domingo, 26 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 10,11-18

 

A perícope de Evangelho de João 10,11-18 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, ela é proclamada no Quarto Domingo da Páscoa do ano B, conhecido como Domingo do Bom Pastor, e também na segunda-feira da quarta semana da Páscoa no ano par sendo continuidade do Evangelho de Domingo do ano A , inserindo-se no tempo pascal, quando a comunidade celebra a vitória da vida sobre a morte e contempla o Ressuscitado como aquele que continua a conduzir o seu povo na história, conforme a promessa de Mateus 28,20. Não se trata apenas de recordar um evento passado, mas de reconhecer a presença viva daquele que, como em Hebreus 13,20, é o grande pastor das ovelhas. No domingo, a Igreja reza pelas vocações, recordando que toda vocação nasce do chamado daquele que conhece cada ovelha pelo nome, como em João 10,3. Em outros ciclos litúrgicos, o mesmo capítulo aparece em variações, articulado com Atos 4,8-12, onde Cristo é a pedra rejeitada que se torna angular, e 1 João 3,1-2, que revela a dignidade filial dos que são chamados filhos de Deus.

O texto joanino se insere no fluxo narrativo iniciado em João 9, com a cura do cego de nascença. Ali, cumpre-se o sinal anunciado em Isaías 35,5, onde os olhos dos cegos se abrem. No entanto, a reação das autoridades revela o cumprimento paradoxal de Isaías 6,9-10, onde ver não significa necessariamente compreender. O homem curado, que passa das trevas à luz, ecoando João 8,12, é expulso da comunidade, revelando uma estrutura religiosa incapaz de acolher a ação de Deus. É nesse contexto que a metáfora do pastor emerge como contraponto. O cego curado torna-se imagem da ovelha que escuta a voz do pastor, enquanto os líderes religiosos se aproximam da figura denunciada em Ezequiel 34,2, que se apascentam a si mesmos.

O pano de fundo veterotestamentário ilumina profundamente essa afirmação. Em Ezequiel 34,11-16, o próprio Deus declara que buscará suas ovelhas, reunindo-as e cuidando delas. O Salmo 23,1 afirma “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”, revelando uma confiança que atravessa a experiência do sofrimento, como no vale da sombra da morte em Salmo 23,4. Jeremias 23,1-4 denuncia os pastores que dispersam o rebanho, enquanto Zacarias 11,4-17 apresenta a tragédia de lideranças corruptas. Ao afirmar “Eu sou o bom pastor” (João 10,11), Jesus não apenas retoma essas tradições, mas cumpre a promessa divina, assumindo um papel que remete diretamente à identidade de Deus.

A expressão kalós, traduzida como bom, revela uma plenitude que vai além da moralidade. Trata-se da beleza do amor que se manifesta em ação, em contraste com o mercenário descrito em João 10,12-13. A afirmação de que o pastor dá a vida pelas ovelhas encontra ressonância em Isaías 53,4-7, onde o servo sofre em favor de muitos, e em Marcos 10,45, onde o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. Em João 10,18, Jesus afirma que entrega sua vida livremente, revelando uma obediência amorosa que ecoa Filipenses 2,6-8. Essa entrega culmina na cruz, mas não termina nela, pois, como afirma João 10,17, ele retoma sua vida, apontando para a ressurreição.

Essa entrega possui uma dimensão eucarística profunda. Em João 6,51 que refletimos na  quinta feira da terceira semana da Páscoa, Jesus se apresenta como o pão vivo descido do céu, cuja carne é dada para a vida do mundo. A relação entre pastoreio e alimento revela que o cuidado de Deus se concretiza na partilha. Em 1 Coríntios 10,16-17, a comunhão no pão e no cálice expressa a unidade do corpo. A Eucaristia torna visível o amor do pastor que não apenas conduz, mas se dá como alimento.

A figura do mercenário revela uma crítica que atravessa a história. Em Zacarias 13,7, o ferimento do pastor provoca a dispersão das ovelhas, mas no caso de Jesus, sua entrega gera unidade. O mercenário, por não ter vínculo, abandona o rebanho diante do perigo, em contraste com o cuidado constante descrito em 1 Pedro 5,2-4, onde os pastores são chamados a apascentar o rebanho de Deus com dedicação. Essa oposição revela uma tensão permanente entre serviço e exploração.

O conhecimento mútuo entre o pastor e as ovelhas, em João 10,14-15, reflete a intimidade da relação entre o Pai e o Filho, como em João 17,21. Esse conhecimento não é superficial, mas existencial, como em Gálatas 4,9, onde conhecer a Deus implica ser conhecido por Ele. Trata-se de uma relação de amor que transforma.

A menção às outras ovelhas em João 10,16 amplia o horizonte da missão, em consonância com Isaías 49,6, onde a luz se estende às nações. Essa universalidade encontra eco em Mateus 28,19 e Atos 1,8. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, afirma que a Igreja é sinal da unidade de todo o gênero humano, superando divisões e exclusões.

A tensão com as autoridades religiosas revela o cumprimento de Jeremias 2,8, onde os pastores se desviam, e de Miqueias 3,11, que denuncia líderes que julgam por interesse. Jesus, ao contrário, encarna o pastor prometido em Ezequiel 34,23. O Documento de Aparecida retoma essa imagem ao chamar a Igreja a ser missionária e próxima dos pobres. A CNBB insiste na necessidade de uma presença pastoral comprometida com a realidade social.  Em Mateus 6,24, Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em 2 Pedro 2,1-3, há um alerta contra falsos mestres que exploram o povo. Em 1 Timóteo 6,5, denuncia-se a fé usada como fonte de lucro. Essas advertências permanecem atuais diante de práticas que transformam a religião em instrumento de poder. A lógica do Reino, ao contrário, se manifesta na kenosis, no esvaziamento, como em Filipenses 2,7.

A imagem do pastor adotada por Jesus responde à busca humana por orientação, como em Provérbios 3,5-6, que convida a confiar no Senhor. No entanto, há o risco de alienação, denunciado em Colossenses 2,8, que alerta contra filosofias enganosas. O discernimento espiritual, como em 1 João 4,1, torna-se essencial para distinguir o verdadeiro do falso.

A  nossa realidade, marcada por sofrimento e desigualdade, encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 9,36, onde ele vê as multidões como ovelhas sem pastor. A resposta divina não é abandono, mas envio, como em João 20,21. A parábola da ovelha perdida, em Lucas 15,4-7, revela um Deus que busca incansavelmente. João 10,11-18 revela não apenas a identidade de Jesus, mas o critério de toda liderança. Em Apocalipse 7,17, o Cordeiro é também pastor, conduzindo às fontes de água viva. Seguir o bom pastor implica assumir sua lógica de amor, serviço e entrega. Implica viver o mandamento de João 13,34, amar como ele amou.

O Bom Pastor não é uma memória estática, mas presença ativa na história. Ele continua a falar, a convocar, a inquietar consciências endurecidas. Como em Ez 18,30, sua voz não negocia com a injustiça, mas chama à conversão concreta, a uma mudança de rota que envolve estruturas e práticas. Não se trata de uma espiritualidade intimista, mas de uma reorientação da vida inteira. Sua voz se reconhece onde o direito corre como água e a justiça como um rio que não seca (Am 5,24). Em um mundo marcado por desigualdades gritantes, exploração do trabalho e descarte de vidas, escutar o Pastor exige posicionamento. Não há escuta autêntica sem compromisso com a dignidade humana. Por isso, Ele também nos recorda: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). Aqui está uma crítica permanente a toda religião vazia, ritualista, que preserva aparências enquanto ignora o sofrimento real das pessoas. Misericórdia, na tradição bíblica, não é sentimento superficial, mas prática concreta de cuidado, justiça restaurativa e solidariedade.

Escutar sua voz é entrar no caminho (Jo 14,6), que não é ideologia nem fuga do mundo, mas seguimento encarnado. Ignorá-lo é permanecer na dispersão, na lógica do individualismo que fragmenta e desumaniza. O rebanho, na imagem joanina, não é massa passiva, mas comunidade que reconhece, discerne e responde. Seguir o Bom Pastor é participar do seu mistério pascal (Rm 6,4): morrer para as lógicas de morte  egoísmo, indiferença, violência e ressurgir para uma vida nova, marcada pela partilha, pela justiça e pela esperança ativa. É deixar-se plasmar por um amor que vai “até o fim” (cf. Jo 13,1), um amor que não recua diante do conflito, nem se curva aos poderes que produzem morte.

Assim, à luz de Jo 10,11-18, o Pastor que dá a vida pelas ovelhas nos revela que a autoridade verdadeira não domina, mas se entrega. Ele não explora o rebanho, como fazem os mercenários de ontem e de hoje  figuras que podem ser reconhecidas tanto em sistemas políticos excludentes quanto em práticas religiosas clericalistas que se distanciam do povo. O Cristo Pastor desmascara essas lógicas e inaugura um novo modo de conduzir: pelo serviço, pela proximidade e pela doação. Por isso, a conclusão não pode ser apenas contemplativa, mas necessariamente ética e profética: acolher o Bom Pastor é assumir sua causa. É fazer da própria vida um espaço onde a vida floresça para todos, especialmente para os mais vulneráveis. Como Ele mesmo afirma, veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Essa abundância não é acúmulo, mas plenitude compartilhada. 

Segui o Bom Pastor, portanto, é tornar-se também sinal dessa vida no meio da história: uma Igreja e uma sociedade que escutam, discernem e agem, comprometidas com o Reino que já desponta, mas ainda pede mãos, vozes e coragem para se tornar visível.

DNonato - Apenas uma Ovelha do rebanho o

sábado, 25 de abril de 2026

MENSAGEM DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO DE DEUS

A mensagem dos Bispos no final  da 62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em Aparecida, nasce de um envio que não permite acomodação. “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Não é palavra para enfeitar celebração. É direção de vida. 

Se percebe  uma sintonia com Papa Leão XIV e no caminho aberto por Papa Francisco, os bispos recordam que a Igreja ou é sinodal ou perde o Evangelho de vista. Sinodalidade não é moda eclesial. É conversão de mentalidade. É sair da lógica de poder e entrar na dinâmica do serviço. Pelo Batismo, todos têm voz, dignidade e responsabilidade. Onde isso não acontece, algo do Evangelho foi silenciado. A paz aparece como dom e tarefa. Não nasce de discursos religiosos vazios, mas de corações converstidos e de relações justas. A Escritura já denunciava isso quando ligava paz e justiça como inseparáveis. Falar de paz ignorando a fome, a violência e a exclusão é espiritualizar o sofrimento alheio. É fé sem encarnação.

O texto valoriza os leigos, reconhece os jovens como presença viva de Deus e reafirma o cuidado com a Casa Comum. Aqui há um ponto decisivo. A fé cristã não é fuga do mundo, é compromisso com ele. Quem comunga o Corpo de Cristo e ignora o corpo ferido do povo não entendeu a Eucaristia. A mesa do altar e a mesa da vida não podem estar separadas. Mas é preciso dizer com honestidade. Há distância entre o que se afirma e o que se vive. Fala-se de comunhão, mas a Igreja ainda carrega divisões internas. Fala-se de participação, mas o clericalismo continua fechando portas. Fala-se dos jovens, mas muitos já não encontram sentido em estruturas que não escutam. Fala-se da criação, mas pouco se muda no concreto.

A nossa  observação  aqui não é contra a Igreja. É em favor de sua fidelidade ao Evangelho. Como lembram os profetas, Deus não se deixa impressionar por palavras quando a justiça não se torna prática. A fé que não toca a realidade corre o risco de se tornar ideologia religiosa.

No fim, a mensagem é clara. O envio de Cristo continua atual. A Igreja é chamada a viver o que anuncia. Menos discurso autorreferencial e mais presença junto aos pobres, mais escuta verdadeira, mais coragem de mudar estruturas que já não servem ao Reino. Se isso for assumido, a mensagem deixa de ser apenas um documento e se torna caminho. Caso contrário, será mais um texto correto, mas incapaz de transformar a vida. E o Evangelho nunca foi neutro nem decorativo. Ele sempre exigiu decisão.

Vamos a mensagem   e tire você  mesmo sua  conclusão.

DNonato -  Em comunhão  com a Igreja  Sinodal 

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Jesus disse de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21)

Reunidos em Aparecida, junto à Padroeira do Brasil, nós, Bispos Católicos, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da CNBB, de 15 a 24 de abril, dirigimos esta mensagem de esperança e unidade a todo o Povo de Deus. Fortalecidos pela oração, reafirmamos o compromisso de evangelizar, sendo uma Igreja Sinodal que escuta, acolhe e serve a Jesus Cristo com amor e fidelidade.

Unimo-nos ao Papa Leão XIV em seu profético empenho pela paz, que não pode ser um ideal distante, mas uma realidade concreta. Exortamos todos a reconhecer que a paz, dom do Ressuscitado, brota da conversão dos corações, do diálogo fraterno e da solidariedade com os mais pobres.

O Batismo é a fonte de todas as vocações e, por meio dele, somos chamados à santidade e à comunhão. Revestidos todos da mesma dignidade, tornamo-nos corresponsáveis pela missão da Igreja, qualquer que seja o ministério que exerçamos. Nesta harmonia, reconhecemos a riqueza dos dons e carismas que, na diversidade dos ministérios, dinamizam o serviço na Igreja e na sociedade.

Manifestamos nossa gratidão a todo o Povo de Deus, que se mantém fiel no seguimento a Jesus Cristo, e expressamos nossa proximidade a todos os cristãos leigos e leigas, consagrados e consagradas, e ministros ordenados que sofrem calúnias e agressões por seu compromisso com o Evangelho, principalmente junto aos pobres e na defesa da Casa Comum.

Pedimos a todos um esforço contínuo pela unidade, fazendo de nossas comunidades ambientes onde o diálogo se manifeste na superação das polarizações. Empenhemo-nos na valorização da diversidade dos dons, onde todos os ministérios sejam vividos como serviço ao próximo, num caminho de comunhão, participação e missão.

Somos gratos aos cristãos leigos e leigas, chamados a ser sal da terra e luz do mundo nas realidades sociais e eclesiais (cf. Mt 5,13-16). Enaltecemos, igualmente, a vocação matrimonial e a família, cuja missão reside em gerar e cuidar da vida, na educação das novas gerações e na transmissão da fé.

Esse mesmo olhar queremos dirigir aos diáconos e presbíteros, chamados, a exemplo do Bom Pastor, a serem conosco os primeiros, dentre o Povo de Deus, servidores na comunidade e dispensadores da graça sacramental, construindo um caminho de unidade e comunhão. Reconhecemos também a importância da vida consagrada e seu compromisso missionário, especialmente junto aos mais fragilizados, como um sinal profético de doação da própria vida e um testemunho da alegria no discipulado.

Iluminados pelo magistério do Papa Francisco, que nos animou a ser uma “Igreja em saída”, reconhecemos o trabalho incansável de todos os fiéis que se dedicam às iniciativas de cuidado dos pobres e da Casa Comum, atuando nas periferias geográficas e existenciais. A doação de suas vidas, nesta missão, impulsiona-nos a uma sensibilidade e abertura missionária permanentes.

Agradecemos, de modo especial, a todos os jovens presentes em nossas comunidades. Vocês são o “agora de Deus”, e nos ajudam a ser uma Igreja viva e renovada. Ao mesmo tempo, convidamos todas as lideranças eclesiais a acolherem e caminharem junto aos jovens, no cuidado, na escuta e no discernimento.

Convidamos todos a um renovado compromisso na construção da cultura vocacional, fazendo de nossas comunidades espaços de encontro, testemunho e missão. Ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, em cada domingo, unamo-nos na oração pelas vocações e pela perseverança dos que se colocam a serviço da evangelização.

Neste espírito de comunhão, como um só corpo (cf. Rm 12,5), assumamos, com renovado ardor, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Elas são a expressão concreta de nossa acolhida ao caminho sinodal, que nos leva a redescobrir a beleza da variedade das vocações, carismas e ministérios.

Somos uma Igreja ministerial e, sob o olhar amoroso da Virgem Aparecida, Mãe das Vocações, renovamos nosso compromisso de evangelizar, anunciando Jesus Cristo com alegria e esperança, para que cheguemos à plenitude do Reino de Deus.

Aparecida – SP, 24 de abril de 2026.
62ª Assembleia Geral da CNBB

Dom Jaime Cardeal Spengler 
 Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre – RS 
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia – GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife – PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília – DF 
Secretário-Geral da CNBB


Um outro Olhar sobre João 10,1-10 / Domingo do Bom Pastor

 
No quarto domingo do Tempo Pascal, a Igreja Católica proclama, de forma recorrente, o capítulo 10 do Evangelho de João no ano A  João 10,1-10 que  é proclamado  no  ano impar na  segunda-feira logo após o domingo do pastor  e  temos  uma reflexão de 2023. O Evangelho  se  articula com Atos 2,14a.36-41, o Salmo 23 e 1Pedro 2,20b-25. Trata-se de um eixo litúrgico consolidado também em outras tradições históricas, como a Comunhão Anglicana e as Igrejas oriundas da Reforma Luterana, que reconhecem neste domingo uma síntese da identidade de Cristo como Pastor e da vocação da comunidade como rebanho. Desde a reforma do Concílio Vaticano II, este domingo foi deslocado para o quarto da Páscoa, preservando sua ligação com a experiência pascal de vida nova. Não se trata de uma imagem bucólica, mas de uma chave hermenêutica para compreender a Igreja, o poder, a fé e a vida.

A primeira leitura, Atos 2,14a.36-41, nos coloca no coração do evento fundante da Igreja. Pedro se levanta no contexto de Pentecostes e proclama com parresia que Jesus, rejeitado e crucificado, foi constituído Senhor e Cristo. A força do texto não está apenas na afirmação cristológica, mas no efeito que ela provoca. O verbo grego usado indica que os ouvintes foram “traspassados no coração” (At 2,37). Trata-se de uma experiência existencial profunda, quase visceral. A Palavra não informa, ela transforma. Diante disso, surge a pergunta ética e comunitária: “Que devemos fazer?” A resposta de Pedro não é intimista nem espiritualista. Ele convoca à conversão concreta, ao batismo, à inserção em uma comunidade que rompe com a lógica da morte. Há aqui uma dimensão pastoral implícita. O apóstolo começa a exercer um pastoreio que não manipula, mas conduz à verdade, mesmo quando essa verdade confronta. Esse movimento ecoa o que já estava inscrito na tradição bíblica. Em Números 27,17, Moisés suplica a Deus que não deixe o povo “como ovelhas sem pastor”. A liderança, portanto, não é privilégio, é responsabilidade diante de um povo vulnerável. Em Atos, Pedro assume esse lugar, mas não como dono do rebanho, e sim como servidor da Palavra que o precede.

O Salmo 23, por sua vez, oferece a moldura espiritual dessa experiência. “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” não é uma frase de conforto superficial, mas uma profissão de confiança em meio à precariedade. O texto percorre imagens densas. Pastagens verdejantes evocam sustento, águas tranquilas indicam repouso restaurador, o vale da sombra da morte aponta para a travessia do sofrimento. O salmista não nega a realidade dura, mas afirma a presença de Deus dentro dela. A vara e o cajado, instrumentos do pastor, não são símbolos de violência, mas de proteção e orientação. Na cultura do antigo Oriente, o pastor caminhava à frente, expondo-se primeiro ao perigo. Essa imagem prepara a compreensão cristológica que será aprofundada no Evangelho.

A segunda leitura, 1Pedro 2,20b-25, introduz uma dimensão ainda mais radical. Cristo é apresentado como aquele que, sofrendo injustamente, não revidou, não ameaçou, mas entregou-se àquele que julga com justiça. O texto afirma que “éreis como ovelhas desgarradas, mas agora retornastes ao pastor e guardião de vossas vidas” (1Pd 2,25). Aqui, o pastoreio assume uma dimensão terapêutica e existencial. O ser humano é visto como alguém em dispersão, em perda de sentido, e o retorno ao Pastor é também um processo de reintegração interior. Psicologicamente, isso revela que o seguimento de Cristo não é fuga da realidade, mas caminho de integração da própria história, inclusive das feridas.

Antes de chegar ao Evangelho, é fundamental perceber que a imagem do pastor atravessa toda a Escritura de forma progressiva e histórica e aqui podemos  destacar  os seguintes: 

  •  Abel:  Gênesis 4,2-4; aparece como o primeiro pastor da tradição bíblica. Sua oferta, tirada das primícias e da gordura de seu rebanho, revela uma espiritualidade marcada pela entrega do melhor a Deus. A narrativa indica que não é apenas o ato de oferecer, mas a qualidade da relação com Deus que está em jogo. Abel inaugura uma lógica de culto que denuncia toda religiosidade vazia.
  • Abraão:  Gênesis 13,2-7; Apresentado como homem rico em rebanhos. Sua vida nômade expressa uma economia pastoral que exige discernimento e gestão de conflitos, como na separação de Ló. A promessa divina caminha junto com a precariedade e a mobilidade, desinstalando qualquer pretensão de posse absoluta.
  • Isaac:  Gênesis 26,12-14;  amplia os rebanhos herdados, tornando-se muito rico. Sua prosperidade, porém, gera inveja e conflito. O texto evidencia que a bênção não isenta das tensões sociais, exigindo maturidade e capacidade de diálogo.
  • Jacó:  Gênesis 30,25-43;  revelando a complexidade do pastoreio. Entre estratégias e conflitos com Labão, o texto expõe relações de trabalho marcadas por disputa e negociação. O cuidado com o rebanho aparece entrelaçado com a luta por justiça e sobrevivência.
  • Moisés: Êxodo 3,1-6;  chamado enquanto apascenta o rebanho de Jetro. O deserto, lugar marginal, torna-se espaço de revelação. Deus se manifesta no cotidiano, mostrando que o cuidado humilde é terreno fértil para o encontro com o sagrado.
  • Davi: 1Samuel 16,11-13;  retirado do pastoreio para ser ungido rei. Sua experiência revela que a liderança nasce do cuidado concreto com a vida. Deus subverte critérios humanos e denuncia estruturas elitistas. Em 1Samuel 17,34-37, ao enfrentar Golias, Davi recorda sua prática como pastor, protegendo o rebanho do leão e do urso. A coragem brota da experiência vivida, não de discursos.
  • Raquel: Gênesis 29,9, Raquel é apresentada como pastora, conduzindo o rebanho de seu pai Labão. Sua presença rompe a invisibilização feminina no trabalho pastoral. Em termos antropológicos, o texto revela que o cuidado com os rebanhos não era exclusivamente masculino. Raquel encarna a mulher que trabalha, sustenta e participa ativamente da economia familiar, desafiando leituras patriarcais que tentam reduzir seu papel.
  • Séfora:  Êxodo 2,16-21, ligada à tradição de Moisés, também participa desse universo Filha de Jetro, sacerdote de Madiã, Séfora está inserida em uma família de pastores. Ainda que o texto destaque mais diretamente suas irmãs no ato de dar água ao rebanho, ela participa desse contexto pastoral. A narrativa revela mulheres que defendem seu espaço diante da opressão dos pastores violentos, até a intervenção de Moisés. Há aqui uma denúncia clara das relações de poder abusivas no campo.
  • As sete filhas de Jetro:  Êxodo 2,16-17 — exercem diretamente o pastoreio: tiram água, conduzem e protegem o rebanho. São, porém, expulsas por outros pastores, evidenciando práticas de violência e apropriação do trabalho alheio. A intervenção de Moisés não apaga o dado central do texto: mulheres trabalhadoras ocupavam esse espaço e enfrentavam relações desiguais de poder. A perícope, lida com atenção ao seu contexto sociocultural, desmonta a ideia de que o cuidado pastoral era exclusivamente masculino e expõe, sem idealização, um cenário de conflito, opressão e necessidade de justiça.

Esse conjunto de tradições revela que o pastoreio, na Escritura, ultrapassa a dimensão econômica e se configura como escola de vida, de fé e de responsabilidade social. No cotidiano áspero do cuidado com o rebanho, homens e mulheres são formados para discernir, proteger e conduzir. Ao mesmo tempo, os textos funcionam como crítica interna: denunciam desigualdades, abusos e estruturas que desumanizam. Daí emerge um princípio teológico consistente: a autoridade legítima não nasce de títulos ou discursos religiosos, mas do compromisso concreto com a vida, especialmente a vida vulnerável, mas  tempo de Jesus, os pastores ocupavam um lugar social ambíguo. Não eram “impuros” no sentido técnico da Lei, mas eram vistos com suspeita e mantidos à margem. A própria dinâmica do trabalho ajuda a compreender isso. Viviam em regime contínuo, algo próximo de uma escala 7×7 ou 6×1, cuidando do rebanho dia e noite. Essa condição concreta dificultava a observância rigorosa das práticas religiosas, a frequência ao culto e o cumprimento detalhado das normas de pureza. A marginalização, portanto, não era apenas teológica, mas também econômica e social. Tratava-se de gente atravessada pela dureza do trabalho, pela instabilidade e pela invisibilidade.

É nesse cenário que o Evangelho de Lucas afirma que o anúncio do nascimento de Jesus chega primeiro a esses pastores que estavam no campo, vigiando seus rebanhos durante a noite Lc 2,8-20. A escolha é profundamente teológica. Deus não se revela prioritariamente aos centros de poder aos  clerigos / religioso daquele tempo, mas àqueles cuja vida concreta os coloca fora desses circuitos. Há aqui uma ruptura com a lógica de uma religião que mede a proximidade com Deus pela capacidade de cumprir normas, leis, ignorando as condições reais da existência.

Os profetas já havia preparado esse horizonte crítico. Jeremias 23 denuncia os pastores que dispersam e deixam perecer o rebanho, expondo lideranças que, em vez de cuidar, produzem abandono. Ezequiel 34 aprofunda essa denúncia ao afirmar que, diante da falência das lideranças humanas, o próprio Deus assumirá o pastoreio, buscará as ovelhas perdidas, cuidará das feridas e fortalecerá as fracas. A imagem do pastor deixa de ser apenas funcional e se torna critério ético e teológico.  Ao trazer esse quadro para o presente, o paralelo com os pastores de hoje se impõe de forma exigente. Bispos, Presbíteros, Diaconos  e ouros religiosos católico, pastores e  líderes protestantes já não vivem a marginalização social dos antigos pastores do tempo de Jesus. Em muitos casos, estão inseridos em estruturas consolidadas, com reconhecimento institucional e visibilidade pública. O risco, portanto, desloca-se. Não é mais a exclusão que ameaça a vocação pastoral, mas a acomodação ao poder, ao prestígio e às lógicas que esvaziam o cuidado concreto e o ministério se torna espaço de privilégio, perde-se a dimensão do serviço. O pastor deixa de caminhar com o rebanho e passa a se colocar acima dele. Isso rompe a lógica do Evangelho, onde autoridade é serviço e liderança é cuidado.

Do ponto de vista sociológico e pastoral, surgem tensões evidentes. O clericalismo transforma o ministério em posição de superioridade. A mercantilização da fé submete o cuidado pastoral à lógica do mercado. A instrumentalização ideológica da religião aproxima lideranças de projetos de poder que pouco têm a ver com o Evangelho. Em todos esses casos, repete-se, sob novas formas, a crítica de Jeremias e Ezequiel. Pastores que deveriam cuidar acabam dispersando, ferindo ou abandonando.

Por outro lado, permanece viva a presença de pastores e pastoras que, mesmo inseridos em instituições, escolhem o caminho da proximidade. Estão junto ao povo, escutam, acompanham, defendem a vida ameaçada e assumem os riscos dessa fidelidade. Neles, a imagem bíblica recupera sua densidade. São sinais de que o pastoreio, quando vivido como serviço, continua sendo escola de humanidade e de fé.  O critério, ontem e hoje, permanece o mesmo. A autenticidade do pastor não se mede pelo título, mas pela prática. Onde há cuidado real, compromisso com os mais vulneráveis e disposição de dar a vida, ali se reconhece o traço do Deus que, diante da falência das lideranças, decide Ele mesmo pastorear o seu povo. Onde há distanciamento, exploração e indiferença, a linguagem religiosa pode permanecer, mas já não expressa o coração do Evangelho.

É nesse horizonte que João 10 precisa ser lido. Quando Jesus se apresenta como o Bom Pastor Jo 10,11, ele não apenas assume uma metáfora, mas encarna a resposta divina à crise das lideranças. Ele conhece, chama pelo nome e dá a vida, em contraste direto com o mercenário que abandona o rebanho e  o ponto de partida honesto exige reconhecer que João 10,1-10 não nasce como discurso isolado, mas como resposta direta ao conflito narrado em João 9. Ali, Jesus encontra um homem cego de nascença, alguém cuja condição não era apenas física, mas social e religiosa. No imaginário da época, doença e pecado estavam entrelaçados. Curar aquele homem era também romper um sistema simbólico que legitimava exclusões. Ao curá-lo, Jesus não apenas devolve a visão, mas restitui dignidade. O que segue é revelador. As autoridades religiosas, incapazes de lidar com o inesperado de Deus, interrogam, pressionam e finalmente expulsam o homem da sinagoga. A instituição, que deveria ser espaço de encontro com Deus, torna-se mecanismo de exclusão. É nesse cenário que Jesus pronuncia a metáfora da porta e do pastor. Não é uma parábola neutra, é uma denúncia. Quando Ele afirma que quem não entra pela porta é ladrão e assaltante, está nomeando um tipo de liderança religiosa que se apropriou do povo. A linguagem é dura porque a realidade é dura. A religião, quando capturada por interesses de poder, deixa de ser mediação de Deus e passa a ser instrumento de controle.

A imagem da porta carrega uma densidade teológica que não pode ser reduzida a uma frase devocional. No ambiente pastoral da Palestina, o redil era um espaço de proteção, mas também de limitação. A porta regulava entrada e saída, acesso e circulação. Ao dizer “Eu sou a porta” (Jo 10,7), Jesus não está oferecendo um slogan espiritual, mas redefinindo o acesso a Deus. Não é mais o templo, não é mais o sistema sacrificial, não é mais a mediação institucional fechada. É Ele. Isso ecoa a crítica profética de textos como Jeremias 7, onde o templo é denunciado como “covil de ladrões”. A porta é Cristo porque nele a relação com Deus deixa de ser mediada por estruturas de exclusão e passa a ser relação viva. Ao mesmo tempo, Ele se apresenta como pastor. A tradição bíblica já havia preparado esse caminho. O Salmo 23 não é poesia ingênua, é uma profissão de fé em meio à vulnerabilidade. “Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte” (Sl 23,4) revela que o pastoreio não elimina o sofrimento, mas o atravessa. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores de Israel que exploram o rebanho, que se alimentam das ovelhas em vez de cuidar delas. A promessa é clara. O próprio Deus virá apascentar seu povo. Em João 10, essa promessa ganha rosto. A escolha dessa imagem é teologicamente subversiva. Deus não se revela a partir do centro do poder, mas a partir das bordas da sociedade. A encarnação já havia indicado isso em Lucas 2, quando os primeiros a receber o anúncio são pastores. João radicaliza essa lógica. O próprio Cristo assume essa identidade.

A relação entre pastor e ovelha, do ponto de vista antropológico, é construída na convivência. A ovelha reconhece a voz porque convive. Não há seguimento sem relação. Isso desmonta modelos religiosos baseados em medo, imposição ou manipulação emocional. A voz do Pastor não se impõe pela força, mas pela verdade que ressoa na experiência. “Ele chama pelo nome” (Jo 10,3) indica singularidade. Em um mundo que transforma pessoas em massa, Cristo devolve o nome. Atos 2,14a.36-41 apresenta a consequência dessa revelação na vida comunitária. Pedro, diante da multidão, não suaviza o anúncio. “A este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2,36). A palavra fere, atravessa, provoca conversão. A reação não é conforto, é inquietação. “Que devemos fazer?” A resposta não é mágica. É conversão concreta, mudança de vida, inserção em uma comunidade que rompe com a lógica anterior. Aqui começa a Igreja como rebanho que escuta e responde.

A Primeira Carta de Pedro aprofunda a dimensão existencial desse seguimento. Cristo é apresentado como aquele que sofreu injustamente e não revidou (1Pd 2,23). Isso não é passividade, é fidelidade radical. Ele é o pastor que não abandona o rebanho quando o lobo chega. Em termos psicológicos, isso confronta a lógica da autopreservação a qualquer custo. Seguir esse Pastor implica aceitar um caminho que passa pela cruz, não como glorificação da dor, mas como resistência ao mal sem reproduzi-lo.  A figura do mercenário, descrita em João 10, não é abstrata. Ela se manifesta em lideranças que transformam fé em produto, púlpito em palanque, comunidade em mercado. A chamada teologia da prosperidade é uma das expressões mais evidentes dessa distorção. Promete vida em abundância, mas redefine abundância como acúmulo individual, rompendo com o Evangelho que aponta para partilha e justiça.

Documentos como a Evangelii Gaudium denunciam com clareza essa lógica ao afirmar que essa economia mata. O Documento de Aparecida reafirma que a fé cristã não pode ser separada da opção pelos pobres. O Gaudium et Spes recorda que não há verdadeira humanidade sem justiça. Ignorar isso é transformar o Pastor em mercenário. Há também uma dimensão política que não pode ser ignorada. Quando setores religiosos se alinham a projetos autoritários, legitimando exclusões, violências e desigualdades, estão, na prática, recusando a porta que é Cristo e escalando o muro. A instrumentalização da fé por ideologias de extrema direita não é um detalhe periférico. É uma negação do Evangelho. O Cristo que conhece pelo nome não pode ser reduzido a um símbolo de ordem excludente.

A imagem das ovelhas também precisa ser resgatada da romantização. Elas são frágeis, sujas, vulneráveis. Isso não é defeito, é condição. A espiritualidade autêntica começa quando se abandona a ilusão de pureza e se reconhece a própria necessidade de cuidado. O Pastor não ama uma idealização, ama a realidade concreta. Ele não conduz um rebanho perfeito, mas um povo em processo.

A narrativa de Jacó, em Gênesis 30, com as ovelhas manchadas, lembra que a vida não é homogênea. Há diversidade, conflito, ambiguidade. O pastoreio verdadeiro não elimina essa complexidade, mas a assume. Ele não constrói uma comunidade uniforme, mas reconciliada.

No horizonte final, permanece a pergunta fundamental:   De quem é a voz que estamos seguindo?  

Em um mundo saturado de discursos, ideologias e manipulações, discernir tornou-se uma urgência espiritual e política. A voz do Pastor não se confunde com gritos de poder. Ela se reconhece pela capacidade de gerar vida, de incluir, de restaurar.

“Eu vim para que tenham vida” (Jo 10,10) não é uma promessa abstrata. É um critério. Onde há morte, exclusão, violência e exploração, ali não está o Pastor. Onde há cuidado, justiça, verdade e misericórdia, ali sua voz ressoa. Este domingo não é apenas contemplação de uma imagem, é confronto com uma escolha. Ser ovelha é aprender a escutar. Ser pastor, quando necessário, é assumir responsabilidade. Ser porta é abrir caminhos. Recusar-se a isso é tornar-se cúmplice de sistemas que roubam, matam e destroem.

A oração pelas vocações, neste contexto, deixa de ser formalidade e deve se  torna clamor:  

  •  Senhor Jesus Cristo, Bom Pastor, Tu que conheces as tuas ovelhas e por elas dás a vida (Jo 10,14-15),faz da tua Igreja um sinal vivo do teu cuidado e da tua presença no mundo.Desperta, no meio do teu povo, vocações autênticas,homens e mulheres capazes de viver a radicalidade do Evangelho, não como função ou prestígio, mas como entrega, serviço e compaixão.Purifica a tua Igreja de todo espírito mercenário,de todo interesse que não nasce do amor,de toda lógica de poder que transforma o rebanho em massa e número.Converte os corações endurecidos, e faz surgir pastores segundo o teu coração (Jr 3,15), que não fujam diante do lobo,mas permaneçam com o povo, sobretudo nas feridas da história.Liberta o teu rebanho da passividade e do medo, para que volte a ser comunidade viva, corpo consciente e solidário, onde cada pessoa seja reconhecida pelo nome e pela dignidade. Que a tua porta permaneça aberta (Jo 10,9), não para a dispersão sem verdade,mas como caminho de vida plena,vida que não se compra, não se manipula, não se controla,porque é dom gratuito do Pai. Senhor, afasta de nós tudo o que não vem de ti e confirma-nos na tua verdade. Sê tu mesmo o Pastor que guia, corrige e sustenta a tua Igreja. Por Cristo, o Bom Pastor, nosso Senhor.
Amém...

DNonato — entre tropeços e graça, uma ovelha do Bom Pastor

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 16,15-20 - Festa de São Marcos Evangelista

 
A perícope de Marcos 16,15-20 é proclamada, na liturgia da Igreja Católica romana, na festa de São Marcos Evangelista, celebrada em 25 de abril, inserida no Tempo Pascal, quando a Igreja contempla a expansão da vida nova inaugurada pela ressurreição. Este texto também aparece em celebrações missionárias,  em contextos catequéticos ligados ao envio apostólico é a continuação direta do Evangelho proclamado no sábado da Oitava de Páscoa Marcos 16, 9-15. Nas Igrejas do Oriente, especialmente na tradição bizantina e copta, Marcos é venerado como fundador da comunidade de Alexandria, o que acrescenta ao texto uma dimensão eclesial profundamente enraizada na história concreta da missão. Assim, esta passagem não é apenas uma conclusão narrativa, mas uma síntese litúrgica e teológica da identidade da Igreja como comunidade enviada.

O chamado “final longo” de Marcos (Mc 16,9-20) revela uma riqueza textual que exige atenção exegética. Os manuscritos mais antigos, como o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, encerram o Evangelho em Marcos 16,8, onde o silêncio e o temor das mulheres diante do túmulo vazio criam uma abertura dramática. Esse final abrupto não é um defeito, mas um recurso literário e teológico. Ele coloca o leitor dentro da narrativa, convocando-o a responder. O acréscimo posterior, que inclui os versículos 9-20, surge no contexto da vida da Igreja primitiva, que já experimentava a missão e precisava expressar, de forma mais explícita, o envio universal e os sinais que o acompanham. A tradição, portanto, não é estática, mas dinâmica, como já indicava Lucas em Atos 1,1-2 ao afirmar que Jesus continuou a agir através dos apóstolos.

Uma curiosidade relevante sobre Marcos, tradicionalmente identificado como João Marcos (At 12,12), é sua ligação com Pedro. A Primeira Carta de Pedro o chama de “meu filho” (1Pd 5,13), indicando uma relação de discipulado e proximidade. A tradição patrística, especialmente em Papias de Hierápolis, afirma que Marcos foi intérprete de Pedro, registrando suas memórias sobre Jesus. Isso ajuda a compreender o estilo do Evangelho, marcado por vivacidade, urgência e detalhes concretos, como em Marcos 4,38, onde Jesus dorme sobre uma almofada, ou em Marcos 10,50, quando Bartimeu lança fora o manto. Esses elementos sugerem uma fonte testemunhal viva.

Outra observação significativa está no possível contexto de redação. Muitos estudiosos situam o Evangelho de Marcos em Roma ou em um ambiente influenciado pela cultura romana, por volta da década de 70 d.C., possivelmente após a perseguição de Nero e a destruição de Jerusalém (70 d.C.), evento também relacionado ao anúncio de Marcos 13,1-2. Isso significa que o texto nasce em um contexto de sofrimento, perseguição e crise. A comunidade para a qual Marcos escreve experimenta medo, incerteza e violência. Nesse cenário, o anúncio da ressurreição e o envio missionário não são triunfalistas, mas profundamente enraizados na resistência da fé.

Quando Jesus declara “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), ele amplia o horizonte iniciado em Gênesis 1, onde toda a criação é destinatária da bênção divina. A expressão “toda criatura” não se limita ao ser humano, mas aponta para uma visão cósmica da redenção, que ecoa em Romanos 8,19-22, onde Paulo fala da criação que geme aguardando a libertação. O Evangelho, portanto, não é apenas uma mensagem religiosa, mas uma força de restauração integral da vida.

O versículo seguinte afirma que “quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16), o que dialoga com João 3,5, onde Jesus fala do nascimento da água e do Espírito, e com Atos 2,38, onde Pedro convoca à conversão e ao batismo. A salvação aqui não é um conceito abstrato, mas uma transformação concreta da existência, que envolve adesão a Cristo e inserção na comunidade. Ao mesmo tempo, o texto alerta para a rejeição da mensagem, indicando que a liberdade humana permanece intacta.

Os sinais que acompanham os que creem (Mc 16,17-18) encontram paralelos em diversos textos. A expulsão de demônios remete à prática constante de Jesus, como em Marcos 1,25-27 e 5,1-20, onde a libertação do endemoninhado geraseno revela o poder restaurador do Reino. Falar em novas línguas se conecta com Atos 2,4 e 10,46, indicando a universalidade da missão e a ação do Espírito que rompe fronteiras culturais. A resistência ao veneno encontra eco simbólico em Lucas 10,19, onde Jesus afirma que os discípulos terão autoridade para pisar serpentes e escorpiões. A cura dos enfermos, por sua vez, está no centro da prática de Jesus, como em Marcos 2,1-12 e 6,13, onde os discípulos já participam dessa missão.

Esses sinais, quando interpretados à luz da antropologia e da sociologia, revelam uma comunidade que se posiciona contra tudo o que nega a vida. O demônio, no mundo bíblico, não é apenas uma entidade espiritual, mas também uma representação das forças que alienam, oprimem e desintegram a pessoa. Expulsar demônios hoje implica enfrentar estruturas de exclusão, como a pobreza extrema, o racismo estrutural e a violência institucional. A linguagem das “novas línguas” pode ser compreendida como a capacidade de diálogo em um mundo fragmentado, onde a comunicação muitas vezes se torna instrumento de manipulaçã. A fé, quando autêntica, gera liberdade, coragem e capacidade de enfrentar o sofrimento. No entanto, quando distorcida, pode se tornar instrumento de controle. É aqui que se torna necessária uma crítica profética às formas de religião que instrumentalizam esses textos para legitimar práticas abusivas. A espetacularização dos milagres, a promessa de imunidade ao sofrimento e a associação da fé com sucesso material são distorções que traem o Evangelho.

Jesus, ao longo de Marcos, nunca promete ausência de dor. Pelo contrário, ele anuncia a cruz como caminho inevitável (Mc 8,31; 9,31; 10,33-34). Em Marcos 13,9-13, ele prepara os discípulos para perseguições, prisões e ódio. A verdadeira fé não elimina o sofrimento, mas o ressignifica à luz da esperança. A teologia da prosperidade, ao ignorar essa dimensão, reduz o Evangelho a um contrato utilitarista, esvaziando sua profundidade. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja. Isso implica uma missão encarnada, que não se distancia da realidade. O documento Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI, reforça que a evangelização deve atingir não apenas as pessoas, mas também as estruturas. Na América Latina, Medellín denuncia as “estruturas de pecado” que geram injustiça, enquanto Puebla reafirma a opção preferencial pelos pobres como critério de autenticidade da fé. Aparecida, por sua vez, convoca a uma Igreja em saída, missionária, em sintonia com o envio de Marcos 16,15.

Nesse contexto, torna-se inevitável uma crítica ao uso da religião como ferramenta de poder. Quando líderes religiosos se alinham a projetos políticos autoritários, utilizando a fé para legitimar exclusão e violência, ocorre uma inversão do Evangelho. A mensagem de Jesus, que em Lucas 4,18-19 se apresenta como libertação para os oprimidos, não pode ser reduzida a ideologia. A aproximação de discursos religiosos com extremismos políticos revela uma crise de discernimento que precisa ser enfrentado.  Jesus, em Marcos 9,35, afirma que quem quiser ser o primeiro deve ser o último de todos e o servo de todos. Essa lógica subverte as estruturas de poder e redefine a liderança como serviço.

A conclusão de Marcos 16,19-20 apresenta a ascensão de Jesus e a continuidade da missão. A imagem de Cristo sentado à direita de Deus remete ao Salmo 110,1 e expressa sua participação na autoridade divina. Ao mesmo tempo, o texto afirma que os discípulos saíram a pregar, e o Senhor cooperava com eles. Essa cooperação revela uma teologia da missão como sinergia entre graça e liberdade. Deus age, mas conta com a resposta humana. A narrativa de Atos 1,8 amplia essa perspectiva ao afirmar que os discípulos serão testemunhas até os confins da terra. Essa expansão geográfica é também uma expansão existencial. A missão alcança todos os espaços onde a vida está ameaçada. Em Mateus 25,31-46, o critério do juízo final é o cuidado com os mais vulneráveis. Isso mostra que a proclamação do Evangelho não se limita à palavra, mas se concretiza em gestos de misericórdia.

Na realidade contemporânea, marcada por desigualdades profundas, violência urbana, crise ecológica e manipulação ideológica, o envio de Marcos 16 ressoa como um chamado urgente. A fé cristã não pode se acomodar a sistemas que produzem morte. Ela é, por essência, uma força de transformação. Isso exige uma conversão contínua, como indica Romanos 12,2, que convida a não se conformar com este mundo, mas a se transformar pela renovação da mente..A festa de São Marcos Evangelista, portanto, não é apenas memória de um autor, mas celebração de uma tradição viva que continua a interpelar a Igreja. Marcos, com sua escrita direta e intensa, nos lembra que o Evangelho não é um discurso elaborado para elites, mas uma boa notícia para todos, especialmente para os que vivem nas margens. Sua narrativa, marcada pela urgência do termo “imediatamente” (euthys), convida a uma resposta concreta e sem adiamentos.

Assim, o texto de Marcos 16,15-20 permanece como um chamado aberto. Ele não encerra o Evangelho, mas o projeta na história. Cada comunidade, cada pessoa, é convidada a continuar essa narrativa, não com palavras vazias, mas com uma vida que testemunha a força do Ressuscitado. E nesse testemunho, a Igreja se torna sinal de esperança, não porque domina, mas porque serve, não porque impõe, mas porque ama, não porque se alia ao poder, mas porque se coloca ao lado dos crucificados da história, anunciando, com gestos e palavras, que a vida venceu a morte e continua a vencer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Entre o Pão de cada dia e a Consciência - João 6, 35-40

A cidade ainda boceja quando o primeiro ônibus já vem cheio de gente que não teve o luxo de dormir direito. Tem trabalhador com o olhar perdido na janela, tem mãe  dependurada na condução ( na gíria  rodoviária  viajando  de cabide), revisando mentalmente a lista do mercado que não vai caber no bolso, tem jovem contando moedas como quem tenta decifrar um enigma cruel. No fundo do coletivo, alguém mastiga um pão meio murcho e encara o aplicativo do banco como se fosse um oráculo moderno. O pão de cada dia, convenhamos, virou um conceito bem criativo. Não é só farinha, água e forno. É boleto pago, contrato assinado, mês que não fecha no vermelho. E, mesmo assim, sempre tem uma fome sobrando.
E como se não bastasse, ainda inventaram de organizar a vida em escala 6×1 (tem politico que diz que isso é justo, alguém tem pagar prlo seus luxos), como se o corpo humano fosse máquina de turno contínuo. Trabalha seis dias, descansa um, e olhe lá. Descansa entre aspas, porque o domingo muitas vezes vira extensão da exaustão acumulada. A pessoa não vive, ela se recupera para voltar a produzir. É quase uma liturgia do cansaço. E depois ainda perguntam por que tanta gente anda vazia, irritada, sem horizonte. Talvez porque transformar a vida em produtividade constante não seja exatamente o plano mais humano já concebido. Fica difícil falar de “pão da vida” quando mal se tem tempo de mastigar o pão da padaria.
É nesse teatro meio trágico, meio cômico, que aparece aquela frase antiga, dessas que muita gente gosta de colocar em quadro bonito, com letra cursiva e fundo bege.  João 6,35: "Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede" Jesus Cristo não está fazendo poesia de Instagram. Ele solta uma afirmação que, dita no lugar errado, dá até vontade de responder com ironia. Ele diz que é o pão da vida e que quem vai até ele não terá fome. Bonito, profundo, inspirador. Mas fala isso para quem tinha acabado de comer pão de verdade, multiplicado na raça do milagre, não para um auditório climatizado tomando café gourmet. (Já fizemos  uma leitura  sobre esse texto  aqui no blog e no nosso canal do YouTube)
Aliás, se fosse hoje, provavelmente iam dizer que aquela multidão era “dependente de benefício”, que só estava ali por causa do pão gratuito. Talvez alguém sugerisse: 
  •  Cadastro, 
  • Triagem, 
  • Corte de gastos no milagre
  • Controle Social
Mas a cena é outra. Ninguém foi excluído da mesa. Ninguém precisou provar merecimento. Se quiser traduzir para a linguagem atual, pode até imaginar que, sim, tinha ali uma multidão que hoje seria rotulada como gente do Bolsa Família, gente de auxílio, gente que o discurso apressado adora diminuir. E, ironicamente, foi exatamente essa multidão que comeu primeiro. Não por privilégio, mas por necessidade. E isso não é problema, é ponto de partida.
Defender políticas de transferência de renda não é romantizar pobreza, é reconhecer o óbvio:
  1.  A gente precisa comer hoje para poder sonhar amanhã. 
  2. Auxílio não é esmola, é instrumento mínimo de justiça num país que carrega 526 anos de desigualdade acumulada nas costas.
Desde a invasão colonial, passando por escravidão, concentração de terra, exclusão estrutural, o Brasil foi especialista em produzir riqueza para poucos e escassez para muitos. Aí, quando aparece uma política que tenta corrigir minimamente isso, sempre tem alguém preocupado com o “perigo” de pobre comer melhor, isso é comunismo. Curioso como a moralidade costuma ficar mais exigente quando o prato do outro enche se for pobre a coisa fica mas seletiva. Ou seja, não tem ingenuidade aqui. Primeiro ele resolve a fome concreta. Gente com fome come. Ponto. Depois ele provoca. Vocês estão me procurando porque comeram e querem repetir a dose, mas estão ignorando algo maior. Em linguagem atual, é como se dissesse que a gente virou especialista em sobreviver e analfabeto em viver. E o mais curioso é que ninguém ali era alienado. Era gente simples, sofrida, prática. Sabia o valor de um pão. Sabia o peso de um dia sem comida. Justamente por isso a fala incomoda. Porque não nega a necessidade, mas recusa reduzir a vida a ela.
O texto é  uma aula. O termo usado para pão não aponta só para o alimento físico, mas para tudo que sustenta a existência. E vida não é só respirar e pagar conta, é uma qualidade de existência que brota da relação com Deus e com o outro. Traduzindo sem rodeio, não se trata de abandonar a luta material, mas de não deixar que ela devore tudo. Só que aí começa o problema. Porque manter essa tensão exige consciência. E consciência dá trabalho. Muito mais do que repetir frase bonita.
Enquanto isso, o mundo segue com sua lógica bem afinada. Tem sistema que transforma gente em número e chama isso de eficiência. Tem economia que trata dignidade como variável de ajuste. Tem aplicativo que promete autonomia enquanto espreme até a última gota de energia do trabalhador. E no meio disso tudo, a religião às vezes resolve fazer cosplay de neutralidade. Finge que não é com ela, que seu papel é só consolar. Aí nasce aquela espiritualidade desidratada, que fala de céu enquanto ignora a terra rachando. Salvar almas enquanto  o corpo padece?
Tem muita gente que adora repetir que Jesus é o pão da vida, mas age como se fosse fiscal de fila. Distribui julgamento com mais facilidade do que distribui comida. Faz triagem moral antes de qualquer gesto de solidariedade. Quer saber se a pessoa merece o pão, como se fome fosse prova de caráter. Se depender desse tipo de fé, o milagre da multiplicação teria formulário, análise de crédito e talvez até score espiritual.
A cena original desmonta isso com uma simplicidade quase ofensiva. Uma multidão faminta, um punhado de pão, e ninguém perguntando CPF de ninguém. Depois, a fala que amplia tudo e complica a vida de quem prefere uma fé confortável. Quem vem a mim não terá fome. Não porque vai ganhar um pacote vitalício de segurança financeira, mas porque entra numa dinâmica onde o outro deixa de ser concorrente e passa a ser irmão. E isso, convenhamos, é revolucionário demais para caber em slogan de alguns religiosos.
No plano sociológico, o texto é uma denúncia elegante. Mostra como a busca legítima por sobrevivência pode ser capturada por estruturas que mantêm a escassez como regra. A multidão quer pão e tem razão. Mas também corre o risco de se contentar com migalhas enquanto o sistema segue intacto. A provocação de Jesus rompe essa lógica. Ele não quer só matar a fome do dia, quer mudar a forma como a vida é organizada. Só que isso não rende voto fácil nem aplauso imediato. Dá conflito, dá resistência, dá dor de cabeça.
E não faltam exemplos atuais para ilustrar. Basta olhar ao redor: 
  •  Gente trabalhando sem descanso e ainda assim sem garantia. 
  • Gente sendo convencida de que precariedade é liberdade.
  •  Gente defendendo um sistema que a descarta. 
  • Gente com a saudade  da senzala.
  • Gente se achando  o feitor de escravos
  • Gente...
E, no meio disso, discursos religiosos que preferem culpar o indivíduo a questionar a estrutura. É mais confortável dizer que falta fé do que admitir que sobra injustiça.
Quando a mesa da comunhão  e da palavra  entra em cena. Não como decoração, mas como prática concreta. O pão partilhado não pode ser um símbolo vazio. Ele tem que ser denúncia e anúncio ao mesmo tempo: 
  1. Denúncia de um mundo onde ainda há quem passe fome.
  2. Anúncio de uma realidade onde ninguém deveria passar. 
E aqui a incoerência fica gritante. Não dá para celebrar comunhão e ignorar exclusão. Não dá para falar de Deus enquanto se naturaliza a miséria. O pão que se parte em nome de Cristo cobra coerência fora do ritual. A gente se acostuma a viver no modo automático: Corre, paga, resolve, repete. E chama isso de vida. Mas lá no fundo, uma sensação de vazio insiste. Não é só falta de dinheiro, é falta de sentido. E aí se tenta preencher com consumo, com status, com qualquer coisa que prometa saciar. Só que a fome volta. Sempre volta. A fala de Jesus atinge exatamente esse ponto. Existe uma fome que não se resolve com mais do mesmo.
Agora imagina a cena reencenada hoje. Uma mesa simples, nada de luxo, no meio de um cenário bem realista. Em volta, gente de todo tipo. Trabalhador cansado, mãe sobrecarregada, jovem desorientado, idoso invisibilizado. E também aquele que a sociedade prefere não ver. No centro, Jesus, sem holofote, sem palco, partindo o pão com naturalidade. E dizendo, na prática, que aquilo ali é o começo de outra lógica.
Será que a gente  O reconheceria? Ou ia perguntar primeiro sobre posicionamento político, opinião econômica e comportamento moral? Será que não ia ter gente preocupada em enquadrar Jesus em algum rótulo antes de ouvir o que ele tem a dizer? A verdade é que, do jeito que as coisas andam, tem boa chance de ele ser considerado inconveniente. Talvez até indesejado.
No fim, João 6,35-40 não entrega uma solução mágica. Entrega um chamado incômodo. Quem vai até ele entra num processo de transformação que mexe com tudo. Com a forma de ver o mundo, de lidar com o outro, de entender o próprio lugar. Não é uma fé para aliviar consciência, é uma fé para despertar responsabilidade.
E aí a pergunta continua ecoando, meio sem paciência para respostas superficiais. 
  • De que lado da mesa a gente está vivendo?
  • Do lado que acumula e protege?
  • Do lado que reparte e se expõe?
Porque acreditar nesse tal pão da vida não é repetir frase bonita nem postar versículo em rede social. É assumir um jeito de viver que confronta a lógica dominante.
No horizonte, a promessa permanece firme. Um dia, ninguém mais vai passar fome nem sede. Mas até lá, a realidade cobra posicionamento. E talvez o milagre mais urgente não seja fazer pão aparecer do nada, mas fazer consciência aparecer onde hoje só tem indiferença. E isso, para desconforto geral, não depende de milagre espetacular. Começa quando alguém decide que não vai mais tratar a fé como enfeite nem o outro como problema. Começa quando o pão deixa de ser só meu e passa a ser nosso. E, curiosamente, é aí que a vida começa a ter gosto de vida mesmo.
DNonato - Teólogo do Cotidiano  e ainda com fome de Pão