Jesus retorna da outra margem e é imediatamente envolvido pela multidão. O movimento é contínuo, quase caótico, revelando uma realidade onde muitos se aproximam, mas poucos realmente encontram. É nesse cenário que surge Jairo, chefe da sinagoga, representante da instituição religiosa, que se prostra aos pés de Jesus e suplica pela filha de doze anos, gravemente enferma. O gesto de Jairo já é teologicamente significativo: a autoridade religiosa precisa descer de seu lugar de poder e reconhecer que a vida não se sustenta apenas por estruturas, mas pela confiança em Deus. O número doze, que aparece tanto na idade da menina quanto na duração do sofrimento da mulher, não é casual. Na Escritura, doze remete à totalidade do povo de Israel, às doze tribos (Gn 35,22-26). Marcos sugere que ali não estão apenas duas histórias individuais, mas o retrato de um povo cuja vida está interrompida, sangrando ou à beira da morte.
No caminho até a casa de Jairo, a narrativa é interrompida por outra história, recurso literário típico de Marcos. Os paralelos sinóticos enriquecem essa leitura. Mateus (Mt 9,18-26) enfatiza a autoridade de Jesus sobre a morte; Lucas (Lc 8,40-56) destaca o ambiente familiar e o espanto diante da vida restaurada. Marcos, por sua vez, insiste no caminho interrompido, na pedagogia do encontro e na centralidade dos corpos feridos. São leituras complementares que revelam a riqueza da tradição evangélica.
Uma mulher, sem nome, carrega há doze anos um fluxo contínuo de sangue. Sua dor ultrapassa o plano físico. Segundo a legislação de Levítico (Lv 15,25-27), ela vive em estado permanente de impureza, excluída do convívio social e religioso. Seu corpo torna-se lugar de estigma e vergonha. Marcos não romantiza seu sofrimento: ela gastou tudo o que possuía com médicos e, em vez de melhorar, piorou. O evangelista denuncia, de forma sutil e contundente, qualquer sistema que transforma a dor em mercadoria e se alimenta da vulnerabilidade dos pobres. Esssa mulher ousa aproximar-se de Jesus por trás e tocar a orla de sua veste. O gesto é carregado de simbolismo. Tocar alguém considerado sagrado, estando em condição de impureza, significava transgredir normas religiosas e sociais. Por isso, o toque é discreto, quase clandestino. No entanto, é justamente esse toque que revela uma fé profundamente encarnada. Não se trata de magia nem de superstição, mas de uma confiança radical que se expressa no corpo. O toque, tão recorrente no ministério de Jesus (cf. Mc 1,41; Mc 8,23), rompe a lógica da distância sagrada e revela um Deus que se deixa alcançar. A veste, por sua vez, remete às franjas prescritas em Nm 15,37-41, sinal da Aliança. Ao tocar a orla, a mulher toca simbolicamente a fidelidade de Deus. Cumpre-se ali a esperança anunciada pelo profeta Malaquias: a cura que vem nas asas do Sol da Justiça (Ml 3,20).
Quando Jesus pergunta quem o tocou, ele não busca informação, mas promove revelação. Ele interrompe o caminho, suspende a urgência institucional representada por Jairo e coloca no centro uma mulher invisibilizada. Ao fazê-la sair do anonimato, Jesus restitui sua dignidade. O medo que a faz tremer não é apenas reverência, mas o temor de quem viveu à margem e conhece o peso da punição social. A palavra de Jesus “Filha, tua fé te salvou” não apenas confirma a cura, mas reintegra a mulher à comunidade. Ela não é mais impura, é filha. A salvação, aqui, passa pelo corpo, pela palavra e pela relação. Essa Palavra ressoa com força no contexto brasileiro e latino-americano. O sangue que escorre da mulher evoca hoje os corpos descartados nas periferias, os jovens negros assassinados, as mulheres vítimas de feminicídio, os povos indígenas violentados, as crianças privadas de futuro.
É nesse momento que chegam os mensageiros anunciando a morte da menina. A lógica dominante se impõe: não vale mais a pena incomodar o Mestre. Trata-se da voz do conformismo, da naturalização da morte, tão presente em sociedades marcadas pela desigualdade. Jesus responde com uma das palavras mais decisivas do Evangelho: “Não tenhas medo, apenas crê”. A fé não nega a realidade, mas se recusa a aceitá-la como destino final. Jesus entra na casa acompanhado apenas dos pais e de três discípulos. Ele afasta o ruído dos pranteadores, denunciando uma religiosidade que transforma a morte em espetáculo e perde a capacidade de cuidar.
Diante da menina, Jesus pronuncia em aramaico: “Talitha kum” — “Menina, eu te digo, levanta-te”. Marcos preserva a língua original para sublinhar a intimidade do gesto e a força criadora da Palavra, que não descreve, mas realiza (cf. Gn 1). A menina se levanta imediatamente. O gesto final — mandar que ela coma — é uma chave teológica de enorme profundidade. Alimentar-se é sinal de vida restaurada, de reintegração à rotina, à mesa, à comunhão. Não se trata de um detalhe doméstico, mas de uma antecipação da pedagogia eucarística. Na tradição bíblica, comer é sempre um ato relacional. Do maná no deserto (Ex 16) ao banquete escatológico (Is 25,6), Deus deseja um povo vivo e sustentado. No Evangelho de Marcos, essa lógica se aprofunda nas multiplicações dos pães (Mc 6,30-44; Mc 8,1-9) e culmina na Última Ceia (Mc 14,22-25), quando Jesus se oferece como pão partido. Mandar a menina comer é afirmar que a vida devolvida precisa ser sustentada concretamente. Uma fé que celebra a Eucaristia, mas convive pacificamente com a fome e a exclusão, contradiz o Evangelho. A ordem de Jesus levantar e alimentar confronta uma sociedade que naturaliza a morte e uma religião que, muitas vezes, se limita ao rito. Medellín denuncia a miséria como injustiça estrutural; Puebla afirma a opção preferencial pelos pobres; Aparecida recorda que a vida plena prometida por Jesus (Jo 10,10) exige compromisso histórico. A CNBB, em seus documentos e campanhas, insiste que não há fé autêntica sem defesa da vida ameaçada.
Jairo precisa aprender que a autoridade verdadeira nasce do cuidado, não do cargo aqui temos uma crítica aos pastores, duaconos padres, bispos e demais clerigos que abusam do cargo, Jairo se dobra a autoridade de Jesus. A mulher encontra em Jesus não um fiscal da lei, mas um libertador. A fé como mercadoria é desmentida por uma graça que não se compra. Como recorda o Concílio Vaticano II, as dores da humanidade são também as dores da Igreja (Gaudium et Spes, 1), e o Papa Francisco insiste numa Igreja que seja hospital de campanha, não tribunal.
Portanto, a liturgia de hoje não é um eco vazio, mas uma presença viva. Jesus continua sendo o Deus das interrupções santas e das visitas inesperadas, aquele que para no meio da multidão para acolher o toque de um anônimo e que entra na intimidade do luto para devolver o fôlego. O seu 'não tenhas medo, apenas crê' é a âncora lançada em nosso mar de incertezas.
Aqui, crer transforma-se em contato físico: é o toque que cura a exclusão e a mão estendida que levanta da morte. O milagre culmina na ordem simples e humana: 'dai-lhe de comer'. Isso nos ensina que a Eucaristia é a escola do cuidado. Comungar é assumir o compromisso de que nenhuma vida ao nosso redor deve definhar por falta de pão, de afeto ou de esperança. É cuidar do outro para que a morte não tenha a última palavra
DNonato – Teólogo do Cotidiano





