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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,12-19

O Evangelho proclamado  na Terça-feira da  23ª semana do Tempo Comum (Lucas 6,12-19) é uma passagem que também aparece em outras ocasiões da liturgia, sobretudo quando a Igreja celebra a memória dos santos apóstolos, pois trata diretamente da escolha dos Doze. Essa narrativa é ao mesmo tempo simples e grandiosa: Jesus passa a noite em oração, escolhe aqueles que, pelo nome, se tornarão testemunhas de sua vida e de sua obra, e desce da montanha para se encontrar com uma multidão de pessoas vindas de toda parte, que o escutam, buscam sua cura e experimentam a força que dele saía e que a todos curava. Não é apenas uma memória distante; é um acontecimento que fala à vida da Igreja em todos os tempos, porque nela se radica a origem da comunidade missionária e participativa que somos chamados a ser.

O primeiro elemento que chama atenção é que Jesus não age de modo precipitado nem isolado. Antes de tomar decisões, retira-se para rezar. Lucas sublinha com frequência essa dimensão orante de Jesus, mais até do que Marcos e Mateus. Aqui vemos que ele passa a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Isso remete imediatamente à necessidade de discernimento: a escolha dos Doze não é resultado de estratégia política, nem fruto de cálculos humanos, mas brota do diálogo profundo com o Pai. Nisso se manifesta uma chave hermenêutica fundamental: o Reino não é obra de indivíduos geniais nem de líderes carismáticos autossuficientes, mas nasce da obediência ao desígnio de Deus e se concretiza em comunidade. É importante notar que, em diversas passagens do Antigo Testamento, as grandes decisões são precedidas por escuta e oração: Samuel, ainda menino, aprende a responder “Fala, Senhor, teu servo escuta” (1Sm 3,10); Moisés permanece no Sinai em diálogo com Deus antes de guiar o povo (Ex 24,18). Jesus, novo Moisés, reatualiza e plenifica esse dinamismo: sobe ao monte não para receber tábuas de pedra, mas para se oferecer ao Pai e deixar-se conduzir por Ele.

Na tradição sinótica, encontramos paralelos que iluminam essa cena. Marcos 3,13-19 mostra Jesus subindo ao monte e chamando os que ele quis, instituindo doze para estarem com ele e para serem enviados a pregar e expulsar demônios. Mateus 10,1-4, por sua vez, enfatiza que lhes deu autoridade sobre espíritos impuros e sobre doenças, vinculando a missão diretamente à experiência do envio. Lucas, diferentemente, ressalta primeiro a oração de Jesus e depois o chamado pelo nome, destacando a dimensão da relação pessoal e comunitária. Há ainda um paralelo mais amplo com a experiência de Moisés no Sinai: ele sobe à montanha para estar diante de Deus, recebe as tábuas da Lei e desce para o povo. Jesus, novo Moisés, sobe para rezar, desce para chamar e formar um novo povo, sinal da nova aliança, não fundada em pedras, mas em pessoas concretas, frágeis e chamadas pelo nome.

Essa escolha pelo nome é significativa antropologicamente e biblicamente. O nome, na tradição semita, não é mero rótulo, mas identidade, vocação, missão. Chamar alguém pelo nome é reconhecer sua singularidade e dignidade. Isaías já havia proclamado em nome de Deus: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). O próprio Jesus revela em João 10,3 que o bom pastor “chama as suas ovelhas pelo nome”. O chamado pelo nome é também promessa de futuro, como no caso de Abraão, que recebe um novo nome como sinal de missão (Gn 17,5). Ao nomear Simão como Pedro, Jesus confere uma missão específica; ao escolher Judas, mesmo sabendo de sua traição futura, mostra que a graça de Deus passa também pelo mistério da liberdade humana. Isso revela que a comunidade não é formada por perfeitos, mas por homens concretos, com suas luzes e sombras, chamados a caminhar juntos. Davi, escolhido entre os filhos de Jessé, não era o mais forte nem o mais promissor segundo critérios humanos, mas Deus viu seu coração (1Sm 16,7). Assim também acontece com os apóstolos: a eleição não se baseia em currículos, mas em confiança divina.

Aqui emerge também uma crítica necessária às tendências individualistas de nossa época. Quantas vezes, em nossas pastorais e comunidades, repetimos a lógica da autossuficiência, acreditando que sozinhos podemos resolver tudo, e que os outros mais atrapalham do que ajudam. Essa mentalidade gera clericalismo, em que o padre se vê como dono da paróquia; gera pastoralismo individualista, em que líderes leigos concentram poder e não permitem participação; gera espiritualidades de mercado, em que pregadores digitais buscam likes e não comunhão. Jesus rompe essa lógica: ele poderia, de fato, ter realizado sua missão sozinho, mas escolhe o caminho da partilha e da comunhão. A Igreja é, por essência, sinodal, comunitária, participativa, como recorda o Vaticano II: “Aprouve a Deus salvar e santificar os homens não individualmente e separados de qualquer ligação, mas constituí-los em povo que O conhecesse em verdade e O servisse em santidade” (Lumen Gentium 9). O Papa Francisco retoma esse ensinamento em Evangelii Gaudium (n. 31), ao afirmar que não podemos reduzir a missão a uma elite clerical, mas é necessário abrir espaço para os leigos, para as mulheres, para todos os batizados corresponsáveis. E em Fratelli Tutti (n. 95-96), denuncia os fechamentos grupais e as falsas seguranças que nos impedem de construir fraternidade universal.

Do ponto de vista psicológico, podemos perceber aqui um ensinamento profundo. A tentação do perfeccionismo, da centralização e do controle absoluto nasce muitas vezes da insegurança e da incapacidade de confiar no outro. Projetamos nos outros nossas próprias sombras e acabamos excluindo-os em nome de uma pretensa eficiência. A escolha de Jesus desconstrói isso: ele confia em pessoas frágeis, forma um grupo heterogêneo, dá poder e envia. É um ato de confiança radical na ação do Espírito. Como diria Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermo 169). Ou seja, Deus nos chama a colaborar, mesmo sendo imperfeitos. Esse ensinamento tem também uma dimensão pedagógica: Jesus não escolhe pessoas prontas, mas acompanha, educa, corrige, forma ao longo do caminho. É um modelo de liderança servidora que confia no processo e não descarta quem falha.

Do ponto de vista sociológico, a escolha dos Doze tem um valor simbólico fundamental. O número doze remete às doze tribos de Israel, indicando que a comunidade de Jesus é o novo Israel, não substitutivo, mas plenitude da promessa. É um gesto de refundação da identidade do povo de Deus, agora aberto a todos os povos. O texto de Lucas mostra a multidão vinda não apenas da Judeia e de Jerusalém, mas também do litoral de Tiro e Sidônia, regiões estrangeiras. Já aí se insinua a dimensão universal da missão. O Reino não é propriedade de uma etnia ou de uma tradição religiosa fechada, mas dom de Deus para todos. Aqui também somos convidados a criticar toda forma de teologia do domínio que reduz o cristianismo a bandeira política de uma nação ou grupo ideológico. A Igreja não é partido nem milícia; é sacramento universal de salvação, sinal de unidade do gênero humano (Gaudium et Spes 42). Isso se torna ainda mais urgente quando assistimos à apropriação da fé por projetos de extrema-direita, que usam símbolos cristãos para legitimar exclusão, ódio e violência.

Quando Lucas afirma que “toda a multidão procurava tocar em Jesus, porque dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19), encontramos um ponto de contato com a dimensão antropológica da fé. O ser humano busca cura, não apenas física, mas integral: deseja ser reconhecido, reintegrado, encontrar sentido e dignidade. O toque simboliza proximidade, confiança, vulnerabilidade. Em Marcos 5, vemos a hemorroíssa que toca o manto de Jesus e é curada. Em Mateus 14,36, muitos o tocavam e eram curados. O toque é linguagem de afeto e de fé. Em tempos de relações virtuais e de individualismos exacerbados, esse evangelho denuncia a falta de proximidade que corrói a vida comunitária e cria seres humanos isolados, presos em suas bolhas digitais. A cura de Jesus devolve pertença e identidade: quem estava excluído por doença, por possessão, por impureza, agora é reintegrado no povo de Deus.

A patrística percebeu essa dimensão com profundidade. Orígenes afirmava que a força que saía de Jesus era o próprio Logos, que curava não apenas corpos, mas também inteligências enfermas pela mentira e vontades adoecidas pelo pecado. São João Crisóstomo insistia que os apóstolos foram escolhidos não por seus méritos, mas para que ficasse claro que era Deus quem operava por meio deles. Essa leitura patrística reforça que a comunidade e a missão não são obras de homens geniais, mas da graça de Deus que age em vasos de barro (cf. 2Cor 4,7). Santo Irineu, por sua vez, via nos Doze um ícone da recapitulação: como Israel foi formado pelas doze tribos, assim a Igreja nasce dos Doze apóstolos para recapitular a humanidade inteira em Cristo.

A filosofia nos ajuda a compreender o alcance da escolha comunitária. Emmanuel Levinas diria que a verdadeira transcendência se manifesta no rosto do outro, que me interpela e me retira do meu egocentrismo. Jesus, ao escolher os Doze, abre um horizonte ético: não posso salvar-me sozinho, mas somente com e pelos outros. A modernidade individualista, marcada pelo “cogito ergo sum” cartesiano, precisa ser convertida para o “sou porque somos”, que ressoa tanto na filosofia africana do ubuntu quanto na antropologia bíblica. Dietrich Bonhoeffer, mártir do nazismo, lembrava que “a Igreja só é Igreja quando existe para os outros”, e isso ecoa o gesto de Jesus que chama colaboradores e desce para servir as multidões.

A sociologia, por sua vez, alerta para os perigos de transformar a fé em mercadoria. As igrejas da prosperidade vendem bênçãos, prometem sucesso financeiro e fazem da religião uma empresa. Isso perverte o sentido do evangelho, que não é comércio, mas dom gratuito. Paulo já advertia contra tais falsificadores da palavra (2Cor 2,17). A crítica de Jesus aos vendedores do templo permanece atual: quando a fé se torna mercado, perde-se a gratuidade e a comunhão. A religião espetáculo, feita de palcos, holofotes e slogans motivacionais, cria “apóstolos-influencers” que substituem a cruz por câmeras e curtidas. Em contrapartida, o evangelho de hoje mostra um Jesus que desce da montanha não para brilhar, mas para tocar feridas e curar. Não é palco, mas encontro; não é performance, mas proximidade.

A teologia do domínio, que transforma o cristianismo em projeto de poder político, também é denunciada pelo evangelho de hoje. Jesus escolhe discípulos para anunciar, curar e libertar, não para conquistar territórios ou impor leis. “Entre vós não deve ser assim: quem quiser ser o maior, seja aquele que serve” (Mc 10,43). A Igreja trai sua identidade quando se alia a regimes autoritários, quando busca privilégios em vez de serviço. A instrumentalização política da fé produz ídolos que não salvam, falsos messias que prometem segurança e estabilidade, mas geram violência e exclusão.

O clericalismo, por sua vez, é uma das mais graves doenças espirituais de nosso tempo. Quando o clero se fecha em si mesmo, quando se vê como elite separada do povo, trai o gesto de Jesus que chama pelo nome e forma uma comunidade de irmãos. O Papa Francisco tem insistido: “O clericalismo anula a personalidade dos cristãos, apaga a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo e destrói a força da comunhão” (Carta ao Povo de Deus, 2018). O evangelho de hoje pede uma Igreja de irmãos, não de castas. Não há espaço para donos de comunidades, mas para servidores que caminham juntos.

Por fim, é importante lembrar que essa passagem de Lucas é proclamada em momentos litúrgicos significativos: nas memórias dos apóstolos, quando celebramos a origem apostólica da Igreja; em certas festas marianas, pois Maria é a mãe da Igreja apostólica; e nesta terça-feira da 23ª semana, quando somos convidados a redescobrir a dimensão comunitária da missão. A liturgia, que é sempre atualização do mistério, nos convida a viver hoje a mesma experiência: colocar-nos em oração antes das decisões, reconhecer que somos chamados pelo nome, e descer da montanha para encontrar a multidão de homens e mulheres que têm sede de cura, de sentido e de vida plena. Aqui ecoa a missão narrada em Atos 1,8: “Recebereis a força do Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas até os confins da terra”. A força que saía de Jesus continua saindo pela Igreja quando ela é fiel à oração, à comunhão e ao serviço.

Diante disso, somos chamados a ser testemunhas proféticas. Num mundo marcado pela política de resultados, pela idolatria do sucesso e pela mercantilização da fé, a Igreja deve ser sinal de gratuidade, comunhão e serviço. Num tempo de fragmentação e individualismo, deve ser escola de fraternidade. Num contexto de clericalismo e autoritarismo, deve ser espaço de participação e corresponsabilidade. Como lembrava São Romero da América, “a Igreja não pode ser neutra diante da injustiça: ou está ao lado dos pobres, ou está ao lado dos opressores”. A profecia consiste exatamente em denunciar as falsas seguranças e anunciar o Reino que não se impõe pela força, mas se oferece como dom.

Jesus não quis realizar sozinho a obra do Reino, mas chamou e continua chamando colaboradores. Não há discípulos sem comunidade, nem missão sem partilha. O evangelho de hoje é, portanto, um convite a deixarmos de ser adoradores de nós mesmos para nos tornarmos servidores de um Reino que é sempre maior do que nós. Somos convocados a ser Igreja que ora antes de decidir, que chama pelo nome, que confia nos pequenos, que desce para servir, que toca e deixa-se tocar, que cura e reintegra, que denuncia idolatrias e anuncia esperança. Só assim poderemos dizer, com os primeiros cristãos, que “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,3).



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 25 de outubro de 2026

UMA ELEIÇÃO NÃO É UMA DISPUTA DE CAMPEONATO


Há silêncios que guardam lembranças, escolhas que deixam marcas e acontecimentos que somente revelam seu verdadeiro significado quando o tempo já percorreu o caminho que muitos se recusaram a enxergar. Na política, assim como na vida, nem tudo se resolve no instante em que as urnas anunciam um resultado. Algumas coisas permanecem na memória, outras amadurecem na consciência, e há palavras que, mesmo quando não são pronunciadas, continuam presentes porque foram transformadas em experiências impossíveis de apagar.  Durante uma eleição, muitos acreditam que tudo se resume à vitória de um candidato e à derrota de outro. Como se o destino de uma nação pudesse ser comparado ao resultado de uma partida, na qual uma torcida comemora, a outra se entristece e, no dia seguinte, todos simplesmente seguem adiante. Entretanto, uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de levantar uma taça, humilhar adversários ou provar que determinado grupo possui superioridade sobre os demais. Trata-se de decidir caminhos, confrontar projetos de sociedade e escolher, dentro dos limites da democracia, quais prioridades deverão orientar a vida coletiva. Por trás de cada voto existem histórias, necessidades, convicções, medos, esperanças e experiências que não podem ser reduzidas a uma simples contagem de números.

É justamente por compreender essa dimensão que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, para aqueles que depositaram nele suas esperanças, pode adquirir um significado que ultrapassa a satisfação eleitoral. Para muitos, ela representa a possibilidade de reencontrar sonhos que pareciam esquecidos, recuperar a confiança na participação popular e acreditar novamente que a origem social de uma pessoa não precisa determinar os limites de seu futuro. Não significa imaginar que um governo seja capaz de resolver todos os problemas de um país, mas reconhecer que as decisões políticas podem ampliar ou restringir as oportunidades de milhões de brasileiros. Essa emoção, porém, não nasce apenas das expectativas depositadas em um candidato. Em determinadas circunstâncias, ela também nasce das feridas provocadas pelo caminho percorrido até a eleição. Há pessoas que chegam ao momento da votação carregando muito mais do que suas preferências políticas. Levam consigo as lembranças das conversas interrompidas, das amizades abaladas, dos julgamentos precipitados e das ofensas recebidas simplesmente porque decidiram pensar de maneira diferente. Algumas foram chamadas de ignorantes; outras, de inimigas, traidoras ou responsáveis por todos os males do país. Em muitos casos, a divergência deixou de ser uma oportunidade de diálogo e se transformou em pretexto para a agressão. Foi assim que, para alguns eleitores, o segundo turno adquiriu um significado particular. Não bastava escolher entre dois projetos políticos: era necessário também suportar o peso de ser desrespeitado por causa da própria escolha. Os insultos recebidos não desapareceram quando as conversas terminaram, nem perderam sua importância porque a votação chegou ao fim. Permaneceram como lembranças de um período em que pessoas que deveriam ter encontrado espaço para conversar acabaram tratando umas às outras como adversárias irreconciliáveis.

Diante disso, a alegria de uma vitória pode trazer sentimentos difíceis de explicar. Não se trata necessariamente de desejar a derrota pessoal de quem pensa diferente, tampouco de alimentar o desejo de revanche contra aqueles que ofenderam. Trata-se de perceber que, apesar das pressões, das acusações e das tentativas de desqualificação, algumas pessoas permaneceram fiéis à própria consciência. Continuaram acreditando no direito de escolher, de argumentar e de defender uma visão de país sem precisar pedir autorização aos que imaginavam possuir o monopólio da verdade. Há uma diferença profunda entre comemorar um resultado e desejar a humilhação de alguém. A primeira atitude pode expressar alívio, esperança e reconhecimento de uma escolha democrática; a segunda apenas prolonga o ciclo de hostilidade que tanto prejudica a convivência social. Quem sofreu ofensas tem o direito de reconhecer a dor que experimentou, sem precisar fingir que nada aconteceu. Mas também pode escolher não transformar essa dor em instrumento de vingança. A dignidade não exige que se esqueçam as agressões; exige que não se permita que elas determinem para sempre a maneira de olhar o mundo.

Por isso, o silêncio de quem atravessou esse processo não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza, desconhecimento ou indiferença. Às vezes, o silêncio representa apenas a decisão de não transformar cada divergência em uma batalha. Em outras ocasiões, significa que certas experiências precisam de distância para serem compreendidas. O tempo revela contradições, desfaz certezas precipitadas e mostra que a realidade raramente se acomoda perfeitamente às expectativas de quem acredita conhecer antecipadamente todos os desfechos. Entretanto, esse silêncio não precisa carregar ameaças veladas nem anunciar uma futura cobrança pessoal. Sua força pode estar em algo mais profundo: a consciência de que cada pessoa responde pelas escolhas que faz e pelas atitudes que assume diante dos outros. Quando o debate político se transforma em agressão, não é apenas o adversário que sofre. A própria democracia perde qualidade, os vínculos comunitários se enfraquecem e a sociedade se acostuma perigosamente à ideia de que humilhar alguém é aceitável quando se acredita estar defendendo uma causa.

O Brasil precisa superar essa lógica. Nenhuma família, partido, liderança ou corrente ideológica pode reivindicar para si a propriedade da nação. O país pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles cujas opiniões divergem, cujas histórias são diferentes e cujas experiências sociais os conduzem a interpretações distintas da realidade. A convivência democrática não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que ninguém seja privado de respeito, direitos e dignidade por pensar de maneira diferente. Ao mesmo tempo, respeitar a pluralidade não significa abandonar a avaliação crítica dos projetos políticos. A democracia não se fortalece quando os cidadãos deixam de questionar seus representantes, mas quando aprendem a fazê-lo com responsabilidade, argumentos e disposição para confrontar os fatos. Nenhum governante deve ser colocado acima da fiscalização pública. Nenhum partido pode transformar sua história em licença para cometer erros. Nenhuma liderança merece obediência cega. O voto abre uma etapa da vida democrática, mas não encerra a responsabilidade de quem escolheu.

É nesse ponto que a esperança precisa encontrar a realidade concreta dos brasileiros. Para aqueles que veem na trajetória de Lula um símbolo de mobilidade social e participação popular, sua vitória pode recordar um período em que muitos passaram a enxergar possibilidades antes distantes. A ampliação do acesso ao ensino superior, os programas sociais, as políticas de transferência de renda e as iniciativas voltadas à habitação e à alimentação ocupam um lugar importante na memória de parte da população. Essas experiências, com seus resultados, limites e controvérsias, fazem parte do debate sobre o país que se deseja construir. Reconhecer esse significado não exige transformar um presidente em herói infalível. A história política brasileira é complexa, e qualquer avaliação responsável precisa considerar realizações, contradições, decisões equivocadas e responsabilidades institucionais. A esperança democrática não deve ser confundida com devoção pessoal. Pelo contrário, quanto maior a expectativa depositada em um governo, maior deve ser a disposição de acompanhar suas ações, exigir transparência e cobrar resultados. A lealdade a um projeto de sociedade não pode significar submissão a um governante.

O que importa, acima das narrativas partidárias, é saber se as políticas públicas conseguem melhorar a vida das pessoas. É saber se os trabalhadores podem viver com dignidade, se as famílias encontram condições para colocar comida na mesa, se os jovens conseguem estudar e construir seu futuro, se os idosos recebem o cuidado necessário e se os serviços de saúde alcançam aqueles que mais precisam. É perguntar se a riqueza produzida pelo país se converte em oportunidades reais ou se continua concentrada de maneira que aprofunda distâncias sociais. Por trás dessas perguntas existem rostos que raramente ocupam o centro das grandes celebrações políticas. Existem mães que calculam cada despesa antes de chegar ao caixa do mercado, trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada e retornam quando os filhos já estão dormindo, famílias que enfrentam o preço dos medicamentos e jovens que precisam escolher entre continuar estudando e procurar trabalho para ajudar nas despesas domésticas. Existem pessoas que não desejam privilégios, mas condições mínimas para viver sem a angústia permanente de não saber como chegarão ao fim do mês. Para essas pessoas, a política não é uma abstração discutida apenas em palanques, redes sociais ou programas de televisão. Ela se manifesta no preço dos alimentos, no acesso ao transporte, na qualidade da escola pública, na disponibilidade de atendimento médico, na possibilidade de conseguir emprego e na segurança de ter um teto. As decisões tomadas nos espaços de poder atravessam a vida cotidiana, ainda que muitos daqueles que as discutem jamais tenham experimentado as dificuldades enfrentadas por quem depende diretamente dos serviços públicos.

É por isso que a verdadeira medida de um país não pode ser encontrada apenas nos indicadores econômicos ou nas declarações de seus dirigentes. Ela também se encontra na maneira como a sociedade trata aqueles que possuem menos recursos para defender seus interesses. Um país pode apresentar riqueza e, ainda assim, conviver com a miséria de milhões. Pode celebrar grandes conquistas e continuar indiferente às pessoas que permanecem à margem. O desenvolvimento só adquire sentido humano quando a prosperidade deixa de ser privilégio de poucos e passa a criar condições concretas para uma vida digna. Essa compreensão também encontra raízes profundas na experiência religiosa. Quando Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), ele não oferece apenas uma orientação para a vida íntima ou uma fórmula para discursos piedosos. No contexto de Mateus 22,34-40, o amor ao próximo aparece inseparavelmente ligado ao amor a Deus, resumindo, com o mandamento de amar a Deus, o coração da Lei e dos Profetas. A fé, portanto, não pode ser reduzida a palavras pronunciadas em cerimônias enquanto a realidade do sofrimento humano permanece ignorada.

O Evangelho não autoriza que a religião seja utilizada para justificar a indiferença, alimentar o desprezo pelos pobres ou transformar diferenças políticas em condenações morais automáticas. Ao contrário, desafia os que professam a fé a examinar suas próprias atitudes. Em Mateus 25,31-46, Jesus associa o encontro com ele à maneira como são tratados os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os encarcerados. Em Lucas 10,25-37, a parábola do bom samaritano desloca a discussão religiosa para o terreno da responsabilidade concreta: diante de alguém ferido, não basta conhecer os mandamentos; é preciso aproximar-se, cuidar e agir e essa mensagem não pertence a um partido, nem pode ser monopolizada por qualquer grupo ideológico. Ela exige que todos, independentemente de suas preferências políticas, confrontem suas convicções com a dignidade humana. Entretanto, quando a linguagem religiosa é utilizada para legitimar a exclusão, naturalizar a pobreza ou alimentar a hostilidade contra adversários, torna-se necessário recordar que o nome de Deus não pode servir de escudo para atitudes contrárias à misericórdia. A religião perde sua força profética quando se preocupa mais em proteger o prestígio dos poderosos do que em ouvir o clamor dos que sofrem.

A crítica ao clericalismo e à religiosidade vazia também nasce dessa exigência. Não basta multiplicar celebrações, repetir passagens bíblicas ou defender símbolos sagrados se a vida cotidiana permanece marcada pela exploração, pelo preconceito e pelo abandono. A fé precisa produzir responsabilidade, solidariedade e compromisso com o bem comum. Caso contrário, corre o risco de se transformar em aparência sem coerência, linguagem sem testemunho e devoção sem encontro verdadeiro com o próximo. Essa responsabilidade alcança igualmente a política. Nenhuma liderança pode invocar valores cristãos para escapar à fiscalização, e nenhum eleitor deveria considerar moralmente superior uma pessoa apenas por sua identidade religiosa ou por suas declarações públicas de fé. O critério precisa ser a coerência entre palavras e atitudes, entre promessas e resultados, entre o discurso sobre a família e o compromisso efetivo com as condições de vida das famílias reais. A defesa da vida precisa alcançar também aqueles que enfrentam a fome, a violência, a falta de moradia, o desemprego e a ausência de oportunidades.

A esperança, portanto, não deve ser confundida com a expectativa de que um único homem transforme sozinho a realidade brasileira. Presidentes exercem responsabilidades importantes, mas a construção de uma sociedade justa depende também das instituições, do Congresso, do Judiciário, dos governos locais, dos movimentos sociais, das organizações comunitárias e da participação permanente dos cidadãos. A democracia exige vigilância, diálogo, transparência e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos por aqueles em quem se depositou confiança. Quando a emoção da eleição passar, permanecerá a tarefa de acompanhar as decisões, verificar os resultados e exigir que os compromissos assumidos sejam cumpridos. Se houver avanços, eles deverão ser reconhecidos; se houver falhas, deverão ser apontadas; se houver injustiças, deverão ser denunciadas. Não há contradição entre desejar o êxito de um governo e cobrar sua responsabilidade. O verdadeiro compromisso com o país não consiste em aplaudir todas as decisões, mas em defender as condições necessárias para que a política sirva à população. Também será necessário reconstruir os espaços de convivência que a hostilidade eleitoral desgastou. Famílias, amizades, comunidades religiosas e ambientes de trabalho não precisam permanecer prisioneiros de disputas partidárias. É possível discordar sem desumanizar, criticar sem humilhar e defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Isso não significa aceitar agressões em nome de uma falsa harmonia, mas estabelecer limites claros para que o respeito não seja confundido com silêncio diante da violência verbal ou da intolerância.

Aqueles que foram ofendidos durante a campanha não precisam negar suas feridas para demonstrar maturidade. Podem reconhecer o que sofreram, preservar a memória dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, recusar a reprodução da mesma lógica de desprezo. A dignidade não depende de receber o pedido de desculpas de quem feriu, embora o reconhecimento do erro possa ajudar a reparar relações. Ela também se manifesta na liberdade de continuar vivendo segundo a própria consciência, sem permitir que a agressão alheia se transforme no centro permanente da existência.

No fim, a lembrança mais importante talvez não seja a de quem comemorou mais alto, publicou a frase mais provocadora ou previu com maior segurança os acontecimentos. Será a lembrança de como cada pessoa se comportou quando a divergência se tornou difícil, quando a tentação de humilhar pareceu irresistível e quando o respeito exigiu mais esforço do que a agressão. As eleições passam, os discursos perdem força e as circunstâncias mudam, mas as atitudes deixam marcas que podem permanecer por muito tempo na memória de uma comunidade. É nesse sentido que o tempo revela aquilo que as palavras nem sempre conseguem explicar. Não para alimentar ameaças ou organizar uma lista de culpados, mas para permitir que cada um examine sua participação na história. As escolhas têm consequências, e a responsabilidade não deve ser transferida arbitrariamente quando os resultados deixam de corresponder às expectativas. Ao mesmo tempo, a democracia exige que ninguém seja condenado apenas por ter votado de maneira diferente. O julgamento das atitudes precisa se apoiar em fatos, não em ressentimentos; em responsabilidades concretas, não em generalizações.

A vitória eleitoral pode despertar alegria, mas seu significado mais profundo será determinado pelo que vier depois dela. Se produzir apenas arrogância, acomodação ou desejo de revanche, terá perdido parte de sua oportunidade histórica. Se inspirar participação, solidariedade, fiscalização do poder e compromisso com os mais vulneráveis, poderá contribuir para fortalecer a vida democrática. O resultado das urnas não encerra a história: abre um novo capítulo, cujo conteúdo dependerá das escolhas realizadas a partir daquele momento. Por isso, aqueles que celebram não precisam pedir desculpas por sua esperança, assim como aqueles que pensam diferente não devem ser privados de sua dignidade. A alegria pode ser legítima sem se tornar desprezo, e a crítica pode ser firme sem se transformar em ódio. O desafio é construir uma convivência na qual as diferenças não apaguem a humanidade compartilhada e na qual a disputa política não seja usada para justificar a destruição de vínculos que dão sentido à vida.

Que a esperança depositada nas urnas se transforme em comida na mesa, educação de qualidade, saúde acessível, trabalho digno, moradia, proteção social e oportunidades reais. Que os governantes compreendam que o poder é uma responsabilidade pública, e não uma propriedade pessoal. Que os cidadãos não abandonem sua capacidade crítica e que as instituições permaneçam comprometidas com a Constituição e os direitos fundamentais. Que a fé, quando professada, não seja um ornamento para discursos, mas uma fonte de compromisso com a justiça, a misericórdia e a dignidade de cada ser humano. No fim das contas, não se trata apenas de ver Lula vencer seus adversários, nem de transformar uma eleição em certificado de superioridade moral. Trata-se de desejar que o Brasil vença a fome, reduza suas desigualdades, enfrente o preconceito e deixe de tratar o sofrimento como se fosse uma consequência inevitável da vida dos pobres. Trata-se de construir um país no qual ninguém precise escolher entre comprar alimentos e adquirir medicamentos, no qual o trabalho permita viver com dignidade e no qual as crianças não tenham seu futuro limitado pela condição econômica em que nasceram.

É por isso que algumas pessoas se emocionam diante de uma vitória política: porque enxergam nela a possibilidade de continuar acreditando, mesmo depois de tantas decepções. Não porque imaginem que todos os problemas desapareceram, mas porque se recusam a aceitar que a injustiça seja o destino definitivo de um povo. A esperança não elimina as dificuldades; oferece razões para enfrentá-las. A democracia não garante, por si só, a justiça; oferece caminhos para buscá-la coletivamente. E a fé não substitui a ação humana; quando compreendida à luz do Evangelho, chama à responsabilidade por aquilo que acontece ao redor. Que a alegria não se converta em soberba, que as lembranças das ofensas não se transformem em vingança e que o silêncio não seja usado para ameaçar, mas para compreender a profundidade das escolhas. Que a história registre não apenas os nomes dos vencedores e dos derrotados, mas também a maneira como uma sociedade tratou seus cidadãos durante o caminho. E que, quando o tempo revelar as consequências de cada decisão, haja coragem para reconhecer os acertos, corrigir os erros e reparar as injustiças.

Porque uma eleição não é uma disputa de campeonato. Não se trata de conquistar uma taça para exibir diante dos derrotados, mas de decidir que país desejam construir juntos. O verdadeiro resultado não estará apenas no número de votos, mas na capacidade de transformar a escolha democrática em responsabilidade pública, a esperança em compromisso e a fé em cuidado concreto com a vida humana. E, quando as luzes da campanha se apagarem, quando os discursos perderem o brilho e os adversários voltarem a se encontrar nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho e nas comunidades, restará a pergunta que nenhuma urna poderá responder sozinha: o que farão com a oportunidade que receberam? 

A resposta não será escrita por um único homem, nem por um partido isolado. Será construída diariamente, nas decisões políticas, nas relações humanas e na disposição de não abandonar aqueles que mais precisam. É nesse trabalho silencioso, persistente e coletivo que a esperança poderá deixar de ser apenas sentimento e começar a se tornar realidade.

Que Deus conceda sabedoria aos que governam, consciência aos que fiscalizam, coragem aos que denunciam as injustiças e sensibilidade aos que ainda conseguem reconhecer o sofrimento alheio. E que o Brasil aprenda, finalmente, que a grandeza de uma nação não está em derrotar seus próprios filhos, mas em criar condições para que todos possam viver com liberdade, justiça, respeito e dignidade.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano