quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,1-13

O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que  ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado  no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48  proclamado  no 19º Domingo do Tempo Comum;  Lucas 12, 35-38 proclamado  na  terças-feira e  Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira  da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado  na  quinta-feira  da  21ª semana do Tempo Comum  apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier.  Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho: 

  1. Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11. 
  2. Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel. 
  3. Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13. 
  4. Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares. 
  5. Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.

Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir: 
  1. Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
  2.  Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida.  É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.

A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial: 
  • Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
  • Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade. 
  • Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança. 
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo:  “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.

As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.

E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência: 
  • Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
  • O  Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
  •  Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
  •  Hebreus 10,36 chama à perseverança. 
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos.  É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.

Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
  • Levítico 19,18 manda amar o próximo
  • Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
  •  Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
  • Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta. 
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir.  Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.

Por isso, a resposta do esposo  “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.

É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.

Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.

A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade: 
  • Porque as virgens perguntam se estamos preparados
  •  A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
  •  O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
 Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder.  A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.

Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.

Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária: 
  • Há óleo em nossa lâmpada? 
  • Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando? 
  • Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão? 
  • Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros? 
  • Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões? 
  • Nossa autoridade serve ou domina? 
  • Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
 Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho. 

A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.

A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.

Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quando a Devoção Precisa de Conversão


Entre a Espada e o Evangelho
A  chamada Quaresma de São Miguel Arcanjo ocupa hoje um espaço significativo na piedade popular católica, especialmente no Brasil. Tradicionalmente praticada por muitos fiéis entre 15 de agosto e 28 de setembro, como preparação para a Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, celebrada em 29 de setembro, ela reúne: oração, penitência, jejum, leitura bíblica e pedidos de proteção e intercessão. Para muitas pessoas, esse período possui um profundo significado existencial. Em situações de:  sofrimento, doença, violência, desemprego, conflitos familiares e insegurança, a devoção oferece uma linguagem para expressar esperança diante daquilo que escapa ao controle humano. Por isso, qualquer análise séria não pode começar pelo desprezo à fé popular. A antropologia da religião mostra que os ritos ajudam comunidades e indivíduos a organizar o tempo, elaborar angústias, preservar memórias, fortalecer vínculos e atribuir sentido à experiência humana. O problema, portanto, não é simplesmente perguntar se a Quaresma de São Miguel é boa ou má. A questão teológica decisiva é discernir seus frutos, suas interpretações e seus usos concretos. Ela conduz à conversão, à liberdade, à misericórdia e à justiça ou alimenta medo, superstição, dependência, espetáculo e superioridade religiosa? O critério evangélico permanece claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).

Antes de qualquer avaliação, é necessário fazer uma distinção histórica:  Existe uma tradição franciscana de períodos penitenciais ligados à devoção a São Miguel e à experiência espiritual de São Francisco de Assis. A tradição relaciona particularmente esse período ao Monte Alverne, onde Francisco viveu uma profunda experiência espiritual e recebeu os estigmas. Entretanto, é historicamente inadequado afirmar, sem qualificações, que São Francisco tenha criado a atual Quaresma de São Miguel exatamente como ela é praticada hoje, com datas rigidamente fixadas, sequência uniforme de orações, ladainhas, velas, intenções determinadas e métodos idênticos em todos os lugares. A prática contemporânea é resultado de um desenvolvimento histórico da piedade popular. Essa precisão não diminui a devoção. Ao contrário, protege a tradição contra falsas certezas. Uma fé que proclama a verdade não deveria temer a pesquisa histórica. A história da Igreja é marcada por uma distinção fundamental entre a Tradição apostólica, a liturgia oficialmente celebrada e as diversas formas de piedade popular desenvolvidas ao longo dos séculos. Confundir essas realidades pode produzir graves equívocos. A chamada Quaresma de São Miguel, portanto, não deve ser confundida com a Quaresma litúrgica que prepara a Igreja para a celebração da Páscoa. A Igreja possui um calendário litúrgico próprio, e nenhuma devoção particular pode criar, por iniciativa privada, um novo tempo litúrgico universal. O período entre 15 de agosto e 28 de setembro continua pertencendo ao calendário ordinário da Igreja, com suas celebrações e leituras próprias. A Assunção de Maria e a Festa dos Santos Arcanjos são celebrações litúrgicas; a chamada Quaresma de São Miguel, como conjunto organizado de práticas devocionais, pertence ao campo da piedade popular. Essa diferença possui consequências pastorais importantes. Nenhum fiel é menos católico por não praticá-la. Nenhuma comunidade deveria apresentá-la como obrigação religiosa universal. Nenhum cristão deveria ser levado a acreditar que Deus concederá ou negará uma graça simplesmente porque uma determinada sequência de dias foi ou não cumprida. O próprio magistério oferece critérios para esse discernimento. O Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, publicado em 2002 pela então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, reconhece o valor das expressões populares da fé, mas insiste na necessidade de preservar o primado da liturgia e estabelecer uma relação harmoniosa entre a celebração litúrgica e as devoções. A piedade popular pode enriquecer a vida cristã, mas não pode substituir a Eucaristia, os sacramentos, a escuta comunitária da Palavra e a vida da Igreja. Uma devoção saudável deveria conduzir para Cristo e para a comunidade, e não transformar-se num universo religioso paralelo. Uma pessoa pode cumprir quarenta dias de oração e, simultaneamente, abandonar a vida comunitária, desprezar os pobres, alimentar preconceitos e tratar os outros com violência. Nesse caso, existe prática religiosa, mas não necessariamente conversão. Essa crítica encontra fundamento direto nas palavras de Jesus. Em Mateus 6,1-18, ao falar da esmola, da oração e do jejum, Jesus não condena essas práticas. Ao contrário, pressupõe que seus discípulos as realizem. O problema está em fazê-las “para serem vistos”. Essa advertência possui uma força particular no mundo das redes sociais. Hoje, a espiritualidade pode ser fotografada, filmada, contabilizada e transformada em conteúdo diário. A vela acesa, o número do dia da devoção, o jejum, a oração e até a emoção religiosa podem tornar-se parte da construção de uma imagem pública. Não é possível julgar automaticamente a intenção de quem publica uma experiência de fé, mas o Evangelho obriga a fazer uma pergunta incômoda: estou rezando diante de Deus ou construindo uma identidade religiosa diante do público? Quando a visibilidade se torna mais importante que a conversão, a religião corre o risco de transformar-se em performance.

A cultura digital intensificou esse problema. O algoritmo não possui discernimento teológico. Ele privilegia aquilo que provoca atenção, medo, emoção, indignação e curiosidade. Por isso, discursos sobre ataques demoníacos, batalhas espirituais, revelações extraordinárias e inimigos invisíveis podem alcançar enorme circulação. O risco é que a religião comece a adaptar sua linguagem à lógica do engajamento. O medo gera audiência. O exagero gera compartilhamentos. O espetáculo produz seguidores. Mas a verdade do Evangelho não pode ser medida pelo número de visualizações. A fé cristã não foi entregue à Igreja como produto destinado a disputar atenção em um mercado digital. A análise bíblica da figura de São Miguel também exige rigor hermenêutico. Miguel aparece em Daniel 10,13 e 10,21 associado à defesa do povo de Deus. Em Daniel 12,1, surge como aquele que se levanta em favor do povo em um período de grande angústia. Em Judas 9, é chamado de arcanjo e, em sua disputa com o diabo, não pronuncia uma condenação baseada em poder próprio, mas afirma: “O Senhor te repreenda”. Essa expressão é decisiva. Miguel não é Deus. Não é uma força autônoma. Não exerce autoridade independente. Sua ação está subordinada à soberania divina. No Apocalipse 12,7-9, Miguel e seus anjos combatem o dragão. Entretanto, uma leitura responsável precisa reconhecer o gênero apocalíptico do texto. O Apocalipse não é uma reportagem sobre o mundo invisível. É uma literatura simbólica produzida no contexto de comunidades submetidas a poderes históricos, políticos e religiosos opressores. A linguagem cósmica proclama que nenhum poder de morte possui a última palavra.
Esse ponto impede uma leitura reducionista da chamada batalha espiritual. O cristianismo reconhece a realidade do mal e possui uma tradição demonológica. O problema começa quando essa tradição é transformada numa explicação universal para todos os acontecimentos. Nem toda doença é ação demoníaca. Nem toda dificuldade financeira é maldição. Nem todo conflito familiar é ataque espiritual. Nem todo adversário político é instrumento de Satanás. Nem toda religião diferente representa uma ameaça demoníaca. Uma demonologia sem discernimento pode produzir medo, intolerância e irresponsabilidade. Se toda doença é atribuída ao demônio, despreza-se a medicina. Se todo sofrimento psicológico é interpretado exclusivamente como problema espiritual, pessoas podem deixar de buscar ajuda adequada. Se toda crise social é explicada por forças invisíveis, desaparecem a responsabilidade humana e a análise das estruturas que produzem sofrimento.
A própria Bíblia rejeita explicações religiosas simplistas. O livro de Jó questiona a tentativa de estabelecer uma relação mecânica entre sofrimento e culpa. Os amigos de Jó acreditam possuir uma explicação religiosa para sua tragédia, mas a narrativa demonstra os limites dessa teologia. Jesus também não reduz todo sofrimento à mesma causa. Ele cura, acolhe, perdoa, liberta e devolve dignidade. Uma pastoral madura precisa, portanto, reconhecer a complexidade da realidade humana. Fé, medicina, psicologia e ciências sociais não precisam ser inimigas. A verdade não perde sua força quando dialoga com outras formas legítimas de conhecimento.
Efésios 6,10-18 oferece uma chave fundamental para compreender o combate espiritual. Paulo utiliza a imagem da armadura, mas as armas apresentadas são profundamente éticas: verdade, justiça, Evangelho da paz, fé, salvação e Palavra de Deus. O texto não entrega uma técnica mágica para controlar forças invisíveis. Ele chama o cristão a permanecer fiel. Combater espiritualmente a mentira significa viver na verdade. Combater o mal significa praticar a justiça.

Combater a violência significa construir a paz. Isso muda radicalmente a compreensão da devoção. Uma pessoa pode rezar durante quarenta dias e permanecer distante do Evangelho se continua mentindo, explorando, humilhando e discriminando.
É aqui que a crítica profética dos profetas se torna indispensável. Isaías 1,11-17 denuncia um culto religiosamente intenso, mas moralmente vazio. Deus não aceita sacrifícios quando as mãos que os oferecem permanecem marcadas pela injustiça. Em Amós 5,21-24, o profeta rejeita uma religião que canta e celebra enquanto a sociedade continua esmagando os pobres. A exigência divina é clara: “Corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene”. Isaías 58 aprofunda ainda mais a questão do jejum. O jejum querido por Deus não se limita à privação alimentar. Ele está relacionado à libertação dos oprimidos, à partilha do pão e ao acolhimento dos vulneráveis. Esse texto deveria ser central em qualquer prática penitencial. É possível deixar de comer determinados alimentos durante quarenta dias e continuar alimentando ódio. É possível fazer penitência e continuar explorando trabalhadores. É possível acender velas diariamente e permanecer indiferente à fome de quem vive ao lado.
A dimensão social do pecado não pode ser ignorada. Existe uma forma de religião que procura obsessivamente o mal invisível, mas não enxerga o mal instalado em estruturas concretas. O mal também aparece na fome, no racismo, na violência contra as mulheres, na destruição ambiental, na exploração econômica, no tráfico de pessoas, na corrupção e na precarização do trabalho. Uma espiritualidade que procura demônios em toda parte, mas não percebe os mecanismos sociais que produzem sofrimento, pode tornar-se alienante. A Bíblia, porém, não separa a relação com Deus da responsabilidade histórica. A libertação anunciada por Jesus em Lucas 4,18-19 possui consequências concretas para os pobres, os cativos e os oprimidos.

No Brasil contemporâneo, essa discussão possui uma dimensão particular. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdade, insegurança, violência e polarização. A procura por proteção espiritual é, portanto, compreensível. O problema aparece quando a insegurança humana é utilizada para produzir dependência religiosa. Quanto maior o medo, maior pode ser a procura por campanhas, objetos, fórmulas e líderes apresentados como indispensáveis. A fé pode oferecer esperança, mas também pode ser instrumentalizada como mecanismo de controle. É necessário perguntar quem se beneficia quando todo sofrimento é apresentado como resultado de uma maldição:
  •  Quem ganha quando cada problema exige uma nova campanha? 
  • Quem lucra quando a proteção de Deus parece depender da compra de um objeto ou da participação em determinado evento?
A tradição católica oferece critérios claros para essa questão. O Catecismo da Igreja Católica, especialmente nos números 2110 e 2111, alerta para a superstição e explica que até práticas religiosas legítimas podem ser deformadas quando lhes é atribuída uma eficácia automática ou mágica, independentemente das disposições interiores da pessoa. Portanto: 
  1. Rezar a São Miguel não é superstição.
  2.  Acender uma vela não é superstição.
  3.  Fazer jejum não é superstição. 
O problema surge quando se acredita que o objeto, a fórmula ou o número de dias obriga Deus a agir e  se alguém pensa ou acredita que uma oração corretamente repetida garante automaticamente uma espécie de blindagem espiritual, a prática deixa de expressar confiança e aproxima-se da mentalidade mágica.
Os números 2116 e 2117 do Catecismo aprofundam essa crítica ao rejeitar práticas que pretendem controlar poderes ocultos. A diferença entre oração e magia é decisiva. A oração pede e confia. A magia pretende dominar e controlar. A oração reconhece a liberdade de Deus. A mentalidade mágica tenta transformar Deus em mecanismo previsível. O cristianismo não ensina a manipular o sagrado. Ensina a confiar em Deus mesmo quando a resposta não corresponde aos nossos desejos. Existe também o risco do orgulho espiritual. A parábola do fariseu e do publicano, em Lucas 18,9-14, mostra que práticas religiosas aparentemente corretas podem transformar-se em motivo de superioridade. O fariseu jejua e reza, mas utiliza sua religião para desprezar o outro. Jesus não condena o jejum ou a oração. Condena a arrogância religiosa. O mesmo critério aparece em Mateus 9,13, quando Jesus recorda: “Quero misericórdia, e não sacrifício”. Uma devoção autêntica deveria tornar a pessoa mais humilde, não mais convencida de sua superioridade espiritual.
Esse risco se relaciona diretamente com o clericalismo e o autoritarismo religioso. O problema não está apenas em padres e bispos. Qualquer líder, pregador ou influenciador pode assumir uma posição clericalista quando se apresenta como proprietário da vontade de Deus. Isso acontece quando alguém afirma saber exatamente quais espíritos atuam na vida dos outros, quando interpreta todas as doenças e conflitos como ataques invisíveis ou quando cria uma dependência psicológica e espiritual dos fiéis. Gálatas 5,1 recorda: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Uma espiritualidade cristã madura forma consciências livres e responsáveis. Não deveria produzir consumidores religiosos dependentes de intermediários carismáticos.
A instrumentalização política da linguagem religiosa é outro problema grave. A oposição entre bem e mal faz parte da linguagem bíblica, mas torna-se perigosa quando é utilizada para eliminar a humanidade do adversário. Uma divergência política deixa de ser discutida racionalmente e passa a ser apresentada como guerra espiritual. O adversário torna-se inimigo de Deus. Uma proposta política é classificada como satânica antes mesmo de ser analisada. Isso não é discernimento profético. É instrumentalização da fé.

No Brasil, setores da extrema direita têm utilizado frequentemente símbolos cristãos e uma linguagem de guerra espiritual para apresentar determinados projetos políticos como se possuíssem legitimidade divina exclusiva. Isso exige crítica. A tradição profética não autoriza a sacralização de líderes políticos. Os profetas bíblicos confrontaram reis e estruturas de poder. A fé cristã não pertence à direita, à esquerda ou a qualquer partido. Quando um projeto político sequestra a cruz para apresentar seus adversários como inimigos de Deus, a religião é transformada em instrumento ideológico. Jesus, em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, é tentado justamente pelo poder, pelo espetáculo e pela utilização de Deus em benefício próprio. Essas tentações permanecem atuais. A religião pode ser transformada em mercado e pode ser transformada em espetáculo, em instrumento de poder e até em mecanismo de controle das consciências. Quando a linguagem da “batalha espiritual” passa a demonizar outras religiões ou grupos religiosos, seus praticantes deixam de ser vistos como pessoas com dignidade e passam a ser tratados como adversários a serem combatidos. Essa postura fere o princípio da liberdade religiosa e alimenta a intolerância. O problema torna-se ainda mais grave quando atinge as religiões de matriz africana, historicamente perseguidas, criminalizadas e estigmatizadas no Brasil, e que ainda hoje são frequentemente alvo de discursos de demonização religiosa. Uma linguagem irresponsável sobre batalha espiritual pode, portanto, ultrapassar o campo da devoção e contribuir para violências concretas, preconceitos, discriminação e perseguições. O combate cristão contra o mal jamais pode ser convertido em licença para combater pessoas. O Evangelho chama o cristão ao discernimento, à verdade e à defesa da dignidade humana, inclusive diante daquele que professa outra fé.

O cristão tem o direito de professar sua fé e suas convicções, mas não possui o direito de transformar pessoas e comunidades em objetos de ódio. Jesus afirma em Mateus 5,44: “Amai os vossos inimigos”. O combate cristão contra o mal não é autorização para combater seres humanos. Romanos 12,21 oferece uma síntese ainda mais clara: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”.
A dimensão psicológica também merece atenção.  Uma espiritualidade baseada em ameaça permanente pode produzir ansiedade, culpa e medo. Pessoas vulneráveis podem começar a interpretar sonhos, pensamentos, doenças e acontecimentos cotidianos como sinais de perseguição demoníaca. Não se trata de patologizar a fé, mas de observar seus frutos. A prática produz confiança ou paranoia? Liberdade ou dependência? Discernimento ou medo permanente? Uma religião saudável deveria ampliar a capacidade humana de enfrentar a realidade, e não tornar o indivíduo incapaz de viver sem rituais constantes de proteção.

Isso não significa que a Quaresma de São Miguel não possua aspectos positivos. Ela pode recuperar a disciplina da oração diária em uma sociedade marcada pela dispersão. Pode incentivar a leitura da Bíblia. Pode estimular o jejum, a penitência e a caridade. Pode ajudar pessoas a atravessar momentos de sofrimento. Pode fortalecer a consciência de que o mal não deve ser normalizado. Pode lembrar que o cristão é chamado a resistir à mentira, à injustiça e à violência. O problema não está necessariamente na devoção. Está no modo como ela é compreendida e utilizada. O próprio símbolo dos quarenta dias pode ser enriquecido pela experiência do deserto de Jesus. Em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, Jesus enfrenta tentações profundamente atuais. A primeira envolve a transformação do poder em satisfação imediata. A segunda envolve o espetáculo religioso e a tentativa de obrigar Deus a demonstrar sua proteção. A terceira envolve a obtenção do poder político em troca de submissão. Uma Quaresma verdadeiramente cristã deveria ajudar o fiel a reconhecer essas tentações em sua própria vida e na vida da Igreja. A religião que transforma tudo em dinheiro precisa ser confrontada. A religião que precisa de espetáculo permanente precisa ser questionada. A religião que se submete ao poder político precisa ser purificada.

A verdadeira proteção cristã também não pode ser individualista. O Pai Nosso não ensina simplesmente “livra-me do mal”, mas “livra-nos do mal”. A oração possui uma dimensão comunitária. Quem pede proteção para si também é chamado a proteger os vulneráveis. Quem pede libertação deve perguntar quem está aprisionado. Quem pede paz deve perguntar como participa da construção da paz. Uma devoção a São Miguel poderia tornar-se uma escola de responsabilidade social. 
  • De quem eu preciso ser proteção? 
  • Quem está sozinho? 
  • Quem sofre violência? 
  • Quem foi abandonado? 
  • Quem está sendo discriminado? 
  • Quem necessita de alimento, escuta ou defesa?
Essa é uma forma mais profunda de compreender o combate espiritual. 
  • Combater a mentira é recusar-se a divulgar notícias falsas. 
  • Combater a violência é não reproduzir discursos de ódio. 
  • Combater a injustiça é denunciar a exploração. 
  • Combater o racismo é rejeitar a desumanização. 
  • Combater o clericalismo é recusar entregar a própria consciência a líderes que pretendem ocupar o lugar de Deus. 
  • Combater o fanatismo é reconhecer que ninguém possui o monopólio absoluto da compreensão de Deus.
 A exortação de 1 Tessalonicenses 5,21 permanece essencial: “Examinai tudo e ficai com o que é bom”. Discernir é uma forma de maturidade espiritual. A verdade também está ligada à liberdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Essa palavra deveria impedir a construção de uma religião baseada no medo. A fé não precisa fabricar inimigos para manter os fiéis unidos. Não precisa transformar o sagrado em mercadoria. Não precisa usar a ignorância como condição de sobrevivência. Uma Igreja madura pode reconhecer a história complexa de suas práticas, corrigir abusos e dialogar com a ciência sem abandonar a fé.

A crítica, contudo, não pode transformar-se em desprezo pela religiosidade popular. Seria outro tipo de arrogância. O povo reza porque sofre, espera, busca sentido e procura forças para continuar vivendo. O papel da teologia não é humilhar a fé popular, mas ajudá-la a amadurecer. A função pastoral não é arrancar do povo suas devoções, mas evangelizá-las. A piedade popular pode ser um caminho legítimo quando conduz à Palavra, à Eucaristia, à reconciliação, à comunidade e ao compromisso com a vida.
A questão decisiva é que a devoção não se transforme em fim absoluto. Quando o ritual ocupa o lugar da conversão, quando o medo ocupa o lugar da esperança, quando o líder ocupa o lugar da consciência e quando a superstição ocupa o lugar da fé, a prática perdeu seu centro. São Miguel não é Deus. Não é Cristo. Não é uma força mágica disponível para resolver automaticamente os problemas humanos. Na tradição bíblica, sua figura aponta para a soberania de Deus sobre o mal. Uma devoção autêntica a São Miguel, portanto, deve conduzir para Deus e, na fé cristã, para Jesus Cristo.
A conclusão, então, não precisa ser a destruição da Quaresma de São Miguel, mas sua purificação evangélica. Uma devoção que produz medo precisa ser evangelizada. Uma devoção que produz comércio precisa ser purificada. Uma devoção que produz superioridade precisa ser confrontada pela humildade da cruz. Uma devoção que alimenta intolerância precisa reencontrar a misericórdia. Mas uma prática que produz oração sincera, leitura da Palavra, humildade, solidariedade, compromisso comunitário, justiça e responsabilidade pode constituir uma expressão legítima e fecunda da piedade popular.

A pergunta final não deveria ser quantas velas foram acesas, quantos dias foram cumpridos ou quantas orações foram repetidas. A pergunta verdadeiramente cristã é outra: 
  • Quem nos tornamos depois desse caminho?
  • Estamos mais próximos de Jesus? 
  • Mais misericordiosos?
  •  Mais comprometidos com a verdade? 
  • Mais livres diante da manipulação religiosa?
  •  Mais atentos aos pobres?
  •  Mais responsáveis pelo que fazemos, dizemos, compartilhamos e até apoiamos politicamente?
 Se uma devoção não toca a vida concreta, ela corre o risco de permanecer apenas na superfície. A verdadeira vitória espiritual não acontece quando aprendemos a enxergar demônios em todos os lugares. Acontece quando o mal deixa de encontrar espaço em nossa maneira de:  pensar, falar, trabalhar, votar, conviver e tratar o próximo. Acontece quando a oração se transforma em compromisso, quando: 
  •  O jejum se transforma em solidariedade, 
  • Quando a penitência se transforma em mudança de vida 
  •  Quando a devoção se transforma em serviço.
Talvez seja esse o sentido mais profundo que uma Quaresma de São Miguel possa recuperar no contexto contemporâneo. A espada do arcanjo não precisa tornar-se símbolo de guerra contra pessoas, partidos, religiões ou grupos sociais. Pode ser compreendida como imagem da coragem necessária para cortar as amarras da mentira, da injustiça, do medo e da indiferença. O combate não é contra a humanidade do outro e sim contra tudo aquilo que desumaniza.
O Evangelho não chama o cristão a viver aterrorizado. Chama-o a confiar em Deus e a comprometer-se com o bem. Por isso, uma devoção é autenticamente cristã não quando produz pessoas que falam obsessivamente sobre o demônio, mas quando produz pessoas que se parecem mais com Cristo. Não quando aumenta o medo, mas quando fortalece a esperança. Não quando fabrica inimigos, mas quando desperta responsabilidade. Não quando transforma a religião em espetáculo, mercado ou instrumento de poder, mas quando gera verdade, justiça, misericórdia e amor.
A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente se estamos do lado de São Miguel. É se estamos do lado daquilo que Deus exige na Escritura: verdade, justiça, misericórdia, liberdade e amor. Diante do Evangelho, não basta dizer que combatemos o mal. É necessário demonstrar, na vida concreta, de que maneira escolhemos o bem.
Uma Quaresma de São Miguel encontrará sua autenticidade cristã quando deixar de ser uma técnica de proteção e se tornar caminho de conversão. Quando não prometer uma vida sem sofrimento, mas ajudar a atravessar o sofrimento sem perder a humanidade. Quando não transformar os fiéis em guerreiros contra os outros, mas em discípulos capazes de enfrentar as próprias sombras e resistir às estruturas que produzem morte. Quando não substituir Cristo, mas apontar para ele.
Porque o maior sinal de que uma devoção está produzindo frutos não é o medo que ela desperta, nem o espetáculo que ela consegue criar, nem a quantidade de pessoas que reúne. O sinal é o amor que ela gera. É a verdade que ela protege. É a justiça que ela promove. É a liberdade que ela preserva. É a misericórdia que ela desperta. No fim, a medida de toda devoção cristã permanece a mesma: não quanto falamos sobre os anjos, o demônio ou a batalha espiritual, mas quanto, depois de rezar, conseguimos viver como Jesus Cristo.
DNonato - Teólogo  do Cotidiano.

domingo, 9 de agosto de 2026

A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XXXVII

 

  • Podem nos julgar. Deus nos conhece.

Todos nós carregamos batalhas que quase ninguém conhece. Há dores que nunca se transformaram em palavras, lágrimas derramadas no silêncio, noites de angústia, recomeços, perdas, decepções e cicatrizes que permanecem escondidas aos olhos do mundo. No entanto, basta uma fotografia, um comentário ou uma narrativa conveniente para que muitos acreditem conhecer toda a nossa história. Cada um de nós já descobriu que nem todas as feridas são provocadas pelas dificuldades da vida. Algumas são abertas pelas palavras, outras pelos julgamentos precipitados, e as mais profundas nascem da indiferença de quem nunca teve a humildade de perguntar: “O que realmente aconteceu?”

Há feridas que o tempo cicatriza. Outras voltam a sangrar sempre que alguém decide julgar uma história que nunca viveu. Vivemos uma época em que a pressa substituiu a escuta e a aparência passou a valer mais do que a verdade. Julgar tornou-se entretenimento; destruir reputações tornou-se espetáculo. As redes sociais criaram um tribunal permanente, no qual muitos assumem ao mesmo tempo o papel de juízes, promotores e carrascos. Não investigam os fatos, não ouvem a outra parte e não procuram compreender. Basta uma versão conveniente para que a condenação seja decretada.

Quantas vezes pessoas que nunca caminharam ao nosso lado, nunca conheceram nossas lutas e nunca choraram conosco se sentem no direito de nos julgar, ridicularizar e transformar nossa história em motivo de comentários cruéis? Conhecem apenas um capítulo e acreditam conhecer o livro inteiro. Julgam uma fotografia, mas ignoram o filme. Leem uma página solta e imaginam compreender toda a obra. Esquecem que existem capítulos da nossa vida que somente Deus conhece. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores injustiças do nosso tempo: pessoas que sabem muito pouco sobre nossas lutas sentem-se autorizadas a emitir sentenças definitivas sobre quem somos.. Todos nós conhecemos dias em que o cansaço vence. Dias em que nos perguntamos se vale a pena continuar lutando. Dias em que o silêncio parece mais seguro do que qualquer palavra, porque, em nosso tempo, a mentira costuma correr mais depressa do que a verdade, enquanto a verdade muitas vezes precisa caminhar silenciosamente. Há momentos em que não nos calamos porque não temos o que dizer, mas porque percebemos que algumas pessoas não querem ouvir. Já decidiram o que pensar, já escolheram quem somos e qualquer explicação será interpretada como desculpa.

A Escritura nos ensina que a multidão nem sempre caminha com a justiça. A mesma multidão que estendeu mantos para acolher Jesus em Jerusalém foi a que, poucos dias depois, gritou: “Crucifica-o!”. Por isso, a própria Escritura adverte: “Não seguirás a multidão para fazer o mal” (Êxodo 23,2). A maioria nunca foi garantia de verdade. Lembramo-nos de Jó, acusado pelos próprios amigos quando mais precisava de consolo; de Jeremias, rejeitado porque insistia em anunciar a verdade; dos profetas perseguidos por denunciarem a injustiça. E, acima de todos, lembramo-nos de Jesus, condenado por falsas testemunhas, vítima da manipulação, dos interesses políticos e religiosos e da covardia daqueles que preferiram o silêncio à verdade. A cruz nos recorda que ser injustiçado não significa estar abandonado por Deus. Mas também precisamos ter honestidade diante de nós mesmos. Não afirmamos que somos perfeitos. Cada um de nós carrega erros, arrependimentos, limitações e escolhas das quais gostaria de ter feito diferente. Nenhuma vida é escrita apenas com acertos. Todos temos páginas que gostaríamos de reescrever. Reconhecer nossos erros, porém, não significa aceitar que outras pessoas tenham o direito de transformar nossos erros em toda a nossa identidade. Há uma diferença entre assumir responsabilidades e permitir que nos reduzam às nossas quedas. O Evangelho não nos ensina a negar nossos erros; ensina-nos a reconhecer, levantar e recomeçar.

Apesar de tudo, continuamos caminhando. Continuamos acreditando que Deus conhece aquilo que ninguém vê. As pessoas enxergam resultados; Deus conhece as intenções. As pessoas observam aparências; Deus contempla o coração. As pessoas contam vitórias e derrotas; Deus conhece as batalhas travadas no silêncio. Como afirma a Escritura: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1 Samuel 16,7). Essa certeza não apaga nossas dores, mas impede que elas tenham a última palavra.

Não escrevemos estas palavras para despertar pena, nem para responder aos nossos acusadores. Escrevemo-las porque estamos cansados de uma cultura em que se condena antes de ouvir, rotula-se antes de conhecer e destrói-se antes de compreender. Precisamos reaprender a ouvir antes de condenar, dialogar antes de rotular e conhecer antes de julgar. Precisamos recuperar algo que parece cada vez mais raro: a capacidade de olhar para o outro como ser humano, e não como personagem de uma narrativa construída para ser atacado.

Continuaremos caminhando. Não porque sejamos mais fortes do que os outros, mas porque Deus sustenta os nossos passos. Como rezou o salmista: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” (Salmo 23,4). Talvez não tenhamos respostas para todas as perguntas. Talvez algumas feridas permaneçam abertas por muito tempo. Talvez algumas pessoas jamais compreendam nossa história. Ainda assim, podemos escolher não transformar a dor em ódio, nem a injustiça que sofremos em injustiça contra os outros.

Os homens podem fabricar versões, apagar capítulos, distorcer palavras e espalhar mentiras. As redes sociais podem transformar suspeitas em certezas, opiniões em sentenças e boatos em verdades. Mas Deus não lê manchetes, não julga por comentários e não condena pela aparência. Deus conhece o coração, conhece as intenções e conhece toda a história. Por isso, recusamo-nos a viver prisioneiros dos julgamentos humanos. Nossa identidade não nasce dos aplausos nem morre nas críticas. Ela está firmada naquele que conhece nossas lágrimas, sonda nossos corações e continua nos chamando para a esperança e para um novo começo.

Podem contar a nossa história sem a gente. Deus, porém, nunca deixa de escrevê-la conosco.

E isso nos basta.

Porque a verdade pode ser escondida, mas não destruída. Pode ser combatida, mas não vencida. Pode ser silenciada por um tempo, mas não permanecerá sepultada para sempre. Talvez não sejamos compreendidos por todos. Talvez algumas pessoas continuem acreditando nas versões que escolheram ouvir. Talvez alguns jamais tenham interesse em conhecer o que realmente aconteceu. Mas não precisamos viver para satisfazer o tribunal das opiniões humanas. Precisamos continuar caminhando com dignidade, consciência e fé.  E  no fim, não seremos definidos pelos comentários das redes sociais, pelas versões inventadas sobre nós ou pelos julgamentos daqueles que nunca conheceram nossas batalhas. Também não seremos definidos apenas pelos nossos erros ou pelas nossas quedas. Somos seres humanos em construção, marcados por acertos e fracassos, por perdas e recomeços, por feridas e esperanças. E, para quem crê, existe algo maior do que a opinião dos homens: existe o olhar misericordioso de Deus.

A última palavra não pertence aos nossos acusadores. Não pertence:  às multidões, às redes sociais ou aos nossos próprios fracassos. A última palavra pertence à Verdade, que  não é apenas uma ideia, uma teoria ou uma opinião. A Verdade tem um nome: Jesus Cristo, por isso, continuamos. Não porque a vida tenha sido fácil, nem porque todas as feridas estejam curadas, mas porque ainda existe caminho. E enquanto houver caminho, haverá possibilidade de recomeço.

Podem contar a nossa história sem a gente. Podem até tentar escrever o nosso fim. E enquanto Deus continuar escrevendo, a nossa história ainda não terminou.

DNonato - Fazendo história 

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  1. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo.
  2. A Questão do Sentimento e Respeito a si mesmo II
  3. A Questao de sentimento  e o Respeito  por si mesmo III
  4. A Questão do Sentimento, Respeitsi mesmo IV
  5. Questão do sentimento, Respeito a si mesmo V
  6. Questão do sentimento, respeito a si mesmo VI
  7. Questão do sentimento, respeito por si mesmo VII
  8. Questão do Sentimento, respeito si mesmo VIII
  9. Questão de sentimento e Respeito a si mesmo IX
  10. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo X
  11. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XI
  12. Questão de sentimento Respeito por si mesmo XII
  13. Questão do Sentimento, Respeito por si mesmo XIII
  14. Questão de sentimento respeito por si mesmo XIV
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  16. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVI
  17. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo ​XVII​​​
  18. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XVIII.
  19. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XIX.
  20. A Questão do Sentimento e o Respeito a si mesmo XX.
  21. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXI
  22. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXII
  23. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIII
  24. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXIV
  25. A Questão  do sentimento  e o Respeito  por si mesmo - XXV
  26. A questão do Sentimento e o respeito por si mesmo XXVI
  27. A Questão  de sentimento  e Respeito  por si mesmo  XXVII..
  28. A Questão do sentimento e o respeito a si mesmo XXVIII
  29.  A Questão  do Sentimento  e Respeito  a si mesmo  XXIX
  30. A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXX
  31.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo – XXXII
  32.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXI
  33.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIII
  34.  Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXIV
  35. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXV
  36. Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo - XXXVI

Um breve olhar sobre João 12,24-26 - Dia do Diácono

No dia de São  Lourenço, padroeiro do Diácono  lemos João 12,24-26. Desde os primeiros anos da Igreja, o diaconato ocupou lugar essencial na vida da comunidade cristã. Seu surgimento está ligado à necessidade de garantir que a fé anunciada pelos apóstolos se tzisse em cuidado concreto com os mais necessitados. Em Atos 6,1-6, diante do crescimento da Igreja e das tensões surgidas na distribuição diária dos alimentos às viúvas, os Doze convocam a comunidade para escolher sete homens "de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria", aos quais seria confiado esse serviço. Ainda que a tradição exegética reconheça que esse texto não descreva formalmente a instituição sacramental do diaconato tal como seria desenvolvido posteriormente, ele constitui seu fundamento histórico e teológico, pois revela que a diaconia nasce inseparavelmente ligada ao serviço, à comunhão e à missão.  Ao longo dos séculos, o ministério diaconal conheceu diferentes configurações. Nos primeiros tempos, diáconos como Santo Estêvão e São Lourenço tornaram-se conhecidos não apenas pela assistência aos pobres, mas também pela coragem na proclamação do Evangelho e pela fidelidade até o martírio. Com o desenvolvimento da estrutura eclesial, sobretudo no Ocidente, o diaconato permanente foi gradualmente perdendo espaço e passou a ser exercido quase exclusivamente como etapa preparatória para o presbiterato. Essa realidade permaneceu por muitos séculos, até que o Concílio Vaticano II restaurou o diaconato permanente como grau próprio e estável do sacramento da Ordem, reconhecendo novamente sua identidade específica de ministério da Palavra, da Liturgia e da Caridade.

Na Igreja Católica, o diaconato integra o sacramento da Ordem juntamente com o episcopado e o presbiterado. O Código de Direito Canônico estabelece que somente um homem batizado pode receber validamente a ordenação (cân. 1024), devendo possuir idoneidade humana, espiritual, doutrinal e pastoral, além de cumprir o tempo de formação previsto pela Igreja (cânn. 1029-1032). Os candidatos ao diaconato permanente podem ser celibatários ou homens casados, desde que atendam às exigências canônicas, enquanto os celibatários assumem livremente o compromisso do celibato perpétuo. Entre suas atribuições estão proclamar o Evangelho, pregar quando autorizado, administrar o Batismo, assistir e abençoar matrimônios, presidir exéquias, distribuir a Eucaristia e dedicar-se especialmente ao serviço da caridade, tornando visível a dimensão servidora da Igreja. Nas Igrejas Ortodoxas e nas antigas Igrejas do Oriente, o diaconato também constitui um grau do ministério ordenado, preservando grande importância litúrgica e pastoral, embora sua atuação varie conforme cada tradição local. Entre as comunidades oriundas da Reforma, porém, a compreensão do diaconato segue caminhos diversos. Em muitas Igrejas luteranas, anglicanas e metodistas, os diáconos exercem ministérios voltados ao serviço, à educação cristã, à assistência social e, em alguns casos, possuem reconhecimento ordenado. Já em numerosas Igrejas evangélicas de tradição batista, presbiteriana, congregacional e pentecostal, o diaconato não é entendido como sacramento, mas como um ofício eclesiástico fundamentado sobretudo em Atos 6 e nas orientações de 1 Timóteo 3,8-13, sendo seus membros escolhidos pela comunidade para colaborar na administração, na assistência aos necessitados e no apoio à vida da igreja, mantendo reconhecida idoneidade moral e espiritual.  Apesar das diferenças doutrinais e disciplinares entre essas tradições, permanece um ponto de convergência: o diácono existe para servir. Seu ministério recorda que a autoridade cristã não nasce da busca por privilégios, mas da disponibilidade para colocar os próprios dons a serviço de Deus e do próximo. Não por acaso, a memória de São Lourenço, diácono da Igreja de Roma e testemunha suprema da fé, oferece o horizonte adequado para compreender o Evangelho proclamado nesta celebração, no qual Cristo revela o caminho pelo qual o discípulo participa da própria vida de Deus.

Com o  Evangelho de João 12,24-26  proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na festa de São Lourenço, diácono e mártir, celebrada em 10 de agosto celebramos o dia  dos Diáconos. A Igreja nos chama a  contempla a íntima relação entre o serviço aos pobres, o testemunho da fé e a entrega da própria vida. Em alguns contextos litúrgicos, também aparece como opção em celebrações de mártires e em circunstâncias nas quais a memória do testemunho cristão conduz naturalmente a esta passagem. Nas Igrejas Ortodoxas e nas antigas Igrejas do Oriente, o texto igualmente está associado às celebrações dos mártires e daqueles que, pela fidelidade ao Evangelho, configuraram sua existência à Páscoa de Cristo. Diversas comunidades da tradição anglicana, luterana e de outras Igrejas históricas também utilizam esta perícope em comemorações dedicadas aos mártires, especialmente a São Lourenço, reconhecendo nela uma síntese da espiritualidade cristã que une cruz, serviço, fecundidade e esperança. 

A passagem encontra-se na etapa final do ministério público de Jesus, pouco antes da narrativa da Paixão, quando a cruz deixa de ser apenas uma ameaça e torna-se a revelação definitiva da glória de Deus. Não se trata de um ensinamento isolado, mas do ponto culminante de todo um caminho iniciado desde o prólogo do Evangelho, quando João afirma que o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós (João 1,14), inaugurando uma nova maneira de compreender Deus, o ser humano e a história. O contexto imediato revela que alguns gregos desejam ver Jesus (João 12,20-22). Este detalhe aparentemente simples possui enorme profundidade teológica. 

Pela primeira vez, representantes do mundo gentio aproximam-se do Messias de Israel. O Evangelho deixa claro que a missão de Cristo ultrapassa as fronteiras étnicas, nacionais e religiosas. Quando Filipe e André comunicam esse desejo, Jesus não responde diretamente ao pedido dos gregos. Em vez disso, anuncia que chegou sua hora. A hora da glorificação não será uma coroação política, nem uma vitória militar, tampouco a conquista do poder religioso. A hora será a cruz. A verdadeira universalidade nasce da entrega e não da conquista. A verdadeira glória manifesta-se no amor levado até as últimas consequências. É neste contexto que Jesus declara: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanece só; mas, se morre, produz muito fruto" (João 12,24). A imagem do grão de trigo nasce da experiência agrícola tão conhecida pelos habitantes da Palestina. A região da Judeia, da Galileia e das planícies férteis dependia profundamente do ciclo das chuvas e da semeadura. Todo camponês sabia que a semente aparentemente desaparecia sob a terra. Aos olhos humanos, parecia perdida. Contudo, exatamente naquele
 desaparecimento começava a vida nova. A morte da semente não representa destruição absoluta, mas transformação. 

A linguagem de Jesus utiliza uma realidade concreta para revelar um mistério espiritual. A fecundidade passa inevitavelmente pela entrega. A vida nova exige renúncia ao egoísmo. A abundância nasce do dom de si mesmo. Este símbolo agrícola possui também profundas raízes no Antigo Testamento. Os profetas frequentemente utilizaram imagens da terra, da vinha, da semente e da colheita para falar da ação de Deus na história. Isaías anuncia que a palavra divina é semelhante à chuva que fecunda a terra e produz alimento (Isaías 55,10-11). O Salmo 126 proclama que os que semeiam entre lágrimas colherão com alegria (Salmo 126,5-6). O profeta Oseias convida Israel a semear justiça para colher misericórdia (Oseias 10,12). Jesus reúne toda essa tradição e a leva ao seu cumprimento definitivo. Do ponto de vista exegético, a palavra grega utilizada para morrer não significa simplesmente deixar de existir, mas entrar numa condição nova que rompe com a lógica anterior. O grão permanece aparentemente o mesmo enquanto conserva sua casca. Somente quando essa estrutura externa se rompe é que surge a planta. A metáfora possui enorme força antropológica.

O ser humano também constrói cascas. Casca do orgulho, da vaidade, do individualismo, do medo, da busca incessante de prestígio, da sede de poder e da necessidade de controlar tudo. Essas cascas protegem, mas também aprisionam. A verdadeira maturidade espiritual exige o rompimento dessas estruturas interiores para que floresça uma humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma e com os irmãos. Em seguida, Jesus afirma: "Quem ama sua vida a perderá; quem odeia sua vida neste mundo a conservará para a vida eterna" (João 12,25). Esta expressão exige cuidadosa hermenêutica. Jesus não ensina desprezo pela vida humana, pois todo o seu ministério é marcado pela defesa da vida. Ele cura enfermos, alimenta multidões, acolhe pecadores, restitui dignidade aos excluídos e combate tudo aquilo que produz morte. O verbo odiar, típico da linguagem semítica, estabelece um contraste de prioridades. Significa não colocar a própria segurança acima da fidelidade ao Reino de Deus. O discípulo não transforma sua sobrevivência no valor absoluto. A vida encontra sentido quando é oferecida em favor do próximo. É o mesmo ensinamento presente nos Evangelhos Sinóticos. Em Marcos 8,35, Mateus 16,25 e Lucas 9,24 Jesus declara que quem quiser salvar sua vida irá perdê-la, mas quem perder sua vida por causa dele e do Evangelho a encontrará. João desenvolve a mesma verdade com linguagem própria, colocando-a diretamente no horizonte da cruz e da glorificação. 

A última afirmação sintetiza toda a vocação cristã: "Se alguém quer servir-me, siga-me; e onde eu estiver estará também o meu servo; se alguém me servir, meu Pai o honrará" (João 12,26). Servir e seguir tornam-se inseparáveis. Não existe discipulado sem caminhada. Não existe seguimento sem transformação. Não existe honra divina sem serviço humilde. Aqui aparece um contraste radical com toda religião baseada em privilégios, títulos e superioridade espiritual. Jesus jamais promete aos discípulos posições de domínio. Promete comunhão consigo, mesmo quando essa comunhão passa pelo sofrimento. Os Sinóticos apresentam essa mesma dinâmica por outros caminhos. Marcos insiste que o Filho do Homem veio para servir e dar sua vida em resgate por muitos (Marcos 10,45). Mateus relaciona o seguimento ao cumprimento da vontade do Pai e ao cuidado com os pequenos (Mateus 25,31-46). Lucas destaca a misericórdia concreta, a inclusão dos marginalizados e a inversão das estruturas de poder (Lucas 4,18-19; Lucas 6,20-26). João, por sua vez, concentra toda essa tradição na imagem da glorificação pela cruz. São perspectivas diferentes que convergem para a mesma verdade fundamental: Deus manifesta sua força através do amor que serve e se entrega. A antropologia cultural ajuda a compreender o impacto dessa mensagem. Tanto no mundo romano quanto em muitos setores do judaísmo do século I, honra, prestígio e poder constituíam valores centrais. A sociedade organizava-se por rígidas hierarquias. A religião frequentemente legitimava essas diferenças sociais. Jesus rompe esse paradigma ao afirmar que a verdadeira grandeza encontra-se justamente na capacidade de servir. Seu ensinamento desconstrói toda lógica baseada na dominação.

 A cruz transforma-se na crítica mais profunda contra qualquer sistema que constrói sua estabilidade sacrificando os mais frágeis. A sociologia da religião demonstra que, ao longo da história, comunidades religiosas podem conservar sua vocação profética ou converter-se em instrumentos de legitimação do poder. Sempre que a fé deixa de anunciar a justiça para proteger privilégios, ela perde sua capacidade de produzir frutos. O grão permanece intacto, mas permanece só. Igrejas preocupadas apenas com crescimento numérico, influência política, riqueza institucional ou prestígio social correm o risco de esquecer que sua identidade nasce da cruz. Quando a religião se torna instrumento de projetos partidários, quando o Evangelho é reduzido a plataforma eleitoral ou bandeira ideológica, quando púlpitos transformam-se em palanques e a Palavra de Deus é utilizada para justificar interesses econômicos ou disputas de poder, o Cristo crucificado é substituído por um ídolo fabricado segundo conveniências humanas.

Se faz  necessária olhar  olhar  as diversas  distorções promovidas pela chamada teologia da prosperidade e pela teologia do domínio.
  1.  A primeira frequentemente reduz a bênção divina ao sucesso financeiro, ao enriquecimento pessoal e à ascensão individual. 
  2. A segunda alimenta a ideia de que a missão da Igreja consiste em conquistar espaços de poder para impor sua visão religiosa à sociedade. 
  3. Ambas entram em profunda tensão com João 12,24-26. O Cristo que fala do grão de trigo não promete enriquecimento, mas fecundidade. Não promete domínio, mas serviço. 
  • Não promete privilégios, mas fidelidade. 
  • O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. 
  • Não floresce através da violência simbólica ou política, mas pela força silenciosa do amor.
 Também é necessário discernir criticamente as aproximações entre determinadas expressões religiosas e projetos autoritários, especialmente aqueles que absolutizam o nacionalismo, incentivam discursos de ódio, naturalizam a violência, demonizam adversários políticos ou transformam diferenças sociais em justificativa para exclusão. A tradição profética bíblica denuncia continuamente essas práticas. Isaías condena os que decretam leis injustas (Isaías 10,1-2). Amós rejeita cultos desvinculados da justiça social (Amós 5,21-24). Miqueias recorda que Deus exige praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Ele (Miqueias 6,8). Jesus permanece nessa mesma tradição ao afirmar que o critério do Reino será sempre o cuidado com os pequenos, os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (Mateus 25,31-46). 

Nos tempos de hoje  O medo da perda constitui uma das maiores forças que orientam o comportamento humano. Medo de perder posição, reconhecimento, estabilidade, segurança, patrimônio, influência ou identidade. Muitas escolhas individuais e coletivas nascem desse medo. Jesus propõe um caminho inverso. A liberdade interior nasce quando deixamos de fazer da autopreservação nosso valor supremo. O grão de trigo não escolhe permanecer intacto. Sua fecundidade depende justamente da capacidade de atravessar a experiência da aparente perda. A maturidade espiritual consiste em descobrir que somente quem aprende a doar-se encontra verdadeira plenitude. Essa verdade ilumina profundamente a realidade contemporânea.  Vivemos numa sociedade marcada pela desigualdade social, pelo consumismo, pela cultura do desempenho, pela competitividade permanente e pela mercantilização das relações humanas. Pessoas passam a medir seu valor pela produtividade, pelo patrimônio acumulado ou pela visibilidade nas redes sociais. A lógica do mercado invade inclusive os espaços religiosos. Fiéis transformam-se em consumidores. Igrejas competem entre si. Pastores, padres e líderes religiosos podem ser pressionados a oferecer respostas rápidas, promessas fáceis e espiritualidades superficiais. 

Nesse ambiente, a palavra de Jesus soa profundamente contracultural. A vida não floresce pela acumulação, mas pela partilha. O sucesso não substitui a santidade. A popularidade não equivale à fidelidade. A figura de São Lourenço oferece um testemunho concreto dessa passagem evangélica. Como diácono da Igreja de Roma, administrava os bens destinados aos pobres. Quando o poder imperial exigiu que entregasse os tesouros da Igreja, apresentou os pobres, os doentes e os marginalizados, afirmando que ali estavam as verdadeiras riquezas da comunidade cristã. Sua morte tornou-se fruto porque nasceu da fidelidade ao Evangelho do serviço. Lourenço compreendeu que o grão de trigo não pode permanecer protegido enquanto os irmãos permanecem abandonados e  cada comunidade cristã é chamada a perguntar se produz frutos compatíveis com o Evangelho. Se Produz frutos quando se  acolhe os excluídos, quando promove justiça, quando educa para a paz, quando denuncia a corrupção, quando combate o racismo, quando enfrenta a desigualdade, quando protege a dignidade humana desde a concepção até a morte natural, quando cuida da criação conforme ensina Papa Francisco  na Laudato Si  conforme Gênesis 2,15 e quando reconhece em cada pessoa a imagem de Deus.  A comunidade  Torna-se estéril quando busca apenas autopreservação institucional, crescimento estatístico ou influência política.

João apresenta a cruz como glorificação porque revela o verdadeiro rosto de Deus. 
  •  não vence eliminando adversários. 
  • Deus vence amando até o fim. 
Essa lógica permanece escandalosa. Ainda hoje muitos preferem um Messias forte segundo os critérios do poder, capaz de destruir inimigos e garantir privilégios aos seus seguidores, pregam o Deus que destrói. O Cristo do Evangelho, porém, continua caminhando entre os pobres, os perseguidos, os refugiados, os trabalhadores explorados, as vítimas da violência, os esquecidos da história e todos aqueles cuja dignidade foi ferida. Ali continua germinando o Reino de Deus. Por isso, João 12,24-26 permanece como um dos textos mais revolucionários das Escrituras. Ele desafia a Igreja a abandonar toda pretensão de grandeza mundana. Convida cada cristão a romper a casca do egoísmo. Recorda que nenhuma reforma eclesial será verdadeira sem conversão do coração. Afirma que nenhuma espiritualidade é autêntica se não produzir misericórdia concreta. Ensina que nenhuma comunidade permanece fiel ao Evangelho quando silencia diante da injustiça ou se acomoda às estruturas que geram sofrimento. O grão de trigo continua caindo diariamente na terra da história. Cai e germina:  quando mães e pais sacrificam interesses pessoais para educar seus filhos na justiça, quando trabalhadores permanecem honestos em ambientes marcados pela corrupção, quando educadores insistem em formar consciências críticas,  quando profissionais da saúde defendem a vida, quando cristãos recusam transformar sua fé em instrumento de manipulação política, quando comunidades escolhem servir em vez de dominar,  quando alguém oferece perdão onde todos esperavam vingança e quando a esperança resiste mesmo em meio às trevas. 

A memória de São Lourenço continua a interpelar a consciência da Igreja e de cada cristão muito além da lembrança de um acontecimento do passado. Seu testemunho confirma que o Evangelho não se reduz a um conjunto de doutrinas, normas ou práticas religiosas, mas torna-se verdadeiro quando assume forma concreta na existência daqueles que transformam a fé em compromisso com Deus e com o próximo. Toda geração é chamada a discernir se sua vida e suas comunidades refletem esse dinamismo ou se se acomodam às seduções do prestígio, da indiferença e da autorreferencialidade.  Também o ministério diaconal permanece como um sinal permanente de que a Igreja encontra sua credibilidade não na quantidade de seus recursos, na influência que exerce ou na posição que ocupa diante da sociedade, mas na capacidade de tornar visível a compaixão de Cristo. Sempre que a comunidade cristã coloca a dignidade humana no centro de sua missão, acolhe os vulneráveis, promove a justiça, protege a vida e testemunha a esperança em meio ao sofrimento, manifesta ao mundo o verdadeiro sentido da diaconia, vocação que, de maneiras diversas, pertence a todo o Povo de Deus.

Por isso, a celebração desta passagem evangélica convida cada discípulo a examinar continuamente os critérios que orientam suas escolhas pessoais, comunitárias e eclesiais. A fidelidade ao Evangelho exige discernimento permanente para que a fé jamais seja instrumentalizada por interesses alheios ao Reino de Deus, nem se converta em mera tradição desprovida de compromisso com a verdade, a misericórdia e a justiça. A Igreja permanece fiel à sua missão quando anuncia Cristo com a palavra, celebra sua presença nos sacramentos e prolonga seu amor através do serviço humilde e perseverante.

A promessa de Jesus permanece inabalável. O grão que morre produz muito fruto. O Reino cresce silenciosamente, como a semente que germina sob a terra e a cruz não possui a última palavra, o amor não termina no sepulcro. A entrega não conduz ao vazio. Deus continua fecundando a história através daqueles que compreendem que servir vale mais do que dominar, partilhar vale mais do que acumular e amar vale infinitamente mais do que vencer. É essa a glória anunciada por Cristo. É essa a esperança da Igreja. É esse o caminho dos mártires. É essa a vocação permanente de todo discípulo que deseja seguir Jesus de Nazaré até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em sua morte e ressurreição. Assim, o testemunho dos mártires permanece vivo não apenas na memória litúrgica, mas na vida daqueles que, em cada tempo e lugar, continuam respondendo ao chamado de Cristo com generosidade, coragem e esperança. É nessa fidelidade cotidiana, silenciosa e perseverante que o Evangelho continua a renovar a história, revelando que a última palavra pertence sempre ao Deus que faz surgir vida nova onde os olhos humanos enxergam apenas limites, fragilidade e fim.
DNonato - Teólogo  do Cotidiano..