sábado, 10 de outubro de 2026

Um novo olhar sobre Mateus 22,1-14 / 28⁰ domingo do Tempo Comum.

O evangelho de Mateus 22,1-14 é proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A e, na forma integral, na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  do ciclo ferial  da Igreja Católica Romano; em algumas celebrações, pode-se usar a forma breve Mateus 22,1-10.  E  28⁰ domingo do Tempo Comum  onde temos a seguinte liturgia:  Isaías 25,6-10a, Salmo 22(23), Filipenses 4,12-14.19-20 e Mateus 22,1-14.  A liturgia apresenta uma unidade teológica profunda: A Palavra não nos convida a contemplar uma festa distante da realidade, mas a discernir como Deus confronta nossas prioridades, nossas estruturas sociais e nossas formas de viver a religião. O banquete prometido torna-se critério para avaliar a sociedade e a própria Igreja: onde a vida é desprezada, o pão negado e a dignidade negociada, a lógica do Reino permanece contraditada.

  • Isaías 25,6-10a;  anuncia um banquete preparado por Deus para todos os povos; o profeta contempla o Senhor preparando, no monte, uma refeição abundante para todos os povos. O horizonte é universal, pois a promessa ultrapassa as fronteiras de Israel e anuncia a derrota da morte, a remoção do véu que cobre as nações e o enxugamento das lágrimas. No contexto das ameaças, das fragilidades coletivas e da esperança de restauração, a imagem do banquete expressa comunhão, abundância e vida reconciliada. Deus não se limita a oferecer consolo interior aos que sofrem; promete enfrentar aquilo que destrói a existência humana. O texto encontra sua ressonância no Apocalipse 21,4, onde não haverá mais morte, luto, grito ou dor. Entretanto, a esperança escatológica não deve servir de desculpa para a indiferença presente. Se Deus promete enxugar lágrimas, os que se reconhecem como seu povo não podem produzir sofrimento por meio da exploração, da discriminação ou do abandono. A promessa futura denuncia o presente quando este transforma a miséria em destino inevitável.
  • O Salmo 22(23), proclama a confiança no Pastor que sustenta a vida mesmo diante dos adversários por  e  apresenta o Senhor como pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel pelo vale escuro. A imagem não descreve uma existência protegida de toda ameaça, mas uma confiança que resiste mesmo quando o caminho atravessa a insegurança. O gesto de preparar uma mesa diante dos adversários revela que a comunhão com Deus não depende do desaparecimento imediato dos conflitos. A unção com óleo e o cálice transbordante evocam hospitalidade, honra e abundância. Essa imagem ganha profundidade quando relacionada a Ezequiel 34,1-16, passagem na qual Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, abandonam as ovelhas frágeis e negligenciam as feridas do rebanho. A metáfora possui consequências éticas: toda autoridade que deveria proteger a vida e, em vez disso, utiliza pessoas para preservar seus próprios privilégios contradiz a imagem do Pastor. Na sociedade contemporânea, essa denúncia alcança tanto dirigentes políticos quanto lideranças religiosas que prometem cuidado, mas se afastam daqueles que mais necessitam de proteção.
  •  Filipenses 4,12-14.19-20, Paulo testemunha uma fé capaz de atravessar a abundância e a necessidade, reconhecendo a solidariedade recebida e  recorda que aprendeu a viver na abundância e na necessidade, na fartura e na privação. Sua confiança em Deus não significa desprezo pelas condições materiais nem defesa de uma espiritualidade indiferente à pobreza. O apóstolo agradece a solidariedade dos filipenses, que participaram concretamente de suas dificuldades. O contexto da carta mostra uma comunidade cuja contribuição material representa comunhão efetiva na missão. A providência divina, portanto, não deve ser transformada em justificativa para a omissão humana. Deus sustenta a vida também por meio de comunidades que partilham recursos, assumem responsabilidades e não abandonam seus membros.
Essas leituras prepara a compreensão de Mateus 22,1-14: a festa do Reino é iniciativa divina, mas sua realidade histórica depende de respostas que expressem acolhimento, generosidade e transformação. Isaías anuncia a mesa universal, o salmo apresenta o Pastor que sustenta, Paulo testemunha a solidariedade e Jesus questiona aqueles que recebem o convite sem compreender sua exigência. Para interpretar a parábola, é necessário considerar o contexto narrativo que a antecede. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém, confronta práticas realizadas no templo, questiona as autoridades e conta as parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas (Mt 21,28-46). Essas narrativas examinam a distância entre declarar obediência a Deus e praticar sua vontade. A parábola das bodas continua esse conflito, denunciando a resistência daqueles que, embora ocupem posições de proximidade religiosa, rejeitam o chamado que ameaça seus interesses. Essa crítica pertence ao ambiente judaico do qual Jesus participa. Ele é judeu, interpreta as Escrituras de Israel e dialoga com suas tradições proféticas. Por isso, seria histórica e teologicamente irresponsável utilizar a passagem para condenar coletivamente o povo judeu. O antijudaísmo desenvolvido ao longo da história cristã demonstra como uma interpretação descontextualizada pode converter uma crítica dirigida a agentes e estruturas concretas em instrumento de perseguição. A Palavra precisa julgar também os cristãos, especialmente quando suas instituições confundem eleição com superioridade e autoridade com privilégio.

No mundo do primeiro século, as bodas constituíam acontecimentos familiares e comunitários importantes, envolvendo hospitalidade, honra pública, relações sociais e celebração coletiva. A figura do rei intensifica a gravidade da narrativa: desprezar seu convite ultrapassa o simples esquecimento de um compromisso e assume o significado de rejeitar uma relação. Os primeiros convidados, porém, não demonstram interesse. Um segue para o campo, outro para seus negócios, enquanto outros agarram, maltratam e matam os mensageiros. A sequência apresenta diferentes graus de resistência, desde a indiferença até a violência. A propriedade e as ocupações cotidianas não são condenadas em si mesmas; o problema aparece quando os interesses particulares se tornam absolutos e anulam qualquer responsabilidade diante da comunidade. A recusa recorda a tradição dos profetas perseguidos, como em Jeremias 7,25-26 e 2 Crônicas 36,15-16. A história bíblica revela repetidamente que a religião pode conservar suas estruturas enquanto rejeita a voz que exige justiça. O perigo não está apenas em abandonar formalmente a fé, mas em utilizá-la para evitar suas consequências. Quando os primeiros convidados recusam o chamado, o rei envia os servos às encruzilhadas e ordena que convidem todos os que encontrarem, bons e maus. A sala se enche, e a festa adquire um alcance inesperado. A imagem expressa a gratuidade da graça: o acesso ao Reino não depende de genealogia, reputação, riqueza ou credenciais religiosas. Jesus já havia comido com publicanos e pecadores, provocando questionamentos sobre sua prática de acolhimento (Mt 9,10-13). Em Lucas 15,1-2, a proximidade de Jesus com pessoas socialmente desprezadas também provoca murmurações. A mesa torna-se lugar de contestação das fronteiras que determinam quem merece pertencer. Entretanto, acolhimento não significa declarar irrelevantes a justiça e a conversão. A graça alcança a pessoa antes de qualquer pretensão de merecimento, mas abre um caminho de transformação. Uma comunidade não pode proclamar que todos são convidados enquanto humilha os pobres, silencia vítimas, discrimina minorias ou trata os diferentes como ameaças à própria segurança.

A cidade incendiada em Mateus 22,7 pode ser compreendida como uma possível ressonância da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, acontecimento decisivo para a memória judaica e para o ambiente histórico em que o Evangelho de Mateus tomou forma. Essa interpretação é plausível, mas não autoriza estabelecer correspondências automáticas entre cada elemento da parábola e acontecimentos específicos. Tampouco permite converter a narrativa em legitimação religiosa da guerra. A linguagem do juízo expressa a seriedade da rejeição e a convicção de que a violência possui consequências históricas e morais. Entretanto, precisa ser lida em diálogo com o conjunto do Evangelho. Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (Mt 5,44), repreende a lógica da vingança e adverte contra a violência como caminho de fidelidade. O juízo de Deus não concede aos discípulos autorização para perseguir pessoas em nome de uma suposta pureza religiosa. Sua função profética é desmascarar o mal, defender as vítimas e afirmar que nenhuma estrutura humana permanece acima da responsabilidade ética.

A chegada do homem sem veste nupcial introduz uma tensão decisiva. Ele foi encontrado nas ruas, recebeu o convite e entrou na sala, mas sua presença não corresponde ao significado da celebração. O texto não explica como a veste deveria ser adquirida; portanto, não é adequado apresentar como certeza uma reconstrução histórica que a narrativa não fornece. Na tradição cristã, a roupa pode simbolizar conversão, fidelidade, justiça e vida renovada pela graça. Paulo fala de revestir-se de Cristo (Gl 3,27) e do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade (Ef 4,24). Isaías 61,10 relaciona as vestes à salvação e à justiça. O símbolo não deve ser utilizado para exigir que os pobres comprovem merecimento antes de serem acolhidos. A veste não é um uniforme de superioridade, mas a expressão de uma existência transformada. Entrar na festa sem assumir sua lógica significa desejar os benefícios da comunhão sem aceitar as responsabilidades que ela produz.

A advertência encontra paralelo em:

  •  Mateus 7,21, quando Jesus afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas é necessário fazer a vontade do Pai. 
  •  Mateus 12,33, a árvore é reconhecida por seus frutos.
A fé cristã não se reduz à identificação institucional, à frequência sacramental ou à exibição pública de símbolos religiosos. Esses elementos possuem significado quando alimentam uma prática coerente com o Evangelho. Se alguém comunga e continua explorando trabalhadores, se proclama a defesa da família enquanto pratica a violência doméstica, se fala em valores cristãos enquanto dissemina mentiras e desprezo, existe uma contradição entre a profissão religiosa e a vida concreta. Isso não significa que a conversão seja instantânea ou que a comunidade deva exigir perfeição absoluta. Significa reconhecer que a graça inaugura um processo real, no qual a pessoa aprende a abandonar práticas desumanizadoras e a construir relações orientadas pela misericórdia, pela verdade e pela justiça. O paralelo com Lucas 14,15-24 ilumina diferenças importantes entre as tradições evangélicas. Lucas apresenta um homem que oferece uma grande ceia e encontra desculpas relacionadas a propriedades, trabalho e casamento. O anfitrião ordena que sejam chamados pobres, aleijados, cegos e coxos; depois, o convite alcança pessoas encontradas pelos caminhos e cercas. Mateus, por sua vez, situa a festa no conflito de Jesus com as autoridades de Jerusalém, identifica o anfitrião como rei, apresenta as bodas do filho, descreve a violência contra os mensageiros e acrescenta o convidado sem veste nupcial. As duas versões compartilham a rejeição do convite e a ampliação do acolhimento, mas desenvolvem ênfases teológicas próprias. Marcos 12,1-12, embora não narre um casamento, apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que também rejeitam os enviados e culmina na rejeição do filho. Esses paralelos mostram que a tradição de Jesus denuncia a resistência à vontade divina e questiona a pretensão de transformar a proximidade religiosa em garantia de fidelidade.

A frase “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14) deve ser interpretada à luz de toda a narrativa, não como uma fórmula destinada a alimentar medo ou especulação sobre o número dos salvos. O convite é amplo, mas não elimina a liberdade nem torna indiferente a resposta humana. João Batista exige frutos dignos de conversão (Mt 3,8), e Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos que produz (Mt 7,16-20). A eleição bíblica representa responsabilidade, não privilégio. Ser chamado significa participar de uma missão que deve produzir sinais concretos do Reino. A comunidade cristã é convocada a testemunhar misericórdia, reconciliação, verdade e justiça. Não pode reivindicar para si a aprovação divina enquanto ignora os sofrimentos que poderia aliviar. A advertência da parábola não apresenta Deus como alguém que procura arbitrariamente motivos para excluir, mas revela a incompatibilidade entre a comunhão oferecida e uma existência que persiste em rejeitar suas exigências. A  mensagem confronta as desigualdades da sociedade contemporânea. Quando a alimentação, a moradia, a saúde, a educação e a segurança permanecem inacessíveis para parcelas da população, a dignidade humana é subordinada a condições econômicas e sociais que nem todos conseguem superar individualmente. A imagem do banquete questiona uma organização social na qual o desperdício convive com a fome e a riqueza se concentra enquanto milhões enfrentam insegurança material. A parábola não oferece, isoladamente, um programa econômico detalhado, mas estabelece um horizonte ético: nenhuma estrutura pode ser considerada justa quando trata o sofrimento evitável como consequência aceitável do funcionamento normal da sociedade. A responsabilidade cristã exige caridade organizada, defesa dos direitos, políticas públicas responsáveis e participação cidadã. Dar alimento a quem tem fome é indispensável, mas também é necessário perguntar por que a fome persiste, quem suporta seus efeitos e quais decisões poderiam transformar suas causas. A compaixão não substitui a justiça; deve impulsioná-la.

A mesma exigência alcança a política e o exercício da autoridade. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, não fortalecem as ovelhas debilitadas e não procuram as perdidas. A crítica ultrapassa o campo religioso e ilumina qualquer poder que transforma a função pública em instrumento de enriquecimento, perseguição ou autopreservação. Autoridade legítima não se mede pela capacidade de intimidar adversários, mas pela responsabilidade com a vida coletiva, pela transparência e pela proteção dos vulneráveis. A fé cristã não deve ser sequestrada por partidos, governantes ou projetos ideológicos que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade. Quando a linguagem religiosa é usada para desumanizar opositores, justificar violência ou silenciar denúncias de injustiça, o nome de Deus passa a funcionar como instrumento de poder. A consciência cristã precisa examinar propostas, decisões e consequências concretas à luz da dignidade humana, sem transformar o Evangelho em propaganda eleitoral nem confundir fidelidade religiosa com obediência cega a lideranças políticas. A manipulação religiosa também aparece quando dirigentes apresentam interesses particulares como vontade incontestável de Deus, retiram versículos de seu contexto ou exigem dos fiéis uma submissão que eles próprios não praticam. Jesus denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem disposição para carregá-los (Mt 23,4) e critica a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade em favor de uma religiosidade exterior (Mt 23,23). A teologia da prosperidade distorce a imagem do banquete quando transforma a graça em transação e faz da contribuição financeira uma suposta garantia de bênçãos. O individualismo religioso reduz a salvação ao conforto privado e esquece que a mesa é lugar de comunhão. A Eucaristia, memorial da entrega de Cristo, perde sua força testemunhal quando a celebração não se traduz em compromisso com os corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão, a  liturgia não é uma fuga da história, mas uma escola de responsabilidade diante dela.  Uma comunidade eclesial fiel precisa garantir participação, transparência, cuidado com as vítimas, formação crítica e acolhimento efetivo. Precisa examinar as relações de poder que silenciam pessoas, os mecanismos que protegem abusadores e as formas de clericalismo que tratam os leigos como espectadores sem voz. A autoridade pastoral deve servir à comunhão, não estabelecer uma casta acima do povo de Deus. Como recorda 1 Coríntios 13,1-3, até os dons mais extraordinários perdem seu sentido quando falta o amor.

 E preciso  ter a consciência que a  conversão, contudo, não começa apenas  instituições; alcança também os desejos, os medos e as escolhas cotidianas. O apego ao status pode levar uma pessoa a defender uma ordem injusta porque dela recebe segurança, reconhecimento ou vantagem. O medo da mudança pode tornar mais confortável a permanência em estruturas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. Reconhecer esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que a transformação exige consciência, coragem e apoio comunitário. Cada pessoa precisa perguntar quais interesses se tornaram desculpas para ignorar o sofrimento alheio, quais preconceitos orientam seus julgamentos e quais privilégios prefere proteger. A conversão cristã não consiste em cultivar culpa sem saída, mas em permitir que a verdade desmonte as justificativas que impedem uma vida mais justa. O perdão não apaga a responsabilidade; abre a possibilidade de reparar danos, reconstruir relações e interromper a repetição da violência. Essa transformação exige atenção especial aos grupos frequentemente empurrados para as margens. Migrantes não podem ser reduzidos a ameaças, pessoas negras não devem continuar submetidas à discriminação, mulheres não podem ter sua voz silenciada, povos originários precisam ter seus territórios e direitos respeitados, e pessoas LGBTQIA+ não devem ser transformadas em alvos de humilhação. Uma comunidade cristã não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a humanidade e a dignidade de cada pessoa. Precisa, antes, examinar se suas palavras e práticas correspondem ao mandamento de amar o próximo e à afirmação de que todo ser humano merece respeito. O convite às encruzilhadas não é uma estratégia para aumentar números ou conquistar influência institucional. É uma convocação a encontrar pessoas reais, escutar suas histórias e construir relações nas quais ninguém seja tratado como descartável. A acolhida evangélica não é tolerância condescendente, mas reconhecimento da dignidade e da participação de todos na vida comum.

A parábola, finalmente, reúne a gratuidade do convite e a seriedade da resposta para nossa  conclusão. 

  • Isaías anuncia a vitória de Deus sobre a morte e o fim das lágrimas; o salmista testemunha a presença do Pastor nos vales escuros.
  • Paulo reconhece a solidariedade que sustenta a missão
  • Jesus proclama uma festa aberta e questiona a possibilidade de participar dela sem se deixar transformar. 
 A liturgia da Palavra  desse  dia não descrevem dimensões isoladas da fé, mas uma única dinâmica de esperança, comunhão e responsabilidade. A providência não legitima a passividade, a eleição não concede superioridade e a graça não transforma a injustiça em algo irrelevante. O Reino começa a ser reconhecido quando o pão é partilhado, a verdade vence a manipulação, a autoridade protege em vez de explorar e a comunidade abandona a indiferença diante dos que sofrem.  O convite está feito, mas não basta admirar a festa de longe, repetir suas palavras ou ocupar um lugar à mesa. É necessário permitir que a graça transforme a maneira como trabalhamos, consumimos, votamos, celebramos, educamos, acolhemos e exercemos nossas responsabilidades. A veste nupcial representa essa coerência possível entre a fé professada e a vida praticada, entre a comunhão celebrada e a justiça construída. A Igreja será sinal do banquete prometido quando deixar de proteger privilégios, enfrentar suas próprias contradições e caminhar com os que foram feridos pela exclusão. O mundo reconhecerá a força do Evangelho não pela ostentação dos templos nem pela proximidade entre púlpitos e palácios, mas pelos frutos de uma comunidade que serve, partilha, denuncia o mal e promove a reconciliação. Deus prepara a mesa e chama os povos; cabe a nós responder com uma vida que não contradiga a festa. A esperança cristã não nos autoriza a esperar passivamente por outro mundo, mas nos compromete a trabalhar, desde agora, para que a dignidade, a justiça e a misericórdia tenham lugar concreto na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 3 de outubro de 2026

Um olhar sobre Mateus 21,33-43.

 
No 27º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana nos coloca diante de quatro textos que formam uma única grande meditação: Isaías 5,1-7, o Salmo 79(80), Filipenses 4,6-9 e Mateus 21,33-43.

  •  Isaías 5,1-7:  apresenta Deus como aquele que planta uma vinha, cuida dela com dedicação e espera justiça, mas encontra violência
  • O salmo 79(80) transforma a imagem da vinha em oração, pedindo que Deus visite e restaure sua plantação
  •  Paulo, em Filipenses 4,6-9, convida a comunidade a cultivar aquilo que é verdadeiro, justo, puro, amável e digno de louvor, colocando em prática aquilo que recebeu.
Jesus em Mateus 21,33-43 retoma a mesma imagem para denunciar administradores que esqueceram que a vinha não lhes pertencia. A mesma parábola, acrescida dos versículos 45-46, é proclamada na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, quando adquire especial força penitencial e chama à conversão diante da resistência humana à Palavra. A liturgia, portanto, nos coloca diante de uma pergunta que ultrapassa épocas, instituições e confissões: Que frutos Deus encontra na vinha que colocou em nossas mãos?

Para compreender a força dessa pergunta, é necessário entrar no contexto narrativo de Mateus. Jesus está em Jerusalém, aproximando-se decisivamente da paixão. Sua entrada na cidade acontece montado num jumento, evocando Zacarias 9,9 e apresentando um Messias diferente dos modelos de poder dominador. Ele não chega com cavalaria, armas ou aparato imperial. Chega com a humildade de quem revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica dos impérios. Em seguida, entra no templo e expulsa vendedores e cambistas, retomando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. O gesto é profundamente profético porque denuncia a transformação de um espaço destinado à oração em lugar contaminado por interesses econômicos e religiosos. Jesus cura cegos e coxos, acolhe o louvor das crianças e, depois, enfrenta os sumos sacerdotes e os anciãos, que perguntam de onde vem sua autoridade, conforme Mateus 21,23. É dentro desse conflito que aparecem três parábolas decisivas. 

Existe uma progressão evidente: Jesus está desmascarando uma religião que pode possuir linguagem correta, estruturas sólidas e aparência de fidelidade, mas que se torna incapaz de reconhecer a visita de Deus quando ela exige justiça, misericórdia e conversão. O  pré-texto fundamental dessa parábola está em Isaías 5,1-7. O profeta apresenta um cântico de amor à vinha. Deus escolhe uma encosta fértil, remove as pedras, planta videiras selecionadas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo está preparado para a produção de bons frutos. Porém, quando chega a colheita, aparecem uvas ruins. A própria vinha se torna objeto de julgamento. Isaías explica a metáfora: a vinha do Senhor é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação querida. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu gritos. A imagem é poderosa porque revela que Deus não olha apenas para o culto, para a identidade religiosa ou para a aparência da comunidade. Ele olha para os frutos sociais da aliança. A pergunta não é somente se Israel pertence a Deus, mas o que essa pertença produz na história. Jesus retoma quase todos os elementos de Isaías em Mateus 21,33: o proprietário, a vinha, a cerca, o lagar e a torre. Entretanto, introduz uma mudança decisiva. O problema já não aparece apenas como esterilidade da vinha. Agora existem arrendatários encarregados de administrar aquilo que pertence ao proprietário. A crítica desloca-se para a responsabilidade daqueles que receberam uma missão e passaram a comportar-se como donos. Essa diferença é fundamental. A parábola não é apenas sobre uma plantação que não produz; é sobre o perigo de transformar responsabilidade em posse.

Se faz necessário  lembrar  que a Judeia do primeiro século estava submetida ao poder romano e marcada por tributação, desigualdade econômica, concentração de terras e relações sociais profundamente assimétricas. Uma vinha não era uma imagem abstrata, representava terra, trabalho, produção, riqueza, tributo, alimento e sobrevivência. Os ouvintes de Jesus conheciam a realidade dos arrendamentos e das relações entre proprietários e trabalhadores. A narrativa dos vinhateiros que recusam entregar a produção, violentam os enviados e finalmente assassinam o filho possui, portanto, uma dimensão social evidente. Entretanto, Jesus vai além de uma crítica econômica circunstancial. A parábola revela uma dinâmica  daquilo que recebemos como dom e pode transformar-se lentamente em objeto de posse. 

  1. Primeiro dizemos que cuidamos.
  2.  Depois começamos a dizer que é nosso 
  3. finalmente passamos a defender essa suposta propriedade contra qualquer pessoa que nos recorde que somos apenas administradores. 

Esse processo pode acontecer dentro de uma família, de uma empresa, de um partido político, de uma instituição pública, de uma comunidade religiosa ou de uma estrutura social. O pecado começa quando o servidor esquece que serve. A autoridade deixa de ser responsabilidade e transforma-se em privilégio. A função passa a valer mais que a pessoa. A instituição começa a defender sua própria sobrevivência em vez de proteger aqueles para os quais deveria existir.

A vinha possui uma riqueza simbólica extraordinária. Dentro da tradição bíblica, ela representa Israel, o povo amado e escolhido, mas a própria narrativa permite compreender a vinha como imagem da realidade confiada à responsabilidade humana. A cerca indica cuidado e proteção. O lagar aponta para a colheita e para a transformação dos frutos em vinho. A torre recorda vigilância. Nada foi improvisado. O proprietário preparou tudo com atenção. Depois, confiou a vinha aos arrendatários. Existe nessa atitude uma pedagogia da liberdade. Deus confia. Ele não transforma o ser humano em marionete. A liberdade é um dom, mas também uma responsabilidade. O tempo em que o proprietário não aparece diretamente não significa que Deus tenha abandonado a vinha. Significa que os administradores precisam demonstrar o que farão com aquilo que receberam. Salmo 24,1 proclama que a terra pertence ao Senhor e tudo o que nela existe. Salmo 115,16 afirma que os céus pertencem ao Senhor, enquanto a terra foi confiada aos seres humanos. A Bíblia não apresenta a humanidade como proprietária absoluta da criação, mas como responsável por ela. Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. A crise ecológica contemporânea pode ser lida também como crise espiritual porque revela uma civilização que frequentemente confunde administração com posse. Quando rios são tratados apenas como recursos, florestas como mercadorias e territórios como objetos de exploração ilimitada, repetimos a lógica dos vinhateiros. Esquecemos que a vinha tem dono.

Os servos enviados pelo proprietário evocam a longa tradição profética de Israel. Deus não abandona seu povo à própria lógica. Ele envia pessoas capazes de interpretar a realidade à luz da aliança. 

  • Jeremias conhece perseguição, prisão e violência, conforme Jeremias 38. 
  • Amós enfrenta Amazias em Betel depois de denunciar a injustiça, como registra Amós 7,10-17. 
  • Zacarias é morto no templo, segundo 2Crônicas 24,20-22.
 Jesus posteriormente lamentará sobre Jerusalém porque ela mata os profetas e apedreja os enviados, conforme Mateus 23,37. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros. É alguém que olha para o presente diante de Deus e denuncia aquilo que a sociedade normalizou. Isaías 1,17 ordena buscar a justiça, defender o oprimido, fazer justiça ao órfão e defender a causa da viúva. 

  • Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como rio permanente. 
  • Miquéias 6,8 pergunta o que Deus espera do ser humano e responde: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O profeta incomoda porque não permite que a religião se esconda atrás de cerimônias. Uma comunidade pode cantar, rezar e possuir magníficas estruturas religiosas e, ainda assim, produzir frutos de injustiça. A pergunta profética atravessa a aparência e procura a verdade da vida.

Por isso, uma religião que não suporta a crítica profética corre o risco de construir mecanismos para proteger suas próprias estruturas contra Deus. O profeta não é inimigo da fé; é precisamente porque leva Deus a sério que denuncia sua falsificação. A voz profética incomoda quando o culto não corresponde à vida, quando a doutrina é usada para justificar privilégios, quando a tradição serve para preservar interesses ou quando a autoridade se torna mecanismo de silenciamento. Jesus está dentro da tradição profética de Israel. Sua crítica aos líderes religiosos não é uma rejeição do povo judeu nem uma condenação de Israel como povo. Ele próprio é judeu, seus discípulos são judeus, os profetas são parte da história de Israel e a primeira comunidade cristã nasce dentro dessa tradição. A parábola deve ser lida como  à infidelidade de determinadas lideranças, e não como fundamento para hostilidade contra os judeus. Mateus 21,45-46 mostra que os chefes dos sacerdotes e os fariseus percebem que Jesus falava deles. A responsabilidade é direcionada a agentes concretos. Mais tarde, Paulo advertirá os cristãos de origem gentílica contra qualquer soberba diante de Israel em Romanos 11,17-21. A salvação não autoriza arrogância. A Igreja também pode tornar-se infiel. A parábola não oferece aos cristãos um lugar permanente de superioridade, mas coloca diante deles um espelho. O ponto culminante aparece quando o proprietário envia o filho. Mateus 21,37 apresenta uma expectativa quase surpreendente: eles respeitarão meu filho. No conjunto do Evangelho, o Filho possui identidade cristológica decisiva, que:  

  • No batismo, Mateus 3,17 apresenta Jesus como Filho amado. 
  • Na transfiguração, Mateus 17,5 confirma essa identidade e acrescenta uma ordem: escutai-o. 
  • Agora o Filho é enviado à vinha. Os arrendatários reconhecem o herdeiro e decidem eliminá-lo para tomar sua herança. 
A lógica é terrível porque revela que a violência não nasce simplesmente de desconhecimento. Eles sabem quem ele é e, justamente por isso, percebem nele uma ameaça aos seus interesses. O conflito entre Jesus e as autoridades não pode ser reduzido a uma disputa abstrata de opiniões religiosas. Sua presença questiona uma determinada maneira de exercer poder. Ele cura, acolhe pecadores, aproxima-se dos marginalizados, denuncia hipocrisias, coloca a misericórdia acima do legalismo e proclama um Reino no qual os últimos podem tornar-se primeiros. Sua autoridade não se sustenta pela violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus contrasta a dominação dos governantes com a lógica do discipulado: entre seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. João 10,10 apresenta o critério do bom pastor: sua presença deve produzir vida abundante. A verdadeira autoridade cristã não é medida pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vida que floresce sob seu cuidado. É nesse ponto que a crítica ao clericalismo encontra seu lugar mais profundo. O problema não está na existência de presbíteros, bispos, ministérios, lideranças ou estruturas. A comunidade cristã necessita de responsabilidades e serviços. O problema começa quando o servidor passa a comportar-se como proprietário do povo, da consciência dos outros ou da missão que recebeu. O ministério ordenado existe para servir à comunidade e conduzi-la a Cristo, não para criar dependência psicológica ou espiritual em torno da personalidade de quem exerce a função. Jesus lava os pés dos discípulos em João 13,1-15 e transforma o gesto de um escravo em modelo de liderança. A autoridade cristã deveria possuir o formato da toalha, não o formato do trono. A vinha não pertence ao padre, ao bispo, ao movimento, à pastoral, ao grupo de oração ou ao líder carismático. Pertence a Deus. Essa afirmação é simples, mas profundamente libertadora. Ela impede que o sagrado seja utilizado para construir pequenas monarquias pessoais. Também impede que a fé seja confundida com submissão cega. Atos 5,29 estabelece um limite decisivo: é preciso obedecer a Deus antes que aos homens. A fidelidade cristã não é servilismo. É discernimento responsável diante de Deus.

A reação dos ouvintes revela a inteligência  daqueles ouvem a  parábola. Jesus pergunta o que o proprietário fará e eles mesmos respondem que os maus arrendatários serão destruídos e a vinha entregue a outros que produzam frutos. Sem perceber imediatamente, eles pronunciam julgamento sobre a própria lógica. Algo semelhante acontece em 2Samuel 12,1-7, quando Natã conta a Davi a história do homem rico que toma a única ovelha de um pobre. O rei condena o personagem antes de ouvir a frase decisiva: tu és esse homem. A Palavra de Deus funciona como espelho. Ela nos permite enxergar nos outros aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Por isso seria fácil utilizar a parábola apenas para condenar os líderes religiosos do tempo de Jesus. Mais difícil é permitir que ela atravesse nossas próprias estruturas.

  • Quantas vezes dizemos minha comunidade, meu ministério, minha obra, meu grupo, minha tradição, meu templo, como se o Reino pudesse ser registrado em nosso nome?
  • Quantas vezes confundimos fidelidade ao Evangelho com fidelidade à nossa preferência política, ideológica ou institucional? Quantas vezes protegemos a reputação de uma instituição enquanto ignoramos a dor de alguém ferido por ela? 
A parábola exige uma conversão pessoal, mas também comunitária e institucional. O Evangelho não pede somente indivíduos melhores. Pede estruturas que produzam frutos de justiça. A expressão decisiva de Mateus 21,43 é produzir frutos. Esse tema percorre o Evangelho. João Batista chama à produção de frutos dignos de conversão em Mateus 3,8,  Jesus afirma em Mateus 7,16-20 que a árvore é conhecida pelos frutos e em Mateus 12,33, novamente o fruto revela a qualidade da árvore. 
Agora o Reino é entregue a quem produz seus frutos. O critério de discernimento não é aparência religiosa, discurso correto, quantidade de seguidores ou posição social. É fecundidade. Uma fé que produz ódio precisa ser examinada. Uma espiritualidade que alimenta desprezo pelos pobres contradiz o Evangelho. Uma religião que legitima violência, mentira ou desumanização precisa ouvir novamente os profetas. Uma comunidade que possui grande discurso sobre Deus, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, corre o risco de produzir folhas sem frutos. Gálatas 5,22-23 apresenta o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Tiago 2,14-17 pergunta de que serve dizer que se tem fé quando o irmão permanece sem roupa e sem alimento. A fé bíblica possui consequências históricas. Ela se transforma em cuidado, solidariedade, justiça e serviço. A questão fundamental não é apenas o que dizemos crer, mas o que nossa crença produz na vida daqueles que convivem conosco. Essa perspectiva nos conduz diretamente à desigualdade social. A pergunta da vinha não é somente quanto uma sociedade produz, mas quem recebe seus frutos. Pode existir crescimento econômico acompanhado de fome, avanço tecnológico acompanhado de exclusão, templos cheios acompanhados de indiferença, riqueza concentrada enquanto trabalhadores não conseguem viver com dignidade. Amós 5,11-15 denuncia aqueles que constroem casas de pedra enquanto negam justiça aos pobres. Isaías 10,1-3 questiona aqueles que elaboram leis injustas para retirar direitos dos necessitados. Tiago 5,1-6 denuncia riquezas acumuladas enquanto trabalhadores permanecem privados de seu salário. O Evangelho não apresenta um programa econômico completo, mas estabelece um critério moral: a vida humana não pode ser subordinada à acumulação ilimitada. Jesus não demoniza simplesmente os bens materiais. Ele denuncia sua transformação em senhor. Mateus 6,24 afirma que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12,13-21 apresenta o homem rico que amplia seus celeiros e imagina ter garantido a própria vida. O problema não é produzir, trabalhar ou possuir. O problema é transformar a existência em acumulação autocentrada. A vinha produz frutos para a vida, não para alimentar uma pequena elite de administradores.

Essa mesma lógica precisa ser aplicada às formas contemporâneas de mercantilização da religião. Há expressões religiosas que apresentam Deus segundo uma lógica de investimento, como se a fé fosse uma operação destinada a produzir retorno financeiro. É necessário distinguir esperança cristã de uma teologia que transforma bênção em recompensa automática e sofrimento em sinal de pouca fé. Jesus afirma em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância dos bens. O Evangelho anuncia dignidade, providência, partilha e esperança, não uma fórmula religiosa de enriquecimento. Quando o pobre é responsabilizado por sua própria pobreza porque não teria fé suficiente, o Evangelho é invertido. Quando a contribuição financeira se torna medida de espiritualidade, o sagrado pode ser transformado em mercado. Quando líderes utilizam a esperança dos vulneráveis para construir patrimônio pessoal, a lógica dos vinhateiros reaparece. A vinha pertence a Deus. Seus frutos devem produzir vida. A religião não existe para enriquecer seus administradores, mas para aproximar pessoas de Deus, libertar consciências, fortalecer comunidades e promover a dignidade humana. A questão ecológica também pertence à parábola: 

  • Gênesis 2,15 fala do ser humano colocado no jardim para cultivar e guardar. 
  • Salmo 24,1 recorda que a terra pertence ao Senhor. A criação não é propriedade absoluta de nenhuma geração. 
Recebemos um mundo que não criamos e que deixaremos para outros. A crise climática, a destruição das florestas, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade mostram as consequências de uma cultura que trata a terra como objeto de exploração ilimitada. A imagem da vinha ajuda a perceber que cuidar não significa simplesmente utilizar. Significa reconhecer limites, respeitar ciclos, preservar possibilidades e pensar nos que ainda nascerão. Laudato Si' desenvolve essa responsabilidade em linguagem contemporânea ao insistir na relação entre cuidado da criação, justiça social e destino comum. Os mais pobres frequentemente sofrem primeiro e mais intensamente os efeitos da degradação ambiental. A ecologia, portanto, não é um luxo reservado aos que já possuem segurança. É questão de justiça. Quando devastamos a casa comum para aumentar lucros imediatos, agimos como administradores que esqueceram que a vinha pertence a outro. Marcos 12,1-12 e Lucas 20,9-19 confirmam e aprofundam essa leitura. Os três Sinóticos conservam a estrutura essencial da narrativa: existe uma vinha, um proprietário, arrendatários, servos enviados, violência, o filho e a rejeição da pedra. Marcos enfatiza a sequência de servos e apresenta o filho amado. Lucas mantém a mesma tensão dentro do confronto de Jesus com as autoridades do templo. Mateus, entretanto, acentua particularmente a questão dos frutos e afirma que o Reino será dado a um povo que os produza. As diferenças redacionais não significam necessariamente contradição. Elas mostram comunidades transmitindo a tradição apostólica segundo necessidades e perspectivas teológicas próprias. João não possui a mesma parábola, mas apresenta uma elaboração complementar da imagem em João 15,1-8: Jesus é a videira verdadeira, o Pai é o agricultor e os discípulos são os ramos. Permanecer em Cristo produz fruto. Em João 15,12, esse fruto recebe uma definição concreta: amar uns aos outros como Jesus amou. A imagem da vinha atravessa, assim, diferentes tradições do Novo Testamento e converge para uma certeza: a comunhão com Deus precisa tornar-se fecundidade na história. Não existe permanência verdadeira em Cristo sem transformação da vida.

A pedra rejeitada amplia o horizonte cristológico. Jesus cita Salmo 118,22-23: aquilo que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Essa imagem reaparece em Atos 4,10-12 e em 1Pedro 2,4-8. O rejeitado é confirmado por Deus. A cruz, portanto, não é a palavra final da violência. Os administradores acreditam que, eliminando o herdeiro, controlarão a vinha. Deus, porém, transforma o rejeitado em fundamento. A lógica da ressurreição desmonta a pretensão humana de controlar definitivamente a história. Filipenses 2,5-11 apresenta o caminho de Cristo como esvaziamento, serviço e obediência, não como apropriação de poder. Por isso a pedra angular não é uma instituição, uma liderança, uma ideologia ou um projeto político. É Cristo. Toda comunidade cristã precisa medir suas práticas por ele. Romanos 11,17-21 também impede qualquer triunfalismo cristão diante de Israel. Paulo adverte os cristãos de origem gentílica a não se tornarem arrogantes. Ninguém permanece na história da salvação por mérito próprio. A graça recebida não autoriza soberba. A Igreja recebe a vinha como missão, não como propriedade. Recebe o Evangelho como dom, não como arma. Recebe autoridade para servir, não para dominar. Filipenses 4,6-9 oferece uma chave espiritual para viver essa missão. Paulo chama a comunidade a apresentar suas necessidades a Deus em oração, súplica e ação de graças. Depois orienta o pensamento para aquilo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e digno de louvor. Finalmente, insiste na prática: aquilo que foi aprendido, recebido, ouvido e visto precisa ser colocado em ação. A paz cristã não é anestesia diante da injustiça. É força interior para permanecer no caminho do bem sem reproduzir a violência daqueles que se combate. O Salmo 79(80) também não é resignação. O povo clama para que Deus visite sua vinha, restaure sua plantação e faça resplandecer seu rosto. Isaías denuncia, o salmo suplica, Paulo orienta a vida e Jesus chama à responsabilidade. A liturgia une contemplação, discernimento, oração e prática. O culto não termina quando a assembleia deixa o templo. Ele continua na maneira como tratamos o trabalhador, o pobre, o estrangeiro, o adversário, o imigrante, a criação, o dinheiro e aqueles que não podem nos oferecer qualquer benefício. Tiago 1,22 insiste que devemos ser praticantes da Palavra e não somente ouvintes. A vinha exige frutos.

Chegamos, então, ao centro da parábola. Talvez o maior pecado dos vinhateiros não tenha sido trabalhar na vinha, mas esquecer que ela nunca lhes pertenceu. Essa tentação atravessa a história humana. Queremos possuir pessoas, controlar consciências, monopolizar verdades, dominar instituições e transformar dons recebidos em instrumentos de poder. Às vezes fazemos isso em nome de Deus, tornando a deformação ainda mais perigosa. Jesus não destrói a vinha. Ele denuncia aqueles que a sequestraram. O Reino continua. Deus continua esperando frutos. Essa esperança impede que a crítica profética se transforme em cinismo. Instituições podem adoecer e podem ser reformadas. Comunidades podem errar e podem converter-se. Sociedades podem produzir injustiça e podem escolher outro caminho. Ezequiel 18,23 recorda que Deus não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva. O julgamento bíblico não é mero prazer de condenar. É um chamado a despertar antes que a esterilidade se torne definitiva. A graça não elimina a responsabilidade, mas abre a possibilidade de recomeço. Deus continua enviando sua Palavra porque ainda espera frutos.

Por isso, o Evangelho deste domingo não nos permite permanecer espectadores. Ele entra em nossas casas, comunidades, relações, instituições e escolhas. A pergunta não é apenas o  que fizeram os vinhateiros de Jerusalém. A pergunta é:

  •  O que fazemos nós com aquilo que recebemos?
  • O que produz nossa fé? 
  • Produz acolhimento ou exclusão? 
  • Justiça ou privilégio? 
  • Misericórdia ou condenação?
  • Liberdade ou medo? 
  • Solidariedade ou competição?
  •  Verdade ou manipulação? 
  • O que produz nossa atuação política? 
  • O que produz nossa autoridade profissional? 
  • O que produz nossa presença dentro da Igreja? 
A parábola termina deixando diante de nós uma ferida e uma esperança,  a vinha continua pertencendo a Deus, a  pedra rejeitada tornou-se fundamento. O Filho que os homens quiseram eliminar foi ressuscitado pelo Pai,  a história não pertence definitivamente aos poderosos. O Evangelho afirma que Deus pode fazer nascer futuro onde os seres humanos decretaram fracasso. Por isso a Igreja não deve temer a verdade sobre si mesma. Uma comunidade que aceita ser examinada pela Palavra torna-se mais livre. Um ministério que aceita prestar contas torna-se mais evangélico.  Isaías continua perguntando por que a vinha produziu violência, o salmo continua pedindo que Deus visite sua plantação e  Paulo continua chamando nossa mente para a verdade e nossa prática para o bem. Jesus continua perguntando pelos frutos.

Que o Espírito Santo nos dê coragem para reconhecer onde transformamos serviço em posse, autoridade em domínio, religião em espetáculo, tradição em arma e fé em instrumento de interesse pessoal. Que nos ensine a ouvir os profetas antes que seja tarde, a reconhecer Cristo nos pequenos, a defender os vulneráveis, a cuidar da criação e a construir relações nas quais a dignidade humana esteja acima do lucro, do prestígio e da disputa. Que a Igreja nunca se comporte como proprietária do Reino, mas como servidora de uma graça que a precede e a supera. Que nossos templos não sejam apenas lugares de culto, mas escolas de justiça, misericórdia e fraternidade. Que nossa oração não seja fuga da realidade, mas fonte de coragem para transformá-la. E que, quando o Senhor olhar para a vinha que nos confiou, encontre não apenas folhas de aparência religiosa, mas frutos concretos de amor, justiça e misericórdia. Porque a vinha é de Deus, a vida é dom, a autoridade é serviço, Cristo é a pedra angular e o Reino pertence àqueles que permitem que a graça produza frutos de justiça, misericórdia e vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O PRESBITÉRIO NÃO É PALANQUE

A Eucaristia está acima das nossas bandeiras ideológicas, das disputas partidárias e das paixões eleitorais. Há alguns dias, recebemos o áudio de parte de uma pregação realizada por um presbítero em uma paróquia de uma das dioceses do Brasil, na qual, ao abordar  tematica sobrenaa eleições , ele toma  partido  de certo candidato e determinado partido político, chegou-se a propor a negação da Sagrada Comunhão aos militantes e eleitores de um dos partidos. O conteúdo dessa fala nos provocou não apenas pela gravidade da proposta, mas principalmente pela necessidade de perguntar, com serenidade e responsabilidade, se tal compreensão encontra respaldo no Evangelho, na tradição da Igreja, no Magistério e no Direito Canônico. Não nos cabe julgar a intenção pessoal daquele sacerdote, nem presumir sua formação ou suas motivações; cabe-nos, porém, examinar aquilo que foi publicamente afirmado e confrontá-lo com a fé que professamos. Não fazemos isso para defender candidato, partido ou corrente ideológica, muito menos para transformar uma divergência política em conflito religioso, mas porque entendemos que há momentos em que o silêncio diante de determinadas práticas pode acabar confundindo o Evangelho com interesses humanos. A Igreja tem o dever de formar consciências, anunciar a verdade, defender a dignidade humana e denunciar toda forma de injustiça, a própria CNBB ja se posicionou sobre apoio a esse ou aquele  candidato. E preciso  ter consciência  que Eucaristia não pode ser convertida em instrumento de disputa eleitoral, nem o altar em espaço de enquadramento político dos fiéis. Cristo não se entrega à Igreja para que sua mesa seja transformada em fronteira entre os que pertencem a este ou àquele partido, mas para reunir um povo chamado à conversão, à comunhão, à justiça e à caridade. É justamente por amor à Igreja, à Eucaristia e respeito à missão dos ministros ordenados que desejamos refletir sobre essa questão, recordando que o presbítero é chamado a servir a Cristo e ao seu povo, e não a transformar o lugar sagrado em extensão de qualquer palanque. É a partir dessa inquietação, iluminada pelo Evangelho e pelo ensinamento da própria Igreja, que nasce esta reflexão.

Há momentos em que a Igreja precisa voltar ao silêncio diante do altar para ouvir novamente aquilo que o Evangelho diz antes que nossas paixões políticas comecem a falar, a Eucaristia não nasceu de uma disputa eleitoral, não foi instituída para consagrar projetos de poder nem pode ser transformada em instrumento de pressão sobre a consciência dos fiéis. Ela nasce na noite em que Jesus foi entregue: naquela mesa estavam discípulos que ainda não compreendiam plenamente a cruz, aquele que o negaria e aquele que o trairia; mesmo assim, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e entregou-o, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19). A Eucaristia nasce, portanto, do amor que se entrega quando o poder humano já prepara a violência, e não da lógica de quem divide as pessoas entre as que merecem estar à mesa e as que devem ser afastadas dela.

É preciso  lembrar  que o Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo, sacrifício sacramental, presença real, banquete pascal, sinal de unidade e vínculo de caridade (CIC 1322-1323; 1362-1367; 1382-1383) e na celebração eucarística, a Igreja não celebra uma ideia, uma ideologia ou uma identidade política, mas o próprio mistério de Cristo morto e ressuscitado. Quem se aproxima da mesa do Senhor não recebe uma bandeira, recebe Cristo; e quem serve o altar não recebe autoridade para transformar o Sacramento em instrumento de uma preferência eleitoral. Isso não significa banalizar a Comunhão, pois a santidade da Eucaristia exige fé, conversão e exame de consciência. São Paulo advertiu severamente a comunidade de Corinto sobre o modo indigno de participar da Ceia do Senhor (1Cor 11,27-29), e o Catecismo ensina que quem tem consciência de pecado grave deve receber previamente o sacramento da Reconciliação (CIC 1385). A Igreja, portanto, não relativiza a dignidade do Sacramento; justamente porque a Eucaristia é santa, sua disciplina não pode ser substituída por critérios inventados segundo circunstâncias eleitorais. O Catecismo ensina que a consciência é o núcleo mais secreto da pessoa, onde ela se encontra a sós com Deus, e afirma o dever de formá-la de acordo com a verdade e o bem (CIC 1776-1782). Essa consciência não é uma licença para chamar de bom tudo aquilo que desejamos, pois precisa ser educada pela Palavra de Deus, pela razão, pela prudência, pelo ensino da Igreja, pela oração e pelo discernimento responsável (CIC 1783-1789). Entretanto, precisamente por ser lugar de responsabilidade diante de Deus, ela não pode ser sequestrada por uma autoridade humana. O ministro ordenado deve ajudar o fiel a formar sua consciência na verdade, não ocupar o lugar daquele que, diante de Deus, responderá pelos próprios atos. Essa distinção torna-se ainda mais necessária quando a política entra no espaço litúrgico, porque uma opinião pronunciada numa conversa particular não possui o mesmo peso de uma afirmação feita no ambão durante a celebração por alguém investido do ministério ordenado

Acreditamos  que o referido  padre  conhece  o Código de Direito Canônico  que estabelece que todo batizado a quem o direito não proíba pode e deve ser admitido à sagrada Comunhão (cân. 912), enquanto o cân. 915 trata de situações jurídicas e morais determinadas, entre elas os excomungados e interditados após a imposição ou declaração da pena e aqueles que obstinadamente perseveram em pecado grave manifesto. Esse cânon não confere ao ministro poder discricionário para criar, segundo sua avaliação política pessoal, novas causas de exclusão da Comunhão. Uma preferência partidária, por si mesma, não constitui causa canônica autônoma de impedimento à Eucaristia. Isso não significa que escolhas políticas sejam moralmente neutras em qualquer circunstância: um partido pode ser criticado, uma candidatura pode ser rejeitada, uma proposta política pode ser considerada incompatível com princípios fundamentais da fé e determinadas decisões públicas podem exigir sério discernimento moral. A Igreja possui o direito e o dever de anunciar a verdade moral, defender a dignidade humana, denunciar a injustiça e formar as consciências; o que não pode fazer é transformar esse dever em substituição da consciência pessoal ou em uma espécie de sanção sacramental fundada simplesmente na escolha eleitoral.  

Diante  da assembleia  litúrgica  o ministro  ordenado   recebe uma autoridade que ultrapassa a pessoa que as pronuncia, razão pela qual o ministro precisa discernir não apenas se determinada opinião corresponde à sua convicção pessoal, mas também se a maneira de apresentá-la corresponde à missão pastoral que recebeu. O presidente  da assembleia  é ministro da Palavra, dos sacramentos e da comunhão eclesial, não proprietário da consciência dos fiéis;  o bispo é um  servidor da comunhão e da verdade, não autoridade eleitoral,  a sua  autoridade pastoral existe para conduzir à verdade e à liberdade dos filhos de Deus, e não para fabricar dependências políticas. Quando o ministro passa de formador da consciência a substituto da consciência, o serviço pastoral corre o risco de degenerar  o próprio  ministério  e vocação. O ministro ordenado é pastor, não proprietário da fé; a diocese, a paróquia deve ser comunidade de discípulos, não comitê eleitoral; o ambão é lugar de anúncio do Evangelho, não palanque; e o altar é lugar do sacrifício de Cristo, não território de qualquer projeto político.

Mateus 21,28-32 proclamdo no 26⁰  domingo do Tempo Comum  do ano.A ajuda a perceber a gravidade dessa inversão. A parábola dos dois filhos está inserida num confronto de Jesus com as autoridades religiosas e nasce de uma pergunta sobre autoridade. Jesus não oferece uma classificação eleitoral dos bons e dos maus; confronta uma religiosidade que pode dizer “sim” com os lábios e, entretanto, recusar a vontade do Pai com a própria vida. A pergunta decisiva não é “de que lado vocês estão?”, mas qual dos dois fez a vontade do pai. O critério do Evangelho é a obediência concreta à vontade de Deus, não a identidade pública que reivindicamos. Utilizar essa passagem para estabelecer uma fronteira partidária na Eucaristia seria inverter sua direção, transformando uma palavra de conversão em instrumento de classificação eleitoral. O Evangelho desinstala tanto o pecador que precisa converter-se quanto o religioso que acredita já estar justificado; não entrega ao discípulo uma régua para medir o outro, mas uma palavra que começa por nós mesmos. Essa perspectiva está em plena sintonia com a compreensão da Igreja sobre sua relação com a comunidade política. A Gaudium et Spes ensina que a Igreja não se confunde com a comunidade política nem está ligada a qualquer sistema político determinado, reconhecendo a autonomia de ambas em seus respectivos campos e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade diante da pessoa humana e do bem comum. Essa autonomia não significa uma Igreja indiferente à política; significa uma Igreja livre. Uma Igreja livre não é uma Igreja silenciosa, mas uma Igreja capaz de falar a todos porque não pertence inteiramente a nenhum grupo. Pode denunciar a corrupção quando aparece no adversário e quando aparece no aliado, condenar a mentira quando favorece aqueles de quem gostamos e quando favorece aqueles de quem discordamos, defender a vida humana desde sua origem até a morte natural e, simultaneamente, denunciar a fome, a violência, a exploração, a tortura, a guerra, o abandono, a miséria e todas as formas pelas quais a dignidade humana é ferida.

A Lumen Gentium recorda que a Igreja é, em Cristo, “como que o sacramento, ou seja, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). Essa afirmação possui consequências concretas para a vida eclesial: se a Igreja é sinal de unidade, suas diferenças políticas não podem transformar-se em mecanismos permanentes de desumanização. A pluralidade legítima dos fiéis não precisa desaparecer diante do altar, mas precisa encontrar ali um limite: ninguém pode fazer da própria posição política um critério absoluto para reconhecer quem pertence ou não ao Corpo de Cristo. São Paulo exprime essa realidade de modo ainda mais concreto: “há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia manifesta sacramentalmente essa comunhão, e por isso instrumentalizá-la para produzir exclusões políticas contradiz a própria realidade que o Sacramento celebra.

A fé cristã também não permite reduzir a pessoa à sua utilidade eleitoral. Em Mateus 25, Jesus não pergunta ao faminto em quem ele votou antes de oferecer-lhe alimento, nem pergunta ao estrangeiro qual era sua ideologia antes de acolhê-lo; o critério apresentado é concreto: dar de comer ao faminto, de beber ao sedento, acolher o estrangeiro, vestir quem está nu, cuidar do enfermo e visitar o preso (Mt 25,31-46). A Doutrina Social da Igreja traduz essa responsabilidade em princípios como dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e participação, reconhecendo que a política pertence à vida humana e pode ser lugar de serviço. Os fiéis leigos são chamados a atuar na ordem temporal segundo sua consciência cristã, buscando justiça, paz, liberdade, dignidade humana e bem comum. A Nota Doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política reconhece a legítima pluralidade de opções políticas entre os fiéis, ao mesmo tempo em que recorda que essa pluralidade não significa relativizar os princípios morais fundamentais.

O cristão, portanto, não precisa encontrar um partido que reproduza perfeitamente toda a riqueza da fé católica, porque a realidade política é contingente, complexa e histórica; diferentes estratégias podem ser propostas para alcançar determinados bens sociais, e cidadãos igualmente comprometidos com sua fé podem chegar a conclusões políticas diferentes. O Magistério forma e ilumina a consciência, mas não transforma cada questão temporal contingente numa única solução partidária obrigatória. Ao mesmo tempo, liberdade política não significa indiferença moral: existem princípios fundamentais da dignidade humana que não podem ser abandonados em nome da conveniência eleitoral. É justamente por isso que nenhuma ideologia possui o Evangelho inteiro e toda forma de radicalização política que sacralize o líder, absolutize a nação, transforme adversários em inimigos absolutos, legitime a violência ou utilize a religião para conferir caráter sagrado a um projeto humano precisa ser examinada à luz do Evangelho. Essa crítica não pertence exclusivamente a um campo ideológico: pode dirigir-se à direita, à esquerda, ao centro ou a qualquer movimento que transforme mentira, violência, corrupção, intolerância ou desumanização em instrumentos de poder.

Há  um  conflito real  quando o  relativo passa a ocupar o lugar do absoluto,  quando uma bandeira política se transforma em símbolo quase religioso, um líder passa a ser tratado como salvador, a pátria é apresentada como realidade acima de toda crítica, o adversário deixa de ser reconhecido como pessoa ou a mentira passa a ser tolerada porque protege “os nossos”. Quando símbolos cristãos são utilizados para conferir legitimidade espiritual a projetos de poder, a religião deixa de iluminar a política e corre o risco de ser capturada por ela. A Escritura conhece essa tensão: 

  • Natã enfrentou Davi (2Sm 12,1-13)
  •  Elias enfrentou Acab diante da injustiça cometida contra Nabot (1Rs 21)
  • Amós levantou sua voz contra aqueles que esmagavam os pobres (Am 2,6-7; 5,11-15)
  •  Isaías denunciou os que promulgavam leis injustas e privavam os pobres de seus direitos (Is 10,1-2)
  •  João Batista confrontou Herodes (Mc 6,17-20). 
O profeta não pergunta primeiro de que lado está o poder; pergunta se o poder está submetido à justiça de Deus. Jesus também recusou a lógica da dominação. Quando Pedro desembainhou a espada, ordenou que a guardasse (Mt 26,52); quando alguns discípulos quiseram fazer descer fogo do céu sobre aqueles que não haviam recebido Jesus, foram repreendidos (Lc 9,51-56); quando os discípulos discutiam sobre poder e grandeza, Jesus colocou o serviço no centro: “entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). O cristianismo não pode utilizar o nome daquele que lavou os pés dos discípulos para justificar a lógica da dominação e  a cruz é ainda mais radical: Cristo não venceu derramando o sangue de seus inimigos, mas entregando o próprio sangue. O mártir cristão não é aquele que mata por uma causa religiosa, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando sofre violência. A cruz não fornece autorização para matar; o sangue de Cristo não pode ser utilizado para santificar o sangue humano.

Antes de ser eleitor, simpatizante, militante, conservador ou progressista, cada ser humano permanece criatura de Deus, portador de uma dignidade que nenhuma disputa eleitoral pode retirar e o outro não deixa de ser pessoa porque vota diferente ou  o adversário político não perde sua dignidade porque defende ideias que consideramos equivocadas. A crítica às ideias pode ser firme, contudo  a desumanização da pessoa é incompatível com a antropologia cristã. O Evangelho exige algo mais difícil do que escolher um inimigo: exige conversão, reconhecimento da verdade quando ela vem de alguém de quem discordamos e rejeição da mentira mesmo quando pronunciada por alguém de quem gostamos. Exige denunciar a injustiça quando atinge o adversário e quando ameaça o aliado, amar o próximo quando o próximo pensa diferente e levar a sério as palavras de Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).

Olhando para Maria e  lendo o Magnificat  que  crituca a religião domesticada pelo poder. Seu canto proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos, exalta os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,52-53). O Magnificat não pertence a uma legenda partidária; pertence ao Evangelho e recorda que nenhum poder humano é absoluto, pois Deus não pode ser colocado como avalista de nossas ambições. Talvez seja justamente disso que a Igreja precise lembrar em tempos de polarização:

  •  Cristo não morre para produzir vencedores e vencidos dentro de sua Igreja, mas para reconciliar.
  •  Não morre para que seus discípulos aprendessem a odiar melhor seus adversários, mas para que aprendessem a amar até mesmo aqueles que os perseguem
  • Não entrega seu Corpo para que construíssemos muros em torno da mesa, mas para que, recebendo o mesmo pão, aprendêssemos a reconhecer que pertencemos a um único Corpo.

Toda  a comunidade cristã se reúne em torno da Eucaristia e  o eleitor A  encontra o eleitor B,  o pobre encontra o rico, o conservador encontra o progressista, o que pensa como nós encontra aquele que pensa diferente  e todos permanecem diante do mesmo Senhor. Nenhum deles se torna proprietário de Cristo,  a Eucaristia não elimina as diferenças legítimas, mas impede que essas diferenças sejam transformadas em motivo de desumanização. Por isso, nenhuma preferência eleitoral pode ocupar o lugar da fé, nenhum líder político pode receber aquilo que pertence somente a Cristo, nenhuma ideologia pode transformar-se em critério absoluto de pertença eclesial e nenhum partido pode reivindicar a Eucaristia como território próprio. O cristão pode participar legitimamente de um partido; nenhum partido pode apropriar-se de Cristo. Pode exercer sua liberdade eleitoral sem transformar sua escolha contingente em dogma, pode combater ideias sem transformar aquele que pensa diferente em inimigo de Deus e pode participar da vida pública sem entregar à política aquilo que pertence ao Evangelho.

A Eucaristia não elimina a responsabilidade política do cristão; ela a purifica e a envia para a vida concreta, onde o discípulo deve buscar justiça, verdade, reconciliação e cuidado com os vulneráveis. A política pode ser lugar de serviço, mas não pode tornar-se objeto de adoração; a fé pode iluminar a política, mas a política não pode capturar a fé. Diante do altar, nossas bandeiras precisam baixar não porque nossas convicções deixem de existir, mas porque nenhuma delas é absoluta. Ali não está a vitória de um grupo sobre outro, mas o memorial daquele que se entregou; não está a consagração de um projeto de poder, mas a presença daquele que veio servir; não está uma fronteira entre os puros e os impuros, entre os nossos e os outros, mas o chamado permanente à conversão. Quando Cristo é colocado acima das bandeiras, a Igreja permanece livre para anunciar o Evangelho a todos, inclusive aos que pensam de maneira diferente. 

Quando as bandeiras humanas se erguem acima de Cristo, a Igreja corre o risco de esquecer sua origem, sua missão e sua liberdade; por isso, o presbitério, confiado ao ministério ordenado, deve permanecer lugar de serviço, de escuta da Palavra e de celebração do mistério da fé, preservado das disputas eleitorais que passam com o tempo. A Eucaristia pertence ao Senhor e manifesta sacramentalmente o amor daquele que se entrega por todos e reúne os dispersos em um só Corpo, e nenhum partido, nenhuma preferência política ou projeto de poder pode apropriar-se daquilo que Deus confiou à sua Igreja. As eleições passarão, os governos mudarão, os partidos se reorganizarão e as bandeiras que hoje parecem invencíveis serão recolhidas pelo próprio curso da história; permanecerá, porém, aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), diante de quem toda autoridade humana encontra seu limite e toda consciência é chamada à verdade. Que a Igreja não entregue sua liberdade às paixões de nenhuma época, não permita que o altar seja capturado pelos interesses dos homens e não transforme a comunhão dos filhos de Deus em instrumento de qualquer disputa terrena; que permaneça de pé, como sentinela do Evangelho, anunciando a verdade quando for conveniente e quando for incômodo, defendendo os pequenos quando tiver apoio e quando estiver sozinha, denunciando a injustiça venha ela de onde vier e recordando aos poderosos que nenhum trono é eterno diante do Reino de Deus. Aquele que na noite em que foi entregue não ofereceu aos seus discípulos uma bandeira para conquistar o mundo, mas seu próprio Corpo para a vida do mundo, continua sendo o centro da fé e da missão da Igreja; por isso, a Eucaristia permanecerá acima das disputas eleitorais, como presença viva de Cristo que se entrega, reúne, alimenta, reconcilia e envia seu povo para testemunhar o Evangelho no coração da história. 

Quando as vozes dos poderes deste mundo finalmente se calarem, permanecerá a voz do Senhor, e diante dele toda a Igreja reconhecerá que a única vitória que não passa é aquela que nasce da cruz e conduz à vida. A Ele, Senhor da Igreja e da história, pertencem toda honra e toda glória, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.

DNonato - Cristão  e Eleitor  Brasileiro