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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Um outro olhar sobre Lucas 5,1-11.

Lucas 5,1-11 não é apenas um relato sobre uma pesca extraordinária nem uma simples história vocacional de pescadores que decidiram seguir Jesus. É uma passagem sobre o encontro entre a Palavra de Deus e a existência humana, entre o cansaço, o fracasso e as limitações e a abertura para um novo horizonte que surge quando alguém se dispõe a escutar. Na liturgia da Igreja Católica Romana, essa perícope é proclamada no 5º Domingo do Tempo Comum, Ano C, e na quinta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum anualmente. Seus relatos paralelos aparecem no 3º Domingo do Tempo Comum: Mateus 4,12-23 no Ano A r Marcos 1,14-20  proclamado  na segunda-feira da 1ª semana do Tempo Comum, logo após  o batismo  do Senhor  Ano B   e Mateus 4,18-22 também integra o Evangelho da Festa de Santo André, em 30 de novembro. Essa organização permite perceber diferentes ênfases na apresentação do chamado dos primeiros discípulos. Lucas situa o episódio depois de apresentar Jesus anunciando o Reino de Deus, ensinando e libertando pessoas do sofrimento. A vocação surge, portanto, no interior de uma obra que já está em curso e alcança homens envolvidos em suas tarefas habituais. Pedro atravessa uma noite de trabalho infrutífero quando Jesus lhe pede que lance novamente as redes. A confiança na Palavra produz uma experiência que supera suas expectativas e desestabiliza suas certezas. A pesca extraordinária, assim, não constitui o ponto culminante do episódio. Ela conduz Pedro ao reconhecimento de sua própria fragilidade — “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8) — e, ao mesmo tempo, à descoberta de um novo sentido para sua existência: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10). O Evangelho parte da vida ordinária e, a partir dela, converte o fracasso em experiência de graça, chamado e serviço.

É  preciso   lembrar  que o cenário é o lago de Genesaré, também conhecido como mar da Galileia. A geografia participa da narrativa porque água, margens, barcas, redes e trabalho constituem o ambiente concreto no qual a Palavra é anunciada. Jesus entra na barca de Simão e transforma, por um momento, o espaço profissional daquele trabalhador em lugar de escuta. A fé não é colocada fora da vida. A própria barca torna-se lugar de encontro, ensino e chamado. Lucas apresenta homens que conhecem seu ofício. São trabalhadores acostumados às exigências da pesca. Quando Simão afirma que passaram a noite trabalhando e nada conseguiram, não está simplesmente fornecendo uma informação sobre a pescaria. Sua fala carrega o peso de quem tentou. É a experiência de trabalhar muito sem obter o resultado esperado, de insistir sem ver fruto, de voltar para casa com as redes vazias.

Essa realidade atravessa a existência humana. Há trabalhadores que se esforçam durante anos e continuam vivendo com insegurança. Há famílias que fazem contas diariamente e não conseguem satisfazer necessidades básicas. Há pessoas que procuram emprego, estudam, cuidam de outros e enfrentam sucessivas portas fechadas. Há comunidades que se dedicam intensamente e percebem poucos resultados. Há também pessoas de fé que rezam, servem e, em determinado momento, experimentam silêncio interior. O Evangelho não esconde essa noite. A fé cristã não precisa fingir que tudo sempre dá certo. Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas. A expressão não deve ser reduzida a uma frase motivacional. Na cena, seu primeiro sentido é concreto: voltar ao lago e lançar as redes. A dimensão espiritual nasce do próprio gesto. Profundidade não significa fuga da realidade, desprezo pela razão ou abandono da experiência. Significa não permitir que um fracasso determine definitivamente o horizonte.

Simão poderia argumentar que já havia tentado. Sua experiência profissional lhe dava razões para desconfiar. Mesmo assim, ele escuta. Sua resposta é simples e decisiva: porque Jesus falou, lança novamente as redes. A fé não aparece como ausência de dúvidas, mas como disponibilidade para confiar sem possuir controle sobre o resultado. O discípulo não recebe uma garantia antecipada de sucesso. Recebe uma Palavra que o convida a agir. A pesca abundante acontece como sinal narrativo. As redes se enchem e a quantidade exige a colaboração de outros companheiros. O texto, porém, não autoriza uma leitura segundo a qual seguir Jesus significa necessariamente receber dinheiro, prosperidade ou sucesso. O extraordinário da pesca conduz ao chamado, não ao enriquecimento. O peixe não é o destino da narrativa. O encontro com Jesus é.

Essa distinção é indispensável diante de uma religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de vantagem pessoal. Jesus não entra na vida de Simão para garantir uma carreira mais lucrativa. A abundância recebida se converte em responsabilidade. O sinal desloca o olhar do acúmulo para a missão. E a missão não pode ser realizada sozinho. Simão precisa dos companheiros. A outra barca não é um detalhe secundário. A narrativa mostra que aquilo que ultrapassa a capacidade de uma pessoa requer cooperação. A comunidade não é plateia. A missão cristã não pertence a um especialista isolado, nem a um grupo que concentra todos os dons e decisões. O chamado recebido por alguns precisa encontrar a colaboração de muitos.  O protagonismo de Jesus não transforma os discípulos em proprietários da comunidade. Responsabilidade não é privilégio. Autoridade cristã não deveria produzir distância, controle ou superioridade. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir. E depois da pesca, Simão não reage apenas com entusiasmo. Ele reconhece sua fragilidade e se confessa pecador. A experiência do sagrado não produz nele superioridade espiritual, mas consciência de limite. Esse movimento é importante porque uma fé madura não fabrica pessoas convencidas de sua própria grandeza. O encontro com Deus deveria tornar o ser humano mais humilde, não mais arrogante.

Jesus responde ao medo sem transformar a fragilidade de Simão em instrumento de dominação. Ele não o aprisiona na culpa. O medo não é o destino do discípulo. Torna-se ponto de passagem para uma nova responsabilidade. Aqui aparece uma diferença fundamental entre Evangelho e manipulação religiosa: a manipulação mantém pessoas dependentes do medo; o Evangelho chama pessoas frágeis para uma liberdade responsável. Quando Jesus anuncia que Simão, dali em diante, será pescador de pessoas, não está autorizando a captura de consciências. Pessoas não são objetos religiosos. A missão cristã não consiste em dominar indivíduos, controlar escolhas ou produzir dependência de líderes. O discípulo é chamado para uma missão orientada para a vida. Evangelizar significa acolher, acompanhar, servir, ensinar, cuidar e testemunhar. A missão perde sua autenticidade quando transforma pessoas em números, votos, contribuintes, seguidores ou instrumentos de poder.

É por isso que a passagem possui uma profunda dimensão pastoral. Jesus chama pessoas concretas dentro da realidade em que vivem. Não exige perfeição antes do chamado. A vocação acontece no meio da vida, inclusive no meio do fracasso. Uma Igreja fiel a essa dinâmica precisa ser capaz de encontrar pessoas reais, com histórias reais, perguntas reais, feridas reais e esperanças reais. Isso exige uma comunidade que não confunda fidelidade ao Evangelho com preservação da própria imagem. Uma Igreja madura não precisa esconder seus erros para parecer perfeita, nem silenciar pessoas feridas para proteger sua reputação. Quando a instituição passa a proteger mais a própria estrutura do que as pessoas, algo essencial se perdeu. Quando a autoridade religiosa deixa de ouvir quem sofre, sua missão começa a se afastar do Evangelho. A estrutura deve servir à missão, nunca substituir a missão.

O texto também possui consequências sociais. Os discípulos são trabalhadores. Existem responsabilidades familiares, relações profissionais e condições concretas de sobrevivência. Falar de vocação sem considerar a realidade do trabalho seria espiritualizar a passagem. O discipulado não pode ser indiferente à dignidade profissional, ao desemprego, à precarização, à exploração e às desigualdades. O Evangelho também impede que o sofrimento social seja transformado em culpa individual. Nem todo fracasso acontece por falta de fé. Nem toda pobreza resulta de escolhas pessoais. Nem toda dificuldade econômica pode ser explicada por ausência de oração. Culpar os pobres pela própria pobreza apenas acrescenta violência moral à violência social. Da mesma forma, a pesca abundante não pode servir de fundamento para uma religião da prosperidade. Lucas conduz o sinal para o desprendimento. Simão, Tiago e João deixam as redes para seguir Jesus. A abundância não termina no acúmulo, mas na disponibilidade. Isso confronta uma cultura que frequentemente mede o valor humano pelo patrimônio, pela influência, pelo consumo ou pelo número de seguidores.

Seguir Jesus não significa desprezar bens, trabalho ou responsabilidades. Significa impedir que se tornem absolutos. O problema não é simplesmente possuir, mas ser possuído pelo desejo de possuir. Não é exercer autoridade, mas transformar autoridade em dominação. Não é possuir uma instituição, mas transformar a instituição em finalidade absoluta. Essa palavra torna-se especialmente necessária quando a religião se mistura indiscriminadamente com projetos de poder. Nenhum líder político, partido, ideologia ou movimento pode ocupar o lugar do Reino de Deus. A fé não deve ser utilizada para transformar adversários em inimigos absolutos, justificar violência, alimentar ódio ou oferecer linguagem sagrada a projetos de dominação. A crítica cristã precisa alcançar também aqueles que afirmam defender valores religiosos enquanto utilizam a religião para legitimar exclusão, autoritarismo ou desprezo pelos vulneráveis. Isso não significa neutralidade diante da injustiça. O Evangelho exige liberdade para reconhecer o bem, denunciar o mal e questionar qualquer poder que viole a dignidade humana. A Igreja perde sua força profética quando se torna dependente de alianças políticas ou passa a proteger determinados poderosos porque estes utilizam símbolos religiosos. Sua liberdade é parte de sua missão. Lucas 5 convida o discípulo a escutar Jesus antes de transformar seus próprios interesses em critério absoluto. Isso não significa abandonar a inteligência ou a experiência. Significa reconhecer que a Palavra pode deslocar certezas e abrir caminhos que a lógica imediata não percebe.  Simão conhece o fracasso, mas sua história não termina naquela noite. Isso não significa que toda dificuldade terá uma solução espetacular. Significa que uma existência não pode ser reduzida ao resultado de um único momento. Existem redes vazias que representam projetos frustrados, relações rompidas, perdas, injustiças, oportunidades que não chegaram e sonhos interrompidos. O Evangelho não promete que todas serão imediatamente preenchidas. Ele oferece a possibilidade de não permitir que o vazio determine sozinho o significado da vida.

A questão decisiva não é apenas quanto conseguimos produzir, mas para quem estamos vivendo. Não é somente o que existe na rede, mas o que fazemos quando ela se enche. Não é apenas receber uma oportunidade, mas compreender a responsabilidade que acompanha aquilo que recebemos. A comunidade cristã precisa recuperar essa pedagogia. 

  • As  pessoas não são chamadas apenas para ocupar cargos, mas para servir. 
  • Os  Ministérios não são títulos de prestígio, mas responsabilidades. Liderança.
  •  Não é autorização para controlar, mas compromisso com o bem comum. 
  • A formação cristã não deveria produzir dependência intelectual, mas maturidade e discernimento.

Por isso, a cena da barca permanece atual. Existem comunidades cheias de atividades, mas vazias de sentido,  há estruturas com muitos programas que  esquecem as  pessoas que sofrem do lado de fora. Também existem comunidades pequenas e cansadas que acreditam que sua história terminou porque os resultados não correspondem aos seus esforços. Lucas não autoriza nem triunfalismo nem desespero. Ele apresenta uma Palavra capaz de recolocar a missão em movimento. Avançar para águas mais profundas hoje pode significar sair da superficialidade religiosa. Significa abandonar respostas prontas quando a realidade exige discernimento, ouvir quem foi silenciado, reconhecer erros, enfrentar preconceitos e defender a dignidade dos pobres não apenas como objeto de caridade, mas como realidade humana que exige justiça. Significa combater a violência sem escolher seletivamente quais vítimas merecem compaixão e defender a verdade mesmo quando ela incomoda nossos próprios grupos. Também significa enfrentar a crise espiritual de uma sociedade cansada. Muitas pessoas possuem acesso a informação, consumo e entretenimento, mas continuam perguntando silenciosamente para que vivem. A missão cristã não pode responder a isso apenas com frases religiosas. Precisa oferecer comunidade, escuta, sentido, serviço, esperança e relações humanas capazes de reconstruir confiança.

O chamado acontece quando Simão ainda está dentro de sua profissão, diante do fracasso. Deus não precisa esperar uma situação ideal para começar alguma coisa. A vocação começa quando alguém se dispõe a escutar e dar um passo, mas esse passo não é individualista. A narrativa envolve companheiros, a missão exige colaboração. No centro de tudo permanece Jesus, pois  sem ele, a barca pode tornar-se apenas estrutura, as redes podem transformar-se em instrumentos de produtividade, a missão pode virar carreira e a religião pode tornar-se poder. Lucas não apresenta uma técnica para alcançar resultados. Apresenta um encontro que reorganiza a existência. Jesus entra na barca, fala, provoca uma decisão, revela a fragilidade de Simão e abre diante dele uma missão. Por isso, o grande acontecimento da passagem não está simplesmente na quantidade de peixes. Está na transformação daqueles homens: 

  •  O trabalhador cansado encontra uma nova direção. O homem assustado recebe coragem. 
  • A experiência profissional passa a ser colocada a serviço de uma vocação maior. 
  • A vida cotidiana deixa de ser apenas sobrevivência e passa a participar de uma missão.

No final, eles deixam tudo e seguem Jesus. Seguir não é simplesmente admirar, concordar ou carregar símbolos religiosos. É reorganizar prioridades. É permitir que a presença de Cristo determine escolhas concretas. Essa experiência de Pedro, entretanto, continua para além da margem do lago. Na liturgia da sexta-feira da 7ª Semana da Páscoa, João 21,15-19 apresenta Simão diante do Ressuscitado, que lhe pergunta sobre seu amor e lhe confia o cuidado de suas ovelhas, concluindo com o convite ao seguimento. Essa referência não precisa ser utilizada como comparação entre duas narrativas. Ela ajuda a perceber a continuidade da vocação: aquele que foi chamado no meio das redes precisa amadurecer na responsabilidade de cuidar de pessoas. O chamado não transforma ninguém em proprietário da missão. Toda autoridade recebida na comunidade é serviço. O amor por Cristo precisa tornar-se cuidado concreto, especialmente quando alguém recebe responsabilidade sobre a vida de outros. Assim, a vocação não termina quando alguém diz sim; ela continua sendo purificada pela responsabilidade, pelo serviço e pela fidelidade. O discípulo precisa aprender que conduzir não é possuir, ensinar não é dominar e exercer autoridade não é colocar-se acima dos outros..A pergunta que permanece para nós não é se teremos redes cheias todos os dias. É o que faremos quando estiverem vazias e, sobretudo, o que faremos quando estiverem cheias. Permaneceremos presos ao fracasso? Transformaremos a abundância em acúmulo? Usaremos a autoridade para controlar ou para cuidar? Esconderemos nossas fragilidades ou permitiremos que elas nos tornem mais humildes?

A barca continua sendo imagem de uma comunidade em movimento. As redes lembram trabalho e possibilidade de fracasso. As águas profundas recordam que a fé não pode permanecer na superfície. Os companheiros mostram que ninguém realiza sozinho a missão. O medo de Simão revela a fragilidade humana. A Palavra de Jesus abre uma possibilidade nova. O abandono das redes mostra que o chamado conduz a uma vida diferente. Por isso, avançar para águas mais profundas não significa procurar experiências extraordinárias para fugir da realidade. Significa entrar mais profundamente nela com os olhos do Evangelho. É olhar para o sofrimento sem indiferença, para a pobreza sem preconceito, para a injustiça sem acomodação, para a política sem idolatria, para a religião sem manipulação e para o poder sem submissão cega.  Nenhuma comunidade cristã pode anunciar uma Boa-Nova enquanto transforma pessoas em instrumentos, assim como nenhuma liderança pode falar em nome de Cristo enquanto humilha aqueles que deveria servir, nem nenhuma estrutura religiosa pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto coloca sua própria preservação acima da dignidade humana. A missão começa quando a Palavra encontra uma barca concreta. Hoje, essa barca pode ser uma casa, um local de trabalho, uma comunidade, uma paróquia, uma família, uma escola ou qualquer espaço onde pessoas estejam tentando atravessar suas próprias noites. É nesses lugares que Jesus continua chamando.

Jesus não espera que as redes estejam cheias para chamar, mas encontra Simão justamente depois de uma noite de trabalho frustrado, quando as redes estão vazias e o cansaço é concreto. A vocação não nasce da perfeição nem do sucesso, mas da disponibilidade de quem, mesmo consciente de suas limitações, permanece capaz de escutar. A Escritura apresenta repetidamente essa lógica de Deus que chama pessoas frágeis e transforma suas limitações em espaço de graça e responsabilidade. 

  • Moisés hesita diante da missão e reconhece sua incapacidade (Êx 3,11-12; 4,10-12)
  • Jeremias sente-se pequeno diante do chamado (Jr 1,6-8), 
  •  Paulo aprende que a força de Deus pode manifestar-se precisamente na fraqueza humana (2Cor 12,9-10). 
Em Lucas 5, Simão também não aparece como homem idealizado: ele é trabalhador, conhece o próprio ofício, experimenta o fracasso, reage com medo e reconhece-se pecador (Lc 5,8), mas Jesus não transforma sua fragilidade em motivo de exclusão; ao contrário, acolhe-a e a orienta para uma missão. Por isso, o Evangelho não apresenta o chamado como prêmio concedido aos perfeitos, mas como responsabilidade confiada a pessoas que precisam continuar amadurecendo no caminho. Jesus também não oferece a Simão controle absoluto sobre o futuro, nem promete que a missão será livre de dificuldades, perdas ou incompreensões; oferece uma direção e pede confiança no caminho (Lc 5,4-5). Essa lógica reaparece quando Jesus envia os discípulos, advertindo-os sobre as dificuldades que encontrarão (Mt 10,16-23), quando afirma que seus seguidores encontrarão tribulações no mundo, mas são chamados à coragem (Jo 16,33), e quando convida a não viver dominado pela ansiedade diante do amanhã (Mt 6,25-34). A vida cristã, portanto, não é uma promessa de ausência de problemas, mas uma forma nova de atravessá-los, sustentada pela confiança, pela esperança e pelo sentido. Paulo expressa essa esperança ao afirmar que a tribulação pode produzir perseverança, caráter e esperança (Rm 5,3-5), enquanto a Carta aos Hebreus recorda que a fé é confiança naquilo que se espera, mesmo quando ainda não se possui diante dos olhos (Hb 11,1). Isso significa que seguir Jesus não é receber um mapa detalhado de todos os acontecimentos futuros, mas aprender a caminhar segundo uma Palavra que orienta as escolhas presentes. O Salmo 119,105 apresenta a Palavra como luz para o caminho, e Provérbios 3,5-6 convida a confiar no Senhor sem transformar a própria compreensão limitada em medida absoluta de todas as coisas. Em Lucas 5, Simão não sabe tudo o que acontecerá depois de deixar as redes; sabe apenas que recebeu uma Palavra e que precisa responder a ela. Essa resposta não elimina a vulnerabilidade, mas dá novo horizonte à existência. É nesse sentido que Jesus não promete simplesmente uma vida mais fácil, mas uma vida que pode encontrar significado no seguimento, no serviço e na entrega. Ele mesmo declara que veio para que as pessoas tenham vida e a tenham em plenitude (Jo 10,10), e apresenta o caminho do discípulo não como busca de privilégios, mas como disposição para servir (Mc 10,42-45; Lc 22,24-27). A vida com sentido, no Evangelho, não se mede pela quantidade acumulada, pelo prestígio alcançado ou pela capacidade de controlar os outros, mas pela capacidade de amar, servir e colocar a própria existência a favor da vida. Por isso, quando Simão deixa as redes, não está abandonando simplesmente um objeto de trabalho, mas permitindo que suas prioridades sejam reorganizadas por um chamado maior (Lc 5,11). A mesma dinâmica aparece no ensinamento de Jesus sobre perder a vida por causa dele e do Evangelho para encontrá-la em uma dimensão mais profunda (Mc 8,35; Lc 9,24). Assim, as redes vazias não significam que Deus abandonou alguém, e as redes cheias não significam que Deus esteja premiando alguém com prosperidade; ambas podem tornar-se lugares de discernimento. O fracasso pode ensinar humildade, a abundância pode exigir responsabilidade, a fragilidade pode abrir espaço para a graça e a incerteza pode conduzir à confiança. O Evangelho não promete que todas as redes serão preenchidas, mas proclama que nenhuma rede vazia precisa ter a última palavra sobre uma existência. Há caminhos que começam justamente quando aquilo em que depositávamos nossa segurança deixa de funcionar. Há chamados que nascem no meio do cansaço. Há esperança que surge quando já não temos respostas prontas. E há uma vida nova quando deixamos de perguntar apenas “o que vou ganhar?” e começamos a perguntar “a quem minha vida poderá servir?”. Essa é a profundidade do chamado de Lucas 5: Jesus não chama porque Simão já possui todas as respostas, mas porque está disposto a escutar; não chama porque sua história é perfeita, mas porque sua fragilidade pode ser transformada em serviço; não promete que o caminho será fácil, mas oferece uma direção; não garante controle sobre o futuro, mas convida à confiança; não apresenta uma existência sem sofrimento, mas abre a possibilidade de uma vida orientada pelo amor, pela esperança, pela justiça e pelo serviço. Por isso, a vocação cristã não consiste em controlar o amanhã, mas em responder fielmente ao hoje de Deus, sabendo, como recorda Romanos 8,28-39, que nenhuma tribulação, sofrimento ou insegurança pode separar aqueles que caminham no amor de Deus. As águas profundas continuam diante de nós, e surgem algumas  perguntas: 

  • Quando as redes estiverem vazias, teremos coragem  de O  escutar novamente? 
  • Quando estiverem cheias, teremos maturidade para repartir?  
  • Quando o futuro parecer incerto, teremos fé suficiente para continuar caminhando?

O Evangelho não nos convida simplesmente a procurar peixes maiores, como se a vida cristã pudesse ser reduzida à busca de resultados cada vez maiores; ele nos conduz a uma pergunta muito mais profunda sobre o sentido das redes que lançamos, para quem trabalhamos, com quem caminhamos, quem permanece excluído e o que fazemos com aquilo que recebemos. À luz de Lucas 5,1-11, seguir Jesus significa também discernir quais redes precisam ser deixadas para trás, sejam elas redes de medo que paralisam, de preconceito que excluem, de vaidade que alimenta a necessidade de reconhecimento, de ressentimento que aprisiona o coração, de poder que transforma serviço em dominação, de acomodação que impede a mudança, de individualismo que rompe a comunhão ou de falsa segurança que nos faz confiar mais em nossas próprias certezas do que na Palavra de Deus. Há ainda redes religiosas que, em vez de libertar, aprisionam consciências, redes políticas que fazem pessoas defenderem líderes, partidos ou ideologias acima da verdade e da dignidade humana, e redes institucionais que podem transformar a preservação da estrutura em prioridade, impedindo a escuta daqueles que deveriam ser acolhidos. Jesus, porém, chama para uma liberdade diferente, porque, como ensina Paulo, é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1), e essa liberdade não significa viver sem responsabilidade, mas colocar a própria vida a serviço do amor (Gl 5,13-14). Por isso, deixar as redes não é simplesmente abandonar objetos ou posições, mas romper com tudo aquilo que impede o seguimento e transforma pessoas em meios para alcançar nossos próprios interesses. O chamado de Jesus encontra eco em sua própria palavra quando ele ensina que não veio para ser servido, mas para servir e entregar a vida pelos outros (Mc 10,45), e quando apresenta o amor ao próximo como expressão concreta do cumprimento da vontade de Deus (Mt 22,37-40). A pergunta, então, deixa de ser apenas o que podemos conquistar e passa a ser o que nossa vida está produzindo na vida dos outros. Se nossas redes estão cheias, elas precisam tornar-se partilha; se estão vazias, não podem transformar-se em motivo de desespero; se estão presas ao medo, precisam ser rompidas; se capturam consciências, precisam ser abandonadas; se servem à exclusão, precisam ser transformadas. O verdadeiro discernimento cristão consiste em reconhecer que nem tudo aquilo que conseguimos segurar merece continuar em nossas mãos e que nem toda estrutura que construímos deve ser preservada quando começa a ferir a dignidade humana. Jesus chama para lançar as redes novamente, mas também chama para saber deixá-las quando elas deixam de servir à vida. Por isso, a pergunta decisiva para a Igreja e para cada discípulo não é apenas quantos peixes conseguimos colocar dentro da barca, mas se aquilo que fazemos aproxima as pessoas de Deus, promove justiça, produz comunhão, protege os vulneráveis e torna visível o amor que professamos. Como recorda Miquéias 6,8, Deus pede que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com ele; e Jesus retoma essa lógica ao denunciar uma religião preocupada com aparências enquanto negligencia aquilo que é essencial, como a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt 23,23). As redes que precisam ser deixadas, portanto, não são apenas pessoais, mas também comunitárias e institucionais, porque uma Igreja que deseja permanecer fiel ao Evangelho precisa ter coragem de examinar continuamente suas práticas, reconhecer quando transformou serviço em poder, autoridade em controle, tradição em instrumento de exclusão ou religião em mecanismo de autopreservação. Seguir Jesus exige essa conversão permanente, porque o discípulo não é chamado a proteger suas próprias redes, mas a colocar sua vida a serviço da vida, permitindo que a Palavra alcance lugares onde ainda existem pessoas esperando acolhimento, justiça, verdade, reconciliação,  esperança e seguir Jesus exige liberdade para abandonar aquilo que impede o caminho.

  •  O lago permanece, as barcas permanecem.
  • As redes permanecem
  • O trabalho continua  
  • Os desafios não desaparecem.
O que realmente muda em Lucas 5,1-11 não é apenas o resultado da pesca, mas o coração daqueles que se deixam alcançar pela Palavra. O fracasso transforma-se em possibilidade, a experiência abre-se ao inesperado, a fragilidade converte-se em humildade, a abundância torna-se responsabilidade e o cotidiano revela-se como espaço de vocação. Por isso, a Igreja é chamada continuamente a discernir o sentido de suas práticas, suas estruturas e sua presença no mundo, verificando se aquilo que constrói favorece a dignidade humana, a comunhão, a justiça e o cuidado com os mais vulneráveis. Jesus continua dizendo para avançar, não como fuga da realidade, mas como convite a entrar nela com profundidade e coragem; não para buscar privilégios, mas para assumir a responsabilidade do serviço; não para dominar consciências, mas para favorecer a liberdade e a vida; não para alimentar uma religião baseada no medo, mas para formar uma comunidade capaz de testemunhar esperança. A noite pode ser longa, o trabalho pode produzir frustração e os resultados podem não corresponder ao esforço realizado, mas o fracasso não precisa determinar o horizonte de uma existência. Quando a Palavra encontra alguém disposto a acolhê-la, uma barca comum pode tornar-se lugar de missão; quando pessoas diferentes reconhecem sua interdependência, a comunidade fortalece-se na colaboração; quando a autoridade abandona a lógica do controle e assume a forma do serviço, a confiança pode ser reconstruída; e quando a fé se liberta de toda forma de exclusão, manipulação ou idolatria, recupera sua capacidade de anunciar o Evangelho com credibilidade. É nesse sentido que Lucas 5,1-11 não deve ser interpretado como promessa de que todas as redes serão preenchidas nem como garantia de prosperidade para quem crê. A abundância da pesca conduz a uma transformação muito mais profunda: Simão reconhece sua fragilidade, recebe uma nova direção e deixa aquilo que antes organizava sua existência para assumir uma missão que ultrapassa seus interesses pessoais (Lc 5,8-11). O centro da narrativa, portanto, não está na acumulação, mas no seguimento; não está no privilégio, mas na responsabilidade; não está no controle, mas na confiança. O milagre torna-se sinal de uma passagem interior pela qual o ser humano deixa de medir sua existência apenas pelo que consegue produzir, possuir ou controlar e começa a compreendê-la a partir da entrega, da comunhão e do cuidado com os outros. Essa é também a grande provocação para a Igreja: suas estruturas, seus ministérios, sua autoridade e seus recursos só encontram legitimidade quando permanecem orientados para a missão de Cristo e para a promoção da vida. Como recorda Paulo, ninguém deve colocar sua segurança absoluta em líderes ou estruturas humanas, porque “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo” (1Cor 3,21-23); e o ministério cristão somente permanece fiel quando assume a lógica daquele que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,42-45). Assim, o verdadeiro fruto da vocação não pode ser medido apenas por números, crescimento institucional ou reconhecimento social, mas pela capacidade de gerar comunhão, justiça, reconciliação, esperança e cuidado. Jesus continua entrando nas barcas da história, encontrando pessoas cansadas, falando no meio das frustrações e chamando seres humanos imperfeitos para uma missão maior do que suas próprias certezas. A resposta a esse chamado começa na disposição de escutar, mas amadurece quando a escuta se transforma em atitude, compromisso e serviço. As águas profundas permanecem diante de nós como espaço de confiança e responsabilidade, e a Palavra continua conduzindo a Igreja para além da acomodação, da autopreservação e de toda forma de poder que se afaste do Evangelho. No fim, a força da narrativa não está apenas na rede que se enche, mas na existência que encontra novo sentido, na comunidade que aprende a repartir e no discípulo que compreende que seguir Jesus significa colocar a própria vida a favor da vida dos outros.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Quando a Devoção Precisa de Conversão


Entre a Espada e o Evangelho
A  chamada Quaresma de São Miguel Arcanjo ocupa hoje um espaço significativo na piedade popular católica, especialmente no Brasil. Tradicionalmente praticada por muitos fiéis entre 15 de agosto e 28 de setembro, como preparação para a Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, celebrada em 29 de setembro, ela reúne: oração, penitência, jejum, leitura bíblica e pedidos de proteção e intercessão. Para muitas pessoas, esse período possui um profundo significado existencial. Em situações de:  sofrimento, doença, violência, desemprego, conflitos familiares e insegurança, a devoção oferece uma linguagem para expressar esperança diante daquilo que escapa ao controle humano. Por isso, qualquer análise séria não pode começar pelo desprezo à fé popular. A antropologia da religião mostra que os ritos ajudam comunidades e indivíduos a organizar o tempo, elaborar angústias, preservar memórias, fortalecer vínculos e atribuir sentido à experiência humana. O problema, portanto, não é simplesmente perguntar se a Quaresma de São Miguel é boa ou má. A questão teológica decisiva é discernir seus frutos, suas interpretações e seus usos concretos. Ela conduz à conversão, à liberdade, à misericórdia e à justiça ou alimenta medo, superstição, dependência, espetáculo e superioridade religiosa? O critério evangélico permanece claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).

Antes de qualquer avaliação, é necessário fazer uma distinção histórica:  Existe uma tradição franciscana de períodos penitenciais ligados à devoção a São Miguel e à experiência espiritual de São Francisco de Assis. A tradição relaciona particularmente esse período ao Monte Alverne, onde Francisco viveu uma profunda experiência espiritual e recebeu os estigmas. Entretanto, é historicamente inadequado afirmar, sem qualificações, que São Francisco tenha criado a atual Quaresma de São Miguel exatamente como ela é praticada hoje, com datas rigidamente fixadas, sequência uniforme de orações, ladainhas, velas, intenções determinadas e métodos idênticos em todos os lugares. A prática contemporânea é resultado de um desenvolvimento histórico da piedade popular. Essa precisão não diminui a devoção. Ao contrário, protege a tradição contra falsas certezas. Uma fé que proclama a verdade não deveria temer a pesquisa histórica. A história da Igreja é marcada por uma distinção fundamental entre a Tradição apostólica, a liturgia oficialmente celebrada e as diversas formas de piedade popular desenvolvidas ao longo dos séculos. Confundir essas realidades pode produzir graves equívocos. A chamada Quaresma de São Miguel, portanto, não deve ser confundida com a Quaresma litúrgica que prepara a Igreja para a celebração da Páscoa. A Igreja possui um calendário litúrgico próprio, e nenhuma devoção particular pode criar, por iniciativa privada, um novo tempo litúrgico universal. O período entre 15 de agosto e 28 de setembro continua pertencendo ao calendário ordinário da Igreja, com suas celebrações e leituras próprias. A Assunção de Maria e a Festa dos Santos Arcanjos são celebrações litúrgicas; a chamada Quaresma de São Miguel, como conjunto organizado de práticas devocionais, pertence ao campo da piedade popular. Essa diferença possui consequências pastorais importantes. Nenhum fiel é menos católico por não praticá-la. Nenhuma comunidade deveria apresentá-la como obrigação religiosa universal. Nenhum cristão deveria ser levado a acreditar que Deus concederá ou negará uma graça simplesmente porque uma determinada sequência de dias foi ou não cumprida. O próprio magistério oferece critérios para esse discernimento. O Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, publicado em 2002 pela então Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, reconhece o valor das expressões populares da fé, mas insiste na necessidade de preservar o primado da liturgia e estabelecer uma relação harmoniosa entre a celebração litúrgica e as devoções. A piedade popular pode enriquecer a vida cristã, mas não pode substituir a Eucaristia, os sacramentos, a escuta comunitária da Palavra e a vida da Igreja. Uma devoção saudável deveria conduzir para Cristo e para a comunidade, e não transformar-se num universo religioso paralelo. Uma pessoa pode cumprir quarenta dias de oração e, simultaneamente, abandonar a vida comunitária, desprezar os pobres, alimentar preconceitos e tratar os outros com violência. Nesse caso, existe prática religiosa, mas não necessariamente conversão. Essa crítica encontra fundamento direto nas palavras de Jesus. Em Mateus 6,1-18, ao falar da esmola, da oração e do jejum, Jesus não condena essas práticas. Ao contrário, pressupõe que seus discípulos as realizem. O problema está em fazê-las “para serem vistos”. Essa advertência possui uma força particular no mundo das redes sociais. Hoje, a espiritualidade pode ser fotografada, filmada, contabilizada e transformada em conteúdo diário. A vela acesa, o número do dia da devoção, o jejum, a oração e até a emoção religiosa podem tornar-se parte da construção de uma imagem pública. Não é possível julgar automaticamente a intenção de quem publica uma experiência de fé, mas o Evangelho obriga a fazer uma pergunta incômoda: estou rezando diante de Deus ou construindo uma identidade religiosa diante do público? Quando a visibilidade se torna mais importante que a conversão, a religião corre o risco de transformar-se em performance.

A cultura digital intensificou esse problema. O algoritmo não possui discernimento teológico. Ele privilegia aquilo que provoca atenção, medo, emoção, indignação e curiosidade. Por isso, discursos sobre ataques demoníacos, batalhas espirituais, revelações extraordinárias e inimigos invisíveis podem alcançar enorme circulação. O risco é que a religião comece a adaptar sua linguagem à lógica do engajamento. O medo gera audiência. O exagero gera compartilhamentos. O espetáculo produz seguidores. Mas a verdade do Evangelho não pode ser medida pelo número de visualizações. A fé cristã não foi entregue à Igreja como produto destinado a disputar atenção em um mercado digital. A análise bíblica da figura de São Miguel também exige rigor hermenêutico. Miguel aparece em Daniel 10,13 e 10,21 associado à defesa do povo de Deus. Em Daniel 12,1, surge como aquele que se levanta em favor do povo em um período de grande angústia. Em Judas 9, é chamado de arcanjo e, em sua disputa com o diabo, não pronuncia uma condenação baseada em poder próprio, mas afirma: “O Senhor te repreenda”. Essa expressão é decisiva. Miguel não é Deus. Não é uma força autônoma. Não exerce autoridade independente. Sua ação está subordinada à soberania divina. No Apocalipse 12,7-9, Miguel e seus anjos combatem o dragão. Entretanto, uma leitura responsável precisa reconhecer o gênero apocalíptico do texto. O Apocalipse não é uma reportagem sobre o mundo invisível. É uma literatura simbólica produzida no contexto de comunidades submetidas a poderes históricos, políticos e religiosos opressores. A linguagem cósmica proclama que nenhum poder de morte possui a última palavra.
Esse ponto impede uma leitura reducionista da chamada batalha espiritual. O cristianismo reconhece a realidade do mal e possui uma tradição demonológica. O problema começa quando essa tradição é transformada numa explicação universal para todos os acontecimentos. Nem toda doença é ação demoníaca. Nem toda dificuldade financeira é maldição. Nem todo conflito familiar é ataque espiritual. Nem todo adversário político é instrumento de Satanás. Nem toda religião diferente representa uma ameaça demoníaca. Uma demonologia sem discernimento pode produzir medo, intolerância e irresponsabilidade. Se toda doença é atribuída ao demônio, despreza-se a medicina. Se todo sofrimento psicológico é interpretado exclusivamente como problema espiritual, pessoas podem deixar de buscar ajuda adequada. Se toda crise social é explicada por forças invisíveis, desaparecem a responsabilidade humana e a análise das estruturas que produzem sofrimento.
A própria Bíblia rejeita explicações religiosas simplistas. O livro de Jó questiona a tentativa de estabelecer uma relação mecânica entre sofrimento e culpa. Os amigos de Jó acreditam possuir uma explicação religiosa para sua tragédia, mas a narrativa demonstra os limites dessa teologia. Jesus também não reduz todo sofrimento à mesma causa. Ele cura, acolhe, perdoa, liberta e devolve dignidade. Uma pastoral madura precisa, portanto, reconhecer a complexidade da realidade humana. Fé, medicina, psicologia e ciências sociais não precisam ser inimigas. A verdade não perde sua força quando dialoga com outras formas legítimas de conhecimento.
Efésios 6,10-18 oferece uma chave fundamental para compreender o combate espiritual. Paulo utiliza a imagem da armadura, mas as armas apresentadas são profundamente éticas: verdade, justiça, Evangelho da paz, fé, salvação e Palavra de Deus. O texto não entrega uma técnica mágica para controlar forças invisíveis. Ele chama o cristão a permanecer fiel. Combater espiritualmente a mentira significa viver na verdade. Combater o mal significa praticar a justiça.

Combater a violência significa construir a paz. Isso muda radicalmente a compreensão da devoção. Uma pessoa pode rezar durante quarenta dias e permanecer distante do Evangelho se continua mentindo, explorando, humilhando e discriminando.
É aqui que a crítica profética dos profetas se torna indispensável. Isaías 1,11-17 denuncia um culto religiosamente intenso, mas moralmente vazio. Deus não aceita sacrifícios quando as mãos que os oferecem permanecem marcadas pela injustiça. Em Amós 5,21-24, o profeta rejeita uma religião que canta e celebra enquanto a sociedade continua esmagando os pobres. A exigência divina é clara: “Corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene”. Isaías 58 aprofunda ainda mais a questão do jejum. O jejum querido por Deus não se limita à privação alimentar. Ele está relacionado à libertação dos oprimidos, à partilha do pão e ao acolhimento dos vulneráveis. Esse texto deveria ser central em qualquer prática penitencial. É possível deixar de comer determinados alimentos durante quarenta dias e continuar alimentando ódio. É possível fazer penitência e continuar explorando trabalhadores. É possível acender velas diariamente e permanecer indiferente à fome de quem vive ao lado.
A dimensão social do pecado não pode ser ignorada. Existe uma forma de religião que procura obsessivamente o mal invisível, mas não enxerga o mal instalado em estruturas concretas. O mal também aparece na fome, no racismo, na violência contra as mulheres, na destruição ambiental, na exploração econômica, no tráfico de pessoas, na corrupção e na precarização do trabalho. Uma espiritualidade que procura demônios em toda parte, mas não percebe os mecanismos sociais que produzem sofrimento, pode tornar-se alienante. A Bíblia, porém, não separa a relação com Deus da responsabilidade histórica. A libertação anunciada por Jesus em Lucas 4,18-19 possui consequências concretas para os pobres, os cativos e os oprimidos.

No Brasil contemporâneo, essa discussão possui uma dimensão particular. Vivemos em uma sociedade marcada por desigualdade, insegurança, violência e polarização. A procura por proteção espiritual é, portanto, compreensível. O problema aparece quando a insegurança humana é utilizada para produzir dependência religiosa. Quanto maior o medo, maior pode ser a procura por campanhas, objetos, fórmulas e líderes apresentados como indispensáveis. A fé pode oferecer esperança, mas também pode ser instrumentalizada como mecanismo de controle. É necessário perguntar quem se beneficia quando todo sofrimento é apresentado como resultado de uma maldição:
  •  Quem ganha quando cada problema exige uma nova campanha? 
  • Quem lucra quando a proteção de Deus parece depender da compra de um objeto ou da participação em determinado evento?
A tradição católica oferece critérios claros para essa questão. O Catecismo da Igreja Católica, especialmente nos números 2110 e 2111, alerta para a superstição e explica que até práticas religiosas legítimas podem ser deformadas quando lhes é atribuída uma eficácia automática ou mágica, independentemente das disposições interiores da pessoa. Portanto: 
  1. Rezar a São Miguel não é superstição.
  2.  Acender uma vela não é superstição.
  3.  Fazer jejum não é superstição. 
O problema surge quando se acredita que o objeto, a fórmula ou o número de dias obriga Deus a agir e  se alguém pensa ou acredita que uma oração corretamente repetida garante automaticamente uma espécie de blindagem espiritual, a prática deixa de expressar confiança e aproxima-se da mentalidade mágica.
Os números 2116 e 2117 do Catecismo aprofundam essa crítica ao rejeitar práticas que pretendem controlar poderes ocultos. A diferença entre oração e magia é decisiva. A oração pede e confia. A magia pretende dominar e controlar. A oração reconhece a liberdade de Deus. A mentalidade mágica tenta transformar Deus em mecanismo previsível. O cristianismo não ensina a manipular o sagrado. Ensina a confiar em Deus mesmo quando a resposta não corresponde aos nossos desejos. Existe também o risco do orgulho espiritual. A parábola do fariseu e do publicano, em Lucas 18,9-14, mostra que práticas religiosas aparentemente corretas podem transformar-se em motivo de superioridade. O fariseu jejua e reza, mas utiliza sua religião para desprezar o outro. Jesus não condena o jejum ou a oração. Condena a arrogância religiosa. O mesmo critério aparece em Mateus 9,13, quando Jesus recorda: “Quero misericórdia, e não sacrifício”. Uma devoção autêntica deveria tornar a pessoa mais humilde, não mais convencida de sua superioridade espiritual.
Esse risco se relaciona diretamente com o clericalismo e o autoritarismo religioso. O problema não está apenas em padres e bispos. Qualquer líder, pregador ou influenciador pode assumir uma posição clericalista quando se apresenta como proprietário da vontade de Deus. Isso acontece quando alguém afirma saber exatamente quais espíritos atuam na vida dos outros, quando interpreta todas as doenças e conflitos como ataques invisíveis ou quando cria uma dependência psicológica e espiritual dos fiéis. Gálatas 5,1 recorda: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Uma espiritualidade cristã madura forma consciências livres e responsáveis. Não deveria produzir consumidores religiosos dependentes de intermediários carismáticos.
A instrumentalização política da linguagem religiosa é outro problema grave. A oposição entre bem e mal faz parte da linguagem bíblica, mas torna-se perigosa quando é utilizada para eliminar a humanidade do adversário. Uma divergência política deixa de ser discutida racionalmente e passa a ser apresentada como guerra espiritual. O adversário torna-se inimigo de Deus. Uma proposta política é classificada como satânica antes mesmo de ser analisada. Isso não é discernimento profético. É instrumentalização da fé.

No Brasil, setores da extrema direita têm utilizado frequentemente símbolos cristãos e uma linguagem de guerra espiritual para apresentar determinados projetos políticos como se possuíssem legitimidade divina exclusiva. Isso exige crítica. A tradição profética não autoriza a sacralização de líderes políticos. Os profetas bíblicos confrontaram reis e estruturas de poder. A fé cristã não pertence à direita, à esquerda ou a qualquer partido. Quando um projeto político sequestra a cruz para apresentar seus adversários como inimigos de Deus, a religião é transformada em instrumento ideológico. Jesus, em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, é tentado justamente pelo poder, pelo espetáculo e pela utilização de Deus em benefício próprio. Essas tentações permanecem atuais. A religião pode ser transformada em mercado e pode ser transformada em espetáculo, em instrumento de poder e até em mecanismo de controle das consciências. Quando a linguagem da “batalha espiritual” passa a demonizar outras religiões ou grupos religiosos, seus praticantes deixam de ser vistos como pessoas com dignidade e passam a ser tratados como adversários a serem combatidos. Essa postura fere o princípio da liberdade religiosa e alimenta a intolerância. O problema torna-se ainda mais grave quando atinge as religiões de matriz africana, historicamente perseguidas, criminalizadas e estigmatizadas no Brasil, e que ainda hoje são frequentemente alvo de discursos de demonização religiosa. Uma linguagem irresponsável sobre batalha espiritual pode, portanto, ultrapassar o campo da devoção e contribuir para violências concretas, preconceitos, discriminação e perseguições. O combate cristão contra o mal jamais pode ser convertido em licença para combater pessoas. O Evangelho chama o cristão ao discernimento, à verdade e à defesa da dignidade humana, inclusive diante daquele que professa outra fé.

O cristão tem o direito de professar sua fé e suas convicções, mas não possui o direito de transformar pessoas e comunidades em objetos de ódio. Jesus afirma em Mateus 5,44: “Amai os vossos inimigos”. O combate cristão contra o mal não é autorização para combater seres humanos. Romanos 12,21 oferece uma síntese ainda mais clara: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”.
A dimensão psicológica também merece atenção.  Uma espiritualidade baseada em ameaça permanente pode produzir ansiedade, culpa e medo. Pessoas vulneráveis podem começar a interpretar sonhos, pensamentos, doenças e acontecimentos cotidianos como sinais de perseguição demoníaca. Não se trata de patologizar a fé, mas de observar seus frutos. A prática produz confiança ou paranoia? Liberdade ou dependência? Discernimento ou medo permanente? Uma religião saudável deveria ampliar a capacidade humana de enfrentar a realidade, e não tornar o indivíduo incapaz de viver sem rituais constantes de proteção.

Isso não significa que a Quaresma de São Miguel não possua aspectos positivos. Ela pode recuperar a disciplina da oração diária em uma sociedade marcada pela dispersão. Pode incentivar a leitura da Bíblia. Pode estimular o jejum, a penitência e a caridade. Pode ajudar pessoas a atravessar momentos de sofrimento. Pode fortalecer a consciência de que o mal não deve ser normalizado. Pode lembrar que o cristão é chamado a resistir à mentira, à injustiça e à violência. O problema não está necessariamente na devoção. Está no modo como ela é compreendida e utilizada. O próprio símbolo dos quarenta dias pode ser enriquecido pela experiência do deserto de Jesus. Em Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13, Jesus enfrenta tentações profundamente atuais. A primeira envolve a transformação do poder em satisfação imediata. A segunda envolve o espetáculo religioso e a tentativa de obrigar Deus a demonstrar sua proteção. A terceira envolve a obtenção do poder político em troca de submissão. Uma Quaresma verdadeiramente cristã deveria ajudar o fiel a reconhecer essas tentações em sua própria vida e na vida da Igreja. A religião que transforma tudo em dinheiro precisa ser confrontada. A religião que precisa de espetáculo permanente precisa ser questionada. A religião que se submete ao poder político precisa ser purificada.

A verdadeira proteção cristã também não pode ser individualista. O Pai Nosso não ensina simplesmente “livra-me do mal”, mas “livra-nos do mal”. A oração possui uma dimensão comunitária. Quem pede proteção para si também é chamado a proteger os vulneráveis. Quem pede libertação deve perguntar quem está aprisionado. Quem pede paz deve perguntar como participa da construção da paz. Uma devoção a São Miguel poderia tornar-se uma escola de responsabilidade social. 
  • De quem eu preciso ser proteção? 
  • Quem está sozinho? 
  • Quem sofre violência? 
  • Quem foi abandonado? 
  • Quem está sendo discriminado? 
  • Quem necessita de alimento, escuta ou defesa?
Essa é uma forma mais profunda de compreender o combate espiritual. 
  • Combater a mentira é recusar-se a divulgar notícias falsas. 
  • Combater a violência é não reproduzir discursos de ódio. 
  • Combater a injustiça é denunciar a exploração. 
  • Combater o racismo é rejeitar a desumanização. 
  • Combater o clericalismo é recusar entregar a própria consciência a líderes que pretendem ocupar o lugar de Deus. 
  • Combater o fanatismo é reconhecer que ninguém possui o monopólio absoluto da compreensão de Deus.
 A exortação de 1 Tessalonicenses 5,21 permanece essencial: “Examinai tudo e ficai com o que é bom”. Discernir é uma forma de maturidade espiritual. A verdade também está ligada à liberdade. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Essa palavra deveria impedir a construção de uma religião baseada no medo. A fé não precisa fabricar inimigos para manter os fiéis unidos. Não precisa transformar o sagrado em mercadoria. Não precisa usar a ignorância como condição de sobrevivência. Uma Igreja madura pode reconhecer a história complexa de suas práticas, corrigir abusos e dialogar com a ciência sem abandonar a fé.

A crítica, contudo, não pode transformar-se em desprezo pela religiosidade popular. Seria outro tipo de arrogância. O povo reza porque sofre, espera, busca sentido e procura forças para continuar vivendo. O papel da teologia não é humilhar a fé popular, mas ajudá-la a amadurecer. A função pastoral não é arrancar do povo suas devoções, mas evangelizá-las. A piedade popular pode ser um caminho legítimo quando conduz à Palavra, à Eucaristia, à reconciliação, à comunidade e ao compromisso com a vida.
A questão decisiva é que a devoção não se transforme em fim absoluto. Quando o ritual ocupa o lugar da conversão, quando o medo ocupa o lugar da esperança, quando o líder ocupa o lugar da consciência e quando a superstição ocupa o lugar da fé, a prática perdeu seu centro. São Miguel não é Deus. Não é Cristo. Não é uma força mágica disponível para resolver automaticamente os problemas humanos. Na tradição bíblica, sua figura aponta para a soberania de Deus sobre o mal. Uma devoção autêntica a São Miguel, portanto, deve conduzir para Deus e, na fé cristã, para Jesus Cristo.
A conclusão, então, não precisa ser a destruição da Quaresma de São Miguel, mas sua purificação evangélica. Uma devoção que produz medo precisa ser evangelizada. Uma devoção que produz comércio precisa ser purificada. Uma devoção que produz superioridade precisa ser confrontada pela humildade da cruz. Uma devoção que alimenta intolerância precisa reencontrar a misericórdia. Mas uma prática que produz oração sincera, leitura da Palavra, humildade, solidariedade, compromisso comunitário, justiça e responsabilidade pode constituir uma expressão legítima e fecunda da piedade popular.

A pergunta final não deveria ser quantas velas foram acesas, quantos dias foram cumpridos ou quantas orações foram repetidas. A pergunta verdadeiramente cristã é outra: 
  • Quem nos tornamos depois desse caminho?
  • Estamos mais próximos de Jesus? 
  • Mais misericordiosos?
  •  Mais comprometidos com a verdade? 
  • Mais livres diante da manipulação religiosa?
  •  Mais atentos aos pobres?
  •  Mais responsáveis pelo que fazemos, dizemos, compartilhamos e até apoiamos politicamente?
 Se uma devoção não toca a vida concreta, ela corre o risco de permanecer apenas na superfície. A verdadeira vitória espiritual não acontece quando aprendemos a enxergar demônios em todos os lugares. Acontece quando o mal deixa de encontrar espaço em nossa maneira de:  pensar, falar, trabalhar, votar, conviver e tratar o próximo. Acontece quando a oração se transforma em compromisso, quando: 
  •  O jejum se transforma em solidariedade, 
  • Quando a penitência se transforma em mudança de vida 
  •  Quando a devoção se transforma em serviço.
Talvez seja esse o sentido mais profundo que uma Quaresma de São Miguel possa recuperar no contexto contemporâneo. A espada do arcanjo não precisa tornar-se símbolo de guerra contra pessoas, partidos, religiões ou grupos sociais. Pode ser compreendida como imagem da coragem necessária para cortar as amarras da mentira, da injustiça, do medo e da indiferença. O combate não é contra a humanidade do outro e sim contra tudo aquilo que desumaniza.
O Evangelho não chama o cristão a viver aterrorizado. Chama-o a confiar em Deus e a comprometer-se com o bem. Por isso, uma devoção é autenticamente cristã não quando produz pessoas que falam obsessivamente sobre o demônio, mas quando produz pessoas que se parecem mais com Cristo. Não quando aumenta o medo, mas quando fortalece a esperança. Não quando fabrica inimigos, mas quando desperta responsabilidade. Não quando transforma a religião em espetáculo, mercado ou instrumento de poder, mas quando gera verdade, justiça, misericórdia e amor.
A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente se estamos do lado de São Miguel. É se estamos do lado daquilo que Deus exige na Escritura: verdade, justiça, misericórdia, liberdade e amor. Diante do Evangelho, não basta dizer que combatemos o mal. É necessário demonstrar, na vida concreta, de que maneira escolhemos o bem.
Uma Quaresma de São Miguel encontrará sua autenticidade cristã quando deixar de ser uma técnica de proteção e se tornar caminho de conversão. Quando não prometer uma vida sem sofrimento, mas ajudar a atravessar o sofrimento sem perder a humanidade. Quando não transformar os fiéis em guerreiros contra os outros, mas em discípulos capazes de enfrentar as próprias sombras e resistir às estruturas que produzem morte. Quando não substituir Cristo, mas apontar para ele.
Porque o maior sinal de que uma devoção está produzindo frutos não é o medo que ela desperta, nem o espetáculo que ela consegue criar, nem a quantidade de pessoas que reúne. O sinal é o amor que ela gera. É a verdade que ela protege. É a justiça que ela promove. É a liberdade que ela preserva. É a misericórdia que ela desperta. No fim, a medida de toda devoção cristã permanece a mesma: não quanto falamos sobre os anjos, o demônio ou a batalha espiritual, mas quanto, depois de rezar, conseguimos viver como Jesus Cristo.
DNonato - Teólogo  do Cotidiano.

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano