quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 24,42-51



A Igreja proclama Mateus 24,42-51 na quinta-feira da 21ª  semana do Tempo Comum, convidando a comunidade: “Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor”. A liturgia não escolhe este texto para alimentar curiosidades sobre o fim dos tempos, nem para estimular o medo diante de uma possível catástrofe, mas para colocar a comunidade diante da responsabilidade de viver fielmente o tempo presente. O próprio calendário litúrgico apresenta a passagem como uma exortação dirigida de modo particular àqueles que receberam responsabilidades na comunidade, mas que alcança todos os discípulos que aguardam a vinda do Senhor.
Esta palavra de Jesus está inserida no grande discurso escatológico de Mateus, nos capítulos 24–25, e possui paralelos nos outros Evangelhos sinóticos.
  • Marcos conserva a exortação à vigilância em Mc 13,33-37, texto proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na  terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum. Nessa passagem, Jesus insiste: “Vigiai”, porque ninguém sabe quando o senhor da casa voltará. A perícope apresenta a imagem do senhor que parte, confia a cada servo uma tarefa e ordena ao porteiro que permaneça vigilante.
  • Lucas apresenta ensinamentos semelhantes em Lc 12,35-48, texto proclamado no 19º Domingo do Tempo Comum – Ano C e  também é proclamado  dividido em duas partes na 29ª Semana do Tempo Comum: na terça-feira, Lc 12,35-38, e na quarta-feira, Lc 12,39-48. O texto reúne as imagens dos servos com as lâmpadas acesas, do senhor que retorna e do administrador colocado à frente dos demais, ressaltando a vigilância, a fidelidade e a responsabilidade daqueles a quem foi confiado o cuidado dos outros.
Portanto, não estamos diante de textos absolutamente idênticos, mas de tradições evangélicas paralelas nas quais cada evangelista organiza e enfatiza o ensinamento de Jesus segundo sua própria perspectiva teológica.
Em Marcos, predomina a tensão da espera: o discípulo precisa permanecer desperto porque não conhece a hora da chegada do Senhor,    em Lucas, ganha força a imagem dos servos preparados, das lâmpadas acesas e da responsabilidade daquele que recebeu uma missão e em  Mateus, essa perspectiva se torna ainda mais contundente porque a vigilância está diretamente ligada ao exercício da responsabilidade: o servo foi colocado à frente da casa para dar alimento aos demais no tempo devido. O problema, portanto, não é simplesmente dormir enquanto se espera o senhor; é transformar a ausência aparente do senhor em oportunidade para dominar, ferir e explorar aqueles que deveriam ser cuidados.
É precisamente aqui que a liturgia nos conduz para além de uma leitura individualista do Evangelho. “Vigiai” não significa apenas cuidar da própria alma; significa também permanecer atento à maneira como exercemos responsabilidades sobre a vida dos outros. A vigilância cristã envolve consciência, discernimento, justiça, serviço e capacidade de reconhecer quando o poder começa a corromper a missão recebida.

Por isso, quando a Igreja proclama hoje este Evangelho, ela não está apenas perguntando: “Você está preparado para a volta de Cristo?”. Está fazendo uma pergunta muito mais incômoda: 
  • “O que você está fazendo enquanto Cristo não vem?”
  • Que espécie de comunidade estamos construindo?
  • Como tratamos aqueles que dependem de nossas decisões?
  • O que fazemos com a autoridade que recebemos?
  • Estamos alimentando ou ferindo?
  • Estamos cuidando ou controlando?
  • Estamos servindo ou utilizando pessoas para sustentar nossa própria posição?
A vigilância cristã começa exatamente aí. Jesus não entrega aos discípulos a data da sua vinda; entrega-lhes uma responsabilidade. O futuro permanece nas mãos de Deus, mas o presente foi confiado às nossas mãos.
É a partir desse horizonte litúrgico, bíblico e pastoral que precisamos escutar novamente a palavra: “Vigiai”.

Por isso  Mateus 24,42-51,   proclamado  na quinta-feira da 21ª semana do Tempo Comum, coloca diante de nós essa palavra que atravessa toda a experiência cristã: “Vigiai”. A vigilância cristã não é ansiedade diante do futuro, nem medo religioso do fim, nem tentativa de descobrir datas escondidas nos acontecimentos da história. É uma forma de existir no presente. Vigiar é permanecer desperto diante de Deus, da própria consciência e da realidade; é não permitir que a indiferença, a acomodação ou a ilusão nos façam perder a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e responder segundo o Evangelho. Por isso, a vigilância é esperança, mas também responsabilidade. O discípulo não sabe quando o Senhor virá, mas sabe o que deve fazer enquanto espera: permanecer fiel, cuidar da casa e servir. A vigilância cristã não é ansiedade diante do futuro, nem medo religioso do fim, nem tentativa de descobrir datas escondidas nos acontecimentos da história. É uma forma de existir no presente. Vigiar é permanecer desperto diante de Deus, da própria consciência e da realidade; é não permitir que a indiferença, a acomodação ou a ilusão nos façam perder a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e responder segundo o Evangelho. Por isso, a vigilância é esperança, mas também responsabilidade. O discípulo não sabe quando o Senhor virá, mas sabe o que deve fazer enquanto espera: permanecer fiel, cuidar da casa e servir.  O contexto de Mateus é decisivo. Jesus fala de sua vinda utilizando a imagem do ladrão que chega inesperadamente e, em seguida, apresenta a figura do administrador colocado à frente da casa para cuidar dos demais empregados. O servo fiel não fica paralisado esperando o patrão. Ele administra, alimenta e cuida “no tempo devido”. Sua fidelidade é reconhecida pela maneira como trata aqueles que lhe foram confiados. O servo mau, ao contrário, interpreta a demora do senhor como licença para abusar do poder: começa a espancar os companheiros e a viver para seus próprios interesses. A demora revela o coração de cada administrador. Quando a fiscalização parece distante, aparece aquilo que realmente somos.

Autoridade, na perspectiva de Jesus, nunca é propriedade pessoal; é responsabilidade recebida para o bem dos outros. O administrador não é dono da casa. Ele exerce uma função que lhe foi confiada. Por isso, quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser o compromisso com o cuidado. Essa lógica confronta diretamente toda forma de clericalismo, autoritarismo religioso ou culto à personalidade. Quando alguém transforma uma missão de serviço em instrumento de poder, quando utiliza a função para humilhar, excluir, silenciar ou controlar consciências, a vigilância evangélica foi substituída pela embriaguez do poder. O problema não está simplesmente em ocupar uma posição de autoridade, mas em esquecer que a autoridade cristã encontra sua medida no serviço. Jesus já havia ensinado: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servidor” (Mc 10,43). O Evangelho não legitima uma elite religiosa protegida por títulos; ele forma servidores responsáveis diante de Deus e dos seres humanos. A vigilância cristã precisa ser compreendida como o contrário da anestesia espiritual. Uma pessoa pode estar biologicamente acordada e, entretanto, viver moralmente adormecida. Pode enxergar a pobreza sem se deixar tocar por ela, ouvir o grito de quem sofre e continuar indiferente, participar da liturgia e permanecer fechada à conversão, conhecer palavras religiosas e não permitir que elas transformem suas relações. Há também quem fale constantemente de Deus, mas não consiga perceber o ser humano ferido ao seu lado. A vigilância bíblica abre os olhos para a presença de Deus e, justamente por isso, abre também os olhos para a realidade. O Deus da Escritura não é encontrado como justificativa para a indiferença; ele se revela na história e convoca seu povo a praticar a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Lucas ilumina essa mesma atitude quando apresenta os servos com “os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35-36). A imagem é concreta: quem espera o senhor precisa estar preparado para abrir a porta quando ele chegar. A lâmpada acesa expressa uma existência disponível, uma consciência desperta. Não significa viver em tensão permanente, como quem teme uma ameaça, mas conservar a capacidade de reconhecer a chegada do outro. Na tradição bíblica, a luz está ligada ao conhecimento, à vida e ao caminho. Por isso Paulo afirma que os cristãos são “filhos da luz e filhos do dia” e exorta: “não durmamos, como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios” (1Ts 5,5-8). O sono, nesse horizonte, torna-se imagem da ignorância, da alienação e da perda de discernimento. A sobriedade cristã consiste em não se deixar dominar pelas ilusões que prometem segurança enquanto afastam da verdade. Vigiar é desenvolver consciência sobre aquilo que acontece dentro de nós. Existem medos que nos governam sem que percebamos, desejos que se apresentam como necessidades, preconceitos que confundimos com convicções e mecanismos de defesa que transformam nossos próprios erros em culpa dos outros. Uma espiritualidade madura não foge dessa realidade. Ela aprende a examinar os pensamentos, reconhecer as próprias contradições e distinguir fé de projeção pessoal. O Evangelho não pede uma consciência paranoica, mas uma consciência lúcida. Vigilância não é imaginar inimigos em toda parte; é ter discernimento suficiente para não transformar nossas inseguranças em verdades religiosas. Também não é viver obcecado por sinais apocalípticos. É permanecer disponível à conversão cotidiana.

Também existem estruturas que produzem sono coletivo. Uma sociedade pode acostumar-se à violência, à desigualdade, à fome, à corrupção e à exclusão até que aquilo que deveria causar indignação passe a parecer normal. A propaganda, o consumo compulsivo, a polarização política e determinados discursos religiosos podem funcionar como mecanismos de anestesia, oferecendo respostas simples para problemas complexos e transformando adversários em inimigos absolutos. Nesse ambiente, vigiar significa recuperar a capacidade de pensar criticamente. Significa não aceitar como natural aquilo que fere a dignidade humana. Significa desconfiar de discursos que usam Deus para legitimar ódio, violência ou privilégios. Uma fé desperta não entrega sua consciência a líderes, partidos, ideologias ou mercados; ela submete todas essas realidades ao critério do Evangelho e da dignidade humana.

O Antigo Testamento já conhecia essa espiritualidade da espera ativa. Habacuc proclama: “Se demorar, espera-o, porque certamente virá” (Hab 2,3). A espera bíblica não é resignação passiva; é confiança perseverante. Isaías apresenta o recolhimento como momento de proteção e discernimento (Is 26,20), enquanto Daniel anuncia que aqueles que possuem entendimento e conduzem muitos à justiça resplandecerão como estrelas (Dn 12,3). A imagem de Daniel é particularmente significativa: o futuro de Deus não é construído pela força dos poderosos, mas também pela fidelidade daqueles que ajudam outros a encontrar o caminho da justiça. A esperança escatológica, portanto, possui consequências históricas. Quem espera o Reino aprende a viver desde já segundo os valores do Reino.

A tradição dos Padres da Igreja desenvolveu essa compreensão da vigilância como postura permanente de conversão, oração e sobriedade. Em vez de entendê-la como mera privação do sono físico, a espiritualidade cristã antiga percebeu que o verdadeiro perigo é dormir por dentro. 
  • Uma pessoa pode manter os olhos abertos e perder a capacidade de amar
  • Pode rezar longamente e permanecer presa ao ego; 
  • Pode conhecer a doutrina  e  continuar praticando injustiça. 
A lâmpada que Cristo deseja acesa é a vida transformada. A oração, nesse sentido, não serve para escapar da realidade, mas para retornar a ela com olhos mais lúcidos e coração mais disponível. A Igreja é chamada a discernir os “sinais dos tempos” e interpretá-los à luz do Evangelho (Gaudium et Spes, 4; 11). Discernir não significa simplesmente identificar acontecimentos extraordinários; significa perceber, no movimento da história, onde a vida está sendo ameaçada, onde a dignidade humana é negada e onde surgem possibilidades de justiça, fraternidade e esperança. Uma Igreja vigilante não vive fechada em sua própria linguagem. Ela escuta o mundo sem simplesmente se submeter ao espírito do mundo; dialoga com a sociedade sem abandonar o Evangelho; reconhece as feridas do seu tempo e pergunta o que o Senhor está exigindo de sua comunidade.

A vigilância possui uma consequência pastoral inevitável: cuidar das pessoas concretas. O servo fiel de Mateus recebe a tarefa de oferecer alimento no tempo devido. Essa imagem não deveria ser espiritualizada de maneira a perder sua dimensão humana. Alimentar é cuidar da vida. É oferecer presença, escuta, orientação, justiça e solidariedade. Uma comunidade cristã pode possuir templos, estruturas, documentos e programas pastorais, mas estará dormindo se não perceber aqueles que estão ficando para trás. Existem perguntas desse  Evangelho que precisam  alcança nossas paróquias, dioceses, movimentos e lideranças: 
  • Quem está sendo cuidado? 
  • Quem está sendo silenciado? 
  • Quem está sendo excluído? 
  • Quem perdeu a esperança? 
  • Quem sofre sem que ninguém abra a porta?  
Aqui também se encontra uma crítica necessária à religião transformada em espetáculo ou mercadoria. Quando a fé é vendida como produto, a esperança pode ser convertida em consumo; quando a religião se torna espetáculo, a experiência de Deus pode ser substituída pela busca de visibilidade; quando a instituição se preocupa mais com sua própria preservação do que com a dignidade das pessoas, a lâmpada permanece acesa apenas exteriormente. O Evangelho, entretanto, não mede a fidelidade pelo tamanho do palco, pela quantidade de seguidores ou pelo poder acumulado. Mede-a pelo amor que se torna serviço. A parábola de Mateus desmascara a administração religiosa que se alimenta dos outros em vez de alimentar os outros. Uma fé vigilante não pode colocar o mercado acima da vida, transformar a pobreza em culpa individual ou justificar a violência como solução permanente para conflitos humanos. Tampouco pode usar o nome de Cristo para demonizar adversários e transformar a política em guerra moral entre “puros” e “inimigos”. Jesus não autoriza esse tipo de anestesia. Bem-aventurados são os que promovem a paz (Mt 5,9), e sua própria vida revela que grandeza não está em dominar, mas em servir. Isaías sonha com povos que transformam suas armas em instrumentos de cultivo e aprendem os caminhos da paz (Is 2,4). A vigilância cristã, portanto, também significa resistir às narrativas que normalizam a violência e alimentam o medo como instrumento de poder.

A noiva que procura o amado no Cântico dos Cânticos (Ct 3,1-4) oferece outra imagem da vigilância: ela não espera um objeto, espera uma presença. Essa espera é marcada pelo desejo. Da mesma forma, a esperança cristã não é apenas temor diante do julgamento; é desejo pela plenitude da presença de Deus. Na celebração da Eucaristia, a comunidade proclama a morte do Senhor e anuncia sua vinda (1Cor 11,26). A memória e a esperança se encontram no presente. A comunidade olha para trás para recordar Cristo, olha para frente para esperar sua vinda e, entre memória e promessa, assume a responsabilidade de viver hoje como testemunha do Reino.

Assim, a palavra “vigiai” precisa ser libertada tanto do medo religioso quanto da passividade espiritual. Jesus não nos chama a calcular o calendário do céu, mas a assumir com seriedade o tempo que nos foi confiado. O dia do Senhor não é conhecido por nós; a maneira como vivemos hoje, porém, está diante de nós. Podemos escolher a indiferença ou a compaixão, o abuso ou o serviço, a mentira ou a verdade, a exclusão ou a acolhida, o medo ou a esperança. A vigilância acontece justamente nessas escolhas aparentemente pequenas que revelam quem somos quando ninguém está nos observando. A pergunta de Mateus permanece desconcertantemente atual: se o Senhor chegasse hoje, o que encontraria em nossa casa, em nossa comunidade, em nossa Igreja e em nossa própria consciência? Encontraria pessoas preocupadas apenas em defender posições ou discípulos dispostos a servir? Encontraria uma religião ocupada em preservar privilégios ou uma comunidade com as lâmpadas acesas para enxergar os feridos da história? Encontraria administradores preocupados com o próprio poder ou servidores distribuindo alimento no tempo devido? A vigilância que Jesus pede não é uma espera imóvel diante do futuro, mas uma fidelidade ativa no presente. Vigiar é manter os olhos abertos para Deus e para a realidade, o coração aberto para o outro e as mãos ocupadas no serviço. É despertar do sono da indiferença, resistir às trevas da mentira, discernir os sinais dos tempos e permanecer firme na esperança. Quando o Senhor vier, que não nos encontre aterrorizados, distraídos ou adormecidos, mas vivos, sóbrios, luminosos e comprometidos com a justiça, a misericórdia e a caridade. Porque esperar Cristo, à luz do Evangelho, é começar a viver agora como quem já pertence ao seu Reino. 
Se Jesus manda vigiar, precisamos perguntar também o que nos faz dormir. Nem todo sono nasce da falta de oração, assim como nem toda vigília nasce de uma prática religiosa.
  •  Existe o sono do corpo 
  • Existe o sono da consciência
  • Existe o silêncio necessário à oração 
  • Existe o silêncio cúmplice diante da injustiça
  • Existe a contemplação que nos aproxima de Deus 
  • Existe uma religiosidade que utiliza Deus para fugir da realidade. 
Por isso, há adorações de  verdade  que despertam e adorações que entorpecem e a verdadeira fé abre os olhos para Deus e, justamente por isso, abre também os olhos para o sofrimento humano. É possível:  
  • Adorar e permanecer indiferente, 
  • Cantar sobre misericórdia e praticar exclusão
  • galar de fraternidade e sustentar estruturas de humilhação
  • Defender a doutrina e abandonar a pessoa
  • Levantar as mãos para o céu e fechar as mãos diante de quem pede pão. 
Nesse sentido, a crítica de Karl Marx à religião pode ser colocada em diálogo, sem confundi-la com a crítica bíblica, com a denúncia profética de uma religiosidade que pode transformar-se em alienação e consolação diante de estruturas sociais injustas. Marx analisou a religião dentro de uma crítica mais ampla da sociedade, do trabalho alienado, da mercantilização e das relações de poder; a Escritura, porém, já denunciava séculos antes uma religião incapaz de produzir justiça. Isaías questiona sacrifícios e assembleias quando as mãos estão cheias de sangue e injustiça e chama o povo a “aprender a fazer o bem, procurar o direito, socorrer o oprimido” (Is 1,11-17); Amós rejeita festas e cânticos religiosos quando o direito é negado e proclama: “Corra o direito como as águas e a justiça como rio perene” (Am 5,21-24); Miquéias resume a verdadeira exigência de Deus em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,6-8). A questão, portanto, não é simplesmente religião contra não religião, mas que espécie de religião estamos praticando: 
  • Uma fé que desperta ou uma religião que anestesia
  • Uma espiritualidade que liberta ou uma estrutura que exige submissão, 
  • Uma adoração que conduz ao serviço ou um culto utilizado para proteger privilégios. 
É justamente nesse horizonte que Mateus 24,42-51 deve ser lido: Jesus não apresenta a vigilância como ansiedade diante do fim nem como tentativa de descobrir datas ocultas, mas como responsabilidade no presente. O servo recebeu uma casa, pessoas e uma missão; quando o senhor parece demorar, revela-se o verdadeiro caráter daquele que administra. A demora não cria o caráter; ela o revela. O poder sem fiscalização revela se compreendemos autoridade como serviço ou privilégio, e a ausência de vigilância externa revela se nossa ética depende realmente de Deus ou apenas do olhar dos outros. Por isso, a palavra “vigiai” também alcança o clericalismo, o autoritarismo religioso e toda sacralização do poder: nenhum título torna alguém proprietário da consciência alheia, nenhum cargo pastoral concede licença para humilhar, nenhuma função eclesial autoriza abuso e nenhuma instituição está acima do Evangelho. O administrador continua sendo administrador; a casa não é dele, as pessoas não são dele, a missão não é dele e a Igreja não é propriedade sua. Tudo foi recebido como responsabilidade, e haverá prestação de contas pelo modo como tratamos aqueles que nos foram confiados (Mt 24,45-51; cf. Ez 34,2-4). Quando a religião ensina o pobre apenas a suportar sua pobreza, mas não questiona aquilo que a produz; quando ensina o trabalhador somente a aceitar seu sofrimento, mas não discerne as estruturas de exploração; quando promete uma recompensa futura para justificar injustiças presentes, a fé corre o risco de transformar-se em anestesia social. O Evangelho, entretanto, não foi anunciado para anestesiar os pobres nem para tranquilizar os poderosos: Jesus anuncia o Reino de Deus, coloca os últimos no centro (Mt 5,3-6; Lc 4,16-21), aproxima-se dos excluídos, partilha a mesa com aqueles que eram considerados indignos (Mc 2,15-17), confronta uma religião que transforma a vontade de Deus em fardo para os outros (Mt 23,4) e recorda que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (Mt 22,37-40). Por isso, a vigilância cristã precisa alcançar aquilo que adoramos e aquilo que permitimos dominar nossa consciência: dinheiro, poder, mercado, instituição, líder religioso, ideologia política e até nossa própria interpretação da Bíblia podem transformar-se em ídolos quando passam a ocupar o lugar que pertence somente a Deus (Ex 20,3-5; Mt 6,24). Até a imagem que construímos de Deus pode tornar-se idolátrica quando fabricamos um deus que pensa exatamente como nós, odeia quem odiamos e legitima aquilo que já decidimos fazer. Esse não é o Deus revelado em Jesus Cristo. O Deus bíblico escuta o clamor do oprimido (Ex 3,7-9), defende o pobre e o vulnerável (Dt 10,17-19; Sl 146,7-9), e Jesus identifica-se com os pequenos: “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Por isso, a verdadeira adoração não termina na porta do templo: ela atravessa suas portas e alcança a casa, o trabalho, a economia, a política, as relações sociais e a maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca. Tiago expressa isso com radicalidade: “A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e conservar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27). Não basta estar dentro da Igreja; é preciso estar desperto dentro da história. Não basta rezar; é preciso converter-se. Não basta conhecer a doutrina; é preciso praticar a justiça. Não basta falar de Cristo; é preciso servir como Cristo. Não basta esperar o Reino; é preciso viver já segundo os valores do Reino. O profeta não é simplesmente aquele que anuncia catástrofes ou calcula o fim do mundo; é aquele que impede a consciência de dormir, denuncia quando a mentira se torna normal e recorda que Deus não pode ser utilizado para legitimar injustiça. É nessa perspectiva que o “vigiai” de Jesus se torna palavra profética para a Igreja: vigiai quando a religião pede silêncio onde deveria existir denúncia; quando o poder exige reverência em lugar de responsabilidade; quando a instituição protege sua imagem mais do que as pessoas feridas; quando a fé se transforma em mercadoria; quando a pobreza é tratada como culpa individual; quando a violência é apresentada como solução; quando líderes religiosos são considerados intocáveis; quando uma ideologia ocupa o lugar da consciência; quando o mercado vale mais que a vida. A vigilância cristã não é medo do futuro, mas fidelidade no presente: “Felizes os servos que o senhor encontrar vigilantes quando chegar” (Lc 12,37). A casa está em nossas mãos enquanto esperamos o Senhor, e a pergunta do Evangelho é o que estamos fazendo com ela: alimentando ou explorando, acolhendo ou expulsando, servindo ou dominando, despertando consciências ou fabricando anestesias religiosas. Cristo não deseja encontrar uma comunidade cheia de espectadores religiosos, mas de servidores; não uma Igreja anestesiada pelo poder, mas uma comunidade desperta para a dor humana; não pessoas preocupadas em preservar privilégios, mas discípulos dispostos a alimentar os famintos, levantar os caídos, acolher os excluídos e denunciar a injustiça. Vigiar é manter a lâmpada acesa e a consciência desperta (Mt 25,1-13); é permanecer acordado diante de Deus e diante da realidade. Porque a verdadeira adoração não nos retira do mundo: ela nos devolve ao mundo com os olhos abertos. Quando a fé realmente desperta, o sofrimento do outro deixa de ser paisagem. Vigiar é não se acostumar com aquilo que Deus não deseja. É esperar Cristo não de braços cruzados, mas trabalhando pelo Reino que ele anunciou; é permitir que, quando o Senhor vier, encontre sua casa ocupada não pela indiferença, mas pelo serviço. Essa é a vigilância que Jesus deseja: uma fé que não entorpece, uma adoração que não aliena e uma consciência que permanece acordada diante de Deus, diante do próximo e diante da história.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


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