domingo, 27 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,46-50.

A liturgia da 26ª segunda-feira do Tempo Comum  no trás Lucas 9,46-50 no calendário romano. O Evangelho é proclamado depois da primeira leitura de Jó 1,6-22 e do Salmo 16(17), e aparece imediatamente depois de Lucas 9,43b-45, proclamado no sábado anterior, quando Jesus anuncia novamente que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. Essa sequência litúrgica é importante porque impede que a discussão dos discípulos sobre quem seria o maior seja lida como um episódio isolado. Lucas coloca a disputa por grandeza imediatamente depois do anúncio da paixão, criando um contraste deliberadamente desconcertante: 

  • Enquanto Jesus fala de entrega, os discípulos pensam em posição
  • Enquanto o Mestre anuncia vulnerabilidade, eles discutem precedência
  • Enquanto Jesus caminha para Jerusalém e para a cruz, seus seguidores ainda carregam dentro de si uma expectativa de poder. 
O calendário litúrgico, portanto, permite perceber uma unidade narrativa que o leitor poderia perder se separasse artificialmente os episódios. Outras tradições cristãs históricas organizam suas leituras de maneira diferente, pois não existe um único lecionário utilizado por todas as Igrejas, mas a diversidade dos calendários não elimina a convergência fundamental em torno da tradição evangélica: Jesus redefine a grandeza, deslocando-a do domínio sobre os outros para a capacidade de acolher, servir e colocar-se junto daqueles que não ocupam posições de prestígio. Lucas conduz o leitor até essa cena por um caminho cuidadosamente construído. Em Lucas 9,1-6, proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, Jesus envia os Doze para anunciar o Reino de Deus e curar os enfermos. Em Lucas  9,10-17, a multidão faminta coloca diante dos discípulos uma necessidade concreta que eles não podem simplesmente transferir para outro lugar. O problema do pão passa a fazer parte da missão e em Lucas  9,18-22 na sexta-feira da 25ªsemanadoTempoComum, Pedro reconhece Jesus como o Cristo, mas imediatamente precisa aprender que o Messias não corresponde às expectativas triunfalistas que poderiam acompanhar esse título logo após Lucas 9, 7-9 quando Herode deseja saber quem é Jesus. 
Jesus ao  anunciar sua paixão, a cruz e a necessidade de perder a vida para encontrá-la tal contexto ocorre  com os discípulos  logo apos lucas  9,28-36, a transfiguração manifesta a glória do Filho, mas a experiência da glória não elimina o caminho do sofrimento. Logo depois, quando todos estão admirados com as obras realizadas por Jesus, ele declara que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. É exatamente nesse momento que os discípulos começam a discutir sobre quem seria o maior. A sequência revela uma contradição profundamente humana: Jesus está ensinando uma lógica de entrega, enquanto eles ainda raciocinam segundo uma lógica de posição. O Evangelho não esconde essa imaturidade porque não pretende construir uma imagem idealizada dos primeiros discípulos. Ao contrário, mostra homens que amam Jesus, recebem uma missão e, simultaneamente, precisam permitir que sua maneira de pensar seja transformada pelo caminho do Mestre.

Lucas  ao afirma que surgiu entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior,  não se trata simplesmente de uma curiosidade sobre cargos ou funções. A pergunta revela uma forma de construir identidade por meio da comparação. A pessoa deseja saber quem é perguntando onde está em relação aos outros, a grandeza passa a depender da posição ocupada numa escala de reconhecimento e  esse mecanismo não pertence apenas ao mundo antigo. Ele continua presente na experiência humana contemporânea, nas relações familiares, profissionais, políticas, religiosas e digitais. A comparação pode produzir competição permanente porque o valor pessoal passa a depender da superioridade percebida diante de alguém. 

  • Em vez de perguntar quem sou e para que existo, o indivíduo passa a perguntar se é mais reconhecido, mais influente, mais inteligente, mais rico, mais importante ou mais próximo do centro do poder do que os outros. 

A disputa dos discípulos, portanto, possui uma dimensão antropológica e psicológica profunda. Eles não estão apenas discutindo posições; estão tentando estabelecer seu próprio valor dentro do grupo. A linguagem bíblica do coração ajuda a compreender a profundidade dessa questão, na Escritura, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o centro da pessoa, onde desejos, decisões, projetos e orientações fundamentais se articulam. 

  • Jeremias 17,10 apresenta Deus como aquele que perscruta o coração e examina os pensamentos.
  • O Salmo 139 afirma que Deus conhece os caminhos humanos antes mesmo que sejam plenamente expressos. 
Jesus, portanto, não precisa apenas corrigir o comportamento externo dos discípulos. Ele precisa atingir a fonte interior da disputa. A ambição pode aparecer revestida de linguagem religiosa e até de aparência de serviço. Alguém pode pregar para ser admirado, estudar para humilhar quem sabe menos, coordenar para controlar, servir para acumular reconhecimento ou ocupar um ministério para transformar uma responsabilidade comunitária em território pessoal. A autoridade, entretanto, não é apresentada por Jesus como um mal em si mesma. Toda comunidade necessita de responsabilidades, organização, liderança e discernimento. O problema começa quando a missão se transforma em propriedade, quando a autoridade deixa de ser serviço e passa a funcionar como mecanismo de autopromoção, imunidade ou domínio sobre a consciência dos outros. É nesse contexto que Jesus realiza um gesto simples e profundamente subversivo. Ele toma uma criança, coloca-a junto de si e utiliza aquela presença para ensinar aos discípulos o que significa ser grande. Para compreender o gesto, é necessário evitar uma leitura sentimental que simplesmente projete sobre o mundo antigo a imagem moderna da criança como centro afetivo da família. No ambiente mediterrâneo do primeiro século, a criança dependia profundamente dos adultos e possuía pouca autonomia social, econômica e jurídica. Não representava prestígio, poder ou capacidade de retribuição. Sua condição era marcada pela dependência. Por isso, o gesto de Jesus não deve ser reduzido à ideia abstrata de que crianças são inocentes e, por isso, devemos imitá-las. O ponto narrativo é mais radical: Jesus coloca no centro alguém que não ocupava o centro. Ele introduz na discussão sobre grandeza uma pessoa cuja posição social não conferia prestígio. Aquele que os discípulos provavelmente não escolheriam como referência para uma disputa de poder torna-se a chave para compreender a grandeza no Reino de Deus.

Jesus não responde à pergunta sobre quem é o maior colocando alguém acima dos demais; ele coloca uma criança no meio deles e, assim, muda a própria pergunta. Essa inversão é essencial. O Reino de Deus não cria uma competição religiosa mais sofisticada na qual os humildes competem para demonstrar quem é o mais humilde. Jesus desmonta a própria lógica que transforma a dignidade em uma escala de superioridade. A criança torna-se sinal de uma condição que exige acolhimento, cuidado e responsabilidade. A grandeza passa a ser medida não pelo domínio exercido sobre aqueles que estão abaixo, mas pela disposição de aproximar-se daqueles que não possuem poder para oferecer prestígio em troca. Por isso, a palavra de Jesus sobre receber uma criança em seu nome possui uma profundidade cristológica. Quem recebe uma criança em nome de Jesus recebe o próprio Jesus, e quem recebe Jesus recebe aquele que o enviou. A cadeia da acolhida revela uma teologia da presença e da missão: o enviado não está separado daquele que o envia. Acolher aquele que não pode retribuir torna-se, portanto, uma forma concreta de acolher o próprio Deus. A lógica atravessa toda a Escritura. 

  • Êxodo 3,7-10, Deus escuta o clamor dos escravizados e envia Moisés para libertá-los. 
  • Isaías 58,6-7, o culto agradável ao Senhor está ligado ao rompimento das opressões, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre. 
  • Amós 5,21-24 denuncia uma religiosidade que celebra solenidades enquanto tolera injustiça e exige que a justiça corra como água. 
  • Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. 
  • No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes. 
  • Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão em termos de boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e restauração aos oprimidos.
 A criança de Lucas 9 pertence, portanto, à mesma gramática bíblica da inversão pela qual Deus revela sua presença justamente onde a lógica do prestígio tende a enxergar pouca importância. Quando Jesus afirma que o menor entre todos é grande, ele não está simplesmente criando uma nova tabela de posições. Ele está questionando o próprio princípio segundo o qual o valor humano depende do lugar ocupado diante dos outros. 

  • Marcos 9,33-37 torna explícita a relação entre o primeiro lugar e o serviço, afirmando que quem deseja ser o primeiro deve ser o último e servo de todos. 
  • Mateus 18,1-5 aproxima a pergunta sobre quem é o maior da criança e relaciona essa questão à conversão e à acolhida dos pequenos.
 Lucas possui sua própria ênfase narrativa: coloca a criança ao lado de Jesus e estabelece uma relação entre acolhida, missão e representação daquele que enviou o Filho. As diferenças entre os Evangelhos não precisam ser apagadas em uma harmonização artificial. Marcos enfatiza o serviço, Mateus aprofunda a conversão comunitária e a responsabilidade pelos pequenos, enquanto Lucas relaciona a acolhida do pequeno com a própria acolhida de Jesus e do Pai. As três tradições preservam, entretanto, a mesma ruptura fundamental com uma mentalidade baseada no prestígio. A grandeza cristã, desse modo, não consiste em ocupar uma posição superior, mas em assumir uma existência orientada para o outro. Isso muda também a compreensão da autoridade. O Evangelho não elimina autoridade, liderança ou organização; ele redefine sua finalidade. A autoridade cristã encontra sua legitimidade quando protege, serve, orienta, corrige com justiça, presta contas e cria condições para que os outros cresçam. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para servir e para responder diante daqueles que dependem daquela autoridade. Em Marcos 10,42-45, Jesus contrapõe o modelo dos governantes que dominam ao caminho do Filho do Homem que serve. Em João 13,1-17, o lava-pés transforma essa lógica em gesto corporal. O poder, no Evangelho, não desaparece; ele é convertido em serviço. Quando uma função religiosa passa a funcionar como privilégio, blindagem pessoal ou instrumento de dependência, ela se distancia da lógica apresentada pelo próprio Cristo.

A segunda cena de Lucas 9,46-50 parece mudar de assunto, mas na verdade revela a mesma raiz espiritual. João informa que os discípulos encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque ele não caminhava com eles. O problema agora não é apenas quem é o maior dentro do grupo, mas quem possui o direito de agir fora dele. Primeiro os discípulos querem saber quem ocupa o primeiro lugar entre os seus; depois querem impedir alguém que não pertence ao círculo. Em ambos os casos aparece a mesma tentação de controlar a definição de quem importa, quem pertence e quem pode participar da ação de Deus. A expressão “não anda conosco” é reveladora porque desloca o centro da missão: em vez de perguntarem se uma pessoa está libertando alguém do sofrimento, preocupam-se com sua vinculação ao grupo. Jesus rejeita essa lógica. O bem realizado por outro não precisa carregar a assinatura dos discípulos para ser reconhecido como bem. A questão não significa que Jesus esteja ensinando ausência de discernimento. O Novo Testamento conhece a necessidade de examinar os espíritos, avaliar ensinamentos e distinguir verdade de engano. Primeira João 4,1, por exemplo, recomenda que os espíritos sejam provados. Paulo também oferece critérios para discernir a vida comunitária e seus frutos. O problema é transformar discernimento em monopólio. Discernir significa avaliar segundo a verdade e os frutos; monopolizar significa presumir que somente aquilo que passa pelo nosso controle pode ser legítimo. Lucas 9,50 preserva uma palavra de Jesus que impede essa captura da ação de Deus: “quem não é contra vós é a vosso favor”. A fidelidade a Cristo não significa controlar tudo aquilo que Deus pode realizar por meio de pessoas que não pertencem ao nosso círculo.

Essa advertência possui grande força para as comunidades cristãs contemporâneas. Toda religião organizada corre o risco de transformar fidelidade em propriedade. Um ministério pode tornar-se território pessoal, um carisma pode transformar-se em marca, uma liderança pode exigir dependência emocional e uma estrutura religiosa pode começar a agir como se Deus estivesse obrigado a respeitar suas fronteiras institucionais. O problema torna-se ainda mais grave quando a linguagem espiritual é utilizada para capturar a consciência. A autoridade religiosa pode ser apresentada como vontade divina, a discordância pode ser chamada de rebeldia, perguntas legítimas podem ser tratadas como falta de fé e vítimas podem ser silenciadas em nome da preservação da instituição. Nesse ponto, a religião deixa de conduzir a pessoa à liberdade diante de Deus e começa a produzir dependência diante de líderes.

Jesus oferece outro caminho. Ele não permite que seu nome seja transformado em propriedade privada ou em cabo eleitoral de A ou B. Sua missão não é criar uma elite religiosa capaz de controlar o acesso ao sagrado, mas anunciar e manifestar o Reino de Deus. A comunidade cristã precisa, portanto, aprender a discernir sem controlar, corrigir sem humilhar, exercer autoridade sem dominar e proteger a verdade sem fabricar donos de Deus. O Evangelho não autoriza ninguém a colocar-se no lugar da consciência do outro. A fé cristã pode orientar, ensinar e corrigir, mas não deve transformar o nome de Deus em instrumento para impedir a responsabilidade pessoal, a investigação honesta e a dignidade humana.  Jesus viveu em uma sociedade mediterrânea estruturada por relações de honra e vergonha, patronagem, hierarquias familiares, diferenças econômicas e formas religiosas de pertencimento. A Galileia e a Judeia estavam inseridas no mundo político do Império Romano, embora apresentassem configurações locais complexas e diferentes níveis de administração e autonomia. Nesse universo, honra pública constituía importante forma de capital social. Ser reconhecido como maior significava possuir precedência, voz, influência e capacidade de estabelecer relações favoráveis. A pergunta dos discípulos não é, portanto, uma curiosidade psicológica desligada do mundo social. Ela participa de uma cultura em que posição e dignidade frequentemente se confundiam. Jesus interrompe essa associação. Ele não afirma que responsabilidades sejam desnecessárias, mas recusa a ideia de que uma pessoa seja mais digna porque ocupa uma posição superior.

Ainda hoje a grandeza pode ser medida por seguidores nas redes sociais, patrimônio, visibilidade, cargo, títulos, influência política, proximidade com pessoas poderosas, consumo ou capacidade de produzir audiência. A atenção tornou-se uma espécie de moeda social. Nesse ambiente, o outro pode deixar de ser próximo para tornar-se concorrente, e o valor da pessoa pode ser calculado segundo aquilo que ela consegue produzir, exibir ou devolver. A lógica de Lucas 9 nos obriga a perguntar quem permanece invisível quando construímos nossas prioridades. A pessoa em situação de rua pode ser vista apenas como problema urbano; o migrante pode ser reduzido a estatística; o trabalhador precarizado pode ser lembrado somente quando sua ausência interrompe algum serviço; a criança vítima de violência pode desaparecer do debate quando sua história deixa de produzir audiência. A criança colocada por Jesus no centro da cena questiona precisamente uma sociedade que tende a conceder visibilidade proporcionalmente ao poder de quem aparece. E essa inversão também desafia a incoerência de uma sociedade que afirma proteger os vulneráveis enquanto tolera fome, abandono, violência, exploração, racismo, desigualdade e falta de oportunidades. Uma comunidade pode construir estruturas religiosas grandiosas e permanecer indiferente ao sofrimento cotidiano. Pode falar continuamente sobre família e ignorar crianças expostas à violência. Pode defender a vida em linguagem abstrata e, ao mesmo tempo, não se comprometer com as condições concretas necessárias para que a vida floresça. Tiago 2,14-17 pergunta qual é o valor de uma fé que deseja paz ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. A nossa  fé  não devia  permitir a  separação  entre o culto e a justiça. A fé não pode funcionar como anestesia diante das estruturas que produzem sofrimento.

A Igreja necessita de ministérios, responsabilidades, organização e autoridade. O problema aparece quando a função se converte em privilégio, quando a autoridade passa a significar imunidade à correção, quando a voz de quem sofre é considerada menos digna de escuta simplesmente porque não possui cargo ou título, ou quando uma instituição protege sua imagem em detrimento da verdade. Jesus coloca uma criança ao lado de si, e esse gesto estabelece uma medida para o exercício do poder. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para proteger os vulneráveis, prestar contas e ouvir aqueles que possuem menos voz. A autoridade cristã não deveria perguntar primeiro quantas pessoas obedecem, mas quantas pessoas encontram proteção, dignidade, liberdade e espaço para crescer.

A narrativa de Lucas mostra que essa conversão não acontece de uma vez e em  Lucas 9,51, Jesus toma a decisão de caminhar para Jerusalém. O caminho do Messias será marcado por rejeição, sofrimento, morte e ressurreição. A discussão sobre grandeza ocorre, portanto, diante de uma cruz que os discípulos ainda não conseguem compreender. Mais tarde, em Lucas 22,24-27, já próximo da paixão, eles voltam a discutir sobre quem seria o maior. Jesus responde novamente que está entre eles como aquele que serve e essa repetição é teologicamente importante porque mostra que o discipulado é um processo. Os discípulos recebem a missão, experimentam o poder de anunciar, presenciam milagres, reconhecem Jesus como Messias e, mesmo assim, continuam carregando estruturas de pensamento incompatíveis com o caminho da cruz. O Novo Testamento não esconde esse processo. A comunidade apostólica aprende, erra, discerne, entra em conflito e precisa ser corrigida. Essa honestidade impede tanto a arrogância institucional quanto o desespero diante das fragilidades humanas. A pergunta profética que nasce de Lucas 9,46-50, portanto, não é simplesmente quem ocupa o primeiro lugar. A pergunta mais profunda é:

  •  Quem está sendo colocado no centro quando decidimos, distribuímos recursos, exercemos autoridade e definimos quem merece ser ouvido.
  1.  Uma paróquia pode possuir muitas atividades e ainda estar organizada em torno da visibilidade de poucos
  2.  Um movimento pode denunciar injustiças externas e reproduzir autoritarismo internamente
  3. Uma liderança pode falar constantemente sobre humildade e produzir dependência. 
  4. Uma instituição pode defender a dignidade humana em seus documentos e tratar pessoas concretas como inconvenientes quando elas ameaçam sua imagem. 
O Evangelho exige que também examinemos o modo como utilizamos o poder quando ele passa por nossas mãos, não basta denunciar o poder quando está nas mãos dos adversários, a pergunta de Jesus torna-se especialmente séria quando o poder está do nosso lado..Também é necessário reconhecer o mecanismo que sustenta muitas dessas disputas. A comparação oferece ao indivíduo uma maneira aparentemente simples de definir seu valor: 

  • Sou alguém porque sou mais reconhecido do que outro. 
  • porque tenho mais influência.
  • porque minha opinião pesa mais
  •  porque pertenço a um grupo considerado superior. 
O problema é que essa identidade precisa ser constantemente defendida. Quem constrói seu valor sobre superioridade precisa encontrar continuamente alguém que esteja abaixo. O Evangelho rompe esse mecanismo ao substituir a pergunta “sou maior que quem?” por outra completamente diferente: “a quem estou servindo?”. A primeira pergunta constrói identidade por comparação; a segunda constrói identidade por responsabilidade. Na lógica de Jesus, a maturidade não consiste em vencer a competição pela humildade, mas em deixar de precisar da competição para saber quem somos. Por isso, Lucas 9,46-50 permanece como palavra de juízo e também como palavra de esperança. 

  • É juízo contra a soberba que transforma serviço em autopromoção, contra a religião que fabrica donos de Deus, contra a instituição que esquece os pequenos e contra a comunidade que confunde unidade com uniformidade. 
  • Mas é também esperança porque Jesus não abandona os discípulos por causa de sua imaturidade. Ele os educa. Coloca o pequeno no centro, amplia o horizonte da missão e ensina que o bem não precisa carregar nossa assinatura para ser reconhecido como bem. 
O Reino de Deus cresce quando pessoas encontram libertação, quando vítimas são ouvidas, quando famintos recebem pão, quando crianças são protegidas, quando pobres recuperam dignidade e quando comunidades aprendem a servir sem exigir aplausos. O contraste entre Lucas 9,43b-45 e Lucas 9,46-50 continua sendo  uma das imagens mais fortes para compreender o discipulado cristão. Jesus anuncia que será entregue, enquanto os discípulos discutem quem será o maior. O Filho do Homem caminha em direção à vulnerabilidade, enquanto seus seguidores ainda imaginam a grandeza como posição. A cruz revela, então, o verdadeiro critério da autoridade cristã. O Cristo que será entregue não conquista sua grandeza dominando os outros, mas oferecendo-se por eles. Por isso, qualquer autoridade cristã que se afaste radicalmente da lógica da entrega perde o centro cristológico de sua própria legitimidade. A cruz não é apenas um acontecimento do passado; ela é também o critério pelo qual o poder cristão deve ser julgado.

Que este Evangelho atravesse nossas consciências como palavra viva e revele as disputas escondidas em nosso coração, as estruturas que produzem pequenos e as formas religiosas pelas quais tentamos transformar Deus em instrumento de poder. Que a Igreja tenha coragem de renunciar ao prestígio que não nasce do serviço e reconheça a ação de Deus onde a vida está sendo restaurada, mesmo quando essa ação não acontece dentro das fronteiras que gostaríamos de controlar. Que nossas comunidades sejam conhecidas não pelo tamanho de seus templos, pela celebridade de seus líderes, pela força de suas marcas ou pela quantidade de pessoas que conseguem reunir, mas pela maneira como acolhem aqueles que nada podem oferecer em troca. A grandeza cristã não se encontra acima do outro, mas junto dele; não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que encontram espaço para respirar, crescer e recuperar dignidade. Na  verdade, Jesus não apenas responde à pergunta dos discípulo e as nossas; ele desmonta a pergunta quando ela nasce de uma lógica de competição. A criança colocada no centro revela que o Reino não começa quando os poderosos aprendem a parecer humildes, mas quando aqueles que normalmente seriam empurrados para a margem passam a ser vistos, ouvidos e acolhidos. A segunda cena amplia a mesma revelação ao mostrar que Deus não pode ser aprisionado pelas fronteiras de um grupo. Assim, o Evangelho confronta simultaneamente nossa necessidade de superioridade e nossa necessidade de controle. Ele nos chama a abandonar a obsessão por estar acima e a desenvolver a disposição de estar junto. Diante do Deus revelado em Jesus, toda autoridade encontra sua verdade quando se faz serviço, toda fé encontra sua autenticidade quando produz misericórdia e toda comunidade encontra sua grandeza quando sabe acolher o pequeno. A pergunta permanece diante de cada discípulo e de cada comunidade: quem estamos colocando no centro e quem estamos empurrando para a margem? A resposta será encontrada menos em nossas palavras religiosas do que na maneira como usamos o poder, tratamos os vulneráveis, reconhecemos o bem realizado por outros e organizamos nossa própria vida. Enquanto Jesus caminha para a entrega de si, o discípulo é convidado a abandonar a disputa por posição e aprender, pouco a pouco, que no Reino de Deus a verdadeira grandeza não consiste em estar acima de alguém, mas em tornar-se presença de cuidado, justiça e misericórdia junto daqueles que o mundo insiste em considerar pequenos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.