Nos relatos do Evangelho segundo Marcos, do Evangelho segundo Mateus, do Evangelho segundo Lucas e do Evangelho segundo João, o pedido de sinais reaparece como um refrão inquietante. Não se trata de ausência de evidências. Cegos veem (cf. Mc 8,22-26), leprosos são purificados (Mc 1,40-45), paralíticos caminham (Mc 2,1-12), multidões são alimentadas (Mc 6,30-44; 8,1-10). Ainda assim, líderes religiosos e parte do povo exigem algo mais. Querem uma prova que se encaixe em suas expectativas messiânicas e legitime suas leituras teológicas e seus projetos políticos. A incredulidade bíblica raramente nasce da falta de fatos; nasce da resistência do coração.
Em Mateus e Lucas aparece a referência ao “sinal de Jonas” (Mt 12,39-41; Lc 11,29-32). Jonas desce às profundezas e retorna, tornando-se sinal de conversão para Nínive. A menção antecipa a Páscoa de Cristo: morte e ressurreição como sinal definitivo. A rainha do Sul, que percorreu longa distância para ouvir a sabedoria de Salomão, é evocada como contraste à indiferença de quem tem diante de si algo maior que Salomão e, ainda assim, permanece fechado. Em João, após o discurso do pão da vida (Jo 6), muitos se retiram porque a palavra exige adesão profunda. A pedagogia divina não anula a liberdade; oferece sinais que apontam além de si, mas não impõe fé.
A tradição bíblica ajuda a iluminar o episódio. Em Ex 17,1-7, o povo testa o Senhor em Massa e Meriba, perguntando se Deus está no meio deles. O Sl 78 recorda a sucessão de prodígios seguidos por murmurações. Jr 5,21 denuncia um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. Ez 36,26 promete a substituição do coração de pedra por um coração de carne. A Escritura insiste: o problema não é escassez de teofanias, mas endurecimento interior. A memória seletiva apaga o que não convém às expectativas imediatas.
A exigência de um sinal do céu dialoga com tradições veterotestamentárias nas quais o céu se abre para autenticar um enviado: o maná que desce (Ex 16), o fogo que consome o sacrifício de Elias (1Rs 18), o recuo da sombra no tempo de Ezequias (2Rs 20). Contudo, a mesma tradição registra que sinais não garantem fidelidade. Pouco depois do Sinai, ergue-se o bezerro de ouro (Ex 32). O povo que atravessou o mar reclama no deserto. A memória bíblica é pedagógica: o prodígio não substitui a conversão, Isaias 7, 7-14 oferece paralelo elucidativo. Acaz recebe a oferta de um sinal em meio à crise política, mas recusa sob pretexto de piedade. Já decidiu confiar em alianças militares. O problema não é falta de intervenção divina, mas cálculo estratégico. Em Marcos, a exigência de sinal também envolve cálculo. Reconhecer Jesus implicaria rever posições, perder controle sobre a interpretação da Lei e abrir mão de privilégios. A fé autêntica comporta risco e deslocamento.
A multiplicação dos pães, que precede o episódio, ecoa 2Rs 4,42-44, quando Eliseu alimenta muitos com poucos pães, e remete ao Êxodo. O gesto de tomar, bendizer, partir e distribuir atravessa todo o evangelho e culmina na última ceia. O verdadeiro “sinal do céu” manifesta-se no pão que circula entre mãos humanas e elimina a fome. Isaías 58,6-7 já associava o culto agradável a Deus à partilha com o faminto. A crítica profética desloca o foco do ritual para a justiça. Am 5,21-24 rejeita solenidades divorciadas da prática do direito. O extraordinário, quando separado da ética, torna-se vazio.
O contexto histórico do primeiro século torna o pedido de sinal ainda mais compreensível. A Palestina vivia sob domínio do Império Romano. A carga tributária, a presença militar e a humilhação política alimentavam o desejo de libertação. Muitos aguardavam um Messias que repetisse os prodígios de Moisés, fizesse descer pão do céu e derrotasse inimigos com poder visível. O templo de Jerusalém, administrado por elites sacerdotais, era centro religioso, econômico e político. Alianças entre religião e poder mantinham privilégios e controlavam a população. Pedir um sinal era, em parte, pedir legitimação pública: prova-nos que és o Messias segundo nossos moldes; confirma nosso projeto de restauração nacional e religiosa. O judaísmo do Segundo Templo conhecia literatura apocalíptica que anunciava sinais cósmicos (cf. Dn 7; Jl 3). Jesus, porém, proclama que o Reino já está próximo (Mc 1,15). O tempo não é de cálculo de fenômenos celestes, mas de discernimento histórico. A cruz será o sinal paradoxal. O centurião romano, representante do império, reconhece o Filho de Deus ao ver o Crucificado (Mc 15,39). Paulo sintetiza essa inversão em 1Cor 1,22-25: alguns pedem sinais, outros buscam sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado, escândalo e loucura que revelam a verdadeira sabedoria divina. O suspiro de Jesus diante da exigência revela uma dimensão afetiva profunda. O texto de Marcos afirma que Ele suspira profundamente em seu espírito (Mc 8,12). O lamento recorda Os 11,8-9, onde Deus expressa dor diante da infidelidade do povo. A antropologia bíblica compreende o coração como centro da decisão. “Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais o coração” (Sl 95,7-8). A resistência pode revestir-se de zelo religioso, mas permanece fechamento à ação transformadora de Deus.
A travessia para a outra margem encerra o episódio com força simbólica. Na tradição bíblica, as águas representam caos e passagem. O mar do Êxodo inaugura um povo; o Jordão marca nova etapa; o batismo de Jesus abre seu ministério. Permanecer exigindo provas é permanecer à margem. A confiança conduz ao outro lado, onde Deus se revela não por espetáculo, mas por fidelidade cotidiana.
A Escritura também adverte contra sinais enganadores. Dt 13 orienta a examinar o conteúdo da mensagem antes de aceitar o prodígio. Mc 13,22 alerta para falsos messias que realizarão grandes sinais para seduzir. 2Ts 2,9-10 fala de manifestações que iludem os que rejeitam a verdade. O extraordinário nunca é critério absoluto; a fidelidade à vontade de Deus é o discernimento decisivo. Essa tensão ecoa no presente. Em contextos marcados por desigualdade, violência e polarização, cresce a busca por garantias sobrenaturais que ofereçam sensação de controle. Do ponto de vista psicológico, experiências intensas podem gerar dependência emocional sem produzir transformação ética. Sociologicamente, onde instituições falham, proliferam propostas religiosas que prometem soluções imediatas. A fé corre o risco de ser reduzida a técnica de prosperidade ou mecanismo de ascensão social. O milagre torna-se produto; o testemunho, propaganda; o culto, espetáculo.
A tradição bíblica confronta tal distorção. Tiago afirma que a prova da fé produz perseverança (Tg 1,3) e que fé sem obras é morta (Tg 2,17). Jesus adverte que nem todo o que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino, mas aquele que pratica a vontade do Pai (Mt 7,21-23). A espiritualidade autêntica une experiência e ética, mística e justiça. Isaías e Amós denunciam jejuns e cânticos que não se traduzem em libertação dos oprimidos. O culto divorciado da vida torna-se caricatura do sagrado.
No mundo contemporâneo, marcado por discursos religiosos que se alinham a projetos de poder e por retóricas que instrumentalizam a fé para legitimar nacionalismos excludentes, o pedido de sinais pode ocultar outra intenção: buscar confirmação divina para agendas humanas. A história mostra como religião e poder podem se aliar para manter privilégios. O evangelho, porém, revela um Messias que rejeita o triunfalismo, recusa transformar pedras em pão para autopromoção e escolhe o caminho da cruz.
Jesus realiza sinais, mas não os transforma em propaganda. Frequentemente ordena silêncio (Mc 1,44; 5,43). Recusa lançar-se do pináculo do templo para impressionar (Mt 4,5-7). Sua autoridade manifesta-se na compaixão: toca leprosos, acolhe crianças, dialoga com marginalizados, denuncia hipocrisia. O poder divino aparece como serviço. A cruz torna-se critério hermenêutico. Ali, Deus se revela na fraqueza. A ressurreição não é espetáculo midiático, mas encontro transformador que gera comunidade reconciliada (At 2,42-47).
Se faz necessário ter consciência que o milagre é seta, não destino final. Quando a multidão busca Jesus após a multiplicação dos pães, Ele revela a motivação: procuram-no porque comeram e se fartaram (Jo 6,26). A fé baseada apenas na vantagem material é instável. A mesma multidão que aclama pode rejeitar. A adesão autêntica nasce do reconhecimento de quem Ele é, não apenas do que concede. A busca por sinais expressa o desejo humano de segurança diante da incerteza. Em sociedades feridas por desigualdade estrutural e frustrações coletivas, o milagre promete ruptura instantânea. Contudo, o evangelho aponta para transformação que envolve perseverança, conversão e compromisso com a justiça. O verdadeiro milagre é o coração de pedra que se torna coração de carne; é a comunidade que reparte bens; é a reconciliação que supera ódio; é a coragem profética que denuncia injustiças mesmo sem aplausos.
A geração que pediu sinais não percebeu que o maior sinal estava diante dela. O Reino manifestava-se na mesa partilhada, na dignidade restaurada, na inclusão dos excluídos. O pedido de espetáculo revelava incapacidade de reconhecer a presença de Deus na simplicidade. A geração atual enfrenta risco semelhante quando confunde intensidade emocional com autenticidade espiritual e sucesso visível com bênção divina.
O texto de Marcos termina com Jesus recusando conceder o sinal exigido e atravessando para outra margem. O gesto é pedagógico. Deus não se submete à manipulação. A fé não nasce de imposição, mas de encontro. O sinal definitivo já foi dado: o Crucificado ressuscitou. A questão não é se haverá prodígios suficientes para satisfazer curiosidades, mas se haverá corações dispostos a seguir o caminho do amor que transforma estruturas, confronta injustiças e constrói uma espiritualidade fiel, livre do espetáculo e enraizada na presença constante de Deus na história. Assim, a perícope de Marcos 8,11-13 permanece atual e provocativa. Ela denuncia a tentação permanente de reduzir Deus a garantidor de expectativas humanas e convida a discernir o agir divino na partilha, na justiça e na cruz. Entre o pão repartido e o pedido de um sinal do céu, o evangelho traça uma escolha. Permanecer na lógica do espetáculo ou atravessar para a outra margem da confiança. O Reino não se impõe com fogos no firmamento; cresce como semente na terra. E é nessa fidelidade silenciosa que o verdadeiro sinal se revela.
DNonato - Teólogo do Cotidiano







