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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-27

O Evangelho de Mateus 11,25-27 ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamado em diversos momentos do calendário da Igreja Católica e iluminando diferentes aspectos do mistério de Cristo. No ciclo semanal do Tempo Comum, esta perícope é proclamada na quarta-feira da 15ª Semana, dando continuidade ao itinerário evangelizador iniciado no dia anterior e preparando a passagem seguinte, Mateus 11,28-30, proclamada na quinta-feira da mesma semana. Essa divisão pedagógica do Lecionário permite à comunidade aprofundar, em dois dias consecutivos, o mistério da revelação do Pai aos pequeninos e, em seguida, acolher o convite de Jesus para encontrar nele descanso, alívio e renovação da vida. O mesmo texto integra ainda o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum do Ano A, na perícope de Mateus 11,25-30, tornando-se o eixo da reflexão dominical sobre a sabedoria do Reino, revelada aos humildes, e sobre o jugo suave e o fardo leve de Cristo. Também é proclamado na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no Ano A, quando a Igreja contempla o amor misericordioso do Filho, a mansidão e a humildade de seu Coração, abertas como fonte de vida para toda a humanidade. A continuação da perícope, Mateus 11,28-30, é frequentemente escolhida nas celebrações pelos fiéis defuntos, por anunciar a esperança cristã no descanso definitivo prometido por Cristo àqueles que nele confiam. Em alguns calendários próprios, especialmente da Família Franciscana, essa passagem também ilumina a memória de São Francisco de Assis, cuja vida marcada pela pobreza evangélica, pela simplicidade e pela humildade tornou-se um testemunho concreto da pequenez que Jesus proclama bem-aventurada. Passagens paralelas, particularmente Lucas 10,21-22, também são proclamadas em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas e em diversas Igrejas históricas do Ocidente, evidenciando que essa oração de Jesus constitui uma das mais profundas revelações sobre sua identidade filial, sobre a gratuidade da ação de Deus e sobre a verdadeira sabedoria que não se impõe pela força, mas se revela aos corações humildes e disponíveis à graça.

A tradição paralela conservada em Lucas 10,21-22 também é proclamada em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras Igrejas da tradição reformada, conforme seus respectivos lecionários. A presença constante dessa passagem nas diversas tradições cristãs demonstra que ela constitui uma das mais profundas revelações acerca da identidade do Filho, da ação gratuita da graça e do caminho da verdadeira sabedoria, acessível não aos autossuficientes, mas aos humildes que acolhem o Reino com coração disponível..A oração de Jesus registrada por Mateus não surge como um momento isolado de espiritualidade, mas como o ponto culminante de uma sequência de acontecimentos que revelam o drama da missão messiânica. O capítulo inicia com João Batista preso por Herodes Antipas. Da fortaleza de Maqueronte, na região da Pereia, João envia discípulos para perguntar se Jesus é realmente aquele que deveria vir ou se ainda era preciso esperar outro (Mt 11,2-3). A pergunta não nasce necessariamente da falta de fé, mas do contraste entre a expectativa messiânica alimentada por muitos judeus e o modo surpreendente como Jesus realizava sua missão. Esperava-se um Messias juiz, capaz de estabelecer imediatamente o juízo divino sobre os ímpios, enquanto Jesus aproximava-se dos pobres, dos pecadores, dos enfermos e dos marginalizados, revelando um Reino que crescia silenciosamente.

A resposta de Jesus não apresenta argumentos abstratos, mas remete às obras realizadas. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova (Mt 11,4-5). Cada uma dessas ações remete diretamente às promessas proféticas de Isaías (Is 29,18; 35,5-6; 42,6-7; 61,1-2), indicando que o Reino esperado já está presente. O verdadeiro sinal messiânico não é a demonstração de força militar nem a conquista do poder político, mas a restauração da dignidade humana. Depois de confirmar a missão de João Batista, Jesus lamenta a incapacidade de sua geração em reconhecer a ação de Deus. Ela rejeitou João porque jejuava e vivia austeramente, chamando-o de possesso, e rejeitou o Filho do Homem porque comia com pecadores, acusando-o de glutão e beberrão (Mt 11,16-19). A crítica revela um coração fechado, incapaz de acolher qualquer manifestação divina que não correspondesse às próprias expectativas. Em seguida, Jesus dirige palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11,20-24), cidades da Galileia onde realizara numerosos sinais. A dureza dessas advertências não nasce da ira, mas da dor diante da recusa persistente da conversão.

É precisamente nesse contexto que Jesus eleva sua oração ao Pai. Humanamente, tudo indicaria fracasso. As autoridades religiosas desconfiam dele, parte do povo permanece indiferente, João está preso, cidades inteiras recusam converter-se. Contudo, Jesus contempla a realidade a partir do olhar do Pai. Em vez de permitir que a rejeição determine sua missão, transforma-a em louvor. Essa atitude revela um dos aspectos mais profundos da espiritualidade bíblica. O fracasso aparente nunca possui a última palavra quando a história é contemplada à luz da ação divina.

Mateus utiliza o verbo grego ἐξομολογοῦμαί (exomologoumai), geralmente traduzido como "eu te louvo" ou "eu te dou graças". O termo possui um sentido muito mais rico do que um simples agradecimento. Indica reconhecimento público da ação de Deus, profissão de fé e entrega confiante. Jesus não agradece porque tudo ocorreu conforme seus desejos humanos, mas porque reconhece que o projeto do Pai continua realizando-se mesmo onde os olhos humanos enxergam apenas resistência..Ao chamar Deus de "Pai, Senhor do céu e da terra", Jesus une dois aspectos fundamentais da fé bíblica. Deus é simultaneamente Criador universal e Pai próximo. O Senhor que governa o cosmos inteiro é o mesmo que estabelece uma relação íntima com seus filhos. Essa expressão recorda passagens veterotestamentárias como Gênesis 14,19, Isaías 66,1-2, Neemias 9,6 e diversos salmos que proclamam Deus como Senhor da criação. Entretanto, Jesus acrescenta uma dimensão inédita ao dirigir-se a Deus com a intimidade filial que marcará toda a revelação cristã.

O centro da oração encontra-se na afirmação de que o Pai escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Essa declaração foi frequentemente mal compreendida como se representasse uma oposição entre fé e inteligência. Nada estaria mais distante da tradição bíblica. A própria Escritura celebra a verdadeira sabedoria como dom divino. Os livros sapienciais exaltam a busca da sabedoria (Pr 8; Eclo 1; Sb 7), enquanto Paulo convida os cristãos a renovarem sua inteligência (Rm 12,2). O Evangelho não condena o conhecimento, mas denuncia o orgulho que transforma o saber em instrumento de autossuficiência. Os termos gregos empregados por Mateus aprofundam esse significado. Os "sábios" são chamados σοφοί (sophoi), enquanto os "entendidos" recebem o nome de συνετοί (synetoi). Ambos designam pessoas reconhecidas por sua formação intelectual, capacidade de discernimento e posição de prestígio. Em contraste aparece o termo νήπιοι (nēpioi), literalmente "crianças pequenas". Na cultura mediterrânea antiga, as crianças possuíam pouco reconhecimento social, dependiam inteiramente dos adultos e não ocupavam posição de poder. Jesus utiliza essa imagem para indicar aqueles que permanecem abertos ao dom de Deus. Não se trata da exaltação da ignorância nem da infantilização da fé, mas da humildade que reconhece sua própria necessidade.

Outro verbo merece atenção especial. Mateus afirma que Deus "revelou" essas coisas aos pequeninos. O verbo utilizado é ἀπεκάλυψας (apekalypsas), origem da palavra "apocalipse", que significa retirar o véu, tornar visível aquilo que permanecia oculto. A revelação não nasce do esforço intelectual humano, mas da iniciativa gratuita de Deus. O conhecimento do Reino é dom antes de ser conquista. A inteligência continua necessária, mas encontra sua plenitude somente quando iluminada pela graça..Essa lógica percorre toda a história da salvação. Deus escolhe Abraão quando este já não possuía perspectivas humanas de descendência (Gn 12,1-4). Chama Moisés, homem inseguro e lento de fala, para enfrentar o maior império de seu tempo (Ex 3,1-12). Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,1-13). Levanta profetas frequentemente perseguidos por denunciarem as injustiças do próprio povo (Am 7,10-17; Jr 20,7-18). Maria, jovem de Nazaré pertencente a uma pequena aldeia da Galileia, proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,46-55). Paulo sintetiza essa dinâmica ao afirmar que Deus escolheu aquilo que o mundo considera fraco para confundir os fortes (1Cor 1,26-31).

O contexto histórico reforça ainda mais essa mensagem. A Galileia do século I encontrava-se sob domínio romano. A economia era marcada por forte concentração de terras, pesados impostos e crescente endividamento das famílias camponesas. Muitos pequenos agricultores perdiam suas propriedades e tornavam-se trabalhadores diaristas ou migravam para centros urbanos. Ao mesmo tempo, a aristocracia sacerdotal de Jerusalém concentrava prestígio religioso, influência política e riqueza econômica. A religião frequentemente misturava-se aos interesses das elites locais e do poder imperial..Entretanto, reduzir esse cenário a uma simples oposição entre ricos e pobres seria insuficiente. O judaísmo do Segundo Templo era extremamente diversificado. Fariseus, saduceus, essênios, zelotas e outros grupos buscavam responder, cada qual à sua maneira, aos desafios da ocupação romana e da fidelidade à Lei. Jesus dialoga com esse universo complexo. Em muitos momentos aproxima-se dos fariseus quando afirma a ressurreição dos mortos ou reconhece a importância da Lei. Em outros, critica severamente práticas religiosas que absolutizam normas enquanto esquecem a misericórdia, a justiça e a fidelidade (Mt 23,23). Sua crítica nunca se dirige ao conhecimento em si, mas à transformação da religião em instrumento de prestígio, exclusão e poder.

A realidade cultural mostra que toda sociedade constrói mecanismos de distinção entre quem pertence plenamente ao grupo e quem permanece à margem. Esses mecanismos podem basear-se na origem, na riqueza, na pureza ritual, no gênero, na formação intelectual ou em qualquer outro elemento capaz de justificar desigualdades. Jesus desmonta essas fronteiras ao revelar que Deus comunica seus mistérios justamente àqueles que o sistema considera insignificantes. O Reino não elimina as diferenças humanas, mas impede que elas sejam transformadas em critérios de superioridade. Também no  aspecto  psicológico contemporânea oferece elementos preciosos para compreender essa passagem. O ser humano frequentemente busca construir sua identidade sobre a necessidade de reconhecimento, desempenho e controle. Quando a autoestima depende exclusivamente do sucesso, da influência ou da aprovação social, instala-se um ciclo permanente de ansiedade. A espiritualidade proposta por Jesus rompe essa lógica. Os pequeninos do Evangelho não vivem presos à ilusão da autossuficiência. Reconhecem seus limites sem perder a dignidade. Descobrem que seu valor nasce da relação filial com Deus e não da posição ocupada na sociedade. Essa liberdade interior permite acolher a revelação sem medo de perder privilégios ou status.

É  preciso  ter consciência  que as comunidades religiosas podem tornar-se tanto espaços de libertação quanto mecanismos de reprodução das desigualdades. Quando a experiência religiosa é reduzida ao cumprimento exterior de normas, ao acúmulo de prestígio institucional ou à busca de privilégios espirituais, perde sua força transformadora. Jesus devolve a religião à sua origem mais profunda: o encontro vivo entre Deus e a humanidade, capaz de gerar fraternidade, justiça e esperança. A verdadeira experiência religiosa nunca isola o indivíduo da realidade concreta, mas o impulsiona a participar da construção de uma sociedade mais conforme ao Reino anunciado pelos profetas e realizado em Cristo.  Jesus não é uma condição sociológica idealizada nem uma virtude automática decorrente da pobreza. A Escritura jamais romantiza o sofrimento. A pobreza, a exclusão e a opressão são consequências do pecado pessoal e estrutural, e por isso devem ser combatidas. O que Jesus proclama é que Deus encontra nos corações humildes a disponibilidade que frequentemente falta aos que se deixam aprisionar pela autossuficiência. A abertura à graça não depende da posição social, mas da capacidade de reconhecer que toda vida é dom. É por isso que o Reino permanece acessível tanto ao pescador da Galileia quanto ao doutor da Lei que se converte, tanto à viúva pobre quanto ao centurião romano que descobre em Jesus uma autoridade diferente daquela exercida pelos impérios deste mundo.

O versículo seguinte conduz a reflexão ao centro da cristologia mateana. Jesus afirma: "Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11,27). Poucas passagens dos Evangelhos Sinóticos exprimem de maneira tão elevada o mistério da identidade de Cristo. O verbo "conhecer", tanto em hebraico quanto em grego, ultrapassa o campo da informação intelectual. Nas Escrituras, conhecer significa entrar em comunhão profunda, participar da vida do outro, estabelecer uma relação de intimidade e fidelidade. Assim acontece quando Gênesis afirma que Adão conheceu Eva (Gn 4,1), quando Oséias descreve a aliança entre Deus e seu povo (Os 2,22) e quando Jeremias declara que conhecer o Senhor é praticar a justiça (Jr 22,15-16). O conhecimento de que fala Jesus é participação na própria vida divina.

Essa afirmação tornou-se fundamental para a reflexão coerente  Igreja atual: 

  • Santo Irineu de Lião insistia que o Filho revela o Pai porque é sua Palavra eterna feita carne.
  • Orígenes via nesse texto a confirmação de que ninguém alcança o conhecimento de Deus apenas pelo esforço racional, mas somente por meio daquele que é a Sabedoria eterna. 
  • São João Crisóstomo observava que Cristo não diminui a inteligência humana, mas denuncia o orgulho que impede o encontro com Deus. 
  • Santo Agostinho contemplava nessa passagem uma das mais belas expressões da comunhão trinitária, afirmando que somente o Filho conhece plenamente o Pai porque participa da mesma natureza divina desde toda a eternidade. 
A tradição patrística jamais separou contemplação e vida concreta. Conhecer Deus implica deixar-se transformar por Ele. É precisamente essa transformação que o Concílio Vaticano II recoloca no centro da missão da Igreja. A Constituição Dei Verbum recorda que Deus fala aos homens como amigos e os convida à comunhão consigo, revelando-se progressivamente na história até sua plenitude em Cristo. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como Povo de Deus peregrino, chamado à santidade e ao serviço antes mesmo de abordar sua estrutura hierárquica. A Gaudium et Spes afirma que Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem e manifesta a sua vocação mais elevada. Essas afirmações não constituem simples fórmulas doutrinais, mas critérios permanentes para discernir a autenticidade da vida eclesial.

Na América Latina, essa compreensão ganhou profunda densidade pastoral. Medellín reconheceu que a pobreza não é fatalidade querida por Deus, mas fruto de estruturas injustas que exigem conversão pessoal e transformação social. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência inseparável do seguimento de Cristo. Santo Domingo recordou a urgência da nova evangelização diante das rápidas mudanças culturais. O Documento de Aparecida apresentou toda a Igreja como comunidade de discípulos missionários, convocada a sair de si mesma para encontrar os rostos concretos dos pobres, dos jovens, das famílias, dos povos originários, dos migrantes e de todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB continuam insistindo que a comunidade cristã deve formar discípulos comprometidos simultaneamente com a espiritualidade, a fraternidade e a transformação da realidade. Essa perspectiva encontra profundo desenvolvimento no magistério do Papa Francisco. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão, a idolatria do dinheiro, a cultura do descarte e a tentação de reduzir a evangelização a uma experiência intimista desligada da justiça. A Laudato Si' mostra que a crise ambiental e a crise social possuem a mesma raiz, pois ambas nascem da lógica da exploração ilimitada. A Fratelli Tutti propõe uma fraternidade capaz de superar nacionalismos excludentes, individualismos radicais e novas formas de indiferença. A declaração Dignitas Infinita reafirma que toda pessoa humana possui dignidade inviolável porque foi criada à imagem de Deus e chamada à comunhão com Ele. Todos esses documentos dialogam profundamente com Mateus 11,25-27, pois recordam que Deus continua revelando seu Reino onde a lógica do poder enxerga apenas fragilidade.

Por isso, a oração de Jesus possui inevitáveis consequências proféticas. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a religião para legitimar interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Sempre que o nome de Deus é utilizado para justificar privilégios, alimentar discursos de ódio, incentivar perseguições, naturalizar desigualdades ou transformar comunidades de fé em instrumentos de dominação, o Evangelho é traído. A fé cristã possui implicações sociais e políticas, porque o Reino alcança toda a vida humana, mas jamais pode ser reduzida a plataforma de qualquer projeto de poder. A Igreja anuncia princípios éticos iluminados pelo Evangelho e pela dignidade da pessoa humana; não foi constituída para servir à idolatria do Estado, do mercado, de partidos ou de líderes carismáticos..Nesse horizonte, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos contemporâneos. A chamada teologia da prosperidade tende a identificar a bênção divina com sucesso econômico, riqueza material e ascensão social, obscurecendo a centralidade da cruz, da gratuidade e da solidariedade. A chamada teologia do domínio, desenvolvida em determinados contextos, propõe que os cristãos devem conquistar os centros de poder para impor uma determinada visão religiosa da sociedade. Ambas correm o risco de substituir o serviço pela conquista, a misericórdia pela lógica do vencedor e o discipulado pela busca de influência. O Evangelho apresenta caminho diverso. Jesus rejeita as tentações do poder desde o deserto (Mt 4,1-11), lava os pés de seus discípulos (Jo 13,1-15) e ensina que o maior deve tornar-se servidor de todos (Mc 10,42-45).

O clericalismo representa uma deformação da missão eclesial. Quando o ministério ordenado deixa de ser serviço e passa a ser compreendido como privilégio ou superioridade espiritual, obscurece-se a novidade inaugurada por Cristo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo infantiliza os leigos, sufoca os carismas do povo de Deus e enfraquece a missão evangelizadora. A autoridade cristã nasce da diaconia, jamais da busca de prestígio. O próprio Jesus, Senhor do céu e da terra, manifesta sua autoridade aproximando-se dos pequenos, tocando os impuros, acolhendo pecadores e entregando a própria vida pela salvação do mundo..A mesma vigilância deve alcançar toda expressão religiosa que se deixe capturar por projetos autoritários ou ideológicos, sejam eles de extrema direita, de extrema esquerda ou de qualquer outra forma de absolutização do poder. Sempre que a fé perde sua liberdade profética para tornar-se instrumento de nacionalismos excludentes, personalismos políticos, fanatismos ou polarizações que negam a dignidade do outro, deixa de refletir o rosto de Cristo. Os profetas de Israel denunciaram reis, sacerdotes e comerciantes quando estes traíram a aliança. João Batista enfrentou Herodes. Jesus confrontou práticas injustas presentes tanto no poder político quanto nas lideranças religiosas. A Igreja permanece fiel ao Evangelho quando conserva essa liberdade profética diante de qualquer forma de idolatria do poder.

Ao mesmo tempo, a denúncia profética jamais pode transformar-se em condenação estéril. Jesus inicia sua oração louvando o Pai. Sua crítica nasce do amor, não do ressentimento. A missão da Igreja consiste em anunciar a possibilidade permanente da conversão. Toda pessoa, toda comunidade e toda instituição podem reencontrar o caminho do Reino quando acolhem a verdade com humildade. A misericórdia nunca elimina a exigência ética, mas oferece sempre um horizonte de recomeço..A realidade contemporânea torna essa mensagem particularmente atual. Vivemos num tempo marcado por profundas desigualdades sociais, guerras, migrações forçadas, violência urbana, intolerância religiosa, crise ambiental, solidão crescente e perda de sentido existencial. O desenvolvimento tecnológico ampliou extraordinariamente o acesso à informação, mas não produziu automaticamente maior sabedoria. Em muitos contextos, cresce a capacidade de comunicar sem crescer a capacidade de escutar; aumenta o poder de consumir sem aumentar a solidariedade; multiplica-se o conhecimento técnico enquanto se enfraquece a sensibilidade diante do sofrimento humano. O Evangelho recorda que a verdadeira sabedoria continua sendo dom acolhido por corações humildes.

Os pequenos de hoje possuem muitos rostos. São as famílias que enfrentam a insegurança alimentar, os idosos abandonados, as crianças privadas de educação de qualidade, os trabalhadores explorados, os desempregados, os migrantes obrigados a deixar sua terra, os povos indígenas ameaçados, as vítimas do racismo, da violência contra a mulher, do tráfico humano, da dependência química, da guerra e da destruição ambiental. Também são aqueles que, mesmo cercados de conforto material, experimentam o vazio existencial, a depressão, a ansiedade e a perda do sentido da vida. A todos eles Cristo continua dirigindo o olhar misericordioso do Pai..A contemplação de Mateus 11,25-27 conduz inevitavelmente ao trecho seguinte, no qual Jesus convida: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Não se trata de um descanso alienante que afasta da realidade, mas da paz que fortalece para continuar construindo o Reino. O discípulo encontra repouso precisamente porque aprende a carregar o jugo de Cristo, que é o jugo do amor, da justiça, da misericórdia e da solidariedade. O Reino não elimina as cruzes da história, mas transforma sua lógica ao fazer da entrega o caminho da verdadeira liberdade.

Assim, a oração de Jesus permanece como uma das mais luminosas páginas do Evangelho. Nela contemplamos o coração do Filho voltado para o Pai e descobrimos que o Reino de Deus continua sendo revelado onde o orgulho humano raramente ousa procurar. A verdadeira inteligência da fé não nasce da acumulação de conceitos, da erudição religiosa ou da repetição de fórmulas, mas do encontro vivo e transformador com Cristo. Como recorda São Paulo, "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2Cor 3,6). O apóstolo não despreza a Palavra escrita nem a Lei, mas denuncia toda interpretação que reduz a fé a um legalismo estéril, incapaz de gerar vida, misericórdia e conversão. A Escritura somente alcança sua plenitude quando é lida à luz do Espírito Santo, que conduz a Igreja à verdade plena (Jo 16,13) e conforma os discípulos ao coração de Cristo. A autêntica sabedoria floresce quando a razão se deixa iluminar pela graça, quando o conhecimento se transforma em serviço, quando a autoridade renuncia ao domínio para tornar-se cuidado, quando a religião deixa de ser instrumento de poder para tornar-se sinal da misericórdia de Deus, e quando a Igreja, fiel ao Evangelho e à sua tradição viva, caminha ao lado dos pequenos, dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos da história. Somente uma comunidade que aprende a ajoelhar-se diante de Deus e a inclinar-se diante dos irmãos pode anunciar com credibilidade a Boa Nova do Reino.

Quem aprende a olhar o mundo com os olhos do Filho descobre que Deus continua agindo discretamente na história. O Reino cresce como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29), como o fermento escondido na massa (Mt 13,33), como o grão de mostarda que, embora pequeno, torna-se árvore capaz de acolher as aves do céu (Mt 13,31-32). Sua força não reside no espetáculo do poder, mas na fecundidade silenciosa do amor que transforma pessoas, comunidades e sociedades..Diante de um mundo marcado pela desigualdade, pela violência, pela manipulação da fé, pela idolatria do poder e pela perda do sentido da vida, o Evangelho continua convocando homens e mulheres à conversão do coração. Tornar-se pequeno diante de Deus não significa diminuir a dignidade humana, mas reconhecer que toda grandeza autêntica nasce da graça, da humildade e do serviço. É nesse caminho que o Pai continua revelando seu coração aos que se deixam conduzir pelo Filho. E é nesse encontro que a Igreja reencontra continuamente sua identidade, sua missão e sua esperança: anunciar, com palavras e obras, que o amor misericordioso de Deus permanece mais forte que toda injustiça, que a verdade é mais poderosa que a mentira, que a vida vence a morte e que Cristo continua sendo, ontem, hoje e para sempre, a Sabedoria eterna que ilumina, liberta e vivifica toda a humanidade (Hb 13,8).



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano