terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 5,21-43

A narrativa de Marcos 5,21-43 ocupa um lugar privilegiado na pedagogia litúrgica da Igreja (lida na 3ª-feira  da 4ª semana ano par e no 13º Domingo do tempo comum do Ano B) por encapsular, de forma dramática, a teologia do Reino. Através de uma estrutura narrativa intercalada, o texto coloca em paralelo duas figuras antagônicas socialmente  Jairo, o líder religioso, e a hemorroíssa, a excluída social — unindo-as pela tragédia e pela esperança.O texto transcende o gênero de relato de milagres para se tornar uma teologia da inclusão e da vitória sobre a morte. Onde a lei antiga via impureza (o fluxo de sangue e o cadáver), Jesus vê oportunidades de libertação. A perícope desafia o leitor a compreender que a fé cristã é, essencialmente, uma resposta de vida que se manifesta concretamente no toque, na superação de tabus e na restauração da dignidade humana.

Jesus retorna da outra margem e é imediatamente envolvido pela multidão. O movimento é contínuo, quase caótico, revelando uma realidade onde muitos se aproximam, mas poucos realmente encontram. É nesse cenário que surge Jairo, chefe da sinagoga, representante da instituição religiosa, que se prostra aos pés de Jesus e suplica pela filha de doze anos, gravemente enferma. O gesto de Jairo já é teologicamente significativo: a autoridade religiosa precisa descer de seu lugar de poder e reconhecer que a vida não se sustenta apenas por estruturas, mas pela confiança em Deus. O número doze, que aparece tanto na idade da menina quanto na duração do sofrimento da mulher, não é casual. Na Escritura, doze remete à totalidade do povo de Israel, às doze tribos (Gn 35,22-26). Marcos sugere que ali não estão apenas duas histórias individuais, mas o retrato de um povo cuja vida está interrompida, sangrando ou à beira da morte.

No caminho até a casa de Jairo, a narrativa é interrompida por outra história, recurso literário típico de Marcos.  Os paralelos sinóticos enriquecem essa leitura. Mateus (Mt 9,18-26) enfatiza a autoridade de Jesus sobre a morte; Lucas (Lc 8,40-56) destaca o ambiente familiar e o espanto diante da vida restaurada. Marcos, por sua vez, insiste no caminho interrompido, na pedagogia do encontro e na centralidade dos corpos feridos. São leituras complementares que revelam a riqueza da tradição evangélica.

Uma mulher, sem nome, carrega há doze anos um fluxo contínuo de sangue. Sua dor ultrapassa o plano físico. Segundo a legislação de Levítico (Lv 15,25-27), ela vive em estado permanente de impureza, excluída do convívio social e religioso. Seu corpo torna-se lugar de estigma e vergonha. Marcos não romantiza seu sofrimento: ela gastou tudo o que possuía com médicos e, em vez de melhorar, piorou. O evangelista denuncia, de forma sutil e contundente, qualquer sistema que transforma a dor em mercadoria e se alimenta da vulnerabilidade dos pobres. Esssa mulher ousa aproximar-se de Jesus por trás e tocar a orla de sua veste. O gesto é carregado de simbolismo. Tocar alguém considerado sagrado, estando em condição de impureza, significava transgredir normas religiosas e sociais. Por isso, o toque é discreto, quase clandestino. No entanto, é justamente esse toque que revela uma fé profundamente encarnada. Não se trata de magia nem de superstição, mas de uma confiança radical que se expressa no corpo. O toque, tão recorrente no ministério de Jesus (cf. Mc 1,41; Mc 8,23), rompe a lógica da distância sagrada e revela um Deus que se deixa alcançar. A veste, por sua vez, remete às franjas prescritas em Nm 15,37-41, sinal da Aliança. Ao tocar a orla, a mulher toca simbolicamente a fidelidade de Deus. Cumpre-se ali a esperança anunciada pelo profeta Malaquias: a cura que vem nas asas do Sol da Justiça (Ml 3,20).

Quando Jesus pergunta quem o tocou, ele não busca informação, mas promove revelação. Ele interrompe o caminho, suspende a urgência institucional representada por Jairo e coloca no centro uma mulher invisibilizada. Ao fazê-la sair do anonimato, Jesus restitui sua dignidade. O medo que a faz tremer não é apenas reverência, mas o temor de quem viveu à margem e conhece o peso da punição social. A palavra de Jesus  “Filha, tua fé te salvou” não apenas confirma a cura, mas reintegra a mulher à comunidade. Ela não é mais impura, é filha. A salvação, aqui, passa pelo corpo, pela palavra e pela relação.  Essa Palavra ressoa com força no contexto brasileiro e latino-americano. O sangue que escorre da mulher evoca hoje os corpos descartados nas periferias, os jovens negros assassinados, as mulheres vítimas de feminicídio, os povos indígenas violentados, as crianças privadas de futuro. 

É nesse momento que chegam os mensageiros anunciando a morte da menina. A lógica dominante se impõe: não vale mais a pena incomodar o Mestre. Trata-se da voz do conformismo, da naturalização da morte, tão presente em sociedades marcadas pela desigualdade. Jesus responde com uma das palavras mais decisivas do Evangelho: “Não tenhas medo, apenas crê”. A fé não nega a realidade, mas se recusa a aceitá-la como destino final. Jesus entra na casa acompanhado apenas dos pais e de três discípulos. Ele afasta o ruído dos pranteadores, denunciando uma religiosidade que transforma a morte em espetáculo e perde a capacidade de cuidar.

Diante da menina, Jesus pronuncia em aramaico: “Talitha kum” — “Menina, eu te digo, levanta-te”. Marcos preserva a língua original para sublinhar a intimidade do gesto e a força criadora da Palavra, que não descreve, mas realiza (cf. Gn 1). A menina se levanta imediatamente. O gesto final — mandar que ela coma — é uma chave teológica de enorme profundidade. Alimentar-se é sinal de vida restaurada, de reintegração à rotina, à mesa, à comunhão. Não se trata de um detalhe doméstico, mas de uma antecipação da pedagogia eucarística.  Na tradição bíblica, comer é sempre um ato relacional. Do maná no deserto (Ex 16) ao banquete escatológico (Is 25,6), Deus deseja um povo vivo e sustentado. No Evangelho de Marcos, essa lógica se aprofunda nas multiplicações dos pães (Mc 6,30-44; Mc 8,1-9) e culmina na Última Ceia (Mc 14,22-25), quando Jesus se oferece como pão partido. Mandar a menina comer é afirmar que a vida devolvida precisa ser sustentada concretamente. Uma fé que celebra a Eucaristia, mas convive pacificamente com a fome e a exclusão, contradiz o Evangelho. A ordem de Jesus levantar e alimentar confronta uma sociedade que naturaliza a morte e uma religião que, muitas vezes, se limita ao rito. Medellín denuncia a miséria como injustiça estrutural; Puebla afirma a opção preferencial pelos pobres; Aparecida recorda que a vida plena prometida por Jesus (Jo 10,10) exige compromisso histórico. A CNBB, em seus documentos e campanhas, insiste que não há fé autêntica sem defesa da vida ameaçada.

Jairo precisa aprender que a autoridade verdadeira nasce do cuidado, não do cargo aqui temos uma crítica aos pastores, duaconos padres,  bispos e demais clerigos que abusam do cargo, Jairo se dobra a autoridade  de Jesus. A mulher encontra em Jesus não um fiscal da lei, mas um libertador. A fé como mercadoria é desmentida por uma graça que não se compra. Como recorda o Concílio Vaticano II, as dores da humanidade são também as dores da Igreja (Gaudium et Spes, 1), e o Papa Francisco insiste numa Igreja que seja hospital de campanha, não tribunal.

Portanto, a liturgia de hoje não é um eco vazio, mas uma presença viva. Jesus continua sendo o Deus das interrupções santas e das visitas inesperadas, aquele que para no meio da multidão para acolher o toque de um anônimo e que entra na intimidade do luto para devolver o fôlego. O seu 'não tenhas medo, apenas crê' é a âncora lançada em nosso mar de incertezas. 

Aqui, crer transforma-se em contato físico: é o toque que cura a exclusão e a mão estendida que levanta da morte. O milagre culmina na ordem simples e humana: 'dai-lhe de comer'. Isso nos ensina que a Eucaristia é a escola do cuidado. Comungar é assumir o compromisso de que nenhuma vida ao nosso redor deve definhar por falta de pão, de afeto ou de esperança. É cuidar do outro para que a morte não tenha a última palavra

DNonato – Teólogo do Cotidiano

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 2,22-40

 
A proclamação de Lucas 2,22-40 nos introduz num tempo litúrgico de extraordinária densidade simbólica e teológica. Celebrado em 2 de fevereiro, quarenta dias após o Natal, este Evangelho estrutura a Festa da Apresentação do Senhor, conhecida desde os primeiros séculos como Festa da Luz. No Oriente, recebeu o nome de Hypapante, o Encontro; no Ocidente, tornou-se a Candelária, marcada pelas procissões com velas que confessam Cristo como Luz destinada a todos os povos. A memória dessa celebração já aparece no século IV em Jerusalém, como testemunha a peregrina Egéria, e é incorporada progressivamente à liturgia romana entre os séculos VI e VII, quando assume também um caráter catequético e penitencial, cristianizando antigos ritos de purificação e de passagem do inverno para a luz.

Nesse mesmo horizonte nasce a memória mariana de Nossa Senhora da Luz, não como acréscimo devocional, mas como consequência teológica do próprio mistério celebrado. Maria é aquela que gera a Luz, caminha com a Luz e, sobretudo, entrega a Luz. Seu gesto no templo não é possessivo, mas oblativo. Ao apresentar o Filho, ela reconhece que Ele não lhe pertence, mas é dom para o mundo. Assim, a festa se revela simultaneamente cristológica, mariana e eclesial: Cristo é a Luz; Maria é a portadora obediente dessa Luz; e a Igreja é chamada a refleti-la nas zonas sombrias da história.

Não por acaso, este Evangelho retorna também na Festa da Sagrada Família e no 5º dia da Oitava do Natal. A liturgia insiste porque deseja educar o olhar da fé: o Menino do presépio não é apenas promessa doce, mas sinal de contradição. A apresentação no templo inaugura publicamente uma vida que será marcada por confronto, discernimento e entrega. O lugar escolhido não é neutro. O templo simboliza o coração religioso de Israel, mas também concentra poder, economia e controle simbólico. Ao levar Jesus a esse espaço, Lucas antecipa a tensão que atravessará todo o Evangelho: o Filho apresentado como oferta será o mesmo que denunciará o templo quando este se converter em mercado. A apresentação já contém, em germe, a purificação.

Maria e José cumprem tudo “conforme a Lei do Senhor” (Lc 2,23.39). O Messias não nasce à margem da tradição, mas dentro dela. A Lei não é negada, mas atravessada. Aqui ecoa a afirmação paulina de que Deus enviou seu Filho “nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gl 4,4). O símbolo da Lei cumprida revela que a fé bíblica não é ruptura irresponsável, mas transformação a partir de dentro. Ao mesmo tempo, a presença do Menino denuncia qualquer absolutização legalista que transforme a Lei em instrumento de exclusão, controle ou opressão.

O rito do primogênito apresentado, segundo Êxodo 13, carrega o símbolo da libertação. Todo primogênito pertence a Deus como memória viva do êxodo. Ao apresentar Jesus, Maria e José proclamam silenciosamente que este Menino é libertação encarnada. Mas a libertação que Ele traz não se dá pela força, nem pelo domínio, nem pela imposição religiosa. O primogênito apresentado será, mais tarde, o Filho entregue. Aqui se desfaz toda teologia do domínio que instrumentaliza Deus para legitimar projetos de poder.

O sacrifício oferecido — duas rolas ou dois pombinhos — revela a condição social da família e se torna símbolo teológico decisivo. É a oferta permitida aos pobres. O Salvador entra no templo não cercado de glória, mas pela via da precariedade. A salvação não se manifesta no excesso, mas na fidelidade humilde. Como recorda João Crisóstomo, Cristo não se cerca de esplendor para que ninguém confunda Deus com interesse. Este gesto desmonta, desde a origem, qualquer teologia da prosperidade que associe bênção a acúmulo, sucesso ou privilégio religioso.

Simeão encarna a espera amadurecida. Ele representa Israel fiel que não desistiu da promessa, mesmo quando a história parecia negá-la. “Esperava a consolação de Israel” — expressão profundamente enraizada nos cânticos do Segundo Isaías. A consolação, porém, não chega como restauração política imediata, mas como presença frágil de Deus nos braços de um idoso. Ao tomar o Menino, Simeão proclama que a salvação não é ideia abstrata, mas relação concreta. Seu cântico confessa que essa salvação é preparada “diante de todos os povos”, como luz que ilumina e revela. A luz não pertence a grupos, não legitima exclusões, não se deixa capturar por ideologias religiosas. Ela julga, desvela e liberta.

O símbolo da luz atravessa toda a Escritura: da criação à nova criação em Cristo. Luz é revelação, mas também confronto. Psicologicamente, integra e desvela as sombras; sociologicamente, denuncia estruturas injustas; teologicamente, desmascara espiritualidades que preferem a penumbra confortável da alienação. Por isso, Jesus será rejeitado: a luz incomoda quem se beneficia da escuridão.

Ana completa o quadro simbólico. Mulher, idosa, viúva, sem função institucional, ela representa a profecia que resiste à margem. Sua presença desmonta o clericalismo que monopoliza a voz de Deus e reduz a profecia à hierarquia. O Espírito fala onde quer. Ana é imagem de uma Igreja que persevera sem holofotes, que jejua não para barganhar, mas para manter o coração livre, e que anuncia porque não pode silenciar.

A palavra dirigida a Maria — a espada que atravessa a alma — revela que a luz não elimina a dor, mas a atravessa. Trata-se de uma espada de discernimento, que separa ilusões, purifica expectativas e impede uma fé infantilizada. Maria torna-se figura da Igreja que caminha na história sem negar o conflito, sem fugir da cruz, sem negociar a verdade.

Os paralelos bíblicos confirmam essa dinâmica: Mateus sublinha o cumprimento das promessas; João aprofunda o simbolismo da luz; Hebreus recorda que Cristo se fez semelhante aos irmãos em tudo. Não há redenção sem encarnação radical, sem assumir a condição humana concreta.

O Magistério da Igreja retoma essa intuição ao afirmar que o mistério do ser humano só se compreende à luz do Verbo encarnado (Gaudium et Spes, 22) e ao denunciar uma Igreja autorreferencial, mais preocupada com poder do que com o Evangelho (Evangelii Gaudium). Fratelli Tutti amplia o horizonte, lembrando que não existe luz espiritual autêntica sem compromisso com a fraternidade real e a dignidade dos últimos.

Celebrar a Apresentação do Senhor, Festa da Luz, é permitir que essa claridade atravesse nossas falsas seguranças religiosas, nossas teologias de mercado, nossas espiritualidades desencarnadas. É reconhecer que não somos donos da luz, mas seus servidores.Como Simeão, só encontramos paz quando reconhecemos a salvação fora dos privilégios. Como Maria, somos chamados a oferecer Cristo sem domesticá-lo. Como Ana, somos convidados a perseverar quando a profecia incomoda.

Que a luz que entrou no templo continue entrando em nossas casas, comunidades e estruturas. Não para nos confirmar, mas para nos converter. Não para nos tranquilizar, mas para nos comprometer. Porque a verdadeira luz não adormece consciências: ela as desperta.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 31 de janeiro de 2026

Um outro olhas sobre Mateus 5, 1-12a - 4⁰ domingo do tempo comum

A perícope de Mateus 5,1-12a ocupa um lugar absolutamente central na tradição cristã, não apenas por inaugurar o Sermão da Montanha, mas por condensar, em poucas linhas, a lógica inteira do Reino de Deus.  Essa nao é  primeira  vez que  nós   refletimos tal texto temos texto aqui no blog: Solenidade de todos o santos em 2025Solenidade de todos os Santos de 2022 e  Um Olhar no texto de Mateus 5, 1-12 - 4º domingo do tempo comum em 2023  sem esquecer  os vídeos  em nosso canal do YouTube  que essa semana  chegou a 4.000  inscritos e ainda um  artigo sobre Mateus 5, 1-12 que saiu  esse mês  na Revista Litúrgica  O Pão Nosso de Cada Dia.
Antes de mais  nada, precisanos saber que a liturgia proclamada  no 4º Domingo do Tempo Comum  é conjunto de leituras que não foram  escolhidas  ao acaso, mas cuidadosamente articuladas  para nos  oferecer uma chave hermenêutica da fé cristã no chão da história. 
  • Sofonias 2,3; 3,12-13 anuncia a sobrevivência de um resto pobre e humilde que buscará refúgio no nome do Senhor; 
  • Salmo 145(146),7.8-9a.9bc-10 proclama um Deus que faz justiça aos oprimidos, liberta os prisioneiros, dá pão aos famintos e sustém o estrangeiro, o órfão e a viúva; 
  • 1Coríntios 1,26-31 desmonta radicalmente qualquer teologia da eleição baseada no mérito, no prestígio ou no poder; 
  •  Mateus 5,1-12a  que iremos  aprofundar hoje 
O texto das Bem-aventuranças é  o critério último pelo qual a história será julgada e além  desse domingo, o texto é proclamado integralmente na Solenidade de Todos os Santos como colocamos acima  e  reaparece na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum que proclamado tanto na Igreja Oriental  e Anglicana  no 4⁰ Domingo  após  a Epifania  e na liturgia  de todos os santos  sinalizando que as Bem-aventuranças não pertencem a um momento extraordinário da fé, mas constituem sua gramática permanente.
As Bem-aventuranças não são conselhos de aperfeiçoamento moral nem slogans espirituais destinados ao conforto interior. Elas são Palavra performativa, Palavra que cria realidade, à maneira do discurso criador de Deus em Gênesis e da palavra profética anunciada por Isaías, que não retorna vazia sem realizar sua missão (Is 55,10-11). Assim como em Nazaré Jesus proclama o programa do Reino a partir de Isaías 61 (Lc 4,18-19), no Sermão da Montanha Ele revela não apenas o conteúdo do Reino, mas sua lógica interna, profundamente contracultural e historicamente subversiva. Não se trata de descrever o mundo como ele é, mas de expor o mundo à luz do desejo de Deus, desmascarando estruturas, mentalidades e espiritualidades incompatíveis com o Evangelho.

Mateus constrói a cena com precisão simbólica. Jesus sobe à montanha, senta-se e ensina. A montanha, no horizonte bíblico, é lugar de revelação, aliança e decisão: Sinai, Horeb, Sião. É nela que a Lei é dada, os profetas discernem e o povo é convocado à fidelidade. Ao subir a montanha, Jesus se insere conscientemente nessa tradição, mas a ultrapassa de modo decisivo. Ele não transmite uma lei recebida; Ele é a própria Palavra. O gesto de sentar-se indica autoridade magisterial reconhecida, enquanto a aproximação dos discípulos revela que esse ensinamento forma uma comunidade antes de formar consciências individuais. A multidão está presente, mas o discurso nasce no interior de uma relação discipular, antecipando uma Igreja que não se organiza em torno do poder, mas da escuta e da conversão.
A primeira bem-aventurança estabelece a chave hermenêutica de todo o discurso: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. O termo grego ptōchoí não designa uma pobreza genérica ou metafórica, mas os pobres reais, os despossuídos, aqueles cuja existência é marcada pela dependência. A expressão “em espírito”, própria da redação mateana, não espiritualiza a pobreza nem a transforma em ideal ascético desvinculado da realidade; ela aponta para uma atitude existencial profundamente enraizada em condições concretas de vida. Trata-se da pobreza que gera abertura radical a Deus porque foi privada de outras seguranças. O pano de fundo veterotestamentário é o dos anawim e do ebyôn, os pobres da terra que fazem do Senhor seu único refúgio (Sl 34,7; Sl 37,14). Sofonias retoma essa tradição ao anunciar que Deus preservará um resto humilde e pobre, rompendo com a teologia da retribuição que associava prosperidade à bênção e miséria à maldição.
O diálogo com Lucas 6,20-26 amplia essa leitura. Lucas proclama bem-aventurados os pobres sem qualificações e contrapõe-lhes os “ais” dirigidos aos ricos. Não se trata de versões concorrentes, mas de perspectivas complementares. Lucas enfatiza a materialidade da pobreza e da exclusão; Mateus ilumina sua dimensão interior, comunitária e espiritual. Ambos convergem na denúncia de uma sociedade estruturada pela acumulação e na crítica a qualquer espiritualidade que tente conciliar Evangelho e idolatria do mercado. A fé que promete prosperidade como sinal de eleição divina revela-se incompatível com a lógica das Bem-aventuranças.
Jesus não apenas proclama as Bem-aventuranças; Ele as encarna. Ele nasce fora de casa, vive como peregrino, recusa a violência como método, chora diante da morte e da injustiça, enfrenta estruturas opressoras e é executado fora dos muros da cidade. Sua vida inteira é uma exegese viva do discurso da montanha. Como afirma Paulo, “sendo rico, fez-se pobre por nós” (2Cor 8,9), e ao esvaziar-se, revela que a glória de Deus não se manifesta no acúmulo, mas na doação (Fl 2,6-11). As Bem-aventuranças são, assim, menos um ideal a ser alcançado e mais uma identidade a ser assumida.
A bem-aventurança dos que choram introduz uma espiritualidade da lucidez. Na Escritura, o choro não é sinal de fraqueza, mas de sensibilidade ética. Jeremias chora pelo povo, os salmos transformam lágrimas em linguagem teológica, e o próprio Jesus chora diante da morte de Lázaro e sobre Jerusalém. Do ponto de vista psicológico, trata-se da recusa da anestesia emocional; sociologicamente, da recusa da indiferença organizada; teologicamente, da participação na compaixão divina. Em uma cultura que banaliza a dor alheia ou a transforma em espetáculo, o choro torna-se gesto profético e critério de humanidade.
A mansidão, frequentemente confundida com passividade, revela-se como força interior e resistência não violenta. Moisés é chamado de manso (Nm 12,3), e Jesus se apresenta como manso e humilde de coração (Mt 11,29). A mansidão exige maturidade emocional, autocontrole e coragem ética. Ela confronta diretamente as teologias do domínio, o armamentismo e toda sacralização religiosa da violência. “Os mansos herdarão a terra” não é promessa de submissão, mas anúncio de que a história não pertence aos que a dominam pela força, mas aos que a constroem pela fidelidade.
Quando Jesus proclama felizes os que têm fome e sede de justiça, Ele retoma o núcleo da tradição profética. Justiça bíblica não se reduz à legalidade nem à vingança, mas diz respeito à restauração das relações rompidas. Amós denuncia um culto separado da justiça social, Isaías desmonta jejuns intimistas que não se traduzem em partilha, e Miqueias sintetiza a vontade de Deus na prática da justiça, da misericórdia e da humildade. Paulo, escrevendo aos Coríntios, revela que Deus escolhe o que é fraco e desprezado para confundir os fortes, desmascarando toda pretensão de autossuficiência religiosa.
As bem-aventuranças seguintes explicitam as consequências sociais dessa opção fundamental. Misericórdia confronta uma religião punitiva e legalista; pureza de coração denuncia a duplicidade moral que separa fé e vida; a promoção da paz retoma o horizonte bíblico do shalom, entendido como plenitude de vida, justiça e relações reconciliadas. Qualquer discurso religioso que legitime violência, exclusão ou ódio contradiz frontalmente o Evangelho. A segurança absoluta não nasce das armas nem do controle, mas da fidelidade ao Deus da vida (Sl 127,1).
O contexto histórico da comunidade mateana ilumina ainda mais a radicalidade desse discurso. Trata-se de uma comunidade atravessada por conflitos internos e externos, situada entre o judaísmo rabínico emergente e o mundo greco-romano. As Bem-aventuranças oferecem identidade e esperança, não como fuga da realidade, mas como critério de fidelidade em meio à perseguição e à marginalização. O Reino pertence aos que permanecem na justiça, não aos que instrumentalizam a fé para manter privilégios ou legitimar estruturas excludentes.
A escolha de Mateus por apresentar as Bem-aventuranças como discurso inaugural não é acidental. Antes de qualquer milagre espetacular ou controvérsia pública, Jesus oferece um horizonte de sentido. Ele redefine o que significa viver bem, ser bem-sucedido, ser feliz. Em um mundo organizado pela honra, pela pureza ritual e pela hierarquia social, essa redefinição soa como ameaça. Não por acaso, o Sermão da Montanha funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho: quem não passa por ele corre o risco de transformar Jesus em milagreiro funcional ou em símbolo ideológico.
Ao proclamar felizes os pobres, os que choram e os perseguidos, Jesus desloca o centro da história. Ele não fala a partir do palácio nem do templo, mas da periferia existencial e social. Isso explica por que as Bem-aventuranças sempre incomodaram mais quando lidas com seriedade. Elas não permitem que a fé seja reduzida a refúgio espiritual ou promessa de recompensa individual. Elas exigem revisão das estruturas que produzem sofrimento. Nesse sentido, o texto de Mateus dialoga profundamente com a tradição profética, especialmente com Amós e Isaías, que denunciam uma religião que canta hinos enquanto pisa os pobres.
A oposição entre Mateus e Lucas não deve ser lida como contradição, mas como enriquecimento. Lucas fala diretamente dos pobres, Mateus explicita a dimensão interior e comunitária da pobreza evangélica. Juntos, eles impedem duas distorções recorrentes: a espiritualização que ignora a miséria concreta e o reducionismo sociológico que esvazia a dimensão teológica. A pobreza evangélica não é virtude em si mesma, mas condição imposta a muitos e escolhida conscientemente por outros como forma de liberdade diante do poder. Em ambos os casos, ela se torna lugar teológico, espaço onde Deus se revela de maneira privilegiada.
A mansidão, tantas vezes mal compreendida, aparece aqui como categoria ética fundamental. Num mundo marcado pela brutalização das relações, pela linguagem agressiva e pela naturalização do ódio, a mansidão se apresenta como resistência ativa. Ela não elimina o conflito, mas recusa a lógica da aniquilação do outro. Herdar a terra, nesse horizonte, significa reconstruir relações com o território, com a cidade, com o espaço comum. A crise habitacional contemporânea revela o quanto nos afastamos dessa promessa bíblica. A terra deixou de ser casa para se tornar ativo financeiro. As Bem-aventuranças expõem essa perversão sem necessidade de discursos técnicos: basta proclamar o Evangelho com honestidade.
A fome e a sede de justiça atravessam toda a Escritura como clamor permanente. Não se trata de desejo abstrato, mas de urgência vital. Quem tem fome não adia. Quem tem sede não negocia. Aplicada à justiça, essa imagem revela a radicalidade do discipulado. Não há espaço para fé acomodada. O Reino anunciado por Jesus não convive pacificamente com estruturas que produzem exclusão sistemática. Por isso, a saciedade prometida não se confunde com satisfação individual, mas com plenitude relacional, com restauração da dignidade ferida.
A misericórdia aparece como eixo que atravessa todas as Bem-aventuranças. Sem ela, a justiça se torna vingança e a verdade, opressão. Misericórdia não é permissividade, mas compromisso com a vida concreta. É a recusa de reduzir pessoas a erros, estatísticas ou rótulos. Numa cultura marcada pelo descarte e pela espetacularização do sofrimento, a misericórdia devolve humanidade aos invisíveis. Ela questiona práticas religiosas que se sentem confortáveis condenando à distância. Jesus não declara felizes os que apontam pecados, mas os que se deixam afetar pela dor alheia.
A pureza de coração, nesse contexto, assume dimensão profundamente política. Ser puro é não compactuar com duplicidades, não servir a dois senhores, não justificar privilégios em nome de Deus. Ver Deus não é prêmio reservado a místicos afastados do mundo, mas experiência possível a quem vive com integridade. A idolatria denunciada por Jesus não se limita a imagens; ela se manifesta toda vez que o mercado, o poder ou a ideologia ocupam o lugar do absoluto. As Bem-aventuranças funcionam, assim, como exame de consciência coletivo.
A promoção da paz, por sua vez, desmonta discursos religiosos que confundem paz com silêncio imposto. A paz bíblica nasce da justiça e exige coragem para enfrentar conflitos. Os verdadeiros pacificadores não são neutros; eles tomam partido da vida. Por isso, frequentemente são atacados, ridicularizados ou perseguidos. A perseguição, longe de ser sinal de fracasso, torna-se critério de autenticidade. Um cristianismo que nunca incomoda o sistema dominante precisa se perguntar a quem está servindo.
Quando Mateus acrescenta a bem-aventurança da perseguição e do insulto por causa da justiça, ele prepara sua comunidade para uma fé adulta. Não promete proteção mágica, mas fidelidade sustentada pela esperança. O Reino dos Céus pertence aos que permanecem, não aos que vencem segundo os critérios do mundo. Essa afirmação tem peso escatológico, mas também histórico: ela legitima a resistência das comunidades feridas, perseguidas, marginalizadas.
No horizonte quaresmal, esse discurso ganha ainda mais densidade. A Quaresma não é tempo de autopunição religiosa, mas de desinstalação. As Bem-aventuranças funcionam como critério de conversão pessoal e social. Elas desmascaram práticas penitenciais que não tocam a realidade. Isaías já havia denunciado jejuns vazios, divorciados da justiça. Jesus retoma essa crítica ao colocar no centro os pobres, os mansos, os famintos de justiça. Converter-se é mudar de lógica, não apenas de comportamento externo.
A questão da moradia emerge aqui não como tema lateral, mas como consequência inevitável do Evangelho vivido. Sem casa, não há intimidade, descanso, proteção. Negar moradia é negar humanidade. Uma Igreja que proclama as Bem-aventuranças precisa perguntar-se constantemente de que lado está quando políticas, economias e interesses expulsam famílias de seus lugares de vida. A fé cristã não pode ser cúmplice de estruturas que produzem sem-teto enquanto acumulam templos vazios de compromisso.
Essa tensão atravessa toda a tradição cristã. A patrística já percebia que não há verdadeira espiritualidade sem partilha concreta. A liturgia, quando separada da vida, se torna performance. As Bem-aventuranças impedem essa separação. Elas devolvem à fé seu caráter encarnado, histórico, exigente. Não permitem atalhos.
O Sermão da Montanha, portanto, não é introdução piedosa, mas fundamento radical. Ele molda a ética do Reino e prepara o leitor para compreender os conflitos que virão. Quem acolhe as Bem-aventuranças já escolheu um caminho. Não é o caminho da segurança, mas da fidelidade. Não é o caminho do aplauso, mas da coerência. E é justamente por isso que ele continua atual, provocador e perigoso.
O horizonte escatológico das Bem-aventuranças não desloca o compromisso histórico, mas o radicaliza. A promessa do Reino dos Céus, repetida no início e no fim do conjunto, funciona como moldura interpretativa: tudo o que é dito entre essas duas afirmações acontece já sob o senhorio de Deus, ainda que de forma não consumada. Essa tensão entre o já e o ainda-não impede tanto o desespero quanto o triunfalismo. O Reino não é recompensa futura para os resignados, nem legitimação presente para os vencedores; ele é força em gestação, fermento que age silenciosamente nas entranhas da história.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica de Mateus 5,1–12a em contextos específicos da Igreja reforça seu caráter normativo. Além do 4º Domingo do Tempo Comum do Ano A, o texto é retomado na Solenidade de Todos os Santos, quando a Igreja confessa que a santidade não se confunde com perfeccionismo moral nem com heroísmo isolado, mas com fidelidade cotidiana à lógica do Reino. E  na 2ª-feira da 10ª Semana do Tempo Comum, o mesmo evangelho retorna como memória insistente, lembrando que não há tempo neutro para o discipulado. A repetição litúrgica não banaliza o texto; ao contrário, desgasta as máscaras que tentam domesticá-lo.
A escuta prolongada das Bem-aventuranças revela que elas não descrevem perfis psicológicos isolados, mas um modo alternativo de organizar a vida pessoal e social. A psicologia contemporânea reconhece que a busca obsessiva por sucesso, reconhecimento e acumulação gera adoecimento, ansiedade crônica e empobrecimento relacional. A felicidade prometida pelo Evangelho não se apoia na negação do sofrimento, mas na possibilidade de atravessá-lo com sentido, vínculo e esperança. O choro, a fome de justiça e a perseguição deixam de ser patologias a serem eliminadas e se tornam sinais de lucidez ética em um mundo adoecido.
As Bem-aventuranças produzem uma crítica estrutural às formas de organização social baseadas na exclusão. Pobres, mansos e misericordiosos não são categorias neutras; eles ocupam posições específicas em sistemas econômicos e políticos. Ao proclamá-los felizes, Jesus questiona o consenso que legitima desigualdades como naturais ou inevitáveis. A fé, nesse horizonte, deixa de ser instrumento de acomodação e se torna força de transformação. Toda tentativa de neutralizar esse potencial crítico resulta em versões domesticadas do cristianismo, frequentemente alinhadas a interesses de poder.
O  discurso de Jesus rompe com éticas utilitaristas e meritocráticas. A dignidade humana não decorre do desempenho, da produtividade ou da eficiência. Ela é afirmada a partir da vulnerabilidade compartilhada. As Bem-aventuranças desmontam a lógica da troca e introduzem a lógica do dom. Nesse sentido, elas dialogam com tradições filosóficas que reconhecem o valor da fragilidade como lugar de humanização, antecipando debates contemporâneos sobre cuidado, interdependência e bem comum.
A teologia, por sua vez, reconhece nas Bem-aventuranças uma revelação do próprio rosto de Deus. Não se trata apenas de exigências morais, mas de cristologia implícita. Jesus proclama felizes aqueles que vivem como Ele viveu. O Reino anunciado não é abstração, mas extensão da vida do Filho. Por isso, qualquer teologia que prometa prosperidade automática, domínio político ou blindagem espiritual se afasta do núcleo do Evangelho. Transformar a fé em técnica de sucesso é negar a cruz antes mesmo de chegar a ela. O discurso da prosperidade e do domínio substitui a bem-aventurança pela vantagem, a graça pelo mérito e o Reino pelo mercado religioso.  Quando o ministério se transforma em privilégio e a autoridade em controle, as Bem-aventuranças são esvaziadas de sua força crítica. Jesus fala sentado na montanha, não entronizado acima do povo. A autoridade que emerge desse gesto é relacional, não hierárquica. O Vaticano II resgata essa intuição ao afirmar a vocação universal à santidade e ao insistir que a Igreja deve ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho. A Gaudium et Spes recorda que não há verdadeira fidelidade a Deus sem compromisso com a dignidade humana concreto 
Os Padres da Igreja não viam nas Bem-aventuranças um ideal etéreo, mas critério de julgamento da vida cristã. A santidade, para eles, passava pela partilha, pela hospitalidade e pela defesa dos vulneráveis. Essa tradição, muitas vezes silenciada, reaparece com força no magistério contemporâneo, especialmente quando se afirma que a economia deve estar a serviço da vida e não o contrário.
A questão da moradia, iluminada pela Campanha da Fraternidade de 2026 (leia a origem da campanha da Fraternidade)
e pelo tempo quaresmal, se impõe como verificação concreta dessa fidelidade. A Bíblia inteira pode ser lida como a história de um Deus que busca habitar com a humanidade. Desde o jardim perdido até a cidade escatológica do Apocalipse, a moradia aparece como símbolo de reconciliação. Negar casa é negar pertença. Defender o direito à moradia é participar do movimento divino que arma sua tenda entre os pobres. Não se trata de ideologia, mas de coerência evangélica, aqui precisamos  recorda  os três T de Francisco 
A Quaresma, iniciada nas cinzas que lembram nossa fragilidade comum, encontra nas Bem-aventuranças seu eixo interpretativo mais exigente. Converter-se é abandonar a ilusão de autossuficiência e reaprender a depender de Deus e dos outros. Jejum, oração e partilha só fazem sentido quando reconstroem vínculos e restauram a dignidade ferida. Fora disso, tornam-se ritos vazios, denunciados tanto pelos profetas quanto por Jesus.
Ao final, Mateus 5,1–12a permanece como texto inegociável. Ele não permite cristianismos seletivos, nem espiritualidades de conveniência. Ele expõe as escolhas fundamentais que organizam a vida pessoal, eclesial e social. Em um país marcado por desigualdades profundas, violência simbólica e instrumentalização da fé, as Bem-aventuranças continuam a ecoar como palavra perigosa, libertadora e exigente.
Entre a montanha da Galileia e as periferias do Brasil, Cristo continua a ensinar. Não oferece atalhos, mas caminho. Não promete segurança, mas Reino. Não seduz com poder, mas convoca à fidelidade. Quem escuta esse discurso e o leva a sério já começou a viver, no meio da história ferida, a bem-aventurança que ninguém pode roubar.
DNonato – Teólogo do Cotidiano
 Fé, Palavra e Realidade

Um breve olhar sobre Marcos 4,35-41

 
A Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Marcos 4,35-41 ocupa um lugar estratégico na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamada no sábado da 3ª semana do Tempo Comum no Ano Par e no 12º Domingo do Tempo Comum no Ano B. Essa escolha não é neutra nem meramente cronológica. O Tempo Comum não é o espaço da banalidade espiritual, mas o chão concreto onde a fé é testada pela rotina, pelo cansaço, pelas noites que chegam sem aviso e pelas tempestades que irrompem justamente quando acreditamos estar obedecendo à vontade de Deus. Ao colocar este Evangelho no coração do Tempo Comum, a liturgia recorda que o seguimento de Jesus acontece dentro da história, com todas as suas ambiguidades, riscos e medos. Marcos escreve para uma comunidade frágil, ameaçada, marcada pela perseguição e pela experiência do silêncio de Deus. O Evangelho nasce como resposta pastoral e teológica a uma pergunta concreta: onde está Deus quando a barca parece afundar? Por isso, este texto não é apenas a memória de um milagre do passado, mas uma catequese viva dirigida a comunidades que atravessam noites longas, individuais e coletivas. A travessia do lago torna-se metáfora da travessia da fé.

“Naquele dia, ao cair da tarde” (Mc 4,35). O detalhe temporal não é decorativo. A tarde que cai anuncia a noite, e na Escritura a noite é o tempo do medo, da insegurança, da aparente ausência de Deus. Foi à noite que Israel murmurou no deserto (Ex 16); foi à noite que o povo tremeu diante do mar e do exército do faraó (Ex 14,10); é na noite que os salmistas clamam: “Até quando, Senhor?” (Sl 13). A travessia proposta por Jesus começa quando a visibilidade diminui e o controle humano se enfraquece. A fé bíblica não começa onde tudo está claro, mas onde as garantias se esgotam. 

O cenário reforça essa experiência. O chamado Mar da Galileia, na verdade um lago cercado por montanhas, era conhecido por tempestades repentinas provocadas pelo choque entre massas de ar quente e frio. Marcos conhece esse dado histórico, mas o transcende teologicamente. Na Bíblia, o mar é símbolo do caos primordial (Gn 1,2), das forças da morte (Sl 69,2), do espaço onde habitam monstros simbólicos como Leviatã e Raab (Jó 41; Sl 89,11). O mar representa tudo aquilo que ameaça a vida e escapa ao controle humano. Não é apenas geografia; é linguagem teológica.

Enquanto a tempestade cresce, Jesus dorme. Marcos não suaviza esse detalhe. Jesus está exausto, dorme sobre um travesseiro, experimenta o limite do corpo. Contra qualquer espiritualidade desencarnada ou cristologia docetista, o Evangelho afirma a plena humanidade de Cristo. Ele não finge ser humano; Ele o é. Esse sono, porém, escandaliza os discípulos, que o acordam com uma pergunta dura e atravessada de dor: “Mestre, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). Esse grito percorre toda a Escritura. É o clamor do povo oprimido, o lamento de Jó, a súplica dos salmos, o protesto das vítimas da história. Não é ausência de fé, mas fé ferida, exposta, vulnerável.

Jesus se levanta, repreende o vento e ordena ao mar: “Silêncio! Cala-te!” (Mc 4,39). Os verbos usados por Marcos são os mesmos empregados nos relatos de exorcismo. O evangelista deixa claro que não se trata apenas de um fenômeno natural, mas de um confronto simbólico com forças que ameaçam a vida. A calma que se segue é descrita como “grande calmaria”, em contraste com a “grande tempestade”. Onde a palavra de Jesus ressoa, o caos não tem a última palavra.

Esse gesto insere Jesus no coração da fé bíblica de Israel. Os Salmos proclamam que somente o Senhor domina o orgulho do mar e acalma suas ondas (Sl 65,8; Sl 107,29). Jó reconhece que apenas Deus pode impor limites às águas caóticas (Jó 38,8-11). Ao atribuir a Jesus esse poder, Marcos afirma sua identidade divina de forma narrativa e existencial, sem recorrer a discursos abstratos. A cristologia aqui nasce da experiência vivida, não de definições conceituais.

No entanto, o centro do texto não está no milagre, mas na palavra dirigida aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40). O problema não é a tempestade, mas o medo que paralisa. A fé bíblica não é ausência de medo, mas confiança que resiste apesar dele. Trata-se de uma fé que atravessa a noite sem exigir garantias imediatas. Marcos denuncia uma fé imatura, dependente de sinais constantes, incapaz de sustentar-se quando Deus silencia.

A reação final dos discípulos é paradoxal. Eles não ficam serenos, mas tomados de grande temor. O medo da morte dá lugar ao temor diante do Mistério. Este é o verdadeiro temor bíblico: não pânico, mas reconhecimento da alteridade divina. A pergunta “Quem é este?” (Mc 4,41) percorre todo o Evangelho e só encontrará resposta plena na cruz, quando um centurião romano, representante do poder opressor, proclamará: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). A travessia do mar já aponta para a Páscoa.

O horizonte bíblico amplia ainda mais essa leitura. A cena dialoga profundamente com o Êxodo, narrativa fundante da fé de Israel. O povo atravessa o Mar Vermelho cercado por águas ameaçadoras e por um exército opressor (Ex 14). A libertação não nasce da força do povo, mas da ação gratuita de Deus. Marcos reinscreve essa memória: o Deus que domina as águas continua agindo na história, agora revelado em Jesus. A travessia do lago torna-se uma releitura pascal do Êxodo, aplicada à comunidade cristã.

Os paralelos sinóticos reforçam essa teologia. Mateus destaca a autoridade de Jesus sobre a criação (Mt 8,23-27). Lucas sublinha o caráter de confronto ao afirmar que Jesus “ameaçou” o vento (Lc 8,24). João, ao narrar outra travessia noturna, coloca nos lábios de Jesus a expressão “Sou eu” (Jo 6,20), evocando o Nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14). Em todos os casos, a noite, o medo e a presença fiel de Deus caminham juntos.

O contraste com Jonas é igualmente revelador. Jonas dorme no porão do navio enquanto a tempestade ameaça a todos (Jn 1), mas seu sono é fuga da missão. O sono de Jesus é confiança radical no Pai. Ambos dormem, mas por razões opostas. Marcos propõe, assim, uma catequese profunda sobre obediência e fidelidade.

Desde os primeiros séculos, a barca foi lida como símbolo da Igreja. Orígenes via nela a comunidade ameaçada pelas perseguições; Tertuliano falava da Igreja sacudida pelos ventos da história; João Crisóstomo afirmava que Cristo permite a tempestade para educar a fé. Agostinho ofereceu uma leitura pastoral duradoura: o mar são as paixões, os ventos são as tentações, a barca é o coração humano. Quando Cristo dorme, é porque a fé adormeceu; acordá-lo é orar.  

O medo é constitutivo da condição humana. A fé não elimina a ansiedade, mas oferece horizonte de sentido. Filosoficamente, o texto desmonta a ilusão da autossuficiência moderna. O ser humano não controla tudo. A tempestade revela o limite, e é nesse limite que a fé se purifica.

O Evangelho também confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio. Se essas teologias fossem verdadeiras, a obediência a Jesus garantiria uma travessia tranquila. No entanto, a tempestade surge justamente porque os discípulos obedecem à ordem: “Passemos para a outra margem”. A fidelidade não livra do conflito; frequentemente o provoca. A fé mercantilizada transforma Deus em produto e o Evangelho em promessa de conforto. Marcos revela um Cristo que não anestesia a realidade, mas a atravessa.

A “outra margem” não é apenas geográfica. Em Marcos, ela aponta para o território do estrangeiro, do pagão, do excluído, como se verá no encontro com o endemoninhado geraseno (Mc 5,1-20). A tempestade surge no caminho da missão. Uma Igreja autocentrada pode evitar tempestades, mas trai o Evangelho. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de uma fé autorreferencial (EG 95), e a Fratelli Tutti recorda que estamos todos na mesma barca da humanidade (FT 32).

 Os discípulos, futuros líderes, entram em pânico. Se eles  tiveram medo, porque  hoje não  podemos  sentir.  Não há elite espiritual imune ao medo. A autoridade na Igreja não nasce da ausência de fragilidade, mas da confiança em meio a ela. O Concílio Vaticano II afirma que todos os batizados participam da mesma dignidade e missão (Lumen Gentium, 10). Não há barcas privilegiadas no Reino.

Marcos escreve para uma comunidade ameaçada pelo martírio. A pergunta “não te importas?” ecoa no sangue dos perseguidos. A resposta não vem como explicação racional, mas como presença fiel. O Cristo que dorme na barca é o mesmo que parece silencioso diante das cruzes da história. A ressurreição revelará que o silêncio não é abandono.

Por isso, este Evangelho educa para uma espiritualidade adulta, pascal e profética. Não uma fé mágica, mas comprometida com a vida. Não uma religião de mercado, mas um seguimento que atravessa noites. A tempestade não é sinal da ausência de Deus, mas lugar de revelação. Esse dinamismo atravessa a história da Igreja e se impõe com força renovada na realidade contemporânea. A comunidade de Marcos vivia sob perseguição, insegurança política, violência estrutural e medo do futuro; nossa época, embora com outras linguagens e tecnologias, experimenta tempestades semelhantes: desigualdade crescente, autoritarismos travestidos de moral religiosa, mercantilização da fé, banalização do sofrimento humano e uso do Nome de Deus como instrumento de poder. Ontem como hoje, a barca é sacudida não apenas por forças externas, mas por crises internas: clericalismo, autorreferencialidade e perda da centralidade do Evangelho. A pergunta “não te importas?” continua ecoando nas periferias, nas vítimas da violência, nos que se sentem descartados por sistemas econômicos, políticos e religiosos. A resposta, porém, permanece a mesma: não vem como explicação fácil, mas como presença fiel que atravessa a noite. A Igreja, em cada tempo histórico, é chamada a não abandonar a travessia nem negociar sua missão em troca de calmarias artificiais. A fidelidade ao Cristo da barca implica aceitar o risco da tempestade e a responsabilidade pela outra margem.

Enquanto as ondas batem e o medo insiste, a barca segue. Não porque somos fortes, mas porque Ele está presente. Dormindo ou acordado, o Senhor da criação permanece fiel. Essa é a Boa Nova que sustenta a Igreja ontem, hoje e sempre. 

Este Evangelho proclamado tanto  no 3º sábado do Tempo Comum  e no  12⁰ domingo  do tempo comum  ddo ano B destrói a ilusão de uma espiritualidade a ilusão de uma espiritualidade asséptica. Ele nos lança no meio das ondas da história, onde as tempestades atuais — da injustiça social à manipulação do nome de Deus — ameaçam naufragar a esperança. A lição é clara: o Cristo que acalma o mar não é um amuleto de prosperidade, nem uma garantia de conforto; Ele é o Senhor que nos acompanha na dor e no desafio.

​A resposta ao silêncio de Deus diante das perseguições e angústias não é o abandono, mas uma maturidade espiritual que integra medo e confiança. Como nos lembra a sabedoria de Lévinas, a tempestade nos confronta com o que escapa ao nosso controle, exigindo de nós uma resposta ética, e não apenas mágica.

​Deixemos, pois, a religião do controle para abraçar a espiritualidade da entrega. A barca segue não pela ausência de ventos contrários, mas pela Presença que habita seu interior. Mesmo no silêncio que precede a ressurreição, o Senhor permanece fiel. É nessa confiança pascal que a Igreja encontra força para continuar sua travessia, ontem, hoje e sempre.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 4,26-34

 

O Evangelho de Marcos 4,26-34 marca presença na liturgia em dois momentos distintos: no 11º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e na sexta-feira da 3ª semana (anos pares). Essa dupla inserção não é mera coincidência, mas um sinal litúrgico eloquente: a semente do Reino não germina apenas na solenidade do domingo, mas também na terra batida do cotidiano, entre o cansaço e a perseverança silenciosa. Situado no coração da pedagogia de Jesus, este texto parabólico recusa respostas fáceis ou promessas de sucesso imediato. Em vez disso, convida-nos a uma conversão profunda do olhar, reeducando nossa percepção sobre o tempo de Deus e as expectativas humanas

Marcos escreve para comunidades pequenas, frágeis, socialmente irrelevantes, marcadas pela perseguição e pela sensação de insignificância histórica. Não são comunidades triunfantes nem hegemônicas; são grupos que vivem à margem do Império, tentando discernir se a fé em Jesus crucificado faz sentido num mundo estruturado pela força, pela dominação e pela violência. Nesse contexto, o Evangelho não sustenta essas comunidades com promessas de crescimento numérico ou prestígio social, mas com a confiança de que Deus age silenciosamente na história, mesmo quando tudo parece imóvel. O Reino anunciado por Jesus não coincide com o imaginário messiânico dominante nem com os projetos religiosos de poder; ele nasce pequeno, cresce escondido e amadurece no tempo de Deus. A parábola da semente lançada na terra remete ao gesto primordial de Deus que planta a vida no caos e confia à criação uma fecundidade própria. O eco de Gênesis é evidente: “Que a terra produza vegetação” (Gn 1,11-12). O ser humano, colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2,15), não é dono da vida, mas cooperador. Exegeticamente, quando Marcos afirma que a terra produz fruto “por si mesma”, não exclui Deus do processo, mas reconhece uma lógica divina inscrita na criação, que precede e excede o controle humano. A sabedoria bíblica sempre advertiu contra a ilusão do domínio: “Muitos são os projetos do coração humano, mas o desígnio do Senhor permanece” (Pr 19,21).

O semeador não controla o crescimento. Ele semeia e retorna à normalidade da vida: dorme, acorda, atravessa o tempo. Essa imagem desmonta toda espiritualidade baseada na ansiedade, na performance religiosa e no controle dos resultados. Marcos, em contraste com Mateus e Lucas, radicaliza essa afirmação. Em Mateus 13, a fecundidade está associada à escuta perseverante; em Lucas 8, ao coração que guarda a Palavra com constância. Marcos, porém, afirma que o Reino cresce mesmo além da consciência do semeador. O crescimento não depende da eficiência humana, mas da fidelidade ao gesto inicial de semear. Essa lógica encontra profundo eco na tradição profética. Isaías descreve a Palavra como chuva que fecunda a terra e não retorna vazia (Is 55,10-11). Jeremias compara o justo a uma árvore plantada junto às águas, que não teme o tempo da seca (Jr 17,7-8). O Salmo 65 celebra o cuidado de Deus que visita a terra e a faz transbordar de vida. Jesus retoma essa tradição e a desloca do campo da expectativa futura para o interior da história presente. O Reino não é apenas promessa escatológica; ele já atua, ainda que de modo discreto e muitas vezes imperceptível.

O crescimento gradual — primeiro o broto, depois a espiga, depois o grão cheio — revela uma pedagogia divina que respeita processos. Aqui o texto dialoga profundamente com a experiência humana. A psicologia reconhece que o amadurecimento saudável exige tempo, elaboração de conflitos e atravessamento da fragilidade. A fé não foge dessa dinâmica. Por isso, a parábola liberta o discípulo da culpa por não corresponder a modelos idealizados de santidade imediata e denuncia discursos religiosos que exigem produtividade espiritual contínua, ignorando a condição humana. Quando Jesus fala da colheita, introduz a dimensão escatológica sem recorrer ao medo. O juízo aparece como revelação da verdade que amadureceu ao longo da história. Joel fala do tempo em que a foice é lançada porque a colheita chegou (Jl 4,13). Mateus retoma essa lógica na parábola do joio e do trigo, onde a separação só ocorre no tempo oportuno (Mt 13,24-30). Lucas fala do tempo da visitação de Deus (Lc 19,44). O juízo não é punição arbitrária, mas desvelamento do que foi gestado no silêncio.

Paulo aprofunda essa compreensão ao afirmar que cada um colherá o que tiver semeado (Gl 6,7-9) e que o crescimento pertence a Deus (1Cor 3,6-7). A história, portanto, não caminha para o vazio, mas para uma plenitude que não pode ser forçada nem antecipada. Essa visão confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem colheitas imediatas, sucesso visível e ascensão social como sinais da bênção divina. O Evangelho insiste que o Reino cresce na fidelidade cotidiana e muitas vezes na contradição.

A parábola do grão de mostarda aprofunda ainda mais essa inversão simbólica. O que começa pequeno torna-se espaço de abrigo. A imagem dialoga com Ezequiel 17,22-24 e com Daniel 4, onde a árvore abriga povos e nações. Jesus, porém, redefine o símbolo: o Reino não é império que domina, mas comunidade que acolhe. As aves que repousam nos ramos evocam hospitalidade, cuidado e proteção, em contraste com sistemas que exploram e descartam vidas. Essa imagem ganha força quando confrontada com a realidade contemporânea. Vivemos sob a lógica da aceleração, do desempenho e da competição permanente. Também o campo religioso sofre essa pressão, transformando a fé em produto, a espiritualidade em técnica e a missão em marketing. Marcos 4 desautoriza essa lógica ao afirmar que o Reino não cresce pela visibilidade, mas pela fidelidade ao pequeno e ao cotidiano.

É preciso  lembrar ao padres e  pastores e demais clérigos  que o semeador não é dono do crescimento. Quando lideranças religiosas se colocam como mediadoras absolutas da graça ou administradoras exclusivas do Reino, negam o núcleo da parábola. Jesus afirma que autoridade, entre seus discípulos, significa serviço (Mc 10,42-45). Pedro exorta os presbíteros a apascentarem sem dominar (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, 9).

Santo Irineu de Lyon afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo, cuja plenitude se constrói no tempo. Agostinho lembrava que Deus age na história sem violentar a liberdade humana. Gregório de Nissa falava do crescimento espiritual como um movimento contínuo em direção a Deus, sem esgotamento do mistério. O Reino cresce, portanto, também no interior da pessoa, como processo de conversão permanente. Essa compreensão do Reino exige uma releitura radical da noção de tempo. O tempo bíblico não se reduz ao chronos mensurável e produtivista, mas se abre ao kairós, o tempo oportuno de Deus. O Eclesiastes lembra que há um tempo para cada coisa (Ecl 3,1), e Habacuque afirma que a visão não falhará, ainda que pareça tardar (Hab 2,3). Esperar, nesse horizonte, não é passividade, mas fidelidade perseverante. Do ponto de vista histórico e sociológico, essa lógica revela que transformações profundas amadurecem no subsolo da história antes de se tornarem visíveis. O Evangelho reconhece essa dinâmica e a inscreve no horizonte teológico. O Reino cresce como fermento escondido na massa (Mt 13,33), transformando por dentro estruturas marcadas pela desigualdade e pela exclusão.

Por isso, Marcos 4 também denuncia uma fé individualista e desencarnada. A semente é lançada num campo comum. O Reino tem dimensão comunitária e histórica. A fé que não se traduz em relações justas e compromisso com os vulneráveis contradiz o Evangelho. Tiago é incisivo ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17).

Esse texto oferece, enfim, profundo consolo espiritual. Ele fala a quem semeia no anonimato, a quem vive a fidelidade cotidiana sem reconhecimento, a quem experimenta o cansaço e a sensação de inutilidade. O Salmo 126 recorda que os que semeiam entre lágrimas colherão com alegria. A esperança cristã não é ingenuidade, mas confiança de que Deus permanece fiel à sua promessa. Ao proclamar Marcos 4,26-34 no 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B e na sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum nos anos pares, a liturgia convida a Igreja a reencontrar sua identidade mais profunda. Essa proclamação acontece dentro de um conjunto mais amplo de leituras que, na tradição litúrgica, reforçam a pedagogia do pequeno, do processo e da confiança. No 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B, a primeira leitura é retirada de Ezequiel 17,22-24, onde Deus promete plantar um ramo pequeno que se tornará árvore frondosa. O Salmo responsorial proclama que é bom louvar o Senhor porque o justo cresce como a palmeira e se desenvolve como o cedro do Líbano (Sl 92). A segunda leitura, de 2Coríntios 5,6-10, afirma que caminhamos pela fé e não pela visão. O conjunto das leituras cria um campo hermenêutico coerente: o Reino cresce no oculto, sustenta-se pela confiança e não se mede por critérios imediatos.

Também na liturgia ferial da sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum, nos anos pares, Marcos 4,26-34 dialoga com leituras que reforçam a paciência histórica e a fidelidade cotidiana. A Palavra proclamada nesse dia insere o fiel no ritmo ordinário do Tempo Comum, recordando que a ação de Deus não se limita aos grandes momentos litúrgicos, mas se manifesta na perseverança silenciosa da vida diária. A repetição desse Evangelho ao longo do ano litúrgico revela sua centralidade na compreensão cristã do Reino.

O contexto histórico do texto remete à Palestina do século I, marcada por forte desigualdade social, exploração agrícola, cobrança de impostos abusivos e concentração de terras. A maioria dos ouvintes de Jesus era formada por camponeses que conheciam bem o ritmo da semeadura, a espera angustiada pela chuva e a insegurança da colheita. Falar de sementes, terra e crescimento não era recurso poético abstrato, mas linguagem profundamente encarnada. Jesus não idealiza o campo; Ele fala a partir da experiência concreta de um povo vulnerável, submetido ao poder romano e às elites religiosas locais. Nesse contexto, a imagem de um Reino que cresce sem violência e sem espetáculo constitui uma crítica implícita tanto ao Império Romano quanto às expectativas messiânicas de cunho nacionalista e militar. Enquanto o Império se expandia pela força e pela imposição, Jesus anuncia um Reino que cresce como semente, sem exércitos, sem propaganda e sem coerção. Essa contraposição atravessa todo o Evangelho de Marcos, que apresenta um Messias rejeitado, incompreendido e crucificado.

Outros textos bíblicos retomam imagens semelhantes para falar da ação discreta de Deus na história. O profeta Oséias compara a fidelidade divina ao orvalho que faz brotar a vida (Os 14,6). Zacarias fala de não desprezar o dia das pequenas coisas (Zc 4,10). O Salmo 127 recorda que, se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores. No Novo Testamento, Jesus utiliza imagens afins ao falar do fermento escondido na massa (Mt 13,33), do grão de trigo que precisa morrer para dar fruto (Jo 12,24) e da videira e dos ramos, onde a fecundidade depende da permanência e não da agitação (Jo 15,1-8).

A tradição paulina reforça essa mesma lógica. Em Romanos 8, Paulo descreve a criação inteira como que gemendo em dores de parto, aguardando a plenitude que ainda não se manifestou plenamente. Em Filipenses 1,6, ele afirma confiar que aquele que começou a boa obra a levará a termo. A história da salvação, portanto, é marcada por processos, não por atalhos. Ao ser proclamado hoje, esse texto encontra uma realidade marcada por crises múltiplas: crise ecológica, social, política, econômica e também religiosa. A lógica do imediato, do consumo e da visibilidade colonizou não apenas a sociedade, mas também muitas expressões de fé. Igrejas competem por fiéis, líderes disputam influência, e a linguagem religiosa é frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder, exclusão e violência simbólica. Nesse cenário, Marcos 4,26-34 ressoa como palavra profundamente contracultural.

A parábola questiona frontalmente a teologia da prosperidade, que associa a bênção de Deus ao sucesso material e à ascensão social. Questiona também a teologia do domínio, que legitima a ocupação de espaços de poder em nome de Deus. Ambas reduzem o Reino a um projeto humano e traem o Evangelho. Jesus nunca prometeu visibilidade, prestígio ou imunidade ao sofrimento; prometeu, sim, a presença fiel de Deus no meio da história.

O texto também interpela a Igreja em sua configuração atual. Em tempos de clericalismo persistente, de centralização excessiva e de autorreferencialidade, a parábola recorda que o crescimento do Reino não depende do controle institucional, mas da ação livre do Espírito. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que a Igreja é sacramento universal de salvação, não a identifica com o Reino, mas a coloca a seu serviço. Essa distinção é fundamental para evitar que a instituição se substitua ao Evangelho.

Por fim, a perícope de Marcos 4,26-34 constitui o fundamento hermenêutico para a esperança cristã no tempo presente. Ela atesta que a fidelidade ordinária, ainda que oculta aos olhos do mundo, possui eficácia histórica e alcance escatológico. Nenhum gesto de amor é estéril. Como nos recorda a Carta aos Hebreus, a nossa garantia reside naquele que é Fiel (Hb 10,23). Assumir essa lógica é um ato de resistência contra a cultura do cinismo e a tirania do imediatismo, descansando na certeza de que o Reino germina — de forma silenciosa, discreta e soberanamente irreversível



DNonato – Teólogo do Cotidiano