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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,38-44

A perícope de Marcos 12,38-44, proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B, ocupa um lugar singular dentro da tradição litúrgica da Igreja Católica. Sua proclamação não acontece por acaso. Ela aparece em um momento em que a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre a autenticidade da fé, a relação entre culto e vida, a confiança em Deus e a radicalidade do seguimento de Jesus. O mesmo texto, ou suas variantes paralelas presentes em Lucas 21, 1-4 na segunda-feira da 34ª Semana do Tempo Comum  também encontra espaço nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e de outras Igrejas históricas, testemunhando a força universal dessa narrativa. Trata-se de um Evangelho que atravessa os séculos porque toca uma das questões mais profundas da experiência humana e religiosa: o que realmente oferecemos a Deus quando afirmamos que cremos nele? 

A cena acontece nos últimos dias da vida pública de Jesus. Jerusalém está tomada por peregrinos que chegaram para a celebração da Páscoa. O ambiente é de tensão crescente. Desde sua entrada na Cidade Santa, Jesus tem realizado gestos e pronunciado palavras que confrontam diretamente as estruturas religiosas de seu tempo. Sua expulsão dos vendedores do Templo em Marcos 11,15-19 ecoa as denúncias dos profetas que séculos antes já haviam advertido que Deus não se deixa aprisionar por instituições que perderam sua capacidade de gerar justiça. Quando Jeremias proclama: “Não confieis em palavras mentirosas, dizendo: Templo do Senhor, Templo do Senhor” (Jr 7,4), ele denuncia precisamente a ilusão de uma religião que preserva ritos enquanto abandona a aliança. Jesus se insere nessa mesma tradição profética.

Todo o contexto anterior prepara o leitor para compreender a profundidade da cena da viúva. Em Marcos 12,1-12, na parábola dos vinhateiros homicidas, os responsáveis pela vinha recusam a autoridade do proprietário e matam seus enviados. Em Marcos 12,13-17, Jesus desmascara a hipocrisia daqueles que tentam utilizá-lo em disputas políticas. Em Marcos 12,28-34, ele recoloca no centro da fé o amor a Deus e ao próximo, retomando Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Logo depois, em Marcos 12,38-40, denuncia os escribas que buscam honras e privilégios. Finalmente, surge a figura da viúva pobre. Ela não aparece como personagem secundária. Ela é a resposta concreta ao que significa viver o mandamento maior.

O contraste é intencional. De um lado estão homens reconhecidos socialmente, especialistas da Lei, admirados pelo povo, revestidos de prestígio religioso. Do outro está uma mulher sem nome. No mundo antigo, especialmente na Palestina do primeiro século, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. A morte do marido frequentemente significava insegurança econômica, fragilidade jurídica e exclusão social. Por isso, desde os tempos mais antigos, a Escritura insiste em sua proteção. Em Êxodo 22,22, Deus ordena: “Não afligireis nenhuma viúva nem órfão”. Em Deuteronômio 10,18, afirma-se que o Senhor “faz justiça ao órfão e à viúva”. Em Isaías 1,17, a verdadeira conversão passa por “defender a causa da viúva”. Em Zacarias 7,10, o povo é advertido a não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre.

A presença da viúva em Marcos não surge por acaso. Ela carrega consigo toda uma memória teológica construída ao longo das Escrituras. Sempre que uma viúva aparece na narrativa bíblica, Deus parece revelar algo fundamental sobre seu modo de agir na história. Desde a Torá até os Evangelhos, a viúva torna-se um símbolo vivo daqueles que perderam proteção, segurança e reconhecimento social. Por isso os salmos proclamam Deus como “pai dos órfãos e defensor das viúvas” (Sl 68,5), enquanto a Carta de Tiago afirma que a religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações (Tg 1,27). A verdadeira espiritualidade bíblica nunca se limita ao culto; ela se manifesta no cuidado concreto com aqueles que a sociedade tende a esquecer.

Quando contemplamos a viúva das duas moedas, toda uma galeria de mulheres da Escritura parece caminhar silenciosamente ao seu lado.

  1. Noemi e Rute aparecem como as primeiras grandes representantes dessa tradição. Após perder o marido Elimeleque e depois os filhos Malom e Quilion (Rt 1,3-5), Noemi experimenta a dor do esvaziamento absoluto. Sua história atravessa o sofrimento, a amargura e a insegurança. Ao seu lado permanece Rute, a estrangeira moabita que escolhe a fidelidade quando tudo parece perdido: “Teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus” (Rt 1,16). Através de Boaz, que assume a função do go'el, o resgatador familiar, Deus restaura a herança, a dignidade e a esperança daquela família. O Livro de Rute recorda que a providência divina também se manifesta através da solidariedade humana, da acolhida ao estrangeiro e do compromisso comunitário previsto na Lei, especialmente nas normas relativas à respiga dos campos (Lv 19,9-10; Dt 24,19-22).
  2.  A viúva de Sarepta (1Rs 17,8-24), encontrada por Elias durante uma das mais severas secas da história de Israel. Ela possui apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite. Prepara-se para a última refeição antes da morte. Sua situação lembra a fragilidade da viúva observada por Jesus junto ao tesouro do Templo. Ambas vivem na fronteira da sobrevivência. Contudo, ambas testemunham uma confiança que desafia a lógica da escassez. A farinha não acaba, o azeite não falta e mais tarde o filho morto volta à vida. A narrativa revela que Deus continua agindo mesmo quando os recursos humanos se esgotam.

  3.  Viúva que procura Eliseu (2Rs 4,1-7). Após a morte do marido, os credores ameaçam levar seus filhos como escravos para quitar dívidas. O relato expõe uma realidade econômica cruel, na qual os vulneráveis se tornavam vítimas dos mecanismos de exploração. O azeite multiplicado não produz riqueza supérflua; produz libertação. A dívida é paga e a família preserva sua liberdade. O texto denuncia estruturas econômicas injustas e anuncia um Deus comprometido com a dignidade humana.

  4. Ana, a profetisa (Lc 2,36-38), viúva que atravessou décadas de oração, jejum e esperança. Sua história mostra outra dimensão da experiência da viuvez. Enquanto algumas lutam pela sobrevivência material, Ana testemunha a perseverança espiritual. Ela permanece vigilante diante de Deus até reconhecer no menino Jesus o cumprimento das promessas messiânicas. Sua vida inteira transforma-se em espera fecunda.

  5. A viúva de Naim (Lc 7,11-17). Ela já havia perdido o marido e agora perde também o filho único. Sua dor é completa. Sua solidão é absoluta. Ao vê-la, Jesus é movido de profunda compaixão. Antes mesmo que ela formule qualquer pedido, o Senhor intervém. O cortejo fúnebre é interrompido e a vida triunfa sobre a morte. O relato manifesta um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas se aproxima dele com ternura e misericórdia.

  6. A viúva persistente da parábola de Lucas 18,1-8. Sem prestígio, sem influência e sem recursos, ela insiste diante de um juiz injusto até alcançar justiça. Sua perseverança torna-se símbolo dos pobres que continuam clamando mesmo diante da indiferença das estruturas de poder. A parábola ensina que Deus escuta o clamor dos pequenos e que a esperança não deve ser abandonada.

  7.  A viúva das duas moedas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Nela parece convergir toda a experiência das viúvas anteriores. Como Noemi, conhece a insegurança. Como a viúva de Sarepta, vive a escassez. Como a viúva de Eliseu, está inserida em um sistema que frequentemente pesa sobre os vulneráveis. Como a viúva de Naim, conhece a fragilidade da existência. Como Ana, deposita sua confiança em Deus. Como a viúva persistente, permanece firme apesar da ausência de poder social. Ela torna-se a síntese dos pobres do Senhor, os anawim, aqueles que colocam sua esperança não na riqueza, mas na fidelidade de Deus.

Ao longo de toda a Escritura, Deus demonstra olhar para aquilo que os seres humanos frequentemente não conseguem perceber. Quando Samuel procura o futuro rei de Israel, o Senhor lhe diz: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Essa chave hermenêutica ilumina todo o episódio. Os ricos oferecem grandes quantias. A viúva oferece quase nada. Aos olhos da lógica econômica, sua contribuição é insignificante. Aos olhos do Reino de Deus, ela se torna extraordinária.

Jesus declara que ela deu mais do que todos os outros porque os demais deram do que lhes sobrava, enquanto ela ofereceu tudo o que possuía para viver. O Evangelho desloca completamente os critérios habituais de avaliação. O valor da oferta não é medido pelo montante, mas pela profundidade da entrega. Assim como Abraão colocou seu futuro nas mãos de Deus (Gn 22), como Ana derramou sua alma diante do Senhor (1Sm 1,15), como Maria respondeu “faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38), a viúva oferece a própria existência.Existe ainda uma dimensão cristológica profunda nessa passagem. A viúva não apenas ensina algo sobre a fé. Ela reflete algo do próprio Cristo. Poucos capítulos depois, Jesus entregará não algumas moedas, mas sua própria vida. Como afirma Filipenses 2,6-8, ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo. O que a viúva realiza simbolicamente, Jesus realizará plenamente na cruz. Seu gesto torna-se uma antecipação silenciosa do Calvário.

Por isso, a narrativa não pode ser reduzida a uma reflexão sobre dinheiro. Ela toca o centro do discipulado cristão. Ela pergunta se oferecemos a Deus apenas aquilo que sobra ou se permitimos que toda a nossa vida seja transformada pelo Evangelho. Ela questiona uma religião baseada na aparência e propõe uma espiritualidade fundada na entrega. Não por acaso, Jesus inicia a narrativa denunciando aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40). A expressão possui enorme força social. Ela denuncia sistemas religiosos, econômicos e políticos que se alimentam da vulnerabilidade dos pobres. A mesma crítica atravessa Amós 2,6-7, Isaías 10,1-2, Jeremias 22,13-17 e Miqueias 3,1-3. A preocupação com a justiça social não é um elemento periférico da fé bíblica. Ela pertence ao seu próprio coração.

Essa tradição chega ao Novo Testamento quando Jesus proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Ela reaparece em Mateus 25,31-46, onde os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos se tornam o lugar do encontro com Cristo. Ela ressoa em Tiago 2,1-7, que denuncia privilégios concedidos aos ricos. Ela reaparece em 1 João 3,17, quando o autor pergunta como pode permanecer o amor de Deus naquele que fecha o coração diante do irmão necessitado. Assim, a viúva de Marcos continua viva nas periferias urbanas, nas famílias endividadas, nos idosos abandonados, nos refugiados, nos desempregados, nas vítimas da violência e em todos aqueles cuja dignidade é ameaçada. Ela continua questionando uma religião transformada em espetáculo, um clericalismo que busca privilégios, uma teologia da prosperidade que reduz a bênção divina à riqueza material e toda instrumentalização da fé para projetos de poder. Sua presença recorda que Deus permanece fiel àquilo que revelou desde o Êxodo, passando pelos profetas, pelos salmos e pelos Evangelhos. O Senhor continua ouvindo o clamor dos vulneráveis. Continua defendendo as viúvas. Continua derrubando os poderosos de seus tronos e exaltando os humildes (Lc 1,52). Continua chamando sua Igreja a ser sinal de justiça, misericórdia e solidariedade.

Ao final, a pergunta permanece aberta diante de cada discípulo:  

O que estamos entregando a Deus? Aquilo que sobra ou aquilo que somos? 

Não por acaso, poucos versículos antes deste episódio, Jesus havia sido interrogado sobre o pagamento do imposto ao imperador e respondera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Naquela ocasião, seus adversários apresentaram um denário romano, moeda que trazia gravada a imagem e a inscrição de César, símbolo do poder político, econômico e militar do Império. O valor de um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador rural. Já a viúva não oferece um denário. Ela deposita duas pequenas leptas, as menores moedas em circulação na Palestina do século I. Juntas, valiam cerca de um sessenta e quatro avos de um denário, algo que, em valores atuais, corresponderia apenas a alguns centavos, uma quantia praticamente insignificante aos olhos da economia humana.

Entretanto, é precisamente aqui que Marcos revela a profundidade do Evangelho. Diante de César, discute-se uma moeda que carrega sua imagem. Diante de Deus, apresenta-se uma mulher que oferece a própria vida. O denário levantava a questão sobre a quem pertence o dinheiro; a viúva responde silenciosamente a quem pertence o coração humano. Se a moeda com a imagem de César deve retornar a César, então o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), deve retornar inteiramente a Deus. A viúva compreendeu aquilo que muitos religiosos ainda não haviam compreendido. Ela não entrega apenas duas moedas,  cerca  de R$ 10,00 (dez reais)  nos dias de hoje. Ela entrega a si mesma. Seu gesto atravessa os séculos como uma das mais profundas profissões de fé de toda a Escritura. Nela encontramos a confiança de Abraão que parte sem saber para onde vai (Gn 12,1-4), a perseverança dos profetas que permanecem fiéis em meio às adversidades, a esperança dos pobres do Senhor que aguardam a salvação e a antecipação da entrega total de Cristo na cruz. Sua oferta é pequena aos olhos do mundo, mas imensa aos olhos de Deus, porque nela não há apenas cobre, não há apenas valor monetário, não há apenas esmola. Há uma existência inteira colocada nas mãos daquele que vê o coração (1Sm 16,7), sustenta os humildes (Sl 146,9), exalta os pequenos (Lc 1,52) e jamais abandona aqueles que nele depositam sua confiança. Diante dela, o Evangelho continua perguntando a cada geração: o que em nossa vida ainda pertence a César e o que verdadeiramente já pertence a Deus



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano