quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um outro olha sobre Mateus 6,1-6.16-18 / Quarta-feira de Cinzas

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas inaugura o tempo sagrado da Quaresma com um chamado que atravessa a superfície da religiosidade e alcança o coração. As leituras de Joel 2,12-18; Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17;  II Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18 compõem uma única convocação: voltar ao Senhor com verdade. Não se trata de um rito externo nem de uma tradição repetida por costume, mas de um movimento interior que envolve mente, afetos, escolhas e estruturas de vida.

A cinza na fronte proclama que somos frágeis, mas também anuncia que somos chamados à transformação.  A memória da finitude purifica os delírios de grandeza e nos devolve ao essencial. Diante de Deus não há máscaras que resistam. O tempo da Quaresma começa assim, com um gesto simples e radical. Um sinal visível de uma decisão invisível. Um convite a deixar cair as aparências para que nasça, no silêncio do coração, uma vida reconciliada com Deus e comprometida com a fraternidade concreta. 

Neste caminho quaresmal, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).  que nos recorda que conversão nunca é apenas individual. A espiritualidade bíblica é inseparável da responsabilidade social. 

  • Jejuar sem justiça é hipocrisia.
  •  Orar sem compromisso com os que sofrem é ilusão. 
  • Oferecer esmola sem rever estruturas que geram exclusão é paliativo.

 A Quaresma nos chama a uma fé encarnada, capaz de enfrentar as desigualdades, as violências e as formas de religião vazia que anestesiam a consciência.

Quando Mateus 6,1-6.16-18 ressoa na assembleia, não é apenas um texto proclamado: é lâmina que atravessa intenções, desnuda motivações e expõe o coração. Ele ecoa de modo emblemático na Quarta-feira de Cinzas e retorna na 11ª semana do Tempo Comum, como se a pedagogia divina insistisse que a conversão não é estação litúrgica, mas estado permanente da alma. A mesma Palavra que inaugura o deserto acompanha o cotidiano; a mesma exigência que abre a Quaresma vigia o Tempo Comum. Não há pausa para a autenticidade.  O risco da hipocrisia não é sazonal. Ele ronda toda experiência religiosa, infiltra-se nas práticas mais nobres e pode vestir-se de piedade. Jesus, inserido no Sermão da Montanha (Mt 5–7), concretiza a justiça superior anunciada em Mt 5,20. Não é formalismo legal; é fidelidade ao querer do Pai. Quando Ele adverte: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos”, O problema não é a esmola, a oração ou o jejum; é o palco interior que transforma o sagrado em performance.

A tríade proposta por Jesus:  esmola, oração e jejum,  já era central no judaísmo do Segundo Templo. Tobias 12,8-9 afirma que oração, jejum e esmola são boas quando acompanhadas de justiça. O jejum marcava o Dia da Expiação (Lv 16); a oração estruturava as horas (Sl 55,18; Dn 6,11); a tzedaká expressava justiça social. Jesus não rompe com essa tradição; leva-a à plenitude (Mt 5,17). Interioriza-a radicalmente. Não abole o rito; liberta-o da vaidade.  Os símbolos do texto revelam profundidade espiritual. O quarto fechado  evoca intimidade. Fechar a porta significa interromper o fluxo da aprovação social. O Pai-Nosso, ensinado no plural, impede individualismo; mas a oração exibicionista é desmascarada. O rosto desfigurado dos que jejuam para parecer piedosos contrasta com a unção e a lavagem do rosto. A unção, na Escritura, é sinal de alegria (Sl 23,5; Is 61,3). O jejum cristão não é espetáculo de tristeza, mas disciplina orientada para Deus. 

É nesse horizonte que o Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18 se torna decisivo. Jesus denuncia a prática religiosa feita para ser vista. A esmola, a oração e o jejum, pilares da espiritualidade judaica do século I, são recolocados no lugar da autenticidade. O Pai vê no segredo. O critério não é a visibilidade social, mas a verdade interior. A crítica de Jesus não é contra a prática religiosa em si, mas contra o coração dividido que transforma o sagrado em espetáculo e o pobre em vitrine. 

A liturgia oferece a chave hermenêutica desse Evangelho já em Joel 2,12-18. O profeta ergue a voz em meio a uma crise nacional devastadora. Uma praga de gafanhotos, símbolo de juízo e colapso econômico, atingira o povo. Campos arrasados, fome, culto interrompido. Nesse contexto histórico concreto, a tentação era preservar aparências religiosas enquanto a justiça permanecia negligenciada. Joel proclama: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). O verbo hebraico shuv indica retorno radical, mudança de direção existencial. E insiste: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. No contexto histórico de uma crise nacional marcada por calamidade e devastação, o apelo não é teatral, mas existencial. A conversão pedida é integral, pessoal e comunitária. O pecado, na perspectiva bíblica, não é apenas falha individual, mas ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra. Por isso, o retorno precisa ser concreto, visível na justiça, na misericórdia e na reconstrução da vida social.  Rasgar as vestes era gesto tradicional de luto. Rasgar o coração é ruptura interior. É abandonar cumplicidades com o pecado estrutural. É desinstalar-se de práticas que sustentam desigualdades. O profeta convoca jejum, assembleia solene, choro sacerdotal entre o vestíbulo e o altar (Jl 2,17), mas deixa claro: o gesto exterior só tem sentido se for expressão de interioridade dilacerada. A tradição profética ecoa essa denúncia: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13); “Aprendei a fazer o bem, buscai o direito” (Is 1,17); “Corra o direito como água” (Am 5,24).

O Salmo 50(51) aprofunda essa experiência. Associado ao arrependimento de Davi após sua queda (cf. 2Sm 12), revela que o pecado é ruptura relacional antes de ser infração jurídica: “Contra vós pequei” (Sl 51,6). A súplica “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12) utiliza o verbo bara’, o mesmo de Gn 1,1, indicando recriação. Conversão não é retoque moral; é nova criação. A antropologia bíblica é lúcida: o mal brota do interior (Mc 7,21-23). Por isso, antes de qualquer promessa de ação, a assembleia repete: “Tende piedade”. O reconhecimento da própria miséria precede qualquer prática religiosa.  O Salmo dá voz à consciência que reconhece sua própria verdade. “Criai em mim um coração que seja puro”. A tradição sapiencial de Israel compreende o coração como centro das decisões. Converter-se é permitir que Deus recrie esse centro. Não é autopunição, é recriação. A cinza que recebemos não é sinal de condenação, mas de lucidez. Recorda “Tu és pó e ao pó voltarás” como em Gênesis 3,19, não para humilhar, mas para libertar da ilusão de autossuficiência que alimenta idolatrias modernas, inclusive aquelas que se travestem de poder religioso ou político

Paulo, em 2Cor 5,20–6,2, amplia o horizonte: “Reconciliai-vos com Deus… é agora o tempo favorável”. O apóstolo fala como embaixador. O termo katallagē indica restauração de vínculos rompidos. Não se trata de experiência intimista, mas de nova criação (2Cor 5,17). O kairos não admite adiamentos. A Quaresma não é dramatização anual do arrependimento; é ocasião concreta de decisão histórica. A graça precede o esforço, mas exige resposta. A reconciliação não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. Na antropologia paulina, o ser humano é chamado a viver uma nova criação inaugurada em Cristo. Essa novidade não combina com espiritualidade de aparência nem com fé usada como instrumento de dominação ou autopromoção.

A Palestina do século I  onde Jesus  andou, vivia sob a lógica de honra e vergonha. A visibilidade pública era capital simbólico. A sociologia ajuda a compreender como o campo religioso pode produzir distinção e poder. O capital religioso converte-se facilmente em capital político. Jesus desmonta esse mecanismo. Sua crítica não atinge apenas indivíduos, mas estruturas que transformam o sagrado em instrumento de legitimação.  O narcisismo é  traço cultural na atualidade   sendo amplificado pelas redes sociais. A espiritualidade pode tornar-se extensão do ego. Constrói-se persona piedosa para ocultar fragilidades. Quando a esmola vira autopromoção, perde sua essência. Quando a oração se transforma em demonstração pública de poder, deixa de ser encontro. O Pai que vê no secreto desmonta o narcisismo religioso.

Tanto o primeiro  como o segundo Testamento  mantém unidade entre culto e justiça. Isaías 58 declara que o jejum autêntico é libertar o oprimido e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,7). Amós 5 rejeita cânticos sem retidão. Mateus 25 recorda que o julgamento final se dá pela solidariedade concreta aos pequenos. O segredo não exclui compromisso social; purifica sua intenção. A interioridade gera responsabilidade histórica.

Nesse horizonte, a Quaresma encontra expressão concreta na Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego eskēnōsen indica que Deus armou sua tenda entre os homens, evocando a presença no deserto (Ex 25,8). A Encarnação revela um Deus que escolhe proximidade. Se Deus habita nossa precariedade, a falta de moradia digna torna-se ferida teológica.

A moradia é mais que construção física. É espaço de identidade, pertencimento, memória e proteção. Antropologicamente, estrutura vínculos; psicologicamente, oferece segurança. Sua ausência expõe à violência e à invisibilidade. Defender moradia digna é defender a vida integral. No Ano Jubilar (Lv 25), a terra era devolvida para restaurar justiça social. A comunidade primitiva testemunhava que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). A fé bíblica não legitima desigualdade nem naturaliza exclusão.

Na realidade brasileiro contemporâneo, marcado por polarizações e instrumentalização da religião, Mateus 6 permanece denúncia profética. Jejuns convocados como marketing ideológico, orações transmitidas como demonstração de força, caridades exibidas para construir imagem pública: já receberam sua recompensa. O Evangelho não legitima exclusão; coloca o pobre no centro. A fé que se alia a projetos de poder e abandona o Crucificado trai sua origem. Quando o ministro se coloca no centro e obscurece o serviço, contradiz o modelo do Bom Pastor (Jo 10,11). “O maior entre vós seja servo” (Mt 23,11). A Igreja é Povo de Deus (cf. Lumen Gentium 9). Conversão atinge estruturas eclesiais. A Quaresma é ocasião de exame comunitário, não apenas individual.

Assim, Joel convoca retorno; o Salmo suplica recriação; Paulo proclama reconciliação; Mateus purifica intenções; João anuncia Encarnação; Isaías exige justiça; Atos testemunha partilha. A Escritura inteira converge para um ponto: Deus deseja verdade no íntimo e justiça nas relações. A Quaresma não inaugura medo, mas verdade. Convida a rasgar o coração, não as vestes; a abandonar o palco e entrar no silêncio; a deixar que o Pai, que vê no secreto, molde a vida.

A Quarta-feira de Cinzas nos conduz ao coração do Evangelho: não a uma religião de vitrine, mas a uma fé que se deixa purificar no segredo. Em Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18, Jesus desmonta a espiritualidade performática e denuncia a busca por aplausos. Esmola, oração e jejum não são instrumentos de autopromoção, mas caminhos de conversão que só fazem sentido quando brotam de um coração reconciliado com Deus e comprometido com os irmãos.

A cinza imposta na liturgia  de hoje recorda finitude e possibilidade. É símbolo de limite e de esperança. O pó não é sentença final; é matéria que Deus pode recriar. O Reino cresce como semente oculta (Mc 4,26-29). A conversão começa no segredo, mas transborda na história. O quarto fechado conduz à praça pública transformada.

Quando Deus arma sua tenda entre nós, ecoa o mistério da Encarnação. Ele não legitima desigualdades; Ele se aproxima das periferias da história. O Deus bíblico não habita palácios de vaidade, mas caminha com o povo no deserto, escuta o clamor do oprimido e toma partido da vida ameaçada, como vemos em Êxodo 3,7-8. Por isso, a fé autêntica ajoelha-se no quarto fechado e levanta-se para transformar a realidade concreta. Não há verdadeira oração que não deságue em justiça; não há jejum agradável a Deus que ignore a fome do pobre, como denuncia Isaías 58,6-7.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a sair do ritualismo estéril e a assumir um compromisso histórico. Conversão não é encenação litúrgica, é mudança de mentalidade e de prática. É rever estilos de vida, estruturas que produzem exclusão e discursos religiosos que abençoam privilégios enquanto silenciam diante da miséria. A cinza que hoje toca nossa fronte não é maquiagem espiritual; é memória da nossa fragilidade e chamado à responsabilidade. Somos pó, mas pó chamado a amar, a servir e a reconstruir vínculos.

Olhando  para o tema não  tem como não  recorda  os três  T do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, ele retoma o coração da tradição bíblica e da Doutrina Social da Igreja. Não se trata de retórica política, mas de Evangelho encarnado na história. Desde o Gênesi.

  •  Terra aparece como dom confiado ao cuidado humano Gn 2,15 e promessa destinada a um povo que não pode viver na escravidão permanente Ex 3,7-8. A concentração injusta da terra já era denunciada pelos profetas Is 5,8, porque a fé bíblica nunca separou culto e justiça.
  • Trabalho participa da obra criadora de Deus Gn 2,3. Ele dignifica, sustenta e integra a pessoa na comunidade. Quando o salário é retido ou a exploração se torna regra, a Escritura fala com clareza Tg 5,4. O descanso sabático Ex 20,8-11 revela que ninguém é máquina produtiva. A economia que sacrifica pessoas em nome do lucro contradiz a lógica do Reino.
  • Teto, tema que ganha força na reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), toca o núcleo da dignidade humana. A casa é espaço de proteção, identidade e memória. Em Êxodo 12 a salvação passa pela porta marcada do lar. Em Josué 24,15 a fé envolve toda a casa. Em Atos 2,46 a Igreja nasce nas casas. Quando Jesus afirma que não tem onde reclinar a cabeça Lc 9,58, ele se identifica com os que vivem na precariedade. Em Mateus 25,35 o critério do juízo inclui acolher quem não tem abrigo.

A antropologia mostra que o lar estrutura vínculos e segurança emocional. A psicologia confirma que a ausência de moradia estável gera rupturas profundas na subjetividade. A sociologia evidencia que a exclusão habitacional amplia violência e desigualdade. Não se pode falar de fraternidade ignorando famílias empurradas para periferias sem infraestrutura ou vivendo sob marquises enquanto imóveis permanecem vazios por especulação. A tradição profética insiste que o jejum agradável a Deus inclui repartir o pão e recolher em casa os pobres sem abrigo Is 58,7. Não é símbolo, é prática concreta. A fé que se contenta com discursos morais e se cala diante da injustiça estrutural torna-se religião vazia. Terra, teto e trabalho formam um tripé inseparável da dignidade. Onde falta teto, ali o Evangelho convoca a comunidade cristã a ser sinal de justiça, presença e transformação histórica.

Num tempo marcado por polarizações, indiferença social e tentativas de instrumentalizar a fé para projetos de poder, o Evangelho nos devolve ao essencial. O Pai que vê no segredo também vê o que fazemos, ou deixamos de fazer, pelos pequenos, como recorda Mateus 25,31-46. Não basta repetir práticas devocionais; é preciso encarnar a misericórdia. A oração que agrada a Deus é aquela que nos desinstala. O jejum que Ele acolhe é o que rompe com o egoísmo. A esmola que Ele reconhece é a que restitui dignidade, não a que perpetua dependências.

Se Deus armou sua tenda entre nós, somos chamados a construir uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde ninguém viva sem teto, sem chão, sem lugar. A conversão quaresmal é também social e pública, porque toca as estruturas que ferem a vida. É compromisso com a justiça, com a verdade e com a fraternidade concreta.

O tempo é favorável. Não para aparências, mas para decisões. Não para discursos inflamados, mas para coerência. Não para uma religião de fachada, mas para um discipulado que une contemplação e ação. Que a cinza nos lembre quem somos; que o Evangelho nos recorde para quem vivemos; e que a fraternidade se torne prática cotidiana.

Conversão não é teatro. É caminho. É escolha diária. É compromisso com Deus que se prova no amor ao próximo. O resto é aparência que o vento leva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Além do Conservadorismo: O Evangelho de Jesus

Jesus não pode ser aprisionado em categorias ideológicas modernas, mas podemos afirma com todas as letras que não seria ligado ao neoconservadorismo. Embora  saibamos  que Ele  é  maior  que os  rótulos políticos porque sua identidade e missão nascem de uma realidade histórica concreta e, ao mesmo tempo, transcendem qualquer sistema fechado de pensamento. Reduzi-lo a conservador, progressista, revolucionário ou tradicionalista não é apenas impreciso; é hermeneuticamente empobrecedor. A pergunta decisiva não é se ele confirma nossas posições, mas se nossas posições resistem ao crivo do Reino de Deus que ele anunciou e encarnou.

Para tratar da relação entre Jesus ideologia com rigor, é necessário articular três eixos inseparáveis:

  •  o contexto histórico do século I, 
  • a hermenêutica que ele aplicou às Escrituras de Israel e
  • efeitos sociopolíticos concretos de sua prática. 

Sem esse tripé, a reflexão degenera em projeção contemporânea sobre um judeu galileu inserido em conflitos muito específicos de seu tempo.

Historicamente, Jesus vive sob ocupação romana. A Galileia do século I era marcada por tributação pesada, concentração fundiária crescente e empobrecimento camponês. Estudos arqueológicos revelam contrastes entre grandes propriedades e pequenas aldeias rurais. O império extraía impostos por meio de sistemas indiretos, frequentemente exploratórios. Nesse cenário, a memória fundante de Israel não era de acomodação ao poder imperial, mas de libertação. Em Êxodo 3,7-10, Deus se apresenta como aquele que vê a opressão e escuta o clamor dos escravizados. O Deuteronômio insiste na responsabilidade comunitária para com pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros (Dt 15,7-11; 24,17-22). Levítico 25 institui o Jubileu como mecanismo de interrupção da perpetuação da miséria, devolvendo terras e libertando endividados. Isaías 58, Amós 5 e Miquéias 6 denunciam culto desvinculado de justiça. Jesus se move dentro dessa tradição crítica e profética; ele não inaugura um conservadorismo religioso preocupado em preservar estruturas, mas radicaliza a linha libertadora das Escrituras.

Quando afirma em Mateus 5,17 que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, utiliza o verbo grego plēróō, que indica levar à plenitude, realizar plenamente o sentido. Cumprir não é congelar; é revelar o telos, a finalidade última. No Sermão da Montanha (Mt 5–7), a fórmula “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21-48) manifesta autoridade interpretativa. Ele não descarta a Torá; reconduz sua finalidade à humanização radical. A Lei deixa de ser instrumento de controle e retorna a ser caminho de vida. Em Mateus 22,37-40, resume Lei e Profetas no amor a Deus e ao próximo. Em Mateus 23,23, denuncia a inversão que absolutiza minúcias enquanto negligencia justiça, misericórdia e fidelidade. Sua hermenêutica é ética e teleológica: toda norma deve servir à vida que Deus deseja.

Essa chave interpretativa aparece de modo explícito quando confronta tradições que anulavam o mandamento. Em Marcos 7,1-13, distingue Torá de parádosis. O problema não é a tradição em si, mas sua absolutização a ponto de contradizer o próprio mandamento divino. Ao declarar que nada que entra pela boca torna o ser humano impuro (Mc 7,14-23), desloca a pureza do ritual para o coração. Ele atinge o sistema simbólico que sustentava fronteiras identitárias no judaísmo do Segundo Templo. Em Marcos 2,23-28, afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário. Em Lucas 13,10-17, cura no sábado e chama a mulher encurvada de “filha de Abraão”, reintegrando-a à dignidade da promessa. A Lei não pode ser usada contra a vida que pretende proteger.

No episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11), a legislação de Levítico 20,10 previa punição severa. Jesus não relativiza o pecado; a exortação final é clara: “vai e não peques mais”. No entanto, rompe com a lógica punitiva seletiva e expõe a hipocrisia coletiva. Ele desloca o foco da punição para a consciência. Sua hermenêutica é restaurativa, não legalista. O centro não é preservar honra institucional, mas restaurar pessoas.

O encontro com a samaritana (Jo 4) revela outra dimensão dessa prática. Judeus e samaritanos viviam tensões históricas profundas (cf. 2Rs 17). Um rabino não dialogava publicamente com mulher desconhecida. Ainda assim, Jesus atravessa barreiras étnicas, religiosas e de gênero. Oferece “água viva” a quem estava fora do centro religioso e revela sua identidade messiânica na margem. A revelação não se restringe aos guardiões oficiais da tradição.

As sociedades mediterrâneas eram estruturadas por códigos rígidos de pureza e honra. Tocar um leproso (Mc 1,40-45), permitir ser tocado por uma mulher com hemorragia (Mc 5,25-34) ou sentar-se à mesa com publicanos (Mc 2,15-17) eram gestos socialmente disruptivos. Comer junto significava reconhecimento e pertencimento. A mesa de Jesus é espaço de reconstrução social. Ele redefine quem pode participar da comunhão. Conservadorismos identitários, ao contrário, tendem a reforçar fronteiras como mecanismo de autopreservação.

No campo de gênero, a prática de Jesus confronta estruturas patriarcais. Ele legitima Maria aos seus pés como discípula (Lc 10,38-42), inclui mulheres na missão (Lc 8,1-3) e confia a Maria Madalena o anúncio pascal (Jo 20,11-18). Em Marcos 10,2-12, ao tratar do divórcio, impede o uso da Lei como instrumento de descarte feminino. Ele retoma Gênesis 1,27 e 2,24 para afirmar dignidade e reciprocidade. Sua ética não reforça patriarcado; confronta-o à luz do projeto criacional.

No campo econômico, sua palavra é direta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A parábola do rico insensato (Lc 12,15-21) denuncia a ilusão da acumulação; a do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) revela a indiferença estrutural que naturaliza desigualdades. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu implica restituição concreta e reparação econômica. Em Mateus 25,31-46, o critério escatológico é o cuidado com os vulneráveis. O Reino não legitima desigualdade como ordem divina; submete riqueza e poder ao julgamento da misericórdia.

Quanto ao poder político, Jesus recusa dominar reinos (Mt 4,8-10), redefine autoridade como serviço (Mc 10,42-45) e relativiza César (Mc 12,13-17). Em João 18,36, afirma que seu Reino não nasce da lógica imperial. A cruz, sob acusação política de sedição, revela o choque entre o projeto do Reino e alianças entre poder religioso e império. Ele não morre defendendo o status quo; morre porque sua visão de Reino ameaça estruturas consolidadas

Ele redefine família (Mc 3,35), relativiza laços sanguíneos em hipérbole semítica (Lc 14,26) e lembra que a cidadania última não se esgota nas estruturas terrenas (Fp 3,20). Em Lucas 4,18-19, assume Isaías 61 como programa jubilar: boas-novas aos pobres, libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos. Ele encarna o Deus do Êxodo e ecoa o Jubileu. Seu Reino é fermento que transforma por dentro (Mt 13,33), semente que cresce além do controle humano (Mc 4,26-32). A lógica não é de imposição pela força, mas de transformação orgânica.

As prática de Jesus  desestabilizava as  hierarquias fixas.  Desmontando os  mecanismos de bode expiatório, como no cálculo político de João 11,50, onde a morte de um é vista como solução para preservar a ordem. Ele reconstrói identidade não por etnia, tradição ou poder, mas pela adesão ao Reino. O pertencimento deixa de ser herança automática e torna-se resposta ética, lendo tais fatos com a cabeça  da época  podemos afirmar que Jesus  rompia com um tradicionalismo  que escraviza,  rompendo com o moralismo  hipocrita

O problema, portanto, não é conservar valores; é absolutizá-los acima da vida. Não é possuir tradição; é idolatrá-la. Não é defender moralidade; é transformá-la em arma. Jesus coloca misericórdia no centro (Mt 9,13; Os 6,6). Seu conflito não é com pecadores arrependidos, mas com sistemas religiosos endurecidos (Mt 23). A religião que se torna mecanismo de autopreservação institucional perde sua vocação profética. 

Observando os  fenômenos contemporâneos em que fé, identidade e poder político se entrelaçam. No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói apresentou a alegoria “Família em Conserva”, dentro de um enredo que dialogava criticamente com setores identificados como neoconservadores. A reação pública foi intensa. Lideranças políticas, entre ela  a ex-primeira dama ( que foi mãe  solteira,  alguns afirmam foi amante  de homem  casado, está  casada  com   um homem que já foi casado 2 vezes: tais praticas  fogem do padrão defendido de  conservadorismo em outros tempos) 

Querem classificar  o desfile como escárnio à fé cristã e à família tradicional. Parlamentares responderam com imagens geradas por inteligência artificial, ressignificando a metáfora das latas. Independentemente da avaliação estética ou política do episódio, ele revela um dado sociológico importante: para determinados grupos, a noção de família tornou-se símbolo identitário absoluto, associado à defesa de um projeto moral e político específico. Qualquer crítica é percebida como ameaça existencial. A fronteira simbólica entre “nós” e “eles” se endurece. Psicologicamente, isso reforça coesão interna; politicamente, mobiliza bases. No entanto, à luz do Evangelho, a pergunta permanece: a família cristã é ícone intocável ou comunidade de amor que se mede pela prática da justiça?

Podemos  responder Olhando  na avenida da vida e Sapucai  quando uma  Escola de Samba revela, com cores e ritmos, muito mais do que alegria: verdades que incomodam. A “família neoconservadora e  enlatada” que desfilou  críticada por evangélicos  e católicos não diz de qual religião ou grupo social,  mas eles assumiram  como uma crítica a lata deles.  Eles se apegam a questão  ideológicas, com  uma postura ideológica que se agarra ao passado, recusando evolução, abraçando hipocrisia e preconceito e ignorando a  questão de fé

Entre alegorias e fantasias, podemos ver esse comportamento como máscaras: corpos presentes, mas corações e mentes fechados. A escola de samba nos mostra que a tradição e a alegria podem conviver com crítica e reflexão. E assim, como na crítica ao neoconservadorismo, percebemos que muitas vezes o que é exaltado como virtude familiar é, na verdade, um conservadorismo de conveniência,  rígido, artificial e resistente à transformação. O desfile nos lembra que a vida e a sociedade avançam; quem se fecha em “conservas” ideológicas perde o compasso da realidade, enquanto o mundo gira, dança e evolui.

A tradição bíblica aponta para uma expansão progressiva do povo de Deus. Gênesis 12 inaugura promessa a Abraão que culmina em Isaías 56,6-8, onde estrangeiros são incluídos. Jesus, ao afirmar que quem faz a vontade de Deus é sua verdadeira família (Mc 3,35), desloca o eixo da pertença. Ele não destrói a família, mas impede sua absolutização. Quando a família se torna instrumento de exclusão ou capital político, deixa de refletir o Reino.

O episódio carnavalesco evidencia como símbolos religiosos podem ser instrumentalizados em disputas culturais. Conservadorismos contemporâneos frequentemente fundem fé com nacionalismo, transformam Bíblia em arma cultural e tratam adversários como inimigos morais. Hermeneuticamente, privilegiam textos de controle e ignoram o fio condutor da justiça. Jesus, porém, lê toda Escritura à luz do amor a Deus e ao próximo (Mc 12,29-31). Qualquer leitura que produza exclusão sistemática dos vulneráveis contradiz esse eixo.

A história demonstra que a religião pode legitimar dominação ou confrontá-la. No caso de Jesus, vemos confronto. Ele purifica o templo (Jo 2,13-17), denuncia hipocrisias, chama à metanoia. Ele restaura Pedro (Jo 21), inaugura nova criação (2Cor 5,17) e promete consumação escatológica (Ap 21). Seu horizonte é mais amplo que qualquer plataforma ideológica.

Se estivesse no cenário atual, confrontaria o uso da fé para manter privilégios, denunciaria idolatria do mercado que produz pobreza (Mt 6,24), criticaria lideranças que transformam religião em capital político e exigiria coerência daqueles que falam em valores, mas negligenciam justiça, misericórdia e fidelidade (Mt 23,23). Não se alinharia a projetos que absolutizam tradição como se fosse intocável.

A Bíblia inteira aponta para um Deus que toma partido da vida. Deuteronômio 15 convoca ao cuidado com o pobre; Miquéias 6,8 resume a vontade divina em praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente. Jesus sintetiza essa tradição. Reduzi-lo a ícone do conservadorismo moderno é ignorar sua prática histórica e sua hermenêutica profética. Ele não foi ideólogo da preservação de estruturas injustas, mas anunciador de um Reino que subverte lógicas de poder e chama todos à conversão profunda.

Segui Jesus  exige mais que conservar costumes, Ele mecmo rompia com tradições hipocritas. Ele  Exige de todos o  discernimento histórico, a honestidade hermenêutica e a coragem profética. Exige submeter nossas ideologias; quaisquer que sejam  a luz do Evangelho. O Reino que ele anunciou coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de qualquer sistema ideológico, religioso ou cultural. Ele permanece, ontem e hoje, a favor da vida abundante (Jo 10,10).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Um breve olhar sobre Marcos 8,14-21

A perícope de Marcos 8,14-21 é proclamada na terça-feira da 6ª Semana do Tempo Comum no ciclo ferial, inserida no itinerário catequético que a liturgia propõe após as multiplicações dos pães e antes da profissão de fé de Pedro. No dinamismo do Ano B, quando o Evangelho segundo Marcos é lido de modo semicontínuo, esse trecho emerge como ponto de inflexão pedagógica: a comunidade ouve a narrativa da travessia no barco e é convidada a reconhecer que o verdadeiro deslocamento não é geográfico, mas espiritual. A Igreja, reunida em assembleia, é colocada dentro da barca com os discípulos; a Palavra não descreve apenas um episódio passado, mas interpela o presente litúrgico, onde memória e promessa se encontram.

O contexto imediato recorda o confronto com os fariseus que pedem um sinal do céu (Mc 8,11-13). A recusa de Jesus ecoa a advertência de Dt 6,16 contra a tentação de Massa (Ex 17,1-7), onde o povo exigiu provas da presença divina. A tradição sinótica confirma a gravidade desse pedido: Mt 16,1-4 e Lc 11,29-32 insistem que uma geração que busca sinais espetaculares revela dureza de coração. Na hermenêutica marcana, o sinal já foi dado na compaixão concreta, nas mesas abertas, na autoridade que liberta. O pedido de prodígio não nasce de fé amadurecida, mas de uma religiosidade que deseja controlar Deus. A exegese do verbo “suspirar profundamente” (Mc 8,12) revela o peso existencial desse embate: não se trata de impaciência, mas de dor diante da incompreensão.

Ao entrar no barco, os discípulos esquecem o pão; têm consigo apenas um. A cena é densa de simbolismo. O mar, na tradição bíblica, representa o caos primordial (Sl 74,13-14; Jó 38,8-11). Em Mc 4,35-41 e 6,45-52, ele já fora cenário de medo e revelação. A barca, figura antiga da comunidade, atravessa águas instáveis. Historicamente, a Galileia do século I vivia sob domínio romano, com tributação pesada e concentração de terras; o pão não era metáfora romântica, mas questão de sobrevivência. A antropologia do Mediterrâneo antigo reconhece a centralidade da mesa como lugar de identidade e honra. Ter apenas um pão no barco expõe a ansiedade do grupo e revela como a lógica da escassez pode obscurecer a memória das obras de Deus.

Jesus adverte: “Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes” (Mc 8,15). O fermento, pequeno e invisível, transforma toda a massa. Em Lc 12,1 simboliza hipocrisia; em Mt 13,33, a força discreta do Reino. Aqui, o símbolo denuncia ideologias que contaminam. Mc 3,6 já registrara a aliança entre fariseus e herodianos; religião e poder político convergem quando ameaçados pela compaixão que descentraliza privilégios. O banquete de Herodes (Mc 6,17-29) termina em morte profética; as mesas organizadas por Jesus no deserto (Mc 6,30-44; 8,1-10) culminam em partilha e vida. Duas mesas, dois projetos civilizatórios. A sociologia contemporânea reconhece como sistemas autoritários se sustentam por controle simbólico e econômico; o fermento herodiano representa a sedução do poder que instrumentaliza o sagrado, enquanto o fermento farisaico aponta para a sacralização de fronteiras identitárias que excluem.

A incompreensão dos discípulos não é simples falta de informação. “Ainda não compreendeis?” (Mc 8,21) ecoa a tradição profética: Is 42,18-20, Jr 5,21 e Ez 12,2 falam de olhos que não veem e ouvidos que não ouvem. O coração, centro das decisões (Pr 4,23), pode endurecer-se como o do faraó (Ex 7–11). A psicologia social observa que grupos sob ameaça tendem a regressar a narrativas de medo e autopreservação; a ansiedade coletiva obscurece a memória de experiências positivas. Jesus, porém, recorre à pedagogia da recordação: evoca as duas multiplicações, pergunta pelos cestos recolhidos. Em Mt 16,9-10 os números são explicitados: doze e sete. Doze remete às tribos de Israel; sete evoca plenitude universal. A catequese não é abstração, mas memória concreta que fundamenta confiança histórica.

O maná no deserto (Ex 16) ilumina a cena. O povo devia recolher o necessário a cada dia; acumular era inútil. Dt 8 interpreta a fome como pedagogia que conduz à confiança. Em Jo 6,26-27, Jesus distingue o pão que perece do que permanece para a vida eterna. Marcos não espiritualiza a fome; organiza o povo em grupos, distribui o alimento, recolhe sobras. Contudo, denuncia a incapacidade de perceber que o “único pão” no barco é sinal de presença suficiente. A teologia eucarística nascente, refletida em 1Cor 10,16-17 e 11,17-34, insiste que o pão único faz um só corpo e que a celebração contradita pela exclusão social torna-se escândalo. At 2,42-47 e 4,32-35 descrevem comunidade que traduz liturgia em partilha concreta. A fé bíblica recusa o divórcio entre culto e justiça, como já proclamavam Am 5,21-24 e Is 1,11-17.

A advertência contra o fermento possui também densidade filosófica. Trata-se de discernir estruturas invisíveis que moldam percepções. Ideologias não se impõem apenas por coerção, mas por internalização simbólica. A filosofia crítica recorda que sistemas de dominação operam através de narrativas naturalizadas. O Evangelho desvela tais mecanismos e propõe alternativa fundada no serviço: Mc 10,42-45 redefine autoridade; Lc 22,25-27 apresenta o maior como aquele que serve; Fl 2,6-11 descreve o esvaziamento como revelação da glória. A cruz, anunciada logo após (Mc 8,31), confronta expectativas messiânicas triunfalistas. Mt 16,23 mostra Pedro resistindo a essa lógica. A comunidade é chamada a abandonar paradigmas de dominação e abraçar a kenosis que gera comunhão.

Nesse horizonte, tornam-se problemáticas as teologias que identificam bênção com acúmulo. A narrativa do pão único no barco desautoriza a leitura da fé como mecanismo de prosperidade individual. Lc 6,20-26 proclama bem-aventurados os pobres; Tg 2,14-17 e 1Jo 3,17 vinculam fé a obras concretas de justiça. A tentativa de mercantilizar o dom divino é denunciada em At 8,18-23; a purificação do Templo (Mc 11,15-17; Jo 2,13-16) expõe a incompatibilidade entre graça e comércio. A teologia do domínio, que confunde Reino com hegemonia cultural ou política, encontra crítica direta no fermento herodiano. O individualismo religioso, fortalecido por culturas de performance, contradiz a antropologia paulina de 1Cor 12,12-27 e Rm 12,5, onde a identidade é relacional. O pão único não legitima acumulação, mas comunhão.

A dimensão eclesial exige autocrítica. O clericalismo, denunciado pelo magistério contemporâneo, distorce o serviço em privilégio. 1Pd 5,2-3 adverte pastores a não dominarem; a constituição Lumen Gentium recorda o sacerdócio comum dos fiéis; Evangelii Gaudium convoca à conversão pastoral missionária. A assembleia de At 15 oferece paradigma sinodal de discernimento. A barca não pertence a uma elite sagrada; nela todos aprendem a ver. Quando ministérios se fecham em autorreferencialidade, repetem a cegueira que Marcos denuncia.

A cura do cego em duas etapas (Mc 8,22-26), imediatamente após nossa perícope, funciona como comentário narrativo. A visão é gradual; primeiro vê-se “como árvores que andam”, depois com clareza. A psicologia da conversão confirma que mudanças profundas exigem tempo, memória e comunidade. Hb 3,7-15, retomando o Sl 95, adverte contra o endurecimento que esquece as maravilhas divinas. A transfiguração (Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36) revela luz que não legitima triunfalismos, mas fortalece para a cruz. A experiência luminosa é dom para a travessia, não fuga da história.

No cenário contemporâneo, marcado por desigualdades estruturais e crises socioambientais (Rm 8,22), a pergunta de Jesus permanece atual. Mt 25,31-46 identifica o próprio Cristo no faminto e no estrangeiro. Dt 10,18 e Tg 1,27 recordam a defesa do órfão e da viúva. Comunidades que ignoram a fome real esvaziam o sentido do pão partilhado. Nacionalismos excludentes e projetos de poder que instrumentalizam o sagrado repetem o fermento denunciado. A ciência histórica mostra como alianças entre altar e trono produziram exclusões; a memória bíblica resiste a tais pactos. O Reino cresce como fermento humilde (Mt 13,33), não como imposição.

A hermenêutica de Mc 8,14-21 revela, portanto, uma catequese sobre memória, discernimento e confiança. O único pão no barco é Cristo presente, suficiente mesmo quando as urgências históricas parecem esmagadoras. A exegese do texto mostra progressão dramática: advertência, incompreensão, recordação, interrogação final. Não há condenação definitiva, mas convite à maturidade. A pedagogia divina educa pelo caminho, não pelo espetáculo. A liturgia, ao proclamar esse texto na 6ª Semana do Tempo Comum, situa a comunidade em permanente travessia, entre memória das multiplicações e anúncio da cruz.

Assim, a perícope não encerra a narrativa; inaugura etapa mais profunda do discipulado. O Cristo continua a perguntar. A resposta não se reduz à ortodoxia verbal, mas manifesta-se em comunidades que recusam transformar fé em mercadoria, resistem à sedução do poder, superam o individualismo e partilham o pão como sinal concreto do Reino. Entre o caos das águas e a promessa da terra firme, a Igreja é chamada a ver além da escassez aparente, discernir fermentos que corroem e recordar que a presença do Senhor no barco basta para sustentar esperança ativa. A travessia permanece, e o único pão continua a ser sinal de comunhão, critério de justiça e profecia viva no coração da história.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 8,11-13

A perícope de Marcos 8,11-13 situa-se num ponto decisivo da narrativa. Logo após a segunda multiplicação dos pães, quando a fome concreta é saciada pela partilha operada por Jesus, surgem fariseus pedindo um “sinal do céu”. A sequência não é casual. O pão repartido e a exigência de um prodígio formam um contraste que revela o drama espiritual de uma geração incapaz de discernir o agir de Deus na simplicidade do cotidiano. O texto afirma que eles discutem com Jesus e o põem à prova. O verbo empregado recorda a tentação no deserto: provar, testar, exigir demonstração. O conflito não se estabelece entre fé e ausência de sinais, mas entre o modo discreto do Reino e a expectativa de manifestações grandiosas que confirmem esquemas prévios de poder e interpretação religiosa.

Nos relatos do Evangelho segundo Marcos, do Evangelho segundo Mateus, do Evangelho segundo Lucas e do Evangelho segundo João, o pedido de sinais reaparece como um refrão inquietante. Não se trata de ausência de evidências. Cegos veem (cf. Mc 8,22-26), leprosos são purificados (Mc 1,40-45), paralíticos caminham (Mc 2,1-12), multidões são alimentadas (Mc 6,30-44; 8,1-10). Ainda assim, líderes religiosos e parte do povo exigem algo mais. Querem uma prova que se encaixe em suas expectativas messiânicas e legitime suas leituras teológicas e seus projetos políticos. A incredulidade bíblica raramente nasce da falta de fatos; nasce da resistência do coração.

Em Mateus e Lucas aparece a referência ao “sinal de Jonas” (Mt 12,39-41; Lc 11,29-32). Jonas desce às profundezas e retorna, tornando-se sinal de conversão para Nínive. A menção antecipa a Páscoa de Cristo: morte e ressurreição como sinal definitivo. A rainha do Sul, que percorreu longa distância para ouvir a sabedoria de Salomão, é evocada como contraste à indiferença de quem tem diante de si algo maior que Salomão e, ainda assim, permanece fechado. Em João, após o discurso do pão da vida (Jo 6), muitos se retiram porque a palavra exige adesão profunda. A pedagogia divina não anula a liberdade; oferece sinais que apontam além de si, mas não impõe fé.

A tradição bíblica ajuda a iluminar o episódio. Em Ex 17,1-7, o povo testa o Senhor em Massa e Meriba, perguntando se Deus está no meio deles. O Sl 78 recorda a sucessão de prodígios seguidos por murmurações. Jr 5,21 denuncia um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. Ez 36,26 promete a substituição do coração de pedra por um coração de carne. A Escritura insiste: o problema não é escassez de teofanias, mas endurecimento interior. A memória seletiva apaga o que não convém às expectativas imediatas.

A exigência de um sinal do céu dialoga com tradições veterotestamentárias nas quais o céu se abre para autenticar um enviado: o maná que desce (Ex 16), o fogo que consome o sacrifício de Elias (1Rs 18), o recuo da sombra no tempo de Ezequias (2Rs 20). Contudo, a mesma tradição registra que sinais não garantem fidelidade. Pouco depois do Sinai, ergue-se o bezerro de ouro (Ex 32). O povo que atravessou o mar reclama no deserto. A memória bíblica é pedagógica: o prodígio não substitui a conversão, Isaias 7, 7-14 oferece paralelo elucidativo. Acaz recebe a oferta de um sinal em meio à crise política, mas recusa sob pretexto de piedade. Já decidiu confiar em alianças militares. O problema não é falta de intervenção divina, mas cálculo estratégico. Em Marcos, a exigência de sinal também envolve cálculo. Reconhecer Jesus implicaria rever posições, perder controle sobre a interpretação da Lei e abrir mão de privilégios. A fé autêntica comporta risco e deslocamento.

A multiplicação dos pães, que precede o episódio, ecoa 2Rs 4,42-44, quando Eliseu alimenta muitos com poucos pães, e remete ao Êxodo. O gesto de tomar, bendizer, partir e distribuir atravessa todo o evangelho e culmina na última ceia. O verdadeiro “sinal do céu” manifesta-se no pão que circula entre mãos humanas e elimina a fome. Isaías 58,6-7 já associava o culto agradável a Deus à partilha com o faminto. A crítica profética desloca o foco do ritual para a justiça. Am 5,21-24 rejeita solenidades divorciadas da prática do direito. O extraordinário, quando separado da ética, torna-se vazio.

O contexto histórico do primeiro século torna o pedido de sinal ainda mais compreensível. A Palestina vivia sob domínio do Império Romano. A carga tributária, a presença militar e a humilhação política alimentavam o desejo de libertação. Muitos aguardavam um Messias que repetisse os prodígios de Moisés, fizesse descer pão do céu e derrotasse inimigos com poder visível. O templo de Jerusalém, administrado por elites sacerdotais, era centro religioso, econômico e político. Alianças entre religião e poder mantinham privilégios e controlavam a população. Pedir um sinal era, em parte, pedir legitimação pública: prova-nos que és o Messias segundo nossos moldes; confirma nosso projeto de restauração nacional e religiosa. O judaísmo do Segundo Templo conhecia literatura apocalíptica que anunciava sinais cósmicos (cf. Dn 7; Jl 3). Jesus, porém, proclama que o Reino já está próximo (Mc 1,15). O tempo não é de cálculo de fenômenos celestes, mas de discernimento histórico. A cruz será o sinal paradoxal. O centurião romano, representante do império, reconhece o Filho de Deus ao ver o Crucificado (Mc 15,39). Paulo sintetiza essa inversão em 1Cor 1,22-25: alguns pedem sinais, outros buscam sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado, escândalo e loucura que revelam a verdadeira sabedoria divina. O suspiro de Jesus diante da exigência revela uma dimensão afetiva profunda. O texto de Marcos afirma que Ele suspira profundamente em seu espírito (Mc 8,12). O lamento recorda Os 11,8-9, onde Deus expressa dor diante da infidelidade do povo. A antropologia bíblica compreende o coração como centro da decisão. “Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais o coração” (Sl 95,7-8). A resistência pode revestir-se de zelo religioso, mas permanece fechamento à ação transformadora de Deus.

A travessia para a outra margem encerra o episódio com força simbólica. Na tradição bíblica, as águas representam caos e passagem. O mar do Êxodo inaugura um povo; o Jordão marca nova etapa; o batismo de Jesus abre seu ministério. Permanecer exigindo provas é permanecer à margem. A confiança conduz ao outro lado, onde Deus se revela não por espetáculo, mas por fidelidade cotidiana.

A Escritura também adverte contra sinais enganadores. Dt 13 orienta a examinar o conteúdo da mensagem antes de aceitar o prodígio. Mc 13,22 alerta para falsos messias que realizarão grandes sinais para seduzir. 2Ts 2,9-10 fala de manifestações que iludem os que rejeitam a verdade. O extraordinário nunca é critério absoluto; a fidelidade à vontade de Deus é o discernimento decisivo. Essa tensão ecoa no presente. Em contextos marcados por desigualdade, violência e polarização, cresce a busca por garantias sobrenaturais que ofereçam sensação de controle. Do ponto de vista psicológico, experiências intensas podem gerar dependência emocional sem produzir transformação ética. Sociologicamente, onde instituições falham, proliferam propostas religiosas que prometem soluções imediatas. A fé corre o risco de ser reduzida a técnica de prosperidade ou mecanismo de ascensão social. O milagre torna-se produto; o testemunho, propaganda; o culto, espetáculo.

A tradição bíblica confronta tal distorção. Tiago afirma que a prova da fé produz perseverança (Tg 1,3) e que fé sem obras é morta (Tg 2,17). Jesus adverte que nem todo o que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino, mas aquele que pratica a vontade do Pai (Mt 7,21-23). A espiritualidade autêntica une experiência e ética, mística e justiça. Isaías e Amós denunciam jejuns e cânticos que não se traduzem em libertação dos oprimidos. O culto divorciado da vida torna-se caricatura do sagrado.

No mundo contemporâneo, marcado por discursos religiosos que se alinham a projetos de poder e por retóricas que instrumentalizam a fé para legitimar nacionalismos excludentes, o pedido de sinais pode ocultar outra intenção: buscar confirmação divina para agendas humanas. A história mostra como religião e poder podem se aliar para manter privilégios. O evangelho, porém, revela um Messias que rejeita o triunfalismo, recusa transformar pedras em pão para autopromoção e escolhe o caminho da cruz.

Jesus realiza sinais, mas não os transforma em propaganda. Frequentemente ordena silêncio (Mc 1,44; 5,43). Recusa lançar-se do pináculo do templo para impressionar (Mt 4,5-7). Sua autoridade manifesta-se na compaixão: toca leprosos, acolhe crianças, dialoga com marginalizados, denuncia hipocrisia. O poder divino aparece como serviço. A cruz torna-se critério hermenêutico. Ali, Deus se revela na fraqueza. A ressurreição não é espetáculo midiático, mas encontro transformador que gera comunidade reconciliada (At 2,42-47).

Se faz necessário  ter consciência  que o milagre é seta, não destino final. Quando a multidão busca Jesus após a multiplicação dos pães, Ele revela a motivação: procuram-no porque comeram e se fartaram (Jo 6,26). A fé baseada apenas na vantagem material é instável. A mesma multidão que aclama pode rejeitar. A adesão autêntica nasce do reconhecimento de quem Ele é, não apenas do que concede. A busca por sinais expressa o desejo humano de segurança diante da incerteza. Em sociedades feridas por desigualdade estrutural e frustrações coletivas, o milagre promete ruptura instantânea. Contudo, o evangelho aponta para transformação que envolve perseverança, conversão e compromisso com a justiça. O verdadeiro milagre é o coração de pedra que se torna coração de carne; é a comunidade que reparte bens; é a reconciliação que supera ódio; é a coragem profética que denuncia injustiças mesmo sem aplausos.

A geração que pediu sinais não percebeu que o maior sinal estava diante dela. O Reino manifestava-se na mesa partilhada, na dignidade restaurada, na inclusão dos excluídos. O pedido de espetáculo revelava incapacidade de reconhecer a presença de Deus na simplicidade. A geração atual enfrenta risco semelhante quando confunde intensidade emocional com autenticidade espiritual e sucesso visível com bênção divina.

O texto de Marcos termina com Jesus recusando conceder o sinal exigido e atravessando para outra margem. O gesto é pedagógico. Deus não se submete à manipulação. A fé não nasce de imposição, mas de encontro. O sinal definitivo já foi dado: o Crucificado ressuscitou. A questão não é se haverá prodígios suficientes para satisfazer curiosidades, mas se haverá corações dispostos a seguir o caminho do amor que transforma estruturas, confronta injustiças e constrói uma espiritualidade fiel, livre do espetáculo e enraizada na presença constante de Deus na história. Assim, a perícope de Marcos 8,11-13 permanece atual e provocativa. Ela denuncia a tentação permanente de reduzir Deus a garantidor de expectativas humanas e convida a discernir o agir divino na partilha, na justiça e na cruz. Entre o pão repartido e o pedido de um sinal do céu, o evangelho traça uma escolha. Permanecer na lógica do espetáculo ou atravessar para a outra margem da confiança. O Reino não se impõe com fogos no firmamento; cresce como semente na terra. E é nessa fidelidade silenciosa que o verdadeiro sinal se revela.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Tudo Proibido? A Bíblia Fala Muito Mais do Que Você Imagina!

Você sabia que algumas regras da Bíblia viraram “microfone seletivo”?
Enquanto se grita sobre Carnaval, sexualidade ou roupas, a injustiça econômica, a opressão e a omissão diante do sofrimento permanecem quase invisíveis. Quem julga, quem explora e quem silencia,  ninguém escuta, mas a Escritura denuncia tudo.

A Bíblia nos apresenta  um horizonte ético muito mais amplo do que a seleção temática que costumam  ganhar microfone nas Igreja e retiros de Carnaval. A Torá, especialmente em Levítico e Deuteronômio, organizou a vida de Israel como povo distinto conforme Levítico 20,24-26. Eram normas inseridas num mundo em que religião, economia, agricultura e identidade formavam um só tecido social. A tradição cristã reconheceu que essas prescrições possuíam dimensão pedagógica e simbólica, relidas à luz de Cristo. O problema não é a existência de textos difíceis. O problema é a régua seletiva. Alguns versículos recebem megafone; outros recebem esquecimento devocional em tempo de Carnaval  as proibições aparecem  com farol que até  cega o pobre em vez se iluminar 

  1. Oprimir o pobre e explorar o trabalhador:  Tiago 5,4 afirma que o salário retido clama. Amós 5,11-12 denuncia quem constrói casas luxuosas à custa do pobre. Provérbios 14,31 diz que oprimir o necessitado é insultar o Criador. Na prática contemporânea, o atraso salarial vira “reajuste de fluxo de caixa”. A terceirização abusiva vira “otimização”. A precarização vira “flexibilização”. Não há congresso contra exploração estrutural. Mas há seminário inteiro contra fantasia de Carnaval. O clamor do salário não tem assessoria de marketing.
  2. Fazer acepção de pessoas:  Tiago 2,1-9 descreve o rico recebendo o melhor lugar. Levítico 19,15 exige julgamento imparcial. Lucas 14,7-11 apresenta a lógica invertida do Reino.Hoje, o empresário ganha honra pública, foto oficial e cadeira reservada. O pobre ganha intercessão genérica. O tapete vermelho espiritual continua funcionando. Chamamos isso de “boa administração”. A Escritura chama de parcialidad
  3. Acumular riqueza:  ignorando o necessitad Lucas 12,15-21 mostra o rico que amplia celeiros enquanto ignora a própria alma. 1 João 3,17 pergunta como o amor de Deus permanece em quem fecha o coração.Na realidade atual, ostentação vira testemunho de fé. Luxo vira prova de favor divino. A desigualdade gritante vira “inveja dos ímpios”. O Novo Testamento fala de idolatria do dinheiro. O discurso moderno chama de mentalidade vencedora.
  4. Julgar com hipocrisia: Mateus 7,1-5 fala da trave. Romanos 2,1 lembra que quem julga pratica o mesmo. As redes sociais transformaram indignação em ministério digital. O teclado substituiu o confessionário. A trave é invisível. A lupa moral é telescópica.
  5. Usar palavras para ferir: Tiago 3,5-10 chama a língua de fogo. Efésios 4,29 proíbe palavra destrutiva. Hoje, agressão verbal é chamada de coragem profética. Humilhação pública é chamada de defesa da verdade. A mansidão virou fraqueza. O sarcasmo virou unção.
  6. Negligenciar o bem que se pode:  fazer Tiago 4,17 declara que omissão é pecado. Mateus 25,41-45 coloca fome e abandono como critério final. Na vida concreta, é mais simples condenar comportamento alheio do que organizar mutirão para garantir dignidade básica. Distribuir julgamento custa pouco. Distribuir pão custa compromisso.
  7. Confiar em religião externa:  Isaías 1,11-17 e Amós 5,21-24 mostram Deus rejeitando culto sem justiça. Ainda assim, eventos grandiosos coexistem com silêncio diante da desigualdade. O som está impecável. A consciência nem tanto. Deus pediu justiça correndo como rio. Entregaram iluminação cênica.
  8. Amar o sistema injusto:  1 João 2,15-17 e Romanos 12,2 falam de não se conformar. Entretanto, quando fé se alia a projetos que concentram poder e excluem vulneráveis, chama-se isso de estratégia. Se o sistema favorece o próprio grupo, já não é “mundo”, é providência.
  9. Comer animais proibidos:  Levítico 11 e Deuteronômio 14 proíbem porco, camelo, lebre, texugo, camarão, polvo, lula e qualquer criatura marinha sem escamas e barbatanas. A feijoada de sábado não provoca assembleia disciplinar. O rodízio de frutos do mar não exige arrependimento público. Ninguém posta alerta espiritual contra bacon. A pureza alimentar descansou em paz.
  10. Tecidos mistos:  Levítico 19,19 proíbe lã e linho juntos. Quase todo guarda-roupa moderno mistura fibras sintéticas. Não há conferência contra algodão com poliéster. A santidade do tecido não rende curtidas.
  11. Sementes diferentes no mesmo campo:  Levítico 19,19 também proíbe misturar sementes. A agricultura moderna vive de híbridos e enxertos. Não há denúncia contra consórcio agrícola. A palavra “mistura” só vira problema em debates seletivos.
  12. Arar com boi e jumento:  Deuteronômio 22,10 proíbe jugo desigual literal. Nenhuma comunidade debate se o trator moderno respeita a metáfora agrícola. Mas a imagem sobrevive quando convém aplicar a outras realidades. A literalidade some. A conveniência permanece.
  13. Cortar cabelo e barba: Levítico 19,27 e 21,5 proíbem certos cortes ligados a ritos pagãos. Não existe ministério de fiscalização capilar. Nenhum barbeiro foi acusado de rebelião espiritual por um degradê bem feito. A santidade estética foi discretamente aposentada.
  14. Construir casa sem parapeito: .Deuteronômio 22,8 exige proteção contra quedas. Em linguagem atual, fala de segurança estrutural, normas trabalhistas e responsabilidade coletiva. Porém, raramente se vê indignação religiosa contra quem economiza em proteção, ignora equipamentos de segurança ou precariza condições de trabalho. O parapeito bíblico continua aguardando defensores.

A Igreja primitiva já discerniu, em Atos 15, que prescrições cerimoniais não eram vinculantes para os gentios. Gálatas 3,23-25 e Colossenses 2,16-17 mostram que a Lei funciona como pedagogo, sombra de realidades futuras. Mateus 5,17-37, proclamado no 6º Domingo do Tempo Comum, revela que Cristo veio cumprir a Lei, mostrando que seu verdadeiro cumprimento não se limita à letra, mas transforma o coração, a mente e a ação. A hermenêutica cristã exige leitura integral, sensível à plenitude da revelação e à lógica cristológica, e não seleções convenientes que reforcem preconceitos.

Quando Levítico 18 ou 20 são isolados para sustentar condenações específicas, especialmente sobre sexualidade, ignorando a totalidade das Escrituras, não se trata de fidelidade textual, mas de hierarquização conveniente ou seja a instrumentalização da Palavra.  Critica-se afeto alheio com megafones, mas normaliza-se exploração econômica, abuso de poder e violência simbólica. Combate-se idolatria de imagem, mas tolera-se idolatria de poder e centralização clerical. A Bíblia é clara: pecado inclui não apenas adultério, mentira ou desejo desordenado, mas também opressão do pobre (Êxodo 22,21-24), exploração do estrangeiro (Levítico 19,33-34), injustiça social (Isaías 1,17) e silêncio cúmplice diante do sofrimento alheio (Amós 5,24).

O Sermão da Montanha na liturgia  do 6⁰ domingo do tempo  comum  deixa claro que cumprir a Lei não é apenas não matar, não adulterar ou não jurar falsamente, mas viver em coerência: reconciliação antes da oferenda, honestidade além da aparência, fidelidade que vai além do contrato social (Mateus 5,21-37). Os desvios internos das igrejas são denunciados pelas Escrituras. 

  • Clericalismo e centralização de poder transformam líderes em juízes de moral alheia enquanto ignoram estruturas de opressão. A Bíblia alerta: “Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Porque fecham aos outros o Reino dos Céus; vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que querem” (Mateus 23,13) e “Não ponham sobre vocês fardos pesados que ninguém pode suportar” (Lucas 11,46).
  • Moralismo seletivo amplifica os pecados privados e minimiza injustiças sistêmicas. Deus denuncia o culto vazio que ignora a opressão: “Pois que adianta o incenso perante mim?  diz o Senhor. O vosso sacrifício é detestável; o dia de jejum que escolhem, oprimir o trabalhador e explorar o pobre?” (Isaías 58,3-5) e “Ai dos que se levantam de manhã cedo para seguir a bebida forte e se ocupam com vinho até a noite, mas negam justiça aos pobres” (Amós 6,6-7).
  • Omissão e conivência tornam a fé confortável e domesticada, preferindo estabilidade institucional à profecia. Os profetas denunciam a indiferença: “Vocês cobrem de lençóis os olhos dos profetas e das suas visões, e os chefes da nação fecham seus ouvidos aos clamores do oprimido” (Amós 2,7-8) e “Ai de vocês que chamam ‘paz’ àquilo que não é paz” (Jeremias 6,14). Hipocrisia ritual se manifesta quando se cumpre a liturgia e se alimenta a aparência de santidade, mas se deixa de lado a defesa dos pobres, marginalizados e vulneráveis. Deus ordena: “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, acabem com a opressão; defendam o direito do órfão, pleiteiem a causa da viúva” (Isaías 1,17) e “Maldito o que fecha o seu ouvido ao clamor do pobre” (Provérbios 21,13).

Se a indignação moral seguisse o peso das Escrituras, os megafones não seriam usados para policiar afetos, mas para denunciar desigualdade estrutural, corrupção endêmica, violência simbólica e abuso de poder. Condenar indivíduos é rápido e ruidoso; confrontar estruturas exige conversão,  uma conversão desconfortável, radical, que desafia privilégios, rotinas e o silêncio cúmplice.

A tradição profética insiste: “pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com Deus” (Miquéias 6,8). Até que a Igreja recupere essa perspectiva integral, continuará cúmplice de uma fé domesticada, onde a lei do coração é silenciada, o clamor do oprimido ignorado e os desvios internos, o clericalismo, o moralismo seletivo, a omissão e  a hipocrisia ritual permanecem escondidos sob discursos de santidade. Mateus 5 nos lembra que o chamado é para uma justiça que começa no íntimo, mas se desdobra em atos concretos de transformação social, confrontando tanto indivíduos quanto estruturas, inclusive dentro da própria comunidade eclesial.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano