quinta-feira, 2 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 18,1 _19,42 / Sexta-feira da Paixão...

 
A  liturgia da Sexta-feira Santa nos introduz no núcleo mais denso da revelação cristã, onde a Palavra não apenas se proclama, mas se entrega. As leituras deste dia Livro de Isaías Is 52,13–53,12, Livro dos Salmos Sl 30(31), Carta aos Hebreus Hb 4,14–16; 5,7–9 e Evangelho de João Jo 18,1–19,42 formam uma tessitura teológica única, na qual sofrimento, obediência, entrega e glorificação se entrelaçam como linguagem viva de Deus na história.

O cântico do Servo sofredor em  Osaías Is 52,13–53,12,  apresenta uma figura desfigurada e rejeitada, que carrega as dores do povo e, paradoxalmente, realiza a salvação justamente por meio de sua entrega. A tradição cristã reconhece aqui uma chave hermenêutica fundamental para compreender a cruz, não como acidente trágico, mas como lugar onde a violência humana é assumida e transfigurada por Deus. 

O Salmos Sl 30(31) responsorial ecoa essa experiência existencial. “Em tuas mãos entrego o meu espírito” ressoa como expressão de confiança radical no meio da angústia, onde o abandono não anula a fé, mas a purifica.

A Carta aos Hebreus Hb 4,14–16; 5,7 aprofunda essa dinâmica ao apresentar Cristo como sumo sacerdote que não permanece distante, mas atravessa a condição humana até o limite. Sua obediência não é submissão cega, mas fidelidade encarnada que passa pelo sofrimento e se torna fonte de salvação. Aqui, a teologia sacerdotal rompe com qualquer clericalismo estéril. O verdadeiro mediador não é aquele que se protege do mundo, mas aquele que se expõe por amor.

No ápice, a narrativa da Paixão segundo João revela a cruz como entronização. O Cristo não é apenas vítima, mas sujeito soberano que entrega a própria vida. A “hora” joanina manifesta a glória que se revela na fraqueza, desestabilizando toda lógica de poder. Assim, as leituras convergem para um mesmo horizonte. Deus não intervém pela força, mas pela doação radical de si.

Historicamente, a celebração da Paixão na Sexta-feira Santa remonta às primeiras comunidades cristãs, especialmente em Jerusalém, onde já no século IV há registros de uma liturgia própria, centrada na proclamação da Paixão e na veneração da cruz. Diferentemente da Eucaristia, esta celebração se estrutura como memorial austero, marcado pelo silêncio, pela escuta da Palavra, pela oração universal e pela adoração do mistério da cruz. Trata-se de uma liturgia marcada pela ausência, que é, paradoxalmente, profundamente eloquente.

Por isso, neste dia, a Igreja não celebra sacramentos, exceto em situações extremas, como a unção dos enfermos ou a reconciliação em perigo de morte. A ausência da celebração eucarística não é uma lacuna funcional, mas um gesto teológico. A Igreja se coloca em jejum sacramental para expressar que o Esposo foi tirado. É o dia em que o Corpo é entregue e o Sangue é derramado, não sob a forma sacramental da ceia, mas na crueza do acontecimento histórico salvífico. Esse vazio litúrgico denuncia qualquer tentativa de domesticar o mistério. Ele impede que a cruz seja rapidamente absorvida por ritos que poderiam suavizar seu escândalo. A suspensão dos sacramentos expõe a radicalidade da entrega de Cristo e convida a Igreja a entrar no silêncio do mundo ferido. É um tempo de despojamento, onde a fé é chamada a permanecer sem apoios visíveis, sustentada apenas pela confiança.

A narrativa da Paixão em João 18–19, quando penetrada em sua densidade simbólica, revela-se como uma liturgia cósmica em movimento, na qual cada gesto, cada palavra e cada espaço ultrapassam o fato histórico e se tornam linguagem viva de Deus na história humana. Não se trata apenas de memória, mas de revelação. No ápice do Tríduo Pascal, proclamada na Sexta-feira Santa, essa narrativa expõe o coração da fé cristã: a cruz não como fracasso, mas como manifestação da glória. A “hora” anunciada é o momento em que o amor se revela em sua forma mais radical, desarmada e irreversível.

A travessia do Cedron não é simples deslocamento geográfico, mas rito de passagem existencial. Ali se atravessa o limite entre segurança e entrega, entre controle e abandono. Jesus entra conscientemente no território da rejeição, antecipando todas as travessias humanas marcadas pela dor e pela exclusão. Esse vale continua presente nas periferias esquecidas, nas vidas consideradas descartáveis, nos corpos feridos por sistemas que definem quem pode viver e quem deve morrer. Cristo não contorna esse lugar, Ele o atravessa e o assume.

O jardim da prisão reconfigura o Éden. Se no princípio o ser humano se esconde por medo, agora Deus se expõe por amor. A antropologia é invertida: não mais o medo como princípio, mas a entrega como plenitude. Essa revelação confronta diretamente a subjetividade contemporânea, marcada pela autopreservação, pelo isolamento e pela incapacidade de comunhão. A verdadeira humanidade não se realiza no fechamento, mas na vulnerabilidade assumida. O Ressuscitado confundido com o jardineiro confirma que a nova criação já começou, silenciosa e concreta.

As lanternas e tochas carregadas pelos soldados denunciam a pretensão humana de controlar a verdade. São luzes artificiais que não iluminam, apenas reforçam a cegueira. Essa cena se prolonga nas ideologias que manipulam narrativas, nos discursos religiosos que absolutizam interpretações e nos sistemas econômicos que reduzem vidas a estatísticas. A prisão de Jesus continua sempre que a verdade é capturada por interesses e instrumentalizada pelo poder. Quando Jesus pronuncia “Sou eu”, não oferece apenas identificação, mas revelação. O Nome irrompe na história e desestabiliza estruturas. A queda dos soldados indica que a verdade não é neutra, ela confronta, desorganiza e expõe. A resistência a ela não é apenas intelectual, mas existencial, pois ameaça identidades construídas sobre dominação, privilégio e exclusão. 

A reação de Pedro com a espada revela a tentação permanente de defender Deus com violência. A orelha ferida simboliza uma humanidade incapaz de escutar. Onde há imposição, a escuta morre. A fé, porém, nasce da escuta e se sustenta na abertura. A negação de Pedro, por sua vez, expõe a ambiguidade do coração humano. Amar e negar coexistem. O canto do galo não é condenação, mas despertar. Toda conversão começa quando a consciência se deixa ferir pela verdade.

O interrogatório religioso revela a falência de uma religião sem profecia. Quando o poder religioso se organiza para silenciar a verdade, ele deixa de ser mediação de Deus e se torna mecanismo de controle. Essa denúncia permanece atual. Sempre que a instituição protege a si mesma em detrimento da vida, sempre que a autoridade se impõe sem serviço, o Evangelho é traído. A fé perde sua força quando se separa da justiça. Diante de Pilatos, a narrativa atinge seu ponto político. O poder pergunta o que é a verdade, não para buscá-la, mas para evitá-la. A omissão de quem reconhece a inocência e ainda assim consente com a injustiça revela uma consciência fragmentada. A escolha por Barrabás não é episódio isolado, mas padrão sociológico. Sociedades feridas tendem a optar pela violência quando perdem a esperança de transformação. A multidão continua escolhendo a morte sempre que legitima sistemas excludentes.

A coroação de espinhos expõe uma realeza invertida. A humilhação se torna entronização. “Eis o homem” não é ironia, mas revelação antropológica. Ali está o ser humano pleno, não no domínio, mas na entrega. A cruz se torna critério para discernir o que é verdadeiramente humano. Toda forma de poder que desumaniza se revela falsa diante dela.

O Gólgota, espaço de exclusão, torna-se lugar de revelação universal. A inscrição em múltiplas línguas indica que nenhuma dimensão da realidade permanece intacta. Fé, política e cultura são confrontadas. A cruz desmascara sistemas que se pretendem absolutos e revela suas contradições.

A divisão das vestes denuncia a fragmentação da dignidade humana. A túnica indivisível aponta para uma unidade que não se constrói pela imposição, mas pela comunhão. Em um mundo marcado por polarizações, desigualdades e disputas, essa imagem revela a violência de dividir aquilo que deveria permanecer íntegro: a vida, a verdade e a dignidade. As mulheres permanecem. Elas encarnam a fidelidade que não foge diante da dor. Ali nasce uma nova comunidade, não fundada em laços biológicos ou institucionais, mas na escuta e na relação. Essa é a base de uma eclesiologia autêntica: comunhão que resiste, que permanece e que cuida.

Os crucificados ao lado de Jesus revelam a divisão fundamental da existência humana. A abertura ou o fechamento à graça não é abstração, mas decisão concreta. Essa cena continua na história. Os crucificados de hoje não são metáfora. Estão nas vítimas da violência estrutural, nos pobres descartados, nos marginalizados por sistemas econômicos e religiosos. A cruz deixa de ser símbolo e se torna critério ético inescapável. 

A sede de Jesus não é apenas física. É sede de justiça, de reconhecimento, de plenitude da vida. Essa sede permanece enquanto houver estruturas que negam dignidade. “Tudo está consumado” não expressa derrota, mas plenitude. A vida foi entregue até o fim, sem reservas. O amor alcançou sua forma total.

Do lado aberto brota vida. Sangue e água não são apenas sinais, mas origem. Cristo se revela como novo templo, fonte inesgotável. Onde há abertura, essa vida continua a fluir. Onde há fechamento, ela é impedida. A dureza do coração se torna obstáculo à graça.

O sepulcro em um jardim revela o paradoxo da esperança. O que parece fim é gestação. O silêncio não é ausência, mas profundidade. Deus age no oculto, fora das lógicas imediatas. A ressurreição não elimina a cruz, mas a atravessa e a transforma.

Essa narrativa não pertence ao passado. Ela expõe estruturas permanentes. O poder que manipula, a religião que se corrompe, a sociedade que escolhe a violência continuam operando. Quando a fé se alia a projetos autoritários, repete-se o grito que nega o Reino e absolutiza o poder. A  cruz permanece como linguagem viva. Ela denuncia toda forma de opressão, desmascara falsas seguranças e convoca à conversão. Não é objeto de contemplação passiva, mas critério de discernimento e compromisso. Seguir esse caminho não é exaltar o sofrimento, mas assumir a verdade, a justiça e a vida como horizonte inegociável.

Resta o silêncio. Não o silêncio cúmplice que encobre a injustiça, mas o silêncio fecundo que escuta, discerne e se abre à ação de Deus. No jardim, no Gólgota e no túmulo, esse silêncio revela que, mesmo quando tudo parece encerrado, a vida continua sendo gestada. E a história, ferida e contraditória, permanece convocada a renascer.

A  cruz, portanto, não pode ser reduzida a objeto estático de veneração, domesticado por discursos religiosos que a esvaziam de sua força crítica. Ela é linguagem viva de Deus na história, signo que revela e julga. Nela se manifesta o paradoxo central da fé cristã: o poder que se faz fraqueza, a glória que se revela na entrega, a realeza que se expressa no serviço. À luz de João 18 e 19, a cruz não apenas narra um acontecimento, mas interpreta a realidade, desmascarando as alianças entre poder político, religião institucional e interesses que sacrificam a vida em nome da ordem. O pretório, o templo e a multidão se entrelaçam numa trama que continua a se repetir na história.

Seguir Jesus, como afirma Lucas 9,23, implica assumir a cruz como caminho existencial. Não se trata de espiritualizar o sofrimento nem de sacralizar a dor, mas de comprometer-se radicalmente com a verdade que liberta, como em João 8,32, e com a justiça do Reino que se opõe a toda forma de opressão. A cruz torna-se, assim, critério hermenêutico para discernir a autenticidade da fé. Onde há exclusão, violência legitimada e silenciamento dos vulneráveis, ali a cruz está sendo novamente erguida, não como sinal de salvação, mas como denúncia do pecado estrutural.

Diante desse mistério, o silêncio se impõe, não como fuga, mas como atitude profundamente teológica. É o silêncio do jardim onde a prisão acontece, o silêncio do Gólgota onde a violência atinge seu ápice, o silêncio do túmulo onde tudo parece encerrado. Esse silêncio, porém, não é vazio. Ele é carregado de sentido, espaço onde Deus continua agindo de modo oculto, como sugerem as tradições sapienciais e a própria dinâmica pascal. É o silêncio que escuta o clamor dos crucificados da história e recusa a indiferença que sustenta sistemas de morte.

O sepulcro, por sua vez, rompe a lógica da desesperança. Em contextos marcados pela crise das instituições, pela banalização da vida e pela instrumentalização da fé, ele se apresenta como sinal escatológico de que a última palavra não pertence à morte. A ressurreição, anunciada já na entrelinha da narrativa joanina, não anula a cruz, mas a atravessa e a ressignifica. Como em João 12,24, o grão de trigo que morre é condição para a fecundidade da vida. Assim, o túmulo vazio torna-se proclamação de que Deus subverte as lógicas estabelecidas e faz emergir vida onde tudo parecia perdido.

A Paixão segundo João, portanto, ultrapassa a dimensão de memória litúrgica e se configura como leitura crítica da realidade. Ela revela um Deus que não se alinha com os poderes que oprimem, mas que se solidariza com os que sofrem. Nesse sentido, a cruz permanece no centro da história como critério de verdade e lugar teológico por excelência. Ela aponta para onde Deus está, nos corpos feridos, nas vidas descartadas, nas periferias existenciais e sociais, e denuncia toda forma de cristianismo que se acomoda ao poder e se distancia da vida concreta.

A Igreja, ao contemplar esse mistério, é chamada à conversão contínua. Não pode se refugiar em ritos vazios nem em discursos que justificam privilégios. Sua vocação é estar aos pés da cruz, como o discípulo amado e as mulheres, não para legitimar a dor, mas para testemunhar a fidelidade de Deus e anunciar a esperança que brota mesmo nas situações mais sombrias. Fora dessa postura, corre o risco de repetir, ainda que com linguagem piedosa, o clamor que atravessa os séculos e legitima a morte.

Assim, a cruz não encerra a história, mas a reabre. Ela convoca à responsabilidade, à lucidez e à ação. É convite a uma fé encarnada, crítica e comprometida, que lê os sinais dos tempos à luz do Evangelho e se posiciona diante das injustiças. No horizonte da ressurreição, a cruz deixa de ser escândalo paralisante e se torna caminho de transformação. E é nesse entrelaçamento de dor e esperança que Deus continua a escrever sua história com a humanidade, chamando-a, incessantemente, à vida. A  Paixão não é mera recordação, mas participação. Ela insere a comunidade no drama da história, onde os crucificados continuam a clamar. Ao silenciar os sacramentos, a Igreja escuta mais intensamente esse clamor e se confronta com sua própria vocação. Não reproduzir estruturas de morte, mas testemunhar, mesmo no silêncio, a esperança que brota da entrega.

DNonato - Teólogo dos Cotidiano 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 13,1-15 - Noite do lava-pés

 
A celebração da Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, remonta aos primeiros séculos do cristianismo, quando as comunidades já se reuniam para fazer memória da última ceia de Jesus não apenas como recordação, mas como atualização viva de seu gesto de amor e entrega. O rito do lava-pés, conhecido como Mandatum, expressão latina ligada ao mandamento novo de João 13,34, foi progressivamente incorporado à liturgia, especialmente a partir do século IV em Jerusalém, onde peregrinos relatam celebrações que buscavam reviver concretamente os gestos de Cristo. Com o tempo, esse rito foi assumido de modo mais estruturado na tradição da Igreja, tornando-se sinal visível de uma comunidade chamada a servir, e não a exercer poder.

A liturgia deste dia articula de forma profundamente simbólica memória e compromisso e a seguinte: 

  • Êxodo 12,1-8.11-14, encontramos a instituição da Páscoa judaica, com orientações muito concretas como comer apressadamente, com sandálias nos pés e cajado na mão, indicando um povo em saída, em estado de libertação. Essa dimensão de urgência revela que a fé bíblica não é estática, mas dinâmica, sempre em caminho. 
  • Salmo 115(116B), traz a expressão “o cálice da salvação”, que na tradição judaica estava ligado às bênçãos nas refeições festivas, mas que, à luz de Cristo, ganha um significado novo ao apontar para a comunhão com sua entrega.
  •  Coríntios 11,23-26, Paulo transmite uma das tradições mais antigas da Igreja sobre a Eucaristia, escrita antes mesmo dos Evangelhos, o que mostra como desde o início a comunidade cristã se organizava em torno da memória viva da ceia do Senhor.

Esses textos, quando lidos juntos com João 13,1-15, revelam uma continuidade impressionante entre a libertação do Êxodo, a oração do povo de Israel e a prática da Igreja nascente. Como curiosidade teológica, percebe-se que aquilo que era sinal de libertação histórica no Êxodo se torna, em Cristo, sinal de libertação plena, enquanto o cálice da bênção passa a expressar não apenas gratidão, mas participação real na vida entregue de Jesus. Assim, a liturgia não apenas recorda eventos passados, mas os atualiza, inserindo o fiel na mesma dinâmica de amor, entrega e comunhão que atravessa toda a história da salvação.

João 13,1-15 ocupa um lugar central e densamente simbólico na vida litúrgica da Igreja. Ele é proclamado de modo solene na Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, abrindo o Tríduo Pascal, quando a Igreja faz memória da instituição da Eucaristia, do sacerdócio ministerial e do mandamento do amor vivido no serviço. Na manhã desse mesmo dia, na Missa do Crisma, manifesta-se a unidade do presbitério em torno do bispo e se consagram os óleos que acompanham toda a vida sacramental do povo de Deus, unindo a ação do Cristo servo à missão da Igreja no mundo. Este mesmo horizonte se prolonga no 5º Domingo da Páscoa, especialmente no ciclo C, quando a liturgia propõe João 13,31-35, explicitando o mandamento novo como fruto do gesto realizado na ceia. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, o lava-pés é reconhecido como gesto fundante da identidade cristã, sendo celebrado não apenas como memória, mas como atualização sacramental de um modo de ser que nasce do próprio Deus.

O Evangelho segundo o Evangelho de João introduz essa cena com uma densidade teológica que ultrapassa a simples narrativa histórica. “Sabendo Jesus que chegara a sua hora” (Jo 13,1) insere o leitor na lógica interna de toda a obra joanina, onde a “hora” não é apenas um momento cronológico, mas o ápice da revelação. Essa hora, já antecipada em Jo 2,4, tensionada em Jo 7,30 e Jo 8,20, manifesta-se plenamente como hora da glorificação na entrega total. Trata-se de uma glória paradoxal, que rompe com as expectativas messiânicas tradicionais vinculadas ao poder davídico de 2Sm 7, substituindo-as pela figura do Servo Sofredor descrito no Livro de Isaías 52,13–53,12. Aquele que é exaltado é o mesmo que se esvazia, que carrega as dores e que se oferece em favor de muitos.

A afirmação de que Jesus “amou-os até o fim” (Jo 13,1) encontra ressonância profunda em toda a Escritura. Em Jr 31,3, Deus declara: “Eu te amei com amor eterno”. Esse amor eterno agora se torna histórico, visível, encarnado. Em Jo 15,9-13, esse amor se desdobra como mandamento de permanência: “Permanecei no meu amor… ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”. O lava-pés, portanto, não é um gesto isolado, mas a abertura de um caminho espiritual que culmina na cruz e se projeta na vida comunitária. Ele inaugura o que se pode chamar de uma mística da permanência, onde o amor não é sentimento, mas decisão concreta de doação.

O pano de fundo pascal é decisivo. Em Ex 12, a Páscoa marca a libertação do Egito, com o sangue do cordeiro e a travessia do mar. No Evangelho de João, Jesus é apresentado como o Cordeiro de Deus (Jo 1,29), cuja entrega inaugura uma nova libertação. O lava-pés se insere nessa releitura pascal como gesto preparatório para uma nova aliança. Em Ex 30,17-21, os sacerdotes deviam lavar mãos e pés antes de entrar no santuário. Aqui, Jesus purifica os discípulos, constituindo-os como novo povo sacerdotal, antecipando o que será afirmado em 1Pd 2,9.

  • O gesto de levantar-se da mesa (Jo 13,4) revela uma iniciativa divina que ecoa múltiplas passagens bíblicas. Em Lc 15,20, o pai do filho pródigo levanta-se e corre ao encontro do filho. Em ambos os casos, Deus toma a iniciativa da reconciliação. Tirar o manto remete ao esvaziamento de Fl 2,6-8, mas também à transferência de missão em 1Rs 19,19, onde Elias lança seu manto sobre Eliseu. Aqui, porém, não se trata apenas de transmissão de autoridade, mas de revelação de um estilo de existência. 
  • Cingir-se com a toalha remete à linguagem profética de Is 11,5, onde a justiça é o cinto do Messias. Jesus se cinge não com símbolos de poder, mas com sinais de serviço.
  • A água derramada na bacia (Jo 13,5) carrega uma rica simbologia. Em Ez 36,25, Deus promete purificar o povo com água pura. Em Jo 7,37-38, Jesus se apresenta como fonte de água viva. Em Jo 19,34, do seu lado aberto jorram sangue e água, sinal da vida sacramental da Igreja.
  •  O lava-pés pode ser compreendido como um sacramento narrativo, um gesto que antecipa e interpreta a ação dos sacramentos. Ele dialoga com o batismo, como em Tt 3,5, e com a Eucaristia, como em Jo 6,51, onde o pão é a carne entregue para a vida do mundo.

O diálogo com Pedro revela uma dimensão profundamente antropológica e espiritual. Sua resistência em Jo 13,8 expressa a dificuldade humana de acolher um Deus que se abaixa. Essa resistência ecoa a de Moisés em Ex 3,11 e a fuga de Jonas em Jn 1,3. Pedro representa o discípulo que ainda opera dentro de uma lógica de poder e honra. A resposta de Jesus estabelece uma condição radical: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. A comunhão com Cristo exige a aceitação de sua lógica, que desconstrói imagens triunfalistas de Deus. A reação exagerada de Pedro (Jo 13,9) revela outro aspecto da psicologia religiosa: a tendência ao excesso e à literalidade. Isso encontra paralelo em 2Rs 5, quando Naamã precisa aceitar um gesto simples para ser curado. Jesus corrige Pedro, indicando que a purificação fundamental já foi realizada. Aqui se pode perceber uma alusão ao batismo, enquanto o lavar dos pés aponta para a necessidade contínua de conversão, como em 1Jo 1,9.

A presença de Judas amplia o alcance teológico do gesto. Jesus lava os pés daquele que o trairá, cumprindo o Salmo 41,9, citado em Jo 13,18. Esse detalhe revela que o amor de Deus não é condicionado pela resposta humana. Em Rm 5,8, Paulo afirma que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. O lava-pés, nesse sentido, é uma encenação antecipada da cruz, onde o amor se doa mesmo diante da rejeição.

Quando Jesus retoma o manto e se senta novamente (Jo 13,12), há um movimento pascal completo, que ecoa Ef 4,9-10. Ele desce e sobe, esvazia-se e é exaltado. Ao interpretar o gesto, Ele articula cristologia e eclesiologia. “Vós me chamais Mestre e Senhor” (Jo 13,13) deve ser lido à luz de Mt 23,8-11, onde Jesus critica a busca por títulos e poder. A verdadeira autoridade nasce do serviço. Em Mc 10,45, o Filho do Homem veio para servir, não para ser servido. Em Jo, essa verdade é encarnada em gesto.

O mandamento de lavar os pés uns dos outros (Jo 13,14) encontra eco em diversas passagens. Em Gl 5,13, “servi-vos uns aos outros pela caridade”. Em Rm 12,10, “preferi-vos em honra uns aos outros”. Em Tg 2,17, a fé sem obras é morta. O lava-pés torna-se critério ético fundamental. Ele redefine a grandeza, como em Lc 14,11, onde quem se exalta será humilhado.

A simbologia dos pés é profundamente rica. Na antropologia bíblica, os pés representam o caminho, a história, a concretude da existência. Em Sl 119,105, a palavra de Deus é lâmpada para os pés. Em Is 52,7, são belos os pés dos que anunciam a boa nova. Lavar os pés é tocar a história do outro, purificar seu caminho, acolher sua realidade. É um gesto de profunda encarnação. O gesto de Jesus dialoga com Lc 7,36-50, onde uma mulher pecadora lava seus pés com lágrimas. Ali, o amor do pecador se dirige ao Senhor. Aqui, o amor do Senhor se dirige ao discípulo. Esse paralelismo revela uma inversão teológica radical. Deus não apenas recebe o amor humano, mas o antecipa e o oferece primeiro, como afirma 1Jo 4,10.

A tradição profética ilumina o gesto com força crítica. Em Is 1,16-17, Deus clama por uma purificação que se traduz em justiça. Em Am 5,24, a justiça deve correr como um rio. O lava-pés substitui o culto vazio por um gesto concreto de amor. Ele denuncia toda religiosidade que se fecha em ritos e ignora o sofrimento humano.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium 8 e Gaudium et Spes 1, reafirma que a Igreja é chamada a ser servidora e solidária. Na América Latina, os documentos de Medellín, Puebla e Aparecida aprofundam essa vocação, destacando a opção preferencial pelos pobres. O lava-pés se torna, assim, paradigma pastoral. Ele exige uma Igreja que se incline diante dos marginalizados, reconhecendo neles o rosto de Cristo, como em Mt 25,40.

A análise sociológica revela como essa mensagem foi frequentemente distorcida. A construção de capital simbólico religioso, a sacralização do poder e o uso da fé como instrumento político contradizem diretamente o gesto de Jesus. O clericalismo transforma o serviço em privilégio. A teologia da prosperidade distorce o Evangelho ao prometer sucesso e riqueza, ignorando a cruz. A adesão a projetos autoritários, muitas vezes associados a ideologias de extrema direita, esvazia o Evangelho de sua força libertadora. O Cristo que lava os pés não legitima dominação, mas a desmonta.

O gesto confronta o narcisismo e a lógica da autoafirmação. Deixar-se lavar implica vulnerabilidade. Lavar os pés do outro exige empatia e humildade. É um caminho de cura interior, que liberta o sujeito de si mesmo para o encontro com o outro. A espiritualidade do lava-pés é profundamente terapêutica, pois reconstrói relações e restaura a dignidade.

A  escatológia amplia ainda mais o horizonte. No Apocalipse 7,17, o Cordeiro é também pastor. Em Ap 21,1-5, Deus faz novas todas as coisas. O serviço não é apenas ética presente, mas antecipação do Reino. Cada gesto de amor concreto é sinal da nova criação. A realidade contemporânea, marcada por desigualdade, violência e crise de sentido, exige uma releitura concreta deste texto. Lavar os pés hoje significa engajar-se na luta por justiça, acolher os excluídos, denunciar estruturas opressoras. Em Mt 25,40, Jesus se identifica com os pequenos. O lava-pés se prolonga na história como critério de julgamento.

Assim, João 13,1-15 se revela como coração do Evangelho. Ele não apenas narra um gesto, mas revela o ser de Deus. Um Deus que se inclina, que toca, que serve. Um amor que não domina, mas liberta. A Quinta-feira Santa não é apenas memória, mas convocação. A Missa do Crisma não é apenas rito, mas envio. Não basta chamar Jesus de Senhor, como em Mt 7,21. É necessário fazer a vontade do Pai, que se manifesta no amor concreto. A fé sem obras é morta, como afirma Tg 2,17. A Igreja, para ser fiel, precisa constantemente retornar a esse gesto, purificando-se de suas tentações de poder e redescobrindo sua vocação de serviço.

Cada discípulo é chamado a deixar-se lavar por Cristo e a lavar os pés dos irmãos. Neste movimento, se constrói uma identidade nova. Um amor que se derrama, que transforma, que resiste às estruturas de morte. Um amor que, fiel ao Evangelho, continua a anunciar, com gestos concretos, a vida nova que brota do Cristo servo, que amou até o fim e continua, na história, a ajoelhar-se diante da humanidade ferida para restaurá-la com sua graça.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Um breve olhar sobre Mateus 26,14-25

O trecho de Mateus 26,14-25 ocupa um lugar central na liturgia da Igreja Católica e nas tradições cristãs históricas. Na Quarta-feira Santa, a leitura dessa passagem introduz o drama da paixão, iluminando o mistério da entrega de Cristo e preparando a comunidade para a memória sacramental da morte e ressurreição. Na Quinta-feira Santa, a narrativa da traição se entrelaça com a instituição da Eucaristia (Mateus 26,26-29), tornando-se inseparável da mesa do Senhor. Nas Igrejas Orientais, como a bizantina, a traição de Judas é contemplada nos Matins da Quinta-feira Santa, enquanto nas tradições reformadas o texto é lido durante os cultos da Semana da Paixão, enfatizando o contraste entre fidelidade e infidelidade diante do Cristo sofredor. Assim, esta passagem não é apenas memória histórica, mas atualiza-se continuamente no coração da celebração litúrgica, revelando-se lugar de discernimento, julgamento moral e reflexão profética.

Historicamente, a Última Ceia ocorreu no contexto da Páscoa judaica, antecipando-se para que fosse celebrada antes da chegada dos romanos. Os alimentos da refeição eram altamente simbólicos:

  •  O cordeiro pascal recordava a libertação do Egito,
  •  o pão ázimo lembrava a pressa da saída, 
  • As ervas amargas evocavam a amargura da escravidão. 

As mulheres participaram da preparação da Ceia e acompanharam Jesus, pois a ceia era celebração  familiar (qual família  não  tem mulher?). Cada um tinha  um  papel definidos  por exemplo:  a mãe  que acendia e apagava as luzes e despedia todos, o mais novo  que fazia as perguntas  sobre a Páscoa Judaica,  por isso João  tão próximo de Jesus  e  não  podemos esquecer   que o seguimento autêntico não se restringe a homens e na comunidade cada um tem seu papel e importância.

 Foi durante essa refeição, ao partilhar o pão e o vinho, que Jesus instituiu a Eucaristia (João 6,51), oferecendo-se como alimento e promessa de vida eterna. A narrativa de Mateus é precedida por episódios que ajudam a compreender sua densidade teológica e existencial. Antes da traição, Mateus 26,3-5 relata a conspiração das autoridades judaicas, e nos versículos 6-13, a unção de Jesus em Betânia demonstra a lógica do dom e do reconhecimento messiânico. João 12,4-5 acrescenta que Judas critica a ação da mulher, argumentando com aparente preocupação pelos pobres, mas motivado por ganância. A contraposição entre o perfume derramado e a proposta de 30 moedas de prata (cerca deR$ 1.830,00 hoje) revela duas lógicas de relação com Jesus, uma marcada pela entrega gratuita e outra pelo cálculo e interesse pessoal. Historicamente, Jerusalém vivia sob ocupação romana, em meio à tensão política e expectativa messiânica, com peregrinos e vigilância intensa durante a Páscoa. Jesus representa, nesse contexto, uma ameaça simbólica e teológica, pois sua pregação sobre o Reino de Deus, seu cuidado pelos marginalizados e sua crítica ao formalismo religioso desafiam as estruturas de poder, como evidenciado na purificação do templo (Mateus 21,12-13; Isaías 56,7; Jeremias 7,11).

Judas Iscariotes, membro dos Doze (Mateus 10,1-4), é descrito como responsável pela bolsa do grupo (João 12,6), posição de confiança que evidencia que a ruptura se dá de dentro. Sociologicamente, essa internalização da traição mostra que os problemas de poder, inveja e frustração não surgem apenas externamente, mas atravessam a própria comunidade de fé. O gesto de Judas em negociar com os sumos sacerdotes (Mateus 26,15) revela a tensão entre valores espirituais e materiais. As 30 moedas de prata remetem a Zacarias 11,12-13 e ao preço de um escravo em Êxodo 21,32, sinalizando que a vida do justo é reduzida a mercadoria, e o traidor opera no centro das relações humanas, entre confiança e exclusão.

Mateus enfatiza que Jesus está plenamente consciente da traição (Mateus 26,21-22,24). A referência ao “Filho do Homem” que será entregue ecoa Daniel 7,13-14 e Isaías 53, articulando o sofrimento do servo sofredor com a glorificação paradoxal. A consciência de Jesus da traição não anula a liberdade de Judas. Em Atos 2,23, a entrega de Cristo é o cumprimento do desígnio divino, mas realizada por mãos humanas. A tensão entre providência e livre-arbítrio permanece, mostrando que a escolha humana tem consequências reais.

A Ceia do Senhor, contexto imediato da traição de Judas, é um espaço carregado de múltiplos significados, onde o gesto ritual se encontra com a revelação divina e a dimensão ética da vida comunitária. Cada elemento da mesa pascal tem ressonância simbólica: 

  •  O pão partido lembra a fragilidade humana e, ao mesmo tempo, a generosidade de Cristo que se dá como alimento para a vida do mundo (Mateus 26,26). Ao abençoar e repartir o pão, Jesus transforma um gesto cotidiano em sacramento, mostrando que o verdadeiro poder não está na dominação ou no controle, mas na doação e na entrega. O pão é também memória viva do êxodo do povo de Deus (Êxodo 12,1-14), um sinal de libertação e de esperança que se prolonga em cada gesto eucarístico, revelando que a fé não se encerra no plano espiritual, mas se manifesta na concretude da história, especialmente na atenção aos pobres, aos marginalizados e aos excluídos (Lucas 4,18; Mateus 25,35-40). 
  • O vinho, associado ao sangue de Cristo (Mateus 26,28), é símbolo da nova aliança, daquele pacto definitivo em que a fidelidade e a justiça de Deus se encarnam na história humana. O derramamento do vinho antecipa o sofrimento e a morte redentora, lembrando que o amor de Deus se realiza plenamente no dom total de si mesmo, que não evita a dor, mas a transforma em vida. Este gesto revela a lógica paradoxal do Reino, a glória se encontra na entrega e o poder se manifesta na vulnerabilidade. 
  • A Ceia é, portanto, um espaço de denúncia silenciosa contra toda forma de exploração, violência ou manipulação da fé, um chamado à comunhão verdadeira e à responsabilidade ética de cada participante. Participar da mesa não é apenas recordar um evento histórico, mas assumir compromisso com a justiça, a solidariedade e a misericórdia que Jesus encarnou. 
Cada gesto, partir o pão, passar a taça e olhar nos olhos dos discípulos, é um sinal da interdependência entre memória, ação e vocação. O pão partido representa a comunhão que se constrói na vulnerabilidade e na confiança, enquanto o vinho derramado recorda que a verdadeira liderança se dá no serviço e na entrega aos outros, em contraposição às dinâmicas de poder humano que levam à traição e à exploração. A presença de Judas nesta mesa simboliza que o mal se infiltra nos contextos mais sagrados e que a fidelidade de Cristo se mantém apesar da traição. A Ceia torna-se, assim, metáfora do desafio ético e espiritual contemporâneo. Viver a fé não como instrumento de status ou enriquecimento, mas como prática concreta de justiça, fraternidade e amor, confrontando estruturas de exclusão, clericalismo e ideologias que distorcem o Evangelho para fins autoritários.

Liturgicamente, a Ceia é celebrada como memorial contínuo da presença de Cristo, renovando a aliança entre Deus e a humanidade. Nos gestos da instituição encontramos modelos de comportamento e compromisso comunitário: partilhar, abençoar, oferecer e servir. Cada Eucaristia é convite à conversão pessoal e social, lembrando que a mesa não pode ser neutra diante da injustiça, do sofrimento ou da desigualdade. A Ceia proclama que o discípulo é chamado a ser pão partido e vinho derramado no mundo, comprometido com a transformação das realidades que contradizem o Reino, e que a verdadeira fidelidade não se limita a atos de devoção, mas se evidencia na prática da justiça, da misericórdia e da solidariedade (Mateus 5,6; Tiago 1,27).

O diálogo com os evangelhos paralelos enriquece a compreensão. Marcos 14,10-21 apresenta Judas como agente ativo, enfatizando a gravidade da traição; Lucas 22,3-6 destaca a ação de Satanás, enfatizando o conflito espiritual; João 13,21-30 desloca o foco para a dimensão simbólica, especialmente no gesto do pão. Cada tradição acrescenta camadas de sentido. Marcos enfatiza o drama, Lucas a dimensão espiritual, João a intimidade simbólica e Mateus o cumprimento profético e a responsabilidade ética. Essa leitura comparativa evidencia como a narrativa de Judas é teologicamente multifacetada, revelando tensão entre liberdade humana, realidade espiritual e plano divino.

A interioridade de Judas também merece análise, sua desilusão com a expectativa messiânica, o conflito entre ideal e realidade e a frustração com o caminho de Jesus podem ser compreendidos à luz de Lucas 24,21, onde discípulos experimentam desânimo e incompreensão. A traição não surge apenas de maldade, mas de ruptura de sentido, frustração e desejo de poder pessoal. Esse insight conecta a narrativa com a experiência contemporânea, em que escolhas erradas muitas vezes emergem de tensões internas e sociais..A  narrativa denuncia a instrumentalização da fé. Mateus 26,14-25 torna-se metáfora de práticas religiosas que legitimam exclusão, desigualdade ou controle autoritário. Tiago 2,1-7 denuncia favoritismo e exploração, Lucas 6,20-26 enfatiza bem-aventurança dos pobres e advertência aos ricos, 1 Timóteo 6,10 alerta contra o amor ao dinheiro. Estruturas que transformam a fé em instrumento de poder ecoam a lógica de Judas. 

Os textos de Mateus 23,1-12, Amós 5,21-24 e Isaías 1,11-17 denunciam cultos que não se traduzem em justiça e misericórdia. O Evangelho convida a uma fé encarnada, que se expressa na opção pelos pobres, na solidariedade e na defesa da dignidade humana. Documentos do Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, Lumen Gentium) e do CELAM (Medellín, Puebla, Aparecida) reforçam essa perspectiva, chamando à conversão pessoal e comunitária, à denúncia de estruturas de pecado e à construção de sociedades justas.

O clericalismo e a manipulação da fé, especialmente em contextos de teologia da prosperidade ou alianças políticas autoritárias, podem ser compreendidos como formas modernas da lógica de Judas. Em 1 Pedro 5,2-3, os líderes são exortados a servir com dedicação e não dominar. Em Apocalipse 13 e Mateus 9,13, a fé verdadeira se manifesta na justiça, misericórdia e humildade, não na opressão ou privilégio.

A pergunta “sou eu, Senhor?” ressoa ao longo do texto e atua como fio condutor. Ela emerge na reação dos discípulos (Mateus 26,22) e de Judas (Mateus 26,25), retornando na reflexão contemporânea como convite à autocrítica, discernimento e compromisso existencial. Essa pergunta nos interpela a escolher entre fidelidade e traição, entre a lógica do serviço e a lógica do interesse. Mateus 26,14-25 nos devolve à radicalidade da fé. Jesus permanece fiel, mesmo diante da traição, encarnando a misericórdia, a entrega e a solidariedade. Lamentações 3,22-23 e Romanos 5,8 lembram que o amor divino não se esgota, e que a graça permanece ativa na história. A mesa continua aberta, o pão continua a ser repartido, e a escolha entre o amor que se entrega e o interesse que manipula se atualiza em cada geração. 

Este texto é um chamado à conversão integral: pessoal, comunitária e social. Convoca-nos à justiça, à defesa da dignidade, à denúncia das estruturas de exclusão e à fidelidade ao Evangelho. Como Josué 24,15 nos lembra, cada um deve escolher a quem servir. No seguimento de Jesus, essa escolha se manifesta na prática da solidariedade, do serviço, da justiça e da compaixão. A Última Ceia nos revela a profundidade do amor de Cristo e o compromisso que cada discípulo é chamado a assumir. O pão, partilhado, simboliza o corpo que se entrega; o vinho, que se oferece, anuncia a nova aliança no sangue derramado. As ervas amargas recordam a dor e a injustiça do mundo, mas também o convite à libertação. Mulheres estiveram presentes, preparando e participando da refeição, mostrando que o seguimento de Jesus é inclusivo, que a vida comunitária se fortalece na diversidade e que a fidelidade ao Evangelho não conhece exclusões de gênero. Neste gesto de partilha, a Eucaristia se torna memória viva e ação transformadora: não é apenas recordar, mas viver o amor, a solidariedade e a justiça, levando esperança aos que sofrem, denunciando estruturas que oprimem, curando feridas e fortalecendo a dignidade humana. Que cada pão partido nos convide a repartir nossas vidas e que cada vinho compartilhado nos inspire a renovar nosso compromisso com a justiça, a compaixão e a construção de um mundo mais humano, fiel à mensagem libertadora de Cristo.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 31 de março de 2026

Uma noite que durou duas décadas

 

O ano de 1964 não começou com tanques. Começou com medo, um medo cuidadosamente cultivado, irrigado por discursos calculados, manchetes alarmistas e púlpitos capturados por uma teologia do pânico, um medo que não brotou espontaneamente do povo, mas foi semeado como construção social deliberada, aquilo que a sociologia política reconhece como produção do “inimigo interno” e do pânico moral, e nesse cenário o Brasil não era apenas uma nação em crise, mas um território em disputa simbólica, econômica e geopolítica, onde a narrativa precedeu os fatos e, uma vez instalada, passou a moldá-los, reorganizando a percepção coletiva até que a ameaça imaginada parecesse mais real do que a própria realidade.

O que se chamou de “revolução” foi, na realidade, o Golpe Militar de 1964, uma ruptura institucional articulada entre setores militares, empresariais, midiáticos e religiosos, e antes de ser um evento pontual, foi um processo longo de preparação discursiva e política, pois não há golpe sem narrativa, e a ideia de que o país estava à beira de um colapso comunista foi construída como ficção funcional, uma ferramenta de mobilização que ignorava o fato de que não havia condições materiais para uma revolução socialista no Brasil, existindo apenas um governo que tentava implementar reformas dentro da legalidade e da ordem constitucional.

No contexto da Guerra Fria, a América Latina era tratada como zona de contenção estratégica, e a política externa dos Estados Unidos operava sob a Doutrina de Segurança Nacional, que redefinia qualquer movimento reformista como ameaça ideológica, transformando demandas sociais em riscos geopolíticos, e o Brasil, pela sua dimensão territorial e relevância econômica, tornou-se prioridade, sendo alvo de um alinhamento planejado que não se limitou a apoio retórico, mas incluiu ações concretas como a Operação Brother Sam, que previa suporte naval, envio de combustível e assistência logística, evidenciando que o golpe não foi improviso, mas parte de uma engrenagem internacional cuidadosamente articulada.

Esse alinhamento, porém, não se restringiu ao campo logístico, pois avançou para a formação de doutrinas e práticas repressivas, com oficiais brasileiros sendo treinados em programas de cooperação militar, inclusive em instituições como a Escola das Américas, onde técnicas de contrainsurgência eram ensinadas sob a lógica da eliminação do “inimigo interno”, e manuais posteriormente divulgados revelaram que o que se apresentava como estratégia de segurança frequentemente incluía métodos coercitivos que, na prática, se traduziriam em tortura sistematizada, demonstrando que a violência não foi improvisada, mas ensinada, aprendida e institucionalizada.

O governo de João Goulart, longe de representar uma ruptura revolucionária, articulava um projeto reformista que buscava enfrentar desigualdades históricas por meio das Reformas de Base, incluindo propostas concretas como a reforma agrária com desapropriação de latifúndios improdutivos, a reforma urbana com controle de aluguéis, a reforma fiscal com maior progressividade tributária e a ampliação do acesso à educação, medidas que ameaçavam diretamente a estrutura de concentração de renda e poder, revelando que o conflito não era essencialmente ideológico, mas profundamente material, pois atingia privilégios enraizados.

A elite brasileira, formada sobre a herança escravocrata e patrimonialista, reagiu a essas propostas não com debate, mas com medo e violência simbólica, pois sua lógica histórica sempre foi a da acumulação e preservação de privilégios, e nesse contexto o discurso moralista contra a corrupção foi instrumentalizado como ferramenta de mobilização, não para transformar estruturas, mas para deslocar o foco, invisibilizando a corrupção estrutural que permeava a relação entre Estado e capital e substituindo-a por uma narrativa seletiva de corrupção individual, conveniente para deslegitimar adversários.

A mídia desempenhou papel central nesse processo, atuando como agente político ao amplificar o discurso do caos iminente e legitimar editorialmente o Golpe Militar de 1964 como solução necessária, moldando a opinião pública por meio de uma cobertura que não informava, mas induzia, repetindo o medo até transformá-lo em verdade emocional, e quando o medo se instala dessa forma, a razão se retrai e a sociedade passa a aceitar soluções que, em condições normais, seriam rejeitadas.

A religião institucional, por sua vez, não permaneceu neutra, mas participou ativamente da legitimação do golpe, especialmente por meio da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu setores conservadores com forte presença de lideranças religiosas em defesa de uma ordem moral que, na prática, sustentava interesses políticos e econômicos, e essa mobilização não foi espontânea, mas articulada com apoio empresarial e cobertura midiática, utilizando símbolos religiosos para conferir legitimidade moral a um projeto profundamente marcado pela defesa de privilégios de classe.

Essa instrumentalização da fé revelou uma distorção profunda, pois a religião, que poderia ter sido espaço de crítica e discernimento, tornou-se veículo de medo e legitimação do poder, confundindo espiritualidade com ideologia e reduzindo a fé a instrumento de defesa de estruturas injustas, ainda que houvesse resistência interna, com setores religiosos comprometidos com justiça social denunciando essa captura e pagando o preço por sua posição, evidenciando que a religião também é campo de disputa.

Quando os tanques finalmente vieram, vieram não como resposta a uma guerra real, mas como imposição de uma ordem, esvaziando o Congresso, dissolvendo partidos e suspendendo direitos civis, mantendo a institucionalidade como fachada enquanto o poder se concentrava em atos autoritários como o AI-5, que consolidou o estado de exceção e abriu caminho para uma política sistemática de repressão.

Nos porões do regime, essa repressão assumiu sua forma mais brutal, com centros como DOI-CODI e DOPS operando como máquinas de dor, onde o corpo humano era reduzido a objeto, submetido a práticas como o pau-de-arara, que tensionava ossos e articulações até o limite, choques elétricos aplicados em regiões sensíveis do corpo, o “submarino”, que levava ao desespero do afogamento controlado, espancamentos repetidos, privação de sono e humilhações constantes, métodos que não eram exceções, mas parte de uma política sistemática, ensinada e aperfeiçoada dentro de uma lógica internacional de repressão, com influência documentada dos Estados Unidos e posteriormente confirmada por investigações como a Comissão Nacional da Verdade, que reuniu evidências, relatos e responsabilidades institucionais.

Mas a violência não se resume aos métodos, ela se revela nas ausências, na cadeira vazia à mesa, na mãe que nunca mais recebeu notícias, no nome que desapareceu, no silêncio que se instalou dentro das casas, transformando dor em memória não resolvida.

A economia sob a ditadura seguiu lógica semelhante, com o chamado “milagre econômico” produzindo crescimento acelerado entre 1968 e 1973, mas acompanhado de profunda concentração de renda, aumento do índice de Gini e arrocho salarial que reduzia o poder de compra dos trabalhadores enquanto ampliava a produtividade, promovendo industrialização à custa de endividamento externo crescente e dependência do capital internacional.

O preço desse crescimento foi cobrado com brutalidade histórica, especialmente na década de 1980, marcada como “década perdida”, quando a inflação ultrapassou 80% ao mês em determinados períodos, corroendo salários, destruindo poupanças e instaurando uma instabilidade cotidiana em que o dinheiro perdia valor rapidamente, obrigando trabalhadores a correr contra o tempo para garantir o básico, enquanto o sistema previdenciário era fragilizado por um modelo que combinava concentração de renda e informalidade, reduzindo a base contributiva e comprometendo sua sustentabilidade.

Nesse cenário, grandes grupos econômicos foram favorecidos com crédito subsidiado, incentivos fiscais e proteção estatal, enquanto a maioria da população permanecia excluída, evidenciando que o favoritismo aos ricos não foi acidente, mas parte de um projeto estruturado de concentração, reforçado por relações com organismos internacionais como FMI e Banco Mundial, que condicionavam o desenvolvimento e aprofundavam a dependência.

A corrupção, longe de desaparecer, tornou-se mais opaca e protegida, funcionando dentro de um sistema sem transparência e sem controle democrático, revelando que a retórica anticorrupção havia sido apenas instrumento de legitimação.

Do ponto de vista antropológico, consolidou-se uma sociedade marcada pelo medo internalizado e por hierarquias rígidas, onde o autoritarismo se reproduzia não apenas por imposição, mas por adesão, resultado de um processo de manipulação que contou com propaganda, discurso religioso e mídia alinhada para construir uma percepção de ameaça que justificava a ruptura democrática.

E é nesse ponto que o passado se conecta com o presente, pois os mecanismos que operaram em 1964 não desapareceram, apenas se transformaram, sendo hoje mobilizados por setores da extrema direita que continuam a invocar o fantasma do comunismo, mesmo ausente como realidade concreta, e a utilizar o medo como ferramenta política central.

O revisionismo histórico torna-se, então, estratégia deliberada, buscando reconfigurar o Golpe Militar de 1964 como necessidade ou salvação, relativizando a tortura, negando os desaparecidos e suavizando a r8epressão, em um processo que não é ignorância, mas disputa ativa pela memória coletiva, pois quem controla a memória define os limites do aceitável.

A lógica permanece inalterada, criando crises artificiais, amplificando medos, simplificando a realidade em termos binários e justificando soluções autoritárias, enquanto a religião volta a ser mobilizada como instrumento político, repetindo, sob novas formas, o que se viu na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, agora como eco histórico que revela a permanência de uma cultura autoritária. O legado desse período não terminou, permanecendo nas estruturas, na cultura política e na tolerância à violência estatal, demonstrando que a história não é apenas memória, mas advertência ativa.

O Golpe Militar de 1964 não é um capítulo encerrado, mas um espelho incômodo que devolve à sociedade a imagem de suas próprias fragilidades, revelando como o medo pode ser organizado, como a fé pode ser capturada e como a memória pode ser manipulada para legitimar projetos de poder. Em 1964, o lema “Deus, pátria e família” não surgiu como expressão inocente de valores, mas como instrumento político, condensando em poucas palavras uma retórica poderosa capaz de mobilizar afetos, silenciar críticas e transformar divergência em ameaça. Sob esse slogan, construiu-se uma narrativa moral que mascarava interesses econômicos, geopolíticos e de classe, apresentando o autoritarismo como defesa da ordem, quando, na realidade, se tratava da contenção de qualquer tentativa de redistribuição de poder e renda. A chamada liberdade, evocada naquele contexto, era seletiva, pois não incluía o direito de organização popular, nem a pluralidade política, nem a crítica ao sistema, e essa contradição histórica precisa ser nomeada com precisão, porque ela não desapareceu. O que se defendia como liberdade era, na prática, a preservação de privilégios, a garantia de um modelo econômico concentrador e a manutenção de uma hierarquia social rígida. A pátria, invocada como entidade sagrada, foi reduzida a um conceito abstrato que excluía justamente o povo concreto, especialmente os mais pobres, os trabalhadores e aqueles que ousavam questionar a estrutura vigente. E Deus, invocado nos discursos e nas ruas, foi instrumentalizado como selo de legitimidade, como se o sagrado pudesse ser convocado para justificar a supressão de direitos e a violência institucional.

Esse arranjo simbólico não pertence apenas ao passado. Ele reaparece, reconfigurado, nos dias atuais, quando discursos que exaltam “Deus, pátria, família e liberdade” voltam a ocupar o espaço público com a mesma função de simplificar a realidade, dividir a sociedade e mobilizar o medo. O paralelismo não é retórico, é estrutural. Assim como em 1964, cria-se um inimigo difuso, amplia-se a sensação de crise, desacredita-se a política democrática e apresenta-se a autoridade como solução. O que muda são as formas; o mecanismo permanece. O perigo reside exatamente nessa repetição com novas roupagens, porque o autoritarismo contemporâneo raramente se apresenta como ruptura explícita; ele se infiltra no cotidiano, normaliza a intolerância, relativiza a violência e reescreve o passado para torná-lo aceitável. O revisionismo histórico que tenta suavizar ou justificar o Golpe Militar de 1964 não é apenas um erro interpretativo, mas uma estratégia política que prepara o terreno para novas formas de exclusão e controle. Quando a tortura é negada, quando os desaparecidos são esquecidos e quando a repressão é tratada como exagero, o limite ético que deveria impedir a repetição começa a se dissolver. Não  tem como negar a prisão  do Padre Natanael da JOC acusado  de comunismo , o desaparecimento de Rubens Paiva, o sequestro de Dom Adriano, a bomba na Catedral de Nova Iguaçu e tantos outros  fatos históricos  justificados, explicados é até  mesmo  negados  por muitos da extrema direita  brasileira. A  crítica, portanto, não pode ser superficial nem neutra. É necessário reconhecer que o lema “Deus, pátria e família” foi historicamente utilizado para proteger estruturas de poder e silenciar vozes dissidentes, e que sua reaparição, sem reflexão crítica, carrega o risco de reativar a mesma lógica excludente. Não se trata de negar valores, mas de desmascarar seu uso político quando servem à opressão. A história demonstra que, sempre que esses símbolos são mobilizados sem compromisso com justiça social, pluralidade e dignidade humana, eles deixam de ser valores e se tornam instrumentos. A pergunta que permanece, portanto, não é apenas o que aconteceu, mas o que estamos dispostos a reconhecer, enfrentar e impedir. Porque o perigo não está apenas nos tanques que avançam, mas nas ideias que preparam o caminho para que eles sejam aceitos. Está nos discursos familiares que tranquilizam enquanto restringem, nos símbolos que unem enquanto excluem, nas promessas de ordem que escondem projetos de controle.

Se há uma responsabilidade histórica, ela não é apenas de memória, mas de discernimento. Reconhecer os mecanismos que operaram em 1964 é condição para identificar suas novas formas de manifestação. Porque o autoritarismo não precisa repetir exatamente o passado para produzir os mesmos efeitos. Basta que encontre, mais uma vez, uma sociedade disposta a trocar liberdade real por segurança ilusória, diversidade por uniformidade e crítica por silêncio.

DNonato - Graduado em história, autor da monografia  O Regime militar  e a Diocese de Nova Iguaçu...


Um breve ilhar sobre João 13,21-33.36-38.

 
A perícope de João 13,21-33.36-38 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na Terça-feira Santa, inserida no coração da Semana Santa, quando a comunidade cristã entra de modo mais denso no mistério da paixão do Senhor. Ela aparece em íntima relação com os dias que a precedem, especialmente o Domingo de Ramos e a Segunda-feira Santa, formando um arco narrativo que conduz ao Tríduo Pascal. Nas tradições das Igrejas Ortodoxas e em comunidades oriundas da Reforma que preservam o calendário litúrgico histórico, textos paralelos são também proclamados nesse mesmo período, sobretudo dentro das leituras da Paixão, evidenciando a centralidade desse momento na memória cristã. Trata-se de um texto que não apenas recorda um evento, mas introduz a assembleia numa experiência espiritual de confronto com a verdade do discipulado e com o mistério do amor que se entrega até o extremo.

A narrativa se insere no chamado Livro da Glória do Evangelho de João, que se estende de 13,1 a 20,31, e que é inaugurado por uma afirmação decisiva em João 13,1, quando o evangelista declara que Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Essa afirmação ecoa a declaração anterior em João 12,23, quando Jesus anuncia que chegou a sua hora. A hora, em João, não é apenas um momento cronológico, mas a culminação do projeto salvífico, o ponto em que a identidade do Filho se revela plenamente. O que se segue não é um colapso diante do mal, mas a manifestação paradoxal da glória de Deus na entrega. A traição de Judas e a negação de Pedro não interrompem esse movimento, mas são absorvidas dentro dele, revelando que o amor divino não depende da fidelidade humana para se realizar.

O contexto imediato é o da ceia pascal em Jerusalém, durante a festa que recorda a libertação do Egito conforme Êxodo 12. Esse pano de fundo é essencial para compreender a densidade simbólica do texto. A Páscoa judaica celebra a passagem da escravidão para a liberdade, mediada pelo sangue do cordeiro. No Evangelho de João, Jesus é apresentado como o verdadeiro Cordeiro de Deus, conforme João 1,29, cuja entrega inaugura uma nova e definitiva libertação. O cenário geográfico de Jerusalém, centro religioso e político do judaísmo, intensifica o drama, pois é ali que se entrelaçam fé, poder e conflito.

Quando o texto afirma que Jesus se comoveu em espírito ao anunciar a traição, revela-se a profundidade da encarnação. O verbo utilizado indica perturbação interior intensa, desmontando qualquer tentativa de espiritualizar o sofrimento de Jesus de forma abstrata. Ele experimenta a angústia que atravessa a existência humana diante da ruptura da confiança. A traição, no mundo bíblico, não é apenas um erro moral, mas uma quebra de aliança. Ao evocar o Salmo 41,10, o texto indica que aquele que partilha o pão levanta o calcanhar contra o amigo. Trata-se de uma dor relacional, que toca o núcleo da identidade humana construída na comunhão.

O gesto de oferecer o pão molhado a Judas possui um significado cultural profundo. No contexto semita, esse gesto é sinal de honra e amizade. Jesus, ao realizá-lo, não expõe Judas publicamente, mas lhe oferece uma última possibilidade de conversão. Aqui se revela uma dimensão teológica fundamental. O amor de Deus não é seletivo nem reativo. Ele se oferece até o fim, mesmo diante da recusa. A entrada de Satanás em Judas, mencionada no texto, deve ser compreendida à luz da antropologia bíblica, que reconhece a ação do mal como realidade pessoal e estrutural. Não se trata de uma possessão que anula a liberdade, mas de um processo de fechamento progressivo à verdade, no qual a pessoa se torna cúmplice de forças que desumanizam.

Quando Judas sai, o evangelista acrescenta que era noite. Essa observação ultrapassa o dado cronológico e assume densidade simbólica. Em João, a noite representa o espaço das trevas, da incompreensão e da rejeição. Em João 3,19, afirma-se que os homens preferiram as trevas à luz, e em João 8,12, Jesus se apresenta como a luz do mundo. A saída de Judas marca, portanto, a intensificação do conflito entre luz e trevas, mas também o início visível do caminho da glorificação. A noite não é apenas ausência de luz, mas expressão de uma escolha existencial que recusa a verdade. A declaração de Jesus de que agora o Filho do Homem foi glorificado introduz uma chave teológica decisiva. A glória, no contexto bíblico, não corresponde ao brilho do sucesso ou ao reconhecimento social. O termo grego doxa, em continuidade com o hebraico kabod, indica peso, densidade, presença concreta de Deus. A glória se manifesta na cruz, onde o amor se torna visível na entrega radical. Essa compreensão subverte profundamente as categorias humanas de poder e prestígio. Em um mundo estruturado por hierarquias e dominação, a cruz se torna denúncia profética dessas estruturas, revelando que a verdadeira grandeza está no serviço.

A figura de Pedro introduz uma dimensão existencial e psicológica de grande relevância. Ao afirmar que daria a vida por Jesus, Pedro expressa sinceridade, mas também desconhecimento de si mesmo. A resposta de Jesus revela a distância entre intenção e capacidade, entre desejo e realidade. A negação de Pedro, anunciada por Jesus, não é condenação, mas desvelamento da fragilidade humana. Em Lucas 22,31-32, Jesus afirma ter rezado por Pedro para que sua fé não desfaleça, indicando que a queda não é o fim, mas parte de um processo de amadurecimento. Pedro representa o discípulo em caminho, marcado por ambivalências, mas aberto à graça. A comparação com os evangelhos sinóticos amplia a compreensão da narrativa. Em Mateus 26,20-35, Marcos 14,17-31 e Lucas 22,21-34, a instituição da Eucaristia ocupa lugar central. João, por sua vez, omite esse relato, mas apresenta o lava-pés como gesto interpretativo da ceia. Essa diferença redacional não é ausência, mas deslocamento teológico. Enquanto os sinóticos enfatizam o memorial sacramental, João sublinha a dimensão ética e relacional do amor que se faz serviço. Ambos os enfoques convergem na revelação de um Deus que se doa.

O Império Romano se sustentava em uma lógica de poder naquele contexto histórico, era a honra e violência. A expectativa messiânica de muitos grupos judaicos estava associada à libertação política. Jesus, porém, redefine o messianismo ao recusar a violência e ao propor um Reino que não se impõe, mas se oferece. Essa proposta não é apolítica, mas profundamente subversiva, pois questiona as bases do poder estabelecido.

A tradição da Igreja reconhece na paixão de Cristo o centro da revelação do amor de Deus. A constituição Gaudium et Spes, no número 22, afirma que o mistério do homem se esclarece no mistério do Verbo encarnado. A cruz revela simultaneamente quem é Deus e quem é o ser humano chamado à comunhão. Lumen Gentium recorda que a Igreja é santa e ao mesmo tempo necessitada de purificação, o que ressoa diretamente com a presença de traição e negação no círculo dos discípulos. A Igreja não é comunidade de perfeitos, mas de reconciliados.

Na América Latina, documentos do CELAM como Medellín, Puebla e Aparecida reinterpretam a paixão à luz da realidade dos pobres. A cruz de Cristo se prolonga nos corpos feridos dos excluídos, vítimas de estruturas de injustiça. A opção preferencial pelos pobres não é acessória, mas constitutiva da fé cristã. A traição de Judas pode ser lida hoje nas dinâmicas econômicas que colocam o lucro acima da vida, enquanto a negação de Pedro se manifesta na omissão diante da injustiça.

Ainda hoje  diante da instrumentalização da fé. Quando a religião é usada para legitimar projetos de poder, ela se afasta do Evangelho. A manipulação da fé para fins político-partidários, a sacralização da violência e o uso de linguagem religiosa para justificar exclusão são formas contemporâneas de traição. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção à acumulação material, contradiz a lógica da cruz. O clericalismo, ao concentrar poder e silenciar o povo, nega o gesto do lava-pés e transforma o ministério em privilégio.

A religião ajuda a compreender como essas distorções se consolidam. O medo, a busca por segurança e a necessidade de pertencimento podem levar à adesão acrítica a discursos que prometem respostas simples. A fé madura, porém, exige discernimento e abertura ao outro. Jesus não oferece um caminho de fuga, mas de enfrentamento da realidade à luz do amor. A experiência de Pedro mostra que o reconhecimento da própria fragilidade é condição para a autenticidade do discipulado.

Se necessário  vigiar para que a fé   legitime essa estrutura  de pode mas a conteste  as estruturas sociais. O Evangelho de João propõe uma ética da alteridade que se opõe à lógica do mercado e ao individualismo. A comunidade cristã é chamada a ser espaço de partilha, solidariedade e resistência. Em um mundo marcado por desigualdade, violência e exclusão, a mensagem de João 13 interpela a prática concreta dos discípulos.  O evangelista  revela a complexidade da condição humana. A traição e a negação não são apenas eventos históricos, mas possibilidades presentes em cada pessoa. O ser humano é capaz de amor e de ruptura, de fidelidade e de queda. A fé não elimina essa ambiguidade, mas a assume e a transforma. A graça não substitui a liberdade, mas a orienta para o bem.

Na nossa realidade, marcado por crises de sentido, polarizações e manipulação da informação, a noite de João 13 se torna uma metáfora poderosa. As trevas se manifestam na indiferença, na banalização da vida e na erosão dos vínculos sociais. A resposta cristã não pode ser evasiva. Ela exige compromisso com a verdade, com a justiça e com a dignidade humana.

A contemplação desse texto conduz a um chamado à conversão pessoal e comunitária. Seguir Jesus implica assumir o caminho do serviço, da solidariedade e da resistência ao mal. Implica também reconhecer as próprias fragilidades e abrir-se à graça que restaura. A comunidade cristã é chamada a ser sinal da glória de Deus no mundo, não através do poder, mas do amor que se doa. A noite da traição não tem a última palavra. A glória de Deus se manifesta na cruz, onde o amor vence o ódio e a vida supera a morte. João 13,21-33.36-38 permanece como palavra viva que interpela cada geração. Ele convida a Igreja a purificar-se de suas distorções e a reencontrar a radicalidade do Evangelho. Ele chama cada pessoa a uma fé encarnada, comprometida e profética, capaz de transformar a história à luz do amor que se entrega até o fim.



DNonato - Teólogo do Cotidiano