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sábado, 10 de outubro de 2026

Um novo olhar sobre Mateus 22,1-14 / 28⁰ domingo do Tempo Comum.

O evangelho de Mateus 22,1-14 é proclamado no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A e, na forma integral, na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  do ciclo ferial  da Igreja Católica Romano; em algumas celebrações, pode-se usar a forma breve Mateus 22,1-10.  E  28⁰ domingo do Tempo Comum  onde temos a seguinte liturgia:  Isaías 25,6-10a, Salmo 22(23), Filipenses 4,12-14.19-20 e Mateus 22,1-14.  A liturgia apresenta uma unidade teológica profunda: A Palavra não nos convida a contemplar uma festa distante da realidade, mas a discernir como Deus confronta nossas prioridades, nossas estruturas sociais e nossas formas de viver a religião. O banquete prometido torna-se critério para avaliar a sociedade e a própria Igreja: onde a vida é desprezada, o pão negado e a dignidade negociada, a lógica do Reino permanece contraditada.

  • Isaías 25,6-10a;  anuncia um banquete preparado por Deus para todos os povos; o profeta contempla o Senhor preparando, no monte, uma refeição abundante para todos os povos. O horizonte é universal, pois a promessa ultrapassa as fronteiras de Israel e anuncia a derrota da morte, a remoção do véu que cobre as nações e o enxugamento das lágrimas. No contexto das ameaças, das fragilidades coletivas e da esperança de restauração, a imagem do banquete expressa comunhão, abundância e vida reconciliada. Deus não se limita a oferecer consolo interior aos que sofrem; promete enfrentar aquilo que destrói a existência humana. O texto encontra sua ressonância no Apocalipse 21,4, onde não haverá mais morte, luto, grito ou dor. Entretanto, a esperança escatológica não deve servir de desculpa para a indiferença presente. Se Deus promete enxugar lágrimas, os que se reconhecem como seu povo não podem produzir sofrimento por meio da exploração, da discriminação ou do abandono. A promessa futura denuncia o presente quando este transforma a miséria em destino inevitável.
  • O Salmo 22(23), proclama a confiança no Pastor que sustenta a vida mesmo diante dos adversários por  e  apresenta o Senhor como pastor que conduz às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel pelo vale escuro. A imagem não descreve uma existência protegida de toda ameaça, mas uma confiança que resiste mesmo quando o caminho atravessa a insegurança. O gesto de preparar uma mesa diante dos adversários revela que a comunhão com Deus não depende do desaparecimento imediato dos conflitos. A unção com óleo e o cálice transbordante evocam hospitalidade, honra e abundância. Essa imagem ganha profundidade quando relacionada a Ezequiel 34,1-16, passagem na qual Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, abandonam as ovelhas frágeis e negligenciam as feridas do rebanho. A metáfora possui consequências éticas: toda autoridade que deveria proteger a vida e, em vez disso, utiliza pessoas para preservar seus próprios privilégios contradiz a imagem do Pastor. Na sociedade contemporânea, essa denúncia alcança tanto dirigentes políticos quanto lideranças religiosas que prometem cuidado, mas se afastam daqueles que mais necessitam de proteção.
  •  Filipenses 4,12-14.19-20, Paulo testemunha uma fé capaz de atravessar a abundância e a necessidade, reconhecendo a solidariedade recebida e  recorda que aprendeu a viver na abundância e na necessidade, na fartura e na privação. Sua confiança em Deus não significa desprezo pelas condições materiais nem defesa de uma espiritualidade indiferente à pobreza. O apóstolo agradece a solidariedade dos filipenses, que participaram concretamente de suas dificuldades. O contexto da carta mostra uma comunidade cuja contribuição material representa comunhão efetiva na missão. A providência divina, portanto, não deve ser transformada em justificativa para a omissão humana. Deus sustenta a vida também por meio de comunidades que partilham recursos, assumem responsabilidades e não abandonam seus membros.
Essas leituras prepara a compreensão de Mateus 22,1-14: a festa do Reino é iniciativa divina, mas sua realidade histórica depende de respostas que expressem acolhimento, generosidade e transformação. Isaías anuncia a mesa universal, o salmo apresenta o Pastor que sustenta, Paulo testemunha a solidariedade e Jesus questiona aqueles que recebem o convite sem compreender sua exigência. Para interpretar a parábola, é necessário considerar o contexto narrativo que a antecede. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém, confronta práticas realizadas no templo, questiona as autoridades e conta as parábolas dos dois filhos e dos vinhateiros homicidas (Mt 21,28-46). Essas narrativas examinam a distância entre declarar obediência a Deus e praticar sua vontade. A parábola das bodas continua esse conflito, denunciando a resistência daqueles que, embora ocupem posições de proximidade religiosa, rejeitam o chamado que ameaça seus interesses. Essa crítica pertence ao ambiente judaico do qual Jesus participa. Ele é judeu, interpreta as Escrituras de Israel e dialoga com suas tradições proféticas. Por isso, seria histórica e teologicamente irresponsável utilizar a passagem para condenar coletivamente o povo judeu. O antijudaísmo desenvolvido ao longo da história cristã demonstra como uma interpretação descontextualizada pode converter uma crítica dirigida a agentes e estruturas concretas em instrumento de perseguição. A Palavra precisa julgar também os cristãos, especialmente quando suas instituições confundem eleição com superioridade e autoridade com privilégio.

No mundo do primeiro século, as bodas constituíam acontecimentos familiares e comunitários importantes, envolvendo hospitalidade, honra pública, relações sociais e celebração coletiva. A figura do rei intensifica a gravidade da narrativa: desprezar seu convite ultrapassa o simples esquecimento de um compromisso e assume o significado de rejeitar uma relação. Os primeiros convidados, porém, não demonstram interesse. Um segue para o campo, outro para seus negócios, enquanto outros agarram, maltratam e matam os mensageiros. A sequência apresenta diferentes graus de resistência, desde a indiferença até a violência. A propriedade e as ocupações cotidianas não são condenadas em si mesmas; o problema aparece quando os interesses particulares se tornam absolutos e anulam qualquer responsabilidade diante da comunidade. A recusa recorda a tradição dos profetas perseguidos, como em Jeremias 7,25-26 e 2 Crônicas 36,15-16. A história bíblica revela repetidamente que a religião pode conservar suas estruturas enquanto rejeita a voz que exige justiça. O perigo não está apenas em abandonar formalmente a fé, mas em utilizá-la para evitar suas consequências. Quando os primeiros convidados recusam o chamado, o rei envia os servos às encruzilhadas e ordena que convidem todos os que encontrarem, bons e maus. A sala se enche, e a festa adquire um alcance inesperado. A imagem expressa a gratuidade da graça: o acesso ao Reino não depende de genealogia, reputação, riqueza ou credenciais religiosas. Jesus já havia comido com publicanos e pecadores, provocando questionamentos sobre sua prática de acolhimento (Mt 9,10-13). Em Lucas 15,1-2, a proximidade de Jesus com pessoas socialmente desprezadas também provoca murmurações. A mesa torna-se lugar de contestação das fronteiras que determinam quem merece pertencer. Entretanto, acolhimento não significa declarar irrelevantes a justiça e a conversão. A graça alcança a pessoa antes de qualquer pretensão de merecimento, mas abre um caminho de transformação. Uma comunidade não pode proclamar que todos são convidados enquanto humilha os pobres, silencia vítimas, discrimina minorias ou trata os diferentes como ameaças à própria segurança.

A cidade incendiada em Mateus 22,7 pode ser compreendida como uma possível ressonância da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, acontecimento decisivo para a memória judaica e para o ambiente histórico em que o Evangelho de Mateus tomou forma. Essa interpretação é plausível, mas não autoriza estabelecer correspondências automáticas entre cada elemento da parábola e acontecimentos específicos. Tampouco permite converter a narrativa em legitimação religiosa da guerra. A linguagem do juízo expressa a seriedade da rejeição e a convicção de que a violência possui consequências históricas e morais. Entretanto, precisa ser lida em diálogo com o conjunto do Evangelho. Jesus manda amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (Mt 5,44), repreende a lógica da vingança e adverte contra a violência como caminho de fidelidade. O juízo de Deus não concede aos discípulos autorização para perseguir pessoas em nome de uma suposta pureza religiosa. Sua função profética é desmascarar o mal, defender as vítimas e afirmar que nenhuma estrutura humana permanece acima da responsabilidade ética.

A chegada do homem sem veste nupcial introduz uma tensão decisiva. Ele foi encontrado nas ruas, recebeu o convite e entrou na sala, mas sua presença não corresponde ao significado da celebração. O texto não explica como a veste deveria ser adquirida; portanto, não é adequado apresentar como certeza uma reconstrução histórica que a narrativa não fornece. Na tradição cristã, a roupa pode simbolizar conversão, fidelidade, justiça e vida renovada pela graça. Paulo fala de revestir-se de Cristo (Gl 3,27) e do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade (Ef 4,24). Isaías 61,10 relaciona as vestes à salvação e à justiça. O símbolo não deve ser utilizado para exigir que os pobres comprovem merecimento antes de serem acolhidos. A veste não é um uniforme de superioridade, mas a expressão de uma existência transformada. Entrar na festa sem assumir sua lógica significa desejar os benefícios da comunhão sem aceitar as responsabilidades que ela produz.

A advertência encontra paralelo em:

  •  Mateus 7,21, quando Jesus afirma que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas é necessário fazer a vontade do Pai. 
  •  Mateus 12,33, a árvore é reconhecida por seus frutos.
A fé cristã não se reduz à identificação institucional, à frequência sacramental ou à exibição pública de símbolos religiosos. Esses elementos possuem significado quando alimentam uma prática coerente com o Evangelho. Se alguém comunga e continua explorando trabalhadores, se proclama a defesa da família enquanto pratica a violência doméstica, se fala em valores cristãos enquanto dissemina mentiras e desprezo, existe uma contradição entre a profissão religiosa e a vida concreta. Isso não significa que a conversão seja instantânea ou que a comunidade deva exigir perfeição absoluta. Significa reconhecer que a graça inaugura um processo real, no qual a pessoa aprende a abandonar práticas desumanizadoras e a construir relações orientadas pela misericórdia, pela verdade e pela justiça. O paralelo com Lucas 14,15-24 ilumina diferenças importantes entre as tradições evangélicas. Lucas apresenta um homem que oferece uma grande ceia e encontra desculpas relacionadas a propriedades, trabalho e casamento. O anfitrião ordena que sejam chamados pobres, aleijados, cegos e coxos; depois, o convite alcança pessoas encontradas pelos caminhos e cercas. Mateus, por sua vez, situa a festa no conflito de Jesus com as autoridades de Jerusalém, identifica o anfitrião como rei, apresenta as bodas do filho, descreve a violência contra os mensageiros e acrescenta o convidado sem veste nupcial. As duas versões compartilham a rejeição do convite e a ampliação do acolhimento, mas desenvolvem ênfases teológicas próprias. Marcos 12,1-12, embora não narre um casamento, apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas, que também rejeitam os enviados e culmina na rejeição do filho. Esses paralelos mostram que a tradição de Jesus denuncia a resistência à vontade divina e questiona a pretensão de transformar a proximidade religiosa em garantia de fidelidade.

A frase “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14) deve ser interpretada à luz de toda a narrativa, não como uma fórmula destinada a alimentar medo ou especulação sobre o número dos salvos. O convite é amplo, mas não elimina a liberdade nem torna indiferente a resposta humana. João Batista exige frutos dignos de conversão (Mt 3,8), e Jesus afirma que a árvore é conhecida pelos frutos que produz (Mt 7,16-20). A eleição bíblica representa responsabilidade, não privilégio. Ser chamado significa participar de uma missão que deve produzir sinais concretos do Reino. A comunidade cristã é convocada a testemunhar misericórdia, reconciliação, verdade e justiça. Não pode reivindicar para si a aprovação divina enquanto ignora os sofrimentos que poderia aliviar. A advertência da parábola não apresenta Deus como alguém que procura arbitrariamente motivos para excluir, mas revela a incompatibilidade entre a comunhão oferecida e uma existência que persiste em rejeitar suas exigências. A  mensagem confronta as desigualdades da sociedade contemporânea. Quando a alimentação, a moradia, a saúde, a educação e a segurança permanecem inacessíveis para parcelas da população, a dignidade humana é subordinada a condições econômicas e sociais que nem todos conseguem superar individualmente. A imagem do banquete questiona uma organização social na qual o desperdício convive com a fome e a riqueza se concentra enquanto milhões enfrentam insegurança material. A parábola não oferece, isoladamente, um programa econômico detalhado, mas estabelece um horizonte ético: nenhuma estrutura pode ser considerada justa quando trata o sofrimento evitável como consequência aceitável do funcionamento normal da sociedade. A responsabilidade cristã exige caridade organizada, defesa dos direitos, políticas públicas responsáveis e participação cidadã. Dar alimento a quem tem fome é indispensável, mas também é necessário perguntar por que a fome persiste, quem suporta seus efeitos e quais decisões poderiam transformar suas causas. A compaixão não substitui a justiça; deve impulsioná-la.

A mesma exigência alcança a política e o exercício da autoridade. Em Ezequiel 34, Deus denuncia os pastores que se alimentam a si mesmos, não fortalecem as ovelhas debilitadas e não procuram as perdidas. A crítica ultrapassa o campo religioso e ilumina qualquer poder que transforma a função pública em instrumento de enriquecimento, perseguição ou autopreservação. Autoridade legítima não se mede pela capacidade de intimidar adversários, mas pela responsabilidade com a vida coletiva, pela transparência e pela proteção dos vulneráveis. A fé cristã não deve ser sequestrada por partidos, governantes ou projetos ideológicos que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade. Quando a linguagem religiosa é usada para desumanizar opositores, justificar violência ou silenciar denúncias de injustiça, o nome de Deus passa a funcionar como instrumento de poder. A consciência cristã precisa examinar propostas, decisões e consequências concretas à luz da dignidade humana, sem transformar o Evangelho em propaganda eleitoral nem confundir fidelidade religiosa com obediência cega a lideranças políticas. A manipulação religiosa também aparece quando dirigentes apresentam interesses particulares como vontade incontestável de Deus, retiram versículos de seu contexto ou exigem dos fiéis uma submissão que eles próprios não praticam. Jesus denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros sem disposição para carregá-los (Mt 23,4) e critica a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade em favor de uma religiosidade exterior (Mt 23,23). A teologia da prosperidade distorce a imagem do banquete quando transforma a graça em transação e faz da contribuição financeira uma suposta garantia de bênçãos. O individualismo religioso reduz a salvação ao conforto privado e esquece que a mesa é lugar de comunhão. A Eucaristia, memorial da entrega de Cristo, perde sua força testemunhal quando a celebração não se traduz em compromisso com os corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência e pela exclusão, a  liturgia não é uma fuga da história, mas uma escola de responsabilidade diante dela.  Uma comunidade eclesial fiel precisa garantir participação, transparência, cuidado com as vítimas, formação crítica e acolhimento efetivo. Precisa examinar as relações de poder que silenciam pessoas, os mecanismos que protegem abusadores e as formas de clericalismo que tratam os leigos como espectadores sem voz. A autoridade pastoral deve servir à comunhão, não estabelecer uma casta acima do povo de Deus. Como recorda 1 Coríntios 13,1-3, até os dons mais extraordinários perdem seu sentido quando falta o amor.

 E preciso  ter a consciência que a  conversão, contudo, não começa apenas  instituições; alcança também os desejos, os medos e as escolhas cotidianas. O apego ao status pode levar uma pessoa a defender uma ordem injusta porque dela recebe segurança, reconhecimento ou vantagem. O medo da mudança pode tornar mais confortável a permanência em estruturas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. Reconhecer esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que a transformação exige consciência, coragem e apoio comunitário. Cada pessoa precisa perguntar quais interesses se tornaram desculpas para ignorar o sofrimento alheio, quais preconceitos orientam seus julgamentos e quais privilégios prefere proteger. A conversão cristã não consiste em cultivar culpa sem saída, mas em permitir que a verdade desmonte as justificativas que impedem uma vida mais justa. O perdão não apaga a responsabilidade; abre a possibilidade de reparar danos, reconstruir relações e interromper a repetição da violência. Essa transformação exige atenção especial aos grupos frequentemente empurrados para as margens. Migrantes não podem ser reduzidos a ameaças, pessoas negras não devem continuar submetidas à discriminação, mulheres não podem ter sua voz silenciada, povos originários precisam ter seus territórios e direitos respeitados, e pessoas LGBTQIA+ não devem ser transformadas em alvos de humilhação. Uma comunidade cristã não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a humanidade e a dignidade de cada pessoa. Precisa, antes, examinar se suas palavras e práticas correspondem ao mandamento de amar o próximo e à afirmação de que todo ser humano merece respeito. O convite às encruzilhadas não é uma estratégia para aumentar números ou conquistar influência institucional. É uma convocação a encontrar pessoas reais, escutar suas histórias e construir relações nas quais ninguém seja tratado como descartável. A acolhida evangélica não é tolerância condescendente, mas reconhecimento da dignidade e da participação de todos na vida comum.

A parábola, finalmente, reúne a gratuidade do convite e a seriedade da resposta para nossa  conclusão. 

  • Isaías anuncia a vitória de Deus sobre a morte e o fim das lágrimas; o salmista testemunha a presença do Pastor nos vales escuros.
  • Paulo reconhece a solidariedade que sustenta a missão
  • Jesus proclama uma festa aberta e questiona a possibilidade de participar dela sem se deixar transformar. 
 A liturgia da Palavra  desse  dia não descrevem dimensões isoladas da fé, mas uma única dinâmica de esperança, comunhão e responsabilidade. A providência não legitima a passividade, a eleição não concede superioridade e a graça não transforma a injustiça em algo irrelevante. O Reino começa a ser reconhecido quando o pão é partilhado, a verdade vence a manipulação, a autoridade protege em vez de explorar e a comunidade abandona a indiferença diante dos que sofrem.  O convite está feito, mas não basta admirar a festa de longe, repetir suas palavras ou ocupar um lugar à mesa. É necessário permitir que a graça transforme a maneira como trabalhamos, consumimos, votamos, celebramos, educamos, acolhemos e exercemos nossas responsabilidades. A veste nupcial representa essa coerência possível entre a fé professada e a vida praticada, entre a comunhão celebrada e a justiça construída. A Igreja será sinal do banquete prometido quando deixar de proteger privilégios, enfrentar suas próprias contradições e caminhar com os que foram feridos pela exclusão. O mundo reconhecerá a força do Evangelho não pela ostentação dos templos nem pela proximidade entre púlpitos e palácios, mas pelos frutos de uma comunidade que serve, partilha, denuncia o mal e promove a reconciliação. Deus prepara a mesa e chama os povos; cabe a nós responder com uma vida que não contradiga a festa. A esperança cristã não nos autoriza a esperar passivamente por outro mundo, mas nos compromete a trabalhar, desde agora, para que a dignidade, a justiça e a misericórdia tenham lugar concreto na história.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 8,1-3..

 
A narrativa de Lucas 8,1-3, usada na liturgia da sexta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum, apresenta uma cena aparentemente simples, mas que, sob o olhar atento da exegese, revela um gesto de profunda revolução social e teológica. Jesus, em sua missão pela Galileia e regiões próximas, não caminha sozinho. Ele é acompanhado por um grupo diversificado de discípulos, incluindo mulheres que desempenham papéis essenciais, servindo não apenas com suas mãos, mas com seus bens e compromisso vital. Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras representam mais do que presença: são testemunhas vivas da inclusão radical do Reino de Deus, desafiando estruturas patriarcais, religiosas e sociais que buscavam silenciá-las. Em uma sociedade fortemente patriarcal, onde mulheres eram restringidas à esfera doméstica e excluídas de espaços públicos de decisão, a presença ativa dessas discípulas demonstra a coragem de romper com o status quo. Elas não se limitam a acompanhar Jesus; participam ativamente de sua missão. Lucas, sensível à marginalização dos pobres, pecadores e mulheres, destaca que a salvação não conhece gênero, classe ou prestígio social. As mulheres de Lucas 8 não são decorativas; elas são estruturantes da comunidade, contribuindo material, espiritual e afetivamente para a missão de Jesus, mostrando que o serviço é uma forma profunda de discipulado.

O paralelo com outros evangelhos evidencia a consistência dessa visão. Em Marcos 15,40-41, vemos as mulheres permanecendo firmes na crucificação, enquanto em Mateus 27,55-56 elas são destacadas por sua fidelidade. Lucas também aponta para a continuidade dessa participação feminina desde a Galileia até Jerusalém, e a narrativa de Lucas 10,38-42, com Maria e Marta, reforça que a escuta e o serviço são igualmente valorizados. Esses paralelos sinóticos revelam que a missão de Jesus se concretiza na solidariedade e na corresponsabilidade, não na exclusão ou no privilégio de alguns.

Quando examinamos essa passagem à luz da hermenêutica e da exegese, percebe-se que Lucas constrói uma teologia do serviço e da comunidade. As mulheres servem não para receber bênçãos materiais ou retorno imediato, mas por amor e gratidão. Aqui, a narrativa se contrapõe à Teologia da Prosperidade, que reduz a fé a uma moeda de troca, e denuncia a fé como mercadoria. A verdadeira fé não se compra nem se manipula; ela se vive na gratuidade do serviço, na entrega desinteressada e na solidariedade para com o outro.

A cena de Lucas também desafia a teologia do domínio e o individualismo religioso. Jesus não organiza sua comunidade segundo hierarquias rígidas ou autoridade coercitiva. Ele promove relações horizontais, onde cada contribuição é reconhecida e cada pessoa valorizada. A psicologia comunitária contemporânea mostra que grupos estruturados com cooperação e corresponsabilidade desenvolvem resiliência, senso de pertencimento e identidade sólida. A sociologia confirma que sociedades hierarquizadas tendem a marginalizar e excluir, reproduzindo injustiça; Lucas propõe um modelo radicalmente alternativo: a comunidade é construída na inclusão e na valorização de todos os membros.

O clericalismo é contestado de forma explícita. Jesus confia sua missão a homens e mulheres, a leigos e leigas, demonstrando que o poder não pertence a poucos, mas que o serviço e o testemunho são responsabilidade de todos. Documentos da Igreja como Christifideles Laici (n. 27-30) e o Catecismo da Igreja Católica (n. 894-896) reforçam esta vocação universal à santidade e ao serviço, enquanto a patrística, em autores como Tertuliano e Hipólito, reconhecia a presença ativa de mulheres no culto e na catequese como expressão da dignidade batismal. Lucas antecipa, de forma profética, uma Igreja inclusiva, onde o dom de cada pessoa é necessário para a vida comunitária.

Historicamente, a coragem das mulheres é ainda mais impressionante. Participar publicamente de uma missão espiritual, no contexto da Galileia e da Judeia, implicava risco social, marginalização e, em alguns casos, exposição ao escárnio. Mas é justamente essa disposição que torna o gesto revolucionário: Jesus redefine o pertencimento ao Reino não pela conformidade, mas pela fidelidade ao chamado de serviço e amor. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, reconhece no serviço ao outro uma expressão da virtude e da realização humana; Lucas 8 concretiza essa ética na vida comunitária de Jesus.

Do ponto de vista antropológico e sociológico, a inclusão das mulheres, assim como de pobres e marginalizados, é uma denúncia profética às estruturas de poder que continuam reproduzindo desigualdades. Em paralelo, a psicologia relacional revela que a presença ativa de todos fortalece a identidade do grupo, promove empatia e constrói resiliência emocional. Lucas nos mostra que o Reino de Deus se manifesta na comunidade, e não na coerção ou na manipulação de interesses pessoais.


As mulheres de Lucas 8,1-3 sustentam a pregação, apoiam a logística da missão e representam simbolicamente a reciprocidade que deve reger a vida da comunidade de fé. Este serviço gratuito e comprometido é uma resistência ética contra a instrumentalização da religião. Elas nos ensinam que a missão da Igreja e o Reino de Deus não se reduzem ao poder ou à riqueza, mas à inclusão, ao serviço e à promoção da dignidade de cada pessoa.

O paralelismo com o Antigo Testamento reforça esta visão: Débora, profetisa e juíza de Israel (Juízes 4-5), liderou com coragem e sabedoria, mostrando que o Espírito não se limita a homens ou elites. Isaías 61,1-3 anuncia a libertação dos oprimidos e marginalizados, e Lucas realiza essa profecia de forma concreta na caminhada de Jesus. A comunidade que Ele forma é um sinal vivo do Reino, uma antecipação do mundo reconciliado, justo e inclusivo.

Em um paralelo contemporâneo, o papel da mulher se mantém central na solidariedade e na transformação social. Assim como Maria Madalena, Joana e Susana contribuíram com seus recursos e serviço na missão de Jesus, hoje mulheres em todo o mundo sustentam comunidades, iniciativas sociais e movimentos de justiça, muitas vezes sem reconhecimento formal, enfrentando desigualdades estruturais, violência e exclusão. Elas se tornam o coração pulsante de projetos de educação, saúde, assistência aos marginalizados e defesa dos direitos humanos, mostrando que a coragem e o compromisso profético narrados no Evangelho continuam vivos. O serviço desinteressado, a solidariedade e a liderança ética das mulheres são hoje, como então, sinais concretos da presença do Reino de Deus entre nós.

De forma complementar, os textos apócrifos e extracanonicos reforçam ainda mais a presença ativa das mulheres no ministério de Jesus. O Evangelho de Maria Madalena descreve Maria como interlocutora privilegiada dos ensinamentos de Cristo, capaz de orientar e consolar os discípulos, confirmando que sua autoridade espiritual era reconhecida. No Evangelho de Filipe, observa-se que mulheres participavam plenamente da vida comunitária e da transmissão dos mistérios do Reino, servindo e ensinando ao lado dos homens. O Evangelho de Tomé inclui ditos que reforçam a importância da percepção feminina na compreensão dos ensinamentos de Jesus. Estas fontes, embora extracanonicas, ecoam o princípio de Lucas: o discipulado não se mede por gênero, mas pelo compromisso com a missão e pelo serviço desinteressado. Elas lembram que a liderança feminina não é novidade, mas continuidade de um padrão que Jesus instituiu e que a Igreja é chamada a cultivar hoje.

Ainda hoje, o exemplo bíblico e apócrifo converge com iniciativas contemporâneas de mulheres que promovem transformação social e espiritual. Em comunidades, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e pastoral urbana, elas se tornam agentes de reconciliação, proteção e educação, muitas vezes enfrentando resistência cultural ou institucional. Este paralelo evidencia que a solidariedade, o cuidado e a coragem para liderar, ensinando e servindo, continuam sendo traços essenciais do discipulado, que Lucas e os textos apócrifos celebram e inspiram.

Ao olhar para Lucas 8,1-3, somos desafiados a refletir sobre a Igreja contemporânea: quantos marginalizados ainda não têm voz? Quantos dons permanecem invisíveis por preconceito, hierarquia ou medo? Como resistir à fé mercantilizada, à teologia do domínio ou ao individualismo religioso? A liturgia nos lembra que o chamado de Deus é inclusivo, que o serviço é maior expressão de fé, e que a verdadeira comunidade é construída na solidariedade e corresponsabilidade, conforme nos ensina Evangelii Gaudium (n. 66) e Fratelli Tutti (n. 272-273).

A profecia de Lucas não é apenas histórica; é prática e contemporânea. Convida-nos à ação concreta: reconstruir comunidades horizontais, incluir os marginalizados, valorizar o serviço gratuito e resistir a estruturas que reduzem a fé a mercadoria ou privilégio. Que possamos, à luz desta passagem, viver uma fé que transforma, acolhe, respeita e promove justiça, fazendo do serviço e da solidariedade expressão concreta do Reino de Deus no mundo.

Assim, Lucas 8,1-3 nos desafia a caminhar com os olhos de Cristo, a construir comunidades de igualdade e reciprocidade, e a perceber que cada gesto de serviço, cada ato de amor gratuito, é um fragmento do Reino que se manifesta hoje. Que nossas ações reflitam a coragem das mulheres que seguiram Jesus, sustentando a missão, resistindo às distorções e anunciando a Boa Nova de Deus, com fidelidade, coragem e generosidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Quando o político se torna ídolo

Existe uma contradição que merece ser examinada com seriedade dentro do cristianismo  e especialmente   na Igreja Católica: pessoas batizadas, crismadas, formadas  e participantes da Eucaristia podem chegar ao ponto de submeter sua compreensão da fé aos interesses de um partido ou à imagem de um líder político. O problema não está em ter preferências eleitorais, defender propostas econômicas ou participar ativamente da vida pública. A participação política é legítima e necessária. O problema começa quando a identidade partidária se torna tão dominante que o cristão já não consegue avaliar criticamente o próprio candidato, reconhecer os erros dos seus aliados ou escutar uma orientação da Igreja que contrarie suas convicções políticas. Nesse momento, a política deixa de ser um instrumento para organizar a sociedade e começa a funcionar como uma religião substituta, com seus salvadores, seus inimigos, seus mitos,  seus dogmas informais e seus mecanismos de exclusão. A pergunta que emerge dessa realidade é incômoda, mas necessária: Estamos colocando a política a serviço de nossa consciência cristã ou sacrificando nossa consciência para permanecer fiéis à política? Como apoiar político  que se dizem  favoráveis a pena de morte, a tortura?

O Evangelho não autoriza essa inversão. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão a partir da Boa-Nova anunciada aos pobres, da libertação dos cativos e da recuperação da vista aos cegos. Em Mateus 25,31-46, a relação com Cristo é confrontada com atitudes concretas diante dos famintos,  estrangeiros, dos enfermos e principalmente dos encarcerados. Esses textos não oferecem um programa eleitoral pronto, nem autorizam identificar automaticamente o Reino de Deus com qualquer partido contemporâneo. Oferecem, porém, critérios fundamentais para discernir as consequências morais de nossas escolhas. Uma política precisa ser examinada pelo modo como trata a dignidade humana, distribui oportunidades, protege os vulneráveis, enfrenta as injustiças e exerce o poder. Por isso, nenhum candidato pode reivindicar uma espécie de imunidade espiritual apenas porque frequenta igrejas, cita a Bíblia, utiliza símbolos religiosos ou se apresenta como defensor da família. A fé cristã não transforma declarações religiosas em provas automáticas de integridade moral. O próprio Jesus adverte, em Mateus 7,16, que as pessoas são reconhecidas pelos frutos que produzem. Também é preocupante a relação que parte dos fiéis estabelece com o conhecimento. Na vida profissional, compreendemos que a competência exige pratica, estudo e  atualização e disposição para rever conclusões. Não confiamos a construção de uma ponte a alguém que despreza a engenharia, nem consideramos suficiente a opinião de um médico que rejeita o conhecimento científico. Entretanto, quando se trata de religião e política, algumas pessoas aceitam como verdade definitiva aquilo que ouviram de uma liderança, de um pregador ou de um influenciador, sem consultar as fontes, examinar os argumentos ou conhecer a tradição que afirmam defender. Não é necessário que todo católico seja especialista em teologia, mas é indispensável reconhecer que a maturidade da fé exige formação da consciência. A própria Escritura convida ao discernimento: em Romanos 12,2, Paulo fala da renovação da mente para compreender a vontade de Deus; em Atos 17,11, os bereanos são elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, a fé não é inimiga da inteligência. Uma religião que desestimula perguntas, transforma líderes em autoridades incontestáveis e trata o estudo como ameaça corre o risco de produzir dependência, e não discípulos adultos.

A tradição católica oferece recursos consistentes para essa formação: a Bíblia, o Catecismo da Igreja Católica, os documentos do Concílio Vaticano II e a Doutrina Social da Igreja, cuja formulação moderna ganhou impulso decisivo com a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada em 1891. Ao longo dessa tradição, a Igreja refletiu sobre trabalho, propriedade, desigualdade, direitos humanos, participação política, solidariedade, bem comum e responsabilidade diante da criação. A Laudato Si', de Francisco, por exemplo, relaciona a crise ambiental à cultura do descarte, à desigualdade e aos modelos de desenvolvimento que ameaçam a vida. Conhecer esses ensinamentos permite compreender que a moral cristã não se limita à conduta privada, à sexualidade ou à observância de práticas devocionais. Ela também alcança as estruturas sociais, as relações econômicas e o exercício das responsabilidades públicas. Isso não significa que todos os católicos devam votar da mesma maneira, pois a aplicação dos princípios a situações concretas exige análise, prudência e consideração de diferentes circunstâncias. Significa, contudo, que nenhuma preferência partidária deveria ser considerada superior aos princípios fundamentais que a própria pessoa professa.

A identificação política não se limita à escolha de um programa de governo; pode oferecer pertencimento, reconhecimento, segurança emocional e uma narrativa que organiza a compreensão do mundo. Quando alguém vincula profundamente sua identidade a um grupo, as críticas dirigidas a esse grupo podem ser interpretadas como ataques pessoais. Surge, então, a tendência de selecionar informações favoráveis, minimizar os erros dos aliados e atribuir intenções maliciosas a todos os adversários. As redes sociais podem intensificar esse processo ao favorecer ambientes de confirmação, nos quais opiniões semelhantes circulam repetidamente e versões divergentes são recebidas com desconfiança. Quando esse mecanismo se combina com a linguagem religiosa, a disputa política adquire uma dimensão sagrada: o líder passa a representar a salvação nacional, seus apoiadores se consideram defensores exclusivos da verdade e os críticos são tratados como inimigos de Deus. É nesse terreno que a crítica racional cede espaço ao fanatismo. O fenômeno não pertence exclusivamente a um partido ou campo ideológico, embora suas manifestações e consequências precisem ser analisadas concretamente. O critério deve ser aplicado a todos: quanto mais uma liderança exige lealdade incondicional, menos compatível se torna essa exigência com a responsabilidade de examinar seus atos. É nesse sentido que a idolatria política constitui uma questão teológica. O primeiro mandamento, em Êxodo 20,3-5, proíbe colocar outros deuses no lugar de Deus. Aplicado analogicamente à vida pública, esse princípio denuncia toda realidade humana transformada em absoluto. Um partido pode apresentar propostas legítimas, um governante pode realizar ações importantes e um movimento pode mobilizar pessoas em favor de causas justas; nenhum deles, porém, está livre de erros nem possui autoridade moral ilimitada. Quando o fiel precisa negar fatos comprovados para proteger seu candidato, relativizar a corrupção dos aliados ou rejeitar qualquer crítica como perseguição ideológica, sua lealdade já não está sendo orientada por princípios universais, mas pela preservação do próprio grupo. O problema não é simplesmente votar mal, algo possível a qualquer cidadão, mas construir uma relação de submissão que impede o reconhecimento do erro. Uma consciência cristã formada precisa conservar a liberdade de dizer não ao próprio campo político quando suas práticas entram em conflito com a justiça, a verdade e a dignidade humana.

A Igreja Católica, por sua vez, não pode ser reduzida a uma extensão religiosa de projetos eleitorais. Sua Doutrina Social não cabe integralmente em nenhuma legenda, porque seus princípios exigem avaliação crítica de diferentes propostas e governos. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a defesa dos trabalhadores, a proteção da vida e o cuidado com a criação não podem ser usados seletivamente conforme a conveniência partidária. Um católico pode reconhecer o mérito de determinada política pública e criticar outras decisões do mesmo governo; pode rejeitar propostas de um partido sem desumanizar seus eleitores; pode discordar de uma autoridade eclesiástica e, ainda assim, levar a sério os fundamentos de sua argumentação. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não precisa funcionar como comitê eleitoral para exercer sua missão pastoral e profética e ao mesmo tempo, os bispos não estão acima do discernimento, da avaliação crítica ou da responsabilidade institucional. A comunhão eclesial não significa uniformidade política, assim como a liberdade de consciência não significa licença para ignorar todo ensinamento inconveniente. O desafio é manter diálogo, fundamentação e responsabilidade sem transformar divergências eleitorais em critérios automáticos de fidelidade religiosa.

Todos sabemos  que o enfrentamento da criminalidade exige políticas públicas consistentes, investigação qualificada, inteligência, cooperação institucional, prevenção, proteção das vítimas e responsabilização dos culpados dentro do Estado de Direito. O fenômeno não se limita às facções que disputam territórios ou controlam mercados ilícitos. Inclui também a lavagem de dinheiro, a corrupção e as conexões criminosas que podem alcançar setores econômicos e agentes públicos. Por isso, a retórica de combate ao crime perde credibilidade quando é aplicada apenas aos adversários, enquanto suspeitas ou irregularidades envolvendo aliados recebem tratamento complacente. Defender a segurança pública não exige abandonar as garantias fundamentais, assim como respeitar os direitos humanos não significa tolerar a criminalidade. Uma sociedade justa precisa proteger a população da violência e impedir que a lei seja utilizada seletivamente. A retórica da ordem, quando não se traduz em instituições responsáveis e resultados verificáveis, pode servir apenas para mobilizar ressentimentos e produzir dividendos eleitorais. O cristão deve perguntar não somente quem promete combater o crime, mas quais medidas propõe, quais resultados apresenta e se aceita que os mesmos critérios legais sejam aplicados a todos. Ao ler a Palavra de Deus  nos deparamos com:

  •  Amós denuncia a exploração dos pobres e a corrupção da justiça (Am 5,11-24).
  •  Isaías condena os que promulgam leis injustas e negam direitos aos necessitados (Is 10,1-2); 
  • Natã confronta Davi, o próprio rei de Israel, por causa de sua conduta injusta (2Sm 12,1-9). A força desses relatos está em mostrar que a autoridade não elimina a responsabilidade moral.
 Natã não silencia porque Davi ocupa o trono, e os profetas não limitam suas denúncias aos governantes estrangeiros. A fidelidade à aliança exige confrontar também aqueles que pertencem à própria comunidade. Esse princípio continua válido para a Igreja contemporânea: não basta denunciar abusos de governos dos quais discordamos e silenciar diante de práticas semelhantes quando são cometidas por nossos aliados. Se a indignação depende da identidade política do responsável, ela deixa de ser um compromisso coerente com a justiça e se transforma em instrumento de disputa. O testemunho profético não consiste em abençoar governantes, mas em recordar que todo poder humano é limitado e deve responder pelas consequências de suas decisões. A resposta pastoral a cenário  atual não pode ser a humilhação dos fiéis nem a transformação das comunidades em tribunais eleitorais. A missão da Igreja é formar consciências, promover o estudo, favorecer o diálogo e oferecer critérios para o discernimento moral. Isso exige comunidades capazes de acolher perguntas difíceis, confrontar desinformação e discutir problemas concretos sem converter a divergência partidária em motivo de exclusão. O batismo não torna ninguém politicamente infalível, e a escolha de um partido, considerada isoladamente, não permite concluir que alguém deixou de ser católico. O discernimento requer examinar propostas, práticas, consequências e circunstâncias, reconhecendo que pessoas de boa-fé podem chegar a conclusões diferentes. Ao mesmo tempo, o respeito à pluralidade não obriga a Igreja a tratar como moralmente indiferente qualquer escolha ou projeto. Quando estão em jogo a dignidade humana, a violência, a corrupção, a exploração e os direitos fundamentais, o silêncio pastoral pode comprometer a credibilidade do testemunho cristão. A Igreja não deve fabricar eleitores obedientes, mas formar discípulos capazes de pensar, avaliar, servir e assumir a responsabilidade por suas escolhas. A questão, portanto, não é se um católico deve ter posição política, mas se essa posição continua aberta à correção pela verdade e pelos valores que afirma professar. É possível: 

  1. Defender um candidato sem transformá-lo em salvador.
  2. Apoiar um partido sem ignorar seus erros 
  3.  discordar de bispos sem desprezar toda a tradição da Igreja. 
O que não se sustenta cristãmente é exigir que o Evangelho permaneça em silêncio sempre que suas exigências contrariem os interesses do próprio grupo. A Eucaristia não é instrumento de propaganda, a comunidade cristã não é propriedade de uma legenda e Jesus Cristo não pode ser reduzido a símbolo de uma campanha. Em última análise, a fidelidade cristã não se mede pela intensidade com que defendemos nossos aliados, mas pela coerência com que buscamos a verdade, praticamos a justiça, exercemos a misericórdia e reconhecemos a dignidade até daqueles com quem discordamos. Quando a política exige que abandonemos esses compromissos para preservar nossa lealdade partidária, não é o Evangelho que precisa ser adaptado. É nossa maneira de fazer política que precisa passar por uma profunda conversão.
DNonato - Pela Democracia, ainda Católico Romano e Eleitor brasileiro 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,31-37

O Evangelho nos conduz hoje a Cafarnaum, cidade às margens do lago da Galileia, onde Jesus entra numa sinagoga e ali manifesta a força da sua palavra. O evangelista Lucas destaca que todos ficavam admirados, pois Ele ensinava “com autoridade”, e não como os mestres religiosos de sua época. O episódio do homem possuído que se levanta e grita diante de Jesus revela o confronto decisivo: o Reino de Deus se põe diante do império do mal, e o mal, embora grite e se agite, não resiste.

Este texto é proclamado na liturgia da terça-feira da 22ª semana do Tempo Comum, mas também ressoa em outros momentos do ciclo litúrgico, especialmente quando se recorda o início do ministério de Jesus. Faz parte de um conjunto de textos em que a Igreja nos apresenta Cristo como Aquele que, ungido pelo Espírito em Nazaré, agora passa a realizar concretamente a libertação prometida. É como se a liturgia quisesse nos recordar, em meio à rotina dos dias, que a missão da Igreja é prolongar esta autoridade que liberta e não que aprisiona, que cura e não que controla, que gera vida e não exploração.

O contexto imediato é importante: em Nazaré, Jesus havia lido o rolo de Isaías, proclamando que fora enviado para anunciar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19). Os seus conterrâneos não aceitaram sua palavra e tentaram matá-lo. Diante da rejeição, Ele segue para Cafarnaum, e ali sua palavra encontra espaço e produz libertação. A rejeição em Nazaré contrasta com a acolhida em Cafarnaum, revelando que a missão de Jesus só pode frutificar onde há abertura de coração.

Os sinóticos nos ajudam a alargar a compreensão. Marcos 1,21-28 narra a mesma cena: Jesus ensina na sinagoga, e o povo fica admirado com sua autoridade, pois até os espíritos impuros lhe obedecem. Mateus, embora não traga esse episódio, termina o Sermão da Montanha com a mesma nota: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Essa convergência mostra que, desde o início, os evangelistas querem sublinhar que a autoridade de Jesus não está ligada a um cargo ou a uma instituição, mas à sua própria pessoa, à sua vida coerente e à sua união com o Pai.

A questão hermenêutica fundamental é: de onde vem a autoridade de Jesus? Não era uma autoridade política, porque não ocupava cargos. Não era uma autoridade religiosa institucional, porque não fazia parte da elite sacerdotal nem do grupo dos escribas. Sua autoridade vinha do Espírito Santo, que o ungiu no batismo e o conduziu no deserto. Vinha da coerência entre a sua palavra e a sua vida. Vinha do amor que se tornava concreto em compaixão, em cuidado, em proximidade. É por isso que as pessoas simples o reconhecem, enquanto as elites o rejeitam.

O grito do espírito impuro — “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” — ecoa como resistência do mal diante da luz. Psicologicamente, podemos ver nesse grito a reação da sombra, aquilo que Jung descreve como a parte reprimida e não integrada do ser humano. Quando a luz de Cristo se aproxima, nossas sombras não suportam, e se agitam. O processo de libertação passa pela revelação daquilo que estava oculto. Não há cura sem desvelamento. Jesus obriga o mal a se mostrar, a sair das sombras, para que o homem possa ser restituído à sua verdadeira identidade.

Sociologicamente, esse “espírito impuro” pode ser lido como símbolo das ideologias e estruturas que oprimem os povos. Pode ser a idolatria do mercado que transforma a fé em mercadoria, como vemos na teologia da prosperidade que promete bênçãos em troca de dízimos, transformando Deus em um contrato comercial. Pode ser a teologia do domínio, que busca o poder político para impor a fé, negando a liberdade de consciência. Pode ser o individualismo, que fecha cada pessoa em seu próprio mundo e a impede de viver a comunhão. Pode ser também o clericalismo, esse mal dentro da própria Igreja, que transforma o ministério em privilégio, que fala em nome de Deus, mas oprime o povo com pesos que ele mesmo não carrega. Esse espírito impuro está dentro da sinagoga, no espaço religioso. E não é justamente isso que vemos hoje, quando a Igreja se deixa contaminar por ideologias de poder, quando o altar se torna palco, quando a liturgia vira espetáculo?

Do ponto de vista filosófico, é útil recordar a distinção entre potestas e auctoritas já feita no mundo romano. Potestas é o poder imposto pela força; auctoritas é o reconhecimento de uma vida que inspira confiança. Jesus não tem potestas, mas tem auctoritas. Sua palavra não precisa de coerção porque é verdade. Hannah Arendt dizia que a autoridade só existe onde há reconhecimento, e que desaparece quando precisa se impor pela violência. A autoridade de Jesus não é violenta, mas gera adesão. É a força da verdade que atrai.

A patrística ilumina ainda mais. São Cirilo de Jerusalém lembrava que os demônios reconhecem Jesus como “Santo de Deus”, mas não por amor, e sim por medo. Saber quem Ele é não basta: é preciso segui-lo. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo”, e aqui vemos a glória de Deus quando o homem liberto volta a ser ele mesmo, não mais escravo do mal. São João Crisóstomo sublinhava que a palavra de Cristo é simples, mas poderosa, porque nasce da coerência entre vida e anúncio. É um convite para a Igreja hoje: mais do que discursos pomposos, precisamos de testemunho coerente.

O Magistério da Igreja ressoa essa mensagem. A Gaudium et Spes (n. 37) recorda que “toda a história humana está impregnada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de transformar a missão em negócio, advertindo contra a “mundanidade espiritual” que esvazia a força do Evangelho. A Fratelli Tutti insiste que a verdade deve ser buscada sempre no amor e na fraternidade, contra toda manipulação e mentira. Quando olhamos para a cena da sinagoga de Cafarnaum, vemos que ela continua a se repetir na história: o Cristo liberta, mas os poderes resistem; o povo se admira, mas muitos preferem a escravidão.

Há também um paralelo litúrgico a destacar. Quando rezamos o Pai-Nosso e pedimos: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, estamos ecoando a experiência daquele homem da sinagoga. Ele foi liberto porque o Cristo estava presente. Na liturgia, Cristo continua presente, sua palavra continua a expulsar os demônios que nos cercam. Mas é preciso abrir-se a Ele, deixar que sua autoridade toque nossa vida.

É também importante recordar os paralelos com outras expulsões de demônios. O possesso geraseno (Mc 5,1-20; Lc 8,26-39) mostra que o mal pode escravizar não apenas uma pessoa, mas toda uma comunidade, representada pela legião. A libertação gera medo, e a cidade expulsa Jesus, preferindo conviver com os porcos a acolher a liberdade. Em Mateus 12,28, Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus”. Cada exorcismo é um sinal escatológico: o Reino está presente, e as forças do mal perdem espaço.

Hoje, esse Evangelho é uma convocação profética. Ele nos chama a não ter medo do mal, mas a cultivar o bem. A autoridade de Jesus não se compra, não se negocia, não se impõe; ela se acolhe. É preciso deixar que essa autoridade nos liberte também de nossos próprios demônios: a ganância, o ódio, a indiferença, a tentação de manipular a fé. É preciso deixar que sua palavra nos contamine de amor, para que possamos contagiar o mundo com a força do bem.

O povo exclamava: “Que palavra é esta?” Essa pergunta continua aberta. O que a palavra de Jesus é para nós? Espetáculo ou vida? Curiosidade ou seguimento? O espírito impuro grita: “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré?” E nós, que resposta damos? Queremos mantê-lo à distância ou deixamos que Ele nos toque e nos liberte?

O mal pode gritar, mas não terá a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, e essa palavra é vida, é liberdade, é amor. É a autoridade de Cristo que continua a nos libertar. Que hoje, ao ouvir este Evangelho, possamos acolher essa autoridade em nós, e viver como testemunhas de um Reino que não se compra, não se negocia e não se vende, mas que se constrói na coerência entre palavra e vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,1-13

O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que  ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado  no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48  proclamado  no 19º Domingo do Tempo Comum;  Lucas 12, 35-38 proclamado  na  terças-feira e  Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira  da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado  na  quinta-feira  da  21ª semana do Tempo Comum  apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier.  Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho: 

  1. Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11. 
  2. Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel. 
  3. Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13. 
  4. Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares. 
  5. Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.

Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir: 
  1. Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
  2.  Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida.  É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.

A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial: 
  • Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
  • Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade. 
  • Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança. 
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo:  “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.

As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.

E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência: 
  • Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
  • O  Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
  •  Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
  •  Hebreus 10,36 chama à perseverança. 
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos.  É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.

Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
  • Levítico 19,18 manda amar o próximo
  • Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
  •  Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
  • Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta. 
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir.  Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.

Por isso, a resposta do esposo  “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.

É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.

Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.

A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade: 
  • Porque as virgens perguntam se estamos preparados
  •  A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
  •  O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
 Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder.  A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.

Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.

Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária: 
  • Há óleo em nossa lâmpada? 
  • Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando? 
  • Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão? 
  • Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros? 
  • Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões? 
  • Nossa autoridade serve ou domina? 
  • Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
 Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho. 

A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.

A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.

Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano