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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 30 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,16-30

 
A perícope de Lucas 4,16-21 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum, quando a comunidade retoma o caminho ordinário da escuta da Palavra e do discipulado cotidiano, e aparece também em forma condensada no 3º Domingo do Tempo Comum do ano C, dia que, por iniciativa do Papa Francisco, foi instituído como o Domingo da Palavra de Deus, ressaltando a centralidade da Escritura na vida e na missão da Igreja. Além disso, o mesmo núcleo temático ressoa profundamente na Missa do Crisma, celebrada na Quinta-feira Santa, quando o bispo consagra os santos óleos e renova-se o compromisso ministerial, evocando explicitamente a unção do Espírito que configura Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar os pobres. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este texto é igualmente reconhecido como uma epifania da identidade messiânica de Jesus e como síntese programática de sua missão. A liturgia, ao situá-lo nesses momentos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas atualiza um princípio teológico fundamental: a Palavra de Deus é sempre contemporânea, sempre hoje.
A cena se insere no início do ministério público de Jesus segundo o Evangelho de Lucas. Após o batismo no Jordão, onde o Espírito desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, e após a experiência do deserto, marcada pelo confronto com as tentações que pretendiam desviar sua missão para caminhos de poder, espetáculo e domínio, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Este detalhe não é meramente descritivo, mas profundamente teológico. Ele indica que tudo o que se segue será ação do Espírito na história. O retorno a Nazaré, sua terra de origem, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um movimento simbólico de encarnação da missão no espaço concreto da vida cotidiana.
Nazaré, pequena aldeia da Galileia, estava distante dos centros de poder político e religioso como Jerusalém e Cesareia. Era um lugar marginal no mapa do mundo antigo, expressão das periferias históricas onde a vida se desenrola sob condições de invisibilidade social. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por tensões econômicas e culturais, com forte presença de camponeses submetidos à exploração tributária do Império Romano e das elites locais. A leitura desse contexto, iluminada pela história do Mediterrâneo antigo, revela que a proclamação de Jesus não ocorre em um vazio neutro, mas em um ambiente de desigualdade estrutural, opressão econômica e expectativa messiânica.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se insere na tradição viva de Israel. A sinagoga, surgida no período do exílio e consolidada no pós-exílio, era o espaço da memória coletiva, da leitura da Torá e dos Profetas, da oração comunitária e da formação da identidade do povo. O gesto de levantar-se para ler (Lc 4,16) é carregado de significado. Não se trata apenas de uma função litúrgica, mas de uma tomada de posição diante da tradição. Ele recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que proclama a unção do Espírito sobre o enviado. O texto de Isaías 61,1-2, combinado com elementos de Isaías 58,6, anuncia libertação, cura, restauração e justiça.
Quando Jesus lê “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18), ele não está apenas citando uma profecia, mas reinterpretando toda a expectativa messiânica de Israel. A unção, no mundo bíblico, designa a consagração para uma missão específica. Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de eleição divina. Aqui, porém, a unção não legitima poder político nem status religioso, mas uma missão voltada aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos. Trata-se de uma inversão radical da lógica dominante.
O termo “pobres” não deve ser reduzido a uma categoria puramente espiritual. No contexto bíblico, especialmente na tradição dos anawim, refere-se aos que são materialmente despossuídos e socialmente vulneráveis, mas também abertos à ação de Deus. A boa nova anunciada a eles é concreta, histórica, libertadora. A libertação dos cativos remete tanto à experiência do exílio quanto às diversas formas de escravidão e opressão presentes na sociedade. A recuperação da vista aos cegos evoca não apenas curas físicas, mas a iluminação interior que permite perceber a realidade à luz de Deus. A libertação dos oprimidos aponta para a ruptura de estruturas injustas.
O anúncio do “ano da graça do Senhor” remete diretamente à tradição jubilar de Levítico 25. O jubileu era um tempo de reconfiguração social, no qual as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as terras devolvidas. Era uma tentativa concreta de impedir a concentração de riqueza e restaurar a igualdade. Ao assumir esse horizonte, Jesus projeta a fé bíblica para além do ritualismo e a inscreve no campo da justiça social. A teologia se encontra com a sociologia, a espiritualidade com a economia, a liturgia com a vida.
Quando Jesus declara “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21), ele introduz a categoria do hoje como chave hermenêutica. O hoje não é apenas um tempo cronológico, mas um tempo teológico, o kairos da salvação. Em Lucas, essa categoria aparece em momentos decisivos, como no anúncio aos pastores “Hoje vos nasceu um Salvador” (Lc 2,11) e na conversão de Zaqueu “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19,9). O hoje rompe com a lógica de uma fé projetada apenas para o futuro e convoca à transformação do presente.
A reação dos ouvintes revela a complexidade da experiência humana. Inicialmente, há admiração pelas palavras cheias de graça (Lc 4,22). No entanto, rapidamente emerge a resistência. “Não é este o filho de José?” A pergunta, aparentemente inocente, carrega uma carga de deslegitimação. Trata-se de um mecanismo antropológico e psicológico conhecido: a dificuldade de reconhecer o extraordinário no ordinário, o novo no familiar. A psicologia social aponta que grupos tendem a rejeitar aqueles que rompem expectativas internas, pois isso ameaça a estabilidade simbólica do coletivo.
Jesus responde evocando a tradição profética de Elias e Eliseu (Lc 4,25-27), lembrando que a ação de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel. A viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, são estrangeiros que experimentam a graça divina. Essa universalização do horizonte é profundamente subversiva. Ela desmonta qualquer pretensão de exclusivismo religioso e aponta para a universalidade da salvação. No entanto, essa abertura é percebida como ameaça, e a admiração se transforma em fúria.
O paralelo com Marcos 6,1-6 e Mateus 13,53-58 confirma o tema do profeta rejeitado em sua terra, mas Lucas radicaliza o sentido ao colocar esse episódio no início da missão. Trata-se de uma chave interpretativa para todo o Evangelho. A missão de Jesus será marcada pela proclamação da libertação, pela abertura aos marginalizados e pela rejeição por parte daqueles que se consideram detentores da verdade e do poder religioso.
A tradição patrística reconheceu nessa passagem um núcleo fundamental da cristologia. A recapitulação em Cristo, como desenvolvida por Irineu, indica que toda a história encontra nele seu sentido. Orígenes enfatiza o caráter sempre atual do hoje da Palavra. Agostinho destaca que a Escritura se cumpre na vida daqueles que a acolhem com fé. Essa leitura patrística reforça a dimensão existencial do texto.
No horizonte do magistério contemporâneo, a Constituição Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão e convoca a uma Igreja em saída. A Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e propõe uma fraternidade universal. Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, aprofundam a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em suas diretrizes pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja comprometida com a justiça social.
Diante desse quadro, a Palavra de Lucas 4 assume um caráter profético incontornável. Ela denuncia as formas contemporâneas de instrumentalização da religião. Quando a fé é capturada por projetos político-partidários que promovem exclusão, violência e autoritarismo, ela se distancia do Evangelho. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção divina ao sucesso material, trai a lógica do Reino, que privilegia os pobres. A teologia do domínio, ao buscar poder e controle, contradiz o caminho de serviço de Jesus.
O clericalismo aparece como uma deformação interna da Igreja, quando o ministério se transforma em privilégio e poder, em vez de serviço. Isso sufoca a dimensão profética e impede a participação do povo de Deus. A aliança entre discursos religiosos e ideologias de extrema direita, marcada por nacionalismo excludente e desprezo pelos pobres, esvazia o Evangelho de sua força libertadora.
A atualidade do texto se revela nos desafios contemporâneos. A desigualdade social crescente, a exclusão de milhões, a violência estrutural, a crise de sentido e a manipulação religiosa são sinais de um mundo que precisa urgentemente do anúncio do Reino. A Palavra proclamada em Nazaré continua a ecoar como denúncia e promessa. Ela desinstala, inquieta, convoca à conversão.
A experiência humana diante dessa Palavra é marcada por ambiguidade. Há desejo de mudança, mas também medo. A liberdade proposta pelo Evangelho implica responsabilidade. A psicologia mostra como mecanismos de defesa surgem diante de verdades que exigem transformação. No entanto, é nesse confronto que se abre a possibilidade de uma vida nova.
Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho (Lc 4,30). Este detalhe final é profundamente simbólico. A rejeição não interrompe a missão. O projeto de Deus não é bloqueado pela resistência humana. A história continua aberta. A Palavra continua a ser proclamada. O Espírito continua a agir.
A contemplação dessa cena conduz a uma tomada de posição. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou se acolhe o hoje da salvação, assumindo suas implicações pessoais e sociais, ou se recusa, permanecendo nas estruturas que geram morte. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não pode ser cúmplice da injustiça. Ela é chamada a ser fermento de transformação, sinal de esperança, voz profética.
Assim, a sinagoga de Nazaré se torna espelho da humanidade. Nela se refletem nossas expectativas, nossas resistências, nossas contradições. E nela ressoa a Palavra que continua a dizer hoje: a libertação é possível, a justiça é necessária, a graça é oferecida. Cabe a cada geração decidir se acolhe ou rejeita esse anúncio. O Evangelho permanece como critério, como luz e como caminho para uma humanidade reconciliada, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e a vida, em todas as suas formas, seja plenamente valorizada.
Naquele contexto  os olhares se cruzavam em curiosidade e orgulho local e hoje sonos  chamados a nos perguntar: 

  • Qual é o nosso projeto “hoje”? 
  • Onde precisamos deixar que a Palavra se cumpra? 
  • Onde resistimos, como os nazarenos, porque a mensagem nos incomoda? 
  • E como comunidade, estamos dispostos a abrir espaço para os pobres, os estrangeiros, os diferentes, ou continuamos a reproduzir muros e exclusões? 

A Boa Nova de Jesus não cabe em templos fechados, nem em projetos de poder, mas floresce quando a Palavra é acolhida como fermento de vida nova, reconciliação e justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 26 de julho de 2026

Um breve olhar em Mateus 13, 31-35


 Na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do  
Tempo Comum temos o texto de Mateus 13, 31-35, que   já  refletimos  outras  vezes  em 2020  e 2023  o texto faz parte do Evangelho  do 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A Mateus 13, 24-43  que refletimos  em 20202023   em nosso canal do YouTube,  convidamos você  para assistir  a Reflexão: Boa Nova de Jesus Cristo segundo São Mateus 13,31-35.
A Igreja nos convida a mergulhar nas paráb0ol convoas breves, mas teologicamente vastas, em que Jesus fala do Reino de Deus com imagens de uma simplicidade desconcertante: a semente de mostarda e o fermento na massa (Mt 13,31-35). À primeira vista, são figuras domésticas, retiradas do cotidiano das aldeias agrícolas da Galileia. Contudo, nelas se revela o núcleo da pedagogia divina, a lógica da fé e a crítica radical às estruturas de poder, de religiosidade e de dominação que reduzem o sagrado à aparência ou ao espetáculo. Jesus fala de um Reino que não se impõe por força, mas se oferece por presença. Ele rompe com a lógica dos reinos humanos,  sejam os impérios de César, sejam as idolatrias contemporâneas do mercado e da vaidade espiritual e anuncia um Reino que germina no invisível, cresce em silêncio e transforma o mundo a partir de dentro.

A parábola do grão de mostarda introduz essa pedagogia do pequeno. “O Reino dos Céus é como um grão de mostarda que um homem semeou em seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se a maior das hortaliças e faz-se árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos” (Mt 13,31-32). No contexto agrícola do século I, a mostarda era uma planta de crescimento rápido e imprevisível, frequentemente vista como erva daninha. Jesus inverte a expectativa: aquilo que o senso comum despreza é o que contém o potencial de abrigar vida, acolher os pássaros, dar sombra, a menor semente torna-se abrigo, hospitalidade e espaço de comunhão. No horizonte bíblico, as aves do céu evocam a universalidade das nações (cf. Ez 17,22-24; Dn 4,12), indicando que o Reino acolhe todos, sem discriminação de origem, poder ou mérito.

Essa parábola é uma resposta às expectativas messiânicas nacionalistas. O povo esperava um Messias guerreiro, um libertador político que restaurasse a glória de Israel pela força. Jesus, ao contrário, revela que o Reino não é espetáculo de poder, mas processo de transformação silenciosa. Sua linguagem ressoa em outros textos sinóticos: Marcos 4,30-32 e Lucas 13,18-19 reiteram a mesma imagem, mas com nuances próprias. Marcos sublinha a surpresa — “cresce e se torna maior do que todas as hortaliças”, enquanto Lucas destaca a hospitalidade “as aves do céu habitam nos seus ramos”. A tradição sinótica inteira converge na ideia de que a ação divina opera por meio do mínimo, do vulnerável, do que o mundo despreza. É a inversão teológica do critério humano de grandeza: Deus se revela na fragilidade.

O mesmo princípio é reforçado pela segunda parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até que tudo ficasse levedado” (Mt 13,33). O fermento, na cultura judaica, possuía uma ambiguidade simbólica. Era associado, em alguns contextos, à corrupção (cf. Mt 16,6; 1Cor 5,6-8), mas aqui assume sentido positivo: uma força interior que transforma a massa de dentro para fora. O gesto da mulher invisível, cotidiano, silencioso,  torna-se imagem da ação divina no mundo. Ela mistura o fermento até que tudo seja transformado. O verbo usado, “misturar” (gr. enkrypto), tem conotação de esconder, sugerindo que o Reino age de modo oculto, quase imperceptível, mas eficaz. A presença feminina nessa parábola é igualmente significativa: Deus é simbolizado em gestos domésticos, maternos, cuidadosos. A mulher anônima é figura da sabedoria divina que age sem barulho, e sua ação aponta para a dimensão encarnada, artesanal e relacional do Reino.

As  imagens da parábola  nos convida a compreender que Jesus fala não de um projeto ideológico, mas de um processo histórico e espiritual. A semente e o fermento expressam o modo de agir de Deus: discreto, paciente e radicalmente transformador. O Reino não se identifica com impérios, com sistemas de poder religioso, nem com utopias autorreferenciais. Ele cresce no meio do mundo, mas não segundo os critérios do mundo. Santo Agostinho, em seu Sermão 101, observa que “Deus começa pelo que é pequeno para nos ensinar a humildade, e termina na plenitude para nos revelar a glória”. São Gregório Magno, em suas Homilias sobre os Evangelhos, acrescenta que “quem despreza as pequenas virtudes impede que cresçam as grandes”, lembrando que o Reino é tecido de gestos simples,  o perdão, a escuta, o cuidado e não de façanhas espetaculares.  Essa pedagogia do pequeno tem profundas implicações antropológicas e sociais. Em termos psicológicos, a semente e o fermento representam os processos internos de amadurecimento humano. A psique não se transforma por imposição, mas por cultivo paciente. O autoconhecimento, a cura e a santidade exigem o tempo da germinação, o silêncio do crescimento subterrâneo. A fé não é fuga da realidade, mas fermento que a transforma. A maturidade espiritual nasce do enfrentamento das próprias sombras, da integração dos opostos, da reconciliação entre o visível e o invisível. A parábola, assim, também fala da interioridade: o Reino é como um processo psicológico em que o amor e a graça vão transfigurando o interior até que toda a “massa” da vida seja levedada.

A  imagem do fermento sugere uma crítica às estruturas dominantes. O fermento age de baixo, invisivelmente, transformando a totalidade. É o símbolo das revoluções silenciosas, das mudanças que começam nos corações e se espalham pela convivência, pela solidariedade e pela justiça cotidiana. O Reino de Deus, portanto, não se impõe pelas armas, pelo poder econômico ou pela manipulação da fé; ele se propaga na prática concreta do amor. Nesse sentido, a parábola denuncia as formas religiosas e políticas que se apropriam do nome de Deus para controlar, enriquecer ou dominar. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio são distorções do Evangelho porque reduzem o Reino à lógica do sucesso e do poder, esquecendo que a força divina se manifesta na fraqueza (cf. 2Cor 12,9). O Reino é fermento que liberta, não estrutura que oprime.

A fé autêntica é sempre comunhão. Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, recorda que “Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é pequeno para confundir os grandes”. É a mesma lógica das parábolas: a força da fraqueza. No contexto contemporâneo, essa mensagem confronta o individualismo religioso que transforma a fé em produto de consumo, em busca de conforto e status espiritual. O Reino, ao contrário, é um projeto coletivo, uma teia de solidariedades, um caminho de comunhão e justiça. Tiago insiste: “A religião pura consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27). Essa é a tradução prática da parábola do fermento: uma fé que leveda a sociedade, que humaniza as relações e que transforma estruturas de exclusão.

Na perspectiva filosófica, o fermento e a semente podem ser lidos como metáforas do ethos da esperança. Hannah Arendt falava da “natalidade” como capacidade humana de começar de novo; o Reino é o eterno nascimento de possibilidades novas dentro da história. Paul Ricoeur descreve a esperança como “a força que não nega o mal, mas aposta na fecundidade do bem”. Assim é o Reino: uma aposta paciente na fecundidade da graça, mesmo em meio à injustiça. Ele cresce em silêncio, mas nunca é passivo. A espera evangélica não é resignação; é resistência. É o cultivo do bem em meio ao caos, a insistência no amor em meio à indiferença.Teologicamente, essas parábolas revelam o coração da cristologia de Mateus. Jesus é o Semeador e o próprio grão que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24). Ele é o fermento que se mistura na massa da humanidade, assumindo nossa carne, nossa história e nossa dor. O mistério pascal é a expressão máxima dessa pedagogia: da pequenez da cruz brota a plenitude da ressurreição. O Reino é o próprio Cristo atuando na história através da comunidade dos discípulos, que são chamados a ser semente e fermento. Por isso, Mateus conclui dizendo que “Jesus só lhes falava por parábolas, para se cumprir o que fora dito pelo profeta: abrirei a boca em parábolas, proclamarei coisas escondidas desde a criação” (Mt 13,35). O Evangelista cita o Salmo 78,2, interpretando Jesus como aquele que revela os mistérios ocultos do agir divino na história.

O Império Romano no primeiro  século  era o paradigma da grandiosidade e da força, as estruturas religiosas do Templo também se tornaram expressão de poder e segregação. Falar de um Reino que nasce de uma semente ou de um punhado de fermento era um escândalo. Era uma provocação contra o sistema, uma subversão das expectativas sociais e religiosas. O discurso de Jesus é, portanto, político e espiritual ao mesmo tempo. Ele propõe uma revolução da ternura, como diria o Papa Francisco: a mudança começa no detalhe, no gesto, no cuidado. A Evangelii Gaudium (n. 222) ensina que “o tempo é superior ao espaço”, indicando que o Reino cresce no tempo da paciência, não na conquista de territórios. E a Fratelli Tutti (n. 180) lembra que “a caridade política é a forma mais alta da caridade”, pois a fé autêntica tem implicações sociais concretas.

 Orígenes via na semente a Palavra de Deus que deve germinar no coração, São João Crisóstomo ensinava que o fermento representa o Espírito Santo, que transforma a comunidade desde dentro e Santa Teresinha do Menino Jesus viveu radicalmente essa pedagogia do pequeno: “Quero ser o amor no coração da Igreja”, dizia, mostrando que o Reino floresce nos gestos invisíveis, nas orações escondidas, nas fidelidades silenciosas.

Essa espiritualidade do pequeno é o antídoto contra o clericalismo, que transforma o serviço em prestígio e o ministério em poder. O clericalismo mata o fermento, porque cristaliza a fé em hierarquia e vaidade. O Evangelho de Mateus nos convida a uma Igreja fermento, não a uma Igreja monumental. Uma Igreja que se mistura à massa da humanidade, que age com ternura, justiça e proximidade. A Gaudium et Spes (n. 63-66) reforça essa dimensão social da fé, lembrando que a Igreja deve ser sinal e instrumento de unidade do gênero humano, comprometida com a dignidade, o trabalho e a justiça.

O Reino, assim, é um movimento contínuo de encarnação. Ele se manifesta na educação que liberta, na ciência que serve à vida, na arte que desperta, na política que busca o bem comum. É a presença do divino no cotidiano. Ser fermento significa fazer da própria vida um lugar de transformação: nas salas de aula, nos hospitais, nas favelas, nas fábricas, nos lares. Ser semente é confiar que cada gesto de amor, por menor que pareça, tem potencial de eternidade.

O mundo contemporâneo, seduzido pela lógica da velocidade, do espetáculo e da aparência, precisa reaprender a sabedoria da semente e a força silenciosa do fermento. O Reino de Deus não nasce do marketing religioso, nem se sustenta pelo poder, pelo prestígio ou pela imposição. Ele germina no escondimento, cresce na fidelidade e transforma a história a partir do interior. Enquanto os impérios erguem monumentos à própria grandeza e acabam reduzidos às ruínas da memória, a pequena semente continua rompendo a terra e anunciando que a vida é mais forte que o poder. Enquanto multidões se deixam seduzir pelo barulho das ideologias, do consumismo e de uma religiosidade vazia, o fermento do Evangelho continua agindo silenciosamente, levedando a massa da humanidade. Esta é a lógica desconcertante do Reino: Deus prefere os pequenos começos às grandes aparências, a fidelidade escondida aos triunfos passageiros, a cruz aos aplausos. Por isso, permanece atual a exortação do profeta: "Não desprezeis os pequenos começos" (Zc 4,10). E permanece viva a esperança proclamada por Paulo: "Aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus" (Fl 1,6).

A parábola de Jesus é também um julgamento sobre o nosso tempo. Ela denuncia toda pretensão de construir o Reino pela força, pelo clericalismo, pelo autoritarismo ou pelo fascínio dos números. O Reino não se mede por estatísticas, mas pela capacidade de gerar vida, justiça, misericórdia e comunhão. Onde um coração se converte, uma ferida é curada, um pobre recupera a dignidade, um excluído encontra acolhida e a verdade vence a mentira, ali o Reino já está crescendo..Que ninguém despreze aquilo que Deus faz no silêncio. A semente lançada por Cristo jamais deixará de produzir fruto, e o fermento do Evangelho jamais perderá sua força. Deus continua misturando sua graça na massa da humanidade e nenhuma potência deste mundo poderá impedir a colheita que Ele mesmo preparou. O Reino cresce, muitas vezes sem alarde, mas com a certeza de que a última palavra da história não será da violência, da injustiça nem da morte. A última palavra pertence ao Deus da Vida, cujo Reino já está entre nós e um dia se manifestará em plenitude.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,18-23

A explicação da parábola do semeador em Mateus 13,18-23 é proclamada na Liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, continuando o Evangelho do dia anterior Mateus 13, 10-17,  sendo Proclamadp anualmente, variando apenas a primeira leitura, evidenciando que a catequese de Jesus sobre a acolhida da Palavra possui um valor permanente para a formação dos discípulos. Já a parábola completa, unida à sua explicação Mateus 13,1-23, é proclamada no 15º Domingo do Tempo Comum do Ano A, permitindo que toda a comunidade contemple, em uma única celebração, tanto o anúncio da parábola quanto a interpretação oferecida pelo próprio Cristo. Além desses momentos, esse texto também é frequentemente utilizado em retiros, encontros de formação bíblica, celebrações centradas na Palavra de Deus e na Liturgia das Horas, por sua riqueza espiritual, catequética e missionária. Os Evangelhos sinóticos preservam essa mesma tradição com acentos próprios e complementares. Marcos 4,1-20 é proclamado na quarta-feira da 3ª Semana do Tempo Comkum, reunindo a parábola e sua explicação no grande discurso parabólico de Jesus e destacando a força da Palavra que cresce e produz frutos apesar das resistências humanas. Lucas 8,4-15, proclamado no sábado da 24ª Semana do Tempo Comum, enfatiza a perseverança dos que acolhem a Palavra "com coração bom e generoso", conservando-a fielmente até que produza frutos duradouros. Embora cada evangelista apresente nuances próprias, os três convergem ao afirmar que a fecundidade do Reino depende da acolhida concreta da Palavra na existência humana. Essa distribuição ao longo do Ano Litúrgico revela a profunda pedagogia da Igreja. A liturgia não proclama esse Evangelho apenas para recordar um ensinamento de Jesus, mas para conduzir progressivamente os fiéis ao amadurecimento da fé.  Nas demais Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e diversas tradições reformadas que seguem o Lecionário Comum Revisado, essa perícope ou suas variantes em Marcos 4,13-20 e Lucas 8,11-15 é proclamada durante o Tempo Comum ou após a Epifania, inserida no conjunto das parábolas do Reino, enfatizando a responsabilidade humana diante da Palavra de Deus e a fecundidade da graça na história.  Ao reapresentar essa parábola em diferentes tempos e contextos celebrativos, a Igreja quer  recorda que a escuta da Palavra não é um acontecimento isolado, mas um processo permanente de conversão. A Palavra de Deus continua sendo semeada em cada geração e interpela continuamente pessoas, famílias, comunidades e sociedades inteiras, chamando-as a superar a superficialidade, a resistência e a idolatria para se tornarem terra fecunda, capaz de produzir frutos de santidade, justiça, misericórdia e esperança para a transformação do mundo...

A explicação da parábola do semeador não é apenas um comentário sobre uma imagem agrícola. Ela constitui uma das mais profundas chaves hermenêuticas oferecidas pelo próprio Jesus para compreender toda a sua missão. Depois de narrar a parábola às multidões e explicar aos discípulos por que fala em parábolas, afirmando que "a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus" (Mt 13,11), Jesus revela agora o significado de cada elemento da narrativa. Não é apenas uma interpretação de uma história. É uma interpretação da própria existência humana diante da ação de Deus. O contexto narrativo é decisivo. Nos capítulos anteriores, Mateus mostra uma crescente oposição contra Jesus. Os fariseus já tramam sua morte (Mt 12,14), sua família é relativizada diante da nova família formada pelos que fazem a vontade do Pai (Mt 12,46-50), e a multidão cresce enquanto também cresce a incompreensão. A parábola nasce exatamente nesse ambiente de acolhida e rejeição. A pergunta implícita é inevitável. Se Jesus anuncia o Reino com autoridade divina, por que tantos não o acolhem? A resposta está na qualidade dos terrenos e não na qualidade da semente.

Jesus identifica a semente como "a Palavra do Reino" (Mt 13,19). Trata-se do anúncio da soberania de Deus que transforma pessoas, relações e estruturas. Não é uma palavra qualquer. É aquela mesma Palavra criadora que, desde Gênesis, faz surgir a vida (Gn 1), que os profetas comparavam à chuva que fecunda a terra e jamais volta sem produzir fruto (Is 55,10-11), e que João identifica com o próprio Verbo eterno feito carne (Jo 1,1-14). A Palavra não comunica apenas informações religiosas. Ela comunica a própria vida de Deus. No mundo agrícola da Palestina do primeiro século, o semeador lançava a semente antes mesmo do preparo completo do terreno. Era natural que parte caísse sobre caminhos endurecidos pelo constante trânsito das pessoas, sobre regiões pedregosas onde uma fina camada de terra escondia grandes rochas calcárias, entre espinhos que rapidamente sufocavam o crescimento das plantas e sobre terras férteis capazes de produzir colheitas extraordinárias. Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes para falar da geografia interior do coração humano.

O primeiro terreno representa aqueles que escutam sem compreender (Mt 13,19). A palavra "compreender", no Evangelho de Mateus, vai muito além da inteligência racional. Significa acolher, assimilar, converter-se. O Maligno arrebata a Palavra porque ela nunca chegou a penetrar verdadeiramente na vida. A superficialidade espiritual torna-se uma forma de esterilidade. Em uma sociedade marcada pelo excesso de informações, pela velocidade das redes sociais, pelo consumo contínuo de conteúdos e pela incapacidade crescente de silêncio e contemplação, a Palavra corre o risco de ser apenas mais uma informação entre tantas outras. O coração endurecido pelo individualismo, pelo preconceito, pelo ódio e pela autossuficiência torna-se semelhante ao caminho compactado sobre o qual nenhuma semente consegue penetrar.

O segundo terreno descreve quem acolhe a Palavra com entusiasmo imediato, mas sem raízes (Mt 13,20-21). A imagem das pedras ocultas revela uma religiosidade emocional, incapaz de enfrentar a perseverança exigida pelo discipulado. A fé não se sustenta apenas sobre experiências intensas ou celebrações emocionantes. Ela precisa criar raízes profundas na oração, na comunidade, na escuta constante das Escrituras, na prática da justiça e na fidelidade cotidiana. O próprio Jesus advertirá que quem deseja segui-lo deve tomar diariamente a própria cruz (Lc 9,23). A psicologia contemporânea confirma que personalidades construídas apenas sobre emoções instantâneas dificilmente desenvolvem resiliência diante do sofrimento. O Evangelho propõe justamente o contrário. A maturidade espiritual nasce da permanência, da esperança e da fidelidade.

O terceiro terreno representa aqueles que permitem que os espinhos cresçam juntamente com a Palavra (Mt 13,22). Jesus identifica esses espinhos como as preocupações do mundo e a sedução das riquezas. Aqui está uma das críticas mais contundentes do Evangelho à idolatria econômica. Não é a riqueza em si que é condenada, mas sua capacidade de ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus. O dinheiro promete segurança absoluta, reconhecimento, felicidade e poder. Entretanto, como recorda Jesus, "não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). A felicidade verdadeira jamais nasce da acumulação. O texto inicial desta reflexão recorda precisamente essa verdade. Quando Deus deixa de ser o valor absoluto, qualquer outro valor assume características idolátricas e termina produzindo sofrimento. O coração humano foi criado para o infinito. Nenhuma riqueza, nenhum sucesso e nenhuma forma de poder conseguem preencher essa sede. Essa crítica torna-se especialmente atual diante da expansão de certas correntes religiosas que identificam prosperidade econômica com bênção divina. A chamada teologia da prosperidade reduz Deus a instrumento para realização de desejos individuais e transforma a fé em mecanismo de obtenção de sucesso financeiro. O Evangelho segue caminho oposto. Jesus nasceu pobre (Lc 2,7), viveu sem possuir onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), proclamou felizes os pobres (Lc 6,20), identificou-se com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (Mt 25,31-46) e anunciou um Reino cuja lógica é serviço e partilha.

O quarto terreno representa aqueles que escutam, compreendem e produzem fruto (Mt 13,23). A colheita de trinta, sessenta e cem por um ultrapassa qualquer expectativa agrícola da Palestina antiga. Trata-se de uma linguagem simbólica que manifesta a superabundância da graça divina. Deus nunca economiza sua fecundidade. Onde encontra um coração disponível, produz frutos muito além das capacidades humanas. Paulo desenvolverá essa mesma ideia ao falar do fruto do Espírito, composto por amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5,22-23). Marcos (Mc 4,13-20) conserva praticamente a mesma estrutura, mas enfatiza ainda mais o dinamismo do crescimento da Palavra. Lucas (Lc 8,11-15), por sua vez, acrescenta que o bom terreno é formado pelos que conservam a Palavra "com coração bom e generoso" e perseveram até produzir fruto. Cada evangelista ilumina um aspecto diferente da mesma realidade. Mateus insiste na compreensão da Palavra. Marcos destaca sua força transformadora. Lucas ressalta a perseverança paciente. Juntas, essas tradições mostram que ouvir, compreender, guardar e perseverar constituem um único caminho de discipulado. A parábola revela que toda sociedade forma determinados tipos de terreno humano. Estruturas sociais profundamente desiguais tendem a endurecer corações pela violência, pelo medo e pela exclusão. A sociologia da religião demonstra que comunidades marcadas apenas pelo consumo religioso produzem frequentemente uma fé superficial, enquanto comunidades comprometidas com a solidariedade, a justiça e a participação tendem a favorecer uma espiritualidade mais madura. A Palavra nunca é recebida em abstrato. Ela encontra pessoas inseridas em culturas, relações econômicas, conflitos políticos e experiências históricas concretas.

Jesus fala de quatro terrenos porque utiliza uma imagem agrícola comum da Palestina do século I, mas também porque esses quatro tipos representam, de forma simbólica, as principais atitudes humanas diante da Palavra de Deus. Não se trata de uma classificação exaustiva da humanidade, mas de uma tipologia pedagógica. Do ponto de vista literário e hermenêutico, o número quatro possui forte simbolismo na Bíblia. Frequentemente representa a universalidade da realidade criada: os quatro pontos cardeais (Is 11,12), os quatro ventos (Ez 37,9; Mt 24,31) e os quatro seres viventes (Ez 1; Ap 4). Assim, os quatro terrenos sugerem que toda a humanidade está diante da mesma Palavra e é chamada a responder a ela e .sob a perspectiva agrícola, Jesus descreve exatamente os quatro tipos de solo que um camponês encontrava ao lançar a semente:

  1. O caminho endurecido, pisado pelos viajante
  2. O  terreno pedregoso, com fina camada de terra sobre rochas calcárias
  3. O  terreno tomado por espinhos
  4. A terra fértil e preparada para a colheita

A parábola parte da experiência cotidiana para revelar uma verdade espiritual, porém, esses quatro terrenos não representam quatro grupos fixos de pessoas. Representam quatro possibilidades que coexistem dentro de cada ser humano. Em certos momentos somos caminho endurecido, fechados à Palavra; em outros, somos pedregosos, acolhendo-a sem profundidade; às vezes permitimos que os espinhos das preocupações, do consumismo, da ambição ou do poder sufoquem a fé; e, pela graça de Deus, também podemos nos tornar terra boa. É significativo que Jesus apresente três terrenos infrutíferos e apenas um fecundo. O objetivo não é transmitir pessimismo, mas mostrar que produzir fruto exige conversão, perseverança e abertura constante à ação de Deus. Ao mesmo tempo, a colheita extraordinária da terra boa trinta, sessenta e cem por um  revela que a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas.  Os números trinta, sessenta e cem por um (Mt 13,23) têm um significado que vai além de uma medida agrícola. Eles revelam, ao mesmo tempo, a realidade concreta da agricultura palestina e a superabundância da ação de Deus.

  • Primedo ponto de vista histórico, uma colheita na Palestina do século I dificilmente alcançava cem por um. Colheitas entre sete e dez por um já eram consideradas boas. Trinta por um era excelente; sessenta por um, extraordinária; cem por um, quase inacreditável. Jesus usa uma hipérbole para mostrar que, quando a Palavra é acolhida, seus frutos ultrapassam qualquer expectativa humana.
  • O segundo ponto, os três números indicam que Deus não exige que todos produzam a mesma quantidade de frutos. Há discípulos que produzem trinta, outros sessenta e outros cem por um. O que importa não é a comparação, mas a fecundidade. Cada pessoa responde à graça conforme os dons recebidos, sua vocação e sua fidelidade. Essa ideia aparece também na parábola dos talentos (Mt 25,14-30), em que Deus não pede resultados idênticos, mas fidelidade.
  • O terceiro ponto, a sequência crescente 30 → 60 → 100 manifesta que a graça de Deus não apenas vence os obstáculos, mas os supera abundantemente. A parábola começa mostrando três fracassos aparentes: a semente no caminho, nas pedras e entre os espinhos. Humanamente, parece que a semeadura foi um insucesso. Entretanto, o último terreno produz uma colheita tão extraordinária que compensa todas as perdas anteriores. É uma mensagem de esperança: o mal, a rejeição e a resistência não têm a última palavra; a fecundidade do Reino é sempre maior.
  •  Quarto ponto, essa lógica percorre toda a Escritura. José é vendido pelos irmãos, mas salva seu povo (Gn 50,20). O pequeno grupo de discípulos transforma o mundo (At 17,6). A cruz, sinal de derrota, torna-se sinal de vitória na ressurreição. Deus age de tal modo que sua graça é sempre maior do que o pecado e a resistência humana.
Os Padres da Igreja também ofereceram leituras simbólicas. São Jerônimo e Santo Agostinho viram nesses números diferentes graus de santidade e maturidade espiritual. Outros autores antigos relacionaram o trinta à vida cristã fiel, o sessenta à maior renúncia e o cem à plenitude da caridade. Embora essas interpretações sejam espiritualmente ricas, o sentido principal do texto permanece: a Palavra acolhida nunca produz um fruto pequeno; ela gera uma abundância que só pode ser explicada pela ação de Deus.Assim, quando se afirma que "a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas", significa que Jesus encerra a parábola com uma mensagem de esperança. Embora três terrenos pareçam impedir o sucesso da semeadura, basta que a Palavra encontre um coração verdadeiramente aberto para produzir uma colheita extraordinária. O Reino de Deus não é medido pelas perdas da semeadura, mas pela abundância dos frutos que a graça faz nascer. É por isso que a última imagem da parábola não é a dos espinhos nem das pedras, mas a da colheita transbordante: onde Deus encontra terra boa, sua graça realiza infinitamente mais do que as limitações humanas poderiam imaginar.

Por isso, a pergunta central da parábola não é: "Em qual dos quatro terrenos eu me encaixo?" A pergunta é: "Que partes do meu coração ainda são caminho, pedras ou espinhos, e como posso permitir que Deus as transforme em terra boa?" A parábola é um convite permanente à conversão, mostrando que nenhum terreno está condenado a permanecer estéril quando se deixa trabalhar pelo divino Semeador. Esta parábola também possui uma dimensão profética. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de poder. Sempre que a religião é utilizada para legitimar ideologias autoritárias, nacionalismos excludentes, discursos de ódio ou projetos político-partidários que absolutizam líderes humanos, a Palavra acaba sufocada entre espinhos. Da mesma forma, o clericalismo denunciado repetidamente pelo Magistério recente transforma ministros em donos da Igreja, quando o Evangelho os chama ao serviço humilde (Mc 10,42-45). A comunidade cristã não existe para proteger privilégios religiosos, mas para testemunhar o Reino de Deus na história..O Concílio Vaticano II recorda que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1). A Constituição Dei Verbum ensina que Deus continua falando ao seu povo mediante as Escrituras, convidando toda a Igreja à escuta obediente da Palavra (DV 21). A exortação apostólica Evangelii Gaudium, especialmente nos números 49 e 53, alerta contra uma economia da exclusão e convoca a Igreja a sair ao encontro das periferias. A encíclica Fratelli Tutti insiste na fraternidade como resposta à cultura da indiferença. Em sintonia com essa tradição, os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida reafirmam que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a opção preferencial pelos pobres. Também a CNBB, em sucessivos documentos pastorais, recorda que a Palavra proclamada deve gerar compromisso com a transformação da realidade e a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A felicidade, portanto, não nasce da satisfação de desejos ilimitados nem da conquista de poder, riqueza ou prestígio religioso. A felicidade bíblica nasce quando o coração se torna terra boa para Deus. Quem coloca no centro da existência qualquer realidade diferente do Senhor inevitavelmente experimentará a fragilidade dos ídolos. O dinheiro passa. O poder termina. A fama desaparece. As ideologias envelhecem. As paixões humanas mudam. Somente Deus permanece eternamente fiel (Sl 146,6). Mateus 13,18-23 convida cada discípulo a abandonar a tentação de perguntar quem são os outros terrenos para perguntar humildemente qual terreno existe hoje dentro de si mesmo. Todos carregamos caminhos endurecidos, pedras escondidas, espinhos persistentes e também espaços férteis onde a graça continua trabalhando silenciosamente. A conversão consiste exatamente em permitir que Deus transforme progressivamente toda a nossa existência em terra boa.

 Palavra de Deus continua sendo lançada com generosidade sobre toda a humanidade. O Senhor não faz distinção entre povos, culturas ou condições sociais; sua graça alcança tanto os que vivem nas periferias do mundo quanto os que ocupam os centros do poder. Contudo, permanece a mesma pergunta que atravessa os séculos: 

  • Que espaço estamos oferecendo para que essa Palavra transforme nossa existência? 

Num tempo em que a verdade é frequentemente substituída pela manipulação, a fé pelo espetáculo, a religião pelo mercado e o Evangelho pelos interesses do poder, Cristo continua chamando sua Igreja à conversão. Não basta proclamar a Palavra; é necessário deixar-se julgar por ela. Não basta defender símbolos religiosos; é preciso viver a justiça, a misericórdia, a fraternidade e a fidelidade ao Reino de Deus. Toda espiritualidade que ignora os pobres, legitima a exclusão, alimenta o ódio, absolutiza ideologias ou transforma a religião em instrumento de dominação revela que os espinhos continuam sufocando a semente. O Evangelho anuncia que Deus é capaz de transformar terrenos áridos em campos fecundos. Nenhum coração está definitivamente condenado à esterilidade quando se abre à ação da graça. Por isso, a esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo nem da confiança nas estruturas humanas, mas da certeza de que o Espírito Santo continua renovando a face da terra e suscitando discípulos que fazem da própria vida uma resposta ao chamado de Cristo.

Que a Igreja jamais se conforme com uma fé estéril, acomodada ou cúmplice das injustiças, mas permaneça fiel à missão recebida do Senhor: anunciar a verdade, denunciar tudo o que desfigura a dignidade humana, consolar os que sofrem, defender os pequenos, promover a paz e testemunhar, com coragem profética, que somente o Reino de Deus é absoluto. Então a semente lançada por Cristo produzirá, também em nossa geração, uma colheita abundante de santidade, justiça, solidariedade e esperança, para a glória de Deus e para a vida do mundo.  A semente cai sobre cidades marcadas pela violência, sobre povos feridos pela fome, sobre trabalhadores explorados, sobre migrantes, sobre jovens sem horizonte, sobre famílias fragmentadas, sobre comunidades divididas e também sobre corações sedentos de sentido. O semeador não deixa de semear porque alguns terrenos resistem. Assim também Deus nunca desiste da humanidade. Cada geração é novamente convidada a acolher o Reino com inteligência iluminada pela fé, coração disponível à misericórdia e mãos comprometidas com a justiça. Somente então a felicidade deixará de ser uma ilusão construída pelos falsos deuses deste mundo para tornar-se fruto maduro da presença viva de Deus, produzindo uma colheita abundante de amor, fraternidade e esperança que transforma pessoas, comunidades e a própria história.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano