quinta-feira, 5 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 21,33-43.45-46

 

O Evangelho de Mateus 21,33-43.45-46 é proclamado na liturgia da Igreja na sexta-feira da segunda semana da Quaresma. Nesse tempo forte do ano litúrgico, marcado pela conversão, pela escuta intensa da Palavra, pelo jejum, pela oração e pela revisão profunda da própria vida, a parábola dos vinhateiros homicidas aparece como uma palavra de discernimento espiritual e de denúncia profética. Ela não se dirige apenas à consciência individual, mas também às estruturas religiosas, sociais e políticas que administram a vida do povo.

A forma abreviada dessa narrativa, Mateus 21,33-43, também é proclamada no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A, quando a liturgia omite os versículos 45 e 46. Nesse contexto dominical, a comunidade cristã é colocada diante da pergunta central da parábola: que frutos estamos produzindo na vinha que Deus nos confiou? Nos dois momentos litúrgicos, a Palavra apresenta o mesmo núcleo teológico e espiritual. Deus plantou uma vinha, cuidou dela com amor e espera frutos de justiça. A questão fundamental não é se a vinha foi bem preparada, mas se os trabalhadores estão sendo fiéis à missão recebida.

Jesus conta essa parábola em um momento decisivo de sua missão. Ele já está em Jerusalém e os acontecimentos caminham rapidamente para o drama da cruz. O capítulo 21 de Mateus descreve uma sequência de acontecimentos profundamente simbólicos. Primeiro aparece a entrada messiânica de Jesus na cidade. Montado em um jumento, ele realiza o sinal profético anunciado em Zacarias 9,9, revelando um messianismo humilde e pacífico, em contraste com os modelos de poder dominador do mundo.

Em seguida vem a purificação do templo. Jesus denuncia que a casa de oração havia sido transformada em espaço de exploração religiosa, recordando as palavras de Jeremias 7,11 sobre o “covil de ladrões”. Esse gesto inaugura um confronto direto com as autoridades religiosas da época. A partir desse momento surgem debates intensos com os sumos sacerdotes, os anciãos e os especialistas da Lei. É nesse contexto de tensão que Jesus narra três parábolas consecutivas. 

  1. A primeira é a parábola dos dois filhos, em Mateus 21,28-32, que denuncia a incoerência entre discurso religioso e prática concreta. 
  2. A segunda é a parábola dos vinhateiros homicidas, em Mateus 21,33-46. 
  3. A terceira a parábola do banquete nupcial, em Mateus 22,1-14. 
As três histórias possuem o mesmo eixo crítico e revelam um diagnóstico espiritual profundo. A religião havia sido capturada por uma lógica de poder. Lideranças que deveriam cuidar da vinha de Deus passaram a agir como proprietárias daquilo que nunca lhes pertenceu.

Para compreender plenamente essa parábola é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. A imagem da vinha está profundamente enraizada na tradição espiritual de Israel. Um dos textos mais importantes nesse sentido é Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que escolhe uma colina fértil, limpa o terreno, planta videiras escolhidas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo é feito com cuidado e expectativa. No entanto, quando chega o momento da colheita, a vinha produz uvas amargas.

O próprio profeta explica o significado simbólico da metáfora. A vinha é a casa de Israel. Deus esperava justiça, mas encontrou violência. Esperava retidão, mas ouviu gritos de sofrimento. Jesus retoma essa tradição conhecida por seus ouvintes e a leva a um nível ainda mais radical. A parábola não fala apenas de frutos ruins. Ela denuncia um processo mais grave: a apropriação indevida da vinha. Na narrativa, o proprietário da vinha representa Deus, fonte da vida e do projeto do Reino. A vinha representa o povo de Deus e, em sentido mais amplo, toda a criação confiada à responsabilidade humana. A cerca indica proteção e cuidado. O lagar indica o lugar onde o fruto será transformado em vinho, símbolo bíblico de alegria, abundância e comunhão. A torre indica vigilância e responsabilidade. Cada detalhe revela que o dono da vinha preparou tudo com atenção e amor. O problema não está na estrutura do projeto divino, mas na atitude dos trabalhadores.

Os arrendatários simbolizam as lideranças encarregadas de cuidar da vinha. No contexto imediato da parábola são os chefes religiosos de Israel, responsáveis pela condução espiritual do povo. Contudo, o alcance do símbolo é muito mais amplo. Ele abrange qualquer liderança religiosa, política ou social que recebe autoridade e passa a agir como se fosse proprietária daquilo que pertence a Deus.

O erro fundamental dos vinhateiros é a mentalidade de posse. Eles deixam de se reconhecer como administradores e passam a se comportar como donos da vinha. Essa atitude revela uma distorção profunda da própria ideia de autoridade. Na perspectiva bíblica, autoridade sempre significa serviço.

A narrativa menciona também os servos enviados pelo proprietário para recolher os frutos. Esses servos representam os profetas enviados ao longo da história de Israel. A memória bíblica registra que muitos desses profetas foram perseguidos ou silenciados por denunciar injustiças. Jeremias foi preso e lançado numa cisterna por causa de sua palavra incômoda, como relata Jeremias 38. Amós foi expulso do santuário de Betel depois de denunciar a exploração dos pobres, segundo Amós 7,10-13. Zacarias foi assassinado no templo, conforme 2Crônicas 24,20-22. Jesus recorda essa história de perseguição quando lamenta sobre Jerusalém em Mateus 23,37, afirmando que a cidade mata os profetas e apedreja os enviados de Deus.

A violência contra os servos na parábola ecoa essa longa história de resistência à voz profética. No entanto, o ponto culminante da narrativa ocorre quando o proprietário decide enviar seu próprio filho. Na cultura semita o filho representava a autoridade e a presença do pai. Enviar o filho significava confiar plenamente na possibilidade de reconciliação. Contudo os vinhateiros dizem entre si: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e ficaremos com a herança”. Nesse momento a parábola revela uma dimensão antropológica profunda. O poder tende a se absolutizar. Quando pessoas ou instituições exercem autoridade durante muito tempo, podem começar a acreditar que aquilo que administram lhes pertence. A consciência de serviço se transforma lentamente em mentalidade de posse.

Esse mecanismo aparece em muitas dimensões da história humana. Ele se manifesta quando líderes religiosos transformam a fé em instrumento de dominação. Surge quando instituições passam a defender seus próprios interesses em vez de cuidar da vida do povo. A parábola de Jesus denuncia exatamente esse processo. Ao final da narrativa Jesus faz uma pergunta direta aos ouvintes. O que o dono da vinha fará quando voltar? Os próprios ouvintes respondem que ele destruirá os maus trabalhadores e confiará a vinha a outros que produzam frutos.

Então Jesus cita o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esse versículo se torna central na teologia do Novo Testamento. Ele aparece também em Atos 4,11 e em 1Pedro 2,7 para afirmar que Cristo, rejeitado pelos líderes de seu tempo, tornou-se fundamento de uma nova humanidade.

Nesse ponto surge um elemento fundamental da hermenêutica cristã. A parábola não anuncia apenas julgamento. Ela anuncia também um novo começo. A vinha não será destruída. O projeto de Deus continua na história. Ele será confiado a trabalhadores capazes de produzir frutos de vida.

A tradição do Novo Testamento retoma essa imagem em outros textos: 

  • No Evangelho de João, Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (João 15,1). Nesse discurso o discípulo é chamado a permanecer na videira para dar fruto. Quem permanece em Cristo produz vida; quem se separa dele torna-se estéril.

O critério fundamental da fé, portanto, não é o discurso religioso, mas o fruto produzido na história. A própria Bíblia insiste repetidamente nesse tema: 

  • Em Mateus 7,16 Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos.
  •  Em Gálatas 5,22-23 Paulo descreve o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. 
  • Em Tiago 2,17 encontramos uma formulação direta: a fé sem obras está morta.

A tradição bíblica não reconhece uma espiritualidade desligada da prática concreta da justiça. Essa dimensão torna-se especialmente importante quando observamos a realidade religiosa contemporânea. Em muitos contextos a fé foi reduzida a experiência individual ou a promessa de prosperidade pessoal.

A chamada teologia da prosperidade apresenta Deus como instrumento de ascensão econômica e transforma a relação com o sagrado em espécie de investimento espiritual. Essa lógica contradiz frontalmente a mensagem do Evangelho. Jesus afirma claramente em Mateus 6,24 que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro, e adverte em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância de bens.

A vinha de Deus não existe para enriquecer seus administradores, mas para produzir vida para o povo. Quando a religião se transforma em negócio ou instrumento de poder, ela repete o erro dos vinhateiros da parábola.

Os documentos sociais da Igreja também recordam essa dimensão ética da fé. A Constituição pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo. A encíclica Laudato Si' recorda que toda a criação é um dom confiado à responsabilidade humana.

Nesse sentido a vinha pode ser compreendida também como metáfora da própria terra. Quando ela é explorada de forma predatória e transformada apenas em fonte de lucro, a humanidade repete a lógica dos trabalhadores que se comportam como donos daquilo que receberam apenas para cuidar.

A parábola revela como estruturas de poder podem se fechar à crítica profética. Ao longo da história muitos sistemas políticos e religiosos eliminaram vozes incômodas para preservar privilégios. A morte simbólica do filho na parábola expressa exatamente esse mecanismo. No entanto, o Evangelho revela que a última palavra não pertence à violência. A pedra rejeitada torna-se fundamento. O Filho assassinado torna-se Senhor da vida. A ressurreição mostra que o projeto de Deus continua mesmo quando encontra resistência.

A imagem da vinha atravessa os quatro Evangelhos e aparece em contextos diferentes, sempre associada à responsabilidade humana diante do Reino:  

Em Mateus encontramos a parábola dos vinhateiros homicidas no contexto do confronto entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. O mesmo episódio aparece também em Marcos 12,1-12, Lucas 20,9-19. Nos três Evangelhos sinóticos a cena ocorre no templo, poucos dias antes da paixão, quando Jesus denuncia uma religião que perdeu sua dimensão profética.

O Evangelho de João não repete essa mesma parábola, mas desenvolve o simbolismo da vinha de forma mais espiritual. Em João 15,1-8 Jesus apresenta a imagem da videira e dos ramos para falar da comunhão entre Cristo e os discípulos. Permanecer na videira significa viver em comunhão com ele e produzir o fruto do amor, como o próprio texto afirma alguns versículos depois: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12).

Assim, ao percorrer os quatro Evangelhos, percebemos que a imagem da vinha se torna um fio condutor da revelação bíblica. Ela começa no Antigo Testamento como metáfora do povo de Deus, aparece na pregação profética como denúncia da injustiça e encontra em Jesus seu significado pleno. Quando esse Evangelho é proclamado na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, ele se torna um convite à conversão comunitária. A Igreja é chamada a examinar sua própria fidelidade ao Evangelho. A parábola não pertence apenas ao passado. Ela continua interpelando cada geração de cristãos.

Cada comunidade recebeu uma parte da vinha. Cada discípulo recebeu responsabilidades concretas na construção do Reino. A pergunta permanece viva: estamos produzindo frutos de justiça, de compaixão e de compromisso com a dignidade humana, ou estamos apenas administrando a vinha em benefício próprio?

O Evangelho continua sendo uma palavra profundamente provocadora. Ele questiona modelos de religião centrados no poder, no dinheiro ou no prestígio social. Ele recorda que a vinha pertence a Deus e que todos nós somos trabalhadores chamados a servir.

Cada gesto de solidariedade, cada defesa da vida, cada compromisso com a justiça é fruto da vinha de Deus. A parábola dos vinhateiros homicidas permanece como advertência e esperança. Advertência para que ninguém transforme a fé em instrumento de dominação. Esperança porque, apesar das infidelidades humanas, Deus continua confiando sua vinha à humanidade e esperando que ela produza frutos de vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 16,19-31

O Evangelho de Lucas 16,19-31 é
proclamado na liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum do Ano C e também na quinta-feira da segunda semana da Quaresma. A Igreja o coloca em dois momentos distintos e complementares: no Tempo Comum, como alerta permanente sobre o uso dos bens e a responsabilidade social da fé; e na Quaresma, como apelo direto à conversão concreta. Não é um texto periférico, mas central na pedagogia espiritual da comunidade cristã, pois toca a relação entre culto e justiça, fé e prática, esperança escatológica e compromisso histórico.

A parábola insere-se na grande seção lucana que vai do capítulo 9 ao 19, o caminho de Jesus para Jerusalém. Nesse percurso, Lucas reúne ensinamentos sobre discipulado, pobreza, riqueza e misericórdia. O capítulo 16 começa com a parábola do administrador infiel e com advertências claras: não se pode servir a Deus e ao dinheiro. O pré-texto imediato revela que os fariseus, “amigos do dinheiro”, zombavam de Jesus. O evangelista, atento à realidade das primeiras comunidades cristãs, muitas delas compostas por pobres urbanos e camponeses marginalizados pelo sistema imperial romano, apresenta uma narrativa que não é abstração moral, mas leitura crítica da ordem social.

O contraste inicial é contundente. Um homem rico veste púrpura e linho finíssimo, cores e tecidos associados à elite e ao poder político. Banqueteia-se esplendidamente todos os dias. À sua porta jaz um pobre chamado Lázaro, coberto de chagas, desejando saciar-se das migalhas que caem da mesa. A menção do nome do pobre não é detalhe casual. Lázaro significa Deus ajuda. O rico permanece anônimo. A tradição bíblica confere nome aos que têm história diante de Deus, enquanto a opulência sem compaixão se dissolve no anonimato do juízo. A antropologia bíblica reconhece que o nome é identidade e vocação. Aqui, o invisível aos olhos da sociedade é conhecido pelo céu.

Historicamente, a Palestina do primeiro século vivia sob forte concentração de terras e tributos impostos pelo Império Romano. Pequenos agricultores eram frequentemente endividados e expulsos de suas propriedades, tornando-se mendigos ou trabalhadores eventuais. O rico da parábola representa uma classe que usufrui do sistema sem questioná-lo. Lázaro simboliza a massa dos excluídos que não possuem acesso à mesa, nem à saúde, nem à dignidade. O portão que os separa é mais do que elemento arquitetônico. É símbolo de fronteira social, de barreira econômica e de indiferença institucionalizada.

A exegese do texto mostra que o pecado do rico não é explicitamente descrito como violência ativa. Ele não agride Lázaro, não o expulsa, não o amaldiçoa. Seu pecado é a omissão estrutural. Vive como se o sofrimento ao lado não existisse. Aqui ecoa a advertência de Tiago 4,17: quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado. A parábola dialoga também com Amós 6, proclamado no mesmo domingo, que denuncia os que se deitam em leitos de marfim e não se afligem com a ruína de José. A crítica profética não é contra o conforto em si, mas contra a anestesia moral que transforma privilégios em absolutos.

Quando ambos morrem, a narrativa introduz a reversão escatológica. Lázaro é levado pelos anjos para o seio de Abraão. O rico é sepultado e se encontra em tormento. O seio de Abraão evoca comunhão, pertença à promessa, intimidade com o patriarca. Trata-se de imagem simbólica da esperança judaica de participação na herança dos justos. O abismo que agora separa os dois reflete o abismo cultivado em vida. A hermenêutica bíblica ensina que o juízo não é arbitrariedade divina, mas revelação da verdade do coração humano. O que foi construído na história manifesta-se na eternidade.

A teologia da reversão atravessa todo o Evangelho de Lucas. No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos e exalta humildes. Nas bem-aventuranças lucanas, os pobres são declarados felizes e os ricos advertidos. A parábola não institui uma luta de classes simplista, mas afirma que a história tem direção e que Deus toma partido da vida ameaçada. O Reino anunciado por Jesus não legitima sistemas que produzem descartáveis. A ressurreição não é anestesia da consciência social, mas selo da justiça divina.

O rico revela mecanismo de defesa comum. A proximidade constante do sofrimento pode gerar negação. Para preservar a própria estabilidade, o sujeito aprende a não ver. O outro torna-se paisagem. A dessensibilização é estratégia inconsciente para evitar culpa. No entanto, essa fuga tem preço. O texto sugere que o tormento pós-morte não é apenas físico, mas consciência tardia. O rico finalmente vê Lázaro, mas ainda o enxerga como servo, pedindo que ele vá molhar-lhe a língua ou advertir seus irmãos. Sua lógica utilitarista permanece intacta. A  parábola denuncia a naturalização da desigualdade. Quando a miséria é percebida como destino inevitável ou culpa individual, o sistema se perpetua. A fé cristã, porém, afirma que toda pessoa é imagem de Deus. A tradição social da Igreja, consolidada em documentos como Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II e aprofundada em Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, recorda que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário. A concentração obscena de renda, o descarte de trabalhadores, a indiferença diante dos migrantes e dos moradores de rua são formas contemporâneas do portão fechado.

O diálogo entre o rico e Abraão introduz outro símbolo decisivo. Há um grande abismo fixo. Na tradição bíblica, o abismo representa separação radical. Aqui, ele não foi criado por Deus de modo caprichoso. É consequência de escolhas reiteradas. A liberdade humana tem peso eterno. A parábola combate a ilusão de que sempre haverá tempo para mudar sem alterar práticas concretas. A conversão não é sentimento abstrato, mas transformação de relações.

Quando o rico pede que alguém ressuscite para advertir seus irmãos, Abraão responde que eles têm Moisés e os profetas. Se não escutam a Escritura, não acreditarão nem mesmo diante de um ressuscitado. A referência aponta para a própria rejeição de Jesus. A incredulidade não é falta de provas, mas resistência ética. Quem se beneficia da injustiça dificilmente acolhe uma mensagem que exige partilha. A ressurreição de Cristo confirma a denúncia e inaugura nova possibilidade histórica, mas não força corações endurecidos.

Nesse ponto, a crítica à teologia da prosperidade torna-se inevitável. Reduzir a bênção divina a sucesso financeiro contradiz frontalmente o Evangelho lucano. A lógica que identifica riqueza com favor divino e pobreza com maldição reforça o portão do rico. Jesus nunca prometeu acumulação, mas partilha. A espiritualidade individualista, centrada apenas na salvação da alma desligada da realidade social, ignora que o juízo em Mateus 25 se dá a partir de gestos concretos para com famintos, sedentos, estrangeiros e presos. A fé sem justiça social transforma-se em culto vazio.

Aqui vale a pena  cita  São João Crisóstomo  que disse: 

  • Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não O desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres no templo com vestes de seda, enquanto O abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: «Isto é o meu Corpo» (Mt 26,26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: «Porque tive fome e não Me destes de comer» (cf Mt 25, 35); e também: «Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer» (Mt 25,42.45). Aqui, o Corpo de Cristo não necessita de vestes, mas de almas puras; além, necessita de muitos desvelos. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas que sejam de ouro.  Não vos digo isto para vos impedir de fazer doações religiosas, mas defendo que simultaneamente, e mesmo antes, se deve dar esmola. Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Sacia primeiro o faminto, e depois adornarás o seu altar com o que sobrar. Fazes um cálice de ouro e não dás «um copo de água fresca» (Mt 10,42)? Pensa que se trata de Cristo, que é Ele que parte errante, estrangeiro, sem abrigo; e tu, que não O acolheste, ornamentas a calçada, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com correntes de prata as lamparinas, e a Ele, que está preso com grilhões no cárcere, nem sequer vais visitá-Lo? Não te digo isto para te impedir de tal generosidade, mas exorto-te a que a acompanhes ou a faças preceder de outros atos de beneficência. Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos o mais precioso.

Santo Ambrósio ensinava que a terra foi dada a todos, não apenas a alguns. Agostinho via na incredulidade diante da ressurreição sinal de orgulho que fecha o coração. Essa tradição patrística confirma que a caridade não é filantropia opcional, mas dimensão constitutiva da vida cristã.

A simbologia dos cães que lambem as feridas de Lázaro também merece atenção. No contexto judaico, cães eram considerados impuros. O detalhe sublinha o grau de degradação social do pobre. Ele é assistido apenas por animais, não por seres humanos. A narrativa provoca desconforto deliberado. Onde falha a compaixão humana, a criação reage. A teologia bíblica reconhece que toda a criação geme diante da injustiça, como ensina Romanos 8.

Na  nossa  realidade  os Lázaros multiplicam-se nas periferias urbanas, nos campos devastados pelo agronegócio predatório, nos corpos negros vitimados pela violência estrutural, nas mulheres exploradas, nos trabalhadores informais sem direitos. A globalização financeira cria riquezas extraordinárias enquanto amplia bolsões de miséria. A parábola não autoriza neutralidade. Ela convoca discernimento político e econômico à luz do Evangelho.

 Não se trata de demonizar toda pessoa rica nem de romantizar a pobreza. A questão central é a relação com os bens. São instrumentos de comunhão ou muros de separação. A tradição bíblica ensina que a terra é dom e responsabilidade. O jubileu em Levítico 25 previa mecanismos de redistribuição para impedir concentração permanente. O projeto divino sempre incluiu limites à acumulação.

No horizonte escatológico, o texto aponta para esperança e juízo. Esperança para os que sofrem, juízo para os que se fecham. A escatologia cristã não aliena, mas fundamenta o compromisso histórico. Se Deus é justo, nossas escolhas importam. Se Cristo ressuscitou, a morte não tem a última palavra, mas a indiferença também não ficará impune.

Essa  parábola hoje nos  coloca em diálogo com o caminho espiritual iniciado nos dias anteriores. 

  1. Na segunda-feira dessa mesma semana ressoa o Evangelho de Evangelho de Lucas 6,36-38, onde Jesus exorta: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. O Mestre continua dizendo que a medida com que medirmos será também a medida que receberemos. Esse ensinamento ilumina diretamente a história do rico e de Lázaro. O rico mediu sua vida pela lógica da indiferença e da acumulação, enquanto Lázaro viveu na dependência radical da misericórdia de Deus. O que em Lucas 6 aparece como princípio espiritual torna-se em Lucas 16 uma consequência dramática. A misericórdia que não se pratica torna-se ausência de comunhão. O portão fechado da casa do rico é o contrário do coração aberto que Jesus pede aos discípulos.
  2. Na terça-feira da segunda semana da Quaresma, a liturgia proclama Evangelho de Mateus 23,1-12, no qual Jesus denuncia a hipocrisia religiosa de certos líderes que “dizem e não fazem”. Ele critica aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros enquanto buscam prestígio, lugares de honra e reconhecimento público. Esse texto estabelece um paralelo profundo com a parábola do rico e Lázaro. A crítica não se dirige apenas ao acúmulo material, mas também à religião transformada em espetáculo de status. A lógica denunciada por Jesus em Mateus é a mesma que aparece no rico da parábola: uma vida organizada em torno da aparência, do privilégio e da autoafirmação, enquanto o sofrimento humano permanece invisível. O Evangelho revela que a verdadeira grandeza não está em ser servido, mas em servir. O rico não entendeu isso e continuou prisioneiro da própria hierarquia imaginária.
  3. Na quarta-feira da segunda semana da Quaresma, a liturgia apresenta Evangelho de Mateus 20,17-28, no qual Jesus anuncia sua paixão e, ao mesmo tempo, corrige a ambição dos discípulos que disputavam posições de poder. Ele afirma claramente que no Reino de Deus a autoridade se expressa como serviço: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos”. Essa palavra estabelece um contraste direto com a lógica social representada na casa do rico. Enquanto o mundo organiza relações a partir do domínio e da vantagem, o caminho de Cristo é a entrega da própria vida. A cruz que Jesus anuncia aos discípulos é o oposto da autossuficiência que sustenta o sistema de exclusão denunciado em Lucas 16. O Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos, revelando que a verdadeira riqueza do Reino está na doação.

Assim, ao chegar à quinta-feira e ouvir a parábola do rico e Lázaro, a comunidade já percorreu um itinerário pedagógico.

  •  Primeiro aprendeu que a medida da vida é a misericórdia; 
  • depois foi advertida contra a hipocrisia religiosa; 
  • por fim escutou que a autoridade no Reino se traduz em serviço.
A história do rico e de Lázaro aparece como síntese e consequência dessas três dimensões. Quem não pratica misericórdia fecha o coração. Quem transforma a religião em palco de prestígio perde a capacidade de enxergar o próximo. Quem busca poder em vez de serviço constrói abismos sociais. O texto lucano revela o resultado final desse caminho quando não há conversão.

Essa sequência litúrgica também provoca uma autocrítica necessária dentro da própria vida eclesial. Existe sempre o risco de uma Igreja excessivamente preocupada com detalhes externos do culto enquanto se torna menos sensível ao sofrimento humano. A tradição litúrgica é preciosa, mas perde seu sentido quando se absolutizam rubricas, contagem de velas, cores de vestes ou minúcias cerimoniais enquanto pessoas concretas permanecem invisíveis à porta. A Escritura recorda continuamente que Deus deseja misericórdia e não sacrifícios vazios, como proclamam os profetas e como Jesus reafirma. O culto autêntico não se opõe à caridade, mas nasce dela. Quando a comunidade se ocupa apenas da perfeição ritual e esquece os pobres, repete simbolicamente a casa do rico adornada por dentro enquanto Lázaro continua do lado de fora.

Por isso a tradição espiritual sempre insistiu que a liturgia e a justiça caminham juntas. O altar aponta para a mesa da partilha e a Eucaristia exige coerência com a vida. Celebrar o Corpo de Cristo implica reconhecê-lo também nos corpos feridos da história. A pedagogia da Quaresma conduz a Igreja a essa verdade essencial: não basta organizar ritos impecáveis se a misericórdia não atravessa as portas da comunidade. O Evangelho não despreza a beleza litúrgica, mas recorda que o sinal mais autêntico da presença de Deus continua sendo a compaixão que transforma a vida dos que estão caídos à beira do caminho.

A parábola do rico e Lázaro permanece como espelho incômodo. Ela revela que o verdadeiro problema não é a distância geográfica entre céu e inferno, mas a distância social entre a mesa farta e o corpo ferido à porta. O Reino de Deus começa quando o portão se abre. Cada gesto de partilha antecipa o banquete escatológico. Cada omissão aprofunda o abismo.

No tempo da Quaresma, o texto convida ao jejum que agrada a Deus, como em Isaías 58, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem teto. No Tempo Comum, recorda que a conversão não é sazonal, mas estilo permanente. Reconhecer Cristo no pobre é reconhecer a verdade do Evangelho. Ignorá-lo é repetir a incredulidade denunciada por Abraão.

Que a comunidade cristã não se contente com ornamentos litúrgicos enquanto corpos padecem à porta. O culto autêntico une altar e rua. O Deus de Abraão, de Jesus e dos profetas continua a ouvir o clamor dos Lázaros de hoje. A pergunta que permanece não é sobre o destino final apenas, mas sobre a travessia que realizamos agora. O abismo pode ser superado enquanto há tempo. A fé que se faz justiça transforma a história e antecipa a comunhão plena.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Um breve olhar sobre Mateus 20,17-28.

 
O Evangelho de Mateus 20,17-28  proclamado na quarta-feira da segunda semana da Quaresma no rito romano, tempo forte de conversão, quando a Igreja, pedagoga da fé, coloca diante dos fiéis o contraste entre ambição e serviço, entre poder e cruz. Não se trata de uma escolha casual do lecionário. A Quaresma é itinerário para Jerusalém. E este texto é literalmente o caminho de Jesus para Jerusalém. Ele sobe consciente, livre, determinado. A geografia aqui é teologia. Jerusalém está no alto. Subir significa enfrentar o centro do poder religioso e político. O Templo, o Sinédrio, a aristocracia sacerdotal, o sistema sacrificial, a presença romana com sua violência institucionalizada. Nada é neutro no cenário.

O texto começa com o terceiro anúncio da paixão. Jesus toma os Doze à parte. Há intimidade e gravidade. A repetição do anúncio mostra a pedagogia paciente do Mestre diante da dureza de compreensão dos discípulos. Ele descreve a cadeia dos acontecimentos com precisão histórica. Será entregue aos chefes dos sacerdotes e escribas, condenado à morte, entregue aos pagãos, escarnecido, flagelado e crucificado. Aqui aparece a colaboração entre elite religiosa local e poder imperial romano. Historicamente, a crucifixão era pena reservada a insurgentes e escravos. Era espetáculo público de humilhação. O Império governava pelo medo. A cruz era propaganda política. Ao anunciar sua morte nesses termos, Jesus revela que sua missão confronta estruturas. Ele não morre de forma abstrata, mas como vítima de um sistema que mistura religião e poder.

O contexto anterior ilumina ainda mais. Em Mateus 19, o jovem rico se afasta triste porque tinha muitos bens. A promessa de vida eterna se choca com o apego à riqueza. Em seguida, Pedro pergunta o que receberão aqueles que deixaram tudo. A lógica da recompensa ainda está viva. Então vem a parábola dos trabalhadores da vinha, onde o dono paga igualmente aos que trabalharam uma hora e aos que trabalharam o dia inteiro. Ali já se questiona a mentalidade meritocrática. A graça rompe a contabilidade humana. Mateus 20,17-28 é continuação dessa ruptura. O Reino não funciona como mercado nem como carreira eclesiástica.

Logo após o anúncio da paixão, surge o pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. Curiosamente, o Evangelho de Marcos atribui o pedido diretamente a Tiago e João, mas Mateus introduz a figura materna. Isso pode refletir a importância da família na cultura judaica e a prática de intercessão familiar nas redes de patronagem mediterrâneas. Antropologicamente, honra e status eram valores centrais. Sentar à direita e à esquerda significava proximidade com o soberano, participação na autoridade e visibilidade pública. A mãe pede segurança para os filhos num cenário incerto, o medo da perda e da invisibilidade gera ambição disfarçada de fé.

  • Tiago e João eram pescadores da Galileia. Chamados por Jesus à beira do lago, deixaram redes e pai. A tradição os chama de filhos do trovão, conforme o relato de Evangelho de Marcos 3,17. Essa alcunha sugere temperamento impetuoso, talvez explosivo. Em Evangelho de Lucas 9,54, querem fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não acolheu Jesus. São zelosos, intensos, apaixonados, mas ainda marcados por lógica de vingança e exclusão. 
O pedido de lugares de honra combina com esse perfil forte. João, que mais tarde escreverá sobre amor e permanência, começa a jornada aprendendo a atravessar o próprio desejo de supremacia. Tiago será o primeiro dos Doze a derramar sangue, segundo Atos dos Apóstolos 12,2. O cálice que afirmaram poder beber não era metáfora leve.

Jesus responde com uma pergunta decisiva. Podeis beber o cálice que eu vou beber. O cálice, na tradição bíblica, é símbolo de destino, juízo e também de bênção. Em Livro dos Salmos 23, o cálice transborda como sinal de cuidado. Em Livro de Isaías 51, é cálice de ira. Em Evangelho de Mateus 26,39, torna-se cálice da paixão que Jesus pede, se possível, que seja afastado. O símbolo carrega ambivalência. Beber o cálice é aceitar a vontade do Pai mesmo quando ela passa pelo sofrimento. Não é masoquismo religioso, mas fidelidade à missão. Quando os discípulos respondem que podem, revelam disposição, mas ainda não compreendem profundidade. A espiritualidade que responde rápido demais pode esconder imaturidade.

Jesus afirma que de fato beberão seu cálice. A tradição confirma. Tiago será martirizado. João enfrentará perseguições e exílio. O discipulado não é trilha de privilégios, mas caminho de testemunho. Contudo, sentar à direita e à esquerda não lhe compete conceder. O Reino não é moeda de troca. Aqui se desmascara a teologia que transforma fé em contrato. A chamada teologia da prosperidade promete sucesso material como sinal de favor divino. Mateus 20 desmonta essa narrativa. O Filho do Homem caminha para a cruz, não para o trono imperial. A lógica do Reino é paradoxal. Em Carta aos Coríntios I 1,18, Paulo dirá que a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas força de Deus para os que creem.

A indignação dos outros dez mostra que a ambição é contagiosa. Não se indignam por causa da cruz anunciada, mas pelo pedido de privilégios. A comunidade entra em disputa interna. Isso é profundamente humano. Em grupos religiosos contemporâneos, não é raro ver conflitos por cargos, visibilidade e controle. O texto revela que desde o início a Igreja carrega essa tentação e aqui destacamos: 

  • Pedro, por exemplo, impulsivo e líder natural, já havia sido chamado de pedra e também de satanás no mesmo capítulo 16 de Mateus. Ele representa a tensão entre inspiração e resistência à cruz. 
  • Tomé, mais tarde, lutará com a dúvida. 
  • Mateus, o publicano, traz a memória de colaboração com Roma e a necessidade de conversão profunda.
  •  Simão, o zelota, possivelmente ligado a movimentos nacionalistas, precisa aprender que o Reino não se impõe pela espada. 
Cada apóstolo carrega traços psicológicos e sociológicos que Jesus não elimina, mas purifica e também é  assim conosco  temos traços  e personalidades distintas. 

Jesus então reúne todos e apresenta o contraste. Sabeis que os chefes das nações as dominam. O verbo dominar aqui evoca exercício opressivo de autoridade. O Império Romano mantinha ordem por meio de tributos pesados, exploração econômica e repressão militar. A Pax Romana era paz de cemitério para os rebeldes. Ao afirmar que entre vós não deverá ser assim, Jesus funda uma ética comunitária alternativa. A autoridade cristã nasce do serviço. Quem quiser ser grande seja servo. Quem quiser ser primeiro seja escravo. No mundo antigo, escravo era propriedade. Não tinha direitos. A imagem é radical. O maior no Reino assume a posição mais vulnerável.

Esse ensinamento dialoga profundamente com o Evangelho proclamado no dia anterior, Evangelho de Mateus 23,1-12. Ali Jesus critica escribas e fariseus que se assentam na cátedra de Moisés, atam fardos pesados sobre os outros e buscam primeiros lugares nos banquetes e saudações nas praças. Gostam de ser chamados de mestre, pai, guia. O problema não é o título em si, mas a incoerência entre palavra e prática e a busca de honra. Mateus 23 denuncia a religião exibicionista. Mateus 20 propõe a religião do serviço oculto. Um texto revela a patologia do poder religioso. O outro oferece terapia evangélica. Ontem Jesus desmascarou a hipocrisia que transforma fé em espetáculo. Hoje ele convida os discípulos a uma conversão estrutural do exercício de liderança.

A hermenêutica da cruz atravessa ambos os textos. Em Mateus 23, Jesus afirma que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Em Mateus 20, ele encarna essa verdade dizendo que o Filho do Homem veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. A expressão resgate remete à libertação de escravos e prisioneiros. No Antigo Testamento, Deus é aquele que resgata Israel do Egito, como narrado no Livro do Êxodo 6. O novo êxodo acontece na cruz. A libertação agora não é apenas política, mas integral. Liberta da idolatria do poder, do pecado que gera morte, da lógica de violência.

O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Isso impede espiritualidade alienada. Não é possível proclamar Mateus 20 e fechar os olhos para desigualdades gritantes, para lideranças religiosas que se aliam a projetos autoritários, para discursos que usam o nome de Deus para legitimar exclusão. O clericalismo, denunciado reiteradamente pelo magistério contemporâneo, é forma moderna da busca por primeiros lugares. Ele cria castas sagradas, distancia o povo e transforma ministério em privilégio.

A proposta de Jesus desafia o narcisismo religioso. O desejo de reconhecimento é humano. Contudo, quando se torna centro da identidade, gera ansiedade, competição e violência simbólica. O serviço, ao contrário, liberta da tirania da imagem. Em João 13, ao lavar os pés, Jesus assume tarefa de escravo doméstico. A água, a bacia e a toalha tornam-se sacramentos do Reino. Não há glória ali segundo critérios mundanos. Mas há revelação plena de Deus.

As comunidades que vivem Mateus 20 tornam-se sinal contracultural. Em vez de reproduzir hierarquias rígidas, promovem corresponsabilidade. Em vez de acumular riquezas em nome de promessas de prosperidade, partilham bens como em Atos dos Apóstolos 2,44-45. A crítica à teologia da prosperidade não é ataque a pessoas, mas denúncia de distorção do Evangelho. Quando a cruz é substituída por promessa de ascensão social garantida, perde-se o núcleo da fé cristã. O próprio Jesus afirma em Evangelho de Mateus 16,24 que quem quiser segui-lo deve tomar a própria cruz.

Mateus 20,17-28 termina antes da cura dos cegos em Jericó. A sequência narrativa sugere metáfora espiritual. É preciso enxergar corretamente o Reino. A cegueira maior é interpretar serviço como fraqueza e dominação como força. A ressurreição, anunciada ao final do anúncio da paixão, não é prêmio para ambiciosos, mas confirmação de que o amor que se entrega é mais forte que a morte.

Hoje, em contexto marcado por polarizações, culto à personalidade e instrumentalização da fé para projetos de poder, a Palavra ressoa como juízo e esperança. Juízo porque denuncia toda forma de liderança que busca primeiros lugares e títulos honoríficos enquanto ignora o sofrimento do povo. Esperança porque mostra que existe outra maneira de organizar a vida comunitária. O Filho do Homem continua subindo a Jerusalém em cada periferia esquecida, em cada comunidade que decide servir sem aplauso, em cada cristão que escolhe coerência em vez de prestígio.

O texto começa com um anúncio de morte e termina com promessa implícita de vida que brota do serviço. O princípio é a revelação da cruz. O meio é a purificação das ambições. O fim é a redefinição de grandeza. A Quaresma coloca essa Palavra diante da Igreja como espelho. Entre a cátedra orgulhosa de Mateus 23 e a bacia humilde do serviço de Mateus 20, somos chamados a escolher. O cálice permanece diante de nós. Não é cálice de prosperidade fácil, mas de fidelidade transformadora. Quem o bebe descobre que a verdadeira autoridade nasce quando o poder se converte em amor que se entrega até o fim.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 3 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 23,1-12

Uma releitura possível  de Mateus 23,1-12 

¹ Jesus falou naquele tempo aos discípulos e à multidão e continua falando conosco hoje, aqui, em nossas  comunidade, neste Brasil ferido, mas ainda esperançoso.
² Os Bispos, padres, pastores, diáconos e tantas outras lideranças exercem autoridade religiosa. A autoridade é necessária. Ensinar é missão. Orientar é serviço. Mas nenhuma autoridade está acima do Evangelho.
³ Por isso, escutai aquilo que anunciam quando proclamam a Palavra. Mas não reproduzais práticas daqueles que negam a justiça, a misericórdia e a verdade. Não imiteis quando o discurso é correto, mas a vida  prática é incoerente. O Evangelho não é teoria; é caminho vivido.
⁴ Não aceiteis que coloquem sobre vós fardos que eles mesmos não estão dispostos a tocar. Deus não instituiu ninguém para esmagar consciências. Quando a religião se torna peso insuportável, ela já se afastou do coração do Pai.
⁵ Quando a fé vira vitrine, quando o altar vira palco, quando a Bíblia é usada para autopromoção, lembrai-vos: Deus não precisa de espetáculo. A espiritualidade verdadeira não busca aplauso; busca conversão.
⁶ O Reino não se constrói com títulos, mas com toalha e bacia; não com lugares de honra, mas com disposição para servir. Quem só procura o primeiro lugar talvez ainda não tenha entendido o lugar escolhido por Cristo..

⁷ Quando alguém se apega mais ao tratamento honorífico do que ao cuidado das pessoas, quando gosta mais de ser chamado de “mestre” do que de ser irmão, algo essencial do Evangelho se perdeu.
⁸ Entre vós não seja assim. Um só é o Mestre. E todos sois irmãos. No Reino de Deus não há casta espiritual superior. Há comunidade de iguais diante do Pai.
⁹ Não entregueis vossa consciência a ninguém. Não transformeis líderes em absolutos. Um só é o Pai que está nos céus. Toda autoridade humana é limitada e chamada à humildade.
¹⁰ Não permitais que ideologias, interesses de poder ou discursos inflamados ocupem o lugar de Cristo. Um só é o Guia: Aquele que serviu até o fim.
¹¹ O maior entre vós não será o mais famoso, nem o mais seguido, nem o mais influente. O maior será aquele que serve, que se inclina, que toca as feridas do povo, que escolhe a coerência mesmo quando ninguém está olhando.
¹² Quem se exalta usando o nome de Deus para subir cairá sob o peso da própria soberba. Mas quem se humilha, quem prefere servir a dominar, quem vive o que anuncia, esse será levantado por Deus.
Hoje o Evangelho não nos pede admiração.
Pede conversão,  não pede títulos.
Pede coerência, não pede palco.
Pede serviço,  Porque o mundo já está cansado de religião exibida. Mas ainda tem sede de discípulos que lavem os pés da história.

A Boa Nova de Jesus Cristo segundo Mateus 23,1-12 é proclamada na terça-feira da segunda semana da Quaresma e também no sábado da vigésima semana do Tempo Comum. A pedagogia litúrgica não distribui textos ao acaso. Na Quaresma, tempo de conversão e despojamento, esta palavra ecoa como trombeta que rompe o silêncio confortável das aparências religiosas. No Tempo Comum, quando a fé corre o risco de diluir-se na rotina, ela recorda que o chamado à coerência não é sazonal, mas permanente. Trata-se de uma palavra dirigida às multidões e aos discípulos, portanto à comunidade inteira, à Igreja de todos os tempos, convocada a discernir suas práticas, seus símbolos, sua autoridade e sua fidelidade ao Evangelho.
O cenário é Jerusalém, centro religioso, político e simbólico de Israel. Jesus já entrou na cidade montado num jumento, cumprindo Zacarias 9,9. Já purificou o Templo, denunciando a transformação da casa de oração em covil de ladrões, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11. Já enfrentou fariseus, saduceus e herodianos em debates sobre tributo, ressurreição e o maior mandamento. A questão da autoridade atravessa os capítulos anteriores. Perguntam com que autoridade Ele faz tais coisas. Em Mateus 23, a resposta não vem como teoria abstrata, mas como juízo profético sobre um sistema religioso que perdeu o eixo da misericórdia.

Quando Jesus afirma que os escribas e fariseus se sentaram na cátedra de Moisés, reconhece a importância da tradição. Moisés é o mediador da aliança, aquele que recebeu a Lei no Sinai conforme Êxodo 20. A cátedra simboliza a função de ensinar e interpretar a Torá. Após a destruição do Templo no ano 70 d.C., o judaísmo rabínico reorganiza-se em torno da Lei e de seus intérpretes. A comunidade mateana vive nesse contexto de tensões e disputas por legitimidade. A crítica de Jesus não é rejeição da Lei, pois Ele mesmo declara em Mateus 5,17 que não veio abolir, mas cumprir. A denúncia dirige-se à incoerência entre ensino e prática, à manipulação da norma que deveria conduzir à vida.

Fazem e não praticam. Atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não os movem sequer com um dedo. A imagem do fardo remete à multiplicação de prescrições que regulavam minuciosamente a vida cotidiana. Sociologicamente, toda religião cria especialistas do sagrado que mediam o acesso ao sentido e à norma. No judaísmo do Segundo Templo, fariseus e escribas formavam uma elite simbólica, respeitada por sua dedicação à Lei. O problema surge quando o mediador se absolutiza e transforma a mediação em instrumento de poder. Isaías 10,1-2 já denunciava os que promulgam leis injustas para oprimir os pobres. Jeremias 23 condenava pastores que dispersam o rebanho. Jesus se insere nessa tradição profética e a radicaliza.
Ele mesmo, em Mateus 11,28-30, oferece um jugo suave e um fardo leve. A Lei, interpretada à luz da misericórdia, torna-se caminho de liberdade, como afirma Romanos 13,10 ao resumir tudo no amor. Mas a Lei manipulada para controle social converte-se em opressão espiritual. A hermenêutica de Jesus é clara quando cita Oséias em Mateus 9,13 e 12,7: misericórdia quero e não sacrifício. O critério não é a multiplicação de normas, mas a vida concreta do povo, especialmente dos pobres.

As filactérias alargadas e as franjas compridas têm fundamento bíblico. Deuteronômio 6,8 ordena atar as palavras da Lei à mão e à fronte. Números 15,38 manda colocar franjas nas vestes como memorial dos mandamentos. O símbolo, em si, é pedagogia da memória. A religião bíblica é profundamente simbólica. Contudo, quando o sinal se hipertrofia para autopromoção, transforma-se em espetáculo. Alargar a filactéria é ampliar a vitrine da piedade. 1 Samuel 16,7 já advertia que o Senhor não vê como o homem vê; o homem olha a aparência, mas o Senhor olha o coração. A crítica de Jesus revela uma antropologia realista: o ser humano busca reconhecimento e honra. No mundo mediterrâneo antigo, a honra era capital social. A disputa pelos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas expressa essa lógica competitiva.

A mesa, na cultura antiga, era espaço de distinção. Sentar-se próximo ao anfitrião significava status. Provérbios 25,6-7 aconselha prudência para não ser humilhado. Jesus retoma essa sabedoria e a transforma em paradigma do Reino. Em Mateus 20,27 e Marcos 10,45, afirma que quem quiser ser o primeiro seja servo. O termo diakonos indica serviço concreto. Em João 13, Ele lava os pés dos discípulos e redefine a autoridade como gesto de ajoelhar-se. A eclesiologia que brota daí não é piramidal, mas fraterna. Em Mateus 18, coloca uma criança no centro e declara que o maior é o que se faz pequeno. A criança, sem honra nem poder, torna-se ícone do Reino.

Quando Jesus adverte contra o uso inflado de títulos como rabi, pai e guia, não elimina a linguagem comum, mas denuncia a sacralização da autoridade. Um só é o vosso Pai, o que está nos céus. Malaquias 2,10 recorda que todos têm um só Pai e foram criados por um só Deus. A fraternidade nasce da paternidade divina. Paulo, em 2 Coríntios 4,5, insiste que não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo como Senhor, e a nós como servos por causa de Jesus. A autoridade cristã é funcional e ministerial, não ontologicamente superior.

Ao longo da história, a Igreja precisou purificar-se da tentação do clericalismo. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, reafirma o sacerdócio comum dos fiéis e compreende o ministério ordenado como serviço ao povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia a autorreferencialidade e convoca a uma Igreja em saída. Essa reflexão não é ruptura com a tradição, mas fidelidade ao Evangelho. Quando o ministério se converte em carreira, quando o título se torna escudo contra a crítica, quando a veste comunica distância em vez de proximidade, Mateus 23 ressoa como julgamento.

As vestes litúrgicas possuem rica simbologia. Êxodo 28 descreve as roupas sacerdotais como sinais da beleza do culto e da mediação. A tradição cristã desenvolveu paramentos que expressam continuidade histórica e teologia encarnada. O problema não está no tecido, mas no coração. Amós 6,4 denuncia os que repousam em leitos de marfim enquanto o povo sofre. Tiago 2,1-4 condena a preferência pelo rico bem vestido em detrimento do pobre. Num mundo de desigualdades gritantes, símbolos podem tornar-se ambíguos. Se comunicam poder e luxo num contexto de fome e exclusão, exigem discernimento pastoral e profético.

A teologia da prosperidade, que associa bênção divina a riqueza material, colide com o conjunto da revelação bíblica. Jó é justo e sofre. Jeremias é lançado na cisterna. João Batista é decapitado. Paulo enumera tribulações em 2 Coríntios 11,23-28. Em Atos 14,22, afirma-se que é preciso passar por tribulações para entrar no Reino. Jesus declara em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. A parábola do rico insensato em Lucas 12,15-21 expõe a ilusão de acumular sem partilhar. Reduzir a fé a técnica de enriquecimento é mutilar o Evangelho e ignorar a centralidade da cruz.
A espiritualidade individualista também contradiz a Escritura. Desde Gênesis 12, a eleição de Abraão tem horizonte universal. Em Êxodo 19,6, Israel é chamado a ser reino de sacerdotes. A Igreja é corpo, como ensina 1 Coríntios 12. Em Atos 2,42-47, a comunidade partilha bens e ninguém passa necessidade. A fé cristã não é projeto de autopromoção espiritual, mas inserção num povo. Hebreus 10,24-25 exorta a perseverar na assembleia. A salvação nos insere numa comunhão concreta que se traduz em justiça.

Muitos clerigos fazem da   ostentação  um  mecanismo de compensação. Quem necessita afirmar-se por títulos e símbolos talvez não tenha interiorizado a própria identidade filial. A  Epístola aos Romanos 8,16 é luminosa e desconcertante: “O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.” A identidade cristã nasce da filiação, não do cargo. Quando a vocação se converte em vitrine e o ministério em palco, algo da experiência filial não foi amadurecido. A necessidade compulsiva de títulos, honrarias e símbolos pode revelar insegurança espiritual. Quem sabe que é filho não precisa provar que é autoridade; serve.  O ser humano busca reconhecimento, quando a identidade interna é frágil, cresce a compensação externa. Algumas instituições tendem a criar linguagens e códigos para preservar hierarquias. Nada disso é estranho à Igreja histórica, que ao longo dos séculos absorveu traços do Império, do feudalismo e da cultura de corte. O problema não está no ministério ordenado, mas na sua distorção clericalista, quando o serviço vira status.

Essa afirmação de que muitos clérigos transformam a ostentação em mecanismo de compensação toca numa ferida antiga da história religiosa. Quando a identidade não está enraizada na consciência de ser filho, ela busca amparo em títulos, roupas, tratamentos honoríficos e distâncias simbólicas. Em Epístola aos Romanos 8,16 lemos que “o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus”. A filiação precede qualquer função. Antes de sermos padres, bispos ou leigos, somos filhos. Quando essa verdade não é interiorizada, o cargo vira armadura.

Jesus enfrentou essa tentação em seu tempo. Em Evangelho segundo Mateus 23,8-10 Ele adverte: “Não vos façais chamar rabi… porque um só é o vosso Mestre… todos vós sois irmãos”. No contexto do judaísmo do século I, os títulos carregavam honra pública e distinção social. A crítica de Jesus não é contra a organização comunitária, mas contra o uso da religião como palco de autoafirmação. A antropologia social mostra que, quando alguém depende excessivamente do reconhecimento externo, revela fragilidade interna. A autoridade que precisa ser constantemente lembrada é autoridade insegura.

 Aqui pedimos licença  para iluminar a nossa conversa  com quatro  fatos dos muitos que vivenciamos:
  1. Em um espaço público, um padre foi chamado pelo nome por um jovem. A resposta foi dura: “não me chame pelo nome, eu sou padre e não sou teu amigo; amigo de padre é padre”. Dias depois, o mesmo sacerdote pediu ao jovem que falasse com o bispo por ele e o apresentou como amigo. A incoerência revela algo mais profundo do que mera contradição: o título funcionou como fronteira quando convinha e como ponte quando era útil. A autoridade virou instrumento de conveniência.
  2. Em outra ocasião, um padre, percebendo que seus argumentos não se sustentavam numa conversa informal, interrompeu o debate exigindo que fosse tratado pelo título e lembrando quanto havia estudado. Quando o conteúdo fraqueja, apela-se ao crachá. A exegese do Evangelho mostra que Jesus confrontou exatamente essa lógica em Evangelho de Mateus 23, onde denuncia os que gostam dos primeiros lugares e dos títulos honoríficos. O conhecimento teológico é dom para edificação do povo, não escudo para vencer discussões.
  3. Em outro episódio, um bispo repreendeu uma jovem por chamar um padre pelo nome e advertiu o próprio sacerdote diante dela, reforçando a “autoridade” que ele representava. Historicamente, o episcopado sempre teve a missão de guardar a comunhão e a doutrina. Contudo, quando a ênfase recai mais na formalidade do tratamento do que na formação do coração, corre-se o risco de absolutizar a forma e esquecer o Evangelho. A autoridade apostólica nasce do testemunho e do cuidado, não do temor reverencial imposto.
  4.   Por fim, em um encontro diocesano, um jovem dirigiu-se ao bispo utilizando o tratamento você. Um padre elevou a voz exigindo que se usasse excelência ou senhor. O jovem manteve o tratamento simples. Sociologicamente, a linguagem é instrumento de poder. Quem controla o modo como é nomeado controla a distância social. Mas a autoridade evangélica não precisa de blindagem semântica. Ela se sustenta na verdade e na justiça.
O Evangelho não destrói a ordem, mas subverte a lógica do prestígio. Jesus lava os pés. Ele redefine grandeza como serviço. Quando a Igreja esquece isso, torna-se caricatura de si mesma. Quando recorda, torna-se sinal do Reino. A verdadeira autoridade cristã não exige ser chamada de excelência. Ela prefere ser reconhecida pela excelência do amor. O Novo Testamento emprega a linguagem de irmãos e irmãs com frequência surpreendente. Paulo se apresenta como servo. Pedro exorta como presbítero entre presbíteros. A hermenêutica da cruz desmonta a lógica da ostentação: o Filho se esvazia. 

O problema não é o respeito, que é virtude cristã, mas a sacralização do status. Quando a Igreja adota lógicas de corte, aproxima-se mais de estruturas imperiais do que do Reino anunciado por Jesus, a tentação de confundir ministério com privilégio cresceu quando a fé se aliou ao poder político. O clericalismo torna-se terreno fértil para abusos e para alianças com projetos autoritários, inclusive aqueles que instrumentalizam a religião para sustentar discursos de exclusão e intolerância e quem quem precisa reiterar constantemente sua posição talvez não tenha pacificado sua identidade. A espiritualidade paulina aponta outro caminho. Se o Espírito confirma nossa filiação, não precisamos de títulos para existir. A segurança filial gera serviço humilde. A insegurança gera ostentação.

A geografia da Palestina do século I era marcada por estruturas de poder religiosas rígidas; é nesse cenário que Jesus lava pés. O gesto não foi teatral, foi programático. Romanos 8,16 devolve o centro: somos filhos. O padre continua padre, o bispo continua bispo, mas antes de tudo são filhos e irmãos. A verdadeira autoridade cristã não precisa elevar a voz nem exigir reverência; ela se impõe pela coerência, pela escuta, pela capacidade de servir sem humilhar. Quem interiorizou a filiação não transforma o altar em trono nem o título em armadura. Vive com liberdade, porque sabe que sua dignidade não vem do aplauso, mas do Espírito que testemunha no íntimo.

 A humildade cristã não é desprezo de si, mas verdade diante de Deus. É libertação da necessidade de aplauso. A sociedade contemporânea, marcada pela lógica das redes e da visibilidade permanente, intensifica a tentação da performance religiosa. A fé pode tornar-se espetáculo. O risco não é apenas estético, mas ético. Quando a imagem substitui o compromisso com os pobres, o Evangelho é traído.

Mateus 23 também interpela alianças entre religião e projetos políticos excludentes. O Deus do Êxodo ouviu o clamor dos oprimidos. Em Lucas 4,18-19, Jesus proclama libertação aos cativos e boa nova aos pobres. Quando líderes religiosos legitimam discursos de ódio, silenciam diante da injustiça ou defendem políticas que ampliam desigualdades para manter privilégios, repetem o gesto de atar fardos pesados. Miqueias 3 denuncia chefes que julgam por suborno e sacerdotes que ensinam por dinheiro. A instrumentalização da fé para sustentar opressões é forma contemporânea de farisaísmo.

Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Este princípio escatológico atravessa a história da salvação. Ana canta em 1 Samuel 2 que o Senhor abate o poderoso e exalta o humilde. Maria retoma esse cântico no Magnificat. Filipenses 2 apresenta a kenosis de Cristo como caminho de exaltação. A ressurreição é resposta do Pai à obediência do Filho que se esvaziou. A Igreja só será fiel se trilhar o mesmo caminho.

A Quaresma, ao proclamar este texto, convida à revisão de vida pessoal e estrutural. Não basta indignar-se com a incoerência alheia. É preciso examinar motivações, prioridades orçamentárias, estilos pastorais. Medellín, Puebla e Aparecida reafirmaram a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. Mateus 25 coloca o cuidado com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso como critério do juízo final. Esse texto relativiza qualquer título e qualquer honra.

A palavra de Mateus 23,1-12 permanece como lâmina que separa aparência e verdade. Ela não visa destruir a Igreja, mas purificá-la. Como nas cartas às comunidades do Apocalipse, a correção é expressão de amor. O Evangelho exige coragem profética para denunciar a religião vazia que acumula normas e negligencia o essencial. Exige também ternura para reconstruir a comunhão ferida. Num mundo sedento de autenticidade, o testemunho humilde é mais eloquente que qualquer paramento ou cargo. A veste mais bela é a caridade, como afirma Colossenses 3,14. A autoridade cristã se ajoelha, como em João 13. A grandeza está em servir. Se a Igreja acolher esta palavra com coragem, será sinal do Reino que cresce não pelo brilho das vestes, mas pela luz discreta dos que partilham o pão e defendem a dignidade dos pequenos. Então o mundo verá não a exaltação de líderes, mas a transparência do Deus que se fez servo e nos chama irmãos.



DNonato - Teólogo do Cotidiano

domingo, 1 de março de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,36-38

 
O Evangelho segundo Lucas 6,36-38 é proclamado no rito romano na segunda-feira da segunda semana da Quaresma, no ciclo ferial do Lecionário. A Igreja o coloca no interior de um tempo marcado por conversão, jejum, oração e esmola, não como adorno espiritual, mas como lâmina que separa intenções e revela medidas interiores. A Quaresma não é estação de sentimentalismo religioso, mas de confronto com o critério do Reino. Ao ouvir esse texto, a assembleia é convocada a revisar o modo como julga, condena, perdoa e distribui. A pedagogia litúrgica é clara: antes de chegar à cruz e à ressurreição, é preciso atravessar o deserto da própria consciência.

A perícope situa-se no Sermão da Planície em Evangelho segundo Lucas 6,20-49. Para compreendê-la com rigor, é necessário considerar o pano de fundo histórico do judaísmo do Segundo Templo. Entre o retorno do exílio babilônico e a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., o povo judeu viveu sob sucessivas dominações estrangeiras, persa, grega e romana. O Templo reconstruído tornou-se centro religioso, econômico e identitário. A Lei ganhou centralidade como marcador de fidelidade à aliança. Surgiram diferentes grupos com interpretações distintas da Torá e da pureza ritual, como fariseus, saduceus, essênios e movimentos populares de resistência. A prática do julgamento, tanto jurídico quanto moral, era parte da vida comunitária. Sinagogas funcionavam como espaços de ensino e, em certa medida, de regulação social. A honra pública e a vergonha eram categorias determinantes. Julgar alguém significava posicioná-lo numa hierarquia simbólica.

Nesse contexto, a palavra de Jesus não é abstrata. Ele desce ao lugar plano, cercado por pobres, enfermos e excluídos. Lucas destaca que há gente da Judeia, de Jerusalém e das regiões pagãs de Tiro e Sidônia. A universalidade já se anuncia. Antes de ordenar a misericórdia, Jesus proclama bem-aventuranças aos pobres e ais aos ricos. A inversão escatológica relativiza as seguranças construídas pelo sistema religioso e econômico. A misericórdia exigida em 6,36-38 nasce dessa reconfiguração do horizonte histórico.

O versículo central diz: sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. O adjetivo grego oiktírmōn não é mera qualidade moral. Deriva de oiktirmos, que indica compaixão profunda, sentimento que brota das entranhas. Na Septuaginta, esse termo traduz frequentemente o hebraico rahum, relacionado a rahamim, entranhas maternas. Não é compaixão fria, mas movimento visceral diante da miséria alheia. Em Livro do Êxodo 34,6, Deus se revela como misericordioso e compassivo no momento de renovação da aliança após a idolatria do bezerro de ouro. A misericórdia aparece como resposta divina à traição humana. Em Livro do Deuteronômio 4,31, afirma-se que o Senhor é Deus misericordioso e não abandonará seu povo. A identidade divina é marcada por fidelidade e compaixão.

A teologia da aliança no Pentateuco é decisiva para compreender Lucas 6. Em Livro do Gênesis 12 e 15, a promessa a Abraão inaugura uma história de eleição orientada à bênção de todas as nações. A aliança sinaítica, narrada em Êxodo 19–24, estabelece relação jurídica e afetiva entre Deus e Israel. A Lei não é opressão, mas caminho de vida. Em Livro do Levítico 19,18, o mandamento de amar o próximo como a si mesmo aparece no contexto do código de santidade. Santidade não é fuga do mundo, mas prática concreta de justiça e misericórdia. Em Livro do Deuteronômio 15, Deus ordena que a mão não se feche diante do irmão pobre. A economia da aliança prevê remissão de dívidas e libertação de escravos. A misericórdia está inscrita na estrutura social desejada por Deus.

Quando Jesus usa o imperativo não julgueis, emprega o verbo krino. No grego clássico e bíblico, krino pode significar distinguir, decidir, processar judicialmente, condenar. A nuance depende do contexto. Em Lucas 6, a forma negativa indica proibição de assumir postura de juiz definitivo. No judaísmo do Segundo Templo, havia tribunais locais e o Sinédrio em Jerusalém. Julgar era função legítima. Contudo, a tradição bíblica já advertia contra julgamentos injustos. Em Livro do Levítico 19,15, ordena-se não favorecer o pobre nem o poderoso, mas julgar com justiça. Jesus radicaliza essa tradição ao deslocar o foco da legalidade para o coração. Ele não elimina discernimento, mas denuncia o julgamento que nasce da soberba e da incapacidade de reconhecer a própria fragilidade.

A semântica de krino também se conecta ao juízo escatológico. Julgar é prerrogativa divina. Em Livro do Profeta Daniel 7, tronos são colocados e livros são abertos. O Ancião julga as nações. A literatura apocalíptica do período intertestamentário desenvolveu expectativa intensa de julgamento final. Nesse horizonte, assumir julgamento definitivo sobre o outro é usurpar o lugar do Juiz escatológico. Lucas 6 devolve a Deus essa prerrogativa e convida o discípulo a viver sob a lógica da misericórdia.

O perdão, presente na perícope, está profundamente enraizado na espiritualidade bíblica. O  Salmo 50 (51) revela o drama do pecador que reconhece sua culpa e implora purificação. Criai em mim um coração puro. Esse salmo, associado à tradição de Davi após o pecado, mostra que misericórdia divina não ignora a verdade, mas a atravessa para restaurar. O Livro de Jó problematiza a relação entre culpa e sofrimento. Jó recusa a lógica simplista de seus amigos, que julgam sua dor como consequência automática de pecado. A misericórdia bíblica rompe essa equação mecânica. O sofrimento não pode ser reduzido a castigo moral.

Na literatura sapiencial tardia, a misericórdia assume dimensão ética universal. Em Eclesiástico 28,1-7, ensina-se que quem se vinga experimentará vingança do Senhor e que o perdão ao próximo prepara o próprio perdão. Em Livro da Sabedoria 11,23-24, afirma-se que Deus tem compaixão de todos porque ama tudo o que criou. A sabedoria bíblica insiste que misericórdia é caminho de vida. Não é sentimentalismo, mas inteligência espiritual.

A imagem da medida calcada, sacudida e transbordante remete ao comércio de grãos no mundo antigo. A honestidade na balança era questão ética central. Em Livro dos Provérbios 11,1, declara-se que balança enganosa é abominação. Jesus transforma essa prática cotidiana em metáfora escatológica. A medida que usamos revela a estrutura do nosso coração. A generosidade não é transação comercial, mas participação na superabundância divina.

 A literatura apocalíptica judaica desenvolveu imagens de julgamento cósmico, livros abertos e recompensa final. Daniel 12 fala de ressurreição e distinção entre justos e ímpios. Esse horizonte moldava expectativas no tempo de Jesus. Ao afirmar que a medida usada retornará, Lucas insere o agir presente no horizonte do juízo futuro. Contudo, não se trata de ameaça paralisante, mas de coerência entre misericórdia divina e resposta humana. O juízo final, descrito em Evangelho segundo Mateus 25, coloca a misericórdia concreta como critério definitivo.  Lucas confronta realidades marcadas por polarização ideológica, cultura de cancelamento e desigualdade estrutural. Julgamentos sumários nas redes sociais transformam pessoas em caricaturas. Narrativas políticas exploram medo e ressentimento. A misericórdia bíblica não legitima impunidade, mas recusa a desumanização. Critica tanto projetos autoritários quanto religiosidades que se alinham a interesses de poder. A teologia da prosperidade, ao prometer enriquecimento automático em troca de ofertas, reduz a medida transbordante a cálculo mercantil. Ignora o clamor dos pobres denunciado por Amós e Isaías.

A Doutrina Social da Igreja oferece critérios para essa leitura. A dignidade da pessoa humana é fundamento. O bem comum exige estruturas justas. A solidariedade expressa interdependência real. A subsidiariedade impede concentração abusiva de poder. A misericórdia não substitui a justiça social, mas a inspira e orienta. O Compêndio da Doutrina Social recorda que caridade e justiça não se opõem. A caridade é forma mais alta da justiça porque vai além do devido e reconhece o outro como irmão.

Infelizmente  ainda  hoje a Igreja mede pessoas por critérios de utilidade, status ou alinhamento ideológico, traindo  o Evangelho. Isso ocorre quando fecha portas aos frágeis e relativiza exigências diante dos poderosos, sua medida se torna desigual. Lucas 6 exige coerência. O Deus da aliança, revelado no Pentateuco e aprofundado pelos profetas e sábios, é misericordioso e fiel. O discípulo, inserido nessa história, não pode viver segundo lógica contrária.

A Quaresma, iluminada pelo salmo 50 (51), chama à purificação do coração. Não há transformação social autêntica sem conversão interior, mas não há conversão verdadeira que não produza efeitos sociais. A cruz e a ressurreição revelam que a misericórdia é mais forte que o pecado e que o juízo último pertence a Deus. Entre o já e o ainda não, a comunidade cristã é chamada a ser sinal da medida transbordante do Reino. No fim, Lucas 6,36-38 não é conselho moral isolado. É síntese da revelação bíblica da aliança, crítica aos sistemas de exclusão, convite à maturidade espiritual e anúncio escatológico. Em um mundo que mede com cálculo e julga com dureza, a Igreja é chamada a medir com generosidade e discernir com humildade. A medida escolhida hoje revelará a fé que professamos e o Deus em quem cremos. Se Ele é misericordioso, não há outro caminho para quem deseja ser seu filho e sua filha.

Sem esquecer  que Lucas 6,36-38 ressoa como denúncia profética e anúncio de esperança. Denúncia de toda medida estreita que condena sem oferecer caminho de restauração. Esperança de uma comunidade reconciliada onde justiça e misericórdia caminham juntas. A Quaresma nos convida a passar de um coração endurecido para um coração de carne, como promete Livro do Profeta Ezequiel 36,26.

A pergunta final permanece aberta e exigente. Qual medida usamos ao falar dos pobres, dos pecadores, dos diferentes? O salmo 50 (51) nos ensina a começar pela própria conversão. Só quem reconhece sua miséria pode tornar-se misericordioso. A medida transbordante do Reino não é cálculo, mas graça. E somente um coração purificado pela misericórdia divina poderá oferecê-la ao mundo com verdade, coragem e esperança.



DNonato - Teólogo do Cotidiano