segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 8,11-13

A perícope de Marcos 8,11-13 situa-se num ponto decisivo da narrativa. Logo após a segunda multiplicação dos pães, quando a fome concreta é saciada pela partilha operada por Jesus, surgem fariseus pedindo um “sinal do céu”. A sequência não é casual. O pão repartido e a exigência de um prodígio formam um contraste que revela o drama espiritual de uma geração incapaz de discernir o agir de Deus na simplicidade do cotidiano. O texto afirma que eles discutem com Jesus e o põem à prova. O verbo empregado recorda a tentação no deserto: provar, testar, exigir demonstração. O conflito não se estabelece entre fé e ausência de sinais, mas entre o modo discreto do Reino e a expectativa de manifestações grandiosas que confirmem esquemas prévios de poder e interpretação religiosa.

Nos relatos do Evangelho segundo Marcos, do Evangelho segundo Mateus, do Evangelho segundo Lucas e do Evangelho segundo João, o pedido de sinais reaparece como um refrão inquietante. Não se trata de ausência de evidências. Cegos veem (cf. Mc 8,22-26), leprosos são purificados (Mc 1,40-45), paralíticos caminham (Mc 2,1-12), multidões são alimentadas (Mc 6,30-44; 8,1-10). Ainda assim, líderes religiosos e parte do povo exigem algo mais. Querem uma prova que se encaixe em suas expectativas messiânicas e legitime suas leituras teológicas e seus projetos políticos. A incredulidade bíblica raramente nasce da falta de fatos; nasce da resistência do coração.

Em Mateus e Lucas aparece a referência ao “sinal de Jonas” (Mt 12,39-41; Lc 11,29-32). Jonas desce às profundezas e retorna, tornando-se sinal de conversão para Nínive. A menção antecipa a Páscoa de Cristo: morte e ressurreição como sinal definitivo. A rainha do Sul, que percorreu longa distância para ouvir a sabedoria de Salomão, é evocada como contraste à indiferença de quem tem diante de si algo maior que Salomão e, ainda assim, permanece fechado. Em João, após o discurso do pão da vida (Jo 6), muitos se retiram porque a palavra exige adesão profunda. A pedagogia divina não anula a liberdade; oferece sinais que apontam além de si, mas não impõe fé.

A tradição bíblica ajuda a iluminar o episódio. Em Ex 17,1-7, o povo testa o Senhor em Massa e Meriba, perguntando se Deus está no meio deles. O Sl 78 recorda a sucessão de prodígios seguidos por murmurações. Jr 5,21 denuncia um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. Ez 36,26 promete a substituição do coração de pedra por um coração de carne. A Escritura insiste: o problema não é escassez de teofanias, mas endurecimento interior. A memória seletiva apaga o que não convém às expectativas imediatas.

A exigência de um sinal do céu dialoga com tradições veterotestamentárias nas quais o céu se abre para autenticar um enviado: o maná que desce (Ex 16), o fogo que consome o sacrifício de Elias (1Rs 18), o recuo da sombra no tempo de Ezequias (2Rs 20). Contudo, a mesma tradição registra que sinais não garantem fidelidade. Pouco depois do Sinai, ergue-se o bezerro de ouro (Ex 32). O povo que atravessou o mar reclama no deserto. A memória bíblica é pedagógica: o prodígio não substitui a conversão, Isaias 7, 7-14 oferece paralelo elucidativo. Acaz recebe a oferta de um sinal em meio à crise política, mas recusa sob pretexto de piedade. Já decidiu confiar em alianças militares. O problema não é falta de intervenção divina, mas cálculo estratégico. Em Marcos, a exigência de sinal também envolve cálculo. Reconhecer Jesus implicaria rever posições, perder controle sobre a interpretação da Lei e abrir mão de privilégios. A fé autêntica comporta risco e deslocamento.

A multiplicação dos pães, que precede o episódio, ecoa 2Rs 4,42-44, quando Eliseu alimenta muitos com poucos pães, e remete ao Êxodo. O gesto de tomar, bendizer, partir e distribuir atravessa todo o evangelho e culmina na última ceia. O verdadeiro “sinal do céu” manifesta-se no pão que circula entre mãos humanas e elimina a fome. Isaías 58,6-7 já associava o culto agradável a Deus à partilha com o faminto. A crítica profética desloca o foco do ritual para a justiça. Am 5,21-24 rejeita solenidades divorciadas da prática do direito. O extraordinário, quando separado da ética, torna-se vazio.

O contexto histórico do primeiro século torna o pedido de sinal ainda mais compreensível. A Palestina vivia sob domínio do Império Romano. A carga tributária, a presença militar e a humilhação política alimentavam o desejo de libertação. Muitos aguardavam um Messias que repetisse os prodígios de Moisés, fizesse descer pão do céu e derrotasse inimigos com poder visível. O templo de Jerusalém, administrado por elites sacerdotais, era centro religioso, econômico e político. Alianças entre religião e poder mantinham privilégios e controlavam a população. Pedir um sinal era, em parte, pedir legitimação pública: prova-nos que és o Messias segundo nossos moldes; confirma nosso projeto de restauração nacional e religiosa. O judaísmo do Segundo Templo conhecia literatura apocalíptica que anunciava sinais cósmicos (cf. Dn 7; Jl 3). Jesus, porém, proclama que o Reino já está próximo (Mc 1,15). O tempo não é de cálculo de fenômenos celestes, mas de discernimento histórico. A cruz será o sinal paradoxal. O centurião romano, representante do império, reconhece o Filho de Deus ao ver o Crucificado (Mc 15,39). Paulo sintetiza essa inversão em 1Cor 1,22-25: alguns pedem sinais, outros buscam sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado, escândalo e loucura que revelam a verdadeira sabedoria divina. O suspiro de Jesus diante da exigência revela uma dimensão afetiva profunda. O texto de Marcos afirma que Ele suspira profundamente em seu espírito (Mc 8,12). O lamento recorda Os 11,8-9, onde Deus expressa dor diante da infidelidade do povo. A antropologia bíblica compreende o coração como centro da decisão. “Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais o coração” (Sl 95,7-8). A resistência pode revestir-se de zelo religioso, mas permanece fechamento à ação transformadora de Deus.

A travessia para a outra margem encerra o episódio com força simbólica. Na tradição bíblica, as águas representam caos e passagem. O mar do Êxodo inaugura um povo; o Jordão marca nova etapa; o batismo de Jesus abre seu ministério. Permanecer exigindo provas é permanecer à margem. A confiança conduz ao outro lado, onde Deus se revela não por espetáculo, mas por fidelidade cotidiana.

A Escritura também adverte contra sinais enganadores. Dt 13 orienta a examinar o conteúdo da mensagem antes de aceitar o prodígio. Mc 13,22 alerta para falsos messias que realizarão grandes sinais para seduzir. 2Ts 2,9-10 fala de manifestações que iludem os que rejeitam a verdade. O extraordinário nunca é critério absoluto; a fidelidade à vontade de Deus é o discernimento decisivo. Essa tensão ecoa no presente. Em contextos marcados por desigualdade, violência e polarização, cresce a busca por garantias sobrenaturais que ofereçam sensação de controle. Do ponto de vista psicológico, experiências intensas podem gerar dependência emocional sem produzir transformação ética. Sociologicamente, onde instituições falham, proliferam propostas religiosas que prometem soluções imediatas. A fé corre o risco de ser reduzida a técnica de prosperidade ou mecanismo de ascensão social. O milagre torna-se produto; o testemunho, propaganda; o culto, espetáculo.

A tradição bíblica confronta tal distorção. Tiago afirma que a prova da fé produz perseverança (Tg 1,3) e que fé sem obras é morta (Tg 2,17). Jesus adverte que nem todo o que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino, mas aquele que pratica a vontade do Pai (Mt 7,21-23). A espiritualidade autêntica une experiência e ética, mística e justiça. Isaías e Amós denunciam jejuns e cânticos que não se traduzem em libertação dos oprimidos. O culto divorciado da vida torna-se caricatura do sagrado.

No mundo contemporâneo, marcado por discursos religiosos que se alinham a projetos de poder e por retóricas que instrumentalizam a fé para legitimar nacionalismos excludentes, o pedido de sinais pode ocultar outra intenção: buscar confirmação divina para agendas humanas. A história mostra como religião e poder podem se aliar para manter privilégios. O evangelho, porém, revela um Messias que rejeita o triunfalismo, recusa transformar pedras em pão para autopromoção e escolhe o caminho da cruz.

Jesus realiza sinais, mas não os transforma em propaganda. Frequentemente ordena silêncio (Mc 1,44; 5,43). Recusa lançar-se do pináculo do templo para impressionar (Mt 4,5-7). Sua autoridade manifesta-se na compaixão: toca leprosos, acolhe crianças, dialoga com marginalizados, denuncia hipocrisia. O poder divino aparece como serviço. A cruz torna-se critério hermenêutico. Ali, Deus se revela na fraqueza. A ressurreição não é espetáculo midiático, mas encontro transformador que gera comunidade reconciliada (At 2,42-47).

Se faz necessário  ter consciência  que o milagre é seta, não destino final. Quando a multidão busca Jesus após a multiplicação dos pães, Ele revela a motivação: procuram-no porque comeram e se fartaram (Jo 6,26). A fé baseada apenas na vantagem material é instável. A mesma multidão que aclama pode rejeitar. A adesão autêntica nasce do reconhecimento de quem Ele é, não apenas do que concede. A busca por sinais expressa o desejo humano de segurança diante da incerteza. Em sociedades feridas por desigualdade estrutural e frustrações coletivas, o milagre promete ruptura instantânea. Contudo, o evangelho aponta para transformação que envolve perseverança, conversão e compromisso com a justiça. O verdadeiro milagre é o coração de pedra que se torna coração de carne; é a comunidade que reparte bens; é a reconciliação que supera ódio; é a coragem profética que denuncia injustiças mesmo sem aplausos.

A geração que pediu sinais não percebeu que o maior sinal estava diante dela. O Reino manifestava-se na mesa partilhada, na dignidade restaurada, na inclusão dos excluídos. O pedido de espetáculo revelava incapacidade de reconhecer a presença de Deus na simplicidade. A geração atual enfrenta risco semelhante quando confunde intensidade emocional com autenticidade espiritual e sucesso visível com bênção divina.

O texto de Marcos termina com Jesus recusando conceder o sinal exigido e atravessando para outra margem. O gesto é pedagógico. Deus não se submete à manipulação. A fé não nasce de imposição, mas de encontro. O sinal definitivo já foi dado: o Crucificado ressuscitou. A questão não é se haverá prodígios suficientes para satisfazer curiosidades, mas se haverá corações dispostos a seguir o caminho do amor que transforma estruturas, confronta injustiças e constrói uma espiritualidade fiel, livre do espetáculo e enraizada na presença constante de Deus na história. Assim, a perícope de Marcos 8,11-13 permanece atual e provocativa. Ela denuncia a tentação permanente de reduzir Deus a garantidor de expectativas humanas e convida a discernir o agir divino na partilha, na justiça e na cruz. Entre o pão repartido e o pedido de um sinal do céu, o evangelho traça uma escolha. Permanecer na lógica do espetáculo ou atravessar para a outra margem da confiança. O Reino não se impõe com fogos no firmamento; cresce como semente na terra. E é nessa fidelidade silenciosa que o verdadeiro sinal se revela.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Tudo Proibido? A Bíblia Fala Muito Mais do Que Você Imagina!

Você sabia que algumas regras da Bíblia viraram “microfone seletivo”?
Enquanto se grita sobre Carnaval, sexualidade ou roupas, a injustiça econômica, a opressão e a omissão diante do sofrimento permanecem quase invisíveis. Quem julga, quem explora e quem silencia,  ninguém escuta, mas a Escritura denuncia tudo.

A Bíblia nos apresenta  um horizonte ético muito mais amplo do que a seleção temática que costumam  ganhar microfone nas Igreja e retiros de Carnaval. A Torá, especialmente em Levítico e Deuteronômio, organizou a vida de Israel como povo distinto conforme Levítico 20,24-26. Eram normas inseridas num mundo em que religião, economia, agricultura e identidade formavam um só tecido social. A tradição cristã reconheceu que essas prescrições possuíam dimensão pedagógica e simbólica, relidas à luz de Cristo. O problema não é a existência de textos difíceis. O problema é a régua seletiva. Alguns versículos recebem megafone; outros recebem esquecimento devocional em tempo de Carnaval  as proibições aparecem  com farol que até  cega o pobre em vez se iluminar 

  1. Oprimir o pobre e explorar o trabalhador:  Tiago 5,4 afirma que o salário retido clama. Amós 5,11-12 denuncia quem constrói casas luxuosas à custa do pobre. Provérbios 14,31 diz que oprimir o necessitado é insultar o Criador. Na prática contemporânea, o atraso salarial vira “reajuste de fluxo de caixa”. A terceirização abusiva vira “otimização”. A precarização vira “flexibilização”. Não há congresso contra exploração estrutural. Mas há seminário inteiro contra fantasia de Carnaval. O clamor do salário não tem assessoria de marketing.
  2. Fazer acepção de pessoas:  Tiago 2,1-9 descreve o rico recebendo o melhor lugar. Levítico 19,15 exige julgamento imparcial. Lucas 14,7-11 apresenta a lógica invertida do Reino.Hoje, o empresário ganha honra pública, foto oficial e cadeira reservada. O pobre ganha intercessão genérica. O tapete vermelho espiritual continua funcionando. Chamamos isso de “boa administração”. A Escritura chama de parcialidad
  3. Acumular riqueza:  ignorando o necessitad Lucas 12,15-21 mostra o rico que amplia celeiros enquanto ignora a própria alma. 1 João 3,17 pergunta como o amor de Deus permanece em quem fecha o coração.Na realidade atual, ostentação vira testemunho de fé. Luxo vira prova de favor divino. A desigualdade gritante vira “inveja dos ímpios”. O Novo Testamento fala de idolatria do dinheiro. O discurso moderno chama de mentalidade vencedora.
  4. Julgar com hipocrisia: Mateus 7,1-5 fala da trave. Romanos 2,1 lembra que quem julga pratica o mesmo. As redes sociais transformaram indignação em ministério digital. O teclado substituiu o confessionário. A trave é invisível. A lupa moral é telescópica.
  5. Usar palavras para ferir: Tiago 3,5-10 chama a língua de fogo. Efésios 4,29 proíbe palavra destrutiva. Hoje, agressão verbal é chamada de coragem profética. Humilhação pública é chamada de defesa da verdade. A mansidão virou fraqueza. O sarcasmo virou unção.
  6. Negligenciar o bem que se pode:  fazer Tiago 4,17 declara que omissão é pecado. Mateus 25,41-45 coloca fome e abandono como critério final. Na vida concreta, é mais simples condenar comportamento alheio do que organizar mutirão para garantir dignidade básica. Distribuir julgamento custa pouco. Distribuir pão custa compromisso.
  7. Confiar em religião externa:  Isaías 1,11-17 e Amós 5,21-24 mostram Deus rejeitando culto sem justiça. Ainda assim, eventos grandiosos coexistem com silêncio diante da desigualdade. O som está impecável. A consciência nem tanto. Deus pediu justiça correndo como rio. Entregaram iluminação cênica.
  8. Amar o sistema injusto:  1 João 2,15-17 e Romanos 12,2 falam de não se conformar. Entretanto, quando fé se alia a projetos que concentram poder e excluem vulneráveis, chama-se isso de estratégia. Se o sistema favorece o próprio grupo, já não é “mundo”, é providência.
  9. Comer animais proibidos:  Levítico 11 e Deuteronômio 14 proíbem porco, camelo, lebre, texugo, camarão, polvo, lula e qualquer criatura marinha sem escamas e barbatanas. A feijoada de sábado não provoca assembleia disciplinar. O rodízio de frutos do mar não exige arrependimento público. Ninguém posta alerta espiritual contra bacon. A pureza alimentar descansou em paz.
  10. Tecidos mistos:  Levítico 19,19 proíbe lã e linho juntos. Quase todo guarda-roupa moderno mistura fibras sintéticas. Não há conferência contra algodão com poliéster. A santidade do tecido não rende curtidas.
  11. Sementes diferentes no mesmo campo:  Levítico 19,19 também proíbe misturar sementes. A agricultura moderna vive de híbridos e enxertos. Não há denúncia contra consórcio agrícola. A palavra “mistura” só vira problema em debates seletivos.
  12. Arar com boi e jumento:  Deuteronômio 22,10 proíbe jugo desigual literal. Nenhuma comunidade debate se o trator moderno respeita a metáfora agrícola. Mas a imagem sobrevive quando convém aplicar a outras realidades. A literalidade some. A conveniência permanece.
  13. Cortar cabelo e barba: Levítico 19,27 e 21,5 proíbem certos cortes ligados a ritos pagãos. Não existe ministério de fiscalização capilar. Nenhum barbeiro foi acusado de rebelião espiritual por um degradê bem feito. A santidade estética foi discretamente aposentada.
  14. Construir casa sem parapeito: .Deuteronômio 22,8 exige proteção contra quedas. Em linguagem atual, fala de segurança estrutural, normas trabalhistas e responsabilidade coletiva. Porém, raramente se vê indignação religiosa contra quem economiza em proteção, ignora equipamentos de segurança ou precariza condições de trabalho. O parapeito bíblico continua aguardando defensores.

A Igreja primitiva já discerniu, em Atos 15, que prescrições cerimoniais não eram vinculantes para os gentios. Gálatas 3,23-25 e Colossenses 2,16-17 mostram que a Lei funciona como pedagogo, sombra de realidades futuras. Mateus 5,17-37, proclamado no 6º Domingo do Tempo Comum, revela que Cristo veio cumprir a Lei, mostrando que seu verdadeiro cumprimento não se limita à letra, mas transforma o coração, a mente e a ação. A hermenêutica cristã exige leitura integral, sensível à plenitude da revelação e à lógica cristológica, e não seleções convenientes que reforcem preconceitos.

Quando Levítico 18 ou 20 são isolados para sustentar condenações específicas, especialmente sobre sexualidade, ignorando a totalidade das Escrituras, não se trata de fidelidade textual, mas de hierarquização conveniente ou seja a instrumentalização da Palavra.  Critica-se afeto alheio com megafones, mas normaliza-se exploração econômica, abuso de poder e violência simbólica. Combate-se idolatria de imagem, mas tolera-se idolatria de poder e centralização clerical. A Bíblia é clara: pecado inclui não apenas adultério, mentira ou desejo desordenado, mas também opressão do pobre (Êxodo 22,21-24), exploração do estrangeiro (Levítico 19,33-34), injustiça social (Isaías 1,17) e silêncio cúmplice diante do sofrimento alheio (Amós 5,24).

O Sermão da Montanha na liturgia  do 6⁰ domingo do tempo  comum  deixa claro que cumprir a Lei não é apenas não matar, não adulterar ou não jurar falsamente, mas viver em coerência: reconciliação antes da oferenda, honestidade além da aparência, fidelidade que vai além do contrato social (Mateus 5,21-37). Os desvios internos das igrejas são denunciados pelas Escrituras. 

  • Clericalismo e centralização de poder transformam líderes em juízes de moral alheia enquanto ignoram estruturas de opressão. A Bíblia alerta: “Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Porque fecham aos outros o Reino dos Céus; vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que querem” (Mateus 23,13) e “Não ponham sobre vocês fardos pesados que ninguém pode suportar” (Lucas 11,46).
  • Moralismo seletivo amplifica os pecados privados e minimiza injustiças sistêmicas. Deus denuncia o culto vazio que ignora a opressão: “Pois que adianta o incenso perante mim?  diz o Senhor. O vosso sacrifício é detestável; o dia de jejum que escolhem, oprimir o trabalhador e explorar o pobre?” (Isaías 58,3-5) e “Ai dos que se levantam de manhã cedo para seguir a bebida forte e se ocupam com vinho até a noite, mas negam justiça aos pobres” (Amós 6,6-7).
  • Omissão e conivência tornam a fé confortável e domesticada, preferindo estabilidade institucional à profecia. Os profetas denunciam a indiferença: “Vocês cobrem de lençóis os olhos dos profetas e das suas visões, e os chefes da nação fecham seus ouvidos aos clamores do oprimido” (Amós 2,7-8) e “Ai de vocês que chamam ‘paz’ àquilo que não é paz” (Jeremias 6,14). Hipocrisia ritual se manifesta quando se cumpre a liturgia e se alimenta a aparência de santidade, mas se deixa de lado a defesa dos pobres, marginalizados e vulneráveis. Deus ordena: “Aprendam a fazer o bem; busquem a justiça, acabem com a opressão; defendam o direito do órfão, pleiteiem a causa da viúva” (Isaías 1,17) e “Maldito o que fecha o seu ouvido ao clamor do pobre” (Provérbios 21,13).

Se a indignação moral seguisse o peso das Escrituras, os megafones não seriam usados para policiar afetos, mas para denunciar desigualdade estrutural, corrupção endêmica, violência simbólica e abuso de poder. Condenar indivíduos é rápido e ruidoso; confrontar estruturas exige conversão,  uma conversão desconfortável, radical, que desafia privilégios, rotinas e o silêncio cúmplice.

A tradição profética insiste: “pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com Deus” (Miquéias 6,8). Até que a Igreja recupere essa perspectiva integral, continuará cúmplice de uma fé domesticada, onde a lei do coração é silenciada, o clamor do oprimido ignorado e os desvios internos, o clericalismo, o moralismo seletivo, a omissão e  a hipocrisia ritual permanecem escondidos sob discursos de santidade. Mateus 5 nos lembra que o chamado é para uma justiça que começa no íntimo, mas se desdobra em atos concretos de transformação social, confrontando tanto indivíduos quanto estruturas, inclusive dentro da própria comunidade eclesial.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano 

Um outro olhar sobre Mateus 5,17-37 - 6⁰ domingo do tempo comum

 ​
A liturgia da Palavra do 6º Domingo do Tempo Comum (Ano A)  e a  seguinte Eclesiástico  15,16-21;  Salmo 118(119),  com refrão . Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo;  I Coríntios  2,6-10  e o evangelho de Mateus  5,17-37 que  não se limita a um conjunto de prescrições éticas; ela se manifesta como uma profunda revelação existencial sobre a dignidade da escolha humana diante do mistério de Deus. Através de uma unidade orgânica entre o Antigo e o Novo Testamento, somos convidados a transitar da "letra que mata" para o "Espírito que dá vida" (2⁰ Coríntios 3,6),  compreendendo que a vontade divina não é um peso externo, mas o caminho para a nossa própria realização.

​Esta unidade articula-se em quatro pilares fundamentais:

  • A Responsabilidade da Escolha (Eclesiástico 15,16-21): O texto de Sirácida nos coloca diante do "fogo e da água", recordandando que a liberdade é o maior dom e o maior risco do ser humano. Deus não nos impõe a santidade; Ele a propõe como fruto de uma adesão livre e amorosa.
  • A Beatitude da Obediência (Salmo 119): O salmista canta a Lei não como obrigação, mas como "luz para os passos", transformando o cumprimento dos mandamentos em uma experiência de felicidade e retidão.
  • A Sabedoria Escondida (1Coríntios 2,6-10): Paulo nos adverte que a verdadeira lógica do Reino escapa aos poderosos deste mundo. Trata-se de uma sabedoria revelada pelo Espírito, que nos permite enxergar o que "olho nenhum viu" na profundidade do plano de Deus.
  • A Radicalidade do Amor (Mateus 5,17-37): No Sermão da Montanha, Jesus não revoga a Lei, mas a leva à sua plenitude. Ele ultrapassa o legalismo exterior para atingir a raiz das intenções humanas — o coração , onde se decide a verdadeira justiça que  já refletimos a um tempo atrás  dividido em 4 partes comforme sugere a bíblia de tradução Pastoral : 
  1. A lei e a justiça:  17-20
  2. Ofensa e reconciliação: 21-26
  3. Adultério e fidelidade: 27-32
  4. Juramento e verdade: 33-37

​Dessa forma, a Palavra deste domingo interpela o cristão a superar a moralidade do "mínimo necessário" para abraçar a mística do "máximo amor". Como recorda o apelo de Deuteronômio 30,19, o convite permanece atual: "escolhe, pois, a vida". A liberdade humana, portanto, não é rival da graça, mas o solo fértil onde o agir de Deus se manifesta e recria a história.

O horizonte histórico do Sermão da Montanha exige leitura situada. Após o ano 70 d.C., com a destruição de Jerusalém e do Templo pelas forças romanas, conforme narrado por Flávio Josefo, o judaísmo entrou em processo de reorganização. A centralidade do Templo cedeu lugar à sinagoga e à Torá como eixo identitário. O movimento farisaico assumiu protagonismo na preservação da tradição. A comunidade mateana emerge nesse cenário de redefinição religiosa e social. A pergunta latente era: 

  • Como permanecer fiel à revelação recebida e, ao mesmo tempo, confessar Jesus como Messias? 

A afirmação de que Cristo não veio abolir, mas levar à plenitude, responde a essa tensão. O cumprimento das Escrituras, reiterado em Mateus 1,22 e 2,15, não significa ruptura com Israel, mas releitura à luz do mistério pascal. Lucas 24,27 confirma que toda a Escritura converge para Cristo.

A exigência de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus não constitui caricatura histórica, mas advertência contra a redução da fé a observância exterior. O farisaísmo, enquanto movimento religioso do século I, contribuiu para a preservação da identidade judaica. Contudo, Jesus denuncia a tentação permanente de transformar a Lei em instrumento de distinção social. Isaías 1,16-17 já proclamava que lavar as mãos não substitui defender o órfão e a viúva. Miquéias 6,8 sintetiza a vontade divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. A justiça superior não é quantidade de preceitos, mas qualidade de relação. Jeremias 31,33 anuncia uma Lei escrita no coração; Hebreus 10,16 retoma essa promessa como realidade da nova Aliança.

As antíteses revelam movimento de interiorização radical. O homicídio é precedido pela ira cultivada, como se observa na narrativa de Caim em Gênesis 4. O desprezo verbal já constitui ruptura da fraternidade. 1João 3,15 equipara o ódio ao homicídio. A reconciliação antes da oferta no altar recoloca o culto sob o primado da comunhão. A tradição profética, especialmente Amós 5,24, exige que o direito corra como água. O Novo Testamento reforça essa unidade: 1Coríntios 11 denuncia a incoerência de celebrar a Ceia ignorando os pobres. A liturgia não pode ser máscara para injustiça estrutural. A fé que não transforma relações torna-se formalismo vazio.

A reflexão sobre o adultério aprofunda a dimensão antropológica do coração. Jó 31,1 declara aliança com os próprios olhos. Provérbios 4,23 recomenda guardar o coração como fonte da vida. Jesus não se limita ao ato exterior; revela que o desejo desordenado já compromete a dignidade do outro. Marcos 7,21-23 confirma que o mal brota do interior humano. Em sociedades marcadas pela cultura do consumo e pela erotização comercializada, a palavra do Evangelho preserva a integridade da pessoa. A referência a Gênesis 2,24 no debate sobre o divórcio reconduz a relação conjugal ao projeto criacional. Malaquias 2,16 associa o repúdio à violência. A fidelidade torna-se sinal da aliança irrevogável de Deus.

A disciplina das imagens hiperbólicas, como arrancar o olho ou cortar a mão, aponta para decisão firme contra o pecado. Não se trata de mutilação literal, mas de ruptura com aquilo que conduz à morte espiritual. Sirácida 15 insiste na responsabilidade humana diante da escolha. Romanos 6,12-13 convoca a oferecer os membros a Deus como instrumentos de justiça. A cooperação humana com a graça não contradiz a primazia divina, mas manifesta maturidade espiritual. A cruz, centro da sabedoria proclamada em 1Coríntios 2, revela que a verdadeira grandeza passa pela entrega.

A questão dos juramentos introduz reflexão sobre a verdade. Êxodo 20,7 proíbe usar o nome de Deus em vão. Eclesiastes 5 alerta contra promessas precipitadas. Jesus simplifica: sim ou não. João 8,32 afirma que a verdade liberta. Num contexto contemporâneo de manipulação informacional, a ética da palavra torna-se testemunho profético. O discípulo não necessita adornar o discurso com fórmulas sagradas; sua coerência deve falar por si. Tiago 5,12 reafirma essa exigência de integridade.

O diálogo com a cultura popular, especialmente no período do Carnaval, ilumina o discernimento necessário entre celebração e alienação. A Escritura não desconhece a alegria festiva. Êxodo 15 celebra a libertação com canto e dança. 2Samuel 6 apresenta Davi dançando diante da Arca. Eclesiastes 3 reconhece tempo de rir e tempo de dançar. Contudo, a festa pode degenerar em idolatria, como em Êxodo 32. O critério não é a existência da festa, mas sua orientação. Quando a celebração se torna fuga da responsabilidade social, ela perde sua dimensão libertadora. Amós 6 denuncia a indiferença festiva diante da injustiça. A cultura do espetáculo, amplificada por mídias e interesses econômicos, pode anestesiar consciências. A ética do Reino não condena a alegria, mas convoca à vigilância interior.

A crítica às distorções religiosas permanece atual. O uso rigorista do direito canônico, do Catecismo ou de textos bíblicos para legitimar exclusões revela tendência de instrumentalizar a fé. O direito na Igreja tem finalidade pastoral, orientada à salvação, não ao controle ideológico. O Catecismo sintetiza a fé à luz da Tradição viva. Quando normas se tornam armas, repete-se o gesto denunciado em Mateus 23,4. Santo Agostinho ensinava que toda interpretação deve conduzir ao amor. São João Crisóstomo advertia que a letra sem caridade fere mais que cura. A crítica ao clericalismo, retomada no magistério contemporâneo, recorda que a autoridade cristã é serviço. Lumen Gentium afirma a participação de todo o povo de Deus no múnus profético de Cristo.

A dimensão escatológica atravessa o conjunto das leituras. Isaías 65 anuncia novos céus e nova terra; Apocalipse 21 descreve a consumação. Romanos 8 fala da criação que geme em expectativa. A ética do Sermão antecipa essa realidade futura. Construir sobre a rocha, como em Mateus 7,24-27, significa enraizar a existência na prática da Palavra. O Salmo 18 proclama Deus como rocha firme. Ideologias efêmeras e moralismos seletivos são areia instável. A esperança cristã não aliena da história; sustenta compromisso transformador.

Conforme nos ensina o Eclesiástico (15,16-21), o princípio revela a liberdade humana não como um peso, mas como um dom responsável. Diante do fogo e da água, da vida e da morte, o ser humano é convidado a exercer sua dignidade soberana. Deus não impõe a virtude; Ele a propõe como o caminho para a plena realização da imagem divina em nós. É a "liberdade para o bem" que encontra seu eco no Salmo 119, onde a Lei não é fardo, mas "delícia" e luz para os passos. O desenvolvimento dessa caminhada expõe a radicalidade do amor que integra Lei e Espírito. Em 1Coríntios (2,6-10), Paulo nos recorda que essa justiça não provém dos "sábios deste mundo", mas de uma sabedoria misteriosa e oculta, revelada pelo Espírito. Essa sabedoria ganha corpo no Sermão da Montanha (Mateus 5,17-37). Aqui, Jesus não revoga a Lei, mas a plenifica ao deslocar o foco do ato exterior para a intenção do coração. A montanha permanece como o espaço simbólico da decisão:

  • A reconciliação precede o culto;
  • A verdade dispensa o juramento;
  • A pureza ressignifica o olhar.

O fim projeta a esperança da plenitude em que Deus será "tudo em todos" (1Cor 15,28). Entre as crises institucionais que buscam segurança no legalismo, as festas culturais que por vezes esvaziam o sagrado e as tensões ideológicas que fragmentam a comunhão, a Palavra convoca a uma conversão interior e a uma reconciliação concreta. A plenitude da Lei não se encontra no formalismo rígido, que petrifica o coração, nem na permissividade vaga, que dissolve a identidade cristã. Ela reside na caridade — a força que dá "forma nova" à existência. Ao vivermos os mandamentos sob a ótica das bem-aventuranças, testemunhamos hoje o Reino que se realizará na história consumada em Cristo. É a ética do "sim, sim; não, não", vivida na humildade do serviço e na audácia da esperança.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 8,1-10

 A  narrativa de Marcos 8,1-10, proclamada na liturgia do Sábado da 5ª Semana do Tempo Comum, não deve ser lida como um fragmento isolado da memória cristã, mas como o ápice de um movimento pedagógico que o Tempo Comum propõe à Igreja: aprender a discernir os sinais do Reino no tecido ordinário da existência. Ao situar este texto fora dos ciclos extraordinários do Natal ou da Páscoa, a liturgia sublinha que a manifestação do divino não depende de cenários solenes, mas brota da urgência das fomes humanas.

Diferente da primeira multiplicação (Mc 6), que ocorre em solo judaico, este relato situa Jesus em território majoritariamente pagão (a Decápole). Isso amplia radicalmente o horizonte da missão: o Reino não é um banquete exclusivo, mas uma mesa estendida a todas as gentes. O "chão duro" mencionado não é apenas físico, mas simbólico — é o chão do estrangeiro, do excluído, daquele que a tradição muitas vezes julgou indigno do "pão dos filhos".

O texto insere-se na seção de Marcos (6,30–8,26) marcada por um contraste agudo:

  • A Cristofania do Cuidado: Jesus, movido por uma compaixão visceral (esplanchnizomai), antecipa a necessidade da multidão. Nele, a divindade se manifesta como responsabilidade pelo outro.
  • A Cegueira dos Discípulos: Paradoxalmente, aqueles que caminham com o Mestre sofrem de uma "lentidão espiritual". Mesmo após terem visto cestos sobrarem anteriormente, eles repetem a pergunta da escassez: "Como poderá alguém saciá-los de pão aqui no deserto?"

​"A pedagogia de Jesus em Marcos é o confronto direto entre a lógica da acumulação (o medo da falta) e a lógica da partilha (a confiança na providência)."
Jesus está em região gentílica, provavelmente na Decápole (cf. Mc 7,31), território marcado por diversidade cultural e influência helenista. Não é Jerusalém, não é o centro religioso. É fronteira. A geografia é teologia. O Reino se manifesta nas margens. A multidão permanece três dias com Ele e não tem o que comer (Mc 8,2). O número três, recorrente na Escritura (cf. Os 6,2; Jn 1,17; Mc 8,31), evoca tempo de prova e prenúncio de vida nova. A permanência indica perseverança, mas também revela precariedade. O deserto, cenário da narrativa, remete ao lugar onde Israel foi provado e educado (Dt 8,2-3). No deserto se aprende dependência; no deserto se revela o coração.

A Galileia do século I vivia sob o peso do Império Romano. O sistema tributário incluía impostos sobre terras (tributum soli), sobre pessoas (tributum capitis) e taxas indiretas. Herodes Antipas administrava a região com forte pressão fiscal. A concentração fundiária aumentava, pequenos proprietários tornavam-se arrendatários ou trabalhadores sem terra. A arqueologia e a ciência histórica confirmam esse empobrecimento progressivo. A fome era estrutural. Quando Jesus declara: “Tenho compaixão desta multidão” (Mc 8,2), o verbo grego splagchnízomai indica comoção visceral, movimento das entranhas. Não é sentimento superficial; é envolvimento radical. Cumpre-se a revelação de Êxodo 3,7: Deus vê, ouve e desce para libertar. A compaixão em Marcos não é emoção isolada; é ação transformadora.

Os discípulos perguntam: “Onde alguém poderia saciá-los de pão aqui no deserto?” (Mc 8,4). A pergunta ecoa a murmuração de Israel diante da ausência de maná (Ex 16,2-3; Nm 11,4-6). Mesmo tendo testemunhado a multiplicação anterior (Mc 6,30-44), revelam dificuldade em integrar a experiência. Marcos desenvolverá essa incompreensão em Mc 8,17-21, questionando a dureza de coração. Psicologicamente, o medo da escassez obscurece a memória da graça. Sociologicamente, sociedades marcadas por crises constantes desenvolvem mentalidade de sobrevivência. Filosoficamente, o deserto representa o limite da autossuficiência humana. Jesus desloca o foco da impossibilidade para a responsabilidade: “Quantos pães tendes?” (Mc 8,5). O Reino começa com o reconhecimento do pouco disponível.

O gesto de tomar, dar graças, partir e entregar (Mc 8,6) constitui núcleo sacramental que atravessa os Evangelhos. Marcos antecipa a última ceia (Mc 14,22); Lucas retoma o gesto (Lc 22,19; 24,30); João o interpreta cristologicamente em Jo 6,35 ao apresentar Jesus como “o Pão da Vida”. A Eucaristia não pode ser desvinculada da justiça. Paulo denuncia a incoerência de celebrar enquanto irmãos passam fome (1Cor 11,21-29). A mesa do Senhor exige mesa compartilhada na história. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium (n. 11), recorda que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã; mas se é fonte, deve irrigar a prática concreta.

Os sete pães e os sete cestos recolhidos (Mc 8,5.8) evocam plenitude e universalidade (Gn 2,2-3). Diferentemente dos doze cestos da primeira multiplicação, aqui a simbologia aponta para abrangência além das doze tribos. Mateus 15,32-39 confirma essa dimensão inclusiva. Alguns exegetas associam o número sete às nações mencionadas em Deuteronômio 7,1, sugerindo que o sinal ultrapassa Israel. O banquete no deserto antecipa Isaías 25,6, onde Deus prepara mesa para todos os povos. A universalidade do pão confronta exclusivismos religiosos e nacionalismos contemporâneos.

O texto integra corpo e espírito. “Nem só de pão vive o ser humano” (Dt 8,3; Mt 4,4), mas a ausência de pão fere a dignidade. Tiago 2,15-16 afirma que palavras piedosas sem ação concreta são vazias. A antropologia reconhece que a refeição compartilhada funda pertencimento; a sociologia demonstra que sociedades mais igualitárias apresentam maior coesão social. A partilha gera capital social; a acumulação gera fragmentação. O medo sustenta a retenção; a confiança sustenta a comunhão.

No Império Romano, o pão podia ser instrumento político — “pão e circo” como mecanismo de apaziguamento. A distribuição controlada mantinha dependência. Jesus subverte essa lógica: o alimento não é favor do poderoso, mas fruto de partilha comunitária. A Doutrina Social da Igreja reafirma a destinação universal dos bens (Gaudium et Spes, 69; Populorum Progressio, 22). O que é partilhado torna-se suficiente. A multiplicação não legitima enriquecimento individual; denuncia desigualdade estrutural.

Se faz necessário  saber que o milagre não associa fé a acúmulo. Jesus não multiplica para formar elite próspera, mas para saciar todos. “Guardai-vos de toda avareza” (Lc 12,15). A tentação de transformar fé em técnica de sucesso ecoa a proposta do tentador: “Se és Filho de Deus…” (Mt 4,3). A fé não é mercadoria; o templo não é mercado (Mc 11,15-17). A teologia do domínio, que instrumentaliza o nome de Deus para projetos de poder, encontra limite no Cristo que afirma: “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O Reino não cresce por imposição, mas por serviço.

Jesus entrega o pão aos discípulos para que distribuam (Mc 8,6). Ele não monopoliza o gesto, como alguns ministros religioso reclamam pra si a sua condição de consgrado para função de status. Lumen Gentium (n. 9-12) recorda que todo o Povo de Deus participa da missão. Estruturas eclesiais que concentram poder e se distanciam da realidade concreta contradizem o dinamismo do Evangelho. Evangelii Gaudium (n. 198) insiste que a opção pelos pobres é categoria teológica. A Igreja que não escuta o clamor dos famintos perde credibilidade.

Em um mundo capaz de produzir alimento suficiente, milhões permanecem em insegurança alimentar. Amós 5,11 denuncia sistemas que esmagam o pobre e exigem tributo de trigo. Hoje, desigualdades globais revelam contradições semelhantes. A escassez é frequentemente fabricada por concentração de renda e especulação. A multiplicação dos pães denuncia essa lógica e propõe economia da partilha.

Os estudos sobre comportamento em contextos de escassez mostram que o medo reduz capacidade de cooperação. Jesus rompe essa espiral ao gerar confiança. Filosoficamente, o texto questiona o individualismo que absolutiza o sujeito isolado. A saciedade nasce da comunhão. A antropologia cultural confirma que comunidades tradicionais sobrevivem pela reciprocidade. O Evangelho converge com essa sabedoria ancestral.

Na realidade  o banquete no deserto antecipa o banquete definitivo (Ap 19,9). Antes da confissão de Pedro (Mc 8,27-30) e do anúncio da cruz (Mc 8,31), Marcos apresenta um Messias que alimenta e serve. Reconhecer Jesus como Cristo implica aceitar sua lógica de entrega. O pão repartido prepara o caminho da cruz, onde a vida é oferecida “por muitos” (Mc 10,45).

A perícope  encerra-se com o envio silencioso (Mc 8,10). Jesus parte, mas deixa comunidade transformada. O milagre não cria dependência; desperta responsabilidade. A pergunta “Quantos pães tendes?” continua a ecoar nas periferias urbanas, nos campos de refugiados, nas comunidades rurais esquecidas. Jovens sem horizonte, trabalhadores precarizados, idosos invisibilizados experimentam o risco de desfalecer pelo caminho e a  Boa Nova manifesta-se quando compaixão se torna prática concreta. Isaías 35,1 anuncia que o deserto floresce; Marcos mostra o início desse florescimento. A fé autêntica reconhece-se pelo pão repartido e pela dignidade restaurada. Celebrar a Eucaristia implica comprometer-se com o pão cotidiano. A multiplicação dos pães permanece critério permanente para discernir autenticidade da fé.

​Entre o deserto e a abundância, entre a carência e a comunhão, a Palavra proclamada neste 5⁰ sábado do Tempo Comum permanece viva e inquieta. O deserto deixa de ser um lugar de morte para se tornar o palco de uma nova economia: a teologia do "ter compaixão". Ela denuncia a indiferença que normaliza a fome e confronta sistemas excludentes que transformam o pão em mercadoria e a vida em estatística. A Palavra nos lembra que o deserto não é apenas geográfico, mas o vácuo de solidariedade criado por corações que acumulam enquanto multidões desfalecem pelo caminho. O Reino começa quando mãos se abrem e o "pouco" é entregue sem reservas. O milagre não é um espetáculo de mágica, mas a resistência de comunidades que escolhem partilhar o que têm, acreditando que, na lógica de Deus, o que se divide, multiplica.

  • Abertura: O pão que sacia o corpo não é um fim em si mesmo; ele é o sinal de que o espírito se iluminou para a fraternidade.
  • Encarnação: Revela que Deus não é um observador indiferente à história; Ele sente as entranhas se comoverem diante da necessidade humana.
  • Envio: Ele atravessa a nossa realidade, transforma a nossa escassez em banquete e nos envia como "distribuidores" dessa esperança.
Portanto, a partilha não é um gesto isolado de caridade, mas uma convocação à conversão estrutural. O milagre continua vivo sempre que uma comunidade se recusa a despedir o outro de mãos vazias. O pão partido é o sacramento da presença de um Deus que se faz alimento para que ninguém pereça no caminho. A mesa está posta no meio do deserto; cabe a nós o gesto corajoso de fazer sentar o povo e distribuir a vida.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Alegria que Liberta ou Anestesia? Uma Leitura Bíblica do Carnaval

  • Entre Dioniso e Davi: A Ambivalência Sagrada da Alegria

O Carnaval atravessa séculos como expressão intensa da experiência humana e não pode ser compreendido de forma superficial ou reduzido a juízos morais simplistas. Muito antes de assumir a configuração brasileira contemporânea, as festas populares já ocupavam lugar central nas civilizações antigas, é  uma festa fruto de longos processos históricos e culturais. Ele não nasceu pronto, nem surgiu isolado. É resultado de ritos agrícolas, festas de inversão social, celebrações religiosas e transformações políticas que atravessaram civilizações antigas. Antes de ser festa popular, foi ritual, teatro sagrado, desordem controlada e, muitas vezes, instrumento de crítica social.

  • Antigo Egito

No Egito antigo não havia “carnaval” no sentido moderno, mas existiam grandes festivais religiosos marcados por música, dança, bebida e suspensão temporária das normas cotidianas. Um exemplo era a Festa de Opet, realizada em Tebas, ligada ao culto de Amon.

Essas celebrações estavam profundamente conectadas ao ciclo do Nilo, à fertilidade e à renovação da vida. Antropologicamente, eram ritos de reafirmação da ordem cósmica: o caos era simbolicamente encenado para que a ordem fosse restaurada. Diferente do carnaval moderno, essas festas não eram apenas “liberação”, mas estavam inseridas numa cosmovisão religiosa rígida. O sagrado e o festivo caminhavam juntos. A alegria era litúrgica.

  •  Grécia Antiga

Na Grécia, as festas em honra a Dioniso (deus do vinho, do êxtase e da fertilidade) são fundamentais para compreender as raízes do carnaval.

Durante as Dionisíacas:

  • Havia máscaras: O uso da máscara tinha sentido profundo: revelava verdades ocultas sob a aparência social. Psicologicamente, funcionava como espaço de catarse coletiva. Sociologicamente, era válvula de escape das tensões da pólis.
  • O povo tomava as ruas.
  • O teatro nascia como expressão ritual.
  • As hierarquias eram temporariamente relativizadas.

O espírito dionisíaco celebrava a vida, mas também confrontava o excesso. A embriaguez tinha dimensão simbólica: romper limites para reencontrar identidade.

  • Roma Antiga

Em Roma, a Saturnália, dedicada ao deus Saturno, talvez seja a influência mais direta do que depois se tornaria o carnaval europeu.

Características marcantes:

  • Inversão de papéis: escravos podiam sentar-se à mesa com seus senhores.
  • Troca de presentes.
  • Liberdade temporária de costumes.
  • Uso de gorros simbólicos de liberdade.

Era um tempo de suspensão da rigidez social. Contudo, essa inversão tinha prazo determinado. Terminada a festa, a estrutura voltava intacta. A desordem era controlada pelo próprio sistema. Há aqui uma crítica sociológica importante: muitas festas de inversão não transformam a injustiça — apenas a aliviam temporariamente.

  • Babilônia

Na Babilônia, o festival do Akitu (Ano Novo) celebrava a renovação do poder real e a vitória da ordem sobre o caos.

Durante o ritual:

  • O rei era simbolicamente humilhado.
  • Havia dramatizações mitológicas.
  • O ciclo da vida e da fertilidade era celebrado.

Esse elemento da humilhação simbólica do rei ecoa, de certa forma, no personagem posterior do “rei da festa”, que encarna o exagero e o riso.

  • A origem do Rei Momo

O Rei Momo tem origem na figura de Momo, personagem da mitologia grega, filho da Noite (Nix), símbolo da ironia e da crítica. Ele representava a zombaria, a sátira aos deuses e às fraquezas humanas.

Com o passar dos séculos, especialmente na Europa medieval, consolidou-se a tradição de eleger um “rei da folia” que governaria simbolicamente durante os dias de festa.

No Brasil, o Rei Momo tornou-se personagem central do carnaval, abrindo oficialmente as celebrações. Ele representa:

  • Excesso
  • Alegria
  • Ironia social
  • Suspensão temporária da ordem

Mas é curioso: o “rei” do carnaval reina apenas por alguns dias. Depois, entrega a chave da cidade. Isso revela algo profundo: o poder da festa é simbólico, não estrutural.

O carnaval nasce do encontro entre:

  • Ritos agrícolas de fertilidade.
  • Festas de inversão social.
  • Cultos pagãos antigos.
  • Influência cristã medieval (especialmente o período que antecede a Quaresma).

Quando o cristianismo se expandiu pelo Império Romano, encontrou sociedades marcadas por festividades públicas. Em vez de simplesmente extingui-las, reinterpretou muitas práticas à luz do mistério pascal. Assim termo “carnaval” está ligado ao latim carne vale, “adeus à carne”  indicando o período anterior à Quaresma cristã e  tornou-se pedagogia espiritual de transição entre abundância e penitência. A tradição litúrgica cristã reconhece que a vida espiritual não se constrói por negação permanente, mas por ritmo. Que fique claro,  historicamente, o cristianismo não criou o carnaval, mas o reconfigurou dentro do calendário litúrgico. O que antes era rito cósmico tornou-se período preparatório para a penitência. Há, portanto, uma tensão permanente: celebração da vida e crítica do excesso; liberdade e responsabilidade; festa e estrutura social.

O carnaval é, ao mesmo tempo:

  • Memória das antigas civilizações.
  • Espelho das contradições humanas.
  • Espaço de crítica e de fuga.
  • Ritual de identidade coletiva.

Ele revela algo essencial sobre o ser humano: precisamos de momentos de ruptura para continuar vivendo a ordem. A questão que permanece é se essa ruptura gera transformação ou apenas anestesia social.

Na tradição bíblica, a experiência festiva também ocupa lugar central. Em Êxodo 12, a Páscoa nasce como memorial da libertação da escravidão, rito que transforma memória em identidade. A celebração não é fuga da história, mas recordação política de um Deus que intervém contra o império opressor. Em Levítico 23, as festas estruturam o calendário sagrado e organizam a vida social de Israel. Em Deuteronômio 16, o Pentecostes associa colheita, gratidão e justiça, pois ninguém deveria celebrar sozinho enquanto o pobre permanecesse excluído. A festa bíblica está vinculada à memória da libertação e à responsabilidade social. Em 2 Samuel 6,14, Davi dança diante da Arca, gesto que provoca escândalo em Micol, símbolo de uma religiosidade aristocrática e contida. O texto revela tensão entre espiritualidade formal e expressão corporal espontânea. O corpo que dança não é condenado por Deus; ao contrário, torna-se sinal de alegria diante da presença divina. O Salmo 150 convoca instrumentos, canto e dança, e Eclesiastes 3,4 reconhece que há tempo de chorar e tempo de rir, tempo de gemer e tempo de dançar. A Escritura não sustenta uma espiritualidade desencarnada.

No Novo Testamento, a encarnação aprofunda essa perspectiva. João 1,14 afirma que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A teologia da encarnação indica que Deus assume a cultura concreta, com suas linguagens e símbolos. Em Filipenses 2,6-8, o hino cristológico descreve o esvaziamento do Cristo que entra na condição humana. Deus não salva a humanidade à distância, mas dentro da história. Em João 2,1-11, nas bodas de Caná, Jesus transforma água em vinho e preserva a alegria de uma festa de casamento. O sinal aponta para a abundância messiânica e revela que a alegria humana pode tornar-se espaço de manifestação da graça. Ao mesmo tempo, Marcos 7,21 recorda que o mal procede do interior do coração. A questão moral não está na festa em si, mas na intenção e na estrutura que orientam as ações humanas.

Na Europa medieval, as festas pré-quaresmais assumiram feições urbanas específicas. Máscaras, sátiras e desfiles permitiam crítica social e inversão simbólica de papéis. O riso funcionava como linguagem política. Em sociedades rigidamente hierarquizadas, a praça pública tornava-se espaço temporário de contestação. Não se tratava apenas de desordem, mas de mecanismo cultural de reorganização simbólica. A história revela que tais manifestações funcionavam como válvula social e também como forma de denúncia.

No Brasil, o Carnaval resultou do encontro de matrizes europeias, africanas e indígenas. Povos africanos escravizados trouxeram ritmos, danças e cosmologias em que corpo e espiritualidade são inseparáveis. Povos indígenas já estruturavam sua vida comunitária em torno de celebrações ligadas aos ciclos naturais. No contexto pós-abolição, comunidades negras marginalizadas encontraram na festa espaço de afirmação identitária. O samba, inicialmente criminalizado, tornou-se símbolo nacional. As escolas de samba transformaram-se em narradoras da história popular, denunciando racismo, autoritarismo e desigualdade. A festa brasileira carrega marcas de sofrimento histórico, mas também de resistência criativa.

A sociologia oferece instrumentos para compreender essa complexidade. 

  • Émile Durkheim descreveu a efervescência coletiva como experiência em que indivíduos se percebem parte de algo maior, reforçando solidariedade social. 
  • Victor Turner desenvolveu o conceito de liminaridade, período em que estruturas rígidas são temporariamente suspensas e surge a communitas, experiência intensa de pertencimento. 
O Carnaval pode ser interpretado como momento liminar em que identidades são reelaboradas e tensões sociais encontram expressão simbólica. Psicologicamente, celebrações coletivas reduzem estresse, fortalecem vínculos e reafirmam dignidade, sobretudo em contextos de exclusão.

Entretanto, toda manifestação humana carrega ambivalências. Há abuso de álcool, violência e exploração. Essas distorções não podem ser negadas. Contudo, é necessário discernir causas estruturais. Problemas como desigualdade social, ausência de políticas públicas eficazes e mercantilização permanente do corpo e da cultura atravessam o ano inteiro. A crítica profética de Isaías 58 desloca o foco do ritual externo para a justiça concreta, afirmando que o verdadeiro jejum consiste em libertar o oprimido e repartir o pão. Condenar a festa enquanto se toleram sistemas que produzem miséria revela incoerência ética. Jesus denuncia em Mateus 23 a hipocrisia religiosa que impõe fardos e negligencia o essencial da lei, a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Paulo, em Romanos 14, orienta a comunidade a evitar julgamentos precipitados sobre práticas culturais, lembrando que cada pessoa deve agir segundo a própria consciência diante de Deus. Em 1 Coríntios 8 a 10, ele discute liberdade e responsabilidade comunitária, mostrando que a maturidade cristã não é permissividade, mas também não é legalismo opressor. Em Gálatas 5,1, afirma que Cristo nos libertou para a liberdade, não para nova escravidão. A ética cristã exige discernimento e amor, não vigilância moral seletiva.

No contexto brasileiro contemporâneo, o Carnaval movimenta economia criativa significativa e sustenta milhares de famílias. Costureiras, músicos, técnicos, artesãos e trabalhadores informais encontram na festa fonte legítima de renda. Cultura é direito social e instrumento de memória coletiva. Reduzir o debate a cifras isoladas ignora que investimento cultural gera retorno econômico e fortalece comunidades. A arte carnavalesca tornou-se tribuna pública para narrativas historicamente silenciadas. Quando periferias ocupam o espaço urbano com música e história própria, exercem cidadania cultural.

A fé cristã, enraizada na encarnação, não é chamada a fugir da cultura, mas a iluminá-la. O corpo chamado templo do Espírito em 1 Coríntios 6,19 não é negado, mas dignificado. A crítica cristã deve dirigir-se à exploração e à desumanização, não à alegria popular em si. A verdadeira tensão moral não está na existência da festa, mas na forma como cada pessoa participa dela e nas estruturas que a moldam.

A alegria não é inimiga da espiritualidade. Provérbios 17,22 afirma que o coração alegre é remédio. A Bíblia culmina na imagem do banquete escatológico em Isaías 25,6 e na ceia das bodas em Apocalipse 19,9, símbolos de comunhão definitiva. A festa humana, ainda imperfeita, pode tornar-se antecipação simbólica dessa esperança. Entre celebração e conversão, entre liberdade e responsabilidade, a vida encontra equilíbrio. A fé madura não demoniza a praça pública, mas entra nela com consciência crítica, defendendo justiça, dignidade e vida. Quando orientado pela ética do amor, o Carnaval pode ser expressão de memória, resistência e esperança coletiva, revelando que a alegria também é dimensão legítima da experiência humana e pode coexistir com compromisso espiritual autêntico

DNonato - Teólogo do Cotidiano