segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,24-30

O episódio narrado em Lucas 4,24-30 ocupa um lugar muito particular na liturgia da Igreja. Ele é proclamado na segunda-feira da terceira semana da Quaresma e também aparece no ciclo dominical do Tempo Comum,  4º Domingo do Tempo Comum – Ano C, onde se proclama a unidade maior Lucas 4,21-30 (que inclui os versículos 24-30 dentro da narrativa). quando Jesus lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré. A escolha litúrgica não é casual. A Igreja, ao inserir esse texto no caminho quaresmal, convida a comunidade a confrontar a própria relação com a Palavra de Deus. A Quaresma é tempo de conversão e discernimento, e essa passagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes a resistência à Palavra nasce justamente entre aqueles que acreditam conhecê-la profundamente.

A cena acontece em Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Historicamente, Nazaré não possuía importância política nem religiosa. Não aparece nas grandes narrativas do Antigo Testamento e tampouco nas principais referências históricas do judaísmo antigo. A Galileia era vista por setores mais rigorosos de Jerusalém como uma região periférica e culturalmente misturada. Ali conviviam povos diferentes, circulavam rotas comerciais e a influência estrangeira era visível. Esse dado geográfico possui uma dimensão teológica significativa. A revelação divina, ao longo da história bíblica, frequentemente nasce nas margens da sociedade e não no centro do poder. Deus escolhe Abraão em terra estrangeira, unge Davi entre pastores esquecidos e levanta profetas em contextos inesperados. A lógica da graça não segue os mapas da importância humana.

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, ele não é um estranho. É alguém conhecido pela comunidade. Ali estão pessoas que acompanharam sua infância, que conhecem sua família e que guardam a memória cotidiana de sua presença na aldeia. Esse momento do Evangelho  de hoje é  logo após  a cena que Lucas descreve que Jesus recebe o rolo do profeta Isaías e proclama um trecho profundamente carregado de esperança. O texto anuncia que o Espírito do Senhor unge o enviado para evangelizar os pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça. Trata-se da promessa presente em Isaías 61,1-2, uma das expressões mais fortes da esperança messiânica na tradição profética.

Ao terminar a leitura, Jesus afirma que aquela palavra se cumpre naquele momento. Essa declaração revela um elemento central da espiritualidade bíblica. A Escritura não é apenas memória de acontecimentos passados. A Palavra de Deus é viva e eficaz dentro da história. O próprio Isaías havia anunciado que a palavra divina não retorna vazia, mas realiza aquilo para o qual foi enviada, conforme se lê em Isaías 55,10-11. Ao afirmar que a promessa se cumpre naquele instante, Jesus anuncia que o tempo de Deus entrou no tempo humano.

A reação inicial da comunidade parece positiva. O Evangelho relata que todos falavam bem dele e se admiravam com suas palavras de graça. Entretanto, a admiração rapidamente se mistura com estranhamento. Surge uma pergunta carregada de familiaridade. Não é este o filho de José. A proximidade, que poderia facilitar o reconhecimento, torna-se obstáculo. Aquilo que é cotidiano demais muitas vezes se torna invisível aos olhos da fé. A familiaridade cria a ilusão de conhecimento e impede perceber a novidade de Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma frase que atravessou os séculos como síntese da experiência profética. Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. A mesma afirmação aparece também em Marcos 6,4 e Mateus 13,57, mostrando que a tradição cristã primitiva reconheceu nessa frase uma verdade recorrente da história da revelação. Na experiência de Israel, a palavra profética quase sempre encontrou resistência entre aqueles que deveriam acolhê-la.

A memória bíblica confirma essa realidade. A experiência profética quase sempre esteve marcada por tensão, perseguição e incompreensão; 

  •  Jeremias descreve o peso interior de anunciar uma palavra que provoca rejeição quando confessa que a Palavra de Deus se tornou como um fogo ardendo em seus ossos, conforme se lê em Jeremias 20,7-9. O profeta sente o peso de proclamar uma mensagem que seu próprio povo não deseja ouvir, mas também reconhece que não pode silenciar aquilo que Deus colocou em seu coração.
  • Amós também experimenta essa rejeição quando denuncia a injustiça social e a corrupção religiosa no reino do Norte. Sua crítica incomoda as estruturas de poder e o sacerdote Amasias ordena que ele abandone o santuário de Betel. A cena aparece em Amós 7,10-13, revelando como o poder religioso institucional pode reagir contra a voz profética quando ela expõe as contradições do sistema.
  • Elias, por sua vez, enfrenta a perseguição política depois de confrontar a idolatria promovida pela monarquia de Acab e Jezabel. Após denunciar os falsos profetas e afirmar a fidelidade ao Deus de Israel, ele precisa fugir para preservar a própria vida, como se narra em 1 Reis 19,1-3. A perseguição contra Elias mostra que a palavra profética frequentemente entra em choque com estruturas políticas que se beneficiam da idolatria e da manipulação religiosa.
  • Isaías denuncia a hipocrisia religiosa e a injustiça social em Jerusalém, chamando o povo à conversão e à prática da justiça, conforme se lê em Isaías 1,15-17 e Isaías 58,6-7. A tradição judaica posterior, preservada em escritos rabínicos e mencionada por alguns Padres da Igreja, afirma que o profeta Isaías teria sido martirizado durante o reinado de Manassés, sendo serrado ao meio por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus.
  • Miqueias também levanta sua voz contra líderes políticos e religiosos que distorcem a justiça. Ele denuncia governantes que constroem a cidade com violência e sacerdotes que ensinam por dinheiro, conforme aparece em Miqueias 3,9-11. Sua crítica revela uma realidade que atravessa os séculos: quando a religião se alia ao poder econômico ou político, o profeta se torna incômodo.
  •  Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que denuncia a infidelidade do povo e a corrupção religiosa no templo. A reação do poder é violenta. Ele é apedrejado no pátio da casa do Senhor, conforme narra 2 Crônicas 24,20-21. A morte de Zacarias dentro do próprio espaço sagrado revela como a violência contra a palavra profética pode surgir justamente dentro das estruturas religiosas.
  • Habacuque levanta perguntas inquietantes diante da injustiça e da violência presentes na sociedade. Ele questiona por que Deus permite que a injustiça pareça triunfar, como aparece em Habacuque 1,2-4. Sua experiência mostra que a missão profética não é apenas denunciar estruturas externas, mas também carregar no coração a angústia diante do sofrimento humano.
  • Ezequiel também enfrenta resistência ao anunciar a Palavra a um povo de coração endurecido. Deus o envia a uma casa rebelde que pode ou não escutar sua mensagem, conforme Ezequiel 2,3-5. Sua missão revela que o profeta não mede o sucesso pela aceitação da mensagem, mas pela fidelidade ao chamado recebido.

A tradição bíblica recorda ainda o sofrimento de muitos outros profetas anônimos que foram perseguidos ou mortos. O próprio Elias lamenta que os profetas do Senhor foram assassinados e que ele se sente sozinho na defesa da verdade, como aparece em 1 Reis 19,10. Essa memória coletiva revela que a perseguição à palavra profética faz parte da história de Israel.

Séculos depois, Jesus recordará essa mesma realidade ao afirmar que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme se lê em Lucas 13,34. A denúncia reaparece também na pregação de Estêvão, que pergunta qual dos profetas não foi perseguido pelos antepassados do povo, como aparece em Atos 7,51-52..Assim, a história dos profetas revela uma constante espiritual e histórica. A palavra que chama à justiça, denuncia a idolatria e convoca à conversão quase sempre encontra resistência. O profeta não é alguém que confirma as certezas do poder ou da religião acomodada. Ele é a voz que recorda que Deus não pode ser reduzido a sistemas humanos, ideologias religiosas ou estruturas de dominação. Por isso, muitas vezes, sua fidelidade à verdade o coloca no caminho da perseguição e até mesmo do martírio.

A missão profética nunca foi confortável, pois ela revela as contradições escondidas nas estruturas da sociedade e da religião. Para tornar sua crítica ainda mais clara, Jesus recorda dois episódios da tradição profética. Durante uma grande fome em Israel, o profeta Elias não foi enviado a nenhuma viúva israelita, mas a uma mulher estrangeira de Sarepta. A narrativa aparece em 1 Reis 17,8-16. A mulher acolhe o profeta e experimenta a providência de Deus em meio à escassez. O gesto revela que a misericórdia divina ultrapassa fronteiras culturais e religiosas.

Em seguida, Jesus recorda a história do profeta Eliseu que cura Naamã, um general sírio que sofria de lepra, conforme 2 Reis 5,1-14. O detalhe é provocador. Naamã não pertence ao povo de Israel. Ele é estrangeiro e representa um poder militar frequentemente em conflito com o povo hebreu. Ao mencionar essas histórias, Jesus revela que a graça de Deus não pode ser aprisionada dentro de fronteiras nacionais ou identitárias. Essa universalidade já estava presente na promessa feita a Abraão quando Deus declara que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, como afirma Gênesis 12,3.

A reação da comunidade muda de forma abrupta. A admiração se transforma em ira. O Evangelho relata que todos na sinagoga ficam cheios de fúria ao ouvir essas palavras. A psicologia social ajuda a compreender essa transformação. Quando identidades coletivas se sentem ameaçadas, surge o medo de perder privilégios ou segurança simbólica. O anúncio de um Deus que ultrapassa fronteiras religiosas desestabiliza expectativas construídas ao longo do tempo.

Esse movimento revela um risco constante na história da religião. A fé pode ser transformada em sistema de proteção identitária. Quando isso acontece, a experiência espiritual deixa de ser encontro com o Deus vivo e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente essa distorção. Amós critica cultos solenes que ignoram a justiça social, conforme Amós 5,21-24. Isaías denuncia práticas religiosas que não libertam os oprimidos, como aparece em Isaías 58,6-7. A espiritualidade bíblica nunca separa fé e justiça.

Ao longo da história, porém, a religião muitas vezes foi usada como instrumento de poder político. Discursos religiosos podem ser mobilizados para justificar projetos ideológicos, nacionalismos agressivos ou estruturas sociais excludentes. Quando isso acontece, a fé perde sua dimensão profética e se transforma em mecanismo de dominação simbólica.

O Evangelho de Jesus segue um caminho diferente. Ele anuncia um Reino que se manifesta na justiça, na misericórdia e na dignidade humana. Quando Jesus proclama as bem-aventuranças em Lucas 6,20-26, ele declara felizes os pobres e alerta para o perigo da riqueza acumulada. Essa mensagem confronta diretamente qualquer tentativa de identificar a bênção divina com prosperidade material. Por essa razão, interpretações religiosas que prometem riqueza como sinal da presença de Deus entram em conflito com a lógica do Evangelho. Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, conforme Mateus 6,24, e alerta que a vida não consiste na abundância de bens, como se lê em Lucas 12,15. A primeira comunidade cristã testemunha outro caminho ao partilhar seus bens para que ninguém passe necessidade, como descreve Atos 2,44-45.

Outro risco permanente na história da Igreja é o clericalismo, quando o ministério religioso se transforma em espaço de poder e controle. O Evangelho apresenta uma visão radicalmente diferente da autoridade. Jesus ensina que quem quiser ser o maior deve tornar-se servo de todos, conforme Marcos 10,42-45. A autoridade cristã nasce do serviço e não do domínio.

À luz dessas reflexões, a reação violenta da comunidade de Nazaré revela um mecanismo profundo da condição humana. Aqueles que inicialmente escutavam a Palavra com admiração passam a tentar eliminar o mensageiro. O Evangelho afirma que conduzem Jesus até o alto de um monte para lançá-lo no precipício. O precipício torna-se símbolo da tentativa de silenciar a palavra que confronta estruturas injustas. Jesus lamentará mais tarde que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme Lucas 13,34. O evangelho de João expressa essa tragédia afirmando que ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram, como se lê em João 1,11. No entanto, o episódio de Nazaré termina com uma imagem surpreendente. O Evangelho afirma simplesmente que Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho. Essa frase breve possui profunda força simbólica. A rejeição não interrompe a missão. A palavra de Deus continua caminhando pela história.

A cena antecipa o destino de Jesus ao longo do Evangelho. Ele enfrentará incompreensão, oposição e violência, mas continuará anunciando o Reino de Deus. A cruz não será o fim da missão. Ela se tornará o lugar onde a fidelidade ao amor de Deus se revela de maneira plena. O  episódio de Nazaré permanece como pergunta aberta para cada geração: Sempre existe a tentação de transformar a fé em ideologia religiosa, instrumento político ou sistema de controle social?

O Evangelho, porém, continua lembrando que o Reino de Deus nasce na compaixão, na justiça e na dignidade humana. Cada comunidade que escuta essa narrativa precisa decidir novamente se acolhe a palavra profética como caminho de conversão ou se tenta empurrá-la, mais uma vez, para o precipício da história.

DNonato -  teologo do cotidiano  com muita  vontade  ser profeta 

sábado, 7 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 4,5-42 - 3º domingo da quaresma

 

O terceiro  domingo  da Quaresma   nos  trás  o mosaico  de leitura:  Êxodo 17,3-7;  Salmo 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8); Romanos  5,1-2.5-8 e  o evangelho  João o 4,5-42, que   ess ano de  2026, a proclamação deste Evangelho coincidiu providencialmente com o Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, o que confere à narrativa um significado ainda mais eloquente. No relato de João, é justamente uma mulher, socialmente marginalizada por sua história e pertencente a um povo desprezado pelos judeus, que se torna interlocutora direta de Jesus e, posteriormente, anunciadora da Boa Nova em sua comunidade. Em um contexto cultural onde mulheres raramente eram reconhecidas como testemunhas públicas, Cristo rompe barreiras sociais, religiosas e de gênero ao dialogar com ela e confiar-lhe, de modo implícito, uma missão evangelizadora. Essa coincidência litúrgica recorda que o Evangelho sempre contém uma dimensão profundamente libertadora, pois reconhece a dignidade e a voz das mulheres na história da salvação. A samaritana não é apresentada como figura secundária, mas como alguém que, ao encontrar a água viva, transforma-se em missionária, antecipando a realidade de tantas mulheres que, ao longo da história da Igreja e da sociedade, foram portadoras da esperança, da fé e da vida.

O evangelho de João 4,5-42 que já  refletimos  uma  vez em nosso blog e esse texto  de João   tem  um   possui um lugar especial no itinerário catecumenal da Igreja. Desde os primeiros séculos, esse texto é proclamado durante os chamados escrutínios dos catecúmenos que se preparam para o batismo na Vigília Pascal. A tradição patrística percebeu nesse relato uma profunda catequese batismal. A água viva prometida por Cristo remete ao dom do Espírito Santo e à vida nova que nasce da graça. Assim, o texto não é apenas uma narrativa histórica. Ele se torna um espelho espiritual no qual a Igreja contempla o drama e a esperança da humanidade.

Para compreender a força desse evangelho é necessário olhar o seu contexto histórico, cultural e religioso. Jesus passa pela Samaria e chega à cidade chamada Sicar, próxima ao campo que Jacó havia dado a seu filho José. Ali se encontra o famoso poço de Jacó. O evangelista João não menciona esse detalhe por acaso. Na tradição bíblica os poços são lugares simbólicos de encontro e de revelação. Em Gênesis 24, Rebeca encontra o servo de Abraão junto ao poço, dando início à história matrimonial com Isaac. Em Gênesis 29, Jacó encontra Raquel também junto a um poço. Em Êxodo 2, Moisés encontra Séfora quando defende as filhas de Jetro junto a um poço no deserto. A literatura bíblica criou, portanto, um padrão narrativo onde o poço é lugar de encontro decisivo. João utiliza essa tradição para indicar que ali está acontecendo algo semelhante. Cristo aparece como o verdadeiro esposo da humanidade, aquele que vem encontrar o seu povo.

A dimensão geográfica também é importante. Judeus e samaritanos mantinham uma rivalidade profunda. Depois da queda do reino do Norte em 722 a.C., a região da Samaria sofreu processos de miscigenação cultural e religiosa. O Segundo Livro dos Reis relata que povos estrangeiros foram trazidos para aquela terra e introduziram seus deuses. A tradição judaica passou então a considerar os samaritanos como impuros. O templo deles ficava no monte Garizim, enquanto os judeus consideravam Jerusalém o único lugar legítimo de culto. Essa tensão histórica explica a surpresa da mulher quando Jesus lhe dirige a palavra. O texto afirma claramente que judeus não se relacionavam com samaritanos.

O evangelho mostra que Jesus rompe essa barreira social e religiosa. Esse gesto revela uma característica constante do ministério de Cristo. Ele atravessa fronteiras que a religião institucional muitas vezes construiu. Em Lucas 10, por exemplo, a parábola do bom samaritano também desafia os preconceitos religiosos da época ao apresentar justamente um samaritano como modelo de compaixão. Em Atos 1,8, Jesus anuncia que o Evangelho se espalhará de Jerusalém até a Samaria e até os confins da terra, mostrando que a salvação não pertence a um grupo exclusivo.

Outro elemento simbólico importante é o horário do encontro. João afirma que era cerca da hora sexta, o meio-dia. Esse detalhe possui um sentido literário e teológico. No mesmo evangelho, a hora sexta reaparece no momento em que Jesus é apresentado por Pilatos antes da crucificação (Jo 19,14). A luz do meio-dia indica um momento de revelação plena. No entanto, também revela o calor e a dureza do ambiente. A mulher vem buscar água num horário em que normalmente ninguém iria. Isso sugere isolamento social. Muitos intérpretes veem aqui um retrato psicológico de alguém marcado por exclusões e fracassos afetivos.

Jesus inicia o diálogo com um pedido simples: “Dá-me de beber”. Esse pedido revela algo essencial da encarnação. Deus se aproxima da humanidade assumindo a vulnerabilidade humana. O Filho de Deus pede água como qualquer ser humano sedento. A cena lembra outra passagem do evangelho de João. Na cruz, Jesus dirá: “Tenho sede” (Jo 19,28). Os Padres da Igreja interpretaram essa sede não apenas como necessidade física, mas como sede de humanidade, sede da salvação das pessoas.

A mulher reage com surpresa. Como um judeu pode pedir água a uma samaritana. A pergunta revela o peso das estruturas culturais. Jesus então conduz a conversa para uma dimensão mais profunda ao falar da água viva. No Antigo Testamento, a expressão água viva aparece frequentemente associada à presença de Deus. Jeremias denuncia o povo dizendo: “Abandonaram-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas rachadas que não retêm água” (Jr 2,13). O profeta Isaías também utiliza a mesma imagem ao proclamar: “Todos vós que tendes sede, vinde às águas” (Is 55,1). O livro de Ezequiel descreve uma visão em que um rio de água viva brota do templo e transforma o deserto em jardim (Ez 47,1-12). João retoma toda essa tradição simbólica para apresentar Cristo como a verdadeira fonte.

A mulher inicialmente entende a água em sentido material. Esse recurso literário é típico do evangelho de João. O interlocutor interpreta as palavras de Jesus de maneira literal, enquanto Cristo fala de uma realidade espiritual mais profunda. Algo semelhante acontece com Nicodemos quando Jesus fala do novo nascimento (Jo 3,1-8). Nicodemos pensa em nascer novamente do ventre materno, enquanto Jesus fala do nascimento da água e do Espírito.

A água viva prometida por Jesus aponta diretamente para o dom do Espírito Santo. Mais adiante, no mesmo evangelho, Jesus proclamará durante a festa das Tendas: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, rios de água viva correrão do seu interior” (Jo 7,37-38). O evangelista explica que ele falava do Espírito que receberiam os que cressem nele.

Esse simbolismo dialoga profundamente com a primeira leitura da liturgia, Ex 17,3-7. No deserto, o povo experimenta sede e começa a murmurar contra Moisés. A sede física revela uma crise espiritual. O povo pergunta se Deus está realmente no meio deles. Moisés, por ordem divina, fere a rocha e dela brota água. A tradição cristã viu nesse episódio uma figura de Cristo. São Paulo afirma explicitamente: “Todos beberam da mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo” (1Cor 10,4).

O salmo 95 recorda exatamente esse episódio de Meriba e Massá, lugares associados à tentação e à dureza de coração. O salmo convida o povo a não repetir o erro dos antepassados. A experiência da fé exige abertura interior. O coração endurecido não reconhece a presença de Deus, mesmo quando a graça se manifesta.

A segunda leitura, tirada da carta aos Romanos, amplia essa reflexão ao falar da justificação pela fé. Paulo afirma que fomos reconciliados com Deus e que o amor divino foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. O verbo derramar evoca novamente a imagem da água abundante. O Espírito Santo aparece como a água viva que transforma o interior humano. Paulo reforça essa ideia em Tito 3,5 ao afirmar que fomos salvos pelo banho da regeneração e renovação do Espírito Santo.

Voltando ao evangelho, chega um momento decisivo quando Jesus revela conhecer a história da mulher. Ele menciona que ela teve cinco maridos e que o homem com quem vive agora não é seu marido. Esse detalhe possui um significado simbólico profundo. Alguns exegetas observam que o número cinco pode remeter aos cinco deuses introduzidos na Samaria segundo 2 Reis 17,24-34. Assim, a mulher se torna uma representação simbólica de um povo que buscou muitos “senhores” espirituais sem encontrar a verdadeira fonte.

O  texto também revela o drama humano da busca incessante por satisfação. O ser humano experimenta uma espécie de sede existencial. Santo Agostinho expressou essa realidade de maneira magistral ao escrever nas Confissões: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”. Essa inquietação atravessa a história humana.

Também é importante observar que o evangelho de João utiliza frequentemente números e símbolos com valor teológico.

  •  O número cinco, presente na referência aos cinco maridos, pode evocar tanto a história religiosa da Samaria quanto a incompletude humana. 
  • Na simbologia bíblica, o número sete costuma indicar plenitude e totalidade, como nos sete dias da criação em Gênesis 1. 
O fato de a mulher ter tido cinco maridos e viver com um sexto homem indica um caminho ainda incompleto, uma busca que não chegou à plenitude. Quando ela encontra Jesus, simbolicamente aparece o sétimo encontro, aquele que finalmente conduz à plenitude da vida. A tradição patrística viu nesse detalhe um sinal de que Cristo é o verdadeiro esposo escatológico da humanidade, retomando imagens proféticas como Isaías 54,5 e Oséias 2,16-22, onde Deus se apresenta como esposo fiel de seu povo.

Outro símbolo importante é o próprio poço de Jacó. Na cultura do Oriente Próximo antigo, o poço era fonte de sobrevivência e de vida comunitária. Espiritualmente ele representa a tradição religiosa herdada dos patriarcas. Jacó simboliza a história de Israel, suas promessas e sua memória. Contudo, Jesus não se apresenta apenas como alguém que bebe dessa tradição. Ele se apresenta como alguém maior que o próprio poço. Quando a mulher pergunta se ele é maior que Jacó, o evangelho conduz o leitor a perceber que Cristo é a nova fonte que ultrapassa as estruturas antigas. Essa dinâmica lembra a palavra de Jesus em João 8,58: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”.

O cântaro da mulher também possui valor simbólico. Ele representa o esforço humano cotidiano de buscar água, isto é, de buscar sentido e sobrevivência. Quando a mulher deixa o cântaro para ir anunciar o que encontrou, o evangelho sugere que a experiência com Cristo reorganiza as prioridades da vida. O mesmo acontece com os discípulos que deixam redes e barcas para seguir Jesus em Marcos 1,18.

Outro símbolo importante é a própria água. Na Escritura, a água possui múltiplos significados. Em Gênesis 1,2 o Espírito de Deus paira sobre as águas primordiais. No Êxodo, as águas do mar Vermelho se tornam caminho de libertação. Em Isaías 12,3 o profeta proclama: “Vós tirareis água com alegria das fontes da salvação”. No Novo Testamento, a água aparece ligada diretamente ao batismo, como em Mateus 3,13-17 e Atos 2,38. O evangelho de João conecta essa simbologia à cruz, quando do lado aberto de Cristo jorram sangue e água (Jo 19,34), sinal sacramental da vida nova oferecida à humanidade.

O horário do meio-dia também pode ser interpretado simbolicamente. No simbolismo bíblico, a luz plena do meio-dia representa a revelação que dissipa as sombras. O encontro acontece quando a luz está no auge, indicando que Cristo é a luz que revela a verdade da existência humana, como afirmado em João 8,12: “Eu sou a luz do mundo”.

A mulher percebe que está diante de um profeta e levanta então uma questão teológica sobre o lugar do culto. A rivalidade entre o monte Garizim e Jerusalém representava uma disputa religiosa profunda. Jesus responde com uma afirmação revolucionária: chega a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Essa declaração ecoa também outros textos bíblicos que relativizam o culto puramente ritual. O profeta Oséias já havia proclamado em nome de Deus: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). O profeta Isaías denunciou cultos vazios que não se traduzem em justiça (Is 1,11-17). O próprio Jesus retomará essa crítica em Mateus 23 ao denunciar a hipocrisia religiosa que privilegia aparências enquanto ignora a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Essa palavra de Jesus possui uma dimensão profundamente crítica para todas as épocas. A religião corre sempre o risco de se transformar em sistema de poder ou em instrumento de controle social. Quando isso acontece, perde-se a essência do Evangelho. A adoração em espírito e verdade não depende de templos luxuosos nem de estruturas de prestígio. Ela nasce de um coração transformado pela graça.

Nesse contexto também se torna necessária uma crítica às formas modernas de espiritualidade que transformam a fé em instrumento de prosperidade individual. A chamada teologia da prosperidade promete riqueza material como sinal de bênção divina. Contudo, o Evangelho apresenta uma lógica diferente. Jesus declara em Mateus 6,19-21 que não se deve acumular tesouros na terra. Em Lucas 12,15 ele adverte contra toda forma de ganância. Em Marcos 8,36 pergunta: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

A mulher samaritana, depois de encontrar Jesus, deixa o cântaro e vai à cidade anunciar o que aconteceu. Esse detalhe possui grande valor simbólico. O cântaro representa as antigas buscas que já não fazem sentido diante da fonte verdadeira. O encontro com Cristo gera transformação e missão. O que era uma busca solitária se torna anúncio comunitário.

Esse dinamismo missionário ecoa outras experiências bíblicas. O profeta Jeremias dizia que a palavra de Deus era como fogo em seus ossos e ele não podia contê-la (Jr 20,9). O apóstolo Paulo expressa algo semelhante ao afirmar: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16). O encontro com Deus nunca é uma experiência puramente privada. Ele gera compromisso com a história e com os outros.

Os habitantes da cidade vão ao encontro de Jesus e acabam professando uma fé surpreendente. Eles afirmam que Jesus é o Salvador do mundo. Essa expressão é extremamente significativa. No mundo romano, o título de salvador era atribuído a imperadores e divindades pagãs. O evangelho afirma que a verdadeira salvação não vem do poder político nem das estruturas de dominação. Ela vem de Cristo.

A narrativa termina mostrando que muitos acreditaram por causa da palavra da mulher e depois pela experiência direta com Jesus. Esse movimento revela a dinâmica da evangelização. O testemunho abre caminho para o encontro pessoal com Cristo. A fé nasce da escuta, como afirma Paulo em Romanos 10,17. Assim, o evangelho deste domingo apresenta um retrato profundo da condição humana. O ser humano vive sedento de sentido, de amor e de eternidade. As estruturas sociais e culturais frequentemente oferecem soluções superficiais. No entanto, apenas a água viva que brota de Cristo pode saciar essa sede.

A Quaresma coloca esse texto diante da comunidade como convite à conversão. Converter-se significa abandonar as cisternas rachadas que prometem vida mas produzem vazio. Significa reconhecer a própria sede e aproximar-se da fonte verdadeira.

O encontro de Jesus com a samaritana revela que Deus continua atravessando as fronteiras humanas para encontrar aqueles que vivem à margem. Ele continua pedindo água para oferecer água viva. Continua revelando que a verdadeira adoração não se limita a rituais, mas se manifesta em uma vida transformada pelo amor. Diante de um mundo marcado por desigualdades, individualismo e instrumentalização da fé, esse evangelho permanece como palavra profética. Ele recorda que a missão da comunidade cristã não é oferecer ilusões religiosas nem promessas de sucesso material. A missão é conduzir as pessoas à fonte da vida.

A pergunta que permanece ecoando na consciência humana é simples e radical. Onde estamos buscando saciar nossa sede mais profunda. Nas promessas efêmeras de um sistema que idolatra o poder e o consumo ou na água viva que brota do coração de Deus e conduz à vida plena. Essa escolha define o caminho espiritual e o sentido último da existência.

.


DNonato -  Teologo do Cotidiano 

Olhando de novo Lucas 15,1-3.11-32

 

O Evangelho de Lucas 15,1-3.11-32, conhecido popularmente como a parábola do Filho Pródigo, dos Dois Filhos ou, de forma mais profunda e teologicamente mais adequada, a parábola do Pai Rico em Misericórdia, aparece em momentos muito significativos do calendário litúrgico da Igreja. Ele é proclamado no segundo sábado da Quaresma no ciclo ferial, também no quarto domingo da Quaresma do Ano C, tradicionalmente chamado Domingo da Alegria ou Laetare, e ainda no vigésimo quarto domingo do Tempo Comum no Ano C. O fato de a Igreja retornar diversas vezes a esse texto ao longo do ano litúrgico não é casual. Trata-se de um dos centros do Evangelho de Lucas e de uma das narrativas mais densas de toda a tradição cristã para compreender quem é Deus. A repetição litúrgica mostra que a misericórdia não é um tema secundário, mas o coração do Evangelho. A Quaresma, tempo de conversão, e o Tempo Comum, tempo da caminhada concreta do discípulo na história, encontram nessa parábola uma chave de leitura para entender a relação entre Deus e a humanidade.

Para compreender a profundidade dessa narrativa é necessário situá-la dentro do capítulo quinze do Evangelho de Lucas. O evangelista reúne três parábolas que formam uma unidade literária e teológica. 

  1. ovelha perdida:  um pastor deixa noventa e nove ovelhas para procurar uma que se perdeu.
  2. A moeda perdida: uma mulher acende uma lâmpada e varre a casa até encontrar uma moeda perdida
  3. O Pai misericordioso (Lc 15,11-32): um pai aguarda o retorno de um filho
 A proporção da perda vai se tornando cada vez mais dramática. Uma ovelha entre cem, uma moeda entre dez e um filho entre dois. Nem todos possuíam cem ovelhas. Nem todos tinham moedas guardadas. Mas todos compreendiam o drama de uma família dividida

O filho mais novo representa aquele que rompe abertamente com a casa, busca autonomia absoluta e acaba experimentando o vazio de uma liberdade sem vínculos. Ele simboliza muitas experiências contemporâneas marcadas pelo individualismo, pelo consumo e pela ilusão de que a vida pode ser construída sem referência ao outro ou a Deus. Contudo, sua história também revela a possibilidade da conversão: ao reconhecer sua fragilidade e voltar para casa, ele descobre que o amor do Pai é maior do que seus erros.

Logo no início do capítulo aparece um elemento fundamental que funciona como chave interpretativa de todo o conjunto. O texto afirma que os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo, enquanto fariseus e escribas murmuravam dizendo que ele acolhia pecadores e comia com eles (Lc 15,1-2). Essa pequena observação narrativa revela o verdadeiro motivo das parábolas. Jesus está respondendo à crítica de um modelo religioso que se acreditava puro, correto e autorizado a definir quem podia ou não estar próximo de Deus.

No judaísmo do primeiro século possuía diversos grupos religiosos com interpretações distintas da Lei. Fariseus, saduceus, sacerdotes do templo e outros movimentos disputavam autoridade moral dentro da sociedade. A pureza ritual e a observância da Lei eram elementos centrais para definir quem estava dentro ou fora da comunhão religiosa. Os publicanos, cobradores de impostos associados ao império romano, eram vistos como traidores da nação. Os pecadores formavam uma categoria ampla que incluía pessoas consideradas impuras, marginalizadas ou moralmente suspeitas. Quando Jesus se senta à mesa com essas pessoas, ele rompe um código social muito forte. Na cultura semita, comer com alguém significa reconhecer essa pessoa como parte da própria comunidade. Por isso a murmuração dos fariseus revela mais do que uma simples crítica moral. Ela revela um conflito profundo sobre a imagem de Deus.  A família no antigo Oriente Próximo era uma estrutura patriarcal muito forte. O pai possuía autoridade jurídica sobre os filhos e sobre os bens da casa. A herança normalmente era distribuída apenas após a morte do patriarca. O livro do Deuteronômio afirma que o filho primogênito tinha direito a uma porção maior da herança (Dt 21,17). Quando o filho mais novo pede sua parte antes da morte do pai, ele realiza um gesto culturalmente escandaloso. É como se estivesse declarando que o pai já não tem valor para ele.

O surpreendente é que o pai aceita dividir os bens. Essa atitude revela uma dimensão profunda da teologia bíblica. Deus não impõe amor pela força. Ele permite liberdade, mesmo quando essa liberdade conduz ao erro. Desde o relato da criação em Gênesis, o ser humano aparece como criatura livre, capaz de escolher entre caminhos de vida e caminhos de morte. A liberdade faz parte da dignidade que Deus concede à humanidade.

O filho mais novo parte para uma terra distante. Essa expressão possui também um significado simbólico. Distância geográfica e distanciamento espiritual caminham juntos. O jovem gasta seus bens vivendo de forma desordenada. O texto sugere uma vida marcada por excessos e superficialidade. Psicologicamente, esse momento pode ser interpretado como o desejo humano de autonomia absoluta, quando a pessoa acredita que pode construir sentido para a vida sem vínculos profundos.

A crise chega quando ocorre uma grande fome naquela região. A fome, na Bíblia, muitas vezes possui um valor simbólico além da dimensão econômica. O profeta Amós fala de uma fome não de pão, mas da palavra de Deus (Am 8,11). O jovem que acreditava possuir tudo descobre que não possui nada. Ele acaba cuidando de porcos, animal considerado impuro segundo a Lei (Lv 11,7). Esse detalhe revela o grau de degradação social que ele experimenta.

Nesse ponto aparece um momento decisivo da narrativa. Lucas afirma que o filho caiu em si (Lc 15,17). A conversão começa quando a pessoa desperta para a própria realidade. Ele recorda da casa do pai e percebe que até os trabalhadores possuem pão em abundância. A memória torna-se caminho de retorno. Na tradição bíblica, recordar a fidelidade de Deus sempre foi um caminho de esperança. Israel recorda constantemente a libertação do Egito e a aliança que Deus estabeleceu com seu povo.

Quando decide voltar, o jovem prepara um discurso de arrependimento. Ele reconhece que pecou contra o céu e contra o pai. A expressão “contra o céu” era uma forma judaica de referir-se a Deus. Ele está disposto a ser tratado como um simples trabalhador da casa. Aqui aparece um elemento psicológico profundo. Quem retorna depois de um erro frequentemente acredita que perdeu sua dignidade.

O momento mais surpreendente acontece quando o pai o vê ainda distante e corre ao seu encontro. Na cultura do antigo Oriente, um patriarca respeitável não corria em público. Era considerado indigno levantar as vestes e correr. O gesto do pai rompe com os códigos sociais para revelar o coração de Deus. Ele não exige explicações completas. Ele abraça.

O abraço interrompe o discurso preparado. O pai manda trazer a melhor túnica, colocar um anel no dedo e sandálias nos pés. Cada um desses símbolos possui um significado profundo. A túnica representa a dignidade restaurada. A tradição cristã frequentemente relaciona esse gesto: 

  •  A veste batismal mencionada por Paulo quando afirma que os batizados se revestem de Cristo (Gl 3,27).
  •  O anel simboliza aliança e pertença. No mundo antigo, o anel podia servir como selo para autenticar documentos. Colocá-lo no dedo do filho significa reintegrá-lo plenamente na família. 
  • As sandálias indicam liberdade, pois os escravos geralmente andavam descalços.
  • O novilho gordo preparado para a festa representa a alegria da reconciliação. 
  • O banquete na tradição bíblica simboliza a comunhão do Reino de Deus. Isaías anuncia um grande banquete preparado por Deus para todos os povos (Is 25,6). Jesus retoma essa imagem diversas vezes para falar do Reino.

Nesse momento surge o filho mais velho. Ele estava trabalhando no campo e reage com indignação ao descobrir a festa. Sua atitude revela ressentimento acumulado. Ele afirma que sempre serviu ao pai e nunca recebeu uma celebração semelhante. A parábola revela aqui uma crítica profunda à espiritualidade baseada apenas em mérito.

O filho mais velho, por sua vez, representa uma outra forma de afastamento, mais sutil e frequentemente mais difícil de perceber. Ele permanece fisicamente na casa, cumpre suas obrigações e mantém a aparência de fidelidade, mas seu coração está fechado à misericórdia. Ele não consegue alegrar-se com a reconciliação do irmão. Nessa figura, o evangelho denuncia a tentação de uma religiosidade rígida, marcada pelo mérito e pela comparação. Assim, a parábola mostra que, na realidade contemporânea, podemos ser tanto o filho que se perde longe quanto aquele que permanece dentro da casa, mas sem compreender a lógica da graça. Em ambos os casos, o Pai continua chamando seus filhos a entrar na festa da reconciliação e da fraternidade

A resposta do Pai ao filho mais velho  é reveladora. Ele afirma que tudo o que possui pertence ao filho. Contudo, era necessário celebrar porque o irmão estava morto e voltou à vida. A narrativa termina de forma aberta. Não sabemos se o filho mais velho entra ou não na festa. O final aberto funciona como uma provocação dirigida aos ouvintes.

Dentro do caminho espiritual da segunda semana da Quaresma, esse Evangelho dialoga com todos os textos proclamados desde o domingo anterior até o sábado. 

  1. No domingo ouvimos o relato da Transfiguração do Senhor (17,1-9), quando os discípulos contemplam a glória de Cristo e escutam a voz do Pai dizendo que aquele é o Filho amado. 
  2. Na segunda-feira o Evangelho recorda que Cristo a pratica da Misericórdia (Lucas 6, 36-38) . 
  3. Na terça-feira aparece a denúncia contra a hipocrisia religiosa (Mt 23,1-12). 
  4. Na quarta-feira Jesus ensina que a grandeza no Reino está no serviço (Mt 20,17-28). 
  5. Na quinta-feira a parábola do rico e do pobre Lázaro denuncia a indiferença social (Lc 16,19-31). 
  6. Na sexta-feira a parábola dos vinhateiros homicidas denuncia aqueles que se apropriam da vinha de Deus (Mt 21,33-43). 
Todo esse caminho espiritual prepara o discípulo para compreender o rosto misericordioso de Deus revelado no sábado com a parábola do Pai misericordioso. Ao longo da história da Igreja, essa parábola sempre foi considerada uma síntese do Evangelho. Padres da Igreja como Santo Ambrósio e Santo Agostinho interpretaram essa narrativa como expressão do amor de Deus que nunca abandona a humanidade.

Na reflexão contemporânea da Igreja, o tema da misericórdia voltou a ocupar lugar central. Durante seu pontificado, Papa Francisco insistiu muitas vezes que a Igreja deve ser sinal da misericórdia de Deus no mundo e não um espaço de condenação. Essa perspectiva apareceu de forma especial na bula Misericordiae Vultus, que proclamou o Ano Santo da Misericórdia. Papa Leão XIV, em continuidade com o espírito renovador inaugurado pelo Concílio Vaticano II, que recordou que a Igreja deve ser sinal do amor de Deus no meio da história humana. Essa mensagem permanece extremamente atual. Vivemos em sociedades marcadas por desigualdade, exclusão e polarização. Muitas vezes discursos religiosos são utilizados para justificar preconceitos e violências. O Evangelho, porém, apresenta um Deus que rompe fronteiras e oferece reconciliação.

A parábola do Pai rico em misericórdia proclamada no Movimento  de Cursilhos ecorda que a fé cristã não pode ser reduzida a um conjunto de normas ou a uma espiritualidade individualista. O encontro com Deus sempre gera reconciliação e restauração das relações humanas. A festa preparada pelo pai simboliza uma comunidade onde ninguém é descartado.

Na verdade, Jesus conta essa história para revelar não apenas o drama do pecado humano, mas também as diferentes formas de afastamento de Deus. Tanto o filho mais novo quanto o mais velho estão, cada um à sua maneira, distantes do coração do pai.Um detalhe importante da narrativa é quando o evangelho afirma que o jovem “caindo em si” decide voltar para casa. Essa expressão revela o início da conversão.

A conversão, na tradição bíblica, não começa com uma imposição externa. Ela começa quando a pessoa recupera a consciência de si mesma e percebe que o caminho seguido não conduz à vida. A parábola revela, assim, a lógica do amor divino. Deus não age segundo critérios de mérito ou de cálculo. A misericórdia precede qualquer justificativa, a parábola revela que o coração do pai é muito maior do que os cálculos humanos.

O jovem recorda a casa do pai, onde até os trabalhadores têm pão em abundância. Ele decide retornar, não como filho, mas como empregado. A expectativa dele é apenas sobreviver. Essa parábola continua extremamente atual, pois nela encontramos um retrato da condição humana e também das tensões presentes na sociedade contemporânea e até mesmo dentro das comunidades religiosas

Assim, quando a liturgia proclama esse Evangelho durante 2 vezes  na Quaresma ou no Tempo Comum, ela convida cada pessoa a examinar o próprio coração. Talvez sejamos o filho que se afastou e precisa retornar. Talvez sejamos o filho que permaneceu, mas que se deixou contaminar pelo ressentimento. Em ambos os casos, a resposta de Deus permanece a mesma. Ele9 continua olhando o horizonte, esperando, correndo ao encontro e abrindo espaço para a festa da reconciliação. Em um mundo onde tantas pessoas se sentem perdidas ou rejeitadas, essa parábola continua proclamando uma verdade fundamental do Evangelho: ninguém está definitivamente perdido quando decide voltar para a casa do Pai.



DNonato - O filho mais novo  que está  voltando  e muitas vezes filho   o mais velho.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 21,33-43.45-46

 

O Evangelho de Mateus 21,33-43.45-46 é proclamado na liturgia da Igreja na sexta-feira da segunda semana da Quaresma. Nesse tempo forte do ano litúrgico, marcado pela conversão, pela escuta intensa da Palavra, pelo jejum, pela oração e pela revisão profunda da própria vida, a parábola dos vinhateiros homicidas aparece como uma palavra de discernimento espiritual e de denúncia profética. Ela não se dirige apenas à consciência individual, mas também às estruturas religiosas, sociais e políticas que administram a vida do povo.

A forma abreviada dessa narrativa, Mateus 21,33-43, também é proclamada no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A, quando a liturgia omite os versículos 45 e 46. Nesse contexto dominical, a comunidade cristã é colocada diante da pergunta central da parábola: que frutos estamos produzindo na vinha que Deus nos confiou? Nos dois momentos litúrgicos, a Palavra apresenta o mesmo núcleo teológico e espiritual. Deus plantou uma vinha, cuidou dela com amor e espera frutos de justiça. A questão fundamental não é se a vinha foi bem preparada, mas se os trabalhadores estão sendo fiéis à missão recebida.

Jesus conta essa parábola em um momento decisivo de sua missão. Ele já está em Jerusalém e os acontecimentos caminham rapidamente para o drama da cruz. O capítulo 21 de Mateus descreve uma sequência de acontecimentos profundamente simbólicos. Primeiro aparece a entrada messiânica de Jesus na cidade. Montado em um jumento, ele realiza o sinal profético anunciado em Zacarias 9,9, revelando um messianismo humilde e pacífico, em contraste com os modelos de poder dominador do mundo.

Em seguida vem a purificação do templo. Jesus denuncia que a casa de oração havia sido transformada em espaço de exploração religiosa, recordando as palavras de Jeremias 7,11 sobre o “covil de ladrões”. Esse gesto inaugura um confronto direto com as autoridades religiosas da época. A partir desse momento surgem debates intensos com os sumos sacerdotes, os anciãos e os especialistas da Lei. É nesse contexto de tensão que Jesus narra três parábolas consecutivas. 

  1. A primeira é a parábola dos dois filhos, em Mateus 21,28-32, que denuncia a incoerência entre discurso religioso e prática concreta. 
  2. A segunda é a parábola dos vinhateiros homicidas, em Mateus 21,33-46. 
  3. A terceira a parábola do banquete nupcial, em Mateus 22,1-14. 
As três histórias possuem o mesmo eixo crítico e revelam um diagnóstico espiritual profundo. A religião havia sido capturada por uma lógica de poder. Lideranças que deveriam cuidar da vinha de Deus passaram a agir como proprietárias daquilo que nunca lhes pertenceu.

Para compreender plenamente essa parábola é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. A imagem da vinha está profundamente enraizada na tradição espiritual de Israel. Um dos textos mais importantes nesse sentido é Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que escolhe uma colina fértil, limpa o terreno, planta videiras escolhidas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo é feito com cuidado e expectativa. No entanto, quando chega o momento da colheita, a vinha produz uvas amargas.

O próprio profeta explica o significado simbólico da metáfora. A vinha é a casa de Israel. Deus esperava justiça, mas encontrou violência. Esperava retidão, mas ouviu gritos de sofrimento. Jesus retoma essa tradição conhecida por seus ouvintes e a leva a um nível ainda mais radical. A parábola não fala apenas de frutos ruins. Ela denuncia um processo mais grave: a apropriação indevida da vinha. Na narrativa, o proprietário da vinha representa Deus, fonte da vida e do projeto do Reino. A vinha representa o povo de Deus e, em sentido mais amplo, toda a criação confiada à responsabilidade humana. A cerca indica proteção e cuidado. O lagar indica o lugar onde o fruto será transformado em vinho, símbolo bíblico de alegria, abundância e comunhão. A torre indica vigilância e responsabilidade. Cada detalhe revela que o dono da vinha preparou tudo com atenção e amor. O problema não está na estrutura do projeto divino, mas na atitude dos trabalhadores.

Os arrendatários simbolizam as lideranças encarregadas de cuidar da vinha. No contexto imediato da parábola são os chefes religiosos de Israel, responsáveis pela condução espiritual do povo. Contudo, o alcance do símbolo é muito mais amplo. Ele abrange qualquer liderança religiosa, política ou social que recebe autoridade e passa a agir como se fosse proprietária daquilo que pertence a Deus.

O erro fundamental dos vinhateiros é a mentalidade de posse. Eles deixam de se reconhecer como administradores e passam a se comportar como donos da vinha. Essa atitude revela uma distorção profunda da própria ideia de autoridade. Na perspectiva bíblica, autoridade sempre significa serviço.

A narrativa menciona também os servos enviados pelo proprietário para recolher os frutos. Esses servos representam os profetas enviados ao longo da história de Israel. A memória bíblica registra que muitos desses profetas foram perseguidos ou silenciados por denunciar injustiças. Jeremias foi preso e lançado numa cisterna por causa de sua palavra incômoda, como relata Jeremias 38. Amós foi expulso do santuário de Betel depois de denunciar a exploração dos pobres, segundo Amós 7,10-13. Zacarias foi assassinado no templo, conforme 2Crônicas 24,20-22. Jesus recorda essa história de perseguição quando lamenta sobre Jerusalém em Mateus 23,37, afirmando que a cidade mata os profetas e apedreja os enviados de Deus.

A violência contra os servos na parábola ecoa essa longa história de resistência à voz profética. No entanto, o ponto culminante da narrativa ocorre quando o proprietário decide enviar seu próprio filho. Na cultura semita o filho representava a autoridade e a presença do pai. Enviar o filho significava confiar plenamente na possibilidade de reconciliação. Contudo os vinhateiros dizem entre si: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e ficaremos com a herança”. Nesse momento a parábola revela uma dimensão antropológica profunda. O poder tende a se absolutizar. Quando pessoas ou instituições exercem autoridade durante muito tempo, podem começar a acreditar que aquilo que administram lhes pertence. A consciência de serviço se transforma lentamente em mentalidade de posse.

Esse mecanismo aparece em muitas dimensões da história humana. Ele se manifesta quando líderes religiosos transformam a fé em instrumento de dominação. Surge quando instituições passam a defender seus próprios interesses em vez de cuidar da vida do povo. A parábola de Jesus denuncia exatamente esse processo. Ao final da narrativa Jesus faz uma pergunta direta aos ouvintes. O que o dono da vinha fará quando voltar? Os próprios ouvintes respondem que ele destruirá os maus trabalhadores e confiará a vinha a outros que produzam frutos.

Então Jesus cita o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esse versículo se torna central na teologia do Novo Testamento. Ele aparece também em Atos 4,11 e em 1Pedro 2,7 para afirmar que Cristo, rejeitado pelos líderes de seu tempo, tornou-se fundamento de uma nova humanidade.

Nesse ponto surge um elemento fundamental da hermenêutica cristã. A parábola não anuncia apenas julgamento. Ela anuncia também um novo começo. A vinha não será destruída. O projeto de Deus continua na história. Ele será confiado a trabalhadores capazes de produzir frutos de vida.

A tradição do Novo Testamento retoma essa imagem em outros textos: 

  • No Evangelho de João, Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (João 15,1). Nesse discurso o discípulo é chamado a permanecer na videira para dar fruto. Quem permanece em Cristo produz vida; quem se separa dele torna-se estéril.

O critério fundamental da fé, portanto, não é o discurso religioso, mas o fruto produzido na história. A própria Bíblia insiste repetidamente nesse tema: 

  • Em Mateus 7,16 Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos.
  •  Em Gálatas 5,22-23 Paulo descreve o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. 
  • Em Tiago 2,17 encontramos uma formulação direta: a fé sem obras está morta.

A tradição bíblica não reconhece uma espiritualidade desligada da prática concreta da justiça. Essa dimensão torna-se especialmente importante quando observamos a realidade religiosa contemporânea. Em muitos contextos a fé foi reduzida a experiência individual ou a promessa de prosperidade pessoal.

A chamada teologia da prosperidade apresenta Deus como instrumento de ascensão econômica e transforma a relação com o sagrado em espécie de investimento espiritual. Essa lógica contradiz frontalmente a mensagem do Evangelho. Jesus afirma claramente em Mateus 6,24 que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro, e adverte em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância de bens.

A vinha de Deus não existe para enriquecer seus administradores, mas para produzir vida para o povo. Quando a religião se transforma em negócio ou instrumento de poder, ela repete o erro dos vinhateiros da parábola.

Os documentos sociais da Igreja também recordam essa dimensão ética da fé. A Constituição pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo. A encíclica Laudato Si' recorda que toda a criação é um dom confiado à responsabilidade humana.

Nesse sentido a vinha pode ser compreendida também como metáfora da própria terra. Quando ela é explorada de forma predatória e transformada apenas em fonte de lucro, a humanidade repete a lógica dos trabalhadores que se comportam como donos daquilo que receberam apenas para cuidar.

A parábola revela como estruturas de poder podem se fechar à crítica profética. Ao longo da história muitos sistemas políticos e religiosos eliminaram vozes incômodas para preservar privilégios. A morte simbólica do filho na parábola expressa exatamente esse mecanismo. No entanto, o Evangelho revela que a última palavra não pertence à violência. A pedra rejeitada torna-se fundamento. O Filho assassinado torna-se Senhor da vida. A ressurreição mostra que o projeto de Deus continua mesmo quando encontra resistência.

A imagem da vinha atravessa os quatro Evangelhos e aparece em contextos diferentes, sempre associada à responsabilidade humana diante do Reino:  

Em Mateus encontramos a parábola dos vinhateiros homicidas no contexto do confronto entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. O mesmo episódio aparece também em Marcos 12,1-12, Lucas 20,9-19. Nos três Evangelhos sinóticos a cena ocorre no templo, poucos dias antes da paixão, quando Jesus denuncia uma religião que perdeu sua dimensão profética.

O Evangelho de João não repete essa mesma parábola, mas desenvolve o simbolismo da vinha de forma mais espiritual. Em João 15,1-8 Jesus apresenta a imagem da videira e dos ramos para falar da comunhão entre Cristo e os discípulos. Permanecer na videira significa viver em comunhão com ele e produzir o fruto do amor, como o próprio texto afirma alguns versículos depois: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12).

Assim, ao percorrer os quatro Evangelhos, percebemos que a imagem da vinha se torna um fio condutor da revelação bíblica. Ela começa no Antigo Testamento como metáfora do povo de Deus, aparece na pregação profética como denúncia da injustiça e encontra em Jesus seu significado pleno. Quando esse Evangelho é proclamado na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, ele se torna um convite à conversão comunitária. A Igreja é chamada a examinar sua própria fidelidade ao Evangelho. A parábola não pertence apenas ao passado. Ela continua interpelando cada geração de cristãos.

Cada comunidade recebeu uma parte da vinha. Cada discípulo recebeu responsabilidades concretas na construção do Reino. A pergunta permanece viva: estamos produzindo frutos de justiça, de compaixão e de compromisso com a dignidade humana, ou estamos apenas administrando a vinha em benefício próprio?

O Evangelho continua sendo uma palavra profundamente provocadora. Ele questiona modelos de religião centrados no poder, no dinheiro ou no prestígio social. Ele recorda que a vinha pertence a Deus e que todos nós somos trabalhadores chamados a servir.

Cada gesto de solidariedade, cada defesa da vida, cada compromisso com a justiça é fruto da vinha de Deus. A parábola dos vinhateiros homicidas permanece como advertência e esperança. Advertência para que ninguém transforme a fé em instrumento de dominação. Esperança porque, apesar das infidelidades humanas, Deus continua confiando sua vinha à humanidade e esperando que ela produza frutos de vida para todos.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 16,19-31

O Evangelho de Lucas 16,19-31 é
proclamado na liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum do Ano C e também na quinta-feira da segunda semana da Quaresma. A Igreja o coloca em dois momentos distintos e complementares: no Tempo Comum, como alerta permanente sobre o uso dos bens e a responsabilidade social da fé; e na Quaresma, como apelo direto à conversão concreta. Não é um texto periférico, mas central na pedagogia espiritual da comunidade cristã, pois toca a relação entre culto e justiça, fé e prática, esperança escatológica e compromisso histórico.

A parábola insere-se na grande seção lucana que vai do capítulo 9 ao 19, o caminho de Jesus para Jerusalém. Nesse percurso, Lucas reúne ensinamentos sobre discipulado, pobreza, riqueza e misericórdia. O capítulo 16 começa com a parábola do administrador infiel e com advertências claras: não se pode servir a Deus e ao dinheiro. O pré-texto imediato revela que os fariseus, “amigos do dinheiro”, zombavam de Jesus. O evangelista, atento à realidade das primeiras comunidades cristãs, muitas delas compostas por pobres urbanos e camponeses marginalizados pelo sistema imperial romano, apresenta uma narrativa que não é abstração moral, mas leitura crítica da ordem social.

O contraste inicial é contundente. Um homem rico veste púrpura e linho finíssimo, cores e tecidos associados à elite e ao poder político. Banqueteia-se esplendidamente todos os dias. À sua porta jaz um pobre chamado Lázaro, coberto de chagas, desejando saciar-se das migalhas que caem da mesa. A menção do nome do pobre não é detalhe casual. Lázaro significa Deus ajuda. O rico permanece anônimo. A tradição bíblica confere nome aos que têm história diante de Deus, enquanto a opulência sem compaixão se dissolve no anonimato do juízo. A antropologia bíblica reconhece que o nome é identidade e vocação. Aqui, o invisível aos olhos da sociedade é conhecido pelo céu.

Historicamente, a Palestina do primeiro século vivia sob forte concentração de terras e tributos impostos pelo Império Romano. Pequenos agricultores eram frequentemente endividados e expulsos de suas propriedades, tornando-se mendigos ou trabalhadores eventuais. O rico da parábola representa uma classe que usufrui do sistema sem questioná-lo. Lázaro simboliza a massa dos excluídos que não possuem acesso à mesa, nem à saúde, nem à dignidade. O portão que os separa é mais do que elemento arquitetônico. É símbolo de fronteira social, de barreira econômica e de indiferença institucionalizada.

A exegese do texto mostra que o pecado do rico não é explicitamente descrito como violência ativa. Ele não agride Lázaro, não o expulsa, não o amaldiçoa. Seu pecado é a omissão estrutural. Vive como se o sofrimento ao lado não existisse. Aqui ecoa a advertência de Tiago 4,17: quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado. A parábola dialoga também com Amós 6, proclamado no mesmo domingo, que denuncia os que se deitam em leitos de marfim e não se afligem com a ruína de José. A crítica profética não é contra o conforto em si, mas contra a anestesia moral que transforma privilégios em absolutos.

Quando ambos morrem, a narrativa introduz a reversão escatológica. Lázaro é levado pelos anjos para o seio de Abraão. O rico é sepultado e se encontra em tormento. O seio de Abraão evoca comunhão, pertença à promessa, intimidade com o patriarca. Trata-se de imagem simbólica da esperança judaica de participação na herança dos justos. O abismo que agora separa os dois reflete o abismo cultivado em vida. A hermenêutica bíblica ensina que o juízo não é arbitrariedade divina, mas revelação da verdade do coração humano. O que foi construído na história manifesta-se na eternidade.

A teologia da reversão atravessa todo o Evangelho de Lucas. No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos e exalta humildes. Nas bem-aventuranças lucanas, os pobres são declarados felizes e os ricos advertidos. A parábola não institui uma luta de classes simplista, mas afirma que a história tem direção e que Deus toma partido da vida ameaçada. O Reino anunciado por Jesus não legitima sistemas que produzem descartáveis. A ressurreição não é anestesia da consciência social, mas selo da justiça divina.

O rico revela mecanismo de defesa comum. A proximidade constante do sofrimento pode gerar negação. Para preservar a própria estabilidade, o sujeito aprende a não ver. O outro torna-se paisagem. A dessensibilização é estratégia inconsciente para evitar culpa. No entanto, essa fuga tem preço. O texto sugere que o tormento pós-morte não é apenas físico, mas consciência tardia. O rico finalmente vê Lázaro, mas ainda o enxerga como servo, pedindo que ele vá molhar-lhe a língua ou advertir seus irmãos. Sua lógica utilitarista permanece intacta. A  parábola denuncia a naturalização da desigualdade. Quando a miséria é percebida como destino inevitável ou culpa individual, o sistema se perpetua. A fé cristã, porém, afirma que toda pessoa é imagem de Deus. A tradição social da Igreja, consolidada em documentos como Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II e aprofundada em Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, recorda que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário. A concentração obscena de renda, o descarte de trabalhadores, a indiferença diante dos migrantes e dos moradores de rua são formas contemporâneas do portão fechado.

O diálogo entre o rico e Abraão introduz outro símbolo decisivo. Há um grande abismo fixo. Na tradição bíblica, o abismo representa separação radical. Aqui, ele não foi criado por Deus de modo caprichoso. É consequência de escolhas reiteradas. A liberdade humana tem peso eterno. A parábola combate a ilusão de que sempre haverá tempo para mudar sem alterar práticas concretas. A conversão não é sentimento abstrato, mas transformação de relações.

Quando o rico pede que alguém ressuscite para advertir seus irmãos, Abraão responde que eles têm Moisés e os profetas. Se não escutam a Escritura, não acreditarão nem mesmo diante de um ressuscitado. A referência aponta para a própria rejeição de Jesus. A incredulidade não é falta de provas, mas resistência ética. Quem se beneficia da injustiça dificilmente acolhe uma mensagem que exige partilha. A ressurreição de Cristo confirma a denúncia e inaugura nova possibilidade histórica, mas não força corações endurecidos.

Nesse ponto, a crítica à teologia da prosperidade torna-se inevitável. Reduzir a bênção divina a sucesso financeiro contradiz frontalmente o Evangelho lucano. A lógica que identifica riqueza com favor divino e pobreza com maldição reforça o portão do rico. Jesus nunca prometeu acumulação, mas partilha. A espiritualidade individualista, centrada apenas na salvação da alma desligada da realidade social, ignora que o juízo em Mateus 25 se dá a partir de gestos concretos para com famintos, sedentos, estrangeiros e presos. A fé sem justiça social transforma-se em culto vazio.

Aqui vale a pena  cita  São João Crisóstomo  que disse: 

  • Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não O desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres no templo com vestes de seda, enquanto O abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: «Isto é o meu Corpo» (Mt 26,26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: «Porque tive fome e não Me destes de comer» (cf Mt 25, 35); e também: «Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer» (Mt 25,42.45). Aqui, o Corpo de Cristo não necessita de vestes, mas de almas puras; além, necessita de muitos desvelos. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas que sejam de ouro.  Não vos digo isto para vos impedir de fazer doações religiosas, mas defendo que simultaneamente, e mesmo antes, se deve dar esmola. Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Sacia primeiro o faminto, e depois adornarás o seu altar com o que sobrar. Fazes um cálice de ouro e não dás «um copo de água fresca» (Mt 10,42)? Pensa que se trata de Cristo, que é Ele que parte errante, estrangeiro, sem abrigo; e tu, que não O acolheste, ornamentas a calçada, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com correntes de prata as lamparinas, e a Ele, que está preso com grilhões no cárcere, nem sequer vais visitá-Lo? Não te digo isto para te impedir de tal generosidade, mas exorto-te a que a acompanhes ou a faças preceder de outros atos de beneficência. Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos o mais precioso.

Santo Ambrósio ensinava que a terra foi dada a todos, não apenas a alguns. Agostinho via na incredulidade diante da ressurreição sinal de orgulho que fecha o coração. Essa tradição patrística confirma que a caridade não é filantropia opcional, mas dimensão constitutiva da vida cristã.

A simbologia dos cães que lambem as feridas de Lázaro também merece atenção. No contexto judaico, cães eram considerados impuros. O detalhe sublinha o grau de degradação social do pobre. Ele é assistido apenas por animais, não por seres humanos. A narrativa provoca desconforto deliberado. Onde falha a compaixão humana, a criação reage. A teologia bíblica reconhece que toda a criação geme diante da injustiça, como ensina Romanos 8.

Na  nossa  realidade  os Lázaros multiplicam-se nas periferias urbanas, nos campos devastados pelo agronegócio predatório, nos corpos negros vitimados pela violência estrutural, nas mulheres exploradas, nos trabalhadores informais sem direitos. A globalização financeira cria riquezas extraordinárias enquanto amplia bolsões de miséria. A parábola não autoriza neutralidade. Ela convoca discernimento político e econômico à luz do Evangelho.

 Não se trata de demonizar toda pessoa rica nem de romantizar a pobreza. A questão central é a relação com os bens. São instrumentos de comunhão ou muros de separação. A tradição bíblica ensina que a terra é dom e responsabilidade. O jubileu em Levítico 25 previa mecanismos de redistribuição para impedir concentração permanente. O projeto divino sempre incluiu limites à acumulação.

No horizonte escatológico, o texto aponta para esperança e juízo. Esperança para os que sofrem, juízo para os que se fecham. A escatologia cristã não aliena, mas fundamenta o compromisso histórico. Se Deus é justo, nossas escolhas importam. Se Cristo ressuscitou, a morte não tem a última palavra, mas a indiferença também não ficará impune.

Essa  parábola hoje nos  coloca em diálogo com o caminho espiritual iniciado nos dias anteriores. 

  1. Na segunda-feira dessa mesma semana ressoa o Evangelho de Evangelho de Lucas 6,36-38, onde Jesus exorta: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. O Mestre continua dizendo que a medida com que medirmos será também a medida que receberemos. Esse ensinamento ilumina diretamente a história do rico e de Lázaro. O rico mediu sua vida pela lógica da indiferença e da acumulação, enquanto Lázaro viveu na dependência radical da misericórdia de Deus. O que em Lucas 6 aparece como princípio espiritual torna-se em Lucas 16 uma consequência dramática. A misericórdia que não se pratica torna-se ausência de comunhão. O portão fechado da casa do rico é o contrário do coração aberto que Jesus pede aos discípulos.
  2. Na terça-feira da segunda semana da Quaresma, a liturgia proclama Evangelho de Mateus 23,1-12, no qual Jesus denuncia a hipocrisia religiosa de certos líderes que “dizem e não fazem”. Ele critica aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros enquanto buscam prestígio, lugares de honra e reconhecimento público. Esse texto estabelece um paralelo profundo com a parábola do rico e Lázaro. A crítica não se dirige apenas ao acúmulo material, mas também à religião transformada em espetáculo de status. A lógica denunciada por Jesus em Mateus é a mesma que aparece no rico da parábola: uma vida organizada em torno da aparência, do privilégio e da autoafirmação, enquanto o sofrimento humano permanece invisível. O Evangelho revela que a verdadeira grandeza não está em ser servido, mas em servir. O rico não entendeu isso e continuou prisioneiro da própria hierarquia imaginária.
  3. Na quarta-feira da segunda semana da Quaresma, a liturgia apresenta Evangelho de Mateus 20,17-28, no qual Jesus anuncia sua paixão e, ao mesmo tempo, corrige a ambição dos discípulos que disputavam posições de poder. Ele afirma claramente que no Reino de Deus a autoridade se expressa como serviço: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos”. Essa palavra estabelece um contraste direto com a lógica social representada na casa do rico. Enquanto o mundo organiza relações a partir do domínio e da vantagem, o caminho de Cristo é a entrega da própria vida. A cruz que Jesus anuncia aos discípulos é o oposto da autossuficiência que sustenta o sistema de exclusão denunciado em Lucas 16. O Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos, revelando que a verdadeira riqueza do Reino está na doação.

Assim, ao chegar à quinta-feira e ouvir a parábola do rico e Lázaro, a comunidade já percorreu um itinerário pedagógico.

  •  Primeiro aprendeu que a medida da vida é a misericórdia; 
  • depois foi advertida contra a hipocrisia religiosa; 
  • por fim escutou que a autoridade no Reino se traduz em serviço.
A história do rico e de Lázaro aparece como síntese e consequência dessas três dimensões. Quem não pratica misericórdia fecha o coração. Quem transforma a religião em palco de prestígio perde a capacidade de enxergar o próximo. Quem busca poder em vez de serviço constrói abismos sociais. O texto lucano revela o resultado final desse caminho quando não há conversão.

Essa sequência litúrgica também provoca uma autocrítica necessária dentro da própria vida eclesial. Existe sempre o risco de uma Igreja excessivamente preocupada com detalhes externos do culto enquanto se torna menos sensível ao sofrimento humano. A tradição litúrgica é preciosa, mas perde seu sentido quando se absolutizam rubricas, contagem de velas, cores de vestes ou minúcias cerimoniais enquanto pessoas concretas permanecem invisíveis à porta. A Escritura recorda continuamente que Deus deseja misericórdia e não sacrifícios vazios, como proclamam os profetas e como Jesus reafirma. O culto autêntico não se opõe à caridade, mas nasce dela. Quando a comunidade se ocupa apenas da perfeição ritual e esquece os pobres, repete simbolicamente a casa do rico adornada por dentro enquanto Lázaro continua do lado de fora.

Por isso a tradição espiritual sempre insistiu que a liturgia e a justiça caminham juntas. O altar aponta para a mesa da partilha e a Eucaristia exige coerência com a vida. Celebrar o Corpo de Cristo implica reconhecê-lo também nos corpos feridos da história. A pedagogia da Quaresma conduz a Igreja a essa verdade essencial: não basta organizar ritos impecáveis se a misericórdia não atravessa as portas da comunidade. O Evangelho não despreza a beleza litúrgica, mas recorda que o sinal mais autêntico da presença de Deus continua sendo a compaixão que transforma a vida dos que estão caídos à beira do caminho.

A parábola do rico e Lázaro permanece como espelho incômodo. Ela revela que o verdadeiro problema não é a distância geográfica entre céu e inferno, mas a distância social entre a mesa farta e o corpo ferido à porta. O Reino de Deus começa quando o portão se abre. Cada gesto de partilha antecipa o banquete escatológico. Cada omissão aprofunda o abismo.

No tempo da Quaresma, o texto convida ao jejum que agrada a Deus, como em Isaías 58, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem teto. No Tempo Comum, recorda que a conversão não é sazonal, mas estilo permanente. Reconhecer Cristo no pobre é reconhecer a verdade do Evangelho. Ignorá-lo é repetir a incredulidade denunciada por Abraão.

Que a comunidade cristã não se contente com ornamentos litúrgicos enquanto corpos padecem à porta. O culto autêntico une altar e rua. O Deus de Abraão, de Jesus e dos profetas continua a ouvir o clamor dos Lázaros de hoje. A pergunta que permanece não é sobre o destino final apenas, mas sobre a travessia que realizamos agora. O abismo pode ser superado enquanto há tempo. A fé que se faz justiça transforma a história e antecipa a comunhão plena.



DNonato - Teólogo do Cotidiano