quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,7-12.

  • O Convite à Oração e Confiança Filial

O Evangelho de Mateus 7,7-12, proclamado na liturgia do Rito Romano na primeira semana da Quaresma, representa o clímax do Sermão da Montanha (Mt 5–7), convidando à oração perseverante e confiada. Jesus apresenta pedir, buscar e bater como práticas existenciais que moldam a vida inteira, articulando confiança em Deus e compromisso ético com o próximo. A oração não se reduz a rituais mecânicos; é expressão de uma relação viva com o Pai, inseparável da justiça, da misericórdia e da solidariedade comunitária.8

O verbo grego empregado enfatiza continuidade e persistência, indicando que o discípulo deve cultivar um diálogo constante com Deus. Essa dinâmica é ecoada no Antigo Testamento: Abraão intercede por Sodoma (Gn 18,23-33), Moisés pelo povo (Êx 32,11-14), Samuel clama por arrependimento (1Sm 7,5-9), Daniel ora diante do decreto de morte (Dn 6,10-11) e Elias suplica pelo fim da seca (1Rs 18,36-37). Esses exemplos mostram que a oração nasce da vulnerabilidade humana, da consciência da dependência de Deus e da esperança na intervenção divina para justiça e restauração.

Nos Sinóticos, a oração perseverante aparece de formas complementares: Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente, demonstrando que Deus atende pela fidelidade e persistência do discípulo; Marcos 11,24-25 enfatiza confiança total e reconciliação com o próximo; Mateus acrescenta uma dimensão ética e comunitária mais explícita, conectando oração, justiça social e ação transformadora.

A “regra de ouro” (Mt 7,12; Lc 6,31) sintetiza a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40), mostrando que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão e de promover a justiça (Is 58,6-10; Am 5,21-24; Jr 22,3; Mq 6,6-8). Oração autêntica transforma o coração e gera ação concreta. Sem essa dimensão, a fé se torna religiosidade vazia, como alertam Isaías 1,11-17 e Jeremias 7,5-7, denúncia que permanece atual diante de cultos que ignoram injustiças, desigualdade e exploração.

Historicamente, a comunidade de Mateus enfrentava tensões com o judaísmo pós-destruição de Jerusalém (70 d.C.), deslocamentos e perseguição. Nesse contexto, Jesus apresenta Deus como Pai que oferece pão e peixe, símbolos de sustento e vida concreta, contrapondo-os à pedra e à serpente, representações de perigo e engano (Mt 4,3-4; Gn 3,1; Nm 21,6-9). O Pai não manipula nem ilude; oferece aquilo que é bom para a vida plena, incluindo discernimento espiritual e resistência ao mal.

Do ponto de vista antropológico, a figura paterna mediterrânea é reinterpretada: Deus cuida sem opressão, protege sem dominação. Psicologicamente, a confiança filial é antídoto contra ansiedade e desesperança (Mt 6,25-34; Sl 37,3-7), oferecendo segurança interior mesmo em contextos de tribulação. A oração não é instrumento de enriquecimento material (Tg 4,3), mas caminho de comunhão com a vontade divina (Jo 15,16; 1Jo 5,14-15).

A oração evidencia resistência profética frente à autossuficiência, competição e consumismo religioso. Persistir em pedir, buscar e bater denuncia estruturas de exploração, fortalece solidariedade e transforma a sociedade. Lucas 18,1-8, com a parábola da viúva persistente, ilustra a paciência e fidelidade necessárias para que a justiça prevaleça. Na realidade contemporânea, essa perseverança nos convoca a enfrentar desigualdades, violência urbana, precarização do trabalho, corrupção, feminicídio e exclusão social, convertendo fé em ação transformadora.

O simbolismo de pedir, buscar e bater é rico e multifacetado: pedir revela consciência da própria limitação; buscar exige ação e desejo ativo; bater evoca esperança e insistência diante de portas fechadas (Ap 3,20; Mt 25,35-40). Pão e peixe simbolizam sustento e vida compartilhada (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provações e tentação (Mt 4,3-4); serpente lembra o mal persistente desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada símbolo articula dimensões espirituais, éticas e comunitárias, formando discípulos engajados na fé e na transformação social. A promessa de receber, encontrar e ter a porta aberta aponta à plenitude do Reino de Deus (Mt 25,34-40; Lc 12,32). A oração não elimina sofrimento imediato, mas forma discípulos pacientes e perseverantes (Lc 22,42), integrando esperança, fé e ação ética. A regra de ouro reforça que religiosidade sem transformação social é vazia (Is 58,6-10; Am 5,21-24), lembrando que oração e compromisso comunitário são inseparáveis.

A espiritualidade individualista é desafiada: o Pai é Nosso, o pão é nosso,  comunitário e o perdão é recíproco (Mt 6,9-13; Lc 6,37-38). A oração une história, comunidade e ética, desarma fanatismos e impede que a fé seja manipulada por interesses excludentes. No contexto latino-americano e global, marcado por desigualdades, violência estrutural e exclusão social, pedir justiça implica engajamento; buscar o Reino exige transformação das estruturas; bater à porta de Deus exige abrir portas aos marginalizados, empobrecidos e oprimidos.

A tradição patrística e mística reforça a inseparabilidade entre oração e ação.

  •  Santo Agostinho  afirma:  que a oração é abertura à vontade de Deus, mas também ação em consonância com essa vontade, permitindo que a graça transforme decisões, atitudes e circunstâncias. A oração não substitui a responsabilidade humana, mas a orienta ou seja pedir, buscar e bater como progressão espiritual: ora-se com a boca, busca-se com ação e bate-se com perseverança até entrar na intimidade de Deus. 
  •  Santos, mártires e pobres demonstram que oração e caridade caminham juntas, e que a perseverança na fé constitui resistência profética diante de injustiça, exploração e violência (Tg 5,16; 1Cor 2,9; Jo 14,16-17).

Paulo reforça a dimensão ética:

  •  “Orai sem cessar” (1Ts 5,16-18), “oferecei-vos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1-2) e “orai em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças” (Ef 6,18). A oração é inseparável da vida ética, da resistência profética e do compromisso social.

Aplicando ao tempo presente, a oração perseverante denuncia estruturas de opressão: exploração econômica, corrupção política, violência contra mulheres, racismo estrutural, destruição ambiental e exclusão social. Assim como Isaías e Jeremias clamaram à justiça, a prática da oração hoje é engajamento ativo, solidariedade comunitária e denúncia profética, promovendo dignidade, igualdade e transformação social.No contexto da vida contemporânea, isso significa que a persistência na oração exige engajamento social: lutar contra desigualdades, combater injustiças, proteger os marginalizados e agir em favor da dignidade humana, assim como a oração de Israel nas batalhas exigia disciplina, coragem e participação ativa

A oração verdadeira, conforme ensina Mateus 7,7-12, não se limita a palavras ou gestos isolados; ela exige participação ativa de quem ora, pois Deus chama o discípulo a colaborar com a própria graça. Como afirma o ditado popular, “faça por onde que te ajudarei”, a iniciativa humana não substitui a ação divina, mas abre espaço para que ela se manifeste. Esse princípio encontra eco na experiência de Israel em batalha. Quando o povo enfrentava inimigos, Moisés levantava suas mãos em oração, apoiado por Arão e Hur, e a vitória dependia tanto da persistência da oração quanto da manutenção das mãos erguidas, como está registrado em Êxodo 17,8-13. De forma semelhante, Josué conduziu Israel à vitória em Jericó confiando em Deus e obedecendo às instruções divinas, marchando e tocando trombetas, mostrando que fé e ação caminham juntas (Js 6,6-20). Samuel intercedeu pelo povo diante das ameaças dos filisteus, clamando por justiça e proteção enquanto o povo cumpria seu papel de enfrentar o inimigo (1Sm 7,5-13). Daniel, diante da perseguição, orava com portas abertas e coração comprometido, evidenciando que a oração exige postura, disciplina e coragem diante das dificuldades (Dn 6,10-11).

No Novo Testamento, a dimensão da ação unida à oração permanece central. Lucas 11,5-13 apresenta a parábola do amigo insistente à meia-noite, enfatizando que Deus responde à perseverança de quem pede e se dispõe a agir. Paulo, em Efésios 6,18, convoca a orar “em todo tempo no Espírito, com súplicas e ações de graças”, mostrando que a oração deve ser acompanhada de discernimento, esforço e envolvimento prático na vida comunitária. Tiago 2,14-17 alerta que a fé sem obras é morta; orar sem agir diante das injustiças, da pobreza ou da opressão reduz a fé à mera formalidade. Jesus mesmo ensina que pedir pão ao Pai não se dissocia de dar pão ao irmão (Mt 7,12; Is 58,6-10; Am 5,21-24), unindo oração, ética e solidariedade.

O simbolismo de pedir, buscar e bater reforça essa integração entre oração e ação. Pedir indica reconhecimento da própria limitação e dependência de Deus; buscar implica movimento, iniciativa e esforço consciente; bater pressupõe insistência e esperança diante de portas fechadas (Ap 3,20). Pão e peixe simbolizam sustento e partilha comunitária (Jo 6,35; Lc 24,42); pedra representa provação e obstáculo (Mt 4,3-4); serpente lembra astúcia do mal desde a queda da humanidade (Gn 3,1; Nm 21,6-9). Cada gesto e cada símbolo articulam dimensões espirituais, éticas e sociais, convidando o discípulo a agir e perseverar, tornando a oração um instrumento de transformação concreta da vida pessoal e coletiva.

Mateus 7,7-12 permanece, portanto, como convite profético: confiar, agir e perseverar. Pedir, buscar e bater tornam-se verbos que moldam a vida inteira, orientando o discípulo ao Pai e ao próximo, transformando o mundo à luz da justiça, da misericórdia e da solidariedade. A oração perseverante é instrumento de esperança, resistência e construção de um Reino presente, encarnado na realidade contemporânea, mantendo viva a fé que transforma indivíduos e comunidades

Assim, a oração perseverante não é passiva nem individualista. Ela convoca o crente a aliar confiança em Deus à responsabilidade pessoal e comunitária, tornando-se instrumento de solidariedade, justiça e esperança ativa. Pedir, buscar e bater não é esperar que tudo aconteça sem esforço, mas envolver-se com fé na construção do bem, na defesa dos marginalizados e na promoção de um mundo mais justo. O modelo de oração de Mateus 7,7-12 permanece como convite profético: orar com persistência, agir com responsabilidade e confiar que Deus responde às ações consistentes e alinhadas à Sua vontade, evidenciando que fé e prática ética são inseparáveis.

DNonato -  Teólogo e Cotidiano 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Um olhar no Salmo 50 (51)


O Salmo 50, conhecido na numeração hebraica como 51, é proclamado com especial intensidade na Quarta-feira de Cinzas, abrindo o itinerário quaresmal, e reaparece na dinâmica do Primeiro Domingo da Quaresma, quando a Igreja contempla Cristo no deserto. Também ressoa nas celebrações penitenciais, na Liturgia das Horas às sextas-feiras e na tradição espiritual como oração cotidiana de conversão. Não é um texto periférico, mas eixo pedagógico. Ele inaugura um tempo que não é apenas calendário, mas processo interior e social. Quando a assembleia canta “Misericórdia, ó Senhor”, não entoa fórmula devocional isolada, mas assume publicamente uma verdade antropológica e histórica: somos frágeis, somos responsáveis, precisamos ser recriados.

Na Quarta-feira de Cinzas, o gesto que recorda Gênesis 3,19 confronta o imaginário contemporâneo da autossuficiência. A cinza sobre a fronte rompe ilusões de permanência e controle. Em culturas antigas, cobrir-se de cinza significava luto, arrependimento, reconhecimento de limite. Antropologicamente, trata-se de um rito que desmonta hierarquias ilusórias. Ricos e pobres recebem o mesmo sinal. A igualdade diante da morte revela também igualdade na necessidade de misericórdia. O salmo, proclamado nesse contexto, impede que o gesto se reduza a formalidade. A cinza toca a pele; a Palavra deve atravessar estruturas mentais, práticas econômicas, escolhas políticas.

O pré-texto histórico associado ao salmo está em 2 Samuel 11–12. Davi, rei consolidado, usa o poder para satisfazer desejo e proteger imagem. O adultério com Betsabé é seguido por manipulação militar e morte de Urias. Não é pecado privado; é abuso institucional. O profeta Natã irrompe como voz da consciência histórica. A exegese histórica revela que Israel preservou esse relato para afirmar que nem o ungido está acima da justiça divina. A hermenêutica contemporânea reconhece aqui um princípio permanente: fé não legitima poder; fé julga o poder. Sempre que lideranças religiosas se associam a projetos autoritários, sempre que retórica moral encobre desigualdade estrutural, o Salmo 50 retorna como denúncia.

O texto hebraico emprega múltiplos termos para o mal: hata’, avon, pesha’. Erro, culpa que deforma, rebelião deliberada. Essa variedade impede simplificação moralista. O pecado, na Escritura, é ruptura de aliança e também produção de injustiça concreta. Romanos 3,23 declara que todos pecaram, mas Ezequiel 18 afirma responsabilidade pessoal. Entre condicionamento social e decisão individual, há tensão fecunda. Sociologicamente, falamos de estruturas de pecado que perpetuam exclusões. Psicologicamente, reconhecemos mecanismos de racionalização. Teologicamente, confessamos que a graça não elimina a justiça, mas possibilita recomeço.

“Lavai-me”, suplica o salmista. A imagem remete às purificações cultuais do Templo, mas o próprio salmo relativiza o ritual isolado. “Sacrifício agradável é o coração contrito.” Aqui ecoa Oséias 6,6 e a denúncia de Isaías 1, onde mãos manchadas de sangue oferecem culto vazio. Jesus retoma essa tradição em Mateus 9,13. A crítica não é ao culto, mas à cisão entre rito e vida. Quando a espiritualidade se fecha no indivíduo e ignora injustiças estruturais, transforma-se em anestesia moral. O salmo confronta espiritualidades de autopromoção religiosa e desmonta a lógica da fé como espetáculo.

“Criai em mim um coração puro.” O verbo bara’ é o mesmo de Gênesis 1,1. Não se trata de ajuste superficial, mas de nova criação. Na antropologia bíblica, coração é centro das decisões. Jeremias 17,9 adverte sobre seu autoengano. Ezequiel 36,26 promete coração de carne no lugar do coração de pedra. Psicologicamente, o salmo descreve passagem da culpa paralisante à responsabilidade transformadora. Não há autodesprezo, mas reconhecimento lúcido. Em sociedades marcadas por cultura de cancelamento e por autojustificação permanente, essa pedagogia é revolucionária: assumir a verdade sem perder a esperança.

A menção ao hissopo evoca Êxodo 12, quando o sangue do cordeiro marca as portas na noite da libertação. Purificação e libertação são inseparáveis. A tradição cristã lê essa imagem à luz de João 19, onde o hissopo reaparece na cena da cruz. A conversão pedida não é introspecção intimista, mas passagem pascal. Não há perdão autêntico que não gere compromisso com liberdade concreta. Lucas 4,18 anuncia libertação aos cativos como missão messiânica. Toda espiritualidade que promete apenas prosperidade individual e ignora sistemas que produzem pobreza trai essa lógica bíblica.

A crítica à teologia da prosperidade encontra fundamento amplo. 1 Timóteo 6,9–10 alerta sobre a sedução das riquezas. Lucas 12,15 adverte contra a avareza. Apocalipse 3 denuncia a ilusão da autossuficiência. A tradição social da Igreja, desde Rerum Novarum até Fratelli Tutti, insiste que fé autêntica exige compromisso com justiça estrutural. O Salmo 50 desautoriza qualquer leitura que transforme Deus em avalista de acumulação ou legitime desigualdades como bênção.

Quando o texto afirma que quem experimenta misericórdia ensinará aos transgressores os caminhos do Senhor, introduz dimensão missionária. Conversão gera responsabilidade pública. Tiago 2 afirma que fé sem obras é morta. 1 Coríntios 11 denuncia culto que reforça desigualdades. O final do salmo fala da reconstrução de Sião. A cidade é símbolo da vida coletiva. Não basta coração renovado se a sociedade permanece injusta. A Quaresma, iniciada com o Salmo 50 e aprofundada no deserto do Primeiro Domingo, exige revisão de práticas econômicas, de discursos políticos, de prioridades comunitárias.

No Primeiro Domingo da Quaresma, a Igreja contempla as tentações de Cristo no deserto, narradas em Mateus 4, Marcos 1 e Lucas 4. Entre cinza e deserto, o Salmo 50 permanece como exame de consciência. As tentações de transformar pedra em pão, buscar espetáculo religioso ou dominar reinos ecoam as distorções denunciadas no salmo. Poder, prestígio e controle continuam sendo seduções contemporâneas. A repetição litúrgica não é redundância, mas pedagogia espiritual. Conversão não é emoção momentânea; é processo que atravessa tentações reais.

Do ponto de vista sociológico, o pecado descrito no salmo pode ser lido como expressão de culturas de privilégio e exclusão. O episódio de Davi revela concentração de poder e silenciamento de vítimas. Hoje, estruturas econômicas globais produzem desigualdade sistêmica. O salmo convida a reconhecer cumplicidades. Psicologicamente, ele descreve caminho terapêutico: reconhecimento do erro, pedido de transformação, compromisso com mudança. Espiritualmente, afirma que Deus deseja verdade no íntimo. Profeticamente, denuncia culto vazio e espiritualidade alienante.

Documentos recentes como Evangelii Gaudium criticam economia que mata e fé fechada em autorreferencialidade. O Salmo 50 ecoa essa denúncia ao afirmar que Deus não se satisfaz com sacrifícios externos desconectados da justiça. Isaías 58 pergunta que jejum agrada a Deus e responde que é soltar correntes da injustiça. A Quaresma não pode ser temporada de promessas superficiais enquanto permanecem intactas práticas que exploram, excluem e ferem.

A alegria pedida no final do salmo não é euforia alienante. Efésios 2 apresenta Cristo derrubando muros de separação. Salmo 85 une misericórdia e verdade, justiça e paz. A alegria da salvação nasce da reconciliação real. Ela exige reparação, revisão de privilégios, reconstrução de vínculos. Não há paz sem justiça, nem justiça sem misericórdia.

Quando a cinza desaparecer da fronte, a Palavra deve permanecer no coração. O Salmo 50 começa com clamor e termina com louvor. Entre ambos está a verdade assumida e a coragem de mudar. Ele inaugura a Quaresma na Quarta-feira de Cinzas e acompanha a Igreja no Primeiro Domingo, recordando que o deserto não é fuga da realidade, mas confronto com ela. Em tempos de polarização, manipulação religiosa e espiritualidades de mercado, essa oração continua sendo manifesto profético. Só um coração recriado pode gerar cidade reconstruída. Só uma fé que reconhece o próprio pecado pode denunciar injustiças sem hipocrisia. Só uma Igreja que canta misericórdia pode tornar-se sinal credível do Reino que anuncia.

DNonato - Pecador que implora  Misericórdia 

Um breve olhar sobre Mateus 6,7-15.

O Evangelho segundo Evangelho de Mateus 6,7-15 é proclamado na terça-feira da 1ª Semana da Quaresma e também na quinta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum. A própria disposição litúrgica já é interpretação. Na Quaresma, tempo forte de revisão de vida, jejum e partilha, o texto ecoa como chamado à conversão interior que sustenta qualquer prática externa. No Tempo Comum, quando a fé corre o risco de se acomodar ao ritmo da rotina e se confundir com identidade cultural, ele reaparece como critério permanente de autenticidade. A oração do Senhor não pertence apenas ao espaço devocional, mas ao coração do discipulado. A Igreja a coloca nos lábios da assembleia em contextos distintos para recordar que a relação com Deus não pode ser reduzida a fórmula, nem a fé pode ser sequestrada por ideologias religiosas que legitimam poder, riqueza ou exclusão.

O contexto literário é decisivo. O texto está inserido no centro do grande discurso programático conhecido como Sermão da Montanha, em Evangelho de Mateus 5–7. Trata-se da apresentação da justiça superior do Reino, que não se limita ao cumprimento externo da Lei, mas alcança a intenção do coração. O pré-texto imediato é e a crítica à esmola feita para ser vista e à oração exibida nas esquinas. O pós-texto abordará o jejum discreto e o verdadeiro tesouro. A tríade esmola, oração e jejum corresponde às práticas centrais do judaísmo do Segundo Templo. Jesus não as rejeita. Ele as purifica. O problema não está no gesto, mas na motivação. A palavra grega associada à hipocrisia remete ao ator que usa máscara. A religião transformada em espetáculo produz aplauso, mas não conversão. A tradição profética já havia denunciado essa dissociação entre culto e justiça. O Livro de Isaías 58 critica o jejum que não rompe as correntes da opressão. O Livro de Amós 5,24 exige que a justiça corra como rio. Jesus se coloca nessa linhagem e desloca o eixo da visibilidade para o segredo onde o Pai vê.

Quando o texto adverte contra o muito falar como os pagãos, não se trata de condenar a perseverança, mas de rejeitar a lógica mágica que instrumentaliza o divino. No ambiente greco-romano, multiplicavam-se fórmulas para assegurar favores das divindades. A Escritura já conhecia esse desvio. Em Primeiro Livro dos Reis 18, os profetas de Baal clamam freneticamente diante de um deus silencioso. Em contraste, a tradição sapiencial adverte, como em Livro do Eclesiastes 5,1, que Deus está no céu e o ser humano na terra, e por isso as palavras devem ser poucas. Jesus radicaliza essa confiança ao afirmar que o Pai conhece as necessidades antes do pedido, ecoando Livro de Isaías 65,24. A oração cristã nasce da filiação, não da ansiedade utilitarista. Psicologicamente, isso reorganiza o desejo humano. A súplica deixa de ser mecanismo de controle e torna-se exercício de confiança. O medo de um deus imprevisível é substituído pela relação com um Pai.

Quando o texto adverte contra o muito falar como os pagãos, não se trata de condenar a perseverança, mas de rejeitar a lógica mágica que instrumentaliza o divino. No ambiente greco-romano, multiplicavam-se fórmulas para assegurar favores das divindades. A Escritura já conhecia esse desvio. Em Primeiro Livro dos Reis 18, os profetas de Baal clamam freneticamente diante de um deus silencioso. Em contraste, a tradição sapiencial adverte, como em Livro do Eclesiastes 5,1, que Deus está no céu e o ser humano na terra, e por isso as palavras devem ser poucas. Jesus radicaliza essa confiança ao afirmar que o Pai conhece as necessidades antes do pedido, ecoando Livro de Isaías 65,24. A oração cristã nasce da filiação, não da ansiedade utilitarista, isso reorganiza o desejo humano. A súplica deixa de ser mecanismo de controle e torna-se exercício de confiança. O medo de um deus imprevisível é substituído pela relação com um Pai.

A tradição da Igreja primitiva conservou essa consciência. A Didachê recomenda a recitação do Pai-Nosso três vezes ao dia, mostrando que a repetição pode ser memória fiel e não automatismo vazio. A hermenêutica exige discernir o sentido no horizonte da comunidade que transmite a fé. Mateus escreve para cristãos de matriz judaica que precisavam compreender que a justiça do Reino supera a dos escribas e fariseus. O paralelo com Evangelho de Lucas 11,1-4 que refletimos  como ma versão mais breve, nascida do pedido humilde dos discípulos. A comparação mostra tradição viva, não fossilizada. O núcleo permanece. Santificação do Nome, vinda do Reino, pão cotidiano, perdão e libertação configuram o eixo da existência cristã.  Como dissemos em 7 de outubro de 2025, “ O Pai-Nosso” é a primeira palavra e a mais revolucionária. Invocar Deus como Pai revela autoridade servidora e cuidado íntimo. Não se trata de uma abstração, mas de uma relação que gera segurança emocional, identidade moral e solidariedade. No Antigo Testamento, a paternidade de Deus é central: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem” (Salmo 103,13), “Ó Senhor, tu és nosso pai; nós somos o barro, e tu, o oleiro” (Isaías 64,8), e Deuteronômio 32,6 mostra que Deus guia com responsabilidade e amor. Agostinho enfatiza que reconhecer Deus como Pai forma discípulos confiantes e humildes, e João Crisóstomo destaca que este nome desperta coragem e esperança na vida espiritual. Psicologia e sociologia contemporâneas confirmam que a percepção de um Pai celestial fortalece vínculos comunitários, segurança emocional e valores de cuidado pelo próximo. Mateus 6,9-13 apresenta o mesmo convite: a oração é expressão de filiação e ética relacional, reforçada também em Marcos 11,25-26.

  • A invocação Pai Nosso é afirmação teológica e antropológica. Em Carta aos Romanos 8,15, Paulo fala do Espírito que clama Abba. A filiação é dom. Contudo, o plural impede espiritualidade isolada. A antropologia bíblica, desde Livro do Gênesis 1,27, apresenta o ser humano como imagem de Deus em relação. Sociologicamente, a oração confronta o individualismo contemporâneo que transforma fé em marca identitária ou instrumento de distinção moral. Não se pode rezar Pai nosso e sustentar discursos que negam a dignidade do outro. Em Carta aos Gálatas 3,28, as barreiras absolutizadas são relativizadas em Cristo. A oração constrói fraternidade real. Ela questiona nacionalismos sacralizados e alianças entre púlpito e poder que usam o nome de Deus para legitimar exclusões.
  • Santificado seja o teu Nome retoma a promessa de Livro de Ezequiel 36,23, onde Deus promete santificar o Nome profanado pela injustiça do próprio povo. O Nome é profanado quando Deus é associado à opressão. A santidade bíblica, como em Livro do Levítico 19, está vinculada à prática da justiça. No presente, quando símbolos religiosos são instrumentalizados para legitimar projetos autoritários, racismo estrutural ou desprezo pelos pobres, o Nome é usado em vão. Santificá-lo é viver de modo que Deus não seja cúmplice de sistemas de morte. A oração torna-se compromisso ético. A crítica à religião vazia não é retórica moralista, mas exigência de coerência histórica.
  • Venha o teu Reino possui densidade histórica e política. Sob o Império Romano, afirmar outro Reino era gesto contracultural. Em Livro de Daniel 7,14, anuncia-se um domínio que não passa. Jesus inicia sua missão proclamando a proximidade do Reino em Evangelho de Mateus 4,17. Esse Reino se manifesta em curas, libertações e mesa compartilhada. A comunidade descrita em Atos dos Apóstolos 2,44-45 traduz a oração em partilha concreta. Pedir o Reino hoje é confrontar sistemas que absolutizam o mercado e naturalizam desigualdades. A Carta aos Romanos 14,17 define o Reino como justiça, paz e alegria no Espírito. Documentos como Laudato Si' e Fratelli Tutti retomam essa centralidade ao denunciar a cultura do descarte e convocar à fraternidade social. A oração desautoriza teologias que confundem Reino com prosperidade individual.
  • Seja feita a tua vontade encontra seu ápice no Getsêmani em Evangelho de Mateus 26,39. A vontade do Pai não é fatalismo que legitima sofrimento imposto. Em Livro de Miqueias 6,8, ela se traduz em justiça, misericórdia e humildade. Em Evangelho de João 6,40, consiste em que ninguém se perca. Quando discursos religiosos justificam miséria como desígnio divino, traem o Evangelho. A hermenêutica libertadora insiste que a vontade divina nunca coincide com estruturas opressoras. Obediência cristã não é servilismo, mas adesão ativa ao projeto de vida plena.
  • Não nos deixes cair em tentação recorda o deserto e as seduções narradas em Evangelho de Mateus 4,1-11. Transformar pedras em pão manipulando necessidades, buscar espetáculo religioso, pactuar com poderes opressores são tentações permanentes. Em Primeira Carta aos Coríntios 10,13, afirma-se que Deus oferece saída. A Igreja também é tentada pelo triunfalismo e pelo clericalismo que concentra poder e silencia o sensus fidei do povo. A resistência passa pela fidelidade ao serviço e à cruz.
  • Livra-nos do mal reconhece que o mal é pessoal e estrutural. Em Carta aos Efésios 6,12, fala-se de forças que ultrapassam o visível. O mal se manifesta em corrupção sistêmica, violência cotidiana, racismo estrutural e devastação ambiental. A esperança cristã aponta para a renovação descrita em Apocalipse de João 21. Pedir libertação implica compromisso histórico com transformação das estruturas injustas. Não basta espiritualizar o conflito. É necessário agir.

No plano psicológico, o Pai-Nosso desloca o ego do centro e educa o desejo para a confiança. No plano sociológico, constrói comunidade alternativa em meio à fragmentação contemporânea. No plano eclesial, confronta espiritualidades individualistas e mercantilizadas. Ele não legitima alianças acríticas entre religião e poder político, nem sustenta discursos que sacralizam riqueza. Proclamado na Quaresma ou no Tempo Comum, permanece critério de discernimento. Quando rezado com consciência bíblica e vivido com coerência histórica, torna-se programa de justiça, partilha e misericórdia. Em meio a crises políticas, econômicas e ambientais, essa oração continua sendo palavra profética que chama à conversão pessoal e estrutural, lembrando que o Nome é santificado quando a vontade de vida de Deus se concretiza na história dos pobres, dos feridos e da criação que geme, como afirma Carta aos Romanos 8,22.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,31-46

O Evangelho de Mateus 25,31-46 é proclamado na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, encerrando o Ano Litúrgico, e também na Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma. A Igreja o coloca nesses dois momentos decisivos porque ele revela o horizonte último da história e, ao mesmo tempo, o critério concreto da conversão diária. No fim do ano, recorda que todo poder será julgado; no início da Quaresma, adverte que a penitência sem justiça é ilusão espiritual.

A cena do Filho do Homem que vem em glória retoma Daniel 7,13-14, onde aquele “como um filho de homem” recebe domínio após a queda dos impérios violentos. O trono evoca os Salmos que proclamam Deus juiz justo, como o Salmo 96. Não se trata de espetáculo apocalíptico, mas da revelação da verdade. O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Juízo Final manifestará as consequências de todo bem praticado e de toda omissão consentida. A história não é absurda nem neutra; ela caminha para a manifestação plena da justiça divina. O discurso não surge isolado. Ele é o ápice de Mateus 24 e 25, onde Jesus fala da vigilância, da fidelidade do servo prudente, das virgens que mantêm o azeite, dos talentos que devem frutificar. A escatologia mateana não estimula fuga do mundo, mas responsabilidade. Lucas 12,48 recorda que a quem muito foi dado, muito será pedido. O tempo presente é espaço de decisão.

A separação entre ovelhas e cabritos ecoa Ezequiel 34, onde Deus denuncia pastores que exploram o rebanho e promete julgar entre animal e animal. Amós 5 rejeita liturgias vazias que ignoram o direito. Isaías 58 declara que o jejum agradável a Deus é repartir o pão com o faminto. Mateus 25 é a síntese dessa tradição profética. O culto que não se traduz em misericórdia é desmascarado.

O critério do julgamento surpreende pela simplicidade concreta. Não são mencionadas visões, êxtases ou acumulação de méritos religiosos. O centro está nas seis obras de misericórdia corporais, que a tradição da Igreja consolidou a partir deste texto e que o Catecismo recorda explicitamente. Elas são expressão histórica do amor.

  1. Dar de comer a quem tem fome é mais que gesto assistencial; é reconhecimento da dignidade. Isaías 58 e Provérbios 22 já apontavam que a justiça começa no pão partilhado. Em um mundo capaz de produzir abundância e ainda assim marcado pela fome estrutural, essa obra torna-se denúncia profética. A Doutrina Social da Igreja, desde Rerum Novarum até Fratelli Tutti, afirma a destinação universal dos bens. O pão acumulado enquanto outros passam fome contradiz o Reino preparado desde a fundação do mundo.
  2. Dar de beber a quem tem sede evoca o Deus que faz jorrar água da rocha em Êxodo 17. A água, símbolo de vida e também do Espírito em João 7, torna-se hoje objeto de disputa econômica e exclusão. Laudato Si’ denuncia a negação de acesso à água potável como violação grave da dignidade humana. Saciar a sede é participar da obra criadora que sustenta a vida.
  3. Acolher o estrangeiro remete a Levítico 19,34. Israel devia amar o estrangeiro porque conheceu a experiência do exílio. Em tempos de migrações forçadas, muros ideológicos e nacionalismos excludentes, esta obra revela o coração do Evangelho. Fratelli Tutti insiste na cultura do encontro e na fraternidade universal. O Cristo que julga identifica-se com o migrante rejeitado.
  4. Vestir o nu recorda Gênesis 3, quando Deus cobre a fragilidade humana. A nudez simboliza vulnerabilidade social. São Basílio Magno ensinava que a roupa guardada no armário pertence ao pobre. Gaudium et Spes afirma que tudo o que fere a dignidade humana clama ao céu. Restituir dignidade é gesto profundamente teológico.
  5. Visitar os doentes encontra eco na prática constante de Jesus que curava enfermos e se deixava tocar por eles. Em Marcos 6, Ele se compadece da multidão. Salvifici Doloris recorda que o sofrimento humano, unido a Cristo, adquire sentido redentor, mas jamais dispensa o cuidado concreto. A compaixão cristã não romantiza a dor; ela se inclina sobre ela.
  6. Visitar os presos evoca o Salmo 146 e a própria experiência apostólica narrada em Atos. No mundo antigo, o preso dependia da visita para sobreviver. Hoje, diante de sistemas penitenciários marcados por superlotação e violência, essa obra assume caráter profético. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja insiste que a pena deve respeitar a dignidade humana. Nenhuma pessoa perde sua condição de imagem de Deus.

A identificação de Jesus com os pequenos é o ponto culminante. Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Aqui ressoa João 1,14, o Verbo que se fez carne, e Filipenses 2, o Cristo que se esvazia. Em Atos 9, o Ressuscitado pergunta a Saulo por que o persegue. Tocar o irmão é tocar Cristo. 1 João 4,20 declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. A mística cristã desemboca inevitavelmente na ética do cuidado.

Essa perspectiva confronta frontalmente a teologia da prosperidade. 1 Timóteo 6 adverte contra o amor ao dinheiro. Mateus 6 afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12 narra a parábola do rico insensato que acumula para si e perde a vida. Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e transforma o mercado em ídolo. O juízo de Mateus 25 não mede sucesso econômico, mas misericórdia praticada. A espiritualidade individualista vivida em nosso tempo é questionada. Mateus 22 une amor a Deus e ao próximo. Tiago 2 proclama que a fé sem obras é morta. 1 Coríntios 11 denuncia a Eucaristia celebrada sem partilha. Ecclesia de Eucharistia recorda que o sacramento do altar exige coerência com o amor aos pobres. Não há adoração verdadeira que não se traduza em justiça.

O fogo eterno mencionado no texto dialoga com Isaías 66 e Apocalipse 20. O Catecismo ensina que o inferno é consequência da recusa definitiva ao amor. Deus quer que todos se salvem, como afirma 1 Timóteo 2,4, mas respeita a liberdade humana. Psicologicamente, o fechamento radical ao outro já constitui experiência de isolamento destrutivo. O juízo não é vingança divina, é revelação da verdade das escolhas.

A herança do Reino preparado desde a fundação do mundo remete a Gênesis 1, onde o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Negar dignidade ao irmão é obscurecer essa imagem. Romanos 8 fala da criação que geme aguardando redenção. O juízo final está ligado à nova criação anunciada em Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima. A justiça última não é destruição, mas restauração da comunhão.

No cenário contemporâneo de desigualdade estrutural, migração forçada, encarceramento em massa e indiferença social, este Evangelho ressoa como voz profética. Isaías 1 convoca a aprender a fazer o bem. Jeremias 22 afirma que defender o pobre é conhecer o Senhor. Conhecer Deus não é acumular discursos religiosos, mas participar de sua misericórdia histórica.

Efésios 2 recorda que somos salvos pela graça para as boas obras que Deus preparou. A graça não anula a responsabilidade; ela a fundamenta. No entardecer da história, o Rei que foi crucificado revelará que cada gesto de misericórdia construiu eternidade. O trono do Juiz está misteriosamente presente nas periferias do mundo. A pergunta final não será sobre poder, prestígio ou êxtase espiritual, mas sobre o amor que se fez pão, água, acolhida, roupa, visita e presença. O Reino já começa onde a misericórdia venceu a indiferença...



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 4,1-11 - 1⁰ domingo da quaresma

Não escrevemos esta reflexão como representantes desta ou daquela Igreja, grupo ou pastoral. Apresentamos apenas um ponto de vista, que pode ser questionado ou contestado por qualquer pessoa, mas que nasce de nossa experiência, formação e vivência, e por isso se propõe como uma reflexão sincera e legítima dentro do horizonte da fé.
Iniciamos a caminhada quaresmal sob a luz de uma arquitetura bíblica que não é mera sequência litúrgica, mas revelação progressiva da condição humana e da iniciativa divina: Gênesis 2,7-9.3,1-7 Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a) Romanos  5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19 é Mateus 4,1-11 l.  A criação manifesta vocação para comunhão; a queda revela ruptura da confiança; o salmo penitencial exprime consciência da ferida interior; a carta paulina proclama a solidariedade universal no pecado e a superabundância da graça; o deserto inaugura a nova humanidade obediente. Não se trata apenas de recordar eventos passados, mas de discernir uma estrutura permanente da história humana.

Em Gênesis 2,7 o ser humano é formado do pó da terra e recebe o sopro divino. A antropologia bíblica afirma simultaneamente fragilidade e dignidade. O pó indica limite; o sopro indica transcendência. Em seguida, Gênesis 2,15 afirma que o ser humano é colocado no jardim “para cultivar e guardar”. O verbo guardar (shamar) é o mesmo utilizado para designar a observância da aliança. A vocação humana é sacerdotal e ética. O pecado, portanto, não é apenas desobediência pontual; é abandono da missão de cuidar da vida.

A queda em Gênesis 3 nasce não da fome biológica, mas da suspeita. A serpente introduz distorção hermenêutica: “Foi mesmo assim que Deus disse?” A crise começa na interpretação da Palavra. O desejo, que em si é bom, torna-se desordenado quando rompe a confiança. Essa dinâmica será retomada em Tiago 1,14-15: o desejo seduz, concebe e gera morte. Quando Gênesis 3 apresenta o fruto como “bom para comer, agradável aos olhos e desejável para adquirir sabedoria” (Gn 3,6), delineia-se uma tríplice estrutura do desejo que reaparecerá no deserto.

A liturgia quaresmal, portanto, não se esgota na contraposição entre Adão e Cristo. Ela revela uma pedagogia divina que atravessa toda a Escritura. No jardim, o alimento é abundante; a tentação nasce da desconfiança. No deserto, a fome é real; a tentação nasce da instrumentalização do poder. Essa inversão é teologicamente decisiva. Jesus não enfrenta o mal em condições ideais, mas na vulnerabilidade concreta. Isso revela uma cristologia profundamente encarnada. Ele não responde como um ser distante do sofrimento humano, mas como aquele que partilha da fragilidade.

O paralelo com o deserto revela inversão redentora. No Éden há abundância e proximidade; no deserto há escassez e solidão. No Éden, a humanidade apropria-se; no deserto, o Filho confia. A tradição de Irineu de Lião desenvolveu a teologia da recapitulação: Cristo refaz o caminho de Adão, não por anulação, mas por obediência histórica concreta. Paulo amplia essa tipologia em Romanos 5 e 1 Coríntios 15,22: se por um homem entrou o pecado, por um homem vem a vida.

O deserto evoca também o Êxodo. Em Êxodo 16, o povo murmura pela fome; em Êxodo 17, pela sede; em Números 14, pelo medo. Em Deuteronômio 8, Moisés interpreta o deserto como pedagogia que revela o que está no coração. Quando Jesus responde às tentações citando Deuteronômio 6–8, assume o lugar de Israel. Ele encarna a fidelidade que o povo não sustentou. O Filho torna-se o Israel fiel, condensando em si a vocação coletiva.

O deserto é lugar de constituição identitária de Israel. A experiência do Êxodo, narrada em Êxodo 12–17, não é apenas libertação política, mas formação espiritual. O maná em Êxodo 16 ensina dependência diária. Não podia ser acumulado. A tentativa de armazenar produzia corrupção. Há aqui uma crítica estrutural à lógica de acumulação. A pedagogia do maná confronta sistemas econômicos baseados na retenção excessiva. Jesus, ao citar Deuteronômio 8,3, não apenas recita um texto; ele reivindica toda essa memória histórica. o deserto simboliza desinstalação. As falsas seguranças são removidas. Em sociedades marcadas por consumo contínuo, o jejum torna-se ato contracultural. Ele denuncia a absolutização da necessidade. 

  • A primeira tentação toca o eixo do prazer e da necessidade. “Transforma estas pedras em pão.” A fome é real. O problema não está na necessidade, mas na instrumentalização do poder para satisfação autossuficiente. Em uma cultura contemporânea marcada pelo consumo permanente, a tentação de reduzir vida à satisfação imediata tornou-se sistema. A economia transforma carência em mecanismo estrutural de lucro. A fome do mundo convive com desperdício abundante. Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem.” O pão é necessário, mas não absoluto. Em Mateus 14 e 15, a multiplicação dos pães revela alternativa: partilha gera abundância. A lógica do Reino subverte a lógica da acumulação.Essa dimensão dialoga com mecanismos psicológicos de compensação. A ansiedade busca alívio imediato. A cultura digital acelera impulsos e encurta espera. A espiritualidade bíblica, porém, forma paciência histórica. O jejum quaresmal não é desprezo do corpo, mas reordenação do desejo. Agostinho falará do amor desordenado como raiz da queda. Converter-se é ordenar o amor. A primeira tentação não é simplesmente sobre pão; é sobre transformar dom em direito absoluto e poder em instrumento privado. A fome de Jesus revela humanidade plena. Sua resposta revela liberdade interior.
  • A segunda tentação desloca-se para o eixo do ser, da identidade e da visibilidade. “Se és Filho de Deus…” A identidade já havia sido proclamada no batismo em Mateus 3,17. A tentação consiste em provar aquilo que já foi dado gratuitamente. Trata-se da sedução do espetáculo religioso. O salto do templo é dramatização pública da fé. A religião pode tornar-se palco de autopromoção. Jeremias 17,9 alerta para a ambiguidade do coração humano. O Salmo 131 propõe outra via: confiança silenciosa como criança nos braços da mãe. Vivemos era da performatividade. Identidade é medida por seguidores, visibilidade e validação pública. O templo contemporâneo pode ser qualquer plataforma onde fé vira produto e liderança espiritual converte-se em celebridade. A resposta de Jesus recusa manipular Deus para legitimar autoimagem. Fé não é espetáculo; é confiança perseverante. A voz do batismo precede qualquer ação pública. Em Romanos 8,15, Paulo fala do Espírito que clama “Abbá”. A filiação não é conquista; é dom. A tentação consiste em transformar dom em exibição. Essa tentação aprofunda a questão hermenêutica. O adversário cita o Salmo 91, texto de confiança. No entanto, retira-o de seu contexto de confiança humilde e o transforma em promessa de imunidade espetacular. A Escritura pode ser usada para legitimar imprudência ou manipulação religiosa. Esse conflito interpretativo atravessa a história. Em Mateus 22,29, Jesus afirma que o erro nasce do desconhecimento das Escrituras e do poder de Deus. A verdadeira hermenêutica integra texto e espírito, promessa e responsabilidade.
  • A terceira tentação toca o eixo do ter e do poder. “Tudo isto te darei.” O poder político, econômico e simbólico aparece como atalho messiânico. O Antigo Testamento já conhecia essa ambiguidade. Em 1 Samuel 8, o pedido de um rei “como as outras nações” nasce do desejo de segurança, mas produz centralização e opressão. Daniel 7 descreve impérios como bestas. Apocalipse 13 retoma a imagem para denunciar poderes que exigem adoração. A recusa de Jesus revela que o Reino não nasce da dominação. A história mostra que toda vez que fé se alia a projetos de supremacia, repete-se a tentação do monte alto. A instrumentalização religiosa do poder político distorce o Evangelho. A cruz, e não o trono imperial, torna-se sinal do Reino. Em Mateus 20,25-28, Jesus redefine autoridade como serviço. O poder é transfigurado em entrega. A própria Igreja nem sempre resistiu à tentação do poder. A partir do século IV, com Constantino, iniciou-se uma relação complexa entre fé e império. Essa memória histórica exige discernimento. Sempre que a fé se funde de modo acrítico com projetos políticos autoritários, o deserto é esquecido. O Cristo que rejeitou atalhos é substituído por um messias utilitário. A terceira tentação, relacionada aos reinos do mundo, precisa ainda ser lida à luz da tradição profética e apocalíptica. Em Daniel 2 e 7, os impérios são representados por estátuas frágeis e bestas violentas. O poder que se absolutiza torna-se monstruoso. Apocalipse 13 retoma essa imagem ao descrever a besta que exige adoração. Jesus recusa essa lógica. Sua realeza, conforme João 18,36, não nasce da violência. A cruz revela um reinado paradoxal.

A patrística oferece chave adicional.

  •  Irineu vê Cristo como aquele que recapitula toda a história humana.
  •  Agostinho desenvolverá a noção de dois amores que constroem duas cidades: amor de si até o desprezo de Deus e amor de Deus até o desprezo de si. As tentações do deserto podem ser lidas à luz dessa tensão. O amor desordenado gera idolatria; o amor ordenado gera liberdade.

A comparação sinótica aprofunda o sentido. Mateus culmina no monte, antecipando a autoridade universal de 28,18. Lucas encerra no templo, preparando Jerusalém como centro do drama pascal e da missão em Atos. Marcos menciona feras e anjos, sugerindo conflito cósmico e reconciliação escatológica. Cada evangelista oferece lente teológica própria, mas converge na afirmação da fidelidade do Filho.

Sacramentalmente, o deserto prepara o Batismo e a Eucaristia. Romanos 6 fala da morte e ressurreição com Cristo. João 6 apresenta o pão da vida. A Quaresma, historicamente ligada à catequese batismal, recorda que a vida cristã nasce de travessia. Não há ressurreição sem deserto.

Romanos 8 amplia a visão para dimensão cósmica: a criação geme aguardando redenção. Colossenses 1,20 anuncia reconciliação de todas as coisas. A vitória no deserto não é apenas moral; é início da restauração universal. A obediência do Filho inaugura nova criação.

Os Padres do Deserto compreenderam que o combate não era contra a matéria, mas contra paixões desordenadas. A luta espiritual revela dimensão interior da história. A tentação do pão reaparece na idolatria do consumo; a do templo, na busca de reconhecimento religioso; a do reino, na sacralização de projetos de dominação.

Isaías 58 denuncia jejum que ignora justiça. Mateus 23 critica religiosidade ostentatória. A verdadeira conversão une oração, partilha e compromisso com os vulneráveis. A espiritualidade bíblica não separa culto e ética.

Escatologicamente, Apocalipse 21–22 descreve cidade onde não há mais fome nem opressão. A fidelidade de Cristo no deserto aponta para essa plenitude. Hebreus 4,15 recorda que ele foi tentado em tudo, menos no pecado, tornando-se solidário conosco.

Do ponto de vista antropológico, alimento, honra e poder são eixos estruturantes de qualquer sociedade. Em culturas antigas, banquetes afirmavam status; honra definia lugar social; domínio territorial garantia sobrevivência. A narrativa do deserto não nega essas dimensões, mas redefine sua centralidade. O pão deve ser partilhado, a honra deve ser recebida como dom, o poder deve ser exercido como serviço.

A teologia paulina amplia a dimensão cósmica dessa vitória. Em Romanos 8,19-22, toda criação geme aguardando redenção. O pecado não afeta apenas indivíduos, mas estruturas e ecossistemas. A recusa de Cristo no deserto inaugura processo de restauração que culmina na nova criação descrita em Apocalipse 21–22. O deserto antecipa o jardim restaurado.

Há ainda uma dimensão escatológica implícita. Em Mateus 4,11, os anjos servem a Jesus. Esse detalhe ecoa a promessa de reconciliação da criação. Marcos menciona que ele estava entre as feras, evocando Isaías 11,6, onde lobo e cordeiro convivem em paz. O deserto torna-se sinal do mundo reconciliado.

A espiritualidade quaresmal, portanto, não é moralismo, mas reconfiguração estrutural do desejo. O jejum confronta a compulsão. A oração confronta o narcisismo. A esmola confronta a acumulação. Essas práticas não são meros exercícios individuais; possuem dimensão política e social. Elas questionam sistemas que transformam necessidade em lucro, fé em espetáculo e poder em dominação.

A tipologia Adão-Cristo não é simples comparação literária. Ela expressa mudança de paradigma antropológico. Em Adão, a humanidade busca ser como Deus pela apropriação. Em Cristo, a humanidade participa da vida divina pela comunhão obediente. Filipenses 2,6-8 descreve o esvaziamento como caminho de exaltação verdadeira.

O deserto também revela que tentação não é pecado. Hebreus 4,15 afirma que ele foi tentado em tudo, exceto no pecado. Isso confere dignidade à luta humana. A fidelidade de Cristo não elimina conflito; ela oferece horizonte de esperança.

Assim, a caminhada quaresmal é mais que memória ritual. É inserção na dinâmica da nova criação. O pó animado pelo sopro encontra no Espírito do Ressuscitado sua plenitude. A suspeita do jardim é vencida pela confiança do Filho. O pecado estrutural é confrontado pela graça superabundante.

Prazer, ser e ter continuam organizando culturas. O Evangelho não os destrói; redime-os. Comer torna-se partilhar. Ser torna-se filiação. Ter torna-se serviço. A narrativa que começou no pó encontra no Filho obediente o novo princípio da humanidade. Onde o jardim foi perdido pela suspeita, o deserto torna-se lugar de reconquista pela confiança. A graça supera a queda. A história, marcada por falhas humanas, encontra em Cristo não fuga do mundo, mas transformação da própria condição humana.

O itinerário iniciado em Gênesis encontra sua plenitude na Páscoa. A cruz não é derrota, mas coroamento da fidelidade iniciada no deserto. A ressurreição é a confirmação de que a obediência é mais forte que o poder violento. Onde abundou o pecado, superabundou a graça.  A Quaresma, portanto, não é fuga do mundo, mas aprendizagem de liberdade dentro dele. O deserto torna-se lugar de verdade. A criação ferida aguarda filhos e filhas que, unidos ao Filho obediente, escolham vida, justiça e comunhão.

DNonato - Teólogo do Cotidiano