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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Olhando novamente Lucas 10,38-42.

O Evangelho de Lucas 10,38-42, proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano C, retorna nesta terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum. Talvez a liturgia nos ofereça novamente essa passagem justamente porque há textos que não terminamos de compreender de uma vez. A cada encontro com a Palavra, a vida muda, nossas preocupações mudam e aquilo que antes parecia apenas uma história sobre duas irmãs começa a falar diretamente de nós. Lucas apresenta Jesus entrando numa aldeia e sendo recebido por uma mulher chamada Marta. O texto não identifica o lugar como Betânia; essa associação aparece no Evangelho de João, que apresenta Marta, Maria e Lázaro vivendo em Betânia e mantendo uma relação de amizade com Jesus (Jo 11–12). O mais importante, porém, é aquilo que acontece naquela casa. Jesus entra como hóspede, e sua presença revela algo que muitas vezes também acontece conosco quando alguém entra em nossa casa, quando uma visita inesperada chega, quando uma conversa interrompe nossa rotina ou quando a vida nos obriga a parar: descobrimos que, por trás daquilo que fazemos, existem preocupações, expectativas, cansaços e necessidades que nem sempre reconhecemos.

Marta está ocupada com os muitos afazeres da casa. É fácil compreendê-la, porque sua situação é muito próxima da nossa. Quantas pessoas começam o dia pensando em tudo aquilo que precisam resolver e terminam a noite com a sensação de que não fizeram nem metade? Há quem acorde já respondendo mensagens, organize filhos, trabalho, contas, compromissos, transporte, estudos, cuidados com familiares e problemas que não podem esperar. Há quem cuide de uma casa enquanto trabalha fora, quem carregue responsabilidades que ninguém percebe e quem tenha aprendido a demonstrar amor fazendo coisas pelos outros. Marta poderia estar justamente nessa situação: alguém que acolheu Jesus e deseja que tudo esteja bem, mas que, no meio do serviço, começa a ficar sobrecarregada. O problema não é que ela esteja trabalhando. O problema é que o trabalho começa a ocupar todo o seu interior.

Isso também acontece conosco. Às vezes não estamos apenas cansados; estamos interiormente ocupados demais. Mesmo quando sentamos, continuamos trabalhando mentalmente. Mesmo quando estamos em casa, pensamos no que ficou pendente. Mesmo quando alguém conversa conosco, uma parte da nossa atenção está no telefone. Estamos fisicamente presentes, mas interiormente ausentes. Há uma diferença enorme entre estar ocupado e estar presente. Maria, ao sentar-se aos pés de Jesus, faz justamente aquilo que nossa cultura tem cada vez mais dificuldade de fazer: ela interrompe a urgência. Ela não está simplesmente "sem fazer nada". Está escutando. No contexto do século I, sentar-se aos pés de um mestre significava assumir a posição de discípulo. Em Atos 22,3, Paulo utiliza a mesma linguagem para falar de sua formação aos pés de Gamaliel. Lucas, portanto, apresenta Maria como alguém que aprende, e Jesus reconhece nela essa condição.

As  mulheres  do contexto  Viviam  em uma sociedade na qual a formação religiosa formal estava predominantemente reservada aos homens, Maria ocupa o lugar de discípula. Jesus não a manda voltar ao trabalho para cumprir aquilo que socialmente se esperava dela. Ele legitima sua presença aos seus pés. O Evangelho abre, assim, espaço para uma mulher escutar, aprender e participar da experiência do discipulado. Mas Marta também precisa ser compreendida com justiça. Ela representa uma dimensão necessária da existência: cuidar, preparar, organizar, alimentar, acolher, resolver problemas. A própria Bíblia valoriza profundamente a hospitalidade. Abraão acolhe os visitantes em Mambré (Gn 18,1-10), e a tradição de Israel ordena que o estrangeiro seja amado como alguém da própria comunidade (Lv 19,34). O serviço de Marta, portanto, não é desprezível. O problema começa quando o serviço deixa de ser expressão de amor e se transforma em fonte de ansiedade e cobrança.

Marta olha para Maria e pensa: "Eu estou fazendo tudo, enquanto ela está aqui sentada." Essa frase poderia ser pronunciada hoje em muitas casas. "Eu faço tudo nesta família e ninguém reconhece." "Eu estou sempre disponível e os outros não se importam." "Se eu não fizer, ninguém faz." "Eu trabalho, cuido, resolvo e ainda esperam que eu faça mais." Às vezes, por trás dessas frases existe uma dor verdadeira. Muitas pessoas estão realmente sobrecarregadas e precisam de ajuda. O Evangelho não manda ninguém aceitar exploração ou carregar sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de todos. Mas Jesus nos convida a perceber algo além da distribuição das tarefas: aquilo que o excesso de responsabilidades está fazendo dentro de nós.

Porque existe um momento em que o cansaço deixa de ser apenas físico e começa a transformar nossa maneira de olhar para os outros. Já não vemos a pessoa, vemos aquilo que ela não fez. Já não percebemos sua presença, percebemos sua ausência no trabalho. O cuidado pode transformar-se em ressentimento, e o serviço pode tornar-se uma contabilidade silenciosa de méritos e dívidas. É nesse ponto que Jesus diz: "Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária" (Lc 10,41-42). Jesus não está dizendo que as muitas coisas não importam. Algumas delas são absolutamente necessárias. Há contas para pagar, pessoas para cuidar, alimentos para preparar, responsabilidades profissionais, problemas familiares e decisões que não podem ser adiadas. A vida não é uma sala de retiro permanente. O Evangelho não nos tira da realidade.

O que Jesus questiona é a nossa incapacidade de distinguir o urgente do essencial. Essa distinção é extremamente necessária hoje. Vivemos numa época em que tudo parece urgente. O telefone toca, uma mensagem chega, uma notícia aparece, alguém exige resposta, uma tarefa se acumula e imediatamente sentimos que precisamos reagir. A tecnologia facilitou inúmeras coisas, mas também criou a sensação de disponibilidade permanente. Há pessoas que nunca conseguem desligar porque sempre existe alguém esperando uma resposta. E não se trata apenas de escutar Deus. Temos dificuldade de escutar as pessoas que vivem conosco. Um casal pode passar horas na mesma casa sem realmente conversar. Pais e filhos podem estar juntos, mas cada um preso à própria tela. Amigos podem se encontrar e continuar respondendo mensagens enquanto o outro fala. Uma pessoa pode contar uma dor e receber imediatamente um conselho, quando talvez precisasse primeiro ser simplesmente ouvida. Muitas vezes fazemos com as pessoas aquilo que fazemos com Deus: não escutamos; apenas esperamos nossa vez de falar.

Por isso, o Evangelho de Marta e Maria possui uma dimensão profundamente cotidiana. Jesus está dizendo que a presença vale mais do que a eficiência. Uma pessoa não é apenas aquilo que produz. Uma relação não se sustenta apenas pela quantidade de coisas que fazemos pelo outro. Há momentos em que amar significa simplesmente permanecer. Isso vale também para a vida familiar. Talvez alguém não precise que façamos mais uma coisa, mas que estejamos verdadeiramente presentes. Talvez um filho precise menos de uma solução imediata e mais de um pai ou de uma mãe que consiga ouvi-lo. Talvez um companheiro ou uma companheira não esteja pedindo uma resposta, mas a experiência de ser levado a sério. Talvez um idoso da família esteja repetindo a mesma história porque sua maior necessidade naquele momento seja perceber que ainda existe alguém disposto a ouvi-lo. O mesmo princípio vale para a comunidade cristã. Quantas vezes nossas paróquias sabem organizar atividades, mas não sabem escutar as pessoas? Sabem anunciar, mas não sabem acolher? Sabem responder às perguntas que imaginam que as pessoas têm, mas não escutam as perguntas reais que surgem de suas vidas?

Uma Igreja excessivamente ocupada pode acabar não percebendo aqueles que estão silenciosamente se afastando. Pode oferecer programas para todos, mas não perceber a solidão de alguém que se senta sozinho no fundo da igreja. Pode falar sobre família e não perceber famílias feridas. Pode falar sobre juventude e não escutar os jovens. Pode falar sobre os pobres sem permitir que os pobres sejam protagonistas de sua própria voz. É nesse ponto que o episódio de Marta e Maria se conecta com o Bom Samaritano, narrado imediatamente antes. O Samaritano não passa indiferente pelo homem ferido. Ele vê. Mas não basta olhar; é necessário deixar-se afetar pelo que se viu. Ele se aproxima, cuida e assume responsabilidade. Maria, por sua vez, escuta Jesus. Em ambos os casos existe uma abertura ao outro.

O problema do nosso tempo não é apenas a falta de ação. Muitas vezes é a ação sem escuta. Fazemos muito, mas nem sempre sabemos para quem estamos fazendo. Falamos em nome dos outros sem ouvi-los. Organizamos projetos para comunidades que não foram consultadas. Criamos respostas antes de compreender as perguntas. Isso também explica por que a tradição bíblica começa o Shemá com a palavra "Escuta": "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Dt 6,4). Antes de amar, Israel precisa ouvir. Isaías apresenta o discípulo como aquele cujo ouvido é despertado para escutar como discípulo (Is 50,4). E na Transfiguração, a voz do Pai diz: "Este é o meu Filho amado. Escutai-o!" (Mt 17,5). A fé nasce quando permitimos que uma palavra que não controlamos nos alcance. Talvez por isso nossa época tenha tanta dificuldade com o silêncio. O silêncio nos devolve a nós mesmos. Quando paramos de produzir, publicar e responder, começamos a perceber o que realmente estamos sentindo. A psicologia nos ajuda a compreender que a hiperatividade pode, em alguns casos, esconder ansiedade, medo ou necessidade de controle. Permanecer em silêncio exige aceitar que não podemos resolver tudo imediatamente.

  • Podemos estar tão envolvidos com a Igreja que já não conseguimos estar com Cristo.
  •  Podemos participar de inúmeras atividades e não reservar alguns minutos para uma oração silenciosa
  •  Podemos consumir conteúdos religiosos durante todo o dia e não abrir espaço interior para que a Palavra nos confronte. 
  • Podemos discutir teologia nas redes sociais e, ao mesmo tempo, não conseguir reconhecer o sofrimento de alguém que está ao nosso lado.

Quando isso acontece, a religião pode tornar-se apenas mais uma forma de ruído. Uma fé submetida à lógica da prosperidade pode transformar Deus em instrumento de enriquecimento. Uma fé submetida à lógica do domínio pode transformar o Evangelho em justificativa para poder político, controle social e intolerância. Uma fé submetida à lógica do mercado pode transformar o templo em espaço de consumo religioso e a experiência espiritual em produto.

O clericalismo também nasce dessa deformação quando a autoridade deixa de ser serviço e se transforma em controle. E não se trata apenas de ministros ordenados. Sempre que alguém acredita possuir o direito de controlar a consciência do outro em nome de Deus, a lógica do Evangelho é substituída pela lógica do poder. Jesus faz exatamente o contrário com Marta. Ele não a humilha. Chama-a pelo nome: "Marta, Marta". Existe ternura nessa repetição. Ele reconhece sua pessoa antes de tocar em sua inquietação. Sua palavra não é uma condenação do trabalho, mas um convite para recuperar o centro.

Porque há momentos em que não precisamos de mais uma tarefa, mas de discernimento. Não precisamos necessariamente fazer mais, mas compreender o que realmente merece nossa energia. Não precisamos responder a todas as mensagens, entrar em todas as discussões ou participar de todas as atividades. Algumas coisas podem esperar. Algumas disputas não merecem nossa paz. Algumas urgências são apenas barulho.

Gênesis 18 ajuda a aprofundar essa perspectiva. Abraão acolhe os visitantes e, naquele encontro aparentemente comum, recebe uma promessa. O cotidiano torna-se lugar de revelação. Deus não precisa necessariamente aparecer em acontecimentos extraordinários; pode visitar a vida através de uma pessoa que chega, de uma conversa, de uma dor, de uma responsabilidade, de uma oportunidade de acolher. Essa talvez seja uma das grandes perdas da vida contemporânea: estamos em muitos lugares ao mesmo tempo e, frequentemente, não estamos inteiramente em lugar algum. O corpo está numa casa e a atenção está no celular. Estamos numa celebração e pensando no trabalho. Estamos conversando com alguém e acompanhando outra conversa virtual. Estamos diante de Deus e nossa mente está percorrendo dezenas de preocupações.

Maria nos recorda que existe uma forma diferente de estar no mundo: permanecer. Permanecer não significa abandonar a responsabilidade. Significa recuperar a capacidade de estar inteiro diante daquilo que estamos vivendo.

Por isso, na terça-feira da 27ª semana do Tempo Comum, o Evangelho talvez nos convide a uma mudança muito concreta. Talvez seja necessário sentar à mesa sem o telefone, ouvir alguém sem preparar imediatamente uma resposta, fazer uma oração sem pressa, caminhar sem transformar cada minuto em produtividade, visitar alguém sem olhar continuamente para o relógio, participar da celebração sem tratá-la como mais um compromisso da agenda. A santidade também se constrói nesses lugares comuns onde aprendemos a estar presentes.

  • Marta nos lembra que a vida exige cuidado e responsabilidade. 
  • Maria nos lembra que ninguém consegue cuidar verdadeiramente da vida se nunca para para escutá-la. 
  • O Bom Samaritano nos mostra que aquilo que escutamos precisa transformar-se em misericórdia leitura de ontem.
  •  Abraão nos recorda que uma visita inesperada pode trazer uma palavra de Deus. 
  • E Jesus nos ensina que, no meio das muitas coisas que disputam nossa atenção, precisamos discernir aquilo que não pode ser perdido.

A "melhor parte" não é abandonar a vida, mas recebê-la com outra qualidade de presença. É descobrir que o essencial nem sempre é aquilo que grita mais alto. Às vezes, o essencial está justamente naquela pessoa que espera nossa escuta, naquela relação que pede nossa presença, naquela dor que evitamos, naquele silêncio que sempre adiamos e naquela Palavra que continua tentando alcançar nosso coração.

A pergunta para hoje não seja simplesmente: "O que ainda preciso fazer?" Talvez seja: "Quem ou o que está diante de mim e eu ainda não consegui verdadeiramente escutar?" Porque é possível fazer muitas coisas e perder o essencial. Mas também é possível parar, escutar e descobrir que, naquele instante aparentemente comum, Deus já estava ali. E talvez seja essa a grande conversão proposta por Jesus a Marta e a nós: não abandonar o serviço, mas libertá-lo da ansiedade; não fugir da realidade, mas aprender a habitá-la com presença; não fazer menos por indiferença, mas fazer aquilo que realmente importa, com um coração que primeiro aprendeu a escutar.

No meio da casa, das tarefas, do trabalho, das relações, das preocupações e das pequenas coisas que compõem nossos dias, Jesus continua sendo hóspede. A questão é saber se estamos tão ocupados preparando a casa para recebê-lo que já não percebemos que ele está sentado diante de nós, esperando apenas que paremos um pouco para escutá-lo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 5 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,6-11

O Evangelho de Lucas 6,6-11 é proclamado na liturgia ferial da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 23ª semana do Tempo Comum, (sendo a continuação  da liturgia do 22⁰ Sabado do tempo comum,)  dentro da leitura contínua do Evangelho segundo Lucas. A passagem apresenta Jesus entrando na sinagoga em dia de sábado e encontrando ali um homem cuja mão direita era atrofiada e  em Lucas 14,1-6, encontramos novamente Jesus diante de uma pessoa necessitada de cura em dia de sábado. Desta vez, trata-se de um homem hidrópico, e a cena acontece não na sinagoga, mas na casa de um dos chefes dos fariseus. Também nesse episódio, Jesus é observado pelos religiosos e coloca diante deles a questão sobre a legitimidade de curar no sábado: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” (Lc 14,3). A liturgia ferial proclama essa segunda narrativa na sexta-feira da 30ª semana do Tempo Comum. Temos, portanto, duas narrativas lucanas muito próximas, com a mesma controvérsia central sobre a cura no sábado, mas com personagens, ambientes e desenvolvimentos diferentes. 

  1. Em Lucas 6, Jesus está na sinagoga
  2. Em Lucas 14, está à mesa, na casa de um chefe dos fariseus.
  3.  Em Lucas 6, o homem possui a mão direita atrofiada
  4.  Em Lucas 14, há diante de Jesus um homem com hidropisia. ..
  5. No primeiro relato, Jesus pergunta se é permitido no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixá-la perecer
  6.  no segundo, pergunta diretamente se é permitido curar no sábado.
  7. Ao redor dele estão escribas e fariseus, que observam Jesus atentamente, procurando uma ocasião para acusá-lo.
 A cena, portanto, não é apenas o relato de uma cura: Lucas apresenta um confronto entre Jesus e uma determinada compreensão da Lei, colocando diante da comunidade uma questão fundamental sobre a relação entre Lei, religião, misericórdia e vida humana. A repetição do tema dentro do próprio Evangelho de Lucas é teologicamente significativa. Lucas parece querer mostrar que o conflito não se reduz a um episódio isolado: Jesus confronta repetidamente uma interpretação da Lei quando ela se torna incapaz de responder misericordiosamente diante do sofrimento humano. O tema do sábado retorna porque a questão fundamental continua sendo a mesma: o que a religião faz quando encontra uma pessoa necessitada? O episódio possui paralelos nos outros dois Evangelhos sinóticos: Mateus 12,9-13 e Marcos 3,1-6 proclamado  na Quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e e também integra uma proclamação dominical particularmente significativa: no 9º Domingo do Tempo Comum, Ano B, o Evangelho é Marcos 2,23–3,6, reunindo o episódio dos discípulos que arrancam espigas no sábado e, em seguida, a cura do homem da mão atrofiada. 

A passagem não é apenas uma memória de algo que aconteceu no passado. Ela se torna uma palavra profética para a Igreja de hoje porque continua colocando diante de nós uma questão fundamental: o que fazemos quando a norma entra em conflito com a vida concreta de uma pessoa? Em Lucas 6,6-11, Jesus está na sinagoga e encontra um homem cuja mão direita era atrofiada. Lucas chama atenção para essa condição concreta porque não estamos diante de uma questão abstrata, mas de uma pessoa marcada por uma limitação e por uma necessidade real. Ao mesmo tempo, alguns observadores estão atentos para verificar se Jesus irá curá-lo naquele dia de sábado. O sofrimento daquele homem corre o risco de desaparecer diante da preocupação com a interpretação da norma. É nesse cenário que Jesus o chama para o centro. Aquele que poderia permanecer invisível é colocado diante de todos, e Jesus não permite que seja reduzido à sua condição física nem transformado em objeto de uma disputa religiosa. Antes de qualquer discussão sobre normas, existe uma pessoa. Então Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9). A pergunta desloca o eixo da discussão. Já não basta perguntar mecanicamente o que é permitido ou proibido; é preciso discernir, diante da realidade concreta, aquilo que produz vida. Jesus não despreza a Lei, mas confronta uma interpretação que perdeu de vista sua finalidade. A norma religiosa não pode ser aplicada de maneira que a vida humana se torne secundária. Essa perspectiva encontra uma formulação particularmente forte no Evangelho de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Embora nossa reflexão esteja centrada em Lucas, essa palavra do Evangelho paralelo ilumina o conflito: a norma não pode tornar-se um fim em si mesma a ponto de sacrificar a pessoa que deveria servir. Marcos acrescenta que Jesus olha para aqueles que o observavam com ira e tristeza diante da dureza de seus corações (Mc 3,5), enquanto Lucas conduz a narrativa até a ordem de Jesus: “Estende a mão.” (Lc 6,10). O homem estende a mão, e ela é restaurada. A cura significa concretamente recuperação de uma capacidade corporal e abertura para novas possibilidades de vida. O Evangelho não afirma que Lucas tenha construído deliberadamente uma alegoria sobre exclusão social, mas sua narrativa permite perceber a dimensão humana da restauração: Jesus encontra uma necessidade concreta e age em favor da vida. É justamente nessa ação que a tradição cristã encontrou também uma dimensão espiritual. Santo Ambrósio, ao comentar o Evangelho de Lucas, relaciona a mão estendida à prática da caridade e à disposição para ajudar o necessitado. Essa leitura não substitui o sentido histórico do texto, mas amplia sua recepção: a relação com Deus precisa produzir uma disposição concreta para o bem do outro. O gesto de Jesus, portanto, não termina naquela sinagoga. Ele continua interpelando a comunidade cristã sempre que regras, costumes e estruturas passam a ocupar o lugar que deveria pertencer à vida humana. Quantas vezes conseguimos enxergar a norma, mas não conseguimos enxergar a pessoa? A questão é especialmente importante porque o problema não está simplesmente na existência de normas. Toda comunidade necessita de princípios, referências e critérios. O problema começa quando a norma deixa de estar a serviço da vida e passa a exigir que a vida seja sacrificada para preservá-la. Uma instituição religiosa pode conservar seus ritos, seus cargos, seus discursos e suas estruturas e, ainda assim, perder o essencial do Evangelho. Pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecer aquilo que Deus está mostrando através da realidade humana. Por isso, a Igreja não existe para proteger sua própria imagem diante daqueles que sofrem, mas para testemunhar o Cristo que se aproxima dos seres humanos, restaura sua dignidade e anuncia a vida. Suas estruturas, seus ministérios e suas normas encontram sua legitimidade quando estão a serviço dessa missão. A dimensão antropológica e pastoral do relato aparece justamente aí: não é necessário transformar artificialmente a mão atrofiada em símbolo de todas as formas de exclusão, porque o texto já apresenta uma realidade humana suficientemente forte — um homem diante de Jesus, uma comunidade religiosa ao seu redor e uma necessidade que exige discernimento. O desafio para a Igreja é não perder a pessoa concreta por trás das categorias religiosas. Essa realidade continua presente em comunidades onde pessoas carregam feridas produzidas não apenas pelas circunstâncias da vida, mas também pela indiferença, pelo julgamento, pelo abuso de autoridade ou pela preocupação excessiva com a reputação institucional. Quando isso acontece, a religião pode preservar sua aparência e, ao mesmo tempo, perder sua finalidade. A crítica não é estranha à tradição bíblica. Os profetas de Israel já denunciavam a separação entre culto e justiça: Isaías questionava uma religião que multiplicava práticas enquanto negligenciava o direito e a justiça (Is 1,10-17); Amós denunciava celebrações religiosas quando a justiça não corria como um rio (Am 5,21-24); Miquéias resumia a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele (Mq 6,8). Jesus permanece nessa tradição quando afirma: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7). Assim, Lucas 6 não apresenta apenas uma discussão sobre o sábado, mas revela o conflito permanente entre uma religião que pode se fechar sobre seus próprios mecanismos e uma fé que permanece aberta à vida. Uma comunidade pode possuir doutrina, ritos, autoridades e estruturas legítimas e, ainda assim, precisar de conversão quando essas estruturas deixam de servir à missão recebida de Cristo. O profeta não é simplesmente aquele que denuncia os pecados dos outros; é aquele que permite que a Palavra de Deus julgue também a própria comunidade. Por isso, Lucas 6 precisa alcançar nossas práticas, prioridades e estruturas eclesiais, sobretudo quando elas deixam de servir à vida. Estamos usando o Evangelho para libertar pessoas ou a religião para preservar estruturas? A resposta aparece menos nos discursos do que na maneira como uma comunidade acolhe, escuta, corrige, acompanha e restaura aqueles que sofrem. Onde a dignidade é respeitada, a justiça praticada e a misericórdia transformada em ação, o Evangelho deixa de ser apenas proclamado e passa a ser vivido. É nesse horizonte que a palavra de Jesus — “Estende a mão” (Lc 6,10) — adquire uma força que atravessa os séculos. Ela foi dirigida inicialmente a um homem concreto, dentro de uma sinagoga concreta, mas continua ecoando como chamado para uma Igreja que não pode permanecer indiferente diante da dor humana. Estender a mão significa aproximar-se, acolher, restaurar e colocar a vida novamente no centro da missão. A verdadeira fidelidade ao Evangelho não transforma a pessoa em serva da estrutura; coloca a estrutura a serviço da vida, da justiça e da misericórdia. É assim que a Igreja deixa de ser apenas guardiã de normas e se torna testemunha do Cristo que restaura. Não podemos honrar verdadeiramente a Deus enquanto ignoramos aquele que está sofrendo diante de nós.

A sinagoga de Lucas 6 continua sendo uma imagem possível de nossas comunidades. O homem da mão atrofiada continua representando todos aqueles que chegam carregando suas limitações, feridas, fracassos, dores e necessidades. Ao redor dele também continuam existindo os observadores, aqueles que conhecem a norma, sabem apontar o que é permitido ou proibido, mas nem sempre sabem estender a mão para quem sofre. Por isso, antes de perguntarmos simplesmente “o que é permitido?”, o Evangelho nos obriga a fazer perguntas mais profundas: onde está a vida, quem está sofrendo, quem precisa ser restaurado e se a nossa religião está ajudando essa pessoa a recuperar sua dignidade e a estender novamente a mão ou se, ao contrário, está contribuindo para mantê-la paralisada à margem da comunidade. Lucas 6,6-11, portanto, não é apenas uma narrativa sobre uma mão atrofiada. É uma palavra sobre o Deus que deseja restaurar a vida, sobre uma religião chamada à misericórdia e sobre uma comunidade que precisa decidir de que lado ficará quando a interpretação da norma entra em conflito com a necessidade concreta de uma pessoa. Jesus não ignora a Lei, mas confronta uma interpretação religiosa que, em nome da própria norma, pode perder de vista a finalidade maior da vontade de Deus: a vida, a dignidade e o bem do ser humano. O centro da cena não deveria ser a norma isolada do sofrimento, mas a pessoa concreta que está diante de Jesus. Por isso, quando Jesus diz “Estende a mão”, sua palavra atravessa o tempo e chega também às nossas comunidades. Ele não está apenas ordenando um gesto físico; está devolvendo àquele homem a possibilidade de participar novamente, de recuperar sua dignidade e de ocupar seu lugar no meio da comunidade. A mão que estava atrofiada torna-se sinal de uma vida que pode ser reconstruída. Talvez, então, a pergunta mais profunda do Evangelho não seja apenas se a mão daquele homem foi curada naquele sábado, mas se nós ainda somos capazes de estender nossas próprias mãos diante de Deus, diante do próximo e diante daqueles que a sociedade e, algumas vezes, a própria religião deixaram à margem. Afinal, uma comunidade verdadeiramente fiel ao Evangelho não pode ser aquela que simplesmente sabe dizer o que é permitido, mas aquela que, seguindo Jesus, reconhece quem está sofrendo, aproxima-se de quem foi excluído e trabalha para que mãos paralisadas pela dor, pelo abandono, pelo preconceito, pela pobreza, pelo fracasso ou pela própria experiência religiosa possam novamente se abrir para a vida. Lucas conduz o leitor até a cena da cura do homem da mão atrofiada por meio de uma sequência cuidadosamente construída. Jesus já havia chamado os primeiros discípulos, curado enfermos, perdoado pecados, acolhido Levi e provocado controvérsias relacionadas ao jejum e ao sábado. Em Lucas 5,31-32, declara que veio chamar pecadores e, em 5,36-39, apresenta as imagens do remendo novo e do vinho novo, preparando o leitor para compreender que a presença do Reino de Deus não pode ser aprisionada por interpretações incapazes de acolher sua novidade. Em Lucas 6,1-5, os discípulos colhem espigas em dia de sábado, e Jesus recorda o episódio de Davi em 1 Samuel 21,1-6, concluindo que o Filho do Homem é senhor do sábado. Assim, a narrativa prepara uma questão muito mais profunda do que uma simples discussão sobre calendário religioso: trata-se de discernir como a vontade de Deus deve ser interpretada quando uma norma religiosa entra em tensão com uma necessidade humana concreta.  A Torá, entretanto, não deve ser apresentada como inimiga do ser humano. Fazer isso seria historicamente injusto e teologicamente equivocado. Na tradição bíblica, a Lei é expressão da aliança e orientação para um povo que havia experimentado a libertação. O próprio sábado possui uma dimensão profundamente social. Êxodo 20,8-11 estabelece o descanso, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o mandamento à memória da escravidão no Egito: aquele que conheceu a opressão não deveria reproduzi-la sobre os outros. O descanso alcançava trabalhadores, servos, estrangeiros e animais. O mandamento continha, portanto, uma crítica à lógica de uma existência permanentemente submetida à produção. Quando Jesus intervém no sábado, não está simplesmente destruindo essa tradição, mas recuperando seu propósito diante de uma interpretação que corre o risco de colocar o mandamento acima da pessoa. É nesse contexto que a presença de um homem com a mão direita atrofiada adquire força narrativa e teológica. A mão não representa apenas uma parte do corpo; ela está relacionada ao trabalho, à capacidade de produzir, sustentar-se, participar da vida comunitária e exercer autonomia. Sua limitação poderia significar dependência econômica e redução das possibilidades de inserção social. Lucas, porém, não reduz aquele homem à sua deficiência. Ele está na sinagoga, participando do espaço comunitário de oração e escuta, e sua presença recorda que a fragilidade não elimina o direito de pertencer. O corpo marcado pela limitação torna-se precisamente o lugar onde a verdadeira finalidade da Lei será revelada...

Os escribas e fariseus observam Jesus atentamente, procurando saber se ele curaria no sábado para encontrar motivo de acusação. O problema aparece na inversão do olhar: diante de uma pessoa que sofre, a preocupação central passa a ser a possibilidade de incriminar alguém. O sofrimento humano deixa de ocupar o centro e transforma-se em instrumento de disputa religiosa. Esse mecanismo não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que uma pessoa concreta desaparece atrás de uma regra, de uma estatística, de um discurso, de uma estrutura ou de uma disputa institucional. O outro deixa de ser alguém diante de nós e passa a ser apenas um caso que precisa ser classificado. Jesus rompe essa lógica ao chamar o homem para o centro. O gesto é mais eloquente do que qualquer discurso: aquele que poderia permanecer invisível torna-se o ponto de referência da assembleia. A pessoa antes observada a partir de sua deficiência é reconhecida como sujeito. Esse movimento está em continuidade com o programa apresentado em Lucas 4,18-19, quando Jesus anuncia boa notícia aos pobres, liberdade aos cativos e libertação aos oprimidos. O Reino modifica a direção do olhar: aquilo que normalmente é empurrado para as margens passa a interpelar o centro. É então que Jesus formula a pergunta decisiva: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou destruí-la?” A questão desloca o debate do campo meramente formal para o discernimento moral. Não basta perguntar se uma determinada ação está tecnicamente autorizada por uma regra; é necessário discernir se aquilo que estamos fazendo corresponde ao caráter de Deus. A misericórdia não aparece como simples concessão sentimental, mas como parte da própria revelação bíblica. Oséias 6,6 coloca a misericórdia acima dos sacrifícios; Miquéias 6,8 resume o caminho desejado por Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele. Jesus, portanto, não inventa uma religião paralela ao judaísmo. Ele participa da própria tradição profética de Israel, que denunciava continuamente uma religiosidade capaz de preservar ritos enquanto negligenciava a justiça. Isaías 1,11-17 rejeita uma abundância de cerimônias acompanhada de injustiça; Amós 5,21-24 denuncia festas, cânticos e celebrações quando a sociedade permanece marcada pela opressão; Isaías 58,6-7 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão. A crítica de Jesus nasce desse mesmo horizonte: o problema não está na existência da religião, do culto ou da Lei, mas na sua deformação quando a observância perde sua finalidade e se transforma em instrumento de acusação, exclusão ou indiferença.

Jesus manda o homem estender a mão, e ele o faz; sua mão é restaurada. A cura acontece sem espetáculo e sem transformar o homem em objeto de exibição. O sinal está na restituição de uma capacidade concreta. A pessoa recupera uma possibilidade de ação que antes estava comprometida. Essa dimensão é fundamental para compreender a salvação nos Evangelhos: Deus não trabalha apenas no plano das ideias religiosas, mas toca corpos, relações, vínculos, consciências e condições concretas de existência. Por isso, Tiago 2,14-17 questiona uma fé que oferece palavras piedosas a quem não possui alimento ou roupa, enquanto 1 João 3,17-18 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que vê o irmão necessitado e fecha o coração. A fé bíblica não se satisfaz com declarações abstratas de compaixão; ela precisa produzir gestos capazes de devolver dignidade, participação e possibilidade de vida.vOs relatos paralelos de Mateus 12,9-14 e Marcos 3,1-6 aprofundam diferentes aspectos da mesma tradição. Mateus acrescenta o exemplo da ovelha que cai numa cova, reforçando que, se alguém socorre um animal em situação de perigo, quanto mais uma pessoa deve ser socorrida. Marcos apresenta Jesus olhando ao redor com indignação e tristeza diante da dureza dos corações. Lucas, por sua vez, concentra a cena na pergunta sobre fazer o bem, salvar ou destruir. As perspectivas literárias são diferentes, mas convergem num mesmo ponto: a interpretação religiosa não pode ser utilizada para justificar a omissão diante de quem necessita de auxílio. E é importante preservar o contexto histórico para evitar qualquer leitura antissemita. Jesus está dentro do universo judaico do primeiro século e participa de um debate interno de Israel sobre a interpretação da Lei. Ele não está combatendo “os judeus” como povo nem tratando a Torá como uma invenção perversa. O próprio Novo Testamento apresenta personagens e correntes judaicas de maneira complexa: Paulo se identifica como fariseu em Filipenses 3,5; Nicodemos dialoga com Jesus em João 3; Gamaliel aconselha prudência em Atos 5,34-39. A crítica de Jesus dirige-se a uma determinada postura diante da Lei, especialmente quando a observância deixa de servir à vida e passa a funcionar como mecanismo de condenação. Esse discernimento ultrapassa o ambiente da sinagoga porque toda sociedade produz normas, instituições e autoridades. Leis podem proteger direitos, organizar responsabilidades e impedir abusos, mas também podem ser instrumentalizadas para conservar privilégios. Instituições são necessárias, porém podem desenvolver mecanismos destinados mais à própria preservação do que à finalidade para a qual foram criadas. O mesmo pode acontecer nas comunidades religiosas: a tradição pode conservar a memória da fé ou transformar-se em argumento contra toda renovação; a disciplina pode favorecer maturidade ou produzir medo; a autoridade pode servir ou dominar. Marcos 2,27 oferece uma síntese decisiva: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.” A afirmação estabelece uma ordem de prioridades. Leis, costumes e instituições existem para servir à vida humana e à convivência, não para exigir que pessoas sejam sacrificadas à sua manutenção. Esse princípio alcança a economia, a política, a administração pública, o direito e também as comunidades de fé. Quando uma organização se torna incapaz de rever seus procedimentos diante do sofrimento humano, corre o risco de proteger sua própria lógica em vez de cumprir sua missão. É justamente nesse ponto que o Evangelho interpela a Igreja. A comunidade cristã necessita de autoridade, ministérios, normas e organização, mas tudo isso deve permanecer subordinado ao Evangelho. Jesus estabelece em Marcos 10,42-45 uma diferença radical entre o poder que domina e a autoridade que serve, e em João 13,12-15 confirma essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. A autoridade cristã não se demonstra pela distância que mantém das pessoas, mas pela capacidade de aproximar-se delas e colocar-se a serviço. O clericalismo aparece quando essa ordem se inverte, quando uma função religiosa passa a conferir privilégios pessoais, quando a instituição se torna mais preocupada com sua imagem do que com as pessoas feridas e quando a voz institucional se torna mais importante do que a dignidade daqueles que deveriam ser acolhidos. Uma Igreja fiel ao Evangelho precisa, por isso, criar espaços reais de escuta, responsabilidade, correção e prestação de contas, sobretudo diante daqueles que possuem menos poder para serem ouvidos.

A mão atrofiada pode também ser compreendida como imagem das muitas formas pelas quais a existência humana é limitada por condições que as pessoas nem sempre escolheram: pobreza, desemprego, precariedade habitacional, deficiência, violência, abandono, falta de oportunidades e exclusão social. Isso não significa reduzir toda dificuldade humana a explicações simplistas, mas reconhecer que a fé não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. Isaías 10,1-2 denuncia aqueles que utilizam o poder para retirar direitos dos vulneráveis; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor de quem não consegue defender-se; Amós 5,24 exige que a justiça atravesse a vida pública. A fé bíblica, portanto, não pode ser confinada à esfera privada. Ela pergunta como decisões econômicas, políticas, jurídicas e comunitárias afetam pessoas concretas. Fazer o bem inclui reconhecer que determinadas formas de organização social podem produzir sofrimento e que a responsabilidade cristã exige transformar aquilo que desumaniza.  A mão humana pode construir, alimentar, cuidar e abraçar, mas também pode ferir. O Evangelho não transforma a paz em ingenuidade nem a misericórdia em abandono das vítimas. Mateus 5,9 chama felizes os que promovem a paz, enquanto 5,44 radicaliza essa proposta ao falar do amor aos inimigos. Romanos 12,19-21 impede o discípulo de reproduzir o mal como princípio de resposta. Isso não significa eliminar responsabilidade, proteção ou reparação diante de uma injustiça; significa impedir que a vingança seja elevada à condição de virtude. A justiça cristã precisa proteger quem sofreu, responsabilizar quem praticou o mal e buscar reparação sem transformar a violência em fundamento permanente das relações. Eles já se aproximam da cena com uma conclusão praticamente formada e procuram no comportamento dele aquilo que confirme sua suspeita. Esse mecanismo de confirmação permanece presente na vida contemporânea. Muitas vezes julgamos pessoas antes de conhecer suas histórias, interpretamos comportamentos sem compreender suas circunstâncias e transformamos diferenças em ameaças. O Evangelho não pede ausência de discernimento; Jesus denuncia o pecado, confronta a hipocrisia e estabelece limites. O que ele rejeita é o julgamento arrogante e superficial. Mateus 7,1-5 chama a atenção para a necessidade de reconhecer primeiro nossas próprias contradições, enquanto João 7,24 pede que não se julgue pelas aparências, mas segundo a justiça. Discernir é diferente de condenar; corrigir é diferente de humilhar; estabelecer limites é diferente de excluir. A maturidade cristã consiste em sustentar convicções sem perder a humanidade. Esse princípio também alcança os conflitos políticos e culturais do nosso tempo. O farisaísmo não pertence exclusivamente a uma religião, partido ou ideologia. Ele surge sempre que alguém transforma sua própria posição em medida absoluta da humanidade dos outros. Pode aparecer entre conservadores ou progressistas, religiosos ou secularizados, militantes ou críticos da religião. Manifesta-se quando condenamos determinada violência e justificamos outra porque foi praticada por aqueles que consideramos aliados; quando defendemos valores abstratos sem considerar suas consequências concretas; quando transformamos adversários em inimigos absolutos ou usamos princípios morais seletivamente. O Evangelho exige coerência: não podemos pedir misericórdia para nós enquanto desejamos destruição para aqueles que pensam diferente. A misericórdia evangélica não elimina a verdade nem impede a crítica; ela impede que a crítica seja desumanizada.

Jesus não propõe uma sociedade sem critérios nem ensina que tudo é relativo. Ele exige que nossos critérios sejam submetidos à verdade, à justiça, à misericórdia e ao discernimento. A religião vazia constitui uma das maiores advertências dessa passagem porque pode conservar ritos, linguagem sagrada e aparência de fidelidade enquanto perde a capacidade de perceber o sofrimento que acontece diante dos próprios olhos. Em Lucas 11,39-42, Jesus denuncia aqueles que se preocupam com aparências enquanto negligenciam a justiça e o amor de Deus; em Mateus 23,23 coloca entre as coisas mais importantes da Lei a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Sua crítica não é contra a espiritualidade, mas contra uma espiritualidade desconectada da realidade. Uma religião que não consegue reconhecer a pessoa ferida que está diante dela pode manter suas estruturas, seus discursos e seus ritos, mas perdeu o centro ético do Evangelho. Por isso, a narrativa exige conversão não apenas individual, mas também comunitária e institucional. Antes de identificar os fariseus nos outros, precisamos reconhecer nossas próprias resistências. Também podemos utilizar normas para evitar responsabilidades, certezas para fugir de perguntas, tradições para proteger privilégios ou argumentos religiosos para justificar indiferença. Podemos transformar a fé em abrigo contra a realidade quando ela deveria abrir nossos olhos para aquilo que acontece nela. O homem da mão atrofiada nos obriga a olhar novamente porque existe alguém diante de nós, existe uma necessidade concreta e existe uma possibilidade de agir. O desfecho da narrativa mostra que essa liberdade tem um preço. Depois da cura, os adversários ficam furiosos e começam a discutir o que poderiam fazer contra Jesus; Marcos 3,6 informa que os fariseus saíram e passaram a tramar com os herodianos contra ele. Aquele que restaurou uma pessoa tornou-se ameaça para aqueles comprometidos com determinada ordem. A reação antecipa o caminho da cruz: Jesus não será perseguido porque deixou de fazer o bem, mas porque sua maneira de revelar Deus confronta certezas, interesses e mecanismos de poder. A cruz revelará de forma extrema o conflito entre a lógica do Reino e aqueles que preferem preservar seus próprios interesses. A Igreja precisa guardar essa memória com temor e humildade, porque nenhuma comunidade está imune à tentação de proteger sua imagem, esconder seus fracassos ou silenciar aqueles que incomodam. Uma comunidade verdadeiramente evangélica precisa ser capaz de ouvir críticas, reconhecer erros, acolher pessoas feridas e permitir que a verdade provoque transformação. Sua segurança não pode estar na suposta perfeição de suas estruturas, mas em Cristo, que morreu e ressuscitou. A mão restaurada permanece, assim, como uma imagem poderosa da dinâmica do Evangelho: Jesus não apenas percebe o sofrimento; ele age. Não apenas denuncia uma interpretação inadequada; oferece outro caminho. Não apenas fala sobre dignidade; coloca uma pessoa vulnerável no centro e devolve-lhe a capacidade de agir. Essa é a dinâmica que o discípulo é chamado a prolongar. A fé precisa tornar-se presença, cuidado, defesa dos vulneráveis, compromisso com a justiça e coragem diante de tudo aquilo que desumaniza

No fim, a pergunta de Jesus permanece diante de cada consciência e de cada comunidade: fazer o bem ou fazer o mal, salvar ou deixar perecer? A resposta não pode ser apenas verbal, porque aparece na maneira como tratamos aqueles que dependem de nós, utilizamos nossa autoridade, interpretamos nossas normas, reagimos diante do sofrimento e acolhemos aqueles que não correspondem às nossas expectativas. O homem que estende a mão diante de Jesus recorda que nenhuma pessoa deve ser sacrificada para que uma regra, uma instituição, uma tradição, uma ideologia ou uma reputação permaneça intacta. O Evangelho nos ensina, portanto, a distinguir fidelidade de rigidez, autoridade de dominação, tradição de imobilismo e discernimento de condenação. Quando uma pessoa ferida estiver diante de nós, não poderemos esconder sua humanidade atrás de procedimentos ou discursos religiosos. O verdadeiro culto não está em preservar uma aparência de fidelidade enquanto alguém continua sofrendo, mas em permitir que a vontade de Deus produza vida. Naquele sábado, Jesus mostrou que a Lei encontra sua plenitude quando serve à vida, que a autoridade encontra sua legitimidade quando serve às pessoas e que a fé encontra sua verdade quando se transforma em misericórdia concreta. A mão restaurada torna-se, assim, um sinal profético: onde o Evangelho chega, aquilo que estava atrofiado deve encontrar possibilidade de movimento, aquilo que estava excluído deve encontrar lugar e aquilo que estava submetido à indiferença deve voltar ao centro da atenção humana e cristã.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 11,25-27

O Evangelho de Mateus 11,25-27 ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja, sendo proclamado em diversos momentos do calendário da Igreja Católica e iluminando diferentes aspectos do mistério de Cristo. No ciclo semanal do Tempo Comum, esta perícope é proclamada na quarta-feira da 15ª Semana, dando continuidade ao itinerário evangelizador iniciado no dia anterior e preparando a passagem seguinte, Mateus 11,28-30, proclamada na quinta-feira da mesma semana. Essa divisão pedagógica do Lecionário permite à comunidade aprofundar, em dois dias consecutivos, o mistério da revelação do Pai aos pequeninos e, em seguida, acolher o convite de Jesus para encontrar nele descanso, alívio e renovação da vida. O mesmo texto integra ainda o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum do Ano A, na perícope de Mateus 11,25-30, tornando-se o eixo da reflexão dominical sobre a sabedoria do Reino, revelada aos humildes, e sobre o jugo suave e o fardo leve de Cristo. Também é proclamado na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no Ano A, quando a Igreja contempla o amor misericordioso do Filho, a mansidão e a humildade de seu Coração, abertas como fonte de vida para toda a humanidade. A continuação da perícope, Mateus 11,28-30, é frequentemente escolhida nas celebrações pelos fiéis defuntos, por anunciar a esperança cristã no descanso definitivo prometido por Cristo àqueles que nele confiam. Em alguns calendários próprios, especialmente da Família Franciscana, essa passagem também ilumina a memória de São Francisco de Assis, cuja vida marcada pela pobreza evangélica, pela simplicidade e pela humildade tornou-se um testemunho concreto da pequenez que Jesus proclama bem-aventurada. Passagens paralelas, particularmente Lucas 10,21-22, também são proclamadas em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas e em diversas Igrejas históricas do Ocidente, evidenciando que essa oração de Jesus constitui uma das mais profundas revelações sobre sua identidade filial, sobre a gratuidade da ação de Deus e sobre a verdadeira sabedoria que não se impõe pela força, mas se revela aos corações humildes e disponíveis à graça.

A tradição paralela conservada em Lucas 10,21-22 também é proclamada em diferentes momentos do ano litúrgico nas Igrejas Ortodoxas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras Igrejas da tradição reformada, conforme seus respectivos lecionários. A presença constante dessa passagem nas diversas tradições cristãs demonstra que ela constitui uma das mais profundas revelações acerca da identidade do Filho, da ação gratuita da graça e do caminho da verdadeira sabedoria, acessível não aos autossuficientes, mas aos humildes que acolhem o Reino com coração disponível..A oração de Jesus registrada por Mateus não surge como um momento isolado de espiritualidade, mas como o ponto culminante de uma sequência de acontecimentos que revelam o drama da missão messiânica. O capítulo inicia com João Batista preso por Herodes Antipas. Da fortaleza de Maqueronte, na região da Pereia, João envia discípulos para perguntar se Jesus é realmente aquele que deveria vir ou se ainda era preciso esperar outro (Mt 11,2-3). A pergunta não nasce necessariamente da falta de fé, mas do contraste entre a expectativa messiânica alimentada por muitos judeus e o modo surpreendente como Jesus realizava sua missão. Esperava-se um Messias juiz, capaz de estabelecer imediatamente o juízo divino sobre os ímpios, enquanto Jesus aproximava-se dos pobres, dos pecadores, dos enfermos e dos marginalizados, revelando um Reino que crescia silenciosamente.

A resposta de Jesus não apresenta argumentos abstratos, mas remete às obras realizadas. Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova (Mt 11,4-5). Cada uma dessas ações remete diretamente às promessas proféticas de Isaías (Is 29,18; 35,5-6; 42,6-7; 61,1-2), indicando que o Reino esperado já está presente. O verdadeiro sinal messiânico não é a demonstração de força militar nem a conquista do poder político, mas a restauração da dignidade humana. Depois de confirmar a missão de João Batista, Jesus lamenta a incapacidade de sua geração em reconhecer a ação de Deus. Ela rejeitou João porque jejuava e vivia austeramente, chamando-o de possesso, e rejeitou o Filho do Homem porque comia com pecadores, acusando-o de glutão e beberrão (Mt 11,16-19). A crítica revela um coração fechado, incapaz de acolher qualquer manifestação divina que não correspondesse às próprias expectativas. Em seguida, Jesus dirige palavras severas contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11,20-24), cidades da Galileia onde realizara numerosos sinais. A dureza dessas advertências não nasce da ira, mas da dor diante da recusa persistente da conversão.

É precisamente nesse contexto que Jesus eleva sua oração ao Pai. Humanamente, tudo indicaria fracasso. As autoridades religiosas desconfiam dele, parte do povo permanece indiferente, João está preso, cidades inteiras recusam converter-se. Contudo, Jesus contempla a realidade a partir do olhar do Pai. Em vez de permitir que a rejeição determine sua missão, transforma-a em louvor. Essa atitude revela um dos aspectos mais profundos da espiritualidade bíblica. O fracasso aparente nunca possui a última palavra quando a história é contemplada à luz da ação divina.

Mateus utiliza o verbo grego ἐξομολογοῦμαί (exomologoumai), geralmente traduzido como "eu te louvo" ou "eu te dou graças". O termo possui um sentido muito mais rico do que um simples agradecimento. Indica reconhecimento público da ação de Deus, profissão de fé e entrega confiante. Jesus não agradece porque tudo ocorreu conforme seus desejos humanos, mas porque reconhece que o projeto do Pai continua realizando-se mesmo onde os olhos humanos enxergam apenas resistência..Ao chamar Deus de "Pai, Senhor do céu e da terra", Jesus une dois aspectos fundamentais da fé bíblica. Deus é simultaneamente Criador universal e Pai próximo. O Senhor que governa o cosmos inteiro é o mesmo que estabelece uma relação íntima com seus filhos. Essa expressão recorda passagens veterotestamentárias como Gênesis 14,19, Isaías 66,1-2, Neemias 9,6 e diversos salmos que proclamam Deus como Senhor da criação. Entretanto, Jesus acrescenta uma dimensão inédita ao dirigir-se a Deus com a intimidade filial que marcará toda a revelação cristã.

O centro da oração encontra-se na afirmação de que o Pai escondeu essas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Essa declaração foi frequentemente mal compreendida como se representasse uma oposição entre fé e inteligência. Nada estaria mais distante da tradição bíblica. A própria Escritura celebra a verdadeira sabedoria como dom divino. Os livros sapienciais exaltam a busca da sabedoria (Pr 8; Eclo 1; Sb 7), enquanto Paulo convida os cristãos a renovarem sua inteligência (Rm 12,2). O Evangelho não condena o conhecimento, mas denuncia o orgulho que transforma o saber em instrumento de autossuficiência. Os termos gregos empregados por Mateus aprofundam esse significado. Os "sábios" são chamados σοφοί (sophoi), enquanto os "entendidos" recebem o nome de συνετοί (synetoi). Ambos designam pessoas reconhecidas por sua formação intelectual, capacidade de discernimento e posição de prestígio. Em contraste aparece o termo νήπιοι (nēpioi), literalmente "crianças pequenas". Na cultura mediterrânea antiga, as crianças possuíam pouco reconhecimento social, dependiam inteiramente dos adultos e não ocupavam posição de poder. Jesus utiliza essa imagem para indicar aqueles que permanecem abertos ao dom de Deus. Não se trata da exaltação da ignorância nem da infantilização da fé, mas da humildade que reconhece sua própria necessidade.

Outro verbo merece atenção especial. Mateus afirma que Deus "revelou" essas coisas aos pequeninos. O verbo utilizado é ἀπεκάλυψας (apekalypsas), origem da palavra "apocalipse", que significa retirar o véu, tornar visível aquilo que permanecia oculto. A revelação não nasce do esforço intelectual humano, mas da iniciativa gratuita de Deus. O conhecimento do Reino é dom antes de ser conquista. A inteligência continua necessária, mas encontra sua plenitude somente quando iluminada pela graça..Essa lógica percorre toda a história da salvação. Deus escolhe Abraão quando este já não possuía perspectivas humanas de descendência (Gn 12,1-4). Chama Moisés, homem inseguro e lento de fala, para enfrentar o maior império de seu tempo (Ex 3,1-12). Escolhe Davi, o menor dos filhos de Jessé (1Sm 16,1-13). Levanta profetas frequentemente perseguidos por denunciarem as injustiças do próprio povo (Am 7,10-17; Jr 20,7-18). Maria, jovem de Nazaré pertencente a uma pequena aldeia da Galileia, proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,46-55). Paulo sintetiza essa dinâmica ao afirmar que Deus escolheu aquilo que o mundo considera fraco para confundir os fortes (1Cor 1,26-31).

O contexto histórico reforça ainda mais essa mensagem. A Galileia do século I encontrava-se sob domínio romano. A economia era marcada por forte concentração de terras, pesados impostos e crescente endividamento das famílias camponesas. Muitos pequenos agricultores perdiam suas propriedades e tornavam-se trabalhadores diaristas ou migravam para centros urbanos. Ao mesmo tempo, a aristocracia sacerdotal de Jerusalém concentrava prestígio religioso, influência política e riqueza econômica. A religião frequentemente misturava-se aos interesses das elites locais e do poder imperial..Entretanto, reduzir esse cenário a uma simples oposição entre ricos e pobres seria insuficiente. O judaísmo do Segundo Templo era extremamente diversificado. Fariseus, saduceus, essênios, zelotas e outros grupos buscavam responder, cada qual à sua maneira, aos desafios da ocupação romana e da fidelidade à Lei. Jesus dialoga com esse universo complexo. Em muitos momentos aproxima-se dos fariseus quando afirma a ressurreição dos mortos ou reconhece a importância da Lei. Em outros, critica severamente práticas religiosas que absolutizam normas enquanto esquecem a misericórdia, a justiça e a fidelidade (Mt 23,23). Sua crítica nunca se dirige ao conhecimento em si, mas à transformação da religião em instrumento de prestígio, exclusão e poder.

A realidade cultural mostra que toda sociedade constrói mecanismos de distinção entre quem pertence plenamente ao grupo e quem permanece à margem. Esses mecanismos podem basear-se na origem, na riqueza, na pureza ritual, no gênero, na formação intelectual ou em qualquer outro elemento capaz de justificar desigualdades. Jesus desmonta essas fronteiras ao revelar que Deus comunica seus mistérios justamente àqueles que o sistema considera insignificantes. O Reino não elimina as diferenças humanas, mas impede que elas sejam transformadas em critérios de superioridade. Também no  aspecto  psicológico contemporânea oferece elementos preciosos para compreender essa passagem. O ser humano frequentemente busca construir sua identidade sobre a necessidade de reconhecimento, desempenho e controle. Quando a autoestima depende exclusivamente do sucesso, da influência ou da aprovação social, instala-se um ciclo permanente de ansiedade. A espiritualidade proposta por Jesus rompe essa lógica. Os pequeninos do Evangelho não vivem presos à ilusão da autossuficiência. Reconhecem seus limites sem perder a dignidade. Descobrem que seu valor nasce da relação filial com Deus e não da posição ocupada na sociedade. Essa liberdade interior permite acolher a revelação sem medo de perder privilégios ou status.

É  preciso  ter consciência  que as comunidades religiosas podem tornar-se tanto espaços de libertação quanto mecanismos de reprodução das desigualdades. Quando a experiência religiosa é reduzida ao cumprimento exterior de normas, ao acúmulo de prestígio institucional ou à busca de privilégios espirituais, perde sua força transformadora. Jesus devolve a religião à sua origem mais profunda: o encontro vivo entre Deus e a humanidade, capaz de gerar fraternidade, justiça e esperança. A verdadeira experiência religiosa nunca isola o indivíduo da realidade concreta, mas o impulsiona a participar da construção de uma sociedade mais conforme ao Reino anunciado pelos profetas e realizado em Cristo.  Jesus não é uma condição sociológica idealizada nem uma virtude automática decorrente da pobreza. A Escritura jamais romantiza o sofrimento. A pobreza, a exclusão e a opressão são consequências do pecado pessoal e estrutural, e por isso devem ser combatidas. O que Jesus proclama é que Deus encontra nos corações humildes a disponibilidade que frequentemente falta aos que se deixam aprisionar pela autossuficiência. A abertura à graça não depende da posição social, mas da capacidade de reconhecer que toda vida é dom. É por isso que o Reino permanece acessível tanto ao pescador da Galileia quanto ao doutor da Lei que se converte, tanto à viúva pobre quanto ao centurião romano que descobre em Jesus uma autoridade diferente daquela exercida pelos impérios deste mundo.

O versículo seguinte conduz a reflexão ao centro da cristologia mateana. Jesus afirma: "Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11,27). Poucas passagens dos Evangelhos Sinóticos exprimem de maneira tão elevada o mistério da identidade de Cristo. O verbo "conhecer", tanto em hebraico quanto em grego, ultrapassa o campo da informação intelectual. Nas Escrituras, conhecer significa entrar em comunhão profunda, participar da vida do outro, estabelecer uma relação de intimidade e fidelidade. Assim acontece quando Gênesis afirma que Adão conheceu Eva (Gn 4,1), quando Oséias descreve a aliança entre Deus e seu povo (Os 2,22) e quando Jeremias declara que conhecer o Senhor é praticar a justiça (Jr 22,15-16). O conhecimento de que fala Jesus é participação na própria vida divina.

Essa afirmação tornou-se fundamental para a reflexão coerente  Igreja atual: 

  • Santo Irineu de Lião insistia que o Filho revela o Pai porque é sua Palavra eterna feita carne.
  • Orígenes via nesse texto a confirmação de que ninguém alcança o conhecimento de Deus apenas pelo esforço racional, mas somente por meio daquele que é a Sabedoria eterna. 
  • São João Crisóstomo observava que Cristo não diminui a inteligência humana, mas denuncia o orgulho que impede o encontro com Deus. 
  • Santo Agostinho contemplava nessa passagem uma das mais belas expressões da comunhão trinitária, afirmando que somente o Filho conhece plenamente o Pai porque participa da mesma natureza divina desde toda a eternidade. 
A tradição patrística jamais separou contemplação e vida concreta. Conhecer Deus implica deixar-se transformar por Ele. É precisamente essa transformação que o Concílio Vaticano II recoloca no centro da missão da Igreja. A Constituição Dei Verbum recorda que Deus fala aos homens como amigos e os convida à comunhão consigo, revelando-se progressivamente na história até sua plenitude em Cristo. A Lumen Gentium apresenta a Igreja como Povo de Deus peregrino, chamado à santidade e ao serviço antes mesmo de abordar sua estrutura hierárquica. A Gaudium et Spes afirma que Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem e manifesta a sua vocação mais elevada. Essas afirmações não constituem simples fórmulas doutrinais, mas critérios permanentes para discernir a autenticidade da vida eclesial.

Na América Latina, essa compreensão ganhou profunda densidade pastoral. Medellín reconheceu que a pobreza não é fatalidade querida por Deus, mas fruto de estruturas injustas que exigem conversão pessoal e transformação social. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência inseparável do seguimento de Cristo. Santo Domingo recordou a urgência da nova evangelização diante das rápidas mudanças culturais. O Documento de Aparecida apresentou toda a Igreja como comunidade de discípulos missionários, convocada a sair de si mesma para encontrar os rostos concretos dos pobres, dos jovens, das famílias, dos povos originários, dos migrantes e de todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB continuam insistindo que a comunidade cristã deve formar discípulos comprometidos simultaneamente com a espiritualidade, a fraternidade e a transformação da realidade. Essa perspectiva encontra profundo desenvolvimento no magistério do Papa Francisco. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão, a idolatria do dinheiro, a cultura do descarte e a tentação de reduzir a evangelização a uma experiência intimista desligada da justiça. A Laudato Si' mostra que a crise ambiental e a crise social possuem a mesma raiz, pois ambas nascem da lógica da exploração ilimitada. A Fratelli Tutti propõe uma fraternidade capaz de superar nacionalismos excludentes, individualismos radicais e novas formas de indiferença. A declaração Dignitas Infinita reafirma que toda pessoa humana possui dignidade inviolável porque foi criada à imagem de Deus e chamada à comunhão com Ele. Todos esses documentos dialogam profundamente com Mateus 11,25-27, pois recordam que Deus continua revelando seu Reino onde a lógica do poder enxerga apenas fragilidade.

Por isso, a oração de Jesus possui inevitáveis consequências proféticas. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a religião para legitimar interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Sempre que o nome de Deus é utilizado para justificar privilégios, alimentar discursos de ódio, incentivar perseguições, naturalizar desigualdades ou transformar comunidades de fé em instrumentos de dominação, o Evangelho é traído. A fé cristã possui implicações sociais e políticas, porque o Reino alcança toda a vida humana, mas jamais pode ser reduzida a plataforma de qualquer projeto de poder. A Igreja anuncia princípios éticos iluminados pelo Evangelho e pela dignidade da pessoa humana; não foi constituída para servir à idolatria do Estado, do mercado, de partidos ou de líderes carismáticos..Nesse horizonte, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos contemporâneos. A chamada teologia da prosperidade tende a identificar a bênção divina com sucesso econômico, riqueza material e ascensão social, obscurecendo a centralidade da cruz, da gratuidade e da solidariedade. A chamada teologia do domínio, desenvolvida em determinados contextos, propõe que os cristãos devem conquistar os centros de poder para impor uma determinada visão religiosa da sociedade. Ambas correm o risco de substituir o serviço pela conquista, a misericórdia pela lógica do vencedor e o discipulado pela busca de influência. O Evangelho apresenta caminho diverso. Jesus rejeita as tentações do poder desde o deserto (Mt 4,1-11), lava os pés de seus discípulos (Jo 13,1-15) e ensina que o maior deve tornar-se servidor de todos (Mc 10,42-45).

O clericalismo representa uma deformação da missão eclesial. Quando o ministério ordenado deixa de ser serviço e passa a ser compreendido como privilégio ou superioridade espiritual, obscurece-se a novidade inaugurada por Cristo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo infantiliza os leigos, sufoca os carismas do povo de Deus e enfraquece a missão evangelizadora. A autoridade cristã nasce da diaconia, jamais da busca de prestígio. O próprio Jesus, Senhor do céu e da terra, manifesta sua autoridade aproximando-se dos pequenos, tocando os impuros, acolhendo pecadores e entregando a própria vida pela salvação do mundo..A mesma vigilância deve alcançar toda expressão religiosa que se deixe capturar por projetos autoritários ou ideológicos, sejam eles de extrema direita, de extrema esquerda ou de qualquer outra forma de absolutização do poder. Sempre que a fé perde sua liberdade profética para tornar-se instrumento de nacionalismos excludentes, personalismos políticos, fanatismos ou polarizações que negam a dignidade do outro, deixa de refletir o rosto de Cristo. Os profetas de Israel denunciaram reis, sacerdotes e comerciantes quando estes traíram a aliança. João Batista enfrentou Herodes. Jesus confrontou práticas injustas presentes tanto no poder político quanto nas lideranças religiosas. A Igreja permanece fiel ao Evangelho quando conserva essa liberdade profética diante de qualquer forma de idolatria do poder.

Ao mesmo tempo, a denúncia profética jamais pode transformar-se em condenação estéril. Jesus inicia sua oração louvando o Pai. Sua crítica nasce do amor, não do ressentimento. A missão da Igreja consiste em anunciar a possibilidade permanente da conversão. Toda pessoa, toda comunidade e toda instituição podem reencontrar o caminho do Reino quando acolhem a verdade com humildade. A misericórdia nunca elimina a exigência ética, mas oferece sempre um horizonte de recomeço..A realidade contemporânea torna essa mensagem particularmente atual. Vivemos num tempo marcado por profundas desigualdades sociais, guerras, migrações forçadas, violência urbana, intolerância religiosa, crise ambiental, solidão crescente e perda de sentido existencial. O desenvolvimento tecnológico ampliou extraordinariamente o acesso à informação, mas não produziu automaticamente maior sabedoria. Em muitos contextos, cresce a capacidade de comunicar sem crescer a capacidade de escutar; aumenta o poder de consumir sem aumentar a solidariedade; multiplica-se o conhecimento técnico enquanto se enfraquece a sensibilidade diante do sofrimento humano. O Evangelho recorda que a verdadeira sabedoria continua sendo dom acolhido por corações humildes.

Os pequenos de hoje possuem muitos rostos. São as famílias que enfrentam a insegurança alimentar, os idosos abandonados, as crianças privadas de educação de qualidade, os trabalhadores explorados, os desempregados, os migrantes obrigados a deixar sua terra, os povos indígenas ameaçados, as vítimas do racismo, da violência contra a mulher, do tráfico humano, da dependência química, da guerra e da destruição ambiental. Também são aqueles que, mesmo cercados de conforto material, experimentam o vazio existencial, a depressão, a ansiedade e a perda do sentido da vida. A todos eles Cristo continua dirigindo o olhar misericordioso do Pai..A contemplação de Mateus 11,25-27 conduz inevitavelmente ao trecho seguinte, no qual Jesus convida: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Não se trata de um descanso alienante que afasta da realidade, mas da paz que fortalece para continuar construindo o Reino. O discípulo encontra repouso precisamente porque aprende a carregar o jugo de Cristo, que é o jugo do amor, da justiça, da misericórdia e da solidariedade. O Reino não elimina as cruzes da história, mas transforma sua lógica ao fazer da entrega o caminho da verdadeira liberdade.

Assim, a oração de Jesus permanece como uma das mais luminosas páginas do Evangelho. Nela contemplamos o coração do Filho voltado para o Pai e descobrimos que o Reino de Deus continua sendo revelado onde o orgulho humano raramente ousa procurar. A verdadeira inteligência da fé não nasce da acumulação de conceitos, da erudição religiosa ou da repetição de fórmulas, mas do encontro vivo e transformador com Cristo. Como recorda São Paulo, "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (2Cor 3,6). O apóstolo não despreza a Palavra escrita nem a Lei, mas denuncia toda interpretação que reduz a fé a um legalismo estéril, incapaz de gerar vida, misericórdia e conversão. A Escritura somente alcança sua plenitude quando é lida à luz do Espírito Santo, que conduz a Igreja à verdade plena (Jo 16,13) e conforma os discípulos ao coração de Cristo. A autêntica sabedoria floresce quando a razão se deixa iluminar pela graça, quando o conhecimento se transforma em serviço, quando a autoridade renuncia ao domínio para tornar-se cuidado, quando a religião deixa de ser instrumento de poder para tornar-se sinal da misericórdia de Deus, e quando a Igreja, fiel ao Evangelho e à sua tradição viva, caminha ao lado dos pequenos, dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos da história. Somente uma comunidade que aprende a ajoelhar-se diante de Deus e a inclinar-se diante dos irmãos pode anunciar com credibilidade a Boa Nova do Reino.

Quem aprende a olhar o mundo com os olhos do Filho descobre que Deus continua agindo discretamente na história. O Reino cresce como a semente lançada na terra (Mc 4,26-29), como o fermento escondido na massa (Mt 13,33), como o grão de mostarda que, embora pequeno, torna-se árvore capaz de acolher as aves do céu (Mt 13,31-32). Sua força não reside no espetáculo do poder, mas na fecundidade silenciosa do amor que transforma pessoas, comunidades e sociedades..Diante de um mundo marcado pela desigualdade, pela violência, pela manipulação da fé, pela idolatria do poder e pela perda do sentido da vida, o Evangelho continua convocando homens e mulheres à conversão do coração. Tornar-se pequeno diante de Deus não significa diminuir a dignidade humana, mas reconhecer que toda grandeza autêntica nasce da graça, da humildade e do serviço. É nesse caminho que o Pai continua revelando seu coração aos que se deixam conduzir pelo Filho. E é nesse encontro que a Igreja reencontra continuamente sua identidade, sua missão e sua esperança: anunciar, com palavras e obras, que o amor misericordioso de Deus permanece mais forte que toda injustiça, que a verdade é mais poderosa que a mentira, que a vida vence a morte e que Cristo continua sendo, ontem, hoje e para sempre, a Sabedoria eterna que ilumina, liberta e vivifica toda a humanidade (Hb 13,8).



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 16 de maio de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 28,16-20 - Ascensão do Senhor

A solenidade da Ascensão do Senhor ocupa um lugar central dentro da espiritualidade do Tempo Pascal porque revela o Cristo Ressuscitado que retorna ao Pai sem abandonar a humanidade e inaugura o tempo da missão da Igreja. Na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana, Mateus 28,16-20, também proclamado no domingo da Santíssima Trindade e é proclamado especialmente na Solenidade da Ascensão no Ano A e ja refletimos  esse texto  outras .vezes em nosso canal do YouTube e  aqui em 2023 e  e as outras  leituras  do dia são as seguintes: Atos 1,1-11, Efésios 1,17-23 e o Salmo 46(47), formando um conjunto teológico que apresenta Cristo como Senhor da história, exaltado acima de todos os poderes, mas permanentemente presente no meio da comunidade. As Igrejas históricas do Oriente e do Ocidente contemplam essa festa como a glorificação da humanidade assumida pelo Verbo, enquanto as tradições reformadas enfatizam o envio missionário e universal da Igreja. O 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais celebrado neste mesmo horizonte litúrgico amplia ainda mais o sentido da missão da Igreja no mundo contemporâneo. A mensagem do Papa Leão XIV, com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, encontra profunda sintonia com o mandato missionário do Ressuscitado, porque a Ascensão não é apenas uma celebração da glória de Cristo, mas também um chamado para que a comunidade cristã permaneça humana, misericordiosa, profética e comprometida com a dignidade das pessoas num mundo marcado pela desumanização, pela polarização ideológica, pela violência verbal e pela manipulação da verdade.

  • Atos 1,1-11: aprofunda de maneira decisiva a compreensão da Ascensão ao apresentar Jesus não apenas como aquele que sobe aos céus, mas como aquele que envia uma comunidade para continuar sua missão na história. Lucas escreve para Teófilo retomando “tudo o que Jesus fez e ensinou” (At 1,1), deixando claro que o Evangelho não termina com a Ressurreição, mas continua agora através da Igreja. O detalhe dos discípulos olhando para o céu enquanto Jesus é elevado possui enorme riqueza hermenêutica. Os anjos perguntam: “Por que ficais aqui parados olhando para o céu?” (At 1,11). A pergunta rompe qualquer espiritualidade alienante. O céu não pode servir como fuga da realidade histórica. A Ascensão inaugura responsabilidade missionária. Assim como em Mateus 28,19 o Ressuscitado ordena “Ide”, em Atos os discípulos recebem a missão de serem testemunhas “até os confins da terra” (At 1,8). A nuvem que encobre Jesus retoma o simbolismo do Êxodo, onde a nuvem representava a presença divina conduzindo o povo (Ex 13,21). A Ascensão, portanto, não significa ausência, mas nova forma de presença. O Cristo exaltado continua agindo através de uma comunidade chamada a testemunhar justiça, esperança e Reino num mundo marcado pela opressão imperial romana, realidade que encontra paralelos profundos nas estruturas contemporâneas de exclusão, violência social e manipulação religiosa. Também hoje muitos permanecem “olhando para o céu” enquanto ignoram os crucificados da história. A fé cristã, porém, não é fuga espiritualista nem alienação religiosa. O Ressuscitado envia sua Igreja para dentro das feridas humanas, para as periferias existenciais, para os lugares onde a dignidade humana é negada.
  •  Salmo 46(47): proclamado na liturgia da Ascensão, celebra Deus como rei universal: “Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta” (Sl 46,6). A linguagem litúrgica do salmo remete às cerimônias de entronização do antigo Oriente, onde reis eram exaltados publicamente. Entretanto, na hermenêutica bíblica, a realeza divina difere radicalmente dos impérios humanos. Enquanto os reis da terra consolidavam poder através da violência, Deus manifesta sua soberania através da justiça e da misericórdia. Relacionado a Mateus 28,18, quando Jesus afirma “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”, o salmo revela que a Ascensão é a proclamação do verdadeiro senhorio de Cristo diante dos falsos absolutos da história. Em pleno contexto romano, onde César era chamado de “senhor” e “salvador”, proclamar o reinado universal de Deus possuía dimensão profundamente política e profética. Hoje, o salmo continua confrontando idolatrias modernas que absolutizam mercado, nacionalismos, extremismos ideológicos e líderes autoritários. O verdadeiro Reino anunciado por Cristo não se fundamenta na lógica da dominação, mas na comunhão, na dignidade humana e na libertação dos pobres. A Ascensão proclama que nenhum poder econômico, militar, religioso ou político possui autoridade definitiva sobre a vida humana. O único Senhor é aquele que lavou os pés dos discípulos, acolheu os marginalizados e entregou sua própria vida na cruz.
  •  Efésios 1,17-23:  oferece uma das mais profundas interpretações teológicas da Ascensão dentro do Novo Testamento. Paulo apresenta Cristo exaltado “acima de todo principado, potestade, força e dominação” (Ef 1,21), utilizando categorias políticas e espirituais do mundo helenístico para afirmar que nenhum poder humano ou cósmico possui autoridade definitiva diante do Ressuscitado. A exegese do texto revela que Paulo escreve para comunidades vivendo sob o peso do Império Romano, cercadas por estruturas religiosas, econômicas e políticas opressoras. A Ascensão aparece então como anúncio de esperança e resistência. O Cristo exaltado não abandona sua Igreja, mas torna-se cabeça do corpo que é a comunidade dos discípulos. Essa imagem dialoga profundamente com Mateus 28,20: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo.” A presença do Ressuscitado sustenta uma Igreja chamada a viver em comunhão e missão. A oração paulina para que os cristãos recebam “espírito de sabedoria e revelação” (Ef 1,17) também possui enorme atualidade hermenêutica diante de um mundo marcado por manipulação ideológica, pós-verdade e instrumentalização da religião. A verdadeira sabedoria cristã não é domínio religioso nem poder clerical, mas discernimento espiritual capaz de reconhecer o Reino de Deus no meio das contradições da história e permanecer fiel ao Evangelho da justiça, da misericórdia e da esperança.

A Ascensão não é o fim da presença de Cristo, mas a preparação para Pentecostes. O Senhor sobe ao Pai para que o Espírito seja derramado sobre a comunidade. A Igreja da Ascensão é também a Igreja da espera vigilante, reunida em oração, aprendendo que missão sem Espírito transforma-se em ativismo religioso, propaganda ideológica e estrutura vazia. O mesmo Cristo que sobe é aquele que promete o Paráclito. Por isso a comunidade cristã vive entre a memória da Ressurreição e a expectativa do Pentecostes, entre a promessa e a missão, entre o já e o ainda não do Reino de Deus.

Mateus encerra seu evangelho não descrevendo literalmente Jesus subindo aos céus, mas apresentando a promessa decisiva da permanência do Ressuscitado: “Eis que eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). Enquanto Lucas enfatiza visivelmente o movimento da Ascensão em direção ao céu (At 1,9), Mateus silencia sobre a subida física de Jesus e concentra-se na permanência do Ressuscitado junto à comunidade. Isso revela duas perspectivas complementares da tradição primitiva: Cristo exaltado junto ao Pai e Cristo permanentemente presente na missão da Igreja. O foco não está na ausência, mas numa nova forma de presença. O céu, dentro da mentalidade bíblica, não é um espaço geográfico acima das nuvens, mas a plenitude da comunhão com Deus. Assim, afirmar que Cristo sobe aos céus e senta-se à direita do Pai significa proclamar sua participação plena na autoridade divina. Em pleno contexto do Império Romano, onde César era chamado de senhor do mundo, proclamar Jesus como Kyrios possuía uma dimensão profundamente profética e subversiva diante de todo absolutismo político e religioso. A Ascensão proclama que nenhum império humano é eterno. Nenhuma ideologia possui autoridade absoluta. Nenhum sistema econômico pode ocupar o lugar de Deus. A narrativa de Mateus revela que os discípulos enviados eram apenas onze. A ausência de Judas permanece como marca da fragilidade humana. A Igreja nasce ferida, incompleta, marcada pela dúvida e pela contradição. Mesmo diante do Ressuscitado, “alguns, porém, duvidaram” (Mt 28,17). O evangelho desmonta qualquer espiritualidade triunfalista. A fé autêntica não elimina automaticamente o conflito interior. A missão nasce em meio às ambiguidades humanas. Isso aproxima profundamente o texto da realidade contemporânea, onde muitos vivem crises espirituais em meio à violência, às desigualdades, ao sofrimento social e ao aparente silêncio de Deus diante das injustiças. A sociedade contemporânea também é marcada por medos profundos: medo da exclusão, da pobreza, da violência, da solidão e da irrelevância. Muitos aderem a discursos religiosos autoritários porque procuram segurança emocional em tempos de instabilidade. Entretanto, o Ressuscitado não governa pelo medo, mas pela presença. A primeira palavra do Cristo pascal não é ameaça, mas esperança. O Ressuscitado não espera uma comunidade perfeita para enviá-la. Ele envia pessoas frágeis, feridas e inseguras. A missão não nasce da perfeição humana, mas da graça divina.

A Galileia escolhida por Jesus possui forte significado teológico e social. Não é Jerusalém, centro político e religioso do judaísmo. A missão nasce da periferia, da “Galileia dos gentios” (Is 9,1), região marginalizada e culturalmente misturada. Deus inicia seu projeto libertador entre pobres, pescadores, trabalhadores e invisibilizados. O monte onde ocorre o encontro remete ao Sinai e ao Horeb, lugares bíblicos de revelação. Jesus aparece como o novo legislador que não entrega tábuas de pedra, mas uma missão viva fundamentada no discipulado. A escolha da Galileia revela que Deus continua agindo a partir das margens da história e não dos centros do poder religioso. A Galileia continua existindo. Ela está nas periferias esquecidas, nos rostos cansados dos trabalhadores, nas mães que sofrem pela violência, nos jovens sem horizonte, nos pobres esmagados pelas injustiças sociais e nos que continuam esperando uma palavra de esperança. É para essa Galileia humana que o Ressuscitado continua enviando seus discípulos. Quando Jesus afirma: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28,18), não fala da lógica autoritária dos impérios humanos. Sua autoridade nasce do serviço, da misericórdia e da coerência entre palavra e prática, como já aparecia em Mateus 7,29. Isso confronta diretamente as deformações religiosas contemporâneas marcadas pelo clericalismo, pelo autoritarismo espiritual e pela instrumentalização da fé como mecanismo de controle político, econômico e psicológico. O evangelho de Mateus desmonta toda lógica clerical quando mostra que o Ressuscitado envia uma comunidade de discípulos frágeis e não uma elite religiosa perfeita. O poder no Reino nasce do serviço. Onde a Igreja busca privilégios, prestígio e domínio, afasta-se do monte da Galileia e aproxima-se perigosamente dos palácios de Jerusalém. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium, recorda que a Igreja é antes de tudo Povo de Deus caminhando na história. Já Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Não existe discipulado verdadeiro desconectado do sofrimento humano.

O imperativo do “Ide”   em Mateus 28,19, já  que já  refletimos no texto: Entre o Vinde e o Ide: Igreja, Conflito e Comunhão no Corpo em Tensão  que rompe qualquer espiritualidade fechada sobre si mesma. A Igreja existe para sair. A Ascensão não legitima alienação religiosa nem fuga do mundo. O Cristo exaltado continua presente nos pobres, nos marginalizados e nos crucificados da história, como recorda Mateus 25,31-46. Uma espiritualidade desconectada do sofrimento humano transforma-se em abstração religiosa. Medellín, Puebla, Santo Domingo e Documento de Aparecida insistiram fortemente que a missão da Igreja passa necessariamente pela defesa da dignidade humana e pela opção preferencial pelos pobres. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao próprio Cristo que se identificou com os pequenos. A Evangelii Gaudium também recorda que a Igreja deve ser “em saída”, capaz de abandonar comodismos pastorais e estruturas autorreferenciais para encontrar os feridos da história. O batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” revela que a missão nasce da própria comunhão trinitária. Deus não é solidão de poder, mas comunhão de amor. Isso confronta o individualismo contemporâneo e também os modelos religiosos empresariais que transformam a fé em mercado espiritual. A teologia da prosperidade e a teologia do domínio deformam o Evangelho ao substituir o Reino de Deus pela lógica do sucesso individual e da acumulação econômica. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres e proclamou bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). O Evangelho não legitima desigualdades sociais nem projetos autoritários travestidos de religião. Em muitos contextos contemporâneos, o nome de Deus é utilizado para justificar intolerância, violência simbólica e projetos políticos excludentes. O Evangelho, porém, continua sendo denúncia profética contra toda idolatria do poder.

A crítica profética permanece atual. Isaías, Amós e Miqueias denunciaram governantes injustos e líderes religiosos corruptos. Jesus expulsou os vendedores do templo porque a religião havia se tornado instrumento econômico de exclusão. Também hoje a fé é frequentemente manipulada para alimentar extremismos políticos, discursos de ódio e projetos de poder. O Evangelho, porém, continua sendo força libertadora que denuncia idolatrias políticas, econômicas e religiosas. A mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais torna-se profundamente necessária dentro desse contexto. “Preservar vozes e rostos humanos” significa resistir à cultura da desumanização. Em tempos de redes sociais marcadas pela violência verbal, fake news, manipulação ideológica e radicalização política, comunicar o Evangelho exige responsabilidade ética e espiritual.

A comunicação cristã nasce da encarnação. Deus não salvou a humanidade à distância. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Em Jesus, Deus assume linguagem humana, rosto humano, lágrimas humanas e relações humanas. Toda comunicação que desumaniza contradiz o mistério da encarnação. Na tradição bíblica, o rosto possui dimensão profundamente teológica. O rosto revela dignidade, presença e relação. O cristianismo é a religião do rosto humano porque Deus assumiu um rosto humano em Jesus Cristo. Preservar vozes e rostos humanos significa resistir à desumanização promovida pelas estruturas de ódio, exclusão e manipulação ideológica. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em alvos, números ou inimigos. O Evangelho faz o contrário: devolve rosto aos invisibilizados. Jesus olhava para os pobres, os doentes, os pecadores públicos e os marginalizados não como objetos descartáveis, mas como filhos e filhas amados de Deus. Tiago 3,9 denuncia a contradição de bendizer a Deus e amaldiçoar seres humanos feitos à sua imagem. Efésios 4,29 recorda que da boca do cristão devem sair palavras que edifiquem. O “Ide” missionário passa também pela responsabilidade ética da comunicação. O discípulo de Jesus não pode utilizar a palavra para humilhar, manipular ou destruir. O anúncio do Evangelho exige verdade unida à misericórdia. Comunicar Cristo não é espalhar medo, intolerância ou fanatismo religioso. É anunciar esperança, dignidade e reconciliação num mundo profundamente ferido pela violência simbólica e pela cultura do descarte.

A contemporaneidade vive uma crise profunda de sentido marcada pela violência, desigualdade, precarização da vida e radicalizações ideológicas. Nesse cenário, a promessa de Cristo “Eu estarei convosco” torna-se fonte de esperança e resistência. O Reino já começou na Ressurreição, mas ainda não alcançou sua plenitude. Vivemos entre a promessa e o cumprimento definitivo. Por isso a Ascensão não autoriza conformismo histórico. Enquanto aguardamos a volta do Senhor, somos chamados a antecipar sinais do Reino através da justiça, da reconciliação e da defesa da vida. O Ressuscitado voltará, mas enquanto isso a Igreja é chamada a construir sinais concretos do Reino através da solidariedade e da dignidade humana. Isaías 50,4 ilumina profundamente o discipulado missionário ao afirmar: “O Senhor despertou meu ouvido para escutar como discípulo.” Antes de falar, é preciso aprender a escutar. O verdadeiro missionário não é propagandista religioso, mas alguém que ouve o clamor dos pobres, das vítimas e dos excluídos. A Igreja frequentemente fala demais e escuta de menos. Escutar os que sofrem é parte essencial do Evangelho. O discipulado missionário nasce da capacidade de reconhecer Deus presente na dor humana.

Celebrar a Ascensão do Senhor é, portanto, olhar para o céu sem abandonar a terra. É compreender que o Reino começa aqui quando o Evangelho se transforma em prática concreta de misericórdia, justiça e comunhão. Nesse horizonte ressoa profundamente a memória profética de Dom Adriano Hypólito, que afirmava com simplicidade e radicalidade evangélica: “O céu começa aqui”. Sua expressão não era um slogan religioso vazio, mas uma profunda síntese teológica e pastoral da esperança cristã. O céu começa aqui quando se cumpre a oração ensinada por Jesus: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu” (Mt 6,10). O céu começa aqui quando os pobres são reconhecidos como bem-aventurados (Lc 6,20), quando os que têm fome e sede de justiça são saciados (Mt 5,6), quando os pacificadores são chamados filhos de Deus (Mt 5,9), quando o pão é repartido, o estrangeiro é acolhido e o ferido da estrada deixa de ser ignorado, como na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37). O céu começa aqui quando a comunidade cristã compreende que o Ressuscitado continua presente nos crucificados da história, porque “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Começa aqui quando a Igreja deixa de buscar prestígio e volta a lavar os pés da humanidade ferida (Jo 13,14-15). Começa aqui quando o poder deixa de ser instrumento de dominação e se transforma em serviço, pois o próprio Jesus afirmou: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Começa aqui quando o discípulo aprende que seguir Cristo não é ocupar tronos religiosos, mas carregar a cruz da solidariedade e do compromisso com a vida (Mt 16,24).

A Ascensão não afasta Cristo da história humana. Pelo contrário, revela que sua presença ultrapassa os limites do espaço e do tempo e continua sustentando os que lutam pela dignidade humana em meio às contradições do mundo. O Senhor exaltado continua caminhando entre os pobres, os invisibilizados, os cansados e os que choram. Ele continua passando pelas periferias humanas como passou pelas aldeias da Galileia, tocando leprosos (Mc 1,40-42), sentando-se à mesa com pecadores (Lc 5,29-32), defendendo mulheres humilhadas (Jo 8,1-11) e anunciando libertação aos oprimidos (Lc 4,18-19). O Cristo que sobe aos céus é o mesmo que prometeu: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Por isso a Igreja da Ascensão não pode permanecer imóvel contemplando nostalgicamente o passado nem aprisionada em estruturas de poder, vaidades clericais ou projetos religiosos autorreferenciais. Deve ser comunidade em saída, discípula, missionária, profética e misericordiosa, como recorda o Evangelho. O Senhor subiu aos céus, mas seus pés continuam caminhando na história através daqueles que vivem o Evangelho com coragem, ternura e compromisso com o Reino. A Ascensão não é despedida, mas envio. Não é ausência, mas presença transformada. Não é fuga da terra, mas compromisso ainda mais profundo com ela.

O Cristo que sobe aos céus continua dizendo à sua Igreja aquilo que disse aos onze na Galileia: “Ide” (Mt 28,19). Ide às periferias esquecidas. Ide aos pobres feridos pela injustiça. Ide aos jovens sem esperança. Ide aos que perderam a fé na humanidade. Ide aos que foram esmagados por estruturas econômicas excludentes e por religiões sem misericórdia. Ide anunciar que a morte não venceu, que o Reino continua germinando como semente escondida (Mc 4,26-32) e que o Ressuscitado permanece conosco “todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). E enquanto a humanidade muitas vezes constrói torres de orgulho, violência e exclusão como em Babel (Gn 11,1-9), o Evangelho continua reunindo povos, línguas e nações numa mesa comum de fraternidade. A esperança cristã permanece viva porque o Cordeiro morto e ressuscitado continua sendo “o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que vem” (Ap 1,8). A última palavra da história não pertence aos impérios, ao ódio, aos mercados ou aos falsos profetas da prosperidade e do poder. A última palavra pertence ao Ressuscitado. E por isso a Igreja continua caminhando entre lágrimas e esperança, ouvindo a promessa do Apocalipse: “Eis a tenda de Deus com a humanidade. Deus habitará com eles” (Ap 21,3). O céu começa aqui, mas caminha para sua plenitude definitiva quando Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28).

DNonato - Teólogo do Cotidiano