríntios 9,27, fala de disciplinar o próprio corpo para não ser reprovado. Romanos 8 apresenta a luta entre carne e Espírito não como dualismo ontológico, mas como tensão ética. A antropologia bíblica não separa corpo e alma; o “coração” é centro da pessoa inteira. Jejuar é educar o desejo, ordenar o apetite, reconhecer que o ser humano não vive só de pão (Dt 8,3; Mt 4,4).

A tradição patrística aprofundou essa compreensão. São Basílio pergunta: “De que serve abster-se de carne se devoras teu irmão?” São João Crisóstomo insiste que o jejum verdadeiro é libertar o oprimido. Santo Agostinho associa jejum e caridade como duas asas da penitência. A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que a liturgia é fonte e ápice da vida cristã; a Quaresma prepara para a celebração do mistério pascal. Paulo VI, na Paenitemini, recorda que a penitência possui dimensão interior, social e eclesial. O Catecismo da Igreja Católica, nos números 1430-1439, afirma que a conversão é obra da graça e resposta humana. João Paulo II, em Reconciliatio et Paenitentia, sublinha a dimensão social do pecado. Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja.

No plano disciplinar, a Igreja Católica Romana determina jejum e abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. O jejum consiste numa refeição principal e duas menores que não se equiparem a uma refeição completa; a abstinência de carne é observada nas sextas-feiras da Quaresma, podendo ser substituída por outra forma de penitência fora do tempo quaresmal, conforme as conferências episcopais. A norma obriga os fiéis segundo idade e condição, mas sempre com prudência pastoral. A disciplina não é legalismo, mas pedagogia.

Nas Igrejas Ortodoxas, a Grande Quaresma é marcada por rigor ascético mais amplo. Tradicionalmente, abstém-se de carne, laticínios, ovos e, em muitos dias, também de azeite e vinho. O jejum é intensificado na Semana Santa. A dimensão cósmica da espiritualidade oriental percebe o jejum como restauração da harmonia entre humanidade e criação. Ele é integrado à oração litúrgica, especialmente à Liturgia dos Dons Pré-Santificados.

Na Comunhão Anglicana, a disciplina varia, mas o Livro de Oração Comum mantém a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa como dias de jejum. A ênfase recai na conversão pessoal e na responsabilidade comunitária. Em todos esses contextos, permanece a convicção de que o jejum não substitui a justiça nem dispensa a caridade.

A  histórica mostra que práticas ascéticas existem em diversas culturas. A antropologia revela que o controle ritual do alimento possui significado identitário. Contudo, no cristianismo, o jejum é inseparável do evento Cristo. Ele não é técnica de autossuperação nem mecanismo de barganha com o divino. Quando se transforma em instrumento para obter prosperidade material, distorce-se o Evangelho. A chamada teologia da prosperidade, ao prometer sucesso financeiro como sinal inequívoco da bênção, entra em tensão com textos como Lucas 9,23, que convoca a tomar a cruz, e Filipenses 2,6-11, que apresenta o esvaziamento do Filho.

A espiritualidade do “eu sozinho”, típica de uma cultura hiperindividualista, também ameaça a compreensão bíblica do jejum. Mateus 9 situa a prática no contexto de uma comunidade reunida em torno do Noivo. O Documento de Aparecida insiste que não há discípulo sem comunidade. O CELAM recorda que a conversão é pessoal e estrutural. Em um ano de eleições, quando discursos religiosos são frequentemente instrumentalizados para legitimar projetos de poder, o jejum torna-se gesto profético. Ele questiona a tentação de reduzir a fé a identidade ideológica. Ele recorda que o Reino não se identifica plenamente com nenhum projeto político.

A Campanha da Fraternidade promovida anualmente pela Igreja no Brasil sempre propõe reflexão social concreta. Independentemente do tema específico proposto para 2026, sua metodologia ver, julgar e agir convida a articular fé e realidade. O jejum quaresmal, inserido nesse contexto, não pode ignorar as feridas sociais: desigualdade, violência, manipulação de consciências, desinformação, exploração econômica. Isaías 58 permanece critério hermenêutico: o jejum que Deus deseja é soltar as correntes da injustiça, repartir o pão, acolher o pobre.

Psicologicamente, o jejum rompe padrões de consumo automático. Em sociedades marcadas por estímulos constantes e gratificação imediata, abster-se voluntariamente de alimento revela que a liberdade não coincide com satisfazer todo desejo. Ele educa a vontade, amplia a consciência, fortalece a empatia. Ao sentir a própria fome, o fiel pode lembrar-se da fome estrutural de milhões. Assim, o jejum conecta experiência pessoal e responsabilidade social.

A Quaresma não é culto à tristeza, mas caminho para a alegria pascal. A imagem do Noivo impede leitura meramente penitencialista. O jejum não nega a festa; prepara para ela. Apocalipse 19 fala das núpcias do Cordeiro. A Eucaristia é antecipação desse banquete. Ao jejuar, a Igreja intensifica o desejo da comunhão plena. A ausência sensível educa para a presença sacramental e para a esperança escatológica.

O clericalismo que tranforma o ministério em poder, denunciado reiteradamente no magistério recente, transforma práticas espirituais em instrumentos de distinção ou controle. Quando o jejum é imposto sem acompanhamento ou utilizado para medir santidade, perde-se sua natureza evangélica. O Evangelho segundo Mateus 6 adverte contra a ostentação. A penitência deve ser discreta, orientada ao Pai que vê no segredo.

A realidade contemporânea apresenta desafios inéditos: polarizações, redes sociais que amplificam conflitos, campanhas eleitorais que mobilizam símbolos religiosos. O jejum quaresmal, vivido com autenticidade, pode purificar o coração coletivo. Ele chama à escuta, ao discernimento, à responsabilidade ética. Ele impede que a fé seja reduzida a slogan.

No princípio da Quaresma, as cinzas recordam a condição mortal. No meio do caminho, o Evangelho do Noivo revela a razão do jejum. No fim, a Vigília Pascal proclama que a morte foi vencida. Entre pó e luz, a Igreja caminha sustentada pela Palavra e pelos sacramentos. O jejum, praticado segundo a disciplina católica, ortodoxa e anglicana, enraizado na Escritura e iluminado pelo magistério, permanece sinal de amor ao Esposo, de solidariedade com os pobres e de esperança no Reino.

Quando o Noivo vier em plenitude, cessará o jejum. Até lá, ele é memória da cruz, crítica profética às falsas espiritualidades, resistência ao individualismo e preparação para o banquete eterno. Em um tempo histórico complexo, inclusive marcado por processos eleitorais e tensões sociais, a Quaresma recorda que a verdadeira conversão começa no coração, se traduz em justiça e culmina na comunhão.

DNonato - Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,22-25

 

Antes de mergulhar na densidade dessa Palavra, trago um fato simples, quase banal, mas que se tornou parábola concreta para mim. Recentemente perdi meu aparelho celular. Um objeto pequeno, mas que concentra agenda, contatos, registros, memórias, fotografias, trabalho, comunicação, organização da vida. A sensação imediata foi de desorientação. Um vazio estranho. Uma espécie de amputação simbólica.

Percebi o quanto aquele instrumento havia se tornado extensão de mim mesmo. Não apenas ferramenta, mas suporte de identidade, controle e segurança. A perda expôs algo que normalmente não se percebe: nossa dependência silenciosa das coisas que nos prometem autonomia.

E, por motivos óbvios de ordem financeira, não estou em condição de simplesmente substituí-lo por outro. Essa impossibilidade concreta torna a experiência ainda mais real. Não é apenas o incômodo de um contratempo. É o limite imposto pela própria realidade material. A cultura do consumo nos acostumou a resolver perdas com novas aquisições imediatas. Quando isso não é possível, o despojamento deixa de ser teórico e se torna existencial.

Essa experiência, aparentemente trivial, tornou-se pedagógica. Perder o celular não é carregar uma cruz no sentido dramático do martírio, mas revelou o quanto estamos apegados ao controle, à conectividade constante, à sensação de domínio sobre o tempo e sobre as relações. A perda trouxe desconforto, insegurança prática e até constrangimentos, mas também uma espécie de despojamento involuntário. E ali ecoou a Palavra: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo”.

A pequena perda cotidiana iluminou a grande questão espiritual: do que, de fato, precisamos nos desapegar para seguir Cristo? O que confundimos com necessidade absoluta, mas é apenas prolongamento do ego? A Quaresma começa lembrando que somos pó. A impossibilidade de recompor imediatamente o que foi perdido recorda que não controlamos tudo, que não possuímos tudo, que não somos autossuficientes.

É nesse horizonte concreto, humano e vulnerável que escutamos o Evangelho proclamado na Quinta-feira depois das Cinzas.

O texto do Evangelho segundo Lucas 9,22-25 é proclamado na Quinta-feira depois das Cinzas, no início do caminho quaresmal. Não se trata de coincidência litúrgica, mas de pedagogia espiritual profundamente coerente. A Quaresma começa com o sinal austero das cinzas e imediatamente coloca diante da comunidade a palavra decisiva de Jesus. Primeiro, a Igreja recorda a verdade antropológica: “Tu és pó”. Depois, apresenta a liberdade da escolha: “Se alguém quiser”.

«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.»

Quando a Palavra de Deus, na boca de Cristo, proclama essa sentença, não se trata de um convite devocional suave, mas de uma convocação radical. A conversão não é imposta, é oferecida. O verbo é diário. A cruz não é eventual. É caminho permanente. Jejum, esmola e oração só têm sentido se forem expressão desse seguimento real e não performance religiosa.

No contexto do Evangelho segundo Lucas, Jesus acaba de anunciar sua paixão. Ele fala de rejeição, sofrimento e morte. Não romantiza o destino. Revela que o Filho do Homem será entregue às estruturas religiosas e políticas do seu tempo. O discipulado nasce sob essa luz. Seguir Cristo é entrar em tensão com sistemas que se alimentam de poder, privilégio e exclusão. A rejeição não vem apenas de fora. Vem também da estrutura religiosa estabelecida, dos anciãos, dos sumos sacerdotes, dos escribas. Isso ecoa em qualquer tempo histórico.

Lucas escreve para uma comunidade pressionada pelo ambiente do Império Romano. O mesmo chamado aparece em Evangelho segundo Marcos 8,34-36 e em Evangelho segundo Mateus 16,24-26. Marcos enfatiza o choque imediato da proposta. Mateus sublinha a dimensão escatológica da recompensa. Lucas, porém, acrescenta uma palavra decisiva: “cada dia”. A cruz não é apenas o momento extremo do martírio. É disciplina cotidiana. É fidelidade perseverante em meio à história.

No mundo romano, a cruz era instrumento de execução reservado a subversivos e escravos. Era símbolo da pedagogia do medo do império. Quando Jesus assume a cruz, desmonta a lógica da dominação. Não responde com espada. Não organiza milícia. Não convoca insurreição armada. Escolhe a fidelidade até o fim. O que o império utilizava para humilhar, Deus transforma em revelação. O poder deixa de ser definido pela capacidade de esmagar e passa a ser definido pela capacidade de amar até o extremo.

A cruz em Lucas não é apenas sofrimento físico. É fidelidade a um projeto que confronta poderes. É perda de status. É exposição pública. É escolher o Reino em vez da autopreservação. Negar-se a si mesmo não é anular a personalidade, mas romper com o egocentrismo que transforma Deus em instrumento de sucesso pessoal. É abandonar a fé utilitária que mede espiritualidade por prosperidade material.

Isaías já havia intuído essa lógica no cântico do Servo Sofredor. “Ele foi desprezado e rejeitado” (Is 53,3). O profeta denuncia uma sociedade que naturaliza o sofrimento do justo. A cruz de Cristo é a encarnação histórica dessa denúncia. O pecado não é apenas individual. É estrutural. Ele se infiltra nas instituições, nas alianças entre trono e altar, nas leis que protegem privilégios.

Paulo compreendeu o escândalo dessa dinâmica ao afirmar que Cristo, sendo rico, se fez pobre por nós. Em Filipenses 2 descreve o esvaziamento daquele que não se agarrou ao próprio status. A encarnação já é descida. A cruz é o ápice dessa kenosis. Cristo não acumula, entrega-se. Essa lógica confronta frontalmente qualquer teologia da acumulação que transforma o altar em balcão e a fé em mercado.

O Brasil conhece bem essa distorção. Em periferias onde mães aguardam meses por atendimento médico e escolas funcionam com estrutura precária, erguem-se templos monumentais prometendo prosperidade financeira como sinal de favor divino. A linguagem é empresarial, a espiritualidade é contratual. Contudo, o Evangelho afirma que quem quiser salvar a própria vida a perderá. A lógica do Reino não é investimento para retorno material, é doação que gera vida partilhada. Na Baixada Fluminense, comunidades organizam mutirões de alimentação para famílias em vulnerabilidade. Uma aposentada doa parte do pouco que recebe. Um jovem advogado oferece assessoria gratuita a ameaçados de despejo. Já sofreu intimidações. Não há palco, há desgaste. Ali a cruz é concreta. Não é símbolo ornamental, é serviço que custa segurança.

Na Amazônia, lideranças indígenas cristãs defendem território diante da exploração ilegal. Recebem ameaças. Vivem sob tensão constante. A criação geme, como afirma Romanos 8. A cruz assume dimensão ecológica. Defender a floresta é carregar o peso de um conflito desigual. Negar-se a si mesmo significa recusar ganhos imediatos em nome da vida coletiva e da fidelidade ao Criador.

Nos primeiros séculos, o império perseguiu cristãos não por sua espiritualidade privada, mas por sua lealdade pública a Cristo acima de César. Perpétua e Felicidade enfrentaram as feras sem renegar a fé. Inácio de Antioquia, a caminho do martírio, via sua morte como participação no mistério de Cristo. Tertuliano afirmou que o sangue dos mártires era semente. Agostinho, ao distinguir duas cidades, mostrou que a história é atravessada por duas lógicas: o amor a si mesmo que exclui Deus e o amor a Deus que relativiza o ego. Hoje a perseguição raramente assume forma de arena, mas assume forma de desqualificação, difamação e isolamento. Quem denuncia injustiça estrutural é rotulado como inimigo da ordem. A cruz contemporânea passa pelo descrédito público e pela perda de privilégios.

Os profetas do Antigo Testamento já haviam deixado claro que não há espiritualidade autêntica sem justiça. Jeremias exige direito e justiça. Amós clama por um rio de retidão. Miqueias resume a vontade divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na humildade diante de Deus. Jesus se insere nessa tradição. Sua cruz é consequência dessa fidelidade profética.

A psicologia contemporânea confirma que o culto ao sucesso ilimitado produz ansiedade e vazio. O indivíduo centrado exclusivamente na autopromoção torna-se prisioneiro da própria imagem. A cruz desloca o centro. Negar-se a si mesmo é libertar-se do ego hipertrofiado para reencontrar sentido no dom de si.

Quando Jesus pergunta que vantagem há em ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma, ele desmonta o mito moderno do êxito absoluto. Ganhar o mundo pode significar perder consciência, compaixão, humanidade. A cruz torna-se o limite que impede essa perda total.

Por isso a liturgia coloca esse texto no início da Quaresma. Porque não há conversão verdadeira sem deslocamento do ego. Não há discipulado sem ruptura com o narcisismo espiritual. Não há Evangelho compatível com religião de fachada ou culto à prosperidade. A Quinta-feira depois das Cinzas torna-se, assim, momento decisivo. Cada comunidade e cada discípulo precisam discernir que tipo de cristianismo desejam viver. Um cristianismo ornamental que busca proteção divina para conservar privilégios, ou o caminho daquele que aceita perder por causa do Filho do Homem.

A cruz continua sendo escândalo porque desmonta sistemas de privilégio. Continua sendo loucura porque recusa a violência como resposta. Continua sendo ameaça porque relativiza qualquer poder absoluto. Mas é nela que nasce a ressurreição, não como fuga do sofrimento, mas como confirmação de que o amor é mais forte que a morte.

E somente quem aceita perder segundo o mundo pode descobrir o que é ganhar segundo Deus.


DNonato - teólogo do cotidiano  

Um outro olha sobre Mateus 6,1-6.16-18 / Quarta-feira de Cinzas

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas inaugura o tempo sagrado da Quaresma com um chamado que atravessa a superfície da religiosidade e alcança o coração. As leituras de Joel 2,12-18; Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17;  II Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18 compõem uma única convocação: voltar ao Senhor com verdade. Não se trata de um rito externo nem de uma tradição repetida por costume, mas de um movimento interior que envolve mente, afetos, escolhas e estruturas de vida.

A cinza na fronte proclama que somos frágeis, mas também anuncia que somos chamados à transformação.  A memória da finitude purifica os delírios de grandeza e nos devolve ao essencial. Diante de Deus não há máscaras que resistam. O tempo da Quaresma começa assim, com um gesto simples e radical. Um sinal visível de uma decisão invisível. Um convite a deixar cair as aparências para que nasça, no silêncio do coração, uma vida reconciliada com Deus e comprometida com a fraternidade concreta. 

Neste caminho quaresmal, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).  que nos recorda que conversão nunca é apenas individual. A espiritualidade bíblica é inseparável da responsabilidade social. 

  • Jejuar sem justiça é hipocrisia.
  •  Orar sem compromisso com os que sofrem é ilusão. 
  • Oferecer esmola sem rever estruturas que geram exclusão é paliativo.

 A Quaresma nos chama a uma fé encarnada, capaz de enfrentar as desigualdades, as violências e as formas de religião vazia que anestesiam a consciência.

Quando Mateus 6,1-6.16-18 ressoa na assembleia, não é apenas um texto proclamado: é lâmina que atravessa intenções, desnuda motivações e expõe o coração. Ele ecoa de modo emblemático na Quarta-feira de Cinzas e retorna na 11ª semana do Tempo Comum, como se a pedagogia divina insistisse que a conversão não é estação litúrgica, mas estado permanente da alma. A mesma Palavra que inaugura o deserto acompanha o cotidiano; a mesma exigência que abre a Quaresma vigia o Tempo Comum. Não há pausa para a autenticidade.  O risco da hipocrisia não é sazonal. Ele ronda toda experiência religiosa, infiltra-se nas práticas mais nobres e pode vestir-se de piedade. Jesus, inserido no Sermão da Montanha (Mt 5–7), concretiza a justiça superior anunciada em Mt 5,20. Não é formalismo legal; é fidelidade ao querer do Pai. Quando Ele adverte: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos”, O problema não é a esmola, a oração ou o jejum; é o palco interior que transforma o sagrado em performance.

A tríade proposta por Jesus:  esmola, oração e jejum,  já era central no judaísmo do Segundo Templo. Tobias 12,8-9 afirma que oração, jejum e esmola são boas quando acompanhadas de justiça. O jejum marcava o Dia da Expiação (Lv 16); a oração estruturava as horas (Sl 55,18; Dn 6,11); a tzedaká expressava justiça social. Jesus não rompe com essa tradição; leva-a à plenitude (Mt 5,17). Interioriza-a radicalmente. Não abole o rito; liberta-o da vaidade.  Os símbolos do texto revelam profundidade espiritual. O quarto fechado  evoca intimidade. Fechar a porta significa interromper o fluxo da aprovação social. O Pai-Nosso, ensinado no plural, impede individualismo; mas a oração exibicionista é desmascarada. O rosto desfigurado dos que jejuam para parecer piedosos contrasta com a unção e a lavagem do rosto. A unção, na Escritura, é sinal de alegria (Sl 23,5; Is 61,3). O jejum cristão não é espetáculo de tristeza, mas disciplina orientada para Deus. 

É nesse horizonte que o Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18 se torna decisivo. Jesus denuncia a prática religiosa feita para ser vista. A esmola, a oração e o jejum, pilares da espiritualidade judaica do século I, são recolocados no lugar da autenticidade. O Pai vê no segredo. O critério não é a visibilidade social, mas a verdade interior. A crítica de Jesus não é contra a prática religiosa em si, mas contra o coração dividido que transforma o sagrado em espetáculo e o pobre em vitrine. 

A liturgia oferece a chave hermenêutica desse Evangelho já em Joel 2,12-18. O profeta ergue a voz em meio a uma crise nacional devastadora. Uma praga de gafanhotos, símbolo de juízo e colapso econômico, atingira o povo. Campos arrasados, fome, culto interrompido. Nesse contexto histórico concreto, a tentação era preservar aparências religiosas enquanto a justiça permanecia negligenciada. Joel proclama: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). O verbo hebraico shuv indica retorno radical, mudança de direção existencial. E insiste: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. No contexto histórico de uma crise nacional marcada por calamidade e devastação, o apelo não é teatral, mas existencial. A conversão pedida é integral, pessoal e comunitária. O pecado, na perspectiva bíblica, não é apenas falha individual, mas ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra. Por isso, o retorno precisa ser concreto, visível na justiça, na misericórdia e na reconstrução da vida social.  Rasgar as vestes era gesto tradicional de luto. Rasgar o coração é ruptura interior. É abandonar cumplicidades com o pecado estrutural. É desinstalar-se de práticas que sustentam desigualdades. O profeta convoca jejum, assembleia solene, choro sacerdotal entre o vestíbulo e o altar (Jl 2,17), mas deixa claro: o gesto exterior só tem sentido se for expressão de interioridade dilacerada. A tradição profética ecoa essa denúncia: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13); “Aprendei a fazer o bem, buscai o direito” (Is 1,17); “Corra o direito como água” (Am 5,24).

O Salmo 50(51) aprofunda essa experiência. Associado ao arrependimento de Davi após sua queda (cf. 2Sm 12), revela que o pecado é ruptura relacional antes de ser infração jurídica: “Contra vós pequei” (Sl 51,6). A súplica “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12) utiliza o verbo bara’, o mesmo de Gn 1,1, indicando recriação. Conversão não é retoque moral; é nova criação. A antropologia bíblica é lúcida: o mal brota do interior (Mc 7,21-23). Por isso, antes de qualquer promessa de ação, a assembleia repete: “Tende piedade”. O reconhecimento da própria miséria precede qualquer prática religiosa.  O Salmo dá voz à consciência que reconhece sua própria verdade. “Criai em mim um coração que seja puro”. A tradição sapiencial de Israel compreende o coração como centro das decisões. Converter-se é permitir que Deus recrie esse centro. Não é autopunição, é recriação. A cinza que recebemos não é sinal de condenação, mas de lucidez. Recorda “Tu és pó e ao pó voltarás” como em Gênesis 3,19, não para humilhar, mas para libertar da ilusão de autossuficiência que alimenta idolatrias modernas, inclusive aquelas que se travestem de poder religioso ou político

Paulo, em 2Cor 5,20–6,2, amplia o horizonte: “Reconciliai-vos com Deus… é agora o tempo favorável”. O apóstolo fala como embaixador. O termo katallagē indica restauração de vínculos rompidos. Não se trata de experiência intimista, mas de nova criação (2Cor 5,17). O kairos não admite adiamentos. A Quaresma não é dramatização anual do arrependimento; é ocasião concreta de decisão histórica. A graça precede o esforço, mas exige resposta. A reconciliação não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. Na antropologia paulina, o ser humano é chamado a viver uma nova criação inaugurada em Cristo. Essa novidade não combina com espiritualidade de aparência nem com fé usada como instrumento de dominação ou autopromoção.

A Palestina do século I  onde Jesus  andou, vivia sob a lógica de honra e vergonha. A visibilidade pública era capital simbólico. A sociologia ajuda a compreender como o campo religioso pode produzir distinção e poder. O capital religioso converte-se facilmente em capital político. Jesus desmonta esse mecanismo. Sua crítica não atinge apenas indivíduos, mas estruturas que transformam o sagrado em instrumento de legitimação.  O narcisismo é  traço cultural na atualidade   sendo amplificado pelas redes sociais. A espiritualidade pode tornar-se extensão do ego. Constrói-se persona piedosa para ocultar fragilidades. Quando a esmola vira autopromoção, perde sua essência. Quando a oração se transforma em demonstração pública de poder, deixa de ser encontro. O Pai que vê no secreto desmonta o narcisismo religioso.

Tanto o primeiro  como o segundo Testamento  mantém unidade entre culto e justiça. Isaías 58 declara que o jejum autêntico é libertar o oprimido e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,7). Amós 5 rejeita cânticos sem retidão. Mateus 25 recorda que o julgamento final se dá pela solidariedade concreta aos pequenos. O segredo não exclui compromisso social; purifica sua intenção. A interioridade gera responsabilidade histórica.

Nesse horizonte, a Quaresma encontra expressão concreta na Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego eskēnōsen indica que Deus armou sua tenda entre os homens, evocando a presença no deserto (Ex 25,8). A Encarnação revela um Deus que escolhe proximidade. Se Deus habita nossa precariedade, a falta de moradia digna torna-se ferida teológica.

A moradia é mais que construção física. É espaço de identidade, pertencimento, memória e proteção. Antropologicamente, estrutura vínculos; psicologicamente, oferece segurança. Sua ausência expõe à violência e à invisibilidade. Defender moradia digna é defender a vida integral. No Ano Jubilar (Lv 25), a terra era devolvida para restaurar justiça social. A comunidade primitiva testemunhava que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). A fé bíblica não legitima desigualdade nem naturaliza exclusão.

Na realidade brasileiro contemporâneo, marcado por polarizações e instrumentalização da religião, Mateus 6 permanece denúncia profética. Jejuns convocados como marketing ideológico, orações transmitidas como demonstração de força, caridades exibidas para construir imagem pública: já receberam sua recompensa. O Evangelho não legitima exclusão; coloca o pobre no centro. A fé que se alia a projetos de poder e abandona o Crucificado trai sua origem. Quando o ministro se coloca no centro e obscurece o serviço, contradiz o modelo do Bom Pastor (Jo 10,11). “O maior entre vós seja servo” (Mt 23,11). A Igreja é Povo de Deus (cf. Lumen Gentium 9). Conversão atinge estruturas eclesiais. A Quaresma é ocasião de exame comunitário, não apenas individual.

Assim, Joel convoca retorno; o Salmo suplica recriação; Paulo proclama reconciliação; Mateus purifica intenções; João anuncia Encarnação; Isaías exige justiça; Atos testemunha partilha. A Escritura inteira converge para um ponto: Deus deseja verdade no íntimo e justiça nas relações. A Quaresma não inaugura medo, mas verdade. Convida a rasgar o coração, não as vestes; a abandonar o palco e entrar no silêncio; a deixar que o Pai, que vê no secreto, molde a vida.

A Quarta-feira de Cinzas nos conduz ao coração do Evangelho: não a uma religião de vitrine, mas a uma fé que se deixa purificar no segredo. Em Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18, Jesus desmonta a espiritualidade performática e denuncia a busca por aplausos. Esmola, oração e jejum não são instrumentos de autopromoção, mas caminhos de conversão que só fazem sentido quando brotam de um coração reconciliado com Deus e comprometido com os irmãos.

A cinza imposta na liturgia  de hoje recorda finitude e possibilidade. É símbolo de limite e de esperança. O pó não é sentença final; é matéria que Deus pode recriar. O Reino cresce como semente oculta (Mc 4,26-29). A conversão começa no segredo, mas transborda na história. O quarto fechado conduz à praça pública transformada.

Quando Deus arma sua tenda entre nós, ecoa o mistério da Encarnação. Ele não legitima desigualdades; Ele se aproxima das periferias da história. O Deus bíblico não habita palácios de vaidade, mas caminha com o povo no deserto, escuta o clamor do oprimido e toma partido da vida ameaçada, como vemos em Êxodo 3,7-8. Por isso, a fé autêntica ajoelha-se no quarto fechado e levanta-se para transformar a realidade concreta. Não há verdadeira oração que não deságue em justiça; não há jejum agradável a Deus que ignore a fome do pobre, como denuncia Isaías 58,6-7.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a sair do ritualismo estéril e a assumir um compromisso histórico. Conversão não é encenação litúrgica, é mudança de mentalidade e de prática. É rever estilos de vida, estruturas que produzem exclusão e discursos religiosos que abençoam privilégios enquanto silenciam diante da miséria. A cinza que hoje toca nossa fronte não é maquiagem espiritual; é memória da nossa fragilidade e chamado à responsabilidade. Somos pó, mas pó chamado a amar, a servir e a reconstruir vínculos.

Olhando  para o tema não  tem como não  recorda  os três  T do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, ele retoma o coração da tradição bíblica e da Doutrina Social da Igreja. Não se trata de retórica política, mas de Evangelho encarnado na história. Desde o Gênesi.

  •  Terra aparece como dom confiado ao cuidado humano Gn 2,15 e promessa destinada a um povo que não pode viver na escravidão permanente Ex 3,7-8. A concentração injusta da terra já era denunciada pelos profetas Is 5,8, porque a fé bíblica nunca separou culto e justiça.
  • Trabalho participa da obra criadora de Deus Gn 2,3. Ele dignifica, sustenta e integra a pessoa na comunidade. Quando o salário é retido ou a exploração se torna regra, a Escritura fala com clareza Tg 5,4. O descanso sabático Ex 20,8-11 revela que ninguém é máquina produtiva. A economia que sacrifica pessoas em nome do lucro contradiz a lógica do Reino.
  • Teto, tema que ganha força na reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), toca o núcleo da dignidade humana. A casa é espaço de proteção, identidade e memória. Em Êxodo 12 a salvação passa pela porta marcada do lar. Em Josué 24,15 a fé envolve toda a casa. Em Atos 2,46 a Igreja nasce nas casas. Quando Jesus afirma que não tem onde reclinar a cabeça Lc 9,58, ele se identifica com os que vivem na precariedade. Em Mateus 25,35 o critério do juízo inclui acolher quem não tem abrigo.

A antropologia mostra que o lar estrutura vínculos e segurança emocional. A psicologia confirma que a ausência de moradia estável gera rupturas profundas na subjetividade. A sociologia evidencia que a exclusão habitacional amplia violência e desigualdade. Não se pode falar de fraternidade ignorando famílias empurradas para periferias sem infraestrutura ou vivendo sob marquises enquanto imóveis permanecem vazios por especulação. A tradição profética insiste que o jejum agradável a Deus inclui repartir o pão e recolher em casa os pobres sem abrigo Is 58,7. Não é símbolo, é prática concreta. A fé que se contenta com discursos morais e se cala diante da injustiça estrutural torna-se religião vazia. Terra, teto e trabalho formam um tripé inseparável da dignidade. Onde falta teto, ali o Evangelho convoca a comunidade cristã a ser sinal de justiça, presença e transformação histórica.

Num tempo marcado por polarizações, indiferença social e tentativas de instrumentalizar a fé para projetos de poder, o Evangelho nos devolve ao essencial. O Pai que vê no segredo também vê o que fazemos, ou deixamos de fazer, pelos pequenos, como recorda Mateus 25,31-46. Não basta repetir práticas devocionais; é preciso encarnar a misericórdia. A oração que agrada a Deus é aquela que nos desinstala. O jejum que Ele acolhe é o que rompe com o egoísmo. A esmola que Ele reconhece é a que restitui dignidade, não a que perpetua dependências.

Se Deus armou sua tenda entre nós, somos chamados a construir uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde ninguém viva sem teto, sem chão, sem lugar. A conversão quaresmal é também social e pública, porque toca as estruturas que ferem a vida. É compromisso com a justiça, com a verdade e com a fraternidade concreta.

O tempo é favorável. Não para aparências, mas para decisões. Não para discursos inflamados, mas para coerência. Não para uma religião de fachada, mas para um discipulado que une contemplação e ação. Que a cinza nos lembre quem somos; que o Evangelho nos recorde para quem vivemos; e que a fraternidade se torne prática cotidiana.

Conversão não é teatro. É caminho. É escolha diária. É compromisso com Deus que se prova no amor ao próximo. O resto é aparência que o vento leva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano