domingo, 27 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,46-50.

A liturgia da 26ª segunda-feira do Tempo Comum  no trás Lucas 9,46-50 no calendário romano. O Evangelho é proclamado depois da primeira leitura de Jó 1,6-22 e do Salmo 16(17), e aparece imediatamente depois de Lucas 9,43b-45, proclamado no sábado anterior, quando Jesus anuncia novamente que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. Essa sequência litúrgica é importante porque impede que a discussão dos discípulos sobre quem seria o maior seja lida como um episódio isolado. Lucas coloca a disputa por grandeza imediatamente depois do anúncio da paixão, criando um contraste deliberadamente desconcertante: 

  • Enquanto Jesus fala de entrega, os discípulos pensam em posição
  • Enquanto o Mestre anuncia vulnerabilidade, eles discutem precedência
  • Enquanto Jesus caminha para Jerusalém e para a cruz, seus seguidores ainda carregam dentro de si uma expectativa de poder. 
O calendário litúrgico, portanto, permite perceber uma unidade narrativa que o leitor poderia perder se separasse artificialmente os episódios. Outras tradições cristãs históricas organizam suas leituras de maneira diferente, pois não existe um único lecionário utilizado por todas as Igrejas, mas a diversidade dos calendários não elimina a convergência fundamental em torno da tradição evangélica: Jesus redefine a grandeza, deslocando-a do domínio sobre os outros para a capacidade de acolher, servir e colocar-se junto daqueles que não ocupam posições de prestígio. Lucas conduz o leitor até essa cena por um caminho cuidadosamente construído. Em Lucas 9,1-6, proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, Jesus envia os Doze para anunciar o Reino de Deus e curar os enfermos. Em Lucas  9,10-17, a multidão faminta coloca diante dos discípulos uma necessidade concreta que eles não podem simplesmente transferir para outro lugar. O problema do pão passa a fazer parte da missão e em Lucas  9,18-22 na sexta-feira da 25ªsemanadoTempoComum, Pedro reconhece Jesus como o Cristo, mas imediatamente precisa aprender que o Messias não corresponde às expectativas triunfalistas que poderiam acompanhar esse título logo após Lucas 9, 7-9 quando Herode deseja saber quem é Jesus. 
Jesus ao  anunciar sua paixão, a cruz e a necessidade de perder a vida para encontrá-la tal contexto ocorre  com os discípulos  logo apos lucas  9,28-36, a transfiguração manifesta a glória do Filho, mas a experiência da glória não elimina o caminho do sofrimento. Logo depois, quando todos estão admirados com as obras realizadas por Jesus, ele declara que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. É exatamente nesse momento que os discípulos começam a discutir sobre quem seria o maior. A sequência revela uma contradição profundamente humana: Jesus está ensinando uma lógica de entrega, enquanto eles ainda raciocinam segundo uma lógica de posição. O Evangelho não esconde essa imaturidade porque não pretende construir uma imagem idealizada dos primeiros discípulos. Ao contrário, mostra homens que amam Jesus, recebem uma missão e, simultaneamente, precisam permitir que sua maneira de pensar seja transformada pelo caminho do Mestre.

Lucas  ao afirma que surgiu entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior,  não se trata simplesmente de uma curiosidade sobre cargos ou funções. A pergunta revela uma forma de construir identidade por meio da comparação. A pessoa deseja saber quem é perguntando onde está em relação aos outros, a grandeza passa a depender da posição ocupada numa escala de reconhecimento e  esse mecanismo não pertence apenas ao mundo antigo. Ele continua presente na experiência humana contemporânea, nas relações familiares, profissionais, políticas, religiosas e digitais. A comparação pode produzir competição permanente porque o valor pessoal passa a depender da superioridade percebida diante de alguém. 

  • Em vez de perguntar quem sou e para que existo, o indivíduo passa a perguntar se é mais reconhecido, mais influente, mais inteligente, mais rico, mais importante ou mais próximo do centro do poder do que os outros. 

A disputa dos discípulos, portanto, possui uma dimensão antropológica e psicológica profunda. Eles não estão apenas discutindo posições; estão tentando estabelecer seu próprio valor dentro do grupo. A linguagem bíblica do coração ajuda a compreender a profundidade dessa questão, na Escritura, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o centro da pessoa, onde desejos, decisões, projetos e orientações fundamentais se articulam. 

  • Jeremias 17,10 apresenta Deus como aquele que perscruta o coração e examina os pensamentos.
  • O Salmo 139 afirma que Deus conhece os caminhos humanos antes mesmo que sejam plenamente expressos. 
Jesus, portanto, não precisa apenas corrigir o comportamento externo dos discípulos. Ele precisa atingir a fonte interior da disputa. A ambição pode aparecer revestida de linguagem religiosa e até de aparência de serviço. Alguém pode pregar para ser admirado, estudar para humilhar quem sabe menos, coordenar para controlar, servir para acumular reconhecimento ou ocupar um ministério para transformar uma responsabilidade comunitária em território pessoal. A autoridade, entretanto, não é apresentada por Jesus como um mal em si mesma. Toda comunidade necessita de responsabilidades, organização, liderança e discernimento. O problema começa quando a missão se transforma em propriedade, quando a autoridade deixa de ser serviço e passa a funcionar como mecanismo de autopromoção, imunidade ou domínio sobre a consciência dos outros. É nesse contexto que Jesus realiza um gesto simples e profundamente subversivo. Ele toma uma criança, coloca-a junto de si e utiliza aquela presença para ensinar aos discípulos o que significa ser grande. Para compreender o gesto, é necessário evitar uma leitura sentimental que simplesmente projete sobre o mundo antigo a imagem moderna da criança como centro afetivo da família. No ambiente mediterrâneo do primeiro século, a criança dependia profundamente dos adultos e possuía pouca autonomia social, econômica e jurídica. Não representava prestígio, poder ou capacidade de retribuição. Sua condição era marcada pela dependência. Por isso, o gesto de Jesus não deve ser reduzido à ideia abstrata de que crianças são inocentes e, por isso, devemos imitá-las. O ponto narrativo é mais radical: Jesus coloca no centro alguém que não ocupava o centro. Ele introduz na discussão sobre grandeza uma pessoa cuja posição social não conferia prestígio. Aquele que os discípulos provavelmente não escolheriam como referência para uma disputa de poder torna-se a chave para compreender a grandeza no Reino de Deus.

Jesus não responde à pergunta sobre quem é o maior colocando alguém acima dos demais; ele coloca uma criança no meio deles e, assim, muda a própria pergunta. Essa inversão é essencial. O Reino de Deus não cria uma competição religiosa mais sofisticada na qual os humildes competem para demonstrar quem é o mais humilde. Jesus desmonta a própria lógica que transforma a dignidade em uma escala de superioridade. A criança torna-se sinal de uma condição que exige acolhimento, cuidado e responsabilidade. A grandeza passa a ser medida não pelo domínio exercido sobre aqueles que estão abaixo, mas pela disposição de aproximar-se daqueles que não possuem poder para oferecer prestígio em troca. Por isso, a palavra de Jesus sobre receber uma criança em seu nome possui uma profundidade cristológica. Quem recebe uma criança em nome de Jesus recebe o próprio Jesus, e quem recebe Jesus recebe aquele que o enviou. A cadeia da acolhida revela uma teologia da presença e da missão: o enviado não está separado daquele que o envia. Acolher aquele que não pode retribuir torna-se, portanto, uma forma concreta de acolher o próprio Deus. A lógica atravessa toda a Escritura. 

  • Êxodo 3,7-10, Deus escuta o clamor dos escravizados e envia Moisés para libertá-los. 
  • Isaías 58,6-7, o culto agradável ao Senhor está ligado ao rompimento das opressões, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre. 
  • Amós 5,21-24 denuncia uma religiosidade que celebra solenidades enquanto tolera injustiça e exige que a justiça corra como água. 
  • Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. 
  • No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes. 
  • Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão em termos de boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e restauração aos oprimidos.
 A criança de Lucas 9 pertence, portanto, à mesma gramática bíblica da inversão pela qual Deus revela sua presença justamente onde a lógica do prestígio tende a enxergar pouca importância. Quando Jesus afirma que o menor entre todos é grande, ele não está simplesmente criando uma nova tabela de posições. Ele está questionando o próprio princípio segundo o qual o valor humano depende do lugar ocupado diante dos outros. 

  • Marcos 9,33-37 torna explícita a relação entre o primeiro lugar e o serviço, afirmando que quem deseja ser o primeiro deve ser o último e servo de todos. 
  • Mateus 18,1-5 aproxima a pergunta sobre quem é o maior da criança e relaciona essa questão à conversão e à acolhida dos pequenos.
 Lucas possui sua própria ênfase narrativa: coloca a criança ao lado de Jesus e estabelece uma relação entre acolhida, missão e representação daquele que enviou o Filho. As diferenças entre os Evangelhos não precisam ser apagadas em uma harmonização artificial. Marcos enfatiza o serviço, Mateus aprofunda a conversão comunitária e a responsabilidade pelos pequenos, enquanto Lucas relaciona a acolhida do pequeno com a própria acolhida de Jesus e do Pai. As três tradições preservam, entretanto, a mesma ruptura fundamental com uma mentalidade baseada no prestígio. A grandeza cristã, desse modo, não consiste em ocupar uma posição superior, mas em assumir uma existência orientada para o outro. Isso muda também a compreensão da autoridade. O Evangelho não elimina autoridade, liderança ou organização; ele redefine sua finalidade. A autoridade cristã encontra sua legitimidade quando protege, serve, orienta, corrige com justiça, presta contas e cria condições para que os outros cresçam. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para servir e para responder diante daqueles que dependem daquela autoridade. Em Marcos 10,42-45, Jesus contrapõe o modelo dos governantes que dominam ao caminho do Filho do Homem que serve. Em João 13,1-17, o lava-pés transforma essa lógica em gesto corporal. O poder, no Evangelho, não desaparece; ele é convertido em serviço. Quando uma função religiosa passa a funcionar como privilégio, blindagem pessoal ou instrumento de dependência, ela se distancia da lógica apresentada pelo próprio Cristo.

A segunda cena de Lucas 9,46-50 parece mudar de assunto, mas na verdade revela a mesma raiz espiritual. João informa que os discípulos encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque ele não caminhava com eles. O problema agora não é apenas quem é o maior dentro do grupo, mas quem possui o direito de agir fora dele. Primeiro os discípulos querem saber quem ocupa o primeiro lugar entre os seus; depois querem impedir alguém que não pertence ao círculo. Em ambos os casos aparece a mesma tentação de controlar a definição de quem importa, quem pertence e quem pode participar da ação de Deus. A expressão “não anda conosco” é reveladora porque desloca o centro da missão: em vez de perguntarem se uma pessoa está libertando alguém do sofrimento, preocupam-se com sua vinculação ao grupo. Jesus rejeita essa lógica. O bem realizado por outro não precisa carregar a assinatura dos discípulos para ser reconhecido como bem. A questão não significa que Jesus esteja ensinando ausência de discernimento. O Novo Testamento conhece a necessidade de examinar os espíritos, avaliar ensinamentos e distinguir verdade de engano. Primeira João 4,1, por exemplo, recomenda que os espíritos sejam provados. Paulo também oferece critérios para discernir a vida comunitária e seus frutos. O problema é transformar discernimento em monopólio. Discernir significa avaliar segundo a verdade e os frutos; monopolizar significa presumir que somente aquilo que passa pelo nosso controle pode ser legítimo. Lucas 9,50 preserva uma palavra de Jesus que impede essa captura da ação de Deus: “quem não é contra vós é a vosso favor”. A fidelidade a Cristo não significa controlar tudo aquilo que Deus pode realizar por meio de pessoas que não pertencem ao nosso círculo.

Essa advertência possui grande força para as comunidades cristãs contemporâneas. Toda religião organizada corre o risco de transformar fidelidade em propriedade. Um ministério pode tornar-se território pessoal, um carisma pode transformar-se em marca, uma liderança pode exigir dependência emocional e uma estrutura religiosa pode começar a agir como se Deus estivesse obrigado a respeitar suas fronteiras institucionais. O problema torna-se ainda mais grave quando a linguagem espiritual é utilizada para capturar a consciência. A autoridade religiosa pode ser apresentada como vontade divina, a discordância pode ser chamada de rebeldia, perguntas legítimas podem ser tratadas como falta de fé e vítimas podem ser silenciadas em nome da preservação da instituição. Nesse ponto, a religião deixa de conduzir a pessoa à liberdade diante de Deus e começa a produzir dependência diante de líderes.

Jesus oferece outro caminho. Ele não permite que seu nome seja transformado em propriedade privada ou em cabo eleitoral de A ou B. Sua missão não é criar uma elite religiosa capaz de controlar o acesso ao sagrado, mas anunciar e manifestar o Reino de Deus. A comunidade cristã precisa, portanto, aprender a discernir sem controlar, corrigir sem humilhar, exercer autoridade sem dominar e proteger a verdade sem fabricar donos de Deus. O Evangelho não autoriza ninguém a colocar-se no lugar da consciência do outro. A fé cristã pode orientar, ensinar e corrigir, mas não deve transformar o nome de Deus em instrumento para impedir a responsabilidade pessoal, a investigação honesta e a dignidade humana.  Jesus viveu em uma sociedade mediterrânea estruturada por relações de honra e vergonha, patronagem, hierarquias familiares, diferenças econômicas e formas religiosas de pertencimento. A Galileia e a Judeia estavam inseridas no mundo político do Império Romano, embora apresentassem configurações locais complexas e diferentes níveis de administração e autonomia. Nesse universo, honra pública constituía importante forma de capital social. Ser reconhecido como maior significava possuir precedência, voz, influência e capacidade de estabelecer relações favoráveis. A pergunta dos discípulos não é, portanto, uma curiosidade psicológica desligada do mundo social. Ela participa de uma cultura em que posição e dignidade frequentemente se confundiam. Jesus interrompe essa associação. Ele não afirma que responsabilidades sejam desnecessárias, mas recusa a ideia de que uma pessoa seja mais digna porque ocupa uma posição superior.

Ainda hoje a grandeza pode ser medida por seguidores nas redes sociais, patrimônio, visibilidade, cargo, títulos, influência política, proximidade com pessoas poderosas, consumo ou capacidade de produzir audiência. A atenção tornou-se uma espécie de moeda social. Nesse ambiente, o outro pode deixar de ser próximo para tornar-se concorrente, e o valor da pessoa pode ser calculado segundo aquilo que ela consegue produzir, exibir ou devolver. A lógica de Lucas 9 nos obriga a perguntar quem permanece invisível quando construímos nossas prioridades. A pessoa em situação de rua pode ser vista apenas como problema urbano; o migrante pode ser reduzido a estatística; o trabalhador precarizado pode ser lembrado somente quando sua ausência interrompe algum serviço; a criança vítima de violência pode desaparecer do debate quando sua história deixa de produzir audiência. A criança colocada por Jesus no centro da cena questiona precisamente uma sociedade que tende a conceder visibilidade proporcionalmente ao poder de quem aparece. E essa inversão também desafia a incoerência de uma sociedade que afirma proteger os vulneráveis enquanto tolera fome, abandono, violência, exploração, racismo, desigualdade e falta de oportunidades. Uma comunidade pode construir estruturas religiosas grandiosas e permanecer indiferente ao sofrimento cotidiano. Pode falar continuamente sobre família e ignorar crianças expostas à violência. Pode defender a vida em linguagem abstrata e, ao mesmo tempo, não se comprometer com as condições concretas necessárias para que a vida floresça. Tiago 2,14-17 pergunta qual é o valor de uma fé que deseja paz ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. A nossa  fé  não devia  permitir a  separação  entre o culto e a justiça. A fé não pode funcionar como anestesia diante das estruturas que produzem sofrimento.

A Igreja necessita de ministérios, responsabilidades, organização e autoridade. O problema aparece quando a função se converte em privilégio, quando a autoridade passa a significar imunidade à correção, quando a voz de quem sofre é considerada menos digna de escuta simplesmente porque não possui cargo ou título, ou quando uma instituição protege sua imagem em detrimento da verdade. Jesus coloca uma criança ao lado de si, e esse gesto estabelece uma medida para o exercício do poder. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para proteger os vulneráveis, prestar contas e ouvir aqueles que possuem menos voz. A autoridade cristã não deveria perguntar primeiro quantas pessoas obedecem, mas quantas pessoas encontram proteção, dignidade, liberdade e espaço para crescer.

A narrativa de Lucas mostra que essa conversão não acontece de uma vez e em  Lucas 9,51, Jesus toma a decisão de caminhar para Jerusalém. O caminho do Messias será marcado por rejeição, sofrimento, morte e ressurreição. A discussão sobre grandeza ocorre, portanto, diante de uma cruz que os discípulos ainda não conseguem compreender. Mais tarde, em Lucas 22,24-27, já próximo da paixão, eles voltam a discutir sobre quem seria o maior. Jesus responde novamente que está entre eles como aquele que serve e essa repetição é teologicamente importante porque mostra que o discipulado é um processo. Os discípulos recebem a missão, experimentam o poder de anunciar, presenciam milagres, reconhecem Jesus como Messias e, mesmo assim, continuam carregando estruturas de pensamento incompatíveis com o caminho da cruz. O Novo Testamento não esconde esse processo. A comunidade apostólica aprende, erra, discerne, entra em conflito e precisa ser corrigida. Essa honestidade impede tanto a arrogância institucional quanto o desespero diante das fragilidades humanas. A pergunta profética que nasce de Lucas 9,46-50, portanto, não é simplesmente quem ocupa o primeiro lugar. A pergunta mais profunda é:

  •  Quem está sendo colocado no centro quando decidimos, distribuímos recursos, exercemos autoridade e definimos quem merece ser ouvido.
  1.  Uma paróquia pode possuir muitas atividades e ainda estar organizada em torno da visibilidade de poucos
  2.  Um movimento pode denunciar injustiças externas e reproduzir autoritarismo internamente
  3. Uma liderança pode falar constantemente sobre humildade e produzir dependência. 
  4. Uma instituição pode defender a dignidade humana em seus documentos e tratar pessoas concretas como inconvenientes quando elas ameaçam sua imagem. 
O Evangelho exige que também examinemos o modo como utilizamos o poder quando ele passa por nossas mãos, não basta denunciar o poder quando está nas mãos dos adversários, a pergunta de Jesus torna-se especialmente séria quando o poder está do nosso lado..Também é necessário reconhecer o mecanismo que sustenta muitas dessas disputas. A comparação oferece ao indivíduo uma maneira aparentemente simples de definir seu valor: 

  • Sou alguém porque sou mais reconhecido do que outro. 
  • porque tenho mais influência.
  • porque minha opinião pesa mais
  •  porque pertenço a um grupo considerado superior. 
O problema é que essa identidade precisa ser constantemente defendida. Quem constrói seu valor sobre superioridade precisa encontrar continuamente alguém que esteja abaixo. O Evangelho rompe esse mecanismo ao substituir a pergunta “sou maior que quem?” por outra completamente diferente: “a quem estou servindo?”. A primeira pergunta constrói identidade por comparação; a segunda constrói identidade por responsabilidade. Na lógica de Jesus, a maturidade não consiste em vencer a competição pela humildade, mas em deixar de precisar da competição para saber quem somos. Por isso, Lucas 9,46-50 permanece como palavra de juízo e também como palavra de esperança. 

  • É juízo contra a soberba que transforma serviço em autopromoção, contra a religião que fabrica donos de Deus, contra a instituição que esquece os pequenos e contra a comunidade que confunde unidade com uniformidade. 
  • Mas é também esperança porque Jesus não abandona os discípulos por causa de sua imaturidade. Ele os educa. Coloca o pequeno no centro, amplia o horizonte da missão e ensina que o bem não precisa carregar nossa assinatura para ser reconhecido como bem. 
O Reino de Deus cresce quando pessoas encontram libertação, quando vítimas são ouvidas, quando famintos recebem pão, quando crianças são protegidas, quando pobres recuperam dignidade e quando comunidades aprendem a servir sem exigir aplausos. O contraste entre Lucas 9,43b-45 e Lucas 9,46-50 continua sendo  uma das imagens mais fortes para compreender o discipulado cristão. Jesus anuncia que será entregue, enquanto os discípulos discutem quem será o maior. O Filho do Homem caminha em direção à vulnerabilidade, enquanto seus seguidores ainda imaginam a grandeza como posição. A cruz revela, então, o verdadeiro critério da autoridade cristã. O Cristo que será entregue não conquista sua grandeza dominando os outros, mas oferecendo-se por eles. Por isso, qualquer autoridade cristã que se afaste radicalmente da lógica da entrega perde o centro cristológico de sua própria legitimidade. A cruz não é apenas um acontecimento do passado; ela é também o critério pelo qual o poder cristão deve ser julgado.

Que este Evangelho atravesse nossas consciências como palavra viva e revele as disputas escondidas em nosso coração, as estruturas que produzem pequenos e as formas religiosas pelas quais tentamos transformar Deus em instrumento de poder. Que a Igreja tenha coragem de renunciar ao prestígio que não nasce do serviço e reconheça a ação de Deus onde a vida está sendo restaurada, mesmo quando essa ação não acontece dentro das fronteiras que gostaríamos de controlar. Que nossas comunidades sejam conhecidas não pelo tamanho de seus templos, pela celebridade de seus líderes, pela força de suas marcas ou pela quantidade de pessoas que conseguem reunir, mas pela maneira como acolhem aqueles que nada podem oferecer em troca. A grandeza cristã não se encontra acima do outro, mas junto dele; não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que encontram espaço para respirar, crescer e recuperar dignidade. Na  verdade, Jesus não apenas responde à pergunta dos discípulo e as nossas; ele desmonta a pergunta quando ela nasce de uma lógica de competição. A criança colocada no centro revela que o Reino não começa quando os poderosos aprendem a parecer humildes, mas quando aqueles que normalmente seriam empurrados para a margem passam a ser vistos, ouvidos e acolhidos. A segunda cena amplia a mesma revelação ao mostrar que Deus não pode ser aprisionado pelas fronteiras de um grupo. Assim, o Evangelho confronta simultaneamente nossa necessidade de superioridade e nossa necessidade de controle. Ele nos chama a abandonar a obsessão por estar acima e a desenvolver a disposição de estar junto. Diante do Deus revelado em Jesus, toda autoridade encontra sua verdade quando se faz serviço, toda fé encontra sua autenticidade quando produz misericórdia e toda comunidade encontra sua grandeza quando sabe acolher o pequeno. A pergunta permanece diante de cada discípulo e de cada comunidade: quem estamos colocando no centro e quem estamos empurrando para a margem? A resposta será encontrada menos em nossas palavras religiosas do que na maneira como usamos o poder, tratamos os vulneráveis, reconhecemos o bem realizado por outros e organizamos nossa própria vida. Enquanto Jesus caminha para a entrega de si, o discípulo é convidado a abandonar a disputa por posição e aprender, pouco a pouco, que no Reino de Deus a verdadeira grandeza não consiste em estar acima de alguém, mas em tornar-se presença de cuidado, justiça e misericórdia junto daqueles que o mundo insiste em considerar pequenos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 8,1-3..

 
A narrativa de Lucas 8,1-3, usada na liturgia da sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, apresenta uma cena aparentemente simples, mas que, sob o olhar atento da exegese, revela um gesto de profunda revolução social e teológica. Jesus, em sua missão pela Galileia e regiões próximas, não caminha sozinho. Ele é acompanhado por um grupo diversificado de discípulos, incluindo mulheres que desempenham papéis essenciais, servindo não apenas com suas mãos, mas com seus bens e compromisso vital. Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras representam mais do que presença: são testemunhas vivas da inclusão radical do Reino de Deus, desafiando estruturas patriarcais, religiosas e sociais que buscavam silenciá-las. Em uma sociedade fortemente patriarcal, onde mulheres eram restringidas à esfera doméstica e excluídas de espaços públicos de decisão, a presença ativa dessas discípulas demonstra a coragem de romper com o status quo. Elas não se limitam a acompanhar Jesus; participam ativamente de sua missão. Lucas, sensível à marginalização dos pobres, pecadores e mulheres, destaca que a salvação não conhece gênero, classe ou prestígio social. As mulheres de Lucas 8 não são decorativas; elas são estruturantes da comunidade, contribuindo material, espiritual e afetivamente para a missão de Jesus, mostrando que o serviço é uma forma profunda de discipulado.

O paralelo com outros evangelhos evidencia a consistência dessa visão. Em Marcos 15,40-41, vemos as mulheres permanecendo firmes na crucificação, enquanto em Mateus 27,55-56 elas são destacadas por sua fidelidade. Lucas também aponta para a continuidade dessa participação feminina desde a Galileia até Jerusalém, e a narrativa de Lucas 10,38-42, com Maria e Marta, reforça que a escuta e o serviço são igualmente valorizados. Esses paralelos sinóticos revelam que a missão de Jesus se concretiza na solidariedade e na corresponsabilidade, não na exclusão ou no privilégio de alguns.

Quando examinamos essa passagem à luz da hermenêutica e da exegese, percebe-se que Lucas constrói uma teologia do serviço e da comunidade. As mulheres servem não para receber bênçãos materiais ou retorno imediato, mas por amor e gratidão. Aqui, a narrativa se contrapõe à Teologia da Prosperidade, que reduz a fé a uma moeda de troca, e denuncia a fé como mercadoria. A verdadeira fé não se compra nem se manipula; ela se vive na gratuidade do serviço, na entrega desinteressada e na solidariedade para com o outro.

A cena de Lucas também desafia a teologia do domínio e o individualismo religioso. Jesus não organiza sua comunidade segundo hierarquias rígidas ou autoridade coercitiva. Ele promove relações horizontais, onde cada contribuição é reconhecida e cada pessoa valorizada. A psicologia comunitária contemporânea mostra que grupos estruturados com cooperação e corresponsabilidade desenvolvem resiliência, senso de pertencimento e identidade sólida. A sociologia confirma que sociedades hierarquizadas tendem a marginalizar e excluir, reproduzindo injustiça; Lucas propõe um modelo radicalmente alternativo: a comunidade é construída na inclusão e na valorização de todos os membros.

O clericalismo é contestado de forma explícita. Jesus confia sua missão a homens e mulheres, a leigos e leigas, demonstrando que o poder não pertence a poucos, mas que o serviço e o testemunho são responsabilidade de todos. Documentos da Igreja como Christifideles Laici (n. 27-30) e o Catecismo da Igreja Católica (n. 894-896) reforçam esta vocação universal à santidade e ao serviço, enquanto a patrística, em autores como Tertuliano e Hipólito, reconhecia a presença ativa de mulheres no culto e na catequese como expressão da dignidade batismal. Lucas antecipa, de forma profética, uma Igreja inclusiva, onde o dom de cada pessoa é necessário para a vida comunitária.

Historicamente, a coragem das mulheres é ainda mais impressionante. Participar publicamente de uma missão espiritual, no contexto da Galileia e da Judeia, implicava risco social, marginalização e, em alguns casos, exposição ao escárnio. Mas é justamente essa disposição que torna o gesto revolucionário: Jesus redefine o pertencimento ao Reino não pela conformidade, mas pela fidelidade ao chamado de serviço e amor. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, reconhece no serviço ao outro uma expressão da virtude e da realização humana; Lucas 8 concretiza essa ética na vida comunitária de Jesus.

Do ponto de vista antropológico e sociológico, a inclusão das mulheres, assim como de pobres e marginalizados, é uma denúncia profética às estruturas de poder que continuam reproduzindo desigualdades. Em paralelo, a psicologia relacional revela que a presença ativa de todos fortalece a identidade do grupo, promove empatia e constrói resiliência emocional. Lucas nos mostra que o Reino de Deus se manifesta na comunidade, e não na coerção ou na manipulação de interesses pessoais.


As mulheres de Lucas 8,1-3 sustentam a pregação, apoiam a logística da missão e representam simbolicamente a reciprocidade que deve reger a vida da comunidade de fé. Este serviço gratuito e comprometido é uma resistência ética contra a instrumentalização da religião. Elas nos ensinam que a missão da Igreja e o Reino de Deus não se reduzem ao poder ou à riqueza, mas à inclusão, ao serviço e à promoção da dignidade de cada pessoa.

O paralelismo com o Antigo Testamento reforça esta visão: Débora, profetisa e juíza de Israel (Juízes 4-5), liderou com coragem e sabedoria, mostrando que o Espírito não se limita a homens ou elites. Isaías 61,1-3 anuncia a libertação dos oprimidos e marginalizados, e Lucas realiza essa profecia de forma concreta na caminhada de Jesus. A comunidade que Ele forma é um sinal vivo do Reino, uma antecipação do mundo reconciliado, justo e inclusivo.

Em um paralelo contemporâneo, o papel da mulher se mantém central na solidariedade e na transformação social. Assim como Maria Madalena, Joana e Susana contribuíram com seus recursos e serviço na missão de Jesus, hoje mulheres em todo o mundo sustentam comunidades, iniciativas sociais e movimentos de justiça, muitas vezes sem reconhecimento formal, enfrentando desigualdades estruturais, violência e exclusão. Elas se tornam o coração pulsante de projetos de educação, saúde, assistência aos marginalizados e defesa dos direitos humanos, mostrando que a coragem e o compromisso profético narrados no Evangelho continuam vivos. O serviço desinteressado, a solidariedade e a liderança ética das mulheres são hoje, como então, sinais concretos da presença do Reino de Deus entre nós.

De forma complementar, os textos apócrifos e extracanonicos reforçam ainda mais a presença ativa das mulheres no ministério de Jesus. O Evangelho de Maria Madalena descreve Maria como interlocutora privilegiada dos ensinamentos de Cristo, capaz de orientar e consolar os discípulos, confirmando que sua autoridade espiritual era reconhecida. No Evangelho de Filipe, observa-se que mulheres participavam plenamente da vida comunitária e da transmissão dos mistérios do Reino, servindo e ensinando ao lado dos homens. O Evangelho de Tomé inclui ditos que reforçam a importância da percepção feminina na compreensão dos ensinamentos de Jesus. Estas fontes, embora extracanonicas, ecoam o princípio de Lucas: o discipulado não se mede por gênero, mas pelo compromisso com a missão e pelo serviço desinteressado. Elas lembram que a liderança feminina não é novidade, mas continuidade de um padrão que Jesus instituiu e que a Igreja é chamada a cultivar hoje.

Ainda hoje, o exemplo bíblico e apócrifo converge com iniciativas contemporâneas de mulheres que promovem transformação social e espiritual. Em comunidades, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e pastoral urbana, elas se tornam agentes de reconciliação, proteção e educação, muitas vezes enfrentando resistência cultural ou institucional. Este paralelo evidencia que a solidariedade, o cuidado e a coragem para liderar, ensinando e servindo, continuam sendo traços essenciais do discipulado, que Lucas e os textos apócrifos celebram e inspiram.

Ao olhar para Lucas 8,1-3, somos desafiados a refletir sobre a Igreja contemporânea: quantos marginalizados ainda não têm voz? Quantos dons permanecem invisíveis por preconceito, hierarquia ou medo? Como resistir à fé mercantilizada, à teologia do domínio ou ao individualismo religioso? A liturgia nos lembra que o chamado de Deus é inclusivo, que o serviço é maior expressão de fé, e que a verdadeira comunidade é construída na solidariedade e corresponsabilidade, conforme nos ensina Evangelii Gaudium (n. 66) e Fratelli Tutti (n. 272-273).

A profecia de Lucas não é apenas histórica; é prática e contemporânea. Convida-nos à ação concreta: reconstruir comunidades horizontais, incluir os marginalizados, valorizar o serviço gratuito e resistir a estruturas que reduzem a fé a mercadoria ou privilégio. Que possamos, à luz desta passagem, viver uma fé que transforma, acolhe, respeita e promove justiça, fazendo do serviço e da solidariedade expressão concreta do Reino de Deus no mundo.

Assim, Lucas 8,1-3 nos desafia a caminhar com os olhos de Cristo, a construir comunidades de igualdade e reciprocidade, e a perceber que cada gesto de serviço, cada ato de amor gratuito, é um fragmento do Reino que se manifesta hoje. Que nossas ações reflitam a coragem das mulheres que seguiram Jesus, sustentando a missão, resistindo às distorções e anunciando a Boa Nova de Deus, com fidelidade, coragem e generosidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

ANDRÉ MENDONÇA: QUANDO A TOGA PRECISA RESPONDER À REPÚBLICA

“Terrivelmente evangélico.” Foi com essa expressão que Jair Bolsonaro apresentou André Mendonça ao anunciar sua intenção de indicá-lo ao Supremo Tribunal Federal. A frase tornou-se uma espécie de marca política daquela nomeação e permanece no imaginário do debate público, mas seu significado precisa ser colocado no devido lugar, pois ser evangélico não constitui impedimento para o exercício da magistratura, assim como ter sido indicado por um presidente da República não constitui, por si só, prova de submissão ao governo que fez a indicação. Mendonça foi indicado por Bolsonaro, teve seu nome aprovado pelo Senado por 47 votos a 32, em dezembro de 2021, e tomou posse no Supremo naquele mesmo mês. Durante a sabatina, declarou compromisso com o Estado laico, a democracia, a liberdade de imprensa e a separação entre suas convicções religiosas e o exercício da função pública. Esses são os fatos; a interpretação política começa quando se tenta atribuir a eles um significado que os próprios fatos, isoladamente, não autorizam. Há, entretanto, uma mudança fundamental entre o momento da indicação e o exercício da magistratura, porque, antes de chegar ao Supremo, Mendonça havia sido advogado-geral da União e ministro da Justiça do governo Bolsonaro, justamente durante um período marcado por fortes conflitos entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. Em 2020, quando ocupava o Ministério da Justiça, apresentou habeas corpus em favor de Abraham Weintraub no contexto do inquérito das fake news, pedido que acabou rejeitado pelo STF. Esse episódio registra uma atuação institucional concreta e faz parte da trajetória pública do atual ministro, mas não constitui, por si só, prova de irregularidade ou parcialidade. A questão relevante está em outro lugar: justamente porque sua chegada ao Supremo ocorreu depois de uma trajetória de confiança dentro de um governo politicamente confrontado com a Corte, sua atuação posterior precisa demonstrar, de maneira consistente, que a autoridade constitucional do cargo não permaneceu vinculada às circunstâncias políticas de sua nomeação. A independência judicial não se presume pela origem do ministro, mas também não pode ser negada simplesmente por ela; precisa ser observada na prática, ao longo do tempo, pela coerência das decisões, pela fundamentação jurídica, pelo respeito ao devido processo, pela observância das competências institucionais e, sobretudo, pela capacidade de aplicar os mesmos critérios quando mudam os nomes, os partidos e os interesses envolvidos..

É nesse contexto que as controvérsias envolvendo o Banco Master adquiriram importância para o debate público. Um fato confirmado pelo próprio Mendonça é que ele se encontrou com Daniel Vorcaro em março de 2025, antes de se tornar relator de questões relacionadas ao caso. Segundo o ministro, o encontro ocorreu por iniciativa de Vorcaro, durou aproximadamente vinte a trinta minutos e teve caráter de conversa, tendo o gabinete confirmado posteriormente outro contato relacionado a uma alegação apresentada por Vorcaro. É necessário, contudo, preservar rigorosamente a diferença entre aquilo que está comprovado e aquilo que pertence ao campo da interpretação: o encontro é um fato, mas favorecimento, corrupção ou qualquer outro ilícito não decorrem automaticamente dele, de modo que não existe base responsável para transformar uma reunião em prova de crime. Ao mesmo tempo, a ausência de prova de ilícito não elimina a relevância institucional da situação, pois, quando um magistrado mantém contato anterior com alguém que posteriormente passa a ocupar posição relevante em questões submetidas à sua jurisdição, a transparência sobre esses contatos torna-se particularmente importante, não porque a reunião demonstre, por si só, parcialidade, mas porque a confiança pública na Justiça depende também da percepção objetiva de distância entre o julgador e os interesses que chegam à sua mesa. Essa preocupação ganhou outra dimensão diante da decisão de Mendonça que determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição,

Leandro Almada. Segundo a fundamentação apresentada pelo ministro, relatórios de inteligência teriam sido produzidos de maneira indevida e utilizados para monitorá-lo e associá-lo a outras autoridades, alegação que deve ser tratada como tal enquanto a controvérsia permanece submetida aos mecanismos próprios de investigação e controle. A decisão provocou reação institucional, recebeu críticas de especialistas e foi contestada pela Advocacia-Geral da União quanto à extensão da intervenção judicial e aos efeitos sobre atribuições vinculadas ao Executivo, ao mesmo tempo em que recebeu apoio de integrantes da Segunda Turma do STF, tendo o julgamento sido interrompido após pedido de vista. Diante desse quadro, não há base responsável para afirmar que Mendonça tenha cometido uma ilegalidade como fato definitivamente estabelecido; existe, contudo, uma controvérsia constitucional de grande relevância sobre os limites do poder judicial, a autonomia administrativa da Polícia Federal e os mecanismos de controle necessários quando uma decisão dessa dimensão alcança integrantes de uma instituição responsável por atividades de investigação e inteligência.

É justamente nessa zona de tensão que a discussão sobre imparcialidade se torna inevitável. Se houve monitoramento ilegal de um ministro do Supremo, a resposta institucional precisa ser firme, porque nenhuma autoridade está acima da lei, e a Polícia Federal também está submetida aos limites constitucionais. Ao mesmo tempo, quando o próprio magistrado afirma ter sido diretamente atingido pelos fatos e, posteriormente, exerce poder jurisdicional sobre integrantes da instituição envolvida, a exigência de transparência, fundamentação e cautela institucional precisa ser ainda maior. Isso não significa negar a André Mendonça o direito de se defender, muito menos permite concluir, sem provas, que sua decisão tenha sido motivada por interesse pessoal. Significa apenas reconhecer que, em determinadas circunstâncias, a dimensão pessoal e a dimensão jurisdicional podem se aproximar de tal maneira que se tornam necessárias garantias adicionais capazes de preservar a confiança pública na neutralidade da decisão. Imparcialidade não significa apenas ausência de favorecimento; significa também a existência de condições objetivas que permitam à sociedade confiar que o julgamento não foi contaminado por fatores estranhos ao Direito. Um magistrado pode estar sinceramente convencido de que agiu corretamente e, ainda assim, encontrar-se diante de uma situação na qual a transparência e as cautelas institucionais sejam indispensáveis para proteger a própria legitimidade da Justiça. Essa exigência, porém, precisa ser universal: não pode existir uma régua especial para André Mendonça, assim como não pode existir uma régua especial para qualquer outro ministro do Supremo. Se uma decisão de Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro não pode ser automaticamente classificada como perseguição política, uma decisão de Mendonça que contrarie interesses ligados ao grupo político responsável por sua indicação também não pode ser transformada automaticamente em certificado de independência. Da mesma forma, uma decisão contra Lula não prova, por si só, alinhamento à direita, assim como uma decisão contra Bolsonaro tampouco prova, isoladamente, alinhamento à esquerda. O resultado de um julgamento, tomado de forma isolada, não revela a independência de um magistrado; é necessário observar os fundamentos apresentados, as provas consideradas, os procedimentos adotados, os precedentes utilizados e, sobretudo, a coerência com que o Direito é aplicado em situações semelhantes. A Justiça perde credibilidade quando a mesma conduta é considerada legítima quando favorece o grupo político de preferência e suspeita quando contraria seus interesses, pois, nesse caso, o critério deixa de ser jurídico e passa a ser meramente político. A verdadeira imparcialidade, portanto, não pode ser medida pelo lado que comemora ou pelo lado que protesta diante de uma decisão, mas pela capacidade das instituições de demonstrar, de maneira transparente e verificável, que a lei foi aplicada segundo critérios objetivos, independentemente de quem esteja sendo julgado, beneficiado ou contrariado.

A própria trajetória de Mendonça, por outro lado, impede uma interpretação simplista segundo a qual ele seria necessariamente um representante dos interesses políticos de quem o indicou, especialmente porque, em outro episódio, o ministro autorizou uma investigação relacionada a transferências envolvendo a produção do filme Dark Horse, associado à trajetória de Jair Bolsonaro e envolvendo recursos atribuídos a Daniel Vorcaro, enquanto Flávio Bolsonaro negou a existência de irregularidades. Esse episódio precisa ser considerado porque contraria a narrativa de que Mendonça necessariamente atuaria para proteger os interesses do grupo político responsável por sua indicação, e ignorá-lo significaria selecionar os fatos de acordo com uma conclusão previamente estabelecida; contudo, transformar esse episódio em prova definitiva de independência seria cometer o erro inverso, pois um fato que enfraquece determinada hipótese não transforma automaticamente a hipótese contrária em verdade. Uma análise séria precisa suportar a complexidade da realidade sem forçá-la a caber em uma narrativa política previamente escolhida, e é justamente essa disposição que diferencia a crítica da propaganda: enquanto a propaganda seleciona os fatos que confirmam sua tese, a crítica responsável também apresenta aqueles que a enfraquecem. No caso de Mendonça, os fatos conhecidos não autorizam acusá-lo de corrupção, afirmar que tenha favorecido Daniel Vorcaro ou sustentar, sem provas, que suas decisões sejam determinadas por interesses políticos ou pessoais; da mesma forma, não é possível concluir que toda dúvida legítima desapareceu apenas porque determinadas decisões suas contrariaram interesses ligados ao campo político que participou de sua indicação. O que os fatos permitem é uma cobrança institucional rigorosa, uma vez que sua indicação foi politicamente marcada, sua trajetória anterior inclui posições relevantes no governo Bolsonaro, contatos com uma pessoa que posteriormente apareceu em questões submetidas à sua jurisdição vieram a público e decisões recentes provocaram controvérsias sobre os limites da atuação judicial. Nenhum desses elementos, isoladamente, prova parcialidade, mas, considerados em conjunto, justificam escrutínio público e exigem um padrão elevado de transparência, coerência, fundamentação e respeito aos limites institucionais.

É nesse ponto que a expressão “terrivelmente evangélico” precisa ser recolocada no debate, não como ataque à fé de Mendonça, mas como uma reflexão necessária sobre o uso político da religião, pois a fé pertence à liberdade de consciência e não pode ser transformada em critério de desqualificação para o exercício de uma função pública. Um magistrado pode ser evangélico, católico, judeu, espírita, ateu ou professar qualquer outra convicção, porque o Estado laico não exige pessoas sem religião ocupando suas instituições, mas exige que nenhuma religião seja transformada em fonte superior de autoridade estatal. A questão, portanto, não está na fé que Mendonça professa, mas na capacidade de manter claramente distintas sua consciência religiosa e sua responsabilidade constitucional, uma vez que sua fé pode contribuir para a formação de sua consciência pessoal, mas sua jurisdição precisa encontrar sua legitimidade na Constituição, na ordem jurídica e nos princípios republicanos, e não na autoridade de uma determinada tradição religiosa. Para um cristão, essa distinção encontra fundamento no próprio Evangelho, pois, quando Jesus afirma “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17), estabelece uma fronteira que impede a apropriação absoluta do sagrado pelo poder político e, ao advertir os discípulos:  “Entre vós não deverá ser assim” (Lc 22,26),  confronta uma concepção de autoridade fundada no domínio, no privilégio e na busca de poder sobre os outros, enquanto Miquéias sintetiza a responsabilidade de quem pretende caminhar com Deus em uma exigência que atravessa os séculos: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8); por isso, para um cristão que ocupa uma das posições de maior autoridade da República, essa palavra se torna particularmente exigente, porque a fé não concede imunidade moral, superioridade jurídica nem autorização para transformar convicções religiosas particulares em norma pública, e a tradição profética das Escrituras faz justamente o contrário: coloca o poder sob julgamento e pergunta não apenas o que a autoridade diz, mas também o que ela produz concretamente em termos de justiça, dignidade humana e responsabilidade diante da sociedade. Por isso, a crítica a André Mendonça pode ser contundente sem abandonar a veracidade. Não é necessário atacar sua religião, transformar sua indicação por Bolsonaro em prova de submissão, converter encontros ou relações anteriores em evidências de corrupção, nem atribuir intenções que os fatos disponíveis não demonstram. A crítica mais forte é justamente aquela que não precisa exagerar os acontecimentos, porque os próprios fatos, quando examinados com seriedade, já são suficientes para formular perguntas legítimas sobre a atuação institucional. É necessário perguntar se houve transparência adequada nos contatos anteriores, se as cautelas institucionais foram suficientes diante das circunstâncias, se os limites entre a defesa da própria honra e o exercício da jurisdição foram devidamente preservados, se as decisões permitem um controle público e institucional adequado e, sobretudo, se os mesmos critérios utilizados diante de adversários políticos também são aplicados quando estão envolvidos aliados, antigos aliados ou pessoas politicamente próximas. Essas perguntas, por si mesmas, não constituem condenação, muito menos autorizam acusações sem provas; constituem, antes, o exercício legítimo da cidadania em uma democracia constitucional. O Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição singular na República, pois seus ministros não são eleitos diretamente pelo povo, mas exercem poderes capazes de produzir efeitos profundos sobre a vida política, institucional e social do país. Quanto maior o poder exercido por uma instituição ou por seus integrantes, maior deve ser também a responsabilidade pública, a transparência e a disposição para prestar contas dentro dos mecanismos constitucionais de controle. O Supremo não pode estar acima da crítica, assim como seus ministros não podem ser transformados em personagens de uma guerra política na qual cada decisão é celebrada ou condenada simplesmente de acordo com a torcida, a preferência ideológica ou a conveniência do momento. Uma democracia madura exige algo mais difícil: instituições suficientemente fortes para suportar a crítica sem tratá-la como ameaça, suficientemente independentes para não se submeterem às pressões políticas e suficientemente responsáveis para reconhecer seus próprios limites. A independência judicial não significa ausência de questionamento, assim como crítica ao Judiciário não significa ataque à democracia; ao contrário, quando realizada com fatos, argumentos, respeito ao devido processo e compromisso com a verdade, a crítica é parte da própria vitalidade democrática e ajuda a preservar aquilo que deve estar acima de pessoas, governos, partidos e grupos de poder: a Constituição e o Estado Democrático de Direito.

O cidadão não deveria precisar conhecer a religião de um ministro, suas antigas relações políticas ou o grupo que participou de sua indicação para tentar adivinhar como ele decidirá; deveria poder confiar que cada decisão será resultado da Constituição, das provas, do devido processo legal, da legislação aplicável e de uma fundamentação jurídica submetida ao controle institucional. Essa é a verdadeira prova de independência: não decidir para agradar quem indicou, nem para agradar aqueles que combatem quem o indicou; não proteger amigos, nem perseguir adversários, e muito menos transformar a toga em instrumento de vingança, proteção ou afirmação ideológica. A toga precisa ser forte o suficiente para contrariar o poder, inclusive aquele que um dia abriu o caminho para a chegada do magistrado ao cargo, e, ao mesmo tempo, humilde o suficiente para reconhecer que nenhum juiz, por mais elevada que seja sua função, está acima da Constituição.

André Mendonça não precisa apagar sua história, esconder sua fé ou negar que foi escolhido por Jair Bolsonaro; precisa, como qualquer ministro do Supremo Tribunal Federal, demonstrar que sua autoridade constitucional não pertence ao presidente que o indicou, ao grupo religioso ao qual pertence, ao setor político que apoiou sua nomeação ou aos adversários que hoje questionam sua atuação, porque, uma vez investido na função, sua autoridade pertence à Constituição e deve ser exercida em nome da República. Por isso, a pergunta decisiva não é de onde veio o ministro, quem celebrou sua nomeação ou quem desconfia de sua atuação, mas a quem ele responde quando o poder está em suas mãos: não a um presidente, partido, igreja, grupo ideológico, amigo ou adversário, mas ao Direito, à Constituição e às instituições republicanas. A toga não existe para servir aos que aplaudem nem para punir aqueles que incomodam; existe para garantir que a lei seja aplicada com independência, imparcialidade e devido processo legal. É justamente nesse ponto que situações concretas exigem transparência e escrutínio público: se um juiz ou ministro se reúne com o advogado de um banqueiro preso, essa circunstância, por si só, não permite concluir automaticamente que exista impedimento ou parcialidade, mas pode legitimamente suscitar questionamentos sobre eventual conflito de interesses, suspeição, impedimento e aparência de imparcialidade, especialmente se posteriormente esse magistrado participar de decisões que afetem diretamente a investigação, a prisão ou os agentes públicos envolvidos. Um juiz pode decidir sobre o afastamento de um policial que efetuou a prisão de um investigado? Em tese, pode haver competência jurídica para uma decisão dessa natureza, mas a questão fundamental é saber se foram observadas as regras de competência, o devido processo, a fundamentação da decisão e, sobretudo, a imparcialidade exigida de quem exerce jurisdição. Em uma República democrática, não basta que a decisão seja formalmente possível; é necessário que também seja juridicamente fundamentada, institucionalmente legítima e capaz de resistir ao escrutínio público. Afinal, quando a toga entra em conflito com interesses políticos, econômicos, religiosos ou pessoais, a pergunta permanece a mesma: a quem responde aquele que recebeu o poder de julgar? A resposta constitucional não pode ser ao presidente que o indicou, aos grupos que o apoiaram nem aos que hoje o pressionam, mas à Constituição, à Justiça e à República.

DNonato - Teólogo do Cotidiano