domingo, 2 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 14,22-36

 "Travessia e grito: quando o Evangelho exige sair da margem"

Na segunda-feira da 18ª Semana do T.empo Comum, a liturgia nos apresenta o episódio de Jesus caminhando sobre as águas Mateus 14,22-36, à primeira vista, isso pode causar estranheza, pois, na sequência habitual do Lecionário nos anos B dedicada a leitura  do Evangelho  de Marcos  e C dedicada ao evangelho  de Lucas, essa perícope é proclamada na terça-feira, enquanto a segunda-feira é dedicada ao relato da multiplicação dos pães Mateus  14,13-21 e proclamada na segunda-feira da 18ª semanado Tempo Comum. Essa alteração ocorre quando o Ano A dos domingos coincide com o dos dias de semana. Como o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum já proclama a multiplicação dos pães, a Igreja evita repetir o mesmo texto na segunda-feira e prossegue diretamente para a narrativa da terça-feira  da 18ª semanadoTempoComum. Trata-se de uma adaptação pedagógica do Lecionário, que preserva a riqueza da proclamação dominical e, ao mesmo tempo, mantém a continuidade do capítulo 14 de Mateus. Essa opção litúrgica possui também um profundo significado teológico. Somos conduzidos imediatamente da mesa da abundância para a travessia da tempestade,  o mesmo Jesus que alimenta a multidão é aquele que obriga os discípulos a entrarem na barca e seguirem para a outra margem. O verbo grego anankázō ("obrigar", "compelir"), empregado por Mateus (14,22), revela que não se trata de um simples convite, mas de um imperativo: os discípulos precisam partir, mesmo sem compreender plenamente o caminho. A cena se desenrola durante a noite. A barca encontra-se no meio do mar, o vento é contrário e Jesus ainda não está visivelmente com eles. Na tradição bíblica, o mar simboliza as forças do caos e da morte (cf. Sl 74,13-14; Is 51,9-10), enquanto a travessia representa o caminho da fé, marcado por provações e amadurecimento. A ausência momentânea de Jesus não significa abandono, mas torna-se uma pedagogia espiritual: é nas noites escuras da existência que os discípulos são chamados a confiar na presença daquele que, mesmo invisível, continua conduzindo a história.

Então na sequência  a liturgia estabelece uma ligação inseparável entre os dois episódios. O milagre do pão desemboca na prova da fé,  a providência experimentada na multiplicação prepara os discípulos para enfrentar os ventos contrários. Aquele que sacia a fome do povo é o mesmo Senhor que caminha sobre as águas, vence o caos e revela sua identidade divina. A mesa da abundância conduz à travessia da confiança, ensinando que a fé amadurece quando reconhecemos Cristo não apenas no pão repartido, mas também nas tempestades da vidaNeste cenário hostil, Jesus se aproxima, mas os discípulos não o reconhecem. O medo distorce o olhar. Acham que é um fantasma. É sempre assim: quando estamos dominados pelo medo, até Jesus nos parece ameaça. A resposta dele, porém, é imediata: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). O "Sou eu" (ἐγώ εἰμι) evoca o nome de Deus revelado a Moisés na sarça ardente (Ex 3,14). É mais do que uma autodeclaração de identidade; é uma epifania. Jesus se revela como o Deus presente na tempestade, Aquele que domina o caos e atravessa conosco as noites escuras da história.

Pedro, então, pede para ir ao encontro dele sobre as águas. É um pedido ousado, expressão de uma fé que deseja caminhar além da segurança da barca. Jesus consente. Pedro caminha. Mas, ao sentir a força do vento, se atemoriza e começa a afundar. O medo paralisa, afunda, derruba. Pedro grita: "Senhor, salva-me!". Jesus estende a mão, segura-o e diz: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" (Mt 14,31). A travessia exige confiança. Duvidar é tirar os olhos de Jesus e fixá-los no vento. Mas, mesmo na dúvida, o grito por salvação é escutado, e a mão de Jesus nos alcança. Esse grito ressoa hoje nos recantos mais dolorosos da Igreja: nos silêncios cúmplices diante dos abusos, nas liturgias desconectadas da vida, nas alianças que trocam o Evangelho pelo prestígio político. É o grito de um corpo eclesial que precisa mais do que reformas administrativas: precisa reaprender a gritar por salvação. A fé que se recusa a sair da margem para permanecer em portos seguros torna-se cúmplice do sistema, como os sacerdotes e levitas que evitam o ferido à beira do caminho (cf. Lc 10,31-32), a religião que não se lança à travessia transforma o Evangelho em retórica, e não em revolução.

Santo Agostinho comentava que "a barca é figura da Igreja; o mar, do mundo; e o vento, das tentações. Quando a caridade esfria, o barco se agita" (In Iohannis Evangelium Tractatus, 2),  a  cena não é só eclesial, também  não  só  pessoal. Cada um de nós é Pedro, cada um de nós precisa ousar sair da barca, arriscar-se na direção de Jesus e, ao sentir o peso do vento e das ondas, aprender a gritar: "Senhor, salva-me!". Ninguém caminha sobre as águas sem medo e  ninguém é salvo sem confiar na graça  e misericórdia .

Os relatos de Mateus 14,22-36 e Marcos 6,45-52 proclamado quarta-feira após a Solenidade da Epifania do Senhor, quarta-feira da 14ª semana do Tempo Comume no 19º Domingo do Tempo Comum, "Ano B" que apresentam a travessia como consequência direta da multiplicação dos pães , enfatizando o afastamento de Jesus para o monte e a permanência dos discípulos no mar agitado. Em ambos, Jesus caminha sobre as águas e acalma os discípulos. No entanto, Mateus é o único que insere o episódio de Pedro tentando caminhar sobre as águas, sublinhando o drama pessoal da fé em crise, o grito por salvação e o toque da mão de Jesus,  um detalhe com alto valor teológico e simbólico. Lucas não narra este episódio. Já João, que não é sinótico, relata o mesmo acontecimento (Jo 6,16-21) com seu estilo próprio: omite o episódio de Pedro e acentua que a barca chegou “imediatamente” ao destino ao acolherem Jesus,  símbolo joanino da presença que realiza a travessia. Cada evangelista oferece, assim, uma lente própria: Marcos destaca o endurecimento do coração dos discípulos, João acentua a presença reveladora de Jesus, e Mateus foca na fé que se arrisca e vacila, mas é sustentada pelo Senhor. O mar agitado também habita a interioridade humana. Há noites em que a fé parece diluir-se na ansiedade, em que o rosto de Deus desaparece sob as brumas da dúvida. Como ensina São João da Cruz, essas são noites purificadoras, onde o silêncio de Deus é mais presença do que ausência, mais fogo do que ausência de luz. A travessia do lago continua sendo a travessia da Igreja e de cada discípulo. Depois do pão partilhado, chega a hora da confiança; depois do entusiasmo da multidão, vem a noite da fé. O Evangelho nos recorda que os milagres não eliminam as tempestades, mas revelam Quem caminha conosco em meio a elas. Cristo não promete um mar sem ventos, mas a sua presença no coração da tormenta.

Também hoje a Igreja enfrenta ondas violentas: a tentação do poder, o clericalismo, os escândalos que ferem a credibilidade do Evangelho, a indiferença diante dos pobres e a sedução de ideologias que instrumentalizam a fé. Nesse cenário, a resposta não está em permanecer ancorados em portos seguros, mas em voltar o olhar para Cristo. Quando a comunidade fixa os olhos apenas nas ondas da crise, afunda no medo; quando os fixa no Senhor, reencontra a coragem para continuar a travessia. Cada um de nós é chamado a descer da barca das falsas seguranças, enfrentar as águas da própria história e aprender que a fé não é ausência de medo, mas confiança que permanece apesar dele. E, quando as forças faltarem, basta repetir a oração mais sincera do Evangelho: "Senhor, salva-me!". A mão de Cristo continua estendida. Ele não abandona quem vacila, mas sustenta quem, mesmo entre dúvidas e lágrimas, persevera em buscá-lo.

Que esta Palavra nos ensine a atravessar as noites da vida com esperança, certos de que Aquele que venceu o caos continua dizendo à sua Igreja e a cada um de nós: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). Essa é a certeza que transforma a tempestade em caminho, o medo em confiança e a travessia em encontro com o Senhor. Avancemos, mesmo com o medo nos ombros. Caminhemos, mesmo com as águas sob os pés. A barca está viva, porque Aquele que caminha sobre o caos ainda diz: "Coragem! Sou eu!" E sua mão continua estendida. Que ninguém se iluda com calmarias compradas; que todos se deixem curar pelas travessias que tocam. E que a fé, entre ventos e ondas, permaneça como travessia que salva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sábado, 1 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,13-21 - 18⁰ Domingo do Tempo Comum.

A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A) nos apresenta um conjunto de leituras profundamente articuladas entre si: Isaias 55,1-3; Salmo 144(145),8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16); Romanos 8,35.37-39 e Mateus 14,13-21. Longe de constituírem textos independentes, elas formam uma única catequese sobre o Deus da Aliança, que escuta o clamor dos famintos, permanece fiel ao seu povo e, em Jesus Cristo, inaugura o banquete messiânico onde ninguém é excluído. A liturgia conduz a assembleia por um itinerário teológico que parte do convite gratuito à vida proclamado por:  Isaías, passa pelo testemunho do Deus providente cantado pelo salmista, encontra Paulo em Romanos a certeza de um amor que jamais abandona os seus e alcança sua plenitude no gesto de Jesus que parte o pão no deserto. A abundância prometida pelos profetas torna-se realidade na pessoa de Cristo, verdadeiro Pão da Vida, antecipando a Eucaristia e o banquete definitivo do Reino.

A perícope de Mateus 14,13-21 já foi objeto de outras reflexões em nosso blog, como Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 , Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso e Um breve olhar sobre João 6,1-15 (2025), bem como em nosso canal no YouTube. Vale recordar ainda que esse mesmo Evangelho é proclamado na segunda-feira da 18ª Semana do Tempo Comum. No Ano A, porém, ele ocupa o lugar central da celebração dominical, evidenciando a importância teológica desse relato na caminhada da Igreja e na pedagogia litúrgica que conduz progressivamente ao discurso do Pão da Vida.

  • A primeira leitura Isaías 55,1-3:  pertence ao chamado Segundo Isaías (Is 40–55), escrito nos últimos anos do exílio babilônico. Israel atravessa uma das maiores crises de sua história. Jerusalém encontra-se destruída, o Templo foi reduzido a ruínas e o povo experimenta o drama da perda da terra, da identidade e da esperança. É justamente nesse contexto de aparente fracasso que o profeta anuncia uma palavra de extraordinária esperança: "Vós todos que tendes sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei." A força desse convite está precisamente em sua gratuidade. Água, vinho, leite e pão não designam apenas bens materiais, mas tornam-se símbolos da vida plena oferecida por Deus. A água representa a vida que brota gratuitamente da fidelidade divina; o vinho recorda a alegria messiânica; o leite simboliza o alimento que faz crescer; o pão aponta para a comunhão restaurada entre Deus e seu povo. O Senhor oferece aquilo que ninguém pode adquirir pelo mérito ou pelo dinheiro: a renovação da Aliança. O profeta denuncia, ao mesmo tempo, a ilusão daqueles que "gastam dinheiro naquilo que não alimenta e o salário naquilo que não sacia" (Is 55,2). Essa crítica ultrapassa o contexto do exílio e alcança todas as épocas. Também hoje homens e mulheres investem suas energias em bens incapazes de responder à sede mais profunda do coração humano. O consumismo, o individualismo, a absolutização do mercado, a busca incessante por prestígio e poder prometem felicidade, mas não conseguem saciar a fome de sentido, de justiça, de comunhão e de transcendência.Sob a perspectiva hermenêutica, Isaías anuncia o grande banquete escatológico prometido pelos profetas (cf. Is 25,6-9), quando Deus reunirá todos os povos ao redor de sua mesa. Essa promessa encontra sua realização em Jesus Cristo. Aquele que convida gratuitamente para comer e beber torna-se, no Evangelho, o próprio alimento oferecido ao mundo. A mesa anunciada por Isaías prepara a mesa do Reino inaugurada por Jesus.
  • O Salmo 145(144) prolonga essa esperança ao apresentar o verdadeiro rosto de Deus. "Todos os olhos esperam em vós, e vós lhes dais no tempo certo o alimento." O salmista não contempla apenas um Deus criador, mas um Deus cuidador, cuja grandeza manifesta-se na misericórdia. Os atributos repetidos ao longo do salmo, misericordioso, compassivo, paciente e cheio de amor, retomam a antiga profissão de fé de Israel (cf. Ex 34,6), revelando que o Senhor governa o mundo não pela força opressora dos impérios, mas pela fidelidade à sua Aliança. O centro da composição encontra-se na afirmação: "Abris a vossa mão e saciais os desejos de todos os viventes." Enquanto os poderosos fecham as mãos para acumular riquezas e preservar privilégios, Deus abre as mãos e reparte vida. O salmo torna-se, assim, verdadeira preparação para o Evangelho. Em Mateus, Jesus também abrirá as mãos para tomar os pães, elevar os olhos ao céu, pronunciar a bênção, partir o alimento e distribuí-lo à multidão. A providência celebrada pelo salmista torna-se visível na ação concreta do Filho.
  • A segunda leitura Romanos 8,35.37-39:  encerra uma das mais profundas reflexões paulinas sobre a vida nova em Cristo. Depois de apresentar a ação libertadora do Espírito Santo, Paulo proclama uma certeza que sustentou gerações de cristãos perseguidos: "Quem nos separará do amor de Cristo?" O Apóstolo não ignora a realidade do sofrimento. Pelo contrário, menciona tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada. Entre essas experiências aparece a fome, realidade que voltará ao centro da narrativa evangélica. Entretanto, Paulo afirma que nenhuma dessas situações possui a última palavra. A vitória cristã não nasce do êxito humano nem da prosperidade material, mas da fidelidade irrevogável de Deus. "Somos mais que vencedores" significa que o amor de Cristo permanece invencível mesmo quando tudo parece perdido. A cruz, que aos olhos do mundo representa derrota, torna-se manifestação definitiva da vitória do amor. Essa convicção prepara o Evangelho: o Cristo cujo amor jamais abandona seu povo será aquele que verá a multidão faminta e recusará deixá-la entregue ao abandono.
Chegamos, assim, ao Evangelho de Mateus 14,13-21. A narrativa inicia-se imediatamente após o relato do martírio de João Batista (Mt 14,1-12). Essa proximidade não é casual. Mateus constrói um vigoroso contraste entre dois banquetes que representam dois projetos de sociedade. De um lado encontra-se o banquete de Herodes Antipas. Celebrado dentro do palácio, cercado por autoridades, marcado pelo luxo, pela ostentação, pela manipulação política e pelo abuso do poder, esse banquete termina com a morte do profeta João Batista texto proclamado no sábado da 17ªsemana do Tempo Comum. O poder imperial alimenta seus privilégios à custa da vida dos inocentes. Do outro lado está o banquete de Jesus. Celebrado no deserto, entre os pobres, os enfermos, os excluídos e os famintos, ele culmina na vida abundante oferecida gratuitamente a todos. Enquanto Herodes preserva seu poder eliminando o profeta, Jesus revela que o verdadeiro poder consiste em servir, curar, acolher e alimentar. Esse contraste permanece atual. Também hoje convivem dois modelos de sociedade e de Igreja. De um lado, estruturas marcadas pelo privilégio, pela autorreferencialidade, pela lógica do poder e da exclusão; de outro, o Reino inaugurado por Cristo, onde a autoridade se expressa no serviço e a grandeza se manifesta na capacidade de repartir a vida.

Jesus ao receber a notícia da morte de João Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Esse gesto não deve ser interpretado como medo ou fuga. Na tradição bíblica, o deserto é o espaço privilegiado da revelação de Deus. 

  • Foi no deserto que Israel aprendeu a depender exclusivamente do Senhor
  •  Foi no deserto  que Moisés encontrou sua vocação
  •  No deserto Elias reencontrou a esperança
  • No deserto  que  Jesus venceu as tentações antes de iniciar sua missão pública. 
O deserto representa, ao mesmo tempo, provação, purificação e renovação. Há ainda um significado mais profundo. Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés que inaugura um novo Êxodo, se Moisés conduziu Israel da escravidão do Egito rumo à terra prometida, Jesus conduz a humanidade da escravidão do pecado para a liberdade do Reino. No antigo Êxodo, Deus alimentou seu povo com o maná (Ex 16); agora, no novo Êxodo, o próprio Filho torna-se o alimento que sustenta a caminhada do novo povo de Deus. O deserto deixa de ser lugar de escassez para transformar-se em espaço da superabundância da graça. Quando a multidão descobre para onde Jesus havia ido, segue-o a pé. A tentativa de recolhimento transforma-se em nova manifestação da misericórdia divina,  Mateus afirma que, ao ver aquela multidão, Jesus "encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes" (Mt 14,14).

O verbo grego utilizado pelo evangelista, splagchnízomai, exprime uma compaixão que brota das entranhas, indicando uma comoção profunda diante do sofrimento alheio, não se trata de um sentimento passageiro ou de uma emoção superficial. A compaixão de Jesus traduz a própria misericórdia de Deus que se torna ação concreta. No Evangelho, sentir compaixão significa curar, alimentar, libertar e devolver dignidade aos que foram feridos pela vida como no caso do Bom Samaritano 

Essa compaixão prepara o grande sinal que está prestes a acontecer, entretanto, a multiplicação dos pães não recorda apenas o maná do Êxodo. Ela dialoga também com o episódio do profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), quando vinte pães de cevada alimentam cem homens e ainda sobra alimento, conforme a palavra do Senhor: "Comerão e ainda sobrará." Mateus mostra que Jesus supera Eliseu. O profeta alimenta cem pessoas com vinte pães; Jesus alimenta cerca de cinco mil homens, além das mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixes. Mais do que um milagre extraordinário, trata-se da revelação de que, em Cristo, todas as promessas do Antigo Testamento encontram sua plenitude. A compaixão de Jesus logo encontra um obstáculo concreto: a fome da multidão. Ao cair da tarde, os discípulos apresentam uma solução aparentemente sensata: "Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida" (Mt 14,15). A proposta revela uma lógica muito presente também em nossos dias: diante de um problema coletivo, transfere-se a responsabilidade para cada indivíduo. A preocupação não é construir comunhão, mas encaminhar cada pessoa para resolver sozinha sua necessidade. A resposta dos discípulos nasce da racionalidade do mercado, onde o alimento é mercadoria e quem não possui recursos permanece excluído. Jesus rompe radicalmente essa lógica ao responder: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16). Essas palavras constituem o centro teológico de toda a narrativa. Antes de realizar qualquer milagre, Jesus forma seus discípulos. O Reino de Deus não admite neutralidade diante da fome, da injustiça e do sofrimento humano. A comunidade dos discípulos é chamada a assumir corresponsabilidade pela vida dos irmãos. A missão da Igreja nunca consiste apenas em anunciar verdades, mas em tornar visível a misericórdia de Deus através de gestos concretos. Essa palavra continua ecoando na Igreja do século XXI. Diante das novas formas de pobreza, da fome, das migrações forçadas, das guerras, da crise ambiental, da exclusão social, do desemprego estrutural e das desigualdades produzidas por sistemas econômicos excludentes, Cristo continua dizendo aos seus discípulos: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Não basta denunciar estruturas injustas; é preciso tornar-se instrumento da providência divina, fazendo da comunidade cristã um espaço onde ninguém seja descartado. 

Os discípulos respondem: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes." O advérbio "só" revela uma mentalidade dominada pela lógica da escassez. Aos olhos humanos, aquilo que possuem é insignificante diante da imensidão da necessidade. Jesus, porém, não pergunta pelo que falta. Ele acolhe aquilo que existe. O Reino de Deus começa sempre a partir do pouco colocado nas mãos do Senhor. Deus não espera abundância para agir; transforma a fragilidade humana em lugar de manifestação da sua graça. Também é significativo que Jesus não produza o alimento sem a participação humana. Ele poderia criar o pão diretamente, mas escolhe receber aquilo que os discípulos possuem. Deus realiza sua obra envolvendo homens e mulheres na construção do Reino. A graça não elimina a responsabilidade humana; ao contrário, desperta-a e a transforma. O milagre nasce quando o pouco deixa de ser motivo de medo e passa a ser oferta generosa. 

Os cinco pães podem recordar simbolicamente os cinco livros da Torá, fundamento da fé de Israel, os dois peixes receberam diversas interpretações na tradição patrística, sendo vistos como referência aos Profetas e aos Escritos ou ainda às duas naturezas de Cristo, plenamente humano e plenamente divino. Embora Mateus não explicite esse simbolismo, sua narrativa conduz o leitor a reconhecer que Jesus leva à plenitude toda a história da revelação. Nele convergem a Lei, os Profetas e todas as promessas da antiga Aliança. Jesus ordena então que a multidão se sente sobre a relva,  esse detalhe, aparentemente secundário, possui enorme riqueza teológica. A relva recorda imediatamente o Salmo 23: "Em verdes pastagens me faz repousar". Jesus manifesta-se como o verdadeiro Pastor prometido pelos profetas (cf. Ez 34), aquele que reúne o rebanho disperso, conduz seu povo ao descanso e oferece alimento abundante.

O Evangelho de Marcos acrescenta uma informação significativa: as pessoas foram organizadas em grupos de cem e de cinquenta (Mc 6,39-40). Essa organização recorda a estrutura estabelecida por Moisés durante a caminhada do Êxodo (Ex 18,21-25). Assim como Israel foi organizado para que todos fossem cuidados, também a comunidade reunida por Jesus não é uma multidão desordenada, mas um povo organizado em fraternidade. Sob o olhar sociológico, essa organização revela que o Reino de Deus não nasce do improviso nem do individualismo. A comunhão exige participação, corresponsabilidade e estruturas que favoreçam o cuidado mútuo. A caridade cristã não pode limitar-se ao assistencialismo ocasional. Ela precisa gerar comunidades capazes de promover justiça, fortalecer vínculos e garantir que cada pessoa encontre seu lugar na vida comum. Segue então o gesto central da narrativa: "Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos, e os discípulos os distribuíram às multidões" (Mt 14,19). O gesto de elevar os olhos ao céu revela que toda vida procede do Pai. Antes de olhar para a insuficiência dos recursos, Jesus contempla a abundância da graça divina. A bênção pronunciada recorda a tradicional oração judaica sobre o pão, reconhecendo que tudo pertence a Deus. O alimento nunca deve ser visto apenas como fruto do esforço humano, mas como dom da criação confiado à responsabilidade de todos. O verbo utilizado por Mateus para indicar a bênção é o grego eulogēsen ("abençoou"). Já o Evangelho de João, ao narrar o mesmo episódio (Jo 6,11), emprega o verbo eucharistēsas ("deu graças"), do qual deriva a palavra "Eucaristia". As duas tradições não se opõem; completam-se. A bênção transforma-se em ação de graças, e a ação de graças conduz naturalmente ao dom de si mesmo. A Igreja reconheceu nesses gestos uma clara antecipação da Ceia do Senhor.

Os quatro verbos:  tomar, abençoar, partir e distribuir  reaparecem na Última Ceia (Mt 26,26), na refeição de Emaús (Lc 24,30) e na vida da Igreja primitiva (At 2,42). Desde os primeiros séculos, a tradição cristã compreendeu que a multiplicação dos pães aponta para a Eucaristia. O centro do milagre não está simplesmente na multiplicação material dos alimentos, mas na lógica do pão partido. O pão guardado permanece alimento; o pão repartido torna-se sacramento do Reino. A Eucaristia, portanto, jamais pode ser reduzida a um ato devocional desligado da vida concreta. O Corpo de Cristo recebido no altar exige tornar-se Corpo de Cristo na história. Celebrar a fração do pão implica assumir compromisso com os famintos, os pobres, os excluídos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida.

Essa compreensão atravessa toda a tradição patrística. São João Crisóstomo advertia que não se pode honrar Cristo no altar enquanto Ele permanece abandonado nos pobres. São Basílio Magno afirmava que o pão guardado pertence ao faminto e a roupa acumulada pertence a quem dela necessita. Santo Agostinho exortava continuamente os fiéis: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia transforma não apenas o pão e o vinho, mas também a comunidade reunida, fazendo dela o Corpo vivo de Cristo no mundo. Essa compreensão explica por que a Igreja nascente unia inseparavelmente a fração do pão e a partilha dos bens (At 2,42-47). Da mesma forma, em Atos 6,1-7, quando surgem conflitos na distribuição dos alimentos às viúvas, os Apóstolos instituem os Sete para o serviço das mesas. Palavra e mesa pertencem à mesma missão. Evangelizar e cuidar dos necessitados não constituem atividades concorrentes, mas dimensões inseparáveis da única missão da Igreja. Na vida em sociedade a refeição ocupa lugar central em praticamente todas as culturas. Comer juntos significa estabelecer alianças, criar pertencimento, fortalecer identidades e reconhecer o outro como membro da mesma comunidade. A mesa é um dos primeiros espaços onde o ser humano aprende a confiança, a reciprocidade e a partilha. Jesus ressignifica profundamente esse símbolo universal. Sua mesa rompe as fronteiras estabelecidas pela religião, pela política e pela economia. Nela há lugar para pobres e ricos, pecadores e justos, homens e mulheres, crianças, doentes e estrangeiros. O banquete do Reino não exclui ninguém; ao contrário, reúne aqueles que a sociedade frequentemente separa.

Na realidade social  e pessoal  a fome ultrapassa a dimensão biológica, ela produz insegurança, medo, ansiedade, humilhação e perda da esperança. Quem vive permanentemente ameaçado pela escassez tende a desenvolver mecanismos de defesa baseados na acumulação e na competição. Jesus rompe esse ciclo ao despertar uma lógica diferente: a confiança. Quando o pouco é colocado nas mãos de Deus, desaparece o medo que aprisiona e nasce a liberdade para repartir. O verdadeiro milagre acontece também no interior do ser humano, quando o coração deixa de viver segundo a lógica da posse para viver segundo a lógica do dom. Todos comem e ficam satisfeitos. Mateus utiliza um verbo que indica saciedade plena. Não se trata apenas de matar a fome imediata, mas de experimentar a abundância própria das promessas messiânicas. Depois da refeição, Jesus ordena que sejam recolhidos os pedaços que sobraram. Nada deve ser desperdiçado. A abundância do Reino não autoriza o desperdício; ao contrário, educa para o cuidado, para a responsabilidade e para a gratidão diante dos dons recebidos.

São recolhidos doze cestos cheios. O número doze representa as doze tribos de Israel e manifesta que Jesus reúne novamente o povo da Aliança em torno do verdadeiro Pastor. Surge o novo Israel, não fundamentado na exclusão ou no privilégio, mas na comunhão em torno do Messias. Essa primeira multiplicação diferencia-se da segunda, narrada em Mateus 15,32-39, realizada em território predominantemente gentílico. Ali aparecem sete cestos, número associado à universalidade e à plenitude. Aqui, os doze cestos recordam que as promessas feitas a Israel encontram seu cumprimento em Cristo, preparando sua abertura a todas as nações. Assim, a multiplicação dos pães revela-se muito mais que um prodígio extraordinário. Ela constitui um verdadeiro programa de vida para a Igreja: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela confiança em Deus, substitui o acúmulo pela partilha, organiza a esperança em fraternidade e faz da Eucaristia um compromisso permanente com a justiça, a misericórdia e a dignidade de toda pessoa humana. 

A mensagem da multiplicação dos pães ultrapassa o contexto histórico da Galileia e continua interpelando a Igreja e a sociedade contemporânea. Em um mundo marcado por profundas desigualdades, não falta alimento para a humanidade; falta justiça na distribuição, compromisso político com o bem comum e solidariedade efetiva entre os povos. O Evangelho denuncia a lógica da acumulação que concentra riquezas nas mãos de poucos enquanto milhões vivem privados do necessário para uma existência digna. Essa denúncia encontra um significativo paralelo na parábola do rico insensato (Lc 12,13-21), proclamada no 18º Domingo do Tempo Comum do Ano C. Embora pertençam a contextos litúrgicos diferentes, ambas as passagens dialogam profundamente. Enquanto o rico constrói celeiros cada vez maiores para garantir sua segurança, Jesus, no deserto, ensina que a verdadeira segurança nasce da confiança em Deus e da partilha. O rico da parábola fala apenas consigo mesmo. Seu vocabulário é dominado pelos pronomes possessivos: "meus frutos", "meus celeiros", "meus bens". O outro simplesmente não existe. A lógica da acumulação destrói a capacidade de reconhecer o próximo. Na multiplicação dos pães ocorre exatamente o contrário: o alimento deixa de ser propriedade para tornar-se comunhão. A abundância nasce quando o pouco deixa de ser protegido e passa a ser repartido, essa oposição permanece extremamente atual. Vivemos numa cultura marcada pelo individualismo, pelo consumismo, pela competição e pela mercantilização das relações humanas. O sucesso costuma ser medido pela capacidade de acumular, enquanto a pobreza é frequentemente interpretada como fracasso individual. O Evangelho desmonta essa lógica ao afirmar que a dignidade humana está acima do lucro e que os bens da criação possuem uma destinação universal, princípio reafirmado continuamente pela Doutrina Social da Igreja.

Cada  vez  temos uma religião que se permite a  instrumentalização da fé. Quando a religião transforma Deus em meio para obtenção de riqueza, prestígio ou poder, perde sua dimensão profética e deixa de anunciar o Reino para legitimar interesses particulares. A chamada teologia do lucro do sucesso  financeiro  corre o risco de reduzir a graça à lógica da recompensa econômica, como se a bênção divina pudesse ser medida pelo patrimônio acumulado. Contra essa mentalidade, o Papa Francisco denunciava  "a adoração do antigo bezerro de ouro que encontrou uma versão nova e cruel no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano" (Evangelii Gaudium, 55). Sua crítica não é dirigida à legítima atividade econômica, mas a um sistema que transforma pessoas em objetos descartáveis e submete toda a vida à lógica do lucro.  Na mesma direção, o Concílio Vaticano II ensina que "a economia deve estar a serviço da pessoa humana" (Gaudium et Spes, 63). Esse princípio permanece profundamente atual diante da fome, da concentração de renda, da precarização do trabalho, do desemprego estrutural e das novas formas de exclusão social que ferem a dignidade de milhões de pessoas.

Os Padres da Igreja compreenderam que a Eucaristia possui consequências sociais inevitáveis. 

  • São Basílio Magno afirmava: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa"
  • São João Crisóstomo insistia que não existe verdadeira adoração quando o Cristo presente no altar é ignorado no pobre.
  • Santo Agostinho exortava continuamente: "Tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia não transforma apenas o pão e o vinho; transforma aqueles que dela participam, fazendo da comunidade o Corpo vivo de Cristo na história.
Essa era precisamente a experiência da Igreja nascente: "Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum" (At 2,44-46). Não se tratava de um sistema econômico imposto, mas da consequência natural da conversão produzida pelo Evangelho. A comunhão com Cristo gerava comunhão entre os irmãos. A partilha não era uma estratégia social, mas expressão concreta da fé celebrada.  O gesto  de comer juntos continua sendo um dos atos mais importantes da construção da identidade humana, desde as sociedades mais antigas, a mesa representa pertencimento, hospitalidade, reconciliação e reconhecimento mútuo. Quem é convidado para a mesa deixa de ser estranho e torna-se membro da comunidade. Jesus recupera esse significado original ao transformar a refeição num espaço de inclusão. Em sua mesa há lugar para pecadores, pobres, doentes, estrangeiros e marginalizados. O Reino rompe as fronteiras erguidas pela religião, pela política, pela economia e por todas as formas de discriminação.  Alimentar alguém significa muito mais do que suprir uma necessidade biológica. A fome prolongada destrói vínculos, produz medo, ansiedade, humilhação e desesperança. Ao alimentar a multidão, Jesus restaura também sua dignidade, devolve-lhe confiança e recria laços comunitários. O verdadeiro milagre não consiste apenas na multiplicação do pão, mas na multiplicação da esperança, da solidariedade e da confiança mútua.

Mateus também aponta ainda para sua dimensão escatológica,  o banquete no deserto antecipa o grande banquete anunciado por Isaías (Is 25,6-9), quando o Senhor preparará para todos os povos uma mesa abundante, destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos. Jesus realiza antecipadamente essa promessa, revelando que o Reino de Deus já começou a manifestar-se na história, embora aguarde sua plenitude. Essa esperança reaparece nas palavras do próprio Cristo (Mt 8,11) e alcança sua expressão definitiva no Apocalipse: "Nunca mais terão fome nem sede" (Ap 7,16). Cada celebração eucarística torna presente essa promessa futura. A mesa do Senhor é antecipação do Reino definitivo, onde toda lágrima será enxugada, toda injustiça será vencida e ninguém será excluído da comunhão com Deus. Por isso, a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito intimista ou desvinculado da realidade histórica. Como ensina o Concílio Vaticano II, ela é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Lumen Gentium, 11). Sendo fonte, alimenta a missão; sendo ápice, conduz toda a vida ao encontro com Cristo. Não existe verdadeira espiritualidade eucarística sem compromisso concreto com a justiça, a paz, a reconciliação e a dignidade humana.  

A liturgia deste domingo conduz-nos do convite universal de Isaías ao banquete messiânico realizado por Jesus. O Deus que oferece gratuitamente a água da vida, que abre as mãos para alimentar todas as criaturas e cujo amor jamais abandona seu povo manifesta-se plenamente em Cristo, o verdadeiro Pão da Vida. A multiplicação dos pães revela que Deus continua respondendo às fomes da humanidade, mas escolhe fazê-lo através de mãos humanas dispostas a repartir e a ordem de Jesus permanece atual e continua ecoando na consciência da Igreja: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Esse imperativo não é dirigido apenas aos Doze, mas a toda comunidade cristã. Ele interpela paróquias, comunidades, movimentos, pastorais, famílias e cada batizado. Não basta celebrar a Eucaristia; é necessário tornar-se Eucaristia, fazendo da própria vida um pão repartido em favor dos irmãos.

Vivemos  tempos marcados pela cultura do descarte, pelo clericalismo, pela autorreferencialidade e pela instrumentalização da religião, o Evangelho recorda que a Igreja nasce ao redor da mesa de Jesus, e não dos palácios do poder. Sua credibilidade não depende da riqueza que acumula, da influência política que conquista ou do prestígio social que alcança, mas da fidelidade ao Cristo que parte o pão, serve os pequenos e devolve dignidade aos excluídos. O banquete de Herodes continua presente em algumas paróquias,  palácios episcopais onde o poder elimina profetas, silencia vozes críticas, transforma pessoas em instrumentos e protege privilégios e o  banquete de Jesus continua acontecendo sempre que a comunidade escolhe a compaixão em vez da indiferença, a partilha em vez da acumulação, a fraternidade em vez da competição e o serviço em vez da dominação. O contraste entre esses dois banquetes continua sendo um critério de discernimento para a Igreja: ou ela se deixa seduzir pela lógica do poder, ou permanece fiel ao Reino inaugurado por Cristo.

Cada Eucaristia é também um envio missionário. Ao recebermos o Corpo de Cristo, assumimos a missão de sermos seu Corpo no mundo. A mesa do altar prolonga-se na mesa da vida; o pão consagrado exige o pão repartido; a comunhão celebrada exige comunhão vivida. A verdadeira adoração não termina com a bênção final, mas continua nas ruas, nas periferias, nos hospitais, nas escolas, nos locais de trabalho, nas famílias e em todos os espaços onde a vida clama por justiça, misericórdia e esperança. Essa verdade torna-se ainda mais exigente à luz de Mateus 25,31-46. No julgamento final, Jesus revela que o critério da autenticidade da fé é o amor concretizado nas obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, cuidar do enfermo e visitar o preso. O Cristo que se entrega como Pão da Vida sobre o altar é o mesmo Cristo que continua faminto nas periferias, nos esquecidos, nas vítimas da injustiça e em todos aqueles cuja dignidade é negada. Não reconhecer Cristo no pobre é esvaziar o sentido da própria Eucaristia.

Celebrar a Eucaristia, portanto, é aceitar tornar-se pão repartido para o mundo e não existe culto agradável a Deus sem compromisso com a vida, assim como não existe verdadeira caridade sem sua fonte em Cristo. A liturgia prolonga-se na história; o altar continua nas ruas; o Corpo de Cristo recebido na comunhão pede para ser reconhecido e servido no corpo sofredor dos irmãos. Somente assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino inaugurado por Jesus: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela abundância do amor, substitui o poder pelo serviço, faz da mesa eucarística uma escola de fraternidade e anuncia, por palavras e obras, que Deus continua abrindo as mãos para saciar a fome de toda a humanidade, até o dia em que todos participarão do banquete eterno do Reino.

DNonato  -  Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,36-43

A explicação da parábola do joio entre o trigo, registrada em Mateus 13,36-43, ocupa um lugar privilegiado na tradição litúrgica da Igreja porque constitui a interpretação dada pelo próprio Jesus a uma de suas parábolas mais densas sobre o Reino de Deus. No Lecionário Romano da Igreja Católica, esta perícope é proclamada anualmente na terça-feira da décima sétima semana do Tempo Comum, no ciclo ferial, depois de a Igreja ter proclamado a parábola do joio (Mt 13,24-30) no sábado da décima sexta semana do Tempo Comum. Ela também integra o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A (Mt 13,24-43, ou Mt 13,24-30 na forma breve), juntamente com as parábolas do grão de mostarda e do fermento, proclamada  na segunda-feira  da  17ª  semana  do Tempo Comum Mateus 13, 31-35   oferecendo uma ampla catequese sobre o Reino dos Céus.  A proclamação desse texto no 16º Domingo do Tempo Comum e sua distribuição para a proclamação no sábado  da 16ª Semana do Tempo Comum e na segunda-feira e na terça-feira da 17ª Semana do Tempo Comum, no calendário litúrgico ferial, têm como propósito levar os fiéis a refletir, de forma detalhada, sobre o Reino dos Céus. Essa pedagogia é aplicada da seguinte forma: 
  • Primeiro, a comunidade escuta a parábola do joio
  • Segundo  contempla as parábolas do grão de mostarda e do fermento, que revelam o crescimento silencioso e transformador do Reino
  • Terceiro recebe do próprio Cristo a interpretação da parábola do joio. 
A Igreja respeita, assim, o ritmo do próprio Evangelho, conduzindo gradualmente os fiéis à compreensão dos mistérios do Reino. As Igrejas Ortodoxas Bizantinas também utilizam esse conjunto de parábolas em sua tradição litúrgica, especialmente nos domingos dedicados aos ensinamentos sobre o Reino dos Céus. Da mesma forma, as tradições Anglicana, Luterana, Reformada, Metodista e outras Igrejas históricas conservam esse texto em seus lecionários, normalmente durante o período após Pentecostes ou no Tempo Comum, reconhecendo nele uma das mais importantes reflexões evangélicas sobre o discernimento, a paciência divina e o juízo de Deus.

Convém observar que a parábola do joio entre o trigo e sua explicação constituem uma tradição exclusiva do Evangelho de Mateus. Diferentemente da parábola do semeador, do grão de mostarda e do fermento, preservadas também por Marcos e Lucas (Mc 4,1-20.30-32; Lc 8,4-15; 13,18-21), a narrativa do joio (Mt 13,24-30) e sua interpretação (Mt 13,36-43) pertencem à teologia própria do primeiro evangelho. Isso não significa isolamento, mas aprofundamento. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce por si mesma (Mc 4,26-29), exclusiva de sua tradição, ressaltando o crescimento misterioso do Reino; Lucas enfatiza a misericórdia de Deus e a universalidade da salvação; Mateus contempla de modo particular a convivência dramática entre o bem e o mal na história, insistindo na paciência divina e na certeza do juízo escatológico. Os três evangelistas convergem ao anunciar que o Reino já está presente, embora sua manifestação plena permaneça como esperança futura. A perícope de Mateus 13,36-43 não pode ser compreendida isoladamente. Ela nasce de um longo processo narrativo cuidadosamente construído pelo evangelista. Depois da crescente oposição das autoridades religiosas contra Jesus, especialmente a partir do capítulo 12, quando os fariseus decidem eliminá-lo (Mt 12,14), o Mestre passa a ensinar preferencialmente por meio de parábolas. Não se trata apenas de um recurso pedagógico. As parábolas revelam e escondem ao mesmo tempo: iluminam aqueles que se abrem à Palavra e permanecem enigmáticas para quem endureceu o coração. Cumpre-se, assim, a profecia de Isaías: "Ouvireis, mas não entendereis; olhareis, mas não vereis" (Is 6,9-10; Mt 13,14-15). A linguagem parabólica manifesta que o Reino não se impõe pela força, mas exige abertura interior, conversão e disposição para abandonar antigas formas de pensar Deus, o mundo e a própria religião.

Antes da explicação da parábola, Jesus já havia contado a parábola do semeador (Mt 13,1-23), a do joio (Mt 13,24-30), a do grão de mostarda (Mt 13,31-32) e a do fermento (Mt 13,33), encerrando essa primeira série de ensinamentos com a citação do Salmo 78,2: "Abrirei a boca em parábolas; proclamarei coisas escondidas desde a fundação do mundo" (Mt 13,34-35). Mateus apresenta Jesus como aquele que revela os mistérios do Reino ocultos desde a criação, mostrando que toda a história da salvação encontra nele seu pleno sentido. A explicação da parábola acontece somente depois que Jesus deixa a multidão e entra na casa. Esse detalhe, aparentemente simples, possui grande força simbólica. A multidão permanece às margens do lago, enquanto os discípulos entram na intimidade da casa. Na tradição bíblica, a casa representa o espaço da comunhão, da família da fé, da escuta e da formação. É nesse ambiente de proximidade que Jesus revela o significado profundo da parábola. A revelação exige convivência. Não basta ouvir Jesus de longe; é preciso permanecer com Ele, perguntar, escutar e deixar-se formar por sua Palavra.

O pedido dos discípulos revela uma atitude fundamental da espiritualidade cristã: "Explica-nos a parábola do joio do campo" (Mt 13,36). Diferentemente das lideranças religiosas que julgavam possuir todas as respostas, os discípulos reconhecem seus limites. A humildade intelectual e espiritual torna-se condição indispensável para compreender os mistérios do Reino. Toda autêntica exegese começa pela consciência de que a Palavra de Deus é sempre maior do que nossas interpretações e não pode ser aprisionada por sistemas ideológicos, interesses particulares ou leituras fundamentalistas. Jesus inicia sua explicação identificando cada elemento da parábola: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do Maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a colheita é o fim dos tempos; os ceifeiros são os anjos" (Mt 13,37-39). Chama a atenção que o campo não representa a Igreja, mas o mundo inteiro. A missão do Reino nunca esteve confinada aos limites institucionais da comunidade eclesial. Deus continua semeando sua vida em toda parte, inclusive onde muitos imaginam que Ele esteja ausente. O título "Filho do Homem" remete diretamente à visão de Daniel 7,13-14, onde aquele que vem sobre as nuvens recebe de Deus um reino eterno fundamentado na justiça. Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Filho do Homem que inaugura esse Reino esperado por Israel. Contudo, seu reinado manifesta-se de maneira surpreendente: não elimina imediatamente o mal nem destrói os pecadores, mas continua semeando vida, esperança e misericórdia em meio às ambiguidades da história.

O cenário agrícola descrito por Jesus corresponde fielmente à realidade da Palestina do primeiro século. O joio, provavelmente identificado com a planta Lolium temulentum, era extremamente semelhante ao trigo durante boa parte de seu desenvolvimento. Somente quando ambos amadureciam tornava-se evidente a diferença entre eles. Arrancar o joio antes do tempo significava colocar em risco toda a plantação, pois suas raízes se entrelaçavam às do trigo. O ensinamento de Jesus nasce da observação concreta da vida camponesa. Seu Evangelho nunca é abstrato. Deus fala através da terra, das sementes, das estações, da chuva, do trabalho dos agricultores e da experiência cotidiana do povo..No antigo Oriente, a agricultura estruturava praticamente toda a organização econômica e social. Uma colheita perdida significava fome, endividamento, escravidão e, muitas vezes, morte. O trigo era muito mais do que alimento; representava vida, futuro e sobrevivência coletiva. Assim, quando Jesus fala de uma plantação ameaçada, seus ouvintes compreendem imediatamente a gravidade da situação. O Reino não é apresentado como uma teoria religiosa, mas como aquilo que sustenta a existência humana em todas as suas dimensões.

Entretanto, a parábola introduz um elemento desconcertante: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O mal aparece como ação clandestina, silenciosa e parasitária. Ele não cria nada. Apenas corrompe aquilo que Deus já criou como bom. Desde o Gênesis, a Escritura insiste que toda a criação saiu boa das mãos do Criador (Gn 1,31). O mal não possui existência própria nem poder criador. Ele vive da falsificação, da mentira e da distorção. Como afirma Jesus em outro contexto, o diabo é "pai da mentira" (Jo 8,44). A imagem revela uma verdade permanente sobre a experiência humana. O mal raramente chega de maneira explícita. Quase sempre apresenta-se disfarçado de bem, de eficiência, de patriotismo, de moralidade, de religiosidade ou de prosperidade. A tentação narrada em Gênesis 3 jamais propõe o mal como mal, mas promete autonomia absoluta, poder e conhecimento. Da mesma forma, as tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11) oferecem soluções aparentemente legítimas para necessidades reais. O discernimento espiritual consiste justamente em aprender a distinguir aquilo que parece bom daquilo que verdadeiramente conduz à vida.

É significativo que os servos desejem arrancar imediatamente o joio. A lógica humana prefere respostas rápidas, condenações sumárias e soluções violentas. A lógica divina, porém, é diferente. O senhor responde: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Esta resposta não significa indiferença diante do mal nem relativização da justiça. Significa reconhecer que os seres humanos possuem enorme dificuldade para julgar definitivamente o coração das pessoas. A precipitação frequentemente destrói vidas inocentes em nome de uma suposta pureza.

Ao longo da história bíblica, Deus revela repetidamente esta paciência. Espera por Caim antes de condená-lo (Gn 4,6-7), oferece inúmeras oportunidades de conversão a Israel através dos profetas, envia Jonas para anunciar misericórdia a Nínive (Jn 3,1-10) e faz nascer o sol sobre justos e injustos (Mt 5,45). Como recorda o livro da Sabedoria, "mostras tua força sendo paciente" (Sb 12,16-19). A verdadeira onipotência divina manifesta-se mais na misericórdia do que na destruição.

Essa paciência de Deus constitui uma crítica permanente a toda forma de fundamentalismo religioso. Sempre que grupos humanos se arrogam o direito de separar definitivamente os bons dos maus, os puros dos impuros, os salvos dos condenados, acabam ocupando um lugar que pertence somente ao Senhor da história. Jesus conheceu essa tentação entre alguns fariseus, entre setores rigoristas do judaísmo e até mesmo entre seus discípulos, que desejavam fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54-56). Sua resposta permanece atual para toda comunidade cristã que transforma a fé em instrumento de exclusão em vez de caminho de conversão. É precisamente aqui que a parábola começa a iluminar o nosso tempo: ela denuncia o mal com clareza, mas recusa transformar pessoas em objetos descartáveis. A justiça de Deus jamais se separa da misericórdia, e sua misericórdia nunca elimina a exigência da verdade. Nessa tensão fecunda entre justiça e compaixão começa a revelar-se o verdadeiro rosto do Reino dos Céus.  A explicação da parábola prossegue afirmando: "Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim acontecerá no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que são causa de pecado e os que praticam a iniquidade" (Mt 13,40-41). Essas palavras exigem uma leitura hermenêutica cuidadosa para que não sejam reduzidas a uma linguagem de medo nem utilizadas como instrumento de ameaça religiosa. Ao longo da história, não foram poucas as interpretações que enfatizaram apenas o aspecto punitivo desta passagem, produzindo espiritualidades marcadas pelo temor diante de Deus. Entretanto, quando lida no conjunto do Evangelho de Mateus, a imagem do juízo aparece como expressão da justiça restauradora de Deus, que não permite que a violência, a mentira e a opressão tenham a última palavra sobre a história.

O Evangelho de Mateus apresenta, do início ao fim, um Deus comprometido com a justiça dos pequenos. O nascimento de Jesus já acontece sob a perseguição de Herodes (Mt 2,13-18). No Sermão da Montanha, são proclamados felizes os pobres, os mansos e os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,3-10). Mais adiante, Jesus identifica-se com quem tem fome, sede, está doente, preso ou é estrangeiro (Mt 25,31-46). Assim, quando a parábola anuncia que Deus removerá tudo aquilo que produz injustiça, ela não alimenta o desejo de vingança, mas oferece esperança às vítimas da história. O Reino não consiste apenas em consolar os que sofrem, mas também em desmantelar definitivamente tudo aquilo que produz sofrimento. A expressão "os que são causa de pecado" traduz o termo grego skándala, que designa armadilhas, obstáculos e tudo aquilo que faz alguém tropeçar no caminho da vida. O pecado, portanto, não aparece apenas como ato individual, mas também como realidade estrutural. Essa perspectiva encontra profunda ressonância na Doutrina Social da Igreja. São João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis, fala das "estruturas de pecado"; o Catecismo da Igreja Católica recorda que o pecado gera situações sociais contrárias ao projeto de Deus; e o Documento de Aparecida denuncia estruturas econômicas, culturais e políticas que produzem exclusão, miséria e morte, incompatíveis com o Reino anunciado por Cristo.

Essa compreensão impede reduzir o Evangelho a uma espiritualidade intimista. O joio cresce não apenas no coração humano, mas também nas instituições, nas economias, nos sistemas políticos e até mesmo nas organizações religiosas. Sempre que uma estrutura produz exclusão permanente, desprezo pelos pobres, racismo, violência, destruição ambiental, exploração econômica ou manipulação das consciências, manifesta algo da lógica do joio infiltrado no campo do mundo. A denúncia profética da Escritura nunca separa pecado pessoal de pecado social. Amós condena os que compram o pobre por um par de sandálias (Am 8,4-7); Isaías denuncia governantes que fazem leis injustas (Is 10,1-2); Miqueias acusa os que acumulam terras expulsando famílias de suas propriedades (Mq 2,1-2); Jeremias combate uma religião que frequenta o templo enquanto oprime órfãos, viúvas e estrangeiros (Jr 7,1-15). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. Por isso, qualquer leitura da parábola que ignore a dimensão social do pecado permanece incompleta. O Filho do Homem não vem apenas julgar indivíduos isolados, mas confrontar toda realidade que transforma pessoas em objetos descartáveis. Em nossos dias, isso inclui economias que absolutizam o lucro acima da dignidade humana, políticas que alimentam o ódio para preservar privilégios, sistemas de comunicação que lucram com a mentira e culturas que naturalizam a desigualdade como se fosse vontade divina. O Reino de Deus confronta tudo aquilo que impede a vida de florescer em abundância (Jo 10,10).

Essa crítica alcança também determinadas formas de religião. Ao longo da história, a fé foi frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder. O Deus libertador do Êxodo foi transformado em garantia dos faraós de cada época, e a cruz de Cristo chegou a ser utilizada para justificar guerras, colonialismos e perseguições. Ainda hoje, sempre que o Evangelho é identificado automaticamente com projetos partidários, ideológicos ou nacionalistas, perde-se de vista a soberania de Deus para colocá-la a serviço de interesses humanos. Jesus jamais permitiu essa instrumentalização. Quando tentaram fazê-lo rei segundo expectativas nacionalistas, retirou-se sozinho para a montanha (Jo 6,15). Diante de Pilatos, declarou que seu Reino "não é deste mundo" (Jo 18,36), isto é, não se organiza segundo a lógica da dominação, da violência e da imposição. Isso não significa alienação da vida pública, mas afirma que toda política deve estar submetida ao serviço do bem comum, da justiça e da dignidade humana. Essa perspectiva exige discernimento também diante das expressões religiosas que absolutizam líderes, transformam ministros em figuras incontestáveis ou confundem fidelidade ao Evangelho com obediência cega a pessoas. O clericalismo, tantas vezes denunciado pelo Magistério contemporâneo, representa precisamente essa deformação. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, recuperou a imagem da Igreja como Povo de Deus, no qual todos os batizados participam da missão de Cristo segundo a própria vocação. Em continuidade com esse ensinamento, o Papa Francisco advertiu repetidas vezes que o clericalismo infantiliza os leigos, concentra poder e enfraquece a corresponsabilidade eclesial. Onde o serviço se transforma em privilégio e a autoridade perde sua dimensão de diaconia, o joio cresce silenciosamente entre o trigo.

Hoje  voltamos a ideia do  farisaísmo, só  tem bênção se tiver sucesso  financeiro com a  teologia da prosperidade  que  desloca o centro do Evangelho. Jesus nunca prometeu riqueza como sinal automático da bênção divina. Ao contrário, advertiu que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), chamou felizes os pobres (Lc 6,20), alertou para o perigo das riquezas (Mc 10,23-27) e viveu ele próprio na simplicidade. Quando a fé é transformada em mecanismo para obtenção de sucesso financeiro ou ascensão social, o Reino deixa de ser dom gratuito para converter-se em produto religioso. Desaparece a centralidade da cruz, enfraquece-se a solidariedade e os pobres acabam sendo responsabilizados por sua própria condição, em flagrante oposição à lógica das Bem-aventuranças. Ainda temos o perigo  das chamadas teologias do domínio contradizem a pedagogia do Reino. Jesus apresenta o Reino como fermento escondido na massa (Mt 13,33), como grão de mostarda (Mt 13,31-32) e como semente que cresce silenciosamente (Mc 4,26-29). Sua força reside na transformação interior das pessoas e das relações humanas, nunca na imposição autoritária ou na conquista de poder. Sempre que a religião procura controlar consciências ou identificar a vontade de Deus com interesses ideológicos, distancia-se do caminho percorrido por Cristo. Hoje  mais que  ontem, torna-se necessário discernir criticamente qualquer forma de instrumentalização política da fé.

 O Evangelho não pode ser instrumento  de poder  ou ser identificar  com projetos de poder da  direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente ideológica. Sua liberdade profética impede que seja reduzido aos interesses de partidos ou governos. Exatamente por essa liberdade, porém, o Evangelho denuncia toda proposta política que absolutize o poder, despreze os pobres, relativize a dignidade humana, incentive a violência, destrua a democracia, negue direitos fundamentais ou transforme adversários em inimigos absolutos. A missão profética da Igreja consiste em iluminar a história à luz do Reino de Deus, jamais em servir como instrumento de dominação. Essa compreensão encontra sólido fundamento no Magistério contemporâneo: 

  • A Evangelii Gaudium denuncia a mundanidade espiritual, a economia da exclusão e a cultura do descarte (EG 53-60; 93-97; 120). 
  • A Fratelli Tutti propõe a fraternidade universal como resposta às polarizações e aos nacionalismos excludentes.
  •  Medellín denunciou a violência institucionalizada da miséria
  •  Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres; 
  • Santo Domingo insistiu na promoção integral da pessoa humana
  • Aparecida reafirmou que a evangelização não pode ser separada do compromisso com a justiça.
  •  A CNBB,  na carta ao Povo e  outros  em numerosos documentos, recorda que a missão evangelizadora inclui a defesa da democracia, dos direitos humanos, da paz e da dignidade de toda pessoa humana.

É importante notar que a parábola não autoriza ninguém a identificar previamente quem é trigo e quem é joio. Essa decisão pertence exclusivamente ao Senhor da colheita. Sempre que pessoas ou comunidades pretendem ocupar esse lugar, acabam reproduzindo justamente aquilo que Jesus proibiu. O discernimento cristão consiste em denunciar o pecado sem negar a possibilidade permanente da conversão. Saulo tornou-se Paulo; Pedro, que negara Jesus, tornou-se testemunha da Ressurreição; Zaqueu abandonou a exploração econômica (Lc 19,1-10); a mulher pecadora encontrou perdão (Lc 7,36-50); o bom ladrão recebeu a promessa do paraíso (Lc 23,43). Enquanto há história, permanece aberta a possibilidade da graça.  A expressão "filhos do Maligno" deve ser compreendida à luz da linguagem apocalíptica do judaísmo do século I, jamais como afirmação de que determinadas pessoas tenham sido criadas por Deus para a perdição. Toda a Escritura testemunha o contrário: Deus não tem prazer na morte do pecador (Ez 18,23.32), quer que todos sejam salvos (1Tm 2,4) e é paciente, desejando que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). A parábola descreve escolhas históricas, não destinos previamente determinados.

Somos chamados  a esperançar  e isso  que impede tanto o desespero quanto a ingenuidade e  o Evangelho reconhece a gravidade do mal, mas proclama que a misericórdia continua oferecendo novos começos, se  faz necessário  reconhecer  que a  paciência de Deus não é cumplicidade com a injustiça, mas tempo concedido para que o trigo amadureça e para que o joio, enquanto ainda é tempo, possa ser transformado pela força surpreendente da conversão. É nessa tensão entre verdade e misericórdia, justiça e esperança, juízo e graça que Mateus prepara o leitor para contemplar, na pessoa de Jesus crucificado e ressuscitado, a vitória definitiva do Reino de Deus sobre todas as formas de morte que ainda insistem em crescer no campo da história. A explicação da parábola alcança seu ponto culminante quando Jesus afirma: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça" (Mt 13,43). A conclusão parece simples, mas encerra uma das mais belas promessas de toda a Escritura. O verbo "brilhar" remete diretamente à visão de Daniel: "Os que tiverem conduzido muitos à justiça brilharão como as estrelas para sempre" (Dn 12,3). Mateus estabelece conscientemente essa ligação para afirmar que a esperança escatológica de Israel encontra seu cumprimento em Cristo. O destino último da humanidade não é a destruição, mas a participação na própria luz de Deus. A história não caminha para o triunfo das trevas, mas para a manifestação plena da vida divina. O juízo não constitui o último ato de um Deus irado, mas o momento em que toda mentira será desfeita, toda violência será vencida e toda lágrima será enxugada, como anunciará também o Apocalipse: "Ele enxugará toda lágrima de seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor" (Ap 21,4)..

A imagem da colheita pertence a uma longa tradição profética de Israel; 

  • Joel proclama: "Lançai a foice, porque a colheita está madura" (Jl 4,13), utilizando a ceifa como símbolo do discernimento definitivo de Deus sobre as nações. 
  • Jeremias (Jr 51,33), 
  • Oseias (Os 6,11) 
  •  Isaías (Is 27,12) recorrem à mesma linguagem para anunciar que Deus não abandona a história ao caos, mas conduz todas as coisas à sua plenitude. 
Jesus retoma essas imagens conhecidas de seus ouvintes e lhes confere um significado novo. O juízo não é apresentado como espetáculo de condenação, mas como a restauração definitiva da justiça, da verdade e da vida. Essa perspectiva impede que a escatologia cristã seja reduzida a um discurso sobre o medo do fim do mundo. O Novo Testamento fala do futuro para transformar o presente.

 Quem acredita que Deus fará novas todas as coisas (Ap 21,5) 

Quem acredita, não pode acomodar-se diante da injustiça. A esperança cristã não  pode ser uma alienação; ao contrário, ela deve  gera compromisso histórico. É precisamente porque o Reino definitivo pertence ao Deus da Vida  e  os discípulos são chamados a antecipar seus sinais na história por meio da justiça, da misericórdia, da reconciliação e da paz. O Evangelho de Mateus desenvolve essa convicção ao longo de toda a sua narrativa. Das Bem-aventuranças ao Juízo Final, a fidelidade ao Reino manifesta-se em gestos concretos. Não basta dizer: "Senhor, Senhor" (Mt 7,21); é necessário fazer a vontade do Pai. Não basta conservar a ortodoxia das palavras; é indispensável produzir frutos de justiça. Não basta frequentar o templo; é preciso reconhecer Cristo no faminto, no sedento, no migrante, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46). A espiritualidade cristã jamais separa contemplação e compromisso. Quem verdadeiramente encontra Deus descobre inevitavelmente o irmão.

A parábola ainda  revela  um profundo conhecimento da alma humana. Em cada pessoa existe uma tensão permanente entre crescimento e destruição, generosidade e egoísmo, confiança e medo. Nenhum ser humano nasce completamente acabado; a personalidade vai sendo construída pelas escolhas, pelas relações e pelos valores assimilados ao longo da existência. A imagem do trigo crescendo lentamente recorda que a maturidade espiritual exige tempo. Deus não trabalha segundo a lógica da ansiedade, mas segundo o ritmo da vida. A cultura contemporânea, marcada pelo imediatismo e pela busca incessante de resultados rápidos, tem dificuldade para compreender essa pedagogia da paciência. O Reino cresce silenciosamente, como a semente descrita em Marcos 4,26-29, que germina enquanto o agricultor dorme, sem que ele saiba como. Em  todas as sociedades antigas ou atual  existe a tentação de construir identidades por meio da exclusão do outro. Povos, grupos e até religiões, quando adoecem, fortalecem sua identidade criando inimigos permanentes. Jesus rompe radicalmente essa lógica e  critério Dele e  da identidade cristã não é o ódio ao diferente, mas o amor que se faz serviço. O discípulo não é reconhecido por aquilo que combate, mas pela maneira como ama. "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).

Essa afirmação adquire especial relevância numa sociedade profundamente marcada pela polarização, pela fragmentação social e pela cultura do confronto permanente. As redes digitais frequentemente amplificam discursos de hostilidade, simplificam problemas complexos e transformam pessoas em caricaturas / memes . Nesse ambiente, torna-se cada vez mais difícil cultivar a escuta, o diálogo e o discernimento, todos querem  viralizar. A parábola do joio recorda que nem tudo o que parece evidente corresponde à verdade,  o discernimento exige paciência, humildade e consciência dos limites do próprio julgamento. Aqui  vale uma  advertência, que serve  igualmente para a vida eclesial. A Igreja corre o risco de perder sua identidade:

  •  Quando se deixa capturar pelas disputas ideológicas do mundo
  • Quando comunidades cristãs organizam sua missão mais em torno de guerras culturais do que do anúncio do Evangelho
  • Quando  buscam  conquista de poder e ignoram  o serviço
  • Quando   defendem  os seu  privilégios e ignora a necessidade da acolhida dos pobres 
Com essaa  atitude  que  o trigo começa a ser sufocado pelo joio da autorreferencialidade. O Concílio Vaticano II oferece um importante antídoto contra esse risco. A Constituição Gaudium et Spes afirma que: 

  •  "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (GS 1)."

E a  Constituição Dei Verbum recorda que Deus continua dialogando com a humanidade através da história e que a Palavra deve ser continuamente acolhida, meditada e encarnada na vida do povo de Deus. Em sintonia com esse ensinamento, o Documento de Aparecida reafirma que toda evangelização autêntica conduz ao encontro pessoal com Jesus Cristo e ao compromisso com a transformação da realidade.  Nesse contexto, a opção preferencial pelos pobres, reafirmada por Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, não constitui uma ideologia, mas nasce da própria cristologia. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres, anunciou a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18), identificou-se com eles (Mt 25,40) e morreu fora dos muros da cidade como um condenado. Uma Igreja que esquece os pobres não apenas perde uma dimensão pastoral; obscurece o próprio rosto de Cristo. Por isso, a denúncia profética das estruturas que geram exclusão não representa um acréscimo sociológico ao Evangelho, mas consequência direta da fidelidade ao Reino. Ao mesmo tempo, essa denúncia conserva sempre sua dimensão espiritual. O combate cristão não se dirige contra pessoas, mas contra tudo aquilo que desfigura nelas a imagem de Deus. São Paulo recorda que "nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados e potestades" (Ef 6,12). O inimigo último do Reino não é um grupo social, um partido, uma nacionalidade ou uma cultura, mas toda força que produz mentira, idolatria, opressão e morte. Sempre que cristãos transformam adversários em inimigos absolutos, esquecem que Cristo morreu também por aqueles de quem discordamos. A cruz destrói toda pretensão de superioridade moral e recorda que todos dependemos igualmente da graça.

Existe ainda uma dimensão profundamente sacramental nesta parábola. O trigo destinado à colheita torna-se, pela ação humana e pela graça divina, pão oferecido sobre o altar. Na Eucaristia, o fruto da terra e do trabalho humano transforma-se no Corpo de Cristo, antecipando sacramentalmente a colheita definitiva do Reino. Aquele que escuta a Palavra participa da Mesa e é enviado novamente ao mundo para semear justiça, paz e misericórdia. A liturgia une inseparavelmente a escuta do Evangelho, a comunhão com Cristo e o compromisso histórico com os irmãos..A explicação da parábola termina com um apelo que atravessa toda a Escritura: "Quem tem ouvidos, ouça." Na tradição bíblica, ouvir significa acolher, obedecer e deixar-se transformar pela Palavra. O maior risco da religião não é a ignorância, mas a surdez espiritual. Podemos conhecer os textos sagrados, dominar conceitos teológicos e participar regularmente das celebrações, permanecendo incapazes de ouvir o clamor dos pobres, o sofrimento dos esquecidos e a voz discreta de Deus que continua falando na história.

A parábola do joio entre o trigo permanece extraordinariamente atual porque recusa tanto o pessimismo quanto a ingenuidade. Reconhece a presença real do mal, mas proclama com igual convicção a soberania de Deus. Denuncia a injustiça sem perder a esperança na conversão. Proclama o juízo sem abandonar a misericórdia. Convida à vigilância sem alimentar o medo. Sobretudo, anuncia que o Reino já está presente, crescendo silenciosamente em meio às ambiguidades da história, aguardando o dia em que Cristo será "tudo em todos" (1Cor 15,28). Enquanto esse dia não chega, a missão da Igreja permanece a mesma: lançar boa semente. Não a semente do medo, mas da esperança; não a do fanatismo, mas do discernimento; não a da intolerância, mas da misericórdia; não a do poder, mas do serviço; não a do privilégio, mas da fraternidade; não a da indiferença diante da pobreza, mas da solidariedade concreta; não a da manipulação religiosa, mas da liberdade dos filhos e filhas de Deus. O discípulo de Jesus é chamado a viver com os pés firmemente plantados na terra da história e o coração voltado para o horizonte do Reino, sabendo que nenhuma força de morte impedirá a colheita preparada pelo Senhor. A última palavra sobre o mundo não pertence ao ódio, à violência, ao autoritarismo, ao clericalismo, ao mercado transformado em ídolo nem às ideologias que instrumentalizam a fé para dominar consciências. A última palavra pertence ao Deus revelado em Jesus Cristo, cuja justiça é inseparável da misericórdia, cuja verdade nunca se separa do amor e cujo Reino continua germinando, muitas vezes de forma quase invisível, no coração daqueles que acreditam que a fraternidade é mais forte do que o medo, a compaixão mais fecunda do que a vingança e a Ressurreição a resposta definitiva de Deus a todas as cruzes da história.

DNonato - Teólogo  do Cotidiano,  lutando  para permanecer  trigo 

domingo, 26 de julho de 2026

Depois do "Amém": onde continua a Eucaristia?


"Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." A provocação de São Óscar Romero não diminui a grandeza da Eucaristia; ao contrário, convida-nos a descobrir sua verdade mais profunda. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo não se esgota na liturgia, mas desdobra-se na vida. O "Amém" pronunciado diante do altar precisa tornar-se um "sim" concreto à justiça, à misericórdia e ao amor ao próximo.

Na Eucaristia, Cristo não apenas se oferece ao Pai no sacrifício da nova e eterna Aliança; Ele se entrega inteiramente à humanidade como alimento de vida eterna (cf. Jo 6,51). No altar, realiza-se o mistério do amor levado ao extremo (cf. Jo 13,1): Aquele que entregou seu corpo na cruz continua a oferecer-se à sua Igreja para que ela viva de sua própria vida. Ao comungar, os fiéis não recebem apenas um alimento espiritual ou um consolo para a alma; recebem o próprio Cristo Ressuscitado, sua vida, seu Espírito, sua missão e seu modo de amar. A comunhão eucarística, portanto, não é um ato de devoção intimista, mas uma profunda configuração com Jesus, que faz da Igreja o seu Corpo vivo na história. Como ensina Santo Agostinho, "recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  E por isso que toda celebração eucarística culmina com o envio: "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe." A liturgia não termina; ela transborda para a vida. O "Ide" não é uma fórmula de encerramento, mas um mandato missionário. Quem participou da mesa do Senhor é enviado a prolongar sua presença no mundo, fazendo da própria existência uma liturgia vivida, na qual a fé se traduz em caridade, a adoração em serviço e a comunhão em compromisso com os irmãos. Não há verdadeira participação na Eucaristia sem disposição para amar, servir, reconciliar, partilhar e defender a dignidade humana.

Essa íntima unidade entre culto e vida atravessa toda a Sagrada Escritura. Desde o Antigo Testamento, os profetas denunciaram uma religiosidade que multiplicava sacrifícios, mas permanecia indiferente ao sofrimento do próximo. O problema nunca foi o culto em si, mas um culto vazio, incapaz de gerar conversão e justiça. Por isso, Isaías faz ecoar uma das mais severas advertências de Deus ao seu povo:

  • "De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido; fazei justiça ao órfão; defendei a causa da viúva" (Is 1,11.17).

A crítica profética não rejeita a liturgia; purifica-a. Ela recorda que o Deus que acolhe o incenso do templo é o mesmo que escuta o clamor do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Toda celebração que não conduz à misericórdia e à justiça torna-se contraditória. A Eucaristia, ápice do culto cristão, realiza plenamente essa exigência: ela une inseparavelmente a mesa do altar e a mesa da vida, a adoração de Deus e o amor concreto ao próximo e Amós é ainda mais contundente:

  • "Eu detesto as vossas festas... Antes corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene" (Am 5,21.24).

Não se trata de rejeitar o culto, mas de purificá-lo. O verdadeiro culto agrada a Deus quando transforma o coração e a sociedade. Jesus assume plenamente essa tradição profética. Ao citar Oseias, declara:

  • "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7).

No julgamento final, narrado por Mateus (25,31-46), Ele identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. O Cristo adorado na Eucaristia é o mesmo Cristo encontrado nos crucificados da história. Há um detalhe significativo no Evangelho de João. Diferentemente dos Sinópticos, João não narra as palavras da instituição da Eucaristia na Última Ceia. Em seu lugar, apresenta o gesto do lava-pés (Jo 13,1-15). A escolha não é casual. O evangelista mostra que participar da mesa de Cristo significa aprender seu estilo de vida: abaixar-se diante do irmão, servir sem buscar prestígio e fazer do amor concreto a linguagem da fé. A liturgia conduz inevitavelmente ao serviço.

Essa mesma preocupação aparece em São Paulo. Ao escrever aos cristãos de Corinto, ele censura uma comunidade que celebrava a Ceia do Senhor enquanto tolerava divisões e humilhações contra os pobres:

  • "Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que comeis" (1Cor 11,20).

A denúncia é impressionante. Não era a fórmula da celebração que estava errada, mas a incoerência entre o altar e a vida. A Eucaristia perdia seu sentido porque a comunhão havia sido rompida entre os irmãos. Desde os primeiros séculos, a Igreja compreendeu essa inseparabilidade. A Didaqué, um dos mais antigos escritos cristãos, exorta os fiéis a partilhar também os bens materiais, pois quem recebeu os bens eternos não pode fechar o coração às necessidades do próximo.

Santo Inácio de Antioquia chama a Eucaristia de "remédio de imortalidade". Mas esse remédio não cura apenas a relação entre Deus e o ser humano; cura também as relações humanas marcadas pelo egoísmo, pela violência e pela exclusão.

São João Crisóstomo adverte com impressionante atualidade: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu. Não o honres aqui na igreja com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas sofrendo frio e nudez."

Santo Agostinho sintetiza a identidade da Igreja ao afirmar: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  Quem recebe o Corpo de Cristo torna-se chamado a ser Corpo de Cristo para o mundo.

São Basílio Magno vai ainda mais longe: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa."

Esses Padres da Igreja não opõem oração e compromisso social. Pelo contrário: mostram que a oração verdadeira desemboca inevitavelmente na partilha e na justiça. E  magistério contemporâneo mantém essa mesma linha. São Paulo VI, na Mysterium Fidei, recorda que a participação na Eucaristia impele os cristãos à prática da caridade.

São João Paulo II, na Ecclesia de Eucharistia, afirma que não existe celebração eucarística autêntica sem um compromisso concreto de amor ao próximo.

Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, ensina que a união com Cristo implica necessariamente a união com todos aqueles pelos quais Ele entregou sua vida. E, na encíclica Deus Caritas Est, escreve uma frase que permanece desafiadora: "Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é, em si mesma, fragmentária."

Francisco amplia essa compreensão ao afirmar, na Evangelii Gaudium, que a fé autêntica sempre possui um profundo desejo de transformar o mundo, promover a dignidade humana e deixar a sociedade melhor do que a encontrou (EG 183). Para ele, evangelização e promoção da dignidade humana não são caminhos paralelos, mas dimensões inseparáveis da mesma missão.

Essa visão encontra expressão também na Doutrina Social da Igreja. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a opção preferencial pelos pobres não são temas periféricos nem concessões às ideologias. São consequências da Encarnação e da Eucaristia. Se Cristo se faz pão para todos, ninguém pode ser tratado como descartável. Se o Senhor reúne todos na mesma mesa, nenhuma forma de exclusão pode ser aceita como normal. Por isso, o maior perigo talvez não seja abandonar a Eucaristia, mas reduzi-la a uma devoção intimista. Multiplicam-se procissões, horas santas, congressos eucarísticos e momentos de adoração. Tudo isso é profundamente valioso e faz parte da riqueza espiritual da Igreja. Contudo, quando o Corpo de Cristo é venerado no ostensório, mas ignorado nas vítimas da fome, do desemprego, da corrupção, da violência, do racismo, da exploração, das migrações forçadas e de tantas outras injustiças, algo essencial da mensagem cristã fica incompleto.

Não existe oposição entre adoração e compromisso. Quanto mais autêntica for a adoração, mais profunda será a conversão do coração. Quem permanece longamente diante do Santíssimo aprende a reconhecer o mesmo Cristo nos rostos concretos dos pobres, dos enfermos, dos idosos esquecidos, das crianças abandonadas, das mulheres vítimas de violência, dos migrantes e de todos aqueles cuja dignidade é ferida. A procissão mais importante comece justamente quando a procissão termina. O ostensório retorna ao sacrário, mas milhares de cristãos deixam a igreja levando Cristo em suas próprias vidas. Cada discípulo torna-se uma custódia viva, chamado a manifestar no cotidiano aquilo que contemplou no altar.

No fim, talvez descubramos que Aquele diante de quem nos ajoelhávamos na Eucaristia era o mesmo que nos esperava nas periferias da existência, nos rostos feridos da humanidade e nos clamores silenciosos dos esquecidos. Então compreenderemos que São Óscar Romero tinha razão ao afirmar que "uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." Não porque Deus despreze a liturgia, mas porque a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito: ela é comunhão que se faz missão, adoração que se transforma em serviço, sacramento que se prolonga na caridade, na justiça e na defesa da dignidade humana..  A missa não termina com a bênção final; ela apenas muda de lugar. O altar se estende às ruas, às casas, aos ambientes de trabalho, às periferias existenciais e a todos os lugares onde a vida clama por esperança. É ali que o pão repartido se torna solidariedade, que a verdade vence a mentira, que a justiça derrota a opressão, que o perdão rompe o ciclo da violência e que cada pessoa é reconhecida como imagem e semelhança de Deus.. 

Somente quando o "Amém" pronunciado diante do Corpo de Cristo continua sendo vivido no corpo ferido dos irmãos, a Eucaristia alcança toda a sua plenitude. É então que a adoração se torna testemunho, a comunhão se faz compromisso e a Igreja revela, no coração do mundo, a presença viva de seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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