Jesus, a caminho de Jerusalém, fala aos discípulos não de um amanhã distante, mas de um agora que se abre ao definitivo. “Como foi nos dias de Noé, assim acontecerá também nos dias do Filho do Homem.” O evangelista não evoca uma cronologia, mas uma analogia: em Noé e em Ló, o Cristo revela o drama da distração espiritual. Nos tempos de Noé, diz o texto, “comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento”, e em Ló, “compravam, vendiam, plantavam e construíam” (Lc 17,27–28). Nada há de moralmente errado em comer ou casar-se, vender ou construir; o problema é o fechamento, a anestesia do coração que perde o sentido do transcendente.
A exegese de Lucas 17 mostra o contraste entre o cotidiano humano e o súbito advento de Deus. A expressão “como um relâmpago que brilha de um lado ao outro do céu” (v. 24) é imagem semítica da manifestação divina: em Daniel 7, o “Filho do Homem” vem sobre as nuvens; em Ezequiel 1, o relâmpago precede a visão da glória; em Mateus 24,27, o mesmo símbolo aparece para expressar a imprevisibilidade da parusia. O relâmpago é luz e ruptura, epifania e julgamento.
Na hermenêutica lucana, o “dia do Filho do Homem” não é apenas futuro; é também presente. A presença do Cristo já inaugura o tempo escatológico. A parusia não é mera espera, mas a consciência de que o Reino se faz entre nós — invisível, silencioso, operante. Aqui se conecta com a leitura da véspera (Lc 17,20–25), em que Jesus afirma: “O Reino de Deus não vem de modo visível... porque o Reino está entre vós.” A palavra grega entos hymōn pode significar “no meio de vós” ou “dentro de vós”. Lucas cria assim uma tensão entre interioridade e presença comunitária: o Reino é mistério interior e prática social.
No contexto do século I, essa pregação era radical. Os discípulos viviam sob o Império Romano, entre a dominação econômica e o messianismo político. Havia grupos religiosos que esperavam um Messias guerreiro; outros, um libertador nacionalista. Jesus desmonta ambas as expectativas: o Filho do Homem não chega com exércitos, nem com espetáculos. Ele vem como relâmpago, não como desfile; como luz que corta o escuro da história, não como poder que impõe domínio.
Os exemplos de Noé e Ló ganham força quando lidos à luz da antropologia bíblica: são narrativas que falam de recomeço, purificação e discernimento. Noé representa o homem justo que escuta a voz divina mesmo quando o mundo zomba; Ló, o homem salvo pelo fio da misericórdia, mas cuja mulher, voltando o olhar, se perde na nostalgia do passado. A “mulher de Ló”, transformada em estátua de sal, é símbolo da alma paralisada pelo medo de deixar o que precisa ser abandonado. O sal, que deveria conservar a vida, aqui petrifica — metáfora do coração endurecido pela saudade de uma segurança antiga.
A psicologia junguiana ajuda a compreender esse gesto: o “olhar para trás” é o apego ao inconsciente arcaico, à sombra que não aceita o novo. A conversão requer travessia, e a travessia exige perda. Por isso, Jesus diz: “Quem tentar conservar a própria vida vai perdê-la; quem a perder, a salvará.” Essa sentença paradoxal é o centro do discipulado. Ela ecoa em Mc 8,35 e Mt 16,25, e encontra raiz em Gn 12,1, quando Deus diz a Abraão: “Sai da tua terra.” O Reino nasce sempre de uma saída.
A sociologia da religião ajuda a ler o texto como denúncia da alienação. O povo de Noé e de Ló não eram pecadores por ignorar ritos, mas por viverem centrados no próprio umbigo, fechados em ciclos de consumo e conforto. Comer, beber, comprar, vender — são verbos de uma economia que substitui o ser pelo ter. A teologia da prosperidade faz eco a esse mesmo erro: transforma o Evangelho em mercado, o altar em vitrine, a fé em investimento. Em vez de preparar o coração para o encontro com Deus, promete recompensas imediatas. O Cristo, no entanto, não vende proteção; oferece conversão.
O discurso escatológico, então, é profundamente ético e comunitário. Quando Jesus fala de “dois homens num campo, uma será levado e outro deixado”, não propõe uma fuga secreta dos bons, mas um critério de discernimento: quem vive na superficialidade será deixado nas ruínas do próprio egoísmo. A linguagem apocalíptica, com suas imagens fortes, é pedagogia simbólica. O “ser levado” é ser acolhido na comunhão; o “ser deixado” é permanecer na esterilidade da indiferença.
Santo Agostinho, em A Cidade de Deus (XX,19), vê nos dias de Noé e de Ló uma prefiguração da luta entre a cidade terrena e a celeste: a primeira busca prazer e poder; a segunda, amor e verdade. Orígenes, no Comentário a Lucas, lembra que o dilúvio e o fogo não são castigos arbitrários, mas manifestações do Amor que purifica o mundo de sua própria corrupção. João Crisóstomo, por sua vez, interpreta o “relâmpago” como a luz da consciência que, no juízo, revelará o que cada um carrega dentro: “Nada ficará escondido, pois o próprio Cristo é luz das luzes.”
Na atualidade, essa leitura se amplia. Gaudium et Spes (n. 4) recorda que “os sinais dos tempos exigem de nós discernimento constante”. O fim de que fala o Evangelho não é o aniquilamento da criação, mas a transformação de tudo em plenitude. Evangelii Gaudium (n. 93–97) alerta contra a mundanidade espiritual, isto é, o viver de aparência religiosa enquanto o coração serve aos ídolos do poder e da vaidade. E Fratelli Tutti (n. 64) denuncia que “o isolamento e a autossuficiência se tornaram novas formas de idolatria”.
A filosofia de Emmanuel Levinas ilumina esse chamado: o “dia do Filho do Homem” é o dia em que o rosto do outro me interpela e julga. Não há parusia sem responsabilidade ética. Quando o outro sofre diante de mim, o juízo já começou. Kierkegaard, por sua vez, dirá que a fé autêntica é “angústia que desperta”, não certeza anestésica. E Ricoeur lembrará que o símbolo do relâmpago revela aquilo que as palavras não contêm — o irromper de um sentido que ultrapassa toda lógica.
Jesus mostra o choque entre o tempo cíclico humano e o tempo linear de Deus. As culturas antigas temiam o fim porque viam nele o colapso da ordem; o Evangelho, porém, o transforma em promessa: o “fim” é telos, plenitude. Noé não foi chamado a fugir do mundo, mas a recriá-lo; Ló não foi salvo para fundar uma elite moral, mas para testemunhar que a vida não pode ser reduzida ao prazer imediato.
A ciência histórica ajuda a compreender que Jesus não falava de uma destruição planetária, mas do colapso de um sistema injusto. O “fogo do céu” evoca o juízo sobre as estruturas que oprimem. O império que crucifica o justo é o mesmo que devora suas cidades com idolatria. Quando os fariseus perguntam “onde acontecerá isso?”, Jesus responde: “Onde estiver o corpo, aí se reunirão os abutres.” É uma imagem chocante — e profundamente política. O corpo é o símbolo da sociedade morta pela corrupção e pela ganância; os abutres são os poderes que se alimentam da miséria.
O olhar profético de Jesus não é o da ameaça, mas o do amor que desperta. Quando diz “lembrai-vos da mulher de Ló”, ele não lança medo, mas compaixão. A recordação é convite à lucidez: não olhes para trás, não te prendas ao que apodrece. O Reino não se constrói em Sodoma nem nas seguranças de um sistema que devora os pobres. “Quem tentar salvar a própria vida vai perdê-la” (Lc 17,33) é o grito contra toda espiritualidade de autopreservação, contra toda religião de autoajuda que transforma Deus em instrumento de sucesso pessoalA teologia da prosperidade se enraíza na mesma cegueira que destruiu as cidades antigas: a idolatria do eu. Ela inverte o Evangelho, porque transforma o Deus crucificado em corretor de promessas e o seguimento de Cristo em cálculo de ganhos. O discurso escatológico de Jesus é, na verdade, o contrário disso: é o chamado à gratuidade. O Reino não se conquista, acolhe-se. Não se compra, vive-se. Por isso, toda fé transformada em produto é idolatria travestida de piedade.
Do mesmo modo, a teologia do domínio — que prega um Cristo político, armado, nacionalista — trai o Filho do Homem, porque o substitui por um César. Quando igrejas se tornam palanques, e altares se transformam em palcos de poder, o Evangelho é crucificado de novo. Jesus não veio para dominar, mas para servir. A cruz, não o trono, é o seu cetro. Como recorda Gaudium et Spes (n. 63–66), toda forma de poder que esquece o bem comum destrói a dignidade humana.
O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Papa Francisco, é outro rosto dessa mesma tentação: a busca de superioridade espiritual. Quando o ministro se coloca acima do povo, torna-se fariseu, não pastor. O “relâmpago” do Evangelho corta também os templos e as sacristias, revelando o que se esconde sob a aparência de santidade. São João Crisóstomo advertia: “O sacerdote que se serve da fé para oprimir é mais culpado que o ímpio.” A Igreja só será sinal do Reino se for serva e pobre, se lavar os pés dos que o mundo esquece.
O texto fala do medo humano do imprevisível. O inconsciente coletivo busca segurança, quer prever o futuro, dominar o destino. Mas o Evangelho ensina o contrário: a confiança nasce do abandono. “Dois estarão no campo; um será levado, outro deixado.” O campo é o símbolo do cotidiano, e o ser “levado” não é rapto, mas acolhimento do coração desperto. O “deixado” é quem permanece preso à ilusão do controle.
Hoje também vivemos o tempo de Noé: multiplicam-se os banquetes, os consumos, os templos espetaculares; poucos, porém, escutam o rumor do dilúvio. O fogo que cai sobre Sodoma não é o de enxofre, mas o das próprias injustiças acumuladas. Queimamos as florestas, secamos as fontes, tornamos o planeta Sodoma ecológica — e ainda chamamos isso de progresso. Laudato Si’ (n. 161) recorda: “A destruição do ambiente é também destruição humana.” O juízo começou.
O texto nos situa diante do mistério do tempo. Para os gregos, o tempo era chronos, sucessão mensurável; para a Bíblia, é kairos, momento decisivo. A parusia é o kairos supremo — o instante em que Deus interrompe o ciclo da repetição e revela o sentido. Por isso, Jesus usa imagens concretas: o relâmpago, o fogo, o corpo, os abutres. São metáforas que ferem o imaginário para acordar a consciência. A filosofia da existência vê aqui o “chamado do ser”: o homem é convocado a existir de modo autêntico, a escolher o essencial antes que o essencial se perca.
A patrística reconheceu nisso uma pedagogia divina. Santo Irineu dizia que “Deus não destrói, educa pela história”. Orígenes via o dilúvio como símbolo do batismo: a água que purifica e gera nova humanidade. Agostinho insistia que o juízo não é um tribunal externo, mas o despertar da verdade dentro de cada alma. “Ser julgado é ser iluminado pelo amor”, escreve ele em Confissões. E Gregório Magno lembrava: “O fogo do Senhor não consome o justo, apenas queima o supérfluo que o impede de ser luz.”
O “dia do Filho do Homem” é o ponto em que a história toca o eterno. Lucas o descreve não como terror, mas como manifestação da justiça de Deus. A revelação do juízo é o triunfo da misericórdia, porque o mal não poderá mais esconder-se. É a lógica pascal: a cruz, sinal de derrota, torna-se vitória. O relâmpago é a Páscoa em linguagem cósmica — o lampejo da ressurreição atravessando a noite do mundo.
Mas esse dia não é apenas futuro. Cada gesto de amor, cada renúncia ao ódio, é parusia antecipada. Cada vez que alguém perdoa, o Filho do Homem se manifesta. Cada vez que uma comunidade se reúne para partilhar o pão e o sofrimento, o juízo se cumpre a favor da vida. A eternidade começa no instante em que o coração desperta para o outro.
Na Fratelli Tutti (n. 215), o Papa Francisco lembra que “os reencontros e desencontros da vida são ocasiões para construir fraternidade”. O fim dos tempos, portanto, não é o colapso, mas o reencontro universal. A escatologia cristã não é medo, é esperança. Ela afirma que o amor terá a última palavra, e que toda injustiça será transfigurada.
No entanto, para que isso se cumpra, é preciso vigilância. Vigilância não como ansiedade, mas como presença desperta. “Enquanto há tempo, volte-se para o Senhor e seja vigilante.” É o chamado que ressoa desde os profetas: “Buscai o Senhor enquanto se pode achar” (Is 55,6). Amós grita: “Corra o juízo como um rio, e a justiça como torrente perene” (Am 5,24). Jesus recolhe essa tradição profética e a leva ao ápice: não basta esperar o Reino, é preciso vivê-lo agora.
Em termos históricos, Lucas escreve após a destruição de Jerusalém (70 d.C.), quando o templo ruíra e o povo se perguntava: “Onde está Deus?” A resposta do evangelho é clara: Deus não está nas pedras do templo, mas na carne ferida dos pobres. O fim de Jerusalém é símbolo do fim de toda religião que se absolutiza. O verdadeiro templo é o corpo ressuscitado de Cristo e, nele, cada vida humana.
Por isso, a leitura desse texto ao final do ano litúrgico é sempre provocação: o que fazemos com o tempo que nos resta? Que arcas construímos para atravessar o dilúvio do egoísmo? Que Ló habita em nós, relutando em deixar Sodoma? A mulher de Ló está em cada olhar que se volta para o passado por medo de arriscar a fé. E o relâmpago que rasga o céu é o mesmo que rasga o coração quando, enfim, compreendemos que não há mais tempo a perder.
O Evangelho não pede fuga do mundo, mas transformação do mundo. O juízo não é contra a carne, mas contra a indiferença. Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez 33,11). Eis o núcleo da Boa-Nova. Enquanto houver tempo, haverá esperança. Enquanto houver amor, haverá Reino.
Na aurora do fim, Jesus continua repetindo: “Lembrai-vos da mulher de Ló.” É o lembrete para não sermos estátuas de sal diante da história. É preciso mover-se, olhar para frente, participar da recriação do mundo. Noé construiu sua arca em terra seca — sinal de loucura para os acomodados, mas de fé para os que escutam. Também nós somos chamados a erguer arcas de solidariedade, pontes de reconciliação, altares de ternura.
O “relâmpago” que atravessa o céu é também a centelha que habita o interior do discípulo. Não é ameaça, é iluminação. No dia do Filho do Homem, tudo o que é mentira será dissipado, e o amor, enfim, reinará. Mas esse dia começa cada manhã em que alguém decide viver segundo o Evangelho, mesmo em meio à indiferença do mundo.
Que este tempo litúrgico, à beira do encerramento, seja ocasião de despertar. Que não nos anestesiemos nas rotinas de Noé nem nas distrações de Sodoma. Que sejamos vigilantes sem medo, confiantes sem arrogância, firmes sem fanatismo. O Cristo vem — e vem sempre — no rosto do pobre, na lágrima do cansado, no pão repartido, no silêncio da oração.
E quando o relâmpago brilhar de um lado ao outro do céu, não haverá pânico, mas reconhecimento: era Ele quem passava por nós o tempo todo.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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