Quando Jesus afirma “para onde eu vou, vós não podeis ir” (Jo 8,21), ele não fala de um deslocamento geográfico, mas de uma passagem existencial e teológica. Trata-se da sua páscoa, do movimento de retorno ao Pai (Jo 13,1), que passa necessariamente pela cruz. A incapacidade de seus interlocutores de segui-lo revela uma condição mais profunda, marcada pelo pecado entendido, no horizonte joanino, como recusa da verdade revelada em Cristo (Jo 16,9). Essa condição ecoa a denúncia profética do Antigo Testamento, onde o pecado é ruptura da comunhão com Deus (Is 59,2) e fechamento à sua ação libertadora (Ez 18,30-32). A afirmação “vós sois daqui de baixo, eu sou do alto” (Jo 8,23) não estabelece um dualismo simplista, mas revela duas lógicas de existência. De um lado, a lógica fechada em si mesma, marcada pela autossuficiência e pelo apego às estruturas de poder. De outro, a lógica do dom, da abertura e da comunhão com Deus. Essa tensão percorre toda a Escritura, desde a oposição entre sabedoria terrena e sabedoria divina (Tg 3,15-17) até a distinção paulina entre viver segundo a carne ou segundo o Espírito (Rm 8,5-9). Trata-se de uma escolha existencial que atravessa a história humana.
No centro da perícope está a afirmação decisiva “quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que Eu sou” (Jo 8,28). Aqui, o Evangelho de João atinge uma profundidade teológica singular. A expressão “Eu sou” remete diretamente à revelação do nome divino em Êxodo 3,14, onde Deus se apresenta como presença viva e libertadora na história. Essa auto-revelação é retomada nos profetas, especialmente em Isaías 43,10-13, onde Deus afirma sua unicidade e sua ação salvadora. Em João, essa identidade divina se encarna em Jesus, que se apresenta como pão da vida (Jo 6,35), luz do mundo (Jo 8,12), bom pastor (Jo 10,11) e ressurreição e vida (Jo 11,25). No entanto, em João 8, essa revelação está inseparavelmente ligada à cruz. O verbo “levantar” possui um duplo sentido, indicando ao mesmo tempo a elevação física na cruz e a exaltação gloriosa. Essa ambiguidade revela a lógica paradoxal do Evangelho. Aquilo que é visto como fracasso torna-se manifestação da glória de Deus. Essa mesma dinâmica aparece em João 3,14, onde Jesus se compara à serpente levantada por Moisés no deserto (Nm 21,8-9), sinal de cura e vida. Em João 12,32, ele afirma que, ao ser levantado, atrairá todos a si, indicando que a cruz é centro de gravidade da história da salvação.
Essa teologia é aprofundada por outros textos do Novo Testamento. Em Filipenses 2,8-11, a humilhação de Cristo até a morte de cruz é seguida por sua exaltação, revelando que o caminho de Deus passa pela kenosis, pelo esvaziamento. Em Hebreus 5,7-9, Jesus aprende a obediência através do sofrimento, tornando-se fonte de salvação. Em Apocalipse 5,6, o Cordeiro aparece “como que imolado”, mas está de pé, unindo morte e vida em uma única realidade pascal. A cruz, portanto, não é apenas um evento histórico, mas um princípio teológico que redefine a compreensão de Deus e da existência. A partir dessa perspectiva, o episódio do lado aberto de Cristo (Jo 19,34) ganha um significado ainda mais profundo. Do seu lado jorram sangue e água, símbolos da eucaristia e do batismo, mas também sinais da nova criação. Essa imagem remete ao rio que brota do templo em Ezequiel 47,1-12, trazendo vida ao deserto, e à fonte purificadora anunciada em Zacarias 13,1. Cristo é o novo templo (Jo 2,21), de cujo interior brota a vida para o mundo. A Primeira Carta de João retoma essa teologia ao afirmar que Jesus veio “pela água e pelo sangue” (1Jo 5,6-8), indicando a unidade entre encarnação, morte e sacramento.
O paralelo com Gênesis 2,21-22, onde Eva é formada do lado de Adão, revela que estamos diante de uma nova criação. Paulo desenvolve essa ideia ao apresentar Cristo como o novo Adão (Rm 5,12-21; 1Cor 15,45-49), inaugurando uma nova humanidade. A Igreja, nascida do lado de Cristo, é chamada a ser sinal dessa nova criação, marcada não pela dominação, mas pela comunhão. No entanto, essa revelação encontra resistência. Em João 8,22, os interlocutores de Jesus interpretam suas palavras de forma literal e equivocada, perguntando se ele pretende se suicidar. Esse mal-entendido é característico do método pedagógico joanino, presente também em João 3,4 com Nicodemos e em João 4,11 com a samaritana. Trata-se de uma estratégia narrativa que revela a dificuldade humana de compreender as realidades espirituais. Essa incompreensão não é apenas intelectual, mas existencial. Como afirma João 9,39-41, o verdadeiro pecado é a pretensão de ver quando se está cego.
Essa cegueira tem também uma dimensão psicológica. O ser humano resiste à verdade quando ela ameaça suas estruturas de segurança. Reconhecer o Deus revelado na cruz implica abandonar imagens de poder e controle. Por isso, muitos preferem permanecer na ilusão, como denuncia 1João 1,8-10, onde a recusa de reconhecer o pecado é vista como autoengano.
No contexto histórico, a cruz era um instrumento de execução reservado aos marginalizados (Dt 21,23; Gl 3,13). A proclamação de que ali se revela Deus subverte completamente as categorias religiosas e políticas. Em João 19,15, as autoridades afirmam “não temos outro rei senão César”, revelando a aliança entre religião e poder imperial. Essa instrumentalização da fé já havia sido denunciada pelos profetas (Is 1,11-17; Am 5,21-24; Jr 7,1-11), que criticavam um culto desvinculado da justiça.
Essa crítica permanece atual. Quando a religião é utilizada para legitimar projetos de poder, ela se torna ideologia. A advertência de Jesus “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) continua sendo um critério de discernimento. A teologia da prosperidade, ao associar fé e riqueza, contradiz o Evangelho, que proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20) e denuncia o acúmulo egoísta (Lc 12,15-21). Da mesma forma, o clericalismo, denunciado à luz de Mateus 23,1-12, representa uma distorção da missão eclesial, transformando o serviço em domínio. À luz de João 8,21-30, onde Jesus desmascara a cegueira daqueles que absolutizam suas próprias certezas religiosas e políticas, torna-se inevitável uma crítica profética às expressões contemporâneas que sequestram o nome de Deus para legitimar projetos de poder. Quando setores da extrema direita instrumentalizam a fé cristã para sustentar discursos de exclusão, violência simbólica e desprezo pelos pobres, reproduzem a mesma lógica daqueles que, no Evangelho, não reconhecem o “Eu Sou” presente em Jesus. Trata-se de uma religiosidade que confunde Reino de Deus com domínio ideológico, que troca o seguimento do Crucificado pela idolatria do poder, que proclama valores morais enquanto ignora a justiça (cf. Mt 23,23). Ao invés de se deixarem converter pela cruz, erguem cruzes como bandeiras de guerra, esvaziando seu sentido salvífico. Contra essa distorção, a palavra de Cristo permanece como juízo e chamado: “vós sois daqui de baixo” (Jo 8,23), isto é, presos a uma lógica que não reconhece o Deus que se revela na fraqueza, na misericórdia e na solidariedade com os crucificados da história.
Os documentos da Igreja reforçam essa visão. A Gaudium et Spes afirma que a dignidade humana deve ser o centro da vida social, enquanto a Evangelii Nuntiandi insiste na inseparabilidade entre evangelização e promoção humana. Os documentos de Medellín e Puebla, no contexto latino-americano, proclamam a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho, em sintonia com Mateus 25,31-46, onde o próprio Cristo se identifica com os necessitados. O Magnificat (Lc 1,52-53) revela a lógica do Reino, que derruba os poderosos e exalta os humildes. Nesse horizonte, a cruz de Cristo continua presente na história, especialmente nos corpos dos pobres e excluídos. A realidade contemporânea, marcada por desigualdade, violência e manipulação religiosa, exige uma leitura profética do Evangelho. O Apocalipse denuncia sistemas que utilizam a religião para oprimir (Ap 13), revelando que a luta entre o Reino de Deus e as forças de dominação continua atual.
A fé, portanto, não pode ser reduzida a uma adesão intelectual ou a uma prática ritual. Como afirma João 8,31-32, a verdade liberta, mas essa liberdade implica permanecer na palavra de Jesus, assumir seu caminho e deixar-se transformar. Trata-se de um processo contínuo, que envolve conversão pessoal e transformação social (Rm 12,2). A conclusão da perícope afirma que “muitos creram nele” (Jo 8,30). Essa fé nasce no meio do conflito, da tensão e da incompreensão. Não é uma fé triunfalista, mas uma fé pascal, que reconhece na cruz o lugar da revelação de Deus. É uma fé que se traduz em compromisso com a vida, com a justiça e com a dignidade humana. O sangue e a água que brotam do lado de Cristo continuam a jorrar na história, chamando a Igreja a ser sinal de vida. Pelo batismo, participamos de sua morte e ressurreição (Rm 6,3-4), e pela eucaristia, somos alimentados para a missão (1Cor 10,16). Como afirma 1Pedro 2,24, “por suas chagas fostes curados”, indicando que a salvação é integral, atingindo todas as dimensões da existência.
Reconhecer o “Eu Sou” na cruz é entrar em uma nova compreensão de Deus e da vida. É abandonar as falsas seguranças e abrir-se ao mistério de um Deus que se revela na fraqueza (2Cor 12,9). É assumir uma fé comprometida com a justiça, a solidariedade e a esperança de novos céus e nova terra (2Pd 3,13), onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4). Nesse horizonte, a elevação do Filho do Homem continua acontecendo sempre que a vida é entregue por amor, sempre que a dignidade é defendida, sempre que o Evangelho se torna carne na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano






