quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Conectados, Mas Convertidos?

  • Entre Algoritmos e Evangelho
A cidade acorda antes do sol. Não porque os galos cantem, mas porque os celulares vibram. A luz que primeiro ilumina muitos rostos não vem da janela, mas da tela. Antes do café, antes do silêncio, antes mesmo da oração, há uma rolagem. Notícias, afetos, revoltas, memes, tragédias e, entre tudo isso, também versículos, pregações, transmissões ao vivo. O mundo mudou, e com ele mudaram os caminhos por onde a alma caminha. A fé, que um dia percorreu estradas poeirentas da Galileia, hoje atravessa cabos de fibra óptica e ondas invisíveis. O Verbo que se fez carne (João 1,14) continua querendo se fazer presença, inclusive no território dos códigos e algoritmos.

Essa constatação incomoda alguns. Há quem declare que o sagrado perdeu reverência, que transcendência não combina com notificações. No entanto, a própria história bíblica é história de mediações. Deus falou por meio de um arbusto em chamas (Êxodo 3,2), de tábuas de pedra, de profetas que gritavam nas praças (Jeremias 7,2), de cartas que cruzaram mares para orientar comunidades em crise (1Coríntios 1,10-13). Paulo utilizou as estruturas do Império Romano para espalhar uma mensagem que, paradoxalmente, subvertia a lógica imperial. Sempre houve mediação. Sempre houve cultura. Sempre houve linguagem encarnada.

Se ontem eram pergaminhos e estradas romanas, hoje são plataformas digitais. O problema não é o meio. O problema é o coração que o habita.

Quando Jesus ensinava às margens do lago, falava de sementes, redes, moedas, figueiras (Mateus 13; Lucas 15; Marcos 11,12-14). Ele partia do cotidiano para revelar o Reino. Se caminhasse hoje entre prédios, comunidades periféricas e timelines agitadas, talvez falasse de algoritmos que moldam percepções e criam bolhas que reforçam certezas. Paulo já advertia: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Romanos 12,2). Em termos contemporâneos, não deixem que o fluxo determine sua consciência.

O Reino não funciona pela lógica da viralização. Ele não cresce pelo medo nem pelo escândalo. Cresce como fermento escondido na massa (Mateus 13,33). Silencioso. Persistente. Transformador por dentro. A crise não está na tecnologia, mas na interioridade. Jesus foi claro: é do coração que procedem as más intenções (Marcos 7,21-23). A pureza que Ele propõe não é ritual, é ética.

E aqui surge a tensão do nosso tempo. Estar conectado não é estar em comunhão. A cultura digital recompensa o espetáculo, a indignação rápida, o julgamento sumário. A imagem precede a verdade. A reação vale mais que a reflexão. O próprio Evangelho já alertava contra a religiosidade performática: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mateus 6,1). A fé transformada em performance perde sua substância.

Hoje vemos versículos recortados para legitimar ódios, discursos religiosos usados como capital político, espiritualidade convertida em produto. A cruz vira logotipo. A Bíblia vira slogan. O púlpito se digitaliza e, em alguns casos, o discipulado se transforma em branding. Quando isso acontece, o Cristo servo de Mateus 20,25-28 é substituído por um messianismo de poder. E o Reino, que começa com bem-aventurados os pobres (Mateus 5,3), passa a ser confundido com prosperidade e dominação cultural.

A tradição profética sempre se levantou contra essa distorção. Amós denuncia cultos exuberantes que ignoram a justiça (Amós 5,21-24). Isaías afirma que o jejum agradável a Deus rompe correntes de opressão (Isaías 58,6-7). Jesus radicaliza em Mateus 25,31-46 ao identificar-se com os famintos, estrangeiros e presos. O critério do juízo não é visibilidade religiosa. É misericórdia concreta.

Não é o engajamento que salva. É o amor.

A tecnologia, portanto, é instrumento. Pode ser ponte que conecta solidariedade em tempos de enchentes e pandemias. Pode ser voz para os invisíveis. Mas também pode ser fábrica de desinformação, campo fértil para radicalizações e manipulações emocionais. Gênesis 11,1-9 narra a torre de Babel como projeto técnico que se transforma em arrogância coletiva. A técnica sem ética produz dispersão.

Por isso, discernimento é virtude urgente. “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai” (1João 4,1). Nem toda mensagem que cita Deus revela Deus. Nem todo discurso inflamado é profético. Às vezes é apenas barulho revestido de versículo.

Há uma diferença decisiva entre anunciar o Evangelho e usar o Evangelho. Anunciar é servir à verdade que nos transcende (João 14,6). Usar é instrumentalizar o sagrado para ampliar influência. Jesus criticou líderes que impunham fardos pesados enquanto protegiam seus próprios privilégios (Mateus 23,4). O clericalismo não precisa mais apenas de templos; ele pode florescer em perfis verificados e canais monetizados. Quando fé e poder se confundem, o Evangelho é reduzido a ferramenta ideológica.


Mas o Magnificat continua ecoando: Deus derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lucas 1,52-53). As bem-aventuranças continuam contrariando a lógica dominante. O Reino não é nacionalismo religioso. Não é projeto de hegemonia cultural. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21) permanece como fronteira ética contra toda fusão indevida entre fé e idolatria política.

Enquanto isso, a psicologia contemporânea descreve uma geração exausta, fragmentada pela avalanche de estímulos. A atenção tornou-se campo de disputa. O silêncio tornou-se raro. Contudo, Jesus retirava-se para rezar (Lucas 5,16). O Salmo 131 fala de uma alma aquietada. A espiritualidade cristã não nasce do excesso, mas da escuta. Talvez a conversão digital inclua aprender a desligar. Aprender a esperar. Aprender a não reagir imediatamente. “Há tempo para falar e tempo para calar” (Eclesiastes 3,7).

Nas periferias sociais, a internet é muitas vezes a principal porta de acesso à informação e pertencimento. Jovens constroem identidade nas redes. Também ali são capturados por discursos de ódio e extremismos simplificadores que oferecem respostas fáceis para angústias complexas. Ignorar esse território é abandonar missão. “Sereis minhas testemunhas até os confins da terra” (Atos 1,8). Hoje, esses confins incluem o ambiente virtual. Mas a presença cristã ali não pode ser ingênua. É preciso reconhecer desigualdades digitais, exploração econômica das plataformas e a transformação de dados em mercadoria.

Ser presença real não significa exposição constante. Significa coerência. Tiago é direto: fé sem obras é morta (Tiago 2,17). No mundo digital, isso significa que palavras edificantes precisam encontrar eco em práticas concretas. Uma campanha solidária organizada por redes pode alimentar famílias. Uma mensagem privada pode salvar alguém da desesperança. O Pai que vê o oculto (Mateus 6,4) não depende de métricas.

No fundo, a pergunta de Lucas 10,29 continua ecoando: quem é o próximo? No ambiente digital, o ferido pode ser alguém alvo de difamação coletiva. O sacerdote e o levita podem ser aqueles que apenas deslizam a tela. O samaritano é quem decide interromper o fluxo, escutar e agir. A compaixão não depende do meio. Depende do coração revestido de misericórdia (Colossenses 3,12).

O Evangelho permanece o mesmo. Ele não se submete a ideologias estreitas nem a extremismos que absolutizam identidades. Ele chama à conversão pessoal e à transformação social (Atos 2,42-47). A comunidade primitiva partilhava bens, quebrava o pão, cuidava dos necessitados. Isso confronta tanto o individualismo digital quanto a espiritualidade privatizada. Amar não é clicar. Amar é comprometer-se (1João 3,18).

Talvez, quando a tela iluminar novamente o rosto pela manhã, possamos lembrar que antes da conexão existe vocação. Somos chamados a ser sal e luz (Mateus 5,13-16). O sal preserva da corrupção. A luz revela o que estava oculto. Isso vale também para o ambiente digital. Não para alimentar vaidades, mas para iluminar consciências. Não para acumular seguidores, mas para construir comunhão (Hebreus 10,24-25).

A verdadeira inovação não nasce de códigos sofisticados. Nasce de um coração renovado (Ezequiel 36,26). Um coração convertido ao amor e comprometido com a justiça atravessa qualquer fronteira, inclusive a digital. Porque, no fim, não é o algoritmo que transforma o mundo.

É o Evangelho vivido.

E a pergunta permanece aberta, silenciosa e urgente: que tipo de presença você escolhe ser quando ninguém está olhando, mas todos estão conectados?



DNonato

Um breve olhar sobre Marcos 7,14-23

 


A perícope de Marcos 7,1-23 ocupa um lugar decisivo na pedagogia litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na quarta-feira da 5ª Semana do Tempo Comum e, em seu núcleo essencial (Mc 7,1-8.14-15.21-23), no 22º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Não se trata de uma escolha casual. No Tempo Comum, quando a comunidade é conduzida à maturidade do discipulado, a Palavra nos desloca do conforto das práticas externas para a radicalidade da conversão interior. A liturgia, ao repetir esse texto em momentos distintos do ano, insiste que a fé bíblica não pode ser reduzida a formalismos religiosos, mas exige uma integração profunda entre culto e vida, entre tradição e justiça.

O contexto imediato é a controvérsia com fariseus e escribas vindos de Jerusalém (Mc 7,1). A presença de autoridades religiosas da capital sugere tensão crescente no ministério de Jesus. O motivo aparente é a observância das “tradições dos antigos”, especialmente as purificações rituais antes das refeições (Mc 7,3-4). Marcos explica aos leitores gentílicos o significado dessas práticas, indicando que escreve para uma comunidade que já vive além das fronteiras do judaísmo palestinense. A questão, porém, não é meramente higiênica, mas identitária. No judaísmo do Segundo Templo, as normas de pureza eram instrumentos de resistência cultural diante da dominação estrangeira. Guardar a Lei significava preservar a aliança. O Salmo 19 celebra a Torá como perfeita e fonte de vida (Sl 19,8-11). A Lei é dom, não opressão.

Jesus não ataca a Lei enquanto revelação divina; Ele denuncia sua instrumentalização. Ao citar Isaías 29,13 — “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7,6) — Ele insere o debate na tradição profética que sempre combateu o culto desvinculado da justiça. Isaías 1,11-17 já havia rejeitado sacrifícios acompanhados de violência social; Amós 5,21-24 proclamara que Deus despreza festas religiosas quando o direito é sufocado; Miquéias 6,6-8 sintetizara a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. O problema não está na tradição, mas na tradição erigida como absoluto que obscurece o mandamento maior do amor (Dt 6,5; Lv 19,18).

Em Mc 7,8-13, Jesus acusa seus interlocutores de invalidarem a Palavra de Deus por causa de tradições humanas. O exemplo do “corbã” — oferta declarada ao Templo que podia isentar alguém do cuidado com os paisrevela a perversão de um sistema religioso que, sob aparência de piedade, relativiza o quarto mandamento (Ex 20,12). A hermenêutica de Jesus não abole a Escritura; ela a reconduz à sua finalidade: proteger a vida e a dignidade. Aqui se delineia um princípio exegético fundamental: toda interpretação que esvazia o amor concreto contradiz o espírito da revelação. Mateus 23 ecoa essa crítica ao denunciar quem paga o dízimo da hortelã, mas negligencia “o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23). Lucas 11,39-42 reforça o mesmo contraste entre exterior e interior.

Quando Jesus convoca novamente a multidão e proclama: “Nada há fora do homem que, entrando nele, possa torná-lo impuro; mas o que sai do homem é que o torna impuro” (Mc 7,15), Ele desloca o eixo do debate. A pureza deixa de ser categoria ritual para tornar-se categoria ética e relacional. Na antropologia bíblica, o coração (leb/kardía) é o centro da decisão e da liberdade. “O Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). Jeremias denuncia sua ambiguidade (Jr 17,9) e anuncia a promessa de uma Lei inscrita no interior (Jr 31,33). Ezequiel fala de um coração novo e de um espírito novo (Ez 36,26-27). Jesus realiza essa promessa ao recentrar a moral na interioridade transformada.

A lista de vícios apresentada em Mc 7,21-23 dialoga com o Decálogo (Ex 20; Dt 5) e com os catálogos paulinos (Rm 1,29-31; Gl 5,19-21; 1Cor 6,9-10). Prostituições, roubos, homicídios, adultérios e cobiças revelam que o mal brota de disposições internas que se traduzem em práticas sociais. O Sermão da Montanha aprofunda essa interiorização: a ira já participa do homicídio (Mt 5,21-22), o olhar cobiçoso já fere a fidelidade (Mt 5,27-28). A pureza evangélica não é separação ritual, mas integridade do desejo. O Salmo 51 resume essa espiritualidade: “Criai em mim, ó Deus, um coração puro” (Sl 51,12).

Marcos acrescenta uma observação teológica decisiva: ao afirmar que os alimentos não tornam impuro o ser humano, Jesus “declarava puros todos os alimentos” (Mc 7,19). Essa nota editorial antecipa a abertura universal do Evangelho. Em Atos 10, Pedro compreende, diante da visão dos animais considerados impuros, que Deus não faz acepção de pessoas (At 10,34-35). Paulo proclamará que em Cristo “não há judeu nem grego” (Gl 3,28) e que o Reino não consiste em comida ou bebida, mas em justiça, paz e alegria no Espírito (Rm 14,17). A superação das barreiras alimentares simboliza a superação de muros étnicos e religiosos.

Do ponto de vista sociológico, normas de pureza funcionam como marcadores de identidade e mecanismos de coesão. Elas delimitam pertencimento. A antropologia cultural mostra como tabus alimentares estruturam comunidades. Contudo, quando tais mecanismos se absolutizam, transformam-se em exclusão. Jesus não dissolve a identidade de Israel; Ele a radicaliza na lógica da misericórdia. O mal não reside no contato com o diferente, mas na disposição interior que instrumentaliza a religião para manter privilégios. Aqui se revela a dimensão política do texto: a fé não pode servir como ferramenta de poder.

A psicologia contemporânea reconhece que comportamentos destrutivos emergem de padrões internos cultivados ao longo do tempo. Ressentimento, inveja e ambição desordenada produzem violência simbólica e concreta. Jesus antecipa essa leitura ao identificar no coração a fonte das ações. A conversão, portanto, não é cosmética moral, mas reconfiguração da consciência. Paulo fala da “transformação pela renovação da mente” (Rm 12,2). A filosofia moral, de Aristóteles a Kant, também percebe que a virtude nasce do hábito interior e da retidão da intenção. O Evangelho converge ao afirmar que a ética autêntica brota de um coração reconciliado.

Essa Palavra confronta correntes religiosas contemporâneas. A teologia da prosperidade associa bênção divina ao sucesso econômico, ignorando a advertência de Jesus contra toda forma de ganância (Lc 12,15) e sua identificação com os pobres (Lc 4,18; Mt 25,40). A teologia do domínio, que sacraliza projetos de poder, contrasta com o Cristo que se faz servo (Mc 9,35) e rejeita a tentação de governar segundo os padrões do mundo (Mt 4,8-10). O individualismo religioso reduz a fé a experiência privada, esquecendo que o pecado tem dimensão estrutural (Is 10,1-2) e que a salvação possui alcance comunitário (At 2,42-47). A fé transformada em mercadoria contradiz a gratuidade da graça (Ef 2,8-9) e o gesto de Jesus que expulsa os vendilhões do Templo (Mc 11,15-17).

Aqui vale a pena ressaltar,  quando ministros religiosos se refugiam em formalismos,  nos  protocolos e rubricas  do culto autêntico distanciam-se do sofrimento real, reproduzem a lógica denunciada por Cristo. O lava-pés (Jo 13,14-15) redefine autoridade como serviço. O Concílio Vaticano II afirma que a consciência é o núcleo mais secreto do ser humano, onde ele se encontra com Deus (Gaudium et Spes 16), e recorda que a Palavra deve ser acolhida e vivida (Dei Verbum 21). A Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual que busca glória humana sob aparência religiosa (EG 93), e a Fratelli Tutti critica sistemas que produzem descarte e exclusão (FT 18-22). A Laudato Si’ conecta a crise ecológica à desordem interior que rompe a harmonia com a criação (LS 66). Marcos 7 ilumina essas advertências: a impureza que contamina o mundo nasce de corações desordenados.

No cenário atual, marcado por polarizações ideológicas, manipulações religiosas e desigualdades gritantes, a perícope ressoa como juízo profético. Discursos que utilizam o nome de Deus para legitimar autoritarismos realizam aquilo que Ezequiel denunciou: profanar o santo nome entre as nações (Ez 36,20-23). Jesus adverte contra quem limpa o exterior do copo enquanto o interior está cheio de rapina (Mt 23,25). Tiago lembra que a religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas (Tg 1,27). Paulo insiste que sem amor nada somos (1Cor 13,2). O critério permanece concreto: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35).

O símbolo da mesa, presente no debate sobre alimentos, aponta para comunhão. Comer juntos significa partilhar vida. Ao declarar puros os alimentos, Jesus prepara o caminho para a mesa eucarística onde diferentes se tornam um só corpo (1Cor 10,16-17). A verdadeira pureza é comunhão reconciliada. A impureza é ruptura da fraternidade. A tradição cristã compreendeu que a santidade não é fuga do mundo, mas compromisso com sua transformação. “Sede santos, porque eu sou santo” (Lv 19,2; 1Pd 1,16) significa refletir o amor justo de Deus na história.

Assim, a proclamação litúrgica de Marcos 7 nos coloca diante de uma escolha permanente. Podemos cultivar uma religião de aparências, confortável e socialmente respeitável, ou permitir que a Palavra penetre até dividir alma e espírito (Hb 4,12). A conversão começa no interior, mas não termina ali; ela se manifesta em estruturas mais justas, em relações reconciliadas, em políticas que promovam a dignidade humana. O coração renovado gera sociedade renovada.

A súplica do salmista torna-se programa de vida: “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12). Essa oração não é intimismo alienante, mas abertura ao Espírito que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). O Evangelho nos chama a recomeçar de dentro para fora, unindo fé e justiça, culto e vida, interioridade e compromisso histórico. Só assim a comunidade cristã será sinal do Reino que não se constrói por exclusões, mas por reconciliação. A santidade proposta por Jesus é concreta, relacional e transformadora. Ontem como hoje, ela permanece urgente.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,1-13.

Há textos do Evangelho que não escandalizam por dizer algo novo, mas por dizer o óbvio que se prefere esquecer. Marcos 7,1-13 pertence a essa categoria. Ele não trata de heresias doutrinais nem de debates abstratos, mas da distância perigosa entre fé professada e vida vivida. Proclamado na liturgia da terça-feira da 5ª Semana do Tempo Comum, nos Anos impat e par do Lecionário Romano, este Evangelho se insere num tempo aparentemente comum, mas espiritualmente decisivo: o tempo em que a fé deixa o abrigo das grandes solenidades e se mede com o cotidiano concreto da existência. O Tempo Comum não é intervalo neutro; é o chão onde a Palavra encontra a vida real, com suas contradições sociais, políticas, religiosas e existenciais.

É exatamente nesse chão que a religião corre maior risco de se deformar. Quando o sagrado se transforma em hábito automático, o rito se dissocia da ética e a linguagem religiosa deixa de tocar a realidade, instala-se uma fé funcional, capaz de manter estruturas, mas incapaz de gerar conversão. Por isso, Marcos 7, 1-13  não ocupa um lugar periférico no itinerário litúrgico da Igreja. Trata-se de um núcleo crítico do Evangelho, onde está em jogo a fé como caminho de humanização ou como mecanismo de controle. Aqui não se discute apenas uma prática ritual, mas a própria possibilidade de uma vida reconciliada diante de Deus. O Evangelho ganha contornos ainda mais incisivos quando lido num tempo marcado pela instrumentalização da fé, pela mercantilização do sagrado e pela sacralização de projetos de poder. Marcos nessa perícope  atravessa práticas religiosas, estruturas e discursos piedosos como lâmina profética que separa tradição viva de tradição morta, fé encarnada de religião vazia. O texto não acusa indivíduos isolados; ele desvela um sistema religioso que perdeu o vínculo com a vida.

O contexto histórico ajuda a compreender a radicalidade do confronto. Marcos escreve para uma comunidade atravessada por tensões culturais e religiosas, formada por cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A explicação detalhada dos costumes de purificação das mãos, dos utensílios e dos leitos (Mc 7,3-4) indica que seus destinatários não dominavam esses códigos. A exegese deixa claro que essas explicações não servem para reforçar as práticas, mas para relativizá-las. O problema não é higiene, mas halakhah: um sistema normativo que nasceu com intenção legítima:   preservar a identidade do povo após o exílio babilônico, mas que, com o tempo, absolutizou a tradição oral a ponto de sufocar a vida.

Não é irrelevante que os fariseus e escribas venham de Jerusalém. Jerusalém não é apenas um ponto geográfico; é o centro simbólico do poder religioso. Dali emanam interpretações oficiais da Lei, critérios de pureza e fronteiras entre quem pertence e quem deve ser excluído. Ao observarem os discípulos comendo sem lavar as mãos, não fazem uma constatação neutra, mas exercem vigilância moral e controle simbólico. A antropologia cultural mostra que ritos de purificação funcionam como marcadores de identidade e mecanismos de separação social. Quem não os cumpre ameaça a ordem estabelecida. A resposta de Jesus não entra no jogo técnico da casuística religiosa. Ele desmonta o sistema pela raiz. Ao citar Isaías 29,13 — “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, insere-se conscientemente na longa tradição profética de Israel. Amós denuncia cultos que não produzem justiça (Am 5,21-24). Isaías rejeita jejuns que não libertam os oprimidos (Is 58,6-7). Jeremias desmascara a falsa segurança no Templo (Jr 7,1-11). O Salmo 50 afirma que Deus não precisa de sacrifícios, mas de fidelidade. Em 1Samuel 15,22, ouve-se que obedecer é melhor que sacrificar. Jesus não rompe com essa tradição; ele a resgata de sua captura religiosa.

Quando Jesus desloca o foco para o coração, mobiliza a antropologia bíblica. O coração não é o lugar das emoções passageiras, mas o centro da decisão ética e da escuta de Deus (Dt 6,5; Pr 4,23). Um coração distante produz uma religião funcional, mas não relacional. Práticas religiosas que não alcançam a consciência geram dissociação interior. A psicologia contemporânea reconhece que a ruptura entre discurso e prática produz culpa, rigidez moral e projeção do mal no outro. Uma fé exteriorizada tende ao controle; uma fé integrada gera liberdade interior e responsabilidade ética. O exemplo dos religiosos preocupados  em construir salas é predios,l e evitar o cuidado com os  mais pobres, revelando  uma religião  instrumentalizada.  legitimando  a quebra de vínculos  essenciais para vivermos a fé cristã. Jesus confronta diretamente Êxodo 20,12 e Deuteronômio 5,16. A tradição bíblica insiste que a aliança com Deus passa pelo cuidado com o outro, especialmente os mais frágeis (Eclo 3,1-16). A ciência histórica confirma que, nas sociedades antigas, o cuidado com os idosos era sinal de coesão social. Quando a religião justifica o abandono, ela se converte em idolatria.

Os paralelos sinóticos reforçam essa leitura. Mateus 15,1-9 retoma a crítica ao culto vazio. Lucas 11,37-44 denuncia a obsessão pela pureza exterior enquanto o interior permanece cheio de injustiça. Em Marcos 2,27, Jesus afirma que o sábado foi feito para o ser humano. Esse é um princípio hermenêutico decisivo: toda norma existe para servir à vida. A tradição que mata deixa de ser tradição e se transforma em caricatura religiosa.

O símbolo da mesa atravessa silenciosamente todo o texto. Comer juntos é sinal de comunhão, pertencimento e igualdade. As refeições de Jesus com pecadores (Mc 2,15-17) já haviam escandalizado o sistema religioso. A mesa eucarística, denunciada por Paulo quando se torna espaço de desigualdade (1Cor 11,17-34), confirma que não existe culto autêntico onde alguns têm pão e outros têm fome. Toda mesa que separa em nome de Deus contradiz o Deus que se oferece como pão.

A crítica alcança também a oração. Em diálogo com Mateus 6,5-6, fica claro que orar em segredo não é negar a dimensão comunitária da fé, mas purificar a intenção. A oração como espetáculo religioso transforma Deus em plateia e o fiel em ator. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) mostra que a oração sem conversão reforça a injustiça. O Catecismo recorda que a oração é relação viva e pessoal com Deus (CIC 2558), não capital simbólico.

A oração autêntica reorganiza a vida inteira. Jesus ora antes das decisões (Lc 6,12), no meio da missão (Mc 1,35) e na angústia extrema (Mc 14,32-42). Contemplação e ação não se opõem. O ativismo sem oração esgota; a oração sem compromisso aliena. O Concílio Vaticano II afirma que não existe fé cristã desconectada da história humana (GS 1).

A vigilância emerge como eixo dessa espiritualidade integrada. “Vigiai e orai” (Mc 14,38) é convite à lucidez, não ao medo. Pedro liga vigilância à oração (1Pd 4,7). Paulo associa vigilância à sobriedade histórica (Rm 13,11-14). Vigilância cristã é consciência crítica: não naturalizar a injustiça, não espiritualizar a violência, não sacralizar sistemas que produzem exclusão.

O Salmo 127 recorda que toda ação humana perde o sentido quando se absolutiza. “Se o Senhor não constrói a casa…” é crítica à autossuficiência, não convite à passividade. A Doutrina Social da Igreja insiste que desenvolvimento sem justiça não é progresso, mas regressão. Documentos da CNBB reafirmam que evangelizar é promover vida digna. Fé e política não se confundem, mas a fé jamais pode se omitir.

Nesse ponto, o tripé: profecia, sacerdócio e reinado aparece como síntese da missão cristã:

  •  Profecia não é previsão do futuro, mas desvelamento do presente; impede que a injustiça se normalize (Lc 4,18-19). Sacerdócio não é privilégio, mas mediação solidária entre a dor do povo e o coração de Deus (Hb 5,1-2). 
  • Reinado não se expressa no domínio, mas no serviço (Mc 10,42-45). O Vaticano II afirma que essa tríplice missão pertence a todo o povo de Deus (LG 10-13). Quando a Igreja abdica da profecia para preservar prestígio, reduz o sacerdócio a ritualismo e confunde reinado com influência política, deixa de ser sinal do Reino.

À luz desse Evangelho, torna-se inevitável a crítica às teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso. Elas deslocam o centro da fé para o sucesso pessoal, transformam a graça em mercadoria e Deus em instrumento. A fé capturada por lógicas de dominação deixa de questionar o poder e passa a servi-lo. O Evangelho apresenta um Messias pobre, itinerante e crucificado (Lc 2,7; Mt 8,20; Mc 15). A prosperidade bíblica está ligada à justiça, à fidelidade e ao cuidado com os vulneráveis (Sl 1; Jr 17,5-8).

Essa crítica alcança o clericalismo, entendido como deformação da autoridade eclesial. Jesus proíbe a lógica do poder entre os seus (Mt 23,8-12). O Papa Francisco denunciava  o clericalismo como raiz de crises eclesiais. A CNBB insiste na sinodalidade, na escuta do povo e na conversão pastoral. Autoridade cristã só se legitima quando vivida como serviço.

Diante de uma realidade marcada por fome, violência, racismo, intolerância religiosa e destruição ambiental, Marcos 7,1-13 impede uma fé indiferente. A criação geme (Rm 8,22). Orar sem escutar esse gemido é repetir a religião denunciada por Jesus. A fé cristã não torna ninguém superior; torna-se critério de responsabilidade histórica.

Marcos  não oferece soluções fáceis. Ele desinstala para reconstruir. No Tempo Comum, onde nada parece extraordinário, o Evangelho revela sua força mais subversiva: denunciar uma religião que fala de Deus, mas se afasta da vida. A Palavra não rejeita a tradição, mas a liberta do que a sufoca; não condena o culto, mas exige que tenha cheiro de gente; não despreza a oração, mas recusa que ela sirva de álibi para a indiferença. 

No chão aparentemente comum da existência cotidiana, o Evangelho continua a derrubar cercas, a misturar mesas e a lembrar que Deus não habita mãos lavadas por medo, mas corações convertidos pela misericórdia. Ali, longe dos holofotes do poder religioso, a fé reencontra sua verdade mais simples e mais exigente: amar a Deus passa, inevitavelmente, por cuidar da vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 6,53-56

A perícope de Marcos 6,53-56, proclamada na segunda-feira da quinta semana do Tempo Comum (Anos I e II), surge na liturgia cotidiana da Igreja com uma discrição que desafia a atenção desatenta. Lida sem a solenidade das grandes festas, ela corre o risco de ser percebida apenas como um "resumo de cura" entre grandes discursos. No entanto, essa aparente simplicidade litúrgica contrasta vivamente com a densidade teológica do texto. A liturgia, ao inserir este trecho no ritmo ordinário do Tempo Comum, parece afirmar intencionalmente que a lógica do Reino de Deus não pertence exclusivamente ao extraordinário ou às teofanias no topo da montanha, mas ao cotidiano ferido e poeirento da história humana. Nesta passagem, Jesus e seus discípulos atracam em Genesaré, uma planície fértil e populosa. O ato de "atracar" aqui simboliza o enraizamento do Verbo na realidade humana crua. O Evangelho deixa de ser um apêndice devocional da vida para se tornar sua chave interpretativa fundamental. Marcos escreve para uma comunidade que vivia sob a sombra do Império Romano, marcada pela perseguição, pela pobreza e pela marginalização. Para esses cristãos, e para nós hoje, a narrativa funciona como uma catequese encarnada: não há dicotomia entre o sagrado e o profano, pois a presença de Jesus santifica a praça pública, os leitos dos doentes e as bordas das cidades.

O texto situa-se imediatamente após dois episódios decisivos: a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44) e a travessia de Jesus sobre as águas (Mc 6,45-52). Esses três quadros formam uma unidade teológica. No primeiro, Jesus enfrenta a fome estrutural; no segundo, atravessa o caos; no terceiro, toca os corpos feridos. A fome, o medo e a doença não aparecem como fatalidades naturais, mas como expressões de uma ordem social injusta. A exegese marcana mostra que o Evangelho não separa jamais o anúncio do Reino das condições concretas da vida. A travessia do lago, símbolo bíblico do caos primordial (cf. Gn 1,2; Sl 69,2), prepara o leitor para compreender que o poder de Jesus não é mágico, mas libertador: Ele caminha sobre aquilo que paralisa e ameaça a vida.

É  preciso  destaca que, assim que Jesus saiu do barco, o povo "imediatamente o reconheceu". Ampliando a reflexão, este "reconhecimento" é o primeiro passo da fé operante. Em um mundo onde os pobres eram invisíveis aos olhos do poder e da religião oficial, o povo simples desenvolve um olhar aguçado para a verdadeira autoridade. A reação é epidêmica: "percorreram toda a região" e "começaram a trazer os doentes". Há uma pressa sagrada na narrativa de Marcos — uma urgência que denuncia nossa letargia espiritual. A multidão não espera; ela entende que o tempo da graça (kairós) invadiu o tempo cronológico (chronos), e que a oportunidade de salvação é agora.

O autor  apresenta a  dimensão sacramental da matéria. O texto diz que os doentes imploravam para tocar "ao menos a orla do seu manto" 

  • O Símbolo: A orla (possivelmente o tzitzit judaico) representa a observância da Lei e a santidade de Deus.
  • O Gesto: Ao permitir ser tocado, Jesus subverte a lógica de pureza da época, onde tocar um doente ou um fluxo de sangue tornaria o mestre impuro.
  • A Consequência: Aqui, a santidade de Jesus não é contaminada pela doença, mas a sua virtude "contagia" o doente com a cura.

​Portanto, ao meditarmos sobre Marcos 6,53-56, somos convidados a ver que cada gesto de Jesus carrega implicações espirituais, sociais e políticas. Ele transforma o espaço público em santuário e valida a fé daqueles que, mesmo sem palavras teológicas sofisticadas, sabem que basta um toque na humanidade de Cristo para que a vida seja restaurada.

Se faz necessário  saber  que  ao chegar a Genesaré, território fértil às margens do lago da Galileia, Jesus é imediatamente reconhecido. Marcos utiliza o verbo epiginōskō, que indica um reconhecimento profundo, não superficial. Não se trata de fama religiosa, mas de identificação existencial. O povo reconhece Jesus porque sua presença devolve sentido onde havia abandono. Esse reconhecimento não passa pelo Templo nem pelas autoridades religiosas, mas pelos corpos marcados pela dor. Há aqui uma crítica implícita à mediação institucional da fé. Diferente dos es8cribas e fariseus, Jesus não é reconhecido por títulos, mas pela vida que brota ao seu redor. Como afirma o Evangelho de João: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5), e são os que vivem nas trevas da história que primeiro a percebem.

A Galileia do século I era uma região explorada economicamente, submetida a tributos romanos e herodianos, com crescente concentração de terras e empobrecimento dos camponeses. A ciência histórica e a sociologia bíblica demonstram que a doença estava intimamente ligada à miséria, à má alimentação, às condições precárias de vida e ao estresse social. Além disso, a legislação cultual transformava muitos doentes em impuros, excluindo-os da convivência comunitária (Lv 13–15). O corpo adoecido era também um corpo socialmente descartado. Marcos escreve sabendo disso. Por isso, quando descreve o povo correndo pelas aldeias e cidades para trazer os doentes, ele está revelando um movimento de resistência coletiva: a vida se organiza para encontrar a Vida.

Os doentes são colocados nas praças. Esse detalhe é decisivo. A praça (agorá) é o espaço público por excelência, lugar do comércio, das decisões políticas, do convívio social. Marcos desloca a doença do espaço privado e escondido para o centro da vida social. A teologia do Evangelho confronta diretamente toda espiritualidade que privatiza o sofrimento e o transforma em problema individual. A dor é social, e sua cura também precisa ser. Isaías já denunciava o jejum que ignora o corpo ferido do outro (Is 58,3-7). Jesus assume essa tradição profética e a radicaliza com sua presença. Onde a religião escondia, Ele expõe; onde a sociedade silenciava, Ele escuta.

O pedido do povo para tocar a orla do manto de Jesus carrega uma densidade simbólica profunda. A orla remete às franjas prescritas em Números 15,37-41, sinal da Aliança, memória concreta da Lei no corpo. Tocar a orla é tocar a fidelidade de Deus à sua promessa. Marcos já havia apresentado esse gesto na narrativa da mulher com hemorragia (Mc 5,25-34), estabelecendo um paralelo intencional. Em ambos os textos, o toque rompe barreiras religiosas, sociais e psicológicas. A mulher era considerada impura; os doentes de Genesaré, igualmente. O gesto revela uma fé que não pede autorização ao sistema religioso para existir.

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o toque é linguagem primária de reconhecimento e pertencimento. Jesus não cura por decreto, mas por proximidade. Em uma sociedade marcada pelo isolamento, pelo medo do corpo do outro e pela virtualização das relações, esse Evangelho recupera a centralidade da presença. A salvação passa pelo encontro. Isso desmonta qualquer teologia que reduza a fé a fórmulas, ritos automáticos ou promessas de sucesso. A cura acontece na relação, não na técnica; no vínculo, não no objeto.

Marcos afirma que todos os que tocavam em Jesus eram curados, mas o próprio Evangelho relativiza qualquer leitura mágica dessa afirmação. Em Nazaré, Jesus não pôde realizar muitos sinais por causa da incredulidade (Mc 6,5). A hermenêutica bíblica exige ler o texto no conjunto da obra. A cura é sinal, não garantia. Ela aponta para o Reino, não o esgota. A salvação que Jesus oferece é integral, mas não alienante. Ela não elimina automaticamente o sofrimento histórico, mas inaugura uma nova forma de atravessá-lo. A cruz permanece no horizonte do Evangelho. O mesmo Jesus que cura em Genesaré será rejeitado, torturado e executado pelo poder político-religioso (Mc 15).

Marcos 6,53-56 desmonta as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem sucesso individual em troca de práticas religiosas. Essas correntes transformam Deus em instrumento de ascensão social e culpabilizam os pobres por sua própria miséria. O Evangelho de Marcos segue na direção oposta. Jesus se identifica com os feridos da história, não com os vencedores do sistema. Jeremias denuncia os profetas que anestesiam a dor do povo com discursos religiosos vazios (Jr 6,14). Tiago é ainda mais contundente ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17). A fé que não se traduz em justiça social é idolatria.

Marcos também critica o individualismo religioso. Ninguém se cura sozinho. Os doentes são levados por outros. A comunidade se torna mediadora da vida. Paulo retoma essa lógica ao afirmar que o corpo de Cristo sofre e se alegra junto (1Cor 12,26). A salvação cristã é sempre relacional. Isso confronta uma espiritualidade autocentrada, consumista e meritocrática, muito presente no cenário religioso contemporâneo.

Há ainda uma crítica radical aos donos do sagrado religiosos. Jesus não controla o acesso à graça, não exige pureza prévia, não transforma o cuidado em privilégio de poucos. Ele se deixa tocar, se expõe, se mistura. Oséias já havia anunciado que Deus prefere misericórdia a sacrifício (Os 6,6). O Concílio Vaticano II recupera essa intuição ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminhada histórica (Lumen Gentium, 9). O clericalismo, ao absolutizar funções e hierarquias, trai essa eclesiologia e se afasta do Evangelho.

Os documentos do CELAM aprofundam essa leitura à luz da realidade latino-americana. Medellín denuncia as estruturas de pecado que produzem pobreza e doença. Puebla reconhece nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Cristo crucificado. Aparecida convoca a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro das periferias existenciais (DAp 372). O Papa Francisco retomou  essa tradição profética ao afirmou que prefere uma Igreja ferida por sair às ruas a uma Igreja doente por se fechar (Evangelii Gaudium, 49).

Na atualidade é inevitável não ver os fatos.  Os doentes continuam sendo colocados nas praças: hospitais públicos sucateados, filas intermináveis por atendimento, territórios periféricos abandonados, populações negras e indígenas expostas à violência estrutural, trabalhadores adoecidos e pela lógica neoliberal, pessoas em sofrimento psíquico invisibilizadas. A  nossa realidade  mostra que a doença continua atravessada por classe, raça e território. Espiritualizar essa realidade é negar o Evangelho.

​Marcos 6,53-56 não é apenas um relato de milagres; é uma bússola que nos reconduz ao núcleo da fé cristã. Ao vermos Jesus caminhando pelas praças e povoados, entendemos que a maior cura não é o simples reestabelecimento biológico, mas a restauração integral das relações humanas e divinas. A vida eterna, como define João 17,3, é conhecer a Deus no chão concreto e poeirento da história, longe das abstrações de uma espiritualidade desencarnada. Vivemos tempos perigosos onde pedir milagres é legítimo, mas transformar o Deus da Vida em um produto de consumo religioso é a mais sutil das idolatrias. O Evangelho de hoje nos lança um desafio inadiável: precisamos sair dos templos para tocar as feridas reais do povo, assim como o povo buscava tocar a orla do manto de Jesus. Porém, esse toque exige uma contrapartida: permitir que Cristo toque e desmonte nossas estruturas eclesiais endurecidas, nossas teologias muitas vezes estéreis e nossas práticas clericalizadas que afastam os pequeninos. Se a nossa fé não se traduzir em compaixão visceral, em denúncia profética das injustiças e em compromisso irrenunciável com os pobres, ela não passará de um ornamento religioso, vazio de sentido. O Evangelho é fiel à sua lógica radical: ele não veio para decorar o mundo, mas para salvá-lo.

E ainda podemos nos interrogar olhando para  Marcos 6,53-56:  O que resta em nossos corações?  Resta a certeza de que a fé cristã não acontece em laboratórios teológicos, mas na poeira da estrada, no encontro humano. A cura verdadeira é, e sempre será, a restauração do amor e das relações. Jesus nos ensina que a vida eterna é conhecer o Pai no 'agora' da nossa história (Jo 17,3), abraçando a realidade como ela é. Mas fica o alerta severo: há uma linha tênue entre a devoção sincera e o consumismo espiritual. Buscar a Deus pelo milagre é humano; usar Deus como produto é idolatria. O convite hoje é para que saiamos de nossa zona de conforto religiosa. Precisamos ter a ousadia de tocar as feridas abertas de nossa sociedade. E, mais difícil ainda, precisamos deixar que Jesus toque as áreas endurecidas de nossa própria religiosidade — nossas certezas absolutas, nosso clericalismo, nossas teologias que não geram vida. Se a nossa fé não nos leva a chorar com os que choram e a lutar pelos pobres, ela é apenas um adereço estético. O Evangelho é fogo que arde e transforma; ele jamais aceitará ser uma fé decorativa em nossa vida."



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano