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domingo, 14 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 21,23-27

O Evangelho de Mateus 21,23-27, proclamado na segunda-feira da segunda semana do Advento, não aparece por acaso no itinerário litúrgico deste tempo. O Advento, mais do que um intervalo devocional que antecede o Natal, é uma escola espiritual de espera lúcida, de vigilância crítica e de discernimento profundo. Ele não nos prepara para acolher um Deus genérico, moldado por hábitos religiosos, nem um Messias funcional aos interesses do poder político, econômico ou clerical. Ao contrário, educa o coração e a consciência para reconhecer a origem das vozes que orientam nossa fé, nossas práticas e nossas decisões concretas.

Nesse horizonte, a pergunta dirigida a Jesus no Templo — “Com que autoridade fazes estas coisas?” — deixa de ser apenas um embate entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo e se transforma numa interrogação que atravessa os séculos. Ela chega até nós, comunidades crentes do hoje, como um espelho incômodo: quem, de fato, esperamos neste Advento? De onde procede a autoridade que guia nossas escolhas, sustenta nossos valores e define nossos compromissos? Entre a autoridade que nasce do poder instituído e aquela que brota da fidelidade ao projeto de Deus, o Advento nos coloca diante de uma decisão que não é teórica, mas existencial.

Jesus entra no Templo e ensina. Esse detalhe, aparentemente simples, carrega enorme densidade simbólica. O Templo, em Mateus, é o coração religioso, econômico e político de Israel. Não é apenas um espaço de culto, mas o centro de legitimação do poder, da pureza ritual, da arrecadação, das alianças com Roma. Ensinar ali é reivindicar autoridade. E Jesus o faz sem credenciais oficiais, sem pertencer às elites sacerdotais, sem o selo das escolas rabínicas reconhecidas. Por isso a pergunta dos sumos sacerdotes e anciãos não nasce de uma busca sincera pela verdade, mas de uma tentativa de enquadramento: é preciso saber se Jesus pode ser controlado, rotulado, neutralizado.

A pergunta “quem te deu tal autoridade?” revela uma concepção de religião profundamente marcada pelo status, pela hierarquia e pela autorização institucional. A autoridade, nesse esquema, não brota da verdade nem do serviço à vida, mas do cargo, da linhagem, do reconhecimento do sistema. Jesus, ao perceber a armadilha, não responde diretamente. Ele desloca o eixo da questão e coloca João Batista no centro do debate: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens?”. Com isso, Jesus revela que o verdadeiro problema não é Ele, mas a incapacidade de discernir a origem da autoridade profética.

João Batista surge, então, como chave hermenêutica do texto. João não pertence ao Templo, não ocupa cargo oficial, não se beneficia do sistema religioso. Ele vem do deserto, espaço bíblico da travessia, da purificação e da ruptura com as estruturas opressoras. O deserto é o lugar onde Israel reaprende a depender de Deus e não de suas seguranças (cf. Dt 8). João se inscreve na longa tradição profética que sempre incomodou o poder. Como Amós, que é expulso do santuário por não fazer parte da corte (cf. Am 7,10-17), como Jeremias, acusado de traição por denunciar a falsa segurança religiosa (cf. Jr 26), João encarna uma autoridade que nasce da fidelidade ao chamado e da coerência entre palavra e vida.

Os líderes religiosos sabem exatamente o que está em jogo. Reconhecer João como profeta significaria admitir que Deus fala fora dos esquemas oficiais e, pior ainda, reconhecer que eles próprios rejeitaram essa voz. Negar João, por outro lado, significaria enfrentar o povo, que o reconhece como profeta. Diante desse impasse, eles escolhem a saída mais confortável: “não sabemos”. Essa resposta não é sinal de humildade, mas de cálculo. É o silêncio estratégico de quem prefere perder a verdade a perder privilégios.

Aqui o evangelho toca numa ferida ética profunda. O “não sabemos” é a linguagem da neutralidade cúmplice. É a recusa de se posicionar quando a verdade exige conversão. A Carta de Tiago afirma com clareza: “Quem sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4,17). O silêncio, nesse caso, não é ausência de palavra, mas escolha consciente pela manutenção do status quo. Quantas vezes também nós, hoje, preferimos não saber para não precisar mudar? Quantas vezes chamamos de prudência aquilo que, na verdade, é medo de perder lugar, prestígio ou segurança?

Jesus, então, responde: “Também eu não vos direi com que autoridade faço estas coisas”. Não se trata de evasão, mas de juízo. Quem não reconhece a verdade quando ela se manifesta não está apto a recebê-la em plenitude. A autoridade de Jesus não pode ser explicada nos termos de um sistema que já perdeu a capacidade de escuta. Como afirma Mateus no final do Sermão da Montanha, o povo reconhecia que Ele ensinava “como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Sua autoridade não se impõe pelo medo, mas se revela pela força da verdade que liberta.

Os evangelhos sinóticos preservam essa mesma cena com pequenas variações. Marcos 11,27-33 situa o confronto logo após a expulsão dos vendilhões do Templo, deixando claro que a questão da autoridade está ligada à denúncia de um sistema religioso transformado em mercado. Lucas 20,1-8 sublinha que Jesus ensinava o povo e anunciava a Boa Nova, reforçando que sua autoridade nasce do serviço à vida. Em todos os casos, a pergunta sobre a autoridade revela o conflito entre carisma e instituição, tema recorrente na história religiosa. Esse embate pode ser compreendido à luz da tensão entre carisma e estrutura. O carisma nasce da experiência fundante, da força simbólica que mobiliza consciências. A instituição é necessária para organizar, mas corre sempre o risco de absolutizar suas formas e sufocar o espírito. Quando a instituição deixa de servir à vida, passa a servir a si mesma. É nesse momento que o profeta se torna incômodo.

O texto revela o medo profundo da perda de controle. A identidade das autoridades religiosas está colada ao cargo que ocupam. Reconhecer João significaria admitir que erraram, que resistiram à ação de Deus. Para evitar essa dor, escolhem a negação. Trata-se de um clássico mecanismo de defesa: quando a verdade ameaça a imagem que construímos de nós mesmos, preferimos negar a realidade. O evangelho nos pergunta se nossa fé é suficientemente madura para suportar a verdade que nos desinstala. Mateus 21,23-27 denuncia toda forma de fé baseada no autoritarismo religioso. A autoridade de Deus não se confunde com poder, dominação ou sucesso. Por isso esse texto confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que associam a bênção divina ao crescimento numérico, ao acúmulo de bens e à influência política. João não tem nada disso. Jesus também não. Ambos terminam perseguidos e mortos. Segundo a lógica do mercado religioso, seriam fracassados; segundo o Evangelho, são a revelação mais autêntica de Deus.

A fé transformada em mercadoria é sempre uma fé que exige credenciais visíveis, resultados mensuráveis e obediência cega. Jesus desmonta essa lógica ao se recusar a legitimar sua autoridade nos termos do sistema. Ele não vende sua palavra, não negocia sua missão, não transforma Deus em produto. Isso confronta também o individualismo religioso, que reduz a fé a uma experiência privada, desconectada da justiça, da responsabilidade social e do sofrimento histórico dos pobres. O clericalismo, entendido como apropriação da autoridade espiritual para fins de domínio, é frontalmente desmascarado por esse evangelho. O Concílio Vaticano II recorda que todo o povo de Deus participa do sensus fidei e é chamado a discernir a ação do Espírito (cf. Lumen Gentium, 12). O Papa Francisco denuncia o clericalismo como uma perversão da autoridade, pois transforma o serviço em privilégio e o ministério em poder. Em Evangelii Gaudium, ele afirma que uma fé autêntica implica sempre o desejo de transformar a realidade à luz do Reino.

 Orígenes afirmava que João é a voz que prepara, mas Cristo é a Palavra; rejeitar a voz é fechar-se à Palavra. Santo Agostinho insistia que a verdadeira autoridade nasce da verdade que habita em Cristo e ressoa no coração humano quando este não está endurecido. João Crisóstomo via nesse episódio a denúncia de uma religião que, por medo do povo e do poder, perde a coragem da verdade.

O Confronto no Templo antecipa o destino de Jesus. Questionar sua autoridade é o primeiro passo para eliminá-lo. A cruz não é um acidente, mas o resultado lógico de uma autoridade que desmascara as estruturas injustas. Por isso esse texto não é apenas uma catequese sobre o passado, mas um chamado à conversão no presente. E Mateus 21,23-27 nos obriga a perguntar: de onde vem a autoridade que orienta nossas escolhas? Do Evangelho ou do mercado? Da consciência iluminada pela Palavra ou do medo de perder pertencimento? Do serviço ou do domínio? O Advento nos coloca em estado de vigília, lembrando que esperar o Messias é permitir que Ele desestabilize nossas falsas seguranças.

Antes de chegar a esse ponto decisivo, o evangelho ainda nos convida a olhar com mais atenção para o próprio Jesus no interior do Templo. Ele não responde como alguém acuado, nem como quem teme perder espaço. Sua serenidade revela uma liberdade interior profunda. Jesus não depende do reconhecimento das autoridades para ser quem é. Aqui há um ensinamento espiritual decisivo: quando a identidade está enraizada na relação com Deus, a necessidade de aprovação perde sua força. Isso confronta diretamente uma religiosidade baseada na validação externa, tão comum hoje, em que ministérios, lideranças e até comunidades inteiras vivem reféns de números, visibilidade e prestígio.

Nesse sentido, a pergunta sobre a autoridade revela também uma antropologia implícita. O ser humano religioso pode construir sua identidade a partir do chamado ou a partir do cargo. Quando o cargo se torna fundamento da identidade, qualquer questionamento é vivido como ameaça existencial. É por isso que as autoridades reagem com medo e cálculo. A fé, então, deixa de ser caminho de libertação e se transforma em mecanismo de autopreservação. Jesus, ao contrário, vive uma liberdade que nasce da filiação: Ele sabe de onde vem e para onde vai (cf. Jo 8,14). Essa consciência o torna incontrolável.

A ciência histórica ajuda a compreender ainda mais a radicalidade desse gesto. O Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, era também um centro financeiro. As elites sacerdotais estavam profundamente ligadas à aristocracia local e ao poder romano. Questionar a autoridade religiosa significava, inevitavelmente, questionar um sistema econômico e político. Por isso, a pergunta dirigida a Jesus não é apenas teológica; é uma tentativa de neutralização política. A fé que Jesus anuncia ameaça os alicerces de um sistema que se alimenta da desigualdade e da sacralização do poder. Essa dimensão histórica ilumina o modo como o evangelho continua atual. Sempre que a fé se alia de forma acrítica aos poderes econômicos e políticos, ela perde sua capacidade profética. Sempre que líderes religiosos se tornam gestores do sagrado a serviço de interesses particulares, repetem o gesto daqueles que perguntaram a Jesus com que autoridade Ele falava, não para aprender, mas para silenciar. O evangelho nos obriga a perguntar se nossas comunidades são espaços de discernimento ou de reprodução de privilégios.

Do ponto de vista pastoral, esse texto desafia profundamente a formação da consciência cristã. Não basta repetir fórmulas de fé ou defender tradições se não somos capazes de discernir a ação de Deus na história concreta. O sensus fidei, recordado pelo Concílio Vaticano II, não é uma opinião subjetiva, mas a capacidade do povo de Deus de reconhecer a voz do Espírito quando ela se manifesta, mesmo fora dos esquemas esperados. Ignorar essa dimensão é reduzir a fé a um sistema fechado, incapaz de conversão.

A filosofia ajuda a perceber que a pergunta sobre a autoridade é, no fundo, uma pergunta sobre o fundamento da verdade. Vivemos tempos em que a verdade é frequentemente subordinada ao interesse, à ideologia ou ao lucro. Nesse contexto, o “não sabemos” das autoridades religiosas encontra eco em discursos contemporâneos que relativizam tudo para não assumir compromissos éticos. O evangelho, porém, insiste que a verdade não é neutra. Ela exige posicionamento, escolha e, muitas vezes, ruptura.

Essa ruptura tem um custo. João Batista pagou com a vida. Jesus também. O martírio, aqui, não é buscado como heroísmo, mas assumido como consequência de uma fidelidade radical. Isso questiona profundamente uma espiritualidade do conforto, que promete bênçãos sem cruz, glória sem entrega, Reino sem justiça. O seguimento de Jesus, como lembra Mateus em outros momentos, passa pela disposição de perder para ganhar, de morrer para viver (cf. Mt 16,24-26).

A tradição patrística insistiu que esse texto não deve ser lido apenas como denúncia das autoridades do passado, mas como advertência permanente à Igreja. Santo Agostinho alertava que o maior perigo não vem dos inimigos externos, mas da corrupção interna da fé quando ela se acomoda ao poder. Orígenes lembrava que a Palavra de Deus continua sendo interrogada em cada geração: ela será acolhida ou será submetida a critérios que a esvaziam?

Nesse horizonte, o Advento se revela como tempo privilegiado de purificação do olhar. Esperar o Messias é desaprender as falsas imagens de Deus que legitimam opressões e reaprender a reconhecer Sua presença nos sinais humildes da história. João aponta para um Deus que não se deixa domesticar; Jesus encarna esse Deus que entra no Templo, mas não se submete ao Templo. Essa tensão é constitutiva da fé bíblica.

No fim, a pergunta permanece aberta e ecoa como juízo e promessa: a autoridade que seguimos vem do céu ou dos homens? A resposta não se dá apenas com palavras, mas com a vida. É essa respostaque decide que tipo de fé vivemos, que tipo de Igreja construímos e que tipo de humanidade ajudamos a formar.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 24,42-51



A Igreja proclama Mateus 24,42-51 na quinta-feira da 21ª  semana do Tempo Comum, convidando a comunidade: “Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor”. A liturgia não escolhe este texto para alimentar curiosidades sobre o fim dos tempos, nem para estimular o medo diante de uma possível catástrofe, mas para colocar a comunidade diante da responsabilidade de viver fielmente o tempo presente. O próprio calendário litúrgico apresenta a passagem como uma exortação dirigida de modo particular àqueles que receberam responsabilidades na comunidade, mas que alcança todos os discípulos que aguardam a vinda do Senhor.
Esta palavra de Jesus está inserida no grande discurso escatológico de Mateus, nos capítulos 24–25, e possui paralelos nos outros Evangelhos sinóticos.
  • Marcos conserva a exortação à vigilância em Mc 13,33-37, texto proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na  terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum. Nessa passagem, Jesus insiste: “Vigiai”, porque ninguém sabe quando o senhor da casa voltará. A perícope apresenta a imagem do senhor que parte, confia a cada servo uma tarefa e ordena ao porteiro que permaneça vigilante.
  • Lucas apresenta ensinamentos semelhantes em Lc 12,35-48, texto proclamado no 19º Domingo do Tempo Comum – Ano C e  também é proclamado  dividido em duas partes na 29ª Semana do Tempo Comum: na terça-feira, Lc 12,35-38, e na quarta-feira, Lc 12,39-48. O texto reúne as imagens dos servos com as lâmpadas acesas, do senhor que retorna e do administrador colocado à frente dos demais, ressaltando a vigilância, a fidelidade e a responsabilidade daqueles a quem foi confiado o cuidado dos outros.
Portanto, não estamos diante de textos absolutamente idênticos, mas de tradições evangélicas paralelas nas quais cada evangelista organiza e enfatiza o ensinamento de Jesus segundo sua própria perspectiva teológica.
Em Marcos, predomina a tensão da espera: o discípulo precisa permanecer desperto porque não conhece a hora da chegada do Senhor,    em Lucas, ganha força a imagem dos servos preparados, das lâmpadas acesas e da responsabilidade daquele que recebeu uma missão e em  Mateus, essa perspectiva se torna ainda mais contundente porque a vigilância está diretamente ligada ao exercício da responsabilidade: o servo foi colocado à frente da casa para dar alimento aos demais no tempo devido. O problema, portanto, não é simplesmente dormir enquanto se espera o senhor; é transformar a ausência aparente do senhor em oportunidade para dominar, ferir e explorar aqueles que deveriam ser cuidados.
É precisamente aqui que a liturgia nos conduz para além de uma leitura individualista do Evangelho. “Vigiai” não significa apenas cuidar da própria alma; significa também permanecer atento à maneira como exercemos responsabilidades sobre a vida dos outros. A vigilância cristã envolve consciência, discernimento, justiça, serviço e capacidade de reconhecer quando o poder começa a corromper a missão recebida.

Por isso, quando a Igreja proclama hoje este Evangelho, ela não está apenas perguntando: “Você está preparado para a volta de Cristo?”. Está fazendo uma pergunta muito mais incômoda: 
  • “O que você está fazendo enquanto Cristo não vem?”
  • Que espécie de comunidade estamos construindo?
  • Como tratamos aqueles que dependem de nossas decisões?
  • O que fazemos com a autoridade que recebemos?
  • Estamos alimentando ou ferindo?
  • Estamos cuidando ou controlando?
  • Estamos servindo ou utilizando pessoas para sustentar nossa própria posição?
A vigilância cristã começa exatamente aí. Jesus não entrega aos discípulos a data da sua vinda; entrega-lhes uma responsabilidade. O futuro permanece nas mãos de Deus, mas o presente foi confiado às nossas mãos.
É a partir desse horizonte litúrgico, bíblico e pastoral que precisamos escutar novamente a palavra: “Vigiai”.

Por isso  Mateus 24,42-51,   proclamado  na quinta-feira da 21ª semana do Tempo Comum, coloca diante de nós essa palavra que atravessa toda a experiência cristã: “Vigiai”. A vigilância cristã não é ansiedade diante do futuro, nem medo religioso do fim, nem tentativa de descobrir datas escondidas nos acontecimentos da história. É uma forma de existir no presente. Vigiar é permanecer desperto diante de Deus, da própria consciência e da realidade; é não permitir que a indiferença, a acomodação ou a ilusão nos façam perder a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e responder segundo o Evangelho. Por isso, a vigilância é esperança, mas também responsabilidade. O discípulo não sabe quando o Senhor virá, mas sabe o que deve fazer enquanto espera: permanecer fiel, cuidar da casa e servir. A vigilância cristã não é ansiedade diante do futuro, nem medo religioso do fim, nem tentativa de descobrir datas escondidas nos acontecimentos da história. É uma forma de existir no presente. Vigiar é permanecer desperto diante de Deus, da própria consciência e da realidade; é não permitir que a indiferença, a acomodação ou a ilusão nos façam perder a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e responder segundo o Evangelho. Por isso, a vigilância é esperança, mas também responsabilidade. O discípulo não sabe quando o Senhor virá, mas sabe o que deve fazer enquanto espera: permanecer fiel, cuidar da casa e servir.  O contexto de Mateus é decisivo. Jesus fala de sua vinda utilizando a imagem do ladrão que chega inesperadamente e, em seguida, apresenta a figura do administrador colocado à frente da casa para cuidar dos demais empregados. O servo fiel não fica paralisado esperando o patrão. Ele administra, alimenta e cuida “no tempo devido”. Sua fidelidade é reconhecida pela maneira como trata aqueles que lhe foram confiados. O servo mau, ao contrário, interpreta a demora do senhor como licença para abusar do poder: começa a espancar os companheiros e a viver para seus próprios interesses. A demora revela o coração de cada administrador. Quando a fiscalização parece distante, aparece aquilo que realmente somos.

Autoridade, na perspectiva de Jesus, nunca é propriedade pessoal; é responsabilidade recebida para o bem dos outros. O administrador não é dono da casa. Ele exerce uma função que lhe foi confiada. Por isso, quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser o compromisso com o cuidado. Essa lógica confronta diretamente toda forma de clericalismo, autoritarismo religioso ou culto à personalidade. Quando alguém transforma uma missão de serviço em instrumento de poder, quando utiliza a função para humilhar, excluir, silenciar ou controlar consciências, a vigilância evangélica foi substituída pela embriaguez do poder. O problema não está simplesmente em ocupar uma posição de autoridade, mas em esquecer que a autoridade cristã encontra sua medida no serviço. Jesus já havia ensinado: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servidor” (Mc 10,43). O Evangelho não legitima uma elite religiosa protegida por títulos; ele forma servidores responsáveis diante de Deus e dos seres humanos. A vigilância cristã precisa ser compreendida como o contrário da anestesia espiritual. Uma pessoa pode estar biologicamente acordada e, entretanto, viver moralmente adormecida. Pode enxergar a pobreza sem se deixar tocar por ela, ouvir o grito de quem sofre e continuar indiferente, participar da liturgia e permanecer fechada à conversão, conhecer palavras religiosas e não permitir que elas transformem suas relações. Há também quem fale constantemente de Deus, mas não consiga perceber o ser humano ferido ao seu lado. A vigilância bíblica abre os olhos para a presença de Deus e, justamente por isso, abre também os olhos para a realidade. O Deus da Escritura não é encontrado como justificativa para a indiferença; ele se revela na história e convoca seu povo a praticar a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Lucas ilumina essa mesma atitude quando apresenta os servos com “os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35-36). A imagem é concreta: quem espera o senhor precisa estar preparado para abrir a porta quando ele chegar. A lâmpada acesa expressa uma existência disponível, uma consciência desperta. Não significa viver em tensão permanente, como quem teme uma ameaça, mas conservar a capacidade de reconhecer a chegada do outro. Na tradição bíblica, a luz está ligada ao conhecimento, à vida e ao caminho. Por isso Paulo afirma que os cristãos são “filhos da luz e filhos do dia” e exorta: “não durmamos, como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,5-8). O sono, nesse horizonte, torna-se imagem da ignorância, da alienação e da perda de discernimento. A sobriedade cristã consiste em não se deixar dominar pelas ilusões que prometem segurança enquanto afastam da verdade. Vigiar é desenvolver consciência sobre aquilo que acontece dentro de nós. Existem medos que nos governam sem que percebamos, desejos que se apresentam como necessidades, preconceitos que confundimos com convicções e mecanismos de defesa que transformam nossos próprios erros em culpa dos outros. Uma espiritualidade madura não foge dessa realidade. Ela aprende a examinar os pensamentos, reconhecer as próprias contradições e distinguir fé de projeção pessoal. O Evangelho não pede uma consciência paranoica, mas uma consciência lúcida. Vigilância não é imaginar inimigos em toda parte; é ter discernimento suficiente para não transformar nossas inseguranças em verdades religiosas. Também não é viver obcecado por sinais apocalípticos. É permanecer disponível à conversão cotidiana.

Também existem estruturas que produzem sono coletivo. Uma sociedade pode acostumar-se à violência, à desigualdade, à fome, à corrupção e à exclusão até que aquilo que deveria causar indignação passe a parecer normal. A propaganda, o consumo compulsivo, a polarização política e determinados discursos religiosos podem funcionar como mecanismos de anestesia, oferecendo respostas simples para problemas complexos e transformando adversários em inimigos absolutos. Nesse ambiente, vigiar significa recuperar a capacidade de pensar criticamente. Significa não aceitar como natural aquilo que fere a dignidade humana. Significa desconfiar de discursos que usam Deus para legitimar ódio, violência ou privilégios. Uma fé desperta não entrega sua consciência a líderes, partidos, ideologias ou mercados; ela submete todas essas realidades ao critério do Evangelho e da dignidade humana.

O Antigo Testamento já conhecia essa espiritualidade da espera ativa. Habacuc proclama: “Se demorar, espera-o, porque certamente virá” (Hab 2,3). A espera bíblica não é resignação passiva; é confiança perseverante. Isaías apresenta o recolhimento como momento de proteção e discernimento (Is 26,20), enquanto Daniel anuncia que aqueles que possuem entendimento e conduzem muitos à justiça resplandecerão como estrelas (Dn 12,3). A imagem de Daniel é particularmente significativa: o futuro de Deus não é construído pela força dos poderosos, mas também pela fidelidade daqueles que ajudam outros a encontrar o caminho da justiça. A esperança escatológica, portanto, possui consequências históricas. Quem espera o Reino aprende a viver desde já segundo os valores do Reino.

A tradição dos Padres da Igreja desenvolveu essa compreensão da vigilância como postura permanente de conversão, oração e sobriedade. Em vez de entendê-la como mera privação do sono físico, a espiritualidade cristã antiga percebeu que o verdadeiro perigo é dormir por dentro. 
  • Uma pessoa pode manter os olhos abertos e perder a capacidade de amar
  • Pode rezar longamente e permanecer presa ao ego; 
  • Pode conhecer a doutrina  e  continuar praticando injustiça. 
A lâmpada que Cristo deseja acesa é a vida transformada. A oração, nesse sentido, não serve para escapar da realidade, mas para retornar a ela com olhos mais lúcidos e coração mais disponível. A Igreja é chamada a discernir os “sinais dos tempos” e interpretá-los à luz do Evangelho (Gaudium et Spes, 4; 11). Discernir não significa simplesmente identificar acontecimentos extraordinários; significa perceber, no movimento da história, onde a vida está sendo ameaçada, onde a dignidade humana é negada e onde surgem possibilidades de justiça, fraternidade e esperança. Uma Igreja vigilante não vive fechada em sua própria linguagem. Ela escuta o mundo sem simplesmente se submeter ao espírito do mundo; dialoga com a sociedade sem abandonar o Evangelho; reconhece as feridas do seu tempo e pergunta o que o Senhor está exigindo de sua comunidade.

A vigilância possui uma consequência pastoral inevitável: cuidar das pessoas concretas. O servo fiel de Mateus recebe a tarefa de oferecer alimento no tempo devido. Essa imagem não deveria ser espiritualizada de maneira a perder sua dimensão humana. Alimentar é cuidar da vida. É oferecer presença, escuta, orientação, justiça e solidariedade. Uma comunidade cristã pode possuir templos, estruturas, documentos e programas pastorais, mas estará dormindo se não perceber aqueles que estão ficando para trás. Existem perguntas desse  Evangelho que precisam  alcança nossas paróquias, dioceses, movimentos e lideranças: 
  • Quem está sendo cuidado? 
  • Quem está sendo silenciado? 
  • Quem está sendo excluído? 
  • Quem perdeu a esperança? 
  • Quem sofre sem que ninguém abra a porta?  
Aqui também se encontra uma crítica necessária à religião transformada em espetáculo ou mercadoria. Quando a fé é vendida como produto, a esperança pode ser convertida em consumo; quando a religião se torna espetáculo, a experiência de Deus pode ser substituída pela busca de visibilidade; quando a instituição se preocupa mais com sua própria preservação do que com a dignidade das pessoas, a lâmpada permanece acesa apenas exteriormente. O Evangelho, entretanto, não mede a fidelidade pelo tamanho do palco, pela quantidade de seguidores ou pelo poder acumulado. Mede-a pelo amor que se torna serviço. A parábola de Mateus desmascara a administração religiosa que se alimenta dos outros em vez de alimentar os outros. Uma fé vigilante não pode colocar o mercado acima da vida, transformar a pobreza em culpa individual ou justificar a violência como solução permanente para conflitos humanos. Tampouco pode usar o nome de Cristo para demonizar adversários e transformar a política em guerra moral entre “puros” e “inimigos”. Jesus não autoriza esse tipo de anestesia. Bem-aventurados são os que promovem a paz (Mt 5,9), e sua própria vida revela que grandeza não está em dominar, mas em servir. Isaías sonha com povos que transformam suas armas em instrumentos de cultivo e aprendem os caminhos da paz (Is 2,4). A vigilância cristã, portanto, também significa resistir às narrativas que normalizam a violência e alimentam o medo como instrumento de poder.

A noiva que procura o amado no Cântico dos Cânticos (Ct 3,1-4) oferece outra imagem da vigilância: ela não espera um objeto, espera uma presença. Essa espera é marcada pelo desejo. Da mesma forma, a esperança cristã não é apenas temor diante do julgamento; é desejo pela plenitude da presença de Deus. Na celebração da Eucaristia, a comunidade proclama a morte do Senhor e anuncia sua vinda (1Cor 11,26). A memória e a esperança se encontram no presente. A comunidade olha para trás para recordar Cristo, olha para frente para esperar sua vinda e, entre memória e promessa, assume a responsabilidade de viver hoje como testemunha do Reino.

Assim, a palavra “vigiai” precisa ser libertada tanto do medo religioso quanto da passividade espiritual. Jesus não nos chama a calcular o calendário do céu, mas a assumir com seriedade o tempo que nos foi confiado. O dia do Senhor não é conhecido por nós; a maneira como vivemos hoje, porém, está diante de nós. Podemos escolher a indiferença ou a compaixão, o abuso ou o serviço, a mentira ou a verdade, a exclusão ou a acolhida, o medo ou a esperança. A vigilância acontece justamente nessas escolhas aparentemente pequenas que revelam quem somos quando ninguém está nos observando. A pergunta de Mateus permanece desconcertantemente atual: se o Senhor chegasse hoje, o que encontraria em nossa casa, em nossa comunidade, em nossa Igreja e em nossa própria consciência? Encontraria pessoas preocupadas apenas em defender posições ou discípulos dispostos a servir? Encontraria uma religião ocupada em preservar privilégios ou uma comunidade com as lâmpadas acesas para enxergar os feridos da história? Encontraria administradores preocupados com o próprio poder ou servidores distribuindo alimento no tempo devido? A vigilância que Jesus pede não é uma espera imóvel diante do futuro, mas uma fidelidade ativa no presente. Vigiar é manter os olhos abertos para Deus e para a realidade, o coração aberto para o outro e as mãos ocupadas no serviço. É despertar do sono da indiferença, resistir às trevas da mentira, discernir os sinais dos tempos e permanecer firme na esperança. Quando o Senhor vier, que não nos encontre aterrorizados, distraídos ou adormecidos, mas vivos, sóbrios, luminosos e comprometidos com a justiça, a misericórdia e a caridade. Porque esperar Cristo, à luz do Evangelho, é começar a viver agora como quem já pertence ao seu Reino. 
Se Jesus manda vigiar, precisamos perguntar também o que nos faz dormir. Nem todo sono nasce da falta de oração, assim como nem toda vigília nasce de uma prática religiosa.
  •  Existe o sono do corpo 
  • Existe o sono da consciência
  • Existe o silêncio necessário à oração 
  • Existe o silêncio cúmplice diante da injustiça
  • Existe a contemplação que nos aproxima de Deus 
  • Existe uma religiosidade que utiliza Deus para fugir da realidade. 
Por isso, há adorações de  verdade  que despertam e adorações que entorpecem e a verdadeira fé abre os olhos para Deus e, justamente por isso, abre também os olhos para o sofrimento humano. É possível:  
  • Adorar e permanecer indiferente, 
  • Cantar sobre misericórdia e praticar exclusão
  • galar de fraternidade e sustentar estruturas de humilhação
  • Defender a doutrina e abandonar a pessoa
  • Levantar as mãos para o céu e fechar as mãos diante de quem pede pão. 
Nesse sentido, a crítica de Karl Marx à religião pode ser colocada em diálogo, sem confundi-la com a crítica bíblica, com a denúncia profética de uma religiosidade que pode transformar-se em alienação e consolação diante de estruturas sociais injustas. Marx analisou a religião dentro de uma crítica mais ampla da sociedade, do trabalho alienado, da mercantilização e das relações de poder; a Escritura, porém, já denunciava séculos antes uma religião incapaz de produzir justiça. Isaías questiona sacrifícios e assembleias quando as mãos estão cheias de sangue e injustiça e chama o povo a “aprender a fazer o bem, procurar o direito, socorrer o oprimido” (Is 1,11-17); Amós rejeita festas e cânticos religiosos quando o direito é negado e proclama: “Corra o direito como as águas e a justiça como rio perene” (Am 5,21-24); Miquéias resume a verdadeira exigência de Deus em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,6-8). A questão, portanto, não é simplesmente religião contra não religião, mas que espécie de religião estamos praticando: 
  • Uma fé que desperta ou uma religião que anestesia
  • Uma espiritualidade que liberta ou uma estrutura que exige submissão, 
  • Uma adoração que conduz ao serviço ou um culto utilizado para proteger privilégios. 
É justamente nesse horizonte que Mateus 24,42-51 deve ser lido: Jesus não apresenta a vigilância como ansiedade diante do fim nem como tentativa de descobrir datas ocultas, mas como responsabilidade no presente. O servo recebeu uma casa, pessoas e uma missão; quando o senhor parece demorar, revela-se o verdadeiro caráter daquele que administra. A demora não cria o caráter; ela o revela. O poder sem fiscalização revela se compreendemos autoridade como serviço ou privilégio, e a ausência de vigilância externa revela se nossa ética depende realmente de Deus ou apenas do olhar dos outros. Por isso, a palavra “vigiai” também alcança o clericalismo, o autoritarismo religioso e toda sacralização do poder: nenhum título torna alguém proprietário da consciência alheia, nenhum cargo pastoral concede licença para humilhar, nenhuma função eclesial autoriza abuso e nenhuma instituição está acima do Evangelho. O administrador continua sendo administrador; a casa não é dele, as pessoas não são dele, a missão não é dele e a Igreja não é propriedade sua. Tudo foi recebido como responsabilidade, e haverá prestação de contas pelo modo como tratamos aqueles que nos foram confiados (Mt 24,45-51; cf. Ez 34,2-4). Quando a religião ensina o pobre apenas a suportar sua pobreza, mas não questiona aquilo que a produz; quando ensina o trabalhador somente a aceitar seu sofrimento, mas não discerne as estruturas de exploração; quando promete uma recompensa futura para justificar injustiças presentes, a fé corre o risco de transformar-se em anestesia social. O Evangelho, entretanto, não foi anunciado para anestesiar os pobres nem para tranquilizar os poderosos: Jesus anuncia o Reino de Deus, coloca os últimos no centro (Mt 5,3-6; Lc 4,16-21), aproxima-se dos excluídos, partilha a mesa com aqueles que eram considerados indignos (Mc 2,15-17), confronta uma religião que transforma a vontade de Deus em fardo para os outros (Mt 23,4) e recorda que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (Mt 22,37-40). Por isso, a vigilância cristã precisa alcançar aquilo que adoramos e aquilo que permitimos dominar nossa consciência: dinheiro, poder, mercado, instituição, líder religioso, ideologia política e até nossa própria interpretação da Bíblia podem transformar-se em ídolos quando passam a ocupar o lugar que pertence somente a Deus (Ex 20,3-5; Mt 6,24). Até a imagem que construímos de Deus pode tornar-se idolátrica quando fabricamos um deus que pensa exatamente como nós, odeia quem odiamos e legitima aquilo que já decidimos fazer. Esse não é o Deus revelado em Jesus Cristo. O Deus bíblico escuta o clamor do oprimido (Ex 3,7-9), defende o pobre e o vulnerável (Dt 10,17-19; Sl 146,7-9), e Jesus identifica-se com os pequenos: “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Por isso, a verdadeira adoração não termina na porta do templo: ela atravessa suas portas e alcança a casa, o trabalho, a economia, a política, as relações sociais e a maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca. Tiago expressa isso com radicalidade: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e conservar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27). Não basta estar dentro da Igreja; é preciso estar desperto dentro da história. Não basta rezar; é preciso converter-se. Não basta conhecer a doutrina; é preciso praticar a justiça. Não basta falar de Cristo; é preciso servir como Cristo. Não basta esperar o Reino; é preciso viver já segundo os valores do Reino. O profeta não é simplesmente aquele que anuncia catástrofes ou calcula o fim do mundo; é aquele que impede a consciência de dormir, denuncia quando a mentira se torna normal e recorda que Deus não pode ser utilizado para legitimar injustiça. É nessa perspectiva que o “vigiai” de Jesus se torna palavra profética para a Igreja: vigiai quando a religião pede silêncio onde deveria existir denúncia; quando o poder exige reverência em lugar de responsabilidade; quando a instituição protege sua imagem mais do que as pessoas feridas; quando a fé se transforma em mercadoria; quando a pobreza é tratada como culpa individual; quando a violência é apresentada como solução; quando líderes religiosos são considerados intocáveis; quando uma ideologia ocupa o lugar da consciência; quando o mercado vale mais que a vida. A vigilância cristã não é medo do futuro, mas fidelidade no presente: “Felizes os servos que o senhor encontrar vigilantes quando chegar” (Lc 12,37). A casa está em nossas mãos enquanto esperamos o Senhor, e a pergunta do Evangelho é o que estamos fazendo com ela: alimentando ou explorando, acolhendo ou expulsando, servindo ou dominando, despertando consciências ou fabricando anestesias religiosas. Cristo não deseja encontrar uma comunidade cheia de espectadores religiosos, mas de servidores; não uma Igreja anestesiada pelo poder, mas uma comunidade desperta para a dor humana; não pessoas preocupadas em preservar privilégios, mas discípulos dispostos a alimentar os famintos, levantar os caídos, acolher os excluídos e denunciar a injustiça. Vigiar é manter a lâmpada acesa e a consciência desperta (Mt 25,1-13); é permanecer acordado diante de Deus e diante da realidade. Porque a verdadeira adoração não nos retira do mundo: ela nos devolve ao mundo com os olhos abertos. Quando a fé realmente desperta, o sofrimento do outro deixa de ser paisagem. Vigiar é não se acostumar com aquilo que Deus não deseja. É esperar Cristo não de braços cruzados, mas trabalhando pelo Reino que ele anunciou; é permitir que, quando o Senhor vier, encontre sua casa ocupada não pela indiferença, mas pelo serviço. Essa é a vigilância que Jesus deseja: uma fé que não entorpece, uma adoração que não aliena e uma consciência que permanece acordada diante de Deus, diante do próximo e diante da história.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 24 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 23,13-22

A liturgia da Segunda-feira da 21ª semana do Tempo Comum nos coloca diante de um dos discursos mais incisivos de Jesus, registrado em Mateus 23,13-22, que se prolonga, de diversas formas, ao longo da semana, como uma pedagogia litúrgica que nos convida à conversão gradual e à reflexão profunda. O evangelho proclamado denuncia a hipocrisia religiosa, o formalismo e a manipulação da Lei, mostrando que o Reino não convive com a religião de fachada, mas com a verdade do coração. Marcos 12,38-40 e Lucas 11,37-52 descrevem de forma semelhante a atitude dos escribas e fariseus, enquanto Lucas 6,24-26 contrapõe os “ais” às bem-aventuranças. A repetição sinótica evidencia que a Palavra de Jesus é núcleo central de sua missão profética: Ele não denuncia circunstâncias isoladas, mas padrões que fecham o coração humano e a porta do Reino.
Jesus inicia com os “ais”, expressão que na tradição profética não é grito de raiva, mas lamentação dolorosa e anúncio de juízo. Isaías já usara o “ai” como denúncia da injustiça social: “Ai dos que ajuntam casa a casa, que anexam campo a campo, até não haver mais espaço” (Is 5,8). Amós clama contra o conforto que cega para a opressão: “Ai dos que vivem tranquilos em Sião e se sentem seguros em Samaria” (Am 6,1). Habacuque denuncia a exploração alheia: “Ai daquele que multiplica o que não é seu, acumulando riqueza à custa do sofrimento alheio” (Hb 2,6). Sofonias grita contra a cidade corrompida e opressora: “Ai da cidade rebelde e manchada, da cidade opressora!” (Sf 3,1). Esses “ais” se consolidam em Jesus como continuidade da tradição profética, denunciando injustiça, falsa religiosidade e manipulação da Lei, agora no contexto do Segundo Templo, em que escribas e fariseus detinham autoridade espiritual, mas muitas vezes desviavam o povo da liberdade e da justiça que a Lei buscava promover.
No Novo Testamento, os “ais” ganham contornos específicos. Lucas 6,24-26 contrapõe bem-aventuranças e avis: “Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação... Ai de vós, quando todos vos elogiam...”. Marcos 12,38-40 denuncia escribas que exploram as viúvas, ostentam longas orações e buscam prestígio humano; Mateus 7,21-23 ecoa o mesmo espírito: não basta invocar o Senhor, é preciso fazer a vontade do Pai. Os paralelos sinóticos reforçam que a preocupação de Jesus é estrutural, denunciando padrões de religiosidade que endurecem corações, promovem exclusão e fecham portas ao Reino.
A exegese de Mateus 23,14-22 evidencia como juramento, ouro do templo e piedade aparente eram instrumentos de controle, valorizando o acessório acima do essencial. Psicologicamente, a hipocrisia esconde fragilidade, medo e necessidade de poder; sociologicamente, estruturas que se alimentam do medo reproduzem desigualdade; antropologicamente, ritos desconectados da vida tornam-se instrumentos de opressão; filosoficamente, ecoa Hannah Arendt sobre a banalidade do mal: estruturas aparentemente neutras produzem injustiça sistemática quando ética e compaixão são substituídas pelo formalismo.
A patrística aprofunda essa leitura: Santo Agostinho, em De Sermone Domini in Monte, vê nos “ais” pedagogia de Cristo que corrige corações com dor amorosa; Orígenes denuncia os que usam a Palavra como instrumento de poder; São João Crisóstomo ressalta que o grito de Jesus não é ódio, mas amor ferido. Tertuliano alerta que a justiça da fé é inseparável da coerência de vida; Gregório de Nissa denuncia a diferença entre aparência externa e vida interior autêntica. A tradição cristã mantém a coerência do ensinamento: a religião que escraviza é detestável, mas a fé vivida com verdade, coerência e misericórdia é caminho de salvação.
O Magistério contemporâneo reforça essa análise: Lumen Gentium lembra que a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação (LG 8). Evangelii Gaudium denuncia mundanidade espiritual e clericalismo que fecham o acesso ao Reino (EG 93-97, 102). Gaudium et Spes (63-66) aponta que estruturas sociais injustas sustentam alienação e impedem justiça e misericórdia. Francisco alerta contra a mercantilização da fé, ministérios que buscam likes e aprovação, e práticas que reproduzam hipocrisia farisaica.
Essas observações permitem um diálogo crítico com distorções teológicas contemporâneas: a teologia da prosperidade, ao prometer bênçãos em troca de dinheiro, reproduz a hipocrisia dos fariseus; a teologia do domínio instrumentaliza a fé para poder político ou social; o individualismo religioso transforma fé em mercadoria; o clericalismo privilegia ministros sobre a comunidade, fechando portas ao Reino. Cada distorção impede a vida plena em Deus e fecha portas à autenticidade do Evangelho.
Os “ais” também revelam a dimensão antropológica e espiritual: Deus quer autenticidade, misericórdia e serviço, não aparência ou formalismo. Cada discípulo é chamado a examinar o próprio coração, reconhecendo máscaras, preconceitos e interesses próprios. A fé plena integra coração, mente e ação, conduzindo à justiça, à compaixão e à comunhão. Jesus lamenta Jerusalém (Mt 23,37), mostrando que o “ai” é sempre acompanhado de misericórdia e convite à conversão, à coragem e à responsabilidade ética.
Desde Isaías até Apocalipse, os “ais” revelam que a denúncia divina permanece: formalismo, manipulação, opressão e hipocrisia continuam ameaças à vida plena. Mas a última palavra é esperança: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Cada “ai” de Jesus é denúncia e convite: a fé plena liberta, integra vida e coração, transforma comunidades, promove justiça, misericórdia e autenticidade, mantendo coerência entre tradição profética, patrística e Magistério. É uma pedagogia contínua que atravessa séculos, chamando-nos a viver uma fé que abre portas, acolhe e ama como Cristo nos ensinou.

DNonato - Teólogo do Cotidiano