domingo, 25 de outubro de 2026

UMA ELEIÇÃO NÃO É UMA DISPUTA DE CAMPEONATO


Há silêncios que guardam lembranças, escolhas que deixam marcas e acontecimentos que somente revelam seu verdadeiro significado quando o tempo já percorreu o caminho que muitos se recusaram a enxergar. Na política, assim como na vida, nem tudo se resolve no instante em que as urnas anunciam um resultado. Algumas coisas permanecem na memória, outras amadurecem na consciência, e há palavras que, mesmo quando não são pronunciadas, continuam presentes porque foram transformadas em experiências impossíveis de apagar.  Durante uma eleição, muitos acreditam que tudo se resume à vitória de um candidato e à derrota de outro. Como se o destino de uma nação pudesse ser comparado ao resultado de uma partida, na qual uma torcida comemora, a outra se entristece e, no dia seguinte, todos simplesmente seguem adiante. Entretanto, uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de levantar uma taça, humilhar adversários ou provar que determinado grupo possui superioridade sobre os demais. Trata-se de decidir caminhos, confrontar projetos de sociedade e escolher, dentro dos limites da democracia, quais prioridades deverão orientar a vida coletiva. Por trás de cada voto existem histórias, necessidades, convicções, medos, esperanças e experiências que não podem ser reduzidas a uma simples contagem de números.

É justamente por compreender essa dimensão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, para aqueles que depositaram nele suas esperanças, pode adquirir um significado que ultrapassa a satisfação eleitoral. Para muitos, ela representa a possibilidade de reencontrar sonhos que pareciam esquecidos, recuperar a confiança na participação popular e acreditar novamente que a origem social de uma pessoa não precisa determinar os limites de seu futuro. Não significa imaginar que um governo seja capaz de resolver todos os problemas de um país, mas reconhecer que as decisões políticas podem ampliar ou restringir as oportunidades de milhões de brasileiros. Essa emoção, porém, não nasce apenas das expectativas depositadas em um candidato. Em determinadas circunstâncias, ela também nasce das feridas provocadas pelo caminho percorrido até a eleição. Há pessoas que chegam ao momento da votação carregando muito mais do que suas preferências políticas. Levam consigo as lembranças das conversas interrompidas, das amizades abaladas, dos julgamentos precipitados e das ofensas recebidas simplesmente porque decidiram pensar de maneira diferente. Algumas foram chamadas de ignorantes; outras, de inimigas, traidoras ou responsáveis por todos os males do país. Em muitos casos, a divergência deixou de ser uma oportunidade de diálogo e se transformou em pretexto para a agressão. Foi assim que, para alguns eleitores, o segundo turno adquiriu um significado particular. Não bastava escolher entre dois projetos políticos: era necessário também suportar o peso de ser desrespeitado por causa da própria escolha. Os insultos recebidos não desapareceram quando as conversas terminaram, nem perderam sua importância porque a votação chegou ao fim. Permaneceram como lembranças de um período em que pessoas que deveriam ter encontrado espaço para conversar acabaram tratando umas às outras como adversárias irreconciliáveis.

Diante disso, a alegria de uma vitória pode trazer sentimentos difíceis de explicar. Não se trata necessariamente de desejar a derrota pessoal de quem pensa diferente, tampouco de alimentar o desejo de revanche contra aqueles que ofenderam. Trata-se de perceber que, apesar das pressões, das acusações e das tentativas de desqualificação, algumas pessoas permaneceram fiéis à própria consciência. Continuaram acreditando no direito de escolher, de argumentar e de defender uma visão de país sem precisar pedir autorização aos que imaginavam possuir o monopólio da verdade. Há uma diferença profunda entre comemorar um resultado e desejar a humilhação de alguém. A primeira atitude pode expressar alívio, esperança e reconhecimento de uma escolha democrática; a segunda apenas prolonga o ciclo de hostilidade que tanto prejudica a convivência social. Quem sofreu ofensas tem o direito de reconhecer a dor que experimentou, sem precisar fingir que nada aconteceu. Mas também pode escolher não transformar essa dor em instrumento de vingança. A dignidade não exige que se esqueçam as agressões; exige que não se permita que elas determinem para sempre a maneira de olhar o mundo.

Por isso, o silêncio de quem atravessou esse processo não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza, desconhecimento ou indiferença. Às vezes, o silêncio representa apenas a decisão de não transformar cada divergência em uma batalha. Em outras ocasiões, significa que certas experiências precisam de distância para serem compreendidas. O tempo revela contradições, desfaz certezas precipitadas e mostra que a realidade raramente se acomoda perfeitamente às expectativas de quem acredita conhecer antecipadamente todos os desfechos. Entretanto, esse silêncio não precisa carregar ameaças veladas nem anunciar uma futura cobrança pessoal. Sua força pode estar em algo mais profundo: a consciência de que cada pessoa responde pelas escolhas que faz e pelas atitudes que assume diante dos outros. Quando o debate político se transforma em agressão, não é apenas o adversário que sofre. A própria democracia perde qualidade, os vínculos comunitários se enfraquecem e a sociedade se acostuma perigosamente à ideia de que humilhar alguém é aceitável quando se acredita estar defendendo uma causa.

O Brasil precisa superar essa lógica. Nenhuma família, partido, liderança ou corrente ideológica pode reivindicar para si a propriedade da nação. O país pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles cujas opiniões divergem, cujas histórias são diferentes e cujas experiências sociais os conduzem a interpretações distintas da realidade. A convivência democrática não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que ninguém seja privado de respeito, direitos e dignidade por pensar de maneira diferente. Ao mesmo tempo, respeitar a pluralidade não significa abandonar a avaliação crítica dos projetos políticos. A democracia não se fortalece quando os cidadãos deixam de questionar seus representantes, mas quando aprendem a fazê-lo com responsabilidade, argumentos e disposição para confrontar os fatos. Nenhum governante deve ser colocado acima da fiscalização pública. Nenhum partido pode transformar sua história em licença para cometer erros. Nenhuma liderança merece obediência cega. O voto abre uma etapa da vida democrática, mas não encerra a responsabilidade de quem escolheu.

É nesse ponto que a esperança precisa encontrar a realidade concreta dos brasileiros. Para aqueles que veem na trajetória de Lula um símbolo de mobilidade social e participação popular, sua vitória pode recordar um período em que muitos passaram a enxergar possibilidades antes distantes. A ampliação do acesso ao ensino superior, os programas sociais, as políticas de transferência de renda e as iniciativas voltadas à habitação e à alimentação ocupam um lugar importante na memória de parte da população. Essas experiências, com seus resultados, limites e controvérsias, fazem parte do debate sobre o país que se deseja construir. Reconhecer esse significado não exige transformar um presidente em herói infalível. A história política brasileira é complexa, e qualquer avaliação responsável precisa considerar realizações, contradições, decisões equivocadas e responsabilidades institucionais. A esperança democrática não deve ser confundida com devoção pessoal. Pelo contrário, quanto maior a expectativa depositada em um governo, maior deve ser a disposição de acompanhar suas ações, exigir transparência e cobrar resultados. A lealdade a um projeto de sociedade não pode significar submissão a um governante.

O que importa, acima das narrativas partidárias, é saber se as políticas públicas conseguem melhorar a vida das pessoas. É saber se os trabalhadores podem viver com dignidade, se as famílias encontram condições para colocar comida na mesa, se os jovens conseguem estudar e construir seu futuro, se os idosos recebem o cuidado necessário e se os serviços de saúde alcançam aqueles que mais precisam. É perguntar se a riqueza produzida pelo país se converte em oportunidades reais ou se continua concentrada de maneira que aprofunda distâncias sociais. Por trás dessas perguntas existem rostos que raramente ocupam o centro das grandes celebrações políticas. Existem mães que calculam cada despesa antes de chegar ao caixa do mercado, trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada e retornam quando os filhos já estão dormindo, famílias que enfrentam o preço dos medicamentos e jovens que precisam escolher entre continuar estudando e procurar trabalho para ajudar nas despesas domésticas. Existem pessoas que não desejam privilégios, mas condições mínimas para viver sem a angústia permanente de não saber como chegarão ao fim do mês. Para essas pessoas, a política não é uma abstração discutida apenas em palanques, redes sociais ou programas de televisão. Ela se manifesta no preço dos alimentos, no acesso ao transporte, na qualidade da escola pública, na disponibilidade de atendimento médico, na possibilidade de conseguir emprego e na segurança de ter um teto. As decisões tomadas nos espaços de poder atravessam a vida cotidiana, ainda que muitos daqueles que as discutem jamais tenham experimentado as dificuldades enfrentadas por quem depende diretamente dos serviços públicos.

É por isso que a verdadeira medida de um país não pode ser encontrada apenas nos indicadores econômicos ou nas declarações de seus dirigentes. Ela também se encontra na maneira como a sociedade trata aqueles que possuem menos recursos para defender seus interesses. Um país pode apresentar riqueza e, ainda assim, conviver com a miséria de milhões. Pode celebrar grandes conquistas e continuar indiferente às pessoas que permanecem à margem. O desenvolvimento só adquire sentido humano quando a prosperidade deixa de ser privilégio de poucos e passa a criar condições concretas para uma vida digna. Essa compreensão também encontra raízes profundas na experiência religiosa. Quando Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), ele não oferece apenas uma orientação para a vida íntima ou uma fórmula para discursos piedosos. No contexto de Mateus 22,34-40, o amor ao próximo aparece inseparavelmente ligado ao amor a Deus, resumindo, com o mandamento de amar a Deus, o coração da Lei e dos Profetas. A fé, portanto, não pode ser reduzida a palavras pronunciadas em cerimônias enquanto a realidade do sofrimento humano permanece ignorada.

O Evangelho não autoriza que a religião seja utilizada para justificar a indiferença, alimentar o desprezo pelos pobres ou transformar diferenças políticas em condenações morais automáticas. Ao contrário, desafia os que professam a fé a examinar suas próprias atitudes. Em Mateus 25,31-46, Jesus associa o encontro com ele à maneira como são tratados os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os encarcerados. Em Lucas 10,25-37, a parábola do bom samaritano desloca a discussão religiosa para o terreno da responsabilidade concreta: diante de alguém ferido, não basta conhecer os mandamentos; é preciso aproximar-se, cuidar e agir e essa mensagem não pertence a um partido, nem pode ser monopolizada por qualquer grupo ideológico. Ela exige que todos, independentemente de suas preferências políticas, confrontem suas convicções com a dignidade humana. Entretanto, quando a linguagem religiosa é utilizada para legitimar a exclusão, naturalizar a pobreza ou alimentar a hostilidade contra adversários, torna-se necessário recordar que o nome de Deus não pode servir de escudo para atitudes contrárias à misericórdia. A religião perde sua força profética quando se preocupa mais em proteger o prestígio dos poderosos do que em ouvir o clamor dos que sofrem.

A crítica ao clericalismo e à religiosidade vazia também nasce dessa exigência. Não basta multiplicar celebrações, repetir passagens bíblicas ou defender símbolos sagrados se a vida cotidiana permanece marcada pela exploração, pelo preconceito e pelo abandono. A fé precisa produzir responsabilidade, solidariedade e compromisso com o bem comum. Caso contrário, corre o risco de se transformar em aparência sem coerência, linguagem sem testemunho e devoção sem encontro verdadeiro com o próximo. Essa responsabilidade alcança igualmente a política. Nenhuma liderança pode invocar valores cristãos para escapar à fiscalização, e nenhum eleitor deveria considerar moralmente superior uma pessoa apenas por sua identidade religiosa ou por suas declarações públicas de fé. O critério precisa ser a coerência entre palavras e atitudes, entre promessas e resultados, entre o discurso sobre a família e o compromisso efetivo com as condições de vida das famílias reais. A defesa da vida precisa alcançar também aqueles que enfrentam a fome, a violência, a falta de moradia, o desemprego e a ausência de oportunidades.

A esperança, portanto, não deve ser confundida com a expectativa de que um único homem transforme sozinho a realidade brasileira. Presidentes exercem responsabilidades importantes, mas a construção de uma sociedade justa depende também das instituições, do Congresso, do Judiciário, dos governos locais, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias e da participação permanente dos cidadãos. A democracia exige vigilância, diálogo, transparência e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos por aqueles em quem se depositou confiança. Quando a emoção da eleição passar, permanecerá a tarefa de acompanhar as decisões, verificar os resultados e exigir que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Se houver avanços, eles deverão ser reconhecidos; se houver falhas, deverão ser apontadas; se houver injustiças, deverão ser denunciadas. Não há contradição entre desejar o êxito de um governo e cobrar sua responsabilidade. O verdadeiro compromisso com o país não consiste em aplaudir todas as decisões, mas em defender as condições necessárias para que a política sirva à população. Também será necessário reconstruir os espaços de convivência que a hostilidade eleitoral desgastou. Famílias, amizades, comunidades religiosas e ambientes de trabalho não precisam permanecer prisioneiros de disputas partidárias. É possível discordar sem desumanizar, criticar sem humilhar e defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Isso não significa aceitar agressões em nome de uma falsa harmonia, mas estabelecer limites claros para que o respeito não seja confundido com silêncio diante da violência verbal ou da intolerância.

Aqueles que foram ofendidos durante a campanha não precisam negar suas feridas para demonstrar maturidade. Podem reconhecer o que sofreram, preservar a memória dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, recusar a reprodução da mesma lógica de desprezo. A dignidade não depende de receber o pedido de desculpas de quem feriu, embora o reconhecimento do erro possa ajudar a reparar relações. Ela também se manifesta na liberdade de continuar vivendo segundo a própria consciência, sem permitir que a agressão alheia se transforme no centro permanente da existência.

No fim, a lembrança mais importante talvez não seja a de quem comemorou mais alto, publicou a frase mais provocadora ou previu com maior segurança os acontecimentos. Será a lembrança de como cada pessoa se comportou quando a divergência se tornou difícil, quando a tentação de humilhar pareceu irresistível e quando o respeito exigiu mais esforço do que a agressão. As eleições passam, os discursos perdem força e as circunstâncias mudam, mas as atitudes deixam marcas que podem permanecer por muito tempo na memória de uma comunidade. É nesse sentido que o tempo revela aquilo que as palavras nem sempre conseguem explicar. Não para alimentar ameaças ou organizar uma lista de culpados, mas para permitir que cada um examine sua participação na história. As escolhas têm consequências, e a responsabilidade não deve ser transferida arbitrariamente quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. Ao mesmo tempo, a democracia exige que ninguém seja condenado apenas por ter votado de maneira diferente. O julgamento das atitudes precisa se apoiar em fatos, não em ressentimentos; em responsabilidades concretas, não em generalizações.

A vitória eleitoral pode despertar alegria, mas seu significado mais profundo será determinado pelo que vier depois dela. Se produzir apenas arrogância, acomodação ou desejo de revanche, terá perdido parte de sua oportunidade histórica. Se inspirar participação, solidariedade, fiscalização do poder e compromisso com os mais vulneráveis, poderá contribuir para fortalecer a vida democrática. O resultado das urnas não encerra a história: abre um novo capítulo, cujo conteúdo dependerá das escolhas realizadas a partir daquele momento. Por isso, aqueles que celebram não precisam pedir desculpas por sua esperança, assim como aqueles que pensam diferente não devem ser privados de sua dignidade. A alegria pode ser legítima sem se tornar desprezo, e a crítica pode ser firme sem se transformar em ódio. O desafio é construir uma convivência na qual as diferenças não apaguem a humanidade compartilhada e na qual a disputa política não seja usada para justificar a destruição de vínculos que dão sentido à vida.

Que a esperança depositada nas urnas se transforme em comida na mesa, educação de qualidade, saúde acessível, trabalho digno, moradia, proteção social e oportunidades reais. Que os governantes compreendam que o poder é uma responsabilidade pública, e não uma propriedade pessoal. Que os cidadãos não abandonem sua capacidade crítica e que as instituições permaneçam comprometidas com a Constituição e os direitos fundamentais. Que a fé, quando professada, não seja um ornamento para discursos, mas uma fonte de compromisso com a justiça, a misericórdia e a dignidade de cada ser humano. No fim das contas, não se trata apenas de ver Lula vencer seus adversários, nem de transformar uma eleição em certificado de superioridade moral. Trata-se de desejar que o Brasil vença a fome, reduza suas desigualdades, enfrente o preconceito e deixe de tratar o sofrimento como se fosse uma consequência inevitável da vida dos pobres. Trata-se de construir um país no qual ninguém precise escolher entre comprar alimentos e adquirir medicamentos, no qual o trabalho permita viver com dignidade e no qual as crianças não tenham seu futuro limitado pela condição econômica em que nasceram.

É por isso que algumas pessoas se emocionam diante de uma vitória política: porque enxergam nela a possibilidade de continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Não porque imaginem que todos os problemas desapareceram, mas porque se recusam a aceitar que a injustiça seja o destino definitivo de um povo. A esperança não elimina as dificuldades; oferece razões para enfrentá-las. A democracia não garante, por si só, a justiça; oferece caminhos para buscá-la coletivamente. E a fé não substitui a ação humana; quando compreendida à luz do Evangelho, chama à responsabilidade por aquilo que acontece ao redor. Que a alegria não se converta em soberba, que as lembranças das ofensas não se transformem em vingança e que o silêncio não seja usado para ameaçar, mas para compreender a profundidade das escolhas. Que a história registre não apenas os nomes dos vencedores e dos derrotados, mas também a maneira como uma sociedade tratou seus cidadãos durante o caminho. E que, quando o tempo revelar as consequências de cada decisão, haja coragem para reconhecer os acertos, corrigir os erros e reparar as injustiças.

Porque uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de conquistar uma taça para exibir diante dos derrotados, mas de decidir que país desejam construir juntos. O verdadeiro resultado não estará apenas no número de votos, mas na capacidade de transformar a escolha democrática em responsabilidade pública, a esperança em compromisso e a fé em cuidado concreto com a vida humana. E, quando as luzes da campanha se apagarem, quando os discursos perderem o brilho e os adversários voltarem a se encontrar nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades, restará a pergunta que nenhuma urna poderá responder sozinha: o que farão com a oportunidade que receberam? 

A resposta não será escrita por um único homem, nem por um partido isolado. Será construída diariamente, nas decisões políticas, nas relações humanas e na disposição de não abandonar aqueles que mais precisam. É nesse trabalho silencioso, persistente e coletivo que a esperança poderá deixar de ser apenas sentimento e começar a se tornar realidade.

Que Deus conceda sabedoria aos que governam, consciência aos que fiscalizam, coragem aos que denunciam as injustiças e sensibilidade aos que ainda conseguem reconhecer o sofrimento alheio. E que o Brasil aprenda, finalmente, que a grandeza de uma nação não está em derrotar seus próprios filhos, mas em criar condições para que todos possam viver com liberdade, justiça, respeito e dignidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 24 de outubro de 2026

Olhando novamente Mateus 22,34-40 - 30⁰ Domingo do Tempo Comum

No 30⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana reúne Êxodo 22,20-26, o Salmo 17(18), 1Tessalonicenses 1,5c-10 e Mateus 22,34-40 numa unidade teológica que impede separar a experiência de Deus da responsabilidade pela vida humana. 
  •  Êxodo 22,20-26: proíbe oprimir o estrangeiro, prejudicar a viúva e o órfão e explorar o pobre, enquanto o salmo apresenta o Senhor como rochedo, fortaleza e libertador daqueles que clamam por socorro. 
  • 1Tessalonicenses 1,5c-10: Paulo, por sua vez, recorda uma comunidade que acolheu o Evangelho em meio às tribulações e abandonou os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. 
No Evangelho de Mateus 22,34-40, Jesus reúne a Lei e os Profetas em dois mandamentos inseparáveis: amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento e amar o próximo como a si mesmo. A relação entre essas leituras revela que o Deus que escuta o clamor dos vulneráveis é o mesmo a quem se deve amar com a totalidade da existência, e esse amor precisa tornar-se reconhecível nas relações humanas. A celebração litúrgica, portanto, não oferece apenas ensinamentos espirituais, mas apresenta um critério para examinar a consciência, as instituições religiosas e as estruturas sociais que determinam quem pode viver com dignidade e quem permanece abandonado.
O Evangelho de Mateus 22,34-40 também  aparece  na sexta-feira da 20⁰ semana do Tempo Comum, e a temática  volta na  liturgia  proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B  comMarcos 12,28-44  e  Lucas 10,25-37, que desenvolve a questão do amor ao próximo por meio da parábola do samaritano, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum  e no 15⁰ domingo do tempo comum  do Ano C. As Igrejas ortodoxas, anglicanas, luteranas e outras comunidades cristãs históricas também reconhecem a centralidadde desses mandamentos, embora seus calendários e lecionários apresentem distribuições próprias. A convergência entre essas tradições testemunha que o amor não constitui um tema secundário da espiritualidade cristã, mas um princípio fundamental para interpretar a Escritura e discernir a autenticidade do discipulado. A pergunta que atravessa esses textos permanece especialmente incômoda quando a religião fala constantemente de Deus, mas convive tranquilamente com a exclusão, a violência, a desigualdade e a indiferença diante do sofrimento humano.
Para compreender a resposta de Jesus, é necessário considerar o contexto histórico e narrativo sem reduzir o judaísmo do primeiro século a uma religião de formalismos vazios. A Torá contém numerosos mandamentos, e os mestres de Israel discutiam como compreender sua unidade e identificar os princípios centrais da vontade divina. A pergunta sobre o maior mandamento era legítima dentro dessa tradição interpretativa. Mateus, entretanto, situa o episódio numa sequência de confrontos em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de sua intervenção no Templo, quando denuncia sua transformação em espaço de exploração e evoca Isaías 56,7 e Jeremias 7,11 (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, além das controvérsias sobre o imposto a César e a ressurreição dos mortos (Mt 21,28-22,33). Nesse ambiente de disputas, a pergunta sobre o maior mandamento ultrapassa uma discussão acadêmica: coloca em questão a autoridade de Jesus e o significado concreto da fidelidade a Deus. 
Jerusalém era o centro religioso de Israel, lugar do Templo e das grandes peregrinações, mas também estava submetida ao domínio imperial romano. Os tributos, a concentração de terras, as desigualdades econômicas e as tensões políticas marcavam a existência cotidiana de grande parte da população. Durante a Páscoa, a memória da libertação do Egito adquiria particular intensidade, pois o povo celebrava sua história de emancipação enquanto vivia sob uma potência estrangeira. Nesse cenário, Jesus não oferece uma resposta que permita à religião refugiar-se numa espiritualidade indiferente aos conflitos sociais. Sua síntese da Lei e dos Profetas exige que a relação com Deus seja examinada à luz da maneira como as pessoas exercem o poder, tratam os pobres e respondem às necessidades daqueles que não dispõem de proteção. O amor não é uma abstração desligada da história, mas uma exigência que confronta os interesses estabelecidos e revela a distância entre a profissão religiosa e a prática cotidiana.
Jesus começa citando Deuteronômio 6,5, mandamento associado ao Shemá, a confissão fundamental de Israel: 
  • “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4-5). 
Marcos conserva explicitamente essa introdução (Mc 12,29), recordando que a fé começa pela escuta. Na linguagem bíblica, ouvir não significa simplesmente receber sons, mas acolher uma palavra capaz de orientar decisões e transformar comportamentos. Amar a Deus com todo o coração significa comprometer al inteligência, a vontade, a memória e os afetos; amá-lo com toda a alma significa entregar-lhe a existência inteira; fazê-lo com todo o entendimento, como destaca Mateus, implica discernimento e responsabilidade intelectual. Uma fé que exige submissão cega, demoniza perguntas e transforma líderes em autoridades incontestáveis pode produzir conformidade exterior, mas não necessariamente fidelidade ao Deus vivo. Paulo recomenda que os cristãos examinem tudo e conservem o que é bom (1Ts 5,21), enquanto Romanos 12,2 apresenta a renovação da mente como condição para discernir a vontade divina. Num mundo marcado pela desinformação, pelas teorias conspiratórias e pela manipulação emocional, amar a Deus também significa recusar a mentira, investigar os fatos e não confundir convicções pessoais com revelações incontestáveis.
O segundo mandamento, retirado de Levítico 19,18, determina que se ame o próximo como a si mesmo. Jesus afirma que ele é semelhante ao primeiro, estabelecendo entre ambos uma relação inseparável (Mt 22,39). Não se trata de acrescentar uma obrigação social a uma espiritualidade que poderia existir independentemente dela, mas de reconhecer que o amor a Deus se torna visível nas relações humanas. A primeira carta de João expressa essa consequência com radicalidade: quem afirma amar a Deus, mas odeia o irmão, contradiz a própria confissão religiosa (1Jo 4,20). Essa afirmação não reduz Deus à humanidade; recorda que o Deus cristão se revelou na encarnação, fazendo-se presente na história humana em Jesus Cristo (Jo 1,14). Por isso, é profundamente contraditório venerar o Cristo encarnado e desprezar os corpos feridos pela fome, pela exploração, pelo racismo, pela guerra ou pela violência doméstica. A fé perde sua coerência quando proclama a dignidade de Deus, mas considera negociável a dignidade de pessoas concretas.
O contexto de Levítico torna ainda mais evidente a dimensão social desse mandamento. O mesmo capítulo que ordena amar o próximo proíbe a fraude, a exploração, a injustiça nos julgamentos e o ódio cultivado no coração (Lv 19,11-18). Mais adiante, determina que o estrangeiro residente seja tratado como um membro da comunidade e amado como a si mesmo (Lv 19,33-34). O próximo, portanto, não pode ser limitado àqueles que compartilham nossa nacionalidade, religião, classe social ou orientação política. A primeira leitura do domingo aprofunda essa exigência ao proibir a opressão do estrangeiro e a exploração da viúva e do órfão (Ex 22,20-26). Essas figuras representam pessoas particularmente vulneráveis numa sociedade em que o pertencimento familiar, a propriedade e as redes de proteção determinavam grande parte das possibilidades de sobrevivência. A legislação bíblica impede que a fragilidade alheia se transforme em oportunidade de enriquecimento e declara que Deus ouvirá o clamor dos oprimidos. Essa imagem remete à memória fundadora do Êxodo, quando o Senhor afirma ter visto a aflição do povo, ouvido seu grito e conhecido seus sofrimentos (Ex 3,7). O Deus bíblico não permanece indiferente diante da dor humana.
O Salmo 17(18) amplia essa perspectiva ao apresentar o Senhor como rochedo, fortaleza, libertador e abrigo. Essas imagens expressam a confiança de quem encontra sustentação quando a existência é ameaçada, mas também convocam a comunidade de fé a participar concretamente da proteção dos vulneráveis. Não basta cantar que Deus é refúgio para quem sofre se a própria comunidade permanece indiferente às pessoas que precisam de amparo. A oração litúrgica perde sua coerência quando os lábios proclamam a fidelidade divina, enquanto as mãos se fecham diante da fome, da violência e da injustiça. Os profetas já haviam denunciado essa separação entre culto e responsabilidade: 
  • Isaías exige que se aprenda a fazer o bem e se defenda o oprimido (Is 1,11-17).
  • Amós proclama que o direito deve correr como água e a justiça como torrente permanente (Am 5,21-24).
  •  Miqueias resume a vontade de Deus na prática da justiça, no amor à misericórdia e numa caminhada humilde com o Senhor (Mq 6,8). 
Jesus permanece nessa tradição quando denuncia a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade por parte de pessoas preocupadas com a aparência de observância religiosa (Mt 23,23). A carta aos Tessalonicenses acrescenta outra dimensão ao conjunto litúrgico ao falar da conversão dos ídolos para o serviço ao Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1,9). A idolatria não se limita à adoração de imagens, pois também ocorre quando realidades humanas são transformadas em absolutos e passam a exigir lealdade acima da consciência e da dignidade alheia. O dinheiro torna-se ídolo quando o lucro vale mais que a vida; o poder, quando a autoridade se considera imune à crítica; a pátria, quando seus símbolos são colocados acima da dignidade de outros povos; e a segurança, quando serve para justificar qualquer forma de violência. Essa advertência ilumina criticamente expressões da extrema direita que mobilizam símbolos cristãos para proteger líderes, espalham medo, transformam minorias em inimigos e apresentam soluções autoritárias como se fossem exigências da fé. Não se deve confundir toda pessoa de direita com essas práticas, nem transformar o Evangelho em propriedade de qualquer partido. O critério cristão exige que toda ideologia seja julgada por seus frutos e por sua relação com a justiça, a verdade e a dignidade humana. Quando o pobre é acusado de sua própria miséria, o estrangeiro é tratado como ameaça e a violência é celebrada como demonstração de força, a religião corre o risco de servir a ídolos políticos em vez de testemunhar o Deus libertador.
Os relatos sinóticos iluminam diferentes dimensões dessa mesma exigência. Marcos 12,28-44, o escriba dialoga com Jesus e reconhece que amar a Deus e ao próximo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios. Jesus lhe diz que não está longe do Reino de Deus (Mc 12,33-34), sem desprezar a tradição cultual de Israel, mas mostrando que nenhuma prática religiosa substitui a fidelidade à vontade divina. Mateus situa a resposta num ambiente mais conflituoso e conclui que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22,40). Lucas, por sua vez, desenvolve a questão mediante a parábola do samaritano, depois que um especialista pergunta quem é o próximo que deve amar (Lc 10,25-37). O sacerdote e o levita encontram o homem ferido e passam adiante, enquanto o samaritano, pertencente a um grupo frequentemente desprezado, aproxima-se, trata as feridas, providencia transporte e assume os custos do cuidado. Lucas desloca a discussão da definição teórica para a responsabilidade concreta: a pergunta decisiva não é apenas quem merece ser amado, mas se estamos dispostos a tornar-nos próximos de quem sofre.
A sequência de ações do samaritano revela a gramática prática do Evangelho.  Ele vê o homem caído, permite que a situação o afete, aproxima-se e cuida de suas feridas, transformando a compaixão em responsabilidade. Essa narrativa confronta uma sociedade habituada a administrar a miséria sem questionar as estruturas que a produzem. Não basta sentir pena das pessoas que vivem nas ruas, dos migrantes, dos desempregados ou daqueles que sofrem dependência e exclusão; é necessário compreender as causas do abandono e construir respostas que protejam a dignidade humana. A compaixão não substitui a justiça pública, mas impede que a justiça se transforme numa burocracia indiferente. A justiça, por sua vez, amplia a compaixão ao procurar impedir que novas pessoas sejam submetidas às mesmas formas de sofrimento. A misericórdia cristã não significa impunidade nem negação da gravidade do mal. Significa responsabilizar quem causa danos, proteger as vítimas e recusar que a vingança seja a palavra definitiva sobre a existência humana. Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6), denuncia uma religiosidade que prefere condenar a abrir caminhos de transformação.
O amor anunciado por Jesus manifesta-se também na maneira como ele compreende a autoridade. A carta aos Filipenses apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e se entrega até a morte de cruz (Fl 2,5-8). A cruz, instrumento de execução utilizado pelo poder imperial, não pode ser legitimamente convertida em símbolo de superioridade, crueldade ou autorização para perseguir adversários. Jesus ensina que os governantes das nações dominam seus subordinados, mas declara que entre seus discípulos a lógica deve ser diferente, pois o maior é chamado a servir (Mt 20,25-28). Essa exigência confronta o clericalismo quando o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em controle e a preservação institucional se torna mais importante que a dignidade das pessoas. Uma Igreja fiel ao Evangelho não deve temer perguntas honestas, silenciar a participação dos leigos e das leigas nem proteger abusos para conservar prestígio. Sua autoridade precisa ser exercida como serviço, escuta e cuidado, reconhecendo que nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade a Cristo enquanto abandona aqueles que necessitam de defesa.
A responsabilidade pelo próximo alcança igualmente a organização econômica e o cuidado da criação. Jesus adverte que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), denunciando a possibilidade de a riqueza ocupar o lugar da consciência. O problema não está no trabalho, nos bens ou na busca legítima de melhores condições de vida, mas numa ordem social que naturaliza a concentração excessiva enquanto milhões enfrentam insegurança alimentar, moradia precária e acesso insuficiente à saúde. A tradição social cristã, especialmente a partir de Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade, particularmente dos pobres e sofredores, também pertencem aos discípulos de Cristo. A opção preferencial pelos pobres, aprofundada na tradição latino-americana, não transforma o pobre em objeto de caridade ocasional, mas reconhece sua dignidade e seus direitos. Também a crise ecológica exige uma conversão coerente com o amor ao próximo, porque a destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida atinge primeiro as populações mais vulneráveis e compromete as gerações futuras. A humanidade recebe a responsabilidade de cultivar e guardar a criação (Gn 2,15), não de explorá-la sem limites em nome do lucro imediato. Diante dessas exigências, a conversão cristã precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. Cada pessoa deve perguntar se não construiu uma imagem de Deus que confirma seus preconceitos e protege seus privilégios; cada comunidade precisa examinar se oferece acolhimento, participação e cuidado ou se produz medo e silenciamento; e a sociedade deve questionar as relações econômicas e políticas que condenam determinadas populações ao abandono. A primeira carta de João torna essa responsabilidade incontornável ao perguntar como pode permanecer o amor de Deus naquele que possui bens, vê o irmão em necessidade e fecha o coração (1Jo 3,17). O amor não significa concordar com tudo, tolerar abusos ou abandonar a verdade, assim como a denúncia profética não precisa transformar o adversário em objeto de ódio. Jesus ama e confronta, acolhe e chama à conversão, denuncia a injustiça e protege a vida. A misericórdia impede que a justiça se reduza à vingança, enquanto a verdade impede que o amor se torne cumplicidade com o mal.
No fim, a pergunta sobre o maior mandamento já recebeu sua resposta, mas a responsabilidade de vivê-la permanece diante de cada geração. Podemos conhecer a Escritura e continuar indiferentes, participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia, defender a ortodoxia e abandonar a justiça ou carregar símbolos religiosos enquanto colaboramos com estruturas que humilham pessoas. O escriba de Marcos reconheceu a centralidade do amor, mas o samaritano de Lucas demonstrou como esse reconhecimento se transforma em cuidado. É nesse intervalo entre saber e viver que a fé revela sua verdade. Por isso, a comunidade cristã precisa perguntar quem está sendo escutado, quem continua do lado de fora, quem tem medo de falar e quem procura Deus, mas encontra julgamento, burocracia ou indiferença. Sua grandeza não se mede pelo poder acumulado, mas pela capacidade de acolher, reconciliar, defender e transformar vidas. Quando a religião pronuncia o nome de Deus enquanto despreza a vida, conserva palavras sagradas, mas contradiz o coração da aliança. O Evangelho, porém, continua a ser proclamado nas ruas, nos hospitais, nas periferias e nas casas onde alguém sofre em silêncio, sempre que somos confrontados com a escolha entre passar adiante e aproximar-nos. Amar a Deus e amar o próximo não são tarefas concorrentes, mas um único movimento que se dirige ao mistério divino e se torna visível na história. Onde o amor assume a forma de justiça, misericórdia, serviço e defesa da dignidade humana, o Reino de Deus começa a nascer entre nós, e a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas e a cruz permanece diante de nossa consciência: O que estamos fazendo com o amor que recebemos?
DNonato - Teólogo do Cotidiano. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 12,54-59

Há palavras de Jesus que atravessam os séculos porque não se deixam aprisionar pelas circunstâncias em que foram pronunciadas. Lucas 12,54-59 pertence a essa categoria de textos que incomodam a consciência, desmascaram a religiosidade acomodada e convocam homens e mulheres a reconhecer a presença de Deus na história. Na liturgia romana, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum sendo a continuidade do texfo do dia anterior Lucas 12, 49-53 . Sua proximidade com os ensinamentos sobre a vigilância, a responsabilidade e as divisões provocadas pela missão de Jesus não é acidental: a Palavra conduz a comunidade da escuta à decisão, da observação dos acontecimentos ao compromisso com a justiça. Nas Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente, as tradições de leitura bíblica também preservam a exigência de conversão e discernimento, embora os calendários e as perícopes variem conforme cada tradição. Por isso, não se deve presumir que todas proclamem esta passagem no mesmo dia. O que permanece comum à fé cristã é a convicção de que a Escritura não foi dada para ornamentar cerimônias, mas para iluminar a existência e transformar a relação com Deus, com o próximo e com o mundo. Jesus dirige-se às multidões e pergunta por que conseguem interpretar o aspecto da terra e do céu, mas não discernem o tempo presente. A pergunta nasce de uma contradição humana que continua atual: somos capazes de desenvolver instrumentos sofisticados para prever fenômenos naturais, calcular mercados, medir comportamentos e administrar sistemas, mas frequentemente não percebemos as consequências morais das decisões que tomamos. Podemos identificar uma tempestade aproximando-se e, ao mesmo tempo, permanecer indiferentes à tempestade que desabriga famílias, destrói comunidades e aprofunda desigualdades. Podemos reconhecer os sinais de uma crise econômica e ignorar os trabalhadores submetidos à precariedade. Podemos conhecer os números da violência e habituar-nos ao sofrimento das vítimas. A advertência de Jesus não condena o conhecimento, a ciência ou a inteligência humana; denuncia a inteligência colocada a serviço da conveniência, incapaz de reconhecer a exigência ética inscrita na realidade. O problema não é falta de informação, mas a resistência em aceitar aquilo que a informação revela sobre nossa responsabilidade.
Para compreender a força dessa palavra, é necessário situá-la no contexto narrativo de Lucas e ler o texto proclamado na quinta-feira da 29ª semana do.Tempo Comum. Nos versículos anteriores, Jesus fala do fogo que veio lançar sobre a terra e da divisão que sua missão provocaria, inclusive dentro das famílias (Lc 12,49-53). Antes disso, exorta os discípulos à vigilância, denuncia a falsa segurança dos bens acumulados e adverte contra a administração irresponsável daquilo que foi confiado a cada pessoa (Lc 12,13-48). O capítulo inteiro confronta a ilusão de que seja possível viver sem prestar contas da própria existência. A riqueza não protege contra a fragilidade, a autoridade não elimina a responsabilidade e a pertença religiosa não dispensa a conversão. Quando Jesus se volta para as multidões, sua pergunta sobre os sinais do tempo reúne esses temas: diante da presença do Reino, não basta escutar, admirar ou permanecer emocionalmente comovido. É preciso interpretar a realidade à luz da vontade de Deus e escolher um caminho coerente com ela. A Palavra não permite que a fé se transforme em abrigo contra a história, porque o Deus de Israel age dentro dela e chama seu povo a responder.
Na Palestina do primeiro século, observar os ventos e as nuvens fazia parte da experiência cotidiana de comunidades dependentes da agricultura, da criação de animais e das chuvas sazonais. A nuvem que chegava do ocidente, em direção ao Mediterrâneo, podia anunciar precipitação; o vento vindo do sul, associado a regiões quentes e áridas, anunciava calor intenso. Essas observações não eram previsões infalíveis, mas conhecimentos acumulados pela convivência com o ambiente. Jesus utiliza essa sabedoria popular para construir uma comparação compreensível aos ouvintes. Se as pessoas conseguem relacionar sinais visíveis a consequências prováveis, por que não reconhecem o significado de sua própria presença, de seus ensinamentos e de suas ações? Os sinais do Reino não são enigmas reservados a especialistas, nem códigos secretos para grupos que afirmam possuir acesso privilegiado à vontade divina. Manifestam-se na libertação dos oprimidos, na cura dos enfermos, no acolhimento dos excluídos e na restauração da dignidade humana, como mostram Lc 4,16-21 e Lc 7,18-23.
  • A expressão grega kairós, traduzida como tempo ou momento oportuno, indica aqui mais do que a sucessão cronológica dos acontecimentos. 
  • Chronos designa o tempo em sua dimensão sucessiva, enquanto kairós pode expressar a ocasião decisiva, o momento carregado de significado e possibilidade. 
Essa distinção ajuda a compreender a urgência da mensagem, embora não deva ser transformada numa oposição absoluta entre dois conceitos que, na linguagem bíblica, possuem usos diversos. Jesus anuncia que algo decisivo está acontecendo: a proximidade do Reino exige discernimento e resposta. O tempo da conversão não pode ser indefinidamente adiado, porque cada oportunidade desperdiçada consolida hábitos, estruturas e relações que tornam a mudança mais difícil. Paulo expressa urgência semelhante ao escrever que chegou a hora de despertar do sono (Rm 13,11-12). A questão não é descobrir uma data secreta para o fim do mundo, mas perceber o que Deus exige de nós no presente. A escatologia cristã, quando compreendida corretamente, não alimenta a fuga da realidade; fortalece a responsabilidade diante dela.
O termo hipócritas, empregado por Jesus,. No mundo antigo, a palavra podia designar o ator que representava um papel, mas, no uso moral do Evangelho, aponta para a distância entre aquilo que alguém aparenta e aquilo que efetivamente vive. A crítica não autoriza desprezar indiscriminadamente os judeus, os fariseus ou qualquer grupo religioso. Jesus pertence ao povo judeu, participa de suas tradições e dirige sua denúncia a partir da própria herança profética de Israel. Sua palavra deve ser compreendida como crítica à incoerência humana e religiosa, não como justificativa para antijudaísmo. Os profetas já haviam denunciado uma piedade que preservava sacrifícios enquanto tolerava a exploração. 
  • Amós 5,21-24 rejeita o culto separado da justiça; Isaías 1,11-17 associa a purificação religiosa à defesa do órfão e da viúva
  • Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. 
Jesus não inventa uma fé indiferente à sociedade para depois corrigi-la: ele recupera e radicaliza a exigência ética presente nas Escrituras de Israel. A Galileia e a Judeia estavam inseridas na ordem imperial romana, marcada por tributação, hierarquias sociais, concentração de recursos e relações desiguais de poder. A população rural enfrentava obrigações econômicas que podiam comprometer a subsistência, enquanto elites locais participavam, em diferentes graus, da administração e da preservação da ordem estabelecida. A situação não era idêntica em todos os lugares nem pode ser reduzida a uma descrição uniforme de miséria, mas a desigualdade e a vulnerabilidade econômica faziam parte da experiência de muitos camponeses. Nesse mundo, falar de discernimento significava também perceber que a realidade política e social não estava separada da responsabilidade religiosa. O Reino anunciado por Jesus não se identifica simplesmente com um programa partidário ou com a substituição de um governo por outro, mas questiona toda ordem que absolutiza o poder e sacrifica pessoas à manutenção de privilégios. Sua força profética reside em revelar que nenhuma instituição humana está acima do juízo ético de Deus.
A mesma advertência alcança a sociedade contemporânea, na qual a abundância de dados nem sempre produz consciência crítica. Informações circulam continuamente, mas são selecionadas por interesses econômicos, estratégias políticas e mecanismos digitais que podem favorecer indignação instantânea, desinformação e polarização. A pessoa pode acreditar que está bem informada porque recebe diariamente notícias alinhadas às próprias convicções, embora permaneça incapaz de escutar argumentos diferentes ou verificar a veracidade do que compartilha. Discernir exige mais do que reagir: implica examinar fontes, reconhecer interesses, distinguir fatos de interpretações e considerar as consequências humanas das escolhas coletivas. A fé cristã não dispensa essa responsabilidade intelectual. Ao contrário, a busca da verdade pertence ao compromisso com o próximo, pois a mentira deliberada pode destruir reputações, alimentar perseguições e justificar violências. Quando a religião se torna instrumento de propaganda, perde sua capacidade de julgar os poderes e passa a abençoar interesses que deveria submeter à crítica do Evangelho.
A passagem, entretanto, não termina com a denúncia dos sinais mal interpretados. Jesus pergunta por que os ouvintes não julgam por si mesmos o que é justo e, em seguida, apresenta a imagem de duas pessoas que caminham em direção ao magistrado. Enquanto estão a caminho, a parte envolvida deve procurar resolver a disputa, para evitar que o processo avance e termine em prisão. A mudança de imagem é decisiva. O discernimento não se comprova apenas por uma interpretação correta da realidade; manifesta-se na capacidade de tomar decisões justas antes que as consequências se tornem mais graves. O caminho representa a oportunidade ainda disponível, e o tribunal recorda que ações e omissões produzem consequências. O texto não oferece uma descrição completa do sistema jurídico romano nem deve ser reduzido a uma alegoria em que cada personagem corresponda obrigatoriamente a uma figura divina. Sua força imediata é prática: quando existe possibilidade de reconciliação, adiar indefinidamente a solução pode aprofundar o conflito e aumentar o sofrimento.
A recomendação de resolver a questão durante o caminho não significa que toda disputa deva terminar em acordo, independentemente da verdade ou da segurança das pessoas envolvidas. A reconciliação cristã não exige que vítimas de violência permaneçam junto de seus agressores, nem que pessoas exploradas renunciem à justiça para preservar uma aparência de paz. Em situações de abuso, coerção ou ameaça, buscar proteção, estabelecer limites e recorrer às autoridades competentes pode ser necessário. A justiça bíblica não é cumplicidade com o agressor, e o perdão não elimina automaticamente as consequências legais e sociais de uma conduta. A imagem de Jesus denuncia sobretudo a negligência que deixa o conflito crescer quando ainda existe possibilidade de agir com responsabilidade. Há momentos em que a reconciliação requer verdade, reparação, reconhecimento do dano e mudança concreta. Sem esses elementos, a paz pode tornar-se apenas o silêncio imposto a quem sofreu.
A referência à prisão e ao último centavo acrescenta gravidade à advertência. Jesus apresenta uma consequência extrema para mostrar que certas decisões, uma vez consumadas, restringem a liberdade de quem poderia ter agido antes. A imagem não deve ser usada para afirmar que Deus mantém uma contabilidade mecânica de dívidas humanas ou que toda prisão corresponde a um castigo divino. A linguagem do Evangelho convoca à responsabilidade, não à construção de uma teologia do terror. No conjunto de Lucas, a misericórdia de Deus permanece inseparável do chamado à conversão.
  •  O pai acolhe o filho que retorna (Lc 15,11-32)
  • Jesus oferece perdão e nova possibilidade de vida (Lc 7,36-50) 
  • O crucificado dirige uma palavra de esperança ao condenado que reconhece sua situação (Lc 23,39-43).
A misericórdia não banaliza o mal; abre um caminho para que a verdade seja enfrentada sem que a pessoa seja reduzida definitivamente ao seu erro.
  • Mateus apresenta uma tradição paralela em Mt16,1-4. Nesse episódio, fariseus e saduceus pedem a Jesus um sinal do céu para colocá-lo à prova. A resposta associa a leitura das condições atmosféricas à incapacidade de reconhecer os sinais dos tempos e culmina na referência ao sinal de Jonas. A ênfase mateana recai sobre a exigência de um sinal extraordinário e sobre a resistência daqueles que desejam submeter a ação de Deus às próprias condições. 
  • Marcos 8,11-13 também relata a exigência de um sinal por parte dos fariseus, seguida pela recusa de Jesus, mas não reproduz a comparação meteorológica presente em Lucas e Mateus. Não se deve, portanto, atribuir a Marcos palavras que seu relato não contém.
Em Lucas 12,54-56, por sua vez, Jesus dirige-se às multidões e destaca a contradição entre a competência cotidiana e a incapacidade de discernir o presente. As diferenças de cenário, interlocutores e formulação mostram que os evangelistas organizam tradições de Jesus segundo seus propósitos narrativos e teológicos.  Existe ainda uma aproximação significativa entre Lc 12,58-59 e Mt 5,25-26. No Sermão da Montanha, Mateus aconselha a reconciliação com o adversário durante o caminho para o tribunal, antes que a disputa resulte em prisão. Em Lucas, a imagem integra a exortação sobre o discernimento do tempo e a necessidade de reconhecer o que é justo. Essa aproximação evidencia um tema comum da tradição de Jesus: a urgência da reconciliação e a responsabilidade pelas consequências das relações rompidas. Em Mateus, a passagem aparece dentro de uma instrução mais ampla sobre a justiça que deve superar a mera observância exterior, incluindo a reconciliação entre irmãos (Mt 5,21-26). Em Lucas, a sequência aproxima discernimento histórico e decisão moral. Em ambos, a fé não se reduz a uma declaração interior; exige atitudes concretas que enfrentem a hostilidade e impeçam que o ressentimento governe a vida. Essa unidade entre fé e prática atravessa toda a Bíblia. 
  • Jeremias denuncia aqueles que proclamam a segurança do templo enquanto praticam injustiça (Jr 7,1-11).
  •  Ezequiel questiona os pastores que se alimentam às custas do rebanho e abandonam as ovelhas frágeis (Ez 34,1-10).
Jesus retoma essa crítica quando condena dirigentes que impõem fardos aos outros sem assumir a responsabilidade de servi-los (Mt 23,1-12). Tiago, por sua vez, afirma que a fé sem obras está morta e denuncia comunidades que honram os ricos enquanto humilham os pobres (Tg 2,1-17). Esses textos impedem que Lucas 12 seja interpretado como uma advertência exclusivamente privada, limitada à preparação individual para a morte. A responsabilidade pessoal é indispensável, mas se realiza também nas estruturas econômicas, nas decisões públicas, nas práticas comunitárias e nas relações de poder. A conversão bíblica não termina na consciência: transforma os comportamentos e questiona os mecanismos que produzem sofrimento evitável. Por isso, a desigualdade social constitui um campo incontornável de discernimento. Quando famílias não conseguem acesso adequado à alimentação, à moradia, à saúde e à educação, não basta atribuir sua situação à falta de esforço individual. É necessário examinar as condições de trabalho, a distribuição de oportunidades, as políticas públicas e os mecanismos de exclusão que restringem a liberdade real das pessoas. A responsabilidade pessoal existe, mas não apaga a responsabilidade coletiva nem transforma privilégios herdados em mérito absolutoe o Evangelho não oferece uma fórmula econômica pronta, mas estabelece critérios morais exigentes: a dignidade de cada pessoa, a prioridade do cuidado com os vulneráveis e a rejeição da riqueza convertida em ídolo. Em Lc 16,19-31, a distância entre o rico e Lázaro revela uma indiferença que termina em condenação moral. Em Mt 25,31-46, o encontro com Cristo é associado ao modo como tratamos quem tem fome, sede, está desabrigado, doente ou encarcerado. O sinal de Deus não deve ser procurado apenas em acontecimentos extraordinários, mas também no rosto daqueles cuja dignidade a sociedade prefere não enxergar.
A violência exige discernimento igualmente rigoroso com a  naturalização de mortes, o desprezo pelas vítimas, a celebração da vingança, a transformação de adversários em inimigos absolutos e a política  de armas para todos contradizem a dignidade humana proclamada pelo Evangelho. Jesus não podemos  confundi  justiça com brutalidade,  nem autoridade com licença para humilhar, matar etc. Quando repreende o discípulo que recorre à espada durante sua prisão, recusa a lógica segundo a qual a causa justa legitima qualquer meio (Mt 26,51-52). Isso não elimina a necessidade de proteger pessoas ameaçadas ou de responsabilizar quem pratica crimes. Exige, antes, que a segurança pública esteja comprometida com a vida, a legalidade e a proteção de todos, inclusive dos mais vulneráveis. Uma sociedade que só reconhece a dor de determinados grupos e considera descartáveis os demais perdeu a capacidade de discernir moralmente. O cristão é chamado a defender as vítimas, combater a impunidade e recusar a desumanização, sem transformar o sofrimento alheio em espetáculo ou instrumento de ódio.
Precisamos  discernir as formas de manipulação religiosa que utilizam o nome de Deus para conquistar obediência, riqueza ou influência política e nosso voto. A promessa de prosperidade automática, a comercialização da bênção e a ideia de que a fidelidade espiritual garante sucesso material distorcem a mensagem bíblica quando convertem a graça em mercadoria e atribuem a pobreza à insuficiência da fé. A teologia do domínio, quando procura submeter a sociedade ao controle de determinados grupos religiosos, confunde missão evangelizadora com conquista de poder através de políticos de índole duvidosa. O Reino de Deus não se estabelece pela imposição de uma identidade religiosa, mas pelo testemunho da verdade, da justiça, da misericórdia e do serviço. A crítica vale também para os os diáconos,  padres, bispos católicos e demais igrejas, que transforma ministérios em privilégios e dificulta a participação responsável dos fiéis. Em Mc 10,42-45, Jesus contrapõe o modo de governar dos poderosos àquele que deve caracterizar seus discípulos: servir, em vez de dominar. A autoridade eclesial perde legitimidade evangélica quando se protege da prestação de contas ou silencia pessoas para conservar prestígio.
A tradição cristã  na patrística nos  oferece recursos para aprofundar esse discernimento.
  •  Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões, livro XI, investiga a experiência humana do passado, do presente e do futuro, mostrando como a consciência vive a memória, a atenção e a expectativa. Sua reflexão não equivale a um comentário direto de Lucas 12,54-59, mas ajuda a compreender por que o presente exige responsabilidade: é nele que a memória pode ser corrigida e a esperança transformada em ação. 
  • João Crisóstomo, em sua pregação, insistiu repetidamente na incompatibilidade entre honrar Cristo no culto e desprezá-lo nos pobres. Sua exortação pastoral recorda que a celebração cristã perde coerência quando a caridade não alcança a vida concreta. 
Nos tempos atuais  onde há  católicos  mais católicos  que o papa,  o povo escolhe  a verdade que lhe  convém  ou lhe convence e frequentemente resistem a informações que ameaçam sua identidade, seus interesses ou a imagem que construíram de si mesmos. A negação, a racionalização e a projeção podem funcionar como mecanismos de defesa diante da culpa e do medo. No plano coletivo, esses processos ajudam a explicar por que grupos inteiros justificam práticas injustas enquanto se apresentam como moralmente superiores. A linguagem teológica chama à conversão essa passagem da autodefesa para o reconhecimento da verdade. O exame de consciência, quando realizado com honestidade, não é instrumento de autodesprezo, mas caminho de liberdade. Reconhecer a própria participação em relações injustas permite interromper hábitos, reparar danos e construir formas mais responsáveis de convivência. O discernimento cristão exige coragem para rever convicções, escutar os atingidos pelas decisões e aceitar que a fidelidade a Deus pode questionar tradições humanas que pareciam intocáveis.
No horizonte da doutrina social católica, essa responsabilidade possui dimensões pessoais, comunitárias e institucionais. 
  • A Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, afirma a dignidade da pessoa humana e a necessidade de examinar os sinais dos tempos à luz do Evangelho. 
  • A Dignitatis Humanae defende a liberdade religiosa e rejeita a coerção em matéria de fé, reconhecendo que a resposta religiosa deve ser livre. Isso não significa que toda opinião seja imune à crítica, mas que a consciência não pode ser forçada a crer por violência ou imposição. 
  • A Evangelii Gaudium critica uma Igreja autorreferencial e convoca a comunidade cristã a sair de si mesma para encontrar as periferias humanas. 
  • A Laudato Si’ relaciona a crise ambiental à degradação social, mostrando que os danos ecológicos atingem de modo desproporcional as populações vulneráveis. 
  • A Fratelli Tutti desenvolve a fraternidade e a amizade social como exigências de uma política orientada ao bem comum. Esses documentos não substituem o texto bíblico; ajudam a discernir suas implicações diante de desafios históricos concretos.
A história das Igrejas demonstra que a linguagem religiosa pode servir tanto à libertação quanto à opressão. Essa contradição ganha particular relevância à luz de Lucas 12,54-59, quando Jesus questiona a capacidade de seus contemporâneos de interpretar os sinais dos tempos, embora nem sempre consigam compreender as exigências do momento em que vivem. O problema não é apenas a dificuldade de perceber a realidade, mas a resistência em reconhecer o que ela exige de cada pessoa e de suas instituições. Ao longo dos séculos, comunidades cristãs participaram de mecanismos de censura, coerção e perseguição, inclusive em processos inquisitoriais distintos conforme os contextos históricos e políticos. Não é rigoroso reduzir todas as inquisições a um único sistema, nem equiparar indistintamente as experiências católicas e protestantes. Compreender as particularidades históricas, porém, não significa minimizar os abusos, mas identificar suas causas e responsabilidades. Quando uma instituição utiliza o medo para silenciar perguntas, protege abusadores ou transforma divergências em infidelidade a Deus, ela deixa de acolher a exigência evangélica da verdade e passa a defender a si mesma. O discernimento pedido por Jesus começa justamente quando a fé deixa de ser instrumento de autoproteção institucional e se torna disposição para reconhecer os próprios erros, reparar injustiças e mudar de direção.
Essa leitura também ilumina a crise ambiental. Jesus recorre às nuvens e aos ventos para mostrar que a realidade apresenta sinais que podem ser interpretados por quem observa atentamente (Lc 12,54-55). Embora o contexto original da passagem trate da capacidade de discernir o tempo presente, sua aplicação contemporânea nos convida a não fechar os olhos diante dos acontecimentos que ameaçam a vida. Secas, enchentes, queimadas e eventos climáticos extremos não devem ser atribuídos automaticamente a castigos divinos nem transformados em previsões sensacionalistas sobre o fim do mundo. Exigem investigação científica, prevenção e políticas públicas que protejam sobretudo as populações mais vulneráveis. A fé cristã não precisa competir com a ciência para afirmar sua relevância; precisa contribuir para que o conhecimento se traduza em cuidado com a vida. Gênesis 2,15 apresenta o ser humano como alguém incumbido de cultivar e guardar o jardim, imagem que contrasta com modelos de exploração ilimitada da natureza. Quando interesses econômicos destroem ecossistemas e comprometem a sobrevivência de comunidades inteiras, o problema ultrapassa a questão ambiental e alcança a justiça social. Discernir os sinais dos tempos significa reconhecer que a criação não pode ser reduzida a mercadoria e que a esperança cristã não autoriza a indiferença diante de sua destruição.
A mesma exigência evangélica se manifesta nas relações humanas. Famílias divididas, comunidades religiosas feridas por disputas, ambientes de trabalho marcados por humilhação e sociedades polarizadas revelam a dificuldade de reconhecer o outro sem transformá-lo em inimigo. Na parte final de Lucas 12,54-59, Jesus utiliza a imagem de duas pessoas a caminho do magistrado para advertir sobre a urgência de buscar uma solução antes que o conflito chegue ao julgamento. A passagem não deve ser reduzida a uma fórmula genérica de reconciliação, pois sua linguagem também contém um alerta sobre as consequências de não enfrentar a tempo aquilo que exige uma decisão. Aplicada às relações contemporâneas, ela convida à busca de soluções justas antes que ressentimentos e injustiças se tornem ainda mais profundos. Isso não significa exigir que vítimas se reconciliem com seus agressores nem confundir perdão com impunidade. A reconciliação só pode ser autêntica quando reconhece os danos, estabelece limites e não sacrifica a verdade para preservar aparências. Ao exortar os cristãos a viverem a verdade no amor (Ef 4,15) e a vencerem o mal pela prática do bem (Rm 12,21), Paulo aponta para uma transformação que enfrenta a injustiça sem reproduzir a desumanização.
É também nesse horizonte que a advertência de Jesus questiona a própria vivência religiosa. Conhecer as Escrituras, frequentar celebrações e defender símbolos sagrados não garante, por si só, que alguém tenha compreendido a vontade de Deus. A advertência de Lucas não é uma condenação da religião, mas um questionamento dirigido a quem consegue interpretar fenômenos exteriores e, ainda assim, resiste a reconhecer as exigências espirituais e éticas do presente. O ritual cristão tem sentido quando conduz a comunidade ao encontro com Deus e a educa para o serviço, a partilha e a misericórdia. Torna-se contraditório quando é utilizado como certificado de superioridade moral, enquanto a pobreza, o abuso de autoridade e a exclusão permanecem naturalizados. Nesse ponto, a crítica de Jesus converge com a tradição profética de Israel, que denuncia um culto separado da justiça e da defesa dos vulneráveis (Is 1,11-17; Am 5,21-24). A questão não é escolher entre liturgia e compromisso social, mas recuperar a unidade entre ambos. Uma comunidade que celebra a libertação de Deus, mas tolera práticas de dominação, contradiz com a própria vida aquilo que proclama em suas orações. Por isso, o critério de discernimento não é a intensidade das manifestações religiosas, mas a capacidade de reconhecer o sofrimento humano e responder a ele de maneira coerente com o Evangelho.
A advertência de Lucas 12,54-59 permanece, assim, profundamente atual. Jesus não oferece um método para calcular o futuro nem autoriza especulações sobre datas apocalípticas; exige que seus ouvintes compreendam o momento presente e não adiem indefinidamente as decisões necessárias. A imagem do caminho para o tribunal ressalta que as escolhas têm consequências e que há situações nas quais a demora em agir agrava o conflito. No plano pessoal, isso significa rever atitudes, reconhecer erros e abandonar práticas que ferem outras pessoas. No plano comunitário, implica enfrentar o clericalismo, impedir a proteção institucional de abusadores e submeter o exercício da autoridade aos critérios do serviço e da justiça. No plano político e social, significa recusar discursos religiosos utilizados para legitimar a violência, a desigualdade e a desumanização de adversários. A profecia cristã não se mede pela agressividade de suas denúncias nem pela capacidade de anunciar catástrofes, mas pela lucidez com que identifica as forças que ameaçam a vida e pela esperança que sustenta a transformação. Da mesma forma, a misericórdia não exige silêncio diante da injustiça, mas coragem para enfrentá-la sem abandonar a dignidade de ninguém.
Discernir os sinais dos tempos é, portanto, deixar que a Palavra de Deus questione nossas interpretações, confronte nossos interesses e ilumine as decisões que moldam a vida comum. Isso exige diálogo com a ciência, a cultura e a sociedade, sem medo de reconhecer a verdade, e disposição para transformar a fé em práticas coerentes com aquilo que se anuncia. A autoridade religiosa ou política perde sua legitimidade moral quando se converte em instrumento de dominação; encontra seu sentido quando promove a vida, protege os vulneráveis e reconhece os limites do próprio poder. Em vez de procurar sinais extraordinários que anunciem o fim, o cristão é chamado a perceber as urgências que já estão diante de seus olhos: a fome, a desigualdade, a violência, a degradação ambiental e o sofrimento daqueles que não encontram espaço para sua voz.
O momento decisivo, à luz do Evangelho, não é uma data escondida no calendário, mas o presente em que a realidade interpela a consciência e exige uma resposta. Lucas 12,54-59 nos lembra que interpretar os sinais sem modificar a conduta é permanecer na superfície do discernimento. A conversão começa quando reconhecemos que também podemos estar equivocados, quando abandonamos a indiferença e quando permitimos que a verdade transforme nossas relações e instituições. Que as comunidades cristãs encontrem na Palavra não uma justificativa para seus privilégios, mas um chamado à revisão de suas práticas; não um refúgio contra as contradições da história, mas uma força para enfrentá-las. A hora da conversão é agora, porque discernir o tempo presente significa reconhecer onde a vida está sendo ameaçada e escolher, à maneira de Jesus, o caminho da justiça, da misericórdia e do serviço. É nessa fidelidade concreta, e não na aparência de uma religiosidade impecável, que a esperança do Reino de Deus se torna sinal visível no mundo.DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 17 de outubro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 22,15-21 - 29º Domingo do Tempo Comum

  • A quem pertence o poder?
  • Quais são os limites da autoridade humana? 
  • Como discernir a presença de Deus em uma história atravessada por impérios, desigualdades e disputas de interesses? 

As leituras proclamada  na liturgia é  a seguinte: Isaías 45,1.4-6;  Salmo 95(96)  1 Tessalonicenses 1,1-5b  que  preparam o caminho para a proclamação de Mateus 22,15-21 que ja refletimos em nosso blog em 2023 , na qual Jesus responde à armadilha sobre o pagamento do imposto a César. 

  •  Isaías 45,1.4-6:  apresenta Ciro, rei da Pérsia, como instrumento inesperado da ação divina na história
O rei persa, é chamado de ungido do Senhor, embora não pertença ao povo de Israel e não conheça plenamente o Deus que o utiliza como instrumento histórico. O contexto é o exílio babilônico e a esperança de retorno; a ascensão persa abre possibilidades de libertação para uma comunidade ferida pela deportação. A afirmação teológica é surpreendente: Deus pode agir por meio de alguém de fora das fronteiras religiosas de Israel, sem que isso transforme Ciro em divindade ou torne todos os seus atos automaticamente justos. O texto não canoniza impérios; declara que a soberania divina é maior que as fronteiras e os cálculos humanos. A leitura cristã, portanto, não deve converter essa passagem em cheque em branco para governantes contemporâneos, nem afirmar que determinado líder possui mandato divino incontestável. A ação de Deus é discernida pelos frutos de libertação e pela fidelidade à justiça, nunca pelo culto à personalidade.
  • Salmo 95(96): proclama que o Senhor reina sobre todos os povos e julga as nações com justiça.
O Salmista convoca os povos a cantar ao Senhor e proclama que ele vem governar a terra com justiça e fidelidade. A linguagem universal contrasta com a propaganda imperial, que apresentava Roma como garantia incontestável de paz e ordem. A chamada Pax Romana, embora tenha favorecido certas redes de circulação e comércio, foi sustentada também por conquista militar, tributação e hierarquias violentas. A Bíblia não permite confundir estabilidade política com justiça plena. Uma sociedade pode parecer ordenada enquanto comunidades inteiras vivem sob medo, fome e exploração. O salmo anuncia que o julgamento de Deus não é capricho arbitrário, mas a manifestação de uma ordem em que os povos são avaliados por uma justiça que não se curva aos mais poderosos. Assim, cantar que Deus reina exige perguntar quem paga o preço da prosperidade, quem é expulso dos territórios, quem tem acesso à saúde e à educação, e quais sofrimentos são escondidos para preservar a imagem de uma nação bem-sucedida.
  •  1 Tessalonicenses 1,1-5b: por sua vez, reconhece na comunidade uma fé que se manifesta em obras, um amor que se traduz em compromisso e uma esperança sustentada pela perseverança. 

Paulo, saúda uma comunidade marcada pela fé atuante, pelo amor dedicado e pela esperança perseverante. A comunidade cristã não é apresentada como plateia passiva de uma doutrina, mas como corpo cuja fé ganha forma histórica. A palavra do Evangelho chega “não somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Tessalonicenses 1,5). Essa passagem impede que a reflexão sobre César termine em um debate abstrato acerca das fronteiras institucionais. A questão decisiva é que tipo de vida comunitária nasce da fé. Uma Igreja que proclama Cristo, mas normaliza a humilhação dos pobres, a violência contra minorias, o racismo ou a corrupção, contradiz o conteúdo de sua própria proclamação. Uma comunidade que ora pela justiça, mas se cala diante de abusos praticados por aliados, transforma a esperança em ornamento. Fé, amor e esperança precisam ser verificáveis em relações concretas, cuidado compartilhado e coragem para enfrentar a mentira.

A unidade dessas leituras não está na defesa de qualquer governo, mas na afirmação de que nenhum poder terreno ocupa o lugar de Deus, nenhuma autoridade pode reivindicar soberania absoluta sobre a consciência humana e nenhuma profissão religiosa é autêntica quando se separa da justiça, da misericórdia e da responsabilidade histórica. A passagem de Mateus integra o conjunto de controvérsias que se intensificam em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de suas ações e ensinamentos no Templo. Na tradição católica romana, Mateus 22,15-21 é proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano A , enquanto Marcos 12,13-17 proclamado  na terça-feira da 9ª semana do Tempo Comum  e Lucas 20,20-26 apresentam os relatos paralelos em seus respectivos contextos evangélicos. As Igrejas históricas que seguem lecionários organizados em ciclos anuais ou plurianuais também acolhem essa narrativa, embora a data exata da proclamação varie conforme o calendário e a tradição litúrgica. O episódio não deve ser reduzido a uma resposta engenhosa sobre impostos, porque o evangelista coloca diante de nós uma disputa sobre autoridade, fidelidade, identidade e liberdade. A moeda apresentada a Jesus torna visível a estrutura política e econômica do Império Romano, enquanto a pergunta aparentemente religiosa revela uma tentativa de transformar a consciência em instrumento de uma disputa pelo poder. É nesse cenário que a palavra de Jesus atravessa os séculos e interroga tanto os governantes que pretendem ocupar o lugar de Deus quanto as comunidades religiosas que confundem fidelidade ao Evangelho com submissão a interesses políticos.

O  pré-texto narrativo ilumina a gravidade do confronto. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém aclamado pela multidão, purifica o Templo e questiona uma ordem religiosa que havia transformado o espaço de oração em lugar de exploração. Nas parábolas seguintes, denuncia lideranças que se apropriam da vinha e recusam reconhecer a responsabilidade recebida, como se observa em Mateus 21,33-46,  proclamado  na sexta-feira da segunda semana da Quaresma e no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A,  Mateus 22,1-14, a parábola do banquete proclamado  na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum e no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A expõe a distância entre o convite de Deus e as respostas humanas. Depois desse conjunto de gestos e palavras, os adversários procuram comprometer Jesus diante das autoridades. A pergunta sobre o tributo não nasce de uma curiosidade fiscal, mas de uma estratégia para fazê-lo parecer colaborador de Roma ou inimigo do imperador. A narrativa revela como a linguagem religiosa pode ser instrumentalizada para silenciar a voz profética: em vez de buscar a verdade, os interlocutores organizam uma armadilha. O texto começa, portanto, com uma denúncia que continua atual: nem toda pergunta feita em nome da fé procura compreender; algumas pretendem controlar, deslegitimar e proteger privilégios ameaçados pela verdade. A questão era explosiva no contexto da Judeia do primeiro século. Roma mantinha seu domínio por meio de tropas, governadores, elites locais e um sistema tributário que extraía recursos de comunidades submetidas. O imposto devido ao imperador recordava diariamente a ocupação e a dependência política. Para agricultores, pescadores, artesãos e trabalhadores, tributos, dívidas e cobranças podiam significar a perda da terra, o empobrecimento doméstico e a vulnerabilidade diante de credores. A moeda não era um objeto neutro: trazia a imagem e a inscrição do governante, expressões materiais de sua autoridade. Em um mundo no qual moedas circulavam junto com símbolos religiosos e políticos, a efígie imperial podia suscitar desconforto entre judeus zelosos da proibição de fabricar imagens para culto, relacionada a Êxodo 20,4-5. Além disso, a inscrição imperial podia atribuir ao César títulos que soavam como reivindicações de honra quase sagrada. A pergunta sobre pagar ou não pagar colocava Jesus diante de um dilema: responder negativamente poderia ser denunciado como rebelião; responder afirmativamente poderia ser apresentado como legitimação da dominação estrangeira. A resposta de Jesus desmonta a armadilha sem fingir que a opressão não existe. Ele pede que lhe mostrem a moeda do tributo e pergunta de quem são a imagem e a inscrição. Seus interlocutores respondem: de César. O gesto é importante: aqueles que tentam encurralá-lo conseguem apresentar a moeda que circula dentro da ordem imperial, expondo a presença concreta dessa ordem na vida cotidiana. Jesus não foge à realidade material nem oferece uma espiritualidade abstrata. Em vez disso, desloca a discussão para a questão fundamental da pertença: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21). A frase não é uma autorização ilimitada para o Estado exigir qualquer coisa, nem uma separação moderna e absoluta entre religião e política. É uma sentença breve, deliberadamente incisiva, que relativiza César e impede que o poder imperial se torne absoluto. Há deveres civis legítimos, mas nenhuma autoridade humana pode reclamar a totalidade da pessoa, sua consciência, sua adoração ou sua dignidade.

A moeda carrega a imagem de César, mas a Escritura afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27). Essa associação não aparece como explicação explícita na fala de Jesus, e por isso deve ser apresentada como uma leitura teológica coerente com o conjunto bíblico, não como uma citação escondida no versículo. Se a moeda pode ser devolvida ao sistema que a emite, a vida humana não pode ser reduzida a propriedade de governantes, mercados ou instituições religiosas. Toda pessoa, inclusive a pobre, a presa, a estrangeira, a migrante e aquela considerada inimiga, carrega uma dignidade que não depende de riqueza, nacionalidade, produtividade ou aprovação social. Quando o poder exige adoração, transforma cidadãos em súditos sem voz e pessoas em instrumentos, ultrapassa seus limites. Quando a religião abençoa essa pretensão, trai o Deus que liberta escravos do Egito e escuta o clamor dos oprimidos, como recordam Êxodo 3,7-10 e Deuteronômio 10,17-19.

Os relatos sinóticos oferecem nuances que enriquecem a interpretação: 

  •  Marcos 12,13-17 apresenta a pergunta e a resposta em um ritmo direto, e termina dizendo que os interlocutores ficaram admirados com Jesus. 
  •  Lucas 20,20-26 destaca a vigilância dos adversários, que enviam espiões fingindo-se justos para entregar Jesus ao poder do governador; ao final, eles não conseguem apanhá-lo em suas palavras diante do povo

A fé pode ser capturada por líderes religiosos ou políticos que se apresentam como representantes exclusivos de Deus e exigem dos fiéis lealdade pessoal a este ou àquele político, como se a fidelidade ao Evangelho dependesse da submissão a um projeto de poder. Bispos, padres, pastores ou quaisquer outras lideranças que concentram decisões, desvalorizam a consciência do povo e transformam ministérios de serviço em espaços de privilégio e dominação acabam traindo a própria missão que afirmam defender. A manipulação religiosa utiliza versículos bíblicos isolados para legitimar projetos políticos, enriquecer dirigentes, conquistar influência ou silenciar denúncias de abuso. Embriagadas pelo próprio prestígio, essas lideranças passam a acreditar que são a moeda mais valiosa da sociedade e perdem a capacidade de enxergar a realidade para além dos próprios interesses. Quando símbolos cristãos são associados à defesa do autoritarismo, à perseguição de adversários ou ao desprezo pelos pobres, a imagem de Deus é instrumentalizada para encobrir a imagem ferida do próximo. Jesus não concedeu a nenhuma religião ou Igreja uma procuração divina para dominar a esfera pública; pelo contrário, chamou suas comunidades a serem testemunhas da verdade que liberta, da justiça que restaura e do amor que não se curva aos privilégios. Isso não significa que os cristãos devam abandonar a política, demonizar as lideranças ou renunciar à participação na vida pública. Significa, antes, que essa participação precisa ser crítica, consciente, plural e comprometida com a dignidade humana, sem transformar partidos em igrejas, políticos em salvadores ou líderes religiosos em donos da consciência alheia. Afinal, o Evangelho não foi anunciado para colocar Deus a serviço do poder, mas para submeter todo poder ao julgamento da justiça, da misericórdia e da verdade.

A conversão exigida pelo Evangelho começa quando permitimos que a Palavra de Deus desmascare as intenções escondidas por trás de nossas escolhas e questione as lealdades que podem ocupar o lugar da própria consciência. A experiência de Jesus diante daqueles que se aproximaram com palavras aparentemente respeitosas, mas movidos pela intenção de colocá-lo à prova, revela uma contradição profundamente humana: nem toda pergunta nasce da busca sincera pela verdade, assim como nem toda profissão de fé expressa fidelidade a Deus. Às vezes, a linguagem religiosa serve para disfarçar ambições, proteger privilégios e deslegitimar quem ameaça interesses estabelecidos. Essa realidade continua presente quando a fé é instrumentalizada para manipular consciências, conquistar apoio eleitoral ou transformar determinadas lideranças em referências incontestáveis. A conversão começa quando deixamos de perguntar apenas se estamos do lado certo e passamos a examinar se nossas escolhas estão realmente comprometidas com a verdade, a justiça e a dignidade humana. 

  • No âmbito pessoal, essa transformação exige que examinemos os ídolos do nosso tempo, aos quais entregamos a atenção, os afetos, os desejos e, muitas vezes, a própria consciência.

 É necessário perguntar o que orienta nossas escolhas: a justiça ou a conveniência, a solidariedade ou o egoísmo, a verdade ou a necessidade de defender aqueles com quem nos identificamos politicamente? Quantas vezes condenamos a corrupção dos adversários, mas relativizamos os desvios dos nossos aliados? Quantas vezes denunciamos a hipocrisia alheia enquanto protegemos nossos próprios preconceitos? Quando a lealdade a um partido, a um governante ou a uma liderança religiosa se torna mais importante do que a verdade, a consciência corre o risco de se transformar em instrumento de interesses alheios. A conversão cristã rompe essa servidão interior, porque nenhuma pessoa ou instituição pode reivindicar autoridade absoluta sobre a consciência humana. Como ensina Paulo, não devemos nos conformar com a mentalidade deste mundo, mas transformar nossa maneira de pensar para discernir a vontade de Deus (Romanos 12,2). A fé amadurece quando somos capazes de reconhecer os erros daqueles que admiramos, sem esconder a verdade para preservar reputações.

  • No âmbito comunitário, essa conversão exige que as Igrejas deixem de ser espaços de aparência religiosa e se tornem comunidades concretas de acolhimento, participação, transparência e cuidado. 
Não basta proclamar o amor ao próximo quando, na prática, pessoas feridas são silenciadas, vítimas de abuso são desacreditadas, mulheres são excluídas de decisões que afetam suas vidas e os recursos comunitários são administrados sem a devida prestação de contas. Uma comunidade verdadeiramente evangélica não teme a escuta, não utiliza a autoridade espiritual para intimidar e não confunde obediência a Deus com submissão incondicional a dirigentes humanos. Bispos, padres, pastores e outras lideranças recebem a missão de servir ao povo e favorecer o encontro com Deus, não de controlar consciências. Jesus apresenta um critério inequívoco para a vida comunitária ao ensinar que a verdadeira grandeza se manifesta no serviço, e não na dominação (Mateus 20,25-28). A credibilidade de uma liderança cristã deve ser reconhecida pela capacidade de acolher, proteger os vulneráveis, prestar contas e assumir os próprios erros. Quando uma instituição protege sua reputação acima da dignidade humana, corre o risco de se tornar cúmplice da injustiça que deveria combater.

  • No âmbito social, a conversão assume a forma de responsabilidade cidadã, compromisso com o bem comum e participação consciente na transformação das estruturas que produzem desigualdade e sofrimento.

 A fé cristã não exige que todos pensem da mesma maneira, nem determina que os cidadãos abandonem suas convicções políticas, mas exige que nenhuma preferência partidária seja colocada acima da dignidade humana e da verdade. Isso implica combater a corrupção independentemente de quem a pratique, defender políticas públicas que protejam a vida, promover condições dignas de trabalho, ampliar o acesso à saúde e à educação, enfrentar a fome e a pobreza e denunciar a violência que seleciona suas vítimas conforme a classe social, a cor da pele, o território onde vivem ou a religião que professam. A desigualdade não é apenas uma estatística econômica, mas uma realidade que atravessa corpos, famílias e gerações, restringindo oportunidades e submetendo milhões de pessoas a condições incompatíveis com sua dignidade. A tradição profética jamais tratou essas feridas como assuntos estranhos à fé. Isaías denuncia a injustiça e exige a defesa dos oprimidos (Isaías 1,16-17); Amós rejeita um culto que convive tranquilamente com a exploração dos pobres (Amós 5,21-24); e Miqueias recorda que Deus pede justiça, misericórdia e humildade, não uma religiosidade preocupada apenas com aparências (Miqueias 6,8).

Essa responsabilidade também nos obriga a reconhecer que a organização da vida coletiva precisa estar submetida a princípios éticos e à defesa dos direitos fundamentais. Governantes são agentes públicos, partidos são organizações políticas e lideranças religiosas são pessoas sujeitas ao discernimento crítico e à responsabilidade por seus atos. Nenhum deles pode ser transformado em objeto de adoração ou apresentado como representante exclusivo da vontade divina. Quando símbolos cristãos são utilizados para legitimar o autoritarismo, justificar a perseguição de adversários ou desprezar os pobres, a religião deixa de questionar os ídolos e passa a colaborar com sua fabricação. A fé é então reduzida a uma identidade de grupo, utilizada para dividir a sociedade entre os supostamente escolhidos por Deus e aqueles considerados indignos de respeito. Entretanto, o Evangelho não autoriza ninguém a confundir preferências políticas com a vontade divina. A fidelidade cristã exige discernimento, liberdade de consciência e disposição para denunciar a injustiça mesmo quando ela é praticada por pessoas que compartilham nossa linguagem religiosa. A verdade não se torna mentira porque prejudica nossos aliados, assim como uma injustiça não se transforma em justiça porque seu autor invoca o nome de Deus. O mandamento do amor ao próximo, reafirmado por Jesus em Mateus 22,39, oferece um critério decisivo para esse discernimento. Amar não significa apenas experimentar compaixão, oferecer uma esmola ocasional ou pronunciar declarações piedosas durante uma celebração. Significa reconhecer no outro uma dignidade que impõe responsabilidades, mesmo quando suas escolhas, sua origem ou suas convicções são diferentes das nossas. A parábola do bom samaritano (Lucas 10,25-37) mostra que o próximo não é definido pelas fronteiras de um grupo religioso, pelas afinidades culturais ou pelas conveniências sociais, mas pela disposição concreta de interromper o próprio caminho para cuidar de quem sofre. Essa exigência desafia uma sociedade habituada a selecionar quais vidas merecem compaixão e quais podem ser abandonadas à própria sorte. Também questiona uma religiosidade que se emociona diante de imagens de sofrimento, mas permanece indiferente às causas que o perpetuam. A justiça bíblica não dispensa a caridade, mas vai além da assistência emergencial: procura reparar danos, restaurar direitos, transformar relações e enfrentar as condições que tornam o sofrimento previsível e recorrente. Dar alimento a quem tem fome é indispensável; trabalhar para que ninguém seja condenado à fome também faz parte da responsabilidade ética de uma sociedade.

Essa compreensão impede que a responsabilidade individual seja utilizada como desculpa para ignorar as injustiças estruturais, assim como impede que a crítica social sirva de justificativa para fugir do exame da própria conduta. A conversão pessoal sem compromisso com o próximo pode degenerar em espiritualidade narcisista; a participação política sem princípios éticos pode transformar-se em mera disputa de interesses; e a religião sem autocrítica pode tornar-se instrumento de manipulação. Por isso, a fé precisa manter unidos o exame da consciência, a transformação das comunidades e a defesa do bem comum. O profeta Amós não separa a adoração da justiça, e Jesus não permite que a devoção seja utilizada para ocultar a dureza do coração. A verdadeira espiritualidade não exige que fechemos os olhos para a realidade, mas que aprendamos a enxergá-la sem os filtros do preconceito, da conveniência e do interesse. Uma comunidade que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa perguntar continuamente quem é acolhido por suas decisões, quem é silenciado por suas estruturas e quem continua pagando o preço de privilégios que outros se recusam a abandonar. Converter-se, portanto, é permitir que o Evangelho ultrapasse as paredes dos templos, alcance as decisões cotidianas e ilumine as estruturas políticas, econômicas e religiosas que moldam nossa convivência. É abandonar a falsa segurança de uma fé que pretende estar ao lado de Deus sem se comprometer com aqueles cuja dignidade é negada. Uma Igreja fiel a Jesus não existe para proteger privilégios, mas para testemunhar a justiça, a misericórdia e a solidariedade. Da mesma forma, uma sociedade mais justa não nasce apenas de discursos moralizantes, mas da disposição de rever prioridades, enfrentar desigualdades, responsabilizar os culpados e criar condições para que os direitos fundamentais sejam efetivamente garantidos. A fé não pode ser reduzida à defesa de uma liderança, à exaltação de uma bandeira ou à repetição de palavras sagradas. Seu critério mais profundo está na capacidade de produzir frutos de justiça e de amor. Reconhecer a soberania de Deus significa recusar que a vida humana seja sacrificada no altar do dinheiro, da ambição ou da indiferença. Onde essa convicção se transforma em prática, a conversão deixa de ser uma palavra abstrata e se torna uma força concreta de transformação pessoal, comunitária e social

O  autor da peric6 afirma que os adversários de Jesus ficaram admirados com sua resposta e se retiraram (Mt 22,22). Mas a admiração não significa conversão. É possível reconhecer a sabedoria de Jesus, citar suas palavras e continuar sustentando estruturas que ferem os pequenos. Sua resposta não foi apenas uma demonstração de inteligência, mas uma provocação que desmascara as armadilhas do poder e questiona nossas alianças, nossos privilégios e nossas cumplicidades. O Evangelho exige mais do que admiração: exige conversão, uma mudança de consciência que se traduza em escolhas concretas, no enfrentamento das injustiças e no compromisso com a dignidade humana. Ao afirmar: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), Jesus não separa a fé da vida pública, nem coloca Deus e César no mesmo nível. No contexto da dominação romana, a moeda trazia a imagem do imperador e expressava sua autoridade. Jesus reconhece as responsabilidades da vida em sociedade, mas estabelece um limite decisivo: César não é Deus, e nenhum poder humano pode exigir fidelidade absoluta ou colocar seus interesses acima da dignidade humana. A autoridade política tem seus deveres e limites; Deus permanece como referência última para julgar suas ações. Essa palavra continua profundamente atual. Quando a religião é utilizada para legitimar governantes, proteger privilégios ou silenciar os pobres, o Evangelho é colocado a serviço de interesses que deveria questionar. Não basta invocar o nome de Deus, ostentar símbolos cristãos ou defender valores religiosos; é preciso perguntar se nossas escolhas promovem a justiça, protegem os vulneráveis e respeitam a vida. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando falam em seu nome.

O fio que une as leituras deste domingo é a soberania de Deus, que relativiza o poder dos impérios e se manifesta na libertação, na justiça e na fé vivida no amor. 

  1. Na primeira leitura (Is 45,1-6), Ciro, rei da Pérsia e governante estrangeiro, é chamado por Deus para abrir caminhos de libertação ao povo exilado. O texto rompe a ideia de que Deus atua apenas por meio dos que pertencem à comunidade religiosa: até um soberano estrangeiro pode servir a um propósito que ultrapassa seus próprios interesses. O poder de Ciro, portanto, não é absoluto; ele próprio se encontra dentro de uma história cujo horizonte último pertence a Deus. Essa perspectiva prepara a pergunta do Evangelho: se até um imperador pode ser instrumento, como poderia algum governante ocupar o lugar de Deus?
  2. O Salmo 95 (96) aprofunda essa afirmação ao proclamar que o Senhor vem julgar a terra com justiça e os povos com fidelidade. Se Isaías mostra que Deus pode conduzir a história por caminhos inesperados, o salmo apresenta o critério pelo qual todo poder deve ser avaliado: a justiça. O julgamento divino não confirma automaticamente os interesses dos governantes; ao contrário, coloca-os sob o exame de uma justiça que não se curva à força, à riqueza ou ao prestígio. Em Mateus, essa mesma lógica impede que César seja tratado como autoridade ilimitada: há responsabilidades humanas legítimas, mas nenhuma delas está acima de Deus e de sua exigência de justiça.
  3. Na segunda leitura (1Ts 1,1-5), Paulo mostra como essa soberania se traduz na vida cotidiana da comunidade cristã. Ele reconhece a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança. 
Assim, aquilo que Isaías anuncia na história e o salmo proclama como julgamento justo deve ganhar forma concreta nas relações entre as pessoas. A fé não se limita a reconhecer verbalmente a autoridade de Deus; ela transforma a maneira de viver, trabalhar, amar e esperar. A comunidade cristã torna-se testemunha do senhorio de Deus não por disputar o poder com os impérios, mas por viver segundo uma lógica diferente: a do amor, da solidariedade e da esperança ativa. As leituras, portanto, não são temas independentes. Isaías revela que Deus conduz a história para além dos interesses dos poderosos; o salmo afirma que toda autoridade será julgada pela justiça; Paulo mostra que essa fé se torna prática no amor; e Jesus estabelece o limite decisivo: César não é Deus. O fio condutor vai da ação libertadora de Deus à justiça que orienta a história e chega à responsabilidade concreta de quem professa a fé. A pergunta que atravessa toda a liturgia é se nossas escolhas reconhecem verdadeiramente a soberania divina ou se, em nome da religião, acabamos legitimando poderes que oprimem e excluem. Por isso, a resposta de Jesus continua a exigir conversão. Não basta admirar sua sabedoria, frequentar celebrações ou invocar o nome de Deus; é necessário rever nossas alianças, denunciar as estruturas que produzem exclusão e defender a dignidade dos pequenos. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando se apresentam revestidas de linguagem sagrada. A fé cristã não nos retira da realidade: responsabiliza-nos por ela..No fim, a moeda pode carregar a imagem do imperador, mas nenhum império é dono da vida humana. A moeda é de César, mas o povo é de Deus!
DNonato - Teólogo do Cotidiano