segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,1-13.

Há textos do Evangelho que não escandalizam por dizer algo novo, mas por dizer o óbvio que se prefere esquecer. Marcos 7,1-13 pertence a essa categoria. Ele não trata de heresias doutrinais nem de debates abstratos, mas da distância perigosa entre fé professada e vida vivida. Proclamado na liturgia da terça-feira da 5ª Semana do Tempo Comum, nos Anos impat e par do Lecionário Romano, este Evangelho se insere num tempo aparentemente comum, mas espiritualmente decisivo: o tempo em que a fé deixa o abrigo das grandes solenidades e se mede com o cotidiano concreto da existência. O Tempo Comum não é intervalo neutro; é o chão onde a Palavra encontra a vida real, com suas contradições sociais, políticas, religiosas e existenciais.

É exatamente nesse chão que a religião corre maior risco de se deformar. Quando o sagrado se transforma em hábito automático, o rito se dissocia da ética e a linguagem religiosa deixa de tocar a realidade, instala-se uma fé funcional, capaz de manter estruturas, mas incapaz de gerar conversão. Por isso, Marcos 7, 1-13  não ocupa um lugar periférico no itinerário litúrgico da Igreja. Trata-se de um núcleo crítico do Evangelho, onde está em jogo a fé como caminho de humanização ou como mecanismo de controle. Aqui não se discute apenas uma prática ritual, mas a própria possibilidade de uma vida reconciliada diante de Deus. O Evangelho ganha contornos ainda mais incisivos quando lido num tempo marcado pela instrumentalização da fé, pela mercantilização do sagrado e pela sacralização de projetos de poder. Marcos nessa perícope  atravessa práticas religiosas, estruturas e discursos piedosos como lâmina profética que separa tradição viva de tradição morta, fé encarnada de religião vazia. O texto não acusa indivíduos isolados; ele desvela um sistema religioso que perdeu o vínculo com a vida.

O contexto histórico ajuda a compreender a radicalidade do confronto. Marcos escreve para uma comunidade atravessada por tensões culturais e religiosas, formada por cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A explicação detalhada dos costumes de purificação das mãos, dos utensílios e dos leitos (Mc 7,3-4) indica que seus destinatários não dominavam esses códigos. A exegese deixa claro que essas explicações não servem para reforçar as práticas, mas para relativizá-las. O problema não é higiene, mas halakhah: um sistema normativo que nasceu com intenção legítima:   preservar a identidade do povo após o exílio babilônico, mas que, com o tempo, absolutizou a tradição oral a ponto de sufocar a vida.

Não é irrelevante que os fariseus e escribas venham de Jerusalém. Jerusalém não é apenas um ponto geográfico; é o centro simbólico do poder religioso. Dali emanam interpretações oficiais da Lei, critérios de pureza e fronteiras entre quem pertence e quem deve ser excluído. Ao observarem os discípulos comendo sem lavar as mãos, não fazem uma constatação neutra, mas exercem vigilância moral e controle simbólico. A antropologia cultural mostra que ritos de purificação funcionam como marcadores de identidade e mecanismos de separação social. Quem não os cumpre ameaça a ordem estabelecida. A resposta de Jesus não entra no jogo técnico da casuística religiosa. Ele desmonta o sistema pela raiz. Ao citar Isaías 29,13 — “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, insere-se conscientemente na longa tradição profética de Israel. Amós denuncia cultos que não produzem justiça (Am 5,21-24). Isaías rejeita jejuns que não libertam os oprimidos (Is 58,6-7). Jeremias desmascara a falsa segurança no Templo (Jr 7,1-11). O Salmo 50 afirma que Deus não precisa de sacrifícios, mas de fidelidade. Em 1Samuel 15,22, ouve-se que obedecer é melhor que sacrificar. Jesus não rompe com essa tradição; ele a resgata de sua captura religiosa.

Quando Jesus desloca o foco para o coração, mobiliza a antropologia bíblica. O coração não é o lugar das emoções passageiras, mas o centro da decisão ética e da escuta de Deus (Dt 6,5; Pr 4,23). Um coração distante produz uma religião funcional, mas não relacional. Práticas religiosas que não alcançam a consciência geram dissociação interior. A psicologia contemporânea reconhece que a ruptura entre discurso e prática produz culpa, rigidez moral e projeção do mal no outro. Uma fé exteriorizada tende ao controle; uma fé integrada gera liberdade interior e responsabilidade ética. O exemplo dos religiosos preocupados  em construir salas é predios,l e evitar o cuidado com os  mais pobres, revelando  uma religião  instrumentalizada.  legitimando  a quebra de vínculos  essenciais para vivermos a fé cristã. Jesus confronta diretamente Êxodo 20,12 e Deuteronômio 5,16. A tradição bíblica insiste que a aliança com Deus passa pelo cuidado com o outro, especialmente os mais frágeis (Eclo 3,1-16). A ciência histórica confirma que, nas sociedades antigas, o cuidado com os idosos era sinal de coesão social. Quando a religião justifica o abandono, ela se converte em idolatria.

Os paralelos sinóticos reforçam essa leitura. Mateus 15,1-9 retoma a crítica ao culto vazio. Lucas 11,37-44 denuncia a obsessão pela pureza exterior enquanto o interior permanece cheio de injustiça. Em Marcos 2,27, Jesus afirma que o sábado foi feito para o ser humano. Esse é um princípio hermenêutico decisivo: toda norma existe para servir à vida. A tradição que mata deixa de ser tradição e se transforma em caricatura religiosa.

O símbolo da mesa atravessa silenciosamente todo o texto. Comer juntos é sinal de comunhão, pertencimento e igualdade. As refeições de Jesus com pecadores (Mc 2,15-17) já haviam escandalizado o sistema religioso. A mesa eucarística, denunciada por Paulo quando se torna espaço de desigualdade (1Cor 11,17-34), confirma que não existe culto autêntico onde alguns têm pão e outros têm fome. Toda mesa que separa em nome de Deus contradiz o Deus que se oferece como pão.

A crítica alcança também a oração. Em diálogo com Mateus 6,5-6, fica claro que orar em segredo não é negar a dimensão comunitária da fé, mas purificar a intenção. A oração como espetáculo religioso transforma Deus em plateia e o fiel em ator. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) mostra que a oração sem conversão reforça a injustiça. O Catecismo recorda que a oração é relação viva e pessoal com Deus (CIC 2558), não capital simbólico.

A oração autêntica reorganiza a vida inteira. Jesus ora antes das decisões (Lc 6,12), no meio da missão (Mc 1,35) e na angústia extrema (Mc 14,32-42). Contemplação e ação não se opõem. O ativismo sem oração esgota; a oração sem compromisso aliena. O Concílio Vaticano II afirma que não existe fé cristã desconectada da história humana (GS 1).

A vigilância emerge como eixo dessa espiritualidade integrada. “Vigiai e orai” (Mc 14,38) é convite à lucidez, não ao medo. Pedro liga vigilância à oração (1Pd 4,7). Paulo associa vigilância à sobriedade histórica (Rm 13,11-14). Vigilância cristã é consciência crítica: não naturalizar a injustiça, não espiritualizar a violência, não sacralizar sistemas que produzem exclusão.

O Salmo 127 recorda que toda ação humana perde o sentido quando se absolutiza. “Se o Senhor não constrói a casa…” é crítica à autossuficiência, não convite à passividade. A Doutrina Social da Igreja insiste que desenvolvimento sem justiça não é progresso, mas regressão. Documentos da CNBB reafirmam que evangelizar é promover vida digna. Fé e política não se confundem, mas a fé jamais pode se omitir.

Nesse ponto, o tripé: profecia, sacerdócio e reinado aparece como síntese da missão cristã:

  •  Profecia não é previsão do futuro, mas desvelamento do presente; impede que a injustiça se normalize (Lc 4,18-19). Sacerdócio não é privilégio, mas mediação solidária entre a dor do povo e o coração de Deus (Hb 5,1-2). 
  • Reinado não se expressa no domínio, mas no serviço (Mc 10,42-45). O Vaticano II afirma que essa tríplice missão pertence a todo o povo de Deus (LG 10-13). Quando a Igreja abdica da profecia para preservar prestígio, reduz o sacerdócio a ritualismo e confunde reinado com influência política, deixa de ser sinal do Reino.

À luz desse Evangelho, torna-se inevitável a crítica às teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso. Elas deslocam o centro da fé para o sucesso pessoal, transformam a graça em mercadoria e Deus em instrumento. A fé capturada por lógicas de dominação deixa de questionar o poder e passa a servi-lo. O Evangelho apresenta um Messias pobre, itinerante e crucificado (Lc 2,7; Mt 8,20; Mc 15). A prosperidade bíblica está ligada à justiça, à fidelidade e ao cuidado com os vulneráveis (Sl 1; Jr 17,5-8).

Essa crítica alcança o clericalismo, entendido como deformação da autoridade eclesial. Jesus proíbe a lógica do poder entre os seus (Mt 23,8-12). O Papa Francisco denunciava  o clericalismo como raiz de crises eclesiais. A CNBB insiste na sinodalidade, na escuta do povo e na conversão pastoral. Autoridade cristã só se legitima quando vivida como serviço.

Diante de uma realidade marcada por fome, violência, racismo, intolerância religiosa e destruição ambiental, Marcos 7,1-13 impede uma fé indiferente. A criação geme (Rm 8,22). Orar sem escutar esse gemido é repetir a religião denunciada por Jesus. A fé cristã não torna ninguém superior; torna-se critério de responsabilidade histórica.

Marcos  não oferece soluções fáceis. Ele desinstala para reconstruir. No Tempo Comum, onde nada parece extraordinário, o Evangelho revela sua força mais subversiva: denunciar uma religião que fala de Deus, mas se afasta da vida. A Palavra não rejeita a tradição, mas a liberta do que a sufoca; não condena o culto, mas exige que tenha cheiro de gente; não despreza a oração, mas recusa que ela sirva de álibi para a indiferença. 

No chão aparentemente comum da existência cotidiana, o Evangelho continua a derrubar cercas, a misturar mesas e a lembrar que Deus não habita mãos lavadas por medo, mas corações convertidos pela misericórdia. Ali, longe dos holofotes do poder religioso, a fé reencontra sua verdade mais simples e mais exigente: amar a Deus passa, inevitavelmente, por cuidar da vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,53-56

A perícope de Marcos 6,53-56, proclamada na segunda-feira da quinta semana do Tempo Comum (Anos I e II), surge na liturgia cotidiana da Igreja com uma discrição que desafia a atenção desatenta. Lida sem a solenidade das grandes festas, ela corre o risco de ser percebida apenas como um "resumo de cura" entre grandes discursos. No entanto, essa aparente simplicidade litúrgica contrasta vivamente com a densidade teológica do texto. A liturgia, ao inserir este trecho no ritmo ordinário do Tempo Comum, parece afirmar intencionalmente que a lógica do Reino de Deus não pertence exclusivamente ao extraordinário ou às teofanias no topo da montanha, mas ao cotidiano ferido e poeirento da história humana. Nesta passagem, Jesus e seus discípulos atracam em Genesaré, uma planície fértil e populosa. O ato de "atracar" aqui simboliza o enraizamento do Verbo na realidade humana crua. O Evangelho deixa de ser um apêndice devocional da vida para se tornar sua chave interpretativa fundamental. Marcos escreve para uma comunidade que vivia sob a sombra do Império Romano, marcada pela perseguição, pela pobreza e pela marginalização. Para esses cristãos, e para nós hoje, a narrativa funciona como uma catequese encarnada: não há dicotomia entre o sagrado e o profano, pois a presença de Jesus santifica a praça pública, os leitos dos doentes e as bordas das cidades.

O texto situa-se imediatamente após dois episódios decisivos: a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44) e a travessia de Jesus sobre as águas (Mc 6,45-52). Esses três quadros formam uma unidade teológica. No primeiro, Jesus enfrenta a fome estrutural; no segundo, atravessa o caos; no terceiro, toca os corpos feridos. A fome, o medo e a doença não aparecem como fatalidades naturais, mas como expressões de uma ordem social injusta. A exegese marcana mostra que o Evangelho não separa jamais o anúncio do Reino das condições concretas da vida. A travessia do lago, símbolo bíblico do caos primordial (cf. Gn 1,2; Sl 69,2), prepara o leitor para compreender que o poder de Jesus não é mágico, mas libertador: Ele caminha sobre aquilo que paralisa e ameaça a vida.

É  preciso  destaca que, assim que Jesus saiu do barco, o povo "imediatamente o reconheceu". Ampliando a reflexão, este "reconhecimento" é o primeiro passo da fé operante. Em um mundo onde os pobres eram invisíveis aos olhos do poder e da religião oficial, o povo simples desenvolve um olhar aguçado para a verdadeira autoridade. A reação é epidêmica: "percorreram toda a região" e "começaram a trazer os doentes". Há uma pressa sagrada na narrativa de Marcos — uma urgência que denuncia nossa letargia espiritual. A multidão não espera; ela entende que o tempo da graça (kairós) invadiu o tempo cronológico (chronos), e que a oportunidade de salvação é agora.

O autor  apresenta a  dimensão sacramental da matéria. O texto diz que os doentes imploravam para tocar "ao menos a orla do seu manto" 

  • O Símbolo: A orla (possivelmente o tzitzit judaico) representa a observância da Lei e a santidade de Deus.
  • O Gesto: Ao permitir ser tocado, Jesus subverte a lógica de pureza da época, onde tocar um doente ou um fluxo de sangue tornaria o mestre impuro.
  • A Consequência: Aqui, a santidade de Jesus não é contaminada pela doença, mas a sua virtude "contagia" o doente com a cura.

​Portanto, ao meditarmos sobre Marcos 6,53-56, somos convidados a ver que cada gesto de Jesus carrega implicações espirituais, sociais e políticas. Ele transforma o espaço público em santuário e valida a fé daqueles que, mesmo sem palavras teológicas sofisticadas, sabem que basta um toque na humanidade de Cristo para que a vida seja restaurada.

Se faz necessário  saber  que  ao chegar a Genesaré, território fértil às margens do lago da Galileia, Jesus é imediatamente reconhecido. Marcos utiliza o verbo epiginōskō, que indica um reconhecimento profundo, não superficial. Não se trata de fama religiosa, mas de identificação existencial. O povo reconhece Jesus porque sua presença devolve sentido onde havia abandono. Esse reconhecimento não passa pelo Templo nem pelas autoridades religiosas, mas pelos corpos marcados pela dor. Há aqui uma crítica implícita à mediação institucional da fé. Diferente dos es8cribas e fariseus, Jesus não é reconhecido por títulos, mas pela vida que brota ao seu redor. Como afirma o Evangelho de João: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5), e são os que vivem nas trevas da história que primeiro a percebem.

A Galileia do século I era uma região explorada economicamente, submetida a tributos romanos e herodianos, com crescente concentração de terras e empobrecimento dos camponeses. A ciência histórica e a sociologia bíblica demonstram que a doença estava intimamente ligada à miséria, à má alimentação, às condições precárias de vida e ao estresse social. Além disso, a legislação cultual transformava muitos doentes em impuros, excluindo-os da convivência comunitária (Lv 13–15). O corpo adoecido era também um corpo socialmente descartado. Marcos escreve sabendo disso. Por isso, quando descreve o povo correndo pelas aldeias e cidades para trazer os doentes, ele está revelando um movimento de resistência coletiva: a vida se organiza para encontrar a Vida.

Os doentes são colocados nas praças. Esse detalhe é decisivo. A praça (agorá) é o espaço público por excelência, lugar do comércio, das decisões políticas, do convívio social. Marcos desloca a doença do espaço privado e escondido para o centro da vida social. A teologia do Evangelho confronta diretamente toda espiritualidade que privatiza o sofrimento e o transforma em problema individual. A dor é social, e sua cura também precisa ser. Isaías já denunciava o jejum que ignora o corpo ferido do outro (Is 58,3-7). Jesus assume essa tradição profética e a radicaliza com sua presença. Onde a religião escondia, Ele expõe; onde a sociedade silenciava, Ele escuta.

O pedido do povo para tocar a orla do manto de Jesus carrega uma densidade simbólica profunda. A orla remete às franjas prescritas em Números 15,37-41, sinal da Aliança, memória concreta da Lei no corpo. Tocar a orla é tocar a fidelidade de Deus à sua promessa. Marcos já havia apresentado esse gesto na narrativa da mulher com hemorragia (Mc 5,25-34), estabelecendo um paralelo intencional. Em ambos os textos, o toque rompe barreiras religiosas, sociais e psicológicas. A mulher era considerada impura; os doentes de Genesaré, igualmente. O gesto revela uma fé que não pede autorização ao sistema religioso para existir.

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o toque é linguagem primária de reconhecimento e pertencimento. Jesus não cura por decreto, mas por proximidade. Em uma sociedade marcada pelo isolamento, pelo medo do corpo do outro e pela virtualização das relações, esse Evangelho recupera a centralidade da presença. A salvação passa pelo encontro. Isso desmonta qualquer teologia que reduza a fé a fórmulas, ritos automáticos ou promessas de sucesso. A cura acontece na relação, não na técnica; no vínculo, não no objeto.

Marcos afirma que todos os que tocavam em Jesus eram curados, mas o próprio Evangelho relativiza qualquer leitura mágica dessa afirmação. Em Nazaré, Jesus não pôde realizar muitos sinais por causa da incredulidade (Mc 6,5). A hermenêutica bíblica exige ler o texto no conjunto da obra. A cura é sinal, não garantia. Ela aponta para o Reino, não o esgota. A salvação que Jesus oferece é integral, mas não alienante. Ela não elimina automaticamente o sofrimento histórico, mas inaugura uma nova forma de atravessá-lo. A cruz permanece no horizonte do Evangelho. O mesmo Jesus que cura em Genesaré será rejeitado, torturado e executado pelo poder político-religioso (Mc 15).

Marcos 6,53-56 desmonta as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem sucesso individual em troca de práticas religiosas. Essas correntes transformam Deus em instrumento de ascensão social e culpabilizam os pobres por sua própria miséria. O Evangelho de Marcos segue na direção oposta. Jesus se identifica com os feridos da história, não com os vencedores do sistema. Jeremias denuncia os profetas que anestesiam a dor do povo com discursos religiosos vazios (Jr 6,14). Tiago é ainda mais contundente ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17). A fé que não se traduz em justiça social é idolatria.

Marcos também critica o individualismo religioso. Ninguém se cura sozinho. Os doentes são levados por outros. A comunidade se torna mediadora da vida. Paulo retoma essa lógica ao afirmar que o corpo de Cristo sofre e se alegra junto (1Cor 12,26). A salvação cristã é sempre relacional. Isso confronta uma espiritualidade autocentrada, consumista e meritocrática, muito presente no cenário religioso contemporâneo.

Há ainda uma crítica radical aos donos do sagrado religiosos. Jesus não controla o acesso à graça, não exige pureza prévia, não transforma o cuidado em privilégio de poucos. Ele se deixa tocar, se expõe, se mistura. Oséias já havia anunciado que Deus prefere misericórdia a sacrifício (Os 6,6). O Concílio Vaticano II recupera essa intuição ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminhada histórica (Lumen Gentium, 9). O clericalismo, ao absolutizar funções e hierarquias, trai essa eclesiologia e se afasta do Evangelho.

Os documentos do CELAM aprofundam essa leitura à luz da realidade latino-americana. Medellín denuncia as estruturas de pecado que produzem pobreza e doença. Puebla reconhece nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Cristo crucificado. Aparecida convoca a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro das periferias existenciais (DAp 372). O Papa Francisco retomou  essa tradição profética ao afirmou que prefere uma Igreja ferida por sair às ruas a uma Igreja doente por se fechar (Evangelii Gaudium, 49).

Na atualidade é inevitável não ver os fatos.  Os doentes continuam sendo colocados nas praças: hospitais públicos sucateados, filas intermináveis por atendimento, territórios periféricos abandonados, populações negras e indígenas expostas à violência estrutural, trabalhadores adoecidos e pela lógica neoliberal, pessoas em sofrimento psíquico invisibilizadas. A  nossa realidade  mostra que a doença continua atravessada por classe, raça e território. Espiritualizar essa realidade é negar o Evangelho.

​Marcos 6,53-56 não é apenas um relato de milagres; é uma bússola que nos reconduz ao núcleo da fé cristã. Ao vermos Jesus caminhando pelas praças e povoados, entendemos que a maior cura não é o simples reestabelecimento biológico, mas a restauração integral das relações humanas e divinas. A vida eterna, como define João 17,3, é conhecer a Deus no chão concreto e poeirento da história, longe das abstrações de uma espiritualidade desencarnada. Vivemos tempos perigosos onde pedir milagres é legítimo, mas transformar o Deus da Vida em um produto de consumo religioso é a mais sutil das idolatrias. O Evangelho de hoje nos lança um desafio inadiável: precisamos sair dos templos para tocar as feridas reais do povo, assim como o povo buscava tocar a orla do manto de Jesus. Porém, esse toque exige uma contrapartida: permitir que Cristo toque e desmonte nossas estruturas eclesiais endurecidas, nossas teologias muitas vezes estéreis e nossas práticas clericalizadas que afastam os pequeninos. Se a nossa fé não se traduzir em compaixão visceral, em denúncia profética das injustiças e em compromisso irrenunciável com os pobres, ela não passará de um ornamento religioso, vazio de sentido. O Evangelho é fiel à sua lógica radical: ele não veio para decorar o mundo, mas para salvá-lo.

E ainda podemos nos interrogar olhando para  Marcos 6,53-56:  O que resta em nossos corações?  Resta a certeza de que a fé cristã não acontece em laboratórios teológicos, mas na poeira da estrada, no encontro humano. A cura verdadeira é, e sempre será, a restauração do amor e das relações. Jesus nos ensina que a vida eterna é conhecer o Pai no 'agora' da nossa história (Jo 17,3), abraçando a realidade como ela é. Mas fica o alerta severo: há uma linha tênue entre a devoção sincera e o consumismo espiritual. Buscar a Deus pelo milagre é humano; usar Deus como produto é idolatria. O convite hoje é para que saiamos de nossa zona de conforto religiosa. Precisamos ter a ousadia de tocar as feridas abertas de nossa sociedade. E, mais difícil ainda, precisamos deixar que Jesus toque as áreas endurecidas de nossa própria religiosidade — nossas certezas absolutas, nosso clericalismo, nossas teologias que não geram vida. Se a nossa fé não nos leva a chorar com os que choram e a lutar pelos pobres, ela é apenas um adereço estético. O Evangelho é fogo que arde e transforma; ele jamais aceitará ser uma fé decorativa em nossa vida."



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

Um breve olhar sobre Marcos 6,30-34


O Evangelho segundo Marcos 6,30-34, proclamado no sábado da 4ª semana do Tempo Comum nos anos pares e retomado no 16º Domingo do Tempo Comum no Ano B, descreve o momento em que os apóstolos retornam da missão confiada por Jesus e se reúnem novamente ao seu redor para partilhar tudo o que fizeram e ensinaram. Esse retorno não é apenas um detalhe narrativo, mas revela um Jesus atento não aos resultados mensuráveis da missão, e sim à condição humana daqueles que enviou. O evangelista deixa claro que a missão gera desgaste real, que o discipulado não elimina os limites do corpo e que a fidelidade ao Evangelho não imuniza ninguém contra o cansaço, a exaustão e a falta de tempo até para as necessidades mais básicas, como o alimento. Marcos escreve para comunidades marcadas por perseguição, instabilidade social e sobrecarga cotidiana. Por isso, escolhe mostrar um Cristo que não espiritualiza a exaustão, não glorifica o sacrifício permanente e não transforma o desgaste contínuo em virtude religiosa. Ao contrário, Jesus reconhece os limites humanos e os assume como lugar legítimo da vida espiritual. Quando convida os discípulos a se retirarem para um lugar deserto a fim de descansar, Ele afirma que o cuidado com a vida não é fuga da missão, mas parte integrante dela.

O deserto, na tradição bíblica, não é espaço de evasão, mas de recomposição. É o lugar onde Israel reaprende a confiar, onde o excesso é desmascarado, onde o desejo é purificado e onde a Palavra volta a ocupar o centro. Ao conduzir os discípulos para um lugar à parte, Jesus propõe uma pedagogia espiritual profundamente encarnada: a missão só permanece fiel quando nasce da escuta, e a ação só é evangélica quando respeita os ritmos do corpo e da alma. Uma missão que não retorna à escuta corre o risco de se tornar violência, mesmo quando realizada em nome de Deus.

Marcos sublinha que os discípulos relatam a Jesus tudo o que fizeram e ensinaram. Não se trata de um relatório de desempenho nem de prestação de contas baseada em eficiência. Não há traço de triunfalismo, nem culto ao resultado. O Evangelho, já aqui, desmonta a lógica religiosa que mede fidelidade por números, bênção por visibilidade e missão por produtividade. Jesus escuta, mas seu olhar não se fixa nos feitos; Ele contempla os corpos cansados, o ritmo exausto, a interioridade fragilizada.

É nesse contexto que emerge uma das afirmações mais perturbadoras do texto: “Eles não tinham tempo nem para comer” (Mc 6,31). Comer, na Escritura, é gesto profundamente humano e teológico. Desde o Gênesis, o alimento aparece como dom confiado à humanidade; no Êxodo, a fome se torna lugar de revelação; nos Salmos, Deus é aquele que prepara a mesa; nos Evangelhos, Jesus come com os excluídos, multiplica o pão e se deixa reconhecer no partir do pão. Quando Marcos afirma que não havia tempo nem para comer, ele revela uma ruptura da dignidade básica da vida, um cotidiano onde até o essencial é sacrificado em nome da urgência.

A Bíblia conhece bem essa experiência. Os profetas denunciam sistemas que enriquecem explorando o cansaço alheio. Amós acusa os que esmagam os pobres enquanto vivem no luxo; Isaías rejeita o jejum que convive com a opressão do trabalhador; Jeremias condena quem constrói prosperidade fazendo o próximo trabalhar sem justiça (Jr 22,13). O clamor do povo exausto atravessa os Salmos e as Lamentações, revelando que o cansaço coletivo não é falha moral individual, mas consequência de estruturas injustas que roubam o tempo de viver.

Nesse horizonte, o convite de Jesus:  “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”, adquire força subversiva. Descansar não é luxo espiritual, mas resistência. É ruptura com a lógica do Egito, onde o faraó aumenta a produção e retira o descanso (Ex 5). É retorno à teologia do sábado, que nasce como memória política da libertação: “Lembra-te de que foste escravo” (Dt 5,15). O sábado protege o corpo do pobre, do estrangeiro, do trabalhador e até do animal. Ele afirma que ninguém pertence totalmente ao sistema, porque todos pertencem a Deus.

O mundo contemporâneo, porém, reconfigura o Egito em novas linguagens. A cultura da produtividade contínua, da disponibilidade permanente e da urgência sem pausa transforma o cansaço em virtude e o descanso em culpa. A escala 6×1 se torna símbolo dessa lógica: consome corpos, fragmenta vínculos, empobrece a espiritualidade e reduz o ser humano à função que exerce. A Escritura não legitima esse modelo. O Salmo 127 desmonta a mística do esforço incessante ao afirmar que Deus concede repouso aos seus amados; Provérbios adverte que o excesso de trabalho pode custar a própria vida; o Eclesiastes questiona o sentido de uma existência consumida pelo labor sem horizonte. Jesus não romantiza a exaustão. Ele não diz que o sofrimento contínuo purifica nem que o cansaço agrada a Deus. Sua postura se aproxima da experiência de Elias, que só reencontra a Palavra depois de comer, beber e dormir. Antes da correção, vem o cuidado. Antes da missão renovada, vem o descanso. Isso revela uma antropologia profundamente encarnada: uma espiritualidade que ignora o corpo se torna violenta, e uma fé que despreza o limite humano acaba servindo à opressão.

O descanso planejado, no entanto, é interrompido pela chegada da multidão. Jesus vê o povo e se compadece. O olhar é teológico. É o mesmo olhar de Deus sobre o sofrimento no Egito, sobre a humilhação dos esquecidos, sobre a dor silenciosa dos pobres. A imagem das “ovelhas sem pastor” não é romântica, mas profética. Denuncia lideranças que abandonam, exploram ou mercantilizam o cuidado. Os profetas já haviam acusado esse tipo de pastoreio, e Jesus se apresenta como contraponto vivo a essas estruturas. A resposta de Jesus é ensinar. Na Bíblia, ensinar é libertar. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Um povo exausto perde a capacidade de pensar, discernir e resistir. Uma sociedade cansada questiona menos, sonha menos e se submete mais facilmente. Por isso, defender o descanso é também defender a liberdade. Onde o tempo é roubado, a consciência é anestesiada.

Essa lógica confronta diretamente os ministros  do alta que fazem do ministério  uma produção  e   vive a espiritualidades do ativismo. Jesus denuncia os que impõem fardos pesados e não os carregam. Ele afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado. Esse princípio se estende legitimamente ao trabalho: o trabalho existe para servir à vida, não para consumi-la. O Magistério da Igreja ecoa essa tradição bíblica. A Gaudium et Spes afirma que o desenvolvimento econômico deve respeitar os ritmos humanos. A Laborem Exercens reconhece o descanso semanal como direito fundamental. A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata. A Laudato Si’ relaciona a exploração do tempo humano à devastação da criação. A Fratelli Tutti insiste que não há fraternidade onde o tempo de viver é roubado.

À luz do Evangelho, a escala 6×1 revela uma antropologia incompatível com o Reino. Ela normaliza o esgotamento, enfraquece os vínculos comunitários e transforma a vida em mercadoria. A Escritura afirma o contrário: que o ser humano é pó animado pelo sopro de Deus, não engrenagem produtiva; que a vida é dom, não produto; que o descanso antecipa o Reino. A Carta aos Hebreus proclama que “resta um repouso sabático para o povo de Deus”. Esse repouso não é fuga da história, mas critério para julgá-la. Onde o descanso é negado, o Evangelho é traído. Onde o cansaço é glorificado, a fé se torna cúmplice da opressão. Onde não há tempo nem para comer, a Boa Nova precisa ser anunciada com ainda mais clareza.

Jesus continua vendo os cansados, continua se compadecendo e continua convidando ao descanso. E chama sua Igreja a não pactuar com nenhuma estrutura que transforme o tempo de viver em mercadoria. Defender o descanso é proclamar o Evangelho. Denunciar a exploração do tempo é fidelidade bíblica. Anunciar esse Cristo solidário com os exaustos é um ato profundamente profético, urgente e libertador.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,14-29

O relato de Marcos 6,14-29 é proclamado na liturgia da sexta-feira da 4ª semana do Tempo Comum, interrompendo deliberadamente a sequência dos gestos poderosos de Jesus para fazer a comunidade cristã olhar, sem anestesia, para o destino daqueles que se comprometem com a verdade. A liturgia não escolhe este texto por acaso nem como memória distante de um mártir isolado, mas como espelho permanente da tensão entre o Reino de Deus e as estruturas de poder que se sustentam na mentira, na conveniência e no medo. Marcos constrói o episódio como um grande parêntese narrativo, um flashback denso, quase sufocante, no qual a figura de João Batista surge não apenas como personagem histórico, mas como chave hermenêutica para compreender o próprio ministério de Jesus e, por extensão, a vocação da Igreja em todos os tempos.

O evangelista inicia o relato a partir da perturbação de Herodes Antipas diante da fama crescente de Jesus. A consciência inquieta do tetrarca é o primeiro símbolo a ser lido. Herodes interpreta os sinais do Reino não como boa notícia, mas como ameaça. Ele vê em Jesus o retorno de João, “ressuscitado dos mortos”, projeção de uma culpa que não encontra descanso. Aqui, Marcos nos insere num campo profundamente antropológico e psicológico: a verdade silenciada não desaparece; ela retorna como fantasma, como acusação interior. A consciência, quando violentada, não se cala. Essa dinâmica aparece já no Gênesis, quando Caim, após matar Abel, tenta seguir a vida normalmente, mas é interpelado por Deus: “Onde está teu irmão?” (Gn 4,9). A culpa não elaborada gera paranoia, medo, necessidade de controle. Herodes, como Caim, como Saul diante de Davi (1Sm 18), como Pilatos diante de Jesus (Mc 15,15), torna-se refém daquilo que tentou calar.

Marcos apresenta João como “homem justo e santo”, categorias que, no horizonte bíblico, não se reduzem à moral individual, mas indicam alguém alinhado com a justiça de Deus, com a fidelidade à Aliança. João é herdeiro direto da tradição profética de Elias (1Rs 18), de Amós (Am 5,21-24), de Isaías (Is 58), profetas que ousaram confrontar reis, sistemas econômicos e estruturas religiosas. A denúncia de João — “não te é permitido” — não é moralismo privado, mas afirmação pública de que nem mesmo o poder político está acima da Lei que protege a vida, a dignidade e as relações justas. A exegese do texto mostra que a prisão de João não se dá por um crime, mas por sua palavra. É a palavra que incomoda, que desestabiliza, que ameaça alianças espúrias entre poder político, econômico e religioso.

O cenário do banquete é carregado de simbolismo. Na tradição bíblica, o banquete pode ser imagem do Reino (Is 25,6; Mt 22,1-14), mas aqui ele se transforma em paródia. É um banquete de morte, não de comunhão; de ostentação, não de partilha. Herodes reúne os “grandes da corte”, os oficiais, os poderosos da Galileia. A sociologia do poder se revela com clareza: trata-se de um espaço masculino, elitizado, onde alianças são reafirmadas, onde corpos são usados como moeda simbólica. A dança da filha de Herodíades não é descrita em detalhes, mas sua função narrativa é clara: o corpo feminino é instrumentalizado para manter o jogo de poder masculino. A promessa exagerada de Herodes — “até a metade do meu reino” — ecoa Ester 5,3, mas aqui sem nobreza alguma, revelando a teatralidade vazia de um poder que promete o que não pode dar.

O juramento é outro elemento simbólico decisivo. Na tradição bíblica, o juramento envolve responsabilidade diante de Deus (Dt 23,22). Jesus, mais tarde, denunciará o uso manipulador dos juramentos (Mt 5,33-37). Herodes se torna prisioneiro de sua própria palavra, não por fidelidade, mas por vaidade. O respeito e status humano emerge com força: o medo do ridículo, da perda da posição, da quebra da imagem pública pesa mais do que a vida de um inocente. Quantos sistemas injustos continuam operando porque alguém, em algum nível, “não pode voltar atrás” diante dos convidados, do mercado, dos eleitores, da hierarquia? As escolhas contemporâneas reconhece aqui o mecanismo da conformidade social. Nos tempos atuais os indivíduos compactuam com as injustiças para não romper com o grupo.

A figura de Herodíades, por sua vez, não deve ser lida apenas como vilã moral, mas como expressão de um ressentimento que se estrutura quando a verdade ameaça privilégios. Ela guarda rancor porque João nomeou aquilo que todos sabiam, mas preferiam não dizer. O ódio à profecia nasce da recusa em se converter. Esse padrão se repete ao longo da Escritura: Jezabel persegue Elias (1Rs 19), os líderes religiosos tramam contra Jeremias (Jr 26), os fariseus planejam a morte de Jesus após a ressurreição de Lázaro (Jo 11,53). A verdade não mata por si mesma; ela é morta por quem não quer perder poder.

A decapitação de João no cárcere, longe do banquete, longe da multidão, carrega um forte valor simbólico. A cabeça, na antropologia bíblica, representa a identidade, a palavra, a orientação. Cortar a cabeça é tentar silenciar definitivamente a voz. No entanto, Marcos sugere o contrário: a morte de João amplia sua voz, pois ela se mistura agora à missão de Jesus. Os discípulos de João recolhem o corpo, gesto que ecoa o cuidado com os mortos justos (Tb 1,17) e antecipa o cuidado com o corpo de Jesus no sepulcro (Mc 15,46). A história da salvação não é interrompida pela violência; ela passa pela cruz.

A hermenêutica deste texto, proclamado no Tempo Comum, desmascara a tentação de uma fé domesticada, confortável, adaptada ao sistema. Aqui se impõe uma crítica direta às teologias da prosperidade e do domínio, que associam bênção à riqueza, sucesso e poder. João é fiel e termina decapitado; Jesus é o Filho amado e termina crucificado. Não há, no Evangelho, promessa de imunidade ao sofrimento para quem vive a verdade. Ao contrário, há advertência clara: “Se me perseguiram, também perseguirão vocês” (Jo 15,20). A fé como mercadoria, vendida como caminho de ascensão individual, não resiste a Marcos 6. O Evangelho não é produto que garante status; é caminho que exige coerência, risco e, muitas vezes, conflito.

Também o individualismo religioso é confrontado. João não denuncia por gosto pessoal ou por rigidez moral, mas por responsabilidade comunitária. O pecado do rei não é apenas privado; ele afeta o povo, legitima abusos, corrompe relações. A teologia bíblica nunca separa ética pessoal de justiça social. Por isso, a crítica profética não pode ser reduzida a opinião individual. Ela nasce da escuta de Deus e do compromisso com a vida do povo.

Sempre que a autoridade religiosa se alia ao poder político para manter privilégios, sempre que silencia profetas em nome da ordem ou da imagem institucional, ela repete, de outra forma, o banquete de Herodes. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus peregrino, chamado a ler os sinais dos tempos e a se colocar ao lado da dignidade humana ferida. A verdade não pertence à hierarquia como propriedade; ela é serviço. O Vaticano I, ao refletir sobre a autoridade e a verdade, jamais a desvincula da consciência iluminada pela razão e pela fé. Quando a autoridade teme a verdade, ela se esvazia.

Marcos 6,14-29, lido à luz dos sinóticos, aprofunda ainda mais esse horizonte. Mateus 14 destaca o medo de Herodes diante do povo; Lucas 9 sublinha a perplexidade do governante. Em todos, o poder aparece como instável, inseguro, dependente da aprovação alheia. Em contraste, a liberdade interior do profeta se impõe. João está preso, mas é livre; Herodes está no palácio, mas é escravo. Essa inversão é profundamente filosófica e teológica: a verdadeira liberdade não é ausência de limites, mas fidelidade à verdade reconhecida.

Assim, este texto proclamado na liturgia da sexta-feira  da 4ª semana do Tempo Comum  no par, não nos permite neutralidade. O texto faz uma pergunta à Igreja, às comunidades, aos ministros ordenados e aos leigos: 

  • A quem estamos dispostos a desagradar para sermos fiéis ao Evangelho? 
  • Que verdades temos preferido calar para preservar banquetes, alianças e reputações? 

João Batista continua sendo degolado sempre que a profecia é silenciada, sempre que a fé se torna mercadoria, sempre que o Evangelho é reduzido a instrumento de poder. Mas também continua vivo sempre que alguém, mesmo embaraçado, escolhe a verdade e se converte. É nesse confronto que o Reino de Deus avança, não com aplausos, mas com fidelidade.

Essa fidelidade, porém, não pode ser romantizada. Marcos não escreve uma hagiografia edulcorada de João Batista, mas uma narrativa crua, que expõe os custos reais da palavra profética. O texto exige que nos  aprofundemos  no contexto histórico-político da Galileia do século I. Herodes Antipas não era rei por direito próprio, mas um governante dependente de Roma, submetido ao poder imperial e, ao mesmo tempo, obrigado a manter uma imagem de autoridade diante do povo judeu. Essa condição híbrida — politicamente frágil e simbolicamente autoritária,  ajuda a compreender sua instabilidade psicológica. A  história mostra que regimes dependentes tendem a ser mais violentos internamente, pois precisam compensar sua falta de legitimidade com demonstrações públicas de força. João Batista, ao denunciar o casamento ilegal de Herodes, não afronta apenas uma questão moral privada, mas desvela a ilegitimidade estrutural de um poder que se sustenta na violação da Lei.

A Lei, aqui, deve ser compreendida em sua dimensão teológica e antropológica. A Torá não é um conjunto arbitrário de normas, mas um projeto de vida que organiza relações, protege os vulneráveis e impede que o desejo do mais forte se imponha como regra. Ao dizer “não te é permitido”, João se insere na tradição de Levítico 18,16 e 20,21, textos que visam preservar a dignidade dos vínculos familiares e impedir a instrumentalização das pessoas. A exegese revela que João não cria uma nova moral; ele recorda uma memória esquecida. Toda profecia nasce dessa recordação incômoda: lembrar ao poder aquilo que ele preferiu apagar.

Esse mecanismo de esquecimento deliberado é amplamente estudado pela sociologia e pela filosofia política. Ao  refletirmos sobre a banalidade do mal, mostra como grandes injustiças se tornam possíveis não apenas por ódio consciente, mas por conformismo, burocracia e desejo de pertencimento. Herodes não é um monstro isolado; ele é o produto de um sistema que normaliza a violência quando ela protege interesses. Marcos, com sutileza literária, constrói Herodes como alguém que “gostava de ouvir João”. Essa ambiguidade é devastadora: o problema não é a ignorância, mas a dissociação entre escuta e conversão. Trata-se de uma fé estética, curiosa, que consome a palavra como espetáculo, mas se recusa a deixá-la transformar a vida.

Aqui o texto toca diretamente a realidade contemporânea da fé como entretenimento. .

  • Quantos “ouvem” profetas, teólogos, pregadores, lives e homilias, mas permanecem estruturalmente intocados?

A crítica à fé como mercadoria emerge com força: quando a palavra de Deus é consumida como conteúdo, ela perde seu caráter performativo, isto é, sua capacidade de gerar decisão, ruptura e mudança de rota. A teologia da prosperidade se alimenta exatamente dessa lógica: ouvir para se sentir bem, é algo emocional, não para serve  para  converter. João Batista não oferece promessa de sucesso; ele oferece confronto. Por isso é eliminado.

O banquete de Herodes, ampliado simbolicamente, pode ser lido como imagem de uma sociedade da abundância excludente. Enquanto poucos comem, bebem e se divertem, a verdade está encarcerada e a maioria permanece invisível. Amós já havia denunciado banquetes semelhantes: “Deitam-se em leitos de marfim, comem cordeiros do rebanho… mas não se afligem com a ruína de José” (Am 6,4-6). Marcos reinscreve essa denúncia no contexto romano-judaico, mostrando que a lógica da opressão se repete com novas roupas. O Reino de Deus, anunciado por Jesus logo em seguida, não se confunde com esses banquetes; ele acontece nas mesas dos pobres, dos pecadores, dos excluídos.

A dança da jovem, revela outro nível de violência simbólica. O corpo feminino, silencioso no texto, torna-se instrumento de negociação entre adultos. Não se trata apenas de sedução, mas de objetificação. A tradição bíblica conhece bem esse tipo de exploração, denunciada nos relatos de Tamar (2Sm 13) e da concubina do levita (Jz 19). Marcos não precisa fazer discurso; basta narrar. A cabeça de João servida num prato sela a lógica: corpos são usados, descartados, trocados. O Evangelho, ao expor essa dinâmica, desautoriza qualquer leitura espiritualizante que ignore as dimensões sociais e de gênero da violência.

A morte de João, sob o ponto de vista teológico, inaugura uma escatologia do testemunho. Ele morre antes de ver a plenitude do Reino, assim como Moisés morre antes de entrar na terra prometida (Dt 34). Ambos apontam caminhos que outros percorrerão. A fidelidade não garante resultados imediatos; ela garante sentido. Essa é uma crítica frontal às teologias do resultado, do sucesso mensurável, do crescimento numérico como critério de bênção. O Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que a Igreja caminha entre perseguições do mundo e consolações de Deus, e que seu êxito não se mede pelos critérios do mercado ou do poder.

O paralelismo entre João e Jesus se aprofunda quando observamos que ambos são entregues por autoridades fracas, ambos são mortos para preservar a ordem religiosa-politica-moral, um Deus-Patria-Familia primitivo.  tanto João  como Jesus  são vítimas de alianças entre poder político e conveniência religiosa. Pilatos, como Herodes, reconhece a inocência, mas lava as mãos. A psicologia do poder revela aqui um padrão recorrente: a transferência de responsabilidade:

  •  “Não fui eu”
  • “o sistema exigiu”
  • “não havia alternativa
  • Eu não  queria isso

 O Evangelho desmonta essa desculpa ao mostrar que sempre há escolha, ainda que custosa.

No horizonte eclesial, este texto interroga o clericalismo não apenas como abuso de poder, mas como medo da profecia. Sempre que a Igreja prefere o silêncio confortável à palavra incômoda, ela se aproxima mais do palácio de Herodes do que do deserto de João. O Vaticano I, ao afirmar a racionalidade da fé, jamais autorizou a submissão acrítica da consciência. O Vaticano II reforça que todos os batizados participam da função profética de Cristo. Silenciar essa dimensão é mutilar a identidade cristã.

O texto conduz, portanto, a uma conclusão que não fecha, mas abre. Marcos 6,14-29 não é apenas memória de um martírio passado; é critério permanente de discernimento. Onde estão hoje os cárceres da verdade? Quais banquetes continuam sendo mantidos à custa de silêncios cúmplices? Quem são os João Batista que ainda incomodam porque se recusam a negociar a palavra? A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, lembra que a fidelidade não é exceção heroica, mas vocação cotidiana. O Reino de Deus continua avançando não pela força, nem pelo espetáculo, nem pela mercantilização da fé, mas pela coragem silenciosa de quem prefere perder a cabeça a perder a verdade.

Para que essa afirmação não permaneça apenas no plano retórico, é necessário inserir explicitamente este texto no coração da tradição viva da Igreja. Marcos 6,14-29 não é um corpo estranho dentro da fé católica, mas um de seus critérios de autenticidade. A Dei Verbum recorda que a Revelação não é simples acúmulo de informações sagradas, mas comunicação de Deus na história, acolhida pela Igreja na escuta obediente da Palavra (DV 2). João Batista encarna essa escuta que se torna palavra pública, mesmo quando o preço é a própria vida. A Palavra de Deus, afirma o Concílio, cresce com quem a escuta e a vive; ela não cresce com quem a administra como objeto de controle.

Nesse sentido, a Lumen Gentium é decisiva ao afirmar que todo o Povo de Deus participa da missão profética de Cristo (LG 12). João não fala porque ocupa um cargo, mas porque foi chamado. Sua autoridade não vem do templo nem do palácio, mas do deserto, lugar bíblico da verdade despojada. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo Papa Francisco, nasce exatamente da tentativa de substituir essa autoridade do testemunho por uma autoridade de função. Quando o ministério se distancia da profecia, ele se aproxima perigosamente do banquete de Herodes.

A Gaudium et Spes aprofunda ainda mais essa leitura ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos pobres são também as da Igreja (GS 1). João Batista não denuncia Herodes em nome de uma moral abstrata, mas em nome de um povo ferido por um poder que se considera acima da Lei. A Igreja, quando permanece fiel ao Evangelho, não pode se eximir dessa mesma responsabilidade histórica. Por isso o Concílio rejeita qualquer separação entre fé e vida, entre culto e justiça, denunciando como incoerente uma religião que não se deixa interpelar pelas estruturas sociais e políticas.

O Vaticano I, frequentemente reduzido à questão da autoridade, oferece aqui uma chave esquecida. Ao afirmar que fé e razão não se contradizem, o Concílio reconhece o papel da consciência moral iluminada pela verdade. Herodes age contra a razão e contra a fé, não por ignorância, mas por submissão ao olhar dos outros. O drama de Marcos 6 é também o drama de uma consciência que abdica de si mesma. A tradição católica jamais canonizou essa abdicação.

Outros concílios da Igreja ecoam essa mesma tensão profética. O Concílio de Niceia, ao defender a verdade cristológica contra o poder imperial, mostrou que a fé não pode ser moldada pela conveniência política. O Concílio de Trento, ao promover reforma interna, reconheceu que o maior escândalo da Igreja nasce quando seus próprios ministros se afastam da coerência evangélica. O Vaticano II retoma esse fio, não como ruptura, mas como retorno às fontes, lembrando que a Igreja se purifica continuamente na escuta da Palavra e na conversão de suas estruturas.

Papa Francisco se inserem aqui não como ornamento, mas como atualização pastoral dessa tradição. Em Evangelii Gaudium, ele afirma que prefere uma Igreja acidentada por sair às periferias a uma Igreja doente pelo fechamento e pela autopreservação. João Batista é exatamente essa figura acidentada, descartável aos olhos do poder, mas indispensável aos olhos de Deus. Em Fratelli Tutti, Francisco denuncia as novas formas de banquetes fechados, nos quais poucos decidem e muitos pagam o preço. Herodes não é apenas personagem antigo; ele ressurge sempre que a fraternidade é sacrificada em nome da manutenção do poder.

Marcos 6,14-29 permanece, portanto, como uma lâmina afiada na história da Igreja. Não permite neutralidade, nem acomodação, nem espiritualidade inofensiva. Obriga a escolher entre o deserto e o palácio, entre a palavra que liberta e o silêncio que preserva privilégios, entre a fidelidade que custa caro e a conveniência que mata lentamente. A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, recorda que a profecia não é exceção heroica reservada a alguns, mas dimensão constitutiva da fé cristã.  Entre a palavra que liberta e o silêncio que preserva privilégios, entre a fidelidade que custa caro e a conveniência que mata lentamente. A liturgia, ao proclamar este Evangelho numa sexta-feira do Tempo Comum, recorda que a profecia não é exceção heroica reservada a alguns, mas dimensão constitutiva da fé cristã.

 Nesse horizonte, a narrativa de Marcos não se encerra no martírio, mas se abre como critério permanente de discernimento e conversão. A Palavra degolada continua falando; a verdade silenciada continua retornando, inquietando consciências, desmascarando pactos, perturbando banquetes. O Reino de Deus avança não pelo espetáculo, nem pela força, nem pela mercantilização da fé, mas pela fidelidade cotidiana de homens e mulheres que preferem perder segurança, prestígio ou posição a negociar a verdade que receberam.

 Sempre que a Igreja se esquece disso, ela se aproxima do banquete de Herodes; sempre que se lembra, mesmo ferida e minoritária, ela se reencontra com  João Batista  e, nele, com o próprio Cristo. Porque o Evangelho não promete cabeças preservadas, mas consciências livres; não garante aplausos, mas verdade; não oferece tronos, mas cruz. E é exatamente aí, onde o mundo enxerga fracasso, que o Reino de Deus continua, silenciosa e inexoravelmente, a avançar.



DNonato – Teólogo do Cotidiano