sexta-feira, 5 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,38-44

A perícope de Marcos 12,38-44, proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B, ocupa um lugar singular dentro da tradição litúrgica da Igreja Católica. Sua proclamação não acontece por acaso. Ela aparece em um momento em que a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre a autenticidade da fé, a relação entre culto e vida, a confiança em Deus e a radicalidade do seguimento de Jesus. O mesmo texto, ou suas variantes paralelas presentes em Lucas 21, 1-4 na segunda-feira da 34ª Semana do Tempo Comum  também encontra espaço nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e de outras Igrejas históricas, testemunhando a força universal dessa narrativa. Trata-se de um Evangelho que atravessa os séculos porque toca uma das questões mais profundas da experiência humana e religiosa: o que realmente oferecemos a Deus quando afirmamos que cremos nele? 

A cena acontece nos últimos dias da vida pública de Jesus. Jerusalém está tomada por peregrinos que chegaram para a celebração da Páscoa. O ambiente é de tensão crescente. Desde sua entrada na Cidade Santa, Jesus tem realizado gestos e pronunciado palavras que confrontam diretamente as estruturas religiosas de seu tempo. Sua expulsão dos vendedores do Templo em Marcos 11,15-19 ecoa as denúncias dos profetas que séculos antes já haviam advertido que Deus não se deixa aprisionar por instituições que perderam sua capacidade de gerar justiça. Quando Jeremias proclama: “Não confieis em palavras mentirosas, dizendo: Templo do Senhor, Templo do Senhor” (Jr 7,4), ele denuncia precisamente a ilusão de uma religião que preserva ritos enquanto abandona a aliança. Jesus se insere nessa mesma tradição profética.

Todo o contexto anterior prepara o leitor para compreender a profundidade da cena da viúva. Em Marcos 12,1-12, na parábola dos vinhateiros homicidas, os responsáveis pela vinha recusam a autoridade do proprietário e matam seus enviados. Em Marcos 12,13-17, Jesus desmascara a hipocrisia daqueles que tentam utilizá-lo em disputas políticas. Em Marcos 12,28-34, ele recoloca no centro da fé o amor a Deus e ao próximo, retomando Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Logo depois, em Marcos 12,38-40, denuncia os escribas que buscam honras e privilégios. Finalmente, surge a figura da viúva pobre. Ela não aparece como personagem secundária. Ela é a resposta concreta ao que significa viver o mandamento maior.

O contraste é intencional. De um lado estão homens reconhecidos socialmente, especialistas da Lei, admirados pelo povo, revestidos de prestígio religioso. Do outro está uma mulher sem nome. No mundo antigo, especialmente na Palestina do primeiro século, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. A morte do marido frequentemente significava insegurança econômica, fragilidade jurídica e exclusão social. Por isso, desde os tempos mais antigos, a Escritura insiste em sua proteção. Em Êxodo 22,22, Deus ordena: “Não afligireis nenhuma viúva nem órfão”. Em Deuteronômio 10,18, afirma-se que o Senhor “faz justiça ao órfão e à viúva”. Em Isaías 1,17, a verdadeira conversão passa por “defender a causa da viúva”. Em Zacarias 7,10, o povo é advertido a não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre.

A presença da viúva em Marcos não surge por acaso. Ela carrega consigo toda uma memória teológica construída ao longo das Escrituras. Sempre que uma viúva aparece na narrativa bíblica, Deus parece revelar algo fundamental sobre seu modo de agir na história. Desde a Torá até os Evangelhos, a viúva torna-se um símbolo vivo daqueles que perderam proteção, segurança e reconhecimento social. Por isso os salmos proclamam Deus como “pai dos órfãos e defensor das viúvas” (Sl 68,5), enquanto a Carta de Tiago afirma que a religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações (Tg 1,27). A verdadeira espiritualidade bíblica nunca se limita ao culto; ela se manifesta no cuidado concreto com aqueles que a sociedade tende a esquecer.

Quando contemplamos a viúva das duas moedas, toda uma galeria de mulheres da Escritura parece caminhar silenciosamente ao seu lado.

  1. Noemi e Rute aparecem como as primeiras grandes representantes dessa tradição. Após perder o marido Elimeleque e depois os filhos Malom e Quilion (Rt 1,3-5), Noemi experimenta a dor do esvaziamento absoluto. Sua história atravessa o sofrimento, a amargura e a insegurança. Ao seu lado permanece Rute, a estrangeira moabita que escolhe a fidelidade quando tudo parece perdido: “Teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus” (Rt 1,16). Através de Boaz, que assume a função do go'el, o resgatador familiar, Deus restaura a herança, a dignidade e a esperança daquela família. O Livro de Rute recorda que a providência divina também se manifesta através da solidariedade humana, da acolhida ao estrangeiro e do compromisso comunitário previsto na Lei, especialmente nas normas relativas à respiga dos campos (Lv 19,9-10; Dt 24,19-22).
  2.  A viúva de Sarepta (1Rs 17,8-24), encontrada por Elias durante uma das mais severas secas da história de Israel. Ela possui apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite. Prepara-se para a última refeição antes da morte. Sua situação lembra a fragilidade da viúva observada por Jesus junto ao tesouro do Templo. Ambas vivem na fronteira da sobrevivência. Contudo, ambas testemunham uma confiança que desafia a lógica da escassez. A farinha não acaba, o azeite não falta e mais tarde o filho morto volta à vida. A narrativa revela que Deus continua agindo mesmo quando os recursos humanos se esgotam.

  3.  Viúva que procura Eliseu (2Rs 4,1-7). Após a morte do marido, os credores ameaçam levar seus filhos como escravos para quitar dívidas. O relato expõe uma realidade econômica cruel, na qual os vulneráveis se tornavam vítimas dos mecanismos de exploração. O azeite multiplicado não produz riqueza supérflua; produz libertação. A dívida é paga e a família preserva sua liberdade. O texto denuncia estruturas econômicas injustas e anuncia um Deus comprometido com a dignidade humana.

  4. Ana, a profetisa (Lc 2,36-38), viúva que atravessou décadas de oração, jejum e esperança. Sua história mostra outra dimensão da experiência da viuvez. Enquanto algumas lutam pela sobrevivência material, Ana testemunha a perseverança espiritual. Ela permanece vigilante diante de Deus até reconhecer no menino Jesus o cumprimento das promessas messiânicas. Sua vida inteira transforma-se em espera fecunda.

  5. A viúva de Naim (Lc 7,11-17). Ela já havia perdido o marido e agora perde também o filho único. Sua dor é completa. Sua solidão é absoluta. Ao vê-la, Jesus é movido de profunda compaixão. Antes mesmo que ela formule qualquer pedido, o Senhor intervém. O cortejo fúnebre é interrompido e a vida triunfa sobre a morte. O relato manifesta um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas se aproxima dele com ternura e misericórdia.

  6. A viúva persistente da parábola de Lucas 18,1-8. Sem prestígio, sem influência e sem recursos, ela insiste diante de um juiz injusto até alcançar justiça. Sua perseverança torna-se símbolo dos pobres que continuam clamando mesmo diante da indiferença das estruturas de poder. A parábola ensina que Deus escuta o clamor dos pequenos e que a esperança não deve ser abandonada.

  7.  A viúva das duas moedas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Nela parece convergir toda a experiência das viúvas anteriores. Como Noemi, conhece a insegurança. Como a viúva de Sarepta, vive a escassez. Como a viúva de Eliseu, está inserida em um sistema que frequentemente pesa sobre os vulneráveis. Como a viúva de Naim, conhece a fragilidade da existência. Como Ana, deposita sua confiança em Deus. Como a viúva persistente, permanece firme apesar da ausência de poder social. Ela torna-se a síntese dos pobres do Senhor, os anawim, aqueles que colocam sua esperança não na riqueza, mas na fidelidade de Deus.

Ao longo de toda a Escritura, Deus demonstra olhar para aquilo que os seres humanos frequentemente não conseguem perceber. Quando Samuel procura o futuro rei de Israel, o Senhor lhe diz: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Essa chave hermenêutica ilumina todo o episódio. Os ricos oferecem grandes quantias. A viúva oferece quase nada. Aos olhos da lógica econômica, sua contribuição é insignificante. Aos olhos do Reino de Deus, ela se torna extraordinária.

Jesus declara que ela deu mais do que todos os outros porque os demais deram do que lhes sobrava, enquanto ela ofereceu tudo o que possuía para viver. O Evangelho desloca completamente os critérios habituais de avaliação. O valor da oferta não é medido pelo montante, mas pela profundidade da entrega. Assim como Abraão colocou seu futuro nas mãos de Deus (Gn 22), como Ana derramou sua alma diante do Senhor (1Sm 1,15), como Maria respondeu “faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38), a viúva oferece a própria existência.Existe ainda uma dimensão cristológica profunda nessa passagem. A viúva não apenas ensina algo sobre a fé. Ela reflete algo do próprio Cristo. Poucos capítulos depois, Jesus entregará não algumas moedas, mas sua própria vida. Como afirma Filipenses 2,6-8, ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo. O que a viúva realiza simbolicamente, Jesus realizará plenamente na cruz. Seu gesto torna-se uma antecipação silenciosa do Calvário.

Por isso, a narrativa não pode ser reduzida a uma reflexão sobre dinheiro. Ela toca o centro do discipulado cristão. Ela pergunta se oferecemos a Deus apenas aquilo que sobra ou se permitimos que toda a nossa vida seja transformada pelo Evangelho. Ela questiona uma religião baseada na aparência e propõe uma espiritualidade fundada na entrega. Não por acaso, Jesus inicia a narrativa denunciando aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40). A expressão possui enorme força social. Ela denuncia sistemas religiosos, econômicos e políticos que se alimentam da vulnerabilidade dos pobres. A mesma crítica atravessa Amós 2,6-7, Isaías 10,1-2, Jeremias 22,13-17 e Miqueias 3,1-3. A preocupação com a justiça social não é um elemento periférico da fé bíblica. Ela pertence ao seu próprio coração.

Essa tradição chega ao Novo Testamento quando Jesus proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Ela reaparece em Mateus 25,31-46, onde os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos se tornam o lugar do encontro com Cristo. Ela ressoa em Tiago 2,1-7, que denuncia privilégios concedidos aos ricos. Ela reaparece em 1 João 3,17, quando o autor pergunta como pode permanecer o amor de Deus naquele que fecha o coração diante do irmão necessitado. Assim, a viúva de Marcos continua viva nas periferias urbanas, nas famílias endividadas, nos idosos abandonados, nos refugiados, nos desempregados, nas vítimas da violência e em todos aqueles cuja dignidade é ameaçada. Ela continua questionando uma religião transformada em espetáculo, um clericalismo que busca privilégios, uma teologia da prosperidade que reduz a bênção divina à riqueza material e toda instrumentalização da fé para projetos de poder. Sua presença recorda que Deus permanece fiel àquilo que revelou desde o Êxodo, passando pelos profetas, pelos salmos e pelos Evangelhos. O Senhor continua ouvindo o clamor dos vulneráveis. Continua defendendo as viúvas. Continua derrubando os poderosos de seus tronos e exaltando os humildes (Lc 1,52). Continua chamando sua Igreja a ser sinal de justiça, misericórdia e solidariedade.

Ao final, a pergunta permanece aberta diante de cada discípulo:  

O que estamos entregando a Deus? Aquilo que sobra ou aquilo que somos? 

Não por acaso, poucos versículos antes deste episódio, Jesus havia sido interrogado sobre o pagamento do imposto ao imperador e respondera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Naquela ocasião, seus adversários apresentaram um denário romano, moeda que trazia gravada a imagem e a inscrição de César, símbolo do poder político, econômico e militar do Império. O valor de um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador rural. Já a viúva não oferece um denário. Ela deposita duas pequenas leptas, as menores moedas em circulação na Palestina do século I. Juntas, valiam cerca de um sessenta e quatro avos de um denário, algo que, em valores atuais, corresponderia apenas a alguns centavos, uma quantia praticamente insignificante aos olhos da economia humana.

Entretanto, é precisamente aqui que Marcos revela a profundidade do Evangelho. Diante de César, discute-se uma moeda que carrega sua imagem. Diante de Deus, apresenta-se uma mulher que oferece a própria vida. O denário levantava a questão sobre a quem pertence o dinheiro; a viúva responde silenciosamente a quem pertence o coração humano. Se a moeda com a imagem de César deve retornar a César, então o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), deve retornar inteiramente a Deus. A viúva compreendeu aquilo que muitos religiosos ainda não haviam compreendido. Ela não entrega apenas duas moedas,  cerca  de R$ 10,00 (dez reais)  nos dias de hoje. Ela entrega a si mesma. Seu gesto atravessa os séculos como uma das mais profundas profissões de fé de toda a Escritura. Nela encontramos a confiança de Abraão que parte sem saber para onde vai (Gn 12,1-4), a perseverança dos profetas que permanecem fiéis em meio às adversidades, a esperança dos pobres do Senhor que aguardam a salvação e a antecipação da entrega total de Cristo na cruz. Sua oferta é pequena aos olhos do mundo, mas imensa aos olhos de Deus, porque nela não há apenas cobre, não há apenas valor monetário, não há apenas esmola. Há uma existência inteira colocada nas mãos daquele que vê o coração (1Sm 16,7), sustenta os humildes (Sl 146,9), exalta os pequenos (Lc 1,52) e jamais abandona aqueles que nele depositam sua confiança. Diante dela, o Evangelho continua perguntando a cada geração: o que em nossa vida ainda pertence a César e o que verdadeiramente já pertence a Deus

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,35-37

 Marcos 12,35-
37 que  diz: "  ³⁵ Jesus ensinava no Templo, dizendo: «Como é que os doutores da Lei falam que o Messias é filho de Davi?  ³⁶ O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: sente-se à minha direita, até que eu ponha seus inimigos debaixo de seus pés’. ³⁷Portanto, o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?".  E uma grande multidão o escutava com gosto.  É proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da nona semana do Tempo Comum, no interior do ciclo dos ensinamentos de Jesus em Jerusalém que antecedem diretamente sua paixão, morte e ressurreição. Seus paralelos em Mateus 22,41-46 e Lucas 20,41-44 pertencem ao mesmo bloco de controvérsias no Templo, sendo lidos ao longo do ano litúrgico nas diversas tradições cristãs históricas, como a Igreja Ortodoxa, a Comunhão Anglicana e as Igrejas oriundas da Reforma, em ciclos que destacam a identidade messiânica de Jesus e a tensão entre expectativa religiosa e revelação divina. Na tradição litúrgica anterior à reforma do Concílio Vaticano II, o paralelo de Mateus era proclamado no décimo sétimo domingo depois de Pentecostes, evidenciando a centralidade desta questão na formação da fé cristã. O que está em jogo nesta breve passagem não é apenas uma disputa interpretativa sobre um salmo antigo, mas a revelação do próprio núcleo da cristologia neotestamentária e a purificação de toda imagem reduzida de Deus construída a partir de expectativas humanas.

A cena ocorre no Templo de Jerusalém, espaço onde convergem todas as tensões religiosas, políticas e sociais de Israel. O Templo não é apenas um edifício, mas o símbolo da aliança entre Deus e seu povo, descrito desde 1 Reis 8 como lugar da habitação do Nome divino. É também o centro econômico e administrativo da vida judaica do século I, onde sacrifícios, tributos e controle sacerdotal estruturavam uma complexa rede de poder. Jerusalém, por sua vez, é a cidade de Davi, aquela que o próprio rei conquistou e transformou em capital (2Sm 5,6-10), tornando-se assim o eixo simbólico da promessa de Deus em 2 Samuel 7,12-16, quando o Senhor garante a Davi uma descendência duradoura e um reino que não será destruído. Essa promessa atravessa toda a história bíblica posterior e se torna o fio condutor da esperança messiânica de Israel.

O desenvolvimento dessa esperança pode ser acompanhado ao longo de toda a Escritura. O Salmo 89 reafirma a fidelidade da aliança davídica mesmo em tempos de crise. Isaías 9,1-6 anuncia o nascimento de um filho que receberá o trono de Davi e estabelecerá um reino de justiça e paz sem fim. Isaías 11,1-9 descreve o rebento do tronco de Jessé sobre quem repousará o Espírito do Senhor, instaurando uma ordem de reconciliação cósmica. Jeremias 23,5-6 promete um “germe justo” da casa de Davi que exercerá o direito e a justiça na terra. Ezequiel 34,23-24 apresenta Deus suscitando um pastor davídico que reunirá o povo disperso. Miqueias 5,1-4 localiza em Belém o nascimento daquele que governará Israel com a força do Senhor. Zacarias 9,9 acrescenta a dimensão paradoxal de um rei humilde que entra em Jerusalém montado num jumento. Em todos esses textos, a figura messiânica vai sendo progressivamente ampliada, passando de uma expectativa política imediata para uma realidade teológica mais profunda, marcada pela justiça, pela paz e pela presença direta de Deus no meio do seu povo.

No século I, essa expectativa convive com uma situação histórica concreta de dominação imperial. Israel está sob o poder de Roma, conforme descrito em diversos relatos históricos como os de , que testemunha a tensão social, religiosa e política do período. O peso dos impostos, a exploração agrária, a concentração de terras e a marginalização dos camponeses criam um ambiente de expectativa messiânica intensa. Grupos como os fariseus, os saduceus e os zelotas representam respostas diferentes a essa crise. Enquanto alguns enfatizam a pureza da Lei, outros defendem a centralidade do Templo ou a resistência armada. Nesse contexto, a figura do Messias é frequentemente interpretada como um libertador político, um novo Davi capaz de restaurar a soberania nacional e derrotar os opressores. É nesse horizonte saturado de expectativas que Jesus insere sua pergunta. Antes dela, o Evangelho de Marcos constrói uma sequência narrativa em que Jesus confronta sucessivamente as estruturas religiosas e políticas de seu tempo. Ele purifica o Templo em Marcos 11,15-17, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11 ao denunciar a transformação da casa de oração em covil de ladrões. Ele narra a parábola dos vinhateiros homicidas em Marcos 12,1-12, retomando Isaías 5,1-7 para denunciar a infidelidade das lideranças de Israel. Ele responde à questão do tributo a César em Marcos 12,13-17, afirmando que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, evocando implicitamente Gênesis 1,27 ao recordar que a verdadeira imagem pertence a Deus. Ele debate com os saduceus sobre a ressurreição em Marcos 12,18-27, reinterpretando Êxodo 3,6 ao afirmar que Deus é Deus de vivos e não de mortos. Ele sintetiza a Lei no amor a Deus e ao próximo em Marcos 12,28-34, em continuidade com Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Toda essa sequência prepara o momento em que Jesus desloca o centro da discussão. A pergunta “Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?” não nega a tradição, mas a conduz a um ponto de ruptura. A descendência davídica é reconhecida em outras passagens, como em Mateus 1,1, em Lucas 1,32 e em Romanos 1,3, onde Paulo afirma que Jesus nasceu da linhagem de Davi segundo a carne. Contudo, Jesus introduz uma questão mais profunda ao citar o Salmo 110,1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita até que eu ponha teus inimigos debaixo de teus pés”. Esse salmo, retomado em Atos 2,34-36 por Pedro, em Hebreus 1,13 e em Efésios 1,20-23, torna-se uma das chaves centrais da cristologia apostólica. O ponto decisivo está na relação entre Davi e o Messias. Se Davi, considerado o maior rei de Israel, chama o Messias de Senhor, então o Messias não pode ser reduzido a uma figura sucessória ou meramente política. Ele transcende a lógica dinástica e se inscreve numa realidade que ultrapassa o horizonte humano imediato. Essa interpretação encontra eco em toda a tradição do Novo Testamento. Em Filipenses 2,6-11, Cristo é apresentado como aquele que, existindo em condição divina, assume a forma de servo e é exaltado acima de todo nome. Em Colossenses 1,15-20, ele é a imagem do Deus invisível e o primogênito de toda criação. Em Hebreus 1,1-4, ele é o resplendor da glória divina e a expressão exata do ser de Deus. Em João 1,1-14, ele é o Verbo eterno que se faz carne e habita entre nós.

Essa cristologia não é abstrata, mas profundamente enraizada na história concreta de Israel e na experiência humana. A antropologia bíblica revela que o ser humano tende a projetar sobre Deus suas expectativas mais profundas. Em Gênesis 11, a torre de Babel simboliza essa tentativa de construir segurança a partir de si mesmo. Em Êxodo 32, o bezerro de ouro revela a necessidade de um deus manipulável. Em 1 Samuel 8, a instituição da monarquia mostra a tentação de substituir a confiança em Deus por estruturas humanas de poder. Essa dinâmica continua ao longo da história religiosa e social, onde o sagrado pode ser instrumentalizado para legitimar desejos de controle, segurança ou dominação. Jesus rompe esse movimento ao revelar um Messias que não corresponde às projeções humanas. Sua autoridade não se manifesta na força, mas no serviço, conforme Marcos 10,45. Sua identidade não se impõe pela violência, mas pela entrega, como se manifesta na última ceia em Lucas 22,27 e no gesto do lava-pés em João 13,1-15. Sua realeza não se expressa no domínio, mas na cruz, conforme Marcos 15,39, onde o centurião reconhece que aquele crucificado é Filho de Deus. Isaías 53 ilumina essa lógica ao apresentar o Servo Sofredor que salva através do sofrimento assumido em solidariedade com os pecadores. Essa inversão tem consequências diretas para a compreensão da religião. Em Marcos 12,38-40, imediatamente após esta passagem, Jesus denuncia os escribas que exploram as casas das viúvas, enquanto ostentam religiosidade exterior. Em seguida, em Marcos 12,41-44, apresenta a viúva pobre como modelo de verdadeira fé. Essa sequência revela que a verdadeira adoração não está ligada ao prestígio religioso, mas à entrega total e à justiça concreta. Essa crítica encontra continuidade em Amós 5,21-24, Isaías 58,1-12, Jeremias 7,1-15 e Miqueias 6,6-8, onde o culto vazio é rejeitado em favor da justiça, da misericórdia e da fidelidade. No horizonte contemporâneo, essa palavra permanece profundamente atual. O risco de instrumentalização da fé aparece quando a religião é usada para legitimar projetos de poder, identidades políticas ou sistemas econômicos excludentes. A tradição bíblica, entretanto, insiste que nenhum poder humano pode ocupar o lugar de Deus. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que a Igreja deve discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Lumen Gentium compreende a Igreja como povo de Deus em caminho. Dei Verbum afirma que a Palavra de Deus continua viva e atuante na história. Na América Latina, Medellín denuncia estruturas de injustiça, Puebla fala dos rostos concretos dos pobres, e Aparecida afirma que a opção preferencial pelos pobres pertence ao coração da fé cristológica. A pergunta de Jesus permanece como eixo interpretativo de toda a existência cristã: quem é o Cristo (Mc 12,35-37)? Não se trata de uma questão encerrada em fórmulas conceituais, mas de uma interrogação que atravessa toda a Escritura e desestabiliza continuamente as seguranças religiosas e humanas. O próprio Jesus, ao citar o Salmo 110,1, reinscreve a identidade messiânica num horizonte que ultrapassa a lógica da sucessão davídica e abre o sentido da realeza divina para uma dimensão de transcendência e serviço que já se anuncia nos cânticos do Servo em Isaías 52–53, onde aquele que é exaltado é precisamente o que se fez ferido pela história e solidário com os últimos.

Reconhecer Jesus como Senhor de Davi (Sl 110,1; At 2,34-36) é reconhecer que a promessa feita a Davi em 2 Samuel 7,12-16 não se esgota em um projeto político ou dinástico, mas se cumpre na irrupção de um Reino que não se fundamenta na força, pois “o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), nem se sustenta na lógica de dominação dos impérios, mas na inversão radical proclamada nas bem-aventuranças (Mt 5,3-12; Lc 6,20-23), onde os pobres, os mansos e os que choram são declarados portadores da promessa de Deus. Nesse horizonte, a autoridade do Messias se manifesta como serviço que lava os pés (Jo 13,1-15), como entrega que se consuma na cruz (Mc 15,39; Fl 2,6-11) e como vida nova que vence a lógica da morte (1Cor 15,20-28). A multidão, segundo Marcos, o escutava com prazer, porque nele reconhecia uma palavra que desarmava falsas seguranças e abria um horizonte novo de sentido (Mc 12,37). Essa escuta, porém, não é apenas um dado do passado narrativo; ela se prolonga na história como crise permanente de discernimento. Em cada época, o Evangelho confronta as formas pelas quais a religião pode ser capturada por interesses de poder, como já denunciavam os profetas quando rejeitavam um culto sem justiça (Is 1,11-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8), e como Jesus retoma ao confrontar estruturas religiosas que exploram os vulneráveis enquanto exibem aparência de piedade (Mc 12,38-40; Mt 23,23-28). Na atualidade, essa palavra continua a interpelar sociedades marcadas por desigualdade estrutural, exclusões múltiplas e crises de sentido. Quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder, ela se afasta do Cristo que “anunciou boas novas aos pobres, libertação aos cativos e vista aos cegos” (Lc 4,18-19; Is 61,1-2). Quando a religião é reduzida a instrumento de ascensão individual ou prosperidade material, ela se distancia daquele que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20) e que advertiu contra a lógica de acumulação que obscurece o Reino (Mt 6,19-24). Quando o nome de Deus é associado a discursos de exclusão, violência simbólica ou absolutização de identidades políticas, perde-se a centralidade do mandamento do amor que resume toda a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40; Rm 13,8-10). Por isso, a tradição da Igreja, em sua leitura crítica da história, insiste continuamente na conversão das estruturas e da consciência. O Concílio Vaticano II recorda que “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes 1), e que a Igreja existe como sinal e instrumento de comunhão com Deus e entre os homens (Lumen Gentium 1). Na mesma direção, o magistério latino-americano, ao contemplar a realidade concreta dos povos, reconhece que o seguimento de Jesus passa necessariamente pela defesa da dignidade dos pobres e pela transformação das estruturas injustas que geram exclusão e sofrimento (Medellín, Puebla, Aparecida), em continuidade com a lógica bíblica segundo a qual o verdadeiro culto inseparável da justiça é aquele que liberta o oprimido e partilha o pão com o faminto (Is 58,6-7). Nesse sentido, a pergunta de Jesus não permanece apenas como questão teológica, mas como discernimento histórico permanente. Ela atravessa as crises contemporâneas da humanidade, marcadas por novas formas de idolatria que já não se apresentam como estátuas de ouro, como em Êxodo 32, mas como sistemas econômicos que absolutizam o lucro, tecnologias que ampliam desigualdades, discursos religiosos que se alinham a projetos de poder e estruturas sociais que naturalizam a exclusão. Diante disso, a afirmação de que Cristo é Senhor (Rm 10,9; Fl 2,11) não pode ser reduzida a confissão verbal, mas implica adesão existencial a um caminho que rompe com a lógica da violência e inaugura práticas de justiça, reconciliação e cuidado com a vida em todas as suas formas.

Assim, reconhecer o Cristo de Marcos 12,35-37 é entrar num movimento contínuo de desinstalação interior e comunitária, no qual toda imagem fixa de Deus é purificada pela cruz e pela ressurreição. É deixar-se conduzir por aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), mas que jamais se deixa aprisionar pelas expectativas humanas. É descobrir, com os discípulos de Emaús, que a presença de Deus se revela muitas vezes onde menos se espera, na fração do pão e na travessia das dores da história (Lc 24,13-35). E é compreender que o verdadeiro poder divino se manifesta precisamente naquilo que o mundo considera fraqueza (1Cor 1,25), pois é ali que o amor se mostra mais forte do que a morte (Ct 8,6-7; Rm 8,38-39).  ,Diante disso, a interrogação de Jesus permanece aberta, não como lacuna, mas como espaço de liberdade. Ela chama cada geração a discernir se o Cristo que se anuncia é aquele que confirma as estruturas de dominação ou aquele que as atravessa com a força silenciosa do amor que serve, perdoa e recria a existência. Nesse horizonte, a fé cristã não é adesão a uma ideia, mas participação na vida daquele que, sendo Senhor de Davi, se fez servo de todos, e que, exaltado à direita do Pai (Sl 110,1; At 7,55-56), continua a conduzir a história para a plenitude do Reino onde Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).



DNonato- Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Um olhar sobre João 6,51-58 - Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

A perícope de João 6,51-58 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Na Igreja Católica Romana, ela é proclamada especialmente na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, conhecida tradicionalmente como Corpus Christi, no Ano A  e  também no vigésimo domingo do tenpo comun ano B e uma variante  de João 6,52-59. proclamado  na sexta-feira  da  terceira  semana  da Pascoa  e ainda aparece  nos outros anos, o mesmo capítulo é proclamado de forma fragmentada ao longo dos domingos que seguem a multiplicação dos pães, constituindo o grande discurso do Pão da Vida. A passagem também aparece em diversos contextos eucarísticos da liturgia, especialmente em celebrações relacionadas à adoração ao Santíssimo Sacramento e em reflexões sobre a presença real de Cristo na Eucaristia.

Na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo que já refletimos a origem no texto:  de 2012 Corpus Christi para transmitir ao mundo

A Solenidade de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV por meio da bula Transiturus de Hoc Mundo ("Ao partir deste mundo"), publicada em 1264. Nela, o pontífice determinou que a festa fosse celebrada na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, destacando de modo especial a fé da Igreja na presença real de Cristo na Eucaristia. A iniciativa foi inspirada, entre outros fatores, pelas experiências místicas de Santa Juliana de Cornillon (ou Juliana de Mont Cornillon), religiosa agostiniana da região de Liège, que desde o início do século XIII promovia a criação de uma festa dedicada exclusivamente ao Santíssimo Sacramento. Após um longo período de discernimento e reflexão teológica, o Papa acolheu esse desejo e estendeu a celebração a toda a Igreja Latina. Entretanto, a difusão da nova solenidade foi inicialmente lenta. Sem os modernos meios de comunicação e devido à morte de Urbano IV poucos meses após a publicação da bula, sua determinação não alcançou imediatamente todas as dioceses. Apesar disso, diversas Igrejas locais mantiveram a celebração, destacando-se a Arquidiocese de Colônia, na Alemanha, onde a Procissão Eucarística passou a integrar a festa por volta de 1270 — uma tradição que permanece viva até os dias atuais. Ao longo dos séculos, a solenidade foi se consolidando e se espalhando por várias regiões da Europa, especialmente na Alemanha e na França. Posteriormente, recebeu novo impulso dos papas sucessores e adquiriu crescente relevância em Roma, tornando-se uma das mais expressivas manifestações públicas da fé católica na presença de Cristo no Santíssimo Sacramento. E a liturgia reúne textos que iluminam diferentes dimensões do mistério eucarístico as leituras  são  as seguintes: 

  •  Primeira leitura, Deuteronômio 8,2-3.14b-16a, recorda a caminhada de Israel pelo deserto e o dom do maná, alimento oferecido por Deus para ensinar ao povo que “não só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor”.
  • Salmo 147 celebra o Deus que alimenta seu povo com a flor do trigo.
  •  A segunda leitura, em 1Coríntios 10,16-17, apresenta a profunda comunhão produzida pelo cálice da bênção e pelo pão partido, afirmando que todos formam um só corpo porque participam do mesmo pão. 
  • O Evangelho, João 6,51-58, conduz essas imagens ao seu cumprimento definitivo na pessoa de Jesus Cristo. 
Nas Igrejas Ortodoxas, embora a estrutura do calendário litúrgico seja distinta, a teologia eucarística ocupa posição central e João 6 permanece uma referência fundamental para a compreensão do mistério sacramental. Nas tradições Anglicana, Luterana e em diversas comunidades históricas da Reforma, a passagem também é frequentemente utilizada em celebrações relacionadas à Ceia do Senhor, ainda que as interpretações acerca da presença de Cristo no pão e no vinho possam variar. Em todas essas tradições, permanece o reconhecimento de que João 6 constitui um dos textos mais profundos do Novo Testamento sobre a relação entre Cristo, a vida eterna e o alimento espiritual oferecido por Deus à humanidade. Para compreender adequadamente João 6,51-58, é necessário olhar para o caminho narrativo que antecede a passagem. Nada surge isoladamente no Evangelho de João. O capítulo começa com a multiplicação dos pães junto ao mar da Galileia (Jo 6,1-15). A multidão segue Jesus porque viu sinais. Ela experimenta a fome física e recebe alimento abundante. Depois, Jesus atravessa o lago caminhando sobre as águas (Jo 6,16-21), sinal que evoca o domínio divino sobre o caos. Em seguida, inicia-se um longo diálogo na sinagoga de Cafarnaum (Jo 6,22-59), no qual a multidão procura compreender quem é aquele homem que distribui pão e realiza prodígios.

A questão central não é apenas o pão multiplicado, mas a identidade daquele que o oferece. A multidão deseja um novo Moisés. Jesus revela algo maior. O verdadeiro pão não é uma coisa. O verdadeiro pão é uma pessoa. O dom de Deus não é simplesmente um alimento concedido do céu. O dom de Deus é o próprio Filho enviado ao mundo. O contexto histórico ajuda a perceber a força dessa afirmação. O povo judeu do século I vivia sob dominação romana. A pobreza era ampla. Os impostos eram pesados. Muitos camponeses perdiam suas terras e tornavam-se trabalhadores dependentes. A fome não era uma realidade distante. O pão representava sobrevivência cotidiana. Pedir pão significava pedir vida.

Ao mesmo tempo, a memória coletiva de Israel era marcada pela experiência do Êxodo. O povo nunca esqueceu que Deus havia libertado seus antepassados da escravidão egípcia. Durante a travessia do deserto, segundo a tradição bíblica, Deus sustentou Israel com o maná (Ex 16,4-36). Esse alimento misterioso tornou-se símbolo da providência divina. Séculos depois, muitos judeus acreditavam que, quando o Messias viesse, o milagre do maná seria renovado. É nesse horizonte que João apresenta Jesus. A multidão recorda Moisés. Jesus aponta para o Pai. A multidão pede pão. Jesus oferece sua própria vida. A multidão busca segurança material. Jesus convida à comunhão eterna.

O simbolismo do pão atravessa toda a Escritura. Desde os tempos mais antigos, o pão representa vida, sustento, comunhão e aliança. Na cultura do antigo Oriente Próximo, compartilhar pão significava estabelecer vínculos de hospitalidade e amizade. Comer juntos criava relações de confiança e pertencimento. Em Israel, o pão assumiu significados ainda mais profundos. Os pães da proposição colocados diante do Senhor no Templo (Lv 24,5-9) simbolizavam a presença permanente de Deus no meio do povo. O pão ázimo da Páscoa (Ex 12,8) recordava a libertação do Egito. O pão partilhado com o pobre expressava fidelidade à aliança e compromisso com a justiça (Is 58,7).

Quando Jesus afirma: “Eu sou o pão vivo descido do céu” (Jo 6,51), ele reúne todas essas tradições e lhes confere um sentido novo. Ele não apenas distribui pão. Ele é o pão. Ele não apenas comunica a vida divina. Ele é a própria vida divina oferecida ao mundo. A expressão “Eu sou” possui enorme densidade teológica. Ela remete ao nome revelado por Deus a Moisés na sarça ardente: “Eu Sou Aquele que Sou” (Ex 3,14). Ao utilizar repetidamente essa fórmula em seu Evangelho, João apresenta Jesus participando da identidade divina. Ele é o pão da vida (Jo 6,35), a luz do mundo (Jo 8,12), o bom pastor (Jo 10,11), a ressurreição e a vida (Jo 11,25), o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).

O escândalo do texto, porém, alcança seu ápice quando Jesus declara: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51). A palavra utilizada pelo evangelista não é abstrata. O termo grego sarx significa carne concreta, humanidade real, existência encarnada. João combate aqui qualquer espiritualismo que negue a realidade da encarnação. O Filho de Deus não salva a humanidade permanecendo distante. Ele salva tornando-se carne (Jo 1,14).

A encarnação e a Eucaristia pertencem ao mesmo movimento de amor. O Deus que assume a carne humana é o mesmo Deus que se oferece como alimento. O Verbo feito carne torna-se pão para a vida do mundo. O discurso se torna ainda mais provocador quando Jesus fala da necessidade de comer sua carne e beber seu sangue (Jo 6,53-56). Para um judeu do primeiro século, essas palavras eram chocantes. A Lei proibia rigorosamente o consumo de sangue porque o sangue era considerado sede da vida (Lv 17,10-14). O sangue pertencia a Deus.

Jesus não está propondo um ato de canibalismo, como alguns adversários do cristianismo chegaram a acusar nos primeiros séculos. Ele utiliza uma linguagem sacramental que aponta para a participação plena em sua vida, em sua entrega e em sua missão. Na tradição bíblica, beber do cálice significa participar de um destino comum. Comer à mesma mesa significa entrar em comunhão. Receber o corpo e o sangue de Cristo significa acolher sua própria existência como princípio transformador da nossa existência.

Por trás dessas palavras encontra-se também o simbolismo da Páscoa judaica. Na celebração pascal, cada família recordava a libertação do Egito mediante a refeição ritual do cordeiro (Ex 12,1-14). A memória não era mera recordação intelectual. Tratava-se de atualização da experiência fundante da liberdade. João apresenta Jesus como o novo Cordeiro Pascal. Não por acaso, sua morte ocorre justamente no contexto da preparação da Páscoa (Jo 19,14). Enquanto os cordeiros eram imolados no Templo, o verdadeiro Cordeiro oferecia sua vida pela humanidade.

A Eucaristia nasce dessa convergência extraordinária entre Êxodo, Páscoa, maná e cruz. Todos os símbolos convergem para Cristo. O pão do deserto apontava para Ele. O cordeiro pascal apontava para Ele. As promessas da aliança apontavam para Ele. A fome humana apontava para Ele. Sob o olhar da antropologia, essa linguagem revela algo profundamente humano. O ser humano é um ser marcado pela necessidade. Temos fome de alimento, mas também de amor, reconhecimento, segurança, pertencimento e sentido. Nenhuma realização material consegue eliminar completamente essa busca. A psicologia contemporânea reconhece que muitas das angústias humanas surgem justamente da experiência de vazio existencial.

Jesus dirige-se a essa fome mais profunda. Ele não despreza as necessidades concretas da vida. Afinal, antes de ensinar, alimentou a multidão. Mas mostra que existe uma fome ainda maior, uma sede que nenhum bem material consegue saciar plenamente. Por isso, João 6 continua extraordinariamente atual. Vivemos numa sociedade marcada pela abundância para alguns e pela fome para milhões. Nunca houve tanta produção de riqueza e, ao mesmo tempo, tanta desigualdade. Nunca houve tantos meios de comunicação e, paradoxalmente, tanta solidão. Nunca houve tantas possibilidades de consumo e, simultaneamente, tanta crise de sentido.

A promessa de Jesus não é uma fuga da realidade. É uma transformação da realidade. O pão da vida não substitui a luta pelo pão de cada dia. Pelo contrário, fundamenta essa luta. Quem participa do pão descido do céu não pode permanecer indiferente à fome presente na terra. Assim, desde suas primeiras palavras, João 6 conduz o leitor para além de uma compreensão individualista da fé. A Eucaristia é comunhão com Cristo, mas também comunhão com o próximo. É adoração, mas também compromisso. É contemplação, mas também missão. O pão vivo descido do céu não apenas alimenta a alma; ele cria um povo novo, chamado a tornar visível na história o amor daquele que entregou sua carne e derramou seu sangue para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10).

Ao aprofundarmos o significado de João 6,51-58, torna-se necessário entrar mais profundamente no coração da fé cristã e compreender como a Igreja primitiva recebeu, interpretou e viveu essas palavras de Jesus. O discurso do Pão da Vida não surgiu isolado da experiência das primeiras comunidades. Pelo contrário, tornou-se uma das bases mais importantes para a compreensão da Eucaristia, da comunhão e da própria identidade da Igreja. Um aspecto que chama atenção é que o Evangelho de João não apresenta, durante a Última Ceia, a narrativa explícita da instituição da Eucaristia, como encontramos nos Evangelhos Sinóticos. Em Mateus 26,26-29, Marcos 14,22-25 e Lucas 22,14-20, Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o entrega aos discípulos dizendo: “Isto é o meu corpo”. Em seguida oferece o cálice afirmando: “Este é o meu sangue da aliança”. João, por sua vez, narra o lava-pés (Jo 13,1-20) e omite as palavras institucionais.

Essa diferença não é uma ausência acidental. É uma escolha teológica. O Quarto Evangelho já havia desenvolvido, em João 6, toda uma catequese eucarística. Enquanto os Sinóticos mostram o gesto da instituição, João aprofunda seu significado. Enquanto Mateus, Marcos e Lucas destacam o acontecimento da ceia, João ilumina o mistério que ela contém. Há uma complementaridade extraordinária entre essas tradições. Os Sinóticos enfatizam o momento histórico da entrega de Jesus. João enfatiza a dimensão existencial dessa entrega. Nos Sinóticos ouvimos Jesus dizer: “Tomai e comei”. Em João escutamos a explicação do porquê comer e beber seu Corpo e seu Sangue conduz à vida eterna.

Também é significativo observar que João escreve provavelmente no final do século I, quando as comunidades cristãs já celebravam regularmente a fração do pão. Seus leitores conheciam a Eucaristia. Portanto, ao ouvirem as palavras de Jesus sobre comer sua carne e beber seu sangue, compreendiam imediatamente a relação com a prática litúrgica da Igreja. Essa compreensão aparece de forma ainda mais clara nos escritos paulinos. Em 1Coríntios 10,16-17, São Paulo afirma que o cálice da bênção é comunhão com o sangue de Cristo e o pão partido é comunhão com o corpo de Cristo. Pouco depois, em 1Coríntios 11,23-26, transmite a mais antiga narrativa da instituição eucarística que possuímos no Novo Testamento.

Mas Paulo vai além da dimensão ritual. Ele denuncia uma contradição gravíssima presente na comunidade de Corinto. Alguns cristãos celebravam a Ceia do Senhor enquanto desprezavam os pobres da própria comunidade. Os ricos comiam abundantemente; os pobres permaneciam com fome. Diante disso, o apóstolo faz uma advertência contundente: quem participa indignamente do Corpo do Senhor torna-se réu do Corpo e do Sangue de Cristo (1Cor 11,27). Essa crítica permanece extremamente atual. A Eucaristia nunca foi concebida como um rito mágico ou uma experiência espiritual desconectada da realidade. Desde as origens, a Igreja compreendeu que o Corpo de Cristo presente no altar está inseparavelmente ligado ao Corpo de Cristo presente nos irmãos.

Essa consciência percorre toda a tradição patrística. Santo Inácio de Antioquia, escrevendo no início do século II, chama a Eucaristia de “remédio da imortalidade”. Para ele, a comunhão eucarística é sinal visível da unidade da Igreja. Não existe Eucaristia autêntica onde há divisão, rivalidade ou desprezo pelos irmãos, vale a pena  lembrar:

  • Santo Irineu de Lião vê na Eucaristia a confirmação da bondade da criação. Contra correntes gnósticas que desprezavam a matéria, ele recorda que Deus utiliza elementos concretos da terra, pão e vinho, para comunicar sua graça. A criação não é inimiga da salvação. Ela participa da redenção.
  • São João Crisóstomo desenvolve ainda mais essa visão. Em suas homilias, insiste repetidamente que o Cristo adorado no altar é o mesmo Cristo encontrado nos pobres. Para ele, não há coerência em ornamentar os templos enquanto se abandona quem sofre. A verdadeira veneração eucarística exige compromisso com a dignidade humana.
  • Santo Agostinho oferece talvez uma das sínteses mais profundas da tradição antiga. Comentando a Eucaristia, afirma que os cristãos recebem aquilo que são chamados a tornar-se. O Corpo de Cristo recebido sacramentalmente deve transformar os fiéis no Corpo de Cristo presente no mundo. Não se trata apenas de receber Cristo. Trata-se de ser configurado a Cristo.

Essa compreensão atravessou os séculos e encontrou nova expressão nos documentos do Concílio Vaticano II: 

  •  A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que a liturgia é fonte e ápice de toda a vida cristã. 
  • A Constituição Lumen Gentium apresenta a Eucaristia como centro da vida da Igreja.
  •  A Constituição Gaudium et Spes recorda que o mistério da encarnação ilumina toda a realidade humana.

O Concílio recupera uma dimensão muitas vezes esquecida: a Eucaristia não é apenas objeto de devoção. É escola de transformação humana e social. Quem participa do sacrifício de Cristo é chamado a assumir sua lógica de serviço, entrega e amor. Essa perspectiva foi desenvolvida pelos bispos latino-americanos reunidos em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. 

  • Medellín, em 1968, interpretou os sinais dos tempos à luz do Evangelho e denunciou estruturas econômicas, políticas e sociais que produziam miséria e exclusão. 
  • Puebla, em 1979, reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência da própria fé cristã.
  • Aparecida, em 2007, da qual participou de forma decisiva o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, posteriormente Papa Francisco, recorda que a Eucaristia não apenas fortalece a comunhão com Deus, mas impulsiona os discípulos missionários para a transformação da realidade.

No contexto brasileiro, diversos documentos da CNBB insistem na mesma direção. A Eucaristia é celebrada para gerar fraternidade. Não existe comunhão autêntica onde persistem racismo, exclusão, violência, corrupção e indiferença diante dos sofrimentos humanos. Essa visão possui profundas implicações antropológicas. O ser humano não é um indivíduo isolado. A própria biologia demonstra que a vida depende de relações. Nascemos dependentes, crescemos em comunidade e construímos nossa identidade através dos vínculos que estabelecemos.

A Eucaristia fala precisamente dessa dimensão relacional da existência. Comer é um ato profundamente humano. Em praticamente todas as culturas, a refeição compartilhada cria pertencimento. Sentar-se à mesma mesa significa reconhecer a dignidade do outro. Jesus compreendeu isso profundamente. Grande parte de seu ministério acontece em torno das refeições. Ele come com pecadores (Mc 2,15-17), aceita convites de fariseus (Lc 7,36), multiplica pães para multidões famintas (Mc 6,34-44), senta-se à mesa com amigos em Betânia (Jo 12,1-8) e se revela ressuscitado ao partir o pão em Emaús (Lc 24,30-35).

A mesa de Jesus rompe barreiras sociais, religiosas e culturais. Nela não existem puros e impuros, privilegiados e descartáveis. Todos são convidados. Essa dimensão possui enorme relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos uma época marcada pela fragmentação social, pelo individualismo e pela lógica da competição permanente. Muitas relações humanas foram reduzidas à utilidade, ao consumo e ao desempenho.

A Eucaristia propõe outra lógica. Ela ensina que a vida floresce na comunhão. O pão partido torna-se crítica permanente a uma sociedade que acumula sem repartir. O cálice compartilhado torna-se denúncia de sistemas que concentram riqueza enquanto milhões permanecem excluídos. Sob a ótica da sociologia da religião, a Eucaristia também desafia uma tendência crescente de privatização da fé. Em muitos contextos, a espiritualidade é reduzida a uma experiência individual, voltada apenas ao bem-estar pessoal. João 6, porém, aponta em outra direção. A comunhão com Cristo gera necessariamente comunhão com os irmãos.

Por isso, o mistério eucarístico jamais pode ser reduzido a um exercício de piedade intimista. Ele cria um novo modo de existir. Cria uma nova humanidade reconciliada. Cria um povo chamado a testemunhar, no interior da história, a presença do Reino de Deus. Quando Jesus afirma que quem come sua carne e bebe seu sangue permanece nele e ele permanece em quem o recebe (Jo 6,56), não está falando apenas de uma experiência mística individual. Está descrevendo uma realidade transformadora que alcança todas as dimensões da vida. A existência inteira passa a ser habitada pela lógica do amor que se entrega. A carne oferecida por Cristo é a mesma carne que foi tocada pelos leprosos, que acolheu os excluídos, que chorou diante do sofrimento humano e que foi crucificada pelo poder imperial. O sangue derramado é o sangue da nova aliança, mas também o sangue da solidariedade radical de Deus com a humanidade ferida.

Ao receber esse Corpo e esse Sangue, a Igreja não apenas recorda um acontecimento passado. Ela participa da vida nova inaugurada pela Páscoa. Torna-se sinal da presença de Cristo no mundo. Torna-se chamada a prolongar sua missão na história. E é justamente nesse ponto que a reflexão nos conduzirá adiante. Porque o Corpo de Cristo presente na Eucaristia não pode ser separado do corpo sofrido dos pobres, dos descartados e das vítimas da injustiça. O pão do céu exige uma resposta concreta na terra. A adoração conduz inevitavelmente à missão. A comunhão conduz inevitavelmente ao compromisso. E a mesa do Senhor torna-se também critério de julgamento para todas as estruturas sociais, econômicas, religiosas e políticas que negam a dignidade dos filhos e filhas de Deus. Se a Eucaristia é o sacramento da comunhão, ela também é o sacramento da denúncia profética. O Corpo de Cristo recebido no altar torna-se critério de discernimento para a vida pessoal, para a organização da comunidade e para as estruturas da sociedade. João 6 não é apenas um texto sobre a vida eterna; é também um texto sobre a história. Não fala apenas do céu; fala da terra. Não trata somente da salvação da alma; fala da dignidade integral do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27).

Ao afirmar que sua carne é verdadeira comida e seu sangue verdadeira bebida (Jo 6,55), Jesus desloca a religião do campo da mera observância ritual para o campo da existência concreta. O Deus revelado em Cristo não deseja ser apenas adorado. Deseja ser seguido. Não deseja apenas receber culto. Deseja que sua justiça floresça no mundo. Essa compreensão percorre toda a tradição profética de Israel. Amós denuncia aqueles que celebram solenidades religiosas enquanto exploram os pobres (Am 5,21-24). Isaías condena jejuns que não produzem libertação para os oprimidos (Is 58,1-12). Jeremias confronta uma religiosidade que confia no Templo, mas esquece a prática da justiça (Jr 7,1-11). Miqueias resume a vontade divina em palavras que atravessaram os séculos: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Jesus herda essa tradição profética e a leva ao seu ápice. Sua missão não consiste apenas em ensinar doutrinas ou estabelecer ritos. Consiste em inaugurar o Reino de Deus. E o Reino de Deus possui consequências espirituais, sociais, econômicas, culturais e políticas.

É importante compreender corretamente essa dimensão política do Evangelho. Jesus não funda um partido. Não apresenta um programa eleitoral. Não propõe a tomada do poder. Ao mesmo tempo, sua mensagem possui inevitáveis implicações políticas porque questiona todas as formas de dominação que negam a dignidade humana.

O Magnificat de Maria já anuncia a lógica do Reino quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52). As bem-aventuranças proclamam felizes os pobres, os mansos e os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,1-12). O juízo final identifica a presença de Cristo nos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados (Mt 25,31-46). Nessa perspectiva, a Eucaristia não pode ser separada da realidade dos que sofrem. O pão consagrado interpela a existência dos que passam fome. O cálice da nova aliança questiona sistemas que transformam vidas humanas em mercadoria. O altar não pode ser compreendido isoladamente das periferias, dos hospitais, das prisões, das ruas e das comunidades marcadas pela exclusão.

Os bispos reunidos em Medellín compreenderam isso com extraordinária lucidez. Diante da pobreza estrutural da América Latina, afirmaram que a miséria não era uma fatalidade histórica, mas consequência de mecanismos injustos que geravam dependência e exclusão. Puebla aprofundou essa reflexão ao reconhecer nos pobres o rosto sofredor de Cristo. Aparecida retomou essa tradição ao afirmar que a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica. Não se trata de uma escolha ideológica. Trata-se de uma consequência da própria revelação. Se Deus se fez pobre em Jesus de Nazaré (2Cor 8,9), a Igreja não pode permanecer indiferente diante dos pobres.

O Papa Francisco  insistiu continuamente nesse ponto e durante o seu pontificado, denunciou a cultura do descarte, a idolatria do dinheiro e a absolutização do mercado: 

  • Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, alertou que uma economia sem rosto humano produz exclusão e morte. 
  •  Na Laudato Si', demonstra que a crise ambiental e a crise social possuem raízes comuns. 
  • Em Fratelli Tutti, propõe uma fraternidade capaz de superar os muros da indiferença.

Tudo isso encontra profunda sintonia com a lógica eucarística. Quem recebe o Corpo de Cristo é chamado a reconhecer Cristo nos corpos feridos da história. Por essa razão, torna-se necessário abordar criticamente certas deformações contemporâneas da experiência religiosa. Uma delas é a chamada teologia da prosperidade. Embora apresente múltiplas variantes, sua lógica fundamental consiste em associar bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à prosperidade material.

Tal perspectiva entra em tensão com o testemunho bíblico. Jesus não promete riqueza aos discípulos. Promete cruz, perseguição e serviço (Mc 8,34-35). Os apóstolos não se tornaram poderosos. Tornaram-se testemunhas. A Igreja primitiva não cresceu mediante privilégios políticos, mas através da fidelidade ao Evangelho. O problema não está em reconhecer o valor do trabalho, da prosperidade legítima ou da melhoria das condições de vida. O problema surge quando a fé é transformada em instrumento para obtenção de vantagens individuais, obscurecendo a centralidade do Reino de Deus, da solidariedade e da justiça.

Outra deformação preocupante é a chamada teologia do domínio, presente em alguns ambientes religiosos contemporâneos. Nessa visão, a missão cristã seria conquistar espaços de poder para impor uma determinada agenda religiosa à sociedade. A linguagem do serviço é substituída pela linguagem da conquista. A lógica da cruz é substituída pela lógica do controle. Entretanto, Jesus rejeitou explicitamente essa tentação. Quando os discípulos disputavam posições de prestígio, ele respondeu: “Quem quiser ser o primeiro seja servo de todos” (Mc 10,44). Quando foi tentado a exercer um messianismo baseado no poder, recusou o caminho da dominação (Mt 4,1-11). Quando Pedro empunhou a espada, Jesus ordenou que a guardasse (Mt 26,52).

O Reino de Deus não se estabelece pela imposição. Cresce como fermento na massa (Mt 13,33), como semente lançada na terra (Mc 4,26-29), como grão de mostarda que se torna árvore (Mt 13,31-32). O Papa Francisco também denunciou   a mentalidade. que transforma o ministério em privilégio, a autoridade em domínio e a comunidade em espaço de dependência. Em vez de formar discípulos maduros, produz relações de submissão.

O Novo Testamento apresenta outro modelo. Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). O Mestre ajoelha-se diante daqueles que o chamam de Senhor. O poder é redefinido como serviço. A autoridade é compreendida como cuidado. A liderança torna-se expressão de amor.

O Concílio Vaticano II recuperou vigorosamente essa visão ao reafirmar a dignidade batismal de todo o povo de Deus. A Igreja não é propriedade de uma elite religiosa. É uma comunidade de discípulos missionários chamados a participar da missão de Cristo segundo a diversidade dos carismas e ministérios. Nesse contexto, também se torna necessário refletir sobre a instrumentalização política da religião. Ao longo da história, governantes, movimentos e grupos ideológicos frequentemente utilizaram símbolos religiosos para legitimar projetos de poder. Em diferentes épocas e lugares, a fé foi empregada para justificar guerras, perseguições, colonialismos, autoritarismos e exclusões.

O Evangelho resiste a todas essas tentativas de captura. Cristo não pertence à direita nem à esquerda. Mas isso não significa neutralidade diante da injustiça. Significa liberdade profética para julgar todas as ideologias à luz do Reino de Deus. Quando setores da extrema direita utilizam a religião para alimentar nacionalismos excludentes, discursos de ódio, intolerância ou desprezo pelos pobres, afastam-se da lógica do Evangelho. Quando setores da esquerda reduzem a fé a um fenômeno privado ou ignoram sua dimensão transcendente, também empobrecem a riqueza da experiência cristã.

A Boa Nova não cabe inteiramente em nenhum sistema político. Ela transcende todos eles. Contudo, possui critérios muito claros. Deus escuta o clamor dos oprimidos (Ex 3,7). Jesus identifica-se com os pequenos (Mt 25,40). O Espírito do Senhor é enviado para anunciar libertação aos cativos e boa notícia aos pobres (Lc 4,18). Por isso, a neutralidade diante do sofrimento humano não é uma opção evangélica. A tradição latino-americana falou acertadamente de uma opção preferencial pelos pobres. Não porque os pobres sejam moralmente superiores, mas porque Deus manifesta de modo particular sua compaixão junto aos que sofrem.

A Eucaristia recorda continuamente essa verdade. O Corpo de Cristo é entregue por muitos. O Sangue de Cristo é derramado por muitos. A lógica do dom substitui a lógica da acumulação. A lógica da comunhão substitui a lógica da exclusão. A lógica do amor substitui a lógica da violência  Vivemos tempos marcados por polarizações intensas, medos coletivos, ressentimentos acumulados e identidades construídas frequentemente pela oposição ao outro. Redes sociais amplificam conflitos. Discursos simplistas transformam adversários em inimigos. A cultura do encontro cede lugar à cultura da hostilidade.

A mesa eucarística propõe outra possibilidade. Pessoas diferentes sentam-se diante do mesmo Senhor. Pecadores recebem o mesmo pão. Homens e mulheres de histórias distintas partilham a mesma esperança. Não porque as diferenças desapareçam, mas porque são reconciliadas em algo maior. João 6 aponta precisamente para essa realidade. O pão descido do céu não alimenta apenas indivíduos. Alimenta uma comunidade. Alimenta uma humanidade nova. Alimenta um povo chamado a testemunhar, em meio às contradições da história, que outro mundo é possível porque o próprio Deus decidiu habitar entre nós, oferecer-se como alimento e transformar a fome humana em caminho de comunhão, justiça e vida abundante.

Ao chegar ao final do discurso do Pão da Vida, somos conduzidos ao coração do mistério cristão. João 6,51-58 não é apenas uma explicação sobre a Eucaristia. É uma revelação sobre quem é Deus, sobre quem somos nós e sobre o destino para o qual toda a criação caminha. O texto começa com a fome humana e termina com a promessa da vida eterna. Entre uma realidade e outra está a pessoa de Jesus Cristo, o pão vivo descido do céu. A afirmação de Jesus permanece tão provocadora hoje quanto foi para seus ouvintes na sinagoga de Cafarnaum: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54). Não se trata apenas de uma linguagem sacramental. Trata-se da revelação de um Deus que escolheu aproximar-se da humanidade de modo radical. O Deus de Israel já havia caminhado com seu povo no deserto, falado pelos profetas e manifestado sua fidelidade através da história da aliança. Em Jesus, porém, essa proximidade alcança uma profundidade inimaginável. Deus não apenas visita seu povo. Deus se faz carne. Deus assume nossa condição. Deus entra na história humana até suas últimas consequências.

A encarnação e a Eucaristia são dois movimentos inseparáveis do mesmo amor. Em Belém, cujo nome significa “Casa do Pão”, o Verbo assume a carne humana. Na cruz, essa carne é entregue pela vida do mundo. Na Eucaristia, essa mesma vida continua sendo oferecida como alimento para todas as gerações. O Cristo que nasceu, viveu, morreu e ressuscitou permanece presente na caminhada do seu povo. Por isso, a Eucaristia não é uma simples recordação de um acontecimento passado. É memória viva. É atualização do mistério pascal. É encontro real com o Ressuscitado que continua alimentando sua Igreja através dos séculos. Cada celebração eucarística une céu e terra, passado e futuro, história e eternidade.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que a Eucaristia é fonte e ápice de toda a vida cristã. Nela converge toda a ação da Igreja e dela brota toda a missão da comunidade dos discípulos. O Concílio Vaticano II reafirma que nenhum outro sacramento expressa tão profundamente a comunhão entre Cristo e seu povo quanto a mesa eucarística. Contudo, essa centralidade não deve ser compreendida de forma intimista ou isolada. A Eucaristia é fonte porque alimenta a caminhada. É ápice porque conduz à comunhão plena. Mas entre a fonte e o ápice existe a estrada da história, onde a fé deve tornar-se vida concreta. Esse talvez seja um dos maiores desafios da Igreja contemporânea. Há sempre o risco de reduzir a Eucaristia a um objeto de devoção, esquecendo sua dimensão transformadora. Há o perigo de transformar a adoração em fuga do mundo, quando ela deveria nos devolver ao mundo com um coração renovado. Há o risco de ajoelhar-se diante do sacrário e permanecer indiferente diante da dor humana.

Jesus jamais separou amor a Deus e amor ao próximo. O mesmo Senhor que se oferece como pão da vida é aquele que se identifica com os famintos, os doentes, os estrangeiros, os encarcerados e os excluídos (Mt 25,31-46). O mesmo Cristo presente na hóstia consagrada está presente nos rostos feridos da humanidade. São João Crisóstomo compreendeu isso de maneira admirável quando advertiu seus fiéis a não honrarem o Corpo de Cristo apenas sobre o altar, enquanto o desprezavam nos pobres. Sua advertência atravessa os séculos e continua interpelando a consciência cristã. A verdadeira espiritualidade eucarística nunca se fecha sobre si mesma. Ela se abre ao encontro, à partilha e ao serviço.

Nesse sentido, a Eucaristia constitui uma crítica permanente às estruturas de pecado que marcam a história humana. Num mundo em que milhões ainda passam fome, o pão eucarístico recorda que os bens da criação possuem destino universal. Numa sociedade marcada pela exclusão, a mesa do Senhor anuncia uma fraternidade que não reconhece descartáveis. Em tempos de violência, a entrega de Cristo revela que o amor é mais forte que a força. Em meio à cultura do individualismo, a comunhão proclama que ninguém se salva sozinho. A América Latina conheceu profundamente essa dimensão social da fé. Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida recordaram que a evangelização não pode ser separada da promoção da dignidade humana. A opção preferencial pelos pobres não é um apêndice sociológico da fé cristã. É uma exigência que brota do próprio Evangelho. O Cristo que se faz pão para todos desafia a Igreja a ser sinal de partilha, solidariedade e justiça.

Essa exigência torna-se ainda mais urgente diante dos fenômenos religiosos contemporâneos. Em diferentes contextos, a fé tem sido instrumentalizada por interesses econômicos, ideológicos e partidários. Algumas correntes religiosas apresentam Deus como garantidor de prosperidade individual, reduzindo o Evangelho a uma espécie de contrato de benefícios espirituais. Outras transformam a religião em ferramenta de disputa cultural e de conquista de poder. Entretanto, o Cristo de João 6 segue um caminho diferente. Seu corpo não é instrumento de dominação. É corpo entregue. Seu sangue não é símbolo de triunfo político. É sangue derramado. Seu Reino não é construído mediante imposição ou violência. É construído através do serviço, da misericórdia e da fidelidade ao amor.

A cruz permanece o grande critério de discernimento cristão. Toda espiritualidade que busca apenas poder, prestígio ou privilégios corre o risco de afastar-se do Evangelho. Toda comunidade que esquece os pobres corre o risco de perder contato com o coração de Cristo. Toda Igreja que transforma ministério em poder e serviço em privilégio corre o risco de cair no clericalismo. O Evangelho nos conduz em direção oposta. O Filho de Deus ajoelha-se para lavar os pés dos discípulos. O Senhor do universo nasce numa manjedoura. O Rei prometido entra em Jerusalém montado num jumento. O Messias vence não pela espada, mas pela entrega. E continua presente no sinal humilde do pão partido.

Essa humildade divina contém uma das mais profundas respostas à crise espiritual de nosso tempo. Vivemos numa cultura marcada pela aceleração, pelo desempenho, pela busca incessante de reconhecimento e pelo medo do fracasso. Muitas pessoas experimentam um profundo vazio existencial, mesmo cercadas de tecnologia, informação e consumo. A fome de sentido permanece. João 6 fala diretamente a essa condição humana. O ser humano continua faminto. Faminto de amor verdadeiro. Faminto de pertencimento. Faminto de esperança. Faminto de reconciliação. Faminto de Deus.

Nenhum sistema econômico consegue saciar plenamente essa fome. Nenhuma ideologia consegue responder integralmente a ela. Nenhuma realização individual é suficiente para preenchê-la. Somente o encontro com o Deus que se comunica em amor pode alcançar as profundezas do coração humano. Por isso, a Eucaristia permanece atual em qualquer época. Ela recorda que a vida não é propriedade a ser acumulada, mas dom a ser partilhado. Recorda que a felicidade não nasce da posse, mas da comunhão. Recorda que a verdadeira grandeza se encontra no serviço. Recorda que a humanidade não está condenada ao egoísmo, porque Deus continua alimentando seu povo com o pão da esperança.

Cada celebração eucarística antecipa, de certo modo, o banquete definitivo do Reino anunciado pelos profetas (Is 25,6-9) e retomado pelo Apocalipse (Ap 19,9). Toda missa é uma janela aberta para o futuro de Deus. Ao redor do altar reunimo-nos ainda marcados por limitações, pecados e divisões. Mas já contemplamos a promessa de uma humanidade reconciliada. Nesse horizonte, o pedido da multidão em João 6 torna-se também nossa oração: “Senhor, dá-nos sempre desse pão” (Jo 6,34). Dá-nos o pão da tua presença quando a esperança vacila. Dá-nos o pão da tua Palavra quando as vozes da mentira tentam nos confundir. Dá-nos o pão da comunhão quando o individualismo nos isola. Dá-nos o pão da justiça quando a indiferença ameaça endurecer nossos corações. Dá-nos o pão da coragem quando a missão parece pesada demais.

Mas ao pedir esse pão, somos convidados a algo mais profundo. Somos chamados a nos tornar aquilo que recebemos. A Eucaristia não termina quando termina a celebração. Ela continua na vida dos discípulos. Continua nas mãos que repartem. Continua nos corações que acolhem. Continua nas comunidades que servem. Continua na luta pela dignidade humana. Continua na construção da paz. Continua onde o amor vence o egoísmo e a solidariedade vence a indiferença. No fim, talvez esta seja a grande mensagem de João 6. Cristo não veio apenas para alimentar nossa fome. Veio para transformar-nos em pão para os outros. Veio para fazer da Igreja um sinal vivo de sua presença no mundo. Veio para que, através de homens e mulheres configurados ao seu amor, a humanidade pudesse experimentar já agora algo da vida eterna que começou na ressurreição e alcançará sua plenitude quando Deus for tudo em todos (1Cor 15,28).

Diante do mistério do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, resta-nos adorar, agradecer e comprometer-nos. Adorar o Deus que se fez alimento. Agradecer o amor que se entrega sem reservas. E comprometer-nos a viver de tal forma que, ao olhar para a vida da Igreja, os pobres, os sofredores, os esquecidos e os pequenos possam reconhecer, ainda hoje, no partir do pão, o rosto vivo do Ressuscitado.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano