quinta-feira, 25 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 8,1-4

A cura do leproso narrada em Mateus 8,1-4 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica e teológica da Igreja. Na liturgia católica romana, este Evangelho é proclamado na sexta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum dos anos ímpares. Seu paralelo em Marcos 1,40-45 aparece na quinta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum e também no 6º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Já a versão de Lucas 5,12-16 é proclamada na sexta-feira após a Epifania do Senhor. Essa presença recorrente nos ciclos litúrgicos manifesta que a Igreja não lê esse episódio como um milagre isolado, mas como uma chave hermenêutica da identidade de Jesus e da dinâmica do Reino de Deus. A convergência dos Evangelhos Sinóticos reforça essa centralidade. Mateus destaca a autoridade messiânica daquele que cumpre as promessas de Israel; Marcos enfatiza a compaixão visceral de Jesus diante do sofrimento humano; Lucas sublinha a universalidade da salvação e a oração constante de Cristo ao Pai. Essas três perspectivas não competem entre si, mas se complementam, oferecendo um retrato teologicamente denso do Salvador: o Messias prometido, o Servo compassivo e o Filho em permanente comunhão com Deus.

A posição do episódio em Mateus possui forte densidade teológica. Após o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus desce do monte e encontra a realidade concreta da dor humana. O movimento evoca Moisés descendo do Sinai com as tábuas da Lei (Ex 34,29-35), mas também revela uma superação. Em Cristo, não se trata apenas de transmissão da Lei, mas da presença viva de Deus na história. Ele é a própria Palavra feita carne (Jo 1,14). Assim, a descida do monte simboliza o novo Êxodo: não apenas libertação política, mas libertação integral do pecado, da exclusão e da morte. A Galileia do século I, cenário do episódio, era uma região marcada por desigualdade econômica, concentração fundiária, exploração tributária e tensões religiosas. Sob o domínio romano e sob o peso de elites locais, a vida dos camponeses e marginalizados era precária. Nesse contexto, a exclusão dos leprosos intensificava ainda mais uma estrutura já profundamente desigual. O encontro de Jesus com o leproso não é, portanto, um gesto neutro: é um ato que atravessa fronteiras sociais, religiosas e políticas, revelando o Reino de Deus como realidade que se manifesta nas margens da história.

O primeiro personagem encontrado por Jesus não é um sacerdote nem um escriba, mas um leproso. A escolha é teologicamente decisiva. Segundo Levítico 13–14, a lepra não era apenas uma condição médica, mas um estado de impureza ritual que implicava exclusão comunitária. O doente deveria viver afastado, cobrir-se e gritar “Impuro! Impuro!” (Lv 13,45-46). A exclusão era total: religiosa, social e existencial. O leproso era alguém cuja vida havia sido reduzida à marginalidade institucionalizada. É nesse contexto que o homem se aproxima de Jesus e se ajoelha. Seu gesto rompe o isolamento imposto pela lei e pela sociedade. Sua oração é simples e teologicamente profunda: “Senhor, se queres, tens o poder de purificar-me” (Mt 8,2). Ele não impõe condições, não reivindica direitos, não manipula Deus. Reconhece a soberania de Cristo e se abandona à sua vontade. Aqui aparece a fé como confiança radical, próxima da espiritualidade dos Salmos, onde o sofrimento não elimina a esperança (cf. Sl 22; Sl 38; Sl 130).

É significativo que o pedido não seja apenas por cura, mas por purificação. O verbo subjacente no texto grego é katharízō, que significa tornar puro, restaurar a condição de comunhão. O milagre não é apenas físico; é relacional, cultual e comunitário. Jesus não apenas devolve saúde, mas reintegra o homem à vida plena do povo de Deus. A resposta de Jesus é direta: “Eu quero, fica limpo” (Mt 8,3). Em seguida, Ele estende a mão e toca o leproso. Esse gesto é o ponto de ruptura da narrativa. Segundo a lógica ritual do Judaísmo do Segundo Templo, o contato com o impuro tornava alguém impuro (Lv 5,3; Nm 19,22). Em Jesus, essa lógica é invertida: não é a impureza que se transmite, mas a santidade que restaura. O toque de Cristo não preserva distância; ele cria comunhão.

Nesse gesto, a Igreja primitiva reconheceu uma antecipação da Encarnação. Deus não salva à distância. Ele entra na carne humana, assume sua fragilidade e transforma a realidade a partir de dentro. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). O toque do leproso já contém a lógica da encarnação: proximidade radical com aquilo que foi rejeitado. Os Padres da Igreja perceberam essa dimensão profundamente. São João Crisóstomo observa que Cristo poderia ter curado apenas com a palavra, mas escolheu tocar o leproso para mostrar que nenhuma impureza humana pode contaminar Deus; ao contrário, é a santidade divina que transforma o impuro. Santo Agostinho, por sua vez, via na lepra uma imagem da desfiguração interior causada pelo pecado. Cristo toca o homem não para ser contaminado, mas para restaurar a imagem divina nele obscurecida.

A ação de Jesus também se insere na tradição profética. Isaías anuncia o Servo do Senhor que “tomou sobre si nossas enfermidades e carregou nossas dores” (Is 53,4). O toque no leproso antecipa a lógica da cruz: Deus não elimina a dor à distância, mas a assume em solidariedade redentora. O gesto de cura é também um gesto de entrega. O episódio dialoga ainda com a narrativa de Naamã (2Rs 5). O general sírio, leproso, encontra cura não por mérito próprio, mas pela intervenção de Deus através do profeta Eliseu. Quando o rei de Israel reage dizendo: “Sou eu Deus para dar morte e vida?” (2Rs 5,7), revela-se a consciência de que a cura da lepra pertence ao domínio divino. Em Jesus, essa ação divina se manifesta de modo pleno e imediato, sem mediações rituais complexas. O episódio também se conecta às promessas de Isaías: “Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos” (Is 35,5-6). Os sinais do Reino são sinais de restauração integral da vida. A cura do leproso, portanto, não é apenas um ato de compaixão individual, mas um sinal escatológico.

Após a cura, Jesus ordena que o homem se apresente ao sacerdote e cumpra o rito prescrito por Moisés (Mt 8,4). Isso indica que Jesus não rejeita a Lei, mas a leva à sua plenitude (Mt 5,17). Contudo, essa obediência não deve ser confundida com legalismo. Os profetas já haviam denunciado uma religião centrada em ritos sem justiça. “Misericórdia quero, e não sacrifício” (Os 6,6), afirma o Senhor, palavra que Jesus retomará em Mateus 9,13 e 12,7. A Lei, quando isolada de sua finalidade de vida, pode tornar-se instrumento de exclusão. Jesus, ao contrário, restitui seu sentido original: promover a vida e a comunhão. A reintegração do leproso não é apenas religiosa, mas social e existencial. Ele volta a pertencer.

Esse movimento encontra paralelo direto na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Enquanto sacerdote e levita evitam o homem ferido para preservar pureza ritual, o samaritano se aproxima, toca e cuida. Em ambos os casos, a verdadeira fidelidade a Deus se manifesta no cuidado concreto com o ferido. O gesto de Jesus também se relaciona diretamente com Mateus 25,31-46. O Cristo que toca o leproso é o mesmo que se identifica com os famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados. “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes.” A cristologia de Mateus não separa culto e misericórdia.nNão se trata de identificar pecado com doença, mas de reconhecer a fragmentação humana. O pecado rompe relações, produz isolamento e desfigura a comunhão. Isaías expressa essa condição: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas” (Is 53,6). Paulo radicaliza: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

A Igreja ver no  gesto de Jesus  uma antecipação da vida sacramental. Assim como Cristo toca o leproso, Ele continua a tocar a humanidade através dos sacramentos. Na Eucaristia, especialmente, o Cristo ressuscitado aproxima-se da fragilidade humana para restaurar a comunhão quebrada pelo pecado.

Os “leprosos” continuam presentes sob novas formas:

  •  pobres invisibilizados,
  •  moradores de rua, 
  • migrantes, 
  • dependentes químicos,
  •  encarcerados, 
  • idosos abandonados 
  • todos os que a lógica econômica descarta. 
A exclusão hoje não se expressa em termos rituais, mas em termos de utilidade social. O resultado, porém, é semelhante: vidas reduzidas à invisibilidade. Em meio a um mundo marcado por polarizações ideológicas, individualismo e cultura do descarte, o Evangelho propõe outra lógica. Jesus não reduz o ser humano à sua condição ferida, mas também não ignora a ferida. Ele vê, toca e restaura.

O leproso de Mateus 8 antecipa, portanto, o julgamento escatológico de Mateus 25. O encontro com o excluído é encontro com o próprio Cristo. A fé cristã não pode ser separada da prática da misericórdia.  Diante disso, a questão decisiva não é apenas histórica,  se Jesus curou um leproso na Galileia,  mas existencial e eclesial: quem são os leprosos de hoje? Enquanto houver vidas relegadas à invisibilidade, o gesto de Cristo permanece inacabado na história. 

A cura do leproso, por fim, aponta para o horizonte último da fé cristã: a nova criação prometida por Deus, na qual “não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor” (Ap 21,4). Cada gesto de cura realizado por Jesus não se encerra em si mesmo; ele funciona como sinal sacramental do Reino que vem, antecipação histórica de uma realidade escatológica ainda em gestação. O Evangelho, nesse sentido, não descreve apenas intervenções pontuais de Deus no passado, mas revela a direção profunda da história: a passagem da exclusão para a comunhão, da fragmentação para a unidade, da morte para a vida. Essa esperança não é evasão do mundo, mas crítica radical de suas estruturas de injustiça. A escatologia bíblica não legitima resignação, mas alimenta a responsabilidade histórica. O futuro prometido por Deus já irrompe no presente sempre que a dignidade humana é restaurada, sempre que relações rompidas são reconstituídas, sempre que o excluído volta a ser reconhecido como sujeito pleno. Nesse sentido, a cura do leproso não é apenas um milagre isolado, mas um ato revelador de como Deus age na história e de como a história é chamada a se configurar segundo o seu desígnio.

A Igreja, enquanto peregrina no tempo, vive nesse intervalo tenso entre o “já” e o “ainda não” do Reino. Ela não é o Reino em sua plenitude, mas é chamada a ser seu sinal visível e eficaz. Sua credibilidade evangélica não se mede apenas pela fidelidade doutrinal, mas pela transparência com que torna presente o estilo de agir de Cristo: proximidade com os feridos, liberdade diante das exclusões, coragem diante das estruturas que produzem marginalização. Sempre que a Igreja se fecha em autorreferencialidade, perde sua força simbólica; sempre que se abre ao serviço concreto da vida, torna-se sacramento do Reino. A missão eclesial não pode ser reduzida a conservação institucional nem a disputas internas de poder. Ela se realiza, antes de tudo, como continuidade do gesto de Jesus que estende a mão e toca o que era considerado intocável. Isso implica uma espiritualidade encarnada, capaz de discernir os “leprosos” de cada época não como categorias abstratas, mas como rostos concretos, histórias feridas e vidas concretas clamando por reintegração. A fidelidade ao Evangelho exige essa leitura espiritual da realidade, onde a contemplação de Cristo conduz inevitavelmente ao encontro com o sofredor.

Ao mesmo tempo, essa dinâmica revela que a santidade cristã não se define pela separação do mundo, mas pela capacidade de transformar o mundo a partir de dentro. A santidade de Cristo não evitou o contato com a impureza; ao contrário, manifestou-se precisamente no contato que cura. Assim também a vida cristã é chamada a superar toda forma de religiosidade defensiva ou puramente ritualista, que protege identidades à custa da exclusão do outro. O Evangelho desloca continuamente o centro da religião para a misericórdia. Por isso, a cura do leproso permanece como uma provocação permanente à consciência da Igreja e da sociedade. Ela interroga tanto as estruturas religiosas quanto os sistemas sociais que naturalizam a exclusão. Em um mundo onde a dignidade humana frequentemente é subordinada à eficiência, ao lucro ou à utilidade, o gesto de Jesus afirma que nenhum ser humano pode ser considerado descartável. A lógica do Reino é incompatível com qualquer forma de desumanização.

Assim, o encontro entre Jesus e o leproso não pertence apenas ao passado da Galileia, mas se prolonga em cada tempo histórico. Ele continua a acontecer onde quer que a misericórdia se torne ação concreta, onde quer que a proximidade vença a indiferença, onde quer que a dignidade ferida seja novamente reconhecida. É nesse movimento que a Igreja se torna, de fato, sinal antecipador da nova criação: não por perfeição institucional, mas por fidelidade ao modo de agir de seu Senhor. O horizonte final permanece, portanto, aberto e promissor. A história ainda está em caminho, mas não sem direção. O mesmo Cristo que tocou o leproso continua conduzindo a humanidade para o dia em que toda ferida será curada definitivamente e toda exclusão será superada. Até lá, cada gesto de misericórdia, cada ato de justiça e cada forma de reconciliação tornam visível, ainda que de modo fragmentário, a realidade futura que Deus já iniciou em Cristo e que encontrará sua plenitude na consumação de todas as coisas.

DNonato — Teólogo do Cotidiano, um leproso alcançado pela misericórdia

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 7,6.12-14

A perícope de Mateus 7,6.12-14 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da 12ª Semana do Tempo Comum. Trata-se de uma passagem situada na conclusão do Sermão da Montanha, um dos textos mais importantes de todo o Novo Testamento. O Sermão da Montanha ocupa os capítulos 5 a 7 do Evangelho segundo Mateus e constitui a primeira grande instrução de Jesus aos seus discípulos. Nas Igrejas Ortodoxas, nas antigas Igrejas Orientais e em diversas comunidades históricas oriundas da Reforma, os ensinamentos do Sermão da Montanha também ocupam lugar central na formação espiritual e moral dos fiéis. Não por acaso, muitos Padres da Igreja consideravam esses capítulos como a síntese mais completa da vida cristã. Ao chegarmos a Mateus 7,6.12-14, estamos diante da conclusão de um longo itinerário espiritual. Desde as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), Jesus vem formando uma nova consciência humana e religiosa. Os pobres em espírito são proclamados felizes, os    mansos recebem a promessa da terra, os misericordiosos alcançam misericórdia, os promotores da paz são chamados filhos de Deus. Em seguida, Jesus apresenta seus discípulos como sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16), interpreta a Lei à luz do amor (Mt 5,17-48), ensina a oração do Pai-Nosso (Mt 6,9-13), denuncia a hipocrisia religiosa (Mt 6,1-18), critica a idolatria das riquezas (Mt 6,19-24), convida à confiança na providência divina (Mt 6,25-34) e adverte contra o julgamento hipócrita do próximo (Mt 7,1-5). A porta estreita, portanto, não é um ensinamento isolado. Ela representa a consequência prática de tudo aquilo que foi ensinado anteriormente.

O primeiro versículo da perícope afirma: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Para compreender essa afirmação é necessário situá-la em seu contexto histórico. No mundo judaico do século I, cães e porcos eram frequentemente associados à impureza ritual. O porco era considerado animal impuro segundo Levítico 11,7. O cão, diferentemente da imagem afetuosa comum em muitas culturas atuais, era geralmente visto como animal errante e agressivo. Jesus utiliza essas imagens não para desumanizar pessoas, mas para ensinar discernimento. O tema do discernimento atravessa toda a Escritura. O livro dos Provérbios afirma: “Não repreendas o zombador para que ele não te odeie; repreende o sábio e ele te amará” (Pr 9,8). Também lemos: “Não fales aos ouvidos do insensato, porque desprezará a sabedoria de tuas palavras” (Pr 23,9). A literatura sapiencial reconhece que nem todos estão igualmente abertos à verdade. O próprio Jesus experimentou essa realidade quando foi rejeitado em Nazaré (Lc 4,16-30). Paulo e Barnabé viveram situação semelhante quando parte de seus ouvintes recusou a mensagem do Evangelho (At 13,44-46).

As pérolas simbolizam aquilo que possui valor inestimável. Em Mateus 13,45-46, o Reino dos Céus é comparado a uma pérola preciosa pela qual vale a pena vender tudo. A advertência de Mateus 7,6 recorda que o sagrado não pode ser banalizado. Em uma cultura marcada pela espetacularização da religião, pela transformação da fé em mercadoria e pelo uso da espiritualidade como instrumento de autopromoção, esse ensinamento torna-se extraordinariamente atual. Vivemos uma época em que muitos transformam o Evangelho em produto de consumo. A lógica do mercado invade o espaço da fé. Multiplicam-se promessas de prosperidade financeira, fórmulas mágicas de sucesso espiritual e discursos religiosos moldados pelas exigências do marketing. Jesus recorda que as pérolas do Reino não são mercadorias. A graça não pode ser comprada. A fé não pode ser comercializada. A salvação não se encontra à venda. Depois dessa advertência, o Evangelho apresenta uma das maiores sínteses éticas de toda a Bíblia: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles, pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Essa afirmação é conhecida como Regra de Ouro. Embora existam formulações semelhantes em outras tradições religiosas antigas, Jesus oferece uma formulação positiva e ativa. Não basta evitar fazer o mal. É necessário praticar o bem.

A Regra de Ouro possui raízes profundas no Antigo Testamento. Em Levítico 19,18 encontramos: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Poucos versículos depois, o mesmo capítulo afirma: “Amarás o estrangeiro como a ti mesmo” (Lv 19,34). Em Deuteronômio 10,18-19, Deus é apresentado como aquele que ama o estrangeiro, o órfão e a viúva. O amor ao próximo não é uma invenção do Novo Testamento. Trata-se do coração da revelação bíblica. Os profetas aprofundaram essa compreensão. Isaías denuncia uma religião incapaz de produzir justiça social: “Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido” (Is 1,17). Jeremias condena aqueles que enriquecem à custa da exploração dos pobres (Jr 22,13-17). Amós proclama uma das críticas mais contundentes de toda a Escritura: “Corra o direito como água e a justiça como um rio caudaloso” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus em três atitudes fundamentais: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Quando Jesus afirma que a Regra de Ouro resume “a Lei e os Profetas”, ele está dizendo que toda a Escritura converge para a prática do amor. O mesmo ensinamento reaparece em Mateus 22,37-40, quando o amor a Deus e ao próximo são apresentados como fundamento de toda a Lei. Paulo desenvolve essa perspectiva ao afirmar que “o amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10). Tiago fala da “lei régia” (Tg 2,8). João declara que quem não ama seu irmão não pode amar a Deus a quem não vê (1Jo 4,20).

 O ser humano é essencialmente relacional. Ninguém constrói sua identidade sozinho. Somos formados por vínculos, encontros e reciprocidades. Quando a sociedade rompe esses laços, surgem o isolamento, a violência e a desumanização. A Regra de Ouro questiona frontalmente a cultura do individualismo. Em uma sociedade organizada pela competição, pelo consumismo e pela busca incessante de vantagens pessoais, Jesus propõe uma lógica alternativa: 

  • O outro não é concorrente. 
  • O outro é irmão. 
  • O próximo não é obstáculo. 
  • O próximo é lugar de manifestação da presença divina.ssa compreensão alcança seu ponto máximo na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). 
Enquanto representantes da religião oficial passam ao largo do homem ferido, um estrangeiro considerado impuro torna-se exemplo de humanidade. Jesus redefine o conceito de próximo. O próximo não é apenas aquele que pertence ao meu grupo. O próximo é qualquer pessoa cuja dor eu sou capaz de reconhecer. O mesmo princípio reaparece em Ma teus 25,31-46. No Juízo Final, Cristo identifica-se com os famintos, os sedentos, os migrantes, os doentes e os encarcerados. A espiritualidade cristã deixa de ser mera prática ritual para tornar-se compromisso concreto com a dignidade humana..Nesse ponto, torna-se impossível ignorar as enormes contradições de nosso tempo. A desigualdade social continua produzindo sofrimento em escala global. Milhões de pessoas vivem sem acesso adequado à alimentação, à saúde, à educação e à moradia. Ao mesmo tempo, pequenas parcelas da população concentram riquezas sem precedentes. A tradição profética da Bíblia não permite neutralidade diante dessa realidade. O Deus que ouviu o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10) continua ouvindo o clamor das vítimas da exclusão contemporânea. O Deus que instituiu o Jubileu para impedir a concentração absoluta de riqueza (Lv 25) continua chamando a humanidade à justiça distributiva e à solidariedade.

A Igreja latino-americana desenvolveu a reflexão sobre a opção preferencial pelos pobres:

  •  Medellín denunciou as estruturas injustas que produzem miséria. 
  • Puebla reconheceu nos pobres o rosto sofredor de Cristo. 
  • Santo Domingo reafirmou a dignidade humana como fundamento da ação evangelizadora. 
  • Aparecida insistiu que os discípulos missionários devem promover vida plena para todos..

A Igreja como Mãe  vem nos falar 

  • Na Constituição Gaudium et Spes ensina que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças da Igreja,  
  • Na Evangelii Nuntiandi recorda que evangelização e promoção humana estão profundamente ligadas. 
  • Na Evangelii Gaudium denuncia uma economia da exclusão que mata. 
  • Na Fratelli Tutti convida à construção de uma fraternidade universal capaz de superar as divisões do mundo contemporâneo.

É precisamente nesse contexto que a advertência sobre a porta estreita adquire significado especial. Jesus afirma: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição” (Mt 7,13). A imagem dos dois caminhos remonta às tradições mais antigas de Israel. Moisés declara ao povo: 

  • Hoje coloco diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

O Salmo 1 apresenta o caminho dos justos e o caminho dos ímpios. Jeremias distingue entre aquele que confia em Deus e aquele que deposita sua confiança apenas em si mesmo (Jr 17,5-8). Provérbios adverte: “Há caminho que parece reto ao homem, mas seu fim conduz à morte” (Pr 14,12). Jesus retoma essa tradição para mostrar que toda existência humana implica escolhas. Não existe neutralidade diante do Reino de Deus. A porta larga representa o caminho da acomodação. É a rota da indiferença diante do sofrimento alheio. É a lógica da acumulação sem partilha. É o caminho da busca desenfreada pelo poder. É a religião utilizada como instrumento de dominação.

A porta estreita, por sua vez, representa o caminho das Bem-aventuranças. É a escolha da misericórdia em vez da vingança. É a escolha da justiça em vez da opressão. É a escolha da verdade em vez da manipulação. É a escolha da fraternidade em vez da exclusão. Essa imagem pode ser lida também à luz do Êxodo. O povo de Israel precisou abandonar o Egito para alcançar a liberdade. A travessia do deserto foi longa e difícil. O caminho da escravidão era mais confortável porque era conhecido. O caminho da liberdade exigia confiança. O mesmo acontece com o discípulo de Jesus. A porta estreita é uma travessia permanente. Significa abandonar os velhos mecanismos de egoísmo e abrir-se à novidade do Reino..No mundo contemporâneo, a porta larga assume múltiplas formas. Ela aparece na idolatria do mercado,  na cultura da indiferença, manifesta-se no racismo, na xenofobia, no machismo, no desprezo pelos pobres e na banalização da violência. Aparece também quando a religião é instrumentalizada para sustentar projetos de poder. 

  •  Isaías condenou governantes que criavam leis injustas (Is 10,1-2). 
  • Jeremias denunciou aqueles que transformavam a religião em cobertura para a opressão (Jr 7,1-15). 
  • Ezequiel criticou pastores que cuidavam de si mesmos e abandonavam o rebanho (Ez 34,1-16).

Jesus segue essa mesma tradição profética. Em Mateus 23, ele dirige suas palavras mais severas aos líderes religiosos que utilizavam a fé para obter prestígio e poder. Não critica a religião em si, mas sua deformação. Por isso, qualquer forma de teologia que transforme Deus em instrumento de enriquecimento contradiz o Evangelho. A teologia da prosperidade entra em conflito direto com as Bem-aventuranças, com a vida de Jesus e com a tradição profética. Da mesma forma, toda tentativa de identificar o Reino de Deus com projetos nacionalistas, autoritários ou ideológicos esvazia a radicalidade do Evangelho. Quando a fé deixa de servir aos pobres para servir aos poderosos, ela perde sua dimensão profética. Quando a religião se torna mecanismo de controle social, abandona o caminho de Jesus. Quando líderes religiosos se colocam acima do povo, surge aquilo que o magistério contemporâneo chama de clericalismo. Jesus propõe outra lógica. “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10,44). No lava-pés (Jo 13,1-15), o Mestre transforma o serviço em critério de autoridade. Em Filipenses 2,5-11, Paulo apresenta Cristo que se esvazia de si mesmo e assume a condição de servo. A verdadeira grandeza não consiste em dominar, mas em servir.

A porta estreita conduz inevitavelmente ao mistério da cruz. “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A cruz não significa busca do sofrimento. Significa fidelidade ao amor em um mundo frequentemente estruturado pelo egoísmo. 

  • É o caminho dos profetas.
  •  É o caminho dos apóstolos. 
  • É o caminho dos mártires. 
Mas a cruz não é o destino final. O caminho estreito desemboca na ressurreição, o Deus que libertou Israel da escravidão, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e que sustenta a esperança dos pobres continua conduzindo a história. Isaías contempla novos céus e nova terra (Is 65,17-25),  Paulo afirma que toda a criação geme aguardando sua libertação (Rm 8,18-25) e o Apocalipse anuncia o dia em que Deus enxugará toda lágrima dos olhos humanos e não haverá mais morte, luto ou dor (Ap 21,1-5). É para essa esperança que aponta a porta estreita, 

  • Ela não conduz ao isolamento, mas à comunhão. 
  • Não conduz à opressão, mas à liberdade. 
  • Não conduz ao medo, mas à confiança. 
  • Não conduz à morte, mas  à vida.

Mateus 7,6.12-14 revela, portanto, uma síntese admirável de toda a mensagem bíblica. O discernimento diante do sagrado, a prática concreta do amor ao próximo e a escolha do caminho do Reino constituem o coração da existência cristã. Na atualidade  marcada pela desigualdade, pela manipulação religiosa, pela violência e pela crise de sentido, essas palavras continuam ecoando com extraordinária atualidade. Elas chamam cada discípulo a escolher a vida, a justiça e a misericórdia; a rejeitar a idolatria do poder e a assumir a lógica do serviço; a abandonar a indiferença e a tornar-se sinal do Reino de Deus no meio da história. É esse o caminho percorrido por Jesus de Nazaré,. é esse o caminho proposto à Igreja e é esse o caminho que continua aberto diante de toda pessoa que deseja transformar o mundo à luz do Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Mensagens ao Povo Brasileiro - 2026

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulga em todo ano   eleitoral  sua mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições. Trata-se de um texto que não apoia candidatos nem partidos, mas recorda valores fundamentais para a convivência democrática: a defesa da vida, da dignidade humana, da justiça social, da verdade e do bem comum. Em um tempo marcado pela polarização, pela disseminação de notícias falsas, pelo abuso do poder econômico e pela transformação dos adversários em inimigos, a mensagem dos bispos nos convida ao discernimento, à responsabilidade cidadã e ao compromisso com a democracia. Como cristão, eleitor e cidadão de um país democrático, considero este documento uma importante contribuição para o debate público. Ele nos recorda que a fé não pode ser usada para justificar o ódio, a violência ou o desprezo pelas instituições democráticas. Pelo contrário, o Evangelho nos chama a construir pontes, promover o diálogo e cultivar a fraternidade. Por isso, recomendamos  a leitura atenta desta mensagem e convido você a manifestar seu apoio aos princípios nela defendidos: respeito à democracia, combate à corrupção, compromisso com a verdade, justiça social e promoção da paz.

"Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" (Dt 30,19).

DNonato – Teólogo do Cotidiano, cri⁶stão leigo e cidadão comprometido com a democracia, a justiça social e a dignidade humana.

Segue  a mensagem: 

MENSAGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO BRASILEIRO POR OCASIÃO DAS ELEIÇÕES DE 2026

  • "Examinai tudo e guardai o que for bom" (1Ts 5, 21).

Ao aproximar-se mais uma eleição nacional, nós, membros do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dirigimo-nos ao povo brasileiro. A Igreja Católica não indica candidatos nem partidos. Movida pelo Evangelho e pela missão de anunciá-Lo, promove a vida, a dignidade humana e serve à construção do bem comum. Ela parte da fé em Jesus Cristo e da convicção, reafirmada pela Doutrina Social da Igreja, de que a política, quando orientada pela ética, constitui uma das mais elevadas formas de caridade.

As eleições são oportunidades privilegiadas para o exercício da cidadania e da corresponsabilidade social. Mais do que escolher governantes e representantes, somos chamados a renovar nosso compromisso com os valores que sustentam a convivência democrática, a justiça social e a fraternidade.

À luz do Evangelho, não podemos silenciar diante da escandalosa desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news). Não é possível aceitar o abuso do poder econômico e político e as formas de violência que ameaçam a convivência social, enfraquecendo a confiança nas instituições democráticas. Não existe democracia sólida quando a divergência legítima é transformada em hostilidade permanente, pois o adversário político não pode ser tratado como inimigo.

A democracia, além de eleições periódicas, requer respeito às instituições da República, especialmente à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito, à interdependência dos Poderes, à liberdade de expressão responsável e à participação cidadã. Exige também confiança nos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular, respeito aos resultados das urnas e à Lei da Ficha Limpa.

Convidamos cada eleitor e eleitora a assumir sua responsabilidade. A abstenção não é a melhor escolha. O discernimento cristão exige olhar não apenas para promessas de campanha, mas, principalmente, para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos. O Brasil necessita reforçar a capacidade de construir pontes, promover encontros e cultivar a amizade social.

A esperança cristã não é ingenuidade nem otimismo superficial. Esperar significa participar, construir, dialogar, resistir ao desânimo, defender a verdade, proteger a democracia e trabalhar pela justiça. Convidamos todos os homens e mulheres de boa vontade a serem testemunhas da cultura do encontro, promotores da paz social e construtores da fraternidade.

Confiamos nosso país à proteção de Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do povo brasileiro. Que Ela nos ajude a percorrer caminhos de justiça, verdade e paz.

Que Deus abençoe o Brasil e ilumine cada eleitor e eleitora.

Brasília - DF, 17 de junho de 2026

Pelo Conselho Permanente da CNBB:

Dom Jaime Cardeal Spengler   
Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre - RS
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia - GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife - PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília - DF
Secretário-Geral da CNBB.

domingo, 21 de junho de 2026

Liberdade Religiosa sob vigilância?

  • Quando bispos são monitorados por exercer seu munus profético, não é apenas a Igreja que está sob vigilância: é a própria democracia que entra na mira do poder.
Nos deparamos, nos últimos dias, com uma notícia que causa profunda inquietação a todos os que valorizam a democracia, a liberdade religiosa e os direitos fundamentais. As investigações da Polícia Federal sobre a chamada "Abin Paralela" apontam que bispos da Igreja Católica que se manifestaram publicamente durante a pandemia em 2020 teriam sido alvo de monitoramento por estruturas ligadas ao aparato de inteligência do Estado. Independentemente das convicções políticas de cada cidadão, trata-se de uma revelação que exige reflexão séria e responsável. Quando líderes religiosos podem ser vigiados em razão de opiniões legítimas expressas no espaço público, não está em jogo apenas a situação de um grupo específico, mas a própria saúde das instituições democráticas e das garantias constitucionais que protegem todos os brasileiros. 
As investigações conduzidas pela Polícia Federal no caso conhecido como “Abin Paralela” revelam um dos episódios mais preocupantes para a democracia brasileira desde a promulgação da Constituição de 1988. Segundo os elementos reunidos pela investigação, estruturas de inteligência do Estado teriam sido utilizadas para monitorar cidadãos e instituições que exerciam o direito legítimo de crítica, incluindo bispos da Igreja Católica que se manifestaram publicamente sobre a condução do país durante a pandemia. Entre os alvos estariam signatários da carta “Ao Povo de Deus”, divulgada em julho de 2020, documento no qual diversos bispos expressaram preocupações com a crise sanitária, a defesa da vida, o enfraquecimento de políticas públicas e os riscos às instituições democráticas. Em vez de responder às críticas por meio do debate público, surgem indícios de que setores do aparato estatal tenham buscado acompanhar, catalogar e monitorar aqueles que ousavam discordar.
As investigações mencionam, entre outros nomes, Alexandre Ramagem, então diretor da ABIN; Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI; Carlos Bolsonaro; e o então presidente Jair Bolsonaro, todos citados no contexto das apurações conduzidas pela Polícia Federal. Cabe ressaltar que a responsabilização definitiva depende do devido processo legal e das decisões do Poder Judiciário. Ainda assim, os fatos investigados levantam uma questão grave: como um governo que se apresentava como defensor da liberdade religiosa e da liberdade de expressão pode ser associado a práticas de monitoramento contra líderes religiosos que exerciam exatamente essas liberdades?
A contradição é evidente. Durante anos, o discurso oficial afirmou defender a fé, a liberdade e os valores cristãos. Contudo, quando parte significativa do episcopado católico manifestou posições divergentes, especialmente em defesa da vida, da justiça social e da democracia, essas vozes passaram a ser vistas não como interlocutoras legítimas, mas como obstáculos políticos. Em uma democracia, a crítica não é ameaça; é um direito. Tratar o dissenso como objeto de vigilância representa uma inversão perigosa dos princípios republicanos.
O episódio também expõe uma questão delicada na relação entre poder político e religião. O governo Bolsonaro construiu uma aliança pública e estratégica com importantes segmentos do campo evangélico conservador, frequentemente apresentando-se como representante privilegiado dos interesses cristãos no espaço público. Entretanto, quando lideranças católicas expressaram posições diferentes, surgem indícios de que tenham sido tratadas com suspeita e submetidas ao escrutínio de estruturas estatais. Se confirmadas pelas instâncias judiciais competentes, tais práticas configurariam não apenas abuso institucional, mas uma afronta ao princípio da neutralidade religiosa do Estado.
O Estado brasileiro é laico. Isso significa que ele não pode privilegiar uma tradição religiosa em detrimento de outra, nem utilizar sua máquina administrativa para favorecer aliados religiosos ou constranger grupos que expressem posições divergentes. A laicidade é uma garantia para todos: católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, adeptos das religiões de matriz africana, agnósticos e ateus. Quando o Estado abandona essa neutralidade, a liberdade religiosa começa a ser substituída pela lógica da proximidade com o poder. A Constituição Federal protege a liberdade de consciência, de crença, de expressão e de participação na vida pública. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos reforçam essas garantias e repudiam mecanismos de vigilância arbitrária voltados contra cidadãos em razão de suas convicções ou manifestações legítimas. Não se trata de uma questão ideológica, mas de respeito às bases jurídicas que sustentam qualquer sociedade democrática.
O monitoramento de lideranças religiosas não afeta apenas indivíduos específicos. Ele produz um efeito de intimidação coletiva sobre comunidades inteiras. Quando bispos, pastores, rabinos, líderes espíritas, dirigentes de religiões de matriz africana ou representantes de qualquer tradição de fé percebem que suas manifestações públicas podem atrair vigilância estatal, instala-se um ambiente de autocensura incompatível com a democracia. A liberdade religiosa não se resume ao direito de culto. Ela inclui o direito de participar do debate público, formular críticas, defender valores éticos e contribuir para a construção do bem comum sem receio de represálias por parte do Estado.
O aspecto mais preocupante deste episódio é que ele atinge uma instituição que historicamente exerceu papel relevante na defesa da democracia brasileira. Durante a ditadura militar, inúmeros membros da Igreja Católica denunciaram violações de direitos humanos, acolheram perseguidos políticos e defenderam as liberdades civis quando estas estavam ameaçadas. Figuras como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga tornaram-se símbolos da resistência democrática. A eventual vigilância de bispos por suas posições públicas atinge não apenas indivíduos, mas uma tradição histórica de compromisso com os direitos humanos e a cidadania. Além disso, o caso revela um problema institucional ainda mais profundo: a confusão entre governo e Estado. Em uma República, os órgãos de inteligência pertencem ao Estado brasileiro e não ao governante de turno. Sua finalidade é proteger a ordem constitucional dentro dos limites da lei. Quando esses instrumentos passam a ser utilizados para monitorar críticos, adversários ou setores da sociedade civil, ocorre um desvio de finalidade incompatível com os princípios republicanos. O aparelho estatal deixa de servir ao interesse público para servir à lógica da preservação do poder.
Chama atenção a contradição entre o discurso de defesa da pátria e a utilização de estruturas públicas para monitorar cidadãos brasileiros. O verdadeiro patriotismo não consiste em exigir adesão ao governo, mas em proteger as instituições que garantem os direitos da população. Quando o aparato estatal é direcionado contra vozes críticas, o que se enfraquece não é a oposição, mas a própria República. Nenhum governo se confunde com a nação, e nenhum governante pode reivindicar para si o monopólio do interesse nacional.
Há também uma dimensão sociológica que merece atenção. O monitoramento de bispos ocorreu em um contexto marcado pela polarização política e por tentativas de identificar a fé cristã com um único projeto ideológico. Essa estratégia produziu uma divisão artificial dentro do próprio universo religioso, classificando lideranças entre “aliadas” e “inimigas” conforme seu alinhamento político. Trata-se de uma dinâmica perigosa, porque transforma a religião em instrumento de disputa partidária e enfraquece sua autonomia moral. Nenhuma tradição religiosa deve ser reduzida à condição de braço político de qualquer governo.
O caso suscita ainda preocupações sobre a captura ideológica de instituições públicas. Em democracias constitucionais, órgãos de Estado devem atuar segundo critérios técnicos, legais e impessoais. Quando passam a operar orientados por interesses políticos ou ideológicos, ocorre uma deformação institucional que compromete sua credibilidade e sua legitimidade perante a sociedade. A inteligência estatal existe para proteger a ordem democrática, e não para vigiar aqueles que exercem direitos garantidos pela própria democracia. O episódio também suscita uma reflexão sobre a saúde das instituições democráticas. Democracias sólidas convivem com críticas, protestos e divergências. Governos comprometidos com os valores republicanos respondem ao contraditório por meio do diálogo, da transparência e da prestação de contas. Governos inclinados ao autoritarismo tendem a enxergar opositores em toda parte e a recorrer à vigilância, à intimidação ou à deslegitimação de seus críticos. A história demonstra que processos de erosão democrática frequentemente começam não pela suspensão formal das liberdades, mas pela criação de mecanismos informais de controle e monitoramento.
A história brasileira ensina que a vigilância de lideranças religiosas, intelectuais, sindicais, comunitárias e acadêmicas esteve frequentemente associada a períodos de restrição das liberdades. Embora contextos históricos não sejam idênticos, a memória nacional recomenda cautela diante de qualquer tentativa de utilização do Estado para monitorar cidadãos em razão de suas convicções ou posicionamentos públicos. Democracias não se fortalecem ampliando mecanismos de vigilância sobre o dissenso; fortalecem-se protegendo-o.
A experiência internacional oferece inúmeros exemplos de como a instrumentalização de órgãos de inteligência para fins políticos compromete a democracia. Em diferentes países, práticas semelhantes foram associadas à concentração de poder, à perseguição de opositores e ao enfraquecimento dos mecanismos de controle institucional. Por essa razão, a utilização de estruturas estatais para vigiar cidadãos em razão de suas opiniões políticas, religiosas ou sociais não pode ser relativizada nem normalizada. Mais do que uma controvérsia política, este caso representa um alerta institucional. Se líderes religiosos podem ser monitorados por exercerem seu direito de crítica, qualquer cidadão pode se tornar alvo da mesma lógica. Quando órgãos de inteligência deixam de proteger a sociedade para acompanhar aqueles que discordam do poder, a democracia perde uma de suas barreiras mais importantes contra o autoritarismo.
O verdadeiro compromisso com a liberdade não se demonstra por slogans, discursos ou manifestações públicas de religiosidade. Ele se comprova no respeito concreto ao pluralismo, à liberdade de consciência e ao direito de discordar. Uma democracia forte não teme bispos, jornalistas, professores, pesquisadores, artistas, movimentos sociais ou cidadãos críticos. Ao contrário, reconhece nessas vozes a expressão legítima da diversidade que sustenta a vida republicana. As revelações da Polícia Federal não dizem respeito apenas a bispos, nem apenas à Igreja Católica, nem apenas ao governo investigado. O que está em discussão é um princípio fundamental da convivência democrática: o direito de discordar sem ser vigiado pelo Estado. Quando a crítica religiosa, acadêmica, jornalística ou política passa a ser tratada como suspeita, abre-se caminho para a normalização de práticas incompatíveis com a ordem constitucional.
Se as investigações da Polícia Federal confirmarem integralmente os indícios apresentados, o país estará diante de uma das maiores contradições do ciclo político inaugurado pelo bolsonarismo: um movimento que se apresentou como defensor da liberdade, da fé e dos valores democráticos, mas que teria recorrido a mecanismos de vigilância estatal contra cidadãos que exerciam exatamente essas liberdades. A democracia não é medida pelo apoio que recebe dos aliados do governo, mas pela proteção que oferece aos seus críticos. Quando bispos precisam temer a vigilância do Estado por expressarem opiniões legítimas, o problema não está nos bispos. O problema está no poder que deixa de compreender os limites que a Constituição lhe impõe. A democracia brasileira foi construída com o esforço e o sacrifício de gerações que enfrentaram censura, perseguição e autoritarismo. Permitir que mecanismos de vigilância política sejam minimizados significa enfraquecer conquistas obtidas a um custo elevado. A liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a autonomia das instituições não são favores concedidos pelos governantes; são direitos assegurados pela Constituição e pelos tratados internacionais de direitos humanos.
A pergunta que permanece é simples e inquietante: 
Se bispos puderam ser colocados sob monitoramento por exercerem sua liberdade de consciência e expressão, quem estará verdadeiramente protegido quando o poder decidir que a crítica se tornou inconveniente?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o julgamento deste caso, mas a qualidade da democracia brasileira nas próximas décadas.
DNonato -  Teólogo Cotidiano 
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sábado, 20 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 10,26-33 / 12⁰ Domingo do Tempo Comum.

 

As leituras proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no 12º Domingo do Tempo Comum do Ano A  são  as seguintes  Jeremias 20,10-13; Salmo  68(69),8-10.14.17.33-35 (R. 14c); Romanos 5,12-15 e a perícope de Mateus 10,26-33 que  constitui uma continuação indireta do Evangelho proclamado no domingo anterior Mateus 9,36-10,8 sem esquecer que ja refletimos essa passagem outras  vezes.. Esta observação é fundamental para uma leitura exegética consistente, pois Jesus não começa um novo ensinamento, mas dá continuidade ao discurso missionário iniciado quando, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor, sentiu profunda compaixão por elas (Mt 9,36). Dessa compaixão nasce o chamado dos Doze (Mt 10,1-4), o envio missionário (Mt 10,5-15), as advertências sobre perseguições e rejeições (Mt 10,16-25) e, finalmente, a exortação à coragem proclamada neste domingo. A sequência é teologicamente significativa. A compaixão conduz à missão; a missão conduz ao conflito; o conflito exige coragem; e a coragem nasce da confiança em Deus. A mesma passagem, em formas paralelas, aparece em Lucas 12,2-9 e Marcos 4,21-25 na quarta-feira da 3ª semana do Tempo Comum e  encontra ecos outros  momentos do calendário litúrgico das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas que preservam a leitura contínua dos Evangelhos. Em todas elas, este texto é reconhecido como uma das mais importantes catequeses de Jesus sobre o discipulado, a perseverança e a confiança na providência divina.

A unidade das leituras deste domingo é extraordinária. Jeremias 20,10-13, o Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33 convergem para uma mesma realidade espiritual e histórica: a experiência do justo que sofre, do discípulo que enfrenta oposição e da confiança que resiste mesmo quando as circunstâncias parecem apontar para o fracasso. 

  • A primeira leitura Jeremias 20,10-13:  apresenta um dos momentos mais dramáticos da vida de Jeremias. O profeta vive nos últimos anos do Reino de Judá, num período marcado por profundas tensões políticas, religiosas e sociais. O Império Babilônico avança sobre a região, enquanto dirigentes políticos e religiosos alimentam falsas expectativas de segurança. Jeremias, porém, anuncia uma mensagem diferente. Denuncia a corrupção, a injustiça social, a falsa religiosidade e a confiança ilusória em instituições que já haviam abandonado a fidelidade à aliança. Por isso torna-se alvo de perseguições. Em Jeremias 1,4-10, seu chamado já continha o anúncio do conflito. Deus o havia constituído para arrancar e destruir, para construir e plantar. Também lhe havia advertido: “Eles combaterão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te salvar” (Jr 1,19). Em Jeremias 20 vemos essa promessa sendo posta à prova. O profeta encontra-se cercado por acusações, calúnias e hostilidade. Seus próprios amigos esperam sua queda. A expressão “Terror por todos os lados” (Jr 20,10) revela uma atmosfera de medo e ameaça constante. Entretanto, o texto culmina numa extraordinária profissão de fé: “O Senhor está comigo como poderoso guerreiro” (Jr 20,11). Jeremias não nega a realidade do sofrimento. Sua esperança não nasce da negação do conflito, mas da certeza da presença divina.
  • O Salmo 68(69) prolonga essa experiência. Trata-se da oração de um inocente perseguido, alguém que sofre precisamente por permanecer fiel a Deus. A tradição cristã reconheceu nesse salmo uma antecipação da paixão de Cristo. Quando o salmista afirma: “O zelo por tua casa me consome” (Sl 69,10), João aplica essas palavras a Jesus na purificação do Templo (Jo 2,17). Quando diz: “Deram-me vinagre para beber” (Sl 69,22), a tradição vê uma referência à crucifixão (Mt 27,48; Jo 19,29). O refrão litúrgico, “Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor”, sintetiza uma das convicções mais profundas da espiritualidade bíblica: a esperança do fiel repousa não em sua própria força, mas na misericórdia de Deus. A palavra hebraica hesed expressa esse amor fiel, constante e irrevogável com que Deus permanece unido ao seu povo apesar de suas fragilidades.
  • A segunda leitura Romanos 5,12-15:  amplia ainda mais o horizonte ao situar a experiência humana dentro do drama universal da salvação. Paulo estabelece um contraste entre Adão e Cristo. Sua reflexão remete a Gênesis 2–3, onde a ruptura da comunhão com Deus introduz o pecado e a morte na história humana. O apóstolo não procura explicar cientificamente a origem do mal, mas interpretar teologicamente a condição humana. Sua constatação é que todos participam de uma realidade marcada pelo pecado. Essa percepção aparece em diversas passagens bíblicas, como Salmo 14,1-3, Eclesiastes 7,20 e Romanos 3,23. Contudo, Paulo não permanece no diagnóstico da queda. Sua atenção concentra-se na superabundância da graça. Se por um homem entrou o pecado, por um homem veio a redenção. Se Adão representa a humanidade ferida, Cristo inaugura uma nova criação. A mesma ideia reaparece em 1Coríntios 15,22: “Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos receberão a vida”. Essa perspectiva é essencial para compreender o Evangelho. O medo humano está profundamente ligado à consciência da fragilidade, da limitação e da mortalidade. Jesus falará justamente a homens e mulheres que conhecem essa condição.

Podemos   perceber que Jeremias, o salmista, Paulo e Jesus apontam para uma mesma direção. 

  • O justo pode ser perseguido, mas não abandonado. 
  • O pobre pode ser desprezado pelo mundo, mas jamais é esquecido por Deus. 
  • A verdade pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá escondida para sempre.
  •  O mal pode ferir profundamente a história, mas não possui força para destruir a promessa divina. 
  • A cruz não é o fim do caminho e a ressurreição revela que Deus continua agindo mesmo quando tudo parece perdido.

E quando chegamos na liturgia  em  Mateus 10,26-33, encontramos Jesus dirigindo-se aos discípulos que acabaram de ser enviados em missão. Antes desta passagem, ele já havia dito: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), “Sereis odiados por todos por causa do meu nome” (Mt 10,22) e “O discípulo não está acima do mestre” (Mt 10,24). A advertência é clara. A missão do Reino não se desenvolve num ambiente neutro. O Evangelho confronta estruturas de poder, sistemas de exclusão e formas de religiosidade que perderam sua capacidade de servir à vida. Por isso encontra resistência. É nesse contexto que Jesus repete três vezes a mesma exortação: “Não tenhais medo”. A repetição não é acidental. Na Escritura, a insistência revela importância. Desde Gênesis 3,10, quando Adão diz “tive medo”, o medo aparece como uma das marcas da condição humana ferida. A psicologia contemporânea confirma que grande parte das decisões humanas é influenciada por mecanismos de proteção diante de ameaças reais ou imaginárias. Medo da rejeição, da pobreza, da violência, do fracasso, da solidão e da morte moldam comportamentos individuais e coletivos. Jesus reconhece essa realidade, mas se recusa a permitir que ela determine a vida dos discípulos.

A primeira razão apresentada para não ter medo é a certeza de que a verdade será revelada. “Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto” (Mt 10,26). Trata-se de uma afirmação profundamente escatológica. Deus fará justiça. As mentiras que sustentam sistemas de dominação não permanecerão para sempre. A mesma esperança aparece em Daniel 12,2-3, Isaías 25,8, Lucas 8,17 e Apocalipse 21,4-5. O Reino de Deus caminha na direção da revelação da verdade. Essa palavra possui enorme atualidade numa época marcada pela manipulação da informação, pela fabricação de narrativas falsas, pela disseminação de discursos de ódio e pela instrumentalização da comunicação para proteger interesses econômicos e políticos. Muitas vezes a mentira parece triunfar. Jesus, porém, recorda que a verdade possui uma força própria porque está enraizada no próprio Deus.

A segunda razão para não ter medo encontra-se na imagem dos pardais. “Não se vendem dois pardais por algumas moedas?” (Mt 10,29). No mundo mediterrâneo do século I, os pardais estavam entre as aves mais baratas comercializadas nos mercados populares. Representavam aquilo que era considerado insignificante. Jesus escolhe deliberadamente essa imagem para revelar algo fundamental sobre Deus. Nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba. A mesma visão aparece em Jó 38–39, no Salmo 104, em Mateus 6,26 e em Lucas 12,6. O Deus revelado por Jesus não governa apenas os grandes acontecimentos da história. Ele conhece também aquilo que parece pequeno, invisível e irrelevante aos olhos humanos. Trata-se de uma crítica radical aos critérios de importância estabelecidos pelos impérios. Enquanto os sistemas de poder valorizam riqueza, prestígio e influência, Deus volta seu olhar para os pobres, os esquecidos e os marginalizados. É a mesma lógica presente em Êxodo 3,7-8, quando Deus escuta o clamor dos escravos no Egito; em 1Samuel 16,11-13, quando escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé; e no Magnificat de Maria, quando proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53).

A terceira razão para não ter medo é expressa numa das imagens mais belas do Evangelho: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (Mt 10,30). Evidentemente, não se trata de uma descrição matemática da ação divina, mas de uma linguagem simbólica destinada a expressar a profundidade do cuidado de Deus. A mesma convicção aparece no Salmo 139, em Isaías 49,15-16 e em Jeremias 1,5. Deus conhece cada pessoa em sua singularidade. Numa sociedade que frequentemente reduz seres humanos a números, estatísticas ou instrumentos econômicos, o Evangelho proclama a dignidade infinita de cada vida.

O ponto culminante da passagem encontra-se nos versículos finais: “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante de meu Pai” (Mt 10,32). No contexto das primeiras comunidades cristãs, essa afirmação possuía enorme peso. Confessar Jesus não era apenas uma profissão verbal de fé. Podia significar exclusão social, perseguição religiosa, perda de privilégios e até mesmo martírio. O mesmo ensinamento aparece em Marcos 8,38, Lucas 12,8-9, João 15,18-21 e Apocalipse 3,5. Contudo, é importante compreender o significado bíblico dessa confissão. Em Mateus, confessar Jesus não consiste simplesmente em repetir fórmulas religiosas. Significa praticar a vontade do Pai (Mt 7,21), buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33), acolher os pequenos (Mt 25,31-46), amar os inimigos (Mt 5,44) e carregar a própria cruz (Mt 16,24)..Essa compreensão conduz inevitavelmente à dimensão profética do Evangelho. Jeremias enfrentou falsos profetas que anunciavam paz quando não havia paz (Jr 6,14). Amós denunciou um culto que ignorava a justiça social (Am 5,21-24). Isaías rejeitou práticas religiosas desvinculadas da defesa dos pobres (Is 58,1-12). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar a religião para fins de dominação política, econômica ou ideológica contradiz a lógica do Reino. Sempre que a fé é utilizada para legitimar desigualdades, exclusões ou projetos autoritários, afasta-se do Evangelho. A crítica profética da Escritura dirige-se contra toda forma de idolatria do poder. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com nacionalismos religiosos, nem com projetos de supremacia cultural, nem com ideologias que transformam adversários em inimigos absolutos. A lógica do Evangelho é a lógica do serviço, da misericórdia e da justiça.

Jesus desafia frontalmente hoje  as versões da fé que reduzem o cristianismo a promessas de prosperidade material. O Cristo de Mateus 10 não promete riqueza, sucesso econômico ou imunidade ao sofrimento. Promete presença divina em meio às perseguições. Promete fidelidade em meio às provações. Promete que a última palavra pertence à vida e não à morte. Também o clericalismo aparece como uma deformação da missão cristã. Jesus ensinou que o maior deve ser servo de todos (Mt 20,26-28; Mt 23,11). O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que a Igreja existe para servir à humanidade e testemunhar o Reino. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem na opção preferencial pelos pobres, na defesa da dignidade humana e no compromisso com a justiça social..Tudo isso possui profunda relevância para o mundo contemporâneo. Vivemos numa realidade marcada por desigualdades extremas, exclusão social, violência estrutural, crises ambientais, manipulação religiosa e crescente perda de sentido existencial. O medo tornou-se uma ferramenta poderosa de controle social. Medo do diferente, medo do estrangeiro, medo do pobre, medo da mudança, medo do futuro. Jesus propõe outro caminho. O discípulo não é chamado a viver movido pelo medo, mas pela confiança. Não é chamado a reproduzir discursos de exclusão, mas a construir fraternidade. Não é chamado a defender privilégios, mas a servir. Não é chamado a buscar poder, mas a testemunhar o Reino.

Ao  contemplarmos  as leituras  de hoje percebemos uma extraordinária unidade teológica: 

  1. Jeremias é perseguido, mas permanece fiel. 
  2. O salmista sofre, mas continua esperando na misericórdia divina. 
  3. Paulo proclama que a graça de Cristo é maior do que o pecado que marca a humanidade.
  4.  Jesus envia seus discípulos para um mundo hostil, mas garante que o Pai conhece até os cabelos de suas cabeças. 

A Palavra de Deus não oferece uma espiritualidade de fuga nem promete uma existência sem conflitos. Ela convida a olhar a realidade com lucidez. O mal existe. A injustiça existe. A perseguição existe. A violência existe. O medo existe. Mas existe também o Deus: 

  •  Que Chamou Abraão para caminhar pela fé (Gn 12,1-4)
  • Que acompanhou José no Egito (Gn 39,21)
  • Que ouviu o clamor dos escravos (Ex 3,7-10)
  •  Que sustentou Jeremias em sua solidão (Jr 1,19) e fortaleceu Jeremias em meio às perseguições (Jr 20,11)
  • Que sustentou Elias no deserto (1Rs 19,1-18)
  • Que caminhou com os exilados na Babilônia (Is 43,1-5)
  • Que fortaleceu os mártires de Israel (Dn 3; 2Mc 7)
  •  Que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Mt 28,1-10) 
  • Que derramou o Espírito Santo sobre a Igreja (At 2,1-11).
  • Que continua presente na história humana, mesmo quando sua presença parece obscurecida pelas sombras do sofrimento, da injustiça e da violência.

Por isso, a última palavra do Evangelho não é o medo, mas a esperança; não é a derrota, mas a confiança; não é a morte, mas a vida. Esta é a grande proclamação que atravessa toda a Escritura, desde o clamor dos escravos no Egito até a visão da Nova Jerusalém no Apocalipse. O Deus que ouviu o grito de seu povo (Ex 3,7), 

A mensagem de Jesus em Mateus 10,26-33 não é um convite à imprudência nem uma negação da dor. É um chamado a viver a partir de uma confiança mais profunda que o medo. O discípulo não é alguém que ignora os perigos da realidade, mas alguém que sabe que nenhuma força da história, nenhum império, nenhuma ideologia, nenhum sistema de opressão e nem mesmo a morte possuem a palavra definitiva sobre a existência humana. Como proclamará Paulo mais tarde: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E ainda: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem quaisquer outras criaturas poderão separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus” (Rm 8,38-39). Num mundo marcado pela desigualdade, pela exclusão, pelas guerras, pela cultura do descarte, pela manipulação das consciências e pela instrumentalização da religião em favor de projetos de poder, o Evangelho continua convocando homens e mulheres a não terem medo de viver a verdade, de praticar a justiça e de permanecer ao lado dos crucificados da história. Não ter medo significa recusar a lógica da indiferença. Significa não se conformar diante da pobreza que humilha, da violência que mata, do racismo que exclui, da corrupção que destrói o bem comum, das estruturas econômicas que produzem multidões descartáveis e das formas religiosas que transformam Deus em instrumento de dominação. A coragem cristã nasce quando o amor se torna maior que o medo.

É precisamente por isso que os mártires da Igreja não foram pessoas apaixonadas pelo sofrimento, mas testemunhas de uma esperança maior que a ameaça. Foi essa esperança que sustentou os apóstolos diante das perseguições, os primeiros cristãos diante dos imperadores, os missionários diante dos perigos da evangelização, os santos diante das incompreensões de seu tempo e tantos homens e mulheres anônimos que, ao longo da história, permaneceram fiéis ao Evangelho em contextos de opressão e injustiça. Todos eles compreenderam que o Reino de Deus vale mais do que qualquer segurança construída à custa da verdade.. 

Assim, a Palavra de Deus convida cada discípulo a renovar sua confiança no Senhor e a assumir com coragem sua vocação profética no mundo. Somos chamados a anunciar o que ouvimos ao pé do ouvido sobre os telhados (Mt 10,27), a testemunhar a misericórdia em tempos de ódio, a proclamar a verdade em tempos de mentira, a defender a dignidade humana em tempos de exclusão e a manter viva a esperança em tempos de desesperança. Porque o Reino de Deus já está presente como semente na história e caminha silenciosamente para sua plenitude..

No final, permanecerá apenas aquilo que foi construído no amor. Os impérios passarão. As ideologias passarão. As riquezas passarão. Os poderes deste mundo passarão. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (Is 40,8; 1Pd 1,25). E aqueles que colocaram sua confiança em Deus descobrirão que jamais caminharam sozinhos. O Pai que conhece cada pardal do céu e conta os cabelos de cada um de seus filhos continua conduzindo a história para a plenitude do Reino. Por isso, mesmo em meio às tempestades do presente, a Igreja continua anunciando com esperança inabalável: não tenhais medo. O Senhor está conosco. E onde Deus está presente, a vida sempre será mais forte que a morte, a misericórdia mais forte que o pecado, a verdade mais forte que a mentira e o amor mais forte que todo medo.

DNonato -Teólogo do Cotidiano