Jesus não apresenta o Reino de Deus como espetáculo de poder nem como estrutura opressora. Ele o revela em imagens simples: a semente de mostarda, o fermento na massa. Em vez de exibir grandeza, aponta para o invisível que transforma conforme Mateus 13, 31-35. (Texto que visitei ontem) Esse Reino não se impõe — germina, silencia, espera, age por dentro. Está presente no cotidiano como o grão que rompe a terra ou o fermento que leveda a massa. É a pedagogia divina do pequeno.
Mas o Evangelho de Lucas 13,31-35, proclamado na quinta-feira da 30ª Semana.do TempoComum, revela a profundidade de uma pedagogia divina que se manifesta de forma silenciosa, paciente e persistente, desafiando as expectativas humanas de poder, espetáculo e rapidez. Este trecho, curto em extensão, é vasto em significado, pois retrata Jesus confrontando a lógica da violência e da opressão, representada por Herodes, e ao mesmo tempo lamentando a resistência de Jerusalém em acolher a ação de Deus. No anúncio do Reino, encontramos a pedagogia do pequeno, da vulnerabilidade e da esperança que se manifesta no tempo da história, no cotidiano e na intimidade do coração humano.
A narrativa começa com a advertência de que Herodes deseja eliminar Jesus: “Vai embora, pois Herodes quer matar-te” (Lc 13,31). Historicamente, Herodes Antipas é símbolo do poder humano, da coerção e da vigilância do Estado sobre os indivíduos. Ele representa a lógica da segurança pessoal e do controle social, da qual a teologia da prosperidade e do domínio são, em nossos dias, uma atualização disfarçada: a fé vinculada a prestígio, lucro ou controle. Psicologicamente, este momento reflete a tensão entre instinto de sobrevivência e vocação profética. Jesus, consciente da ameaça, não se submete, mas responde com autoridade moral: “Ide e dizei àquela raposa…” (Lc 13,32). A escolha da palavra “raposa” possui carga simbólica: indica astúcia, violência sutil e destruição silenciosa. No Antigo Testamento, a raposa surge como metáfora de destruição oculta ou de ameaça pequena, porém persistente (cf. Naum 1,14; Salmo 63,10), e Jesus a utiliza para criticar não apenas Herodes, mas toda lógica de poder que confunde força com autoridade legítima.
O aviso de Herodes é também pretexto para que Jesus reafirme o modo como o Reino se constrói: invisível, paciente e atento às pessoas. A pedagogia do pequeno manifesta-se nos detalhes da história e da vida cotidiana, como mostram as imagens de Lucas: a semente de mostarda, o fermento na massa, o grão que precisa morrer para frutificar (Lc 13,18-21; Jo 12,24). Estas imagens indicam que o Reino de Deus não se impõe; germina silenciosamente, age por dentro, transforma estruturas, relações e corações sem recorrer à violência ou à exibição.
No clímax da passagem, Jesus lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste!” (Lc 13,34). Este lamento não é apenas uma denúncia de violência histórica; é também um gesto teológico e simbólico. A galinha, símbolo de cuidado materno e proteção, revela a pedagogia de Deus: a intimidade, a atenção e a paciência são mais poderosas que qualquer dominação externa. Jeremias havia anunciado uma disciplina de amor semelhante (Jr 31,20), e Oséias, no início da história de Israel, comparou o cuidado divino ao recolhimento da criança pelo colo materno (Os 11,3-4). A psicologia moderna, especialmente na abordagem da ética do cuidado, reconhece que a proteção, a atenção e a escuta ativa constituem elementos essenciais para o desenvolvimento emocional e social do indivíduo; sem isso, a sociedade se torna vulnerável à violência, ao medo e à alienação.
O paralelo com os Sinóticos revela diferentes nuances desta mesma realidade. Mateus 23,37-39 ecoa o lamento de Jesus sobre Jerusalém, destacando o contraste entre o desejo divino de reunir e a rejeição humana persistente. Marcos 13,34-37 enfatiza a vigilância constante e a ação invisível do Reino, lembrando que o amor e a fidelidade não se medem em resultados imediatos ou visíveis. Lucas combina estas perspectivas, mostrando que a pedagogia divina exige tempo, paciência e presença silenciosa, e que o crescimento do Reino depende da transformação interior, da abertura ao cuidado e da rejeição à lógica da dominação.
Os símbolos presentes no texto são múltiplos e significativos. Jerusalém representa o centro da história, o locus do povo escolhido, mas também a resistência humana ao amor e à justiça. A galinha e os pintinhos simbolizam a vulnerabilidade, a proteção e a necessidade de cuidado. Os profetas mortos ou rejeitados apontam para a persistência da violência estrutural, social e religiosa, denunciando a hipocrisia e a cegueira moral. A repetição do nome Jerusalém enfatiza a intensidade da frustração divina, mas também revela a paciência infinita de Deus. A hermenêutica patrística percebe nesta cena uma convocação à fidelidade silenciosa, à intercessão persistente e à esperança paciente: Santo Agostinho adverte que não se desprezam os pequenos começos, e São Gregório Magno reforça que a semente cresce no seu tempo, sem pressa, mas com zelo fiel.
A pedagogia do pequeno subverte todas as linhas de fé que buscam espetáculo, lucro ou poder. A teologia da prosperidade, ao vincular bênção a sucesso e riqueza, esquece que o Reino começa invisível, na vulnerabilidade, no cuidado e na justiça silenciosa. O clericalismo, que confunde autoridade com prestígio, também se distancia do modelo de Jesus, que viveu trinta anos no anonimato, lavou pés, cuidou dos marginalizados e pregou uma justiça que não se impõe, mas se oferece.
A pedagogia do pequeno também exige solidariedade concreta. Tiago afirma que “a religião pura e imaculada consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas” (Tg 1,27), e Paulo exorta: “Cada um cuide também dos interesses dos outros” (Fl 2,4). O Reino não é individualista; não é privilégio de poucos, mas comunhão, corpo e vínculo. Este princípio desafia o individualismo religioso contemporâneo, a fé como espetáculo ou mercadoria e a busca por visibilidade. A verdadeira fé transforma o mundo através da solidariedade, da justiça e do cuidado silencioso, não do prestígio ou do lucro.
Os documentos da Igreja reforçam este compromisso. Evangelii Gaudium afirma que “o tempo é superior ao espaço” (EG, 222), lembrando que a ação de Deus não depende de conquista de territórios, mas de transformação paciente da história e das pessoas. Fratelli Tutti enfatiza que “a caridade política é a forma mais alta da caridade” (FT, 180), mostrando que o Reino se manifesta na justiça social, no cuidado pelo outro, no compromisso ético e político com a dignidade humana. A patrística também enriquece a compreensão: Santo Agostinho, São Gregório Magno e Santa Teresinha evidenciam que a fidelidade aos pequenos gestos, a paciência, a atenção aos detalhes e a confiança no tempo de Deus são caminhos seguros para a construção do Reino
Historicamente, Lucas apresenta Jerusalém como locus de rejeição e violência, mas também como palco da esperança e da ação paciente. O povo de Israel esperou séculos pelo Messias. Abraão foi escolhido apesar de velho e sem filhos (Gn 17,5), Moisés foi chamado apesar de suas limitações (Ex 3,11) e Davi foi ungido mesmo sendo o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). Paulo, em 1Coríntios 1,27-29, reafirma que Deus escolhe os fracos e desprezados para confundir os fortes e orgulhosos. Essa pedagogia histórica não se submete à pressa; ela cresce em silêncio, na fidelidade cotidiana, na presença paciente do amor.
O fermento da massa (Lc 13,20-21) é outro símbolo da ação do Reino: transforma de dentro para fora, sem alarde. Ele é a antítese do “fermento dos fariseus” (Lc 12,1; Mt 16,6), que simboliza legalismo, hipocrisia e controle. Psicologicamente, o fermento revela o poder da influência sutil, da transformação interior, do cultivo de virtudes. Sociologicamente, indica que mudanças profundas nas estruturas sociais dependem da ação paciente de indivíduos comprometidos, e não da coerção ou da força bruta. Filosoficamente, aponta para a ética da transformação, em que a virtude cresce através de hábitos, cuidado e disciplina, e não pela imposição externa.
O Evangelho, assim, nos convoca a uma espiritualidade ativa: ser fermento e semente no cotidiano, transformar corações e estruturas sem buscar reconhecimento, visibilidade ou lucro. Como afirma Gálatas 6,9: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo oportuno colheremos, se não desanimarmos.” O Salmo 126 reforça: “Os que semeiam em lágrimas colherão com alegria.” Apocalipse 3,8 lembra que mesmo a Igreja pequena e fiel é amparada: “Tens pouca força, mas guardaste a minha Palavra. Eis que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar.” A força do Reino está na fraqueza (2Cor 12,9), seu poder no serviço (Mt 20,26-28), sua glória na cruz (Gl 6,14) e sua vitória no amor (Jo 13,1).
Por isso, somos chamados a cultivar a espiritualidade do pequeno. A confiar na semente lançada, mesmo sem ver os frutos. A ser fermento na massa da humanidade: na sala de aula, na fábrica, no hospital, na comunidade, no campo e na cidade. O Reino precisa de gente que semeia em silêncio e mistura a justiça nas estruturas da vida comum.
DNonato — Teólogo do Cotidiano


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