Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.
Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.
As mulheres do contexto Viviam em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.
Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.
Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.
O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.
Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?
Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.
O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.
- Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
- Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
- Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte.
- Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.
Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.
O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.
Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.
Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.
Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.
Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.
- Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade.
- Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la.
- O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
- Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus.
- E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.
A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.
A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.
No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.
DNonato - Teólogo do Cotidiano





