quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,28b-34

 
O Evangelho de Marcos 12,28b-34 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Romana esta passagem é proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a comunidade cristã escuta o diálogo entre Jesus e o escriba acerca do maior mandamento da Lei.  Nessas duas ocasiões a Igreja apresenta esse trecho como síntese da vida cristã, como se a própria liturgia quisesse recordar que toda prática religiosa, toda espiritualidade e toda moral encontram seu eixo nesse duplo mandamento do amor. Em diversas tradições litúrgicas de Igrejas históricas que seguem lecionários semelhantes, como comunidades anglicanas, luteranas e reformadas, esta mesma passagem ou suas variantes sinóticas também aparecem em ciclos que enfatizam o mandamento do amor como núcleo da revelação bíblica. Assim, ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs reconhecem nesse diálogo um ponto de convergência da fé, onde a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho encontram sua síntese viva.

Para compreender plenamente essa passagem é necessário situá-la dentro do movimento narrativo do Evangelho de Marcos. Jesus encontra-se em Jerusalém, na fase final de sua missão pública. A cidade não é apenas um espaço geográfico. Ela concentra o coração simbólico, religioso e político de Israel. O Templo domina o horizonte espiritual da nação e representa o centro da vida religiosa. Ali convergem peregrinos vindos de toda a região, sacerdotes ligados ao culto, mestres da Lei responsáveis pela interpretação da Torá e autoridades vinculadas tanto ao poder religioso quanto ao poder político mediado pelo domínio romano.

Pouco antes do diálogo com o escriba, Jesus havia realizado um gesto profundamente profético ao expulsar os vendedores do Templo, denunciando a transformação da casa de oração em espaço de comércio e exploração, conforme Marcos 11,15-17. Citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele proclama que a casa de Deus deveria ser casa de oração para todos os povos, mas havia se tornado um covil de ladrões. Esse gesto não pode ser interpretado apenas como indignação moral diante do comércio religioso. Trata-se de uma denúncia contra um sistema que instrumentalizava a religião para manter estruturas de poder e exclusão. O gesto de Jesus insere-se na longa tradição profética de Israel, que continuamente recordava que o culto verdadeiro não pode ser separado da justiça.

A partir desse momento o Evangelho apresenta uma sequência de debates entre Jesus e diversos grupos religiosos. Fariseus e herodianos interrogam Jesus sobre o tributo a César em Marcos 12,13-17. Saduceus questionam a ressurreição dos mortos em Marcos 12,18-27. Esses diálogos revelam o clima de tensão teológica e política que envolve o ministério de Jesus em Jerusalém. Não são discussões abstratas. São disputas que tocam diretamente a forma de compreender Deus, a Lei, a autoridade religiosa e a própria organização da sociedade.

É nesse ambiente que surge a pergunta do escriba. O evangelista observa um detalhe significativo. O escriba percebeu que Jesus havia respondido bem às discussões anteriores. Esse detalhe sugere que sua pergunta não nasce necessariamente de hostilidade, mas de uma busca honesta por discernimento. No judaísmo do primeiro século existiam intensos debates sobre a interpretação da Lei. A tradição rabínica identificava 613 mandamentos presentes na Torá, entre prescrições positivas e negativas. Diante dessa multiplicidade de normas, muitos mestres procuravam compreender qual seria o princípio fundamental capaz de orientar toda a vida religiosa do povo.

Quando o escriba pergunta qual é o primeiro de todos os mandamentos, Jesus responde citando uma oração central da fé de Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, conforme Deuteronômio 6,4. Essas palavras constituem o início do Shema Israel, oração que os judeus recitavam diariamente ao amanhecer e ao entardecer. Ela expressa a identidade espiritual de Israel como povo que reconhece o Deus único como fundamento de toda a existência. Essa confissão monoteísta não é apenas uma declaração teológica. Ela representa um chamado à fidelidade exclusiva a Deus em meio a um mundo onde diversos povos cultuavam múltiplas divindades ligadas ao poder, à fertilidade ou à guerra.

Logo em seguida Jesus continua citando Deuteronômio 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Na antropologia bíblica essas expressões não indicam partes isoladas do ser humano, mas dimensões complementares de uma existência integral. Amar a Deus significa orientar toda a vida para Ele.

O coração, na linguagem bíblica, não é apenas o lugar das emoções. Ele representa o centro da consciência moral e da decisão humana. Provérbios 4,23 afirma que do coração brotam as fontes da vida. O coração é o espaço interior onde o ser humano escuta Deus e decide seus caminhos. Por isso o salmista suplica: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”, conforme Salmo 51,12. O profeta Ezequiel anuncia uma promessa profundamente ligada a essa transformação interior quando transmite a palavra divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo”, conforme Ezequiel 36,26.

A alma, ou nefesh, refere-se ao sopro vital que anima a existência humana. O entendimento indica a dimensão da inteligência e do discernimento. A força remete às energias físicas, sociais e materiais que sustentam a vida cotidiana. Amar a Deus com todas essas dimensões significa reconhecer que a relação com o Criador não é apenas um sentimento religioso, mas uma orientação completa da existência.

Logo após citar esse mandamento, Jesus acrescenta outro que declara inseparável do primeiro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, conforme Levítico 19,18. A originalidade da resposta de Jesus não está apenas em citar esses dois textos da Torá, mas em uni-los de forma indissolúvel. O amor a Deus e o amor ao próximo formam uma única realidade espiritual e ética.

Essa síntese percorre toda a Escritura. O apóstolo João afirma que quem diz amar a Deus mas odeia o irmão torna-se mentiroso, conforme 1 João 4,20. O apóstolo Paulo escreve que quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei, conforme Romanos 13,8. No hino ao amor presente em 1 Coríntios 13, Paulo afirma que mesmo os maiores dons espirituais perdem sentido se não forem acompanhados pelo amor. O escriba reconhece a profundidade dessa síntese e afirma que amar a Deus e ao próximo vale mais do que todos os sacrifícios e holocaustos. Essa resposta ecoa diretamente a tradição profética de Israel. Ao longo da história bíblica os profetas denunciaram repetidamente uma religião centrada em rituais enquanto ignorava a justiça social.

Em Oséias 6,6 Deus declara que deseja misericórdia e não sacrifícios. Em Isaías 1,11-17 o Senhor rejeita cultos vazios e convoca o povo a aprender a fazer o bem, buscar a justiça, socorrer o oprimido e defender o órfão e a viúva. Em Amós 5,24 o profeta proclama que o direito deve correr como água e a justiça como um rio que nunca seca. Em Miquéias 6,8 encontramos uma síntese admirável da espiritualidade bíblica quando o profeta afirma que Deus pede apenas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus. Quando Jesus afirma ao escriba que ele não está longe do Reino de Deus, revela algo essencial sobre a natureza do Reino. O Reino não é apenas uma realidade futura reservada ao fim dos tempos. Ele começa a germinar sempre que a vida humana se orienta pela lógica do amor, da justiça e da misericórdia.

Os evangelhos sinóticos apresentam essa tradição com nuances próprias. Em Mateus 22,34-40 Jesus declara que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Em Lucas 10,25-28 o diálogo conduz à parábola do bom samaritano. Nessa narrativa um estrangeiro, pertencente a um povo considerado impuro pelos judeus, torna-se exemplo de compaixão. Um sacerdote e um levita passam adiante diante do homem ferido na estrada. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas e garante sua recuperação. A parábola amplia radicalmente o significado da palavra próximo. No contexto cultural do Mediterrâneo antigo, o termo próximo muitas vezes estava ligado ao pertencimento ao próprio grupo religioso ou étnico. A solidariedade era frequentemente delimitada por fronteiras de identidade. Jesus rompe essa lógica. O próximo não é apenas quem pertence ao mesmo povo, à mesma religião ou à mesma posição social. O próximo é qualquer pessoa cuja dor se cruza com nossa existência na estrada da história.

A ampliação da fraternidade  proposta  por Jesus  encontra ecos também em diversas tradições éticas da humanidade. Dentro do judaísmo antigo, o rabino Hillel ensinava que a essência da Lei poderia ser resumida na regra de não fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós. No mundo grego, pensadores estoicos defendiam a ideia de uma fraternidade universal baseada na razão comum que habita todos os seres humanos. No Oriente, tradições associadas a Confúcio também destacavam a benevolência e o respeito mútuo como fundamentos da ordem social. Esses paralelos revelam que a humanidade sempre buscou caminhos éticos baseados no respeito e na compaixão. No entanto, no ensinamento de Jesus essa ética encontra seu fundamento último na própria natureza de Deus.

Essa  visão  de forma  aparece no Sermão da Montanha. Em Mateus 5,44-45 Jesus convida seus discípulos a amar os inimigos e rezar pelos perseguidores para se tornarem filhos do Pai celeste, pois Deus faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Aqui se revela a raiz teológica do amor ao próximo. Deus não distribui sua bondade apenas aos que pertencem a um grupo específico. A criação inteira participa da generosidade divina e esse horizonte transforma radicalmente a compreensão da vida social. Se Deus faz o sol nascer para todos, então nenhuma ideologia religiosa pode reivindicar monopólio da graça ou justificar exclusões baseadas em poder, riqueza ou identidade. O amor ao próximo torna-se expressão concreta da própria universalidade da misericórdia divina.

O contexto histórico da Palestina do primeiro século ilumina ainda mais a radicalidade desse ensinamento. A sociedade estava marcada por fortes desigualdades econômicas. Pequenas elites sacerdotais e aristocráticas concentravam riqueza e poder enquanto grande parte da população camponesa enfrentava pobreza crescente. O sistema de impostos imposto pelo domínio romano agravava ainda mais essa realidade. Nesse cenário o mandamento do amor ao próximo possuía implicações sociais profundas. Levítico 19, de onde Jesus cita esse mandamento, inclui orientações claras sobre justiça social. O texto ordena não explorar o trabalhador, não reter o salário do pobre, não cometer injustiça nos tribunais, não discriminar o estrangeiro e não oprimir o fraco. O amor ao próximo na tradição bíblica não é apenas sentimento interior. Ele se manifesta em práticas concretas de justiça. Essa preocupação aparece também em Deuteronômio 24,17-22, onde o povo é chamado a proteger o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esses grupos representavam as categorias mais vulneráveis da sociedade antiga. Defender sua dignidade era sinal de fidelidade à aliança com Deus.

O  impacto desse ensinamento. Nas sociedades antigas a solidariedade frequentemente se limitava ao próprio grupo. Identidade religiosa, étnica ou familiar definia quem era digno de cuidado. Ao afirmar que o próximo pode ser qualquer pessoa necessitada, Jesus rompe barreiras profundamente enraizadas.  O ser humano busca sentido, pertencimento e reconhecimento. Quando a religião se transforma apenas em sistema de normas ou instrumento de controle social, ela pode gerar medo e alienação. O ensinamento de Jesus aponta para uma espiritualidade que integra interioridade e compromisso ético, contemplação e responsabilidade social.

Essa visão encontra eco em documentos importantes da Igreja contemporânea. O Concílio Vaticano II afirma em Gaudium et Spes 1 que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. O mesmo documento afirma em Gaudium et Spes 27 que toda forma de injustiça social constitui ofensa ao Criador.

Na América Latina os documentos do CELAM aprofundaram essa dimensão social da fé. Medellín destacou que a evangelização exige compromisso com a libertação dos pobres. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho. Aparecida recorda que a fé cristã deve transformar estruturas injustas que produzem exclusão e sofrimento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também tem reiterado que o amor ao próximo exige compromisso com políticas públicas que promovam justiça social, dignidade humana e defesa da vida em todas as suas dimensões.

Nesse horizonte emerge o caráter profético do ensinamento de Jesus. Ao longo da história muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Quando a fé é usada para justificar dominação, exclusão ou intolerância, o Evangelho é distorcido. Jesus já denunciava esse perigo ao criticar líderes religiosos que se preocupavam com minúcias rituais enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade, conforme Mateus 23,23. Essa denúncia permanece atual quando discursos religiosos são utilizados para sustentar ideologias autoritárias, manipulações políticas ou projetos de dominação que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora.

Algumas correntes contemporâneas, como a chamada teologia da prosperidade, reduzem a fé a promessa de sucesso econômico individual. Essa visão contrasta profundamente com o testemunho bíblico que apresenta Jesus identificando-se com os pobres, os pequenos e os excluídos, conforme Mateus 25,40. O Evangelho não promete prosperidade automática. Ele anuncia um Reino que coloca os pobres no centro da atenção divina.

Outro desafio é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em poder distante do povo. O Concílio Vaticano II recorda que toda a Igreja é povo de Deus chamado ao serviço e à comunhão. A autoridade na comunidade cristã deve refletir o estilo de Jesus, que declarou ter vindo não para ser servido, mas para servir, conforme Marcos 10,45.

O Papa Francisco recorda na Evangelii Gaudium 188 que a fé autêntica implica um profundo desejo de transformar o mundo. Na encíclica Laudato Si 49 ele afirma que o clamor da terra e o clamor dos pobres formam um único clamor que sobe diante de Deus.

O mandamento do amor ao próximo continua desafiando os cristãos diante das feridas do mundo contemporâneo. Desigualdade social, violência urbana, exclusão econômica, migrações forçadas e crise ambiental revelam que a humanidade ainda luta para construir relações baseadas na justiça e na solidariedade.

A tradição espiritual da Igreja encontra no coração de Cristo um símbolo dessa síntese entre amor a Deus e amor à humanidade. O coração aberto de Jesus revela um amor que se entrega completamente. Em João 15,13 ele afirma que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.

Assim a pergunta do escriba continua ecoando através dos séculos.

 Qual é o maior mandamento?

A resposta de Jesus permanece clara e exigente: Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

 Essa síntese não é apenas um princípio moral abstrato. Ela é um caminho concreto de transformação da história. O Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a lógica do amor substitui a lógica da violência, da exploração e da indiferença.

O Evangelho convida cada geração a redescobrir essa verdade fundamental. A verdadeira religião não consiste apenas em ritos ou discursos, mas em permitir que o amor de Deus transforme o coração humano e inspire novas relações sociais. Quando o coração humano se abre à compaixão divina, nasce uma nova forma de viver. Comunidades tornam-se espaços de solidariedade. A fé torna-se força de justiça. A esperança torna-se energia para transformar o mundo. Nesse caminho o ensinamento de Marcos 12,28b-34 continua iluminando a consciência humana. Ele recorda que toda a Lei e toda a revelação encontram sua plenitude no amor. Amar a Deus e amar o próximo é o coração do Evangelho e o caminho pelo qual o Reino de Deus começa a florescer na história.

DNonato - Teólogo do cotidiano 

Um breve olhar sobre Lucas 11,14‑23

O Evangelho de Lucas 11,14‑23 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana como leitura do Evangelho na Quinta‑feira da Terceira Semana da Quaresma, marcando um tempo litúrgico em que somos convidados a discernir as forças que se opõem à vida e à dignidade humana e a reconhecer o poder libertador de Deus. A Igreja quando proclama essa passagem   proporciona aos fiéis uma oportunidade de meditar sobre a presença do Reino de Deus em meio às trevas e às estruturas de dominação. Nas tradições litúrgicas de outras Igrejas históricas, como Anglicana e Luterana, esta narrativa também é inserida em ciclos de preparação à Páscoa ou em leituras sobre a autoridade e o ministério libertador de Jesus, ressaltando a unidade do testemunho sinótico e a centralidade do Evangelho em confrontar o mal.

Ao contemplarmos a passagem, encontramos Jesus realizando um gesto de profunda libertação. Um homem, possuído por um demônio que o tornava mudo, é trazido a Ele, e Jesus, pelo poder de Deus, devolve-lhe a voz, restaurando sua participação plena na vida comunitária. Este gesto ecoa o poder libertador de Deus manifestado desde o Antigo Testamento, como na libertação de Israel do Egito, onde o Senhor liberta seu povo e restabelece sua identidade e dignidade (Êxodo 3,7‑8; Êxodo 14,21‑22). A incapacidade de falar simboliza não apenas uma limitação física, mas a exclusão, a marginalização e a impossibilidade de comunicar-se plenamente com Deus e com a comunidade, lembrando o chamado do profeta Isaías: “Abrirei a boca em parábolas, proclamarei o que estava oculto desde a criação” (Is 42,7; cf. Is 61,1‑2). A ação de Jesus, portanto, é restauradora, libertadora e inclusiva.

No entanto, a narrativa também mostra a incompreensão humana. Alguns acusam Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, príncipe dos demônios. Esta reação nos alerta para a cegueira espiritual e a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus quando ela desafia nossas categorias de poder ou nossas expectativas. O mesmo alerta encontramos nos profetas do Antigo Testamento: Jeremias denuncia a obstinação do povo que recusa ouvir a voz de Deus e mantém práticas que destroem a vida (Jr 7,23‑25), e Isaías denuncia a idolatria e a injustiça (Is 1,16‑17). A incompreensão de Jesus é um convite à vigilância espiritual e à humildade diante da obra de Deus que liberta e não se submete às lógicas humanas.

A resposta de Jesus à acusação é profundamente teológica. Ele afirma que “um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir” (Lc 11,17), mostrando a impossibilidade de atribuir ao mal aquilo que é obra do bem divino. A expressão “pelo dedo de Deus” remete ao poder libertador de Deus no Êxodo e ecoa o agir divino que rompe o mal e salva seu povo (Êxodo 8,19; Salmo 8,4). O milagre não é apenas um ato isolado, mas a manifestação do Reino de Deus que chegou e confronta as forças que escravizam. Jesus continua o discurso com a figura do homem forte e armado que guarda sua casa, símbolo das estruturas de poder que se fecham contra a justiça, riqueza e exclusão. Quando Ele afirma que “aquele que é mais forte vem e o vence” (Lc 11,22), revela que o Reino de Deus desarma toda força opressora, restaurando dignidade, vida e liberdade. Esta linguagem ressoa com a promessa de Deus de restaurar justiça e quebrar a opressão, como profetizou Jeremias (Jr 23,5‑6), Isaías (Is 9,6‑7) e Amós (Am 5,24).

Ao compararmos com Marcos 3,22‑27 e Mateus 12,22‑30, percebemos nuances importantes.

  • Marcos enfatiza a autoridade messiânica de Jesus.
  • Mateus amplia a discussão sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. 
  • Lucas destaca a ação libertadora de Jesus, especialmente voltada aos marginalizados, refletindo sua preocupação pastoral com os excluídos. 

Este contraste nos ajuda a compreender que a narrativa não é apenas histórica, mas teológica, espiritual e social, mostrando que a presença do Reino de Deus implica transformação integral da pessoa e da comunidade. O Império Romano impunha tributos, controle e violência, enquanto elites judaicas frequentemente se alinhavam ao poder para manter privilégios, em detrimento dos pobres. O silêncio imposto pelo demônio remete simbolicamente à marginalização e à exclusão social. Jesus liberta, denuncia e convoca à conversão, lembrando o que o profeta Sofonias proclamou: “Buscai o Senhor, todos os humildes da terra” (Sf 2,3). Esta libertação não é abstrata; envolve o corpo, a mente, a consciência e a participação comunitária, ressoando com a obra profética de Deus ao longo da história de Israel.

 O demônio que torna o homem  mudo  simboliza as forças internas que nos impedem de viver plenamente: medo, culpa, ressentimento, desejo de poder e dominação. Jesus, ao expulsar o demônio, nos convida à vigilância interior, à transformação pessoal e à liberdade de viver segundo a verdade de Deus, em consonância com Paulo: “Não se conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2) e “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17).

Não podemos  esquecer  a dimensão comunitária da libertação. O homem que recupera a voz é reintegrado à vida social e religiosa, lembrando o que Paulo ensina: “Procurai o que contribui para a paz e para a edificação mútua” (Rm 14,19). A liberdade operada por Jesus é inseparável da justiça, da solidariedade e da promoção da dignidade humana, e exige que cada cristão participe da obra libertadora em seu contexto.

Documentos da Igreja iluminam essa interpretação. Gaudium et Spes afirma que a Igreja não pode separar evangelização e promoção humana integral, e a CNBB reforça que a fé exige ação em favor dos pobres, da justiça e da paz (Documento 100). O CELAM, nos documentos de Puebla e Aparecida, exorta a Igreja da América Latina a ser sinal de reconciliação, a denunciar estruturas de opressão e a promover a dignidade humana, reforçando que a libertação de Lucas 11 não é simbólica, mas integral e comunitária.

O desafio contemporâneo é evidente. Muitas formas de religião são instrumentalizadas para fins político‑partidários, ideologias autoritárias, manipulação da fé, teologia da prosperidade e clericalismo. Lucas 11,14‑23 nos chama à fidelidade profética ao Evangelho, denunciando injustiças, restaurando vozes silenciadas e promovendo a vida em sua totalidade. A passagem desafia a sociedade a escolher entre o poder que oprime e o poder que liberta, lembrando o ensinamento de Jesus: “Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo, espalha” (Lc 11,23), uma advertência que convoca à coerência e ao compromisso ético.

A leitura integrada com outros textos bíblicos reforça a coerência teológica: a libertação do homem mudo se conecta com: 

  1.  a promessa de Isaías 61,1‑2, 
  2.  a vitória sobre o mal de Salmo 18,15‑17, 
  3.  a libertação dos cativos de Lucas 4,18‑19, 
  4.  a vitória da luz sobre as trevas em João 1,4‑5, 
  5.  a afirmação paulina de que Cristo nos liberta para vivermos em liberdade e serviço aos outros (Gál 5,1). 

Estes textos criam uma teia de significados que sublinha a radicalidade do Reino de Deus, a profecia do Evangelho e a urgência da conversão pessoal e social.

Assim, a narrativa de Lucas 11,14‑23 permanece viva e desafiadora. Ela nos convida a discernir o Reino de Deus, a combater as forças que nos aprisionam, a restaurar dignidade e a trabalhar pela justiça e paz na sociedade. Cada ação de Jesus é profética, libertadora e inclusiva, e nos lembra que a fé exige coragem, coerência e compromisso ético. Que possamos ouvir a voz do Evangelho, recuperar nossa própria voz e ser instrumentos da presença libertadora de Deus em nosso tempo, restaurando vidas, denunciando injustiças e proclamando o amor que transforma, cura e redime.



DNonato - Teólogo do cotidiano  em processo de libertação 



quarta-feira, 11 de março de 2026

O Poder dos Quadrinhos e a Humanidade dos Heróis

Desde que os seres humanos começaram a contar histórias, sempre houve uma figura recorrente nas narrativas: alguém que se levanta quando o caos ameaça dominar tudo. Na Antiguidade, esses personagens eram chamados de heróis: Aquiles, Hércules, Perseu, Ulisses. Suas histórias misturavam coragem, tragédia e destino. Eles enfrentavam monstros, impérios e deuses, mas também confrontavam suas próprias fraquezas. Essas narrativas nunca foram apenas entretenimento; eram formas simbólicas pelas quais as sociedades refletiam sobre justiça, coragem, sacrifício e limite humano. Historicamente, os mitos serviam como instrumentos pedagógicos e éticos, ensinando aos cidadãos os valores essenciais de suas culturas e legitimando hierarquias sociais ou explicando catástrofes naturais. A antropologia mostra que, em todas as culturas, o herói cumpre uma função ritual: ele atravessa o limiar do perigo, enfrenta a morte simbólica e retorna com algum tipo de renovação coletiva.

No século XX, esse imaginário antigo encontrou nova linguagem nas histórias em quadrinhos. Os super-heróis passaram a ocupar o lugar dos antigos mitos, tornando-se símbolos narrativos das cidades modernas, das guerras mundiais, da corrida espacial, das tensões da Guerra Fria e das transformações sociais contemporâneas. Aqui, a psicologia social demonstra que a fantasia de superpoderes funciona como mecanismo de projeção, permitindo que leitores lidem com ansiedades coletivas — medo da guerra, racismo, desigualdade e crises econômicas — ao mesmo tempo que se identificam com a humanidade imperfeita dos personagens. O psiquiatra Carl Gustav Jung descreveu o arquétipo do herói como uma estrutura simbólica presente em praticamente todas as culturas humanas. O herói representa aquele que atravessa o caos e retorna trazendo renovação para a comunidade. Nos quadrinhos modernos, esse arquétipo ganha um aspecto novo: o herói não é apenas poderoso, ele é profundamente humano. Ele carrega dúvidas, medos, traumas e responsabilidades. O heroísmo deixa de ser apenas força e passa a ser decisão moral. Filósofos contemporâneos e estudiosos da ética, como Martha Nussbaum, podem observar que essas narrativas exploram a virtude em ação, situando o indivíduo entre deveres morais e circunstâncias contingentes.

No final da década de 1930, quando o mundo ainda sofria os efeitos da Grande Depressão e caminhava para a Segunda Guerra Mundial, surge a chamada Era de Ouro dos quadrinhos. Nesse contexto aparecem heróis que se tornariam símbolos culturais duradouros, criados por Jerry Siegel e Joe Shuster dois garotos judeus  que  venderam quase de graça o direito dos super-herói (Super-Homem) por isso os El presente  no nome da família do personagem, sem mencionar que era um período do surgimento do antissemitismo, Bob Kane e Bill Finger (Batman) um herói  urbano e William Moulton Marston com H. G. Peter (Mulher-Maravilha) trazendo e destacando o papel da mulher.  O 

  •  Super-Homem surge como símbolo de esperança em um tempo marcado por regimes autoritários, totalitarismos europeus e insegurança global. Um estrangeiro vindo de outro planeta decide usar sua força para proteger um mundo que muitas vezes nem compreende sua origem. Ao mesmo tempo, sua fraqueza diante da kryptonita lembra algo profundamente humano: ninguém é invencível. Comercialmente, Super-Homem inaugura o modelo de franquia que se tornaria padrão: licenciamento, merchandising e adaptação para rádio, cinema e, mais tarde, televisão. Sua figura se torna um ícone da cultura de massa e do poder simbólico americano, enquanto reflete, paradoxalmente, tensões sociais internas, como racismo e desigualdade.
  • Batman representa outro tipo de heroísmo. Ele não possui poderes sobrenaturais. Sua origem nasce da dor: o assassinato de seus pais. Ao transformar trauma em disciplina, estratégia e perseverança, ele se torna símbolo da luta contra o crime urbano e contra as estruturas de corrupção que marcam as grandes cidades modernas. Seus inimigos frequentemente representam distorções da própria sociedade, como ocorre com Coringa, personagem que encarna o caos moral e psicológico. Sociologicamente, Gotham funciona como microcosmo das cidades industrializadas: desigualdade econômica, violência e corrupção institucionalizada. Filosoficamente, o dualismo moral de Batman explora dilemas sobre dever versus resultado e a necessidade de ação ética mesmo em mundos moralmente falhos.
  • Mulher-Maravilha surge em um contexto de mudanças sociais, representando força, justiça e sabedoria, especialmente em uma época em que as mulheres assumiam novos papéis na sociedade, incluindo o esforço de guerra. Historiadores observam que a criação de um ícone feminino nos quadrinhos durante a Segunda Guerra reflete o deslocamento cultural do patriarcado durante crises globais, mas também inaugura o debate sobre representatividade e empoderamento feminino em narrativas populares. Na prática comercial, a personagem demonstrou o potencial de explorar diferentes públicos, incluindo meninas e mulheres adultas, e inspirou a construção de um legado de heroínas ao longo do tempo.

Nesse período também nasce a primeira grande equipe de super-heróis: a Sociedade da Justiça da América. Entre seus membros estavam:: Joel Ciclone  Jay Garrick,  Gavião Negro , Doutor meia noite e o primeiro Lanterna Verde, Alan Scott. É importante lembrar que esse Lanterna Verde não fazia parte ainda da famosa tropa cósmica que seria criada décadas depois; seu poder possuía origem mística. Historicamente, a Sociedade da Justiça surgiu como resposta à necessidade de narrativas coletivas que pudessem unir diferentes arquétipos heroicos, consolidando o conceito de equipe e a lógica de diversidade de poderes.

Com a chegada da Era de Prata, no início dos anos 1960, surgem novos heróis e novas abordagens narrativas, especialmente nas histórias da Marvel. Uma das grandes revoluções desse período é o surgimento do Homem-Aranha. Diferente dos heróis clássicos, ele não é adulto, rico ou confiante. É um jovem enfrentando dificuldades financeiras, responsabilidade familiar e insegurança emocional. A famosa máxima sobre responsabilidade transforma uma história de aventura em reflexão ética sobre o uso do poder. Psicologicamente, Peter Parker representa o dilema da adolescência e do amadurecimento, lidando com perdas, culpa e escolhas morais. Comercialmente, a Marvel percebe a força de histórias com protagonistas identificáveis, capazes de gerar engajamento emocional profundo e fidelidade de público.

Os Vingadores surgem como uma reunião de heróis que inicialmente atuavam separadamente. A formação original incluía Homem de Ferro, Thor, Hulk, Homem-Formiga e Vespa. Com o tempo, a equipe passou por muitas formações diferentes, incluindo Pantera Negra, Feiticeira Escarlate, Visão, Gavião Arqueiro, Capitã Marvel e Homem-Aranha. Esse modelo de equipe mostra a lógica de cooperação e diversidade, além de gerar oportunidades narrativas complexas, exploração de conflitos internos e estratégias de mercado baseadas em crossovers. Outro grupo fundamental é o Quarteto Fantástico, formado por Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e Coisa. Diferente de muitas equipes, eles funcionam como uma família científica explorando o desconhecido, refletindo o espírito da corrida espacial dos anos 1960. Historicamente, suas histórias dialogam com o avanço científico, a corrida armamentista e o debate sobre ética da ciência — temas cruciais da Guerra Fria.

Também surgem os X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby. O grupo original incluía Ciclope, Jean Grey, Fera, Homem de Gelo e Anjo, guiados por Professor Xavier. As histórias dos mutantes frequentemente funcionam como metáforas para preconceito e exclusão social, lembrando o ativismo de Martin Luther King e Malcolm X: Xavier representa a convivência pacífica, enquanto Magneto reflete a resistência e a luta radical diante da opressão. Sociologicamente, os mutantes expõem questões de segregação, medo do diferente e construção de identidades coletivas. Politicamente, suas histórias dialogam com movimentos civis e direitos humanos, trazendo reflexão crítica sobre discriminação e justiça social.

Na DC, a grande reunião de heróis surge com a Liga da Justiça, formada por Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde (Hal Jordan) ou, em adaptações recentes, John Stewart, Aquaman e Caçador de Marte. Heróis negros da DC, como Raio Negro e John Stewart, tornam-se símbolos de representatividade e coragem em um mundo muitas vezes marcado pelo racismo e desigualdade. Psicologicamente, sua presença reforça narrativas de identidade, pertencimento e resistência simbólica.

Outro elemento central das histórias é a existência de parceiros jovens que aprendem com heróis mais experientes. Exemplos clássicos incluem Bucky Barnes, parceiro do Capitão América, Dick Grayson, o primeiro Robin, e Kid Flash, que se tornaria membro dos Jovens Titãs. Filosoficamente, esses personagens representam a pedagogia do heroísmo e a passagem de legado ético entre gerações.  Nas histórias da Marvel dos anos 1970 também surgem Defensores e Esquadrão Invencível, equipes que, embora não diretamente ligadas à Segunda Guerra, se tornaram importantes para aventuras globais e enfrentamento de vilões poderosos, misturando heróis veteranos e novos personagens. Do ponto de vista comercial, isso marca o início do storytelling serializado complexo, que fortalece o consumo contínuo e a cultura de coleção.

Um marco importante na evolução das histórias em quadrinhos foi a inclusão dos primeiros super-heróis negros e negras, ainda que tardiamente, como resposta à injustiça histórica e à exclusão social. Em 1947, surge Leão Negro, na publicação independente All-Negro Comics, considerado o primeiro super-herói negro. Décadas depois, a Marvel apresenta Pantera Negra (1966), rei de Wakanda, símbolo de resistência e orgulho cultural africano; e Luke Cage (1972), herói urbano do Harlem que enfrenta crime e desigualdade social. Na DC Comics, Lanterna Verde John Stewart (1971) encarna coragem, disciplina e justiça cósmica, enquanto Raio Negro / Jefferson Pierce (1977) usa seus poderes elétricos para proteger sua comunidade, denunciando o racismo e a violência estrutural. Entre as heroínas, Núbia (1973), irmã gêmea da Mulher-Maravilha, representa a força amazona negra; Tempestade / Ororo Munroe (1975), dos X-Men, domina os elementos e lidera com autoridade; e Abelha / Karen Beecher (1976), dos Titãs, traz inteligência, agilidade e heroísmo feminino negro. Estes pioneiros denunciam, em silêncio, que o heroísmo não é exclusivo de uma cor, e que a história do mundo real precisa ser contada com diversidade e justiça.

Ao longo dessas histórias aparecem personagens brasileiros que participam de equipes globais. Entre os mais conhecidos estão Roberto da Costa, o Mancha Solar, mutante ligado aos Novos Mutantes, X-Men e Vingadores; Amara Aquilla, a Magma, mutante associada à misteriosa Nova Roma escondida na Amazônia; Beatriz da Costa, a heroína Fogo, integrante da Liga da Justiça Internacional; Yara Flor, ligada ao legado amazona da Mulher-Maravilha; e Iara dos Santos, conhecida como Garota Tubarão. A presença desses personagens evidencia a globalização das narrativas de super-heróis, reforçando representatividade racial e cultural.

Com o tempo, os quadrinhos também começaram a refletir outras dimensões da diversidade humana. Surgem heróis LGBTQAPN+, muçulmanos, refugiados e personagens de múltiplas identidades, inseridos em narrativas globais que expõem preconceitos, exclusão e resistência cultural. Entre eles, Tim Drake / Robin, parceiro do Batman, se apresenta como bissexual, assim como Jon Kent, filho do Super-Homem, que herda não apenas poderes, mas dilemas éticos e afetivos em uma sociedade complexa. Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde, se revela homossexual, enquanto o casal Meia-Noite e Apolo simboliza amor e coragem, enfrentando ameaças cósmicas juntos, sem esquecer Sina e Mística da Irmandade Mutante, o Estrela Polar da Tropa Alfa. Nos jovens heróis, Wiccano e Hulkling apresentam união e lealdade em meio a crises globais, reforçando a força da comunidade. Heroínas e figuras clássicas, como Mulher-Maravilha / Diana e  Constantine como bissexuais e Canário Branco / Dinah Lance como lésbica, desafiam normas e afirmam identidades LGBTQAPN+, mostrando que heroísmo e amor podem coexistir em todas as cores, gêneros e orientações.

Um aspecto importante das narrativas modernas é a complexidade moral. Alguns heróis caem e se tornam vilões em determinados momentos. Hal Jordan se transforma em Parallax após colapso emocional, enquanto Jean Grey torna-se a Fênix Negra quando perde o controle de poderes cósmicos. Por outro lado, alguns vilões atravessam caminhos de redenção, como Magneto ou Venom. Essa ambivalência psicológica permite reflexões sobre ética, trauma, perdão e responsabilidade, enquanto dialoga com teorias modernas da moralidade situacional e consequencialista.

Também surgem os chamados anti-heróis, que combatem o mal utilizando métodos moralmente ambíguos, como Justiceiro, Deadpoo como bissexual l, Motoqueiro Fantasma, Lobo e Constantine. Do ponto de vista sociológico, eles representam a frustração com sistemas de justiça ineficazes e a tensão entre lei e moral individual.

Um dos aspecto mais profundo dessas histórias seja justamente a fragilidade dos próprios heróis. Super-Homem pode ser derrotado por uma pedra. Batman continua marcado por seus traumas. Mutantes ainda enfrentam perseguição. Lanternas Verdes podem sucumbir ao desespero. Historicamente, isso ecoa a narrativa humana de vulnerabilidade diante de forças externas e internas. Psicologicamente, essas histórias reforçam empatia, identificação e o reconhecimento das limitações humanas como parte do heroísmo.

Sem esquecer que com o  passar das décadas surgem grandes sagas que reorganizam universos inteiros. Na DC destacam-se eventos como Crise nas Infinitas Terras, Hora Zero: Crise no Tempo, Crise Final e Ponto de Ignição. Na Marvel surgem eventos como Guerras Secretas, Guerras Secretas II, Desafio do Infinito, Massacre Mutante e Era do Apocalipse. Historicamente, essas sagas refletem a instabilidade política e econômica das décadas correspondentes, além de permitir estratégias comerciais de reboots, colecionáveis e fidelização de público.

Mas há um lado sombrio: essas histórias são produzidas, vendidas e consumidas a partir de um modelo industrial norte-americano que exporta valores, cores, política e narrativas ideológicas de maneira quase colonial. As aventuras, por mais empoderadoras que sejam, carregam mensagens de patriotismo, capitalismo e hegemonia cultural, oferecendo entretenimento enquanto seduzem consciências para uma visão de mundo centrada nos EUA. Como profetas modernos, os quadrinhos denunciam — ainda que silenciosamente — a mercantilização da cultura e o poder simbólico das cores, das escolhas políticas e das narrativas americanas, que se infiltram no imaginário global, mascaradas de fantasia, enquanto reproduzem padrões de dominação simbólica.

No fundo, essas histórias continuam sendo contadas porque falam da própria humanidade. Em algum momento da vida, cada pessoa já foi heroica para alguém — um gesto de coragem, uma decisão difícil, uma palavra que protegeu alguém vulnerável. Quando alguém decide agir em favor da justiça mesmo diante do medo, algo antigo e profundo se repete. Não é apenas uma cena de quadrinhos. É a velha história humana voltando a acontecer no mundo real. Filosoficamente, é a reafirmação do valor do ato ético sobre a mera força ou poder. Politicamente, é um lembrete de que a cidadania exige coragem e responsabilidade. Culturalmente, é a prova de que narrativas de heroísmo continuam moldando sociedades e consciências.

DNonato  - apenas um humano...


Um breve olhar sobre Mateus 5,17-19

 
Na liturgia da Igreja, o trecho de Mateus 5,17-19 aparece em momentos particularmente significativos da vida espiritual da comunidade cristã. Um deles ocorre na Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, quando a Igreja, já avançada no caminho penitencial rumo à Páscoa, convida os fiéis a refletirem sobre a fidelidade à vontade de Deus e sobre o sentido profundo da Lei divina. O outro momento ocorre no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano A, quando a liturgia proclama Mateus 5,17-37 ou, na forma breve, Mateus 5,17-20. Nesse contexto dominical, o texto funciona como porta de entrada para as antíteses do Sermão da Montanha, nas quais Jesus aprofunda o sentido dos mandamentos. Também nas tradições das Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, essa passagem aparece no contexto da leitura contínua do Evangelho de Mateus e nas catequeses sobre a ética do Reino de Deus. Assim, trata-se de uma palavra que atravessa a tradição cristã e permanece viva na memória litúrgica da Igreja.

O evangelista Mateus coloca essa afirmação de Jesus dentro do grande discurso conhecido como Sermão da Montanha, narrado nos capítulos 5 a 7. O cenário da narrativa não é casual. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. No mundo bíblico, a montanha é lugar de revelação, espaço onde Deus se manifesta e onde a história humana encontra uma abertura para o mistério divino. Foi numa montanha que Moisés encontrou Deus e recebeu a Lei da aliança (Ex 19,3; Ex 24,12). Foi numa montanha que Elias experimentou a presença divina no murmúrio suave do vento (1Rs 19,11-13). A montanha torna-se, assim, símbolo da proximidade entre céu e terra, lugar onde a Palavra de Deus se revela e orienta a vida do povo. Ao colocar Jesus ensinando sobre uma montanha, Mateus sugere que estamos diante de um novo momento da revelação, não como ruptura com o passado, mas como sua plenitude.

Essa imagem será retomada mais tarde quando o próprio Jesus sobe outra montanha para revelar sua glória na transfiguração diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-5). A montanha aparece novamente no final do Evangelho, quando o Ressuscitado envia seus discípulos em missão universal (Mt 28,16-20). A geografia do Evangelho, portanto, torna-se uma narrativa teológica. Em cada montanha encontramos um momento decisivo da revelação.

A comunidade para a qual Mateus escreve vive provavelmente nas últimas décadas do primeiro século, em um ambiente profundamente marcado pelas tensões entre cristãos de origem judaica e o judaísmo rabínico que se reorganizava após a destruição de Jerusalém no ano 70. Nesse contexto, surgia uma questão central: qual era a relação entre Jesus e a Lei de Moisés? Alguns poderiam pensar que seguir Jesus significava abandonar a tradição de Israel. Outros poderiam imaginar que a observância da Lei bastava sem necessidade de acolher a novidade do Evangelho. É nesse cenário que Jesus declara com clareza: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17).

A expressão “Lei e Profetas” era uma maneira tradicional de designar toda a Escritura de Israel. Jesus afirma, portanto, que sua missão não destrói a revelação anterior. Ao contrário, ele a leva à sua plenitude. O verbo grego utilizado por Mateus, plēroō, significa completar, preencher, levar ao sentido pleno aquilo que estava em processo. A história da salvação não é um conjunto de fragmentos desconectados. Ela é uma caminhada na qual Deus conduz seu povo gradualmente para uma compreensão mais profunda de sua vontade.

Para compreender a força dessa afirmação é necessário recordar o papel da Lei na vida do povo de Israel. A Torá não era vista como um peso, mas como dom de Deus. O livro do Deuteronômio recorda que os mandamentos foram dados para que o povo tivesse vida e prosperasse (Dt 30,15-16). O salmista proclama que a Lei do Senhor é perfeita e revigora a alma (Sl 19,8). O Salmo 119 celebra a Palavra divina como lâmpada que ilumina o caminho humano (Sl 119,105). A Lei expressava a aliança entre Deus e seu povo, indicando o caminho da justiça, da solidariedade e da fidelidade.

Entretanto, ao longo da história, a observância da Lei podia ser reduzida a um formalismo religioso que esquecia a justiça. Por isso os profetas levantaram sua voz contra o culto vazio. Isaías denuncia aqueles que multiplicam sacrifícios enquanto ignoram o sofrimento dos pobres (Is 1,13-17). Amós proclama que Deus rejeita festas religiosas quando o direito é pisoteado e a justiça é vendida por dinheiro (Am 5,21-24). Miquéias pergunta o que o Senhor exige do ser humano e responde de maneira simples e profunda: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Oseias afirma que Deus quer misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará explicitamente em seu ministério (Mt 9,13; Mt 12,7).

Jesus se insere nessa tradição profética e a leva ao seu ponto culminante. Ele afirma que nem um iota, nem um pequeno traço da Lei passará até que tudo se cumpra (Mt 5,18). O iota representa a menor letra do alfabeto grego, equivalente ao yod hebraico. O traço refere-se às pequenas marcas gráficas que distinguem letras semelhantes. A imagem revela a seriedade da revelação divina. Nada da vontade de Deus é insignificante.

Contudo, Jesus também mostra que a verdadeira fidelidade à Lei não se reduz à observância exterior. Nos versículos seguintes do Sermão da Montanha ele apresenta uma série de ensinamentos que aprofundam radicalmente o sentido dos mandamentos. Não basta evitar o homicídio; é necessário reconciliar-se com o irmão (Mt 5,21-24). Não basta evitar o adultério; é preciso purificar o olhar e a intenção (Mt 5,27-28). Não basta jurar em nome de Deus; a palavra do discípulo deve ser verdadeira por si mesma (Mt 5,33-37). Em outras palavras, Jesus desloca o centro da moralidade do exterior para o interior.

Essa transformação interior já havia sido anunciada pelos profetas. Jeremias fala de uma nova aliança na qual a Lei será escrita no coração das pessoas (Jr 31,31-33). Ezequiel anuncia que Deus dará um coração novo e colocará um espírito novo dentro do povo (Ez 36,26-27). A fidelidade à vontade divina não será mais apenas uma questão de normas externas, mas de uma vida interior renovada pela ação de Deus.

Os evangelhos sinóticos convergem nessa compreensão. Em Marcos 12,29-31, Jesus resume toda a Lei no mandamento do amor a Deus e ao próximo. Em Lucas 10,25-28, um doutor da Lei reconhece que esse é o caminho da vida eterna. A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37) revela que a verdadeira observância da Lei se manifesta na compaixão concreta que ultrapassa barreiras religiosas e culturais.

A reflexão da Igreja primitiva aprofundou essa compreensão. O apóstolo Paulo afirma que quem ama o próximo cumpriu a Lei (Rm 13,8-10). Em outra passagem ele escreve que toda a Lei se resume neste mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14). Para Paulo, Cristo é o fim da Lei no sentido de sua plenitude (Rm 10,4). A Lei não desaparece, mas encontra seu sentido último na vida nova inaugurada por Jesus.

Do ponto de vista antropológico e social, as leis possuem um papel essencial na organização da vida humana. Elas regulam relações, protegem direitos e oferecem parâmetros para a convivência. Entretanto, a história demonstra que sistemas legais podem ser manipulados para manter privilégios ou justificar injustiças. A Bíblia apresenta uma crítica permanente a essa distorção. A Lei de Deus não existe para proteger poderosos, mas para defender a vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

Por isso a legislação de Israel inclui normas claras em favor do estrangeiro, do órfão e da viúva (Dt 10,18-19). O livro do Levítico ordena que o estrangeiro seja tratado como cidadão, pois o próprio povo de Israel foi estrangeiro na terra do Egito (Lv 19,33-34). A memória da libertação torna-se fundamento da ética social.

Essa sensibilidade atravessa toda a Escritura. O Salmo 146 proclama que Deus faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos. O cântico de Maria anuncia que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes (Lc 1,52-53). Jesus proclama felizes os pobres, os mansos e os que têm fome de justiça (Mt 5,3-6). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, o critério decisivo será o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros e os prisioneiros.

O Concílio Vaticano II retomou essa dimensão ao afirmar que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo (Gaudium et Spes 1). Cristo revela plenamente o ser humano ao próprio ser humano e manifesta sua vocação mais profunda (GS 22). A fé cristã não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana.

Na América Latina, documentos pastorais como Medellín, Puebla e Aparecida aprofundaram essa visão. Eles recordam que a opção preferencial pelos pobres nasce da própria lógica do Evangelho e da prática de Jesus. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui consequências sociais e históricas.

Quando a religião se distancia desse horizonte, corre o risco de ser instrumentalizada por projetos de poder. Ao longo da história, discursos religiosos foram utilizados para justificar dominação política, exclusão social e violência. Jesus denunciou com vigor essas distorções. Ele criticou líderes religiosos que colocavam fardos pesados sobre o povo enquanto buscavam prestígio e reconhecimento (Mt 23,4-7). Também denunciou aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração está distante (Mt 15,8).

Em muitos contextos contemporâneos, a manipulação religiosa continua sendo um problema grave. Discursos que usam símbolos cristãos para legitimar projetos autoritários ou ideologias de exclusão contradizem profundamente o Evangelho. Jesus ensinou que quem quiser ser grande deve tornar-se servo (Mc 10,42-45) e afirmou que seu Reino não se constrói pela lógica do poder deste mundo (Jo 18,36).

Outro desafio recorrente é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em privilégio ou dominação. Jesus advertiu seus discípulos a não buscarem títulos de poder, pois todos são irmãos (Mt 23,8-11). A verdadeira liderança cristã reflete o serviço humilde daquele que lava os pés de seus discípulos (Jo 13,12-15).

A teologia da prosperidade também representa uma distorção da mensagem bíblica ao reduzir a fé a promessa de sucesso material. O Evangelho apresenta um caminho diferente. Jesus adverte contra a idolatria do dinheiro (Mt 6,24) e ensina que a vida não depende da abundância de bens (Lc 12,15). A comunidade cristã primitiva vivia a partilha de seus bens como expressão concreta da fraternidade (At 2,44-45).

A palavra de Mateus 5,17-19 continua profundamente atual diante das crises do mundo contemporâneo. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, violência estrutural e busca intensa por sentido. Muitas pessoas procuram na religião respostas para suas inquietações, torna a bíblia um livro moralista e  manual de  comportamento um livro de proibição. O Evangelho oferece uma visão integrada da vida humana, mostrando que a fidelidade a Deus se manifesta em escolhas concretas que promovem justiça, solidariedade e misericórdia.

A Quaresma, contexto litúrgico em que este evangelho é proclamado durante a semana, convida exatamente a essa conversão profunda. O profeta Joel chama o povo a rasgar o coração e não apenas as vestes (Jl 2,13). A verdadeira conversão não é um gesto superficial, mas uma transformação interior que se expressa em novas atitudes. Assim, quando Jesus afirma que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, ele revela que a vontade de Deus encontra sua plenitude no amor que gera vida. A Lei se torna verdadeira quando conduz à justiça, à misericórdia e à comunhão. A comunidade cristã é chamada a viver essa plenitude em meio às contradições da história. Cada gesto de compaixão, cada compromisso com a verdade, cada luta pela dignidade humana torna-se sinal do Reino de Deus que já começa a florescer no mundo. A Palavra de Deus permanece viva e eficaz (Hb 4,12), iluminando o caminho da humanidade. Quem acolhe essa Palavra descobre que os mandamentos não são barreiras que aprisionam, mas caminhos que conduzem à liberdade do amor que vem de Deus e transforma a história...



DNonato  - Teólogo do cotidiano 

terça-feira, 10 de março de 2026

Geopolítica de Boteco e Bombas Importadas

O Brasil acordou esses dias com aquela sensação estranha de quem entrou numa peça de teatro escrita por um roteirista bêbado de geopolítica. De um lado, as facções criminosas que nasceram nos subterrâneos sociais do país, paridas por presídios superlotados, alimentadas por desigualdade histórica e por um Estado que sempre foi muito eficiente para proteger patrimônio e muito incompetente para proteger gente. Do outro lado, o império de botas limpas, discursos civilizatórios e drones bem calibrados, olhando o mapa da América Latina como quem observa um tabuleiro de War. E no meio disso tudo, uma parte barulhenta da extrema direita brasileira vibrando como torcida organizada diante da possibilidade de que o xerife do planeta resolva “organizar” o quintal alheio. Existe um tipo curioso de patriotismo no Brasil. O patriota que bate continência para bandeira estrangeira. Ele grita “Brasil acima de tudo”, mas vive esperando autorização do norte para saber o que pensar, o que defender e até quem deve ser o inimigo da semana. É o nacionalismo de joelhos, uma devoção tropical ao império que se fantasia de soberania enquanto entrega o controle do debate público a interesses estrangeiros.
De repente, lá de Washington surge mais uma etiqueta geopolítica pronta para exportação. Terrorismo. Uma palavra pesada que funciona como chave mestra da política internacional. Quando essa palavra aparece, fronteiras ficam mais flexíveis, soberanias ficam mais negociáveis e mísseis passam a ser considerados ferramentas diplomáticas. O PCC e o Comando Vermelho entram nesse radar como se fossem fenômenos súbitos, quase meteorológicos, e não produtos históricos de décadas de abandono social, sistema prisional brutal e políticas públicas improvisadas. Curioso é ver homens engravatados em gabinetes a milhares de quilômetros discutindo o destino de bairros que nunca pisaram nem no Google Street View. Para eles, a periferia latino-americana é uma abstração cartográfica. Um espaço onde conceitos como “segurança hemisférica” e “estabilidade regional” podem ser aplicados com a frieza de um relatório estratégico. Traduzido para o português das favelas, esse vocabulário elegante costuma significar helicóptero sobrevoando telhados de zinco, sirene cortando madrugada e mais uma estatística no noticiário da manhã.
A verdade incômoda é que o Brasil produziu, ao longo de décadas, o ambiente perfeito para o surgimento dessas organizações: 
  •  O Comando Vermelho nasce nos anos 1970 na prisão da Ilha Grande, no encontro improvável entre presos comuns e presos políticos que compartilharam experiências de organização coletiva dentro de um sistema carcerário brutal.
  •  O PCC surge nos anos 1990, no rastro sangrento do massacre do Carandiru, quando o Estado mostrou de forma brutal como tratava seus próprios cidadãos encarcerados. 
Essas facções não brotaram do nada. Elas cresceram no terreno fértil da desigualdade urbana, da ausência de políticas públicas e de um modelo de segurança que prefere reagir com violência a prevenir com justiça. No fundo, o Brasil decidiu governar suas periferias com abandono administrativo e operações policiais espetaculares para a televisão.
O Estado brasileiro tem dificuldade histórica em entregar escola, saneamento e transporte digno. Mas helicóptero blindado ele aprende a comprar rapidinho. Para a favela quase sempre há orçamento para bala. Biblioteca costuma faltar.
E no meio dessa discussão toda existe um silêncio que diz muito. As milícias. Esse fenômeno tão brasileiro que parece mistura de coronelismo antigo com empreendedorismo criminal moderno. Grupos armados formados por policiais, ex-policiais e agentes de segurança que descobriram um modelo de negócios extremamente lucrativo. Controlam territórios inteiros cobrando taxa de gás, taxa de transporte, taxa de internet, taxa de segurança e taxa de silêncio. É o crime organizado que fez concurso público. Um feudalismo armado instalado dentro das cidades. Mas curiosamente, quando o assunto vira terrorismo internacional, esses grupos desaparecem do debate com a elegância de quem conhece muito bem os corredores do poder. Talvez porque miliciano não atravesse fronteiras com cocaína. Ele atravessa gabinetes. Ele financia campanha eleitoral, escolhe vereador, influencia deputado e negocia com quem estiver no governo. É o tipo de criminalidade que aprende rápido a usar gravata.
No fundo, a chamada guerra às drogas nunca foi uma guerra contra drogas. Foi uma guerra contra territórios pobres.
Existe também uma hipocrisia estrutural que raramente aparece nos discursos oficiais. Os países pobres produzem e transportam. Os países ricos consomem e lavam o dinheiro. Enquanto jovens negros morrem nas periferias latino-americanas e lotam presídios superlotados, bilhões de dólares do narcotráfico circulam tranquilamente por bancos internacionais, paraísos fiscais e investimentos imobiliários. A cocaína é combatida nas favelas com fuzil, mas é purificada no sistema financeiro com planilhas, advogados caros e reuniões discretas em arranha-céus climatizados. O combate global às drogas costuma ser muito rigoroso com os pobres e curiosamente indulgente com o sistema financeiro.
Enquanto isso, parte da extrema direita brasileira observa esse cenário com entusiasmo quase infantil. Porque se os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como terrorismo internacional, imediatamente surgirá o discurso de que finalmente alguém teve coragem de enfrentar o crime. E se o governo brasileiro levantar qualquer questionamento sobre soberania ou consequências dessa classificação, virá o velho refrão de que o país virou cúmplice de criminosos. É um truque político antigo. Reduzir problemas sociais complexos a slogans morais simples. Funciona bem em época eleitoral, rende curtidas nas redes sociais e exige pouquíssimo esforço intelectual.
O império, por sua vez, tem longa experiência nesse tipo de pedagogia geopolítica. A América Latina conhece bem esse roteiro. Primeiro vem o diagnóstico moral. Depois as sanções econômicas. Depois os conselhos militares. Depois os helicópteros. A democracia chega sempre escoltada por fuzileiros navais e contratos de reconstrução. Chile, Guatemala, Panamá, Nicarágua, República Dominicana, Haiti. Cada país guarda alguma cicatriz dessa tradição de intervenções que sempre chegam embaladas em discursos sobre liberdade e estabilidade.
No final das contas, o Brasil continua preso na mesma encruzilhada histórica. A violência nasce da desigualdade, cresce no abandono e depois é tratada como espetáculo militar. As facções viram inimigo absoluto. As milícias viram detalhe inconveniente. A extrema direita transforma medo em combustível eleitoral. E o império continua exercendo o privilégio histórico de decidir quem é terrorista e quem é aliado estratégico.
Enquanto isso, a periferia segue sendo bombardeada todos os dias. Não por drones estrangeiros, mas por pobreza, racismo estrutural, ausência de Estado e hipocrisia política. Esse tipo de bomba não aparece em relatórios internacionais. Não ameaça mercados, não atravessa fronteiras e não incomoda os donos do poder.
Ali, nas vielas e nos bairros esquecidos das grandes cidades, a vida continua acontecendo longe das teorias geopolíticas. Ali onde o Estado costuma chegar primeiro com fuzil e só muito depois, quando chega, com direitos.

DNonato - Só um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco

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