sábado, 16 de maio de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 28,16-20 - Ascensão do Senhor

A solenidade da Ascensão do Senhor ocupa um lugar central dentro da espiritualidade do Tempo Pascal porque revela o Cristo Ressuscitado que retorna ao Pai sem abandonar a humanidade e inaugura o tempo da missão da Igreja. Na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana, Mateus 28,16-20, também proclamado no domingo da Santíssima Trindade e é proclamado especialmente na Solenidade da Ascensão no Ano A e ja refletimos  esse texto  outras .vezes em nosso canal do YouTube e  aqui em 2023 e  e as outras  leituras  do dia são as seguintes: Atos 1,1-11, Efésios 1,17-23 e o Salmo 46(47), formando um conjunto teológico que apresenta Cristo como Senhor da história, exaltado acima de todos os poderes, mas permanentemente presente no meio da comunidade. As Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente contemplam essa festa como a glorificação da humanidade assumida pelo Verbo, enquanto as tradições reformadas enfatizam o envio missionário e universal da Igreja. O 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais celebrado neste mesmo horizonte litúrgico amplia ainda mais o sentido da missão da Igreja no mundo contemporâneo. A mensagem do Papa Leão XIV, com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, encontra profunda sintonia com o mandato missionário do Ressuscitado, porque a Ascensão não é apenas uma celebração da glória de Cristo, mas também um chamado para que a comunidade cristã permaneça humana, misericordiosa, profética e comprometida com a dignidade das pessoas num mundo marcado pela desumanização, pela polarização ideológica, pela violência verbal e pela manipulação da verdade.

  • Atos 1,1-11: aprofunda de maneira decisiva a compreensão da Ascensão ao apresentar Jesus não apenas como aquele que sobe aos céus, mas como aquele que envia uma comunidade para continuar sua missão na história. Lucas escreve para Teófilo retomando “tudo o que Jesus fez e ensinou” (At 1,1), deixando claro que o Evangelho não termina com a Ressurreição, mas continua agora através da Igreja. O detalhe dos discípulos olhando para o céu enquanto Jesus é elevado possui enorme riqueza hermenêutica. Os anjos perguntam: “Por que ficais aqui parados olhando para o céu?” (At 1,11). A pergunta rompe qualquer espiritualidade alienante. O céu não pode servir como fuga da realidade histórica. A Ascensão inaugura responsabilidade missionária. Assim como em Mateus 28,19 o Ressuscitado ordena “Ide”, em Atos os discípulos recebem a missão de serem testemunhas “até os confins da terra” (At 1,8). A nuvem que encobre Jesus retoma o simbolismo do Êxodo, onde a nuvem representava a presença divina conduzindo o povo (Ex 13,21). A Ascensão, portanto, não significa ausência, mas nova forma de presença. O Cristo exaltado continua agindo através de uma comunidade chamada a testemunhar justiça, esperança e Reino num mundo marcado pela opressão imperial romana, realidade que encontra paralelos profundos nas estruturas contemporâneas de exclusão, violência social e manipulação religiosa. Também hoje muitos permanecem “olhando para o céu” enquanto ignoram os crucificados da história. A fé cristã, porém, não é fuga espiritualista nem alienação religiosa. O Ressuscitado envia sua Igreja para dentro das feridas humanas, para as periferias existenciais, para os lugares onde a dignidade humana é negada.
  •  Salmo 46(47): proclamado na liturgia da Ascensão, celebra Deus como rei universal: “Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta” (Sl 46,6). A linguagem litúrgica do salmo remete às cerimônias de entronização do antigo Oriente, onde reis eram exaltados publicamente. Entretanto, na hermenêutica bíblica, a realeza divina difere radicalmente dos impérios humanos. Enquanto os reis da terra consolidavam poder através da violência, Deus manifesta sua soberania através da justiça e da misericórdia. Relacionado a Mateus 28,18, quando Jesus afirma “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”, o salmo revela que a Ascensão é a proclamação do verdadeiro senhorio de Cristo diante dos falsos absolutos da história. Em pleno contexto romano, onde César era chamado de “senhor” e “salvador”, proclamar o reinado universal de Deus possuía dimensão profundamente política e profética. Hoje, o salmo continua confrontando idolatrias modernas que absolutizam mercado, nacionalismos, extremismos ideológicos e líderes autoritários. O verdadeiro Reino anunciado por Cristo não se fundamenta na lógica da dominação, mas na comunhão, na dignidade humana e na libertação dos pobres. A Ascensão proclama que nenhum poder econômico, militar, religioso ou político possui autoridade definitiva sobre a vida humana. O único Senhor é aquele que lavou os pés dos discípulos, acolheu os marginalizados e entregou sua própria vida na cruz.
  •  Efésios 1,17-23:  oferece uma das mais profundas interpretações teológicas da Ascensão dentro do Novo Testamento. Paulo apresenta Cristo exaltado “acima de todo principado, potestade, força e dominação” (Ef 1,21), utilizando categorias políticas e espirituais do mundo helenístico para afirmar que nenhum poder humano ou cósmico possui autoridade definitiva diante do Ressuscitado. A exegese do texto revela que Paulo escreve para comunidades vivendo sob o peso do Império Romano, cercadas por estruturas religiosas, econômicas e políticas opressoras. A Ascensão aparece então como anúncio de esperança e resistência. O Cristo exaltado não abandona sua Igreja, mas torna-se cabeça do corpo que é a comunidade dos discípulos. Essa imagem dialoga profundamente com Mateus 28,20: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.” A presença do Ressuscitado sustenta uma Igreja chamada a viver em comunhão e missão. A oração paulina para que os cristãos recebam “espírito de sabedoria e revelação” (Ef 1,17) também possui enorme atualidade hermenêutica diante de um mundo marcado por manipulação ideológica, pós-verdade e instrumentalização da religião. A verdadeira sabedoria cristã não é domínio religioso nem poder clerical, mas discernimento espiritual capaz de reconhecer o Reino de Deus no meio das contradições da história e permanecer fiel ao Evangelho da justiça, da misericórdia e da esperança.

A Ascensão não é o fim da presença de Cristo, mas a preparação para Pentecostes. O Senhor sobe ao Pai para que o Espírito seja derramado sobre a comunidade. A Igreja da Ascensão é também a Igreja da espera vigilante, reunida em oração, aprendendo que missão sem Espírito transforma-se em ativismo religioso, propaganda ideológica e estrutura vazia. O mesmo Cristo que sobe é aquele que promete o Paráclito. Por isso a comunidade cristã vive entre a memória da Ressurreição e a expectativa do Pentecostes, entre a promessa e a missão, entre o já e o ainda não do Reino de Deus.

Mateus encerra seu evangelho não descrevendo literalmente Jesus subindo aos céus, mas apresentando a promessa decisiva da permanência do Ressuscitado: “Eis que eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). Enquanto Lucas enfatiza visivelmente o movimento da Ascensão em direção ao céu (At 1,9), Mateus silencia sobre a subida física de Jesus e concentra-se na permanência do Ressuscitado junto à comunidade. Isso revela duas perspectivas complementares da tradição primitiva: Cristo exaltado junto ao Pai e Cristo permanentemente presente na missão da Igreja. O foco não está na ausência, mas numa nova forma de presença. O céu, dentro da mentalidade bíblica, não é um espaço geográfico acima das nuvens, mas a plenitude da comunhão com Deus. Assim, afirmar que Cristo sobe aos céus e senta-se à direita do Pai significa proclamar sua participação plena na autoridade divina. Em pleno contexto do Império Romano, onde César era chamado de senhor do mundo, proclamar Jesus como Kyrios possuía uma dimensão profundamente profética e subversiva diante de todo absolutismo político e religioso. A Ascensão proclama que nenhum império humano é eterno. Nenhuma ideologia possui autoridade absoluta. Nenhum sistema econômico pode ocupar o lugar de Deus. A narrativa de Mateus revela que os discípulos enviados eram apenas onze. A ausência de Judas permanece como marca da fragilidade humana. A Igreja nasce ferida, incompleta, marcada pela dúvida e pela contradição. Mesmo diante do Ressuscitado, “alguns, porém, duvidaram” (Mt 28,17). O evangelho desmonta qualquer espiritualidade triunfalista. A fé autêntica não elimina automaticamente o conflito interior. A missão nasce em meio às ambiguidades humanas. Isso aproxima profundamente o texto da realidade contemporânea, onde muitos vivem crises espirituais em meio à violência, às desigualdades, ao sofrimento social e ao aparente silêncio de Deus diante das injustiças. A sociedade contemporânea também é marcada por medos profundos: medo da exclusão, da pobreza, da violência, da solidão e da irrelevância. Muitos aderem a discursos religiosos autoritários porque procuram segurança emocional em tempos de instabilidade. Entretanto, o Ressuscitado não governa pelo medo, mas pela presença. A primeira palavra do Cristo pascal não é ameaça, mas esperança. O Ressuscitado não espera uma comunidade perfeita para enviá-la. Ele envia pessoas frágeis, feridas e inseguras. A missão não nasce da perfeição humana, mas da graça divina.

A Galileia escolhida por Jesus possui forte significado teológico e social. Não é Jerusalém, centro político e religioso do judaísmo. A missão nasce da periferia, da “Galileia dos gentios” (Is 9,1), região marginalizada e culturalmente misturada. Deus inicia seu projeto libertador entre pobres, pescadores, trabalhadores e invisibilizados. O monte onde ocorre o encontro remete ao Sinai e ao Horeb, lugares bíblicos de revelação. Jesus aparece como o novo legislador que não entrega tábuas de pedra, mas uma missão viva fundamentada no discipulado. A escolha da Galileia revela que Deus continua agindo a partir das margens da história e não dos centros do poder religioso. A Galileia continua existindo. Ela está nas periferias esquecidas, nos rostos cansados dos trabalhadores, nas mães que sofrem pela violência, nos jovens sem horizonte, nos pobres esmagados pelas injustiças sociais e nos que continuam esperando uma palavra de esperança. É para essa Galileia humana que o Ressuscitado continua enviando seus discípulos. Quando Jesus afirma: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28,18), não fala da lógica autoritária dos impérios humanos. Sua autoridade nasce do serviço, da misericórdia e da coerência entre palavra e prática, como já aparecia em Mateus 7,29. Isso confronta diretamente as deformações religiosas contemporâneas marcadas pelo clericalismo, pelo autoritarismo espiritual e pela instrumentalização da fé como mecanismo de controle político, econômico e psicológico. O evangelho de Mateus desmonta toda lógica clerical quando mostra que o Ressuscitado envia uma comunidade de discípulos frágeis e não uma elite religiosa perfeita. O poder no Reino nasce do serviço. Onde a Igreja busca privilégios, prestígio e domínio, afasta-se do monte da Galileia e aproxima-se perigosamente dos palácios de Jerusalém. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recorda que a Igreja é antes de tudo Povo de Deus caminhando na história. Já Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Não existe discipulado verdadeiro desconectado do sofrimento humano.

O imperativo do “Ide”   em Mateus 28,19, já  que já  refletimos no texto: Entre o Vinde e o Ide: Igreja, Conflito e Comunhão no Corpo em Tensão  que rompe qualquer espiritualidade fechada sobre si mesma. A Igreja existe para sair. A Ascensão não legitima alienação religiosa nem fuga do mundo. O Cristo exaltado continua presente nos pobres, nos marginalizados e nos crucificados da história, como recorda Mateus 25,31-46. Uma espiritualidade desconectada do sofrimento humano transforma-se em abstração religiosa. Medellín, Puebla, Santo Domingo e Documento de Aparecida insistiram fortemente que a missão da Igreja passa necessariamente pela defesa da dignidade humana e pela opção preferencial pelos pobres. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao próprio Cristo que se identificou com os pequenos. A Evangelii Gaudium também recorda que a Igreja deve ser “em saída”, capaz de abandonar comodismos pastorais e estruturas autorreferenciais para encontrar os feridos da história. O batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” revela que a missão nasce da própria comunhão trinitária. Deus não é solidão de poder, mas comunhão de amor. Isso confronta o individualismo contemporâneo e também os modelos religiosos empresariais que transformam a fé em mercado espiritual. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio deformam o Evangelho ao substituir o Reino de Deus pela lógica do sucesso individual e da acumulação econômica. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres e proclamou bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). O Evangelho não legitima desigualdades sociais nem projetos autoritários travestidos de religião. Em muitos contextos contemporâneos, o nome de Deus é utilizado para justificar intolerância, violência simbólica e projetos políticos excludentes. O Evangelho, porém, continua sendo denúncia profética contra toda idolatria do poder.

A crítica profética permanece atual. Isaías, Amós e Miqueias denunciaram governantes injustos e líderes religiosos corruptos. Jesus expulsou os vendedores do templo porque a religião havia se tornado instrumento econômico de exclusão. Também hoje a fé é frequentemente manipulada para alimentar extremismos políticos, discursos de ódio e projetos de poder. O Evangelho, porém, continua sendo força libertadora que denuncia idolatrias políticas, econômicas e religiosas. A mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais torna-se profundamente necessária dentro desse contexto. “Preservar vozes e rostos humanos” significa resistir à cultura da desumanização. Em tempos de redes sociais marcadas pela violência verbal, fake news, manipulação ideológica e radicalização política, comunicar o Evangelho exige responsabilidade ética e espiritual.

A comunicação cristã nasce da encarnação. Deus não salvou a humanidade à distância. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Em Jesus, Deus assume linguagem humana, rosto humano, lágrimas humanas e relações humanas. Toda comunicação que desumaniza contradiz o mistério da encarnação. Na tradição bíblica, o rosto possui dimensão profundamente teológica. O rosto revela dignidade, presença e relação. O cristianismo é a religião do rosto humano porque Deus assumiu um rosto humano em Jesus Cristo. Preservar vozes e rostos humanos significa resistir à desumanização promovida pelas estruturas de ódio, exclusão e manipulação ideológica. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em alvos, números ou inimigos. O Evangelho faz o contrário: devolve rosto aos invisibilizados. Jesus olhava para os pobres, os doentes, os pecadores públicos e os marginalizados não como objetos descartáveis, mas como filhos e filhas amados de Deus. Tiago 3,9 denuncia a contradição de bendizer a Deus e amaldiçoar seres humanos feitos à sua imagem. Efésios 4,29 recorda que da boca do cristão devem sair palavras que edifiquem. O “Ide” missionário passa também pela responsabilidade ética da comunicação. O discípulo de Jesus não pode utilizar a palavra para humilhar, manipular ou destruir. O anúncio do Evangelho exige verdade unida à misericórdia. Comunicar Cristo não é espalhar medo, intolerância ou fanatismo religioso. É anunciar esperança, dignidade e reconciliação num mundo profundamente ferido pela violência simbólica e pela cultura do descarte.

A contemporaneidade vive uma crise profunda de sentido marcada pela violência, desigualdade, precarização da vida e radicalizações ideológicas. Nesse cenário, a promessa de Cristo “Eu estarei convosco” torna-se fonte de esperança e resistência. O Reino já começou na Ressurreição, mas ainda não alcançou sua plenitude. Vivemos entre a promessa e o cumprimento definitivo. Por isso a Ascensão não autoriza conformismo histórico. Enquanto aguardamos a volta do Senhor, somos chamados a antecipar sinais do Reino através da justiça, da reconciliação e da defesa da vida. O Ressuscitado voltará, mas enquanto isso a Igreja é chamada a construir sinais concretos do Reino através da solidariedade e da dignidade humana. Isaías 50,4 ilumina profundamente o discipulado missionário ao afirmar: “O Senhor despertou meu ouvido para escutar como discípulo.” Antes de falar, é preciso aprender a escutar. O verdadeiro missionário não é propagandista religioso, mas alguém que ouve o clamor dos pobres, das vítimas e dos excluídos. A Igreja frequentemente fala demais e escuta de menos. Escutar os que sofrem é parte essencial do Evangelho. O discipulado missionário nasce da capacidade de reconhecer Deus presente na dor humana.

Celebrar a Ascensão do Senhor é, portanto, olhar para o céu sem abandonar a terra. É compreender que o Reino começa aqui quando o Evangelho se transforma em prática concreta de misericórdia, justiça e comunhão. Nesse horizonte ressoa profundamente a memória profética de Dom Adriano Hypólito, que afirmava com simplicidade e radicalidade evangélica: “O céu começa aqui”. Sua expressão não era um slogan religioso vazio, mas uma profunda síntese teológica e pastoral da esperança cristã. O céu começa aqui quando se cumpre a oração ensinada por Jesus: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu” (Mt 6,10). O céu começa aqui quando os pobres são reconhecidos como bem-aventurados (Lc 6,20), quando os que têm fome e sede de justiça são saciados (Mt 5,6), quando os pacificadores são chamados filhos de Deus (Mt 5,9), quando o pão é repartido, o estrangeiro é acolhido e o ferido da estrada deixa de ser ignorado, como na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37). O céu começa aqui quando a comunidade cristã compreende que o Ressuscitado continua presente nos crucificados da história, porque “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Começa aqui quando a Igreja deixa de buscar prestígio e volta a lavar os pés da humanidade ferida (Jo 13,14-15). Começa aqui quando o poder deixa de ser instrumento de dominação e se transforma em serviço, pois o próprio Jesus afirmou: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Começa aqui quando o discípulo aprende que seguir Cristo não é ocupar tronos religiosos, mas carregar a cruz da solidariedade e do compromisso com a vida (Mt 16,24).

A Ascensão não afasta Cristo da história humana. Pelo contrário, revela que sua presença ultrapassa os limites do espaço e do tempo e continua sustentando os que lutam pela dignidade humana em meio às contradições do mundo. O Senhor exaltado continua caminhando entre os pobres, os invisibilizados, os cansados e os que choram. Ele continua passando pelas periferias humanas como passou pelas aldeias da Galileia, tocando leprosos (Mc 1,40-42), sentando-se à mesa com pecadores (Lc 5,29-32), defendendo mulheres humilhadas (Jo 8,1-11) e anunciando libertação aos oprimidos (Lc 4,18-19). O Cristo que sobe aos céus é o mesmo que prometeu: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Por isso a Igreja da Ascensão não pode permanecer imóvel contemplando nostalgicamente o passado nem aprisionada em estruturas de poder, vaidades clericais ou projetos religiosos autorreferenciais. Deve ser comunidade em saída, discípula, missionária, profética e misericordiosa, como recorda o Evangelho. O Senhor subiu aos céus, mas seus pés continuam caminhando na história através daqueles que vivem o Evangelho com coragem, ternura e compromisso com o Reino. A Ascensão não é despedida, mas envio. Não é ausência, mas presença transformada. Não é fuga da terra, mas compromisso ainda mais profundo com ela.

O Cristo que sobe aos céus continua dizendo à sua Igreja aquilo que disse aos onze na Galileia: “Ide” (Mt 28,19). Ide às periferias esquecidas. Ide aos pobres feridos pela injustiça. Ide aos jovens sem esperança. Ide aos que perderam a fé na humanidade. Ide aos que foram esmagados por estruturas econômicas excludentes e por religiões sem misericórdia. Ide anunciar que a morte não venceu, que o Reino continua germinando como semente escondida (Mc 4,26-32) e que o Ressuscitado permanece conosco “todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). E enquanto a humanidade muitas vezes constrói torres de orgulho, violência e exclusão como em Babel (Gn 11,1-9), o Evangelho continua reunindo povos, línguas e nações numa mesa comum de fraternidade. A esperança cristã permanece viva porque o Cordeiro morto e ressuscitado continua sendo “o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que vem” (Ap 1,8). A última palavra da história não pertence aos impérios, ao ódio, aos mercados ou aos falsos profetas da prosperidade e do poder. A última palavra pertence ao Ressuscitado. E por isso a Igreja continua caminhando entre lágrimas e esperança, ouvindo a promessa do Apocalipse: “Eis a tenda de Deus com a humanidade. Deus habitará com eles” (Ap 21,3). O céu começa aqui, mas caminha para sua plenitude definitiva quando Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Um breve olhar sobre João 16,23b-28


A perícope de João 16,23b-28 situa-se no interior mais denso do discurso de despedida joanino, conjunto literário que se estende de João 13,1 a 17,26 e que opera como síntese teológica final da autocompreensão de Jesus no quarto Evangelho. Esse bloco não é apenas uma sucessão de ensinamentos, mas uma construção narrativa e teológica que reorganiza toda a experiência da comunidade joanina após a Páscoa, quando a presença física de Jesus já não é mais acessível e a fé precisa se estruturar em torno da presença ressuscitada e do dom do Espírito. A tradição litúrgica da Igreja Católica Romana situa essa passagem no Tempo Pascal, especialmente nas últimas semanas que conduzem à Ascensão, quando o lecionário propõe uma pedagogia progressiva de transição entre a visibilidade histórica do Ressuscitado e sua presença pneumática e universal. Evangelho  de João 16,23b-28  é Proclamado no sábado da  sexta semana do Tempo Pascal que  antecede  o domingo  da Ascensão do Senhor, celebrada no quadragésimo dia após a Páscoa ou transferida para o domingo seguinte conforme a organização pastoral de cada conferência episcopal. Nas Igrejas orientais, o mesmo conteúdo é integrado ao ciclo do Pentecostarion, no qual a experiência pascal se desdobra como processo contínuo de revelação trinitária. Já nas tradições reformadas e anglicanas, o texto é lido no fluxo contínuo do Evangelho de João como eixo da teologia da oração, da mediação de Cristo e da vida no Espírito.

A compreensão dessa perícope exige antes de tudo sua inserção no movimento interno do discurso joanino. O capítulo 16 constitui o ápice da tensão emocional e teológica da despedida. Jesus já anunciou a perseguição dos discípulos e a hostilidade do mundo em João 15,18-21, já prometeu a vinda do Paráclito em João 16,7-15 e já reinterpretou a dor como passagem para uma alegria comparável às dores do parto em João 16,16-22. O versículo 23b introduz então uma mudança decisiva ao afirmar que “naquele dia não me perguntareis nada”, expressão que no grego joanino, ἐν ἐκείνῃ τῇ ἡμέρᾳ, não designa apenas uma sequência cronológica futura, mas uma transformação qualitativa do tempo. Trata-se de um “dia teológico”, o tempo inaugurado pela Páscoa, no qual a relação com Jesus deixa de ser mediada pela presença física e passa a ser estruturada pela comunhão interior e pela ação do Espírito.

Essa transição só pode ser compreendida à luz do contexto histórico do final do primeiro século, quando a comunidade joanina vive a tensão entre a memória de Jesus e a reorganização do judaísmo após a destruição do Templo em 70 d.C. Esse evento não é apenas histórico, mas teológico e sociológico. A centralidade cultual do Templo, que estruturava a mediação entre Deus e Israel no sistema do Segundo Templo, é deslocada para novas formas de identidade religiosa. O judaísmo rabínico reorganiza-se em torno da Torá e da sinagoga, enquanto o cristianismo joanino afirma que o verdadeiro acesso a Deus não se dá mais por espaço sagrado fixo, mas pela relação com a pessoa de Jesus Cristo, interpretado como novo templo em João 2,19-21. Esse deslocamento implica uma redefinição radical da mediação religiosa e da autoridade espiritual.

Nesse contexto, a expressão “pedir em meu nome”, presente no núcleo da perícope, exige uma leitura semítica profunda. O termo “nome”, no universo bíblico não é simples designação linguística, mas realidade ativa que expressa presença, identidade e ação. Em Êxodo 3,14-15, o nome de Deus é revelação histórica de sua fidelidade. Em Provérbios 18,10, o nome do Senhor é descrito como refúgio e força. No horizonte joanino, pedir em nome de Jesus não significa utilizar uma fórmula ritual, mas entrar na dinâmica existencial do Filho, cuja vontade está totalmente unificada à do Pai. A oração, portanto, deixa de ser um ato de persuasão dirigido a um Deus distante e passa a ser participação na própria vontade divina que se comunica ao mundo.

Essa compreensão se intensifica quando se observa que o discurso joanino não concebe Deus como realidade isolada, mas como comunhão relacional. A teologia implícita da perícope é trinitária, ainda que o termo não apareça explicitamente. O Pai, o Filho e, em todo o conjunto de João 14–16, o Espírito, não são entidades separadas, mas movimento interno de amor. A oração cristã não introduz algo externo em Deus, mas insere o ser humano nesse movimento eterno de comunhão. Isso se articula diretamente com João 14,13-14, onde a eficácia da oração está vinculada à continuidade da missão do Filho no mundo, não a uma mecânica espiritual de obtenção de pedidos.

A afirmação de que os discípulos “até agora nada pediram em meu nome” revela uma mudança de paradigma religioso. A oração anterior à Páscoa ainda se situa dentro da estrutura do judaísmo do Segundo Templo, com suas mediações cultuais, linguagens de intercessão e práticas rituais. Após a Páscoa, a oração cristã passa a ser estruturada pela presença do Ressuscitado e pela interiorização de sua relação com o Pai. Isso não elimina a tradição anterior, mas a reinterpreta a partir da revelação plena em Cristo.

O texto então desloca o eixo da experiência religiosa para a alegria plena. Essa alegria não é categoria psicológica imediata, mas realidade teológica de participação na vida divina. Em João 15,11, Jesus já havia falado da sua própria alegria como realidade comunicada aos discípulos. Em João 17,13, essa alegria é associada à plenitude da comunhão trinitária. No horizonte sapiencial, ela dialoga com Provérbios 3,13 e com a promessa escatológica de Isaías 25,8, onde a morte e a tristeza são definitivamente vencidas. Trata-se de uma alegria que não elimina o sofrimento, mas o atravessa e o transforma.

A mudança hermenêutica introduzida em João 16,25 aprofunda essa transição. Jesus afirma ter falado até então por meio de linguagem figurada, paroimiai, isto é, discursos simbólicos e indiretos. Essa linguagem pertence à tradição bíblica da revelação mediada, comum nos profetas e na literatura sapiencial. No entanto, o texto anuncia uma passagem para a clareza da revelação, não no sentido de eliminação do mistério, mas de sua interiorização. Em João, o símbolo não desaparece, mas é consumado na presença viva do Cristo ressuscitado.

Os Evangelhos sinóticos apresentam uma estrutura distinta dessa pedagogia. Em Marcos 4, as parábolas são instrumentos de revelação e ocultamento simultâneos. Em Mateus 13, o conhecimento dos mistérios do Reino é concedido aos discípulos como dom. Lucas mantém essa tensão entre revelação e incompreensão. João, porém, radicaliza a ideia de que a verdade não é apenas ensinada, mas habitada. A revelação não é apenas cognitiva, mas relacional.

A seguir, o texto atinge um ponto teológico decisivo ao afirmar que Cristo não precisa mais interceder externamente ao Pai pelos discípulos. Essa afirmação não nega a tradição neotestamentária da intercessão de Cristo em Romanos 8,34 e Hebreus 7,25, mas redefine sua natureza. A intercessão não é uma mediação entre partes separadas, mas expressão da unidade interna entre Pai e Filho. O Filho não persuade o Pai, pois ambos compartilham a mesma vontade amorosa. Trata-se de uma ontologia relacional, na qual Deus não é um soberano externo, mas comunhão de vida.

Essa compreensão se intensifica quando o texto afirma que “o próprio Pai vos ama”. O fundamento desse amor não é mérito humano, mas relação com o Filho. Em João 3,16, o amor do Pai se expressa na entrega do Filho ao mundo. Em João 17,23, esse amor é partilhado com os discípulos como participação na própria vida divina. O cristianismo joanino, portanto, não é religião de acesso condicionado, mas de inserção em uma relação já existente.

O pano de fundo histórico dessa teologia é uma comunidade marcada por marginalização e conflito. Sem poder institucional dominante, o grupo joanino elabora uma linguagem teológica que sustenta a fé na ausência de estruturas de poder. A ênfase na relação direta com o Pai e o Filho funciona como forma de resistência espiritual e redefinição da autoridade religiosa. O versículo final sintetiza toda a cristologia joanina ao apresentar o movimento de saída e retorno: sair do Pai, vir ao mundo, deixar o mundo e retornar ao Pai. Esse esquema não é apenas narrativo, mas ontológico. Em João 1,1-18, o Logos já se encontra junto de Deus e entra na história. Em Filipenses 2,6-11, Paulo descreve dinamicamente o mesmo movimento de descida e exaltação. Em João, porém, esse movimento não é apenas evento histórico, mas estrutura permanente da realidade divina.

A hermenêutica desse movimento revela uma antropologia profunda. O ser humano é inserido nesse mesmo dinamismo: sair de si, entrar no mundo e retornar a Deus. A existência não é estática, mas processo relacional de transformação. Essa dinâmica também implica uma visão cósmica, pois em Romanos 8,22 toda a criação geme em dores de parto aguardando redenção.

A tradição patrística, especialmente Agostinho, interpreta esse movimento como interiorização de Deus na alma humana. Deus é mais íntimo ao ser humano do que ele mesmo a si próprio, sem perder sua transcendência. Essa leitura aprofunda a compreensão da oração como realidade interior e não apenas externa.

Essa perícope confronta diretamente modelos religiosos baseados em mediação hierárquica absoluta. O acesso ao Pai não é monopólio institucional, ainda que a Igreja permaneça como espaço sacramental de comunhão. O risco do clericalismo aparece quando a mediação de Cristo é substituída por estruturas de poder religioso que se absolutizam. O Evangelho de João, especialmente em João 13 com o lava-pés, redefine autoridade como serviço.

No contexto latino-americano, essa leitura se articula com a tradição de Medellín, Puebla e Aparecida, que afirmam a opção preferencial pelos pobres como critério hermenêutico da fé. A oração em nome de Jesus não pode ser separada da prática histórica da justiça. Pedir em seu nome implica assumir sua lógica de inclusão dos marginalizados, crítica às estruturas opressoras e solidariedade com os pobres. Essa dimensão conduz inevitavelmente a uma crítica profética. Sempre que a religião é instrumentalizada por projetos de poder político ou ideológico, ela se afasta da lógica joanina. O uso do nome de Deus para legitimar violência, exclusão ou dominação constitui inversão teológica. Do mesmo modo, formas contemporâneas de teologia da prosperidade reduzem a oração a técnica de obtenção de benefícios materiais, contradizendo a estrutura do Evangelho, que não promete ausência de sofrimento, mas sua transformação.

O texto também descreve um processo de maturação da fé, no qual a dependência de presença sensível é transformada em interiorização da relação com Cristo. A ausência física não é abandono, mas pedagogia da maturidade espiritual mediada pelo Espírito, que atualiza a presença do Filho no interior da experiência humana.  Assim, João 16,23b-28 não se limita a oferecer uma doutrina sobre oração, nem apenas um ensinamento sobre mediação religiosa, mas articula uma verdadeira reconfiguração do modo de existir diante de Deus, do mundo e da própria história. Trata-se de uma teologia da comunhão em estado pleno, na qual o divino não se apresenta como realidade distante a ser alcançada por esforço religioso, mas como presença originária que já sustenta, atravessa e precede toda possibilidade de relação. O Deus que emerge no horizonte joanino não é objeto de manipulação cultual nem projeção psicológica do desejo humano, mas relação viva e dinâmica, em si mesma amor que se comunica, se doa e se manifesta historicamente na trajetória do Filho.

Nesse horizonte, a oração deixa de ser compreendida como técnica espiritual voltada à obtenção de respostas e se torna participação efetiva na própria vida de Deus. Pedir “em nome de Jesus” não significa apenas invocar uma autoridade delegada, mas ser introduzido na lógica interna da sua existência filial, na qual o desejo humano é purificado, reorientado e integrado ao querer do Pai. A oração, portanto, não cria uma ponte entre dois polos distantes, mas revela que essa ponte já foi estabelecida na própria encarnação. O que se abre ao ser humano não é o acesso a um Deus ausente, mas a consciência de uma presença que já o habita e o convoca à maturidade espiritual. Dessa forma, a fé não pode ser reduzida a sistema de crenças, nem a adesão intelectual a proposições religiosas. Ela se configura como processo existencial de inserção no movimento do Filho, que sai do Pai, entra na história humana e retorna ao Pai. Esse movimento não é apenas cristológico em sentido estrito, mas também antropológico e cósmico, pois redefine o sentido da existência humana como itinerário de saída de si, encontro com o mundo e retorno transfigurado a Deus. Crer, nesse horizonte, é participar desse dinamismo, deixando que a vida seja reorientada a partir da lógica do amor que se comunica e não se apropria.

A Igreja, por sua vez, só permanece fiel a esse mistério quando compreendida não como finalidade em si mesma, nem como estrutura de poder religioso autossuficiente, mas como sinal histórico e sacramental desse movimento trinitário no interior da história. Ela existe para tornar visível, ainda que de modo sempre fragmentário e provisório, a dinâmica do Filho que conduz a humanidade ao Pai no Espírito. Sempre que a Igreja se absolutiza, fecha-se sobre si mesma ou se confunde com projetos de poder, ela perde sua transparência sacramental e contradiz a própria lógica do Evangelho que a constitui. Nesse sentido, a comunhão revelada em João 16,23b-28 não é apenas uma ideia teológica, mas uma crítica permanente a todas as formas de religião que se transformam em sistema de controle, em gestão do sagrado ou em instrumento de legitimação de desigualdades. O texto joanino desestabiliza qualquer tentativa de domesticação de Deus, pois afirma que o acesso ao Pai não é mediado por privilégios institucionais, mas pela participação na vida do Filho. Isso implica uma conversão constante da fé, que deve ser sempre libertada de suas formas de captura ideológica, seja pelo clericalismo que concentra o sagrado em estruturas de poder, seja por espiritualidades desvinculadas da história, seja por projetos religiosos instrumentalizados por interesses políticos ou econômicos.

Ao mesmo tempo, essa teologia não se encerra em crítica, mas se abre como promessa e responsabilidade. A mesma comunhão que desestabiliza idolatrias religiosas também sustenta a esperança de uma história reconciliada. Se o Filho veio do Pai e ao Pai retorna, levando consigo a condição humana, então a história não está condenada à dispersão, à violência ou à alienação, mas orientada a uma plenitude ainda em gestação. Essa plenitude não se impõe como sistema fechado, mas se antecipa em gestos concretos de justiça, de solidariedade e de dignificação da vida, especialmente onde ela é mais vulnerável e negada.  João 16,23b-28 permanece como convocação permanente à conversão do olhar, da oração e da prática histórica. Ele chama a fé a abandonar qualquer forma de instrumentalização religiosa e a reencontrar sua essência como participação no movimento vivo do Deus trinitário. Nesse movimento, Deus não é possuído, mas acolhido; a oração não é controle, mas comunhão; a fé não é fuga, mas transformação; e a Igreja não é centro fechado, mas sinal vivo de um Deus que continua vindo ao mundo para reconduzir o mundo ao Pai na força do Espírito que faz novas todas as coisas.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da Bomba no Quartel ao Banco Master passando pela facada e o desastre presidencial: O Filme

O Cavalo Negro, o Banco Master e o Apocalipse em Câmera Lenta
Crônica de DNonato - Graduado em História 

Alguns filmes nascem clássicos. Outros nascem cult. Outros já nascem processo judicial com trilha sonora. E existe uma categoria ainda mais rara: o filme que nasce meme antes mesmo da estreia. “Dark Horse”, o épico internacional sobre Bolsonaro, pertence exatamente a essa categoria sagrada do desastre cinematográfico brasileiro. Porque tudo nele parece concebido não para contar uma história, mas para convencer o público de que aquilo é “importante”. Título em inglês. Diretor norte-americano. Pôster escuro. Trilha grave. Drone sobre Brasília ao pôr do sol. Câmera lenta até em cena de gente entrando no carro. Tudo precisa parecer, internacional  até o constrangimento ganha legenda. Existe um tipo muito específico de brasileiro deslumbrado que acredita que basta colocar nome em inglês para transformar delírio em sofisticação. O golpe vira “plot”. O cercadinho vira “grassroots movement”. O fanatismo vira “patriot movement”. A fake news vira “alternative narrative”. Só esqueceram de traduzir a realidade.

E a realidade brasileira tem uma crueldade que nenhum roteirista consegue superar. Enquanto tentam vender Bolsonaro como “azarão perseguido”, o país acompanha investigações, joias sauditas, cartão de vacina, mensagens apagadas, minuta golpista, reuniões conspiratórias, operações da Polícia Federal e aquele permanente cheiro de fumaça institucional pairando sobre Brasília como incenso de apocalipse tropical. E no meio disso tudo explode o roteiro paralelo: Flávio Bolsonaro negociando cifras cinematográficas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Reportagens recentes apontam pedidos de cerca de R$ 134 milhões para financiar “Dark Horse”, incluindo áudios e mensagens divulgados pela imprensa.

 Com mais  R$ 100 milhões  da prefeitura  de São  Paulo o orçamento  supostamente  a  R$ 234 milhões. Duzentos e trinta e quatro milhões de reais. Meu irmão… isso já não é orçamento de filme. Isso é valor que faz produtor brasileiro ter vertigem espiritual. E aí começa a parte mais engraçada da tragédia: o cinema brasileiro inteiro olhou para isso como quem vê alguém chegando de helicóptero numa pelada de bairro.

No Brasil  teve orçamento de filme: 

  •  estimaco em cerca de R$ 16 milhões e virou fenômeno cultural nacional.
  •   teve filme orçamento aproximado de R$ 26 milhões e se transformou numa das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro. 
  • teve custo em torno de R$ 18 milhões em valores da época e virou referência mundial indicada ao Oscar. 
  • custou muito menos que isso e levou o cinema brasileiro ao topo do prestígio internacional.  citado recentemente como símbolo da retomada internacional do cinema brasileiro
 Também teve orçamento muito inferior ao “Dark Horse”.
Aí você olha para R$ 234 milhões e percebe que o Cavalo Negro praticamente custaria:
  •  — quatorze Tropa de Elite,
  • — treze Cidade de Deus,
  • — vários Ainda Estou Aqui,

 E talvez dinheiro suficiente para financiar metade da cinematografia brasileira contemporânea e ainda sobrar para comprar drone patriótico em câmera lenta, CGI de bandeira tremulando e trilha sonora épica narrada por coach nacionalista. aí vem a comparação mais cruel de todas: , um dos filmes religiosos mais famosos do planeta, custou cerca de R$ 150 milhões em valores aproximados atuais. Ou seja: o sofrimento inteiro de Jesus nas telas, chicotada, cruz, Roma, multidão, figurino épico, tempestade e ressurreição cinematográfica saíram mais baratos do que o orçamento patriótico tropical do Cavalo Negro.

Nem  precisou disso tudo para ganhar Oscar.

Nem , que humilhou Hollywood inteira com crítica social de verdade.

Nem , que virou clássico mundial praticamente na raça.

Nem muito filme da DC conseguiu justificar orçamento tão delirante sem pelo menos entregar explosão digital, céu destruído, três dimensões paralelas e cidade explodindo no terceiro ato..Aliás, talvez estejam guardando isso para o final do filme: Brasília em CGI, nuvens escuras, trilha dramática, Bolsonaro olhando para o horizonte enquanto toca violoncelo triste e Flávio surge numa sala escura negociando milhões como se fosse personagem secundário de  misturado com executivo da .

Porque “Dark Horse” parece acreditar que quanto maior o orçamento, mais fácil fica transformar WhatsApp em mitologia nacional. E a pergunta começa a ecoar na cabeça do brasileiro médio: “Que filme é esse, meu Deus?” Porque R$ 234 milhões é valor que faz até produtor de Hollywood perguntar se estão gravando um épico político ou comprando um pequeno país. E ainda aparecem relatos sobre cerca de R$ 100 milhões ligados a contratos da produtora com a Prefeitura de São Paulo, tudo cercado por investigação, suspeitas e manchetes que parecem roteiro descartado de série sobre corrupção premium..No Brasil, quando alguém fala “não teve dinheiro público”, automaticamente metade da população segura a carteira e a outra metade procura o extrato. Porque ninguém dá dinheiro de graça para ninguém. Ninguém. Ainda mais cifras capazes de financiar filme, campanha, série, spin-off e até universo cinematográfico patriótico completo. Nem Hollywood acredita em investidor tão apaixonado assim por cinebiografia política. Imaginar um banqueiro largando R$ 234 milhões sorrindo e dizendo “não quero nada em troca, é só porque acredito muito na arte” é uma cena que até roteirista bêbado cortaria por falta de realismo.

E agora surgem informações de que o filme começaria justamente mostrando o desligamento de Bolsonaro do Exército. Aí vem a pergunta inevitável: Será que vão contar a história inteira? 

Porque toda cinebiografia patriótica adora transformar punição disciplinar em “perseguição ideológica”. O problema é que a realidade histórica é teimosa. Afinal, existe todo o episódio envolvendo acusações relacionadas ao plano “Beco Sem Saída”, publicado pela revista Veja nos anos 1980, no qual Bolsonaro foi investigado por suspeita de participação em um plano de explosões em unidades militares como forma de pressionar por reajustes salariais. Depois houve absolvição no Superior Tribunal Militar por insuficiência de provas quanto à autoria direta do plano, mas o caso virou uma das histórias mais controversas de sua trajetória militar.

Agora imagine essa cena no filme. Vai ter trilha dramática? Chuva caindo? Oficial olhando pela janela? Bolsonaro caminhando lentamente pelo quartel enquanto toca música de mártir injustiçado? Porque dependendo do roteirista, daqui a pouco vão filmar investigação militar como se fosse perseguição ao protagonista rebelde de . Só falta colocar um coronel gritando em câmera lenta:

“Ele era bom demais para este sistema!”

Quando na prática o público brasileiro provavelmente vai ficar pensando:

“Peraí… o filme vai romantizar até suspeita de bomba em quartel?”

E o mais surreal: enquanto o roteiro tenta construir um supervilão cinematográfico em torno de Adélio, a realidade atual dele parece muito menos Hollywood e muito mais burocracia penal brasileira. Mas no imaginário épico do filme provavelmente vão tratá-lo como se fosse mistura de terrorista internacional, vilão de HQ e antagonista metafísico enviado pelas forças do mal para interromper a “missão histórica” do protagonista. Porque nenhum épico político ruim resiste à tentação de criar um inimigo quase mítico. Então dá para imaginar Adélio aparecendo no roteiro como uma mistura de Barba Negra com agente secreto internacional de baixo orçamento, filmado em câmera escura, respirando pesado, cercado de sombras, enquanto a trilha toca como se  tivesse sido reescrito por administrador de grupo patriótico no Telegram. Em algum momento certamente alguém vai sugerir que ele apareça surgindo lentamente na chuva, igual vilão de filme da DC, enquanto Bolsonaro olha para frente como mártir cinematográfico da pátria.

E aí o roteiro entra naquele terreno perigoso em que cinebiografia deixa de ser narrativa histórica e vira tentativa de canonização política com orçamento premium. Porque o filme não quer apenas contar fatos. Quer fabricar mitologia. Quer criar aura messiânica. Quer transformar episódio político em batalha espiritual com elenco internacional, fotografia sombria e trilha de fim dos tempos. É praticamente um universo expandido do bolsonarismo cinematográfico. Hoje é “Dark Horse”. Amanhã vem spin-off do cercadinho, série do cartão de vacina e documentário dramático sobre mensagens apagadas.

Mas nada, absolutamente nada, supera o casting. Chamaram justamente o ator que interpretou Jesus em  para viver Bolsonaro. Aquele mesmo ator que tomou um raio durante as filmagens, deslocou o ombro, sangrou de verdade, enfrentou tempestades e suportou um sofrimento cinematográfico tão absurdo que parecia maldição veterotestamentária em IMAX. Na época parecia apenas dedicação artística. Hoje parece treinamento espiritual antecipado. Era como se o universo estivesse avisando: “Meu filho… guarda essa experiência. Um dia você vai precisar interpretar algo muito mais difícil.” Porque uma coisa é interpretar o Cristo carregando o peso simbólico da humanidade. Outra é interpretar um personagem que transforma live de WhatsApp em pronunciamento messiânico e motociata em liturgia nacionalista. Da cruz ao cercadinho. Do Calvário à live. Do Evangelho ao algoritmo. Da via-sacra ao via-Zap. O homem que representou aquele que carregava o mundo nas costas agora precisa carregar um roteiro que talvez nem mil milagres consigam ressuscitar.

Dizem que o filme quer mostrar “o homem por trás do mito”. Mas o mito já virou corrente de Telegram narrada por tio aposentado com foto da bandeira no perfil. E aí entra o verdadeiro protagonista simbólico da história: o Cavalo Negro. Tentam vender o título como metáfora do “azarão improvável”, mas olhando direito o que aparece é outra coisa. O Cavalo Negro surge quase como criatura apocalíptica do bolsonarismo tardio: relincha soberania, tropeça em investigação, derruba cerca narrativa, escorrega em contradição e segue cansado tentando manter pose de puro-sangue patriótico enquanto afunda no próprio barro ideológico. É um cavalo suado de desfile cívico fracassado. Entra em cena ao som de trombetas épicas, mas transmite energia de carro de som parado em posto de gasolina vendendo adesivo patriótico e água mineral quente.

E o roteirista segue deslumbrado pela própria fantasia. Em algum momento da produção certamente existiu um assistente de direção dizendo: “Mais emoção nessa cena da live! Bolsonaro ainda não parece perseguido o suficiente!” E alguém deve ter respondido: “Coloca mais câmera lenta. O público confunde lentidão com profundidade.” Porque esse tipo de produção acredita sinceramente que drone substitui roteiro. O sujeito fala do filme como se estivesse escrevendo . Cita Hollywood, fala em “linguagem universal”, quer iluminação dramática, silêncio contemplativo e atmosfera histórica, mas entrega algo entre especial patriótico de TV aberta, vídeo motivacional de coach nacionalista, documentário financiado por empresário que posta frase em latim no Instagram e PowerPoint ideológico com orçamento internacional.

Existe ainda o problema central de toda tentativa de transformar político em messias: cedo ou tarde o roteiro começa a exigir milagres. E milagres costumam desaparecer misteriosamente quando entram auditorias, extratos, investigações, quebras de sigilo, mensagens recuperadas e depoimentos à Polícia Federal. A verdade é que o cinema tenta construir epopeia, mas a realidade brasileira destrói qualquer heroísmo porque sempre aparece alguém apagando mensagem, negando reunião, culpando assessor, pedindo PIX ou dizendo: “Não lembro.”

No fim, “Dark Horse” talvez seja apenas isso: um esforço cinematográfico gigantesco para vender decadência política como jornada heroica. Só que existe um problema fatal quando se tenta filmar um mito em pleno colapso narrativo: a realidade invade o set sem pedir autorização e rouba todas as cenas. A luz do cinema se apaga. E você entende que não é para criar atmosfera dramática. É apenas para ver se, no escuro, o desastre parece menor. Quando a sessão termina, sobra somente o som da pipoca esmagada no chão e aquela sensação melancólica de quem percebeu tarde demais que não assistiu a um épico. Assistiu a um PowerPoint patriótico em câmera lenta tentando cavalgar um delírio político até Hollywood.

E talvez o verdadeiro “Dark Horse” nunca tenha sido o azarão. Talvez tenha sido o próprio cinema tentando transformar caos nacional em lenda internacional.

O protagonista  esta preso por ato contra da democracia   condenado a 27  anos de prisão  e foi preso  em  22 de novembro e foi condenado em 25 de novembro, hoje  está  cumprindo prisão domiciliar. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dissonância Coletiva: Entre a Fé e a Fake News

Já ouviu falar em dissonância cognitiva?


O conceito foi desenvolvido pelo psicólogo social Leon Festinger (1919–1989) para explicar um fenômeno profundamente humano: o desconforto mental provocado quando a realidade entra em choque com crenças, identidades ou convicções emocionais já consolidadas. Quando os fatos ameaçam aquilo em que alguém acredita, a reação nem sempre é rever a própria posição. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. A mente cria mecanismos de defesa para preservar sua coerência interna. Negam-se evidências, reinterpretam-se acontecimentos, atacam-se fontes de informação ou fabricam-se narrativas paralelas capazes de proteger emocionalmente o indivíduo do peso de admitir o erro. A dissonância cognitiva não é simples ignorância, mas um mecanismo psicológico complexo envolvendo medo, orgulho, pertencimento social, identidade coletiva e autopreservação psíquica. Admitir que alguém foi enganado, manipulado ou que depositou esperança excessiva em líderes políticos pode significar enfrentar vergonha, humilhação pública, perda de pertencimento grupal e até crise de identidade. Por isso, frequentemente o cérebro prefere fabricar justificativas em vez de aceitar a realidade.

Festinger percebeu isso ao estudar um grupo religioso apocalíptico nos Estados Unidos nos anos 1950. O grupo acreditava que o mundo acabaria em determinada data. Quando nada aconteceu, o esperado seria o abandono da crença. Mas muitos seguidores ficaram ainda mais fanáticos. Criaram uma racionalização: disseram que sua fé havia salvado o planeta da destruição. A realidade foi reconstruída para preservar a crença. Décadas depois, estudos da psicologia cognitiva, da neurociência e da sociologia política continuam confirmando algo desconfortável: o ser humano não é tão racional quanto imagina.

Daniel Kahneman (1934–2024) demonstrou como nossas decisões frequentemente são guiadas por impulsos emocionais e atalhos mentais inconscientes. Erich Fromm (1900–1980) analisou como sociedades inseguras tendem a buscar líderes autoritários que ofereçam sensação de ordem e proteção. Hannah Arendt (1906–1975) alertou que regimes baseados em propaganda prosperam quando a população perde a capacidade de distinguir verdade objetiva de narrativa ideológica. Já Umberto Eco (1932–2016) observou que movimentos autoritários frequentemente sobrevivem alimentando medo, paranoia social, culto à tradição e fabricação permanente de inimigos.

Tudo isso ajuda a compreender o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. O bolsonarismo não se estruturou apenas como corrente política. Tornou-se identidade emocional, comunidade tribal e, em certos setores, quase uma devoção simbólica. Para muitos seguidores, Jair Bolsonaro (presidente do Brasil: 2019–2022) deixou de ser apenas um governante e passou a ocupar o lugar de figura salvadora, representante do “bem” contra forças imaginadas como ameaça absoluta à nação, à família, à religião e à moral. A política deixou de ser, para muitos, espaço de debate racional e passou a funcionar quase como religião ideológica. Quando a política assume contornos religiosos, o pensamento crítico passa a ser tratado como heresia; a crítica vira perseguição; o contraditório transforma-se em conspiração; e o adversário deixa de ser apenas adversário para se tornar inimigo moral ou demonizado.

É nesse ambiente emocional que a dissonância cognitiva floresce. Durante quatro anos, dezenas de deputados, senadores e governadores ligados ao bolsonarismo foram eleitos pelas urnas eletrônicas. O sistema eleitoral era plenamente aceito enquanto produzia vitórias para o grupo. Mas, quando Bolsonaro perdeu a eleição presidencial, a mesma urna passou a ser chamada de fraudulenta. Ou seja: a eleição “vale” quando confirma a crença; quando contraria o líder, transforma-se em conspiração. A lógica racional entra em colapso porque a narrativa precisa ser protegida. Se o líder não venceu, então a realidade deve estar corrompida. Trata-se de um exemplo clássico de dissonância cognitiva e viés de confirmação: a tendência humana de aceitar apenas informações que reforçam crenças prévias e rejeitar evidências contrárias.

O mesmo mecanismo apareceu durante a pandemia de COVID-19 (2019–2023, fase crítica global). Mesmo diante de estudos científicos internacionais, milhões de mortes e evidências médicas robustas, setores radicalizados insistiram na ideia da “cura precoce” com Cloroquina e Ivermectina. A necessidade emocioonal de acreditar num líder “contra o sistema” tornou-se mais forte que a própria realidade científica. Admitir o erro significaria reconhecer que decisões equivocadas poderiam ter contribuído para sofrimento e mortes evitáveis. Para evitar essa dor moral, muitos preferiram desacreditar cientistas, universidades, jornalistas e instituições médicas. Em muitos discursos, criou-se uma inversão simbólica: enfatizavam-se casos isolados de recuperação como prova de eficácia, enquanto os números de mortes, estatísticas epidemiológicas e dados consolidados eram relativizados, contestados ou até demonizados, pedia para ver o numero de curados não de mortos. Esse fenômeno foi reforçado por narrativas emocionais e, em alguns contextos, até por apelos religiosos que interpretavam a doença como “prova espiritual” ou “guerra invisível”, deslocando o debate do campo científico para o campo da fé e da ideologia. O resultado foi uma fragmentação da percepção da realidade, onde dados objetivos passaram a disputar espaço com crenças, medo e identidade política. 

As fake news também revelam esse mecanismo psicológico coletivo. Narrativas absurdas como:

  •  “mamadeira erótica”
  •  “kit gay”
  • comunismo iminente
  • fraude vacinal
  • fechamento de igrejas
  •  globalismo
  • chips em vacinas
  • satanização de adversários políticos 
  • vídeos banais transformados em “provas” conspiratórias 

Tais  fatos  ganham  força porque não apelavam à razão, mas ao medo, ao ressentimento e à indignação emocional. A mentira funcionava não porque era lógica, mas porque reforçava a identidade do grupo. Compartilhar fake news passou a funcionar como demonstração pública de fidelidade ideológica. O grupo já não consumia informações para compreender a realidade, mas para reafirmar pertencimento tribal.

Nesse ambiente, até produtos cotidianos passaram a ser transformados em símbolos ideológicos. O caso da Ypê e até das Havaianas revelam isso de maneira quase caricatural. Detergentes e sandálias tornaram-se objetos de guerra cultural a partir de rumores e campanhas emocionais nas redes sociais. O consumo virou teste de fidelidade política. O absurdo passou a parecer normal dentro das bolhas digitais.

Outro exemplo de dissonância cognitiva apareceu no debate sobre a dosimetria das penas relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023. Muitos dos que defendiam endurecimento penal, prisão severa e frases como “bandido bom é bandido morto” passaram a relativizar crimes graves quando praticados por integrantes do próprio grupo político. O critério moral mudou conforme o lado envolvido. A lei deixou de ser princípio universal e passou a funcionar como instrumento de conveniência ideológica. O problema já não era o crime em si, mas quem o cometia. A sociologia política explica que movimentos autoritários frequentemente dependem desse tipo de dinâmica emocional. Fabricam inimigos permanentes, criam sensação contínua de perseguição, estimulam medo coletivo e transformam o líder em figura quase messiânica. A imprensa vira “inimiga”. Universidades tornam-se suspeitas. Professores passam a ser tratados como doutrinadores. A ciência é atacada quando contradiz a narrativa ideológica. O pensamento crítico transforma-se em ameaça.

As redes sociais aprofundaram drasticamente esse processo. Vivemos hoje dentro do capitalismo algorítmico da atenção. Plataformas digitais lucram com engajamento emocional. Medo, raiva, choque e indignação geram compartilhamentos, comentários e tempo de tela. O ódio tornou-se economicamente rentável. O algoritmo funciona como espelho deformado: devolve às pessoas não a realidade, mas aquilo que elas emocionalmente desejam enxergar. Quanto mais agressivo, absurdo ou conspiratório o conteúdo, maior tende a ser seu alcance. Criou-se uma verdadeira indústria da paranoia política. Influenciadores monetizam indignação. Canais lucram espalhando teorias conspiratórias. A mentira circula mais rápido que a verificação jornalística. Como alertava Hannah Arendt (1906–1975), o objetivo final da propaganda totalitária não é apenas convencer as pessoas de uma mentira específica, mas destruir sua confiança na possibilidade de existir verdade objetiva. 

Isso não acontece apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, apoiadores de Donald Trump (presidente dos EUA: 2017–2021) continuaram acreditando em fraude eleitoral mesmo após auditorias, investigações e decisões judiciais demonstrarem ausência de provas consistentes. O ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em janeiro de 2021 mostrou como narrativas conspiratórias podem gerar violência concreta. Na Europa, movimentos antivacina cresceram utilizando teorias conspiratórias sobre controle populacional, chips eletrônicos e manipulação genética. Durante o Brexit no Reino Unido (processo político principal: 2016–2020), campanhas emocionais baseadas em desinformação mobilizaram medo e ressentimento nacionalista. A história oferece exemplos ainda mais extremos. O fascismo europeu do século XX utilizou mecanismos semelhantes: manipulação do medo, nacionalismo performático, anti-intelectualismo e culto à personalidade. O nazismo na Alemanha (1933–1945) fabricou inimigos internos através de propaganda massiva. Em Ruanda (genocídio de 1994), rádios foram usadas para espalhar desumanização étnica antes do massacre. Na Coreia do Norte (fundada em 1948; regime dinástico até hoje), o culto à personalidade transforma líderes políticos em figuras quase divinas. Os contextos históricos são diferentes, mas os mecanismos psicológicos possuem semelhanças inquietantes: fabricação de inimigos, repetição contínua de propaganda, simplificação da realidade, culto ao líder, paranoia coletiva, manipulação emocional das massas e destruição da confiança nas instituições.

O Brasil possui ainda agravantes históricos próprios. Nossa formação social foi marcada por escravidão, autoritarismo, coronelismo, militarização política e tradição de personalismos messiânicos. O bolsonarismo não surgiu no vazio. Ele dialoga com uma cultura histórica marcada pela busca recorrente por “salvadores da pátria”, soluções autoritárias e desprezo estrutural pela reflexão crítica. Existe ainda um elemento religioso profundamente preocupante nesse processo. Parte do bolsonarismo instrumentalizou a fé cristã como ferramenta de poder político. O nome de Deus passou a ser usado para legitimar intolerância, violência verbal, culto às armas e demonização de adversários. Em muitos casos, a religião deixou de ser caminho de compaixão e justiça para se tornar identidade tribal e mecanismo de manipulação emocional.

Mas o Evangelho mostra Jesus Cristo (aprox. 4 a.C.–30/33 d.C.) fazendo exatamente o contrário. Jesus confrontava hipocrisias, denunciava manipulações religiosas e criticava líderes que usavam a fé para dominar consciências. Em Mateus 7,16, afirma: “pelos frutos os conhecereis”. Em João 8,32, declara: “a verdade vos libertará”. A verdade, no sentido evangélico, não serve para alimentar fanatismos; serve para libertar pessoas da mentira, da idolatria e da cegueira coletiva. O problema do Brasil não é apenas um político, um partido ou uma eleição. O problema surge quando a mentira vira método, quando o fanatismo substitui a consciência crítica e quando a identidade política passa a valer mais que a realidade. Nenhuma democracia sobrevive quando os fatos deixam de importar.

A sociedade brasileira está emocionalmente adoecida pela polarização, pela lógica permanente do ódio e pela industrialização da desinformação. Há famílias destruídas, amizades rompidas e comunidades religiosas contaminadas por paranoia ideológica. Muita gente vive em estado constante de medo, raiva e ressentimento alimentado diariamente por redes sociais e lideranças irresponsáveis. Uma sociedade que perde o compromisso com a verdade começa lentamente a perder também sua humanidade. Democracias raramente morrem apenas com tanques nas ruas. Elas também adoecem quando multidões passam a amar mais suas ilusões do que a realidade.

Cuidar da saúde mental hoje também significa reaprender algo que deveria ser básico em qualquer sociedade democrática: nenhum líder político merece devoção absoluta, nenhuma ideologia está acima da verdade e nenhuma paixão partidária pode substituir a realidade. Quando pessoas passam a defender um político como se fosse entidade sagrada, perdem gradualmente a capacidade de autocrítica. A consciência deixa de analisar fatos e passa apenas a proteger emocionalmente uma identidade coletiva. Nesse estágio, a verdade já não importa tanto; importa preservar o grupo, o líder e a narrativa. É aí que a política deixa de ser participação cidadã e começa a se transformar em fanatismo.

O episódio envolvendo a Ypê com a fiscalização  liderada pela prefeitura  local e  pela vigilância  sanitária  do estado  de São Paulo  com apoio da Anvisa,  tornou isso quase grotescamente simbólico onde devolto de uma ideologia simulam  ou bebem o produto. Em meio às guerras ideológicas das redes sociais, surgiram bolsonaristas consumindo produto de limpeza em vídeos e desafios absurdos para demonstrar fidelidade política e atacar supostos “inimigos”. O que deveria causar espanto coletivo passou a ser tratado por alguns como gesto de militância.  Isso revela algo profundamente preocupante: quando a identidade ideológica domina completamente o senso crítico, até o instinto básico de autopreservação pode ser afetado. O absurdo deixa de parecer absurdo dentro da bolha emocional. A pessoa já não reage racionalmente aos fatos, mas emocionalmente aos símbolos do grupo. É exatamente assim que a dissonância cognitiva opera em ambientes radicalizados: a realidade vai sendo lentamente substituída pela necessidade psicológica de pertencimento. O indivíduo passa a acreditar não naquilo que é verdadeiro, mas naquilo que o mantém emocionalmente integrado ao grupo. A mentira conforta; a verdade ameaça. As redes sociais aprofundam isso diariamente. O algoritmo premia indignação, paranoia e fanatismo porque essas emoções geram engajamento. Quanto mais extrema a reação, maior a circulação do conteúdo. Aos poucos, a sociedade vai naturalizando comportamentos irracionais, agressivos e perigosos. O espetáculo substitui a reflexão. O meme substitui o pensamento. O ódio substitui o diálogo.

Por isso, o problema não é apenas político. É humano, psicológico, espiritual e civilizacional. Uma sociedade emocionalmente adoecida perde a capacidade de distinguir convicção de fanatismo, crítica de perseguição, fé de idolatria, patriotismo de manipulação emocional. E quando isso acontece, abre-se espaço para líderes autoritários, propagandas simplificadoras e guerras culturais permanentes que destroem laços sociais, famílias e até comunidades religiosas. O Evangelho aponta noutra direção. nunca pediu devoção cega a poderes terrenos. Ao contrário: denunciou hipocrisias, confrontou manipulações religiosas e colocou a verdade acima do medo coletivo. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32) continua sendo uma afirmação profundamente atual numa época marcada pela mentira industrializada e pelo fanatismo digital. Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente recuperar a coragem de encarar a realidade sem transformá-la em guerra ideológica. Aprender a mudar de opinião diante dos fatos não é fraqueza; é maturidade intelectual e honestidade moral. Reconhecer erros não destrói a dignidade humana; o fanatismo é que destrói.

Nenhum político salvará a sociedade brasileira sozinho. Nenhum partido substituirá consciência crítica. Nenhuma corrente ideológica pode ocupar o lugar da ética, da verdade e da humanidade. Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de pensar, questionar, dialogar e reconhecer limites, inclusive os próprios. Porque quando multidões passam a amar mais suas narrativas do que a realidade, o risco não é apenas político. É o adoecimento profundo da própria consciência coletiva.

DNonato - Graduado em História.

Leia também: Símbolos, Poder ...

domingo, 10 de maio de 2026

Símbolos, Poder e Manipulação

Há algo profundamente perigoso acontecendo quando símbolos nacionais, religiosos e culturais deixam de representar o povo e passam a servir como figurino permanente de projetos de poder. O que deveria unir uma nação começa a ser utilizado para dividir, intimidar e fabricar pertencimentos emocionais cegos. Aos poucos, símbolos que nasceram da memória coletiva, da cultura popular, da espiritualidade e da própria construção histórica do país deixam de ser patrimônio comum e passam a funcionar como instrumentos de identidade ideológica, propaganda política e manipulação das massas.

A bandeira nacional não nasceu para ser capa de facção política, nem o Hino Nacional foi criado para servir de trilha sonora para idolatria partidária. A cruz não deveria funcionar como escudo moral para injustiças sociais, e a Bíblia não pode ser reduzida a objeto cenográfico de campanha eleitoral ou instrumento de legitimação automática de projetos de poder. Da mesma forma, a coroa de flores, os chapéus regionais, as roupas típicas, os símbolos culturais e até expressões populares passam a ser sequestrados e transformados em personagens políticos cuidadosamente construídos para consumo emocional, marketing digital e culto de imagem.

Quando símbolos deixam de representar o sofrimento, a esperança e a diversidade real do povo para servir apenas à encenação ideológica, a política corre o risco de abandonar o debate sobre justiça, dignidade humana, desigualdade social e direitos coletivos para se transformar em espetáculo permanente. E toda sociedade começa a adoecer quando a estética vale mais que a ética, quando a performance substitui o compromisso público e quando imagens patrióticas passam a esconder práticas políticas que aprofundam desigualdades, exclusões e formas modernas de dominação. A história mostra que projetos autoritários raramente começam apenas pela força. Eles começam pela captura simbólica da imaginação popular. Começam quando símbolos nacionais são monopolizados, quando líderes são transformados em figuras quase sagradas, quando a religião é utilizada como blindagem moral e quando emoções coletivas são manipuladas para criar a falsa ideia de que apenas um grupo representa “o verdadeiro povo” e “a verdadeira nação”. É nesse terreno que o patriotismo corre o risco de se transformar em espetáculo, a fé em instrumento político e a democracia em palco de manipulação emocional permanente.

A Constituição Federal de 1988 nasceu depois de uma longa experiência autoritária e foi construída justamente para impedir que a pátria fosse novamente apropriada por projetos de dominação travestidos de moralidade, nacionalismo e salvação pública. Por isso, a República foi fundada sobre princípios como cidadania, pluralismo político, dignidade da pessoa humana e liberdade de consciência. Não existe, constitucionalmente, “dono” da pátria, da fé ou da identidade nacional. A própria Lei nº 5.700/1971 estabelece que os símbolos nacionais devem receber respeito, dignidade e solenidade institucional. A bandeira brasileira pertence ao conjunto da nação e não foi criada para servir como uniforme ideológico, marketing eleitoral ou instrumento emocional de manipulação coletiva. Entretanto, o que se vê muitas vezes é exatamente o contrário: a transformação da bandeira em adereço de guerra cultural, o uso do Hino Nacional como ferramenta de agitação política e o patriotismo convertido em espetáculo performático para redes sociais, enquanto a fé passa a funcionar como blindagem moral para projetos de poder.

Na sociologia política, isso possui nome: apropriação simbólica do imaginário coletivo. Movimentos populistas frequentemente utilizam bandeiras, frases religiosas, roupas, símbolos patrióticos e estética emocional para construir uma narrativa simplificada baseada na divisão entre “os verdadeiros patriotas” e “os inimigos da nação”. Nesse processo, a política deixa de ser debate sobre salário, saúde pública, moradia, educação, desigualdade e dignidade humana para se transformar em espetáculo permanente de pertencimento tribal. É nesse cenário que surgem personagens cuidadosamente fabricados: a parlamentar da tiara de flores transformada em símbolo ideológico, o deputado enrolado na bandeira, o político que ergue a Bíblia diante das câmeras, o que usa o chapéu do agro como fantasia de autenticidade popular, o que transforma frases religiosas em slogan eleitoral e o que posa diante da cruz enquanto vota medidas que aprofundam desigualdades sociais.

O problema nunca foi usar símbolos culturais ou religiosos. O problema é utilizar esses símbolos para esconder práticas políticas contrárias ao interesse popular. Porque enquanto alguns encenam patriotismo em plenário, apoiam pautas que atingem diretamente trabalhadores pobres e serviços públicos essenciais. Muitos dos mesmos grupos que monopolizam o discurso de “Deus, pátria e família” apoiaram reformas trabalhistas que ampliaram precarização, flexibilização e fragilização de direitos históricos dos trabalhadores. Enquanto fazem discursos emocionados sobre moralidade, frequentemente votam contra pautas ligadas ao fortalecimento da proteção social, da tributação mais justa e da ampliação de políticas públicas para os mais vulneráveis. Eis a contradição central: envolvem-se na bandeira, mas ignoram quem morre na fila do SUS; levantam a Bíblia, mas silenciam diante da fome; falam em família, mas apoiam modelos econômicos que roubam das famílias o tempo de descanso e convivência; defendem jornadas exaustivas de trabalho e chamam isso de liberdade econômica; pregam mérito individual enquanto milhões sobrevivem sem condições mínimas de dignidade. Enquanto o povo é empurrado para guerras culturais intermináveis, poucos discutem concentração de renda, lucros bilionários, desigualdade tributária, juros abusivos, desmonte de direitos sociais e precarização da vida. O espetáculo simbólico frequentemente serve para esconder o debate econômico real.

Existe ainda uma contradição particularmente reveladora: os mesmos grupos que se apresentam como ultranacionalistas frequentemente exibem bandeiras de outros países em atos políticos brasileiros. Bandeiras dos Estados Unidos aparecem em manifestações supostamente patrióticas dentro do Brasil, enquanto bandeiras de Israel são utilizadas como marca ideológica em atos partidários. Símbolos estrangeiros passam a ser erguidos como identidade política ao mesmo tempo em que se fala em soberania nacional. Isso revela que o patriotismo performático muitas vezes não está ligado à defesa concreta do povo brasileiro, mas à adesão cultural e ideológica a determinados projetos internacionais de conservadorismo e poder. No caso da bandeira de Israel, existe ainda uma instrumentalização religiosa extremamente delicada. Muitos utilizam esse símbolo não por profundo conhecimento histórico do povo judeu ou da complexidade geopolítica do Oriente Médio, mas como peça de guerra cultural importada. Misturam religião, política externa e nacionalismo em narrativas simplificadas de “bem contra mal”, ignorando sofrimento humano, diplomacia e direitos internacionais.

Ao mesmo tempo, cresce a banalização de elementos simbólicos historicamente associados a movimentos autoritários. Nem todo uso do verde-amarelo é fascismo e nem toda religiosidade pública é autoritária, mas a história ensina que regimes fascistas sempre utilizaram forte estética simbólica, culto visual e nacionalismo emocional. O fascismo italiano explorava desfiles, uniformes, saudações e símbolos patrióticos como forma de produzir obediência emocional coletiva, enquanto o nazismo transformou bandeiras, cores, símbolos e encenações públicas em instrumentos de manipulação de massas. A política deixava de ser racionalidade democrática para virar espetáculo de adoração coletiva. E os sinais históricos sempre começam de maneira parecida: quando líderes passam a ser tratados como salvadores da pátria, quando a crítica é chamada de traição, quando jornalistas viram inimigos, quando universidades passam a ser atacadas, quando minorias são transformadas em ameaça moral, quando símbolos nacionais são monopolizados e quando emoções passam a valer mais do que fatos. O fascismo raramente começa apenas com tanques; começa com estética, propaganda emocional permanente e fabricação de inimigos internos. Começa quando o povo é ensinado a amar mais imagens do que pessoas.

O Estado brasileiro é laico, o que significa que nenhuma religião pode se transformar em autoridade oficial da República. A fé pertence à consciência das pessoas, não ao domínio institucional do Estado. Governantes podem ter religião, mas suas decisões públicas devem servir a toda sociedade — católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, agnósticos, ateus e qualquer cidadão brasileiro. A laicidade existe justamente para impedir que o sagrado seja usado como mecanismo de controle ideológico. Quando frases religiosas substituem argumentos técnicos, econômicos e sociais, a democracia adoece. Quando símbolos sagrados viram blindagem moral contra críticas públicas, a ética republicana se corrompe. Quando patriotismo vira espetáculo visual para esconder privilégios econômicos, o povo é transformado em plateia de uma encenação permanente.

As redes sociais ampliaram profundamente esse fenômeno. A política foi reduzida a cortes de vídeo, frases prontas, memes, bordões, personagens fabricados e guerras culturais permanentes. A complexidade dos problemas sociais foi substituída pela lógica da viralização emocional. O debate público perdeu profundidade diante da velocidade dos algoritmos. A indignação virou produto, o medo virou estratégia de engajamento e o ódio passou a circular como combustível político diário. A emoção foi transformada em algoritmo. Nesse ambiente digital, a aparência frequentemente vale mais do que a verdade, o espetáculo parece mais importante que a realidade e a performance emocional ganha mais alcance do que qualquer reflexão séria sobre desigualdade, fome, saúde pública, educação ou direitos sociais. Produzem-se inimigos em escala industrial. Fabricam-se escândalos instantâneos. Transformam-se símbolos religiosos e nacionais em ferramentas de identificação automática, como se vestir determinadas cores, repetir determinados slogans ou compartilhar determinados vídeos fosse prova suficiente de caráter, patriotismo ou moralidade.

Mas talvez o povo brasileiro precise reaprender algo fundamental e urgente: símbolo não é caráter, estética não é ética e performance não é compromisso público. Nenhuma tiara de flores santifica projetos autoritários, nenhuma bandeira absolve votos contra direitos sociais, nenhuma cruz legitima desprezo pelos pobres e nenhum slogan religioso transforma injustiça em virtude. Porque o verdadeiro compromisso com a pátria não se mede pela quantidade de símbolos exibidos diante das câmeras, mas pela coragem de defender dignidade humana quando isso contraria interesses econômicos e privilégios históricos. Amar a pátria não é vestir a bandeira como fantasia política. É garantir comida na mesa, descanso para o trabalhador, saúde pública funcionando, educação acessível, moradia digna, transporte humano, salário justo e esperança concreta para quem sustenta este país com o próprio corpo todos os dias. O verdadeiro patriotismo não está na encenação emocional de plenário nem no nacionalismo performático das redes sociais; está na defesa radical da vida humana acima do lucro, da propaganda e do fanatismo ideológico.

Uma nação começa a adoecer quando seus símbolos passam a valer mais do que suas pessoas. Adoece quando a bandeira vale mais que o trabalhador, quando o mercado vale mais que a dignidade humana, quando slogans religiosos falam mais alto do que a compaixão concreta e quando a estética política substitui a responsabilidade pública. E começa a se reconstruir quando a dignidade humana volta a ocupar o centro da vida coletiva, quando a justiça social deixa de ser tratada como ameaça ideológica e quando o povo recupera a capacidade de distinguir propaganda de verdade, manipulação de consciência e espetáculo de compromisso real. Toda vez que o sagrado é usado para justificar desigualdade, a história registra. Toda vez que a fé é convertida em marketing de poder, a consciência coletiva sangra. Toda vez que símbolos do povo são sequestrados para alimentar projetos de dominação, a democracia perde parte de sua alma. E toda vez que uma sociedade aprende a amar mais os símbolos do que as pessoas, ela se aproxima perigosamente da desumanização.

Porque nenhum símbolo nacional, religioso ou cultural possui mais valor do que a vida humana. E quando um país As redes sociais ampliaram esse fenômeno. A política virou corte de vídeo, frases prontas, memes, culto digital de personalidade, produção contínua de inimigos e viralização do medo e do ódio. A emoção foi transformada em algoritmo. E talvez por isso o povo brasileiro precise reaprender algo fundamental: símbolo não é caráter, estética não é ética e performance não é compromisso público. Nenhuma tiara de flores santifica projetos autoritários, nenhuma bandeira absolve votos contra direitos sociais, nenhuma cruz legitima desprezo pelos pobres e nenhum slogan religioso transforma injustiça em virtude. Porque amar a pátria não é vestir a bandeira; é garantir comida, descanso, saúde, educação, salário digno e humanidade para quem carrega este país nas costas todos os dias. Uma nação começa a adoecer quando seus símbolos valem mais do que suas pessoas, e começa a se reconstruir quando a dignidade humana volta a ser mais sagrada do que qualquer espetáculo político. E toda vez que o sagrado é usado para justificar desigualdade, a história registra; toda vez que a fé é convertida em marketing de poder, a consciência coletiva sangra; e toda vez que símbolos do povo são sequestrados por projetos de dominação, a democracia perde parte de sua alma. Isso, não é apenas a política que entra em crise , é a própria consciência moral da nação que começa a se perder.

DNonato - Graduado em História, teólogo do cotidiano, vivendo  o sacerdócio  batismal.