sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,21-28

A perícope de Mateus 15,21-28, que narra o encontro de Jesus com a mulher cananeia, ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. No Lecionário Romano, essa passagem é proclamada na quarta-feira da 18ª Semana do Tempo Comum e a  sua íntegra, no 20º Domingo  Tempo Comum do Ano A. A tradição paralela conservada em Marcos 7,24-30 é proclamada na quinta-feira da 5ª Semana do Tempo Comum.  Além dessas celebrações, o texto inspira frequentemente retiros, encontros missionários, catequeses e momentos de formação cristã dedicados à universalidade da salvação, à fé perseverante e à missão da Igreja junto aos povos. Nas Igrejas Ortodoxas, embora o ordenamento das leituras siga tradições litúrgicas próprias, essa narrativa permanece presente no ciclo de proclamação dos Evangelhos de Mateus e Marcos como expressão da abertura do Reino de Deus a todas as nações. Também as Igrejas Anglicana, Luterana, Metodista e Reformada, por meio do Lecionário Comum Revisado, acolhem essa passagem em alguns domingos após Pentecostes. A permanência desse texto nas diversas tradições cristãs revela que ele toca uma das questões fundamentais da fé bíblica: como Deus atravessa as fronteiras construídas pelos seres humanos para manifestar sua misericórdia universal.   O encontro entre Jesus e a mulher cananeia não é apenas uma narrativa sobre uma cura milagrosa. Trata-se de uma revelação profunda sobre a identidade de Deus, sobre a missão de Cristo e sobre a transformação necessária da própria comunidade religiosa. A mulher estrangeira, considerada distante da aliança de Israel, torna-se aquela que manifesta uma fé capaz de surpreender os discípulos e provocar uma mudança de compreensão sobre o alcance do Reino. Ela aparece como testemunha de que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras étnicas, culturais, religiosas ou sociais. Sua presença no Evangelho denuncia toda tentativa humana de controlar a graça e revela que a misericórdia divina sempre ultrapassa os limites que estabelecemos.  

O episódio encontra-se imediatamente após um dos confrontos mais decisivos entre Jesus e os fariseus. Em Mateus 15,1-20, os mestres da Lei questionam os discípulos por não seguirem determinadas tradições de purificação ritual antes das refeições. A resposta de Jesus é profundamente profética. Ele não rejeita a tradição enquanto expressão da fé de Israel, mas denuncia quando ela se transforma em instrumento de superioridade religiosa e deixa de conduzir ao amor de Deus e ao cuidado com o próximo. Citando Isaías 29,13, afirma: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim". O problema não está nos ritos exteriores, mas na distância entre a prática religiosa e a transformação interior. Jesus revela que a verdadeira impureza não vem de fora para dentro, mas nasce do coração humano, onde podem surgir homicídios, injustiças, adultérios, mentiras e toda forma de maldade.  

Essa sequência narrativa possui grande importância teológica. Depois de denunciar uma religião preocupada apenas com pureza externa, Jesus dirige-se justamente para uma região considerada impura pelos setores religiosos de Israel. A mudança geográfica é também uma mudança simbólica. Jesus atravessa uma fronteira que muitos religiosos preferiam manter fechada. O caminho para Tiro e Sidônia representa o movimento do próprio Deus em direção à humanidade excluída. O Reino anunciado por Jesus não se limita aos espaços considerados sagrados pelos homens, porque a presença de Deus não depende das barreiras construídas pelas sociedades humanas.  As regiões de Tiro e Sidônia, cidades fenícias localizadas ao norte da Galileia, próximas ao Mar Mediterrâneo. Eram centros comerciais importantes, marcados pela circulação de povos, mercadorias, culturas e religiões. O mundo mediterrâneo antigo era profundamente plural, mas também marcado por intensas divisões sociais e religiosas. A identidade de um povo estava frequentemente ligada à separação entre aqueles que pertenciam ao grupo e aqueles considerados estrangeiros.  

As duas cidades  carregavam uma história complexa. Sidônia foi a origem de Jezabel, esposa do rei Acab, cuja influência fortaleceu o culto a Baal em Israel, provocando uma grave crise religiosa narrada em 1 Reis 16-21. Entretanto, a relação entre Israel e essas cidades nunca foi apenas de oposição. Hirão, rei de Tiro, colaborou com Davi e Salomão na construção do Templo de Jerusalém, conforme 2 Samuel 5,11 e 1 Reis 5. Os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Amós denunciaram a arrogância, a exploração econômica e o orgulho dessas cidades, especialmente quando a riqueza produzia injustiça e desprezo pelos pequenos.  

Portanto, quando Jesus entra nesse território, ele não está simplesmente visitando uma região estrangeira. Ele está entrando em um espaço carregado de memórias, conflitos e preconceitos. Seu gesto revela que o Reino de Deus não pode ser reduzido às fronteiras religiosas de um grupo. O Deus de Israel continua fiel à sua aliança, mas essa fidelidade sempre teve uma dimensão universal. Desde Abraão, a promessa era que todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12,3).  

Mateus identifica a personagem como uma "mulher cananeia". Marcos, ao narrar o mesmo acontecimento, utiliza outra expressão: "uma mulher grega, siro-fenícia de nascimento" (Mc 7,26). Essa diferença é importante para compreender a intenção de cada evangelista. 

  • Marcos escreve para comunidades com forte presença de cristãos vindos do mundo gentílico e destaca sua origem cultural.
  •  Mateus, porém, recupera conscientemente o termo "cananeia", uma palavra carregada de memória histórica. No Antigo Testamento, os cananeus representavam os povos que habitavam a terra antes da formação de Israel e eram frequentemente associados aos inimigos da aliança.  

Ao utilizar essa expressão, Mateus cria um contraste teológico profundo. Aquela que simboliza alguém considerado distante das promessas torna-se exemplo de fé para aqueles que deveriam reconhecer primeiro o Messias. O evangelista não pretende reforçar preconceitos contra os estrangeiros. Pelo contrário, deseja mostrar que a graça de Deus alcança justamente aqueles que os sistemas humanos costumam colocar à margem. A mulher cananeia representa todos aqueles que, ao longo da história, foram considerados indignos, impuros ou incapazes de participar plenamente da vida religiosa.  

Ela aproxima-se de Jesus clamando: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está horrivelmente atormentada por um demônio" (Mt 15,22). Suas palavras são uma profunda profissão de fé. Ela chama Jesus de Senhor, reconhecendo sua autoridade. Chama-o de Filho de Davi, reconhecendo nele o Messias esperado por Israel. É significativo que uma estrangeira perceba aquilo que muitos membros do povo escolhido ainda não haviam compreendido.   Sua oração começa com um pedido de misericórdia. Ela não apresenta méritos, não reivindica privilégios, não exige reconhecimento. Ela simplesmente confia na compaixão de Jesus. Essa atitude está no centro de toda espiritualidade bíblica. Deus revela seu próprio nome a Moisés dizendo: "O Senhor, Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor" (Ex 34,6). Os Salmos repetem constantemente que a misericórdia do Senhor permanece para sempre. O profeta Oseias anuncia que Deus deseja misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará em Mateus 9,13 e 12,7.  

A mulher cananeia compreende algo essencial: antes de qualquer estrutura religiosa, existe o coração misericordioso de Deus. A relação com o Senhor não nasce do orgulho de quem se considera merecedor, mas da humildade de quem reconhece sua necessidade de graça.   Sua filha está "atormentada por um demônio". No contexto bíblico, essa linguagem expressa a realidade do mal que aprisiona e desumaniza. Os Evangelhos apresentam as libertações realizadas por Jesus como sinais da chegada do Reino, pois o Filho de Deus veio destruir as obras do mal (1Jo 3,8). A ação demoníaca simboliza tudo aquilo que rompe a comunhão, destrói a dignidade e impede a pessoa de viver plenamente sua vocação humana.  

Essa dimensão continua profundamente atual. Hoje as forças que desumanizam aparecem em diferentes formas: violência, fome, exploração, racismo, guerras, dependências que escravizam, discursos de ódio, manipulações políticas, desigualdades estruturais e todas as situações em que seres humanos deixam de ser reconhecidos como filhos e filhas de Deus. A libertação trazida por Cristo não é apenas interior. Ela alcança a pessoa inteira e suas relações sociais.  A  reação inicial de Jesus diante do clamor da mulher causa estranhamento: "Ele, porém, não lhe respondeu palavra alguma" (Mt 15,23). Esse silêncio de Cristo constitui uma das experiências mais profundas da espiritualidade bíblica. A Sagrada Escritura conhece o sofrimento daqueles que buscam Deus e não encontram imediatamente uma resposta. Jó atravessa a dor perguntando por que Deus permanece em silêncio diante de sua angústia. Muitos salmos transformam essa experiência em oração: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Sl 22,2). Os profetas também conhecem o tempo da espera e da aparente ausência divina. O próprio Jesus, na cruz, assumirá esse clamor humano ao rezar o Salmo 22.  

O silêncio de Deus não significa ausência ou rejeição. Muitas vezes ele revela um processo de amadurecimento da fé. Existe uma diferença entre uma fé baseada apenas em respostas imediatas e uma fé que permanece mesmo quando atravessa a escuridão. A psicologia da experiência religiosa mostra que os momentos de crise, dúvida e silêncio podem se tornar espaços de crescimento espiritual, nos quais a pessoa abandona uma relação infantil com Deus e aprende a confiar profundamente em sua presença.   Os discípulos, porém, revelam uma dificuldade diferente. Eles não parecem preocupados com a dor daquela mãe, mas com o incômodo provocado pelo seu grito. "Despede-a, pois vem gritando atrás de nós" (Mt 15,23). Essa atitude revela uma tentação permanente das comunidades religiosas: transformar aqueles que sofrem em um problema a ser afastado, em vez de reconhecê-los como presença que interpela a própria fé.   O Evangelista escreve essa narrativa também para sua própria comunidade. A Igreja nascente precisava compreender que a missão de Jesus não poderia ficar limitada a um grupo étnico ou cultural. Os discípulos ainda carregavam antigas fronteiras de pensamento. Eles precisavam aprender que seguir Cristo significa aproximar-se daqueles que a sociedade considera distantes.  

A Bíblia inteira apresenta Deus como aquele que escuta o clamor dos pequenos. No Êxodo, Deus afirma: "Eu ouvi o clamor do meu povo no Egito" (Ex 3,7). Os profetas denunciam constantemente a indiferença diante do sofrimento humano. Isaías afirma que o verdadeiro culto consiste em defender o direito do oprimido, fazer justiça ao órfão e proteger a causa da viúva (Is 1,17). Amós denuncia uma religião que celebra festas e sacrifícios enquanto pratica injustiça: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24).  A mulher cananeia coloca a comunidade cristã diante de uma pergunta permanente: será que ouvimos realmente o grito daqueles que sofrem ou apenas buscamos uma religião confortável, organizada e protegida das dores do mundo?  

Jesus então responde: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15,24). Essa afirmação precisa ser compreendida dentro da história da salvação. Jesus não está negando a universalidade do Reino, mas afirmando a fidelidade de Deus às promessas feitas a Israel. O Messias nasce dentro de uma história concreta, de um povo concreto, de uma tradição concreta.   A eleição de Israel nunca foi um privilégio fechado, mas uma missão. Deus chama Abraão para que nele sejam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12,3). O profeta Isaías anuncia que o servo do Senhor será "luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra" (Is 49,6). O projeto de Deus sempre apontou para a humanidade inteira.  

O Evangelho de Mateus desenvolve progressivamente essa abertura. Após o episódio da mulher cananeia, Jesus realiza uma multiplicação dos pães em território gentílico (Mt 15,32-39). Depois, Pedro faz sua profissão de fé em Cesareia de Filipe, uma região marcada pela diversidade religiosa (Mateus 16,13-20 proclamado na quinta-feira da 18ªsemanadoTempoComum). No final do Evangelho, o Ressuscitado envia os discípulos: "Ide, portanto, fazei discípulos todos os povos" (Mt 28,19).   A missão universal da Igreja nasce dessa passagem da exclusividade para a comunhão. Deus não abandona Israel, mas revela que sua promessa sempre foi maior do que qualquer fronteira humana.  

A mulher, porém, continua perseverante. Ela aproxima-se, prostra-se diante de Jesus e faz uma oração ainda mais simples: "Senhor, ajuda-me" (Mt 15,25). Toda a sua existência está concentrada nessa súplica. Ela não tem argumentos de poder, não possui posição social, não pertence ao grupo religioso dominante. Ela tem apenas a confiança de quem ama e sofre.  

A Bíblia apresenta diversas orações semelhantes:

A verdadeira oração não depende da quantidade de palavras, mas da profundidade da confiança.   A resposta seguinte de Jesus permanece uma das passagens mais difíceis dos Evangelhos: "Não é bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos" (Mt 15,26). Uma leitura superficial poderia interpretar essa frase como uma aceitação dos preconceitos contra os estrangeiros. Entretanto, essa interpretação entra em conflito com toda a mensagem de Jesus.  

O termo utilizado por Mateus no original grego possui o sentido de pequenos cães domésticos, não dos animais selvagens frequentemente desprezados no mundo antigo. Além disso, a própria narrativa mostra que Jesus conduz um processo pedagógico. O diálogo revela a mentalidade existente e conduz os discípulos a uma compreensão maior da missão messiânica.   A mulher não responde com revolta, mas com uma fé extraordinariamente inteligente: "Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos" (Mt 15,27). Ela não aceita ser excluída da misericórdia divina. Sua resposta revela que a graça de Deus não é limitada. A abundância do amor divino é tão grande que existe lugar para todos.  

A mulher compreende algo que muitas vezes esquecemos: Deus não precisa negar alguém para acolher outro. A lógica humana frequentemente funciona pela competição, pela escassez e pela exclusão. A lógica do Reino funciona pela partilha, pela comunhão e pela abundância.  Nesse momento Jesus revela a grandeza daquela fé: "Mulher, grande é a tua fé. Seja feito como queres" (Mt 15,28). É uma das maiores afirmações de reconhecimento feitas por Jesus nos Evangelhos. Em Mateus 8,5-13, ele também elogia a fé de um centurião romano, outro estrangeiro. O evangelista constrói uma profunda ironia: aqueles que estavam mais próximos da tradição religiosa nem sempre reconhecem o Messias, enquanto pessoas consideradas distantes revelam uma confiança admirável.  

A salvação não depende de origem étnica, posição social, título religioso ou proximidade institucional. Ela nasce da abertura do coração à graça de Deus.  A cura acontece à distância. Jesus não precisa tocar a menina para libertá-la. Sua palavra atravessa fronteiras geográficas, culturais e religiosas. Essa característica possui profundo significado teológico. A Palavra de Cristo não está presa a lugares, estruturas ou privilégios humanos. Ela alcança onde a necessidade humana se encontra.  

Paulo compreenderá essa realidade ao afirmar que Cristo "é a nossa paz, aquele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de separação" (Ef 2,14). A mulher cananeia torna-se antecipação da humanidade reconciliada em Cristo.   Essa abertura continuará presente na Igreja primitiva. Em Atos 10, Pedro entra na casa de Cornélio, um pagão, e precisa superar suas próprias barreiras culturais. Depois da experiência do Espírito Santo, afirma: "Reconheço de fato que Deus não faz acepção de pessoas" (At 10,34). Em Atos 15, no Concílio de Jerusalém, a comunidade cristã discerne que os povos gentios não precisam abandonar sua identidade cultural para pertencer plenamente a Cristo.  

Aquilo que Jesus realiza simbolicamente no encontro com a mulher cananeia torna-se uma decisão concreta da Igreja missionária. O Espírito Santo conduz a comunidade a compreender que o Evangelho não é propriedade de um grupo, mas dom oferecido a todos e a tradição cristã percebeu desde cedo a profundidade espiritual desse encontro. Os Padres da Igreja contemplaram na mulher cananeia uma imagem da humanidade que busca Deus para além das fronteiras estabelecidas pelos homens. 

  • Santo Agostinho via nela a figura dos povos gentios que seriam incorporados ao povo da nova aliança pela fé. 
  • São João Crisóstomo admirava especialmente sua perseverança, porque ela não abandona a esperança diante do silêncio ou das dificuldades, mas transforma cada obstáculo em oportunidade de aproximar-se ainda mais de Cristo. 
  • Orígenes interpretava sua atitude como símbolo da alma humana que, purificada pelo sofrimento, aprende a confiar plenamente na misericórdia divina.  

Essa leitura espiritual não elimina o sentido histórico do texto, mas revela sua profundidade permanente. A mulher cananeia não é apenas uma personagem do passado. Ela representa todos aqueles que, em diferentes épocas, aproximam-se de Deus carregando dores, feridas e esperanças, muitas vezes vindos de lugares considerados distantes pelas estruturas religiosas.  .A própria Igreja compreendeu nessa narrativa sua vocação missionária. 

  • A Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, afirma que a Igreja é, em Cristo, "como sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano". Essa afirmação impede uma compreensão fechada da comunidade cristã. A Igreja não existe para construir barreiras espirituais, mas para ser sinal da reconciliação oferecida por Deus.  
  • A Constituição Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias das pessoas de hoje, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A mulher cananeia ensina exatamente isso: a dor humana deve tornar-se uma questão espiritual para a comunidade de fé.  
  • A Constituição Dei Verbum, especialmente ao tratar da interpretação da Escritura, recorda que a Palavra de Deus deve ser compreendida considerando o contexto histórico, os gêneros literários e a unidade de toda a revelação. Por isso, Mateus 15 jamais pode ser usado para justificar exclusões. A direção da revelação bíblica é exatamente contrária: Deus conduz continuamente seu povo para uma compreensão mais ampla de sua misericórdia.  

Sabemoa que todas as sociedades criam fronteiras simbólicas, existem aqueles que pertencem ao grupo e aqueles que são vistos como estrangeiros. Essas fronteiras podem produzir identidade, mas também podem gerar preconceito e violência. A religião, quando perde sua centralidade em Deus, pode transformar diferenças humanas em justificativas para exclusão.  Jesus realiza o movimento oposto. Ele atravessa fronteiras,  aproxima-se dos considerados impuros, escuta quem era ignorado e  reconhece a fé onde muitos não esperavam encontrá-la. A verdadeira identidade do povo de Deus não nasce da rejeição do outro, mas da acolhida da misericórdia.   Por isso, toda comunidade cristã precisa perguntar continuamente se suas estruturas aproximam as pessoas de Cristo ou se criam obstáculos para aqueles que buscam Deus. A Igreja deixa de manifestar o Reino quando transforma tradições humanas, costumes culturais ou estruturas institucionais em muros que impedem o encontro com a graça.  

É preciso compreender que toda experiência religiosa corre o risco de ser utilizada como instrumento de poder. Quando isso acontece, a fé deixa de libertar e passa a justificar privilégios. Jesus denuncia essa deformação em Mateus 23, quando critica líderes religiosos que colocam pesados fardos sobre os outros, mas não praticam aquilo que ensinam.  

Em Lucas 4,16-30 proclamado  na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum e na  3º Domingo do Tempo Comum do ano C, Jesus apresenta sua missão como anúncio de libertação aos pobres, aos cativos e aos oprimidos. Em Mateus 25,31-46 proclamado na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, encerrando o Ano Litúrgico, e também na Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma,  identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos. A mulher cananeia pertence exatamente ao grupo daqueles que a sociedade frequentemente coloca nas margens. Seu grito revela que Deus continua presente onde muitos preferem não olhar.  

Aimda podemos perceber outra dimensão desse encontro. A perseverança daquela mulher nasce do amor. Ela não insiste por orgulho, mas porque carrega o sofrimento da filha. O amor por outra pessoa torna-se força espiritual e  sua experiência se repete na vida de tantas mães e pais que lutam diariamente pela vida dos filhos, enfrentando doenças, violência, pobreza, abandono e tantas formas de sofrimento.  .Sua oração também denuncia uma religiosidade centrada apenas em benefícios pessoais. Ela não busca riqueza, status ou poder, ela busca vida. O Evangelho confronta, assim, uma espiritualidade reduzida ao consumo religioso, na qual Deus é tratado como instrumento para satisfazer desejos individuais. A fé verdadeira nasce da relação com Deus e se expressa no amor concreto pelo outro.  

Os profetas de Israel sempre denunciaram uma religião separada da justiça. 

  • Isaías afirma que o verdadeiro jejum consiste em libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem abrigo (Is 58). 
  • Amós rejeita celebrações religiosas quando não são acompanhadas pela prática da justiça (Am 5,21-24). 
  • Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8).  

Jesus continua essa tradição profética. A mulher cananeia mostra que Deus escuta aqueles que permanecem nas margens das estruturas religiosas, econômicas e sociais.  .Essa mensagem permanece atual na reflexão da Igreja latino-americana.

  •  Medellín (1968) denunciou a realidade de pobreza como uma situação que clama por transformação. 
  • Puebla (1979) reafirmou a opção preferencial pelos pobres como consequência do seguimento de Jesus. 
  • Santo Domingo (1992) aprofundou o compromisso missionário diante das mudanças culturais. 
  • Aparecida (2007) recordou que os discípulos missionários são chamados a reconhecer Cristo nos rostos daqueles cuja dignidade é negada.  

A CNBB, em seus documentos pastorais, mantém essa mesma perspectiva ao afirmar que evangelizar envolve defender a vida, promover a justiça, proteger os direitos humanos e construir uma sociedade baseada na solidariedade.  Por isso, a fé cristã não pode ser instrumentalizada para projetos de dominação política ou social. Quando a religião é usada para alimentar ódio, justificar privilégios, transformar adversários em inimigos absolutos ou conquistar poder, ela se afasta da lógica do Evangelho.   A chamada teologia da prosperidade também precisa ser discernida criticamente quando transforma a relação com Deus em uma troca comercial, como se a bênção divina fosse resultado de pagamento ou sucesso econômico. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres e afirmou: "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus" (Lc 6,20)?. da mesma forma, uma teologia do domínio que identifica o Reino de Deus com projetos de conquista política ou controle cultural contradiz o cauminho de Cristo. Jesus reina a partir da cruz, do serviço e da entrega. Ele afirma: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10,45) e o  clericalismo também precisa ser confrontado pelo Evangelho. Quando o ministério se transforma em privilégio, quando a autoridade substitui o serviço e quando a posição institucional vale mais que a escuta do sofrimento humano, a missão cristã é deformada. A mulher cananeia não era discípula oficial, não possuía reconhecimento religioso, mas tornou-se exemplo de fé para os próprios seguidores de Jesus.  

Também é necessário discernir toda aproximação entre cristianismo e projetos autoritários ou ideologias de extrema direita quando estas absolutizam o poder, promovem exclusão, incentivam violência, alimentam preconceitos ou transformam a religião em instrumento de disputa política. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Ele julga todas as ideologias à luz da dignidade humana, da justiça e da misericórdia.  Isso não significa que os cristãos devam ser indiferentes diante da realidade social. Pelo contrário. A fé exige compromisso com a vida, com a paz, com os pobres, com os migrantes, com a criação e com todos aqueles que sofrem.  

A mesa mencionada pela mulher cananeia possui também uma dimensão sacramental. As migalhas que caem da mesa apontam para uma realidade maior: a mesa definitiva do Reino. Na Eucaristia, Cristo reúne pessoas diferentes em um único corpo e o pão partido manifesta uma humanidade reconciliada. Não existem lugares privilegiados diante do altar segundo critérios de riqueza, origem ou poder.  .Essa mesa encontra sua plenitude no banquete anunciado pelo profeta Isaías para todos os povos (Is 25,6-9) e na celebração das núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). Deus não oferece uma graça limitada. Sua misericórdia é abundante e universal.  

Vivemos um tempo marcado por desigualdades, crises ambientais, guerras, violência, intolerância religiosa, polarizações e manipulação das consciências. Ainda hoje a mulher cananeia caminha pelas nossas cidades. Ela está nos pobres esquecidos, nos migrantes rejeitados, nas vítimas da violência, nas crianças sem futuro, nos idosos abandonados, nos trabalhadores explorados e em todos aqueles cujo sofrimento muitas vezes incomoda mais do que provoca solidariedade.  

A pergunta do Evangelho permanece diante da Igreja: vamos repetir a atitude dos discípulos, pedindo que esses gritos sejam afastados, ou permitiremos que o clamor dos sofredores transforme nossa maneira de viver a fé?  .A mulher cananeia revela que a verdadeira fé nasce quando a misericórdia vence o preconceito. Ela mostra que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras humanas. O Cristo que caminhou para Tiro e Sidônia continua caminhando para as periferias humanas de cada tempo. Ele continua ouvindo aqueles que ninguém deseja ouvir.  

Que sua oração se torne também a oração da Igreja: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de nós". Tem piedade quando construímos muros onde deveríamos construir pontes. Tem piedade quando preferimos nossas estruturas ao serviço. Tem piedade quando esquecemos os pobres e os excluídos.  .Que o Espírito Santo nos conceda uma fé semelhante àquela mulher, uma fé humilde, perseverante e aberta à misericórdia. Assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino anunciado pelos profetas, realizado em Jesus de Nazaré e continuamente renovado na história pelo amor de Deus, para que toda a humanidade experimente a justiça, a paz e a comunhão que vêm do Deus da vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.