quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O numero maldito: 13, 22 ou ?

  •  13 ou 22  onde esta a  Maldição? Superstição Não é Fé 


Num tempo em que a Bíblia vem sendo instrumentalizada para gerar medo e terror religioso, com teorias construídas a partir de fatos, datas ou números, faz-se necessária uma reflexão honesta, responsável e enraizada na tradição bíblica. Antes de tudo, fazemos questão de ser claros: não somos mais do PT. Somos filiados a um partido que, na prática, não entra nessa conta. Nem sempre concordamos com o PT ou com Lula. Temos críticas, discordâncias e autonomia de pensamento. Fé não é cabo eleitoral, e Bíblia não é cartaz de campanha.

Da direita, porém, discordamos por completo: sua prática histórica é governar para poucos e esmagar os pobres. Isso não é opinião; é leitura honesta da realidade.

Escrevemos este texto por um motivo simples. Diante de uma postagem recente que utilizou o número 13 com uma suposta leitura bíblica, ficou evidente o quanto ainda circulam desinformação religiosa, superstição e manipulação da fé nas redes. Em vez de reagirmos com slogans, torcida ideológica ou histeria moral, fizemos o que consideramos mais honesto: fomos à Bíblia, à tradição judaica e ao sentido simbólico real das Escrituras. E o resultado é claro: a Bíblia não demoniza o número 13 e santifica  outros numero. Quem faz isso não está fazendo teologia; está reproduzindo superstição  algo explicitamente condenado pela própria Escritura: Dt 18,10–12; Is 8,19; Cl 2,8; Cl 2,23. A fé bíblica não se apoia em presságios, cálculos ocultos ou medo de sinais, mas na confiança radical em Deus: Dt 31,8. O Catecismo da Igreja Católica é igualmente direto ao afirmar que a superstição é um desvio da fé autêntica e uma violação do primeiro mandamento: CIC 2110–2111.

Na Escritura, números não funcionam como códigos mágicos de sorte ou azar, mas como linguagem simbólica. O 13, longe de ser sinal de maldição, aparece ligado à continuidade da promessa, à misericórdia e ao transbordamento da graça. Segundo a tradição bíblica, o 13º descendente de Abraão é Jacó, aquele que recebe o nome de Israel: Gn 32,29. Não é ruptura; é amadurecimento. Não é fracasso; é passagem. Com Jacó, a promessa deixa de ser apenas familiar e se torna história de um povo.

O mesmo ocorre com as tribos de Israel. Costuma-se falar em doze, número da organização. Contudo, quando José não é contado como tribo e seus filhos Efraim e Manassés recebem herança própria Gn 48,5; Js 14,4,  chegamos a treze tribos. O símbolo é evidente: a bênção não cabe em esquemas fechados. O 13 aponta para fecundidade, excesso de vida, não para desgraça.

No judaísmo, matriz da fé bíblica, o 13 é ainda mais eloquente. Em Êxodo 34,6–7, após o pecado do bezerro de ouro, Deus se revela a Moisés por meio dos treze atributos da misericórdia. O contexto é de queda grave, de ruptura da aliança. E a resposta de Deus não é destruição, mas misericórdia: “O Senhor, o Senhor, 

Deus misericordioso e compassivo…” O 13 nasce do fracasso humano, mas aponta para a reconstrução da relação. Ele expressa o coração da fé bíblica: a misericórdia que insiste, que não desiste, que supera o pecado.

A própria língua hebraica reforça essa leitura. Ahavah (amor) soma 13. Echad (um, unidade) também soma 13. Amor e unidade caminham juntos. Não por acaso: “O Senhor nosso Deus é um” (Dt 6,4), e: “Deus é amor” (1Jo 4,8). O 13 não aponta para azar, mas para a identidade de Deus.

Agora, o que raramente é dito  e esse silêncio não é inocente  é que outros números aparecem na Bíblia associados a contextos de dor, violência e juízo, como o 22.

O Salmo 22 é o grande salmo da angústia extrema: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22,2). É o grito do justo esmagado, assumido por Jesus na cruz.

Em Juízes 20,21, 22 mil israelitas morrem em um único dia numa guerra civil entre irmãos — um dos episódios mais sombrios da história de Israel.

Em 1 Reis 16,29–30, Acab reina 22 anos, e o texto é direto: “Fez o que era mau aos olhos do Senhor.”

Em 2 Reis 8,26–27, Acazias começa a reinar aos 22 anos e anda no caminho da casa de Acab, perpetuando injustiça e infidelidade. E o livro das Lamentações é estruturado em poemas acrósticos com 22 versículos, correspondentes às letras do alfabeto hebraico. O conteúdo é devastação total: destruição, fome, morte, exílio, colapso social e espiritual. O 22 surge como símbolo da totalidade da dor.

Isso não significa que o 22 seja amaldiçoado em si, pois se procurar fazer uma leitura positiva vai ou distorcida da fé bíblica vai encontrar: o número 22 também está ligado à criação e à Palavra. Deus cria o mundo falando. O universo nasce da linguagem. As 22 letras tornam-se símbolo de que toda a realidade pode ser recriada pela Palavra, ideia que ecoa no Novo Testamento: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). 22 lembra que Deus não é silêncio diante do sofrimento. Onde há linguagem, há possibilidade de clamor, denúncia, súplica e esperança. Mesmo o grito do Salmo 22 termina em confiança e louvor (Sl 22,23-32). A dor não tem a última palavra. 

Assim como o 13, nenhum número carrega magia própria. O que existe é contexto, sentido teológico e honestidade na leitura do texto. Demonizar o 13 ou qualquer outro número por superstição seletiva é pecado, pois a Bíblia não autoriza esse tipo de prática. Ignorar o peso simbólico de outros números quando aparecem em contextos de juízo e dor não é leitura bíblica; é manipulação  política religiosa.

No fim das contas, para o cristão de má-fé, tanto o 13 quanto o 22 sempre serão lidos conforme sua ideologia, sua conveniência política ou seu medo religioso. Mas a fé bíblica autêntica sabe: Deus age além dos números, acima das superstições e fora das manipulações humanas.

A Escritura não nos chama a decifrar números, mas a discernir o coração: 1Sm 16,7.

E onde Deus reina, o medo não governa: 1Jo 4,18.

● A Bíblia merece mais respeito.

● A fé merece mais honestidade.

DNonato

Um breve olhar sobre Marcos 6,7-13.

 

A Boa Nova proclamada por Marcos 6,7-13 é uma das passagens centrais para compreender a missão cristã e a identidade do discípulo. No Ano Litúrgico, ela é proclamada na quinta-feira da quarta semana do Tempo Comum, no ano par, e no décimo quinto Domingo do Tempo Comum, no ano B, sinalizando que a missão não é um evento isolado, mas atravessa o cotidiano, o culto e a vida da comunidade. A escolha de Marcos de situar o envio logo após a rejeição de Jesus em Nazaré não é casual; ela demonstra que a missão nasce da experiência do fracasso, da resistência e do sofrimento, e não do sucesso social ou do prestígio humano. A rejeição, longe de ser obstáculo, purifica a missão e reafirma que o Evangelho não depende da aceitação popular, mas da fidelidade ao Reino.

Jesus envia os discípulos dois a dois. Este gesto, carregado de simbolismo bíblico, revela que a missão é comunitária: uma só testemunha não basta (Dt 19,15). O discipulado não é projeto individual, mas relacional, e a fé não se exerce isoladamente. O Concílio Vaticano II afirma que Deus quis salvar a humanidade formando um povo, e não indivíduos isolados (Lumen Gentium, 9). Assim, a missão não é espetáculo de protagonismo individual, mas anúncio comunitário do Reino, construído na escuta mútua, na fraternidade e no serviço.

A autoridade que Jesus confere aos discípulos não é de poder, mas de libertação: autoridade sobre espíritos impuros e forças que oprimem (Mc 6,7-13; Lc 10,18). Na Escritura, esses espíritos simbolizam doenças, culpas, opressão social e estruturas que paralisam. Lucas apresenta a visão cósmica: “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10,18), indicando que a missão confronta forças que tentam aprisionar a liberdade humana. A missão não é conquista ou domínio; é libertação, sinalando que o Reino de Deus se estabelece na transformação concreta da vida das pessoas, e não no prestígio ou poder.

O despojamento pedido por Jesus nada de pão, sacola ou dinheiro, apenas cajado, sandálias e túnica  é expressão profética e pedagógica. Historicamente, Marcos escreve para comunidades pobres e perseguidas. O despojamento não é romantização da pobreza, mas demonstra que a missão se sustenta na Palavra de Deus, no Espírito e na fé, e não nos recursos humanos ou materiais. O cajado simboliza a Palavra, que guia e protege, enquanto as sandálias representam perseverança e constância, diferentes da pressa simbolizada no Êxodo (Ex 12,11). A missão não é espetáculo; é caminho. Filosoficamente, desafia o imediatismo; psicologicamente, confronta a ansiedade por resultados; espiritualmente, desapega da ilusão de medir o Reino por métricas humanas.

A permanência na casa que os acolhe revela uma espiritualidade de convivência, respeito e acolhimento. O sacudir a poeira dos pés (Mc 6,11) não é vingança, mas liberdade respeitada. Deus respeita a escolha do outro; a fé não se impõe. Esse princípio ressoa em Lucas 11,1-4, onde Jesus ensina a rezar antes de enviar os discípulos: o Pai-Nosso é pedagogia missionária. “Pai nosso” rompe o individualismo; “Venha o teu Reino” relativiza projetos de poder; “Dá-nos hoje o pão de cada dia” ecoa o maná que não podia ser guardado (Ex 16); “Perdoa-nos… assim como perdoamos” revela que missão e reconciliação caminham juntas. A oração é o solo da missão, lembrando que nenhum serviço é sustentável sem intimidade com Deus.

Os Evangelhos Sinóticos reafirmam e ampliam a instrução: Mateus 10 enfatiza despojamento, aviso contra perseguição e cuidado pastoral; Lucas 9 e 10 detalham dupla, comunidade e simplicidade; João 20,21 lembra: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”, revelando continuidade entre o envio de Jesus e a missão da Igreja. Atos dos Apóstolos apresenta a expansão missionária que respeita contextos culturais e sociais: Paulo e Barnabé (At 13-14) seguem o exemplo de caminhar de casa em casa, anunciando conversão, curando e adaptando a mensagem à realidade de cada povo, sempre dependentes do Espírito.

A tradição patrística denuncia alianças entre fé e poder: São João Crisóstomo critica pregadores ricos anunciando Cristo pobre; Santo Irineu afirma que a glória de Deus é o ser humano vivo, não subjugado; São Gregório Magno lembra que a palavra perde força quando a vida a contradiz. Desde o início, a Igreja entende que credibilidade se constrói no testemunho coerente, não no prestígio ou na aparência.

O Papa Leão XIV tem anunciado  a “espiritualidade de vitrine”, alertando para o risco de fé transformada em performance ou construção de imagem. A fé que busca likes, seguidores ou aprovação social não é missão, é espetáculo. Essa crítica dialoga com Marcos 6: a missão se faz na simplicidade e fidelidade, sem holofotes, sem mercantilização. A fé como mercadoria é um erro que sociologicamente reflete a sociedade do espetáculo, psicologicamente alimenta o narcisismo, teologicamente esvazia a cruz. O clericalismo midiático transforma líderes em protagonistas e comunidades em plateias, desviando o Evangelho do seu propósito central.

Os documentos do Vaticano II reforçam esse horizonte: a Igreja é sinal e instrumento da comunhão, comprometida com a dignidade humana e a justiça (Gaudium et Spes, 1). Evangelii Nuntiandi afirma que a evangelização não é mera comunicação de doutrina, mas anúncio vivo que envolve a vida concreta e social. O missionário deve ser profeta da Palavra, encarnado no mundo, atento aos pobres, à justiça e à solidariedade.

Dom Paulo Evaristo Arns cardeal arcebispo  de São  Paulo no tenpo da ditadura  militar  no Brasil e Desmond Tutu Arcebispo Anglicano na África  do sul no tempo  do aparthaide encarnaram esta profecia. Dom Paulo defendeu os pobres, denunciou a opressão e foi voz profética durante a ditadura, mostrando que fé e justiça não podem ser dissociadas. Tutu, anglicano, afirmou que neutralidade diante da injustiça é cumplicidade, e que a missão exige compromisso com a liberdade e dignidade de cada ser humano. Ambos demonstram que anunciar o Evangelho é posicionamento histórico.

O legado do Papa Francisco, mantém-se como orientação profética. Ele denunciou clericalismo, fé como mercadoria, fé individualista e espiritualidade de vitrine, hoje citada pelo Leão XIV, sublinhando que a Igreja deve sair às periferias, encontrar os pobres e promover fraternidade e justiça social (Evangelii Gaudium; Fratelli Tutti). A missão cristã exige encarnação, presença e coragem, não visibilidade ou poder.

O Antigo Testamento reforça essa dimensão: os profetas proclamavam justiça, libertação e cuidado pelos marginalizados. Isaías denuncia culto vazio (Is 29,13); Amós afirma que justiça deve fluir como rio perene (Am 5,24). Jeremias (7,5-7) insiste que adoração sem prática ética é inútil. O Novo Testamento complementa: Tiago insiste que fé sem obras é morta (Tg 2,17); João lembra que quem não ama o próximo não ama a Deus (1Jo 4,20). A missão é inseparável da justiça e do cuidado.

Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas reiteram: missão é anúncio da conversão, solidariedade, cura, proximidade, liberdade. Paulo, mesmo preso, testemunha fidelidade e serviço (Fil 1,12-18). O envio missionário é contextual, relacional e dependente do Espírito, não do poder ou recursos humanos. A Boa Nova se espalha não por visibilidade, mas pela coerência, serviço e amor encarnado.

Marcos conclui dizendo que os discípulos partiram, anunciaram a conversão, expulsaram demônios e ungiram os doentes com óleo — sinais de cura, cuidado e presença do Espírito (Tg 5,14-15; Ex 30,22-25). A missão é encarnada, social e espiritual, tocando corpo, vida e história, mostrando que o Reino se manifesta em transformação concreta.. O Evangelho de Marcos, assim, permanece espelho incômodo: questiona segurança, prestígio, poder, espiritualidade de vitrine, clericalismo, individualismo e teologia da prosperidade. Jesus envia servidores, não conquistadores; irmãos e irmãs, não solitários; amor, não dominação. A missão começa na vida cotidiana, nas relações familiares, comunitárias e sociais, e exige desprendimento, fidelidade e coragem. Anunciar esta Boa Nova é resistir à fé como mercadoria, ao individualismo espiritual, à teologia do domínio e à espiritualidade de vitrine. Caminhar com pouco, confiando muito; crer que o Reino cresce silencioso e fecundo na vida concreta das pessoas e no cotidiano da história.

A Igreja, chamada a continuar este envio, é convocada a integrar Palavra, Espírito e comunidade, seguindo o exemplo de Jesus e dos profetas, da tradição patrística, do magistério do Vaticano II, do testemunho de Dom Paulo Evaristo Arns, Desmond Tutu e do legado do Papa Francisco. A missão é comunhão, serviço, coerência e coragem profética. A Boa Nova se cumpre onde a fé se encarna, respeita a liberdade e transforma a realidade, mostrando que o Reino de Deus é presença viva, libertadora e sustentável, construída na fraternidade e na justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Meia década!!!

  • Ai dos que decretam leis injustas e redigem opressão” (Is 10,1).

Há datas que não passam. Elas não se limitam ao calendário; permanecem inscritas no corpo, na memória e na consciência. O dia 4 de fevereiro de 2021 é uma dessas datas. Foi naquele dia, logo após o retorno das férias — tempo que deveria significar recomeço e confiança — que fomos desligados após 14 anos de dedicação contínua, sob a justificativa genérica de “corte de gastos”.

Desde então, algo se deslocou dentro de nós. Não apenas o vínculo profissional foi rompido, mas também o sentido de pertencimento, de reconhecimento e de estabilidade interior. A tristeza não veio de uma vez; ela se instalou aos poucos, como um silêncio prolongado, como um inverno que insiste em permanecer. A melancolia passou a acompanhar nossos dias, não como vitimismo, mas como memória não elaborada, como luto sem rito.

A narrativa apresentada começou a se fragilizar quase imediatamente. Um dia após a demissão, teve início uma obra no prédio. O fato concreto, público e verificável abriu espaço para uma dúvida legítima: haveria outros elementos envolvidos naquela decisão? Por responsabilidade e segurança jurídica, não afirmamos; insinuamos. Mas a incoerência objetiva permanece como ferida aberta e como interrogação ética que ainda exige resposta.

Durante mais de uma década, não fomos apenas uma função descrita em contrato. Fomos presença constante, apoio silencioso, solução disponível. Fomos fotógrafo quando era preciso registrar, motorista quando a urgência exigia deslocamento, apoio administrativo, auxílio no setor de pessoas e na área financeira. Atuamos sem limitação de horário, sem delimitação rígida de responsabilidades, sempre disponíveis. Fizemos isso não por imposição, mas por compromisso, zelo e pela convicção profunda de que o trabalho também é expressão de serviço humano.

Talvez por isso a ruptura tenha sido tão devastadora. Não foi apenas a perda do trabalho, mas a sensação de descarte. Como se tudo o que foi oferecido com generosidade pudesse ser apagado por uma justificativa administrativa. Como se uma história inteira pudesse ser encerrada sem palavra, sem reconhecimento, sem luto.

O que se seguiu agravou ainda mais a dor. Vieram perseguições veladas e outras mais explícitas. Vieram ataques pessoais, olhares atravessados, comentários indiretos. Aos poucos, fomos sendo empurrados para um lugar ainda mais cruel: o de alguém cuja imagem precisava ser corroída. Sem acusações formais, construiu-se uma névoa moral. Não se dizia claramente, mas deixava-se entender. Não se afirmava, mas se insinuava. Uma tentativa silenciosa de nos transformar em um “pecador público”, não por fatos, mas por suspeitas; não por provas, mas por silêncios estratégicos.

O Direito Canônico é claro ao proteger o direito à boa fama (cân. 220). A Escritura também não relativiza esse tipo de violência: “Quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado” (Tg 4,17). Aqui, o silêncio não foi neutro; tornou-se instrumento.

Quando buscamos a justiça, não o fizemos por vingança, mas por necessidade de sobrevivência interior. Era preciso defender não apenas direitos trabalhistas, mas a própria dignidade. No âmbito judicial, a tristeza ganhou novas camadas: pessoas investidas de funções de liderança tiveram a coragem de negar a realidade objetiva das atividades que exercemos ao longo dos anos, como se a memória pudesse ser reescrita por conveniência institucional. Tal postura afronta o princípio da boa-fé, basilar no ordenamento jurídico, e compromete gravemente a ética das relações institucionais.

Feriu-nos profundamente a omissão. Muitos que caminharam conosco, que se beneficiaram diretamente do nosso trabalho e do nosso apoio cotidiano, optaram por calar. O silêncio daqueles que deviam testemunho pesou como abandono. A ausência de palavra tornou-se cumplicidade com a injustiça.

Mesmo após o reconhecimento dos fatos em três instâncias judiciais, o desrespeito persiste. Persistem tentativas de nos reduzir, de nos manter presos a narrativas já superadas juridicamente, mas sustentadas por resistência moral à verdade. Fica evidente que nem toda derrota judicial gera conversão ética.

À luz do Direito Canônico, essa postura causa perplexidade. O cân. 221 assegura a todo fiel o direito de defender seus direitos em instâncias legítimas. O cân. 128 estabelece a responsabilidade moral e jurídica de quem exerce funções administrativas por danos causados por negligência, omissão ou abuso. Esses princípios não são opcionais nem subordinados à autopreservação institucional.

O Magistério recente da Igreja confirma essa exigência. No pontificado do Papa Francisco, denunciou-se com clareza o pecado estrutural: sistemas que se protegem enquanto sacrificam pessoas concretas (Evangelii Gaudium, 59). Essa denúncia permanece atual e encontra continuidade no pontificado do Papa Leão XIV, que reafirma a centralidade da justiça, da verdade e da responsabilidade ética no exercício da autoridade.

A Gaudium et Spes é contundente ao afirmar que tudo o que viola a dignidade humana deve ser considerado infame (GS 27). A Fratelli Tutti recorda que não há fraternidade possível onde a verdade é sacrificada e a injustiça relativizada (FT 208–211). Não se trata de retórica pastoral, mas de critério objetivo de discernimento.

A Palavra de Deus é ainda mais incisiva: “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu rebanho” (Jr 23,1). E também: “O trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10,7). Nenhuma linguagem espiritual, nenhum discurso institucional e nenhuma autoridade simbólica podem se sobrepor à justiça concreta exigida pelo Evangelho.

Meia decada depois, seguimos de pé. Não porque a dor tenha sido pequena, mas porque nos recusamos a mentir para nós mesmos. Caminhamos com tristeza, sim, mas também com consciência. A melancolia que carregamos não é ressentimento; é memória ferida que se recusa a ser apagada. A verdade pode ser adiada, abafada ou distorcida, mas não pode ser anulada. Ela sempre retorna — como juízo e como chamado à conversão.

Esta carta não é ataque. É luto elaborado. É memória que resiste. É denúncia ética e apelo profético. Porque onde tentam transformar a vítima em culpada, Deus não se cala. E onde a justiça é negada, a história continua cobrando.

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Brasil, 4 de fevereiro de 2026

DNonato - Teólogo do Cotidiano 



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Um breve olha sobre Marcos 6,1-6

A Boa Nova de Jesus segundo Marcos 6,1-6 nos introduz num dos núcleos mais delicados e provocadores da cristologia evangélica: o escândalo da encarnação vivido não apenas como mistério teológico, mas como experiência concreta de rejeição. Antes mesmo de qualquer elaboração doutrinal, o texto nos situa no terreno da vida cotidiana, onde vozes são desacreditadas não por falta de verdade, mas por excesso de familiaridade e Jesus ja tinha  passado pelo conflito familiar em Marcos 3, 31-35.  Quem nunca experimentou falar e não ser ouvido exatamente porque todos achavam já saber quem somos? É nesse chão humano, psicológico e social que a Palavra de Deus se deixa ouvir ou silenciar,  como já advertia a Sabedoria: “Armemos ciladas contra o justo, porque ele nos incomoda” (Sb 2,12)

A liturgia da Igreja, ao proclamar este texto tanto na quarta-feira da 4ª semana do Tempo Comum quanto no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano B, constrói uma verdadeira arquitetura hermenêutica. Ezequiel 2,2-5 apresenta o profeta enviado a um povo de fronte dura e coração obstinado, ecoando o drama de Moisés diante da resistência do povo no deserto (cf. Ex 5–6); o Salmo 122(123) traduz a atitude espiritual da espera humilde, semelhante à do pobre que clama e não é ouvido (cf. Sl 34,7); 2Coríntios 12,7-10 revela a força paradoxal da graça que se manifesta na fraqueza; e Marcos 6,1-6 encarna tudo isso na pessoa de Jesus. Não se trata de leituras justapostas, mas de um único drama salvífico que atravessa toda a Escritura: Deus insiste em falar mesmo quando sua Palavra encontra resistência, como aconteceu com Isaías (Is 6,9-10) e Jeremias (Jr 1,17-19).

Jesus retorna à sua pátria. O detalhe é decisivo. Nazaré não é apenas o lugar de origem, mas o espaço simbólico da memória compartilhada, das categorias já definidas, dos rótulos consolidados. A questão cultural nos ensina que comunidades pequenas tendem a proteger seus sistemas de sentido rejeitando aquilo que ameaça a estabilidade simbólica. Jesus ameaça porque rompe expectativas. Não corresponde ao imaginário messiânico dominante, nem aos critérios de autoridade religiosa vigentes. Sua palavra carrega autoridade (cf. Mc 1,22), mas não vem revestida de poder institucional.

O questionamento dos conterrâneos — “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?” — revela mais do que curiosidade,  indicando  alguém ligado ao trabalho manual, ao esforço cotidiano, distante das elites cultuais. Aqui emerge uma crítica estrutural: a dificuldade histórica das religiões em reconhecer a revelação quando ela surge fora dos centros legitimados. Trata-se de um mecanismo recorrente na história bíblica. Davi é esquecido por seu próprio pai quando Samuel procura o ungido (1Sm 16,6-13); Amós é desqualificado por não pertencer ao corpo profético oficial (Am 7,10-15); Jeremias é ridicularizado por sua juventude (Jr 1,6). A Palavra de Deus insiste em nascer à margem, como o Servo sofredor que “não tinha aparência nem beleza” (Is 53,2).

Nazaré encarna o processo de desqualificação simbólica do próximo, periferias das periferias. A familiaridade gera a ilusão do domínio: achamos que conhecemos o outro por completo e, assim, anulamos sua capacidade de nos surpreender. A fé, porém, exige abertura ao excesso de sentido. Deus não cabe na biografia que construímos sobre alguém. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8) torna-se aqui chave hermenêutica para compreender a incredulidade travestida de religiosidade.

Marcos introduz então uma afirmação desconcertante: Jesus não pôde realizar ali muitos milagres. Longe de indicar impotência divina, o evangelista revela a lógica do Reino, já anunciada em outras passagens: a fé precede o sinal (cf. Mc 5,34; Mc 10,52). O milagre não é imposição, nem espetáculo, nem instrumento de convencimento. Ele supõe relação, confiança, acolhida. Aqui se desmonta radicalmente a teologia da prosperidade e toda espiritualidade do resultado, pois Jesus se recusa a fazer do poder um meio de autopromoção (cf. Mt 4,1-11).

Os sinóticos retomam a mesma cena com acentos próprios, oferecendo um rico paralelo hermenêutico. Mateus 13,53-58 e Lucas 8, 19-21 sublinha explicitamente que “não realizou ali muitos milagres por causa da incredulidade deles”, reforçando o vínculo entre fé e acolhida. Lucas 4,16-30 amplia dramaticamente o episódio ao situá-lo no início do ministério público e ao associar Jesus aos profetas Elias e Eliseu, lembrando que a graça alcança estrangeiros — a viúva de Sarepta (1Rs 17,8-16) e Naamã, o sírio (2Rs 5,1-14). A tentativa de lançá-lo do precipício revela que a rejeição do profeta pode rapidamente transformar-se em violência, como já ocorrera com Zacarias (2Cr 24,20-22) e como Jesus denunciará mais tarde: “Jerusalém, que matas os profetas” (Mt 23,37).

É exatamente contra essa lógica de controle religioso que Jesus ensina a oração em Lucas 11,1-4. O Pai-Nosso não forma indivíduos dominadores, mas filhos confiantes. O pedido do pão cotidiano evoca o maná do deserto (Ex 16), alimento suficiente e não acumulável; o perdão rompe a cadeia da violência, ecoando a ética do Levítico (Lv 19,18); e o pedido para não cair em tentação recorda a fragilidade humana diante do poder, tema recorrente na história de Israel (cf. Dt 8). Nazaré fracassa porque quer um Deus previsível; a oração ensina a acolher um Deus livre.

O Salmo 122(123) ecoa essa espiritualidade: olhos erguidos, mãos vazias, espera paciente, como em Lamentações 3,31-33. Trata-se de uma fé que resiste à tentação da mercantilização. Paulo, em 2Coríntios 12,7-10, aprofunda essa lógica ao afirmar que a força de Deus se manifesta na fraqueza, em consonância com a teologia da cruz desenvolvida em 1Coríntios 1,18-25. Aqui se revela o coração do Evangelho: não há glória sem cruz, nem autoridade sem serviço (cf. Mc 10,42-45).

Historicamente, Nazaré era uma aldeia periférica, sem relevância política ou religiosa, confirmando o escândalo expresso em João 1,46: “De Nazaré pode sair coisa boa?”. A ciência histórica mostra que o messianismo popular esperava sinais grandiosos e restauração política (cf. At 1,6). Jesus frustra essas expectativas ao revelar um Reino que cresce como semente lançada na terra (Mc 4,26-29) e como grão de mostarda (Mc 4,30-32). Essa frustração permanece atual sempre que a fé é instrumentalizada para projetos de poder.

Nazaré rejeita Jesus não apenas por conhecê-lo, mas por ele não pertencer ao sistema autorizado de mediação religiosa. Aqui se antecipa a intuição do Concílio Vaticano II ao afirmar que todo o povo de Deus participa da missão profética de Cristo (Lumen Gentium, 12), retomada com vigor pelos documentos latino-americanos de Medellín, Puebla e Aparecida, que denunciam uma Igreja autorreferencial e chamam à escuta dos pobres como lugar teológico. Sempre que a Igreja silencia essas vozes, repete a lógica de Nazaré.

Marcos conclui dizendo que Jesus se admirou da falta de fé deles. Essa admiração é lamento amoroso, semelhante ao pranto sobre Jerusalém (Lc 19,41). Deus não se impõe. Assume o risco da encarnação até o fim, inclusive o risco do fracasso aparente. Aqui se revela uma verdadeira escatologia do fracasso: o Reino avança não apesar da rejeição, mas através dela, como o grão que morre para dar fruto (Jo 12,24). A ausência de milagres torna-se sinal da fidelidade de Deus à liberdade humana.

Celebrar Marcos 6,1-6 no Tempo Comum é reconhecer que o ordinário da vida é o lugar privilegiado da revelação, como em Emaús (Lc 24,13-35). Não há fé madura sem revisão constante de nossas imagens de Deus, de nossas práticas religiosas e de nossas estruturas eclesiais. Nazaré não é apenas um lugar do passado; é uma tentação permanente. Onde quer que a Palavra seja silenciada por não corresponder às expectativas, ali Nazaré se repete.

 A Boa Nova de Jesus não promete sucesso, mas sentido. Não oferece domínio, mas comunhão. Não vende milagres, mas convida à conversão do olhar. Diante d’Ele, não somos chamados a aplaudir prodígios, mas a rever certezas, desmontar preconceitos e atravessar o escândalo de um Deus que se faz comum. O problema de Nazaré não foi a falta de poder em Jesus, mas o excesso de familiaridade que cegou o coração. Quando Deus não cabe mais em nossos esquemas, preferimos reduzi-lo ao conhecido, neutralizá-lo, torná-lo inofensivo. A incredulidade, aqui, não é ateísmo declarado, mas fechamento existencial: é quando já sabemos demais sobre Deus para ainda nos deixarmos interpelar por Ele. Por isso Jesus se admira — não da miséria humana, mas da recusa em crer que o Mistério possa habitar o ordinário, o chão da vida, a carpintaria do cotidiano. Onde tudo parece controlado, Deus não impõe sua graça; respeita a liberdade, mesmo quando ela se transforma em barreira.

Quem tem fé, permita-se surpreender. A fé não é posse, é abertura; não é garantia, é risco; não é conforto, é travessia. Deus continua falando — quase sempre a partir de onde menos esperamos: das periferias da história, das vozes desacreditadas, das realidades desprezadas, das pessoas que “já conhecemos demais”. E talvez o maior milagre ainda hoje não seja o extraordinário que impressiona, mas o ordinário acolhido com olhos novos, capaz de devolver sentido, dignidade e esperança à vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

Um breve olhar sobre Marcos 5,21-43

A narrativa de Marcos 5,21-43 ocupa um lugar privilegiado na pedagogia litúrgica da Igreja (lida na 3ª-feira  da 4ª semana ano par e no 13º Domingo do tempo comum do Ano B) por encapsular, de forma dramática, a teologia do Reino. Através de uma estrutura narrativa intercalada, o texto coloca em paralelo duas figuras antagônicas socialmente  Jairo, o líder religioso, e a hemorroíssa, a excluída social — unindo-as pela tragédia e pela esperança.O texto transcende o gênero de relato de milagres para se tornar uma teologia da inclusão e da vitória sobre a morte. Onde a lei antiga via impureza (o fluxo de sangue e o cadáver), Jesus vê oportunidades de libertação. A perícope desafia o leitor a compreender que a fé cristã é, essencialmente, uma resposta de vida que se manifesta concretamente no toque, na superação de tabus e na restauração da dignidade humana.

Jesus retorna da outra margem e é imediatamente envolvido pela multidão. O movimento é contínuo, quase caótico, revelando uma realidade onde muitos se aproximam, mas poucos realmente encontram. É nesse cenário que surge Jairo, chefe da sinagoga, representante da instituição religiosa, que se prostra aos pés de Jesus e suplica pela filha de doze anos, gravemente enferma. O gesto de Jairo já é teologicamente significativo: a autoridade religiosa precisa descer de seu lugar de poder e reconhecer que a vida não se sustenta apenas por estruturas, mas pela confiança em Deus. O número doze, que aparece tanto na idade da menina quanto na duração do sofrimento da mulher, não é casual. Na Escritura, doze remete à totalidade do povo de Israel, às doze tribos (Gn 35,22-26). Marcos sugere que ali não estão apenas duas histórias individuais, mas o retrato de um povo cuja vida está interrompida, sangrando ou à beira da morte.

No caminho até a casa de Jairo, a narrativa é interrompida por outra história, recurso literário típico de Marcos.  Os paralelos sinóticos enriquecem essa leitura. Mateus (Mt 9,18-26) enfatiza a autoridade de Jesus sobre a morte; Lucas (Lc 8,40-56) destaca o ambiente familiar e o espanto diante da vida restaurada. Marcos, por sua vez, insiste no caminho interrompido, na pedagogia do encontro e na centralidade dos corpos feridos. São leituras complementares que revelam a riqueza da tradição evangélica.

Uma mulher, sem nome, carrega há doze anos um fluxo contínuo de sangue. Sua dor ultrapassa o plano físico. Segundo a legislação de Levítico (Lv 15,25-27), ela vive em estado permanente de impureza, excluída do convívio social e religioso. Seu corpo torna-se lugar de estigma e vergonha. Marcos não romantiza seu sofrimento: ela gastou tudo o que possuía com médicos e, em vez de melhorar, piorou. O evangelista denuncia, de forma sutil e contundente, qualquer sistema que transforma a dor em mercadoria e se alimenta da vulnerabilidade dos pobres. Esssa mulher ousa aproximar-se de Jesus por trás e tocar a orla de sua veste. O gesto é carregado de simbolismo. Tocar alguém considerado sagrado, estando em condição de impureza, significava transgredir normas religiosas e sociais. Por isso, o toque é discreto, quase clandestino. No entanto, é justamente esse toque que revela uma fé profundamente encarnada. Não se trata de magia nem de superstição, mas de uma confiança radical que se expressa no corpo. O toque, tão recorrente no ministério de Jesus (cf. Mc 1,41; Mc 8,23), rompe a lógica da distância sagrada e revela um Deus que se deixa alcançar. A veste, por sua vez, remete às franjas prescritas em Nm 15,37-41, sinal da Aliança. Ao tocar a orla, a mulher toca simbolicamente a fidelidade de Deus. Cumpre-se ali a esperança anunciada pelo profeta Malaquias: a cura que vem nas asas do Sol da Justiça (Ml 3,20).

Quando Jesus pergunta quem o tocou, ele não busca informação, mas promove revelação. Ele interrompe o caminho, suspende a urgência institucional representada por Jairo e coloca no centro uma mulher invisibilizada. Ao fazê-la sair do anonimato, Jesus restitui sua dignidade. O medo que a faz tremer não é apenas reverência, mas o temor de quem viveu à margem e conhece o peso da punição social. A palavra de Jesus  “Filha, tua fé te salvou” não apenas confirma a cura, mas reintegra a mulher à comunidade. Ela não é mais impura, é filha. A salvação, aqui, passa pelo corpo, pela palavra e pela relação.  Essa Palavra ressoa com força no contexto brasileiro e latino-americano. O sangue que escorre da mulher evoca hoje os corpos descartados nas periferias, os jovens negros assassinados, as mulheres vítimas de feminicídio, os povos indígenas violentados, as crianças privadas de futuro. 

É nesse momento que chegam os mensageiros anunciando a morte da menina. A lógica dominante se impõe: não vale mais a pena incomodar o Mestre. Trata-se da voz do conformismo, da naturalização da morte, tão presente em sociedades marcadas pela desigualdade. Jesus responde com uma das palavras mais decisivas do Evangelho: “Não tenhas medo, apenas crê”. A fé não nega a realidade, mas se recusa a aceitá-la como destino final. Jesus entra na casa acompanhado apenas dos pais e de três discípulos. Ele afasta o ruído dos pranteadores, denunciando uma religiosidade que transforma a morte em espetáculo e perde a capacidade de cuidar.

Diante da menina, Jesus pronuncia em aramaico: “Talitha kum” — “Menina, eu te digo, levanta-te”. Marcos preserva a língua original para sublinhar a intimidade do gesto e a força criadora da Palavra, que não descreve, mas realiza (cf. Gn 1). A menina se levanta imediatamente. O gesto final — mandar que ela coma — é uma chave teológica de enorme profundidade. Alimentar-se é sinal de vida restaurada, de reintegração à rotina, à mesa, à comunhão. Não se trata de um detalhe doméstico, mas de uma antecipação da pedagogia eucarística.  Na tradição bíblica, comer é sempre um ato relacional. Do maná no deserto (Ex 16) ao banquete escatológico (Is 25,6), Deus deseja um povo vivo e sustentado. No Evangelho de Marcos, essa lógica se aprofunda nas multiplicações dos pães (Mc 6,30-44; Mc 8,1-9) e culmina na Última Ceia (Mc 14,22-25), quando Jesus se oferece como pão partido. Mandar a menina comer é afirmar que a vida devolvida precisa ser sustentada concretamente. Uma fé que celebra a Eucaristia, mas convive pacificamente com a fome e a exclusão, contradiz o Evangelho. A ordem de Jesus levantar e alimentar confronta uma sociedade que naturaliza a morte e uma religião que, muitas vezes, se limita ao rito. Medellín denuncia a miséria como injustiça estrutural; Puebla afirma a opção preferencial pelos pobres; Aparecida recorda que a vida plena prometida por Jesus (Jo 10,10) exige compromisso histórico. A CNBB, em seus documentos e campanhas, insiste que não há fé autêntica sem defesa da vida ameaçada.

Jairo precisa aprender que a autoridade verdadeira nasce do cuidado, não do cargo aqui temos uma crítica aos pastores, duaconos padres,  bispos e demais clerigos que abusam do cargo, Jairo se dobra a autoridade  de Jesus. A mulher encontra em Jesus não um fiscal da lei, mas um libertador. A fé como mercadoria é desmentida por uma graça que não se compra. Como recorda o Concílio Vaticano II, as dores da humanidade são também as dores da Igreja (Gaudium et Spes, 1), e o Papa Francisco insiste numa Igreja que seja hospital de campanha, não tribunal.

Portanto, a liturgia de hoje não é um eco vazio, mas uma presença viva. Jesus continua sendo o Deus das interrupções santas e das visitas inesperadas, aquele que para no meio da multidão para acolher o toque de um anônimo e que entra na intimidade do luto para devolver o fôlego. O seu 'não tenhas medo, apenas crê' é a âncora lançada em nosso mar de incertezas. 

Aqui, crer transforma-se em contato físico: é o toque que cura a exclusão e a mão estendida que levanta da morte. O milagre culmina na ordem simples e humana: 'dai-lhe de comer'. Isso nos ensina que a Eucaristia é a escola do cuidado. Comungar é assumir o compromisso de que nenhuma vida ao nosso redor deve definhar por falta de pão, de afeto ou de esperança. É cuidar do outro para que a morte não tenha a última palavra

DNonato – Teólogo do Cotidiano