sábado, 13 de junho de 2026

Um olhar sobre Mateus 9,36-10,8 - 11º Domingo do Tempo Comum,

O 11º Domingo do Tempo Comum do Ano A apresenta uma extraordinária unidade teológica entre as leituras proclamadas. A primeira leitura (Êxodo 19,2-6a), o Salmo 99(100), a segunda leitura (Romanos 5,6-11) e o Evangelho (Mateus 9,36–10,8)  que aparece na liturgia  de forma variada em parte  no dia de São  Barnabé Mateus 10, 7-13, no   primeiro  sábado  do advento  Mateus 9,35–10,1.6–8 e os sinóticos Marcos 10,7-13 e    Matcos 6,30-34   no  décimo  quinto e décimo sexto domingo tempo comum do ano  B e  Lucas  10,1-9  no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano C

As .leituras  do 11⁰ Domingo  não são textos isolados, mas partes de uma única narrativa da ação de Deus na história da salvação O Deus que liberta os escravizados no Egito é o mesmo que conduz seu povo como pastor, que reconcilia a humanidade por meio de Cristo e que envia discípulos para continuar sua obra de compaixão e libertação no mundo.  Mateus 9,36–10,8 marca uma das passagens mais importantes do Evangelho. Nele acontece a transição entre o ministério realizado diretamente por Jesus e a continuidade dessa missão através dos discípulos. Ao ser lido em paralelo com Marcos e Lucas, percebemos que a missão cristã nasce da própria compaixão de Cristo e se concretiza em homens e mulheres enviados para servir, mas vamos  olhar  um pouco nas  leituras  desse dia 

A primeira  leitura  Êxodo 19,2-6a situa-nos diante de um dos momentos decisivos da história bíblica. Israel acaba de sair da escravidão do Egito e chega ao deserto do Sinai. O contexto histórico é fundamental: o povo não nasce como nação através de conquistas militares nem pela força de governantes humanos. Sua identidade surge da experiência da libertação. Antes da Lei existe a graça; antes dos mandamentos existe o amor libertador de Deus. Por isso o Senhor recorda: “Vistes o que fiz aos egípcios e como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Ex 19,4). A imagem da águia possui profundo significado na tradição bíblica. Não descreve um Deus dominador, mas um Deus cuidador, que protege, acompanha e sustenta seu povo. O mesmo símbolo reaparece em Deuteronômio 32,11-12, onde a águia ensina seus filhotes a voar e os ampara durante a queda. O profeta Oseias utilizará linguagem semelhante ao afirmar: “Eu os atraía com laços humanos, com laços de amor” (Os 11,4). A libertação do Egito não representa apenas um acontecimento político; constitui uma experiência espiritual e antropológica na qual um povo de escravos é transformado em povo da aliança. Em seguida, Deus declara: “Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). Exegeticamente, a expressão não se restringe ao sacerdócio cultual posteriormente ligado à tribo de Levi. Refere-se à totalidade do povo. Israel é chamado a tornar-se mediação da presença divina entre as nações. Sua eleição não é privilégio, mas responsabilidade; não é instrumento de superioridade religiosa, mas serviço ao projeto universal de Deus. A promessa feita a Abraão já apontava nessa direção: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12,3). A mesma perspectiva reaparece em Isaías, quando o Servo do Senhor é chamado a ser “luz para as nações” (Is 49,6). Essa vocação universal alcança sua plenitude na ordem missionária de Jesus: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). O que começou com Israel encontra sua abertura definitiva em Cristo. Essa compreensão corrige toda forma de nacionalismo religioso, fundamentalismo ou exclusivismo espiritual. A eleição bíblica nunca existe contra os outros, mas para os outros. O povo escolhido é chamado a tornar-se sinal da bênção de Deus para toda a humanidade.

O Salmo 99(100) responde a essa experiência de aliança transformando a memória da libertação em louvor: “Sabei que o Senhor, só ele, é Deus. Ele mesmo nos fez e somos seus, nós somos seu povo e seu rebanho” (Sl 100,3). Em um mundo marcado por impérios que absolutizavam governantes e sistemas de poder, essa profissão de fé possuía caráter profundamente libertador. O salmista proclama que nenhum governante, ideologia ou estrutura humana pode ocupar o lugar de Deus. A imagem do rebanho conecta o salmo a uma das mais belas tradições bíblicas. O Senhor é o pastor do Salmo 23, o pastor prometido por Jeremias (Jr 23,1-6), o pastor que reúne as ovelhas dispersas em Ezequiel 34 e o pastor que procura a ovelha perdida em Lucas 15. Essa imagem alcança seu ponto culminante quando Jesus declara: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). Trata-se de uma relação fundada no cuidado, na proximidade e na fidelidade. Em uma sociedade marcada pela competição, pela fragmentação e pela solidão, o salmo recorda que a identidade humana não nasce do desempenho econômico nem do reconhecimento social. O ser humano descobre quem é quando reconhece a quem pertence. Somos criaturas amadas por Deus e chamadas à comunhão com Ele e com os irmãos.

A segunda leitura, Romanos 5,6-11, aprofunda ainda mais essa dinâmica da graça. Escrevendo à comunidade cristã de Roma, centro do poder político e militar do Império, Paulo apresenta uma lógica radicalmente diferente da lógica imperial. “Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5,6). O apóstolo fala de pessoas fracas, pecadoras e até inimigas de Deus. A salvação não nasce do mérito humano nem da perfeição moral. Ela é fruto da iniciativa gratuita do amor divino. O ponto culminante do texto encontra-se na afirmação: “Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). A lógica do Evangelho rompe com toda visão religiosa baseada na recompensa. Deus não ama porque somos bons; ama-nos para tornar possível nossa ttransformação.essa verdade atravessa toda a Escritura. Ela aparece na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), onde o pai corre ao encontro do filho antes mesmo de qualquer reparação. Manifesta-se também no encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10), acolhido antes de apresentar sinais concretos de conversão. O amor de Deus precede qualquer mérito. A reconciliação vem antes da perfeição. A graça não é prêmio concedido aos justos, mas dom oferecido aos necessitados. Essa experiência da graça prepara diretamente a compreensão do Evangelho.

Em Mateus 9,36–10,8 encontramos um dos momentos mais importantes da revelação da identidade e da missão de Jesus. Depois de percorrer cidades e aldeias da Galileia, ensinando nas sinagogas, anunciando o Reino e curando toda espécie de enfermidades, Jesus contempla as multidões e vê nelas uma realidade que ultrapassa o sofrimento individual. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por contrastes sociais, diversidade cultural e forte presença da dominação romana. Camponeses endividados, trabalhadores explorados, excluídos religiosos e populações submetidas a pesados tributos compunham o cenário cotidiano. Não é sem significado que Jesus inicie sua missão nessa periferia do mundo religioso. O Deus da Bíblia frequentemente age a partir das margens::

  • Escolhe Belém em vez de Jerusalém (Mq 5,1), 
  • Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13)
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Reino.
O Evangelho inicia afirmando que Jesus, ao ver as multidões, "encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36). O verbo grego splagchnizomai expressa uma comoção profunda, que brota das entranhas. A imagem das "ovelhas sem pastor" remete às antigas promessas de Deus de cuidar do seu povo (Nm 27,17; Ez 34). Jesus aparece, assim, como o Pastor esperado, aquele que vê a dor humana e não permanece indiferente. O verbo utilizado por Mateus deriva do grego splagchnizomai, termo que remete às entranhas humanas e expressa uma compaixão profunda, visceral e transformadora. Jesus não observa o sofrimento à distância. Ele se deixa afetar pela dor do povo. A mesma compaixão aparece no bom samaritano (Lc 10,33), no pai misericordioso da parábola (Lc 15,20), na multiplicação dos pães (Mc 6,34) e na ressurreição do filho da viúva de Naim, quando Jesus “teve compaixão dela” (Lc 7,13). Em Cristo manifesta-se o rosto misericordioso do Pai anunciado pelos prprofetas.

Em Marcos essa  conversa  tem essa mesma imagem em Marcos 6,34, mas a situa antes da multiplicação dos pães. A compaixão leva Jesus a ensinar e a alimentar. Palavra e pão caminham juntos. Lucas não utiliza a expressão nesse contexto, mas espalha essa mesma misericórdia ao longo de seu Evangelho, especialmente nas parábolas do Bom Samaritano (Lc 10,33) e do Pai Misericordioso (Lc 15,20). Nos três Evangelhos, a missão nasce do coração compassivo de Deus. Diante da multidão desorientada, Jesus faz um diagnóstico que permanece atual: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Mt 9,37). Antes de enviar os discípulos, porém, ele pede que rezem: "Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua colheita" (Mt 9,38). A missão nasce da oração. Mais ainda: aqueles que rezam tornam-se a resposta à própria oração. Em Mateus, o pedido é seguido imediatamente pela escolha dos Doze. Em Lucas, a mesma frase introduz o envio dos setenta e dois discípulos (Lc 10,2), ampliando o horizonte missionário para todos os povos.

A lista dos Doze revela a força transformadora do Evangelho. Jesus reúne pessoas muito diferentes: pescadores, um cobrador de impostos e até um zelota, pertencente a uma corrente nacionalista radical. Marcos acrescenta um detalhe fundamental: eles foram chamados primeiro "para ficar com Ele" e depois para serem enviados (Mc 3,14). Antes da missão existe o discipulado; antes da palavra anunciada existe a convivência com Cristo. No momento do envio, Marcos ressalta ainda que eles partem de dois em dois (Mc 6,7), mostrando que a missão possui um caráter comunitário. Lucas enfatiza a autoridade recebida para libertar do mal e curar os enfermos (Lc 9,1-6), sinais concretos da chegada do Reino. Embora Mateus preserve algumas orientações ligadas ao contexto judaico-cristão de sua comunidade, como a prioridade às "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10,6), o próprio Evangelho terminará com o mandato universal: "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" (Mt 28,19). O centro da missão permanece o mesmo nos três Sinóticos: anunciar a proximidade do Reino de Deus e torná-lo visível por meio de gestos concretos de libertação, cura, acolhida e restauração da vida.

Por isso, Mateus conclui com uma das frases mais belas e exigentes do Evangelho: "De graça recebestes, de graça deveis dar" (Mt 10,8). A gratuidade torna-se a marca do discípulo. O Evangelho não é mercadoria, instrumento de poder ou privilégio religioso. Tudo vem de Deus e tudo deve ser colocado a serviço dos outros..A leitura conjunta de Mateus, Marcos e Lucas mostra que a evangelização não é um projeto de expansão institucional nem uma imposição ideológica. Ela é a continuação da compaixão de Jesus na história. Começa com um olhar atento ao sofrimento humano, passa pela oração, transforma-se em vocação e culmina no serviço. A missão cristã é, em sua essência, a compaixão de Deus colocada em movimento na direção da humanidade.

A imagem das “ovelhas sem pastor” possui profundas raízes bíblicas. Moisés já pedia que Deus não deixasse Israel “como ovelhas sem pastor” (Nm 27,17). Jeremias denunciava os líderes que dispersavam o rebanho (Jr 23,1-4), enquanto Ezequiel anunciava que o próprio Deus viria procurar suas ovelhas e cuidar delas (Ez 34,11-16). Quando Mateus aplica essa imagem a Jesus, está afirmando que nele se cumprem as antigas promessas messiânicas. Seu olhar possui também uma dimensão social. As multidões não estão apenas cansadas por problemas individuais. São pessoas esmagadas por estruturas injustas, pela exclusão e pela falta de lideranças comprometidas com o bem comum. A compaixão de Jesus torna-se, portanto, profundamente profética. Ela não ignora as causas do sofrimento humano nem se limita a oferecer consolo espiritual. Busca restaurar integralmente a vida das pessoas..É nesse contexto que surge a afirmação: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9,37). A imagem da colheita atravessa toda a Escritura. Aparece em Joel 4,13, em Isaías 27,12 e reaparece em Apocalipse 14,15 como símbolo da ação de Deus na história. O problema não é a ausência de pessoas necessitadas de esperança, mas a escassez de trabalhadores dispostos a participar da missão. Por isso Jesus convida os discípulos à oração: “Pedi ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua colheita” (Mt 9,38).

Logo em seguida, Jesus chama os Doze e os envia. O número possui profundo valor simbólico, pois remete às doze tribos de Israel. O novo povo de Deus está sendo constituído para continuar a missão iniciada por Cristo. A comparação entre os Evangelhos Sinóticos enriquece nossa compreensão desse envio. Marcos destaca a confiança radical e a dimensão comunitária da missão ao apresentar os discípulos enviados dois a dois (Mc 6,7-13). Lucas enfatiza a proclamação do Reino e a universalidade da salvação, especialmente no envio dos setenta e dois discípulos (Lc 10,1-20). Mateus, por sua vez, sublinha a continuidade entre as promessas feitas a Israel e sua realização na comunidade dos discípulos. O próprio grupo apostólico manifesta a lógica do Reino. Pescadores, cobradores de impostos e pessoas provenientes de diferentes sensibilidades sociais e políticas são reunidos por Jesus em torno de uma mesma missão. A unidade não nasce da uniformidade, mas da comunhão em Cristo. Em tempos marcados por polarizações e divisões, essa mensagem conserva enorme atualidade..Além disso, os Evangelhos não escondem as fragilidades dos discípulos. 

  1. Pedro negará Jesus (Mt 26,69-75), Tomé duvidará da ressurreição (Jo 20,24-29)
  2. Tiago e João disputarão posições de destaque (Mc 10,35-41) 
  3. Judas o trairá (Mt 26,14-16). 
A Escritura apresenta homens reais, com limites e contradições. O mesmo ocorre com: 

  •  Abraão, que experimenta o medo (Gn 12,10-20), 
  • Moisés, que hesita diante da missão (Ex 4,10-13), 
  • Elias, que conhece o desânimo (1Rs 19,4),  
  • Jonas, que tenta fugir de sua vocação (Jn 1,3). A missão não depende da perfeição humana, mas da fidelidade de Deus. Como dirá Paulo: “Temos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).

O centro da missão consiste em anunciar que o Reino dos Céus está próximo. Em Mateus, essa expressão corresponde ao Reino de Deus anunciado pelos demais evangelistas. Não se trata de um lugar geográfico nem apenas de uma realidade futura. É a ação soberana de Deus transformando a história e restaurando a vida humana segundo seu projeto de amor. Jesus já havia proclamado: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Mais tarde afirmará: “O Reino de Deus está entre vós” (Lc 17,21). As parábolas mostram que esse Reino cresce silenciosamente como o grão de mostarda (Mt 13,31-32), transforma a realidade como o fermento na massa (Mt 13,33) e amadurece misteriosamente como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29).

Por isso, anunciar o Reino não significa apenas transmitir doutrinas. Significa testemunhar uma nova forma de viver. O Reino torna-se visível quando:  

  • Os famintos recebem alimento,
  •  os excluídos são acolhidos, 
  • a justiça vence a opressão 
  •  a misericórdia supera a vingança. 
Os milagres realizados por Jesus e confiados aos discípulos são sinais concretos dessa presença transformadora. Curar os enfermos, purificar os leprosos e libertar os oprimidos significa restaurar pessoas à convivência comunitária, devolvendo-lhes dignidade e esperança. Essa perspectiva impede qualquer redução espiritualista do Evangelho. A salvação anunciada por Jesus alcança a totalidade da existência humana. Por isso, evangelização e promoção da dignidade humana não podem ser separadas. A tradição da Igreja, desde o Concílio Vaticano II até Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, insiste que a missão cristã envolve o anúncio da fé e o compromisso concreto com a vida dos mais vulneráveis.

O próprio Jesus oferece o critério decisivo em Mateus 25,31-46. O julgamento final é apresentado a partir do amor concretamente vivido: alimentar os famintos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, visitar os doentes e os encarcerados. Aqui ressoam também as palavras de Isaías sobre o verdadeiro jejum (Is 58,6-7), de Tiago sobre a religião pura (Tg 1,27) e de João sobre a impossibilidade de amar a Deus ignorando o irmão necessitado (1Jo 3,17). O Evangelho convida-nos a voltar ao ponto de partida: o olhar de Jesus. Antes do envio existe o olhar; antes da missão existe a compaixão. Na Bíblia, ver significa compreender, acolher e comprometer-se. Quando Deus diz a Moisés: “Eu vi a aflição do meu povo” (Ex 3,7), anuncia ao mesmo tempo sua decisão de libertá-lo. Da mesma forma, Jesus vê as multidões e decide agir. Seu olhar atravessa os séculos e continua alcançando os homens e mulheres de hoje. Ele vê os pobres invisibilizados, os trabalhadores explorados, os migrantes rejeitados, os jovens sem perspectivas, os idosos abandonados, os doentes esquecidos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida. Em um mundo frequentemente marcado pela indiferença, o Evangelho propõe uma espiritualidade da proximidade, do encontro e da misericórdia. A missão confiada aos discípulos consiste precisamente em tornar visível essa compaixão divina. Como Abraão que respondeu ao chamado (Gn 12,1-4), como Isaías que declarou “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8), como Jeremias que acolheu sua vocação (Jr 1,4-10), como Maria que respondeu “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), também a Igreja é chamada a colocar-se a serviço do Reino.

Assim, as leituras deste domingo convergem para uma única mensagem. O Deus que libertou Israel no Sinai continua conduzindo seu povo como pastor. O Cristo que reconciliou a humanidade pela cruz continua oferecendo sua graça gratuitamente. O Espírito derramado em Pentecostes (At 2,1-11) continua suscitando discípulos missionários em todas as épocas. Sustentada pela promessa do Ressuscitado — “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20), a Igreja caminha na história como povo da esperança. A messe continua grande. O sofrimento humano não diminuiu sua voz; ao contrário, ganhou novas formas e novos rostos. A multidão segue “cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), expressão que, no contexto bíblico, não descreve apenas uma realidade espiritual abstrata, mas um diagnóstico social e político: ausência de cuidado, falência de mediações justas, fragilidade das estruturas de proteção da vida..No horizonte de Mateus, o olhar de Jesus não é sentimental, mas profundamente comprometido. Ele não apenas compadece-se; ele reorganiza a missão. A oração pelos trabalhadores da messe (Mt 9,38) não é fuga do mundo, mas inserção nele com mais densidade. O envio dos Doze (Mt 10,1-8) revela que a resposta de Deus ao sofrimento humano passa por uma comunidade concreta, histórica, imperfeita, mas chamada à coerência entre anúncio e prática: curar, libertar, reerguer vidas, gratuitamente, sem acumular poder nem transformar a fé em instrumento de dominação. Como em Isaías, o envio não legitima estruturas religiosas fechadas em si mesmas, mas rompe com qualquer religião que se acomode à indiferença (Is 58,6-7). Jeremias já havia denunciado pastores que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4), e Jesus retoma essa crítica ao revelar que a verdadeira autoridade se manifesta no serviço, não no controle. A leitura sociológica do texto evidencia que a missão cristã nasce em contextos de vulnerabilidade coletiva. A “messe grande” é também o mundo atravessado por desigualdades, exclusões e violências normalizadas. A Igreja, quando fiel ao Evangelho, não se coloca acima dessas realidades como instância julgadora distante, mas dentro delas como presença terapêutica e libertadora. Por isso, o envio dos discípulos inclui uma crítica implícita a toda forma de clericalismo que transforma o ministério em privilégio, esquecendo que o critério de autenticidade é a gratuidade e a proximidade com os feridos da história.

O  gesto de Jesus devolve dignidade aos que foram reduzidos a números, massas ou descartáveis. O Reino não é construção ideológica, mas restauração da condição humana em sua inteireza: corpo, vínculos, sentido e esperança. A cura dos doentes, a purificação dos leprosos e a expulsão de males simbólicos e reais apontam para uma antropologia do cuidado integral, onde ninguém é definido por sua exclusão..Hoje, contudo, essa mensagem encontra resistências tanto externas quanto internas. Externamente, quando a fé é instrumentalizada por projetos de poder que confundem evangelho com dominação cultural ou política, especialmente em discursos de viés autoritário que utilizam o nome de Deus para legitimar exclusões. Internamente, quando a própria comunidade eclesial se fecha em estruturas rígidas, esquecendo que foi enviada não para preservar status, mas para servir à vida. Ainda assim, permanece a promessa. O mesmo Cristo que envia também precede. Ele não manda a Igreja para lugares onde já não esteja presente. Ele vai à frente, especialmente nas periferias existenciais e sociais onde a dignidade humana é ferida. Por isso, a missão não é carregada de triunfalismo, mas de esperança vigilante. E assim, entre a dor que persiste e a promessa que sustenta, a Igreja caminha como sinal provisório de um Reino definitivo. Um Reino onde a lógica da escassez dará lugar à abundância da graça, onde o poder será convertido em serviço e onde toda lágrima será enxugada (Ap 21,4), porque a história será finalmente reconciliada no Cristo total, “para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-30

O Evangelho de Mateus 11,25-30  nele, Jesus revela a ternura do Pai para com os pequenos e faz um dos convites mais consoladores de toda a Escritura:

  • "Vinde a mim, vós todos que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28).

Esse texto  e proclamado nos seguintes  dias do calendário  litúrgico da Igreja Católica:

  • 14º Domingo do Tempo Comum (Ano A): Evangelho principal que conduz toda a reflexão litúrgica do domingo.
  • Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A) Celebração dedicada ao amor misericordioso, à mansidão e à humildade do Coração de Cristo.
  • Memória de São Francisco de Assis,  O santo que, com sua vida simples e desapegada, encarnou a pequenez e a humildade reveladas por Jesus.
  • Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos:  Uma das leituras frequentemente escolhidas para anunciar a esperança cristã e o descanso prometido por Deus aos que partiram desta vida.
  • Quarta-feira e Quinta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum:  dividido  na quarta-feira Mateus 11,25-27 e na quinta-feira Mateus 11,28-30. permitindo uma meditação mais aprofundada sobre o convite de Jesus.

Ao longo do Ano Litúrgico, a Igreja nos faz retornar a essa Palavra porque ela responde a uma das necessidades mais profundas do ser humano: encontrar repouso para a alma. Em um mundo marcado pelo cansaço, pela ansiedade e pelas inúmeras cargas da vida, Cristo continua repetindo o mesmo convite:

  • "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas" (Mt 11,29).

O contexto em que essa passagem aparece é decisivo para sua compreensão. Pouco antes, Jesus havia pronunciado palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum, cidades que testemunharam sinais do Reino, mas permaneceram resistentes à conversão (Mt 11,20-24). A crítica não é dirigida aos pobres nem aos simples, mas àqueles que, possuindo privilégios religiosos e sociais, recusam-se a acolher a visita de Deus. É justamente após denunciar essa dureza de coração que Jesus eleva ao Pai uma das mais belas orações dos Evangelhos: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25).

Lucas preserva essa mesma oração e acrescenta um detalhe precioso: Jesus exulta no Espírito Santo enquanto louva o Pai (Lc 10,21). Dessa forma, somos introduzidos numa das mais luminosas manifestações trinitárias dos Evangelhos. O Filho, movido pelo Espírito, bendiz o Pai pela forma como conduz a história da salvação. O Reino não se revela prioritariamente aos autossuficientes, mas aos que permanecem abertos à graça. À primeira vista, poderia parecer que Jesus opõe fé e inteligência. Contudo, uma leitura exegética mais cuidadosa mostra exatamente o contrário. A Escritura jamais condena a sabedoria. Os livros sapienciais exaltam-na como dom divino. O livro dos Provérbios apresenta a Sabedoria participando da própria obra da criação (Pr 8,22-31), enquanto o Eclesiástico a descreve como fonte de vida para aqueles que a procuram (Eclo 24,1-22). O problema denunciado por Jesus não é o conhecimento, mas a arrogância que transforma o conhecimento em autossuficiência espiritual.

Os “sábios e entendidos” representam aqueles que acreditam possuir Deus sob controle. Os “pequeninos”, ao contrário, são os que reconhecem sua necessidade de Deus. São os pobres em espírito proclamados bem-aventurados no Sermão da Montanha (Mt 5,3). São aqueles que recebem o Reino com a simplicidade das crianças, como recorda Marcos: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele” (Mc 10,15).

Essa lógica atravessa toda a história da salvação Deus escolhe: 

  •  Abraão, um migrante sem terra (Gn 12,1-4).
  •  Moisés, um fugitivo refugiado no deserto (Ex 3,1-12). 
  • Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Maria, uma jovem da periferia da Galileia (Lc 1,26-38).
  • Pescadores para anunciar o Evangelho (Mc 1,16-20). 
A pedagogia divina raramente segue os caminhos do prestígio humano ou pede um  currículo ou carta de recomendação. Deus manifesta sua força precisamente onde o mundo enxerga fragilidade. Essa realidade torna-se ainda mais significativa quando lembramos o contexto social da Palestina do século I. Sob o domínio romano, a população sofria com impostos elevados, concentração fundiária e profundas desigualdades econômicas. Muitos camponeses perdiam suas terras e tornavam-se dependentes de grandes proprietários. Nesse ambiente, a religião corria o risco de ser utilizada como instrumento de legitimação das estruturas existentes. Nem todos os grupos religiosos agiam dessa forma, mas havia setores que associavam pureza ritual, prestígio religioso e posição social,  bem  parecido  com  realidade  em algumas Igrejas atualmente 

Jesus rompe essa lógica ao afirmar que os mistérios do Reino são revelados aos pequeninos. Sua declaração possui uma força teológica e sociológica extraordinária. Deus não pode ser apropriado por nenhuma classe social, nenhuma instituição, nenhuma ideologia ou qualquer projeto de poder. O Deus revelado por Jesus permanece livre diante de todas as tentativas humanas de monopolizar sua presença. Essa convicção encontra ressonância nos profetas. Isaías denuncia uma religiosidade incapaz de libertar os oprimidos (Is 58,6-7). Amós rejeita cultos que coexistem com a injustiça social (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Zacarias exorta o povo a defender viúvas, órfãos, estrangeiros e pobres (Zc 7,9-10). Jesus não surge isolado dessa tradição; ele a leva à sua plenitude.

O versículo 27 aprofunda ainda mais o mistério: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”Estamos diante de uma das declarações cristológicas mais densas dos Evangelhos Sinóticos. Muitos estudiosos observam que essas palavras possuem profundidade comparável às grandes afirmações do Evangelho de João. Jesus não se apresenta apenas como mestre ou profeta. Ele se apresenta como revelador definitivo do Pai.

Na linguagem bíblica, conhecer não significa apenas compreender intelectualmente. Conhecer é entrar em comunhão. É participar da vida do outro. Quando Jesus fala do conhecimento mútuo entre Pai e Filho, está revelando uma intimidade única, da qual os discípulos são convidados a participar. Por isso conhecer Deus: 

  • Não consiste simplesmente em acumular doutrinas corretas. 
  • Conhecer Deus significa aprender sua compaixão, participar de sua misericórdia e reproduzir sua justiça. 

A revelação do Pai não afasta o discípulo da realidade humana; conduz exatamente para dentro dela. É nesse contexto que surge o grande convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Essas palavras ecoam toda a história bíblica. O verbo “vir” recorda os convites dirigidos por Deus ao longo das Escrituras. Isaías proclama: “Vinde às águas todos os que tendes sede” (Is 55,1). A Sabedoria convida os simples para sua mesa (Pr 9,1-6). O Eclesiástico proclama: “Aproximai-vos de mim, vós que sois ignorantes” (Eclo 51,23).

Diversos exegetas observam que Mateus 11 apresenta Jesus assumindo para si a linguagem da própria Sabedoria divina. O Eclesiástico afirma: “Submetei o vosso pescoço ao seu jugo” (Eclo 51,26). Agora é Jesus quem oferece o jugo. O que antes era atribuído à Sabedoria de Deus encontra sua realização na pessoa do Cristo. Os cansados e sobrecarregados mencionados por Jesus não são apenas indivíduos fatigados por dificuldades pessoais. São todos aqueles esmagados por estruturas que roubam a dignidade humana. Entre eles estavam os pobres submetidos à exploração econômica, os doentes marginalizados pela cultura da pureza, os pecadores excluídos da convivência religiosa e todos aqueles que carregavam fardos impostos por interpretações distorcidas da Lei. Lucas registra uma crítica semelhante quando Jesus denuncia os especialistas da Lei: “Carregais os homens com fardos difíceis de suportar” (Lc 11,46). A questão não era a Lei em si, mas sua transformação em instrumento de opressão. A religião perde sua vocação quando deixa de curar para ferir, quando deixa de libertar para controlar, quando deixa de anunciar esperança para produzir medo. Jesus oferece um caminho diferente. Ele não exige que os cansados provem seu valor. Não pede que conquistem o descanso por mérito próprio. Simplesmente os convida a aproximarem-se dele.

O descanso prometido possui raízes profundas na tradição bíblica. Remete ao repouso de Deus após a criação (Gn 2,2-3), à Terra Prometida como lugar de descanso para Israel (Dt 12,9-10) e à promessa feita a Moisés: “Minha presença irá contigo e eu te darei descanso” (Ex 33,14). O descanso oferecido por Cristo é a continuação dessa presença libertadora de Deus no meio de seu povo. Não se trata apenas de alívio psicológico ou emocional. É reconciliação. É restauração da dignidade. É libertação das forças que desumanizam. É a possibilidade de reencontrar a própria humanidade diante de Deus.

Em seguida, Jesus acrescenta: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). À primeira vista, a imagem parece paradoxal. Como alguém pode oferecer descanso e, ao mesmo tempo, propor um jugo? Entretanto, o jugo de Cristo é completamente diferente dos fardos impostos pelos sistemas de dominação. No mundo judaico, falava-se frequentemente do jugo da Lei. Jesus retoma essa linguagem, mas redefine seu significado. Seu jugo não é um sistema opressor. Seu jugo é a participação em sua própria forma de viver. É aprender sua mansidão, sua humildade e seu serviço.

A mansidão, na Bíblia, não é passividade. É força sob controle. É recusa da violência como método de relação. É a capacidade de resistir sem reproduzir a lógica do opressor. A mesma palavra aparece nas Bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,5)A humildade, por sua vez, não significa autodesprezo. Significa viver na verdade diante de Deus. Jesus é humilde porque toda sua existência está voltada para o serviço. A carta aos Filipenses descreve esse movimento de esvaziamento: Cristo não se apega aos privilégios, mas assume a condição de servo (Fl 2,6-8). Por isso seu jugo é suave. Não porque elimine toda responsabilidade, mas porque conduz à plenitude da vida. O jugo dos impérios existe para beneficiar os poderosos. O jugo de Cristo existe para restaurar os seres humanos. Essa diferença atravessa toda a narrativa evangélica. Marcos apresenta Jesus acolhendo crianças e marginalizados. Lucas destaca sua proximidade com os pobres, os pecadores e as mulheres excluídas. Mateus enfatiza continuamente sua compaixão pelas multidões cansadas e abatidas. Os três Sinóticos convergem para a mesma imagem: um Messias que não domina, mas serve.

Ao longo de seu ministério, Jesus atravessa fronteiras sociais e religiosas. Toca leprosos (Mc 1,40-45), senta-se à mesa com pecadores (Lc 15,1-2), conversa com excluídos, acolhe estrangeiros e oferece dignidade àqueles que haviam sido descartados pela sociedade. Seu jugo é leve porque rompe com a lógica da exclusão. Essa dimensão possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa época marcada por exaustão coletiva. Milhões carregam o peso da insegurança econômica, da ansiedade, da solidão e da perda de sentido. Muitos experimentam também um profundo cansaço espiritual, resultado de experiências religiosas marcadas por culpa, medo e manipulação.

Essa passagem continua oferecendo uma palavra de libertação. Jesus não convida à fuga da realidade. Convida a uma nova forma de habitá-la. Seu descanso não produz alienação. Produz missão. Quem encontra descanso em Cristo torna-se capaz de carregar os sofrimentos dos outros. Quem experimenta misericórdia aprende a praticar misericórdia. Quem recebe compaixão torna-se instrumento de compaixão. Uma Igreja fiel a esse Evangelho deve tornar-se sinal concreto desse descanso. Deve ser casa para os cansados, hospital para os feridos, comunidade para os solitários e espaço de esperança para os desencorajados. Não pode reproduzir lógicas de dominação, clericalismo ou exclusão. Seu modelo permanece aquele que lavou os pés dos discípulos (Jo 13,1-15).

Mateus 11,25-30 não é apenas um texto de consolação individual. É uma síntese extraordinária da Boa-Nova. Nele encontramos o Pai que se revela aos pequenos, o Filho que acolhe os cansados e o Reino que se manifesta através da mansidão e do amor. A passagem começa com um louvor e termina com um convite. Entre esses dois movimentos encontramos a essência do Evangelho. Deus aproxima-se da humanidade não através da força, mas através da misericórdia. Não através da imposição, mas através do amor. Não através da exclusão, mas através do acolhimento.

O convite “Vinde a mim” ecoa toda a trajetória de Jesus. É o mesmo Cristo que chama pescadores às margens do lago (Mc 1,16-20), que acolhe os pecadores à mesa (Lc 15,1-2), que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), que se compadece das multidões sem pastor (Mt 9,36), que chora sobre Jerusalém (Lc 19,41) e que, após a ressurreição, continua chamando seus discípulos para segui-lo. Por isso Mateus 11 permanece como uma das páginas mais luminosas do Novo Testamento. Em um mundo frequentemente dominado pela competição, pelo medo, pela violência e pela instrumentalização da fé, a voz de Jesus continua ressoando com a mesma força das colinas da Galileia. É uma voz que não oprime, não ameaça e não exclui. É uma voz que convida. Convida os cansados ao descanso, os feridos à cura, os pecadores à misericórdia, os pequenos à dignidade e toda a humanidade à vida abundante do Reino de Deus. Nessa voz encontramos não apenas consolo para nossas fadigas, mas também a esperança de uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma e com toda a criação. 

Que acolhamos esse chamado com fé e confiança, permitindo que o Senhor alivie nossos fardos, cure nossas inquietações e conduza nossos corações ao verdadeiro descanso que somente Ele pode oferecer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sincretismo religioso: A marca do colonialismo europeu e da escravidão africana

Antes de falar do sincretismo entre santos católicos e orixás, é importante recordar que os africanos trazidos à força para o Brasil não formavam um grupo religioso homogêneo. Vieram povos de diferentes regiões do continente, portadores de diversas culturas, línguas e crenças. Entre eles estavam seguidores das religiões tradicionais africanas, caracterizadas pela crença em um Ser Supremo e na atuação de diversos orixás, divindades e ancestrais ligados à natureza, à comunidade e à vida cotidiana. Também chegaram milhares de africanos muçulmanos, muitos alfabetizados em árabe e profundamente influenciados pela tradição islâmica. A presença desses muçulmanos africanos é frequentemente esquecida pela história oficial. No entanto, eles desempenharam papel importante na resistência à escravidão. O exemplo mais conhecido foi a , ocorrida em Salvador, em 1835. Organizado principalmente por africanos muçulmanos escravizados e libertos, o movimento expressava não apenas a luta contra a opressão, mas também a preservação de uma identidade religiosa que se recusava a desaparecer diante da violência do sistema escravista. Após a Revolta dos Malês, hábitos alimentares também serviram como marcador de identificação. A recusa ao consumo de carne de porco, característica dos muçulmanos, podia despertar suspeitas e aumentar a vigilância sobre africanos ligados ao Islã.

Esse cenário demonstra que a experiência religiosa africana no Brasil foi muito mais diversa do que normalmente se imagina. Havia religiões tradicionais africanas, havia comunidades islâmicas africanas e havia inúmeras expressões culturais distintas. O sincretismo religioso que posteriormente se desenvolveu entre santos católicos e orixás surgiu dentro desse contexto de resistência, adaptação e sobrevivência cultural diante da dominação colonial. O Brasil é um país marcado por múltiplas formas de sincretismo religioso. Ao longo da história, diversos santos católicos foram associados a orixás e entidades das religiões de matriz africana. São Jorge foi relacionado a Ogum por ambos serem vistos como guerreiros e protetores; Nossa Senhora da Conceição foi associada a Oxum em razão dos símbolos de maternidade, beleza, fecundidade e proteção; Nossa Senhora dos Navegantes foi relacionada a Iemanjá por sua ligação com as águas; São Jerônimo foi aproximado de Xangô por atributos ligados à autoridade e à justiça; São Lázaro foi associado a Omulu por sua relação com a doença e a cura; e Santo Antônio, em algumas tradições, foi relacionado a Exu por analogias simbólicas construídas no contexto do sincretismo colonial, embora pertençam a universos religiosos profundamente distintos. Essas aproximações não surgiram porque santos e orixás fossem considerados originalmente a mesma entidade, mas porque determinados símbolos, funções ou atributos permitiam ocultar o culto aos orixás sob imagens aceitas pela religião dominante.

O sincretismo religioso surge como estratégia de sobrevivência em um contexto de escravidão e perseguição. Por isso, não deve ser julgado sem considerar a violência da história..Entretanto, quando se afirma que Exu é Santo Antônio, ou que um orixá e um santo católico são exatamente a mesma entidade espiritual, corre-se o risco de apagar a identidade de ambos. É como trocar o nome e a fotografia de duas pessoas diferentes e afirmar que se trata da mesma pessoa. A intenção pode não ser enganar, mas o resultado é a confusão das identidades.

Exu possui sua própria história, seus símbolos e sua função dentro das religiões de matriz africana. Santo Antônio possui sua própria trajetória dentro da tradição cristã. Respeitar cada um significa reconhecê-los como são, e não transformá-los em versões um do outro.O problema não está em conhecer as relações históricas do sincretismo, mas em esquecer que elas nasceram de circunstâncias específicas de dominação colonial. Quando a estratégia de sobrevivência passa a ser apresentada como identidade real, corre-se o risco de produzir um apagamento cultural. O respeito autêntico não exige que tudo seja a mesma coisa. Exige que cada tradição possa existir com sua própria voz, sua própria memória e sua própria identidade. Essas associações tornaram-se tão conhecidas que muitas pessoas passaram a acreditar que santos e orixás seriam apenas nomes diferentes para as mesmas realidades espirituais. Entretanto, essa interpretação ignora a complexidade histórica que deu origem ao sincretismo religioso brasileiro. O sincretismo não surgiu porque africanos e europeus concluíram livremente que suas crenças eram idênticas. Na maioria dos casos, ele nasceu em um contexto de violência colonial, escravidão e perseguição religiosa. Povos africanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, proibidos de praticar publicamente suas religiões e submetidos à imposição da religião dominante.

Embora tenha havido religiosos que defenderam indígenas e africanos, a estrutura colonial frequentemente caminhou lado a lado com a escravidão. A imposição da religião dominante serviu, muitas vezes, como instrumento de controle social e legitimação da ordem colonial. Diante dessa realidade, muitos encontraram formas criativas de resistência cultural. Imagens de santos católicos passaram a funcionar como proteção simbólica para a preservação dos cultos africanos. Sob o olhar dos senhores e das autoridades religiosas, parecia haver devoção católica; na memória e na espiritualidade dos escravizados, permaneciam vivos os orixás, seus cantos, seus ritos e suas tradições.

O sincretismo foi, portanto, uma estratégia de sobrevivência. Foi uma resposta dos oprimidos diante de um sistema que tentava apagar sua identidade religiosa. Compreender isso é fundamental para evitar julgamentos simplistas sobre aqueles que recorreram a essa prática. No entanto, reconhecer sua importância histórica não significa transformá-lo em verdade teológica. Uma coisa é entender por que o sincretismo surgiu; outra é afirmar que as figuras associadas por ele sejam efetivamente as mesmas..É nesse ponto que se torna necessário afirmar que Exu não é Santo Antônio. Essa afirmação não diminui nenhuma das duas tradições. Pelo contrário. Trata-se de um ato de respeito às identidades religiosas envolvidas.

Exu pertence ao universo religioso iorubá e às tradições afro-brasileiras que dele descendem. É o orixá da comunicação, da mediação, da circulação da energia, dos caminhos, das escolhas e das encruzilhadas. É aquele que estabelece a comunicação entre diferentes dimensões da existência e ocupa papel fundamental na dinâmica da cosmologia africana. Durante séculos, porém, missionários e colonizadores interpretaram Exu a partir de categorias religiosas europeias. Como não compreendiam sua função dentro da religião iorubá, passaram a associá-lo ao diabo cristão. Dessa incompreensão nasceu uma das mais persistentes formas de racismo religioso presentes na história brasileira.

Exu não é Satanás. A própria noção de Satanás pertence a outro universo religioso, construído dentro da tradição judaico-cristã. A tentativa de identificar Exu com o demônio revela muito mais sobre os preconceitos do colonizador do que sobre a religião dos povos africanos. Da mesma forma, a associação entre Exu e Santo Antônio não expressa uma identidade real entre ambos. Santo Antônio foi um frade franciscano português do século XIII, conhecido por sua pregação, por sua dedicação aos pobres e por sua profunda espiritualidade cristã. Sua vida e sua missão estão inteiramente inseridas na tradição da Igreja e na fé em Jesus Cristo.

Exu e Santo Antônio pertencem a histórias diferentes, tradições diferentes, cosmologias diferentes e linguagens religiosas diferentes. Não existe relação histórica entre eles. Não existe relação teológica entre eles. Existe apenas uma associação produzida por circunstâncias específicas da história colonial brasileira. Por isso, quando alguém afirma que uma imagem de Santo Antônio pode ser utilizada para "invocar", "atrair" ou "representar" Exu, surge uma confusão que não encontra fundamento consistente em nenhuma das duas tradições.

  • Na espiritualidade católica, os santos não são instrumentos mágicos nem intermediários para acessar divindades de outras religiões. A veneração dos santos está relacionada à memória dos que viveram o Evangelho e à crença em sua intercessão junto a Deus.
  • Nas religiões afro-brasileiras, Exu possui identidade própria, culto próprio, símbolos próprios e fundamentos próprios. Sua presença não depende de imagens católicas nem de adaptações ao universo cristão.

A confusão entre ambos acaba produzindo um efeito paradoxal: em vez de promover conhecimento, gera desconhecimento. Em vez de aproximar as tradições, dissolve suas diferenças mais importantes. Cada tradição religiosa constitui um sistema simbólico próprio, através do qual seus adeptos interpretam a realidade, o sagrado, a vida e a morte. Quando símbolos de universos diferentes são fundidos sem reflexão crítica, corre-se o risco de apagar aquilo que torna cada tradição singular. O respeito não exige que todas as religiões sejam iguais. O respeito exige que cada religião seja compreendida a partir de seus próprios fundamentos.

A própria diversidade das correspondências entre santos e orixás revela o caráter histórico e cultural do sincretismo. Se essas associações fossem resultado de uma identidade real entre as figuras religiosas, elas seriam relativamente estáveis. No entanto, o que se observa é justamente o contrário: as correspondências variam conforme a região, a tradição religiosa, a época e até mesmo a comunidade onde são praticadas.

Um exemplo significativo é Ogum. No Rio de Janeiro, sua associação mais conhecida é com São Jorge. Já na Bahia, diversas tradições também relacionam Ogum a Santo Antônio. Da mesma forma, Iemanjá pode ser associada a Nossa Senhora dos Navegantes em algumas regiões do Sul e Sudeste, enquanto em outros lugares aparece vinculada a Nossa Senhora da Conceição. Omulu pode ser relacionado tanto a São Lázaro quanto a São Roque. Essas variações demonstram que não existe uma correspondência universalmente aceita entre santos e orixás. O fato de um mesmo orixá ser representado por santos diferentes, ou de um mesmo santo estar ligado a orixás distintos conforme o local, indica que tais associações nasceram muito mais de circunstâncias históricas, necessidades de sobrevivência cultural e semelhanças simbólicas percebidas pelas comunidades do que de uma identidade religiosa objetiva. Em outras palavras, se Ogum é São Jorge em um lugar, Santo Antônio em outro, e recebe interpretações diferentes em outras regiões, torna-se evidente que o sincretismo não prova que santos e orixás sejam a mesma entidade espiritual. O que ele revela é a criatividade e a resistência dos povos africanos diante da opressão colonial, que utilizaram diferentes símbolos para preservar sua fé sem abandoná-la.

Nesse sentido, reconhecer que o sincretismo religioso revela uma herança do colonialismo europeu e da escravidão africana não deve ser confundido com intolerância religiosa. Pelo contrário, trata-se de compreender as circunstâncias históricas que levaram povos escravizados a ocultarem suas crenças sob os símbolos da religião dominante. Durante séculos, as religiões de matriz africana foram perseguidas, marginalizadas e obrigadas a se expressar através de imagens e categorias que não lhes pertenciam originalmente. O sincretismo foi, muitas vezes, uma estratégia de resistência e sobrevivência cultural diante da violência colonial. Hoje, porém, em uma sociedade que reconhece a liberdade religiosa como direito fundamental, já não existe a mesma necessidade histórica de ocultar orixás sob imagens de santos ou de interpretar uma tradição a partir da outra. Superar essa dependência simbólica não significa negar a história nem desrespeitar a fé de ninguém; significa permitir que cada tradição religiosa seja reconhecida em sua própria identidade, dignidade e riqueza espiritual. Respeitar as diferenças é um passo importante para superar os mecanismos de dominação cultural herdados do colonialismo e construir relações mais justas entre as diversas expressões da fé.

  • Exu pode ser reconhecido em sua própria dignidade religiosa, sem precisar ser traduzido por categorias católicas. 
  • Santo Antônio pode ser venerado em sua própria tradição cristã, sem precisar ser reinterpretado como expressão de outra cosmologia.

O verdadeiro diálogo inter-religioso não consiste em afirmar que tudo é a mesma coisa. Consiste em reconhecer que existem diferenças legítimas e que essas diferenças não precisam gerar hostilidade. A diversidade religiosa não é um problema a ser eliminado, mas uma riqueza humana a ser compreendida. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja fundir crenças distintas em uma única narrativa, mas aprender a respeitar a alteridade. O futuro da convivência religiosa não está na confusão das identidades, mas na capacidade de reconhecer o valor do outro sem exigir que ele se torne uma versão de nós mesmos. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente sistemas de opressão que utilizavam o nome de Deus para legitimar injustiças. Como proclama o profeta : “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo; socorrei o oprimido” (Is 1,17). A verdadeira fé não pode ser separada da dignidade humana. 

Exu não precisa ser Santo Antônio para ser respeitado. Santo Antônio não precisa ser Exu para ser venerado. Reconhecer que Exu não é Santo Antônio não significa erguer muros entre religiões. Significa recusar os apagamentos produzidos pela história colonial. O respeito autêntico nasce quando cada tradição pode existir sem precisar esconder-se atrás dos símbolos da outra. Somente assim a memória dos oprimidos é honrada e a diversidade religiosa pode florescer em sua plenitude. Quando cada tradição pode existir com sua própria voz, sem máscaras impostas pela perseguição, pela ignorância ou pela herança colonial, damos um passo importante na construção de uma sociedade mais justa, mais consciente de sua história e mais respeitosa diante da pluralidade das experiências religiosas.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano  / Graduado em História 

sábado, 6 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 9,9-13 - 10⁰ Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de Mateus 9,9-13 ocupa um lugar singular na tradição litúrgica da Igreja. Proclamado na Festa de São Mateus Apóstolo e Evangelista, celebrada em 21 de setembro, na sexta-feir 13ª Semana do Tempo Comum e no  10⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A,  com as leituras  Oseias 6,3-6, o Salmo 49(50) e Romanos 4,18-25. Essa convergência não é fruto de uma simples associação temática, mas da profunda unidade da revelação bíblica. As leituras conduzem o fiel ao coração da fé cristã, mostrando que a iniciativa da salvação pertence sempre a Deus, que vê antes de julgar, chama antes de exigir, acolhe antes de condenar e transforma pela misericórdia aqueles que a sociedade, a religião ou até eles próprios já consideravam perdidos. O chamado de Mateus não é apenas a história de um homem do passado. É uma síntese do modo como Deus age ao longo de toda a Escritura e continua agindo na história humana. O capítulo 9 de Mateus encontra-se em uma seção na qual o evangelista apresenta a autoridade de Jesus através de sinais concretos. Depois do Sermão da Montanha, aquele que ensinou como novo Moisés demonstra por suas ações aquilo que suas palavras já haviam anunciado. Ele toca o leproso que todos evitavam, acalma as forças ameaçadoras do mar, devolve liberdade aos possessos e perdoa os pecados do paralítico. O chamado de Mateus surge imediatamente após esse último episódio, e essa sequência possui extraordinária importância teológica. Primeiro, Jesus perdoa. Depois, chama. Em seguida, senta-se à mesa. Por fim, enfrenta a resistência daqueles que não conseguem compreender a lógica do Reino. O olhar gera vocação; a vocação gera transformação; a transformação gera comunhão; a comunhão provoca conflito; e o conflito torna-se ocasião para a revelação mais profunda da misericórdia divina. Toda a narrativa desenvolve-se segundo esse movimento.

Quando Jesus passa diante da coletoria e vê Mateus, o Evangelho introduz um tema que atravessa toda a história da salvação: o olhar de Deus. Não se trata de um simples ato de observação. Na Bíblia, o olhar divino sempre inaugura uma nova história. O Senhor vê a aflição de Israel no Egito e decide libertá-lo (Ex 3,7-8). Vê Agar abandonada no deserto e transforma sua solidão em esperança (Gn 16,13). Vê Davi quando ninguém o considerava digno de ser rei (1Sm 16,1-13). O salmista contempla maravilhado esse Deus que conhece cada pensamento, cada passo e cada palavra antes mesmo que seja pronunciada (Sl 139,1-16). O profeta Ezequiel apresentará o Senhor como o pastor que sai pessoalmente à procura das ovelhas dispersas, cura as feridas das machucadas e reconduz as perdidas ao rebanho (Ez 34,11-16). Quando Jesus vê Mateus, todos esses ecos bíblicos ressoam silenciosamente. O olhar de Cristo é o olhar do próprio Deus que procura seus filhos. Mateus era publicano. Trabalhava em uma coletoria ligada ao sistema tributário romano e, por isso, encontrava-se entre os grupos mais rejeitados da Palestina do século I. Os cobradores de impostos eram frequentemente associados à exploração econômica, à corrupção e à colaboração com o poder ocupante. Sua exclusão possuía dimensões religiosas, sociais e culturais. Muitos eram considerados impuros e indignos da convivência comunitária. Em uma sociedade organizada em torno dos códigos de honra e vergonha, essa condição atingia profundamente a identidade pessoal. A pessoa acabava reduzida ao rótulo que lhe era imposto. O publicano deixava de ser visto como um ser humano complexo para tornar-se apenas um símbolo de tudo aquilo que a comunidade rejeitava. Contudo, Jesus não vê apenas um cobrador de impostos. Vê um discípulo possível. Vê uma história ainda não realizada. Vê uma vocação escondida sob as camadas da exclusão e da culpa. O Senhor que ensinou Samuel que o homem vê as aparências enquanto Deus contempla o coração continua revelando essa verdade diante da coletoria de Cafarnaum.

A palavra seguinte é tão breve quanto revolucionária: “Segue-me”. Com ela, Mateus é inserido na grande corrente dos chamados bíblicos. Abraão ouviu uma voz que o convidava a deixar sua terra, sua parentela e suas seguranças para caminhar rumo a um futuro que ainda não podia enxergar (Gn 12,1-4). Moisés foi chamado diante da sarça ardente para libertar um povo escravizado (Ex 3,10-12). Isaías escutou a pergunta divina e respondeu: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8). Jeremias descobriu que Deus o conhecia antes mesmo de sua formação no ventre materno (Jr 1,5). Pedro abandonou as redes para tornar-se pescador de pessoas (Lc 5,1-11). Em todos esses casos, a vocação não nasce da perfeição humana, mas da iniciativa divina. Deus não escolhe porque alguém já é plenamente capaz; escolhe porque deseja tornar possível aquilo que ainda não existe. Essa dinâmica encontra profunda sintonia com a teologia de Paulo em Romanos 4. O apóstolo apresenta Abraão como aquele que acreditou contra toda esperança, confiando naquele que “dá vida aos mortos e chama à existência aquilo que não existe” (Rm 4,17). A mesma lógica está presente no chamado de Mateus. Abraão acreditou quando a esterilidade parecia tornar impossível a promessa. Mateus respondeu quando sua própria história parecia torná-lo improvável como discípulo. Em ambos os casos, a graça revela possibilidades invisíveis aos olhos humanos. Deus vê descendência onde existe esterilidade. Vê apostolado onde todos enxergam apenas pecado. Vê futuro onde os homens percebem apenas fracasso. A fé bíblica nasce precisamente dessa confiança radical na capacidade de Deus de criar novos começos.

A resposta de Mateus é descrita em poucas palavras: “Ele se levantou e o seguiu”. O evangelista utiliza um verbo carregado de significado pascal. O ato de levantar-se evoca a ressurreição. Não se trata apenas de mudar de posição física. Mateus ergue-se de uma antiga forma de existência para iniciar uma vida nova. Seu gesto recorda o próprio movimento do Êxodo. Assim como Israel precisou levantar-se da escravidão para caminhar rumo à liberdade prometida, Mateus abandona sua coletoria para iniciar o êxodo interior do discipulado. O seguimento de Jesus nunca consiste apenas em deslocamento geográfico. O verbo grego akolouthein expressa adesão existencial. Seguir Cristo significa reorganizar toda a vida a partir dele, aprender a olhar o mundo com seus olhos, assumir seus valores, participar de sua missão e deixar-se conduzir por sua lógica de amor e serviço..A narrativa desloca-se então para uma refeição. Esse detalhe possui enorme importância. Na tradição bíblica, a mesa é um dos grandes símbolos da aliança. A libertação de Israel é celebrada através da refeição pascal (Ex 12). Os profetas anunciam a plenitude dos tempos como um banquete preparado por Deus para todos os povos (Is 25,6-9). Os salmos celebram a mesa preparada pelo Senhor diante dos inimigos (Sl 23,5). Mais tarde, Jesus utilizará repetidamente a imagem do banquete para falar do Reino (Lc 14,15-24), e o Apocalipse apresentará a consumação da história como as núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). Toda refeição de Jesus possui, portanto, um significado que ultrapassa o simples ato de alimentar-se. A mesa torna-se espaço de reconciliação, pertença e comunhão.

Por isso o escândalo provocado pela presença de Jesus entre publicanos e pecadores é tão intenso. O problema não era apenas conversar com eles. Era partilhar a mesa. Em uma cultura onde comer juntos significava reconhecer laços de comunhão, aquele gesto equivalia a afirmar publicamente que aquelas pessoas possuíam lugar no Reino de Deus. A refeição na casa de Mateus antecipa, de certo modo, todas as refeições futuras de Jesus. Antecipará a multiplicação dos pães, onde multidões serão alimentadas sem distinção. Antecipará a Última Ceia, na qual o Mestre oferecerá seu corpo e seu sangue pela vida do mundo. Antecipará a Eucaristia, sacramento da misericórdia oferecida aos pecadores em caminho de conversão. A mesa da casa de Mateus já contém em germe a universalidade da mesa eucarística..A reação dos fariseus expressa uma visão religiosa baseada na separação entre puros e impuros. Não se trata de simples hipocrisia, mas de uma compreensão da santidade construída ao longo de séculos. Muitos acreditavam que a fidelidade a Deus exigia distância rigorosa daquilo que pudesse contaminar. Jesus propõe uma lógica diferente. Sua santidade não se protege pela exclusão. Ela se comunica pela proximidade. A luz não teme a escuridão porque existe para iluminá-la. O médico não evita os doentes para preservar sua saúde; aproxima-se deles para restaurá-la. É precisamente essa imagem que Jesus utiliza ao responder aos seus críticos: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes”.

A metáfora médica possui raízes profundas nas Escrituras: 

  •  Deus é aquele que cura todas as enfermidades (Sl 103,3).
  •  Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado” (Jr 17,14).
  •  Isaías apresenta o Servo Sofredor cujas feridas trazem cura para muitos (Is 53,5).
  •  Ezequiel fala do pastor que fortalece a ovelha fraca, cura a ferida e procura a perdida (Ez 34,16). 
Em Jesus, essa ação terapêutica de Deus torna-se visível e concreta. Sua missão não consiste em administrar um clube dos perfeitos, mas em restaurar aqueles que carregam as feridas da existência humana..É nesse contexto que surge a declaração decisiva: “Ide aprender o que significa: misericórdia eu quero e não sacrifício” (Os 6,6). Essa frase constitui a chave interpretativa de toda a passagem. O profeta Oseias denunciava um povo que continuava realizando cerimônias religiosas enquanto sua vida permanecia distante da justiça e da fidelidade. A religião permanecia ativa, mas a aliança estava ferida. O problema não era o culto em si, mas a tentativa de substituir a conversão do coração por práticas exteriores. A palavra hebraica utilizada por Oseias, hesed, expressa fidelidade amorosa, compaixão concreta, solidariedade e compromisso. Não se trata de um sentimento passageiro, mas de uma forma de viver as relações.

A mesma crítica atravessa toda a tradição profética;

  • Amós denuncia celebrações religiosas que coexistem com a opressão dos pobres (Am 5,21-24). 
  • Isaías rejeita sacrifícios que não produzem justiça (Is 1,11-17). 
  • Miqueias recorda que Deus deseja justiça, misericórdia e humildade mais do que ofertas cultuais (Mq 6,6-8). 
  • Zacarias exorta o povo a praticar a misericórdia e não oprimir a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre (Zc 7,9-10). 
Jesus não rompe com essa tradição. Pelo contrário, leva-a ao seu pleno cumprimento. Sua crítica não é dirigida à fé, mas ao seu esvaziamento ético. Não combate a religião, mas sua transformação em instrumento de exclusão..O Salmo 49 reforça essa mesma mensagem. Deus recorda ao seu povo que não necessita de sacrifícios como se dependesse deles. Toda a criação já lhe pertence. O verdadeiro culto nasce da gratidão, da fidelidade e da justiça. A religião torna-se estéril quando se reduz a formalidades desconectadas da vida. A adoração autêntica manifesta-se em uma existência transformada pela misericórdia.

Essa verdade continua profundamente atual. Os mecanismos de exclusão assumem formas diferentes em cada época, mas permanecem presentes. Hoje os publicanos podem ser encontrados entre: os pobres das periferias, os migrantes, os refugiados, os encarcerados, os dependentes químicos, os desempregados, os descartados pela lógica econômica ou todos aqueles cuja dignidade é negada por preconceitos e desigualdades. O Evangelho continua escandaloso porque insiste em aproximar-se precisamente desses lugares de vulnerabilidade. Cristo permanece identificando-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os presos, como recorda Mateus 25. A misericórdia não é um tema periférico da fé cristã. É a forma concreta assumida pelo amor de Deus dentro da história.

Também a Igreja é continuamente chamada a examinar-se à luz dessa passagem. A pergunta permanece atual: reproduzimos o olhar misericordioso de Cristo ou reconstruímos as barreiras que ele veio derrubar? Sempre existe o risco de substituir a compaixão pelo moralismo, a proximidade pelo controle, a missão pela autopreservação institucional. A fé pode degenerar em ideologia. A doutrina pode ser utilizada como instrumento de exclusão. A autoridade pode transformar-se em privilégio. Por isso o Evangelho permanece permanentemente crítico diante de toda forma de clericalismo, autoritarismo religioso ou instrumentalização da fé para projetos de poder. Jesus jamais utilizou a religião para construir inimigos. Seu caminho foi sempre o da reconciliação, da verdade e da misericórdia. Ao longo da história, homens e mulheres procuraram viver essa lógica evangélica.

  1.  Francisco de Assis aproximou-se dos leprosos. 
  2. Bartolomeu de Las Casas defendeu os povos indígenas. 
  3. Dom Hélder Câmara denunciou a miséria estrutural. 
  4. Dom Oscar Romero entregou a própria vida ao lado dos pobres. 
  5. Dorothy Stang testemunhou a defesa da Amazônia e dos pequenos até o martírio.
 Em todos eles, a mesa de Mateus continuou aberta. Em todos eles, a misericórdia mostrou-se mais forte que os mecanismos de exclusão.

Ao final da narrativa, Mateus permanece diante de nós como um espelho da condição humana. Cada pessoa possui suas próprias coletorias: lugares de culpa, medo, acomodação, fracasso, vergonha ou sofrimento onde permanece sentada há anos. Todos carregamos experiências que parecem definir nossa identidade e limitar nosso futuro. O Evangelho anuncia que Cristo continua passando por essas estradas interiores. Ele não vê apenas aquilo que fomos. Não nos reduz aos nossos pecados nem às nossas feridas. Vê aquilo que podemos nos tornar pela ação da graça. O Deus que chamou Abraão quando a promessa parecia impossível, que libertou Israel da escravidão, que procurou as ovelhas dispersas através dos profetas e que enviou seu Filho para buscar os perdidos continua agindo na história. Seu olhar permanece criador. Sua misericórdia permanece transformadora. Sua graça continua abrindo caminhos onde tudo parecia encerrado..O Cristo que passou diante da coletoria continua percorrendo as estradas do mundo e os caminhos ocultos do coração humano. Continua vendo aqueles que ninguém vê. Continua chamando aqueles que muitos consideram indignos. Continua sentando-se à mesa com os esquecidos. Continua revelando o Deus que faz nascer vida onde parecia haver apenas morte e esperança onde predominava o desespero. E continua repetindo, a cada geração, a palavra que transformou a vida de Mateus, atravessou a fé de Abraão, iluminou a voz dos profetas e permanece capaz de renovar a nossa existência: “Segue-me”.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Jesus, Além do Ostensório

  • O Corpo Adorado, o Corpo Esquecido e as Ausências Reais da Comunhão, uma realidade  em  muitas  Igrejas  de hoje.
A missa estava pronta para começar. O povo já aguardava. Os horários haviam sido marcados, as equipes estavam reunidas e tudo indicava que mais uma atividade evangelizadora teria início. Mas ainda faltava um detalhe considerado indispensável: o fogo que acenderia o incenso. A fumaça precisava subir. O símbolo precisava cumprir seu papel. Somente depois disso a missão poderia começar. Logo veio à memória alguém, uma ministra leiga da Eucaristia, já idosa, marcada pelo peso dos anos e por uma longa história de serviço à comunidade, havia sido afastada por um jovem padre, sob a justificativa de que atrapalhava o andamento das atividades. Encontrava-se internada e, segundo alguém, reclamava da falta da visita dos irmãos e irmãs da sua fé. O contraste era inevitável. O fogo não podia faltar. O incenso não podia atrasar. O rito precisava acontecer. Mas uma pessoa que dedicara parte significativa de sua vida à Igreja pôde ser colocada de lado. A cena parece conter uma pergunta silenciosa sobre a ordem das prioridades na vida cristã. (Mt 25,31-46; Tg 2,1-9; CIC 1397).
Logo após o evento, ao abrir as redes sociais, soubemos  que aquela ministra já não estava entre nós. Fez sua Páscoa definitiva. Sua voz está silenciada. Suas mãos envelhecidas, que durante tantos anos distribuíram a Eucaristia aos enfermos, aos idosos e aos fiéis da comunidade, repousaram definitivamente. Sua caminhada chegou ao fim. A morte, porém, possui uma estranha capacidade de iluminar aquilo que a rotina costuma esconder. Quando alguém parte, restam a memória e a consciência. Permanecem as lembranças dos serviços prestados, das dificuldades enfrentadas, das alegrias compartilhadas e também das feridas carregadas. Os mortos possuem uma força que os vivos frequentemente subestimam. Eles já não falam, mas sua história continua interrogando as consciências. A memória de uma servidora afastada torna-se uma pergunta que a comunidade não consegue sepultar. Muitas vezes as comunidades religiosas são generosas com homenagens póstumas e econômicas em gratidão cotidiana. As flores chegam quando já não podem ser vistas. Os elogios aparecem quando já não podem ser ouvidos. A memória transforma-se então numa espécie de juízo silencioso sobre as escolhas feitas durante a vida. (Eclo 44,1-15; Hb 13,7; Ap 14,13).
O Documento de Aparecida recorda que os idosos não são apenas destinatários da ação pastoral, mas guardiões de memória, experiência e sabedoria. Eles carregam a história viva da fé transmitida através das gerações. Quando uma comunidade deixa de ouvir seus idosos, não perde apenas colaboradores; perde parte de sua própria memória espiritual. A morte recente daquela ministra torna essa reflexão ainda mais profunda. Com ela desaparece uma voz, mas permanece uma pergunta. Como tratamos aqueles que dedicaram anos de suas vidas ao serviço do Evangelho? A resposta não será encontrada apenas nas homenagens prestadas após sua morte, mas na qualidade da comunhão que lhes oferecemos enquanto ainda caminhavam entre nós. (Documento de Aparecida, nn. 447-450, 458; Sl 92,13-16).
O caso torna-se ainda mais. significativo porque não parece tratar-se de um episódio isolado. Há relatos de outros afastamentos, de outras exclusões, de outros irmãos e irmãs que, por razões diversas, deixaram de encontrar espaço dentro da própria comunidade. Nem sempre existe um decreto formal de exclusão. Na maioria das vezes ela acontece silenciosamente: 
  • As pessoas deixam de ser chamadas, deixam de ser consultadas,
  •  Deixam de participar das decisões, 
  • deixam de receber responsabilidades que durante anos exerceram com dedicação.
 Continuam sentadas nos bancos da igreja, mas já não ocupam lugar real na vida comunitária. 
Podemos  identificar  esse fenômeno como uma das formas mais sutis de marginalização institucional. O pertencimento permanece na aparência, mas desaparece na prática. (1Cor 12,12-27; Rm 12,4-8; Documento de Aparecida, n. 161).
Às vezes, poucas experiências humanas são tão dolorosas quanto a sensação de não pertencer mais ao grupo que ajudou a construir. O sofrimento não nasce apenas da perda de uma função. Surge da perda do reconhecimento. O ser humano necessita sentir-se visto, valorizado e acolhido. Quando isso não acontece, especialmente em ambientes religiosos, a dor pode ser ainda maior, porque não afeta apenas a dimensão social da pessoa, mas também sua identidade espiritual. A comunidade que deveria ser espaço de comunhão transforma-se em lugar de invisibilidade. O templo permanece aberto, mas as portas simbólicas se fecham. (Gn 16,13; Lc 15,1-32; Documento de Aparecida, nn. 226, 368).
A própria Igreja, através do Código de Direito Canônico, oferece critérios importantes para refletir sobre essas situações:
  •   cânon 208 afirma que entre todos os fiéis existe verdadeira igualdade na dignidade e na ação em virtude do Batismo. Essa igualdade não elimina a diversidade dos ministérios, mas recorda que ninguém pode ser reduzido à sua utilidade prática ou à função que desempenha. O fiel não é um instrumento descartável da organização eclesial. É sujeito da missão da Igreja. (CDC, cân. 208; Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 32).
  • O cânon 212 reconhece que os fiéis têm o direito e, por vezes, até o dever de manifestar aos seus pastores aquilo que consideram importante para o bem da Igreja. (CDC, cân. 212 §3).
  • cânon 213 afirma que possuem direito aos bens espirituais da Igreja. (CDC, cân. 213).
  • cânon 214 garante o direito de prestar culto a Deus segundo as normas legítimas da própria Igreja. (CDC, cân. 214).
Tudo isso recorda que a comunhão eclesial não é mera concessão da autoridade, mas expressão da dignidade batismal comum a todos. (Gl 3,28; Ef 4,1-6; Lumen Gentium, 9). Nesse contexto, cresce uma questão que merece reflexão profunda. Em muitos ambientes eclesiais observa-se uma legítima valorização da adoração eucarística. Multiplicam-se horas santas, procissões, bênçãos do Santíssimo Sacramento, vigílias e momentos de oração diante da presença real de Cristo na Eucaristia. Trata-se de uma riqueza autêntica da tradição católica. A Igreja sempre ensinou que Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente no Sacramento do Altar. (Catecismo da Igreja Católica, nn. 1373-1377; Concílio de Trento, Sessão XIII; Sacrosanctum Concilium, 7).
O Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como "fonte e ápice de toda a vida cristã". (CIC 1324; Lumen Gentium, 11). A adoração eucarística constitui um dos tesouros espirituais mais profundos do catolicismo. (CIC 1378-1381). O problema não é o excesso de adoração. Nunca haverá adoração demais a Cristo. O problema surge quando a adoração deixa de produzir conversão. O problema aparece quando a devoção não transforma o adorador. O problema manifesta-se quando a reverência diante do sacrário não se converte em reverência diante da dignidade humana. (Is 58,6-10; Os 6,6; Mt 9,13; 1Jo 4,20).
A questão torna-se inevitável:
  • Que sentido possui ajoelhar-se diante do ostensório enquanto irmãos e irmãs da própria comunidade são afastados ou tratados como inconvenientes? (Tg 2,1-9).
  • Que significado possui permanecer longos períodos em contemplação diante da hóstia consagrada enquanto pessoas concretas carregam feridas produzidas pela exclusão? (Mt 25,40; Is 58,7).
  • Que coerência existe entre proclamar a presença real de Cristo na Eucaristia e não reconhecer a presença do mesmo Cristo na pessoa idosa, no leigo, no pobre, no esquecido e no marginalizado? (Mt 25,31-46; Lc 4,18-19; Documento de Aparecida, nn. 391-398).
A tradição cristã sempre respondeu a essas perguntas de maneira exigente. Os profetas de Israel denunciaram repetidamente uma religião que preservava os ritos enquanto abandonava a justiça. Isaías proclamava que o jejum agradável a Deus consiste em libertar os oprimidos, repartir o pão com os famintos e acolher os necessitados. (Is 58,6-10). Amós transmitia a severa crítica divina contra celebrações desacompanhadas de justiça: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene." (Am 5,21-24). Jesus retomou a mesma denúncia ao confrontar uma religiosidade preocupada com aparências e pouco sensível à misericórdia. (Mt 23,23-28; Mc 7,6-13).
Em Mateus 25, o critério decisivo do julgamento não é a perfeição ritual, mas o reconhecimento de Cristo no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso. "Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes." (Mt 25,40). A grande pergunta do Evangelho nunca foi apenas como os homens tratam os símbolos sagrados, mas também como tratam as pessoas nas quais Deus se manifesta. (1Jo 4,20-21; Tg 2,14-17).
A própria teologia católica oferece um caminho para compreender essa tensão. Cristo está presente de modo único e substancial na Eucaristia. Essa presença possui uma singularidade que nenhuma outra forma de presença possui. (CIC 1374). Contudo, a Igreja também reconhece a presença de Cristo na Palavra proclamada, na assembleia reunida em seu nome, nos pobres, nos sofredores e na própria comunidade eclesial. (Sacrosanctum Concilium, 7; Mt 18,20; Mt 25,40). Não se trata de presenças idênticas, mas de presenças inseparáveis.
A mesma presença do Senhor que é adorada no altar continua a encontrar os fiéis nos rostos concretos dos irmãos. É por isso que a tradição cristã jamais permitiu uma separação absoluta entre culto e vida, entre liturgia e ética, entre adoração e fraternidade. O mesmo Cristo que se oferece sacramentalmente na Eucaristia continua a manifestar-se misteriosamente naqueles que carregam as marcas da fragilidade humana. (Mt 25,31-46; Lc 10,25-37; Sacrosanctum Concilium, 7).
Por isso, alguns princípios emergem com força do próprio Evangelho:
  • Quem aprende a ajoelhar-se diante do sacrário deve aprender também a não humilhar aquele que carrega a imagem de Deus. (Gn 1,26-27; Tg 3,9-10; Mt 25,40).
  • Quem beija o ostensório deve aprender a respeitar a dignidade daqueles que o próprio Cristo chamou de seus irmãos menores. (Mt 25,40; 1Jo 4,20-21).
  • Quem honra o Corpo Eucarístico é chamado igualmente a honrar o Corpo Eclesial, formado pelos irmãos e irmãs reunidos pelo Batismo. (1Cor 12,12-27; Ef 4,4-6).
São Paulo enfrentou problema semelhante na comunidade de Corinto. Enquanto celebravam a Ceia do Senhor, os cristãos reproduziam divisões sociais e humilhações entre si. Por isso escreveu palavras duríssimas em sua Primeira Carta aos Coríntios. Não bastava repetir corretamente o rito. Era necessário discernir o Corpo. (1Cor 11,17-34). A interpretação cristã ao longo dos séculos compreendeu que discernir o Corpo significa reconhecer a presença de Cristo não apenas no pão e no vinho consagrados, mas também na comunidade reunida. Uma Eucaristia celebrada em meio à humilhação dos irmãos transformava-se numa contradição do próprio mistério que pretendia celebrar. (1Cor 11,29; 1Cor 12,26-27).
Os Padres da Igreja aprofundaram essa compreensão: 
  •  Santo Agostinho ensinava aos fiéis que eles recebiam aquilo que eram chamados a ser: Corpo de Cristo. "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis." (Santo Agostinho, Sermão 272). 
  • São João Crisóstomo advertia que não se podia honrar Cristo com vasos preciosos no altar e abandoná-lo na pobreza e no sofrimento dos irmãos. "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu." (Homilia sobre Mateus 50,3-4).
 A tradição patrística jamais separou a adoração do compromisso com a fraternidade. O altar e a vida caminhavam juntos. O culto e a justiça eram partes da mesma realidade espiritual.
O Catecismo da Igreja Católica reforça essa visão ao ensinar que a Eucaristia fortalece a caridade e compromete os cristãos com os pobres. (CIC 1394; CIC 1397). Não é por acaso que afirma que o amor da Igreja pelos pobres pertence à sua tradição constante. (CIC 2444). Se uma comunidade multiplica suas devoções eucarísticas, mas não cresce simultaneamente em misericórdia, acolhimento e sensibilidade para com os vulneráveis, existe uma tensão que precisa ser examinada à luz do Evangelho. A verdadeira adoração não termina diante do ostensório. Ela continua na forma como se trata o próximo. (1Jo 4,20; Tg 2,14-17; Mt 25,40).
Sob a perspectiva das ciências da religião, o que se observa em muitos contextos é uma espécie de deslocamento do sagrado. O sagrado concentra-se progressivamente nos objetos, nos gestos, nas vestes e nos detalhes rituais, enquanto as relações humanas perdem centralidade. A comunidade desenvolve enorme sensibilidade para identificar possíveis irreverências contra símbolos religiosos, mas reduz sua capacidade de perceber feridas humanas concretas. A hóstia é cuidadosamente protegida. O ostensório é cuidadosamente venerado. O sacrário é cuidadosamente preservado. Entretanto, pessoas concretas podem ser esquecidas, afastadas ou silenciadas sem que isso provoque a mesma inquietação moral. (Mt 23,23-24; Is 1,11-17).
Talvez seja justamente aqui que surja uma reflexão necessária sobre a própria ideia de profanação. Frequentemente a palavra é utilizada para designar atos de desrespeito contra a Eucaristia. E de fato a Igreja possui razões legítimas para proteger o Santíssimo Sacramento contra abusos e irreverências. (CIC 2120; CDC cân. 1367 do antigo código, atualmente reorganizado na legislação penal canônica). Contudo, a tradição bíblica sugere uma compreensão mais profunda. Quando o culto é separado da justiça, algo sagrado também é profanado. Quando a dignidade humana é ferida em nome de uma religiosidade formal, algo da própria mensagem de Cristo é desfigurado. (Am 5,21-24; Is 58,1-10; Mt 23,13-36).
Quando a comunidade se acostuma a excluir pessoas enquanto intensifica práticas devocionais, instala-se uma contradição espiritual que nenhuma solenidade litúrgica consegue esconder. (1Cor 11,17-34; CIC 1397; Documento de Aparecida, nn. 161, 368 e 537). Não porque a Eucaristia perca sua santidade, mas porque aqueles que a celebram deixam de testemunhar plenamente aquilo que ela significa.
Nesse contexto aparecem também orientações insistentes para que os fiéis recebam a comunhão de joelhos e na boca. Sem dúvida, trata-se de uma prática legítima e venerável da tradição católica. Muitos cristãos expressam dessa maneira sua profunda reverência diante do Sacramento. Entretanto, a Igreja também reconhece outras formas legítimas de recepção da comunhão, conforme as normas aprovadas pela autoridade competente. (Instrução Geral do Missal Romano; Redemptionis Sacramentum, nn. 90-92). O problema não está na prática em si, mas na transformação de uma opção legítima em critério de superioridade espiritual ou em instrumento de distinção religiosa.
Em determinados contextos, a forma de receber a comunhão, o modo de vestir, a linguagem utilizada e determinadas sensibilidades litúrgicas acabam funcionando como marcadores de pertencimento. Pouco a pouco, alguns passam a ser vistos como os verdadeiramente fiéis, enquanto outros são percebidos como espiritualmente inferiores. O Evangelho, porém, não instituiu castas de santidade. (Gl 3,28; Rm 2,11). A Carta de Tiago adverte severamente contra qualquer acepção de pessoas dentro da assembleia cristã. (Tg 2,1-9). Ajoelhar-se diante da Eucaristia é belo. Mas o Evangelho recorda que também é necessário curvar-se diante da dignidade do irmão.
É nesse ponto que surge o fenômeno que Aparecida e o magistério contemporâneo identificam como clericalismo e fechamento comunitário. O clericalismo não consiste apenas na concentração de autoridade por parte do clero. Ele nasce sempre que funções se tornam mais importantes que pessoas, quando estruturas se tornam mais importantes que relações e quando a manutenção da ordem vale mais do que a promoção da comunhão. O clericalismo transforma irmãos em subordinados, carismas em ameaças e diferenças em problemas. Pouco a pouco instala-se uma cultura de exclusão revestida de linguagem religiosa. Aparecida insiste que a Igreja deve ser casa e escola de comunhão, lugar onde ninguém se sinta descartado, invisível ou estrangeiro. (Documento de Aparecida, nn. 158, 161, 368, 524; Lumen Gentium, 9).
O próprio Direito Canônico oferece um antídoto importante contra essa deformação. A Igreja não vê os fiéis como meros destinatários passivos das decisões eclesiais. Pelo Batismo, todos participam da missão da Igreja e possuem dignidade própria, deveres e direitos reconhecidos pelo ordenamento canônico. (CDC, câns. 204-223; Lumen Gentium, 31-33). A finalidade do Direito Canônico não é proteger formalismos vazios nem criar castas dentro da Igreja. O princípio que o inspira é a dignidade comum dos batizados. Seu meio é a organização justa da vida eclesial. Seu fim último é a salvação das almas. Não por acaso, o último cânon do Código afirma que a salvação das almas deve ser sempre a lei suprema da Igreja. (CDC, cân. 1752).
Nenhuma norma encontra seu verdadeiro sentido quando serve para humilhar, marginalizar ou descartar pessoas. A autoridade existe para construir comunhão. A disciplina existe para favorecer a missão. A liturgia existe para glorificar a Deus e santificar o povo. (Mt 20,25-28; Lc 22,24-27; Christus Dominus, 16).
Por isso, a morte daquela ministra idosa permanece como uma interrogação silenciosa para todos os que permaneceram. Talvez tenha recebido homenagens após sua partida. Talvez tenham sido pronunciadas palavras de gratidão. Talvez tenham sido lembrados seus anos de dedicação. Mas a pergunta mais importante não se dirige aos mortos; dirige-se aos vivos. Ela pergunta se a comunidade soube reconhecer sua dignidade enquanto ela ainda estava presente. Pergunta se houve espaço para sua experiência, sua história e sua humanidade. Pergunta se o Cristo adorado na Eucaristia foi realmente reconhecido naquela mulher que serviu durante tantos anos. (Mt 25,40; 1Jo 4,20; Documento de Aparecida, 447-450).
No fim, a questão não é o incenso. Não é o ostensório. Não é a comunhão na boca. Não é a comunhão de joelhos. Não é a adoração eucarística. Tudo isso possui lugar legítimo e precioso na vida da Igreja. As questões decisivas são outras:
Enquanto a fumaça do incenso subia aos céus, quantos irmãos permaneciam invisíveis na terra? (Is 58,6-10; Mt 25,42-45).
Enquanto se defendia a honra de Cristo presente na hóstia, quem defendia a dignidade de Cristo presente nos excluídos da comunidade? (Mt 25,40; 1Jo 4,20).
Enquanto se falava de reparação pelas ofensas cometidas contra o Santíssimo Sacramento, quem se preocupava em reparar as feridas causadas pelos afastamentos, pelas exclusões e pelos silêncios? (Mt 5,23-24; Ef 4,31-32).
Todos aguardavam o fogo que consumiria o incenso. Talvez poucos tenham percebido que o fogo mais importante do Evangelho é o da caridade. (1Cor 13,1-13). Sem ele, o incenso sobe, os cânticos ecoam, as procissões acontecem, os ostensórios brilham e os ritos se multiplicam, mas a missão corre o risco de perder sua alma. Porque o fogo do altar jamais foi destinado a substituir o fogo do amor. Onde a caridade se apaga, a religião corre o risco de tornar-se uma bela estrutura sem coração. Onde a caridade permanece acesa, até mesmo os gestos mais simples tornam-se verdadeira adoração. (1Jo 4,7-21; Mt 22,34-40).
Talvez seja exatamente isso que o Evangelho continua a recordar a cada geração: não existe oposição entre adorar Cristo na Eucaristia e servir Cristo nos irmãos. Existe, ao contrário, uma profunda unidade. Quando uma dessas dimensões é esquecida, a outra também começa a adoecer. Quando ambas caminham juntas, a Igreja torna-se aquilo que foi chamada a ser: sacramento de comunhão, casa de misericórdia, povo de Deus a caminho e sinal vivo do Reino de Deus na história. (Lumen Gentium, 1 e 9; Documento de Aparecida, nn. 158, 161 e 368; Jo 13,34-35).

DNonato  - Pecador Público, por motivos que ainda não posso postar.
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