sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 14,1.7-11

A  liturgia do sábado da 30ª Semana do Tempo Comum dá continuidade ao Evangelho proclamado na sexta-feira, ambos extraídos de Lucas 14. Na sexta-feira, Lucas 14,1-6 apresenta Jesus diante de um homem que sofria de hidropisia, questionando uma interpretação religiosa da Lei que poderia colocar a observância formal do sábado acima da misericórdia e da vida humana. No sábado, Lucas 14,1.7-11 prossegue com a mesma cena, agora destacando a observação de Jesus sobre os convidados que disputam os primeiros lugares à mesa. Essa continuidade narrativa não é acidental: depois de confrontar uma religiosidade incapaz de reconhecer a urgência do sofrimento humano, Jesus questiona as relações sociais organizadas pela busca de prestígio, pela competição e pela desigualdade. O mesmo ensinamento ganha uma dimensão mais ampla no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, quando a Igreja proclama Lucas 14,1.7-14, acrescentando a orientação para que a hospitalidade seja oferecida aos pobres, aos aleijados, aos coxos e aos cegos, sem expectativa de retribuição. Temos, portanto, uma unidade temática que relaciona misericórdia, humildade e acolhimento. A mensagem também encontra ressonância nas tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas e em outras comunidades cristãs históricas, embora cada tradição possua seu próprio calendário e lecionário, sem necessariamente proclamar essas passagens nas mesmas datas. A Palavra ultrapassa a ocasião litúrgica e interpela toda comunidade que invoca o nome de Deus, mas convive com privilégios, exclusões e disputas por reconhecimento.

O Evangelho situa Jesus na casa de um dos principais fariseus, em um sábado, para participar de uma refeição. Lucas informa que os presentes o observavam atentamente. A narrativa anterior já havia apresentado um homem doente, cuja condição exigia uma resposta concreta de misericórdia. Agora, o olhar de Jesus se volta para os convidados, que escolhiam os lugares de honra. A refeição, no mundo mediterrâneo antigo, não era apenas uma necessidade alimentar ou uma oportunidade de convivência. Ela possuía significado social, religioso e político, pois estabelecia vínculos, expressava pertencimento e tornava visíveis as posições ocupadas pelas pessoas. A proximidade com o anfitrião podia representar reconhecimento, prestígio e influência. Por isso, a disposição dos convidados à mesa revelava mais do que preferências individuais: manifestava uma organização social na qual a honra era distribuída de maneira desigual. Jesus percebe essa realidade e transforma uma situação cotidiana em oportunidade de ensinamento. Não inicia um discurso abstrato sobre virtudes, mas parte de um comportamento concreto para revelar o que acontece quando a necessidade de reconhecimento se torna mais importante do que a fraternidade. A questão fundamental não é simplesmente onde alguém se senta, mas por que precisa ocupar uma posição superior e quais pessoas são desvalorizadas quando a convivência se transforma numa competição permanente. Para compreender a força dessa intervenção, precisamos considerar o contexto histórico da Palestina do século I, submetida ao domínio romano e marcada por desigualdades econômicas, tributárias e sociais. As relações de patronagem constituíam um elemento importante da organização da sociedade. Pessoas influentes ofereciam proteção, recursos e oportunidades, enquanto esperavam lealdade, serviços e reconhecimento. As refeições podiam fortalecer essas relações, estabelecendo redes de reciprocidade entre indivíduos e famílias. O convite, a posição ocupada e a possibilidade de participar de determinados círculos sociais funcionavam como sinais de distinção. A cultura da honra e da vergonha influenciava profundamente o comportamento público, pois a reputação de uma pessoa estava relacionada ao reconhecimento recebido dos outros. Não devemos, entretanto, imaginar que todas as refeições seguissem um modelo rígido ou que os costumes fossem idênticos em todas as regiões. O que podemos afirmar é que os banquetes constituíam espaços nos quais as diferenças sociais podiam ser demonstradas e reforçadas. É nesse ambiente que Jesus questiona a necessidade de conquistar os primeiros lugares. Sua intervenção não é uma simples recomendação de boas maneiras, mas uma crítica à mentalidade que transforma a posição social em medida do valor humano. A pessoa passa a acreditar que é importante porque está acima de alguém, esquecendo que a dignidade não deveria depender de uma classificação estabelecida pelos poderosos.

Ao observar os convidados, Jesus percebe como escolhiam os primeiros lugares e apresenta uma situação relacionada a uma festa de casamento. A imagem do banquete nupcial possui grande significado na tradição bíblica. Casamentos eram ocasiões de celebração, encontro familiar e fortalecimento dos vínculos comunitários. A mesa reunia pessoas, mas também tornava perceptíveis as diferenças de posição e consideração. Jesus utiliza essa experiência conhecida para apresentar uma advertência: quem ocupa precipitadamente o lugar de honra pode ser obrigado a cedê-lo a alguém considerado mais importante. A consequência é a vergonha pública de precisar abandonar a posição pretendida e ocupar um lugar inferior. Em contrapartida, aquele que escolhe um lugar menos destacado poderá ser chamado pelo anfitrião para uma posição melhor. A imagem revela a fragilidade da honra conquistada pela presunção. Quem procura antecipar o reconhecimento dos outros corre o risco de experimentar a própria humilhação. A orientação de Jesus, contudo, não deve ser interpretada como uma técnica de autopromoção disfarçada de humildade, como se ocupar o último lugar fosse uma estratégia para receber posteriormente uma posição superior. O ensinamento questiona a ansiedade de quem precisa controlar a própria imagem e transformar cada encontro numa oportunidade de afirmação pessoal. A humildade começa quando a pessoa deixa de tratar os outros como concorrentes e reconhece que sua dignidade não depende de vencer uma disputa por prestígio. A advertência culmina no versículo 11: 

  • “Todo aquele que se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. 
Essa sentença não aparece isoladamente na tradição bíblica. Em Provérbios 25,6-7, encontramos uma orientação sapiencial para não reivindicar precipitadamente a presença dos poderosos nem procurar uma posição que ainda não foi concedida. Jesus retoma esse horizonte, mas o insere na compreensão do Reino de Deus, conferindo-lhe uma dimensão espiritual e ética mais profunda. A questão deixa de ser apenas a prudência necessária para evitar constrangimentos sociais. A sentença questiona a própria lógica da exaltação humana e o Evangelho não apresenta a posição social, a riqueza ou o reconhecimento público como garantias de valor diante de Deus. A mesma inversão aparece no cântico de Maria, em Lucas 1,46-55, quando ela proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. O Magnificat anuncia uma ação divina que desestabiliza a pretensão dos grupos dominantes de transformar seus privilégios em direitos naturais ou em sinais de superioridade moral. Essa inversão não significa que toda pessoa pobre seja necessariamente justa ou que toda pessoa rica seja culpada. Significa que nenhum privilégio humano pode ocupar o lugar da justiça divina e que a condição social de alguém jamais determina sua dignidade diante de Deus.

A sequência narrativa anterior esclarece ainda mais o significado do episódio.

  •  Lucas 13,10-17, Jesus cura uma mulher encurvada em dia de sábado e enfrenta a indignação do chefe da sinagoga, preocupado com sua interpretação da Lei. A mulher, entretanto, estava diante de uma necessidade concreta de libertação. 
  • Lucas 13,22-30, Jesus fala da porta estreita e questiona a falsa segurança daqueles que imaginam possuir garantias de participação no Reino apenas por sua proximidade religiosa. 
  • Lucas 13,31-35, manifesta coragem diante das ameaças de Herodes e lamenta a resistência de Jerusalém à ação de Deus. 
  • Lucas 14,1-6, encontra um homem com hidropisia e questiona se é permitido curar no sábado. Seus interlocutores permanecem em silêncio diante da pergunta sobre fazer o bem ou deixar alguém sofrer. 
Logo depois, em Lucas 14,7-11, o olhar de Jesus se dirige à disputa por posições. A continuidade revela uma crítica que alcança diferentes dimensões da existência religiosa e social. Primeiro, a misericórdia é colocada acima de uma interpretação legalista; depois, a humildade é colocada acima da ambição por reconhecimento. Jesus não separa a relação com Deus da maneira como as pessoas tratam umas às outras. A fidelidade religiosa precisa produzir libertação, solidariedade e relações humanas mais justas. A comparação com Marcos e Mateus exige uma distinção exegética importante. Lucas 14,7-11 não possui uma reprodução narrativa direta em Marcos 10,35-45 ou Mateus 20,20-28. Nessas passagens, encontramos episódios diferentes, mas uma convergência temática significativa. Em Marcos, Tiago e João solicitam posições de honra junto a Jesus na glória, provocando a indignação dos demais discípulos. Jesus questiona o modelo de autoridade dos governantes que dominam os povos e estabelece outra lógica para a comunidade: quem deseja ser grande deve tornar-se servidor, e quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos. Em Mateus, a solicitação é apresentada pela mãe dos filhos de Zebedeu, mas a resposta também confronta a ambição presente no grupo. A diferença redacional entre os evangelistas demonstra que cada narrativa organiza o ensinamento de acordo com sua construção teológica e em Lucas 14, Jesus observa a competição entre convidados durante uma refeição. Marcos e Mateus, confronta diretamente a ambição dos discípulos por posições de autoridade. As situações não são idênticas, mas revelam uma mesma resistência de Jesus à transformação da grandeza em dominação. Essa relação encontra expressão ainda mais próxima em Lucas 22,24-27, quando os discípulos discutem novamente quem seria considerado o maior e Jesus se apresenta como aquele que está entre eles servindo. A autoridade cristã não se legitima pela distância em relação às pessoas, mas pela responsabilidade de cuidar delas.
Os profetas denunciaram repetidamente a separação entre práticas religiosas e responsabilidade social. Em Isaías 1,11-17, Deus questiona sacrifícios, assembleias e celebrações quando a injustiça permanece presente na vida do povo. A exigência é aprender a fazer o bem, procurar a justiça e defender os oprimidos. Em Amós 5,21-24, a denúncia torna-se ainda mais contundente: Deus rejeita solenidades religiosas que não correspondem à prática da justiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. Essa tradição impede que a humildade seja confundida com passividade diante da opressão. Uma pessoa humilde não se considera dona da verdade, mas também não utiliza sua modéstia como justificativa para permanecer indiferente ao sofrimento. Reconhecer os próprios limites não significa renunciar à responsabilidade de denunciar a violência, a exploração e a exclusão. A humildade bíblica é uma disposição que permite escutar, aprender, corrigir erros e reconhecer a dignidade de quem foi colocado à margem. Sua consequência ultrapassa a vida interior, alcançando a organização da sociedade, a distribuição dos recursos e o exercício da autoridade. Essa exigência alcança diretamente as comunidades cristãs e suas estruturas de liderança. Quando a autoridade eclesial se transforma em instrumento de controle, quando a participação dos leigos é tratada como ameaça, quando perguntas legítimas são confundidas com desobediência e quando a reputação institucional recebe mais proteção do que as vítimas de abusos, a disputa pelos primeiros lugares reaparece sob vestes religiosas. O clericalismo contradiz a lógica de Jesus porque transforma uma responsabilidade ministerial em privilégio e substitui o serviço pela superioridade. Em Mateus 23,8-12, Jesus hoje  questiona a busca por títulos e posições que estabelecem distâncias entre os membros da comunidade. Sua advertência não elimina as diferentes responsabilidades e ministérios, mas impede que sejam utilizados para construir uma classe superior de pessoas. Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo assumindo a condição de servo e esvaziando-se, tornando-se obediente até a morte de cruz. Esse esvaziamento não significa aceitar abusos, silenciar vítimas ou exigir que os vulneráveis suportem indefinidamente a violência. Trata-se da liberdade daquele que não utiliza sua condição para explorar ou dominar. Uma Igreja coerente com essa mensagem precisa promover transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção dos vulneráveis. Nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto transforma sua própria preservação em prioridade absoluta.

A realidade da sociedade  dita cristã  onde  concentração de riqueza, a precarização do trabalho, a desigualdade no acesso à educação, à saúde e à moradia e a indiferença diante da fome revelam estruturas que distribuem oportunidades de maneira profundamente desigual. Não basta recomendar humildade aos pobres enquanto os grupos privilegiados preservam mecanismos que lhes permitem acumular vantagens e transferir os custos da desigualdade para os mais vulneráveis. A mensagem de Jesus não oferece um programa partidário pronto, mas estabelece critérios éticos para avaliar projetos políticos, decisões econômicas e instituições. Quando o poder serve exclusivamente aos interesses de quem já possui influência, a lógica do Reino é contrariada. Quando discursos políticos transformam adversários em inimigos desumanizados, utilizam o medo para manipular a população ou invocam Deus para legitimar violência e autoritarismo, a religião corre o risco de converter-se em instrumento de dominação. Isso não significa identificar automaticamente todas as pessoas de direita ou de esquerda com essas práticas. Significa avaliar criticamente os frutos concretos dos discursos e das ações. A fé não pertence a partidos, governantes ou líderes carismáticos. Sua credibilidade depende da verdade, da justiça, da misericórdia e da defesa da dignidade humana, inclusive quando esses compromissos contrariam interesses políticos, econômicos ou religiosos. 
Infelizmente a sociedade contemporânea também reproduz a disputa pelos primeiros lugares por meio da exposição permanente, da comparação e da transformação da existência em espetáculo. As redes sociais ampliam possibilidades de comunicação, denúncia e participação, mas também podem alimentar a necessidade compulsiva de aprovação, a agressividade e a construção de identidades baseadas na aparência. O reconhecimento público passa a funcionar como medida de valor, enquanto a escuta, a responsabilidade e o trabalho silencioso parecem insuficientes diante da busca por visibilidade. A psicologia ajuda a compreender como a insegurança pode alimentar comportamentos competitivos e como a necessidade de pertencimento pode tornar as pessoas vulneráveis à manipulação de grupos e lideranças que oferecem uma falsa sensação de superioridade moral. A pessoa passa a acreditar que precisa vencer o outro para existir, que discordar significa atacar e que admitir um erro representa perder valor. Jesus apresenta outro caminho: uma identidade fundamentada na relação com Deus e na responsabilidade pelo próximo. A humildade não elimina a necessidade humana de reconhecimento, mas impede que essa necessidade determine todas as escolhas. Quem compreende sua dignidade não precisa humilhar o adversário para afirmar sua própria existência. A conversão também se manifesta na capacidade de dialogar, reconhecer erros, abandonar preconceitos e resistir à manipulação que transforma diferenças humanas em justificativas para a violência. 

O desenvolvimento da passagem no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, amplia a crítica para a responsabilidade daquele que organiza a mesa. Em Lucas 14,12-14, Jesus dirige-se ao anfitrião e recomenda que não convide somente amigos, parentes e vizinhos ricos, capazes de retribuir o benefício. Propõe, em vez disso, acolher pobres, aleijados, coxos e cegos, pessoas que não podem devolver a hospitalidade nos mesmos termos. O ensinamento desloca o olhar da posição ocupada pelos convidados para os critérios utilizados na escolha de quem participa. A questão deixa de ser apenas quem deseja sentar-se perto do anfitrião e passa a ser quem recebe o convite e quem permanece excluído. A hospitalidade não pode ser reduzida a investimento numa rede de favores, prestígio e reciprocidade. Jesus questiona a organização das relações sociais quando elas dependem exclusivamente da possibilidade de retorno. Essa orientação continua interpelando famílias, instituições, empresas e comunidades religiosas que acolhem com facilidade pessoas influentes, mas mantêm distância daqueles cuja pobreza, deficiência ou história de sofrimento incomoda. Acolher verdadeiramente não significa conservar os pobres numa condição permanente de dependência. Significa reconhecer seus direitos, eliminar barreiras, ampliar sua participação e trabalhar para que ninguém precise mendigar aquilo que lhe é devido por dignidade e justiça.

A referência à recompensa na ressurreição dos justos, em Lucas 14,14, acrescenta uma dimensão escatológica ao ensinamento. Jesus não apresenta a generosidade como uma transação comercial com Deus, na qual cada gesto seria realizado para garantir uma vantagem futura. Ele questiona justamente a lógica da reciprocidade calculada, segundo a qual todo benefício precisa produzir retorno equivalente. A esperança da ressurreição anuncia que a justiça divina ultrapassa os sistemas humanos de reconhecimento e que o valor de uma ação não depende de sua recompensa imediata. Em Mateus 6,1-4, Jesus adverte contra a prática da justiça destinada a conquistar aplausos, ensinando que a esmola não deve transformar-se em espetáculo. Em Tiago 2,1-9, a comunidade cristã é advertida contra a discriminação entre a pessoa ricamente vestida e aquela que chega em condição de pobreza. Favorecer o rico e desprezar o necessitado contradiz a fé professada. Primeira João 3,17 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que possui recursos, vê o irmão necessitado e fecha o coração. A espiritualidade cristã não pode ser medida pelo volume de orações, títulos religiosos ou discursos doutrinários quando falta disposição para compartilhar, reparar injustiças e reconhecer no outro uma vida dotada de valor próprio.
Hoje a  conversão proposta por Jesus precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. 
  • No plano pessoal, exige examinar a necessidade de reconhecimento, as atitudes diante daqueles que consideramos inferiores e os privilégios que preferimos não questionar. No plano comunitário, requer relações menos competitivas, liderança responsável, acolhimento efetivo e decisões que considerem a realidade dos mais vulneráveis. 
  • No plano social, convoca à transformação das condições que produzem fome, exclusão, violência e desigualdade. Não se trata de reduzir a fé a uma militância partidária, mas de reconhecer que nenhuma espiritualidade pode permanecer indiferente às consequências concretas das escolhas humanas. A denúncia profética não autoriza o orgulho de quem se imagina moralmente superior. 
Os profetas falavam em nome de uma aliança que também exigia conversão do próprio povo. Jesus reúne firmeza e misericórdia: confronta a hipocrisia, questiona os poderosos, acolhe os feridos e oferece possibilidades de mudança. Sua mensagem não permite que a religião seja utilizada para anestesiar consciências ou justificar injustiças. O verdadeiro encontro com Deus precisa produzir uma transformação que possa ser reconhecida na maneira como tratamos as pessoas, distribuímos responsabilidades e enfrentamos as situações que ameaçam a vida.

A humildade evangélica, não significa aceitar humilhações, suportar violência doméstica, tolerar exploração no trabalho ou permanecer em silêncio diante de abusos praticados por autoridades religiosas e políticas. A submissão imposta aos vulneráveis não é a humildade ensinada por Jesus. Ao contrário, quando alguém utiliza a linguagem religiosa para exigir obediência incondicional, impedir denúncias ou proteger privilégios, está contradizendo o sentido do serviço cristão. A pessoa humilde reconhece que não é superior aos outros, mas também sabe que ninguém tem o direito de retirar sua dignidade. Por isso, a defesa de direitos, a denúncia de injustiças e a construção de mecanismos de proteção não são atitudes contrárias à espiritualidade. São expressões concretas de responsabilidade ética. A cruz de Cristo não pode ser instrumentalizada para obrigar vítimas a permanecer em situações de violência. A prática de Jesus mostra que a misericórdia se aproxima de quem sofre, enquanto a verdade confronta aquilo que produz sofrimento. Uma comunidade que deseja seguir o Mestre precisa aprender a proteger os vulneráveis, responsabilizar os agentes de violência e criar condições para que todos participem plenamente da vida coletiva. A mesa de Lucas 14 torna-se, assim, uma imagem poderosa para avaliar a sociedade e a própria Igreja. Quem escolhe os convidados? Quem distribui os lugares? Quem decide quais pessoas merecem ser ouvidas? Quem permanece do lado de fora enquanto os mesmos grupos concentram reconhecimento e influência? Essas perguntas não pertencem apenas ao passado bíblico. Estão presentes nas instituições que reproduzem privilégios, nos ambientes profissionais que descartam os trabalhadores mais frágeis, nas políticas públicas que ignoram populações inteiras e nas comunidades religiosas que confundem fidelidade com silêncio. O Evangelho não pede que as diferenças de responsabilidade desapareçam, mas que nenhuma função seja transformada em instrumento de superioridade. A autoridade deve ser exercida com competência, prestação de contas e compromisso com o bem comum. A liderança que não escuta, não presta contas e não reconhece os próprios limites corre o risco de transformar serviço em domínio. A humildade cristã não é ausência de firmeza, mas liberdade diante da vaidade e responsabilidade diante da vida. Ela permite reconhecer que a verdade não pertence exclusivamente a quem ocupa uma posição de destaque e que a experiência dos pobres e excluídos precisa participar das decisões que afetam sua existência.
No fim, a pergunta decisiva não é quem merece ocupar o primeiro lugar, mas que espécie de humanidade construímos quando todos precisam disputar reconhecimento. Uma sociedade organizada pela competição permanente produz medo, solidão e exclusão, mesmo quando justifica suas desigualdades com discursos de mérito, tradição ou religiosidade. A comunidade do Reino de Deus é chamada a outra lógica: servir sem humilhar, acolher sem calcular vantagens e exercer autoridade sem transformar pessoas em instrumentos. Lucas 14,1.7-11 não ensina passividade diante da injustiça, mas libertação da vaidade que escraviza e das hierarquias que desumanizam. A continuação dominical, em Lucas 14,1.7-14, mostra que essa transformação precisa chegar à organização concreta da mesa, incluindo aqueles que não possuem influência ou capacidade de retribuição. A verdadeira elevação não nasce da conquista do assento mais importante, mas da disposição de levantar quem foi derrubado, ouvir quem foi silenciado e abrir caminhos para quem permaneceu excluído. A humildade deixa, então, de ser uma virtude apenas proclamada e se transforma em força histórica, espiritual e social. Onde o orgulho cede lugar à justiça, onde a autoridade se converte em serviço e onde a hospitalidade rompe os limites do privilégio, o Evangelho recupera sua radicalidade. É ali que a fé deixa de ser aparência, a religião reencontra sua responsabilidade profética e o Reino de Deus começa a ganhar forma na vida cotidiana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,31-35

Jesus não apresenta o Reino de Deus como espetáculo de poder nem como estrutura opressora. Ele o revela em imagens simples: a semente de mostarda, o fermento na massa. Em vez de exibir grandeza, aponta para o invisível que transforma conforme Mateus 13, 31-35.  (Texto que visitei ontem) Esse Reino não se impõe,  germina, silencia, espera, age por dentro. Está presente no cotidiano como o grão que rompe a terra ou o fermento que leveda a massa. É a pedagogia divina do pequeno.
Mas o Evangelho de Lucas 13,31-35, proclamado na quinta-feira  da 30ª Semana.do Tempo Comum, revela a profundidade de uma pedagogia divina que se manifesta de forma silenciosa, paciente e persistente, desafiando as expectativas humanas de poder, espetáculo e rapidez. Este trecho, curto em extensão, é vasto em significado, pois retrata Jesus confrontando a lógica da violência e da opressão, representada por Herodes, e ao mesmo tempo lamentando a resistência de Jerusalém em acolher a ação de Deus. No anúncio do Reino, encontramos a pedagogia do pequeno, da vulnerabilidade e da esperança que se manifesta no tempo da história, no cotidiano e na intimidade do coração humano.
A narrativa começa com a advertência de que Herodes deseja eliminar Jesus: “Vai embora, pois Herodes quer matar-te” (Lc 13,31). Historicamente, Herodes Antipas é símbolo do poder humano, da coerção e da vigilância do Estado sobre os indivíduos. Ele representa a lógica da segurança pessoal e do controle social, da qual a teologia da prosperidade e do domínio são, em nossos dias, uma atualização disfarçada: a fé vinculada a prestígio, lucro ou controle. Psicologicamente, este momento reflete a tensão entre instinto de sobrevivência e vocação profética. Jesus, consciente da ameaça, não se submete, mas responde com autoridade moral: “Ide e dizei àquela raposa…” (Lc 13,32). A escolha da palavra “raposa” possui carga simbólica: indica astúcia, violência sutil e destruição silenciosa. No Antigo Testamento, a raposa surge como metáfora de destruição oculta ou de ameaça pequena, porém persistente (cf. Naum 1,14; Salmo 63,10), e Jesus a utiliza para criticar não apenas Herodes, mas toda lógica de poder que confunde força com autoridade legítima. O aviso de Herodes é também pretexto para que Jesus reafirme o modo como o Reino se constrói: invisível, paciente e atento às pessoas. A pedagogia do pequeno manifesta-se nos detalhes da história e da vida cotidiana, como mostram as imagens de Lucas: a semente de mostarda, o fermento na massa, o grão que precisa morrer para frutificar (Lc 13,18-21; Jo 12,24). Estas imagens indicam que o Reino de Deus não se impõe; germina silenciosamente, age por dentro, transforma estruturas, relações e corações sem recorrer à violência ou à exibição.
No clímax da passagem, Jesus lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13,34). Este lamento não é apenas uma denúncia de violência histórica; é também um gesto teológico e simbólico. A galinha, símbolo de cuidado materno e proteção, revela a pedagogia de Deus: a intimidade, a atenção e a paciência são mais poderosas que qualquer dominação externa. Jeremias havia anunciado uma disciplina de amor semelhante (Jr 31,20), e Oséias, no início da história de Israel, comparou o cuidado divino ao recolhimento da criança pelo colo materno (Os 11,3-4). A psicologia moderna, especialmente na abordagem da ética do cuidado, reconhece que a proteção, a atenção e a escuta ativa constituem elementos essenciais para o desenvolvimento emocional e social do indivíduo; sem isso, a sociedade se torna vulnerável à violência, ao medo e à alienação.
O paralelo com os Sinóticos revela diferentes nuances desta mesma realidade. Mateus 23,37-39 ecoa o lamento de Jesus sobre Jerusalém, destacando o contraste entre o desejo divino de reunir e a rejeição humana persistente. Marcos 13,34-37 enfatiza a vigilância constante e a ação invisível do Reino, lembrando que o amor e a fidelidade não se medem em resultados imediatos ou visíveis. Lucas combina estas perspectivas, mostrando que a pedagogia divina exige tempo, paciência e presença silenciosa, e que o crescimento do Reino depende da transformação interior, da abertura ao cuidado e da rejeição à lógica da dominação.
Os símbolos presentes no texto são múltiplos e significativos. Jerusalém representa o centro da história, o locus do povo escolhido, mas também a resistência humana ao amor e à justiça. A galinha e os pintinhos simbolizam a vulnerabilidade, a proteção e a necessidade de cuidado. Os profetas mortos ou rejeitados apontam para a persistência da violência estrutural, social e religiosa, denunciando a hipocrisia e a cegueira moral. A repetição do nome Jerusalém enfatiza a intensidade da frustração divina, mas também revela a paciência infinita de Deus. A hermenêutica patrística percebe nesta cena uma convocação à fidelidade silenciosa, à intercessão persistente e à esperança paciente: Santo Agostinho adverte que não se desprezam os pequenos começos, e São Gregório Magno reforça que a semente cresce no seu tempo, sem pressa, mas com zelo fiel.
A pedagogia do pequeno subverte todas as linhas de fé que buscam espetáculo, lucro ou poder. A teologia da prosperidade, ao vincular bênção a sucesso e riqueza, esquece que o Reino começa invisível, na vulnerabilidade, no cuidado e na justiça silenciosa. O clericalismo, que confunde autoridade com prestígio, também se distancia do modelo de Jesus, que viveu trinta anos no anonimato, lavou pés, cuidou dos marginalizados e pregou uma justiça que não se impõe, mas se oferece.
A pedagogia do pequeno também exige solidariedade concreta. Tiago afirma que “a religião pura e imaculada consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27), e Paulo exorta: “Cada um cuide também dos interesses dos outros” (Fl 2,4). O Reino não é individualista; não é privilégio de poucos, mas comunhão, corpo e vínculo. Este princípio desafia o individualismo religioso contemporâneo, a fé como espetáculo ou mercadoria e a busca por visibilidade. A verdadeira fé transforma o mundo através da solidariedade, da justiça e do cuidado silencioso, não do prestígio ou do lucro.
Os documentos da Igreja reforçam este compromisso. Evangelii Gaudium afirma que “o tempo é superior ao espaço” (EG, 222), lembrando que a ação de Deus não depende de conquista de territórios, mas de transformação paciente da história e das pessoas. Fratelli Tutti enfatiza que “a caridade política é a forma mais alta da caridade” (FT, 180), mostrando que o Reino se manifesta na justiça social, no cuidado pelo outro, no compromisso ético e político com a dignidade humana. A patrística também enriquece a compreensão: Santo Agostinho, São Gregório Magno e Santa Teresinha evidenciam que a fidelidade aos pequenos gestos, a paciência, a atenção aos detalhes e a confiança no tempo de Deus são caminhos seguros para a construção do Reino
Historicamente, Lucas apresenta Jerusalém como locus de rejeição e violência, mas também como palco da esperança e da ação paciente. O povo de Israel esperou séculos pelo Messias. Abraão foi escolhido apesar de velho e sem filhos (Gn 17,5), Moisés foi chamado apesar de suas limitações (Ex 3,11) e Davi foi ungido mesmo sendo o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, reafirma que Deus escolhe os fracos e desprezados para confundir os fortes e orgulhosos. Essa pedagogia histórica não se submete à pressa; ela cresce em silêncio, na fidelidade cotidiana, na presença paciente do amor.
O fermento da massa (Lc 13,20-21) é outro símbolo da ação do Reino: transforma de dentro para fora, sem alarde. Ele é a antítese do “fermento dos fariseus” (Lc 12,1; Mt 16,6), que simboliza legalismo, hipocrisia e controle. Psicologicamente, o fermento revela o poder da influência sutil, da transformação interior, do cultivo de virtudes. Sociologicamente, indica que mudanças profundas nas estruturas sociais dependem da ação paciente de indivíduos comprometidos, e não da coerção ou da força bruta. Filosoficamente, aponta para a ética da transformação, em que a virtude cresce através de hábitos, cuidado e disciplina, e não pela imposição externa.
O Evangelho, assim, nos convoca a uma espiritualidade ativa: ser fermento e semente no cotidiano, transformar corações e estruturas sem buscar reconhecimento, visibilidade ou lucro. Como afirma Gálatas 6,9: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo oportuno colheremos, se não desanimarmos.” O Salmo 126 reforça: “Os que semeiam em lágrimas colherão com alegria.” Apocalipse 3,8 lembra que mesmo a Igreja pequena e fiel é amparada: “Tens pouca força, mas guardaste a minha Palavra. Eis que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.” A força do Reino está na fraqueza (2Cor 12,9), seu poder no serviço (Mt 20,26-28), sua glória na cruz (Gl 6,14) e sua vitória no amor (Jo 13,1).
Por isso, somos chamados a cultivar a espiritualidade do pequeno. A confiar na semente lançada, mesmo sem ver os frutos. A ser fermento na massa da humanidade: na sala de aula, na fábrica, no hospital, na comunidade, no campo e na cidade. O Reino precisa de gente que semeia em silêncio e mistura a justiça nas estruturas da vida comum.
DNonato — Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ditadura com imprensa livre, congresso funcionando e etc?

Quando os que relativizam a ditadura se dizem perseguidos: a memória que o  Brasil não pode esquecer

Há uma contradição que precisa ser enfrentada com seriedade no debate político brasileiro: pessoas que invocam constantemente a palavra “ditadura” para contestar decisões das instituições democráticas parecem, muitas vezes, esquecer o que significou viver sob uma ditadura de verdade. Quando Flávio e Eduardo Bolsonaro apresentam o Brasil como um país submetido a uma tirania, é necessário perguntar se estão falando de uma experiência concreta de repressão política ou se utilizam a palavra como instrumento de disputa, mobilização de apoiadores e deslegitimação das instituições. A democracia comporta críticas ao Judiciário, ao governo e às decisões das autoridades, mas a crítica perde consistência quando apaga a história, transforma adversários em inimigos e trata qualquer consequência institucional como prova automática de perseguição. Para compreender a diferença entre contestar uma decisão e viver sob um regime autoritário, precisamos recuperar a memória daqueles que conheceram a violência do Estado brasileiro durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, e daqueles que, mesmo sob ameaças, tiveram coragem de denunciar a tortura, a censura e a perseguição aos que lutavam por liberdade e justiça social. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso em 1980 eleito em 2026 para o 4⁰ mandato de Presidente, durante a ditadura, em razão de sua atuação na greve dos metalúrgicos do ABC paulista. Sua prisão não deve ser confundida com exílio: Lula foi detido e encarcerado por sua liderança sindical, em um contexto no qual a organização dos trabalhadores era tratada pelas autoridades como ameaça à ordem política e Dilma Rousseff ex-presidente do Brasil, por sua vez, foi presa e submetida a torturas por sua militância contra o regime. Leonel Brizola que foi governador  do Rio de Janeiro  na decada de 80 enfrentou a perseguição política e o exílio. Essas trajetórias são diferentes, mas revelam a disposição da ditadura de restringir a participação política, silenciar a oposição e punir pessoas consideradas inconvenientes ao poder. Não se trata de afirmar que todas as situações históricas são idênticas, tampouco de considerar qualquer político acima de críticas. Trata-se de reconhecer que prisão política, tortura, exílio e supressão de direitos não são expressões retóricas: foram experiências reais, impostas a pessoas que enfrentaram um Estado autoritário.

Essa memória ganha contornos ainda mais concretos quando nos aproximamos da história da Baixada Fluminense e da Diocese de Nova Iguaçu. Sob a atuação pastoral de Dom Adriano Mandarino Hypólito, a Igreja local desenvolveu uma presença importante junto às populações pobres, aos trabalhadores e às comunidades atingidas pela violência e pela desigualdade. Em uma região marcada por carências sociais, conflitos fundiários, violência política e abandono do poder público, setores da Igreja compreenderam que evangelizar não significava permanecer indiferente às condições de vida do povo. A defesa dos direitos humanos, a organização comunitária e a denúncia das violações colocaram agentes pastorais em rota de colisão com interesses poderosos. Essa história é indispensável para compreender que a repressão não se limitou aos grandes centros políticos do país: ela também atingiu comunidades, lideranças religiosas, trabalhadores e pessoas que procuravam construir formas de solidariedade e participação popular. Dom Adriano tornou-se um símbolo dessa resistência. Em setembro  de 1976, foi sequestrado, agredido e abandonado em uma estrada, em uma ação que representou uma grave intimidação contra o bispo e contra a atuação da Igreja de Nova Iguaçu. O ataque não pode ser separado do ambiente de perseguição a religiosos, agentes pastorais e defensores dos direitos humanos que denunciavam a violência e a exclusão social. A mensagem implícita era brutal: quem se colocasse ao lado dos perseguidos também poderia ser perseguido. Ainda assim, Dom Adriano e outras lideranças religiosas não abandonaram a preocupação com a dignidade humana. A experiência da Diocese demonstra que a fé cristã pode tornar-se uma força de resistência quando se recusa a abençoar a injustiça e assume o compromisso de defender aqueles que não encontram proteção nas estruturas de poder. A violência alcançou também o próprio espaço sagrado. Em 20 de dezembro de 1979, uma bomba explodiu sob o altar da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu. O atentado atingiu um lugar de culto e atingiu, simbolicamente, uma comunidade que havia transformado a defesa dos direitos humanos em parte de sua missão pastoral. O registro do episódio encontra-se documentado no acervo da Diocese de Nova Iguaçu preservado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que reúne mensagens recebidas por Dom Adriano por ocasião da explosão. Esse documento é importante porque permite recuperar a reação de pessoas e instituições diante de um ataque que não pode ser reduzido a uma lembrança vaga ou a uma disputa de versões. A bomba na catedral permanece como sinal de que, durante a ditadura, a intimidação podia alcançar até os lugares destinados à oração e à reunião da comunidade. Quando a violência invade uma igreja porque sua atuação incomoda interesses políticos, não estamos diante de uma simples divergência: estamos diante de uma ameaça à liberdade religiosa, à participação cidadã e à própria vida democrática.

A história da Diocese, entretanto, não deve ser contada apenas por meio dos episódios mais conhecidos. É necessário recuperar o trabalho das comunidades de base, das pastorais sociais, da Pastoral Operária, da Juventude Operária Católica, dos sindicatos e de tantas pessoas que se organizaram para enfrentar a exploração e o medo. Padres, religiosas, leigos e lideranças comunitárias participaram de iniciativas de conscientização, solidariedade e defesa dos trabalhadores. Essa atuação não significava que toda a Igreja pensasse da mesma maneira, pois havia divergências internas e setores religiosos alinhados ao conservadorismo ou favoráveis ao regime. Significava, porém, que parte importante da comunidade católica reconhecia uma incompatibilidade entre o Evangelho e a perseguição sistemática de seres humanos.

Entre as histórias que a memória da ditadura militar brasileira precisa preservar está a do padre Natanael de Moraes Campos, ligado à Juventude Operária Católica (JOC), e da jovem militante Estrella Dalva Bohadana, ambos submetidos à violência da repressão no antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), em Barra Mansa. Preso no início de 1971, padre Natanael foi levado ao quartel, onde sofreu choques elétricos, espancamentos e humilhações. Em uma das cenas mais cruéis, os militares despiram Estrella diante do sacerdote, numa tentativa deliberada de humilhar e destruir a dignidade de ambos. Contudo, diante daquela violência, Estrella afirmou ao padre Natanael que não estava nua, mas vestida de sonhos. Suas palavras, pronunciadas em meio à brutalidade, expressavam uma resistência que os torturadores não conseguiam controlar: podiam expor seu corpo à humilhação, mas não tinham o poder de aprisionar sua consciência, seus ideais e sua esperança de um Brasil mais justo. Estrella sofreu choques elétricos, espancamentos e queimaduras de cigarro e, segundo os relatos sobre sua prisão, perdeu um filho em consequência das agressões. A história dos dois se inscreve na memória do antigo quartel, onde outros presos também sofreram torturas. Em 1972, cerca de quinze soldados foram detidos sob acusação de tráfico de maconha, e quatro morreram em consequência das agressões: Geomar Ribeiro da Silva, Roberto Vicente da Silva, Juarez Monção, conhecido como Virote, e Wanderlei de Oliveira. Décadas depois, esse espaço de sofrimento foi ressignificado com a criação do Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos (MTDH), cuja primeira exposição, Corpo-Memória: Uma luta vestida de sonhos, foi inaugurada em 3 de outubro de 2025. Fruto da mobilização de sobreviventes, familiares de vítimas, militantes dos direitos humanos e pesquisadores do Centro de Memória do Sul Fluminense da UFF (CEMESF), o museu transforma o antigo cenário de repressão em lugar de memória, reflexão e compromisso com a verdade.  A memória da repressão também precisa incluir os que foram mortos, desapareceram ou tiveram suas vidas destruídas pela perseguição política. A Comissão Nacional da Verdade identificou 434 mortos e desaparecidos políticos dentro do recorte de investigação estabelecido por seu trabalho, número que não representa a totalidade de todas as pessoas atingidas pela repressão no país. Entre os nomes que marcam essa história estão Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Edson Luís, Manuel Fiel Filho, Santo Dias, Alexandre Vannucchi Leme, Iara Iavelberg e tantos outros. Cada nome corresponde a uma existência concreta, a uma família atingida e a uma história que não pode ser apagada por conveniência ideológica. Rubens Paiva foi preso por agentes do regime em 1971, torturado e morto, e seus restos mortais não foram encontrados. Vladimir Herzog, jornalista, foi morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo em 1975, e a versão oficial que tentou apresentar sua morte como suicídio tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da mentira institucional utilizada para encobrir a violência do Estado. Recordar essas vítimas não é alimentar ressentimentos; é reconhecer que a democracia exige verdade, responsabilidade e compromisso para que práticas semelhantes não se repitam.

É nesse contexto que ganha significado a homenagem pública de Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016. Ao justificar seu voto, Bolsonaro invocou a memória de Ustra e o descreveu como “o pavor de Dilma Rousseff”. Ustra comandou o DOI-CODI de São Paulo durante parte dos anos mais duros da repressão e foi reconhecido judicialmente como torturador. A frase de Bolsonaro não foi uma referência neutra a um personagem militar: ao transformar o medo de uma mulher torturada em elogio, converteu o sofrimento de uma vítima em instrumento de provocação política. É legítimo discutir a história das Forças Armadas e reconhecer a participação de militares em diferentes momentos da vida nacional, mas isso não exige minimizar a tortura nem homenagear quem esteve associado a ela. A tortura não se torna aceitável porque a vítima pertence a uma corrente política rejeitada por quem a pratica, e a dignidade humana não pode depender da preferência ideológica de quem ocupa o poder.

É justamente por isso que a retórica política dos Bolsonaro precisa ser examinada à luz dos fatos. Quando Eduardo Bolsonaro e outros integrantes desse campo político afirmam que o Brasil vive uma ditadura, precisam explicar em que sentido empregam a palavra e demonstrar suas alegações, em vez de utilizá-la como rótulo para toda decisão judicial desfavorável. Democracias podem atravessar crises, cometer erros e produzir decisões contestáveis; por isso existem instrumentos legais de recurso, fiscalização pública, imprensa, oposição política e debate social. Reconhecer a importância dessas garantias não significa defender que autoridades estejam acima da crítica. Significa distinguir o questionamento legítimo de uma decisão da tentativa de desacreditar todo o sistema democrático quando ele contraria determinado grupo. A história ensina que o autoritarismo se fortalece quando a linguagem deixa de descrever a realidade e passa a servir apenas à mobilização emocional, ao culto de líderes e à fabricação de inimigos.

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, noticiada em 28 de outubro de 2026, acrescentou um novo capítulo a essa contradição política. Segundo informações publicadas pela Agência Brasil e por outros veículos, o senador e sua família atravessaram a fronteira com a Argentina e seguiram viagem em direção aos Estados Unidos, depois de sua derrota eleitoral e em meio à controvérsia sobre o cumprimento de uma ordem judicial relativa à entrega de passaportes. As circunstâncias jurídicas devem ser descritas com precisão, e qualquer responsabilização depende dos procedimentos legais cabíveis. Ainda assim, politicamente, a imagem de um líder que denuncia suposta tirania no Brasil e deixa o país em meio a uma disputa com as autoridades suscita uma pergunta legítima: se acredita que está sendo injustiçado, por que não enfrenta as acusações e utiliza os meios legais disponíveis para provar sua posição? Chamar o episódio de “fuga” expressa uma interpretação política que ganhou força nas notícias e no debate público, mas não substitui a descrição dos fatos nem autoriza antecipar uma condenação criminal. A crítica mais contundente é aquela que se sustenta em informações verificáveis e cobra coerência entre discurso e comportamento.

O contraste entre essa controvérsia contemporânea e a história dos perseguidos pela ditadura não deve servir para estabelecer equivalências automáticas entre pessoas ou períodos. As circunstâncias são diferentes, e a análise responsável precisa reconhecer essas diferenças. Mas a comparação permite evidenciar uma questão essencial: não é coerente invocar a memória de um passado autoritário apenas quando ela favorece a própria narrativa, enquanto se relativiza a tortura, se homenageiam torturadores ou se desqualificam as instituições democráticas sem apresentar provas suficientes. Quem reivindica liberdade precisa defendê-la também para os adversários; quem invoca a Constituição deve aceitar que ela estabelece direitos, deveres e procedimentos; quem fala em perseguição deve apresentar evidências e permitir que os fatos sejam examinados. A democracia não exige silêncio diante do poder, mas exige responsabilidade ao acusá-lo. Também não exige concordância com decisões judiciais, mas pressupõe que a discordância seja exercida por meios legais e com respeito às garantias comuns.

Para os cristãos, essa reflexão possui uma dimensão ainda mais profunda. O Evangelho não pode ser reduzido a um símbolo partidário, nem usado para transformar líderes políticos em figuras intocáveis. Jesus aproximou-se dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e daqueles que eram desprezados pelas estruturas religiosas e sociais de seu tempo. Quando afirmou que o amor a Deus está inseparavelmente ligado ao amor ao próximo, estabeleceu um critério que não permite justificar a humilhação, a tortura ou a indiferença diante do sofrimento humano. A tradição profética denunciou o culto que convive com a injustiça, e a mensagem cristã exige que a fé seja demonstrada em obras de misericórdia, serviço e defesa da dignidade. Não basta erguer a Bíblia, rezar em público ou exibir símbolos religiosos se, ao mesmo tempo, se transforma a dor de uma vítima em motivo de escárnio ou se trata a violência estatal como uma ferramenta aceitável contra quem pensa diferente.

A memória de Dom Adriano Hypólito, das comunidades de Nova Iguaçu, dos agentes pastorais perseguidos e das vítimas da ditadura nos obriga, portanto, a olhar para além dos discursos convenientes. A Igreja que denunciou o atentado à catedral e acolheu os atingidos pela violência não estava defendendo uma abstração: estava defendendo pessoas concretas, famílias ameaçadas e o direito de viver sem medo. Sua história recorda que a fé pode ser uma voz profética quando não se submete aos interesses dos poderosos e quando compreende que a dignidade humana não depende de classe social, partido, religião ou posição ideológica. Essa memória pertence à comunidade e à história do país, não a um grupo político específico. Por isso, deve ser preservada com documentos, pesquisa, testemunhos e disposição para reconhecer a complexidade dos acontecimentos sem relativizar os crimes comprovados.

Diante das tentativas de reescrever o passado e das disputas do presente, recordar a ditadura é um dever democrático. Não se trata de impedir críticas ao governo, ao Supremo Tribunal Federal ou a qualquer instituição; trata-se de impedir que a palavra “ditadura” perca seu significado histórico e seja usada como recurso automático para desacreditar decisões desfavoráveis. Tampouco se trata de afirmar que todos os conservadores, todos os eleitores de direita ou todos os cristãos compartilham as mesmas posições. O debate democrático exige distinguir pessoas, ideias e responsabilidades. O que não pode ser relativizado é a dignidade humana, assim como não se pode transformar a tortura em homenagem, o sofrimento em piada ou a memória das vítimas em obstáculo à conveniência política. A história de Nova Iguaçu, a bomba na Catedral de Santo Antônio, a perseguição a Dom Adriano e a memória de tantos brasileiros mostram o preço pago quando o poder tenta calar a consciência crítica. Que essa lembrança nos ajude a reconhecer os riscos do autoritarismo em qualquer campo e a defender, com coragem e coerência, a liberdade, a verdade, a justiça e os direitos humanos. Ditadura nunca mais não é uma frase para ser repetida apenas em cerimônias: é um compromisso diário com a democracia e com a vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


Fontes e referências

TEÓLOGO DO COTIDIANO  -  Origem da Diocese de Nova Iguaçu.” Blog DNonato, 14 nov. 2012.

Diocese de Nova Iguaçu. “Mensagens recebidas por Dom Adriano Hypólito, Bispo de Nova Iguaçu, por ocasião da explosão da bomba na Catedral de Nova Iguaçu.” Documento de dezembro de 1979, preservado no Repositório de Múltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/44

Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final. Brasília, 2014.

Agência Brasil. “Após derrota eleitoral, Flávio Bolsonaro embarca em voo para os EUA.” 28 out. 2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-10/apos-derrota-eleitoral-flavio-bolsonaro-embarca-em-voo-para-aos-eua

Um breve olhar sobre Lucas 6,12-19

O Evangelho proclamado  na Terça-feira da  23ª semana do Tempo Comum (Lucas 6,12-19) é uma passagem que também aparece em outras ocasiões da liturgia, sobretudo quando a Igreja celebra a memória dos santos apóstolos, pois trata diretamente da escolha dos Doze. Essa narrativa é ao mesmo tempo simples e grandiosa: Jesus passa a noite em oração, escolhe aqueles que, pelo nome, se tornarão testemunhas de sua vida e de sua obra, e desce da montanha para se encontrar com uma multidão de pessoas vindas de toda parte, que o escutam, buscam sua cura e experimentam a força que dele saía e que a todos curava. Não é apenas uma memória distante; é um acontecimento que fala à vida da Igreja em todos os tempos, porque nela se radica a origem da comunidade missionária e participativa que somos chamados a ser.

O primeiro elemento que chama atenção é que Jesus não age de modo precipitado nem isolado. Antes de tomar decisões, retira-se para rezar. Lucas sublinha com frequência essa dimensão orante de Jesus, mais até do que Marcos e Mateus. Aqui vemos que ele passa a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Isso remete imediatamente à necessidade de discernimento: a escolha dos Doze não é resultado de estratégia política, nem fruto de cálculos humanos, mas brota do diálogo profundo com o Pai. Nisso se manifesta uma chave hermenêutica fundamental: o Reino não é obra de indivíduos geniais nem de líderes carismáticos autossuficientes, mas nasce da obediência ao desígnio de Deus e se concretiza em comunidade. É importante notar que, em diversas passagens do Antigo Testamento, as grandes decisões são precedidas por escuta e oração: Samuel, ainda menino, aprende a responder “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10); Moisés permanece no Sinai em diálogo com Deus antes de guiar o povo (Ex 24,18). Jesus, novo Moisés, reatualiza e plenifica esse dinamismo: sobe ao monte não para receber tábuas de pedra, mas para se oferecer ao Pai e deixar-se conduzir por Ele.

Na tradição sinótica, encontramos paralelos que iluminam essa cena. Marcos 3,13-19 mostra Jesus subindo ao monte e chamando os que ele quis, instituindo doze para estarem com ele e para serem enviados a pregar e expulsar demônios. Mateus 10,1-4, por sua vez, enfatiza que lhes deu autoridade sobre espíritos impuros e sobre doenças, vinculando a missão diretamente à experiência do envio. Lucas, diferentemente, ressalta primeiro a oração de Jesus e depois o chamado pelo nome, destacando a dimensão da relação pessoal e comunitária. Há ainda um paralelo mais amplo com a experiência de Moisés no Sinai: ele sobe à montanha para estar diante de Deus, recebe as tábuas da Lei e desce para o povo. Jesus, novo Moisés, sobe para rezar, desce para chamar e formar um novo povo, sinal da nova aliança, não fundada em pedras, mas em pessoas concretas, frágeis e chamadas pelo nome.

Essa escolha pelo nome é significativa antropologicamente e biblicamente. O nome, na tradição semita, não é mero rótulo, mas identidade, vocação, missão. Chamar alguém pelo nome é reconhecer sua singularidade e dignidade. Isaías já havia proclamado em nome de Deus: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). O próprio Jesus revela em João 10,3 que o bom pastor “chama as suas ovelhas pelo nome”. O chamado pelo nome é também promessa de futuro, como no caso de Abraão, que recebe um novo nome como sinal de missão (Gn 17,5). Ao nomear Simão como Pedro, Jesus confere uma missão específica; ao escolher Judas, mesmo sabendo de sua traição futura, mostra que a graça de Deus passa também pelo mistério da liberdade humana. Isso revela que a comunidade não é formada por perfeitos, mas por homens concretos, com suas luzes e sombras, chamados a caminhar juntos. Davi, escolhido entre os filhos de Jessé, não era o mais forte nem o mais promissor segundo critérios humanos, mas Deus viu seu coração (1Sm 16,7). Assim também acontece com os apóstolos: a eleição não se baseia em currículos, mas em confiança divina.

Aqui emerge também uma crítica necessária às tendências individualistas de nossa época. Quantas vezes, em nossas pastorais e comunidades, repetimos a lógica da autossuficiência, acreditando que sozinhos podemos resolver tudo, e que os outros mais atrapalham do que ajudam. Essa mentalidade gera clericalismo, em que o padre se vê como dono da paróquia; gera pastoralismo individualista, em que líderes leigos concentram poder e não permitem participação; gera espiritualidades de mercado, em que pregadores digitais buscam likes e não comunhão. Jesus rompe essa lógica: ele poderia, de fato, ter realizado sua missão sozinho, mas escolhe o caminho da partilha e da comunhão. A Igreja é, por essência, sinodal, comunitária, participativa, como recorda o Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente e separados de qualquer ligação, mas constituí-los em povo que O conhecesse em verdade e O servisse em santidade” (Lumen Gentium 9). O Papa Francisco retoma esse ensinamento em Evangelii Gaudium (n. 31), ao afirmar que não podemos reduzir a missão a uma elite clerical, mas é necessário abrir espaço para os leigos, para as mulheres, para todos os batizados corresponsáveis. E em Fratelli Tutti (n. 95-96), denuncia os fechamentos grupais e as falsas seguranças que nos impedem de construir fraternidade universal.

Do ponto de vista psicológico, podemos perceber aqui um ensinamento profundo. A tentação do perfeccionismo, da centralização e do controle absoluto nasce muitas vezes da insegurança e da incapacidade de confiar no outro. Projetamos nos outros nossas próprias sombras e acabamos excluindo-os em nome de uma pretensa eficiência. A escolha de Jesus desconstrói isso: ele confia em pessoas frágeis, forma um grupo heterogêneo, dá poder e envia. É um ato de confiança radical na ação do Espírito. Como diria Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermo 169). Ou seja, Deus nos chama a colaborar, mesmo sendo imperfeitos. Esse ensinamento tem também uma dimensão pedagógica: Jesus não escolhe pessoas prontas, mas acompanha, educa, corrige, forma ao longo do caminho. É um modelo de liderança servidora que confia no processo e não descarta quem falha.

Do ponto de vista sociológico, a escolha dos Doze tem um valor simbólico fundamental. O número doze remete às doze tribos de Israel, indicando que a comunidade de Jesus é o novo Israel, não substitutivo, mas plenitude da promessa. É um gesto de refundação da identidade do povo de Deus, agora aberto a todos os povos. O texto de Lucas mostra a multidão vinda não apenas da Judeia e de Jerusalém, mas também do litoral de Tiro e Sidônia, regiões estrangeiras. Já aí se insinua a dimensão universal da missão. O Reino não é propriedade de uma etnia ou de uma tradição religiosa fechada, mas dom de Deus para todos. Aqui também somos convidados a criticar toda forma de teologia do domínio que reduz o cristianismo a bandeira política de uma nação ou grupo ideológico. A Igreja não é partido nem milícia; é sacramento universal de salvação, sinal de unidade do gênero humano (Gaudium et Spes 42). Isso se torna ainda mais urgente quando assistimos à apropriação da fé por projetos de extrema-direita, que usam símbolos cristãos para legitimar exclusão, ódio e violência.

Quando Lucas afirma que “toda a multidão procurava tocar em Jesus, porque dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19), encontramos um ponto de contato com a dimensão antropológica da fé. O ser humano busca cura, não apenas física, mas integral: deseja ser reconhecido, reintegrado, encontrar sentido e dignidade. O toque simboliza proximidade, confiança, vulnerabilidade. Em Marcos 5, vemos a hemorroíssa que toca o manto de Jesus e é curada. Em Mateus 14,36, muitos o tocavam e eram curados. O toque é linguagem de afeto e de fé. Em tempos de relações virtuais e de individualismos exacerbados, esse evangelho denuncia a falta de proximidade que corrói a vida comunitária e cria seres humanos isolados, presos em suas bolhas digitais. A cura de Jesus devolve pertença e identidade: quem estava excluído por doença, por possessão, por impureza, agora é reintegrado no povo de Deus.

A patrística percebeu essa dimensão com profundidade. Orígenes afirmava que a força que saía de Jesus era o próprio Logos, que curava não apenas corpos, mas também inteligências enfermas pela mentira e vontades adoecidas pelo pecado. São João Crisóstomo insistia que os apóstolos foram escolhidos não por seus méritos, mas para que ficasse claro que era Deus quem operava por meio deles. Essa leitura patrística reforça que a comunidade e a missão não são obras de homens geniais, mas da graça de Deus que age em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Santo Irineu, por sua vez, via nos Doze um ícone da recapitulação: como Israel foi formado pelas doze tribos, assim a Igreja nasce dos Doze apóstolos para recapitular a humanidade inteira em Cristo.

A filosofia nos ajuda a compreender o alcance da escolha comunitária. Emmanuel Levinas diria que a verdadeira transcendência se manifesta no rosto do outro, que me interpela e me retira do meu egocentrismo. Jesus, ao escolher os Doze, abre um horizonte ético: não posso salvar-me sozinho, mas somente com e pelos outros. A modernidade individualista, marcada pelo “cogito ergo sum” cartesiano, precisa ser convertida para o “sou porque somos”, que ressoa tanto na filosofia africana do ubuntu quanto na antropologia bíblica. Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, lembrava que “a Igreja só é Igreja quando existe para os outros”, e isso ecoa o gesto de Jesus que chama colaboradores e desce para servir as multidões.

A sociologia, por sua vez, alerta para os perigos de transformar a fé em mercadoria. As igrejas da prosperidade vendem bênçãos, prometem sucesso financeiro e fazem da religião uma empresa. Isso perverte o sentido do evangelho, que não é comércio, mas dom gratuito. Paulo já advertia contra tais falsificadores da palavra (2Cor 2,17). A crítica de Jesus aos vendedores do templo permanece atual: quando a fé se torna mercado, perde-se a gratuidade e a comunhão. A religião espetáculo, feita de palcos, holofotes e slogans motivacionais, cria “apóstolos-influencers” que substituem a cruz por câmeras e curtidas. Em contrapartida, o evangelho de hoje mostra um Jesus que desce da montanha não para brilhar, mas para tocar feridas e curar. Não é palco, mas encontro; não é performance, mas proximidade.

A teologia do domínio, que transforma o cristianismo em projeto de poder político, também é denunciada pelo evangelho de hoje. Jesus escolhe discípulos para anunciar, curar e libertar, não para conquistar territórios ou impor leis. “Entre vós não deve ser assim: quem quiser ser o maior, seja aquele que serve” (Mc 10,43). A Igreja trai sua identidade quando se alia a regimes autoritários, quando busca privilégios em vez de serviço. A instrumentalização política da fé produz ídolos que não salvam, falsos messias que prometem segurança e estabilidade, mas geram violência e exclusão.

O clericalismo, por sua vez, é uma das mais graves doenças espirituais de nosso tempo. Quando o clero se fecha em si mesmo, quando se vê como elite separada do povo, trai o gesto de Jesus que chama pelo nome e forma uma comunidade de irmãos. O Papa Francisco tem insistido: “O clericalismo anula a personalidade dos cristãos, apaga a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo e destrói a força da comunhão” (Carta ao Povo de Deus, 2018). O evangelho de hoje pede uma Igreja de irmãos, não de castas. Não há espaço para donos de comunidades, mas para servidores que caminham juntos.

Por fim, é importante lembrar que essa passagem de Lucas é proclamada em momentos litúrgicos significativos: nas memórias dos apóstolos, quando celebramos a origem apostólica da Igreja; em certas festas marianas, pois Maria é a mãe da Igreja apostólica; e nesta terça-feira da 23ª semana, quando somos convidados a redescobrir a dimensão comunitária da missão. A liturgia, que é sempre atualização do mistério, nos convida a viver hoje a mesma experiência: colocar-nos em oração antes das decisões, reconhecer que somos chamados pelo nome, e descer da montanha para encontrar a multidão de homens e mulheres que têm sede de cura, de sentido e de vida plena. Aqui ecoa a missão narrada em Atos 1,8: “Recebereis a força do Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. A força que saía de Jesus continua saindo pela Igreja quando ela é fiel à oração, à comunhão e ao serviço.

Diante disso, somos chamados a ser testemunhas proféticas. Num mundo marcado pela política de resultados, pela idolatria do sucesso e pela mercantilização da fé, a Igreja deve ser sinal de gratuidade, comunhão e serviço. Num tempo de fragmentação e individualismo, deve ser escola de fraternidade. Num contexto de clericalismo e autoritarismo, deve ser espaço de participação e corresponsabilidade. Como lembrava São Romero da América, “a Igreja não pode ser neutra diante da injustiça: ou está ao lado dos pobres, ou está ao lado dos opressores”. A profecia consiste exatamente em denunciar as falsas seguranças e anunciar o Reino que não se impõe pela força, mas se oferece como dom.

Jesus não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou e continua chamando colaboradores. Não há discípulos sem comunidade, nem missão sem partilha. O evangelho de hoje é, portanto, um convite a deixarmos de ser adoradores de nós mesmos para nos tornarmos servidores de um Reino que é sempre maior do que nós. Somos convocados a ser Igreja que ora antes de decidir, que chama pelo nome, que confia nos pequenos, que desce para servir, que toca e deixa-se tocar, que cura e reintegra, que denuncia idolatrias e anuncia esperança. Só assim poderemos dizer, com os primeiros cristãos, que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,18-21

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Lucas 13,18-21 é proclamado na terça-feira da trigésima semana do Tempo Comum, integrando a leitura contínua do Evangelho, dando continuidade ao texto da segunda-feira Lucas 13, 10-17.  A proximidade dessas leituras permite contemplar o Reino de Deus como uma realidade que já atua na história, embora sua plenitude ainda não tenha sido alcançada. A parábola do grão de mostarda também aparece em Mateus 13,31-32 e Marcos 4,30-32, enquanto a parábola do fermento encontra paralelo em Mateus 13,33, além de Lucas 13,20-21. Nas tradições cristãs históricas, como as Igrejas Anglicana e Luterana, essas imagens igualmente integram a pregação e a reflexão bíblica, embora sua distribuição dependa dos respectivos lecionários. A convergência dessas tradições manifesta a importância de uma mensagem que atravessa os séculos e desafia continuamente a compreensão humana sobre a ação de Deus. Muitas vezes afirmamos que o Reino de Deus é sobrenatural, mas esperamos que sua manifestação aconteça por meio de acontecimentos extraordinários, demonstrações espetaculares de poder ou conquistas capazes de impressionar multidões. Essa expectativa revela uma contradição espiritual: confessamos a grandeza divina, mas continuamos avaliando sua presença segundo os critérios de grandeza estabelecidos pela sociedade. Associamos o êxito ao crescimento numérico, a autoridade à capacidade de impor decisões, a prosperidade à acumulação material e a importância de alguém à visibilidade que conquista. Jesus, entretanto, apresenta duas imagens que desestabilizam essa maneira de pensar. O Reino se parece com uma semente minúscula lançada à terra e com uma pequena quantidade de fermento incorporada à farinha. Em ambas, a desproporção entre o começo e o resultado revela uma lógica diferente daquela que governa nossas ambições. Deus não precisa reproduzir os mecanismos humanos de prestígio para transformar a história. Sua ação pode começar onde ninguém espera, amadurecer longe dos centros de poder e produzir frutos cuja grandeza não depende do reconhecimento imediato dos homens.

Essas parábolas exigem  atenção ao contexto narrativo que as precede. Em Lucas 13,10-17, Jesus ensina numa sinagoga durante o sábado e encontra uma mulher que sofria havia dezoito anos de uma enfermidade que a mantinha encurvada. Ao vê-la, chama-a, declara que está livre de sua enfermidade e impõe-lhe as mãos. Ela imediatamente se endireita e glorifica a Deus. O chefe da sinagoga, porém, indignado porque Jesus realizara a cura no sábado, dirige sua censura à multidão, afirmando que havia outros dias para trabalhar. Jesus responde denunciando a incoerência de uma interpretação religiosa que permite soltar um animal para lhe dar água, mas considera inadequado libertar uma filha de Abraão de seu sofrimento. A discussão não opõe simplesmente uma pessoa religiosa a outra irreligiosa, mas confronta duas maneiras de compreender a fidelidade a Deus. Uma protege a norma mesmo quando ela é utilizada contra a vida; a outra reconhece que a vontade divina deve conduzir à libertação e à restauração da dignidade humana. É nesse cenário que Jesus pergunta a que se assemelha o Reino de Deus. A posição das parábolas na narrativa não deve ser ignorada, porque o acontecimento anterior oferece uma chave decisiva para interpretar as imagens agrícolas e domésticas. O Reino que cresce como mostarda e transforma como fermento já se manifesta na cura daquela mulher, na recuperação de sua dignidade e na contestação de uma autoridade incapaz de reconhecer a misericórdia. O gesto de Jesus não elimina imediatamente todas as estruturas religiosas que produzem exclusão, mas revela que a transformação começa quando alguém interrompe a normalização do sofrimento e coloca a vida humana acima de interesses institucionais. A mulher, antes curvada, passa a permanecer de pé, enquanto os adversários de Jesus são confrontados com a necessidade de rever suas próprias convicções. Essa inversão demonstra que a verdadeira autoridade não se comprova pela capacidade de controlar os outros, mas pela disposição de contribuir para que recuperem a liberdade. O Reino não é uma ideia abstrata separada da realidade, pois sua presença se torna perceptível onde pessoas são libertadas de condições que diminuem sua humanidade.

O grão de mostarda pertence ao universo cotidiano dos agricultores da Palestina da época. Jesus não escolhe uma imagem distante da experiência dos seus ouvintes, mas um elemento conhecido por quem trabalhava a terra e dependia dos ritmos da natureza para sobreviver. A semente, aparentemente insignificante, contém uma possibilidade de crescimento que não pode ser deduzida apenas de sua dimensão inicial. Em Marcos 4,30-32, Jesus procura uma comparação adequada para comunicar o Reino e descreve a transformação da semente em uma planta capaz de oferecer abrigo às aves. Mateus 13,31-32 conserva a mesma relação entre pequenez inicial e desenvolvimento posterior, enquanto Lucas 13,18-19 apresenta a ação de um homem que planta a semente em sua horta. As diferenças redacionais são significativas, pois Marcos enfatiza a comparação e o desenvolvimento da planta, ao passo que Lucas incorpora a imagem à sequência de acontecimentos que acompanha a caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Em nenhum desses relatos, entretanto, o interesse principal consiste em oferecer uma explicação científica sobre a germinação. A finalidade é questionar os critérios pelos quais os seres humanos julgam antecipadamente o que pode ou não transformar a realidade. A linguagem sobre a menor das sementes deve ser compreendida dentro desse horizonte cultural, sem ser convertida numa afirmação botânica absoluta. Jesus utiliza uma comparação reconhecível por seus ouvintes para destacar a diferença entre o início e o resultado. O Reino não pode ser avaliado somente por aquilo que aparece imediatamente aos olhos, porque sua fecundidade ultrapassa a aparência do começo. Essa mensagem ganha força quando recordamos que o próprio ministério de Jesus não começou em um palácio, mas entre comunidades comuns, pessoas doentes, trabalhadores, mulheres marginalizadas e indivíduos frequentemente desprezados pelas autoridades. Em 1 Coríntios 1,26-29, Paulo desenvolve uma compreensão semelhante ao recordar que Deus escolhe aquilo que o mundo considera fraco e desprezível para desmascarar a arrogância dos poderosos. Não se trata de afirmar que a pobreza ou o sofrimento sejam desejáveis, mas de denunciar uma ordem social que transforma riqueza, influência e prestígio em critérios de valor humano. Deus não confirma essa hierarquia; revela sua insuficiência ao fazer nascer esperança onde os mecanismos dominantes enxergam apenas impotência.

A imagem das aves que encontram abrigo nos ramos amplia o horizonte da parábola lendo: 

  •  Ezequiel 17,22-24, Deus promete plantar um ramo que crescerá e oferecerá proteção às criaturas, utilizando a imagem vegetal para anunciar sua ação soberana.
  •  Ezequiel 31,6, uma árvore poderosa abriga aves e animais.
  • Daniel 4,10-12 apresenta uma árvore cuja grandeza alcança diferentes povos e seres vivos.

Essas imagens pertencem a contextos próprios, mas ajudam a compreender como a linguagem bíblica pode associar o crescimento de uma árvore à capacidade de proporcionar sustento e proteção. O Reino, portanto, não cresce para reproduzir a dominação dos impérios, mas para criar condições de acolhimento. Sua grandeza precisa ser avaliada pela vida que protege, pelas pessoas que recebe e pela segurança que oferece àqueles que não encontram abrigo nas estruturas sociais. Uma Igreja pode ampliar suas instalações e aumentar sua influência pública, mas, se não acolhe os feridos, não defende os vulneráveis e não promove a dignidade humana, seu crescimento exterior não demonstra, por si só, a presença do Reino.

A parábola do fermento apresenta uma segunda dimensão dessa transformação. Jesus compara o Reino a uma mulher que toma fermento e o mistura em três medidas de farinha, até que toda a massa fique fermentada. A imagem conduz a reflexão para o espaço doméstico, tradicionalmente associado à preparação dos alimentos e à sustentação cotidiana da família. A escolha da mulher não é um detalhe irrelevante, pois Jesus reconhece a experiência de uma pessoa cujo trabalho, embora indispensável à vida comunitária, frequentemente permanecia invisível nas estruturas públicas de prestígio. O fermento exerce sua função sem ocupar o centro da atenção, penetrando a massa e modificando suas propriedades. Sua ação não depende de uma demonstração exterior de força, mas de sua capacidade de atuar no interior daquilo com que entra em contato. Em Gênesis 18,6, Sara prepara três medidas de farinha para receber visitantes, revelando como essa quantidade podia estar associada à hospitalidade e à preparação abundante de alimento. Embora não devamos impor uma equivalência simbólica rígida entre as duas passagens, a referência ajuda a perceber que a imagem de Lucas evoca uma transformação que alcança uma quantidade significativa de massa e, consequentemente, a preparação do alimento necessário à vida.

A comparação com o fermento não significa que toda transformação silenciosa seja automaticamente justa, nem que o Reino possa ser reduzido à influência invisível de indivíduos isolados. O símbolo deve ser interpretado conforme sua função narrativa. Em Lucas 13,21, o fermento representa uma força transformadora que alcança a totalidade da massa. Em Lucas 12,1, porém, Jesus utiliza o fermento dos fariseus como imagem da hipocrisia, e em Mateus 16,6 adverte os discípulos contra o fermento dos fariseus e dos saduceus, relacionando a imagem aos seus ensinamentos. Em 1 Coríntios 5,6-8, Paulo recorre ao mesmo símbolo para advertir contra a influência do mal na comunidade. A diversidade desses usos demonstra que uma interpretação responsável não deve atribuir significado idêntico a todas as ocorrências de uma imagem bíblica. O contexto determina sua função. Na parábola de Lucas, a questão decisiva é a capacidade de uma pequena quantidade transformar o conjunto, permitindo compreender que a ação de Deus não precisa começar por aquilo que domina a atenção pública, mas pode penetrar gradualmente as relações humanas e produzir mudanças profundas.

O contexto histórico da Palestina ajuda a compreender a força social dessa mensagem. Sob o domínio romano, as populações locais conviviam com tributação, desigualdade econômica, tensões políticas e relações de poder que afetavam diretamente a sobrevivência das famílias. A agricultura constituía uma atividade fundamental, mas a vida dos trabalhadores dependia das condições da terra, das colheitas e das obrigações econômicas. Nesse ambiente, a expectativa do Reino de Deus estava relacionada a esperanças de justiça, restauração e libertação, embora diferentes grupos religiosos interpretassem essas esperanças de maneiras distintas. Jesus não apresenta nessas parábolas um programa administrativo detalhado, tampouco reduz a transformação histórica a uma insurreição armada. Entretanto, seria igualmente equivocado transformar seu anúncio em uma espiritualidade indiferente à exploração econômica e ao sofrimento coletivo. A proclamação do Reino relativiza toda autoridade humana que se apresenta como absoluta e recorda que nenhum império, governante ou instituição pode ocupar o lugar de Deus. A esperança cristã não consiste em sacralizar a ordem existente, mas em discernir, à luz da justiça divina, aquilo que precisa ser transformado para que a vida floresça.

A tradição profética aprofunda essa exigência.

  •  Amós 5,21-24 denuncia celebrações religiosas que coexistem com a injustiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. 
  • Isaías 1,16-17 convoca o povo a abandonar o mal, aprender a fazer o bem, defender o oprimido e proteger aqueles cuja dignidade é ameaçada. 
  • Miqueias 6,8 apresenta a exigência de praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. 
  • Jeremias 7,4-11 denuncia a falsa segurança de quem confia no templo enquanto pratica injustiças, explora o estrangeiro e derrama sangue inocente. 
Essas passagens demonstram que o profetismo bíblico não separa a relação com Deus da responsabilidade pelas condições concretas da existência humana. O culto não pode ser utilizado como cobertura moral para a exploração, assim como a fidelidade doutrinal não pode servir de justificativa para a indiferença. À luz dessa tradição, as parábolas de Jesus questionam comunidades que desejam crescer sem se converter, conquistar reconhecimento sem servir e preservar sua reputação sem enfrentar os mecanismos que produzem sofrimento. A desigualdade contemporânea torna essa interpelação particularmente urgente. Em sociedades marcadas pela concentração de riqueza, pela precarização do trabalho, pela insegurança alimentar e pela exclusão de populações inteiras, a mensagem do Reino exige mais do que gestos ocasionais de generosidade. A solidariedade com quem passa fome é indispensável, mas precisa ser acompanhada pela análise das condições que produzem a fome. A assistência às famílias empobrecidas possui valor real, mas não substitui políticas públicas capazes de assegurar educação, moradia, saúde, trabalho digno e proteção social. Em Tiago 2,14-17, a comunidade é questionada sobre a coerência de uma fé que deseja paz e bem-estar ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. Em 1 João 3,17-18, o amor é confrontado com a recusa de partilhar os bens diante da necessidade do irmão. Essas referências mostram que a fé cristã não se realiza apenas na intenção interior, pois exige decisões concretas sobre a maneira como os recursos são utilizados e como as relações sociais são organizadas. A semente do Reino precisa encontrar terreno em instituições comprometidas com a justiça e em pessoas dispostas a transformar a compaixão em responsabilidade histórica.

Essa responsabilidade  alcança a política, porque as decisões públicas influenciam a distribuição dos recursos, a proteção dos direitos e as condições de participação social. Nenhum partido possui o monopólio do Evangelho, e nenhum governante pode ser considerado representante automático da vontade divina. Quando discursos políticos utilizam símbolos cristãos para estimular o ódio, justificar a violência, desumanizar adversários ou preservar privilégios, a comunidade precisa confrontá-los com os critérios de Jesus. Em Marcos 10,42-45, Jesus distingue a autoridade exercida como dominação daquela que assume a forma do serviço. Em João 18,36, afirma que seu Reino não pertence à lógica dos poderes deste mundo, sem com isso tornar sua missão irrelevante para a realidade histórica. A fé não deve ser instrumentalizada para santificar projetos autoritários, mas tampouco pode refugiar-se numa neutralidade que abandona as vítimas à própria sorte. O compromisso cristão com a dignidade humana exige discernimento, participação responsável e resistência às práticas que transformam pessoas em instrumentos de poder. Nos tempos  atuais  também  tenos a manipulação religiosa que revela outra deformação que precisa ser denunciada. Ela ocorre quando o nome de Deus é utilizado para produzir medo, exigir obediência incondicional, explorar financeiramente os fiéis ou impedir questionamentos legítimos. Em Mateus 23,23, Jesus censura aqueles que observam minuciosamente aspectos secundários da religião, mas negligenciam a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Em Marcos 7,8-13, denuncia tradições humanas utilizadas para invalidar a palavra de Deus e afastar as pessoas das responsabilidades fundamentais. A crítica não significa que ritos, doutrinas ou instituições sejam desnecessários, mas que sua legitimidade depende de sua relação com a finalidade libertadora da fé. O clericalismo, quando transforma autoridade espiritual em privilégio e controle, contradiz o modelo de serviço apresentado por Jesus. Filipenses 2,5-8 recorda que Cristo assumiu a condição de servo e não transformou sua dignidade em instrumento de superioridade. Por isso, uma comunidade fiel ao Reino deve cultivar transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção das vítimas, recusando qualquer prática que coloque a preservação da instituição acima da verdade e da dignidade humana.

Quando  buscamos  resultados imediatos alteramos profundamente a maneira como avaliamos nossa própria vida e a sociedade. A cultura da produtividade, da competição e da visibilidade pode fazer com que gestos discretos pareçam inúteis e processos demorados sejam confundidos com fracasso. Jesus apresenta uma temporalidade diferente, na qual o crescimento exige condições adequadas, perseverança e confiança. Isso não significa romantizar a demora ou recomendar passividade diante da injustiça, mas compreender que mudanças profundas raramente acontecem sem continuidade. A superação de preconceitos, a reconstrução de vínculos, a formação da consciência ética e a transformação de instituições exigem trabalho persistente. Em Gálatas 6,9, Paulo exorta a comunidade a não se cansar de praticar o bem, pois a perseverança possui sua própria fecundidade. Em Romanos 12,2, a renovação da mente aparece como condição para discernir a vontade de Deus. O Reino modifica não apenas comportamentos isolados, mas também os critérios pelos quais julgamos o sucesso, a autoridade, a riqueza e a dignidade das pessoas. Essa esperança não deve ser confundida com a ideia de que basta agir individualmente para resolver problemas estruturais. A semente precisa de condições para germinar, e o fermento precisa ser incorporado à massa. Na realidade social, essas condições incluem instituições responsáveis, políticas públicas eficazes, educação, participação democrática e mecanismos que protejam os direitos fundamentais. Em 1 Coríntios 3,6-9, Paulo compara o trabalho missionário ao cultivo, afirmando que uma pessoa planta, outra rega, mas Deus concede o crescimento. A imagem não elimina a responsabilidade humana, mas impede que qualquer agente se considere proprietário absoluto dos resultados. O compromisso com a transformação exige planejamento, cooperação e disposição para reconhecer limites. Ao mesmo tempo, a confiança em Deus liberta da ilusão de que somente aquilo que podemos controlar possui valor. A esperança cristã permite trabalhar por mudanças concretas sem transformar nossas estratégias em absolutos, reconhecendo que a história permanece aberta à ação divina e à possibilidade de recomeço.

No  Gênesis 2,15, a humanidade recebe a tarefa de cultivar e guardar o jardim, uma imagem que associa a existência humana ao cuidado com a criação. A destruição dos ecossistemas, a contaminação das águas e a exploração predatória dos territórios atingem especialmente as comunidades que dependem diretamente da terra para sobreviver. A degradação ambiental não constitui apenas um problema técnico, porque envolve decisões econômicas, relações de poder e escolhas sobre quais vidas merecem proteção. Quando florestas são destruídas, rios contaminados e populações expulsas de seus territórios, a busca de lucro pode converter a criação em mercadoria e as pessoas em obstáculos descartáveis. Romanos 8,19-23 apresenta a criação aguardando libertação, relacionando seu destino à esperança de renovação. A mensagem do Reino convoca, portanto, a superar tanto a indiferença ambiental quanto a ideia de que a natureza existe apenas para satisfazer necessidades ilimitadas. A transformação começa em práticas responsáveis, mas exige também enfrentar estruturas que perpetuam a devastação. Toda comunidade cristã precisa avaliar sua fidelidade não apenas pelo conteúdo que proclama, mas pelos frutos que produz. Uma paróquia pode organizar numerosas celebrações e permanecer distante das famílias endividadas, dos migrantes, dos desempregados e das pessoas que carregam feridas emocionais. Pode ensinar doutrinas corretas e reproduzir preconceitos, ou falar de fraternidade sem permitir que os pobres participem das decisões. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão mediante a boa notícia aos pobres, a libertação dos cativos e a recuperação da vista aos cegos. Em Lucas 10,25-37, o samaritano demonstra que a proximidade ética ultrapassa fronteiras religiosas e sociais. Em Mateus 25,31-46, o cuidado oferecido aos famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados aparece associado ao encontro com o próprio Cristo. Essas passagens convergem para uma compreensão concreta da espiritualidade: Deus é honrado quando a dignidade humana é defendida e quando a compaixão se transforma em prática. A conversão comunitária exige escutar os feridos, corrigir estruturas injustas e abandonar a pretensão de que a aparência religiosa seja suficiente para comprovar fidelidade ao Evangelho.

A esperança cristã nasce da convicção de que Deus continua agindo na história sem dispensar a responsabilidade humana. O Reino não é uma realidade que possuímos integralmente, nem um projeto que podemos identificar sem reservas com nossas instituições ou ideologias. É uma promessa que nos chama a participar de sua realização mediante escolhas concretas, reconhecendo que a plenitude ainda está por vir. Em Romanos 8,18-25, a esperança permanece ligada à criação que geme e aguarda libertação, enquanto a fé aprende a perseverar diante daquilo que ainda não pode contemplar plenamente. A semente de mostarda e o fermento expressam essa tensão entre presença e plenitude: o Reino já atua, mas sua consumação não está concluída. Por isso, a confiança em Deus não justifica a acomodação; sustenta a perseverança. Plantar, regar, cuidar, alimentar, proteger e transformar são responsabilidades que adquirem sentido quando orientadas pela justiça, pela misericórdia e pela fidelidade à vida. O centro  de Lucas 13,18-21 encontra-se, portanto, na revelação de uma grandeza que não depende dos critérios humanos de poder. O grão de mostarda questiona a tendência de desprezar aquilo que parece insignificante, enquanto o fermento revela a necessidade de uma transformação que alcance a totalidade da existência. Essas imagens convocam cada pessoa, comunidade e instituição a examinar as próprias prioridades, perguntando se o crescimento produzido favorece a liberdade ou amplia a dominação, se a autoridade protege os vulneráveis ou preserva privilégios, se a religião aproxima as pessoas de Deus ou as afasta daqueles que sofrem. O Reino torna-se perceptível quando a injustiça é enfrentada, a dignidade é restaurada e a esperança deixa de ser discurso para assumir a forma de compromisso. Sua força não está em reproduzir os mecanismos dos impérios, mas em criar relações nas quais ninguém seja considerado descartável. A semente precisa ser lançada, o fermento precisa penetrar a massa e a comunidade precisa permitir que o Evangelho transforme suas práticas.

A pergunta decisiva que Jesus nos dirige não é simplesmente:  Se acreditamos na grandeza de Deus, mas se conseguimos reconhecê-la onde nossos olhos acostumados ao prestígio dificilmente a procuram?

 Talvez o Reino comece quando alguém interrompe uma humilhação, partilha alimento, protege uma vítima ou se recusa a participar de uma mentira. Talvez cresça quando uma comunidade deixa de apenas falar dos pobres e começa a escutá-los, quando uma instituição assume seus erros ou quando cidadãos se organizam para defender direitos ameaçados. Esses gestos não esgotam a promessa divina, mas tornam sua presença historicamente perceptível. O Evangelho nos chama a abandonar a religião da aparência, a política da desumanização e a espiritualidade indiferente, reconhecendo que a fidelidade a Deus exige responsabilidade diante da vida. Quando as pequenas ações se articulam com a justiça e a perseverança, tornam-se sinais de uma transformação que ultrapassa seus próprios limites. É nessa confiança que o Reino cresce, silenciosamente, sem deixar de confrontar os poderes, até que a espmerança se converta em realidade compartilhada e a dignidade humana encontre espaço para florescer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano