sexta-feira, 26 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 8,5-17

Na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana, Mateus 8,5-17 ocupa um lugar significativo dentro da proclamação do Evangelho ao longo do ano. O texto completo é proclamado no Sábado da 12ª Semana do Tempo Comum, reunindo numa única narrativa a cura do servo do centurião, a cura da sogra de Pedro e o atendimento às multidões enfermas ao entardecer. Uma parte da mesma passagem, Mateus 8,5-11, também é proclamada na Segunda-feira da 1ª Semana do Advento, quando a liturgia destaca especialmente a fé do oficial romano como sinal da abertura universal da salvação e como preparação para acolher a vinda do Senhor.  O relato paralelo da cura do servo do centurião em Lucas 7,1-10 aparece em outros momentos do Lecionário Romano. É proclamado na Segunda-feira da 24ª Semana do Tempo Comum e também no 9º Domingo do Tempo Comum do Ano C, quando a Igreja percorre o Evangelho de Lucas. A narrativa lucana apresenta algumas particularidades importantes: o centurião não se dirige pessoalmente a Jesus, mas envia anciãos judeus e amigos para intercederem em seu favor, reconhecendo-se indigno de receber o Mestre em sua casa. Apesar das diferenças narrativas, o núcleo teológico permanece o mesmo: a extraordinária fé de um estrangeiro que confia plenamente na autoridade da palavra de Cristo.

Os relatos paralelos da cura da sogra de Pedro e das multidões enfermas também ocupam lugar relevante na liturgia. Marcos 1,29-39é proclamado na Quarta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum e novamente no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Já Lucas 4,38-44 é proclamado na Quarta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. Dessa forma, a tradição litúrgica preserva continuamente a memória desse dia intenso do ministério de Jesus em Cafarnaum, apresentando-o sob diferentes perspectivas ao longo do ciclo anual das celebrações. A tradição oriental também confere grande importância a essas narrativas. Nas Igrejas Ortodoxas, o centurião é frequentemente apresentado como modelo de fé humilde e sinal da universalidade da salvação, enquanto a cura da sogra de Pedro e das multidões manifesta a compaixão de Cristo diante de toda forma de sofrimento humano. As tradições anglicana, luterana e demais Igrejas oriundas da Reforma igualmente preservam esses textos em seus calendários litúrgicos, associando-os à fé que ultrapassa fronteiras étnicas, culturais e religiosas.

A importância litúrgica dessa passagem é tão profunda que uma de suas frases tornou-se parte permanente da celebração eucarística católica. Pouco antes da comunhão, toda a assembleia repete as palavras do centurião: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo” (Mt 8,8). A oração expressa simultaneamente a humildade humana e a confiança absoluta na graça de Deus, tornando atual, em cada Eucaristia, a fé daquele oficial romano que reconheceu em Jesus uma autoridade maior do que a de qualquer império da terra.

Esse momento  ocorre logo após os capítulos iniciais  dedicados à infância de Jesus e depois do grande Sermão da Montanha (Mt 5–7), o evangelista passa a apresentar uma série de ações concretas que confirmam a autoridade daquele que havia ensinado as multidões. O sermão termina com uma observação significativa: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Em seguida, Mateus reúne diversos relatos de cura e libertação para mostrar que a autoridade de Jesus não se limita à palavra, mas alcança a doença, a exclusão, as forças do mal, a natureza e até mesmo a morte. A organização dessas narrativas não é aleatória. O capítulo 8 inicia-se com a cura de um leproso (Mt 8,1-4), alguém excluído da convivência religiosa e social. Logo depois aparece o centurião romano (Mt 8,5-13), representante do mundo gentio e da autoridade imperial. Em seguida surge a sogra de Pedro (Mt 8,14-15), uma mulher enferma inserida numa sociedade profundamente patriarcal. Mateus parece construir uma verdadeira catequese sobre o Reino de Deus: Jesus aproxima-se do excluído, acolhe o estrangeiro e restaura quem havia sido reduzido à invisibilidade. A ação divina manifesta-se precisamente onde as estruturas humanas produzem distância, sofrimento e marginalização.

Para compreender a profundidade desse encontro entre Jesus e o centurião, é necessário recordar o contexto histórico da Palestina do século I. A região encontrava-se sob domínio do Império Romano. A presença militar estrangeira, a cobrança de impostos, as desigualdades econômicas e as tensões políticas marcavam profundamente a vida cotidiana. Muitos judeus alimentavam a esperança de um Messias que libertasse Israel da dominação estrangeira e restaurasse sua autonomia nacional.

O centurião mencionado por Mateus representa justamente a presença concreta desse império. Um centurião era um oficial responsável por aproximadamente cem soldados. Embora não integrasse a elite política de Roma, possuía autoridade significativa e desempenhava funções importantes na manutenção da ordem imperial. Para muitos judeus, ele simbolizava a ocupação estrangeira e tudo aquilo que ela representava.

É exatamente por isso que o encontro narrado por Mateus possui força extraordinária. As relações entre judeus e romanos eram frequentemente marcadas por desconfiança, ressentimento e conflitos. Além das diferenças políticas, existiam barreiras culturais e religiosas. Os gentios eram frequentemente vistos como ritualmente impuros, e a convivência entre os grupos nem sempre era simples. A expectativa de muitos contemporâneos de Jesus apontava para um Messias que derrotaria os inimigos de Israel. Jesus, porém, segue um caminho diferente. Em vez de rejeitar o oficial romano por sua origem ou função, acolhe seu pedido e responde ao seu sofrimento com compaixão. O relato paralelo de Lucas (Lc 7,1-10) acrescenta detalhes importantes. Lucas informa que o centurião mantinha boas relações com a comunidade judaica local e havia contribuído para a construção da sinagoga. Também relata que ele envia intermediários para falar com Jesus. Mateus simplifica a narrativa e coloca o próprio oficial diante do Mestre. Não se trata de contradição, mas de uma opção teológica. Enquanto Lucas enfatiza a mediação comunitária e os vínculos estabelecidos entre o centurião e o povo judeu, Mateus concentra toda a atenção na fé extraordinária daquele homem e em seu significado para a missão universal do Reino.

A primeira fala do centurião já revela um aspecto surpreendente de sua personalidade: “Senhor, meu servo está em casa, paralítico, sofrendo horrivelmente” (Mt 8,6). Num mundo em que os servos eram frequentemente tratados como propriedade, o oficial demonstra preocupação sincera por alguém socialmente inferior. Sua autoridade não elimina sua capacidade de compaixão. A dor do servo torna-se sua própria dor. A resposta de Jesus é imediata: “Eu irei curá-lo” (Mt 8,7). O evangelho não registra qualquer investigação sobre a origem do sofrimento, a situação moral do enfermo ou a identidade religiosa do oficial. A necessidade humana basta para despertar a compaixão divina. Esse traço atravessa todo o ministério de Jesus: diante da dor, a misericórdia precede qualquer julgamento e a vida possui prioridade sobre qualquer formalismo religioso. A resposta do centurião constitui uma das mais belas profissões de fé de todo o Evangelho: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize apenas uma palavra e meu servo será curado” (Mt 8,8). Nela encontram-se reunidas duas atitudes fundamentais da espiritualidade bíblica: a humildade e a confiança. O oficial reconhece seus limites, mas não duvida do poder de Cristo. Não exige sinais extraordinários, não impõe condições e não busca garantias adicionais. Sua esperança repousa inteiramente na eficácia da palavra de Jesus.

Para a mentalidade bíblica, a palavra não é mera comunicação verbal. Desde as primeiras páginas das Escrituras, ela aparece como força criadora e transformadora. “Deus disse: Faça-se a luz. E a luz se fez” (Gn 1,3). O Salmo 33 proclama que os céus foram criados pela palavra do Senhor (Sl 33,6), enquanto Isaías afirma que a palavra divina jamais retorna sem produzir fruto (Is 55,10-11). O prólogo do Evangelho de João levará essa compreensão ao seu ponto mais alto ao identificar Jesus como o Verbo eterno de Deus feito carne (Jo 1,1-14). Ao acreditar que uma única palavra de Cristo seria suficiente para curar seu servo, o centurião reconhece, ainda que intuitivamente, a presença da própria autoridade criadora de Deus agindo em Jesus.

A explicação que ele oferece nasce de sua experiência militar. Acostumado à lógica da autoridade, sabe que uma ordem legítima produz efeitos concretos. Se seus subordinados obedecem às suas palavras, quanto mais as enfermidades, as forças do mal e tudo aquilo que ameaça a vida humana estariam submetidos à autoridade daquele que ele reconhece como Senhor. O centurião percebe que existe em Jesus um poder que ultrapassa o dos exércitos, dos governantes e dos impérios. A reação de Jesus é surpreendente. O evangelista afirma que ele se admirou. Os Evangelhos registram poucas ocasiões em que Jesus manifesta admiração. Em Nazaré, ele se admira da incredulidade de seus conterrâneos (Mc 6,6); aqui, admira-se da fé de um estrangeiro. “Em verdade vos digo: em ninguém de Israel encontrei fé tão grande” (Mt 8,10). Essa declaração não deve ser interpretada como rejeição de Israel. Mateus escreve para uma comunidade profundamente marcada por suas raízes judaicas. O que Jesus questiona não é a identidade do povo da aliança, mas qualquer pretensão de que a proximidade com Deus possa ser garantida simplesmente pela pertença religiosa, cultural ou institucional. A fé não é herança automática nem privilégio de grupo algum. Ela floresce onde existe abertura sincera à ação de Deus.

A fé do centurião possui ainda um significado que ultrapassa o episódio imediato narrado por Mateus. Ela antecipa o horizonte universal que será plenamente revelado ao final do Evangelho. Aquele estrangeiro que confia na palavra de Jesus torna-se uma espécie de prenúncio da missão confiada aos discípulos após a ressurreição: “Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). O mesmo Evangelho que apresenta um gentio como modelo de confiança culminará com o envio da Igreja a todos os povos da terra. Por isso, Jesus prossegue com uma das afirmações mais universais de todo o Novo Testamento: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus” (Mt 8,11). A imagem remete às promessas proféticas de Isaías (Is 25,6-8), nas quais todas as nações são convidadas para o banquete preparado por Deus. O Reino anunciado por Jesus não se limita a um povo, uma cultura ou uma fronteira. Ele aponta para a reconciliação de toda a humanidade. Essa visão conserva extraordinária atualidade. Em um mundo marcado por nacionalismos excludentes, preconceitos étnicos, xenofobia e polarizações, o Evangelho recorda que Deus não constrói muros, mas convida à comunhão. O Reino não se organiza a partir da pureza identitária, da superioridade cultural ou da exclusão dos diferentes. A mesa preparada por Deus permanece aberta a homens e mulheres vindos de todas as direções da terra. A figura do centurião continua sendo um desafio para a Igreja de todos os tempos. Ela recorda que a graça divina frequentemente surpreende nossas expectativas e que Deus pode suscitar exemplos luminosos de fé onde menos se espera encontrá-los. O Evangelho convida continuamente os discípulos a abandonarem toda forma de autossuficiência religiosa e a reconhecerem que o Espírito de Deus continua agindo com liberdade na história humana. 

Após o encontro com o centurião, Mateus  nos conduz  para um ambiente completamente diferente. Se a narrativa anterior acontece no contexto do diálogo entre um representante do império e um mestre judeu, agora a ação desloca-se para o interior de uma casa simples em Cafarnaum. A mudança de cenário não diminui a importância do acontecimento. Pelo contrário, revela que a misericórdia de Deus atua tanto nos grandes conflitos da história quanto nas fragilidades silenciosas da vida cotidiana..“Jesus entrou na casa de Pedro e viu a sogra dele de cama, com febre” (Mt 8,14). A brevidade da narrativa não deve esconder sua profundidade teológica. No mundo mediterrâneo do século I, a casa constituía o centro da vida familiar, econômica e social. A enfermidade de um de seus membros afetava toda a dinâmica doméstica. Além disso, a mulher ocupava uma posição social limitada dentro das estruturas patriarcais da época. A sogra de Pedro aparece sem nome, sem prestígio e sem voz própria na narrativa. Ainda assim, torna-se destinatária da atenção de Jesus.

O evangelista destaca que Jesus a viu. Nos Evangelhos, o olhar de Jesus nunca é indiferente. Ele vê aqueles que frequentemente permanecem invisíveis para a sociedade. Vê os pobres, os enfermos, os pecadores, os marginalizados e todos os que foram reduzidos ao esquecimento pelas estruturas sociais e religiosas. Ver, em linguagem evangélica, significa reconhecer dignidade e restaurar humanidade. Essa dimensão conserva enorme relevância para a realidade contemporânea. Muitas formas de exclusão começam quando uma pessoa deixa de ser percebida como sujeito e passa a ser tratada apenas como problema, estatística ou peso social. Os pobres, os idosos abandonados, os migrantes, os moradores de rua e tantas outras populações vulneráveis conhecem essa dolorosa experiência da invisibilidade. O olhar de Jesus rompe essa lógica ao devolver centralidade à pessoa concreta. Mateus prossegue: “Jesus tocou sua mão, e a febre a deixou” (Mt 8,15). O toque possui profundo significado simbólico. O mesmo Cristo que havia tocado o leproso considerado impuro agora toca uma mulher enferma. Em ambos os casos, a lógica da pureza ritual é superada pela lógica da misericórdia. Em vez de ser contaminado pela fragilidade humana, Jesus comunica vida, saúde e restauração..A tradição bíblica apresenta repetidamente Deus como aquele que se aproxima do sofrimento de seu povo. No relato do Êxodo, o Senhor declara: “Eu vi a aflição do meu povo, ouvi seu clamor e conheço seus sofrimentos” (Ex 3,7). Em Jesus, essa proximidade torna-se concreta e visível. Deus não permanece distante da dor humana; entra nela, compartilha-a e trabalha por sua transformação.

A cura da sogra de Pedro apresenta um detalhe particularmente importante: “Ela se levantou e começou a servi-lo” (Mt 8,15). O verbo utilizado por Mateus remete ao serviço que caracteriza o discipulado cristão. O evangelista não está descrevendo simplesmente o retorno às atividades domésticas, mas a resposta de quem experimentou a ação libertadora de Deus. A cura conduz ao serviço; a graça transforma-se em missão. Esse princípio atravessa toda a espiritualidade cristã. Jesus não restaura as pessoas apenas para devolvê-las à situação anterior. Sua ação inaugura uma nova forma de existência. A salvação bíblica não consiste somente na remoção da enfermidade, mas na recuperação da capacidade de amar, servir e participar da vida da comunidade. Quem foi alcançado pela misericórdia torna-se chamado a ser instrumento de misericórdia. Nesse sentido, a sogra de Pedro torna-se uma figura exemplar do discipulado. Sua primeira reação após a cura não é voltar-se para si mesma, mas colocar-se a serviço. O Evangelho sugere que a verdadeira experiência de Deus não conduz ao fechamento individualista, mas à abertura para os outros. A gratidão transforma-se em disponibilidade; a restauração torna-se compromisso..A tradição cristã reconheceu nessa passagem uma imagem da própria Igreja. Também ela é continuamente curada por Cristo para servir. Sua missão não consiste em buscar prestígio, poder ou privilégios, mas em colocar-se a serviço da vida, especialmente onde ela se encontra ameaçada. Sempre que a comunidade cristã esquece essa vocação, afasta-se do modelo apresentado pelo Evangelho.

A narrativa da sogra de Pedro funciona, portanto, como complemento da história do centurião:

  1. Na primeira, Jesus ultrapassa fronteiras étnicas e religiosas
  2.  Na segunda, supera barreiras sociais e culturais. 
  • Em ambas, revela-se o mesmo Reino de Deus: uma realidade que restaura a dignidade humana, reintegra os excluídos e transforma a experiência da graça em caminho de serviço.

Ao cair da tarde, a narrativa amplia seu horizonte. O que começou com o pedido de um centurião e prosseguiu no ambiente doméstico da casa de Pedro transforma-se agora numa cena coletiva: “Ao entardecer, levaram-lhe muitos endemoninhados. Ele expulsou os espíritos com sua palavra e curou todos os doentes” (Mt 8,16). O evangelista apresenta uma verdadeira convergência do sofrimento humano em direção a Jesus. O detalhe temporal possui importância histórica. O entardecer marcava o fim do sábado judaico. Muitas pessoas aguardavam o término das restrições sabáticas para conduzir os enfermos até Jesus. Diante da casa de Pedro forma-se uma multidão composta por homens e mulheres marcados pelas mais diversas formas de sofrimento. Ali estão os doentes físicos, os perturbados em seu espírito, os marginalizados e todos aqueles para quem as estruturas sociais e religiosas haviam se mostrado insuficientes.

Mateus não se detém na descrição individual de cada enfermidade. Seu interesse é mais profundo. O sofrimento aparece em sua dimensão universal. A cena simboliza uma humanidade ferida que busca em Cristo aquilo que não encontra em nenhum outro lugar: restauração, acolhimento e esperança. O evangelista deseja mostrar que nenhuma dor humana está fora do alcance da misericórdia divina. A afirmação de que Jesus expulsava os espíritos com sua palavra retoma um tema central de toda a passagem: a autoridade de Cristo. A mesma palavra que o centurião reconheceu como capaz de curar à distância agora manifesta seu poder diante das forças que desfiguram a vida humana. A autoridade de Jesus não se impõe pela violência nem pelo medo. Ela se revela como força libertadora que devolve às pessoas sua dignidade e sua liberdade.

A linguagem dos espíritos impuros deve ser compreendida com cuidado hermenêutico. O mundo bíblico não separava rigidamente as dimensões física, psicológica, social e espiritual da existência humana. Muitas formas de sofrimento eram expressas mediante a linguagem da possessão porque afetavam profundamente a integridade da pessoa. O objetivo principal do texto não é oferecer uma explicação médica ou psicológica, mas afirmar que Deus deseja libertar o ser humano de tudo aquilo que o escraviza e o desumaniza. Essa perspectiva permite reconhecer que a ação libertadora de Cristo continua atual. Existem forças que ultrapassam a esfera individual e assumem dimensão coletiva. A violência estrutural, a pobreza persistente, o racismo, a corrupção, a exploração econômica, a cultura do descarte, a manipulação ideológica e todas as formas de negação da dignidade humana podem ser compreendidas como expressões de realidades que se opõem ao projeto de vida querido por Deus. O Evangelho proclama que nenhuma dessas forças possui a palavra definitiva sobre a história. Nesse ponto, Mateus introduz uma chave decisiva de interpretação ao citar o profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Essa referência conecta toda a atividade de Jesus à figura do Servo Sofredor. O evangelista não vê as curas como demonstrações espetaculares de poder, mas como sinais da solidariedade de Deus com a humanidade ferida.

A imagem do Servo, presente em Isaías, surgiu num contexto de sofrimento coletivo, exílio e esperança de restauração. O Servo participa da dor do povo e assume sobre si seus sofrimentos. Mateus reconhece em Jesus o cumprimento pleno dessa profecia. Cristo não permanece distante da fragilidade humana; aproxima-se dela, toca-a e a assume. Sua compaixão não é sentimentalismo, mas participação concreta na condição daqueles que sofrem. Essa dinâmica alcançará sua expressão máxima na cruz. As curas realizadas em Cafarnaum já antecipam o mistério pascal. O mesmo Jesus que toma sobre si as enfermidades carregará também o peso do pecado, da violência e da rejeição humana. Sua missão não consiste apenas em aliviar dores individuais, mas em inaugurar uma nova criação reconciliada com Deus.

A psicologia da espiritualidade frequentemente observa que uma das experiências mais dolorosas do sofrimento é a sensação de abandono. A dor torna-se ainda mais pesada quando parece não encontrar compreensão nem companhia. O Evangelho responde a essa realidade apresentando um Deus que não observa o sofrimento à distância. Em Jesus, Deus entra na história humana e compartilha suas feridas. A esperança cristã nasce precisamente dessa solidariedade divina. A cena diante da casa de Pedro torna-se, assim, uma imagem antecipada da própria missão da Igreja. A comunidade cristã é chamada a ser lugar de acolhida para os feridos da história, não um espaço de autorreferência ou privilégio. Sua identidade não se constrói pelo poder, mas pelo serviço; não pela exclusão, mas pela hospitalidade; não pelo controle das pessoas, mas pelo testemunho da misericórdia.

Por isso, a Igreja permanece fiel ao Evangelho quando prolonga no mundo o olhar que vê os invisíveis, a mão que levanta os abatidos e a palavra que anuncia esperança. Sempre que se afasta dessa vocação, corre o risco de perder de vista aquele que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). A liturgia  ao nos trazer o os  relatos:  do centurião, a sogra de Pedro e a multidão de enfermos  revela, portanto, um único movimento teológico. O Reino de Deus avança em direção às periferias humanas. Ele alcança o estrangeiro, restaura a pessoa esquecida e acolhe os que carregam o peso do sofrimento. Em cada encontro, Jesus manifesta a mesma verdade fundamental: o poder de Deus se revela não na dominação, mas na misericórdia que cura, liberta e devolve vida.

A narrativa de Mateus 8,5-17 revela um eixo teológico consistente: a autoridade de Jesus manifesta-se como poder de restauração da vida. Não se trata de um poder dominador, mas de uma força que reorganiza a existência humana a partir da misericórdia. O centurião reconhece essa autoridade na palavra; a sogra de Pedro a experimenta no corpo; e a multidão de enfermos a recebe como libertação concreta. O texto constrói, assim, uma cristologia em ato, onde a identidade de Jesus é percebida menos por definições abstratas e mais por sua ação histórica. Essa sequência também desmonta qualquer leitura religiosa centrada em privilégios ou garantias institucionais. 

  • A fé do centurião, a fragilidade da mulher enferma e a condição marginal dos doentes formam um contraponto direto a qualquer sistema que pretenda monopolizar o acesso a Deus. O Evangelho insiste em deslocar o centro: não está nas estruturas religiosas, mas na abertura concreta à ação divina.

Nesse ponto, o texto lucano e mateano convergem num elemento decisivo: a fé não é propriedade cultural, nem herança automática, nem resultado de pertencimento social. Trata-se de uma abertura existencial à palavra de Deus que pode emergir em contextos inesperados. Isso implica uma crítica interna às próprias comunidades religiosas quando estas passam a confundir identidade com superioridade espiritual. A tradição profética de Israel já havia denunciado esse risco. Isaías, Amós e Jeremias insistem que culto sem justiça torna-se vazio e até contraditório. A religião, quando desligada da vida concreta, pode converter-se em linguagem sacralizada de opressão. Essa tensão atravessa toda a Escritura e reaparece de forma incisiva no ministério de Jesus, especialmente em sua aproximação dos marginalizados e na crítica implícita às formas de religiosidade que excluem em nome da pureza.

O texto evidencia um princípio recorrente: instituições religiosas tendem, ao longo do tempo, a produzir mecanismos de autopreservação. Quando isso ocorre, há o risco de deslocamento do centro da fé, que deixa de ser o serviço à vida e passa a ser a manutenção de estruturas. O Evangelho opera continuamente como força de desestabilização desse movimento, recolocando no centro os que foram colocados à margem. Esse deslocamento tem consequências diretas para a compreensão de autoridade. Em Mateus 8, a autoridade de Jesus não se assemelha à lógica militar do centurião nem à hierarquia religiosa do templo. Trata-se de uma autoridade paradoxal: quanto mais ela se exerce, mais vida ela gera; quanto mais se manifesta, mais restaura relações. Isso rompe com modelos de poder baseados em controle, medo ou imposição. E  revela algo estrutural: o ser humano não se realiza isoladamente, mas em redes de relação e cuidado. O servo do centurião, a sogra de Pedro e a multidão enferma representam diferentes formas de vulnerabilidade humana. Em todos os casos, a ação de Jesus não apenas resolve uma condição individual, mas reintegra a pessoa a um tecido relacional mais amplo. A cura, nesse sentido, é também reinserção social.

Ao conectar o texto de Mateus com Isaías 53, que apresenta o Servo Sofredor, desloca-se a compreensão da salvação de uma lógica meramente funcional para uma lógica de solidariedade radical: Deus não apenas intervém na história, mas assume por dentro a condição ferida da humanidade. Em continuidade, Mateus 8 mostra que essa solidariedade se torna critério e medida da própria vida eclesial, de modo que a Igreja só permanece fiel ao Evangelho quando não se separa do sofrimento humano, mas o assume como lugar teológico de sua missão. Nesse horizonte, toda forma de clericalismo ou autorreferencialidade religiosa aparece como desvio, pois rompe a dinâmica do serviço e obscurece a centralidade da misericórdia como expressão concreta da autoridade divina. Por fim, a abertura do Reino ao “oriente e ao ocidente” impede qualquer apropriação identitária da fé e afirma seu caráter universal: a graça não se deixa aprisionar por fronteiras culturais, institucionais ou religiosas, mas se manifesta como força que reúne, cura e reconcilia a humanidade ferida em torno da vida que Deus quer para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 8,1-4

A cura do leproso narrada em Mateus 8,1-4 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica e teológica da Igreja. Na liturgia católica romana, este Evangelho é proclamado na sexta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum dos anos ímpares. Seu paralelo em Marcos 1,40-45 aparece na quinta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum e também no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Já a versão de Lucas 5,12-16 é proclamada na sexta-feira após a Epifania do Senhor. Essa presença recorrente nos ciclos litúrgicos manifesta que a Igreja não lê esse episódio como um milagre isolado, mas como uma chave hermenêutica da identidade de Jesus e da dinâmica do Reino de Deus. A convergência dos Evangelhos Sinóticos reforça essa centralidade. Mateus destaca a autoridade messiânica daquele que cumpre as promessas de Israel; Marcos enfatiza a compaixão visceral de Jesus diante do sofrimento humano; Lucas sublinha a universalidade da salvação e a oração constante de Cristo ao Pai. Essas três perspectivas não competem entre si, mas se complementam, oferecendo um retrato teologicamente denso do Salvador: o Messias prometido, o Servo compassivo e o Filho em permanente comunhão com Deus.

A posição do episódio em Mateus possui forte densidade teológica. Após o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus desce do monte e encontra a realidade concreta da dor humana. O movimento evoca Moisés descendo do Sinai com as tábuas da Lei (Ex 34,29-35), mas também revela uma superação. Em Cristo, não se trata apenas de transmissão da Lei, mas da presença viva de Deus na história. Ele é a própria Palavra feita carne (Jo 1,14). Assim, a descida do monte simboliza o novo Êxodo: não apenas libertação política, mas libertação integral do pecado, da exclusão e da morte. A Galileia do século I, cenário do episódio, era uma região marcada por desigualdade econômica, concentração fundiária, exploração tributária e tensões religiosas. Sob o domínio romano e sob o peso de elites locais, a vida dos camponeses e marginalizados era precária. Nesse contexto, a exclusão dos leprosos intensificava ainda mais uma estrutura já profundamente desigual. O encontro de Jesus com o leproso não é, portanto, um gesto neutro: é um ato que atravessa fronteiras sociais, religiosas e políticas, revelando o Reino de Deus como realidade que se manifesta nas margens da história.

O primeiro personagem encontrado por Jesus não é um sacerdote nem um escriba, mas um leproso. A escolha é teologicamente decisiva. Segundo Levítico 13–14, a lepra não era apenas uma condição médica, mas um estado de impureza ritual que implicava exclusão comunitária. O doente deveria viver afastado, cobrir-se e gritar “Impuro! Impuro!” (Lv 13,45-46). A exclusão era total: religiosa, social e existencial. O leproso era alguém cuja vida havia sido reduzida à marginalidade institucionalizada. É nesse contexto que o homem se aproxima de Jesus e se ajoelha. Seu gesto rompe o isolamento imposto pela lei e pela sociedade. Sua oração é simples e teologicamente profunda: “Senhor, se queres, tens o poder de purificar-me” (Mt 8,2). Ele não impõe condições, não reivindica direitos, não manipula Deus. Reconhece a soberania de Cristo e se abandona à sua vontade. Aqui aparece a fé como confiança radical, próxima da espiritualidade dos Salmos, onde o sofrimento não elimina a esperança (cf. Sl 22; Sl 38; Sl 130).

É significativo que o pedido não seja apenas por cura, mas por purificação. O verbo subjacente no texto grego é katharízō, que significa tornar puro, restaurar a condição de comunhão. O milagre não é apenas físico; é relacional, cultual e comunitário. Jesus não apenas devolve saúde, mas reintegra o homem à vida plena do povo de Deus. A resposta de Jesus é direta: “Eu quero, fica limpo” (Mt 8,3). Em seguida, Ele estende a mão e toca o leproso. Esse gesto é o ponto de ruptura da narrativa. Segundo a lógica ritual do Judaísmo do Segundo Templo, o contato com o impuro tornava alguém impuro (Lv 5,3; Nm 19,22). Em Jesus, essa lógica é invertida: não é a impureza que se transmite, mas a santidade que restaura. O toque de Cristo não preserva distância; ele cria comunhão.

Nesse gesto, a Igreja primitiva reconheceu uma antecipação da Encarnação. Deus não salva à distância. Ele entra na carne humana, assume sua fragilidade e transforma a realidade a partir de dentro. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O toque do leproso já contém a lógica da encarnação: proximidade radical com aquilo que foi rejeitado. Os Padres da Igreja perceberam essa dimensão profundamente. São João Crisóstomo observa que Cristo poderia ter curado apenas com a palavra, mas escolheu tocar o leproso para mostrar que nenhuma impureza humana pode contaminar Deus; ao contrário, é a santidade divina que transforma o impuro. Santo Agostinho, por sua vez, via na lepra uma imagem da desfiguração interior causada pelo pecado. Cristo toca o homem não para ser contaminado, mas para restaurar a imagem divina nele obscurecida.

A ação de Jesus também se insere na tradição profética. Isaías anuncia o Servo do Senhor que “tomou sobre si nossas enfermidades e carregou nossas dores” (Is 53,4). O toque no leproso antecipa a lógica da cruz: Deus não elimina a dor à distância, mas a assume em solidariedade redentora. O gesto de cura é também um gesto de entrega. O episódio dialoga ainda com a narrativa de Naamã (2Rs 5). O general sírio, leproso, encontra cura não por mérito próprio, mas pela intervenção de Deus através do profeta Eliseu. Quando o rei de Israel reage dizendo: “Sou eu Deus para dar morte e vida?” (2Rs 5,7), revela-se a consciência de que a cura da lepra pertence ao domínio divino. Em Jesus, essa ação divina se manifesta de modo pleno e imediato, sem mediações rituais complexas. O episódio também se conecta às promessas de Isaías: “Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos” (Is 35,5-6). Os sinais do Reino são sinais de restauração integral da vida. A cura do leproso, portanto, não é apenas um ato de compaixão individual, mas um sinal escatológico.

Após a cura, Jesus ordena que o homem se apresente ao sacerdote e cumpra o rito prescrito por Moisés (Mt 8,4). Isso indica que Jesus não rejeita a Lei, mas a leva à sua plenitude (Mt 5,17). Contudo, essa obediência não deve ser confundida com legalismo. Os profetas já haviam denunciado uma religião centrada em ritos sem justiça. “Misericórdia quero, e não sacrifício” (Os 6,6), afirma o Senhor, palavra que Jesus retomará em Mateus 9,13 e 12,7. A Lei, quando isolada de sua finalidade de vida, pode tornar-se instrumento de exclusão. Jesus, ao contrário, restitui seu sentido original: promover a vida e a comunhão. A reintegração do leproso não é apenas religiosa, mas social e existencial. Ele volta a pertencer.

Esse movimento encontra paralelo direto na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Enquanto sacerdote e levita evitam o homem ferido para preservar pureza ritual, o samaritano se aproxima, toca e cuida. Em ambos os casos, a verdadeira fidelidade a Deus se manifesta no cuidado concreto com o ferido. O gesto de Jesus também se relaciona diretamente com Mateus 25,31-46. O Cristo que toca o leproso é o mesmo que se identifica com os famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados. “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes.” A cristologia de Mateus não separa culto e misericórdia.nNão se trata de identificar pecado com doença, mas de reconhecer a fragmentação humana. O pecado rompe relações, produz isolamento e desfigura a comunhão. Isaías expressa essa condição: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas” (Is 53,6). Paulo radicaliza: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

A Igreja ver no  gesto de Jesus  uma antecipação da vida sacramental. Assim como Cristo toca o leproso, Ele continua a tocar a humanidade através dos sacramentos. Na Eucaristia, especialmente, o Cristo ressuscitado aproxima-se da fragilidade humana para restaurar a comunhão quebrada pelo pecado.

Os “leprosos” continuam presentes sob novas formas:

  •  pobres invisibilizados,
  •  moradores de rua, 
  • migrantes, 
  • dependentes químicos,
  •  encarcerados, 
  • idosos abandonados 
  • todos os que a lógica econômica descarta. 
A exclusão hoje não se expressa em termos rituais, mas em termos de utilidade social. O resultado, porém, é semelhante: vidas reduzidas à invisibilidade. Em meio a um mundo marcado por polarizações ideológicas, individualismo e cultura do descarte, o Evangelho propõe outra lógica. Jesus não reduz o ser humano à sua condição ferida, mas também não ignora a ferida. Ele vê, toca e restaura.

O leproso de Mateus 8 antecipa, portanto, o julgamento escatológico de Mateus 25. O encontro com o excluído é encontro com o próprio Cristo. A fé cristã não pode ser separada da prática da misericórdia.  Diante disso, a questão decisiva não é apenas histórica,  se Jesus curou um leproso na Galileia,  mas existencial e eclesial: quem são os leprosos de hoje? Enquanto houver vidas relegadas à invisibilidade, o gesto de Cristo permanece inacabado na história. 

A cura do leproso, por fim, aponta para o horizonte último da fé cristã: a nova criação prometida por Deus, na qual “não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor” (Ap 21,4). Cada gesto de cura realizado por Jesus não se encerra em si mesmo; ele funciona como sinal sacramental do Reino que vem, antecipação histórica de uma realidade escatológica ainda em gestação. O Evangelho, nesse sentido, não descreve apenas intervenções pontuais de Deus no passado, mas revela a direção profunda da história: a passagem da exclusão para a comunhão, da fragmentação para a unidade, da morte para a vida. Essa esperança não é evasão do mundo, mas crítica radical de suas estruturas de injustiça. A escatologia bíblica não legitima resignação, mas alimenta a responsabilidade histórica. O futuro prometido por Deus já irrompe no presente sempre que a dignidade humana é restaurada, sempre que relações rompidas são reconstituídas, sempre que o excluído volta a ser reconhecido como sujeito pleno. Nesse sentido, a cura do leproso não é apenas um milagre isolado, mas um ato revelador de como Deus age na história e de como a história é chamada a se configurar segundo o seu desígnio.

A Igreja, enquanto peregrina no tempo, vive nesse intervalo tenso entre o “já” e o “ainda não” do Reino. Ela não é o Reino em sua plenitude, mas é chamada a ser seu sinal visível e eficaz. Sua credibilidade evangélica não se mede apenas pela fidelidade doutrinal, mas pela transparência com que torna presente o estilo de agir de Cristo: proximidade com os feridos, liberdade diante das exclusões, coragem diante das estruturas que produzem marginalização. Sempre que a Igreja se fecha em autorreferencialidade, perde sua força simbólica; sempre que se abre ao serviço concreto da vida, torna-se sacramento do Reino. A missão eclesial não pode ser reduzida a conservação institucional nem a disputas internas de poder. Ela se realiza, antes de tudo, como continuidade do gesto de Jesus que estende a mão e toca o que era considerado intocável. Isso implica uma espiritualidade encarnada, capaz de discernir os “leprosos” de cada época não como categorias abstratas, mas como rostos concretos, histórias feridas e vidas concretas clamando por reintegração. A fidelidade ao Evangelho exige essa leitura espiritual da realidade, onde a contemplação de Cristo conduz inevitavelmente ao encontro com o sofredor.

Ao mesmo tempo, essa dinâmica revela que a santidade cristã não se define pela separação do mundo, mas pela capacidade de transformar o mundo a partir de dentro. A santidade de Cristo não evitou o contato com a impureza; ao contrário, manifestou-se precisamente no contato que cura. Assim também a vida cristã é chamada a superar toda forma de religiosidade defensiva ou puramente ritualista, que protege identidades à custa da exclusão do outro. O Evangelho desloca continuamente o centro da religião para a misericórdia. Por isso, a cura do leproso permanece como uma provocação permanente à consciência da Igreja e da sociedade. Ela interroga tanto as estruturas religiosas quanto os sistemas sociais que naturalizam a exclusão. Em um mundo onde a dignidade humana frequentemente é subordinada à eficiência, ao lucro ou à utilidade, o gesto de Jesus afirma que nenhum ser humano pode ser considerado descartável. A lógica do Reino é incompatível com qualquer forma de desumanização.

Assim, o encontro entre Jesus e o leproso não pertence apenas ao passado da Galileia, mas se prolonga em cada tempo histórico. Ele continua a acontecer onde quer que a misericórdia se torne ação concreta, onde quer que a proximidade vença a indiferença, onde quer que a dignidade ferida seja novamente reconhecida. É nesse movimento que a Igreja se torna, de fato, sinal antecipador da nova criação: não por perfeição institucional, mas por fidelidade ao modo de agir de seu Senhor. O horizonte final permanece, portanto, aberto e promissor. A história ainda está em caminho, mas não sem direção. O mesmo Cristo que tocou o leproso continua conduzindo a humanidade para o dia em que toda ferida será curada definitivamente e toda exclusão será superada. Até lá, cada gesto de misericórdia, cada ato de justiça e cada forma de reconciliação tornam visível, ainda que de modo fragmentário, a realidade futura que Deus já iniciou em Cristo e que encontrará sua plenitude na consumação de todas as coisas.

DNonato — Teólogo do Cotidiano, um leproso alcançado pela misericórdia

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,6.12-14

A perícope de Mateus 7,6.12-14 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. Trata-se de uma passagem situada na conclusão do Sermão da Montanha, um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento. O Sermão da Montanha ocupa os capítulos 5 a 7 do Evangelho segundo Mateus e constitui a primeira grande instrução de Jesus aos seus discípulos. Nas Igrejas Ortodoxas, nas antigas Igrejas Orientais e em diversas comunidades históricas oriundas da Reforma, os ensinamentos do Sermão da Montanha também ocupam lugar central na formação espiritual e moral dos fiéis. Não por acaso, muitos Padres da Igreja consideravam esses capítulos como a síntese mais completa da vida cristã. Ao chegarmos a Mateus 7,6.12-14, estamos diante da conclusão de um longo itinerário espiritual. Desde as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), Jesus vem formando uma nova consciência humana e religiosa. Os pobres em espírito são proclamados felizes, os    mansos recebem a promessa da terra, os misericordiosos alcançam misericórdia, os promotores da paz são chamados filhos de Deus. Em seguida, Jesus apresenta seus discípulos como sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16), interpreta a Lei à luz do amor (Mt 5,17-48), ensina a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13), denuncia a hipocrisia religiosa (Mt 6,1-18), critica a idolatria das riquezas (Mt 6,19-24), convida à confiança na providência divina (Mt 6,25-34) e adverte contra o julgamento hipócrita do próximo (Mt 7,1-5). A porta estreita, portanto, não é um ensinamento isolado. Ela representa a consequência prática de tudo aquilo que foi ensinado anteriormente.

O primeiro versículo da perícope afirma: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Para compreender essa afirmação é necessário situá-la em seu contexto histórico. No mundo judaico do século I, cães e porcos eram frequentemente associados à impureza ritual. O porco era considerado animal impuro segundo Levítico 11,7. O cão, diferentemente da imagem afetuosa comum em muitas culturas atuais, era geralmente visto como animal errante e agressivo. Jesus utiliza essas imagens não para desumanizar pessoas, mas para ensinar discernimento. O tema do discernimento atravessa toda a Escritura. O livro dos Provérbios afirma: “Não repreendas o zombador para que ele não te odeie; repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,8). Também lemos: “Não fales aos ouvidos do insensato, porque desprezará a sabedoria de tuas palavras” (Pr 23,9). A literatura sapiencial reconhece que nem todos estão igualmente abertos à verdade. O próprio Jesus experimentou essa realidade quando foi rejeitado em Nazaré (Lc 4,16-30). Paulo e Barnabé viveram situação semelhante quando parte de seus ouvintes recusou a mensagem do Evangelho (At 13,44-46).

As pérolas simbolizam aquilo que possui valor inestimável. Em Mateus 13,45-46, o Reino dos Céus é comparado a uma pérola preciosa pela qual vale a pena vender tudo. A advertência de Mateus 7,6 recorda que o sagrado não pode ser banalizado. Em uma cultura marcada pela espetacularização da religião, pela transformação da fé em mercadoria e pelo uso da espiritualidade como instrumento de autopromoção, esse ensinamento torna-se extraordinariamente atual. Vivemos uma época em que muitos transformam o Evangelho em produto de consumo. A lógica do mercado invade o espaço da fé. Multiplicam-se promessas de prosperidade financeira, fórmulas mágicas de sucesso espiritual e discursos religiosos moldados pelas exigências do marketing. Jesus recorda que as pérolas do Reino não são mercadorias. A graça não pode ser comprada. A fé não pode ser comercializada. A salvação não se encontra à venda. Depois dessa advertência, o Evangelho apresenta uma das maiores sínteses éticas de toda a Bíblia: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles, pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Essa afirmação é conhecida como Regra de Ouro. Embora existam formulações semelhantes em outras tradições religiosas antigas, Jesus oferece uma formulação positiva e ativa. Não basta evitar fazer o mal. É necessário praticar o bem.

A Regra de Ouro possui raízes profundas no Antigo Testamento. Em Levítico 19,18 encontramos: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Poucos versículos depois, o mesmo capítulo afirma: “Amarás o estrangeiro como a ti mesmo” (Lv 19,34). Em Deuteronômio 10,18-19, Deus é apresentado como aquele que ama o estrangeiro, o órfão e a viúva. O amor ao próximo não é uma invenção do Novo Testamento. Trata-se do coração da revelação bíblica. Os profetas aprofundaram essa compreensão. Isaías denuncia uma religião incapaz de produzir justiça social: “Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido” (Is 1,17). Jeremias condena aqueles que enriquecem à custa da exploração dos pobres (Jr 22,13-17). Amós proclama uma das críticas mais contundentes de toda a Escritura: “Corra o direito como água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus em três atitudes fundamentais: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Quando Jesus afirma que a Regra de Ouro resume “a Lei e os Profetas”, ele está dizendo que toda a Escritura converge para a prática do amor. O mesmo ensinamento reaparece em Mateus 22,37-40, quando o amor a Deus e ao próximo são apresentados como fundamento de toda a Lei. Paulo desenvolve essa perspectiva ao afirmar que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10). Tiago fala da “lei régia” (Tg 2,8). João declara que quem não ama seu irmão não pode amar a Deus a quem não vê (1Jo 4,20).

 O ser humano é essencialmente relacional. Ninguém constrói sua identidade sozinho. Somos formados por vínculos, encontros e reciprocidades. Quando a sociedade rompe esses laços, surgem o isolamento, a violência e a desumanização. A Regra de Ouro questiona frontalmente a cultura do individualismo. Em uma sociedade organizada pela competição, pelo consumismo e pela busca incessante de vantagens pessoais, Jesus propõe uma lógica alternativa: 

  • O outro não é concorrente. 
  • O outro é irmão. 
  • O próximo não é obstáculo. 
  • O próximo é lugar de manifestação da presença divina.ssa compreensão alcança seu ponto máximo na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). 
Enquanto representantes da religião oficial passam ao largo do homem ferido, um estrangeiro considerado impuro torna-se exemplo de humanidade. Jesus redefine o conceito de próximo. O próximo não é apenas aquele que pertence ao meu grupo. O próximo é qualquer pessoa cuja dor eu sou capaz de reconhecer. O mesmo princípio reaparece em Ma teus 25,31-46. No Juízo Final, Cristo identifica-se com os famintos, os sedentos, os migrantes, os doentes e os encarcerados. A espiritualidade cristã deixa de ser mera prática ritual para tornar-se compromisso concreto com a dignidade humana..Nesse ponto, torna-se impossível ignorar as enormes contradições de nosso tempo. A desigualdade social continua produzindo sofrimento em escala global. Milhões de pessoas vivem sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à educação e à moradia. Ao mesmo tempo, pequenas parcelas da população concentram riquezas sem precedentes. A tradição profética da Bíblia não permite neutralidade diante dessa realidade. O Deus que ouviu o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10) continua ouvindo o clamor das vítimas da exclusão contemporânea. O Deus que instituiu o Jubileu para impedir a concentração absoluta de riqueza (Lv 25) continua chamando a humanidade à justiça distributiva e à solidariedade.

A Igreja latino-americana desenvolveu a reflexão sobre a opção preferencial pelos pobres:

  •  Medellín denunciou as estruturas injustas que produzem miséria. 
  • Puebla reconheceu nos pobres o rosto sofredor de Cristo. 
  • Santo Domingo reafirmou a dignidade humana como fundamento da ação evangelizadora. 
  • Aparecida insistiu que os discípulos missionários devem promover vida plena para todos..

A Igreja como Mãe  vem nos falar 

  • Na Constituição Gaudium et Spes ensina que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças da Igreja,  
  • Na Evangelii Nuntiandi recorda que evangelização e promoção humana estão profundamente ligadas. 
  • Na Evangelii Gaudium denuncia uma economia da exclusão que mata. 
  • Na Fratelli Tutti convida à construção de uma fraternidade universal capaz de superar as divisões do mundo contemporâneo.

É precisamente nesse contexto que a advertência sobre a porta estreita adquire significado especial. Jesus afirma: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição” (Mt 7,13). A imagem dos dois caminhos remonta às tradições mais antigas de Israel. Moisés declara ao povo: 

  • Hoje coloco diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

O Salmo 1 apresenta o caminho dos justos e o caminho dos ímpios. Jeremias distingue entre aquele que confia em Deus e aquele que deposita sua confiança apenas em si mesmo (Jr 17,5-8). Provérbios adverte: “Há caminho que parece reto ao homem, mas seu fim conduz à morte” (Pr 14,12). Jesus retoma essa tradição para mostrar que toda existência humana implica escolhas. Não existe neutralidade diante do Reino de Deus. A porta larga representa o caminho da acomodação. É a rota da indiferença diante do sofrimento alheio. É a lógica da acumulação sem partilha. É o caminho da busca desenfreada pelo poder. É a religião utilizada como instrumento de dominação.

A porta estreita, por sua vez, representa o caminho das Bem-aventuranças. É a escolha da misericórdia em vez da vingança. É a escolha da justiça em vez da opressão. É a escolha da verdade em vez da manipulação. É a escolha da fraternidade em vez da exclusão. Essa imagem pode ser lida também à luz do Êxodo. O povo de Israel precisou abandonar o Egito para alcançar a liberdade. A travessia do deserto foi longa e difícil. O caminho da escravidão era mais confortável porque era conhecido. O caminho da liberdade exigia confiança. O mesmo acontece com o discípulo de Jesus. A porta estreita é uma travessia permanente. Significa abandonar os velhos mecanismos de egoísmo e abrir-se à novidade do Reino..No mundo contemporâneo, a porta larga assume múltiplas formas. Ela aparece na idolatria do mercado,  na cultura da indiferença, manifesta-se no racismo, na xenofobia, no machismo, no desprezo pelos pobres e na banalização da violência. Aparece também quando a religião é instrumentalizada para sustentar projetos de poder. 

  •  Isaías condenou governantes que criavam leis injustas (Is 10,1-2). 
  • Jeremias denunciou aqueles que transformavam a religião em cobertura para a opressão (Jr 7,1-15). 
  • Ezequiel criticou pastores que cuidavam de si mesmos e abandonavam o rebanho (Ez 34,1-16).

Jesus segue essa mesma tradição profética. Em Mateus 23, ele dirige suas palavras mais severas aos líderes religiosos que utilizavam a fé para obter prestígio e poder. Não critica a religião em si, mas sua deformação. Por isso, qualquer forma de teologia que transforme Deus em instrumento de enriquecimento contradiz o Evangelho. A teologia da prosperidade entra em conflito direto com as Bem-aventuranças, com a vida de Jesus e com a tradição profética. Da mesma forma, toda tentativa de identificar o Reino de Deus com projetos nacionalistas, autoritários ou ideológicos esvazia a radicalidade do Evangelho. Quando a fé deixa de servir aos pobres para servir aos poderosos, ela perde sua dimensão profética. Quando a religião se torna mecanismo de controle social, abandona o caminho de Jesus. Quando líderes religiosos se colocam acima do povo, surge aquilo que o magistério contemporâneo chama de clericalismo. Jesus propõe outra lógica. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10,44). No lava-pés (Jo 13,1-15), o Mestre transforma o serviço em critério de autoridade. Em Filipenses 2,5-11, Paulo apresenta Cristo que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo. A verdadeira grandeza não consiste em dominar, mas em servir.

A porta estreita conduz inevitavelmente ao mistério da cruz. “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A cruz não significa busca do sofrimento. Significa fidelidade ao amor em um mundo frequentemente estruturado pelo egoísmo. 

  • É o caminho dos profetas.
  •  É o caminho dos apóstolos. 
  • É o caminho dos mártires. 
Mas a cruz não é o destino final. O caminho estreito desemboca na ressurreição, o Deus que libertou Israel da escravidão, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e que sustenta a esperança dos pobres continua conduzindo a história. Isaías contempla novos céus e nova terra (Is 65,17-25),  Paulo afirma que toda a criação geme aguardando sua libertação (Rm 8,18-25) e o Apocalipse anuncia o dia em que Deus enxugará toda lágrima dos olhos humanos e não haverá mais morte, luto ou dor (Ap 21,1-5). É para essa esperança que aponta a porta estreita, 

  • Ela não conduz ao isolamento, mas à comunhão. 
  • Não conduz à opressão, mas à liberdade. 
  • Não conduz ao medo, mas à confiança. 
  • Não conduz à morte, mas  à vida.

Mateus 7,6.12-14 revela, portanto, uma síntese admirável de toda a mensagem bíblica. O discernimento diante do sagrado, a prática concreta do amor ao próximo e a escolha do caminho do Reino constituem o coração da existência cristã. Na atualidade  marcada pela desigualdade, pela manipulação religiosa, pela violência e pela crise de sentido, essas palavras continuam ecoando com extraordinária atualidade. Elas chamam cada discípulo a escolher a vida, a justiça e a misericórdia; a rejeitar a idolatria do poder e a assumir a lógica do serviço; a abandonar a indiferença e a tornar-se sinal do Reino de Deus no meio da história. É esse o caminho percorrido por Jesus de Nazaré,. é esse o caminho proposto à Igreja e é esse o caminho que continua aberto diante de toda pessoa que deseja transformar o mundo à luz do Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Mensagens ao Povo Brasileiro - 2026

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulga em todo ano   eleitoral  sua mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições. Trata-se de um texto que não apoia candidatos nem partidos, mas recorda valores fundamentais para a convivência democrática: a defesa da vida, da dignidade humana, da justiça social, da verdade e do bem comum. Em um tempo marcado pela polarização, pela disseminação de notícias falsas, pelo abuso do poder econômico e pela transformação dos adversários em inimigos, a mensagem dos bispos nos convida ao discernimento, à responsabilidade cidadã e ao compromisso com a democracia. Como cristão, eleitor e cidadão de um país democrático, considero este documento uma importante contribuição para o debate público. Ele nos recorda que a fé não pode ser usada para justificar o ódio, a violência ou o desprezo pelas instituições democráticas. Pelo contrário, o Evangelho nos chama a construir pontes, promover o diálogo e cultivar a fraternidade. Por isso, recomendamos  a leitura atenta desta mensagem e convido você a manifestar seu apoio aos princípios nela defendidos: respeito à democracia, combate à corrupção, compromisso com a verdade, justiça social e promoção da paz.

"Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" (Dt 30,19).

DNonato – Teólogo do Cotidiano, cri⁶stão leigo e cidadão comprometido com a democracia, a justiça social e a dignidade humana.

Segue  a mensagem: 

MENSAGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO BRASILEIRO POR OCASIÃO DAS ELEIÇÕES DE 2026

  • "Examinai tudo e guardai o que for bom" (1Ts 5, 21).

Ao aproximar-se mais uma eleição nacional, nós, membros do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dirigimo-nos ao povo brasileiro. A Igreja Católica não indica candidatos nem partidos. Movida pelo Evangelho e pela missão de anunciá-Lo, promove a vida, a dignidade humana e serve à construção do bem comum. Ela parte da fé em Jesus Cristo e da convicção, reafirmada pela Doutrina Social da Igreja, de que a política, quando orientada pela ética, constitui uma das mais elevadas formas de caridade.

As eleições são oportunidades privilegiadas para o exercício da cidadania e da corresponsabilidade social. Mais do que escolher governantes e representantes, somos chamados a renovar nosso compromisso com os valores que sustentam a convivência democrática, a justiça social e a fraternidade.

À luz do Evangelho, não podemos silenciar diante da escandalosa desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news). Não é possível aceitar o abuso do poder econômico e político e as formas de violência que ameaçam a convivência social, enfraquecendo a confiança nas instituições democráticas. Não existe democracia sólida quando a divergência legítima é transformada em hostilidade permanente, pois o adversário político não pode ser tratado como inimigo.

A democracia, além de eleições periódicas, requer respeito às instituições da República, especialmente à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito, à interdependência dos Poderes, à liberdade de expressão responsável e à participação cidadã. Exige também confiança nos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular, respeito aos resultados das urnas e à Lei da Ficha Limpa.

Convidamos cada eleitor e eleitora a assumir sua responsabilidade. A abstenção não é a melhor escolha. O discernimento cristão exige olhar não apenas para promessas de campanha, mas, principalmente, para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos. O Brasil necessita reforçar a capacidade de construir pontes, promover encontros e cultivar a amizade social.

A esperança cristã não é ingenuidade nem otimismo superficial. Esperar significa participar, construir, dialogar, resistir ao desânimo, defender a verdade, proteger a democracia e trabalhar pela justiça. Convidamos todos os homens e mulheres de boa vontade a serem testemunhas da cultura do encontro, promotores da paz social e construtores da fraternidade.

Confiamos nosso país à proteção de Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do povo brasileiro. Que Ela nos ajude a percorrer caminhos de justiça, verdade e paz.

Que Deus abençoe o Brasil e ilumine cada eleitor e eleitora.

Brasília - DF, 17 de junho de 2026

Pelo Conselho Permanente da CNBB:

Dom Jaime Cardeal Spengler   
Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre - RS
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia - GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife - PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília - DF
Secretário-Geral da CNBB.

domingo, 21 de junho de 2026

Liberdade Religiosa sob vigilância?

  • Quando bispos são monitorados por exercer seu munus profético, não é apenas a Igreja que está sob vigilância: é a própria democracia que entra na mira do poder.
Nos deparamos, nos últimos dias, com uma notícia que causa profunda inquietação a todos os que valorizam a democracia, a liberdade religiosa e os direitos fundamentais. As investigações da Polícia Federal sobre a chamada "Abin Paralela" apontam que bispos da Igreja Católica que se manifestaram publicamente durante a pandemia em 2020 teriam sido alvo de monitoramento por estruturas ligadas ao aparato de inteligência do Estado. Independentemente das convicções políticas de cada cidadão, trata-se de uma revelação que exige reflexão séria e responsável. Quando líderes religiosos podem ser vigiados em razão de opiniões legítimas expressas no espaço público, não está em jogo apenas a situação de um grupo específico, mas a própria saúde das instituições democráticas e das garantias constitucionais que protegem todos os brasileiros. 
As investigações conduzidas pela Polícia Federal no caso conhecido como “Abin Paralela” revelam um dos episódios mais preocupantes para a democracia brasileira desde a promulgação da Constituição de 1988. Segundo os elementos reunidos pela investigação, estruturas de inteligência do Estado teriam sido utilizadas para monitorar cidadãos e instituições que exerciam o direito legítimo de crítica, incluindo bispos da Igreja Católica que se manifestaram publicamente sobre a condução do país durante a pandemia. Entre os alvos estariam signatários da carta “Ao Povo de Deus”, divulgada em julho de 2020, documento no qual diversos bispos expressaram preocupações com a crise sanitária, a defesa da vida, o enfraquecimento de políticas públicas e os riscos às instituições democráticas. Em vez de responder às críticas por meio do debate público, surgem indícios de que setores do aparato estatal tenham buscado acompanhar, catalogar e monitorar aqueles que ousavam discordar.
As investigações mencionam, entre outros nomes, Alexandre Ramagem, então diretor da ABIN; Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI; Carlos Bolsonaro; e o então presidente Jair Bolsonaro, todos citados no contexto das apurações conduzidas pela Polícia Federal. Cabe ressaltar que a responsabilização definitiva depende do devido processo legal e das decisões do Poder Judiciário. Ainda assim, os fatos investigados levantam uma questão grave: como um governo que se apresentava como defensor da liberdade religiosa e da liberdade de expressão pode ser associado a práticas de monitoramento contra líderes religiosos que exerciam exatamente essas liberdades?
A contradição é evidente. Durante anos, o discurso oficial afirmou defender a fé, a liberdade e os valores cristãos. Contudo, quando parte significativa do episcopado católico manifestou posições divergentes, especialmente em defesa da vida, da justiça social e da democracia, essas vozes passaram a ser vistas não como interlocutoras legítimas, mas como obstáculos políticos. Em uma democracia, a crítica não é ameaça; é um direito. Tratar o dissenso como objeto de vigilância representa uma inversão perigosa dos princípios republicanos.
O episódio também expõe uma questão delicada na relação entre poder político e religião. O governo Bolsonaro construiu uma aliança pública e estratégica com importantes segmentos do campo evangélico conservador, frequentemente apresentando-se como representante privilegiado dos interesses cristãos no espaço público. Entretanto, quando lideranças católicas expressaram posições diferentes, surgem indícios de que tenham sido tratadas com suspeita e submetidas ao escrutínio de estruturas estatais. Se confirmadas pelas instâncias judiciais competentes, tais práticas configurariam não apenas abuso institucional, mas uma afronta ao princípio da neutralidade religiosa do Estado.
O Estado brasileiro é laico. Isso significa que ele não pode privilegiar uma tradição religiosa em detrimento de outra, nem utilizar sua máquina administrativa para favorecer aliados religiosos ou constranger grupos que expressem posições divergentes. A laicidade é uma garantia para todos: católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, adeptos das religiões de matriz africana, agnósticos e ateus. Quando o Estado abandona essa neutralidade, a liberdade religiosa começa a ser substituída pela lógica da proximidade com o poder. A Constituição Federal protege a liberdade de consciência, de crença, de expressão e de participação na vida pública. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos reforçam essas garantias e repudiam mecanismos de vigilância arbitrária voltados contra cidadãos em razão de suas convicções ou manifestações legítimas. Não se trata de uma questão ideológica, mas de respeito às bases jurídicas que sustentam qualquer sociedade democrática.
O monitoramento de lideranças religiosas não afeta apenas indivíduos específicos. Ele produz um efeito de intimidação coletiva sobre comunidades inteiras. Quando bispos, pastores, rabinos, líderes espíritas, dirigentes de religiões de matriz africana ou representantes de qualquer tradição de fé percebem que suas manifestações públicas podem atrair vigilância estatal, instala-se um ambiente de autocensura incompatível com a democracia. A liberdade religiosa não se resume ao direito de culto. Ela inclui o direito de participar do debate público, formular críticas, defender valores éticos e contribuir para a construção do bem comum sem receio de represálias por parte do Estado.
O aspecto mais preocupante deste episódio é que ele atinge uma instituição que historicamente exerceu papel relevante na defesa da democracia brasileira. Durante a ditadura militar, inúmeros membros da Igreja Católica denunciaram violações de direitos humanos, acolheram perseguidos políticos e defenderam as liberdades civis quando estas estavam ameaçadas. Figuras como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga tornaram-se símbolos da resistência democrática. A eventual vigilância de bispos por suas posições públicas atinge não apenas indivíduos, mas uma tradição histórica de compromisso com os direitos humanos e a cidadania. Além disso, o caso revela um problema institucional ainda mais profundo: a confusão entre governo e Estado. Em uma República, os órgãos de inteligência pertencem ao Estado brasileiro e não ao governante de turno. Sua finalidade é proteger a ordem constitucional dentro dos limites da lei. Quando esses instrumentos passam a ser utilizados para monitorar críticos, adversários ou setores da sociedade civil, ocorre um desvio de finalidade incompatível com os princípios republicanos. O aparelho estatal deixa de servir ao interesse público para servir à lógica da preservação do poder.
Chama atenção a contradição entre o discurso de defesa da pátria e a utilização de estruturas públicas para monitorar cidadãos brasileiros. O verdadeiro patriotismo não consiste em exigir adesão ao governo, mas em proteger as instituições que garantem os direitos da população. Quando o aparato estatal é direcionado contra vozes críticas, o que se enfraquece não é a oposição, mas a própria República. Nenhum governo se confunde com a nação, e nenhum governante pode reivindicar para si o monopólio do interesse nacional.
Há também uma dimensão sociológica que merece atenção. O monitoramento de bispos ocorreu em um contexto marcado pela polarização política e por tentativas de identificar a fé cristã com um único projeto ideológico. Essa estratégia produziu uma divisão artificial dentro do próprio universo religioso, classificando lideranças entre “aliadas” e “inimigas” conforme seu alinhamento político. Trata-se de uma dinâmica perigosa, porque transforma a religião em instrumento de disputa partidária e enfraquece sua autonomia moral. Nenhuma tradição religiosa deve ser reduzida à condição de braço político de qualquer governo.
O caso suscita ainda preocupações sobre a captura ideológica de instituições públicas. Em democracias constitucionais, órgãos de Estado devem atuar segundo critérios técnicos, legais e impessoais. Quando passam a operar orientados por interesses políticos ou ideológicos, ocorre uma deformação institucional que compromete sua credibilidade e sua legitimidade perante a sociedade. A inteligência estatal existe para proteger a ordem democrática, e não para vigiar aqueles que exercem direitos garantidos pela própria democracia. O episódio também suscita uma reflexão sobre a saúde das instituições democráticas. Democracias sólidas convivem com críticas, protestos e divergências. Governos comprometidos com os valores republicanos respondem ao contraditório por meio do diálogo, da transparência e da prestação de contas. Governos inclinados ao autoritarismo tendem a enxergar opositores em toda parte e a recorrer à vigilância, à intimidação ou à deslegitimação de seus críticos. A história demonstra que processos de erosão democrática frequentemente começam não pela suspensão formal das liberdades, mas pela criação de mecanismos informais de controle e monitoramento.
A história brasileira ensina que a vigilância de lideranças religiosas, intelectuais, sindicais, comunitárias e acadêmicas esteve frequentemente associada a períodos de restrição das liberdades. Embora contextos históricos não sejam idênticos, a memória nacional recomenda cautela diante de qualquer tentativa de utilização do Estado para monitorar cidadãos em razão de suas convicções ou posicionamentos públicos. Democracias não se fortalecem ampliando mecanismos de vigilância sobre o dissenso; fortalecem-se protegendo-o.
A experiência internacional oferece inúmeros exemplos de como a instrumentalização de órgãos de inteligência para fins políticos compromete a democracia. Em diferentes países, práticas semelhantes foram associadas à concentração de poder, à perseguição de opositores e ao enfraquecimento dos mecanismos de controle institucional. Por essa razão, a utilização de estruturas estatais para vigiar cidadãos em razão de suas opiniões políticas, religiosas ou sociais não pode ser relativizada nem normalizada. Mais do que uma controvérsia política, este caso representa um alerta institucional. Se líderes religiosos podem ser monitorados por exercerem seu direito de crítica, qualquer cidadão pode se tornar alvo da mesma lógica. Quando órgãos de inteligência deixam de proteger a sociedade para acompanhar aqueles que discordam do poder, a democracia perde uma de suas barreiras mais importantes contra o autoritarismo.
O verdadeiro compromisso com a liberdade não se demonstra por slogans, discursos ou manifestações públicas de religiosidade. Ele se comprova no respeito concreto ao pluralismo, à liberdade de consciência e ao direito de discordar. Uma democracia forte não teme bispos, jornalistas, professores, pesquisadores, artistas, movimentos sociais ou cidadãos críticos. Ao contrário, reconhece nessas vozes a expressão legítima da diversidade que sustenta a vida republicana. As revelações da Polícia Federal não dizem respeito apenas a bispos, nem apenas à Igreja Católica, nem apenas ao governo investigado. O que está em discussão é um princípio fundamental da convivência democrática: o direito de discordar sem ser vigiado pelo Estado. Quando a crítica religiosa, acadêmica, jornalística ou política passa a ser tratada como suspeita, abre-se caminho para a normalização de práticas incompatíveis com a ordem constitucional.
Se as investigações da Polícia Federal confirmarem integralmente os indícios apresentados, o país estará diante de uma das maiores contradições do ciclo político inaugurado pelo bolsonarismo: um movimento que se apresentou como defensor da liberdade, da fé e dos valores democráticos, mas que teria recorrido a mecanismos de vigilância estatal contra cidadãos que exerciam exatamente essas liberdades. A democracia não é medida pelo apoio que recebe dos aliados do governo, mas pela proteção que oferece aos seus críticos. Quando bispos precisam temer a vigilância do Estado por expressarem opiniões legítimas, o problema não está nos bispos. O problema está no poder que deixa de compreender os limites que a Constituição lhe impõe. A democracia brasileira foi construída com o esforço e o sacrifício de gerações que enfrentaram censura, perseguição e autoritarismo. Permitir que mecanismos de vigilância política sejam minimizados significa enfraquecer conquistas obtidas a um custo elevado. A liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a autonomia das instituições não são favores concedidos pelos governantes; são direitos assegurados pela Constituição e pelos tratados internacionais de direitos humanos.
A pergunta que permanece é simples e inquietante: 
Se bispos puderam ser colocados sob monitoramento por exercerem sua liberdade de consciência e expressão, quem estará verdadeiramente protegido quando o poder decidir que a crítica se tornou inconveniente?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o julgamento deste caso, mas a qualidade da democracia brasileira nas próximas décadas.
DNonato -  Teólogo Cotidiano 
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