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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 14,1.7-11

A  liturgia do sábado da 30ª Semana do Tempo Comum dá continuidade ao Evangelho proclamado na sexta-feira, ambos extraídos de Lucas 14. Na sexta-feira, Lucas 14,1-6 apresenta Jesus diante de um homem que sofria de hidropisia, questionando uma interpretação religiosa da Lei que poderia colocar a observância formal do sábado acima da misericórdia e da vida humana. No sábado, Lucas 14,1.7-11 prossegue com a mesma cena, agora destacando a observação de Jesus sobre os convidados que disputam os primeiros lugares à mesa. Essa continuidade narrativa não é acidental: depois de confrontar uma religiosidade incapaz de reconhecer a urgência do sofrimento humano, Jesus questiona as relações sociais organizadas pela busca de prestígio, pela competição e pela desigualdade. O mesmo ensinamento ganha uma dimensão mais ampla no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, quando a Igreja proclama Lucas 14,1.7-14, acrescentando a orientação para que a hospitalidade seja oferecida aos pobres, aos aleijados, aos coxos e aos cegos, sem expectativa de retribuição. Temos, portanto, uma unidade temática que relaciona misericórdia, humildade e acolhimento. A mensagem também encontra ressonância nas tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas e em outras comunidades cristãs históricas, embora cada tradição possua seu próprio calendário e lecionário, sem necessariamente proclamar essas passagens nas mesmas datas. A Palavra ultrapassa a ocasião litúrgica e interpela toda comunidade que invoca o nome de Deus, mas convive com privilégios, exclusões e disputas por reconhecimento.

O Evangelho situa Jesus na casa de um dos principais fariseus, em um sábado, para participar de uma refeição. Lucas informa que os presentes o observavam atentamente. A narrativa anterior já havia apresentado um homem doente, cuja condição exigia uma resposta concreta de misericórdia. Agora, o olhar de Jesus se volta para os convidados, que escolhiam os lugares de honra. A refeição, no mundo mediterrâneo antigo, não era apenas uma necessidade alimentar ou uma oportunidade de convivência. Ela possuía significado social, religioso e político, pois estabelecia vínculos, expressava pertencimento e tornava visíveis as posições ocupadas pelas pessoas. A proximidade com o anfitrião podia representar reconhecimento, prestígio e influência. Por isso, a disposição dos convidados à mesa revelava mais do que preferências individuais: manifestava uma organização social na qual a honra era distribuída de maneira desigual. Jesus percebe essa realidade e transforma uma situação cotidiana em oportunidade de ensinamento. Não inicia um discurso abstrato sobre virtudes, mas parte de um comportamento concreto para revelar o que acontece quando a necessidade de reconhecimento se torna mais importante do que a fraternidade. A questão fundamental não é simplesmente onde alguém se senta, mas por que precisa ocupar uma posição superior e quais pessoas são desvalorizadas quando a convivência se transforma numa competição permanente. Para compreender a força dessa intervenção, precisamos considerar o contexto histórico da Palestina do século I, submetida ao domínio romano e marcada por desigualdades econômicas, tributárias e sociais. As relações de patronagem constituíam um elemento importante da organização da sociedade. Pessoas influentes ofereciam proteção, recursos e oportunidades, enquanto esperavam lealdade, serviços e reconhecimento. As refeições podiam fortalecer essas relações, estabelecendo redes de reciprocidade entre indivíduos e famílias. O convite, a posição ocupada e a possibilidade de participar de determinados círculos sociais funcionavam como sinais de distinção. A cultura da honra e da vergonha influenciava profundamente o comportamento público, pois a reputação de uma pessoa estava relacionada ao reconhecimento recebido dos outros. Não devemos, entretanto, imaginar que todas as refeições seguissem um modelo rígido ou que os costumes fossem idênticos em todas as regiões. O que podemos afirmar é que os banquetes constituíam espaços nos quais as diferenças sociais podiam ser demonstradas e reforçadas. É nesse ambiente que Jesus questiona a necessidade de conquistar os primeiros lugares. Sua intervenção não é uma simples recomendação de boas maneiras, mas uma crítica à mentalidade que transforma a posição social em medida do valor humano. A pessoa passa a acreditar que é importante porque está acima de alguém, esquecendo que a dignidade não deveria depender de uma classificação estabelecida pelos poderosos.

Ao observar os convidados, Jesus percebe como escolhiam os primeiros lugares e apresenta uma situação relacionada a uma festa de casamento. A imagem do banquete nupcial possui grande significado na tradição bíblica. Casamentos eram ocasiões de celebração, encontro familiar e fortalecimento dos vínculos comunitários. A mesa reunia pessoas, mas também tornava perceptíveis as diferenças de posição e consideração. Jesus utiliza essa experiência conhecida para apresentar uma advertência: quem ocupa precipitadamente o lugar de honra pode ser obrigado a cedê-lo a alguém considerado mais importante. A consequência é a vergonha pública de precisar abandonar a posição pretendida e ocupar um lugar inferior. Em contrapartida, aquele que escolhe um lugar menos destacado poderá ser chamado pelo anfitrião para uma posição melhor. A imagem revela a fragilidade da honra conquistada pela presunção. Quem procura antecipar o reconhecimento dos outros corre o risco de experimentar a própria humilhação. A orientação de Jesus, contudo, não deve ser interpretada como uma técnica de autopromoção disfarçada de humildade, como se ocupar o último lugar fosse uma estratégia para receber posteriormente uma posição superior. O ensinamento questiona a ansiedade de quem precisa controlar a própria imagem e transformar cada encontro numa oportunidade de afirmação pessoal. A humildade começa quando a pessoa deixa de tratar os outros como concorrentes e reconhece que sua dignidade não depende de vencer uma disputa por prestígio. A advertência culmina no versículo 11: 

  • “Todo aquele que se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. 
Essa sentença não aparece isoladamente na tradição bíblica. Em Provérbios 25,6-7, encontramos uma orientação sapiencial para não reivindicar precipitadamente a presença dos poderosos nem procurar uma posição que ainda não foi concedida. Jesus retoma esse horizonte, mas o insere na compreensão do Reino de Deus, conferindo-lhe uma dimensão espiritual e ética mais profunda. A questão deixa de ser apenas a prudência necessária para evitar constrangimentos sociais. A sentença questiona a própria lógica da exaltação humana e o Evangelho não apresenta a posição social, a riqueza ou o reconhecimento público como garantias de valor diante de Deus. A mesma inversão aparece no cântico de Maria, em Lucas 1,46-55, quando ela proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. O Magnificat anuncia uma ação divina que desestabiliza a pretensão dos grupos dominantes de transformar seus privilégios em direitos naturais ou em sinais de superioridade moral. Essa inversão não significa que toda pessoa pobre seja necessariamente justa ou que toda pessoa rica seja culpada. Significa que nenhum privilégio humano pode ocupar o lugar da justiça divina e que a condição social de alguém jamais determina sua dignidade diante de Deus.

A sequência narrativa anterior esclarece ainda mais o significado do episódio.

  •  Lucas 13,10-17, Jesus cura uma mulher encurvada em dia de sábado e enfrenta a indignação do chefe da sinagoga, preocupado com sua interpretação da Lei. A mulher, entretanto, estava diante de uma necessidade concreta de libertação. 
  • Lucas 13,22-30, Jesus fala da porta estreita e questiona a falsa segurança daqueles que imaginam possuir garantias de participação no Reino apenas por sua proximidade religiosa. 
  • Lucas 13,31-35, manifesta coragem diante das ameaças de Herodes e lamenta a resistência de Jerusalém à ação de Deus. 
  • Lucas 14,1-6, encontra um homem com hidropisia e questiona se é permitido curar no sábado. Seus interlocutores permanecem em silêncio diante da pergunta sobre fazer o bem ou deixar alguém sofrer. 
Logo depois, em Lucas 14,7-11, o olhar de Jesus se dirige à disputa por posições. A continuidade revela uma crítica que alcança diferentes dimensões da existência religiosa e social. Primeiro, a misericórdia é colocada acima de uma interpretação legalista; depois, a humildade é colocada acima da ambição por reconhecimento. Jesus não separa a relação com Deus da maneira como as pessoas tratam umas às outras. A fidelidade religiosa precisa produzir libertação, solidariedade e relações humanas mais justas. A comparação com Marcos e Mateus exige uma distinção exegética importante. Lucas 14,7-11 não possui uma reprodução narrativa direta em Marcos 10,35-45 ou Mateus 20,20-28. Nessas passagens, encontramos episódios diferentes, mas uma convergência temática significativa. Em Marcos, Tiago e João solicitam posições de honra junto a Jesus na glória, provocando a indignação dos demais discípulos. Jesus questiona o modelo de autoridade dos governantes que dominam os povos e estabelece outra lógica para a comunidade: quem deseja ser grande deve tornar-se servidor, e quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos. Em Mateus, a solicitação é apresentada pela mãe dos filhos de Zebedeu, mas a resposta também confronta a ambição presente no grupo. A diferença redacional entre os evangelistas demonstra que cada narrativa organiza o ensinamento de acordo com sua construção teológica e em Lucas 14, Jesus observa a competição entre convidados durante uma refeição. Marcos e Mateus, confronta diretamente a ambição dos discípulos por posições de autoridade. As situações não são idênticas, mas revelam uma mesma resistência de Jesus à transformação da grandeza em dominação. Essa relação encontra expressão ainda mais próxima em Lucas 22,24-27, quando os discípulos discutem novamente quem seria considerado o maior e Jesus se apresenta como aquele que está entre eles servindo. A autoridade cristã não se legitima pela distância em relação às pessoas, mas pela responsabilidade de cuidar delas.
Os profetas denunciaram repetidamente a separação entre práticas religiosas e responsabilidade social. Em Isaías 1,11-17, Deus questiona sacrifícios, assembleias e celebrações quando a injustiça permanece presente na vida do povo. A exigência é aprender a fazer o bem, procurar a justiça e defender os oprimidos. Em Amós 5,21-24, a denúncia torna-se ainda mais contundente: Deus rejeita solenidades religiosas que não correspondem à prática da justiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. Essa tradição impede que a humildade seja confundida com passividade diante da opressão. Uma pessoa humilde não se considera dona da verdade, mas também não utiliza sua modéstia como justificativa para permanecer indiferente ao sofrimento. Reconhecer os próprios limites não significa renunciar à responsabilidade de denunciar a violência, a exploração e a exclusão. A humildade bíblica é uma disposição que permite escutar, aprender, corrigir erros e reconhecer a dignidade de quem foi colocado à margem. Sua consequência ultrapassa a vida interior, alcançando a organização da sociedade, a distribuição dos recursos e o exercício da autoridade. Essa exigência alcança diretamente as comunidades cristãs e suas estruturas de liderança. Quando a autoridade eclesial se transforma em instrumento de controle, quando a participação dos leigos é tratada como ameaça, quando perguntas legítimas são confundidas com desobediência e quando a reputação institucional recebe mais proteção do que as vítimas de abusos, a disputa pelos primeiros lugares reaparece sob vestes religiosas. O clericalismo contradiz a lógica de Jesus porque transforma uma responsabilidade ministerial em privilégio e substitui o serviço pela superioridade. Em Mateus 23,8-12, Jesus hoje  questiona a busca por títulos e posições que estabelecem distâncias entre os membros da comunidade. Sua advertência não elimina as diferentes responsabilidades e ministérios, mas impede que sejam utilizados para construir uma classe superior de pessoas. Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo assumindo a condição de servo e esvaziando-se, tornando-se obediente até a morte de cruz. Esse esvaziamento não significa aceitar abusos, silenciar vítimas ou exigir que os vulneráveis suportem indefinidamente a violência. Trata-se da liberdade daquele que não utiliza sua condição para explorar ou dominar. Uma Igreja coerente com essa mensagem precisa promover transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção dos vulneráveis. Nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto transforma sua própria preservação em prioridade absoluta.

A realidade da sociedade  dita cristã  onde  concentração de riqueza, a precarização do trabalho, a desigualdade no acesso à educação, à saúde e à moradia e a indiferença diante da fome revelam estruturas que distribuem oportunidades de maneira profundamente desigual. Não basta recomendar humildade aos pobres enquanto os grupos privilegiados preservam mecanismos que lhes permitem acumular vantagens e transferir os custos da desigualdade para os mais vulneráveis. A mensagem de Jesus não oferece um programa partidário pronto, mas estabelece critérios éticos para avaliar projetos políticos, decisões econômicas e instituições. Quando o poder serve exclusivamente aos interesses de quem já possui influência, a lógica do Reino é contrariada. Quando discursos políticos transformam adversários em inimigos desumanizados, utilizam o medo para manipular a população ou invocam Deus para legitimar violência e autoritarismo, a religião corre o risco de converter-se em instrumento de dominação. Isso não significa identificar automaticamente todas as pessoas de direita ou de esquerda com essas práticas. Significa avaliar criticamente os frutos concretos dos discursos e das ações. A fé não pertence a partidos, governantes ou líderes carismáticos. Sua credibilidade depende da verdade, da justiça, da misericórdia e da defesa da dignidade humana, inclusive quando esses compromissos contrariam interesses políticos, econômicos ou religiosos. 
Infelizmente a sociedade contemporânea também reproduz a disputa pelos primeiros lugares por meio da exposição permanente, da comparação e da transformação da existência em espetáculo. As redes sociais ampliam possibilidades de comunicação, denúncia e participação, mas também podem alimentar a necessidade compulsiva de aprovação, a agressividade e a construção de identidades baseadas na aparência. O reconhecimento público passa a funcionar como medida de valor, enquanto a escuta, a responsabilidade e o trabalho silencioso parecem insuficientes diante da busca por visibilidade. A psicologia ajuda a compreender como a insegurança pode alimentar comportamentos competitivos e como a necessidade de pertencimento pode tornar as pessoas vulneráveis à manipulação de grupos e lideranças que oferecem uma falsa sensação de superioridade moral. A pessoa passa a acreditar que precisa vencer o outro para existir, que discordar significa atacar e que admitir um erro representa perder valor. Jesus apresenta outro caminho: uma identidade fundamentada na relação com Deus e na responsabilidade pelo próximo. A humildade não elimina a necessidade humana de reconhecimento, mas impede que essa necessidade determine todas as escolhas. Quem compreende sua dignidade não precisa humilhar o adversário para afirmar sua própria existência. A conversão também se manifesta na capacidade de dialogar, reconhecer erros, abandonar preconceitos e resistir à manipulação que transforma diferenças humanas em justificativas para a violência. 

O desenvolvimento da passagem no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, amplia a crítica para a responsabilidade daquele que organiza a mesa. Em Lucas 14,12-14, Jesus dirige-se ao anfitrião e recomenda que não convide somente amigos, parentes e vizinhos ricos, capazes de retribuir o benefício. Propõe, em vez disso, acolher pobres, aleijados, coxos e cegos, pessoas que não podem devolver a hospitalidade nos mesmos termos. O ensinamento desloca o olhar da posição ocupada pelos convidados para os critérios utilizados na escolha de quem participa. A questão deixa de ser apenas quem deseja sentar-se perto do anfitrião e passa a ser quem recebe o convite e quem permanece excluído. A hospitalidade não pode ser reduzida a investimento numa rede de favores, prestígio e reciprocidade. Jesus questiona a organização das relações sociais quando elas dependem exclusivamente da possibilidade de retorno. Essa orientação continua interpelando famílias, instituições, empresas e comunidades religiosas que acolhem com facilidade pessoas influentes, mas mantêm distância daqueles cuja pobreza, deficiência ou história de sofrimento incomoda. Acolher verdadeiramente não significa conservar os pobres numa condição permanente de dependência. Significa reconhecer seus direitos, eliminar barreiras, ampliar sua participação e trabalhar para que ninguém precise mendigar aquilo que lhe é devido por dignidade e justiça.

A referência à recompensa na ressurreição dos justos, em Lucas 14,14, acrescenta uma dimensão escatológica ao ensinamento. Jesus não apresenta a generosidade como uma transação comercial com Deus, na qual cada gesto seria realizado para garantir uma vantagem futura. Ele questiona justamente a lógica da reciprocidade calculada, segundo a qual todo benefício precisa produzir retorno equivalente. A esperança da ressurreição anuncia que a justiça divina ultrapassa os sistemas humanos de reconhecimento e que o valor de uma ação não depende de sua recompensa imediata. Em Mateus 6,1-4, Jesus adverte contra a prática da justiça destinada a conquistar aplausos, ensinando que a esmola não deve transformar-se em espetáculo. Em Tiago 2,1-9, a comunidade cristã é advertida contra a discriminação entre a pessoa ricamente vestida e aquela que chega em condição de pobreza. Favorecer o rico e desprezar o necessitado contradiz a fé professada. Primeira João 3,17 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que possui recursos, vê o irmão necessitado e fecha o coração. A espiritualidade cristã não pode ser medida pelo volume de orações, títulos religiosos ou discursos doutrinários quando falta disposição para compartilhar, reparar injustiças e reconhecer no outro uma vida dotada de valor próprio.
Hoje a  conversão proposta por Jesus precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. 
  • No plano pessoal, exige examinar a necessidade de reconhecimento, as atitudes diante daqueles que consideramos inferiores e os privilégios que preferimos não questionar. No plano comunitário, requer relações menos competitivas, liderança responsável, acolhimento efetivo e decisões que considerem a realidade dos mais vulneráveis. 
  • No plano social, convoca à transformação das condições que produzem fome, exclusão, violência e desigualdade. Não se trata de reduzir a fé a uma militância partidária, mas de reconhecer que nenhuma espiritualidade pode permanecer indiferente às consequências concretas das escolhas humanas. A denúncia profética não autoriza o orgulho de quem se imagina moralmente superior. 
Os profetas falavam em nome de uma aliança que também exigia conversão do próprio povo. Jesus reúne firmeza e misericórdia: confronta a hipocrisia, questiona os poderosos, acolhe os feridos e oferece possibilidades de mudança. Sua mensagem não permite que a religião seja utilizada para anestesiar consciências ou justificar injustiças. O verdadeiro encontro com Deus precisa produzir uma transformação que possa ser reconhecida na maneira como tratamos as pessoas, distribuímos responsabilidades e enfrentamos as situações que ameaçam a vida.

A humildade evangélica, não significa aceitar humilhações, suportar violência doméstica, tolerar exploração no trabalho ou permanecer em silêncio diante de abusos praticados por autoridades religiosas e políticas. A submissão imposta aos vulneráveis não é a humildade ensinada por Jesus. Ao contrário, quando alguém utiliza a linguagem religiosa para exigir obediência incondicional, impedir denúncias ou proteger privilégios, está contradizendo o sentido do serviço cristão. A pessoa humilde reconhece que não é superior aos outros, mas também sabe que ninguém tem o direito de retirar sua dignidade. Por isso, a defesa de direitos, a denúncia de injustiças e a construção de mecanismos de proteção não são atitudes contrárias à espiritualidade. São expressões concretas de responsabilidade ética. A cruz de Cristo não pode ser instrumentalizada para obrigar vítimas a permanecer em situações de violência. A prática de Jesus mostra que a misericórdia se aproxima de quem sofre, enquanto a verdade confronta aquilo que produz sofrimento. Uma comunidade que deseja seguir o Mestre precisa aprender a proteger os vulneráveis, responsabilizar os agentes de violência e criar condições para que todos participem plenamente da vida coletiva. A mesa de Lucas 14 torna-se, assim, uma imagem poderosa para avaliar a sociedade e a própria Igreja. Quem escolhe os convidados? Quem distribui os lugares? Quem decide quais pessoas merecem ser ouvidas? Quem permanece do lado de fora enquanto os mesmos grupos concentram reconhecimento e influência? Essas perguntas não pertencem apenas ao passado bíblico. Estão presentes nas instituições que reproduzem privilégios, nos ambientes profissionais que descartam os trabalhadores mais frágeis, nas políticas públicas que ignoram populações inteiras e nas comunidades religiosas que confundem fidelidade com silêncio. O Evangelho não pede que as diferenças de responsabilidade desapareçam, mas que nenhuma função seja transformada em instrumento de superioridade. A autoridade deve ser exercida com competência, prestação de contas e compromisso com o bem comum. A liderança que não escuta, não presta contas e não reconhece os próprios limites corre o risco de transformar serviço em domínio. A humildade cristã não é ausência de firmeza, mas liberdade diante da vaidade e responsabilidade diante da vida. Ela permite reconhecer que a verdade não pertence exclusivamente a quem ocupa uma posição de destaque e que a experiência dos pobres e excluídos precisa participar das decisões que afetam sua existência.
No fim, a pergunta decisiva não é quem merece ocupar o primeiro lugar, mas que espécie de humanidade construímos quando todos precisam disputar reconhecimento. Uma sociedade organizada pela competição permanente produz medo, solidão e exclusão, mesmo quando justifica suas desigualdades com discursos de mérito, tradição ou religiosidade. A comunidade do Reino de Deus é chamada a outra lógica: servir sem humilhar, acolher sem calcular vantagens e exercer autoridade sem transformar pessoas em instrumentos. Lucas 14,1.7-11 não ensina passividade diante da injustiça, mas libertação da vaidade que escraviza e das hierarquias que desumanizam. A continuação dominical, em Lucas 14,1.7-14, mostra que essa transformação precisa chegar à organização concreta da mesa, incluindo aqueles que não possuem influência ou capacidade de retribuição. A verdadeira elevação não nasce da conquista do assento mais importante, mas da disposição de levantar quem foi derrubado, ouvir quem foi silenciado e abrir caminhos para quem permaneceu excluído. A humildade deixa, então, de ser uma virtude apenas proclamada e se transforma em força histórica, espiritual e social. Onde o orgulho cede lugar à justiça, onde a autoridade se converte em serviço e onde a hospitalidade rompe os limites do privilégio, o Evangelho recupera sua radicalidade. É ali que a fé deixa de ser aparência, a religião reencontra sua responsabilidade profética e o Reino de Deus começa a ganhar forma na vida cotidiana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 25 de outubro de 2026

UMA ELEIÇÃO NÃO É UMA DISPUTA DE CAMPEONATO


Há silêncios que guardam lembranças, escolhas que deixam marcas e acontecimentos que somente revelam seu verdadeiro significado quando o tempo já percorreu o caminho que muitos se recusaram a enxergar. Na política, assim como na vida, nem tudo se resolve no instante em que as urnas anunciam um resultado. Algumas coisas permanecem na memória, outras amadurecem na consciência, e há palavras que, mesmo quando não são pronunciadas, continuam presentes porque foram transformadas em experiências impossíveis de apagar.  Durante uma eleição, muitos acreditam que tudo se resume à vitória de um candidato e à derrota de outro. Como se o destino de uma nação pudesse ser comparado ao resultado de uma partida, na qual uma torcida comemora, a outra se entristece e, no dia seguinte, todos simplesmente seguem adiante. Entretanto, uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de levantar uma taça, humilhar adversários ou provar que determinado grupo possui superioridade sobre os demais. Trata-se de decidir caminhos, confrontar projetos de sociedade e escolher, dentro dos limites da democracia, quais prioridades deverão orientar a vida coletiva. Por trás de cada voto existem histórias, necessidades, convicções, medos, esperanças e experiências que não podem ser reduzidas a uma simples contagem de números.

É justamente por compreender essa dimensão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, para aqueles que depositaram nele suas esperanças, pode adquirir um significado que ultrapassa a satisfação eleitoral. Para muitos, ela representa a possibilidade de reencontrar sonhos que pareciam esquecidos, recuperar a confiança na participação popular e acreditar novamente que a origem social de uma pessoa não precisa determinar os limites de seu futuro. Não significa imaginar que um governo seja capaz de resolver todos os problemas de um país, mas reconhecer que as decisões políticas podem ampliar ou restringir as oportunidades de milhões de brasileiros. Essa emoção, porém, não nasce apenas das expectativas depositadas em um candidato. Em determinadas circunstâncias, ela também nasce das feridas provocadas pelo caminho percorrido até a eleição. Há pessoas que chegam ao momento da votação carregando muito mais do que suas preferências políticas. Levam consigo as lembranças das conversas interrompidas, das amizades abaladas, dos julgamentos precipitados e das ofensas recebidas simplesmente porque decidiram pensar de maneira diferente. Algumas foram chamadas de ignorantes; outras, de inimigas, traidoras ou responsáveis por todos os males do país. Em muitos casos, a divergência deixou de ser uma oportunidade de diálogo e se transformou em pretexto para a agressão. Foi assim que, para alguns eleitores, o segundo turno adquiriu um significado particular. Não bastava escolher entre dois projetos políticos: era necessário também suportar o peso de ser desrespeitado por causa da própria escolha. Os insultos recebidos não desapareceram quando as conversas terminaram, nem perderam sua importância porque a votação chegou ao fim. Permaneceram como lembranças de um período em que pessoas que deveriam ter encontrado espaço para conversar acabaram tratando umas às outras como adversárias irreconciliáveis.

Diante disso, a alegria de uma vitória pode trazer sentimentos difíceis de explicar. Não se trata necessariamente de desejar a derrota pessoal de quem pensa diferente, tampouco de alimentar o desejo de revanche contra aqueles que ofenderam. Trata-se de perceber que, apesar das pressões, das acusações e das tentativas de desqualificação, algumas pessoas permaneceram fiéis à própria consciência. Continuaram acreditando no direito de escolher, de argumentar e de defender uma visão de país sem precisar pedir autorização aos que imaginavam possuir o monopólio da verdade. Há uma diferença profunda entre comemorar um resultado e desejar a humilhação de alguém. A primeira atitude pode expressar alívio, esperança e reconhecimento de uma escolha democrática; a segunda apenas prolonga o ciclo de hostilidade que tanto prejudica a convivência social. Quem sofreu ofensas tem o direito de reconhecer a dor que experimentou, sem precisar fingir que nada aconteceu. Mas também pode escolher não transformar essa dor em instrumento de vingança. A dignidade não exige que se esqueçam as agressões; exige que não se permita que elas determinem para sempre a maneira de olhar o mundo.

Por isso, o silêncio de quem atravessou esse processo não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza, desconhecimento ou indiferença. Às vezes, o silêncio representa apenas a decisão de não transformar cada divergência em uma batalha. Em outras ocasiões, significa que certas experiências precisam de distância para serem compreendidas. O tempo revela contradições, desfaz certezas precipitadas e mostra que a realidade raramente se acomoda perfeitamente às expectativas de quem acredita conhecer antecipadamente todos os desfechos. Entretanto, esse silêncio não precisa carregar ameaças veladas nem anunciar uma futura cobrança pessoal. Sua força pode estar em algo mais profundo: a consciência de que cada pessoa responde pelas escolhas que faz e pelas atitudes que assume diante dos outros. Quando o debate político se transforma em agressão, não é apenas o adversário que sofre. A própria democracia perde qualidade, os vínculos comunitários se enfraquecem e a sociedade se acostuma perigosamente à ideia de que humilhar alguém é aceitável quando se acredita estar defendendo uma causa.

O Brasil precisa superar essa lógica. Nenhuma família, partido, liderança ou corrente ideológica pode reivindicar para si a propriedade da nação. O país pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles cujas opiniões divergem, cujas histórias são diferentes e cujas experiências sociais os conduzem a interpretações distintas da realidade. A convivência democrática não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que ninguém seja privado de respeito, direitos e dignidade por pensar de maneira diferente. Ao mesmo tempo, respeitar a pluralidade não significa abandonar a avaliação crítica dos projetos políticos. A democracia não se fortalece quando os cidadãos deixam de questionar seus representantes, mas quando aprendem a fazê-lo com responsabilidade, argumentos e disposição para confrontar os fatos. Nenhum governante deve ser colocado acima da fiscalização pública. Nenhum partido pode transformar sua história em licença para cometer erros. Nenhuma liderança merece obediência cega. O voto abre uma etapa da vida democrática, mas não encerra a responsabilidade de quem escolheu.

É nesse ponto que a esperança precisa encontrar a realidade concreta dos brasileiros. Para aqueles que veem na trajetória de Lula um símbolo de mobilidade social e participação popular, sua vitória pode recordar um período em que muitos passaram a enxergar possibilidades antes distantes. A ampliação do acesso ao ensino superior, os programas sociais, as políticas de transferência de renda e as iniciativas voltadas à habitação e à alimentação ocupam um lugar importante na memória de parte da população. Essas experiências, com seus resultados, limites e controvérsias, fazem parte do debate sobre o país que se deseja construir. Reconhecer esse significado não exige transformar um presidente em herói infalível. A história política brasileira é complexa, e qualquer avaliação responsável precisa considerar realizações, contradições, decisões equivocadas e responsabilidades institucionais. A esperança democrática não deve ser confundida com devoção pessoal. Pelo contrário, quanto maior a expectativa depositada em um governo, maior deve ser a disposição de acompanhar suas ações, exigir transparência e cobrar resultados. A lealdade a um projeto de sociedade não pode significar submissão a um governante.

O que importa, acima das narrativas partidárias, é saber se as políticas públicas conseguem melhorar a vida das pessoas. É saber se os trabalhadores podem viver com dignidade, se as famílias encontram condições para colocar comida na mesa, se os jovens conseguem estudar e construir seu futuro, se os idosos recebem o cuidado necessário e se os serviços de saúde alcançam aqueles que mais precisam. É perguntar se a riqueza produzida pelo país se converte em oportunidades reais ou se continua concentrada de maneira que aprofunda distâncias sociais. Por trás dessas perguntas existem rostos que raramente ocupam o centro das grandes celebrações políticas. Existem mães que calculam cada despesa antes de chegar ao caixa do mercado, trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada e retornam quando os filhos já estão dormindo, famílias que enfrentam o preço dos medicamentos e jovens que precisam escolher entre continuar estudando e procurar trabalho para ajudar nas despesas domésticas. Existem pessoas que não desejam privilégios, mas condições mínimas para viver sem a angústia permanente de não saber como chegarão ao fim do mês. Para essas pessoas, a política não é uma abstração discutida apenas em palanques, redes sociais ou programas de televisão. Ela se manifesta no preço dos alimentos, no acesso ao transporte, na qualidade da escola pública, na disponibilidade de atendimento médico, na possibilidade de conseguir emprego e na segurança de ter um teto. As decisões tomadas nos espaços de poder atravessam a vida cotidiana, ainda que muitos daqueles que as discutem jamais tenham experimentado as dificuldades enfrentadas por quem depende diretamente dos serviços públicos.

É por isso que a verdadeira medida de um país não pode ser encontrada apenas nos indicadores econômicos ou nas declarações de seus dirigentes. Ela também se encontra na maneira como a sociedade trata aqueles que possuem menos recursos para defender seus interesses. Um país pode apresentar riqueza e, ainda assim, conviver com a miséria de milhões. Pode celebrar grandes conquistas e continuar indiferente às pessoas que permanecem à margem. O desenvolvimento só adquire sentido humano quando a prosperidade deixa de ser privilégio de poucos e passa a criar condições concretas para uma vida digna. Essa compreensão também encontra raízes profundas na experiência religiosa. Quando Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), ele não oferece apenas uma orientação para a vida íntima ou uma fórmula para discursos piedosos. No contexto de Mateus 22,34-40, o amor ao próximo aparece inseparavelmente ligado ao amor a Deus, resumindo, com o mandamento de amar a Deus, o coração da Lei e dos Profetas. A fé, portanto, não pode ser reduzida a palavras pronunciadas em cerimônias enquanto a realidade do sofrimento humano permanece ignorada.

O Evangelho não autoriza que a religião seja utilizada para justificar a indiferença, alimentar o desprezo pelos pobres ou transformar diferenças políticas em condenações morais automáticas. Ao contrário, desafia os que professam a fé a examinar suas próprias atitudes. Em Mateus 25,31-46, Jesus associa o encontro com ele à maneira como são tratados os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os encarcerados. Em Lucas 10,25-37, a parábola do bom samaritano desloca a discussão religiosa para o terreno da responsabilidade concreta: diante de alguém ferido, não basta conhecer os mandamentos; é preciso aproximar-se, cuidar e agir e essa mensagem não pertence a um partido, nem pode ser monopolizada por qualquer grupo ideológico. Ela exige que todos, independentemente de suas preferências políticas, confrontem suas convicções com a dignidade humana. Entretanto, quando a linguagem religiosa é utilizada para legitimar a exclusão, naturalizar a pobreza ou alimentar a hostilidade contra adversários, torna-se necessário recordar que o nome de Deus não pode servir de escudo para atitudes contrárias à misericórdia. A religião perde sua força profética quando se preocupa mais em proteger o prestígio dos poderosos do que em ouvir o clamor dos que sofrem.

A crítica ao clericalismo e à religiosidade vazia também nasce dessa exigência. Não basta multiplicar celebrações, repetir passagens bíblicas ou defender símbolos sagrados se a vida cotidiana permanece marcada pela exploração, pelo preconceito e pelo abandono. A fé precisa produzir responsabilidade, solidariedade e compromisso com o bem comum. Caso contrário, corre o risco de se transformar em aparência sem coerência, linguagem sem testemunho e devoção sem encontro verdadeiro com o próximo. Essa responsabilidade alcança igualmente a política. Nenhuma liderança pode invocar valores cristãos para escapar à fiscalização, e nenhum eleitor deveria considerar moralmente superior uma pessoa apenas por sua identidade religiosa ou por suas declarações públicas de fé. O critério precisa ser a coerência entre palavras e atitudes, entre promessas e resultados, entre o discurso sobre a família e o compromisso efetivo com as condições de vida das famílias reais. A defesa da vida precisa alcançar também aqueles que enfrentam a fome, a violência, a falta de moradia, o desemprego e a ausência de oportunidades.

A esperança, portanto, não deve ser confundida com a expectativa de que um único homem transforme sozinho a realidade brasileira. Presidentes exercem responsabilidades importantes, mas a construção de uma sociedade justa depende também das instituições, do Congresso, do Judiciário, dos governos locais, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias e da participação permanente dos cidadãos. A democracia exige vigilância, diálogo, transparência e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos por aqueles em quem se depositou confiança. Quando a emoção da eleição passar, permanecerá a tarefa de acompanhar as decisões, verificar os resultados e exigir que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Se houver avanços, eles deverão ser reconhecidos; se houver falhas, deverão ser apontadas; se houver injustiças, deverão ser denunciadas. Não há contradição entre desejar o êxito de um governo e cobrar sua responsabilidade. O verdadeiro compromisso com o país não consiste em aplaudir todas as decisões, mas em defender as condições necessárias para que a política sirva à população. Também será necessário reconstruir os espaços de convivência que a hostilidade eleitoral desgastou. Famílias, amizades, comunidades religiosas e ambientes de trabalho não precisam permanecer prisioneiros de disputas partidárias. É possível discordar sem desumanizar, criticar sem humilhar e defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Isso não significa aceitar agressões em nome de uma falsa harmonia, mas estabelecer limites claros para que o respeito não seja confundido com silêncio diante da violência verbal ou da intolerância.

Aqueles que foram ofendidos durante a campanha não precisam negar suas feridas para demonstrar maturidade. Podem reconhecer o que sofreram, preservar a memória dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, recusar a reprodução da mesma lógica de desprezo. A dignidade não depende de receber o pedido de desculpas de quem feriu, embora o reconhecimento do erro possa ajudar a reparar relações. Ela também se manifesta na liberdade de continuar vivendo segundo a própria consciência, sem permitir que a agressão alheia se transforme no centro permanente da existência.

No fim, a lembrança mais importante talvez não seja a de quem comemorou mais alto, publicou a frase mais provocadora ou previu com maior segurança os acontecimentos. Será a lembrança de como cada pessoa se comportou quando a divergência se tornou difícil, quando a tentação de humilhar pareceu irresistível e quando o respeito exigiu mais esforço do que a agressão. As eleições passam, os discursos perdem força e as circunstâncias mudam, mas as atitudes deixam marcas que podem permanecer por muito tempo na memória de uma comunidade. É nesse sentido que o tempo revela aquilo que as palavras nem sempre conseguem explicar. Não para alimentar ameaças ou organizar uma lista de culpados, mas para permitir que cada um examine sua participação na história. As escolhas têm consequências, e a responsabilidade não deve ser transferida arbitrariamente quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. Ao mesmo tempo, a democracia exige que ninguém seja condenado apenas por ter votado de maneira diferente. O julgamento das atitudes precisa se apoiar em fatos, não em ressentimentos; em responsabilidades concretas, não em generalizações.

A vitória eleitoral pode despertar alegria, mas seu significado mais profundo será determinado pelo que vier depois dela. Se produzir apenas arrogância, acomodação ou desejo de revanche, terá perdido parte de sua oportunidade histórica. Se inspirar participação, solidariedade, fiscalização do poder e compromisso com os mais vulneráveis, poderá contribuir para fortalecer a vida democrática. O resultado das urnas não encerra a história: abre um novo capítulo, cujo conteúdo dependerá das escolhas realizadas a partir daquele momento. Por isso, aqueles que celebram não precisam pedir desculpas por sua esperança, assim como aqueles que pensam diferente não devem ser privados de sua dignidade. A alegria pode ser legítima sem se tornar desprezo, e a crítica pode ser firme sem se transformar em ódio. O desafio é construir uma convivência na qual as diferenças não apaguem a humanidade compartilhada e na qual a disputa política não seja usada para justificar a destruição de vínculos que dão sentido à vida.

Que a esperança depositada nas urnas se transforme em comida na mesa, educação de qualidade, saúde acessível, trabalho digno, moradia, proteção social e oportunidades reais. Que os governantes compreendam que o poder é uma responsabilidade pública, e não uma propriedade pessoal. Que os cidadãos não abandonem sua capacidade crítica e que as instituições permaneçam comprometidas com a Constituição e os direitos fundamentais. Que a fé, quando professada, não seja um ornamento para discursos, mas uma fonte de compromisso com a justiça, a misericórdia e a dignidade de cada ser humano. No fim das contas, não se trata apenas de ver Lula vencer seus adversários, nem de transformar uma eleição em certificado de superioridade moral. Trata-se de desejar que o Brasil vença a fome, reduza suas desigualdades, enfrente o preconceito e deixe de tratar o sofrimento como se fosse uma consequência inevitável da vida dos pobres. Trata-se de construir um país no qual ninguém precise escolher entre comprar alimentos e adquirir medicamentos, no qual o trabalho permita viver com dignidade e no qual as crianças não tenham seu futuro limitado pela condição econômica em que nasceram.

É por isso que algumas pessoas se emocionam diante de uma vitória política: porque enxergam nela a possibilidade de continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Não porque imaginem que todos os problemas desapareceram, mas porque se recusam a aceitar que a injustiça seja o destino definitivo de um povo. A esperança não elimina as dificuldades; oferece razões para enfrentá-las. A democracia não garante, por si só, a justiça; oferece caminhos para buscá-la coletivamente. E a fé não substitui a ação humana; quando compreendida à luz do Evangelho, chama à responsabilidade por aquilo que acontece ao redor. Que a alegria não se converta em soberba, que as lembranças das ofensas não se transformem em vingança e que o silêncio não seja usado para ameaçar, mas para compreender a profundidade das escolhas. Que a história registre não apenas os nomes dos vencedores e dos derrotados, mas também a maneira como uma sociedade tratou seus cidadãos durante o caminho. E que, quando o tempo revelar as consequências de cada decisão, haja coragem para reconhecer os acertos, corrigir os erros e reparar as injustiças.

Porque uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de conquistar uma taça para exibir diante dos derrotados, mas de decidir que país desejam construir juntos. O verdadeiro resultado não estará apenas no número de votos, mas na capacidade de transformar a escolha democrática em responsabilidade pública, a esperança em compromisso e a fé em cuidado concreto com a vida humana. E, quando as luzes da campanha se apagarem, quando os discursos perderem o brilho e os adversários voltarem a se encontrar nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades, restará a pergunta que nenhuma urna poderá responder sozinha: o que farão com a oportunidade que receberam? 

A resposta não será escrita por um único homem, nem por um partido isolado. Será construída diariamente, nas decisões políticas, nas relações humanas e na disposição de não abandonar aqueles que mais precisam. É nesse trabalho silencioso, persistente e coletivo que a esperança poderá deixar de ser apenas sentimento e começar a se tornar realidade.

Que Deus conceda sabedoria aos que governam, consciência aos que fiscalizam, coragem aos que denunciam as injustiças e sensibilidade aos que ainda conseguem reconhecer o sofrimento alheio. E que o Brasil aprenda, finalmente, que a grandeza de uma nação não está em derrotar seus próprios filhos, mas em criar condições para que todos possam viver com liberdade, justiça, respeito e dignidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 17 de outubro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 22,15-21 - 29º Domingo do Tempo Comum

  • A quem pertence o poder?
  • Quais são os limites da autoridade humana? 
  • Como discernir a presença de Deus em uma história atravessada por impérios, desigualdades e disputas de interesses? 

As leituras proclamada  na liturgia é  a seguinte: Isaías 45,1.4-6;  Salmo 95(96)  1 Tessalonicenses 1,1-5b  que  preparam o caminho para a proclamação de Mateus 22,15-21 que ja refletimos em nosso blog em 2023 , na qual Jesus responde à armadilha sobre o pagamento do imposto a César. 

  •  Isaías 45,1.4-6:  apresenta Ciro, rei da Pérsia, como instrumento inesperado da ação divina na história
O rei persa, é chamado de ungido do Senhor, embora não pertença ao povo de Israel e não conheça plenamente o Deus que o utiliza como instrumento histórico. O contexto é o exílio babilônico e a esperança de retorno; a ascensão persa abre possibilidades de libertação para uma comunidade ferida pela deportação. A afirmação teológica é surpreendente: Deus pode agir por meio de alguém de fora das fronteiras religiosas de Israel, sem que isso transforme Ciro em divindade ou torne todos os seus atos automaticamente justos. O texto não canoniza impérios; declara que a soberania divina é maior que as fronteiras e os cálculos humanos. A leitura cristã, portanto, não deve converter essa passagem em cheque em branco para governantes contemporâneos, nem afirmar que determinado líder possui mandato divino incontestável. A ação de Deus é discernida pelos frutos de libertação e pela fidelidade à justiça, nunca pelo culto à personalidade.
  • Salmo 95(96): proclama que o Senhor reina sobre todos os povos e julga as nações com justiça.
O Salmista convoca os povos a cantar ao Senhor e proclama que ele vem governar a terra com justiça e fidelidade. A linguagem universal contrasta com a propaganda imperial, que apresentava Roma como garantia incontestável de paz e ordem. A chamada Pax Romana, embora tenha favorecido certas redes de circulação e comércio, foi sustentada também por conquista militar, tributação e hierarquias violentas. A Bíblia não permite confundir estabilidade política com justiça plena. Uma sociedade pode parecer ordenada enquanto comunidades inteiras vivem sob medo, fome e exploração. O salmo anuncia que o julgamento de Deus não é capricho arbitrário, mas a manifestação de uma ordem em que os povos são avaliados por uma justiça que não se curva aos mais poderosos. Assim, cantar que Deus reina exige perguntar quem paga o preço da prosperidade, quem é expulso dos territórios, quem tem acesso à saúde e à educação, e quais sofrimentos são escondidos para preservar a imagem de uma nação bem-sucedida.
  •  1 Tessalonicenses 1,1-5b: por sua vez, reconhece na comunidade uma fé que se manifesta em obras, um amor que se traduz em compromisso e uma esperança sustentada pela perseverança. 

Paulo, saúda uma comunidade marcada pela fé atuante, pelo amor dedicado e pela esperança perseverante. A comunidade cristã não é apresentada como plateia passiva de uma doutrina, mas como corpo cuja fé ganha forma histórica. A palavra do Evangelho chega “não somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Tessalonicenses 1,5). Essa passagem impede que a reflexão sobre César termine em um debate abstrato acerca das fronteiras institucionais. A questão decisiva é que tipo de vida comunitária nasce da fé. Uma Igreja que proclama Cristo, mas normaliza a humilhação dos pobres, a violência contra minorias, o racismo ou a corrupção, contradiz o conteúdo de sua própria proclamação. Uma comunidade que ora pela justiça, mas se cala diante de abusos praticados por aliados, transforma a esperança em ornamento. Fé, amor e esperança precisam ser verificáveis em relações concretas, cuidado compartilhado e coragem para enfrentar a mentira.

A unidade dessas leituras não está na defesa de qualquer governo, mas na afirmação de que nenhum poder terreno ocupa o lugar de Deus, nenhuma autoridade pode reivindicar soberania absoluta sobre a consciência humana e nenhuma profissão religiosa é autêntica quando se separa da justiça, da misericórdia e da responsabilidade histórica. A passagem de Mateus integra o conjunto de controvérsias que se intensificam em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de suas ações e ensinamentos no Templo. Na tradição católica romana, Mateus 22,15-21 é proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum do Ano A , enquanto Marcos 12,13-17 proclamado  na terça-feira da 9ª semana do Tempo Comum  e Lucas 20,20-26 apresentam os relatos paralelos em seus respectivos contextos evangélicos. As Igrejas históricas que seguem lecionários organizados em ciclos anuais ou plurianuais também acolhem essa narrativa, embora a data exata da proclamação varie conforme o calendário e a tradição litúrgica. O episódio não deve ser reduzido a uma resposta engenhosa sobre impostos, porque o evangelista coloca diante de nós uma disputa sobre autoridade, fidelidade, identidade e liberdade. A moeda apresentada a Jesus torna visível a estrutura política e econômica do Império Romano, enquanto a pergunta aparentemente religiosa revela uma tentativa de transformar a consciência em instrumento de uma disputa pelo poder. É nesse cenário que a palavra de Jesus atravessa os séculos e interroga tanto os governantes que pretendem ocupar o lugar de Deus quanto as comunidades religiosas que confundem fidelidade ao Evangelho com submissão a interesses políticos.

O  pré-texto narrativo ilumina a gravidade do confronto. Em Mateus 21, Jesus entra em Jerusalém aclamado pela multidão, purifica o Templo e questiona uma ordem religiosa que havia transformado o espaço de oração em lugar de exploração. Nas parábolas seguintes, denuncia lideranças que se apropriam da vinha e recusam reconhecer a responsabilidade recebida, como se observa em Mateus 21,33-46,  proclamado  na sexta-feira da segunda semana da Quaresma e no 27º Domingo do Tempo Comum no ano A,  Mateus 22,1-14, a parábola do banquete proclamado  na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum e no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A expõe a distância entre o convite de Deus e as respostas humanas. Depois desse conjunto de gestos e palavras, os adversários procuram comprometer Jesus diante das autoridades. A pergunta sobre o tributo não nasce de uma curiosidade fiscal, mas de uma estratégia para fazê-lo parecer colaborador de Roma ou inimigo do imperador. A narrativa revela como a linguagem religiosa pode ser instrumentalizada para silenciar a voz profética: em vez de buscar a verdade, os interlocutores organizam uma armadilha. O texto começa, portanto, com uma denúncia que continua atual: nem toda pergunta feita em nome da fé procura compreender; algumas pretendem controlar, deslegitimar e proteger privilégios ameaçados pela verdade. A questão era explosiva no contexto da Judeia do primeiro século. Roma mantinha seu domínio por meio de tropas, governadores, elites locais e um sistema tributário que extraía recursos de comunidades submetidas. O imposto devido ao imperador recordava diariamente a ocupação e a dependência política. Para agricultores, pescadores, artesãos e trabalhadores, tributos, dívidas e cobranças podiam significar a perda da terra, o empobrecimento doméstico e a vulnerabilidade diante de credores. A moeda não era um objeto neutro: trazia a imagem e a inscrição do governante, expressões materiais de sua autoridade. Em um mundo no qual moedas circulavam junto com símbolos religiosos e políticos, a efígie imperial podia suscitar desconforto entre judeus zelosos da proibição de fabricar imagens para culto, relacionada a Êxodo 20,4-5. Além disso, a inscrição imperial podia atribuir ao César títulos que soavam como reivindicações de honra quase sagrada. A pergunta sobre pagar ou não pagar colocava Jesus diante de um dilema: responder negativamente poderia ser denunciado como rebelião; responder afirmativamente poderia ser apresentado como legitimação da dominação estrangeira. A resposta de Jesus desmonta a armadilha sem fingir que a opressão não existe. Ele pede que lhe mostrem a moeda do tributo e pergunta de quem são a imagem e a inscrição. Seus interlocutores respondem: de César. O gesto é importante: aqueles que tentam encurralá-lo conseguem apresentar a moeda que circula dentro da ordem imperial, expondo a presença concreta dessa ordem na vida cotidiana. Jesus não foge à realidade material nem oferece uma espiritualidade abstrata. Em vez disso, desloca a discussão para a questão fundamental da pertença: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22,21). A frase não é uma autorização ilimitada para o Estado exigir qualquer coisa, nem uma separação moderna e absoluta entre religião e política. É uma sentença breve, deliberadamente incisiva, que relativiza César e impede que o poder imperial se torne absoluto. Há deveres civis legítimos, mas nenhuma autoridade humana pode reclamar a totalidade da pessoa, sua consciência, sua adoração ou sua dignidade.

A moeda carrega a imagem de César, mas a Escritura afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27). Essa associação não aparece como explicação explícita na fala de Jesus, e por isso deve ser apresentada como uma leitura teológica coerente com o conjunto bíblico, não como uma citação escondida no versículo. Se a moeda pode ser devolvida ao sistema que a emite, a vida humana não pode ser reduzida a propriedade de governantes, mercados ou instituições religiosas. Toda pessoa, inclusive a pobre, a presa, a estrangeira, a migrante e aquela considerada inimiga, carrega uma dignidade que não depende de riqueza, nacionalidade, produtividade ou aprovação social. Quando o poder exige adoração, transforma cidadãos em súditos sem voz e pessoas em instrumentos, ultrapassa seus limites. Quando a religião abençoa essa pretensão, trai o Deus que liberta escravos do Egito e escuta o clamor dos oprimidos, como recordam Êxodo 3,7-10 e Deuteronômio 10,17-19.

Os relatos sinóticos oferecem nuances que enriquecem a interpretação: 

  •  Marcos 12,13-17 apresenta a pergunta e a resposta em um ritmo direto, e termina dizendo que os interlocutores ficaram admirados com Jesus. 
  •  Lucas 20,20-26 destaca a vigilância dos adversários, que enviam espiões fingindo-se justos para entregar Jesus ao poder do governador; ao final, eles não conseguem apanhá-lo em suas palavras diante do povo

A fé pode ser capturada por líderes religiosos ou políticos que se apresentam como representantes exclusivos de Deus e exigem dos fiéis lealdade pessoal a este ou àquele político, como se a fidelidade ao Evangelho dependesse da submissão a um projeto de poder. Bispos, padres, pastores ou quaisquer outras lideranças que concentram decisões, desvalorizam a consciência do povo e transformam ministérios de serviço em espaços de privilégio e dominação acabam traindo a própria missão que afirmam defender. A manipulação religiosa utiliza versículos bíblicos isolados para legitimar projetos políticos, enriquecer dirigentes, conquistar influência ou silenciar denúncias de abuso. Embriagadas pelo próprio prestígio, essas lideranças passam a acreditar que são a moeda mais valiosa da sociedade e perdem a capacidade de enxergar a realidade para além dos próprios interesses. Quando símbolos cristãos são associados à defesa do autoritarismo, à perseguição de adversários ou ao desprezo pelos pobres, a imagem de Deus é instrumentalizada para encobrir a imagem ferida do próximo. Jesus não concedeu a nenhuma religião ou Igreja uma procuração divina para dominar a esfera pública; pelo contrário, chamou suas comunidades a serem testemunhas da verdade que liberta, da justiça que restaura e do amor que não se curva aos privilégios. Isso não significa que os cristãos devam abandonar a política, demonizar as lideranças ou renunciar à participação na vida pública. Significa, antes, que essa participação precisa ser crítica, consciente, plural e comprometida com a dignidade humana, sem transformar partidos em igrejas, políticos em salvadores ou líderes religiosos em donos da consciência alheia. Afinal, o Evangelho não foi anunciado para colocar Deus a serviço do poder, mas para submeter todo poder ao julgamento da justiça, da misericórdia e da verdade.

A conversão exigida pelo Evangelho começa quando permitimos que a Palavra de Deus desmascare as intenções escondidas por trás de nossas escolhas e questione as lealdades que podem ocupar o lugar da própria consciência. A experiência de Jesus diante daqueles que se aproximaram com palavras aparentemente respeitosas, mas movidos pela intenção de colocá-lo à prova, revela uma contradição profundamente humana: nem toda pergunta nasce da busca sincera pela verdade, assim como nem toda profissão de fé expressa fidelidade a Deus. Às vezes, a linguagem religiosa serve para disfarçar ambições, proteger privilégios e deslegitimar quem ameaça interesses estabelecidos. Essa realidade continua presente quando a fé é instrumentalizada para manipular consciências, conquistar apoio eleitoral ou transformar determinadas lideranças em referências incontestáveis. A conversão começa quando deixamos de perguntar apenas se estamos do lado certo e passamos a examinar se nossas escolhas estão realmente comprometidas com a verdade, a justiça e a dignidade humana. 

  • No âmbito pessoal, essa transformação exige que examinemos os ídolos do nosso tempo, aos quais entregamos a atenção, os afetos, os desejos e, muitas vezes, a própria consciência.

 É necessário perguntar o que orienta nossas escolhas: a justiça ou a conveniência, a solidariedade ou o egoísmo, a verdade ou a necessidade de defender aqueles com quem nos identificamos politicamente? Quantas vezes condenamos a corrupção dos adversários, mas relativizamos os desvios dos nossos aliados? Quantas vezes denunciamos a hipocrisia alheia enquanto protegemos nossos próprios preconceitos? Quando a lealdade a um partido, a um governante ou a uma liderança religiosa se torna mais importante do que a verdade, a consciência corre o risco de se transformar em instrumento de interesses alheios. A conversão cristã rompe essa servidão interior, porque nenhuma pessoa ou instituição pode reivindicar autoridade absoluta sobre a consciência humana. Como ensina Paulo, não devemos nos conformar com a mentalidade deste mundo, mas transformar nossa maneira de pensar para discernir a vontade de Deus (Romanos 12,2). A fé amadurece quando somos capazes de reconhecer os erros daqueles que admiramos, sem esconder a verdade para preservar reputações.

  • No âmbito comunitário, essa conversão exige que as Igrejas deixem de ser espaços de aparência religiosa e se tornem comunidades concretas de acolhimento, participação, transparência e cuidado. 
Não basta proclamar o amor ao próximo quando, na prática, pessoas feridas são silenciadas, vítimas de abuso são desacreditadas, mulheres são excluídas de decisões que afetam suas vidas e os recursos comunitários são administrados sem a devida prestação de contas. Uma comunidade verdadeiramente evangélica não teme a escuta, não utiliza a autoridade espiritual para intimidar e não confunde obediência a Deus com submissão incondicional a dirigentes humanos. Bispos, padres, pastores e outras lideranças recebem a missão de servir ao povo e favorecer o encontro com Deus, não de controlar consciências. Jesus apresenta um critério inequívoco para a vida comunitária ao ensinar que a verdadeira grandeza se manifesta no serviço, e não na dominação (Mateus 20,25-28). A credibilidade de uma liderança cristã deve ser reconhecida pela capacidade de acolher, proteger os vulneráveis, prestar contas e assumir os próprios erros. Quando uma instituição protege sua reputação acima da dignidade humana, corre o risco de se tornar cúmplice da injustiça que deveria combater.

  • No âmbito social, a conversão assume a forma de responsabilidade cidadã, compromisso com o bem comum e participação consciente na transformação das estruturas que produzem desigualdade e sofrimento.

 A fé cristã não exige que todos pensem da mesma maneira, nem determina que os cidadãos abandonem suas convicções políticas, mas exige que nenhuma preferência partidária seja colocada acima da dignidade humana e da verdade. Isso implica combater a corrupção independentemente de quem a pratique, defender políticas públicas que protejam a vida, promover condições dignas de trabalho, ampliar o acesso à saúde e à educação, enfrentar a fome e a pobreza e denunciar a violência que seleciona suas vítimas conforme a classe social, a cor da pele, o território onde vivem ou a religião que professam. A desigualdade não é apenas uma estatística econômica, mas uma realidade que atravessa corpos, famílias e gerações, restringindo oportunidades e submetendo milhões de pessoas a condições incompatíveis com sua dignidade. A tradição profética jamais tratou essas feridas como assuntos estranhos à fé. Isaías denuncia a injustiça e exige a defesa dos oprimidos (Isaías 1,16-17); Amós rejeita um culto que convive tranquilamente com a exploração dos pobres (Amós 5,21-24); e Miqueias recorda que Deus pede justiça, misericórdia e humildade, não uma religiosidade preocupada apenas com aparências (Miqueias 6,8).

Essa responsabilidade também nos obriga a reconhecer que a organização da vida coletiva precisa estar submetida a princípios éticos e à defesa dos direitos fundamentais. Governantes são agentes públicos, partidos são organizações políticas e lideranças religiosas são pessoas sujeitas ao discernimento crítico e à responsabilidade por seus atos. Nenhum deles pode ser transformado em objeto de adoração ou apresentado como representante exclusivo da vontade divina. Quando símbolos cristãos são utilizados para legitimar o autoritarismo, justificar a perseguição de adversários ou desprezar os pobres, a religião deixa de questionar os ídolos e passa a colaborar com sua fabricação. A fé é então reduzida a uma identidade de grupo, utilizada para dividir a sociedade entre os supostamente escolhidos por Deus e aqueles considerados indignos de respeito. Entretanto, o Evangelho não autoriza ninguém a confundir preferências políticas com a vontade divina. A fidelidade cristã exige discernimento, liberdade de consciência e disposição para denunciar a injustiça mesmo quando ela é praticada por pessoas que compartilham nossa linguagem religiosa. A verdade não se torna mentira porque prejudica nossos aliados, assim como uma injustiça não se transforma em justiça porque seu autor invoca o nome de Deus. O mandamento do amor ao próximo, reafirmado por Jesus em Mateus 22,39, oferece um critério decisivo para esse discernimento. Amar não significa apenas experimentar compaixão, oferecer uma esmola ocasional ou pronunciar declarações piedosas durante uma celebração. Significa reconhecer no outro uma dignidade que impõe responsabilidades, mesmo quando suas escolhas, sua origem ou suas convicções são diferentes das nossas. A parábola do bom samaritano (Lucas 10,25-37) mostra que o próximo não é definido pelas fronteiras de um grupo religioso, pelas afinidades culturais ou pelas conveniências sociais, mas pela disposição concreta de interromper o próprio caminho para cuidar de quem sofre. Essa exigência desafia uma sociedade habituada a selecionar quais vidas merecem compaixão e quais podem ser abandonadas à própria sorte. Também questiona uma religiosidade que se emociona diante de imagens de sofrimento, mas permanece indiferente às causas que o perpetuam. A justiça bíblica não dispensa a caridade, mas vai além da assistência emergencial: procura reparar danos, restaurar direitos, transformar relações e enfrentar as condições que tornam o sofrimento previsível e recorrente. Dar alimento a quem tem fome é indispensável; trabalhar para que ninguém seja condenado à fome também faz parte da responsabilidade ética de uma sociedade.

Essa compreensão impede que a responsabilidade individual seja utilizada como desculpa para ignorar as injustiças estruturais, assim como impede que a crítica social sirva de justificativa para fugir do exame da própria conduta. A conversão pessoal sem compromisso com o próximo pode degenerar em espiritualidade narcisista; a participação política sem princípios éticos pode transformar-se em mera disputa de interesses; e a religião sem autocrítica pode tornar-se instrumento de manipulação. Por isso, a fé precisa manter unidos o exame da consciência, a transformação das comunidades e a defesa do bem comum. O profeta Amós não separa a adoração da justiça, e Jesus não permite que a devoção seja utilizada para ocultar a dureza do coração. A verdadeira espiritualidade não exige que fechemos os olhos para a realidade, mas que aprendamos a enxergá-la sem os filtros do preconceito, da conveniência e do interesse. Uma comunidade que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa perguntar continuamente quem é acolhido por suas decisões, quem é silenciado por suas estruturas e quem continua pagando o preço de privilégios que outros se recusam a abandonar. Converter-se, portanto, é permitir que o Evangelho ultrapasse as paredes dos templos, alcance as decisões cotidianas e ilumine as estruturas políticas, econômicas e religiosas que moldam nossa convivência. É abandonar a falsa segurança de uma fé que pretende estar ao lado de Deus sem se comprometer com aqueles cuja dignidade é negada. Uma Igreja fiel a Jesus não existe para proteger privilégios, mas para testemunhar a justiça, a misericórdia e a solidariedade. Da mesma forma, uma sociedade mais justa não nasce apenas de discursos moralizantes, mas da disposição de rever prioridades, enfrentar desigualdades, responsabilizar os culpados e criar condições para que os direitos fundamentais sejam efetivamente garantidos. A fé não pode ser reduzida à defesa de uma liderança, à exaltação de uma bandeira ou à repetição de palavras sagradas. Seu critério mais profundo está na capacidade de produzir frutos de justiça e de amor. Reconhecer a soberania de Deus significa recusar que a vida humana seja sacrificada no altar do dinheiro, da ambição ou da indiferença. Onde essa convicção se transforma em prática, a conversão deixa de ser uma palavra abstrata e se torna uma força concreta de transformação pessoal, comunitária e social

O  autor da peric6 afirma que os adversários de Jesus ficaram admirados com sua resposta e se retiraram (Mt 22,22). Mas a admiração não significa conversão. É possível reconhecer a sabedoria de Jesus, citar suas palavras e continuar sustentando estruturas que ferem os pequenos. Sua resposta não foi apenas uma demonstração de inteligência, mas uma provocação que desmascara as armadilhas do poder e questiona nossas alianças, nossos privilégios e nossas cumplicidades. O Evangelho exige mais do que admiração: exige conversão, uma mudança de consciência que se traduza em escolhas concretas, no enfrentamento das injustiças e no compromisso com a dignidade humana. Ao afirmar: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), Jesus não separa a fé da vida pública, nem coloca Deus e César no mesmo nível. No contexto da dominação romana, a moeda trazia a imagem do imperador e expressava sua autoridade. Jesus reconhece as responsabilidades da vida em sociedade, mas estabelece um limite decisivo: César não é Deus, e nenhum poder humano pode exigir fidelidade absoluta ou colocar seus interesses acima da dignidade humana. A autoridade política tem seus deveres e limites; Deus permanece como referência última para julgar suas ações. Essa palavra continua profundamente atual. Quando a religião é utilizada para legitimar governantes, proteger privilégios ou silenciar os pobres, o Evangelho é colocado a serviço de interesses que deveria questionar. Não basta invocar o nome de Deus, ostentar símbolos cristãos ou defender valores religiosos; é preciso perguntar se nossas escolhas promovem a justiça, protegem os vulneráveis e respeitam a vida. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando falam em seu nome.

O fio que une as leituras deste domingo é a soberania de Deus, que relativiza o poder dos impérios e se manifesta na libertação, na justiça e na fé vivida no amor. 

  1. Na primeira leitura (Is 45,1-6), Ciro, rei da Pérsia e governante estrangeiro, é chamado por Deus para abrir caminhos de libertação ao povo exilado. O texto rompe a ideia de que Deus atua apenas por meio dos que pertencem à comunidade religiosa: até um soberano estrangeiro pode servir a um propósito que ultrapassa seus próprios interesses. O poder de Ciro, portanto, não é absoluto; ele próprio se encontra dentro de uma história cujo horizonte último pertence a Deus. Essa perspectiva prepara a pergunta do Evangelho: se até um imperador pode ser instrumento, como poderia algum governante ocupar o lugar de Deus?
  2. O Salmo 95 (96) aprofunda essa afirmação ao proclamar que o Senhor vem julgar a terra com justiça e os povos com fidelidade. Se Isaías mostra que Deus pode conduzir a história por caminhos inesperados, o salmo apresenta o critério pelo qual todo poder deve ser avaliado: a justiça. O julgamento divino não confirma automaticamente os interesses dos governantes; ao contrário, coloca-os sob o exame de uma justiça que não se curva à força, à riqueza ou ao prestígio. Em Mateus, essa mesma lógica impede que César seja tratado como autoridade ilimitada: há responsabilidades humanas legítimas, mas nenhuma delas está acima de Deus e de sua exigência de justiça.
  3. Na segunda leitura (1Ts 1,1-5), Paulo mostra como essa soberania se traduz na vida cotidiana da comunidade cristã. Ele reconhece a atuação da fé, o esforço do amor e a firmeza da esperança. 
Assim, aquilo que Isaías anuncia na história e o salmo proclama como julgamento justo deve ganhar forma concreta nas relações entre as pessoas. A fé não se limita a reconhecer verbalmente a autoridade de Deus; ela transforma a maneira de viver, trabalhar, amar e esperar. A comunidade cristã torna-se testemunha do senhorio de Deus não por disputar o poder com os impérios, mas por viver segundo uma lógica diferente: a do amor, da solidariedade e da esperança ativa. As leituras, portanto, não são temas independentes. Isaías revela que Deus conduz a história para além dos interesses dos poderosos; o salmo afirma que toda autoridade será julgada pela justiça; Paulo mostra que essa fé se torna prática no amor; e Jesus estabelece o limite decisivo: César não é Deus. O fio condutor vai da ação libertadora de Deus à justiça que orienta a história e chega à responsabilidade concreta de quem professa a fé. A pergunta que atravessa toda a liturgia é se nossas escolhas reconhecem verdadeiramente a soberania divina ou se, em nome da religião, acabamos legitimando poderes que oprimem e excluem. Por isso, a resposta de Jesus continua a exigir conversão. Não basta admirar sua sabedoria, frequentar celebrações ou invocar o nome de Deus; é necessário rever nossas alianças, denunciar as estruturas que produzem exclusão e defender a dignidade dos pequenos. Uma política que sacrifica os pobres e uma religião que se cala diante da injustiça contradizem o projeto de Deus, mesmo quando se apresentam revestidas de linguagem sagrada. A fé cristã não nos retira da realidade: responsabiliza-nos por ela..No fim, a moeda pode carregar a imagem do imperador, mas nenhum império é dono da vida humana. A moeda é de César, mas o povo é de Deus!
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 3, 1-6

O Evangelho segundo Marcos nos conduz, em Mc 3,1-6, a uma das cenas mais densas, inquietantes e reveladoras do ministério público de Jesus: a cura do homem da mão ressequida dentro da sinagoga. Trata-se de um episódio curto em extensão, m
as de profundidade teológica decisiva, 9no qual se condensam tensões centrais do Evangelho: vida e norma, misericórdia e legalismo, revelação e endurecimento do coração. A liturgia da Igreja proclama este texto em dois momentos distintos e, ao mesmo tempo, profundamente interligados: na quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e no 9º Domingo do Tempo Comum, quando ele aparece inseparável da narrativa anterior de Mc 2,23–28, o episódio das espigas colhidas em dia de sábado.

Essa recorrência litúrgica não é casual nem redundante. Ela funciona como um gesto pedagógico da própria Igreja, que nos convida a retornar ao texto, a habitá-lo com mais atenção e a permitir que ele amadureça na escuta comunitária, revelando camadas cada vez mais profundas de sentido. O que está em jogo não é uma mera disputa jurídica sobre a observância do sábado, mas a manifestação de um conflito estrutural: o embate entre o projeto libertador de Deus, centrado na vida e na dignidade humana, e um sistema religioso que, ao absolutizar a norma, perdeu a capacidade de reconhecer a presença de Deus justamente onde a vida clama por restauração.

Nesse cenário, a sinagoga deixa de ser apenas um espaço de culto e torna-se o lugar simbólico onde se confrontam duas teologias, duas imagens de Deus e duas maneiras de compreender a fidelidade. Jesus não apenas cura uma mão atrofiada; Ele desvela a atrofia espiritual de um modelo religioso incapaz de perceber que o sábado existe para a vida, e não a vida para o sábado. É esse deslocamento radical — do legalismo para a misericórdia, da norma para o humano, do controle para a compaixão — que faz de Mc 3,1-6 um texto permanentemente atual, provocativo e decisivo para o discernimento da fé vivida no cotidiano.

Esse conflito começa a ser delineado já em Mc 2,23–28 proclamado ontem, quando os discípulos colhem espigas em dia de sábado porque têm fome. A fome, aqui, não é um detalhe narrativo, mas uma chave hermenêutica decisiva. Na tradição bíblica, a fome expressa a vulnerabilidade humana, o limite constitutivo da criatura, sua dependência radical. Jesus não espiritualiza essa necessidade nem a transforma em motivo de acusação moral. Ao contrário, ele a assume como lugar teológico e recorda a história de Davi, que, diante da urgência da vida, comeu os pães da proposição, reservados aos sacerdotes (1Sm 21,1-6). Com esse gesto interpretativo, Jesus se insere na tradição mais profunda da Escritura, onde a Lei jamais foi pensada como instrumento de morte, mas como caminho de vida. A afirmação “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27) emerge, assim, como síntese antropológica e teológica de grande alcance: Deus não cria normas para esmagar a criatura, mas para torná-la plenamente humana.

É exatamente esse horizonte que ilumina a leitura de Mc 3,1-6. Jesus entra novamente na sinagoga. O advérbio não é neutro. Ele indica perseverança, fidelidade e coragem. Mesmo sabendo que ali será observado, julgado e possivelmente condenado, Jesus não abandona o espaço religioso. A sinagoga é o lugar da Palavra interpretada, da memória da Aliança e da identidade do povo. É justamente nesse espaço que a tensão se torna mais visível. No centro da assembleia está um homem com a mão ressequida. Marcos não lhe dá nome, como se quisesse sublinhar que ele representa todos os anônimos da história, definidos não pelo que são, mas pelo que lhes falta. Na antropologia bíblica, a mão simboliza ação, trabalho, poder, bênção e responsabilidade. Com as mãos, o ser humano constrói, acolhe, cria laços e transforma a realidade. Uma mão ressequida é, portanto, uma existência bloqueada, impedida de agir e de participar plenamente da vida social, econômica e religiosa.

A presença desse homem na sinagoga revela uma contradição inquietante: ele está no espaço da fé, mas permanece com a vida paralisada. A religião convive com a dor sem se deixar afetar por ela. O texto afirma que alguns observavam Jesus para ver se ele curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem. Trata-se de um olhar vigilante, não contemplativo. Não é um olhar que busca compreender, mas que procura motivo para condenar. A fé, assim, degrada-se em tribunal. Nesse contexto, Jesus toma a iniciativa e chama o homem para o centro. O gesto é profundamente simbólico: aquilo que era marginal se torna central, aquilo que era invisível passa a ser visto. A pergunta que Jesus dirige aos presentes 

“É permitido, no sábado, fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou matar?”

Expondo  a perversão de um sistema que, em nome da Lei, tolera a morte. O silêncio dos adversários é revelador. Não é silêncio de escuta, mas de endurecimento do coração.

Marcos utiliza deliberadamente a categoria bíblica da dureza do coração, evocando a memória do faraó no Êxodo, cuja resistência obstinada se opunha ao projeto libertador de Deus (Ex 7–11). Ao aplicar essa imagem aos líderes religiosos, o evangelista denuncia um deslocamento trágico: aqueles que deveriam guardar a memória da libertação tornam-se seus negadores. O olhar de Jesus, descrito como mistura de indignação e tristeza, revela a dor de Deus diante de uma religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. A cura acontece a partir de uma ordem simples: “Estende a mão.” Não há gestos espetaculares nem palavras mágicas. O homem é convidado a um movimento de confiança, a expor aquilo que estava retraído, paralisado, talvez escondido por vergonha ou medo. A restauração acontece no momento em que ele aceita sair da imobilidade.

Esse gesto, aparentemente simples, carrega profunda densidade simbólica e antropológica. A mão ressequida não é apenas um membro doente, mas expressão de uma corporeidade ferida pela exclusão. Na Escritura, o corpo é lugar da revelação. Deus cria com suas mãos (Sl 8,4), liberta com mão forte e braço estendido (Ex 6,6) e abençoa pela imposição das mãos. Ter a mão ressequida é ter a história inscrita no corpo, marcada por estruturas que produzem impotência e silenciamento. Ao curar essa mão em dia de sábado, Jesus revela que a salvação não é abstrata nem desencarnada. Ela passa pelo corpo concreto, situado, ferido. Psicologicamente, o gesto de estender a mão implica superar o medo e a interiorização da exclusão. Teologicamente, proclama que o Reino de Deus começa quando o corpo recupera sua dignidade e sua capacidade de agir na história.

Nos paralelos sinóticos, esse simbolismo se amplia e se aprofunda. Mateus (12,9-14) acrescenta a imagem da ovelha caída no poço, evocando o cuidado concreto com a vida mesmo em dia sagrado. Lucas (6,6-11) especifica que a mão era a direita, intensificando ainda mais a dimensão simbólica da perda, já que a mão direita estava associada à força, à honra e à ação pública. Em todos os relatos, a cura provoca reação violenta. A defesa da Lei se converte em projeto de morte. Marcos é particularmente incisivo ao narrar a aliança entre fariseus e herodianos, grupos distintos, mas unidos na eliminação daquele que devolve vida. A restauração do corpo ameaça estruturas de poder.

Esse conflito só pode ser compreendido plenamente quando se aprofunda o sentido do sábado como tempo messiânico. Na criação, o sábado não é mera interrupção do trabalho, mas coroamento da obra de Deus, quando a vida é contemplada como boa e suficiente (Gn 2,1-3). No Deuteronômio, ele se torna memorial da libertação do Egito (Dt 5,12-15). Guardar o sábado é afirmar que ninguém nasceu para ser escravo. Nos profetas, o sábado se transforma em critério de autenticidade da fé, inseparável da justiça e da libertação dos oprimidos (Is 58). Em Jesus, esse horizonte se radicaliza: o sábado deixa de ser apenas memória do passado e se torna antecipação do Reino. Curar em dia de sábado não é violar a Lei, mas revelar seu sentido escatológico. Onde a vida é restaurada, ali o sábado se cumpre.

A sinagoga, cenário dessa cura, emerge então como espaço de conflito hermenêutico. Ela é o lugar da interpretação da Escritura, da formação da consciência coletiva. É ali que se confrontam duas leituras da Lei: uma hermenêutica do controle, que vigia e exclui, e uma hermenêutica da misericórdia, que coloca a vida concreta como critério. Jesus não rompe com a sinagoga, mas a atravessa criticamente, revelando sua vocação original. Esse conflito atravessa toda a história da fé e chega até a Igreja contemporânea.

O Concílio Vaticano II procurou responder a esse desafio ao afirmar que a Palavra de Deus deve ser lida à luz dos sinais dos tempos (GS 4) e que todo o povo de Deus participa da função profética de Cristo (LG 12). Na tradição latino-americana, os documentos do CELAM aprofundaram essa perspectiva ao articular fé e vida, denunciando estruturas de pecado e assumindo a opção preferencial pelos pobres. A mão ressequida torna-se, assim, símbolo histórico dos corpos feridos da América Latina, e o sábado messiânico, anúncio de libertação concreta.

À luz desse Evangelho, tornam-se evidentes as contradições das teologias que transformam a fé em mercadoria. A teologia da prosperidade converte o sábado em vitrine de sucesso e a mão em instrumento de consumo. A teologia do domínio sacraliza o poder e ignora os corpos esmagados pelo sistema. O individualismo espiritual esvazia a dimensão comunitária do sábado. O clericalismo endurece o coração institucional e impede a escuta do sofrimento real do povo. Todas essas formas de religiosidade entram em choque com o gesto simples e radical de Jesus que devolve vida a quem estava paralisado.

O desfecho do texto, com a decisão de matar Jesus, revela o preço dessa hermenêutica da vida. A cruz começa a ser erguida no momento em que a mão é restaurada. Esse paradoxo atravessa a história cristã e permanece atual. Sempre que a religião escolhe a vida, ela entra em conflito com sistemas que lucram com a morte. O sábado de Jesus não é o da imobilidade, mas o da recriação contínua. É o tempo em que Deus insiste em refazer a criação ferida, começando pelos corpos e pelas instituições chamadas à conversão.

Assim, Marcos 3,1-6 permanece como um texto de força profética inesgotável, capaz de atravessar os séculos e desinstalar toda fé acomodada. Ele nos provoca a discernir que sábado escolhemos celebrar, que mãos estamos realmente dispostos a estender e que hermenêutica sustenta ou trai  nossa adesão ao Evangelho. Não se trata de abolir a Lei, mas de libertá-la de leituras que a tornaram instrumento de controle, exclusão e morte. O Reino de Deus irrompe ali onde a vida concreta é colocada no centro, onde a Palavra recupera sua vocação originária de libertar e não de oprimir, e onde a misericórdia deixa de ser um adorno piedoso para tornar-se o critério último da fidelidade a Deus. Fora disso, resta apenas um sábado vazio, mãos fechadas e uma religião que, em nome de Deus, se distancia perigosamente do próprio Deus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano