segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus18,21-35

 

Em algum momento da vida todos se encontram diante de uma pergunta que toca profundamente a experiência humana. Até onde vai o perdão? Quantas vezes é possível recomeçar uma relação ferida, reconstruir vínculos quebrados ou libertar o coração do peso das mágoas acumuladas ao longo da história pessoal e coletiva? A pergunta atravessa culturas, religiões e gerações. Ela surge quando a vida nos confronta com o erro, a falha, a traição e a fragilidade humana. É nesse horizonte existencial que o Evangelho segundo Mateus18,21-35 apresenta o diálogo entre Pedro e Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mateus 18,21).

Essa passagem ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Romana ela é proclamada integralmente no 24º Domingo do Tempo Comum do ciclo A do Lecionário dominical. Nesse domingo a comunidade cristã escuta e medita sobre o perdão sem limites como expressão concreta da vida do Reino de Deus. O mesmo texto também aparece na liturgia ferial, especialmente na terça-feira da 3ª semana da Quaresma e  sua variantes de  Mateus 18,21–19,1, proclamado na quinta-feira da 19ª semana do Tempo Comum no Ano Ímpar,  período no qual a Igreja convida os fiéis a um caminho profundo de conversão e reconciliação. Nas tradições das Igrejas históricas que utilizam o Lecionário Comum Revisado, como muitas comunidades luteranas, anglicanas e reformadas, essa mesma passagem aparece igualmente no ciclo dominical próximo desse período do ano litúrgico. Assim, diferentes tradições cristãs convergem ao reconhecer que o perdão é uma das colunas centrais da ética do Evangelho.

A pergunta de Pedro não surge isoladamente. Ela está inserida no grande discurso comunitário de Jesus presente no capítulo 18 do Evangelho de Mateus. Esse capítulo constitui uma verdadeira pedagogia da vida comunitária. Ele começa com a pergunta sobre quem é o maior no Reino dos Céus (Mateus 18,1). Jesus responde colocando uma criança no centro e afirmando que quem quiser entrar no Reino precisa tornar-se pequeno (Mateus 18,3-4). Em seguida aparece a advertência contra o escândalo dos pequenos (Mateus 18,6-9), a parábola da ovelha perdida (Mateus 18,10-14) e o ensinamento sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). Somente depois desse caminho pedagógico aparece a pergunta de Pedro sobre o perdão.

No judaísmo do primeiro século o perdão era considerado uma virtude importante, mas possuía limites práticos. Alguns mestres rabínicos ensinavam que seria razoável perdoar até três vezes. Depois disso a pessoa poderia considerar encerrada a relação. Pedro, ao propor sete vezes, acredita estar oferecendo um gesto de generosidade espiritual acima do esperado. O número sete possui grande importância simbólica na Bíblia. Ele remete à plenitude e à perfeição divina. Em Gênesis 2,2-3 Deus conclui a criação no sétimo dia e consagra esse tempo como descanso sagrado. O sete, portanto, representa o tempo de Deus, a plenitude da obra criadora.

A resposta de Jesus, porém, rompe completamente com a lógica da contabilidade moral. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18,22). Alguns manuscritos traduzem setenta e sete vezes, mas o sentido permanece o mesmo. Trata-se de uma expressão semítica que indica algo ilimitado. O perdão no Reino de Deus não pode ser medido por cálculos matemáticos. Essa resposta também ecoa uma antiga tradição do livro do Gênesis. Em Gênesis 4,24 Lamec, descendente de Caim, proclama uma vingança multiplicada ao afirmar que seria vingado setenta e sete vezes. Jesus inverte completamente essa lógica da violência acumulada. Onde a tradição humana multiplicava a vingança, Jesus multiplica a misericórdia.

A partir dessa resposta Jesus apresenta a parábola do servo impiedoso. A narrativa começa com uma imagem conhecida no mundo antigo. “O Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos” (Mateus 18,23). No contexto do antigo Oriente e do mundo mediterrâneo era comum que governadores e administradores regionais prestassem contas ao soberano. Esses administradores frequentemente controlavam impostos, tributos e recursos econômicos.

Um desses servos aparece devendo ao rei dez mil talentos (Mateus 18,24). Para compreender o impacto dessa cifra é necessário entender o sistema monetário do mundo bíblico:

  • Um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador comum. Essa informação aparece claramente na parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20,2.Um talento correspondia aproximadamente a seis mil denários. Isso significa que um talento representava cerca de seis mil dias de trabalho. Considerando que um trabalhador trabalhava aproximadamente trezentos dias por ano, um talento equivaleria a cerca de vinte anos de trabalho. A dívida mencionada na parábola é de dez mil talentos. Dez mil talentos correspondem, portanto, a sessenta milhões de denários. Em termos de dias de trabalho isso significa sessenta milhões de dias. 

Se fizermos uma comparação aproximada com a realidade atual e imaginarmos um salário diário equivalente a cerca de cem reais, um denário hoje poderia corresponder aproximadamente a esse valor diário.

Assim, cem denários equivaleriam a cerca de dez mil reais. Já sessenta milhões de denários corresponderiam aproximadamente a seis bilhões de reais. Trata-se de uma soma absolutamente impensável para qualquer pessoa comum. Jesus utiliza deliberadamente esse exagero para provocar impacto narrativo e revelar a dimensão simbólica da história.

Nesse ponto aparece um detalhe que merece atenção. A estrutura numérica da dívida envolve o número seis. Um talento corresponde a seis mil denários. A dívida gigantesca é construída a partir da multiplicação desse número. Na simbologia bíblica o número seis possui um significado particular. Ele representa o tempo humano da história ainda incompleta.

Em Gênesis 1,26-31 o ser humano é criado no sexto dia da criação. O sexto dia representa o tempo do trabalho, da construção histórica e da realidade humana que ainda caminha rumo à plenitude do sétimo dia. O sete representa o descanso de Deus e a plenitude da criação. O livro do Êxodo reforça essa dinâmica ao estabelecer o ritmo do trabalho e do descanso. “Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras, mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor teu Deus” (Êxodo 20,9-10). O sábado surge como limite ético ao trabalho humano. Ele lembra que a vida humana não pode ser reduzida a produção e lucro.

Na tradição apocalíptica o número seis aparece também associado às estruturas humanas que pretendem ocupar o lugar de Deus. Em Apocalipse 13,18 surge a famosa referência ao número 666, símbolo de sistemas políticos e econômicos que se absolutizam e transformam poder humano em idolatria.

Quando a parábola menciona uma dívida construída sobre seis mil denários multiplicados milhares de vezes, ela toca simbolicamente nesse universo do trabalho humano, da economia e das estruturas sociais que muitas vezes produzem desigualdade e opressão. Essa simbologia permite também um diálogo com realidades contemporâneas do mundo do trabalho. Em muitas sociedades existe a chamada escala seis por um, na qual trabalhadores trabalham seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora essa escala seja juridicamente reconhecida em muitos contextos, ela frequentemente se torna instrumento de desgaste humano quando associada a salários baixos, jornadas intensas e ausência de condições dignas.

A tradição bíblica, no entanto, sempre defendeu limites éticos ao trabalho. O mandamento do sábado foi uma revolução social no mundo antigo. Ele afirmava que nem o patrão, nem o servo, nem o estrangeiro poderiam trabalhar sem descanso (Êxodo 23,12). O descanso semanal lembrava que o ser humano não é propriedade do sistema econômico. O livro do Deuteronômio reforça esse princípio ao recordar que o descanso sabático está ligado à memória da libertação da escravidão no Egito (Deuteronômio 5,15). Descansar é reconhecer que a dignidade humana é maior que qualquer sistema de produção.

Quando observamos situações contemporâneas nas quais trabalhadores vivem presos a jornadas exaustivas ou a dívidas impagáveis, percebemos como estruturas econômicas modernas continuam reproduzindo lógicas antigas de opressão. Pessoas trabalham para sobreviver dentro de sistemas que acumulam riquezas gigantescas enquanto mantêm multidões na precariedade.

Nesse sentido a parábola de Jesus também dialoga com a antiga tradição do Jubileu bíblico descrita em Levítico 25. No ano jubilar as dívidas eram canceladas, escravos eram libertados e terras devolvidas às famílias originais. O Jubileu lembrava que nenhuma estrutura econômica poderia se tornar absoluta. A terra pertence a Deus e a dignidade humana deve sempre prevalecer. A Doutrina Social da Igreja retoma esse princípio ao afirmar que a economia deve estar a serviço da vida humana. Documentos como Laborem Exercens insistem que o trabalho é para a pessoa e não a pessoa para o trabalho.

Voltando à parábola, o servo incapaz de pagar a dívida cai de joelhos diante do rei e suplica paciência (Mateus 18,26). O texto afirma que o senhor teve compaixão dele, perdoou a dívida e o deixou partir (Mateus 18,27). O verbo utilizado no texto grego indica uma compaixão profunda que nasce das entranhas. Essa misericórdia revela o coração da revelação bíblica. O Salmo 130,3 pergunta: “Se observas as culpas, Senhor, quem poderá subsistir?” O Salmo 103,8 proclama: “O Senhor é misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor.”

É exatamente nesse ponto que a parábola se conecta profundamente com a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. No coração do Pai Nosso encontramos uma súplica que expressa essa mesma lógica espiritual: “Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mateus 6,12). A oração cristã por excelência coloca o perdão no centro da relação com Deus e com o próximo. Quando a comunidade reza o Pai Nosso, ela reconhece que todos são devedores da misericórdia divina e que ninguém pode pedir perdão a Deus enquanto se recusa a oferecê-lo aos irmãos. A parábola do servo impiedoso funciona quase como uma explicação narrativa dessa petição da oração. Jesus transforma em história aquilo que no Pai Nosso aparece como súplica. Pedir perdão a Deus implica assumir a responsabilidade de construir relações reconciliadas na história. O servo perdoado, no entanto, encontra um companheiro que lhe devia cem denários (Mateus 18,28). Embora cem denários representem um valor significativo, trata-se de uma dívida pequena quando comparada à dívida gigantesca que ele próprio recebeu perdão.

Mesmo assim ele agarra o companheiro pelo pescoço e exige pagamento imediato. Aqui aparece uma dimensão profunda da condição humana. O ser humano frequentemente deseja misericórdia para si e justiça implacável para os outros. O apóstolo Paulo reconhece essa contradição ao escrever: “Tu que julgas o outro, condenas a ti mesmo” (Romanos 2,1).

Os outros servos ficam profundamente entristecidos ao presenciar a injustiça (Mateus 18,31). Isso revela que o pecado nunca é apenas individual. Ele fere o tecido da comunidade. Quando o rei toma conhecimento da situação ele chama o servo e denuncia sua incoerência: “Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro?” (Mateus 18,33).

Outros textos do Novo Testamento confirmam essa mesma perspectiva. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Colossenses 3,13). “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros” (Efésios 4,32). O próprio Jesus na cruz proclama: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). A tradição da Igreja sempre reconheceu que o perdão é parte essencial da vida cristã. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é chamada a ser sinal de reconciliação para o mundo (Lumen Gentium 1). A constituição Gaudium et Spes afirma que as divisões humanas contradizem o projeto de Deus para a humanidade.

Na América Latina os documentos de Medellín e Puebla recordam que o perdão cristão não pode ser separado da justiça. Perdoar não significa legitimar a opressão, mas romper o ciclo da violência e abrir caminhos de reconciliação. A parábola também denuncia distorções religiosas que transformam a fé em instrumento de poder. Quando líderes religiosos utilizam o discurso moral para controlar pessoas ou legitimar projetos políticos autoritários, o Evangelho é esvaziado de sua força libertadora. O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco representa exatamente essa deformação.

Os profetas bíblicos já denunciavam religiões vazias que ignoravam a justiça social. Isaías proclamava: “Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Isaías 1,17). Amós denunciava cultos que ignoravam a justiça (Amós 5,24). Em um mundo marcado por polarizações, discursos de ódio e manipulação religiosa, a mensagem de Mateus 18 permanece profundamente atual. O Reino de Deus começa a aparecer quando pessoas e comunidades escolhem a misericórdia em vez da vingança e a justiça em vez da opressão.

O perdão não é apenas um gesto oferecido ao outro. Ele é também libertação interior. A carta aos Hebreus adverte para que nenhuma raiz de amargura brote no coração humano (Hebreus 12,15). O ressentimento prolongado aprisiona a pessoa ao passado. O perdão abre espaço para um futuro novo.

Perdoar exige coragem. Exige reconhecer a própria fragilidade e confiar que a misericórdia é mais forte que o mal.

No final das contas a parábola coloca cada pessoa diante de uma escolha espiritual profunda. Existe a economia da cobrança infinita, na qual dívidas são acumuladas, erros são lembrados eternamente e relações permanecem aprisionadas ao passado. E existe a economia da misericórdia, na qual o perdão abre caminhos de reconciliação e esperança. O Evangelho de Jesus convida a humanidade a escolher essa segunda economia. Onde o perdão floresce, a história deixa de ser repetição de violência e começa a tornar-se espaço de vida nova.

Assim a pergunta de Pedro continua ecoando através dos séculos. Quantas vezes devemos perdoar? A resposta de Jesus permanece desafiadora e libertadora.

  • O perdão não tem limite porque o amor de Deus não tem limite.

Quando essa lógica começa a transformar o coração humano, algo novo acontece na história. Relações são restauradas, comunidades são curadas e a esperança volta a florescer.

Todos somos devedores perdoados. E o futuro da humanidade depende da capacidade de transformar essa misericórdia recebida em misericórdia compartilhada. Somente quando o perdão deixa de ser teoria e se torna prática cotidiana é que o Reino de Deus começa verdadeiramente a aparecer no meio da história humana. Nesse caminho exigente e libertador a justiça encontra a misericórdia e a dignidade humana reencontra seu lugar diante do Deus que é amor.

DNonato, Teólogo  do cotidiano

Um breve olhar sobre Lucas 4,24-30

O episódio narrado em Lucas 4,24-30 ocupa um lugar muito particular na liturgia da Igreja. Ele é proclamado na segunda-feira da terceira semana da Quaresma e também aparece no ciclo dominical do Tempo Comum,  4º Domingo do Tempo Comum – Ano C, onde se proclama a unidade maior Lucas 4,21-30 (que inclui os versículos 24-30 dentro da narrativa). quando Jesus lê o rolo do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré. A escolha litúrgica não é casual. A Igreja, ao inserir esse texto no caminho quaresmal, convida a comunidade a confrontar a própria relação com a Palavra de Deus. A Quaresma é tempo de conversão e discernimento, e essa passagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes a resistência à Palavra nasce justamente entre aqueles que acreditam conhecê-la profundamente.

A cena acontece em Nazaré, uma pequena aldeia da Galileia. Historicamente, Nazaré não possuía importância política nem religiosa. Não aparece nas grandes narrativas do Antigo Testamento e tampouco nas principais referências históricas do judaísmo antigo. A Galileia era vista por setores mais rigorosos de Jerusalém como uma região periférica e culturalmente misturada. Ali conviviam povos diferentes, circulavam rotas comerciais e a influência estrangeira era visível. Esse dado geográfico possui uma dimensão teológica significativa. A revelação divina, ao longo da história bíblica, frequentemente nasce nas margens da sociedade e não no centro do poder. Deus escolhe Abraão em terra estrangeira, unge Davi entre pastores esquecidos e levanta profetas em contextos inesperados. A lógica da graça não segue os mapas da importância humana.

Quando Jesus entra na sinagoga de Nazaré, ele não é um estranho. É alguém conhecido pela comunidade. Ali estão pessoas que acompanharam sua infância, que conhecem sua família e que guardam a memória cotidiana de sua presença na aldeia. Esse momento do Evangelho  de hoje é  logo após  a cena que Lucas descreve que Jesus recebe o rolo do profeta Isaías e proclama um trecho profundamente carregado de esperança. O texto anuncia que o Espírito do Senhor unge o enviado para evangelizar os pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça. Trata-se da promessa presente em Isaías 61,1-2, uma das expressões mais fortes da esperança messiânica na tradição profética.

Ao terminar a leitura, Jesus afirma que aquela palavra se cumpre naquele momento. Essa declaração revela um elemento central da espiritualidade bíblica. A Escritura não é apenas memória de acontecimentos passados. A Palavra de Deus é viva e eficaz dentro da história. O próprio Isaías havia anunciado que a palavra divina não retorna vazia, mas realiza aquilo para o qual foi enviada, conforme se lê em Isaías 55,10-11. Ao afirmar que a promessa se cumpre naquele instante, Jesus anuncia que o tempo de Deus entrou no tempo humano.

A reação inicial da comunidade parece positiva. O Evangelho relata que todos falavam bem dele e se admiravam com suas palavras de graça. Entretanto, a admiração rapidamente se mistura com estranhamento. Surge uma pergunta carregada de familiaridade. Não é este o filho de José. A proximidade, que poderia facilitar o reconhecimento, torna-se obstáculo. Aquilo que é cotidiano demais muitas vezes se torna invisível aos olhos da fé. A familiaridade cria a ilusão de conhecimento e impede perceber a novidade de Deus.

É nesse contexto que Jesus pronuncia uma frase que atravessou os séculos como síntese da experiência profética. Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. A mesma afirmação aparece também em Marcos 6,4 e Mateus 13,57, mostrando que a tradição cristã primitiva reconheceu nessa frase uma verdade recorrente da história da revelação. Na experiência de Israel, a palavra profética quase sempre encontrou resistência entre aqueles que deveriam acolhê-la.

A memória bíblica confirma essa realidade. A experiência profética quase sempre esteve marcada por tensão, perseguição e incompreensão; 

  •  Jeremias descreve o peso interior de anunciar uma palavra que provoca rejeição quando confessa que a Palavra de Deus se tornou como um fogo ardendo em seus ossos, conforme se lê em Jeremias 20,7-9. O profeta sente o peso de proclamar uma mensagem que seu próprio povo não deseja ouvir, mas também reconhece que não pode silenciar aquilo que Deus colocou em seu coração.
  • Amós também experimenta essa rejeição quando denuncia a injustiça social e a corrupção religiosa no reino do Norte. Sua crítica incomoda as estruturas de poder e o sacerdote Amasias ordena que ele abandone o santuário de Betel. A cena aparece em Amós 7,10-13, revelando como o poder religioso institucional pode reagir contra a voz profética quando ela expõe as contradições do sistema.
  • Elias, por sua vez, enfrenta a perseguição política depois de confrontar a idolatria promovida pela monarquia de Acab e Jezabel. Após denunciar os falsos profetas e afirmar a fidelidade ao Deus de Israel, ele precisa fugir para preservar a própria vida, como se narra em 1 Reis 19,1-3. A perseguição contra Elias mostra que a palavra profética frequentemente entra em choque com estruturas políticas que se beneficiam da idolatria e da manipulação religiosa.
  • Isaías denuncia a hipocrisia religiosa e a injustiça social em Jerusalém, chamando o povo à conversão e à prática da justiça, conforme se lê em Isaías 1,15-17 e Isaías 58,6-7. A tradição judaica posterior, preservada em escritos rabínicos e mencionada por alguns Padres da Igreja, afirma que o profeta Isaías teria sido martirizado durante o reinado de Manassés, sendo serrado ao meio por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus.
  • Miqueias também levanta sua voz contra líderes políticos e religiosos que distorcem a justiça. Ele denuncia governantes que constroem a cidade com violência e sacerdotes que ensinam por dinheiro, conforme aparece em Miqueias 3,9-11. Sua crítica revela uma realidade que atravessa os séculos: quando a religião se alia ao poder econômico ou político, o profeta se torna incômodo.
  •  Zacarias, filho do sacerdote Joiada, que denuncia a infidelidade do povo e a corrupção religiosa no templo. A reação do poder é violenta. Ele é apedrejado no pátio da casa do Senhor, conforme narra 2 Crônicas 24,20-21. A morte de Zacarias dentro do próprio espaço sagrado revela como a violência contra a palavra profética pode surgir justamente dentro das estruturas religiosas.
  • Habacuque levanta perguntas inquietantes diante da injustiça e da violência presentes na sociedade. Ele questiona por que Deus permite que a injustiça pareça triunfar, como aparece em Habacuque 1,2-4. Sua experiência mostra que a missão profética não é apenas denunciar estruturas externas, mas também carregar no coração a angústia diante do sofrimento humano.
  • Ezequiel também enfrenta resistência ao anunciar a Palavra a um povo de coração endurecido. Deus o envia a uma casa rebelde que pode ou não escutar sua mensagem, conforme Ezequiel 2,3-5. Sua missão revela que o profeta não mede o sucesso pela aceitação da mensagem, mas pela fidelidade ao chamado recebido.

A tradição bíblica recorda ainda o sofrimento de muitos outros profetas anônimos que foram perseguidos ou mortos. O próprio Elias lamenta que os profetas do Senhor foram assassinados e que ele se sente sozinho na defesa da verdade, como aparece em 1 Reis 19,10. Essa memória coletiva revela que a perseguição à palavra profética faz parte da história de Israel.

Séculos depois, Jesus recordará essa mesma realidade ao afirmar que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme se lê em Lucas 13,34. A denúncia reaparece também na pregação de Estêvão, que pergunta qual dos profetas não foi perseguido pelos antepassados do povo, como aparece em Atos 7,51-52..Assim, a história dos profetas revela uma constante espiritual e histórica. A palavra que chama à justiça, denuncia a idolatria e convoca à conversão quase sempre encontra resistência. O profeta não é alguém que confirma as certezas do poder ou da religião acomodada. Ele é a voz que recorda que Deus não pode ser reduzido a sistemas humanos, ideologias religiosas ou estruturas de dominação. Por isso, muitas vezes, sua fidelidade à verdade o coloca no caminho da perseguição e até mesmo do martírio.

A missão profética nunca foi confortável, pois ela revela as contradições escondidas nas estruturas da sociedade e da religião. Para tornar sua crítica ainda mais clara, Jesus recorda dois episódios da tradição profética. Durante uma grande fome em Israel, o profeta Elias não foi enviado a nenhuma viúva israelita, mas a uma mulher estrangeira de Sarepta. A narrativa aparece em 1 Reis 17,8-16. A mulher acolhe o profeta e experimenta a providência de Deus em meio à escassez. O gesto revela que a misericórdia divina ultrapassa fronteiras culturais e religiosas.

Em seguida, Jesus recorda a história do profeta Eliseu que cura Naamã, um general sírio que sofria de lepra, conforme 2 Reis 5,1-14. O detalhe é provocador. Naamã não pertence ao povo de Israel. Ele é estrangeiro e representa um poder militar frequentemente em conflito com o povo hebreu. Ao mencionar essas histórias, Jesus revela que a graça de Deus não pode ser aprisionada dentro de fronteiras nacionais ou identitárias. Essa universalidade já estava presente na promessa feita a Abraão quando Deus declara que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, como afirma Gênesis 12,3.

A reação da comunidade muda de forma abrupta. A admiração se transforma em ira. O Evangelho relata que todos na sinagoga ficam cheios de fúria ao ouvir essas palavras. A psicologia social ajuda a compreender essa transformação. Quando identidades coletivas se sentem ameaçadas, surge o medo de perder privilégios ou segurança simbólica. O anúncio de um Deus que ultrapassa fronteiras religiosas desestabiliza expectativas construídas ao longo do tempo.

Esse movimento revela um risco constante na história da religião. A fé pode ser transformada em sistema de proteção identitária. Quando isso acontece, a experiência espiritual deixa de ser encontro com o Deus vivo e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Os profetas bíblicos denunciaram repetidamente essa distorção. Amós critica cultos solenes que ignoram a justiça social, conforme Amós 5,21-24. Isaías denuncia práticas religiosas que não libertam os oprimidos, como aparece em Isaías 58,6-7. A espiritualidade bíblica nunca separa fé e justiça.

Ao longo da história, porém, a religião muitas vezes foi usada como instrumento de poder político. Discursos religiosos podem ser mobilizados para justificar projetos ideológicos, nacionalismos agressivos ou estruturas sociais excludentes. Quando isso acontece, a fé perde sua dimensão profética e se transforma em mecanismo de dominação simbólica.

O Evangelho de Jesus segue um caminho diferente. Ele anuncia um Reino que se manifesta na justiça, na misericórdia e na dignidade humana. Quando Jesus proclama as bem-aventuranças em Lucas 6,20-26, ele declara felizes os pobres e alerta para o perigo da riqueza acumulada. Essa mensagem confronta diretamente qualquer tentativa de identificar a bênção divina com prosperidade material. Por essa razão, interpretações religiosas que prometem riqueza como sinal da presença de Deus entram em conflito com a lógica do Evangelho. Jesus afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, conforme Mateus 6,24, e alerta que a vida não consiste na abundância de bens, como se lê em Lucas 12,15. A primeira comunidade cristã testemunha outro caminho ao partilhar seus bens para que ninguém passe necessidade, como descreve Atos 2,44-45.

Outro risco permanente na história da Igreja é o clericalismo, quando o ministério religioso se transforma em espaço de poder e controle. O Evangelho apresenta uma visão radicalmente diferente da autoridade. Jesus ensina que quem quiser ser o maior deve tornar-se servo de todos, conforme Marcos 10,42-45. A autoridade cristã nasce do serviço e não do domínio.

À luz dessas reflexões, a reação violenta da comunidade de Nazaré revela um mecanismo profundo da condição humana. Aqueles que inicialmente escutavam a Palavra com admiração passam a tentar eliminar o mensageiro. O Evangelho afirma que conduzem Jesus até o alto de um monte para lançá-lo no precipício. O precipício torna-se símbolo da tentativa de silenciar a palavra que confronta estruturas injustas. Jesus lamentará mais tarde que Jerusalém é a cidade que mata os profetas e apedreja os enviados de Deus, conforme Lucas 13,34. O evangelho de João expressa essa tragédia afirmando que ele veio para os seus, mas os seus não o acolheram, como se lê em João 1,11. No entanto, o episódio de Nazaré termina com uma imagem surpreendente. O Evangelho afirma simplesmente que Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho. Essa frase breve possui profunda força simbólica. A rejeição não interrompe a missão. A palavra de Deus continua caminhando pela história.

A cena antecipa o destino de Jesus ao longo do Evangelho. Ele enfrentará incompreensão, oposição e violência, mas continuará anunciando o Reino de Deus. A cruz não será o fim da missão. Ela se tornará o lugar onde a fidelidade ao amor de Deus se revela de maneira plena. O  episódio de Nazaré permanece como pergunta aberta para cada geração: Sempre existe a tentação de transformar a fé em ideologia religiosa, instrumento político ou sistema de controle social?

O Evangelho, porém, continua lembrando que o Reino de Deus nasce na compaixão, na justiça e na dignidade humana. Cada comunidade que escuta essa narrativa precisa decidir novamente se acolhe a palavra profética como caminho de conversão ou se tenta empurrá-la, mais uma vez, para o precipício da história.



DNonato -  teologo do cotidiano  com muita  vontade  ser profeta 

sábado, 7 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 4,5-42 - 3º domingo da quaresma

 

O terceiro  domingo  da Quaresma   nos  trás  o mosaico  de leitura:  Êxodo 17,3-7;  Salmo 94(95),1-2.6-7.8-9 (R. 8); Romanos  5,1-2.5-8 e  o evangelho  João o 4,5-42, que   ess ano de  2026, a proclamação deste Evangelho coincidiu providencialmente com o Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, o que confere à narrativa um significado ainda mais eloquente. No relato de João, é justamente uma mulher, socialmente marginalizada por sua história e pertencente a um povo desprezado pelos judeus, que se torna interlocutora direta de Jesus e, posteriormente, anunciadora da Boa Nova em sua comunidade. Em um contexto cultural onde mulheres raramente eram reconhecidas como testemunhas públicas, Cristo rompe barreiras sociais, religiosas e de gênero ao dialogar com ela e confiar-lhe, de modo implícito, uma missão evangelizadora. Essa coincidência litúrgica recorda que o Evangelho sempre contém uma dimensão profundamente libertadora, pois reconhece a dignidade e a voz das mulheres na história da salvação. A samaritana não é apresentada como figura secundária, mas como alguém que, ao encontrar a água viva, transforma-se em missionária, antecipando a realidade de tantas mulheres que, ao longo da história da Igreja e da sociedade, foram portadoras da esperança, da fé e da vida.

O evangelho de João 4,5-42 que já  refletimos  uma  vez em nosso blog e esse texto  de João   tem  um   possui um lugar especial no itinerário catecumenal da Igreja. Desde os primeiros séculos, esse texto é proclamado durante os chamados escrutínios dos catecúmenos que se preparam para o batismo na Vigília Pascal. A tradição patrística percebeu nesse relato uma profunda catequese batismal. A água viva prometida por Cristo remete ao dom do Espírito Santo e à vida nova que nasce da graça. Assim, o texto não é apenas uma narrativa histórica. Ele se torna um espelho espiritual no qual a Igreja contempla o drama e a esperança da humanidade.

Para compreender a força desse evangelho é necessário olhar o seu contexto histórico, cultural e religioso. Jesus passa pela Samaria e chega à cidade chamada Sicar, próxima ao campo que Jacó havia dado a seu filho José. Ali se encontra o famoso poço de Jacó. O evangelista João não menciona esse detalhe por acaso. Na tradição bíblica os poços são lugares simbólicos de encontro e de revelação. Em Gênesis 24, Rebeca encontra o servo de Abraão junto ao poço, dando início à história matrimonial com Isaac. Em Gênesis 29, Jacó encontra Raquel também junto a um poço. Em Êxodo 2, Moisés encontra Séfora quando defende as filhas de Jetro junto a um poço no deserto. A literatura bíblica criou, portanto, um padrão narrativo onde o poço é lugar de encontro decisivo. João utiliza essa tradição para indicar que ali está acontecendo algo semelhante. Cristo aparece como o verdadeiro esposo da humanidade, aquele que vem encontrar o seu povo.

A dimensão geográfica também é importante. Judeus e samaritanos mantinham uma rivalidade profunda. Depois da queda do reino do Norte em 722 a.C., a região da Samaria sofreu processos de miscigenação cultural e religiosa. O Segundo Livro dos Reis relata que povos estrangeiros foram trazidos para aquela terra e introduziram seus deuses. A tradição judaica passou então a considerar os samaritanos como impuros. O templo deles ficava no monte Garizim, enquanto os judeus consideravam Jerusalém o único lugar legítimo de culto. Essa tensão histórica explica a surpresa da mulher quando Jesus lhe dirige a palavra. O texto afirma claramente que judeus não se relacionavam com samaritanos.

O evangelho mostra que Jesus rompe essa barreira social e religiosa. Esse gesto revela uma característica constante do ministério de Cristo. Ele atravessa fronteiras que a religião institucional muitas vezes construiu. Em Lucas 10, por exemplo, a parábola do bom samaritano também desafia os preconceitos religiosos da época ao apresentar justamente um samaritano como modelo de compaixão. Em Atos 1,8, Jesus anuncia que o Evangelho se espalhará de Jerusalém até a Samaria e até os confins da terra, mostrando que a salvação não pertence a um grupo exclusivo.

Outro elemento simbólico importante é o horário do encontro. João afirma que era cerca da hora sexta, o meio-dia. Esse detalhe possui um sentido literário e teológico. No mesmo evangelho, a hora sexta reaparece no momento em que Jesus é apresentado por Pilatos antes da crucificação (Jo 19,14). A luz do meio-dia indica um momento de revelação plena. No entanto, também revela o calor e a dureza do ambiente. A mulher vem buscar água num horário em que normalmente ninguém iria. Isso sugere isolamento social. Muitos intérpretes veem aqui um retrato psicológico de alguém marcado por exclusões e fracassos afetivos.

Jesus inicia o diálogo com um pedido simples: “Dá-me de beber”. Esse pedido revela algo essencial da encarnação. Deus se aproxima da humanidade assumindo a vulnerabilidade humana. O Filho de Deus pede água como qualquer ser humano sedento. A cena lembra outra passagem do evangelho de João. Na cruz, Jesus dirá: “Tenho sede” (Jo 19,28). Os Padres da Igreja interpretaram essa sede não apenas como necessidade física, mas como sede de humanidade, sede da salvação das pessoas.

A mulher reage com surpresa. Como um judeu pode pedir água a uma samaritana. A pergunta revela o peso das estruturas culturais. Jesus então conduz a conversa para uma dimensão mais profunda ao falar da água viva. No Antigo Testamento, a expressão água viva aparece frequentemente associada à presença de Deus. Jeremias denuncia o povo dizendo: “Abandonaram-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas rachadas que não retêm água” (Jr 2,13). O profeta Isaías também utiliza a mesma imagem ao proclamar: “Todos vós que tendes sede, vinde às águas” (Is 55,1). O livro de Ezequiel descreve uma visão em que um rio de água viva brota do templo e transforma o deserto em jardim (Ez 47,1-12). João retoma toda essa tradição simbólica para apresentar Cristo como a verdadeira fonte.

A mulher inicialmente entende a água em sentido material. Esse recurso literário é típico do evangelho de João. O interlocutor interpreta as palavras de Jesus de maneira literal, enquanto Cristo fala de uma realidade espiritual mais profunda. Algo semelhante acontece com Nicodemos quando Jesus fala do novo nascimento (Jo 3,1-8). Nicodemos pensa em nascer novamente do ventre materno, enquanto Jesus fala do nascimento da água e do Espírito.

A água viva prometida por Jesus aponta diretamente para o dom do Espírito Santo. Mais adiante, no mesmo evangelho, Jesus proclamará durante a festa das Tendas: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, rios de água viva correrão do seu interior” (Jo 7,37-38). O evangelista explica que ele falava do Espírito que receberiam os que cressem nele.

Esse simbolismo dialoga profundamente com a primeira leitura da liturgia, Ex 17,3-7. No deserto, o povo experimenta sede e começa a murmurar contra Moisés. A sede física revela uma crise espiritual. O povo pergunta se Deus está realmente no meio deles. Moisés, por ordem divina, fere a rocha e dela brota água. A tradição cristã viu nesse episódio uma figura de Cristo. São Paulo afirma explicitamente: “Todos beberam da mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo” (1Cor 10,4).

O salmo 95 recorda exatamente esse episódio de Meriba e Massá, lugares associados à tentação e à dureza de coração. O salmo convida o povo a não repetir o erro dos antepassados. A experiência da fé exige abertura interior. O coração endurecido não reconhece a presença de Deus, mesmo quando a graça se manifesta.

A segunda leitura, tirada da carta aos Romanos, amplia essa reflexão ao falar da justificação pela fé. Paulo afirma que fomos reconciliados com Deus e que o amor divino foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. O verbo derramar evoca novamente a imagem da água abundante. O Espírito Santo aparece como a água viva que transforma o interior humano. Paulo reforça essa ideia em Tito 3,5 ao afirmar que fomos salvos pelo banho da regeneração e renovação do Espírito Santo.

Voltando ao evangelho, chega um momento decisivo quando Jesus revela conhecer a história da mulher. Ele menciona que ela teve cinco maridos e que o homem com quem vive agora não é seu marido. Esse detalhe possui um significado simbólico profundo. Alguns exegetas observam que o número cinco pode remeter aos cinco deuses introduzidos na Samaria segundo 2 Reis 17,24-34. Assim, a mulher se torna uma representação simbólica de um povo que buscou muitos “senhores” espirituais sem encontrar a verdadeira fonte.

O  texto também revela o drama humano da busca incessante por satisfação. O ser humano experimenta uma espécie de sede existencial. Santo Agostinho expressou essa realidade de maneira magistral ao escrever nas Confissões: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”. Essa inquietação atravessa a história humana.

Também é importante observar que o evangelho de João utiliza frequentemente números e símbolos com valor teológico.

  •  O número cinco, presente na referência aos cinco maridos, pode evocar tanto a história religiosa da Samaria quanto a incompletude humana. 
  • Na simbologia bíblica, o número sete costuma indicar plenitude e totalidade, como nos sete dias da criação em Gênesis 1. 
O fato de a mulher ter tido cinco maridos e viver com um sexto homem indica um caminho ainda incompleto, uma busca que não chegou à plenitude. Quando ela encontra Jesus, simbolicamente aparece o sétimo encontro, aquele que finalmente conduz à plenitude da vida. A tradição patrística viu nesse detalhe um sinal de que Cristo é o verdadeiro esposo escatológico da humanidade, retomando imagens proféticas como Isaías 54,5 e Oséias 2,16-22, onde Deus se apresenta como esposo fiel de seu povo.

Outro símbolo importante é o próprio poço de Jacó. Na cultura do Oriente Próximo antigo, o poço era fonte de sobrevivência e de vida comunitária. Espiritualmente ele representa a tradição religiosa herdada dos patriarcas. Jacó simboliza a história de Israel, suas promessas e sua memória. Contudo, Jesus não se apresenta apenas como alguém que bebe dessa tradição. Ele se apresenta como alguém maior que o próprio poço. Quando a mulher pergunta se ele é maior que Jacó, o evangelho conduz o leitor a perceber que Cristo é a nova fonte que ultrapassa as estruturas antigas. Essa dinâmica lembra a palavra de Jesus em João 8,58: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”.

O cântaro da mulher também possui valor simbólico. Ele representa o esforço humano cotidiano de buscar água, isto é, de buscar sentido e sobrevivência. Quando a mulher deixa o cântaro para ir anunciar o que encontrou, o evangelho sugere que a experiência com Cristo reorganiza as prioridades da vida. O mesmo acontece com os discípulos que deixam redes e barcas para seguir Jesus em Marcos 1,18.

Outro símbolo importante é a própria água. Na Escritura, a água possui múltiplos significados. Em Gênesis 1,2 o Espírito de Deus paira sobre as águas primordiais. No Êxodo, as águas do mar Vermelho se tornam caminho de libertação. Em Isaías 12,3 o profeta proclama: “Vós tirareis água com alegria das fontes da salvação”. No Novo Testamento, a água aparece ligada diretamente ao batismo, como em Mateus 3,13-17 e Atos 2,38. O evangelho de João conecta essa simbologia à cruz, quando do lado aberto de Cristo jorram sangue e água (Jo 19,34), sinal sacramental da vida nova oferecida à humanidade.

O horário do meio-dia também pode ser interpretado simbolicamente. No simbolismo bíblico, a luz plena do meio-dia representa a revelação que dissipa as sombras. O encontro acontece quando a luz está no auge, indicando que Cristo é a luz que revela a verdade da existência humana, como afirmado em João 8,12: “Eu sou a luz do mundo”.

A mulher percebe que está diante de um profeta e levanta então uma questão teológica sobre o lugar do culto. A rivalidade entre o monte Garizim e Jerusalém representava uma disputa religiosa profunda. Jesus responde com uma afirmação revolucionária: chega a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Essa declaração ecoa também outros textos bíblicos que relativizam o culto puramente ritual. O profeta Oséias já havia proclamado em nome de Deus: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). O profeta Isaías denunciou cultos vazios que não se traduzem em justiça (Is 1,11-17). O próprio Jesus retomará essa crítica em Mateus 23 ao denunciar a hipocrisia religiosa que privilegia aparências enquanto ignora a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Essa palavra de Jesus possui uma dimensão profundamente crítica para todas as épocas. A religião corre sempre o risco de se transformar em sistema de poder ou em instrumento de controle social. Quando isso acontece, perde-se a essência do Evangelho. A adoração em espírito e verdade não depende de templos luxuosos nem de estruturas de prestígio. Ela nasce de um coração transformado pela graça.

Nesse contexto também se torna necessária uma crítica às formas modernas de espiritualidade que transformam a fé em instrumento de prosperidade individual. A chamada teologia da prosperidade promete riqueza material como sinal de bênção divina. Contudo, o Evangelho apresenta uma lógica diferente. Jesus declara em Mateus 6,19-21 que não se deve acumular tesouros na terra. Em Lucas 12,15 ele adverte contra toda forma de ganância. Em Marcos 8,36 pergunta: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

A mulher samaritana, depois de encontrar Jesus, deixa o cântaro e vai à cidade anunciar o que aconteceu. Esse detalhe possui grande valor simbólico. O cântaro representa as antigas buscas que já não fazem sentido diante da fonte verdadeira. O encontro com Cristo gera transformação e missão. O que era uma busca solitária se torna anúncio comunitário.

Esse dinamismo missionário ecoa outras experiências bíblicas. O profeta Jeremias dizia que a palavra de Deus era como fogo em seus ossos e ele não podia contê-la (Jr 20,9). O apóstolo Paulo expressa algo semelhante ao afirmar: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16). O encontro com Deus nunca é uma experiência puramente privada. Ele gera compromisso com a história e com os outros.

Os habitantes da cidade vão ao encontro de Jesus e acabam professando uma fé surpreendente. Eles afirmam que Jesus é o Salvador do mundo. Essa expressão é extremamente significativa. No mundo romano, o título de salvador era atribuído a imperadores e divindades pagãs. O evangelho afirma que a verdadeira salvação não vem do poder político nem das estruturas de dominação. Ela vem de Cristo.

A narrativa termina mostrando que muitos acreditaram por causa da palavra da mulher e depois pela experiência direta com Jesus. Esse movimento revela a dinâmica da evangelização. O testemunho abre caminho para o encontro pessoal com Cristo. A fé nasce da escuta, como afirma Paulo em Romanos 10,17. Assim, o evangelho deste domingo apresenta um retrato profundo da condição humana. O ser humano vive sedento de sentido, de amor e de eternidade. As estruturas sociais e culturais frequentemente oferecem soluções superficiais. No entanto, apenas a água viva que brota de Cristo pode saciar essa sede.

A Quaresma coloca esse texto diante da comunidade como convite à conversão. Converter-se significa abandonar as cisternas rachadas que prometem vida mas produzem vazio. Significa reconhecer a própria sede e aproximar-se da fonte verdadeira.

O encontro de Jesus com a samaritana revela que Deus continua atravessando as fronteiras humanas para encontrar aqueles que vivem à margem. Ele continua pedindo água para oferecer água viva. Continua revelando que a verdadeira adoração não se limita a rituais, mas se manifesta em uma vida transformada pelo amor. Diante de um mundo marcado por desigualdades, individualismo e instrumentalização da fé, esse evangelho permanece como palavra profética. Ele recorda que a missão da comunidade cristã não é oferecer ilusões religiosas nem promessas de sucesso material. A missão é conduzir as pessoas à fonte da vida.

A pergunta que permanece ecoando na consciência humana é simples e radical. Onde estamos buscando saciar nossa sede mais profunda. Nas promessas efêmeras de um sistema que idolatra o poder e o consumo ou na água viva que brota do coração de Deus e conduz à vida plena. Essa escolha define o caminho espiritual e o sentido último da existência.

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DNonato -  Teologo do Cotidiano 

Olhando de novo Lucas 15,1-3.11-32

 

O Evangelho de Lucas 15,1-3.11-32, conhecido popularmente como a parábola do Filho Pródigo, dos Dois Filhos ou, de forma mais profunda e teologicamente mais adequada, a parábola do Pai Rico em Misericórdia, aparece em momentos muito significativos do calendário litúrgico da Igreja. Ele é proclamado no segundo sábado da Quaresma no ciclo ferial, também no quarto domingo da Quaresma do Ano C, tradicionalmente chamado Domingo da Alegria ou Laetare, e ainda no vigésimo quarto domingo do Tempo Comum no Ano C. O fato de a Igreja retornar diversas vezes a esse texto ao longo do ano litúrgico não é casual. Trata-se de um dos centros do Evangelho de Lucas e de uma das narrativas mais densas de toda a tradição cristã para compreender quem é Deus. A repetição litúrgica mostra que a misericórdia não é um tema secundário, mas o coração do Evangelho. A Quaresma, tempo de conversão, e o Tempo Comum, tempo da caminhada concreta do discípulo na história, encontram nessa parábola uma chave de leitura para entender a relação entre Deus e a humanidade.

Para compreender a profundidade dessa narrativa é necessário situá-la dentro do capítulo quinze do Evangelho de Lucas. O evangelista reúne três parábolas que formam uma unidade literária e teológica. 

  1. ovelha perdida:  um pastor deixa noventa e nove ovelhas para procurar uma que se perdeu.
  2. A moeda perdida: uma mulher acende uma lâmpada e varre a casa até encontrar uma moeda perdida
  3. O Pai misericordioso (Lc 15,11-32): um pai aguarda o retorno de um filho
 A proporção da perda vai se tornando cada vez mais dramática. Uma ovelha entre cem, uma moeda entre dez e um filho entre dois. Nem todos possuíam cem ovelhas. Nem todos tinham moedas guardadas. Mas todos compreendiam o drama de uma família dividida

O filho mais novo representa aquele que rompe abertamente com a casa, busca autonomia absoluta e acaba experimentando o vazio de uma liberdade sem vínculos. Ele simboliza muitas experiências contemporâneas marcadas pelo individualismo, pelo consumo e pela ilusão de que a vida pode ser construída sem referência ao outro ou a Deus. Contudo, sua história também revela a possibilidade da conversão: ao reconhecer sua fragilidade e voltar para casa, ele descobre que o amor do Pai é maior do que seus erros.

Logo no início do capítulo aparece um elemento fundamental que funciona como chave interpretativa de todo o conjunto. O texto afirma que os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo, enquanto fariseus e escribas murmuravam dizendo que ele acolhia pecadores e comia com eles (Lc 15,1-2). Essa pequena observação narrativa revela o verdadeiro motivo das parábolas. Jesus está respondendo à crítica de um modelo religioso que se acreditava puro, correto e autorizado a definir quem podia ou não estar próximo de Deus.

No judaísmo do primeiro século possuía diversos grupos religiosos com interpretações distintas da Lei. Fariseus, saduceus, sacerdotes do templo e outros movimentos disputavam autoridade moral dentro da sociedade. A pureza ritual e a observância da Lei eram elementos centrais para definir quem estava dentro ou fora da comunhão religiosa. Os publicanos, cobradores de impostos associados ao império romano, eram vistos como traidores da nação. Os pecadores formavam uma categoria ampla que incluía pessoas consideradas impuras, marginalizadas ou moralmente suspeitas. Quando Jesus se senta à mesa com essas pessoas, ele rompe um código social muito forte. Na cultura semita, comer com alguém significa reconhecer essa pessoa como parte da própria comunidade. Por isso a murmuração dos fariseus revela mais do que uma simples crítica moral. Ela revela um conflito profundo sobre a imagem de Deus.  A família no antigo Oriente Próximo era uma estrutura patriarcal muito forte. O pai possuía autoridade jurídica sobre os filhos e sobre os bens da casa. A herança normalmente era distribuída apenas após a morte do patriarca. O livro do Deuteronômio afirma que o filho primogênito tinha direito a uma porção maior da herança (Dt 21,17). Quando o filho mais novo pede sua parte antes da morte do pai, ele realiza um gesto culturalmente escandaloso. É como se estivesse declarando que o pai já não tem valor para ele.

O surpreendente é que o pai aceita dividir os bens. Essa atitude revela uma dimensão profunda da teologia bíblica. Deus não impõe amor pela força. Ele permite liberdade, mesmo quando essa liberdade conduz ao erro. Desde o relato da criação em Gênesis, o ser humano aparece como criatura livre, capaz de escolher entre caminhos de vida e caminhos de morte. A liberdade faz parte da dignidade que Deus concede à humanidade.

O filho mais novo parte para uma terra distante. Essa expressão possui também um significado simbólico. Distância geográfica e distanciamento espiritual caminham juntos. O jovem gasta seus bens vivendo de forma desordenada. O texto sugere uma vida marcada por excessos e superficialidade. Psicologicamente, esse momento pode ser interpretado como o desejo humano de autonomia absoluta, quando a pessoa acredita que pode construir sentido para a vida sem vínculos profundos.

A crise chega quando ocorre uma grande fome naquela região. A fome, na Bíblia, muitas vezes possui um valor simbólico além da dimensão econômica. O profeta Amós fala de uma fome não de pão, mas da palavra de Deus (Am 8,11). O jovem que acreditava possuir tudo descobre que não possui nada. Ele acaba cuidando de porcos, animal considerado impuro segundo a Lei (Lv 11,7). Esse detalhe revela o grau de degradação social que ele experimenta.

Nesse ponto aparece um momento decisivo da narrativa. Lucas afirma que o filho caiu em si (Lc 15,17). A conversão começa quando a pessoa desperta para a própria realidade. Ele recorda da casa do pai e percebe que até os trabalhadores possuem pão em abundância. A memória torna-se caminho de retorno. Na tradição bíblica, recordar a fidelidade de Deus sempre foi um caminho de esperança. Israel recorda constantemente a libertação do Egito e a aliança que Deus estabeleceu com seu povo.

Quando decide voltar, o jovem prepara um discurso de arrependimento. Ele reconhece que pecou contra o céu e contra o pai. A expressão “contra o céu” era uma forma judaica de referir-se a Deus. Ele está disposto a ser tratado como um simples trabalhador da casa. Aqui aparece um elemento psicológico profundo. Quem retorna depois de um erro frequentemente acredita que perdeu sua dignidade.

O momento mais surpreendente acontece quando o pai o vê ainda distante e corre ao seu encontro. Na cultura do antigo Oriente, um patriarca respeitável não corria em público. Era considerado indigno levantar as vestes e correr. O gesto do pai rompe com os códigos sociais para revelar o coração de Deus. Ele não exige explicações completas. Ele abraça.

O abraço interrompe o discurso preparado. O pai manda trazer a melhor túnica, colocar um anel no dedo e sandálias nos pés. Cada um desses símbolos possui um significado profundo. A túnica representa a dignidade restaurada. A tradição cristã frequentemente relaciona esse gesto: 

  •  A veste batismal mencionada por Paulo quando afirma que os batizados se revestem de Cristo (Gl 3,27).
  •  O anel simboliza aliança e pertença. No mundo antigo, o anel podia servir como selo para autenticar documentos. Colocá-lo no dedo do filho significa reintegrá-lo plenamente na família. 
  • As sandálias indicam liberdade, pois os escravos geralmente andavam descalços.
  • O novilho gordo preparado para a festa representa a alegria da reconciliação. 
  • O banquete na tradição bíblica simboliza a comunhão do Reino de Deus. Isaías anuncia um grande banquete preparado por Deus para todos os povos (Is 25,6). Jesus retoma essa imagem diversas vezes para falar do Reino.

Nesse momento surge o filho mais velho. Ele estava trabalhando no campo e reage com indignação ao descobrir a festa. Sua atitude revela ressentimento acumulado. Ele afirma que sempre serviu ao pai e nunca recebeu uma celebração semelhante. A parábola revela aqui uma crítica profunda à espiritualidade baseada apenas em mérito.

O filho mais velho, por sua vez, representa uma outra forma de afastamento, mais sutil e frequentemente mais difícil de perceber. Ele permanece fisicamente na casa, cumpre suas obrigações e mantém a aparência de fidelidade, mas seu coração está fechado à misericórdia. Ele não consegue alegrar-se com a reconciliação do irmão. Nessa figura, o evangelho denuncia a tentação de uma religiosidade rígida, marcada pelo mérito e pela comparação. Assim, a parábola mostra que, na realidade contemporânea, podemos ser tanto o filho que se perde longe quanto aquele que permanece dentro da casa, mas sem compreender a lógica da graça. Em ambos os casos, o Pai continua chamando seus filhos a entrar na festa da reconciliação e da fraternidade

A resposta do Pai ao filho mais velho  é reveladora. Ele afirma que tudo o que possui pertence ao filho. Contudo, era necessário celebrar porque o irmão estava morto e voltou à vida. A narrativa termina de forma aberta. Não sabemos se o filho mais velho entra ou não na festa. O final aberto funciona como uma provocação dirigida aos ouvintes.

Dentro do caminho espiritual da segunda semana da Quaresma, esse Evangelho dialoga com todos os textos proclamados desde o domingo anterior até o sábado. 

  1. No domingo ouvimos o relato da Transfiguração do Senhor (17,1-9), quando os discípulos contemplam a glória de Cristo e escutam a voz do Pai dizendo que aquele é o Filho amado. 
  2. Na segunda-feira o Evangelho recorda que Cristo a pratica da Misericórdia (Lucas 6, 36-38) . 
  3. Na terça-feira aparece a denúncia contra a hipocrisia religiosa (Mt 23,1-12). 
  4. Na quarta-feira Jesus ensina que a grandeza no Reino está no serviço (Mt 20,17-28). 
  5. Na quinta-feira a parábola do rico e do pobre Lázaro denuncia a indiferença social (Lc 16,19-31). 
  6. Na sexta-feira a parábola dos vinhateiros homicidas denuncia aqueles que se apropriam da vinha de Deus (Mt 21,33-43). 
Todo esse caminho espiritual prepara o discípulo para compreender o rosto misericordioso de Deus revelado no sábado com a parábola do Pai misericordioso. Ao longo da história da Igreja, essa parábola sempre foi considerada uma síntese do Evangelho. Padres da Igreja como Santo Ambrósio e Santo Agostinho interpretaram essa narrativa como expressão do amor de Deus que nunca abandona a humanidade.

Na reflexão contemporânea da Igreja, o tema da misericórdia voltou a ocupar lugar central. Durante seu pontificado, Papa Francisco insistiu muitas vezes que a Igreja deve ser sinal da misericórdia de Deus no mundo e não um espaço de condenação. Essa perspectiva apareceu de forma especial na bula Misericordiae Vultus, que proclamou o Ano Santo da Misericórdia. Papa Leão XIV, em continuidade com o espírito renovador inaugurado pelo Concílio Vaticano II, que recordou que a Igreja deve ser sinal do amor de Deus no meio da história humana. Essa mensagem permanece extremamente atual. Vivemos em sociedades marcadas por desigualdade, exclusão e polarização. Muitas vezes discursos religiosos são utilizados para justificar preconceitos e violências. O Evangelho, porém, apresenta um Deus que rompe fronteiras e oferece reconciliação.

A parábola do Pai rico em misericórdia proclamada no Movimento  de Cursilhos ecorda que a fé cristã não pode ser reduzida a um conjunto de normas ou a uma espiritualidade individualista. O encontro com Deus sempre gera reconciliação e restauração das relações humanas. A festa preparada pelo pai simboliza uma comunidade onde ninguém é descartado.

Na verdade, Jesus conta essa história para revelar não apenas o drama do pecado humano, mas também as diferentes formas de afastamento de Deus. Tanto o filho mais novo quanto o mais velho estão, cada um à sua maneira, distantes do coração do pai.Um detalhe importante da narrativa é quando o evangelho afirma que o jovem “caindo em si” decide voltar para casa. Essa expressão revela o início da conversão.

A conversão, na tradição bíblica, não começa com uma imposição externa. Ela começa quando a pessoa recupera a consciência de si mesma e percebe que o caminho seguido não conduz à vida. A parábola revela, assim, a lógica do amor divino. Deus não age segundo critérios de mérito ou de cálculo. A misericórdia precede qualquer justificativa, a parábola revela que o coração do pai é muito maior do que os cálculos humanos.

O jovem recorda a casa do pai, onde até os trabalhadores têm pão em abundância. Ele decide retornar, não como filho, mas como empregado. A expectativa dele é apenas sobreviver. Essa parábola continua extremamente atual, pois nela encontramos um retrato da condição humana e também das tensões presentes na sociedade contemporânea e até mesmo dentro das comunidades religiosas

Assim, quando a liturgia proclama esse Evangelho durante 2 vezes  na Quaresma ou no Tempo Comum, ela convida cada pessoa a examinar o próprio coração. Talvez sejamos o filho que se afastou e precisa retornar. Talvez sejamos o filho que permaneceu, mas que se deixou contaminar pelo ressentimento. Em ambos os casos, a resposta de Deus permanece a mesma. Ele9 continua olhando o horizonte, esperando, correndo ao encontro e abrindo espaço para a festa da reconciliação. Em um mundo onde tantas pessoas se sentem perdidas ou rejeitadas, essa parábola continua proclamando uma verdade fundamental do Evangelho: ninguém está definitivamente perdido quando decide voltar para a casa do Pai.



DNonato - O filho mais novo  que está  voltando  e muitas vezes filho   o mais velho.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 21,33-43.45-46

 

O Evangelho de Mateus 21,33-43.45-46 é proclamado na liturgia da Igreja na sexta-feira da segunda semana da Quaresma. Nesse tempo forte do ano litúrgico, marcado pela conversão, pela escuta intensa da Palavra, pelo jejum, pela oração e pela revisão profunda da própria vida, a parábola dos vinhateiros homicidas aparece como uma palavra de discernimento espiritual e de denúncia profética. Ela não se dirige apenas à consciência individual, mas também às estruturas religiosas, sociais e políticas que administram a vida do povo.

A forma abreviada dessa narrativa, Mateus 21,33-43, também é proclamada no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A, quando a liturgia omite os versículos 45 e 46. Nesse contexto dominical, a comunidade cristã é colocada diante da pergunta central da parábola: que frutos estamos produzindo na vinha que Deus nos confiou? Nos dois momentos litúrgicos, a Palavra apresenta o mesmo núcleo teológico e espiritual. Deus plantou uma vinha, cuidou dela com amor e espera frutos de justiça. A questão fundamental não é se a vinha foi bem preparada, mas se os trabalhadores estão sendo fiéis à missão recebida.

Jesus conta essa parábola em um momento decisivo de sua missão. Ele já está em Jerusalém e os acontecimentos caminham rapidamente para o drama da cruz. O capítulo 21 de Mateus descreve uma sequência de acontecimentos profundamente simbólicos. Primeiro aparece a entrada messiânica de Jesus na cidade. Montado em um jumento, ele realiza o sinal profético anunciado em Zacarias 9,9, revelando um messianismo humilde e pacífico, em contraste com os modelos de poder dominador do mundo.

Em seguida vem a purificação do templo. Jesus denuncia que a casa de oração havia sido transformada em espaço de exploração religiosa, recordando as palavras de Jeremias 7,11 sobre o “covil de ladrões”. Esse gesto inaugura um confronto direto com as autoridades religiosas da época. A partir desse momento surgem debates intensos com os sumos sacerdotes, os anciãos e os especialistas da Lei. É nesse contexto de tensão que Jesus narra três parábolas consecutivas. 

  1. A primeira é a parábola dos dois filhos, em Mateus 21,28-32, que denuncia a incoerência entre discurso religioso e prática concreta. 
  2. A segunda é a parábola dos vinhateiros homicidas, em Mateus 21,33-46. 
  3. A terceira a parábola do banquete nupcial, em Mateus 22,1-14. 
As três histórias possuem o mesmo eixo crítico e revelam um diagnóstico espiritual profundo. A religião havia sido capturada por uma lógica de poder. Lideranças que deveriam cuidar da vinha de Deus passaram a agir como proprietárias daquilo que nunca lhes pertenceu.

Para compreender plenamente essa parábola é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. A imagem da vinha está profundamente enraizada na tradição espiritual de Israel. Um dos textos mais importantes nesse sentido é Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que escolhe uma colina fértil, limpa o terreno, planta videiras escolhidas, constrói uma torre e cava um lagar. Tudo é feito com cuidado e expectativa. No entanto, quando chega o momento da colheita, a vinha produz uvas amargas.

O próprio profeta explica o significado simbólico da metáfora. A vinha é a casa de Israel. Deus esperava justiça, mas encontrou violência. Esperava retidão, mas ouviu gritos de sofrimento. Jesus retoma essa tradição conhecida por seus ouvintes e a leva a um nível ainda mais radical. A parábola não fala apenas de frutos ruins. Ela denuncia um processo mais grave: a apropriação indevida da vinha. Na narrativa, o proprietário da vinha representa Deus, fonte da vida e do projeto do Reino. A vinha representa o povo de Deus e, em sentido mais amplo, toda a criação confiada à responsabilidade humana. A cerca indica proteção e cuidado. O lagar indica o lugar onde o fruto será transformado em vinho, símbolo bíblico de alegria, abundância e comunhão. A torre indica vigilância e responsabilidade. Cada detalhe revela que o dono da vinha preparou tudo com atenção e amor. O problema não está na estrutura do projeto divino, mas na atitude dos trabalhadores.

Os arrendatários simbolizam as lideranças encarregadas de cuidar da vinha. No contexto imediato da parábola são os chefes religiosos de Israel, responsáveis pela condução espiritual do povo. Contudo, o alcance do símbolo é muito mais amplo. Ele abrange qualquer liderança religiosa, política ou social que recebe autoridade e passa a agir como se fosse proprietária daquilo que pertence a Deus.

O erro fundamental dos vinhateiros é a mentalidade de posse. Eles deixam de se reconhecer como administradores e passam a se comportar como donos da vinha. Essa atitude revela uma distorção profunda da própria ideia de autoridade. Na perspectiva bíblica, autoridade sempre significa serviço.

A narrativa menciona também os servos enviados pelo proprietário para recolher os frutos. Esses servos representam os profetas enviados ao longo da história de Israel. A memória bíblica registra que muitos desses profetas foram perseguidos ou silenciados por denunciar injustiças. Jeremias foi preso e lançado numa cisterna por causa de sua palavra incômoda, como relata Jeremias 38. Amós foi expulso do santuário de Betel depois de denunciar a exploração dos pobres, segundo Amós 7,10-13. Zacarias foi assassinado no templo, conforme 2Crônicas 24,20-22. Jesus recorda essa história de perseguição quando lamenta sobre Jerusalém em Mateus 23,37, afirmando que a cidade mata os profetas e apedreja os enviados de Deus.

A violência contra os servos na parábola ecoa essa longa história de resistência à voz profética. No entanto, o ponto culminante da narrativa ocorre quando o proprietário decide enviar seu próprio filho. Na cultura semita o filho representava a autoridade e a presença do pai. Enviar o filho significava confiar plenamente na possibilidade de reconciliação. Contudo os vinhateiros dizem entre si: “Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e ficaremos com a herança”. Nesse momento a parábola revela uma dimensão antropológica profunda. O poder tende a se absolutizar. Quando pessoas ou instituições exercem autoridade durante muito tempo, podem começar a acreditar que aquilo que administram lhes pertence. A consciência de serviço se transforma lentamente em mentalidade de posse.

Esse mecanismo aparece em muitas dimensões da história humana. Ele se manifesta quando líderes religiosos transformam a fé em instrumento de dominação. Surge quando instituições passam a defender seus próprios interesses em vez de cuidar da vida do povo. A parábola de Jesus denuncia exatamente esse processo. Ao final da narrativa Jesus faz uma pergunta direta aos ouvintes. O que o dono da vinha fará quando voltar? Os próprios ouvintes respondem que ele destruirá os maus trabalhadores e confiará a vinha a outros que produzam frutos.

Então Jesus cita o Salmo 118,22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esse versículo se torna central na teologia do Novo Testamento. Ele aparece também em Atos 4,11 e em 1Pedro 2,7 para afirmar que Cristo, rejeitado pelos líderes de seu tempo, tornou-se fundamento de uma nova humanidade.

Nesse ponto surge um elemento fundamental da hermenêutica cristã. A parábola não anuncia apenas julgamento. Ela anuncia também um novo começo. A vinha não será destruída. O projeto de Deus continua na história. Ele será confiado a trabalhadores capazes de produzir frutos de vida.

A tradição do Novo Testamento retoma essa imagem em outros textos: 

  • No Evangelho de João, Jesus afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (João 15,1). Nesse discurso o discípulo é chamado a permanecer na videira para dar fruto. Quem permanece em Cristo produz vida; quem se separa dele torna-se estéril.

O critério fundamental da fé, portanto, não é o discurso religioso, mas o fruto produzido na história. A própria Bíblia insiste repetidamente nesse tema: 

  • Em Mateus 7,16 Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos.
  •  Em Gálatas 5,22-23 Paulo descreve o fruto do Espírito como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. 
  • Em Tiago 2,17 encontramos uma formulação direta: a fé sem obras está morta.

A tradição bíblica não reconhece uma espiritualidade desligada da prática concreta da justiça. Essa dimensão torna-se especialmente importante quando observamos a realidade religiosa contemporânea. Em muitos contextos a fé foi reduzida a experiência individual ou a promessa de prosperidade pessoal.

A chamada teologia da prosperidade apresenta Deus como instrumento de ascensão econômica e transforma a relação com o sagrado em espécie de investimento espiritual. Essa lógica contradiz frontalmente a mensagem do Evangelho. Jesus afirma claramente em Mateus 6,24 que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro, e adverte em Lucas 12,15 que a vida não consiste na abundância de bens.

A vinha de Deus não existe para enriquecer seus administradores, mas para produzir vida para o povo. Quando a religião se transforma em negócio ou instrumento de poder, ela repete o erro dos vinhateiros da parábola.

Os documentos sociais da Igreja também recordam essa dimensão ética da fé. A Constituição pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres são também as alegrias e as esperanças dos discípulos de Cristo. A encíclica Laudato Si' recorda que toda a criação é um dom confiado à responsabilidade humana.

Nesse sentido a vinha pode ser compreendida também como metáfora da própria terra. Quando ela é explorada de forma predatória e transformada apenas em fonte de lucro, a humanidade repete a lógica dos trabalhadores que se comportam como donos daquilo que receberam apenas para cuidar.

A parábola revela como estruturas de poder podem se fechar à crítica profética. Ao longo da história muitos sistemas políticos e religiosos eliminaram vozes incômodas para preservar privilégios. A morte simbólica do filho na parábola expressa exatamente esse mecanismo. No entanto, o Evangelho revela que a última palavra não pertence à violência. A pedra rejeitada torna-se fundamento. O Filho assassinado torna-se Senhor da vida. A ressurreição mostra que o projeto de Deus continua mesmo quando encontra resistência.

A imagem da vinha atravessa os quatro Evangelhos e aparece em contextos diferentes, sempre associada à responsabilidade humana diante do Reino:  

Em Mateus encontramos a parábola dos vinhateiros homicidas no contexto do confronto entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. O mesmo episódio aparece também em Marcos 12,1-12, Lucas 20,9-19. Nos três Evangelhos sinóticos a cena ocorre no templo, poucos dias antes da paixão, quando Jesus denuncia uma religião que perdeu sua dimensão profética.

O Evangelho de João não repete essa mesma parábola, mas desenvolve o simbolismo da vinha de forma mais espiritual. Em João 15,1-8 Jesus apresenta a imagem da videira e dos ramos para falar da comunhão entre Cristo e os discípulos. Permanecer na videira significa viver em comunhão com ele e produzir o fruto do amor, como o próprio texto afirma alguns versículos depois: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12).

Assim, ao percorrer os quatro Evangelhos, percebemos que a imagem da vinha se torna um fio condutor da revelação bíblica. Ela começa no Antigo Testamento como metáfora do povo de Deus, aparece na pregação profética como denúncia da injustiça e encontra em Jesus seu significado pleno. Quando esse Evangelho é proclamado na sexta-feira da segunda semana da Quaresma, ele se torna um convite à conversão comunitária. A Igreja é chamada a examinar sua própria fidelidade ao Evangelho. A parábola não pertence apenas ao passado. Ela continua interpelando cada geração de cristãos.

Cada comunidade recebeu uma parte da vinha. Cada discípulo recebeu responsabilidades concretas na construção do Reino. A pergunta permanece viva: estamos produzindo frutos de justiça, de compaixão e de compromisso com a dignidade humana, ou estamos apenas administrando a vinha em benefício próprio?

O Evangelho continua sendo uma palavra profundamente provocadora. Ele questiona modelos de religião centrados no poder, no dinheiro ou no prestígio social. Ele recorda que a vinha pertence a Deus e que todos nós somos trabalhadores chamados a servir.

Cada gesto de solidariedade, cada defesa da vida, cada compromisso com a justiça é fruto da vinha de Deus. A parábola dos vinhateiros homicidas permanece como advertência e esperança. Advertência para que ninguém transforme a fé em instrumento de dominação. Esperança porque, apesar das infidelidades humanas, Deus continua confiando sua vinha à humanidade e esperando que ela produza frutos de vida para todos.



DNonato - Teólogo do Cotidiano