sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


terça-feira, 14 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-27

O Evangelho de Mateus 11,25-27 ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamado em diversos momentos do calendário da Igreja Católica e iluminando diferentes aspectos do mistério de Cristo. No ciclo semanal do Tempo Comum, esta perícope é proclamada na quarta-feira da 15ª Semana, dando continuidade ao itinerário evangelizador iniciado no dia anterior e preparando a passagem seguinte, Mateus 11,28-30, proclamada na quinta-feira da mesma semana. Essa divisão pedagógica do Lecionário permite à comunidade aprofundar, em dois dias consecutivos, o mistério da revelação do Pai aos pequeninos e, em seguida, acolher o convite de Jesus para encontrar nele descanso, alívio e renovação da vida. O mesmo texto integra ainda o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum do Ano A, na perícope de Mateus 11,25-30, tornando-se o eixo da reflexão dominical sobre a sabedoria do Reino, revelada aos humildes, e sobre o jugo suave e o fardo leve de Cristo. Também é proclamado na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no Ano A, quando a Igreja contempla o amor misericordioso do Filho, a mansidão e a humildade de seu Coração, abertas como fonte de vida para toda a humanidade. A continuação da perícope, Mateus 11,28-30, é frequentemente escolhida nas celebrações pelos fiéis defuntos, por anunciar a esperança cristã no descanso definitivo prometido por Cristo àqueles que nele confiam. Em alguns calendários próprios, especialmente da Família Franciscana, essa passagem também ilumina a memória de São Francisco de Assis, cuja vida marcada pela pobreza evangélica, pela simplicidade e pela humildade tornou-se um testemunho concreto da pequenez que Jesus proclama bem-aventurada. Passagens paralelas, particularmente Lucas 10,21-22, também são proclamadas em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas e em diversas Igrejas históricas do Ocidente, evidenciando que essa oração de Jesus constitui uma das mais profundas revelações sobre sua identidade filial, sobre a gratuidade da ação de Deus e sobre a verdadeira sabedoria que não se impõe pela força, mas se revela aos corações humildes e disponíveis à graça.

A tradição paralela conservada em Lucas 10,21-22 também é proclamada em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras Igrejas da tradição reformada, conforme seus respectivos lecionários. A presença constante dessa passagem nas diversas tradições cristãs demonstra que ela constitui uma das mais profundas revelações acerca da identidade do Filho, da ação gratuita da graça e do caminho da verdadeira sabedoria, acessível não aos autossuficientes, mas aos humildes que acolhem o Reino com coração disponível..A oração de Jesus registrada por Mateus não surge como um momento isolado de espiritualidade, mas como o ponto culminante de uma sequência de acontecimentos que revelam o drama da missão messiânica. O capítulo inicia com João Batista preso por Herodes Antipas. Da fortaleza de Maqueronte, na região da Pereia, João envia discípulos para perguntar se Jesus é realmente aquele que deveria vir ou se ainda era preciso esperar outro (Mt 11,2-3). A pergunta não nasce necessariamente da falta de fé, mas do contraste entre a expectativa messiânica alimentada por muitos judeus e o modo surpreendente como Jesus realizava sua missão. Esperava-se um Messias juiz, capaz de estabelecer imediatamente o juízo divino sobre os ímpios, enquanto Jesus aproximava-se dos pobres, dos pecadores, dos enfermos e dos marginalizados, revelando um Reino que crescia silenciosamente.

A resposta de Jesus não apresenta argumentos abstratos, mas remete às obras realizadas. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova (Mt 11,4-5). Cada uma dessas ações remete diretamente às promessas proféticas de Isaías (Is 29,18; 35,5-6; 42,6-7; 61,1-2), indicando que o Reino esperado já está presente. O verdadeiro sinal messiânico não é a demonstração de força militar nem a conquista do poder político, mas a restauração da dignidade humana. Depois de confirmar a missão de João Batista, Jesus lamenta a incapacidade de sua geração em reconhecer a ação de Deus. Ela rejeitou João porque jejuava e vivia austeramente, chamando-o de possesso, e rejeitou o Filho do Homem porque comia com pecadores, acusando-o de glutão e beberrão (Mt 11,16-19). A crítica revela um coração fechado, incapaz de acolher qualquer manifestação divina que não correspondesse às próprias expectativas. Em seguida, Jesus dirige palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11,20-24), cidades da Galileia onde realizara numerosos sinais. A dureza dessas advertências não nasce da ira, mas da dor diante da recusa persistente da conversão.

É precisamente nesse contexto que Jesus eleva sua oração ao Pai. Humanamente, tudo indicaria fracasso. As autoridades religiosas desconfiam dele, parte do povo permanece indiferente, João está preso, cidades inteiras recusam converter-se. Contudo, Jesus contempla a realidade a partir do olhar do Pai. Em vez de permitir que a rejeição determine sua missão, transforma-a em louvor. Essa atitude revela um dos aspectos mais profundos da espiritualidade bíblica. O fracasso aparente nunca possui a última palavra quando a história é contemplada à luz da ação divina.

Mateus utiliza o verbo grego ἐξομολογοῦμαί (exomologoumai), geralmente traduzido como "eu te louvo" ou "eu te dou graças". O termo possui um sentido muito mais rico do que um simples agradecimento. Indica reconhecimento público da ação de Deus, profissão de fé e entrega confiante. Jesus não agradece porque tudo ocorreu conforme seus desejos humanos, mas porque reconhece que o projeto do Pai continua realizando-se mesmo onde os olhos humanos enxergam apenas resistência..Ao chamar Deus de "Pai, Senhor do céu e da terra", Jesus une dois aspectos fundamentais da fé bíblica. Deus é simultaneamente Criador universal e Pai próximo. O Senhor que governa o cosmos inteiro é o mesmo que estabelece uma relação íntima com seus filhos. Essa expressão recorda passagens veterotestamentárias como Gênesis 14,19, Isaías 66,1-2, Neemias 9,6 e diversos salmos que proclamam Deus como Senhor da criação. Entretanto, Jesus acrescenta uma dimensão inédita ao dirigir-se a Deus com a intimidade filial que marcará toda a revelação cristã.

O centro da oração encontra-se na afirmação de que o Pai escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Essa declaração foi frequentemente mal compreendida como se representasse uma oposição entre fé e inteligência. Nada estaria mais distante da tradição bíblica. A própria Escritura celebra a verdadeira sabedoria como dom divino. Os livros sapienciais exaltam a busca da sabedoria (Pr 8; Eclo 1; Sb 7), enquanto Paulo convida os cristãos a renovarem sua inteligência (Rm 12,2). O Evangelho não condena o conhecimento, mas denuncia o orgulho que transforma o saber em instrumento de autossuficiência. Os termos gregos empregados por Mateus aprofundam esse significado. Os "sábios" são chamados σοφοί (sophoi), enquanto os "entendidos" recebem o nome de συνετοί (synetoi). Ambos designam pessoas reconhecidas por sua formação intelectual, capacidade de discernimento e posição de prestígio. Em contraste aparece o termo νήπιοι (nēpioi), literalmente "crianças pequenas". Na cultura mediterrânea antiga, as crianças possuíam pouco reconhecimento social, dependiam inteiramente dos adultos e não ocupavam posição de poder. Jesus utiliza essa imagem para indicar aqueles que permanecem abertos ao dom de Deus. Não se trata da exaltação da ignorância nem da infantilização da fé, mas da humildade que reconhece sua própria necessidade.

Outro verbo merece atenção especial. Mateus afirma que Deus "revelou" essas coisas aos pequeninos. O verbo utilizado é ἀπεκάλυψας (apekalypsas), origem da palavra "apocalipse", que significa retirar o véu, tornar visível aquilo que permanecia oculto. A revelação não nasce do esforço intelectual humano, mas da iniciativa gratuita de Deus. O conhecimento do Reino é dom antes de ser conquista. A inteligência continua necessária, mas encontra sua plenitude somente quando iluminada pela graça..Essa lógica percorre toda a história da salvação. Deus escolhe Abraão quando este já não possuía perspectivas humanas de descendência (Gn 12,1-4). Chama Moisés, homem inseguro e lento de fala, para enfrentar o maior império de seu tempo (Ex 3,1-12). Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,1-13). Levanta profetas frequentemente perseguidos por denunciarem as injustiças do próprio povo (Am 7,10-17; Jr 20,7-18). Maria, jovem de Nazaré pertencente a uma pequena aldeia da Galileia, proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,46-55). Paulo sintetiza essa dinâmica ao afirmar que Deus escolheu aquilo que o mundo considera fraco para confundir os fortes (1Cor 1,26-31).

O contexto histórico reforça ainda mais essa mensagem. A Galileia do século I encontrava-se sob domínio romano. A economia era marcada por forte concentração de terras, pesados impostos e crescente endividamento das famílias camponesas. Muitos pequenos agricultores perdiam suas propriedades e tornavam-se trabalhadores diaristas ou migravam para centros urbanos. Ao mesmo tempo, a aristocracia sacerdotal de Jerusalém concentrava prestígio religioso, influência política e riqueza econômica. A religião frequentemente misturava-se aos interesses das elites locais e do poder imperial..Entretanto, reduzir esse cenário a uma simples oposição entre ricos e pobres seria insuficiente. O judaísmo do Segundo Templo era extremamente diversificado. Fariseus, saduceus, essênios, zelotas e outros grupos buscavam responder, cada qual à sua maneira, aos desafios da ocupação romana e da fidelidade à Lei. Jesus dialoga com esse universo complexo. Em muitos momentos aproxima-se dos fariseus quando afirma a ressurreição dos mortos ou reconhece a importância da Lei. Em outros, critica severamente práticas religiosas que absolutizam normas enquanto esquecem a misericórdia, a justiça e a fidelidade (Mt 23,23). Sua crítica nunca se dirige ao conhecimento em si, mas à transformação da religião em instrumento de prestígio, exclusão e poder.

A realidade cultural mostra que toda sociedade constrói mecanismos de distinção entre quem pertence plenamente ao grupo e quem permanece à margem. Esses mecanismos podem basear-se na origem, na riqueza, na pureza ritual, no gênero, na formação intelectual ou em qualquer outro elemento capaz de justificar desigualdades. Jesus desmonta essas fronteiras ao revelar que Deus comunica seus mistérios justamente àqueles que o sistema considera insignificantes. O Reino não elimina as diferenças humanas, mas impede que elas sejam transformadas em critérios de superioridade. Também no  aspecto  psicológico contemporânea oferece elementos preciosos para compreender essa passagem. O ser humano frequentemente busca construir sua identidade sobre a necessidade de reconhecimento, desempenho e controle. Quando a autoestima depende exclusivamente do sucesso, da influência ou da aprovação social, instala-se um ciclo permanente de ansiedade. A espiritualidade proposta por Jesus rompe essa lógica. Os pequeninos do Evangelho não vivem presos à ilusão da autossuficiência. Reconhecem seus limites sem perder a dignidade. Descobrem que seu valor nasce da relação filial com Deus e não da posição ocupada na sociedade. Essa liberdade interior permite acolher a revelação sem medo de perder privilégios ou status.

É  preciso  ter consciência  que as comunidades religiosas podem tornar-se tanto espaços de libertação quanto mecanismos de reprodução das desigualdades. Quando a experiência religiosa é reduzida ao cumprimento exterior de normas, ao acúmulo de prestígio institucional ou à busca de privilégios espirituais, perde sua força transformadora. Jesus devolve a religião à sua origem mais profunda: o encontro vivo entre Deus e a humanidade, capaz de gerar fraternidade, justiça e esperança. A verdadeira experiência religiosa nunca isola o indivíduo da realidade concreta, mas o impulsiona a participar da construção de uma sociedade mais conforme ao Reino anunciado pelos profetas e realizado em Cristo.  Jesus não é uma condição sociológica idealizada nem uma virtude automática decorrente da pobreza. A Escritura jamais romantiza o sofrimento. A pobreza, a exclusão e a opressão são consequências do pecado pessoal e estrutural, e por isso devem ser combatidas. O que Jesus proclama é que Deus encontra nos corações humildes a disponibilidade que frequentemente falta aos que se deixam aprisionar pela autossuficiência. A abertura à graça não depende da posição social, mas da capacidade de reconhecer que toda vida é dom. É por isso que o Reino permanece acessível tanto ao pescador da Galileia quanto ao doutor da Lei que se converte, tanto à viúva pobre quanto ao centurião romano que descobre em Jesus uma autoridade diferente daquela exercida pelos impérios deste mundo.

O versículo seguinte conduz a reflexão ao centro da cristologia mateana. Jesus afirma: "Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11,27). Poucas passagens dos Evangelhos Sinóticos exprimem de maneira tão elevada o mistério da identidade de Cristo. O verbo "conhecer", tanto em hebraico quanto em grego, ultrapassa o campo da informação intelectual. Nas Escrituras, conhecer significa entrar em comunhão profunda, participar da vida do outro, estabelecer uma relação de intimidade e fidelidade. Assim acontece quando Gênesis afirma que Adão conheceu Eva (Gn 4,1), quando Oséias descreve a aliança entre Deus e seu povo (Os 2,22) e quando Jeremias declara que conhecer o Senhor é praticar a justiça (Jr 22,15-16). O conhecimento de que fala Jesus é participação na própria vida divina.

Essa afirmação tornou-se fundamental para a reflexão coerente  Igreja atual: 

  • Santo Irineu de Lião insistia que o Filho revela o Pai porque é sua Palavra eterna feita carne.
  • Orígenes via nesse texto a confirmação de que ninguém alcança o conhecimento de Deus apenas pelo esforço racional, mas somente por meio daquele que é a Sabedoria eterna. 
  • São João Crisóstomo observava que Cristo não diminui a inteligência humana, mas denuncia o orgulho que impede o encontro com Deus. 
  • Santo Agostinho contemplava nessa passagem uma das mais belas expressões da comunhão trinitária, afirmando que somente o Filho conhece plenamente o Pai porque participa da mesma natureza divina desde toda a eternidade. 
A tradição patrística jamais separou contemplação e vida concreta. Conhecer Deus implica deixar-se transformar por Ele. É precisamente essa transformação que o Concílio Vaticano II recoloca no centro da missão da Igreja. A Constituição Dei Verbum recorda que Deus fala aos homens como amigos e os convida à comunhão consigo, revelando-se progressivamente na história até sua plenitude em Cristo. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como Povo de Deus peregrino, chamado à santidade e ao serviço antes mesmo de abordar sua estrutura hierárquica. A Gaudium et Spes afirma que Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem e manifesta a sua vocação mais elevada. Essas afirmações não constituem simples fórmulas doutrinais, mas critérios permanentes para discernir a autenticidade da vida eclesial.

Na América Latina, essa compreensão ganhou profunda densidade pastoral. Medellín reconheceu que a pobreza não é fatalidade querida por Deus, mas fruto de estruturas injustas que exigem conversão pessoal e transformação social. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência inseparável do seguimento de Cristo. Santo Domingo recordou a urgência da nova evangelização diante das rápidas mudanças culturais. O Documento de Aparecida apresentou toda a Igreja como comunidade de discípulos missionários, convocada a sair de si mesma para encontrar os rostos concretos dos pobres, dos jovens, das famílias, dos povos originários, dos migrantes e de todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB continuam insistindo que a comunidade cristã deve formar discípulos comprometidos simultaneamente com a espiritualidade, a fraternidade e a transformação da realidade. Essa perspectiva encontra profundo desenvolvimento no magistério do Papa Francisco. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão, a idolatria do dinheiro, a cultura do descarte e a tentação de reduzir a evangelização a uma experiência intimista desligada da justiça. A Laudato Si' mostra que a crise ambiental e a crise social possuem a mesma raiz, pois ambas nascem da lógica da exploração ilimitada. A Fratelli Tutti propõe uma fraternidade capaz de superar nacionalismos excludentes, individualismos radicais e novas formas de indiferença. A declaração Dignitas Infinita reafirma que toda pessoa humana possui dignidade inviolável porque foi criada à imagem de Deus e chamada à comunhão com Ele. Todos esses documentos dialogam profundamente com Mateus 11,25-27, pois recordam que Deus continua revelando seu Reino onde a lógica do poder enxerga apenas fragilidade.

Por isso, a oração de Jesus possui inevitáveis consequências proféticas. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a religião para legitimar interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Sempre que o nome de Deus é utilizado para justificar privilégios, alimentar discursos de ódio, incentivar perseguições, naturalizar desigualdades ou transformar comunidades de fé em instrumentos de dominação, o Evangelho é traído. A fé cristã possui implicações sociais e políticas, porque o Reino alcança toda a vida humana, mas jamais pode ser reduzida a plataforma de qualquer projeto de poder. A Igreja anuncia princípios éticos iluminados pelo Evangelho e pela dignidade da pessoa humana; não foi constituída para servir à idolatria do Estado, do mercado, de partidos ou de líderes carismáticos..Nesse horizonte, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos contemporâneos. A chamada teologia da prosperidade tende a identificar a bênção divina com sucesso econômico, riqueza material e ascensão social, obscurecendo a centralidade da cruz, da gratuidade e da solidariedade. A chamada teologia do domínio, desenvolvida em determinados contextos, propõe que os cristãos devem conquistar os centros de poder para impor uma determinada visão religiosa da sociedade. Ambas correm o risco de substituir o serviço pela conquista, a misericórdia pela lógica do vencedor e o discipulado pela busca de influência. O Evangelho apresenta caminho diverso. Jesus rejeita as tentações do poder desde o deserto (Mt 4,1-11), lava os pés de seus discípulos (Jo 13,1-15) e ensina que o maior deve tornar-se servidor de todos (Mc 10,42-45).

O clericalismo representa uma deformação da missão eclesial. Quando o ministério ordenado deixa de ser serviço e passa a ser compreendido como privilégio ou superioridade espiritual, obscurece-se a novidade inaugurada por Cristo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo infantiliza os leigos, sufoca os carismas do povo de Deus e enfraquece a missão evangelizadora. A autoridade cristã nasce da diaconia, jamais da busca de prestígio. O próprio Jesus, Senhor do céu e da terra, manifesta sua autoridade aproximando-se dos pequenos, tocando os impuros, acolhendo pecadores e entregando a própria vida pela salvação do mundo..A mesma vigilância deve alcançar toda expressão religiosa que se deixe capturar por projetos autoritários ou ideológicos, sejam eles de extrema direita, de extrema esquerda ou de qualquer outra forma de absolutização do poder. Sempre que a fé perde sua liberdade profética para tornar-se instrumento de nacionalismos excludentes, personalismos políticos, fanatismos ou polarizações que negam a dignidade do outro, deixa de refletir o rosto de Cristo. Os profetas de Israel denunciaram reis, sacerdotes e comerciantes quando estes traíram a aliança. João Batista enfrentou Herodes. Jesus confrontou práticas injustas presentes tanto no poder político quanto nas lideranças religiosas. A Igreja permanece fiel ao Evangelho quando conserva essa liberdade profética diante de qualquer forma de idolatria do poder.

Ao mesmo tempo, a denúncia profética jamais pode transformar-se em condenação estéril. Jesus inicia sua oração louvando o Pai. Sua crítica nasce do amor, não do ressentimento. A missão da Igreja consiste em anunciar a possibilidade permanente da conversão. Toda pessoa, toda comunidade e toda instituição podem reencontrar o caminho do Reino quando acolhem a verdade com humildade. A misericórdia nunca elimina a exigência ética, mas oferece sempre um horizonte de recomeço..A realidade contemporânea torna essa mensagem particularmente atual. Vivemos num tempo marcado por profundas desigualdades sociais, guerras, migrações forçadas, violência urbana, intolerância religiosa, crise ambiental, solidão crescente e perda de sentido existencial. O desenvolvimento tecnológico ampliou extraordinariamente o acesso à informação, mas não produziu automaticamente maior sabedoria. Em muitos contextos, cresce a capacidade de comunicar sem crescer a capacidade de escutar; aumenta o poder de consumir sem aumentar a solidariedade; multiplica-se o conhecimento técnico enquanto se enfraquece a sensibilidade diante do sofrimento humano. O Evangelho recorda que a verdadeira sabedoria continua sendo dom acolhido por corações humildes.

Os pequenos de hoje possuem muitos rostos. São as famílias que enfrentam a insegurança alimentar, os idosos abandonados, as crianças privadas de educação de qualidade, os trabalhadores explorados, os desempregados, os migrantes obrigados a deixar sua terra, os povos indígenas ameaçados, as vítimas do racismo, da violência contra a mulher, do tráfico humano, da dependência química, da guerra e da destruição ambiental. Também são aqueles que, mesmo cercados de conforto material, experimentam o vazio existencial, a depressão, a ansiedade e a perda do sentido da vida. A todos eles Cristo continua dirigindo o olhar misericordioso do Pai..A contemplação de Mateus 11,25-27 conduz inevitavelmente ao trecho seguinte, no qual Jesus convida: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Não se trata de um descanso alienante que afasta da realidade, mas da paz que fortalece para continuar construindo o Reino. O discípulo encontra repouso precisamente porque aprende a carregar o jugo de Cristo, que é o jugo do amor, da justiça, da misericórdia e da solidariedade. O Reino não elimina as cruzes da história, mas transforma sua lógica ao fazer da entrega o caminho da verdadeira liberdade.

Assim, a oração de Jesus permanece como uma das mais luminosas páginas do Evangelho. Nela contemplamos o coração do Filho voltado para o Pai e descobrimos que o Reino de Deus continua sendo revelado onde o orgulho humano raramente ousa procurar. A verdadeira inteligência da fé não nasce da acumulação de conceitos, da erudição religiosa ou da repetição de fórmulas, mas do encontro vivo e transformador com Cristo. Como recorda São Paulo, "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2Cor 3,6). O apóstolo não despreza a Palavra escrita nem a Lei, mas denuncia toda interpretação que reduz a fé a um legalismo estéril, incapaz de gerar vida, misericórdia e conversão. A Escritura somente alcança sua plenitude quando é lida à luz do Espírito Santo, que conduz a Igreja à verdade plena (Jo 16,13) e conforma os discípulos ao coração de Cristo. A autêntica sabedoria floresce quando a razão se deixa iluminar pela graça, quando o conhecimento se transforma em serviço, quando a autoridade renuncia ao domínio para tornar-se cuidado, quando a religião deixa de ser instrumento de poder para tornar-se sinal da misericórdia de Deus, e quando a Igreja, fiel ao Evangelho e à sua tradição viva, caminha ao lado dos pequenos, dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos da história. Somente uma comunidade que aprende a ajoelhar-se diante de Deus e a inclinar-se diante dos irmãos pode anunciar com credibilidade a Boa Nova do Reino.

Quem aprende a olhar o mundo com os olhos do Filho descobre que Deus continua agindo discretamente na história. O Reino cresce como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29), como o fermento escondido na massa (Mt 13,33), como o grão de mostarda que, embora pequeno, torna-se árvore capaz de acolher as aves do céu (Mt 13,31-32). Sua força não reside no espetáculo do poder, mas na fecundidade silenciosa do amor que transforma pessoas, comunidades e sociedades..Diante de um mundo marcado pela desigualdade, pela violência, pela manipulação da fé, pela idolatria do poder e pela perda do sentido da vida, o Evangelho continua convocando homens e mulheres à conversão do coração. Tornar-se pequeno diante de Deus não significa diminuir a dignidade humana, mas reconhecer que toda grandeza autêntica nasce da graça, da humildade e do serviço. É nesse caminho que o Pai continua revelando seu coração aos que se deixam conduzir pelo Filho. E é nesse encontro que a Igreja reencontra continuamente sua identidade, sua missão e sua esperança: anunciar, com palavras e obras, que o amor misericordioso de Deus permanece mais forte que toda injustiça, que a verdade é mais poderosa que a mentira, que a vida vence a morte e que Cristo continua sendo, ontem, hoje e para sempre, a Sabedoria eterna que ilumina, liberta e vivifica toda a humanidade (Hb 13,8).



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Comunhão Ferida, Misericórdia Viva

  • Quando a Igreja Corrige para Curar

A excomunhão constitui um dos temas mais delicados e, ao mesmo tempo, mais mal compreendidos da tradição cristã. Para compreendê-la corretamente é indispensável partir da Sagrada Escritura, pois toda disciplina eclesial nasce do Evangelho e está subordinada à missão salvífica da Igreja. A comunidade cristã escuta, entre outros textos, as palavras de Jesus em Mateus 18,15-18, onde é apresentado um caminho gradual de correção fraterna que culmina, somente quando todos os esforços de reconciliação fracassam, na exclusão da comunhão visível. O mesmo horizonte aparece em 1 Coríntios 5,1-13, quando Paulo trata de uma grave situação na comunidade de Corinto, e em 2 Tessalonicenses 3,6-15, onde o apóstolo recomenda o afastamento disciplinar sem deixar de reconhecer o outro como irmão. Em João 20,22-23, Cristo ressuscitado confia à Igreja o ministério da reconciliação, mostrando que toda disciplina eclesial deve conduzir ao perdão e não à condenação definitiva.

Na tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, a excomunhão é disciplinada pelo Código de Direito Canônico de 1983 e compreendida como uma pena medicinal. As Igrejas Católicas Orientais possuem disciplina correspondente no Código dos Cânones das Igrejas Orientais. As Igrejas Ortodoxas históricas conhecem institutos semelhantes de exclusão temporária da comunhão sacramental, ainda que estruturados segundo sua própria tradição canônica. Também algumas Igrejas oriundas da Reforma preservam mecanismos disciplinares para proteger a comunhão e a integridade da fé. Em todas essas tradições históricas permanece uma convicção comum: a comunhão eclesial possui dimensão espiritual, sacramental e comunitária, e sua ruptura jamais deve ser banalizada.

A palavra "excomunhão" deriva do latim excommunicatio, significando exclusão da comunhão visível da Igreja. Contudo, reduzir esse instituto jurídico a uma simples expulsão,  decretada por um pároco  ou  conselho paróquial  seria ignorar sua natureza profundamente teológica. O Direito Canônico nunca compreendeu a pena como vingança institucional. Sua finalidade está claramente expressa no cânon 1311, que reconhece o direito próprio da Igreja de coagir os fiéis mediante sanções penais quando necessário para a tutela do bem comum e da disciplina eclesiástica. Mais decisivo ainda é o cânon 1312, §1, n. 1, que classifica a excomunhão entre as censuras, isto é, penas essencialmente voltadas para provocar o arrependimento e favorecer a reconciliação. Esse princípio alcança seu ápice no cânon 1752, a última norma do Código de Direito Canônico, segundo a qual "a salvação das almas deve ser sempre a lei suprema da Igreja". Não existe interpretação legítima da excomunhão que ignore essa finalidade. 

  • A pena canônica jamais pode transformar-se em instrumento de vingança, perseguição ideológica ou disputa política.

O Evangelho  de Mateus 18   revela uma progressão pedagógica. Jesus não inicia pela punição, mas pelo diálogo pessoal. Em seguida, propõe a presença de uma ou duas testemunhas, conforme a tradição de Deuteronômio 19,15, depois envolve a comunidade e somente ao final admite o afastamento daquele que recusa obstinadamente toda possibilidade de conversão.

  •  A exclusão aparece como último recurso depois do fracasso de todos os caminhos da reconciliação. 

A ordem narrativa é significativa: primeiro a misericórdia, depois a correção; primeiro o encontro, depois a disciplina; 

  • primeiro o esforço de recuperar o irmão, jamais o desejo de eliminá-lo. A autoridade confiada aos apóstolos para "ligar e desligar" (Mt 18,18) não representa um poder arbitrário, mas um serviço de discernimento exercido em nome de Cristo para conservar a unidade da Igreja.

O contexto histórico do judaísmo do século I ajuda a compreender essa linguagem. Diversas comunidades judaicas possuíam formas de exclusão temporária dos membros que rompiam gravemente a vida comunitária. A comunidade de Qumran previa sanções proporcionais às faltas cometidas. As sinagogas conheciam medidas disciplinares destinadas a preservar a identidade religiosa do povo. Entretanto, Jesus transforma profundamente essa prática. Sua preocupação nunca é simplesmente afastar o pecador, mas recuperar a ovelha perdida, como demonstra a parábola imediatamente anterior (Mt 18,12-14). A disciplina somente possui legitimidade quando está subordinada à misericórdia.

Paulo desenvolve perspectiva semelhante em 1 Coríntios 5. A comunidade vivia uma situação de escândalo público que comprometia seu testemunho diante do mundo pagão. O apóstolo recomenda uma medida disciplinar severa, mas sua intenção não é destruir a pessoa, e sim levá-la ao arrependimento. Em 2 Coríntios 2,5-11, Paulo exorta a comunidade a acolher novamente aquele que demonstrou conversão, para que não seja vencido pelo excesso de tristeza. A disciplina desemboca novamente no perdão, revelando que a finalidade última da sanção nunca é a exclusão definitiva, mas a restauração da comunhão.

O ser humano como essencialmente relacional. O pecado rompe relações com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com toda a criação. A excomunhão não cria essa ruptura espiritual; ela torna juridicamente visível uma ruptura objetiva já existente entre determinados comportamentos e a comunhão da Igreja. Por isso, a pena não é uma condenação eterna, mas um chamado dramático à conversão.

A exclusão constitui uma das experiências humanas mais dolorosas. O pertencimento é necessidade fundamental da pessoa. Uma comunidade religiosa exerce profundo impacto na identidade, na memória e na esperança de seus membros. Justamente por isso o Direito Canônico cerca a aplicação das penas de inúmeras garantias jurídicas. A Igreja sabe que uma sanção injusta pode provocar sofrimento espiritual, perda da confiança, culpa patológica e afastamento definitivo da vida de fé. A justiça canônica procura, portanto, harmonizar verdade, prudência e misericórdia. Nenhuma comunidade sobrevive sem normas. A comunhão exige responsabilidades recíprocas. Contudo, sempre existe o risco de que a disciplina seja utilizada para proteger interesses de poder em vez da verdade do Evangelho. 

A história registra momentos em que a excomunhão foi instrumentalizada em disputas entre reis, imperadores, papas, bispos e governantes. Também houve casos em que autoridades eclesiásticas utilizaram indevidamente mecanismos disciplinares para silenciar vozes proféticas ou preservar privilégios institucionais. Essas deformações jamais anulam a legitimidade do instituto, mas recordam que toda autoridade na Igreja permanece submetida ao julgamento da Palavra de Deus.

É precisamente por isso que o Código de Direito Canônico estabelece um processo rigoroso antes da imposição de uma pena. Diferentemente do imaginário popular, ninguém é excomungado simplesmente porque um bispo ou um sacerdote assim o deseja. O Livro VI do Código, reformado pela Constituição Apostólica Pascite Gregem Dei, promulgada pelo Papa Francisco em 2021, determina que a autoridade eclesiástica deve agir sempre segundo a justiça, respeitando os direitos da pessoa e buscando prioritariamente a correção do infrator.

Quando chega ao conhecimento do Ordinário  normalmente o bispo diocesano ou outra autoridade competente  a notícia de um possível delito canônico, aplica-se:

  •  Inicialmente o cânon 1717, que determina a realização de uma investigação prévia. Essa investigação não constitui ainda um julgamento. Seu objetivo consiste em verificar se existem indícios suficientes de que um delito realmente ocorreu, quem o praticou, quais circunstâncias o envolveram e qual dano produziu à comunhão eclesial. Durante essa fase, devem ser preservados tanto o bem da Igreja quanto a boa fama da pessoa investigada. O Direito Canônico reconhece que acusações infundadas podem destruir reputações e causar graves injustiças. Por isso, nenhuma sanção pode nascer de boatos, interesses políticos ou simples pressões sociais.
  • Confirmada a existência de fundamentos suficientes, a autoridade eclesiástica procura, sempre que possível, corrigir pastoralmente o infrator antes da aplicação da pena. Advertências, admoestações, diálogo pessoal, correção fraterna e convite ao arrependimento fazem parte da tradição jurídica e espiritual da Igreja. O próprio Cristo estabeleceu esse método em Mateus 18. A pena somente se justifica quando os meios pastorais se revelam insuficientes para restaurar a comunhão.
  • Persistindo a situação, poderá ser instaurado um processo penal canônico. Esse processo pode assumir forma judicial, perante um tribunal eclesiástico, ou administrativa, mediante decreto do Ordinário competente, conforme previsto pelo Direito. Em ambos os casos, o acusado possui direito de conhecer as acusações, apresentar provas, produzir defesa, ser assistido por advogado canônico e recorrer das decisões, expressando um princípio fundamental da justiça: ninguém pode ser legitimamente condenado sem oportunidade de defesa.

A excomunhão ainda  pode surgir de duas maneiras distintas: 

  • A primeira é denominada latae sententiae. Trata-se da pena que decorre automaticamente da própria lei quando são preenchidos todos os requisitos jurídicos e morais previstos pelo Código. Contudo, "automática" não significa "mecânica". Para que alguém incorra validamente nessa pena, exige-se plena imputabilidade, consciência da gravidade do ato, liberdade suficiente e ausência das causas excludentes previstas pelos cânones 1323 e 1324.
  • A segunda modalidade recebe o nome de ferendae sententiae. Nesse caso, a pena somente existe após sentença judicial ou decreto administrativo legítimo da autoridade competente. Não basta a existência do delito; é indispensável a manifestação formal da autoridade eclesiástica ( o excomungado  recebe um documento  comunicando  a excomunhão, e sua fundamentação)

A distinção entre essas duas modalidades de pena é decisiva para evitar equívocos. Muitas pessoas imaginam que toda excomunhão depende de uma declaração pública do Papa ou de um bispo. Na realidade, quando a lei prevê uma pena latae sententiae (condenação ipso facto/ literalmente "de sentença proferida), a autoridade eclesiástica pode apenas reconhecer oficialmente que ela já foi incorrida, desde que estejam presentes todos os requisitos exigidos pelo Direito. Em contrapartida, nas penas ferendae sententiae (que necessita de sentença), a excomunhão somente passa a existir juridicamente após o término do devido processo e a promulgação da sentença ou do decreto. Em ambos os casos, a Igreja procura evitar arbitrariedades, garantindo que a verdade dos fatos seja cuidadosamente apurada e que os direitos fundamentais do fiel sejam respeitados.

Essa preocupação manifesta uma convicção profundamente evangélica: ninguém pode ser condenado sem justiça. O próprio Cristo, embora conhecesse os corações, dialogava, interrogava e oferecia oportunidades de conversão antes de pronunciar qualquer juízo. O Direito Canônico traduz essa pedagogia em procedimentos concretos, procurando harmonizar justiça, misericórdia e prudência.

Também é necessário compreender quem possui autoridade para impor ou declarar uma excomunhão: 

  • A autoridade suprema na Igreja é o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, conforme ensinam Mateus 16,18-19, Lucas 22,31-32 e João 21,15-17. Em virtude do primado petrino, o Papa possui plena, suprema, imediata e universal potestade sobre toda a Igreja, conforme afirmam a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 22, e os cânones 331 a 333 do Código de Direito Canônico. Consequentemente, pode impor, declarar, remitir ou reservar penas canônicas conforme sua autoridade apostólica.

Todavia, o Papa não exerce sozinho toda a atividade disciplinar da Igreja. A Cúria Romana, por meio dos diversos Dicastérios, age em seu nome e por sua autoridade. Em matérias relativas à doutrina da fé, aos delitos mais graves e às questões que atingem diretamente a comunhão eclesial universal, compete especialmente ao Dicastério para a Doutrina da Fé instruir processos e propor decisões ao Romano Pontífice ou agir dentro das competências que lhe foram conferidas.

  • Os bispos diocesanos possuem autoridade penal em suas Igrejas particulares. Como pastores próprios da diocese confiada aos seus cuidados, podem instaurar investigações, abrir processos penais, aplicar determinadas penas e declarar sanções previstas pelo Direito, sempre dentro dos limites estabelecidos pela legislação universal da Igreja.

Em determinadas matérias, porém, o próprio Código reserva a competência exclusivamente à Sé Apostólica. Isso significa que o bispo não pode agir por conta própria quando a lei determina que somente o Papa ou um Dicastério competente pode absolver, remitir ou declarar determinada pena.

Os tribunais eclesiásticos igualmente exercem importante função na aplicação da justiça penal. Compostos por juízes canônicos, promotores de justiça e demais oficiais previstos pelo Direito, garantem que os processos sejam conduzidos segundo critérios jurídicos objetivos e não apenas segundo apreciações subjetivas da autoridade. O Direito Canônico, assim como os modernos sistemas jurídicos, reconhece o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao recurso.

É igualmente importante esclarecer quem não pode excomungar. Nenhum sacerdote, por iniciativa própria, pode declarar alguém excomungado apenas porque considera sua conduta grave ou escandalosa. Tampouco movimentos eclesiais, associações privadas, superiores religiosos, pregadores ou lideranças leigas possuem autoridade para impor sanções canônicas fora das competências expressamente previstas pela legislação da Igreja. A disciplina penal pertence ao exercício legítimo da autoridade eclesiástica e deve obedecer estritamente ao Direito.

O próprio Código estabelece ainda diversas circunstâncias que impedem a aplicação da pena. Os cânones 1323 e 1324 constituem verdadeira proteção jurídica da dignidade humana. 

  • Não incorre automaticamente em pena quem agiu sem pleno uso da razão, sob violência física, medo grave, ignorância não culpável da pena, legítima defesa ou outras circunstâncias previstas pela lei. Mesmo quando o delito existe objetivamente, a responsabilidade subjetiva pode ser diminuída ou até excluída.
 Essa distinção revela a profunda influência da teologia moral católica, segundo a qual a culpabilidade depende não apenas do ato exterior, mas também da liberdade e da consciência da pessoa.

Uma vez aplicada ou declarada a excomunhão, surgem seus efeitos jurídicos, descritos principalmente no cânon 1331. O excomungado não pode celebrar validamente determinados atos litúrgicos que pressupõem plena comunhão eclesial, nem receber os sacramentos, exceto nos casos previstos pelo próprio Direito, sobretudo em perigo de morte. Também lhe é vedado exercer ministérios litúrgicos, desempenhar determinados ofícios eclesiásticos e participar do governo da Igreja nos limites definidos pela legislação canônica. Contudo, permanece membro batizado da Igreja. O Batismo imprime caráter espiritual permanente e não pode ser apagado por nenhuma pena canônica. A excomunhão rompe a comunhão jurídica e sacramental, mas não elimina a vocação fundamental da pessoa à salvação.

Essa compreensão ajuda a desfazer outro equívoco bastante difundido:

  •  A excomunhão não significa que Deus tenha abandonado a pessoa nem que sua condenação eterna esteja decretada. 

A Igreja não tem autoridade  ou pretende antecipar o juízo divino. Pelo contrário, a pena medicinal procura despertar a consciência para que o pecador reconheça a gravidade da ruptura e retorne livremente à plena comunhão.

Por isso, o Código dedica especial atenção à remissão da excomunhão. Os cânones 1354 a 1358 regulam cuidadosamente esse processo. A remissão pressupõe, ordinariamente, o arrependimento sincero do fiel, a cessação da contumácia, isto é, da obstinação em permanecer na situação de ruptura, e o desejo concreto de restabelecer a comunhão com a Igreja. Uma vez desaparecida a causa da censura, a autoridade competente pode levantar a pena.

Nem todas as excomunhões, porém, são remetidas pela mesma autoridade. Algumas são reservadas exclusivamente à Sé Apostólica, dada sua gravidade ou sua relação direta com a unidade da Igreja universal. Outras podem ser remitidas pelo bispo diocesano. Em determinadas circunstâncias, sacerdotes que receberam faculdade específica também podem absolver censuras canônicas, especialmente no sacramento da Reconciliação. Em perigo de morte, qualquer sacerdote, mesmo privado ordinariamente dessa faculdade, pode absolver validamente o penitente de toda censura, conforme prevê o Direito, manifestando que a misericórdia de Deus prevalece diante da iminência da morte. Toda essa arquitetura jurídica demonstra que a Igreja não compreende a excomunhão como fim em si mesma. A finalidade nunca é excluir, mas reconciliar. A disciplina canônica somente alcança seu objetivo quando conduz novamente à comunhão sacramental, à profissão íntegra da fé e à participação plena na vida e na missão da Igreja.

A  tradição patrística desenvolveu essa compreensão:

  • Santo Inácio de Antioquia insistia que a comunhão com o bispo era sinal da comunhão com Cristo.
  •  Santo Irineu de Lião via na Igreja de Roma um ponto de referência para a preservação da fé apostólica. 
  • Santo Agostinho compreendia a unidade da Igreja como dom do Espírito Santo, advertindo que a ruptura da comunhão fere o próprio Corpo de Cristo.
Esses testemunhos mostram que a unidade eclesial sempre ocupou lugar central na consciência da Igreja antiga, muito antes do desenvolvimento do atual Direito Canônico.

Ao mesmo tempo, a tradição cristã também reconhece que a autoridade deve ser exercida segundo o Evangelho. Jesus adverte os apóstolos: "Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim" (Mt 20,25-28). O Direito Canônico incorpora esse princípio ao exigir que toda pena seja aplicada com prudência, proporcionalidade e finalidade pastoral. A autoridade eclesiástica não pode utilizar a excomunhão como instrumento de perseguição ideológica, de eliminação de adversários ou de preservação de interesses institucionais. Sempre que isso ocorreu ao longo da história, a própria Igreja reconheceu a necessidade de purificação e reforma.

A história eclesiástica oferece numerosos exemplos das tensões que acompanharam a aplicação da excomunhão ao longo dos séculos. Em diferentes épocas, ela esteve ligada às delicadas relações entre o poder espiritual e o poder temporal, às controvérsias doutrinais dos primeiros concílios, ao Grande Cisma do Oriente, às disputas medievais entre papas e imperadores e às rupturas provocadas pela Reforma do século XVI. Nenhum desses acontecimentos pode ser reduzido a um simples ato de desobediência individual. Em todos eles, fatores políticos, culturais, linguísticos, econômicos e sociais entrelaçaram-se às questões teológicas, revelando a complexidade da história da Igreja. A hermenêutica contemporânea convida a compreender esses episódios sem simplificações, reconhecendo tanto as limitações humanas quanto a permanente ação do Espírito Santo na condução do povo de Deus. Essa perspectiva permite compreender que a excomunhão jamais foi concebida como uma sentença destinada a tornar impossível a reconciliação. No ordenamento atual da Igreja, ela é definida como uma censura medicinal (cân. 1331), orientada não à punição retributiva, mas à correção e à restauração da comunhão eclesial. O sistema penal canônico, estruturado nos cânones 1311-1312, estabelece que a finalidade da pena na Igreja é a tutela da comunhão, a reparação do escândalo e a conversão do fiel. Nesse horizonte, a excomunhão permanece intrinsecamente ordenada à reconciliação.

Desde os primeiros séculos do cristianismo, a disciplina canônica procurou harmonizar dois valores inseparáveis: 

  1. Preservação da comunhão eclesial 
  2. A permanente abertura ao arrependimento. 
Essa lógica encontra fundamento no primeiro testamento onde Deus declara não querer "a morte do pecador, mas que ele se converta e viva" (Ez 33,11), e se expressa de modo paradigmático na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), na qual a iniciativa da reconciliação precede qualquer mérito humano. Ao longo da história, tanto a aplicação quanto a remissão das excomunhões refletiram não apenas questões jurídicas, mas também profundas transformações espirituais, eclesiológicas e pastorais. A remissão das penas canônicas é regulada atualmente pelos cânones 1354-1363, que estabelecem as condições, competências e efeitos do perdão das censuras, especialmente nos cânones 1355-1358, que tratam da autoridade competente para absolver e das situações extraordinárias, como o perigo de morte.

O exemplo mais emblemático dessa dinâmica encontra-se no . Em 1054, os legados do Papa depositaram sobre o altar da Basílica de Santa Sofia um decreto de excomunhão contra o , que respondeu com medida semelhante contra os legados pontifícios. Nesse horizonte, o conceito de cisma assume relevância teológica e eclesiológica. Derivado do grego schisma, o termo indica divisão ou ruptura. No Novo Testamento, São Paulo já advertia contra divisões internas nas comunidades cristãs: “Rogo-vos, irmãos, que não haja divisões entre vós” (1Cor 1,10). No desenvolvimento posterior da tradição e do direito eclesial, o cisma passou a designar a recusa da comunhão com o Romano Pontífice ou com os membros da Igreja a ele unidos, conforme definição do cânon 751.  Enquanto a sanção correspondente está prevista no cân. 1364 §1, que estabelece a excomunhão para o delito de cisma. Contudo, tais normas são posteriores ao evento histórico e servem aqui como referência interpretativa do direito vigente, não como fundamento jurídico da época. Embora esses acontecimentos tenham adquirido enorme força simbólica, a separação entre Oriente e Ocidente resultou de um longo processo de distanciamento, alimentado por diferenças culturais, linguísticas, litúrgicas, políticas e teológicas acumuladas ao longo de séculos.

Somente em 1965 ocorreu um gesto de extraordinário significado histórico, quando e o assinaram uma declaração conjunta retirando da memória da Igreja as mútuas excomunhões de 1054. Esse ato não restaurou imediatamente a plena comunhão sacramental entre católicos e ortodoxos, mas inaugurou uma nova etapa no diálogo ecumênico, mostrando que a purificação da memória histórica é condição para a reconstrução da unidade visível da Igreja. Outro episódio decisivo foi a excomunhão em 1521, após prolongadas controvérsias sobre indulgências, autoridade papal, sacramentos e outros pontos doutrinais, Lutero foi excomungado pela bula Decet Romanum Pontificem, promulgada  pelo  Papa Leão X, teve como principal objetivo excomungar formalmente Martinho Lutero.  A medida marcou juridicamente uma ruptura que já se encontrava amadurecida no plano teológico e eclesial, tornando-se um dos eventos centrais da Reforma do século XVI.

Se hoje um caso análogo ocorresse sob o regime do Código de Direito Canônico de 1983, seria enquadrado no cân. 1364 §1, que prevê a excomunhão para os delitos de heresia, apostasia ou cisma. A disciplina atual, contudo, não retroage sobre os fatos históricos nem reabre automaticamente decisões pertencentes a ordenamentos jurídicos anteriores. A excomunhão de Lutero, portanto, permanece como fato histórico situado, não como sanção em vigor sujeita a remissão nos termos dos cânones 1354-1358. Entretanto, os séculos posteriores testemunharam uma profunda transformação na abordagem dessas divisões. O inaugurou uma nova etapa do diálogo ecumênico. O decreto Unitatis Redintegratio reconheceu que numerosos elementos de santificação e de verdade subsistem nas comunidades cristãs separadas. Em 1999, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial representou um dos mais significativos avanços ecumênicos contemporâneos. Ainda que a excomunhão pessoal de Lutero nunca tenha sido formalmente revogada, o diálogo teológico evidencia que condenações históricas não impedem processos de aproximação fundados na verdade e na caridade.

Entre os episódios frequentemente mal compreendidos encontra-se o caso de  Galileu que  jamais foi excomungado. Em 1633, foi julgado pelo Santo Ofício por sustentar o heliocentrismo em condições consideradas incompatíveis com o contexto doutrinal da época. Foi condenado à abjuração e a uma pena de restrição de liberdade, posteriormente convertida em prisão domiciliar. Não incidiu, porém, qualquer censura de excomunhão, razão pela qual não se aplicam ao seu caso os cânones relativos às censuras (cân. 1331) nem os relativos à sua remissão (cânn. 1354-1363). O episódio tornou-se símbolo das tensões entre ciência, interpretação bíblica e autoridade eclesiástica. Em 1992, reconheceu, no contexto de uma reavaliação histórica, os erros cometidos na condução do processo, distinguindo os condicionamentos históricos das responsabilidades institucionais.

A experiência da Igreja antiga confirma essa mesma dinâmica. Nos primeiros séculos, delitos gravíssimos como apostasia, homicídio e adultério público podiam conduzir à exclusão temporária da comunhão sacramental, seguida de longos itinerários penitenciais. Concluído o processo e verificado o arrependimento sincero, os fiéis eram readmitidos à comunhão. Essa prática, anterior ao Código de 1983, mostra que a disciplina eclesial sempre esteve orientada à restauração, ainda que estruturada segundo os cânones disciplinares dos concílios antigos e a autoridade dos bispos. A história também revela que determinadas excomunhões foram influenciadas por contextos políticos específicos. Conflitos entre papas e imperadores, disputas entre monarquias cristãs e tensões entre autoridade espiritual e poder civil frequentemente afetaram decisões disciplinares. A análise histórica contemporânea permite distinguir entre o núcleo permanente da doutrina e os condicionamentos históricos das decisões disciplinares.

Sob essa perspectiva, a remissão das excomunhões manifesta uma verdade teológica fundamental: a justiça eclesial não se opõe à misericórdia, mas se ordena a ela. A excomunhão, como sanção medicinal, pode estabelecer uma separação jurídica temporária; sua remissão, regulada pelos cânones 1354-1363, proclama que a reconciliação permanece sempre possível enquanto houver abertura à graça. 

A memória dessas remissões recorda que a finalidade última da autoridade eclesiástica não consiste em perpetuar condenações, mas em restaurar a comunhão ferida. Em um contexto marcado por polarizações e fragmentações, essa tradição mantém sua atualidade: a verdade não dispensa a misericórdia, e a misericórdia não existe sem a verdade. Ambas encontram sua plena unidade em Jesus Cristo, "cheio de graça e de verdade" (Jo 1,14), cuja missão é reconciliar todas as coisas com Deus (Cl 1,20).

Nesse caso esbarramos  com a  situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X insere-se num dos debates mais sensíveis da disciplina eclesial contemporânea, envolvendo a relação entre autoridade, tradição e comunhão hierárquica na Igreja Católica. Do ponto de vista canônico, o ponto de inflexão ocorreu em 1988, quando Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer realizaram a consagração de quatro bispos sem mandato pontifício. À luz do Código de Direito Canônico então vigente, tal ato configurou o delito previsto no cânon 1382 (correspondente, na atual redação do Livro VI reformado por Pascite Gregem Dei, ao cânon 1383), implicando a pena de excomunhão latae sententiae. A gravidade do fato foi interpretada pela Santa Sé como uma ruptura objetiva da comunhão eclesial, enquadrada também na tipificação do cisma, conforme o cânon 1364 §1, em conexão com o cânon 751.  Na sequência, a Carta Apostólica Ecclesia Dei adflicta, promulgada por São João Paulo II, qualificou o ato como uma grave desobediência ao Romano Pontífice e reafirmou sua dimensão eclesiologicamente cismática. O núcleo da questão não se limitava a um problema disciplinar, mas dizia respeito à própria estrutura visível da comunhão católica, fundada na unidade do colégio episcopal com o sucessor de Pedro.

Em 2009, durante o pontificado de Bento XVI, as excomunhões dos quatro bispos ainda vivos foram formalmente remitidas por decreto da então Congregação para os Bispos, nos termos dos cânones 1355–1358. Esse gesto teve caráter claramente medicinal e pastoral, visando favorecer o diálogo e a recomposição da unidade. No entanto, a remissão da censura não implicou automaticamente a regularização da situação canônica da Fraternidade, que permaneceu em condição irregular, com pendências doutrinais e disciplinares não resolvidas. Esse ponto é fundamental: no direito da Igreja, a remissão de uma pena não equivale à reintegração plena na comunhão jurídica e sacramental. Trata-se de categorias distintas a primeira elimina a sanção, mas não resolve necessariamente a situação estrutural subjacente.

Em pleno 2026 a Fraternidade Sacerdotal São Pio X   volta a ser notícia,  colocando  em  jogo  a visibilidade da unidade eclesial como elemento constitutivo da fé católica. A comunhão não é apenas espiritual ou invisível, mas também histórica, sacramental e hierárquica. Nesse contexto, foram interpretadas as consagrações episcopais realizadas em julho de 2026 no âmbito da Fraternidade. Segundo o decreto atribuído ao Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovado pelo Romano Pontífice Leão XIV, tais atos foram qualificados como de natureza cismática, com incidência da excomunhão latae sententiae sobre consagrantes e consagrados, à luz do cânon 1364 §1 e das normas relativas à consagração episcopal sem mandato pontifício (cânon 1387, em sua articulação normativa).

A leitura apresentada pela Santa Sé sublinha que não se trata de uma penalidade arbitrária, mas da aplicação de normas já vigentes no ordenamento canônico diante de atos objetivamente configurados. O direito eclesial não cria a realidade a posteriori, mas interpreta e declara juridicamente situações já estabelecidas pelos fatos. É importante evitar, nesse ponto, uma compreensão personalista do exercício do primado. O ministério petrino não se define como poder discricionário, mas como serviço à unidade da fé e da comunhão. No Evangelho, Jesus confere a Pedro a missão de confirmar os irmãos (Lc 22,32), ao mesmo tempo em que o chama reiteradamente à conversão e ao serviço. A autoridade, nesse sentido, é inseparável da responsabilidade e da fidelidade ao depósito da fé. A controvérsia envolvendo a Fraternidade está ligada a questões mais amplas: a recepção do Concílio Vaticano II, a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o ecumenismo e a compreensão da relação entre Tradição e Magistério vivo. Contudo, do ponto de vista católico, nenhuma divergência doutrinal autoriza a constituição de uma sucessão episcopal paralela ou a ruptura da comunhão hierárquica. A tradição eclesial sustenta que a própria fidelidade à Tradição está intrinsecamente vinculada à comunhão com o colégio episcopal unido ao sucessor de Pedro. Assim, a unidade visível da Igreja não é um elemento secundário, mas dimensão essencial de sua identidade teológica e histórica.

Vivemos numa sociedade marcada pela fragmentação das relações, pela polarização política, pelo crescimento de discursos extremistas e pela dificuldade de construir consensos. Esse ambiente cultural também penetra as comunidades religiosas. Em diferentes partes do mundo, grupos procuram identificar o Evangelho com projetos ideológicos, sejam eles de extrema direita, de extrema esquerda, nacionalistas, clericalistas ou de qualquer outra natureza. Quando a fé passa a servir como instrumento de poder, deixa de apontar para Cristo e passa a girar em torno dos interesses humanos. A Igreja é chamada continuamente a discernir esse risco, recordando que sua missão não consiste em legitimar projetos de dominação, mas anunciar o Reino de Deus inaugurado por Jesus de Nazaré. Nesse horizonte, a excomunhão jamais pode ser compreendida como vitória de um grupo sobre outro. Ela constitui sempre um fracasso da comunhão, uma ferida aberta no Corpo de Cristo e um apelo dramático à conversão. Quando a Igreja chega ao ponto de aplicar ou declarar essa pena, isso significa que todos os caminhos ordinários de diálogo, correção fraterna e reconciliação mostraram-se insuficientes. Ainda assim, a esperança permanece aberta, porque o objetivo último da disciplina canônica continua sendo restaurar aquilo que foi rompido, nunca tornar definitiva a separação. Assim como o pai da parábola do filho pródigo permaneceu esperando o retorno do filho (Lc 15,11-32), a Igreja continua aguardando o dia em que toda ruptura possa ser curada pela verdade, pela justiça, pela humildade e pela misericórdia de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano