A contemplação de Maria aos pés da cruz encontra sua expressão litúrgica na Memória da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores, celebrada pela Igreja em 15 de setembro logo após a liturgia da Festa de Exaltação da Santa Cruz celebrada ontem. Celebrar hoje Nossa Senhora das Dores / da Piedade como uma ocasião para recordar sua coragem, fidelidade e esperança diante do sofrimento e da morte de seu Filho. A memória litúrgica está profundamente ligada à tradição devocional das Sete Dores de Maria, cuja espiritualidade se desenvolveu e se consolidou particularmente entre os séculos XVII e XVIII, ressaltando a participação singular da Mãe de Jesus no mistério da salvação e sua permanência fiel junto àquele que, na cruz, entrega a própria vida. Nesse horizonte, o relato de João 19,25-27 ocupa lugar de especial importância, pois apresenta Maria não como uma figura passiva diante da tragédia, mas como aquela que permanece junto à cruz, compartilhando, na fé, o sofrimento do Filho e tornando-se também sinal de uma fidelidade que atravessa a dor sem perder a esperança. Proclamado na Liturgia da Paixão do Senhor, especialmente na Sexta-feira Santa, e em celebrações marianas próprias, esse texto permite contemplar não apenas a profundidade da dor materna, mas também o gesto de Jesus que, no momento extremo, estabelece entre sua mãe e o discípulo amado uma nova relação de cuidado e pertença, gesto que a tradição cristã reconhece como expressão do surgimento de uma nova fraternidade e como sinal da missão materna de Maria junto ao novo povo de Deus. Assim, a presença de Maria no Calvário ultrapassa a dimensão de uma experiência individual de sofrimento e se transforma em testemunho de fé, resistência, compaixão e esperança, iluminando todos aqueles que permanecem junto aos crucificados da história.
Maria, mãe de Jesus, pode ser contemplada, na perspectiva bíblico-teológica, como expressão do povo da antiga aliança que permaneceu fiel às promessas de Deus e aguardou o Messias com uma esperança ativa, perseverante e atravessada pelo sofrimento. Nela ressoa a memória de tantas mulheres e homens que, ao longo da história de Israel, sustentaram a confiança em Deus mesmo quando a realidade parecia contrariar suas promessas:
- Ana, que derramou suas lágrimas diante do Senhor e transformou sua esterilidade em súplica confiante.
- Raquel, cujo pranto pelos filhos, retomado por Jeremias 31,15, tornou-se símbolo da dor de um povo que espera consolação.
- Miriã, que participou da condução de Israel na travessia do deserto e testemunhou a presença de Deus junto ao seu povo.
- Jeremias, cuja voz se levantou em meio à perseguição e ao sofrimento; e
- Sofonias, que anunciou a restauração de um povo humilhado, mas não abandonado pelo Senhor.
Nos relatos sinóticos, Mateus 27,55 registra que as mulheres permaneciam “de longe, observando”, Lucas 23,49 afirma que elas “permaneciam ali, observando”, enquanto Marcos 15,40 destaca que eram mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, revelando, em sua presença silenciosa e constante, uma forma de fidelidade que não depende da visibilidade, do protagonismo ou do reconhecimento público, mas se manifesta no compromisso, no cuidado e na perseverança junto daquele que sofre. A experiência de Maria junto à cruz integra sofrimento e ação, pois sua permanência não constitui mera contemplação passiva da dor, mas uma presença ativa, marcada pela solidariedade, pela memória e pela fidelidade à promessa de Deus, mostrando que permanecer junto ao outro em sua hora mais difícil também é uma forma de agir sobre a realidade. Sob a perspectiva antropológica e sociológica, essa presença adquire ainda maior densidade em uma sociedade marcada por estruturas patriarcais, na qual as mulheres frequentemente eram relegadas às margens dos espaços públicos de decisão e autoridade; ao permanecerem junto à cruz, elas ocupam um espaço de resistência cultural e testemunhal, preservando a memória de Jesus, sustentando vínculos comunitários e participando da transmissão de uma esperança que não se deixa destruir pela violência. Nesse sentido, o sofrimento vivido em comunhão não produz apenas lamento, mas pode gerar solidariedade, consciência, justiça e transformação das relações humanas. O gesto de Jesus ao confiar sua mãe ao discípulo amado, em João 19,26-27, aprofunda essa perspectiva ao revelar uma ética relacional na qual a dignidade humana se manifesta na responsabilidade pelo outro: diante da morte, Jesus não encerra sua missão em si mesmo, mas cria uma nova relação de cuidado e pertencimento, fazendo da mãe e do discípulo uma comunidade de responsabilidade mútua. Essa cena confronta diretamente as teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso, bem como toda forma de fé transformada em mercadoria, espetáculo, status ou instrumento de poder, porque, aos pés da cruz, não há triunfo baseado em privilégios, riqueza ou domínio, mas entrega, vulnerabilidade, cuidado e comunhão. Maria e o discípulo amado tornam-se, assim, testemunhas de uma fé que não precisa exibir poder para ser verdadeira, pois sua força se manifesta na capacidade de permanecer, cuidar e assumir responsabilidade pelo outro. Essa compreensão encontra ressonância na tradição patrística: Santo Irineu, ao desenvolver sua teologia da recapitulação, apresenta Cristo como aquele que recapitula e restaura a humanidade, permitindo compreender a fidelidade de Maria dentro desse movimento de restituição e reconciliação que alcança toda a criação; Orígenes, ao contemplar Maria junto à cruz, reconhece na profundidade de seu sofrimento a manifestação de um amor que permanece fiel e de uma obediência que participa do mistério pelo qual Deus faz nascer vida onde a humanidade enxerga apenas fracasso e morte; São João Crisóstomo, ao destacar a responsabilidade assumida pelo discípulo amado, permite perceber que a salvação cristã não se reduz a uma experiência individual, mas se concretiza em relações de comunhão e responsabilidade; Santo Ambrósio, ao associar Maria à figura da nova Eva e ao novo Éden, ajuda a compreender como, na tradição cristã, a fidelidade daquela que permanece junto ao Filho participa simbolicamente da passagem da antiga humanidade ferida para uma esperança renovada; e Tertuliano, ao enfatizar a dimensão comunitária da vida cristã, contribui para perceber no cuidado mútuo entre Maria e o discípulo uma antecipação da vocação da Igreja como corpo unido, solidário e responsável por seus membros. Assim, junto à cruz, Maria não representa simplesmente uma mãe mergulhada na dor, mas a mulher que permanece quando muitos se afastam, guarda a memória quando a violência parece querer apagar a esperança e testemunha, por sua presença, que a fidelidade cristã não se mede pelo poder que se ostenta, pelo espaço que se ocupa ou pelo reconhecimento que se recebe, mas pela capacidade de permanecer junto dos vulneráveis, assumir responsabilidades e transformar o sofrimento compartilhado em solidariedade, esperança e compromisso com a vida.
A presença de Maria ao pé da cruz revela a força das mulheres na preservação da memória, da fé e da tradição cristã, sobretudo porque sua permanência silenciosa junto ao Crucificado contrasta com estruturas de poder que, ao longo da história, procuraram reduzir ou silenciar a voz e a participação feminina na comunidade. Em João 19,25-27, Maria não aparece como espectadora passiva da morte do Filho, mas como aquela que permanece quando o projeto de Jesus parece humanamente derrotado, e é precisamente nessa permanência que sua fidelidade adquire densidade teológica e profética. Ao lado dela está o discípulo amado, cuja presença expressa a responsabilidade de acolher, cuidar e assumir vínculos novos diante da ruptura provocada pela cruz. Nesse sentido, a cena joanina não pode ser reduzida a uma experiência exclusivamente devocional, pois manifesta uma comunidade que nasce do próprio drama da cruz, fundada não no poder, no prestígio ou na posse, mas na relação, no cuidado e na responsabilidade pelo outro. A tradição da Igreja reconhece em Maria um modelo de fé, esperança e caridade: a Lumen Gentium apresenta sua peregrinação de fé em profunda união com o mistério de Cristo, enquanto a Redemptoris Mater contempla sua participação singular no sofrimento e na missão do Filho, mostrando que sua maternidade se abre, pela graça, à comunidade dos discípulos. Essa perspectiva confronta diretamente toda forma de religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de riqueza, dominação, sucesso individual ou reconhecimento social, pois a lógica da cruz revela precisamente o contrário: Deus se manifesta no serviço, na entrega, na solidariedade e na defesa da vida ameaçada. O testemunho de Maria, portanto, coloca em crise uma fé reduzida à prosperidade ou ao individualismo e também questiona o clericalismo quando este converte ministério em status, autoridade em privilégio e comunidade em espaço de exclusão, pois, como insiste o magistério do Papa Francisco, a Igreja é chamada a crescer mediante uma cultura do encontro, do serviço humilde, da proximidade e da corresponsabilidade de todos os batizados. Essa perspectiva encontra profundas raízes nas Escrituras de Israel, onde os profetas denunciam continuamente a injustiça e recordam que Deus não permanece indiferente diante da opressão dos pobres e vulneráveis: Amós confronta uma religião separada da justiça; Oséias denuncia a ruptura da aliança e convoca à fidelidade:
- Joel anuncia a ação de Deus em meio às crises do povo.
- Habacuque interroga o silêncio diante da violência.
- Sofonias aponta para o remanescente humilde que confia no Senhor.
- Naum, em seu contexto histórico particular, proclama o juízo contra a violência imperial.
- Jeremias 31,31-34 anuncia a nova aliança inscrita no coração.
- Ezequiel 36,25-27 fala da purificação e da renovação interior mediante um coração novo e um espírito novo, temas que encontram sua plenitude cristológica na nova aliança estabelecida por Cristo.
- Simeão anuncia, em Lucas 2,34-35, que uma espada traspassará sua alma.
- Mateus 2,13-18 apresenta a fuga para o Egito e o massacre dos inocentes, situando a família de Jesus dentro da realidade histórica da violência e da perseguição.
- Atos 1,14 encontra Maria reunida com os discípulos em oração, não isolada, mas inserida na comunidade que aguarda o Espírito.
- Romanos 8,35-39, que nenhuma tribulação, sofrimento, perseguição ou morte pode separar os que vivem em Cristo do amor de Deus.
- 1Coríntios 12,12-27 apresenta a Igreja como um corpo no qual cada membro possui dignidade e responsabilidade, de modo que a dor de um repercute em todos e a vida de cada pessoa não pode ser compreendida isoladamente.
- Hebreus 12,1-2 ao convocar os fiéis à perseverança, coloca diante deles a multidão das testemunhas e orienta o olhar para Jesus, aquele que percorreu até o fim o caminho da cruz.
- Filipenses 2,5-11 apresenta a lógica da kenosis, isto é, do esvaziamento e da humildade de Cristo. Essa lógica que ilumina também a compreensão da fidelidade de Maria, não como exercício de poder, mas como disponibilidade diante de Deus.
- Colossenses 1,24-27 insere o sofrimento dos membros da comunidade no horizonte do corpo de Cristo, embora seja necessário compreendê-lo não como se o sofrimento humano acrescentasse algo à eficácia salvífica da cruz, mas como participação histórica e comunitária na missão de Cristo.
A união entre o antigo e o novo povo, entre o sofrimento e a promessa, entre mãe e filho, revela que a história da salvação não é uma sucessão fragmentada de acontecimentos, mas uma realidade contínua, relacional e profundamente humana, na qual os fiéis de ontem e de hoje se encontram diante da cruz e são chamados a viver a fidelidade não como ritual vazio ou mera observância religiosa, mas como prática concreta capaz de transformar a vida e as relações. Nesse horizonte, João 19,25-27 nos conduz ao momento culminante da paixão de Cristo, no Calvário, quando Jesus, pregado à cruz, se aproxima da morte, e o evangelista, com particular sensibilidade teológica e narrativa, apresenta uma cena que se distingue dos relatos sinóticos pela atenção dada à presença das mulheres e, sobretudo, à relação entre Jesus, sua mãe e o discípulo amado. “Junto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.” Mais do que registrar simplesmente quem permanecia naquele lugar de sofrimento, João constrói uma cena carregada de significado, na qual a presença junto à cruz se transforma em testemunho de fidelidade, resistência e comunhão. Maria não aparece como espectadora distante da dor do Filho, mas como aquela que permanece, e essa permanência, em um contexto marcado pelo abandono, pela violência e pelo fracasso aparente da missão de Jesus, possui profundo valor teológico e antropológico: estar junto de quem sofre é uma forma concreta de amor, e permanecer quando seria mais fácil fugir constitui uma expressão de fidelidade que não depende de palavras grandiosas. Ao confiar sua mãe ao discípulo e o discípulo à sua mãe, Jesus também estabelece uma nova relação de cuidado e pertencimento, indicando que, diante da cruz, os vínculos humanos são recriados pela lógica do amor e da responsabilidade mútua. Assim, somos convidados a reconhecer nossas próprias cruzes e, ao mesmo tempo, a não ignorar as cruzes daqueles que sofrem ao nosso redor, compreendendo que cada gesto de cuidado, cada presença solidária, cada compromisso com quem foi ferido pela vida e cada permanência ao lado dos vulneráveis pode tornar-se participação concreta na missão de Cristo. A fé, portanto, não se reduz à contemplação da cruz como símbolo religioso nem à repetição de práticas devocionais, mas se manifesta na capacidade de permanecer junto dos que sofrem, defender a dignidade humana e transformar a compaixão em compromisso, porque o Evangelho que nasce aos pés da cruz não produz espectadores indiferentes, mas discípulos capazes de assumir a responsabilidade pelo outro.
Este detalhe já revela múltiplas dimensões teológicas e humanas:
- Maria não está sozinha, mas cercada por mulheres que representam a continuidade do antigo povo, a memória das promessas e uma fidelidade que não se deixa vencer pela dor.
- A presença dessas mulheres amplia o sentido da cena e mostra que o sofrimento diante da cruz não é uma experiência isolada, mas uma realidade compartilhada por aqueles que permanecem quando todas as certezas parecem desmoronar.
- Entre elas está Maria Madalena, discípula que acompanhou Jesus desde o início de seu ministério e cuja presença simboliza a perseverança daqueles que, mesmo diante do fracasso aparente da missão, não abandonam o caminho do Mestre, evocando a memória de mulheres do Antigo Testamento, como: Ana, Débora e Abigail, cuja trajetória também testemunha fé, coragem, discernimento e esperança em meio às adversidades.
O termo “mulher”, utilizado por Jesus, é carregado de profundo significado teológico e não deve ser compreendido como uma forma de tratamento distante ou impessoal, mas como uma expressão de respeito que insere Maria no horizonte simbólico da Escritura e a reconhece como mulher de fé, testemunha e participante ativa da história da salvação. No Evangelho de João, essa designação remete à linguagem bíblica na qual a mulher pode assumir uma dimensão representativa do povo de Deus, da comunidade fiel que permanece firme diante da provação e encontra seu cumprimento no mistério pascal de Cristo. Aos pés da cruz:
- Maria não aparece apenas como mãe biológica do Crucificado, mas como aquela que permanece fiel no momento em que muitos abandonaram o Mestre, tornando-se sinal da fidelidade do povo da aliança.
- O discípulo amado, por sua vez, não é apresentado somente em sua identidade individual, mas como figura do discípulo que acolhe Jesus pela fé e permanece unido a ele até o fim; por isso, ao receber Maria como sua mãe, ele representa a comunidade dos discípulos que nasce do acontecimento da cruz e é chamada a acolher, preservar e transmitir a fé.
João descreve a cena de João 19,25-27 com extraordinária economia de palavras, mas cada elemento narrativo carrega profundo significado simbólico: a presença junto à cruz expressa proximidade, fidelidade e perseverança, enquanto a ordem das personagens: primeiro Maria, depois o discípulo amado, revelando uma intencionalidade teológica que coloca a Mãe de Jesus no centro desse momento decisivo. O evangelista não descreve diretamente o sofrimento físico ou emocional de Maria, mas sua dor está profundamente implícita na contemplação silenciosa do Filho crucificado, e sua presença não assume a forma de uma atitude passiva ou meramente resignada; ao contrário, ela permanece de pé, firme na fé, na fidelidade e na adesão ao desígnio de Deus. À luz de Lucas 2,35, a espada que haveria de atravessar sua alma encontra aqui uma de suas expressões mais dramáticas: diante da cruz, Maria experimenta no próprio coração o cumprimento doloroso da missão de Jesus, mas não abandona o caminho quando a promessa parece atravessar a noite do sofrimento. Sua permanência junto ao Crucificado manifesta, assim, a fé do remanescente fiel de Israel, aquele que conserva a esperança e permanece obediente mesmo quando as circunstâncias parecem contradizer as promessas de Deus. Nesse sentido, Maria torna-se modelo de uma fé madura, que não depende de triunfos imediatos, de recompensas ou de respostas fáceis, mas permanece comprometida com Deus também diante do fracasso aparente, da injustiça e da morte. A cena alcança ainda uma dimensão comunitária decisiva quando Jesus estabelece entre sua mãe e o discípulo uma nova relação de cuidado e responsabilidade: “Mulher, eis aí teu filho”; “Eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27). A cruz, portanto, não produz isolamento, mas inaugura vínculos; no momento em que a violência tenta romper relações, Jesus cria uma comunidade fundada na acolhida, na responsabilidade e no cuidado mútuo. Por isso, João 19,25-27 também contém uma crítica implícita a toda compreensão deformada da fé que transforma a religião em mercadoria, instrumento de poder, espetáculo ou mecanismo de autopromoção, bem como ao individualismo que busca salvação para si enquanto permanece indiferente à dor do outro. Aos pés da cruz, não há espaço para uma espiritualidade baseada na lógica da prosperidade, do prestígio ou da dominação, porque o Crucificado revela que a verdadeira salvação passa pela entrega, pela solidariedade e pela comunhão. Maria e o discípulo permanecem juntos diante daquele que sofre, e Jesus transforma essa presença em compromisso concreto de cuidado; desse modo, a comunidade cristã é chamada a compreender que seguir o Evangelho não significa fugir das feridas da história, mas permanecer junto dos crucificados de cada tempo, reconhecendo que a fé autêntica se verifica não apenas naquilo que se proclama diante de Deus, mas também na maneira como se permanece ao lado daqueles que sofrem.
João 19,25-27 nos conduz ao coração do mistério da cruz e revela, na presença de Maria junto ao Filho crucificado, a força de uma fé que não abandona a vida quando ela é atravessada pela dor, pela violência e pela aparente derrota. Maria permanece de pé junto à cruz, não como alguém que compreende plenamente o sentido do sofrimento, mas como aquela que, mesmo ferida, recusa-se a fugir, a negar a realidade ou a permitir que a desesperança tenha a última palavra; sua presença silenciosa torna-se uma forma de resistência e testemunho diante da morte. O discípulo amado, por sua vez, representa a dimensão relacional da existência humana, pois Jesus, no momento extremo, estabelece entre sua mãe e o discípulo uma nova responsabilidade de cuidado: “Mulher, eis o teu filho”; “Eis a tua mãe”. A cruz, portanto, não produz isolamento, mas inaugura uma comunidade fundada na acolhida, na responsabilidade e na solidariedade. Historicamente, a presença das mulheres junto à crucificação também confronta a lógica de uma sociedade marcada por estruturas patriarcais, pois são elas que aparecem como testemunhas da morte de Jesus e, na tradição cristã, como guardiãs da memória da paixão, da morte e da ressurreição, sustentando a continuidade da fé quando muitos dos discípulos haviam desaparecido. O evangelho não transforma essa presença em mero detalhe narrativo: coloca-a no centro da revelação, mostrando que aqueles que permanecem junto aos crucificados da história participam de maneira decisiva da construção da memória e da esperança. Por isso, João 19,25-27 não pode ser reduzido a uma cena de afeto familiar; trata-se de uma profunda catequese sobre o modo como o amor cristão se concretiza quando a vida é ameaçada, sobre como a fé se manifesta quando as palavras já não são suficientes e sobre como a comunidade nasce quando pessoas diferentes assumem umas pelas outras uma responsabilidade que não pode ser delegada. Maria junto à cruz também nos confronta com uma espiritualidade que não procura Deus apenas nos espaços de triunfo, segurança e sucesso, mas é capaz de reconhecê-lo no território doloroso onde estão os crucificados, os esquecidos, os pobres, os abandonados e todos aqueles cuja dignidade é ferida pela injustiça. Há, portanto, uma dimensão profética nessa cena: permanecer junto à cruz significa não normalizar o sofrimento humano, não transformar a dor dos outros em estatística, não utilizar a religião para justificar a indiferença e não construir uma fé que fala muito de Deus, mas permanece distante daqueles que clamam por justiça, acolhimento e dignidade. A presença de Maria denuncia, silenciosamente, toda religiosidade que prefere a aparência da devoção à responsabilidade concreta com a vida, todo clericalismo que concentra poder enquanto mantém os vulneráveis à margem e toda espiritualidade desencarnada que contempla a cruz de longe, sem se comprometer com os crucificados de hoje. Ao entregar Maria ao discípulo e o discípulo a Maria, Jesus aponta para uma comunidade na qual ninguém pertence apenas a si mesmo, porque a fé cria vínculos, responsabilidades e compromisso com o outro. A verdadeira comunidade cristã não se reconhece apenas por seus discursos, seus ritos ou suas estruturas, mas pela capacidade de acolher os feridos, proteger os vulneráveis, ouvir aqueles que foram silenciados e permanecer ao lado de quem atravessa a noite da existência. Por isso, contemplar Maria ao pé da cruz é deixar-se interpelar por uma pergunta que continua atual: onde estamos quando alguém sofre? De que lado permanecemos quando a injustiça se torna conveniente, quando os poderosos tentam silenciar os frágeis e quando a dor alheia deixa de provocar nossa consciência? A cena do Calvário desloca a fé do campo das palavras para o território da responsabilidade e nos recorda que seguir Jesus não significa apenas professar uma doutrina, mas assumir uma maneira de viver na qual o sofrimento do outro jamais pode ser tratado como problema alheio. Maria permanece, o discípulo acolhe, e dessa permanência nasce uma nova relação; assim, a cruz não encerra a história, mas transforma a dor em compromisso, o lamento em esperança e a perda em responsabilidade compartilhada. João 19,25-27 nos chama, portanto, a uma fé encarnada, comunitária e profética, capaz de permanecer quando seria mais fácil fugir, de cuidar quando seria mais cômodo ignorar e de levantar a voz quando a injustiça pretende transformar o sofrimento em silêncio. A Boa Nova só se torna verdadeiramente visível quando a memória da cruz se transforma em prática de solidariedade e quando aqueles que se dizem discípulos de Jesus aprendem a reconhecer, acolher e defender a dignidade dos crucificados do nosso tempo. Permanecer junto à cruz é, enfim, escolher a vida, assumir o compromisso com o outro e testemunhar que nenhuma estrutura de poder, nenhuma violência e nenhuma noite da história terá a palavra definitiva, porque a fidelidade de Deus continua abrindo caminhos de esperança onde o mundo insiste em anunciar apenas derrota.
DNonato - Teólogo do Cotidiano





