sábado, 17 de outubro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 22,15-21 - 29º Domingo do Tempo Comum

  • A quem pertence o poder?
  • Quais são os limites da autoridade humana? 
  • Como discernir a presença de Deus em uma história atravessada por impérios, desigualdades e disputas de interesses? 

As leituras proclamada  na liturgia é  a seguinte: Isaías 45,1.4-6;  Salmo 95(96)  1 Tessalonicenses 1,1-5b  que  preparam o caminho para a proclamação de Mateus 22,15-21 que ja refletimos em nosso blog em 2023 , na qual Jesus responde à armadilha sobre o pagamento do imposto a César. 

  •  Isaías 45,1.4-6:  apresenta Ciro, rei da Pérsia, como instrumento inesperado da ação divina na história
O rei persa, é chamado de ungido do Senhor, embora não pertença ao povo de Israel e não conheça plenamente o Deus que o utiliza como instrumento histórico. O contexto é o exílio babilônico e a esperança de retorno; a ascensão persa abre possibilidades de libertação para uma comunidade ferida pela deportação. A afirmação teológica é surpreendente: Deus pode agir por meio de alguém de fora das fronteiras religiosas de Israel, sem que isso transforme Ciro em divindade ou torne todos os seus atos automaticamente justos. O texto não canoniza impérios; declara que a soberania divina é maior que as fronteiras e os cálculos humanos. A leitura cristã, portanto, não deve converter essa passagem em cheque em branco para governantes contemporâneos, nem afirmar que determinado líder possui mandato divino incontestável. A ação de Deus é discernida pelos frutos de libertação e pela fidelidade à justiça, nunca pelo culto à personalidade.
  • Salmo 95(96): proclama que o Senhor reina sobre todos os povos e julga as nações com justiça.
O Salmista convoca os povos a cantar ao Senhor e proclama que ele vem governar a terra com justiça e fidelidade. A linguagem universal contrasta com a propaganda imperial, que apresentava Roma como garantia incontestável de paz e ordem. A chamada Pax Romana, embora tenha favorecido certas redes de circulação e comércio, foi sustentada também por conquista militar, tributação e hierarquias violentas. A Bíblia não permite confundir estabilidade política com justiça plena. Uma sociedade pode parecer ordenada enquanto comunidades inteiras vivem sob medo, fome e exploração. O salmo anuncia que o julgamento de Deus não é capricho arbitrário, mas a manifestação de uma ordem em que os povos são avaliados por uma justiça que não se curva aos mais poderosos. Assim, cantar que Deus reina exige perguntar quem paga o preço da prosperidade, quem é expulso dos territórios, quem tem acesso à saúde e à educação, e quais sofrimentos são escondidos para preservar a imagem de uma nação bem-sucedida.
  •  1 Tessalonicenses 1,1-5b: por sua vez, reconhece na comunidade uma fé que se manifesta em obras, um amor que se traduz em compromisso e uma esperança sustentada pela perseverança. 

Paulo, saúda uma comunidade marcada pela fé atuante, pelo amor dedicado e pela esperança perseverante. A comunidade cristã não é apresentada como plateia passiva de uma doutrina, mas como corpo cuja fé ganha forma histórica. A palavra do Evangelho chega “não somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Tessalonicenses 1,5). Essa passagem impede que a reflexão sobre César termine em um debate abstrato acerca das fronteiras institucionais. A questão decisiva é que tipo de vida comunitária nasce da fé. Uma Igreja que proclama Cristo, mas normaliza a humilhação dos pobres, a violência contra minorias, o racismo ou a corrupção, contradiz o conteúdo de sua própria proclamação. Uma comunidade que ora pela justiça, mas se cala diante de abusos praticados por aliados, transforma a esperança em ornamento. Fé, amor e esperança precisam ser verificáveis em relações concretas, cuidado compartilhado e coragem para enfrentar a mentira.

A unidade dessas leituras não está na defesa de qualquer governo, mas na afirmação de que nenhum poder terreno ocupa o lugar de Deus, nenhuma autoridade pode reivindicar soberania absoluta sobre a consciência humana e nenhuma profissão religiosa é autêntica quando se separa da justiça, da misericórdia e da responsabilidade histórica. A passagem de Mateus integra o conjunto de controvérsias que se intensificam em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de suas ações e ensinamentos no Templo. Na tradição católica romana, Mateus 22,15-21 é proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano A , enquanto Marcos 12,13-17 proclamado  na terça-feira da 9ª semana do Tempo Comum  e Lucas 20,20-26 apresentam os relatos paralelos em seus respectivos contextos evangélicos. As Igrejas históricas que seguem lecionários organizados em ciclos anuais ou plurianuais também acolhem essa narrativa, embora a data exata da proclamação varie conforme o calendário e a tradição litúrgica. O episódio não deve ser reduzido a uma resposta engenhosa sobre impostos, porque o evangelista coloca diante de nós uma disputa sobre autoridade, fidelidade, identidade e liberdade. A moeda apresentada a Jesus torna visível a estrutura política e econômica do Império Romano, enquanto a pergunta aparentemente religiosa revela uma tentativa de transformar a consciência em instrumento de uma disputa pelo poder. É nesse cenário que a palavra de Jesus atravessa os séculos e interroga tanto os governantes que pretendem ocupar o lugar de Deus quanto as comunidades religiosas que confundem fidelidade ao Evangelho com submissão a interesses políticos.

O  pré-texto narrativo ilumina a gravidade do confronto. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém aclamado pela multidão, purifica o Templo e questiona uma ordem religiosa que havia transformado o espaço de oração em lugar de exploração. Nas parábolas seguintes, denuncia lideranças que se apropriam da vinha e recusam reconhecer a responsabilidade recebida, como se observa em Mateus 21,33-46,  proclamado  na sexta-feira da segunda semana da Quaresma e no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A,  Mateus 22,1-14, a parábola do banquete proclamado  na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum e no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A expõe a distância entre o convite de Deus e as respostas humanas. Depois desse conjunto de gestos e palavras, os adversários procuram comprometer Jesus diante das autoridades. A pergunta sobre o tributo não nasce de uma curiosidade fiscal, mas de uma estratégia para fazê-lo parecer colaborador de Roma ou inimigo do imperador. A narrativa revela como a linguagem religiosa pode ser instrumentalizada para silenciar a voz profética: em vez de buscar a verdade, os interlocutores organizam uma armadilha. O texto começa, portanto, com uma denúncia que continua atual: nem toda pergunta feita em nome da fé procura compreender; algumas pretendem controlar, deslegitimar e proteger privilégios ameaçados pela verdade. A questão era explosiva no contexto da Judeia do primeiro século. Roma mantinha seu domínio por meio de tropas, governadores, elites locais e um sistema tributário que extraía recursos de comunidades submetidas. O imposto devido ao imperador recordava diariamente a ocupação e a dependência política. Para agricultores, pescadores, artesãos e trabalhadores, tributos, dívidas e cobranças podiam significar a perda da terra, o empobrecimento doméstico e a vulnerabilidade diante de credores. A moeda não era um objeto neutro: trazia a imagem e a inscrição do governante, expressões materiais de sua autoridade. Em um mundo no qual moedas circulavam junto com símbolos religiosos e políticos, a efígie imperial podia suscitar desconforto entre judeus zelosos da proibição de fabricar imagens para culto, relacionada a Êxodo 20,4-5. Além disso, a inscrição imperial podia atribuir ao César títulos que soavam como reivindicações de honra quase sagrada. A pergunta sobre pagar ou não pagar colocava Jesus diante de um dilema: responder negativamente poderia ser denunciado como rebelião; responder afirmativamente poderia ser apresentado como legitimação da dominação estrangeira. A resposta de Jesus desmonta a armadilha sem fingir que a opressão não existe. Ele pede que lhe mostrem a moeda do tributo e pergunta de quem são a imagem e a inscrição. Seus interlocutores respondem: de César. O gesto é importante: aqueles que tentam encurralá-lo conseguem apresentar a moeda que circula dentro da ordem imperial, expondo a presença concreta dessa ordem na vida cotidiana. Jesus não foge à realidade material nem oferece uma espiritualidade abstrata. Em vez disso, desloca a discussão para a questão fundamental da pertença: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21). A frase não é uma autorização ilimitada para o Estado exigir qualquer coisa, nem uma separação moderna e absoluta entre religião e política. É uma sentença breve, deliberadamente incisiva, que relativiza César e impede que o poder imperial se torne absoluto. Há deveres civis legítimos, mas nenhuma autoridade humana pode reclamar a totalidade da pessoa, sua consciência, sua adoração ou sua dignidade.

A moeda carrega a imagem de César, mas a Escritura afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27). Essa associação não aparece como explicação explícita na fala de Jesus, e por isso deve ser apresentada como uma leitura teológica coerente com o conjunto bíblico, não como uma citação escondida no versículo. Se a moeda pode ser devolvida ao sistema que a emite, a vida humana não pode ser reduzida a propriedade de governantes, mercados ou instituições religiosas. Toda pessoa, inclusive a pobre, a presa, a estrangeira, a migrante e aquela considerada inimiga, carrega uma dignidade que não depende de riqueza, nacionalidade, produtividade ou aprovação social. Quando o poder exige adoração, transforma cidadãos em súditos sem voz e pessoas em instrumentos, ultrapassa seus limites. Quando a religião abençoa essa pretensão, trai o Deus que liberta escravos do Egito e escuta o clamor dos oprimidos, como recordam Êxodo 3,7-10 e Deuteronômio 10,17-19.

Os relatos sinóticos oferecem nuances que enriquecem a interpretação: 

  •  Marcos 12,13-17 apresenta a pergunta e a resposta em um ritmo direto, e termina dizendo que os interlocutores ficaram admirados com Jesus. 
  •  Lucas 20,20-26 destaca a vigilância dos adversários, que enviam espiões fingindo-se justos para entregar Jesus ao poder do governador; ao final, eles não conseguem apanhá-lo em suas palavras diante do povo

A fé pode ser capturada por líderes religiosos ou políticos que se apresentam como representantes exclusivos de Deus e exigem dos fiéis lealdade pessoal a este ou àquele político, como se a fidelidade ao Evangelho dependesse da submissão a um projeto de poder. Bispos, padres, pastores ou quaisquer outras lideranças que concentram decisões, desvalorizam a consciência do povo e transformam ministérios de serviço em espaços de privilégio e dominação acabam traindo a própria missão que afirmam defender. A manipulação religiosa utiliza versículos bíblicos isolados para legitimar projetos políticos, enriquecer dirigentes, conquistar influência ou silenciar denúncias de abuso. Embriagadas pelo próprio prestígio, essas lideranças passam a acreditar que são a moeda mais valiosa da sociedade e perdem a capacidade de enxergar a realidade para além dos próprios interesses. Quando símbolos cristãos são associados à defesa do autoritarismo, à perseguição de adversários ou ao desprezo pelos pobres, a imagem de Deus é instrumentalizada para encobrir a imagem ferida do próximo. Jesus não concedeu a nenhuma religião ou Igreja uma procuração divina para dominar a esfera pública; pelo contrário, chamou suas comunidades a serem testemunhas da verdade que liberta, da justiça que restaura e do amor que não se curva aos privilégios. Isso não significa que os cristãos devam abandonar a política, demonizar as lideranças ou renunciar à participação na vida pública. Significa, antes, que essa participação precisa ser crítica, consciente, plural e comprometida com a dignidade humana, sem transformar partidos em igrejas, políticos em salvadores ou líderes religiosos em donos da consciência alheia. Afinal, o Evangelho não foi anunciado para colocar Deus a serviço do poder, mas para submeter todo poder ao julgamento da justiça, da misericórdia e da verdade.

A conversão exigida pelo Evangelho começa quando permitimos que a Palavra de Deus desmascare as intenções escondidas por trás de nossas escolhas e questione as lealdades que podem ocupar o lugar da própria consciência. A experiência de Jesus diante daqueles que se aproximaram com palavras aparentemente respeitosas, mas movidos pela intenção de colocá-lo à prova, revela uma contradição profundamente humana: nem toda pergunta nasce da busca sincera pela verdade, assim como nem toda profissão de fé expressa fidelidade a Deus. Às vezes, a linguagem religiosa serve para disfarçar ambições, proteger privilégios e deslegitimar quem ameaça interesses estabelecidos. Essa realidade continua presente quando a fé é instrumentalizada para manipular consciências, conquistar apoio eleitoral ou transformar determinadas lideranças em referências incontestáveis. A conversão começa quando deixamos de perguntar apenas se estamos do lado certo e passamos a examinar se nossas escolhas estão realmente comprometidas com a verdade, a justiça e a dignidade humana. 

  • No âmbito pessoal, essa transformação exige que examinemos os ídolos do nosso tempo, aos quais entregamos a atenção, os afetos, os desejos e, muitas vezes, a própria consciência.

 É necessário perguntar o que orienta nossas escolhas: a justiça ou a conveniência, a solidariedade ou o egoísmo, a verdade ou a necessidade de defender aqueles com quem nos identificamos politicamente? Quantas vezes condenamos a corrupção dos adversários, mas relativizamos os desvios dos nossos aliados? Quantas vezes denunciamos a hipocrisia alheia enquanto protegemos nossos próprios preconceitos? Quando a lealdade a um partido, a um governante ou a uma liderança religiosa se torna mais importante do que a verdade, a consciência corre o risco de se transformar em instrumento de interesses alheios. A conversão cristã rompe essa servidão interior, porque nenhuma pessoa ou instituição pode reivindicar autoridade absoluta sobre a consciência humana. Como ensina Paulo, não devemos nos conformar com a mentalidade deste mundo, mas transformar nossa maneira de pensar para discernir a vontade de Deus (Romanos 12,2). A fé amadurece quando somos capazes de reconhecer os erros daqueles que admiramos, sem esconder a verdade para preservar reputações.

  • No âmbito comunitário, essa conversão exige que as Igrejas deixem de ser espaços de aparência religiosa e se tornem comunidades concretas de acolhimento, participação, transparência e cuidado. 
Não basta proclamar o amor ao próximo quando, na prática, pessoas feridas são silenciadas, vítimas de abuso são desacreditadas, mulheres são excluídas de decisões que afetam suas vidas e os recursos comunitários são administrados sem a devida prestação de contas. Uma comunidade verdadeiramente evangélica não teme a escuta, não utiliza a autoridade espiritual para intimidar e não confunde obediência a Deus com submissão incondicional a dirigentes humanos. Bispos, padres, pastores e outras lideranças recebem a missão de servir ao povo e favorecer o encontro com Deus, não de controlar consciências. Jesus apresenta um critério inequívoco para a vida comunitária ao ensinar que a verdadeira grandeza se manifesta no serviço, e não na dominação (Mateus 20,25-28). A credibilidade de uma liderança cristã deve ser reconhecida pela capacidade de acolher, proteger os vulneráveis, prestar contas e assumir os próprios erros. Quando uma instituição protege sua reputação acima da dignidade humana, corre o risco de se tornar cúmplice da injustiça que deveria combater.

  • No âmbito social, a conversão assume a forma de responsabilidade cidadã, compromisso com o bem comum e participação consciente na transformação das estruturas que produzem desigualdade e sofrimento.

 A fé cristã não exige que todos pensem da mesma maneira, nem determina que os cidadãos abandonem suas convicções políticas, mas exige que nenhuma preferência partidária seja colocada acima da dignidade humana e da verdade. Isso implica combater a corrupção independentemente de quem a pratique, defender políticas públicas que protejam a vida, promover condições dignas de trabalho, ampliar o acesso à saúde e à educação, enfrentar a fome e a pobreza e denunciar a violência que seleciona suas vítimas conforme a classe social, a cor da pele, o território onde vivem ou a religião que professam. A desigualdade não é apenas uma estatística econômica, mas uma realidade que atravessa corpos, famílias e gerações, restringindo oportunidades e submetendo milhões de pessoas a condições incompatíveis com sua dignidade. A tradição profética jamais tratou essas feridas como assuntos estranhos à fé. Isaías denuncia a injustiça e exige a defesa dos oprimidos (Isaías 1,16-17); Amós rejeita um culto que convive tranquilamente com a exploração dos pobres (Amós 5,21-24); e Miqueias recorda que Deus pede justiça, misericórdia e humildade, não uma religiosidade preocupada apenas com aparências (Miqueias 6,8).

Essa responsabilidade também nos obriga a reconhecer que a organização da vida coletiva precisa estar submetida a princípios éticos e à defesa dos direitos fundamentais. Governantes são agentes públicos, partidos são organizações políticas e lideranças religiosas são pessoas sujeitas ao discernimento crítico e à responsabilidade por seus atos. Nenhum deles pode ser transformado em objeto de adoração ou apresentado como representante exclusivo da vontade divina. Quando símbolos cristãos são utilizados para legitimar o autoritarismo, justificar a perseguição de adversários ou desprezar os pobres, a religião deixa de questionar os ídolos e passa a colaborar com sua fabricação. A fé é então reduzida a uma identidade de grupo, utilizada para dividir a sociedade entre os supostamente escolhidos por Deus e aqueles considerados indignos de respeito. Entretanto, o Evangelho não autoriza ninguém a confundir preferências políticas com a vontade divina. A fidelidade cristã exige discernimento, liberdade de consciência e disposição para denunciar a injustiça mesmo quando ela é praticada por pessoas que compartilham nossa linguagem religiosa. A verdade não se torna mentira porque prejudica nossos aliados, assim como uma injustiça não se transforma em justiça porque seu autor invoca o nome de Deus. O mandamento do amor ao próximo, reafirmado por Jesus em Mateus 22,39, oferece um critério decisivo para esse discernimento. Amar não significa apenas experimentar compaixão, oferecer uma esmola ocasional ou pronunciar declarações piedosas durante uma celebração. Significa reconhecer no outro uma dignidade que impõe responsabilidades, mesmo quando suas escolhas, sua origem ou suas convicções são diferentes das nossas. A parábola do bom samaritano (Lucas 10,25-37) mostra que o próximo não é definido pelas fronteiras de um grupo religioso, pelas afinidades culturais ou pelas conveniências sociais, mas pela disposição concreta de interromper o próprio caminho para cuidar de quem sofre. Essa exigência desafia uma sociedade habituada a selecionar quais vidas merecem compaixão e quais podem ser abandonadas à própria sorte. Também questiona uma religiosidade que se emociona diante de imagens de sofrimento, mas permanece indiferente às causas que o perpetuam. A justiça bíblica não dispensa a caridade, mas vai além da assistência emergencial: procura reparar danos, restaurar direitos, transformar relações e enfrentar as condições que tornam o sofrimento previsível e recorrente. Dar alimento a quem tem fome é indispensável; trabalhar para que ninguém seja condenado à fome também faz parte da responsabilidade ética de uma sociedade.

Essa compreensão impede que a responsabilidade individual seja utilizada como desculpa para ignorar as injustiças estruturais, assim como impede que a crítica social sirva de justificativa para fugir do exame da própria conduta. A conversão pessoal sem compromisso com o próximo pode degenerar em espiritualidade narcisista; a participação política sem princípios éticos pode transformar-se em mera disputa de interesses; e a religião sem autocrítica pode tornar-se instrumento de manipulação. Por isso, a fé precisa manter unidos o exame da consciência, a transformação das comunidades e a defesa do bem comum. O profeta Amós não separa a adoração da justiça, e Jesus não permite que a devoção seja utilizada para ocultar a dureza do coração. A verdadeira espiritualidade não exige que fechemos os olhos para a realidade, mas que aprendamos a enxergá-la sem os filtros do preconceito, da conveniência e do interesse. Uma comunidade que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa perguntar continuamente quem é acolhido por suas decisões, quem é silenciado por suas estruturas e quem continua pagando o preço de privilégios que outros se recusam a abandonar. Converter-se, portanto, é permitir que o Evangelho ultrapasse as paredes dos templos, alcance as decisões cotidianas e ilumine as estruturas políticas, econômicas e religiosas que moldam nossa convivência. É abandonar a falsa segurança de uma fé que pretende estar ao lado de Deus sem se comprometer com aqueles cuja dignidade é negada. Uma Igreja fiel a Jesus não existe para proteger privilégios, mas para testemunhar a justiça, a misericórdia e a solidariedade. Da mesma forma, uma sociedade mais justa não nasce apenas de discursos moralizantes, mas da disposição de rever prioridades, enfrentar desigualdades, responsabilizar os culpados e criar condições para que os direitos fundamentais sejam efetivamente garantidos. A fé não pode ser reduzida à defesa de uma liderança, à exaltação de uma bandeira ou à repetição de palavras sagradas. Seu critério mais profundo está na capacidade de produzir frutos de justiça e de amor. Reconhecer a soberania de Deus significa recusar que a vida humana seja sacrificada no altar do dinheiro, da ambição ou da indiferença. Onde essa convicção se transforma em prática, a conversão deixa de ser uma palavra abstrata e se torna uma força concreta de transformação pessoal, comunitária e social

O  autor da peric6 afirma que os adversários de Jesus ficaram admirados com sua resposta e se retiraram (Mt 22,22). Mas a admiração não significa conversão. É possível reconhecer a sabedoria de Jesus, citar suas palavras e continuar sustentando estruturas que ferem os pequenos. Sua resposta não foi apenas uma demonstração de inteligência, mas uma provocação que desmascara as armadilhas do poder e questiona nossas alianças, nossos privilégios e nossas cumplicidades. O Evangelho exige mais do que admiração: exige conversão, uma mudança de consciência que se traduza em escolhas concretas, no enfrentamento das injustiças e no compromisso com a dignidade humana. Ao afirmar: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), Jesus não separa a fé da vida pública, nem coloca Deus e César no mesmo nível. No contexto da dominação romana, a moeda trazia a imagem do imperador e expressava sua autoridade. Jesus reconhece as responsabilidades da vida em sociedade, mas estabelece um limite decisivo: César não é Deus, e nenhum poder humano pode exigir fidelidade absoluta ou colocar seus interesses acima da dignidade humana. A autoridade política tem seus deveres e limites; Deus permanece como referência última para julgar suas ações. Essa palavra continua profundamente atual. Quando a religião é utilizada para legitimar governantes, proteger privilégios ou silenciar os pobres, o Evangelho é colocado a serviço de interesses que deveria questionar. Não basta invocar o nome de Deus, ostentar símbolos cristãos ou defender valores religiosos; é preciso perguntar se nossas escolhas promovem a justiça, protegem os vulneráveis e respeitam a vida. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando falam em seu nome.

O fio que une as leituras deste domingo é a soberania de Deus, que relativiza o poder dos impérios e se manifesta na libertação, na justiça e na fé vivida no amor. 

  1. Na primeira leitura (Is 45,1-6), Ciro, rei da Pérsia e governante estrangeiro, é chamado por Deus para abrir caminhos de libertação ao povo exilado. O texto rompe a ideia de que Deus atua apenas por meio dos que pertencem à comunidade religiosa: até um soberano estrangeiro pode servir a um propósito que ultrapassa seus próprios interesses. O poder de Ciro, portanto, não é absoluto; ele próprio se encontra dentro de uma história cujo horizonte último pertence a Deus. Essa perspectiva prepara a pergunta do Evangelho: se até um imperador pode ser instrumento, como poderia algum governante ocupar o lugar de Deus?
  2. O Salmo 95 (96) aprofunda essa afirmação ao proclamar que o Senhor vem julgar a terra com justiça e os povos com fidelidade. Se Isaías mostra que Deus pode conduzir a história por caminhos inesperados, o salmo apresenta o critério pelo qual todo poder deve ser avaliado: a justiça. O julgamento divino não confirma automaticamente os interesses dos governantes; ao contrário, coloca-os sob o exame de uma justiça que não se curva à força, à riqueza ou ao prestígio. Em Mateus, essa mesma lógica impede que César seja tratado como autoridade ilimitada: há responsabilidades humanas legítimas, mas nenhuma delas está acima de Deus e de sua exigência de justiça.
  3. Na segunda leitura (1Ts 1,1-5), Paulo mostra como essa soberania se traduz na vida cotidiana da comunidade cristã. Ele reconhece a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança. 
Assim, aquilo que Isaías anuncia na história e o salmo proclama como julgamento justo deve ganhar forma concreta nas relações entre as pessoas. A fé não se limita a reconhecer verbalmente a autoridade de Deus; ela transforma a maneira de viver, trabalhar, amar e esperar. A comunidade cristã torna-se testemunha do senhorio de Deus não por disputar o poder com os impérios, mas por viver segundo uma lógica diferente: a do amor, da solidariedade e da esperança ativa. As leituras, portanto, não são temas independentes. Isaías revela que Deus conduz a história para além dos interesses dos poderosos; o salmo afirma que toda autoridade será julgada pela justiça; Paulo mostra que essa fé se torna prática no amor; e Jesus estabelece o limite decisivo: César não é Deus. O fio condutor vai da ação libertadora de Deus à justiça que orienta a história e chega à responsabilidade concreta de quem professa a fé. A pergunta que atravessa toda a liturgia é se nossas escolhas reconhecem verdadeiramente a soberania divina ou se, em nome da religião, acabamos legitimando poderes que oprimem e excluem. Por isso, a resposta de Jesus continua a exigir conversão. Não basta admirar sua sabedoria, frequentar celebrações ou invocar o nome de Deus; é necessário rever nossas alianças, denunciar as estruturas que produzem exclusão e defender a dignidade dos pequenos. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando se apresentam revestidas de linguagem sagrada. A fé cristã não nos retira da realidade: responsabiliza-nos por ela..No fim, a moeda pode carregar a imagem do imperador, mas nenhum império é dono da vida humana. A moeda é de César, mas o povo é de Deus!
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 12,8-12.

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Lucas 12,8-12 é proclamado no sábado da 28ª Semana do Tempo Comum e dá continuidade às palavras de Jesus contra a hipocrisia e o medo que ameaça silenciar a verdade da sexta-feira da 28ªsemana do Tempo Comum. Ao preparar seus discípulos para testemunhar publicamente a fé, mesmo diante de autoridades capazes de persegui-los, Jesus mostra que a fidelidade ao Evangelho exige coragem, coerência e confiança na ação do Espírito Santo. Essa mensagem também aparece em Mateus 10,17-22 proclamado  dentro da oitava  do natal e Marcos 13,9-13, embora cada evangelista a desenvolva de acordo com seu próprio contexto narrativo. Em todos esses relatos, o testemunho cristão não é apresentado como garantia de uma vida sem conflitos, mas como compromisso com a verdade que permanece firme mesmo quando a pressão, a perseguição e o medo tentam impor o silêncio. Para compreender a passagem, é necessário escutar o que a antecede. Em Lucas 11,37-54, Jesus confronta dirigentes religiosos que valorizam sinais exteriores de piedade, mas negligenciam a justiça e o amor de Deus. Em Lucas 12,1-3, diante de uma multidão numerosa, alerta contra o fermento dos fariseus, identificado com a hipocrisia, e afirma que aquilo que está oculto será revelado. Depois, em Lucas 12,4-7, distingue o poder humano, capaz de matar o corpo, do cuidado de Deus, que não abandona suas criaturas. Lucas 12,8-12 desenvolve essa tensão: o discípulo deve reconhecer Jesus, discernir a gravidade da resistência ao Espírito e confiar na assistência divina quando for chamado a responder diante das autoridades. Esses versículos não são frases independentes reunidas ao acaso. Formam uma sequência sobre verdade, medo, fidelidade e julgamento.

O mundo em que Jesus viveu estava submetido ao domínio romano, mas não era social nem religiosamente uniforme. Nesse cenário, o testemunho público podia trazer consequências sociais, religiosas e políticas. Ainda assim, seria incorreto apresentar todos os fariseus como hipócritas ou todos os judeus como adversários de Jesus. Os fariseus constituíam uma corrente diversificada, e a crítica de Jesus nasce de controvérsias específicas. Uma leitura cristã responsável não pode converter essa disputa interna do judaísmo em justificativa para antijudaísmo. A denúncia profética deve atingir práticas de falsidade e opressão, inclusive dentro das comunidades cristãs, e não transformar um povo inteiro em culpado.

Jesus declara que quem o reconhecer diante das pessoas será reconhecido pelo Filho do Homem diante dos anjos de Deus; quem o negar será negado diante deles. Em Daniel 7,13-14, uma figura semelhante a um filho de homem recebe autoridade e um reino que ultrapassa os impérios representados por forças violentas. Na tradição cristã, o título Filho do Homem está ligado à identidade de Jesus e à sua missão, que une autoridade, serviço, sofrimento e vindicação divina. O critério é a fidelidade concreta ao caminho de Jesus. Reconhecer Jesus, portanto, não significa apenas pronunciar seu nome em público ou afirmar uma identidade religiosa. Significa comprometer-se com sua pessoa, sua mensagem e a forma como tratava as pessoas. Em Lucas 9,23, o discipulado implica tomar a cruz cotidianamente e segui-lo; em Lucas 22,25-27, Jesus contrapõe a lógica dominadora dos governantes à autoridade de quem serve. Mateus 7,21 adverte que não basta dizer “Senhor, Senhor”, enquanto Mateus 25,31-46 relaciona o encontro com Cristo ao cuidado dos famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados. Essas passagens não autorizam reduzir a fé a um programa partidário, mas impedem separá-la das consequências éticas. O testemunho torna-se verdadeiro quando a palavra pronunciada corresponde à justiça praticada, especialmente quando não há recompensa pública por agir corretamente.

A advertência sobre negar Jesus deve ser lida também à luz da fragilidade humana. Pedro, que prometeu fidelidade, negou conhecer o Mestre durante sua prisão, conforme Lucas 22,54-62. Não se deve usar Lucas 12,9 para aterrorizar consciências, como se qualquer fraqueza condenasse irremediavelmente uma pessoa. Há diferença entre falhar sob pressão e transformar a mentira, de modo persistente, em princípio de vida. A coragem evangélica não significa ausência de medo, mas a decisão de não entregar a ele a direção definitiva da consciência. Às vezes, o testemunho exige uma declaração pública; em outras ocasiões, manifesta-se na proteção de uma vítima, na recusa de uma fraude, na denúncia de um abuso ou na defesa de alguém que não pode retribuir o favor. A comunidade cristã deve levar a sério a fidelidade sem abandonar a misericórdia. Quem reconhece o próprio fracasso pode recomeçar, assumir responsabilidades e reparar os danos causados. A graça não torna o mal irrelevante; torna possível sair dele. 

O versículo 10 apresenta uma das declarações mais difíceis do trecho: quem disser uma palavra contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. Sua interpretação exige atenção ao contexto e aos paralelos bíblicos. Em Lucas 11,14-23, Jesus enfrenta acusações relacionadas à expulsão de demônios; em Marcos 3,22-30, seus adversários atribuem a Belzebu uma ação que o evangelista relaciona ao Espírito de Deus; e Mateus 12,22-32 apresenta uma controvérsia semelhante. O problema narrativo não é uma dúvida passageira, um pensamento involuntário ou uma crise emocional, mas a gravidade de atribuir ao mal aquilo que se manifesta como ação libertadora de Deus. Muitas tradições cristãs compreendem essa blasfêmia como resistência endurecida à verdade e à ação do Espírito, embora existam diferenças teológicas quanto à sua formulação. Por isso, é mais rigoroso apresentar essa leitura como uma interpretação contextual importante, e não como uma definição única e exaustiva. A advertência de Jesus não deve servir para manipular pessoas vulneráveis pelo medo de terem cometido um pecado imperdoável, mas para denunciar a inversão moral pela qual o bem é chamado de mal e a opressão recebe aparência de virtude.  Precisamos questionar toda tentativa de instrumentalizar a autoridade de Deus para legitimar interesses humanos. Invocar o Senhor para justificar mentiras, encobrir injustiças ou conferir aparência de santidade a projetos de dominação significa esvaziar o sentido de seu nome. A tradição profética denuncia precisamente essa contradição: em:

  •  Isaías 1,11-17, Deus rejeita um culto desvinculado da justiça.
  •  Amós 5,21-24, rejeita celebrações religiosas que convivem com a opressão e exige que o direito corra como as águas e a justiça como um rio permanente. 

Essas advertência   nos remete ao terceiro mandamento: “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão” (Êxodo 20,7; cf. Deuteronômio 5,11). Embora frequentemente associado ao uso irreverente do nome de Deus ou aos juramentos falsos, esse mandamento também nos convida a refletir sobre a responsabilidade de invocar sua autoridade. O nome de Deus não pode ser utilizado para legitimar interesses particulares, encobrir injustiças ou conferir aparência de santidade àquilo que contradiz sua vontade. Não basta evitar o uso desrespeitoso de uma expressão religiosa; é necessário impedir que o próprio Deus seja transformado em instrumento de manipulação humana. Invocá-lo para justificar a mentira, a exploração ou a opressão significa esvaziar o sentido de seu nome e distorcer a fé que se afirma professar. Essa questão ganha especial relevância quando a religião entra no jogo eleitoral. Candidatos e lideranças políticas podem professar legitimamente sua fé e participar do debate público a partir de suas convicções religiosas. 

O problema surge quando o nome de Deus é utilizado como estratégia para conquistar votos, quando um projeto político é apresentado como se fosse a única expressão possível da vontade divina ou quando símbolos cristãos são empregados para blindar determinadas lideranças contra críticas e questionamentos. Nesse cenário, a fé corre o risco de deixar de ser uma experiência de compromisso com o Evangelho para se tornar instrumento de poder.

Não basta que um candidato fale de Deus, cite versículos, erga a Bíblia ou se apresente como defensor da família e dos valores cristãos. É preciso examinar suas propostas, suas alianças, suas decisões e as consequências de suas políticas para a vida concreta da população, especialmente dos mais pobres e vulneráveis. A linguagem religiosa não transforma uma injustiça em justiça, assim como a profissão pública de fé não constitui certificado automático de honestidade. Quando Deus é invocado para alimentar o medo, fabricar inimigos, justificar a exclusão ou encobrir práticas contrárias à dignidade humana, o sagrado é reduzido a propaganda e a consciência dos eleitores passa a ser tratada como instrumento de manipulação. É nesse ponto que a advertência de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo estabelece uma relação importante com a crítica à instrumentalização religiosa. Não se trata de afirmar que todo político religioso seja hipócrita, nem de equiparar automaticamente o uso eleitoral da fé à blasfêmia mencionada no Evangelho. São questões distintas, que exigem rigor teológico. A ligação está no princípio do discernimento: atribuir a Deus aquilo que serve à dominação, enquanto se desprezam a verdade e a justiça, representa uma grave contradição com o testemunho bíblico. O Espírito, associado à verdade e à ação libertadora de Deus, não pode ser invocado como justificativa para práticas que ferem a dignidade humana.

A pergunta que permanece é tão simples quanto necessária:

O critério cristão não é a frequência com que uma pessoa pronuncia o nome do Senhor, mas a coerência entre sua profissão de fé e suas atitudes. Jesus não convocou seus discípulos para transformar Deus em instrumento de poder, mas para testemunhar a verdade, servir aos pequenos e produzir frutos de justiça. À luz de Êxodo, dos profetas e do próprio Evangelho, tomar o nome de Deus em vão pode significar também invocá-lo publicamente sem compromisso com a justiça que ele exige. Uma religião que fala de Deus, mas se cala diante da opressão, corre o risco de conservar a aparência da fé enquanto abandona seu conteúdo. É justamente contra essa hipocrisia que a palavra de Jesus continua a nos interpelar.

A tradição profética ilumina essa inversão: 

  •  Isaías 5,20 denuncia os que chamam o mal de bem e o bem de mal
  • Miqueias 6,8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. 
  • Amós 5,21-24 rejeita um culto que convive com a injustiça e exige que o direito corra como água. 
  • Jeremias 7,1-11 questiona a confiança em um templo transformado em proteção ilusória para quem pratica opressão. 
Tomemos  cuidado  com  manipulação religiosa contemporânea, quando o nome de Deus é usado para blindar líderes, conquistar poder, encobrir corrupção ou transformar adversários em inimigos absolutos demoníacos . Não se deve chamar qualquer divergência de blasfêmia contra o Espírito, pois isso repetiria a própria lógica de silenciamento que a reflexão procura combater. O discernimento cristão examina ações, frutos e consequências, reconhecendo que a linguagem sagrada também pode ser instrumentalizada para proteger interesses humanos. Em Lucas 12,11-12, Jesus prepara os discípulos para quando forem conduzidos às sinagogas, aos magistrados e às autoridades. A passagem antecipa uma situação de pressão, mas não descreve um julgamento específico. Atos 4,1-21 e 5,27-32 mostram os primeiros discípulos confrontados por autoridades que procuram limitar sua proclamação. Atos 7,54-60 narra o testemunho de Estêvão, e Atos 24 e 25 apresenta Paulo diante de representantes do poder romano. Mostram que a legalidade institucional não torna moralmente correta qualquer exigência. Quando o poder ordena silêncio diante de uma injustiça, a consciência precisa discernir se obedecer seria participar do mal. O testemunho cristão não autoriza violência ou desprezo indiscriminado pelas instituições; exige responsabilidade, coragem e disposição para responder pelos próprios atos. A promessa de que o Espírito Santo ensinará o que dizer naquela hora não dispensa estudo, preparação ou reflexão. O contexto é o testemunho diante da perseguição, quando o discípulo pode ser surpreendido por uma situação em que sua fé está sob pressão. O texto não afirma que toda opinião espontânea seja inspirada por Deus, nem autoriza líderes a evitar perguntas alegando possuir uma orientação incontestável do Espírito. Confiança espiritual e responsabilidade intelectual não são inimigas. Na sociedade contemporânea, marcada por desinformação, discursos inflamados e disputas pela atenção, esse princípio exige verificar fatos, reconhecer limites e resistir à tentação de repetir uma mentira porque ela favorece nosso grupo. O Espírito não é propriedade de uma liderança, partido ou denominação. A promessa fortalece o testemunho em circunstâncias difíceis; não transforma preferências pessoais em revelação divina. A palavra cristã pode ser firme sem ser cruel, crítica sem ser desonesta e corajosa sem confundir agressividade com profecia.

Essa mensagem interpela as estruturas sociais;

A fome não desaparece por meio de discursos religiosos, e a oração não substitui políticas públicas responsáveis, educação, saúde, trabalho digno e proteção social. A comunidade cristã não precisa tornar-se instrumento de um partido para avaliar criticamente projetos e decisões públicas. Pode perguntar quem suporta os custos de determinada política, quem recebe seus benefícios e quais vidas são tratadas como descartáveis. Quando a pobreza é atribuída exclusivamente a falhas individuais e a riqueza é apresentada como prova automática de bênção divina, as causas sociais da desigualdade desaparecem do debate. A denúncia profética recupera essas causas sem negar a responsabilidade pessoal. Justiça social e conversão individual não são alternativas: uma sociedade mais justa exige pessoas responsáveis, e a conversão precisa alcançar relações e estruturas que perpetuam a exclusão. 

A violência exige semelhante discernimento. Em Lucas 6,27-36, Jesus ensina o amor aos inimigos; em Lucas 22,49-51, interrompe a agressão contra o servo do sumo sacerdote e cura o ferido. A fidelidade ao Mestre não pode ser convertida em licença para atacar em seu nome. O Evangelho confronta o racismo, o feminicídio, a tortura, a perseguição de minorias e a banalização da morte, sem ignorar a responsabilidade de quem pratica crimes. Justiça não significa vingança, e misericórdia não exige que vítimas permaneçam expostas à violência. É necessário proteger quem sofre, responsabilizar agressores conforme a lei e recusar a desumanização como método de segurança. A mesma exigência vale para a vida eclesial. Em Lucas 22,24-27, Jesus critica a disputa por grandeza e apresenta o serviço como medida da autoridade. O clericalismo contradiz essa lógica quando concentra poder, evita prestação de contas ou protege a reputação institucional à custa de pessoas feridas. Transparência, escuta, responsabilização e reparação não são ameaças à fé; são práticas necessárias para que a comunidade corresponda ao Evangelho que anuncia. Em Atos. Atos 2,42-47 descreve uma comunidade que partilha a vida, enquanto Atos 4,32-35 destaca a atenção às necessidades concretas. Esses relatos não apresentam grupos sem conflitos, mas oferecem uma orientação ética: os bens não devem servir de justificativa para a indiferença diante da miséria. A Igreja que reconhece Jesus acolhe quem duvida, protege quem sofre, forma consciências críticas e organiza a solidariedade. Não basta denunciar os pecados da sociedade se a comunidade reproduz discriminação, autoritarismo ou competição por prestígio. A conversão começa no coração, mas não termina nele; transforma hábitos, relações, prioridades e estruturas. Essa dimensão também toca a crise contemporânea de sentido. Em uma cultura que recompensa aparências e exige aprovação constante, muitas pessoas experimentam solidão, insegurança e exaustão. Lucas 12,7, no contexto anterior, recorda que Deus conhece até os cabelos da cabeça dos discípulos. A imagem comunica cuidado e valor, não vigilância destinada a alimentar paranoia. A dignidade humana não depende da riqueza, da popularidade ou da aprovação de um grupo. A comunidade pode oferecer escuta e companhia, sem prometer respostas fáceis para o sofrimento.

Lucas 12,8-12 não promete uma existência sem riscos, perseguições ou conflitos; prepara os discípulos para permanecerem fiéis ao Evangelho quando o medo, a pressão e os interesses do poder tornam o silêncio mais conveniente do que a verdade. O Espírito Santo não nos torna infalíveis, mas nos conduz ao discernimento, à coragem e à conversão contínua. Por isso, a comunidade cristã precisa examinar a própria consciência e perguntar: quais silêncios protegem injustiças? Quais discursos religiosos escondem interesses particulares? Quantas vezes o nome de Deus é invocado para conquistar poder, enquanto os pobres, os excluídos e os vulneráveis continuam à margem? Reconhecer Jesus diante das pessoas não significa apenas professar sua fé publicamente, mas tornar visível, por meio das atitudes, a justiça, a misericórdia e a liberdade que caracterizam sua mensagem. Onde a verdade é sufocada, o Espírito chama à coragem; onde a violência desumaniza, chama à defesa da dignidade; onde a religião legitima a opressão, chama à conversão. O verdadeiro testemunho cristão não se mede pelo volume das palavras, pela ostentação da fé ou pela proximidade com os poderosos, mas pela coerência entre o Evangelho anunciado e a vida praticada. No momento decisivo, portanto, que a Igreja não escolha a mentira conveniente, a omissão cúmplice ou a agressividade disfarçada de zelo religioso, mas a palavra justa, a presença solidária e a fidelidade que não abandona os pequenos. Que o Espírito Santo nos livre de transformar a fé em máscara, Deus em instrumento de poder e o Evangelho em justificativa para nossos próprios interesses. Afinal, reconhecer Jesus é assumir o compromisso de não negar, com nossas atitudes, aquele que proclamamos com nossos lábios. A fé amadurece quando deixa de ser apenas discurso e se torna serviço, quando abandona os privilégios que a afastam do povo e quando encontra, na defesa da vida e na prática da justiça, sua expressão mais concreta. É assim que o testemunho cristão ultrapassa as palavras, confronta as contradições da história e anuncia, mesmo em meio aos conflitos do presente, que nenhum poder humano está acima da verdade, da dignidade e do amor que o Evangelho exige. 

Não se trata de condenar pessoas, determinar quem está certo ou errado em todas as circunstâncias, nem transformar a fé em disputa ideológica. Mas, se precisamos escolher um lado, que seja o lado dos pobres, dos excluídos, dos esquecidos e de todos aqueles cuja dignidade é negada. Esse foi o lado que Jesus escolheu. Não porque a pobreza torne alguém automaticamente justo, mas porque o Evangelho nos revela um Jesus que se aproxima dos marginalizados, acolhe os desprezados e denuncia estruturas que colocam o poder e os privilégios acima da vida. Em Lucas 4,18, ele anuncia sua missão de levar a Boa-Nova aos pobres; em Mateus 25,40, identifica-se com os pequeninos. Seguir Jesus, portanto, não é apenas falar de Deus, mas reconhecer sua presença naqueles que a sociedade insiste em deixar para trás. Afinal, a fé cristã não se prova pela bandeira que levantamos, mas pelo compromisso que assumimos com a dignidade humana. E, se alguém perguntar de que lado estamos, que nossas atitudes respondam antes de nossas palavras: do lado da vida, da justiça e dos que mais precisam,  porque foi entre eles que Jesus escolheu estar.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 10 de outubro de 2026

Um novo olhar sobre Mateus 22,1-14 / 28⁰ domingo do Tempo Comum.

O evangelho de Mateus 22,1-14 é proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A e, na forma integral, na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  do ciclo ferial  da Igreja Católica Romano; em algumas celebrações, pode-se usar a forma breve Mateus 22,1-10.  E  28⁰ domingo do Tempo Comum  onde temos a seguinte liturgia:  Isaías 25,6-10a, Salmo 22(23), Filipenses 4,12-14.19-20 e Mateus 22,1-14.  A liturgia apresenta uma unidade teológica profunda: A Palavra não nos convida a contemplar uma festa distante da realidade, mas a discernir como Deus confronta nossas prioridades, nossas estruturas sociais e nossas formas de viver a religião. O banquete prometido torna-se critério para avaliar a sociedade e a própria Igreja: onde a vida é desprezada, o pão negado e a dignidade negociada, a lógica do Reino permanece contraditada.

  • Isaías 25,6-10a;  anuncia um banquete preparado por Deus para todos os povos; o profeta contempla o Senhor preparando, no monte, uma refeição abundante para todos os povos. O horizonte é universal, pois a promessa ultrapassa as fronteiras de Israel e anuncia a derrota da morte, a remoção do véu que cobre as nações e o enxugamento das lágrimas. No contexto das ameaças, das fragilidades coletivas e da esperança de restauração, a imagem do banquete expressa comunhão, abundância e vida reconciliada. Deus não se limita a oferecer consolo interior aos que sofrem; promete enfrentar aquilo que destrói a existência humana. O texto encontra sua ressonância no Apocalipse 21,4, onde não haverá mais morte, luto, grito ou dor. Entretanto, a esperança escatológica não deve servir de desculpa para a indiferença presente. Se Deus promete enxugar lágrimas, os que se reconhecem como seu povo não podem produzir sofrimento por meio da exploração, da discriminação ou do abandono. A promessa futura denuncia o presente quando este transforma a miséria em destino inevitável.
  • O Salmo 22(23), proclama a confiança no Pastor que sustenta a vida mesmo diante dos adversários por  e  apresenta o Senhor como pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel pelo vale escuro. A imagem não descreve uma existência protegida de toda ameaça, mas uma confiança que resiste mesmo quando o caminho atravessa a insegurança. O gesto de preparar uma mesa diante dos adversários revela que a comunhão com Deus não depende do desaparecimento imediato dos conflitos. A unção com óleo e o cálice transbordante evocam hospitalidade, honra e abundância. Essa imagem ganha profundidade quando relacionada a Ezequiel 34,1-16, passagem na qual Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, abandonam as ovelhas frágeis e negligenciam as feridas do rebanho. A metáfora possui consequências éticas: toda autoridade que deveria proteger a vida e, em vez disso, utiliza pessoas para preservar seus próprios privilégios contradiz a imagem do Pastor. Na sociedade contemporânea, essa denúncia alcança tanto dirigentes políticos quanto lideranças religiosas que prometem cuidado, mas se afastam daqueles que mais necessitam de proteção.
  •  Filipenses 4,12-14.19-20, Paulo testemunha uma fé capaz de atravessar a abundância e a necessidade, reconhecendo a solidariedade recebida e  recorda que aprendeu a viver na abundância e na necessidade, na fartura e na privação. Sua confiança em Deus não significa desprezo pelas condições materiais nem defesa de uma espiritualidade indiferente à pobreza. O apóstolo agradece a solidariedade dos filipenses, que participaram concretamente de suas dificuldades. O contexto da carta mostra uma comunidade cuja contribuição material representa comunhão efetiva na missão. A providência divina, portanto, não deve ser transformada em justificativa para a omissão humana. Deus sustenta a vida também por meio de comunidades que partilham recursos, assumem responsabilidades e não abandonam seus membros.
Essas leituras prepara a compreensão de Mateus 22,1-14: a festa do Reino é iniciativa divina, mas sua realidade histórica depende de respostas que expressem acolhimento, generosidade e transformação. Isaías anuncia a mesa universal, o salmo apresenta o Pastor que sustenta, Paulo testemunha a solidariedade e Jesus questiona aqueles que recebem o convite sem compreender sua exigência. Para interpretar a parábola, é necessário considerar o contexto narrativo que a antecede. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém, confronta práticas realizadas no templo, questiona as autoridades e conta as parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas (Mt 21,28-46). Essas narrativas examinam a distância entre declarar obediência a Deus e praticar sua vontade. A parábola das bodas continua esse conflito, denunciando a resistência daqueles que, embora ocupem posições de proximidade religiosa, rejeitam o chamado que ameaça seus interesses. Essa crítica pertence ao ambiente judaico do qual Jesus participa. Ele é judeu, interpreta as Escrituras de Israel e dialoga com suas tradições proféticas. Por isso, seria histórica e teologicamente irresponsável utilizar a passagem para condenar coletivamente o povo judeu. O antijudaísmo desenvolvido ao longo da história cristã demonstra como uma interpretação descontextualizada pode converter uma crítica dirigida a agentes e estruturas concretas em instrumento de perseguição. A Palavra precisa julgar também os cristãos, especialmente quando suas instituições confundem eleição com superioridade e autoridade com privilégio.

No mundo do primeiro século, as bodas constituíam acontecimentos familiares e comunitários importantes, envolvendo hospitalidade, honra pública, relações sociais e celebração coletiva. A figura do rei intensifica a gravidade da narrativa: desprezar seu convite ultrapassa o simples esquecimento de um compromisso e assume o significado de rejeitar uma relação. Os primeiros convidados, porém, não demonstram interesse. Um segue para o campo, outro para seus negócios, enquanto outros agarram, maltratam e matam os mensageiros. A sequência apresenta diferentes graus de resistência, desde a indiferença até a violência. A propriedade e as ocupações cotidianas não são condenadas em si mesmas; o problema aparece quando os interesses particulares se tornam absolutos e anulam qualquer responsabilidade diante da comunidade. A recusa recorda a tradição dos profetas perseguidos, como em Jeremias 7,25-26 e 2 Crônicas 36,15-16. A história bíblica revela repetidamente que a religião pode conservar suas estruturas enquanto rejeita a voz que exige justiça. O perigo não está apenas em abandonar formalmente a fé, mas em utilizá-la para evitar suas consequências. Quando os primeiros convidados recusam o chamado, o rei envia os servos às encruzilhadas e ordena que convidem todos os que encontrarem, bons e maus. A sala se enche, e a festa adquire um alcance inesperado. A imagem expressa a gratuidade da graça: o acesso ao Reino não depende de genealogia, reputação, riqueza ou credenciais religiosas. Jesus já havia comido com publicanos e pecadores, provocando questionamentos sobre sua prática de acolhimento (Mt 9,10-13). Em Lucas 15,1-2, a proximidade de Jesus com pessoas socialmente desprezadas também provoca murmurações. A mesa torna-se lugar de contestação das fronteiras que determinam quem merece pertencer. Entretanto, acolhimento não significa declarar irrelevantes a justiça e a conversão. A graça alcança a pessoa antes de qualquer pretensão de merecimento, mas abre um caminho de transformação. Uma comunidade não pode proclamar que todos são convidados enquanto humilha os pobres, silencia vítimas, discrimina minorias ou trata os diferentes como ameaças à própria segurança.

A cidade incendiada em Mateus 22,7 pode ser compreendida como uma possível ressonância da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, acontecimento decisivo para a memória judaica e para o ambiente histórico em que o Evangelho de Mateus tomou forma. Essa interpretação é plausível, mas não autoriza estabelecer correspondências automáticas entre cada elemento da parábola e acontecimentos específicos. Tampouco permite converter a narrativa em legitimação religiosa da guerra. A linguagem do juízo expressa a seriedade da rejeição e a convicção de que a violência possui consequências históricas e morais. Entretanto, precisa ser lida em diálogo com o conjunto do Evangelho. Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (Mt 5,44), repreende a lógica da vingança e adverte contra a violência como caminho de fidelidade. O juízo de Deus não concede aos discípulos autorização para perseguir pessoas em nome de uma suposta pureza religiosa. Sua função profética é desmascarar o mal, defender as vítimas e afirmar que nenhuma estrutura humana permanece acima da responsabilidade ética.

A chegada do homem sem veste nupcial introduz uma tensão decisiva. Ele foi encontrado nas ruas, recebeu o convite e entrou na sala, mas sua presença não corresponde ao significado da celebração. O texto não explica como a veste deveria ser adquirida; portanto, não é adequado apresentar como certeza uma reconstrução histórica que a narrativa não fornece. Na tradição cristã, a roupa pode simbolizar conversão, fidelidade, justiça e vida renovada pela graça. Paulo fala de revestir-se de Cristo (Gl 3,27) e do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade (Ef 4,24). Isaías 61,10 relaciona as vestes à salvação e à justiça. O símbolo não deve ser utilizado para exigir que os pobres comprovem merecimento antes de serem acolhidos. A veste não é um uniforme de superioridade, mas a expressão de uma existência transformada. Entrar na festa sem assumir sua lógica significa desejar os benefícios da comunhão sem aceitar as responsabilidades que ela produz.

A advertência encontra paralelo em:

  •  Mateus 7,21, quando Jesus afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas é necessário fazer a vontade do Pai. 
  •  Mateus 12,33, a árvore é reconhecida por seus frutos.
A fé cristã não se reduz à identificação institucional, à frequência sacramental ou à exibição pública de símbolos religiosos. Esses elementos possuem significado quando alimentam uma prática coerente com o Evangelho. Se alguém comunga e continua explorando trabalhadores, se proclama a defesa da família enquanto pratica a violência doméstica, se fala em valores cristãos enquanto dissemina mentiras e desprezo, existe uma contradição entre a profissão religiosa e a vida concreta. Isso não significa que a conversão seja instantânea ou que a comunidade deva exigir perfeição absoluta. Significa reconhecer que a graça inaugura um processo real, no qual a pessoa aprende a abandonar práticas desumanizadoras e a construir relações orientadas pela misericórdia, pela verdade e pela justiça. O paralelo com Lucas 14,15-24 ilumina diferenças importantes entre as tradições evangélicas. Lucas apresenta um homem que oferece uma grande ceia e encontra desculpas relacionadas a propriedades, trabalho e casamento. O anfitrião ordena que sejam chamados pobres, aleijados, cegos e coxos; depois, o convite alcança pessoas encontradas pelos caminhos e cercas. Mateus, por sua vez, situa a festa no conflito de Jesus com as autoridades de Jerusalém, identifica o anfitrião como rei, apresenta as bodas do filho, descreve a violência contra os mensageiros e acrescenta o convidado sem veste nupcial. As duas versões compartilham a rejeição do convite e a ampliação do acolhimento, mas desenvolvem ênfases teológicas próprias. Marcos 12,1-12, embora não narre um casamento, apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que também rejeitam os enviados e culmina na rejeição do filho. Esses paralelos mostram que a tradição de Jesus denuncia a resistência à vontade divina e questiona a pretensão de transformar a proximidade religiosa em garantia de fidelidade.

A frase “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14) deve ser interpretada à luz de toda a narrativa, não como uma fórmula destinada a alimentar medo ou especulação sobre o número dos salvos. O convite é amplo, mas não elimina a liberdade nem torna indiferente a resposta humana. João Batista exige frutos dignos de conversão (Mt 3,8), e Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos que produz (Mt 7,16-20). A eleição bíblica representa responsabilidade, não privilégio. Ser chamado significa participar de uma missão que deve produzir sinais concretos do Reino. A comunidade cristã é convocada a testemunhar misericórdia, reconciliação, verdade e justiça. Não pode reivindicar para si a aprovação divina enquanto ignora os sofrimentos que poderia aliviar. A advertência da parábola não apresenta Deus como alguém que procura arbitrariamente motivos para excluir, mas revela a incompatibilidade entre a comunhão oferecida e uma existência que persiste em rejeitar suas exigências. A  mensagem confronta as desigualdades da sociedade contemporânea. Quando a alimentação, a moradia, a saúde, a educação e a segurança permanecem inacessíveis para parcelas da população, a dignidade humana é subordinada a condições econômicas e sociais que nem todos conseguem superar individualmente. A imagem do banquete questiona uma organização social na qual o desperdício convive com a fome e a riqueza se concentra enquanto milhões enfrentam insegurança material. A parábola não oferece, isoladamente, um programa econômico detalhado, mas estabelece um horizonte ético: nenhuma estrutura pode ser considerada justa quando trata o sofrimento evitável como consequência aceitável do funcionamento normal da sociedade. A responsabilidade cristã exige caridade organizada, defesa dos direitos, políticas públicas responsáveis e participação cidadã. Dar alimento a quem tem fome é indispensável, mas também é necessário perguntar por que a fome persiste, quem suporta seus efeitos e quais decisões poderiam transformar suas causas. A compaixão não substitui a justiça; deve impulsioná-la.

A mesma exigência alcança a política e o exercício da autoridade. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, não fortalecem as ovelhas debilitadas e não procuram as perdidas. A crítica ultrapassa o campo religioso e ilumina qualquer poder que transforma a função pública em instrumento de enriquecimento, perseguição ou autopreservação. Autoridade legítima não se mede pela capacidade de intimidar adversários, mas pela responsabilidade com a vida coletiva, pela transparência e pela proteção dos vulneráveis. A fé cristã não deve ser sequestrada por partidos, governantes ou projetos ideológicos que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade. Quando a linguagem religiosa é usada para desumanizar opositores, justificar violência ou silenciar denúncias de injustiça, o nome de Deus passa a funcionar como instrumento de poder. A consciência cristã precisa examinar propostas, decisões e consequências concretas à luz da dignidade humana, sem transformar o Evangelho em propaganda eleitoral nem confundir fidelidade religiosa com obediência cega a lideranças políticas. A manipulação religiosa também aparece quando dirigentes apresentam interesses particulares como vontade incontestável de Deus, retiram versículos de seu contexto ou exigem dos fiéis uma submissão que eles próprios não praticam. Jesus denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem disposição para carregá-los (Mt 23,4) e critica a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade em favor de uma religiosidade exterior (Mt 23,23). A teologia da prosperidade distorce a imagem do banquete quando transforma a graça em transação e faz da contribuição financeira uma suposta garantia de bênçãos. O individualismo religioso reduz a salvação ao conforto privado e esquece que a mesa é lugar de comunhão. A Eucaristia, memorial da entrega de Cristo, perde sua força testemunhal quando a celebração não se traduz em compromisso com os corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão, a  liturgia não é uma fuga da história, mas uma escola de responsabilidade diante dela.  Uma comunidade eclesial fiel precisa garantir participação, transparência, cuidado com as vítimas, formação crítica e acolhimento efetivo. Precisa examinar as relações de poder que silenciam pessoas, os mecanismos que protegem abusadores e as formas de clericalismo que tratam os leigos como espectadores sem voz. A autoridade pastoral deve servir à comunhão, não estabelecer uma casta acima do povo de Deus. Como recorda 1 Coríntios 13,1-3, até os dons mais extraordinários perdem seu sentido quando falta o amor.

 E preciso  ter a consciência que a  conversão, contudo, não começa apenas  instituições; alcança também os desejos, os medos e as escolhas cotidianas. O apego ao status pode levar uma pessoa a defender uma ordem injusta porque dela recebe segurança, reconhecimento ou vantagem. O medo da mudança pode tornar mais confortável a permanência em estruturas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. Reconhecer esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que a transformação exige consciência, coragem e apoio comunitário. Cada pessoa precisa perguntar quais interesses se tornaram desculpas para ignorar o sofrimento alheio, quais preconceitos orientam seus julgamentos e quais privilégios prefere proteger. A conversão cristã não consiste em cultivar culpa sem saída, mas em permitir que a verdade desmonte as justificativas que impedem uma vida mais justa. O perdão não apaga a responsabilidade; abre a possibilidade de reparar danos, reconstruir relações e interromper a repetição da violência. Essa transformação exige atenção especial aos grupos frequentemente empurrados para as margens. Migrantes não podem ser reduzidos a ameaças, pessoas negras não devem continuar submetidas à discriminação, mulheres não podem ter sua voz silenciada, povos originários precisam ter seus territórios e direitos respeitados, e pessoas LGBTQIA+ não devem ser transformadas em alvos de humilhação. Uma comunidade cristã não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a humanidade e a dignidade de cada pessoa. Precisa, antes, examinar se suas palavras e práticas correspondem ao mandamento de amar o próximo e à afirmação de que todo ser humano merece respeito. O convite às encruzilhadas não é uma estratégia para aumentar números ou conquistar influência institucional. É uma convocação a encontrar pessoas reais, escutar suas histórias e construir relações nas quais ninguém seja tratado como descartável. A acolhida evangélica não é tolerância condescendente, mas reconhecimento da dignidade e da participação de todos na vida comum.

A parábola, finalmente, reúne a gratuidade do convite e a seriedade da resposta para nossa  conclusão. 

  • Isaías anuncia a vitória de Deus sobre a morte e o fim das lágrimas; o salmista testemunha a presença do Pastor nos vales escuros.
  • Paulo reconhece a solidariedade que sustenta a missão
  • Jesus proclama uma festa aberta e questiona a possibilidade de participar dela sem se deixar transformar. 
 A liturgia da Palavra  desse  dia não descrevem dimensões isoladas da fé, mas uma única dinâmica de esperança, comunhão e responsabilidade. A providência não legitima a passividade, a eleição não concede superioridade e a graça não transforma a injustiça em algo irrelevante. O Reino começa a ser reconhecido quando o pão é partilhado, a verdade vence a manipulação, a autoridade protege em vez de explorar e a comunidade abandona a indiferença diante dos que sofrem.  O convite está feito, mas não basta admirar a festa de longe, repetir suas palavras ou ocupar um lugar à mesa. É necessário permitir que a graça transforme a maneira como trabalhamos, consumimos, votamos, celebramos, educamos, acolhemos e exercemos nossas responsabilidades. A veste nupcial representa essa coerência possível entre a fé professada e a vida praticada, entre a comunhão celebrada e a justiça construída. A Igreja será sinal do banquete prometido quando deixar de proteger privilégios, enfrentar suas próprias contradições e caminhar com os que foram feridos pela exclusão. O mundo reconhecerá a força do Evangelho não pela ostentação dos templos nem pela proximidade entre púlpitos e palácios, mas pelos frutos de uma comunidade que serve, partilha, denuncia o mal e promove a reconciliação. Deus prepara a mesa e chama os povos; cabe a nós responder com uma vida que não contradiga a festa. A esperança cristã não nos autoriza a esperar passivamente por outro mundo, mas nos compromete a trabalhar, desde agora, para que a dignidade, a justiça e a misericórdia tenham lugar concreto na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano