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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 13,18-21

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Lucas 13,18-21 é proclamado na terça-feira da trigésima semana do Tempo Comum, integrando a leitura contínua do Evangelho, dando continuidade ao texto da segunda-feira Lucas 13, 10-17.  A proximidade dessas leituras permite contemplar o Reino de Deus como uma realidade que já atua na história, embora sua plenitude ainda não tenha sido alcançada. A parábola do grão de mostarda também aparece em Mateus 13,31-32 e Marcos 4,30-32, enquanto a parábola do fermento encontra paralelo em Mateus 13,33, além de Lucas 13,20-21. Nas tradições cristãs históricas, como as Igrejas Anglicana e Luterana, essas imagens igualmente integram a pregação e a reflexão bíblica, embora sua distribuição dependa dos respectivos lecionários. A convergência dessas tradições manifesta a importância de uma mensagem que atravessa os séculos e desafia continuamente a compreensão humana sobre a ação de Deus. Muitas vezes afirmamos que o Reino de Deus é sobrenatural, mas esperamos que sua manifestação aconteça por meio de acontecimentos extraordinários, demonstrações espetaculares de poder ou conquistas capazes de impressionar multidões. Essa expectativa revela uma contradição espiritual: confessamos a grandeza divina, mas continuamos avaliando sua presença segundo os critérios de grandeza estabelecidos pela sociedade. Associamos o êxito ao crescimento numérico, a autoridade à capacidade de impor decisões, a prosperidade à acumulação material e a importância de alguém à visibilidade que conquista. Jesus, entretanto, apresenta duas imagens que desestabilizam essa maneira de pensar. O Reino se parece com uma semente minúscula lançada à terra e com uma pequena quantidade de fermento incorporada à farinha. Em ambas, a desproporção entre o começo e o resultado revela uma lógica diferente daquela que governa nossas ambições. Deus não precisa reproduzir os mecanismos humanos de prestígio para transformar a história. Sua ação pode começar onde ninguém espera, amadurecer longe dos centros de poder e produzir frutos cuja grandeza não depende do reconhecimento imediato dos homens.

Essas parábolas exigem  atenção ao contexto narrativo que as precede. Em Lucas 13,10-17, Jesus ensina numa sinagoga durante o sábado e encontra uma mulher que sofria havia dezoito anos de uma enfermidade que a mantinha encurvada. Ao vê-la, chama-a, declara que está livre de sua enfermidade e impõe-lhe as mãos. Ela imediatamente se endireita e glorifica a Deus. O chefe da sinagoga, porém, indignado porque Jesus realizara a cura no sábado, dirige sua censura à multidão, afirmando que havia outros dias para trabalhar. Jesus responde denunciando a incoerência de uma interpretação religiosa que permite soltar um animal para lhe dar água, mas considera inadequado libertar uma filha de Abraão de seu sofrimento. A discussão não opõe simplesmente uma pessoa religiosa a outra irreligiosa, mas confronta duas maneiras de compreender a fidelidade a Deus. Uma protege a norma mesmo quando ela é utilizada contra a vida; a outra reconhece que a vontade divina deve conduzir à libertação e à restauração da dignidade humana. É nesse cenário que Jesus pergunta a que se assemelha o Reino de Deus. A posição das parábolas na narrativa não deve ser ignorada, porque o acontecimento anterior oferece uma chave decisiva para interpretar as imagens agrícolas e domésticas. O Reino que cresce como mostarda e transforma como fermento já se manifesta na cura daquela mulher, na recuperação de sua dignidade e na contestação de uma autoridade incapaz de reconhecer a misericórdia. O gesto de Jesus não elimina imediatamente todas as estruturas religiosas que produzem exclusão, mas revela que a transformação começa quando alguém interrompe a normalização do sofrimento e coloca a vida humana acima de interesses institucionais. A mulher, antes curvada, passa a permanecer de pé, enquanto os adversários de Jesus são confrontados com a necessidade de rever suas próprias convicções. Essa inversão demonstra que a verdadeira autoridade não se comprova pela capacidade de controlar os outros, mas pela disposição de contribuir para que recuperem a liberdade. O Reino não é uma ideia abstrata separada da realidade, pois sua presença se torna perceptível onde pessoas são libertadas de condições que diminuem sua humanidade.

O grão de mostarda pertence ao universo cotidiano dos agricultores da Palestina da época. Jesus não escolhe uma imagem distante da experiência dos seus ouvintes, mas um elemento conhecido por quem trabalhava a terra e dependia dos ritmos da natureza para sobreviver. A semente, aparentemente insignificante, contém uma possibilidade de crescimento que não pode ser deduzida apenas de sua dimensão inicial. Em Marcos 4,30-32, Jesus procura uma comparação adequada para comunicar o Reino e descreve a transformação da semente em uma planta capaz de oferecer abrigo às aves. Mateus 13,31-32 conserva a mesma relação entre pequenez inicial e desenvolvimento posterior, enquanto Lucas 13,18-19 apresenta a ação de um homem que planta a semente em sua horta. As diferenças redacionais são significativas, pois Marcos enfatiza a comparação e o desenvolvimento da planta, ao passo que Lucas incorpora a imagem à sequência de acontecimentos que acompanha a caminhada de Jesus em direção a Jerusalém. Em nenhum desses relatos, entretanto, o interesse principal consiste em oferecer uma explicação científica sobre a germinação. A finalidade é questionar os critérios pelos quais os seres humanos julgam antecipadamente o que pode ou não transformar a realidade. A linguagem sobre a menor das sementes deve ser compreendida dentro desse horizonte cultural, sem ser convertida numa afirmação botânica absoluta. Jesus utiliza uma comparação reconhecível por seus ouvintes para destacar a diferença entre o início e o resultado. O Reino não pode ser avaliado somente por aquilo que aparece imediatamente aos olhos, porque sua fecundidade ultrapassa a aparência do começo. Essa mensagem ganha força quando recordamos que o próprio ministério de Jesus não começou em um palácio, mas entre comunidades comuns, pessoas doentes, trabalhadores, mulheres marginalizadas e indivíduos frequentemente desprezados pelas autoridades. Em 1 Coríntios 1,26-29, Paulo desenvolve uma compreensão semelhante ao recordar que Deus escolhe aquilo que o mundo considera fraco e desprezível para desmascarar a arrogância dos poderosos. Não se trata de afirmar que a pobreza ou o sofrimento sejam desejáveis, mas de denunciar uma ordem social que transforma riqueza, influência e prestígio em critérios de valor humano. Deus não confirma essa hierarquia; revela sua insuficiência ao fazer nascer esperança onde os mecanismos dominantes enxergam apenas impotência.

A imagem das aves que encontram abrigo nos ramos amplia o horizonte da parábola lendo: 

  •  Ezequiel 17,22-24, Deus promete plantar um ramo que crescerá e oferecerá proteção às criaturas, utilizando a imagem vegetal para anunciar sua ação soberana.
  •  Ezequiel 31,6, uma árvore poderosa abriga aves e animais.
  • Daniel 4,10-12 apresenta uma árvore cuja grandeza alcança diferentes povos e seres vivos.

Essas imagens pertencem a contextos próprios, mas ajudam a compreender como a linguagem bíblica pode associar o crescimento de uma árvore à capacidade de proporcionar sustento e proteção. O Reino, portanto, não cresce para reproduzir a dominação dos impérios, mas para criar condições de acolhimento. Sua grandeza precisa ser avaliada pela vida que protege, pelas pessoas que recebe e pela segurança que oferece àqueles que não encontram abrigo nas estruturas sociais. Uma Igreja pode ampliar suas instalações e aumentar sua influência pública, mas, se não acolhe os feridos, não defende os vulneráveis e não promove a dignidade humana, seu crescimento exterior não demonstra, por si só, a presença do Reino.

A parábola do fermento apresenta uma segunda dimensão dessa transformação. Jesus compara o Reino a uma mulher que toma fermento e o mistura em três medidas de farinha, até que toda a massa fique fermentada. A imagem conduz a reflexão para o espaço doméstico, tradicionalmente associado à preparação dos alimentos e à sustentação cotidiana da família. A escolha da mulher não é um detalhe irrelevante, pois Jesus reconhece a experiência de uma pessoa cujo trabalho, embora indispensável à vida comunitária, frequentemente permanecia invisível nas estruturas públicas de prestígio. O fermento exerce sua função sem ocupar o centro da atenção, penetrando a massa e modificando suas propriedades. Sua ação não depende de uma demonstração exterior de força, mas de sua capacidade de atuar no interior daquilo com que entra em contato. Em Gênesis 18,6, Sara prepara três medidas de farinha para receber visitantes, revelando como essa quantidade podia estar associada à hospitalidade e à preparação abundante de alimento. Embora não devamos impor uma equivalência simbólica rígida entre as duas passagens, a referência ajuda a perceber que a imagem de Lucas evoca uma transformação que alcança uma quantidade significativa de massa e, consequentemente, a preparação do alimento necessário à vida.

A comparação com o fermento não significa que toda transformação silenciosa seja automaticamente justa, nem que o Reino possa ser reduzido à influência invisível de indivíduos isolados. O símbolo deve ser interpretado conforme sua função narrativa. Em Lucas 13,21, o fermento representa uma força transformadora que alcança a totalidade da massa. Em Lucas 12,1, porém, Jesus utiliza o fermento dos fariseus como imagem da hipocrisia, e em Mateus 16,6 adverte os discípulos contra o fermento dos fariseus e dos saduceus, relacionando a imagem aos seus ensinamentos. Em 1 Coríntios 5,6-8, Paulo recorre ao mesmo símbolo para advertir contra a influência do mal na comunidade. A diversidade desses usos demonstra que uma interpretação responsável não deve atribuir significado idêntico a todas as ocorrências de uma imagem bíblica. O contexto determina sua função. Na parábola de Lucas, a questão decisiva é a capacidade de uma pequena quantidade transformar o conjunto, permitindo compreender que a ação de Deus não precisa começar por aquilo que domina a atenção pública, mas pode penetrar gradualmente as relações humanas e produzir mudanças profundas.

O contexto histórico da Palestina ajuda a compreender a força social dessa mensagem. Sob o domínio romano, as populações locais conviviam com tributação, desigualdade econômica, tensões políticas e relações de poder que afetavam diretamente a sobrevivência das famílias. A agricultura constituía uma atividade fundamental, mas a vida dos trabalhadores dependia das condições da terra, das colheitas e das obrigações econômicas. Nesse ambiente, a expectativa do Reino de Deus estava relacionada a esperanças de justiça, restauração e libertação, embora diferentes grupos religiosos interpretassem essas esperanças de maneiras distintas. Jesus não apresenta nessas parábolas um programa administrativo detalhado, tampouco reduz a transformação histórica a uma insurreição armada. Entretanto, seria igualmente equivocado transformar seu anúncio em uma espiritualidade indiferente à exploração econômica e ao sofrimento coletivo. A proclamação do Reino relativiza toda autoridade humana que se apresenta como absoluta e recorda que nenhum império, governante ou instituição pode ocupar o lugar de Deus. A esperança cristã não consiste em sacralizar a ordem existente, mas em discernir, à luz da justiça divina, aquilo que precisa ser transformado para que a vida floresça.

A tradição profética aprofunda essa exigência.

  •  Amós 5,21-24 denuncia celebrações religiosas que coexistem com a injustiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. 
  • Isaías 1,16-17 convoca o povo a abandonar o mal, aprender a fazer o bem, defender o oprimido e proteger aqueles cuja dignidade é ameaçada. 
  • Miqueias 6,8 apresenta a exigência de praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. 
  • Jeremias 7,4-11 denuncia a falsa segurança de quem confia no templo enquanto pratica injustiças, explora o estrangeiro e derrama sangue inocente. 
Essas passagens demonstram que o profetismo bíblico não separa a relação com Deus da responsabilidade pelas condições concretas da existência humana. O culto não pode ser utilizado como cobertura moral para a exploração, assim como a fidelidade doutrinal não pode servir de justificativa para a indiferença. À luz dessa tradição, as parábolas de Jesus questionam comunidades que desejam crescer sem se converter, conquistar reconhecimento sem servir e preservar sua reputação sem enfrentar os mecanismos que produzem sofrimento. A desigualdade contemporânea torna essa interpelação particularmente urgente. Em sociedades marcadas pela concentração de riqueza, pela precarização do trabalho, pela insegurança alimentar e pela exclusão de populações inteiras, a mensagem do Reino exige mais do que gestos ocasionais de generosidade. A solidariedade com quem passa fome é indispensável, mas precisa ser acompanhada pela análise das condições que produzem a fome. A assistência às famílias empobrecidas possui valor real, mas não substitui políticas públicas capazes de assegurar educação, moradia, saúde, trabalho digno e proteção social. Em Tiago 2,14-17, a comunidade é questionada sobre a coerência de uma fé que deseja paz e bem-estar ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. Em 1 João 3,17-18, o amor é confrontado com a recusa de partilhar os bens diante da necessidade do irmão. Essas referências mostram que a fé cristã não se realiza apenas na intenção interior, pois exige decisões concretas sobre a maneira como os recursos são utilizados e como as relações sociais são organizadas. A semente do Reino precisa encontrar terreno em instituições comprometidas com a justiça e em pessoas dispostas a transformar a compaixão em responsabilidade histórica.

Essa responsabilidade  alcança a política, porque as decisões públicas influenciam a distribuição dos recursos, a proteção dos direitos e as condições de participação social. Nenhum partido possui o monopólio do Evangelho, e nenhum governante pode ser considerado representante automático da vontade divina. Quando discursos políticos utilizam símbolos cristãos para estimular o ódio, justificar a violência, desumanizar adversários ou preservar privilégios, a comunidade precisa confrontá-los com os critérios de Jesus. Em Marcos 10,42-45, Jesus distingue a autoridade exercida como dominação daquela que assume a forma do serviço. Em João 18,36, afirma que seu Reino não pertence à lógica dos poderes deste mundo, sem com isso tornar sua missão irrelevante para a realidade histórica. A fé não deve ser instrumentalizada para santificar projetos autoritários, mas tampouco pode refugiar-se numa neutralidade que abandona as vítimas à própria sorte. O compromisso cristão com a dignidade humana exige discernimento, participação responsável e resistência às práticas que transformam pessoas em instrumentos de poder. Nos tempos  atuais  também  tenos a manipulação religiosa que revela outra deformação que precisa ser denunciada. Ela ocorre quando o nome de Deus é utilizado para produzir medo, exigir obediência incondicional, explorar financeiramente os fiéis ou impedir questionamentos legítimos. Em Mateus 23,23, Jesus censura aqueles que observam minuciosamente aspectos secundários da religião, mas negligenciam a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Em Marcos 7,8-13, denuncia tradições humanas utilizadas para invalidar a palavra de Deus e afastar as pessoas das responsabilidades fundamentais. A crítica não significa que ritos, doutrinas ou instituições sejam desnecessários, mas que sua legitimidade depende de sua relação com a finalidade libertadora da fé. O clericalismo, quando transforma autoridade espiritual em privilégio e controle, contradiz o modelo de serviço apresentado por Jesus. Filipenses 2,5-8 recorda que Cristo assumiu a condição de servo e não transformou sua dignidade em instrumento de superioridade. Por isso, uma comunidade fiel ao Reino deve cultivar transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção das vítimas, recusando qualquer prática que coloque a preservação da instituição acima da verdade e da dignidade humana.

Quando  buscamos  resultados imediatos alteramos profundamente a maneira como avaliamos nossa própria vida e a sociedade. A cultura da produtividade, da competição e da visibilidade pode fazer com que gestos discretos pareçam inúteis e processos demorados sejam confundidos com fracasso. Jesus apresenta uma temporalidade diferente, na qual o crescimento exige condições adequadas, perseverança e confiança. Isso não significa romantizar a demora ou recomendar passividade diante da injustiça, mas compreender que mudanças profundas raramente acontecem sem continuidade. A superação de preconceitos, a reconstrução de vínculos, a formação da consciência ética e a transformação de instituições exigem trabalho persistente. Em Gálatas 6,9, Paulo exorta a comunidade a não se cansar de praticar o bem, pois a perseverança possui sua própria fecundidade. Em Romanos 12,2, a renovação da mente aparece como condição para discernir a vontade de Deus. O Reino modifica não apenas comportamentos isolados, mas também os critérios pelos quais julgamos o sucesso, a autoridade, a riqueza e a dignidade das pessoas. Essa esperança não deve ser confundida com a ideia de que basta agir individualmente para resolver problemas estruturais. A semente precisa de condições para germinar, e o fermento precisa ser incorporado à massa. Na realidade social, essas condições incluem instituições responsáveis, políticas públicas eficazes, educação, participação democrática e mecanismos que protejam os direitos fundamentais. Em 1 Coríntios 3,6-9, Paulo compara o trabalho missionário ao cultivo, afirmando que uma pessoa planta, outra rega, mas Deus concede o crescimento. A imagem não elimina a responsabilidade humana, mas impede que qualquer agente se considere proprietário absoluto dos resultados. O compromisso com a transformação exige planejamento, cooperação e disposição para reconhecer limites. Ao mesmo tempo, a confiança em Deus liberta da ilusão de que somente aquilo que podemos controlar possui valor. A esperança cristã permite trabalhar por mudanças concretas sem transformar nossas estratégias em absolutos, reconhecendo que a história permanece aberta à ação divina e à possibilidade de recomeço.

No  Gênesis 2,15, a humanidade recebe a tarefa de cultivar e guardar o jardim, uma imagem que associa a existência humana ao cuidado com a criação. A destruição dos ecossistemas, a contaminação das águas e a exploração predatória dos territórios atingem especialmente as comunidades que dependem diretamente da terra para sobreviver. A degradação ambiental não constitui apenas um problema técnico, porque envolve decisões econômicas, relações de poder e escolhas sobre quais vidas merecem proteção. Quando florestas são destruídas, rios contaminados e populações expulsas de seus territórios, a busca de lucro pode converter a criação em mercadoria e as pessoas em obstáculos descartáveis. Romanos 8,19-23 apresenta a criação aguardando libertação, relacionando seu destino à esperança de renovação. A mensagem do Reino convoca, portanto, a superar tanto a indiferença ambiental quanto a ideia de que a natureza existe apenas para satisfazer necessidades ilimitadas. A transformação começa em práticas responsáveis, mas exige também enfrentar estruturas que perpetuam a devastação. Toda comunidade cristã precisa avaliar sua fidelidade não apenas pelo conteúdo que proclama, mas pelos frutos que produz. Uma paróquia pode organizar numerosas celebrações e permanecer distante das famílias endividadas, dos migrantes, dos desempregados e das pessoas que carregam feridas emocionais. Pode ensinar doutrinas corretas e reproduzir preconceitos, ou falar de fraternidade sem permitir que os pobres participem das decisões. Em Lucas 4,16-21, Jesus apresenta sua missão mediante a boa notícia aos pobres, a libertação dos cativos e a recuperação da vista aos cegos. Em Lucas 10,25-37, o samaritano demonstra que a proximidade ética ultrapassa fronteiras religiosas e sociais. Em Mateus 25,31-46, o cuidado oferecido aos famintos, estrangeiros, enfermos e encarcerados aparece associado ao encontro com o próprio Cristo. Essas passagens convergem para uma compreensão concreta da espiritualidade: Deus é honrado quando a dignidade humana é defendida e quando a compaixão se transforma em prática. A conversão comunitária exige escutar os feridos, corrigir estruturas injustas e abandonar a pretensão de que a aparência religiosa seja suficiente para comprovar fidelidade ao Evangelho.

A esperança cristã nasce da convicção de que Deus continua agindo na história sem dispensar a responsabilidade humana. O Reino não é uma realidade que possuímos integralmente, nem um projeto que podemos identificar sem reservas com nossas instituições ou ideologias. É uma promessa que nos chama a participar de sua realização mediante escolhas concretas, reconhecendo que a plenitude ainda está por vir. Em Romanos 8,18-25, a esperança permanece ligada à criação que geme e aguarda libertação, enquanto a fé aprende a perseverar diante daquilo que ainda não pode contemplar plenamente. A semente de mostarda e o fermento expressam essa tensão entre presença e plenitude: o Reino já atua, mas sua consumação não está concluída. Por isso, a confiança em Deus não justifica a acomodação; sustenta a perseverança. Plantar, regar, cuidar, alimentar, proteger e transformar são responsabilidades que adquirem sentido quando orientadas pela justiça, pela misericórdia e pela fidelidade à vida. O centro  de Lucas 13,18-21 encontra-se, portanto, na revelação de uma grandeza que não depende dos critérios humanos de poder. O grão de mostarda questiona a tendência de desprezar aquilo que parece insignificante, enquanto o fermento revela a necessidade de uma transformação que alcance a totalidade da existência. Essas imagens convocam cada pessoa, comunidade e instituição a examinar as próprias prioridades, perguntando se o crescimento produzido favorece a liberdade ou amplia a dominação, se a autoridade protege os vulneráveis ou preserva privilégios, se a religião aproxima as pessoas de Deus ou as afasta daqueles que sofrem. O Reino torna-se perceptível quando a injustiça é enfrentada, a dignidade é restaurada e a esperança deixa de ser discurso para assumir a forma de compromisso. Sua força não está em reproduzir os mecanismos dos impérios, mas em criar relações nas quais ninguém seja considerado descartável. A semente precisa ser lançada, o fermento precisa penetrar a massa e a comunidade precisa permitir que o Evangelho transforme suas práticas.

A pergunta decisiva que Jesus nos dirige não é simplesmente:  Se acreditamos na grandeza de Deus, mas se conseguimos reconhecê-la onde nossos olhos acostumados ao prestígio dificilmente a procuram?

 Talvez o Reino comece quando alguém interrompe uma humilhação, partilha alimento, protege uma vítima ou se recusa a participar de uma mentira. Talvez cresça quando uma comunidade deixa de apenas falar dos pobres e começa a escutá-los, quando uma instituição assume seus erros ou quando cidadãos se organizam para defender direitos ameaçados. Esses gestos não esgotam a promessa divina, mas tornam sua presença historicamente perceptível. O Evangelho nos chama a abandonar a religião da aparência, a política da desumanização e a espiritualidade indiferente, reconhecendo que a fidelidade a Deus exige responsabilidade diante da vida. Quando as pequenas ações se articulam com a justiça e a perseverança, tornam-se sinais de uma transformação que ultrapassa seus próprios limites. É nessa confiança que o Reino cresce, silenciosamente, sem deixar de confrontar os poderes, até que a espmerança se converta em realidade compartilhada e a dignidade humana encontre espaço para florescer.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,31-37

O Evangelho nos conduz hoje a Cafarnaum, cidade às margens do lago da Galileia, onde Jesus entra numa sinagoga e ali manifesta a força da sua palavra. O evangelista Lucas destaca que todos ficavam admirados, pois Ele ensinava “com autoridade”, e não como os mestres religiosos de sua época. O episódio do homem possuído que se levanta e grita diante de Jesus revela o confronto decisivo: o Reino de Deus se põe diante do império do mal, e o mal, embora grite e se agite, não resiste.

Este texto é proclamado na liturgia da terça-feira da 22ª semana do Tempo Comum, mas também ressoa em outros momentos do ciclo litúrgico, especialmente quando se recorda o início do ministério de Jesus. Faz parte de um conjunto de textos em que a Igreja nos apresenta Cristo como Aquele que, ungido pelo Espírito em Nazaré, agora passa a realizar concretamente a libertação prometida. É como se a liturgia quisesse nos recordar, em meio à rotina dos dias, que a missão da Igreja é prolongar esta autoridade que liberta e não que aprisiona, que cura e não que controla, que gera vida e não exploração.

O contexto imediato é importante: em Nazaré, Jesus havia lido o rolo de Isaías, proclamando que fora enviado para anunciar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19). Os seus conterrâneos não aceitaram sua palavra e tentaram matá-lo. Diante da rejeição, Ele segue para Cafarnaum, e ali sua palavra encontra espaço e produz libertação. A rejeição em Nazaré contrasta com a acolhida em Cafarnaum, revelando que a missão de Jesus só pode frutificar onde há abertura de coração.

Os sinóticos nos ajudam a alargar a compreensão. Marcos 1,21-28 narra a mesma cena: Jesus ensina na sinagoga, e o povo fica admirado com sua autoridade, pois até os espíritos impuros lhe obedecem. Mateus, embora não traga esse episódio, termina o Sermão da Montanha com a mesma nota: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Essa convergência mostra que, desde o início, os evangelistas querem sublinhar que a autoridade de Jesus não está ligada a um cargo ou a uma instituição, mas à sua própria pessoa, à sua vida coerente e à sua união com o Pai.

A questão hermenêutica fundamental é: de onde vem a autoridade de Jesus? Não era uma autoridade política, porque não ocupava cargos. Não era uma autoridade religiosa institucional, porque não fazia parte da elite sacerdotal nem do grupo dos escribas. Sua autoridade vinha do Espírito Santo, que o ungiu no batismo e o conduziu no deserto. Vinha da coerência entre a sua palavra e a sua vida. Vinha do amor que se tornava concreto em compaixão, em cuidado, em proximidade. É por isso que as pessoas simples o reconhecem, enquanto as elites o rejeitam.

O grito do espírito impuro — “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” — ecoa como resistência do mal diante da luz. Psicologicamente, podemos ver nesse grito a reação da sombra, aquilo que Jung descreve como a parte reprimida e não integrada do ser humano. Quando a luz de Cristo se aproxima, nossas sombras não suportam, e se agitam. O processo de libertação passa pela revelação daquilo que estava oculto. Não há cura sem desvelamento. Jesus obriga o mal a se mostrar, a sair das sombras, para que o homem possa ser restituído à sua verdadeira identidade.

Sociologicamente, esse “espírito impuro” pode ser lido como símbolo das ideologias e estruturas que oprimem os povos. Pode ser a idolatria do mercado que transforma a fé em mercadoria, como vemos na teologia da prosperidade que promete bênçãos em troca de dízimos, transformando Deus em um contrato comercial. Pode ser a teologia do domínio, que busca o poder político para impor a fé, negando a liberdade de consciência. Pode ser o individualismo, que fecha cada pessoa em seu próprio mundo e a impede de viver a comunhão. Pode ser também o clericalismo, esse mal dentro da própria Igreja, que transforma o ministério em privilégio, que fala em nome de Deus, mas oprime o povo com pesos que ele mesmo não carrega. Esse espírito impuro está dentro da sinagoga, no espaço religioso. E não é justamente isso que vemos hoje, quando a Igreja se deixa contaminar por ideologias de poder, quando o altar se torna palco, quando a liturgia vira espetáculo?

Do ponto de vista filosófico, é útil recordar a distinção entre potestas e auctoritas já feita no mundo romano. Potestas é o poder imposto pela força; auctoritas é o reconhecimento de uma vida que inspira confiança. Jesus não tem potestas, mas tem auctoritas. Sua palavra não precisa de coerção porque é verdade. Hannah Arendt dizia que a autoridade só existe onde há reconhecimento, e que desaparece quando precisa se impor pela violência. A autoridade de Jesus não é violenta, mas gera adesão. É a força da verdade que atrai.

A patrística ilumina ainda mais. São Cirilo de Jerusalém lembrava que os demônios reconhecem Jesus como “Santo de Deus”, mas não por amor, e sim por medo. Saber quem Ele é não basta: é preciso segui-lo. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo”, e aqui vemos a glória de Deus quando o homem liberto volta a ser ele mesmo, não mais escravo do mal. São João Crisóstomo sublinhava que a palavra de Cristo é simples, mas poderosa, porque nasce da coerência entre vida e anúncio. É um convite para a Igreja hoje: mais do que discursos pomposos, precisamos de testemunho coerente.

O Magistério da Igreja ressoa essa mensagem. A Gaudium et Spes (n. 37) recorda que “toda a história humana está impregnada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de transformar a missão em negócio, advertindo contra a “mundanidade espiritual” que esvazia a força do Evangelho. A Fratelli Tutti insiste que a verdade deve ser buscada sempre no amor e na fraternidade, contra toda manipulação e mentira. Quando olhamos para a cena da sinagoga de Cafarnaum, vemos que ela continua a se repetir na história: o Cristo liberta, mas os poderes resistem; o povo se admira, mas muitos preferem a escravidão.

Há também um paralelo litúrgico a destacar. Quando rezamos o Pai-Nosso e pedimos: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, estamos ecoando a experiência daquele homem da sinagoga. Ele foi liberto porque o Cristo estava presente. Na liturgia, Cristo continua presente, sua palavra continua a expulsar os demônios que nos cercam. Mas é preciso abrir-se a Ele, deixar que sua autoridade toque nossa vida.

É também importante recordar os paralelos com outras expulsões de demônios. O possesso geraseno (Mc 5,1-20; Lc 8,26-39) mostra que o mal pode escravizar não apenas uma pessoa, mas toda uma comunidade, representada pela legião. A libertação gera medo, e a cidade expulsa Jesus, preferindo conviver com os porcos a acolher a liberdade. Em Mateus 12,28, Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus”. Cada exorcismo é um sinal escatológico: o Reino está presente, e as forças do mal perdem espaço.

Hoje, esse Evangelho é uma convocação profética. Ele nos chama a não ter medo do mal, mas a cultivar o bem. A autoridade de Jesus não se compra, não se negocia, não se impõe; ela se acolhe. É preciso deixar que essa autoridade nos liberte também de nossos próprios demônios: a ganância, o ódio, a indiferença, a tentação de manipular a fé. É preciso deixar que sua palavra nos contamine de amor, para que possamos contagiar o mundo com a força do bem.

O povo exclamava: “Que palavra é esta?” Essa pergunta continua aberta. O que a palavra de Jesus é para nós? Espetáculo ou vida? Curiosidade ou seguimento? O espírito impuro grita: “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré?” E nós, que resposta damos? Queremos mantê-lo à distância ou deixamos que Ele nos toque e nos liberte?

O mal pode gritar, mas não terá a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, e essa palavra é vida, é liberdade, é amor. É a autoridade de Cristo que continua a nos libertar. Que hoje, ao ouvir este Evangelho, possamos acolher essa autoridade em nós, e viver como testemunhas de um Reino que não se compra, não se negocia e não se vende, mas que se constrói na coerência entre palavra e vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 30 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,16-30

 
A perícope de Lucas 4,16-21 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum, quando a comunidade retoma o caminho ordinário da escuta da Palavra e do discipulado cotidiano, e aparece também em forma condensada no 3º Domingo do Tempo Comum do ano C, dia que, por iniciativa do Papa Francisco, foi instituído como o Domingo da Palavra de Deus, ressaltando a centralidade da Escritura na vida e na missão da Igreja. Além disso, o mesmo núcleo temático ressoa profundamente na Missa do Crisma, celebrada na Quinta-feira Santa, quando o bispo consagra os santos óleos e renova-se o compromisso ministerial, evocando explicitamente a unção do Espírito que configura Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar os pobres. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este texto é igualmente reconhecido como uma epifania da identidade messiânica de Jesus e como síntese programática de sua missão. A liturgia, ao situá-lo nesses momentos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas atualiza um princípio teológico fundamental: a Palavra de Deus é sempre contemporânea, sempre hoje.
A cena se insere no início do ministério público de Jesus segundo o Evangelho de Lucas. Após o batismo no Jordão, onde o Espírito desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, e após a experiência do deserto, marcada pelo confronto com as tentações que pretendiam desviar sua missão para caminhos de poder, espetáculo e domínio, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Este detalhe não é meramente descritivo, mas profundamente teológico. Ele indica que tudo o que se segue será ação do Espírito na história. O retorno a Nazaré, sua terra de origem, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um movimento simbólico de encarnação da missão no espaço concreto da vida cotidiana.
Nazaré, pequena aldeia da Galileia, estava distante dos centros de poder político e religioso como Jerusalém e Cesareia. Era um lugar marginal no mapa do mundo antigo, expressão das periferias históricas onde a vida se desenrola sob condições de invisibilidade social. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por tensões econômicas e culturais, com forte presença de camponeses submetidos à exploração tributária do Império Romano e das elites locais. A leitura desse contexto, iluminada pela história do Mediterrâneo antigo, revela que a proclamação de Jesus não ocorre em um vazio neutro, mas em um ambiente de desigualdade estrutural, opressão econômica e expectativa messiânica.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se insere na tradição viva de Israel. A sinagoga, surgida no período do exílio e consolidada no pós-exílio, era o espaço da memória coletiva, da leitura da Torá e dos Profetas, da oração comunitária e da formação da identidade do povo. O gesto de levantar-se para ler (Lc 4,16) é carregado de significado. Não se trata apenas de uma função litúrgica, mas de uma tomada de posição diante da tradição. Ele recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que proclama a unção do Espírito sobre o enviado. O texto de Isaías 61,1-2, combinado com elementos de Isaías 58,6, anuncia libertação, cura, restauração e justiça.
Quando Jesus lê “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18), ele não está apenas citando uma profecia, mas reinterpretando toda a expectativa messiânica de Israel. A unção, no mundo bíblico, designa a consagração para uma missão específica. Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de eleição divina. Aqui, porém, a unção não legitima poder político nem status religioso, mas uma missão voltada aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos. Trata-se de uma inversão radical da lógica dominante.
O termo “pobres” não deve ser reduzido a uma categoria puramente espiritual. No contexto bíblico, especialmente na tradição dos anawim, refere-se aos que são materialmente despossuídos e socialmente vulneráveis, mas também abertos à ação de Deus. A boa nova anunciada a eles é concreta, histórica, libertadora. A libertação dos cativos remete tanto à experiência do exílio quanto às diversas formas de escravidão e opressão presentes na sociedade. A recuperação da vista aos cegos evoca não apenas curas físicas, mas a iluminação interior que permite perceber a realidade à luz de Deus. A libertação dos oprimidos aponta para a ruptura de estruturas injustas.
O anúncio do “ano da graça do Senhor” remete diretamente à tradição jubilar de Levítico 25. O jubileu era um tempo de reconfiguração social, no qual as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as terras devolvidas. Era uma tentativa concreta de impedir a concentração de riqueza e restaurar a igualdade. Ao assumir esse horizonte, Jesus projeta a fé bíblica para além do ritualismo e a inscreve no campo da justiça social. A teologia se encontra com a sociologia, a espiritualidade com a economia, a liturgia com a vida.
Quando Jesus declara “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21), ele introduz a categoria do hoje como chave hermenêutica. O hoje não é apenas um tempo cronológico, mas um tempo teológico, o kairos da salvação. Em Lucas, essa categoria aparece em momentos decisivos, como no anúncio aos pastores “Hoje vos nasceu um Salvador” (Lc 2,11) e na conversão de Zaqueu “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19,9). O hoje rompe com a lógica de uma fé projetada apenas para o futuro e convoca à transformação do presente.
A reação dos ouvintes revela a complexidade da experiência humana. Inicialmente, há admiração pelas palavras cheias de graça (Lc 4,22). No entanto, rapidamente emerge a resistência. “Não é este o filho de José?” A pergunta, aparentemente inocente, carrega uma carga de deslegitimação. Trata-se de um mecanismo antropológico e psicológico conhecido: a dificuldade de reconhecer o extraordinário no ordinário, o novo no familiar. A psicologia social aponta que grupos tendem a rejeitar aqueles que rompem expectativas internas, pois isso ameaça a estabilidade simbólica do coletivo.
Jesus responde evocando a tradição profética de Elias e Eliseu (Lc 4,25-27), lembrando que a ação de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel. A viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, são estrangeiros que experimentam a graça divina. Essa universalização do horizonte é profundamente subversiva. Ela desmonta qualquer pretensão de exclusivismo religioso e aponta para a universalidade da salvação. No entanto, essa abertura é percebida como ameaça, e a admiração se transforma em fúria.
O paralelo com Marcos 6,1-6 e Mateus 13,53-58 confirma o tema do profeta rejeitado em sua terra, mas Lucas radicaliza o sentido ao colocar esse episódio no início da missão. Trata-se de uma chave interpretativa para todo o Evangelho. A missão de Jesus será marcada pela proclamação da libertação, pela abertura aos marginalizados e pela rejeição por parte daqueles que se consideram detentores da verdade e do poder religioso.
A tradição patrística reconheceu nessa passagem um núcleo fundamental da cristologia. A recapitulação em Cristo, como desenvolvida por Irineu, indica que toda a história encontra nele seu sentido. Orígenes enfatiza o caráter sempre atual do hoje da Palavra. Agostinho destaca que a Escritura se cumpre na vida daqueles que a acolhem com fé. Essa leitura patrística reforça a dimensão existencial do texto.
No horizonte do magistério contemporâneo, a Constituição Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão e convoca a uma Igreja em saída. A Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e propõe uma fraternidade universal. Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, aprofundam a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em suas diretrizes pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja comprometida com a justiça social.
Diante desse quadro, a Palavra de Lucas 4 assume um caráter profético incontornável. Ela denuncia as formas contemporâneas de instrumentalização da religião. Quando a fé é capturada por projetos político-partidários que promovem exclusão, violência e autoritarismo, ela se distancia do Evangelho. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção divina ao sucesso material, trai a lógica do Reino, que privilegia os pobres. A teologia do domínio, ao buscar poder e controle, contradiz o caminho de serviço de Jesus.
O clericalismo aparece como uma deformação interna da Igreja, quando o ministério se transforma em privilégio e poder, em vez de serviço. Isso sufoca a dimensão profética e impede a participação do povo de Deus. A aliança entre discursos religiosos e ideologias de extrema direita, marcada por nacionalismo excludente e desprezo pelos pobres, esvazia o Evangelho de sua força libertadora.
A atualidade do texto se revela nos desafios contemporâneos. A desigualdade social crescente, a exclusão de milhões, a violência estrutural, a crise de sentido e a manipulação religiosa são sinais de um mundo que precisa urgentemente do anúncio do Reino. A Palavra proclamada em Nazaré continua a ecoar como denúncia e promessa. Ela desinstala, inquieta, convoca à conversão.
A experiência humana diante dessa Palavra é marcada por ambiguidade. Há desejo de mudança, mas também medo. A liberdade proposta pelo Evangelho implica responsabilidade. A psicologia mostra como mecanismos de defesa surgem diante de verdades que exigem transformação. No entanto, é nesse confronto que se abre a possibilidade de uma vida nova.
Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho (Lc 4,30). Este detalhe final é profundamente simbólico. A rejeição não interrompe a missão. O projeto de Deus não é bloqueado pela resistência humana. A história continua aberta. A Palavra continua a ser proclamada. O Espírito continua a agir.
A contemplação dessa cena conduz a uma tomada de posição. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou se acolhe o hoje da salvação, assumindo suas implicações pessoais e sociais, ou se recusa, permanecendo nas estruturas que geram morte. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não pode ser cúmplice da injustiça. Ela é chamada a ser fermento de transformação, sinal de esperança, voz profética.
Assim, a sinagoga de Nazaré se torna espelho da humanidade. Nela se refletem nossas expectativas, nossas resistências, nossas contradições. E nela ressoa a Palavra que continua a dizer hoje: a libertação é possível, a justiça é necessária, a graça é oferecida. Cabe a cada geração decidir se acolhe ou rejeita esse anúncio. O Evangelho permanece como critério, como luz e como caminho para uma humanidade reconciliada, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e a vida, em todas as suas formas, seja plenamente valorizada.
Naquele contexto  os olhares se cruzavam em curiosidade e orgulho local e hoje sonos  chamados a nos perguntar: 

  • Qual é o nosso projeto “hoje”? 
  • Onde precisamos deixar que a Palavra se cumpra? 
  • Onde resistimos, como os nazarenos, porque a mensagem nos incomoda? 
  • E como comunidade, estamos dispostos a abrir espaço para os pobres, os estrangeiros, os diferentes, ou continuamos a reproduzir muros e exclusões? 

A Boa Nova de Jesus não cabe em templos fechados, nem em projetos de poder, mas floresce quando a Palavra é acolhida como fermento de vida nova, reconciliação e justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.



DNonato - Teólogo do Cotidiano