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domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano 


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 6,16-21

A narrativa de João 6,16-21, proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa no ciclo litúrgico da Igreja Católica, revela-se como um ponto de condensação teológica no interior da pedagogia pascal. Não se trata apenas de uma recordação narrativa, mas de uma inserção existencial da comunidade no mistério do Ressuscitado que continua a se manifestar nas travessias da história. Ao ser proclamado nesse momento específico, o texto desloca o olhar da assembleia da experiência da abundância visível, presente na multiplicação dos pães em João 6,1-15, para a experiência da ausência, da noite e da instabilidade. Essa transição não é acidental, mas profundamente formativa, pois corresponde à dinâmica real da fé, que não se sustenta apenas nos momentos de clareza, mas se purifica nas zonas de ambiguidade.
A articulação com Mateus 14,22-33, Marcos 6,45-52 e, em chave indireta, Lucas 8,22-25, amplia o horizonte interpretativo e evidencia que a tradição cristã primitiva reconheceu nesse conjunto narrativo uma chave hermenêutica para compreender a identidade de Jesus e a experiência da comunidade. O domínio sobre as águas, a travessia noturna, o medo dos discípulos e a palavra de Jesus compõem um campo simbólico denso, que precisa ser explorado não apenas em sua literalidade, mas em sua profundidade antropológica, teológica e histórica.
O pré-texto da multiplicação dos pães estabelece o primeiro eixo simbólico fundamental: o alimento. O pão, à luz de Êxodo 16,4-15, não é apenas sustento físico, mas sinal da fidelidade de Deus que acompanha o povo no deserto. Em Deuteronômio 8,2-3, esse alimento é reinterpretado como pedagogia que ensina a depender da Palavra. Quando Jesus retoma essa tradição em Mateus 4,4, ele desloca o centro da existência da segurança material para a confiança no Deus que fala. No entanto, a reação da multidão em João 6,15 revela uma tendência recorrente na história humana: transformar o dom em instrumento de poder. A tentativa de fazer Jesus rei não nasce apenas do entusiasmo, mas de uma expectativa moldada por estruturas de dominação, como já denunciado em 1 Samuel 8,10-18. Aqui emerge um dos primeiros grandes símbolos do texto: o messianismo deturpado, que busca capturar Deus dentro de projetos humanos.
A montanha para a qual Jesus se retira constitui outro símbolo decisivo. Na tradição bíblica, a montanha é lugar de revelação, como em Êxodo 24,12 e 1 Reis 19,11-13, mas também espaço de distanciamento crítico em relação às estruturas de poder. Em Salmo 121,1-2, ela é o lugar de onde vem o auxílio, e em Isaías 2,2-3, torna-se centro de ensino e justiça. Ao subir a montanha, Jesus não apenas se retira, mas recusa ser reduzido a uma função política. Ele reafirma que a revelação de Deus não se submete às expectativas humanas. A montanha, portanto, simboliza a transcendência de Deus frente às tentativas de instrumentalização religiosa.
Em contraste com a subida de Jesus, os discípulos descem ao mar. Esse movimento descendente é carregado de significado. O mar, em Gênesis 1,2, representa o caos primordial. Em Daniel 7,2-3, dele emergem os impérios opressores, e em Apocalipse 21,1, sua ausência indica a superação definitiva do mal. A descida ao mar, portanto, simboliza a entrada na zona de instabilidade, onde a vida é ameaçada. Em Jonas 1,3-5, o mar reage à desordem humana, mostrando que o caos não é apenas natural, mas também ético e espiritual. A barca, nesse contexto, torna-se símbolo da comunidade humana e eclesial, frágil e exposta, mas chamada a atravessar.
A noite intensifica essa simbologia. Em João, a noite é mais do que ausência de luz, é ausência de sentido. Em João 9,4 e 11,10, ela é o tempo da impossibilidade de agir e de discernir. Em Sabedoria 17,2-3, ela é descrita como experiência de medo e ignorância. No entanto, Salmo 139,11-12 afirma que nem as trevas são escuras para Deus, e Êxodo 13,21-22 recorda que Deus guia o povo também à noite. A noite, portanto, simboliza a experiência existencial de crise, onde a fé é despojada de certezas imediatas e convidada a confiar além do visível.
O vento contrário em João 6,18 introduz outro elemento simbólico ambíguo. Em Eclesiastes 1,6, o vento é força imprevisível, e em Jeremias 4,11-12, pode ser instrumento de julgamento. Contudo, em João 3,8 e Atos 2,2, o vento é também sinal do Espírito. Essa ambiguidade revela que a mesma realidade que desestabiliza pode também ser lugar de ação divina. O vento contrário simboliza as forças históricas, sociais e interiores que resistem ao projeto de Deus, mas que não escapam à sua soberania.
É nesse cenário que ocorre a teofania central: Jesus caminhando sobre as águas. Esse gesto deve ser lido à luz de Jó 9,8 e Salmo 77,19, onde Deus é aquele que pisa o mar. Em Isaías 40,12 e Provérbios 8,29, Deus domina as águas e estabelece seus limites. Ao realizar esse gesto, Jesus não apenas manifesta poder, mas revela sua identidade divina. Ele se apresenta como aquele que atravessa o caos sem ser dominado por ele. O caminhar sobre as águas é, portanto, símbolo da soberania de Deus sobre todas as forças que ameaçam a vida.
A palavra de Jesus, “Eu sou. Não tenhais medo” em João 6,20, constitui o centro teológico do texto. A expressão “Eu sou” remete a Êxodo 3,14 e às declarações de Isaías 41,4; 43,10 e 46,4, onde Deus afirma sua identidade como único Senhor da história. Não se trata de uma simples identificação, mas de uma revelação do ser divino presente na história humana. O “não tenhais medo”, por sua vez, ecoa Gênesis 15,1, Isaías 41,10 e Apocalipse 1,17, revelando que a presença de Deus não elimina o perigo, mas transforma a relação com ele. O medo, que em Juízes 6,22-23 e Daniel 10,7-9 aparece como reação ao sagrado, é ressignificado pela proximidade de Deus.
A barca acolhe Jesus, e imediatamente chega à margem. Esse detalhe, aparentemente simples, possui uma profundidade simbólica extraordinária. A barca representa a comunidade, como em Marcos 4,35-41, mas também a própria existência humana em travessia. A chegada à margem remete a Josué 3,14-17, à entrada na terra prometida, e a Hebreus 4,9-11, ao descanso escatológico. A presença de Cristo não elimina a travessia, mas a conduz ao seu sentido pleno.
Nos relatos paralelos, a figura de Pedro em Mateus 14,28-31 introduz o símbolo da fé em tensão. Ele caminha sobre as águas enquanto mantém o olhar em Jesus, mas afunda ao fixar-se no vento. Essa dinâmica encontra eco em Tiago 1,6 e Lucas 22,31-32, revelando que a fé não é ausência de dúvida, mas perseverança em meio a ela. Já a incompreensão dos discípulos em Marcos 6,52, associada ao endurecimento do coração, remete a Isaías 6,9-10 e Ezequiel 12,2, denunciando a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus.
No horizonte antropológico, a travessia simboliza os processos de transformação. Em Salmo 66,10-12, o povo passa pelo fogo e pela água, e em 2 Coríntios 4,8-9, a experiência de limite não conduz à destruição, mas à renovação. A psicologia da espiritualidade reconhece nesses processos momentos de crise que geram amadurecimento. O medo, longe de ser negado, é integrado e transformado pela confiança.
No plano social e profético, o mar agitado assume rostos concretos. Ele se manifesta nas estruturas de injustiça denunciadas em Isaías 10,1-2 e Amós 5,11-12, na exploração criticada em Tiago 5,1-5 e na desigualdade que fere a dignidade humana. A tentativa de instrumentalizar Jesus em João 6,15 continua presente em contextos onde a fé é usada para legitimar projetos de poder. Jeremias 7,4-11 denuncia essa manipulação, e Miquéias 6,8 reafirma a centralidade da justiça, da misericórdia e da humildade.
O clericalismo, denunciado em Ezequiel 34,2-4 e Mateus 23,8-12, aparece como uma distorção da barca, que deixa de ser espaço de comunhão para se tornar estrutura de dominação. Jesus, ao lavar os pés em João 13,12-15, redefine radicalmente a autoridade como serviço. Qualquer prática religiosa que se afaste desse horizonte se torna vazia, como denunciado em Isaías 29,13 e Marcos 7,6-7. A esperança escatológica ilumina todo o percurso. Em Apocalipse 7,16-17, Deus enxuga as lágrimas, e em Apocalipse 22,1-2, as águas tornam-se fonte de vida. O mar, antes símbolo de caos, é transformado. A travessia encontra seu cumprimento na comunhão plena com Deus.

Assim, o relato de Evangelho de João 6,16-21, quando interpretado no horizonte mais amplo da revelação, não se reduz a um episódio isolado, mas se manifesta como uma condensação densa da história da salvação e da própria condição humana. A barca frágil sobre as águas agitadas evoca não apenas a comunidade dos discípulos, mas toda a humanidade lançada no mar ambíguo da existência, como já ressoa no caos primordial de Gênesis 1,2 e na experiência de desamparo descrita em Salmos 107,23-30. A noite que envolve os discípulos não é somente ausência de luz, mas espaço teológico onde a fé é purificada, à semelhança do clamor de Israel na escuridão da opressão narrada em Êxodo.
Nesse cenário, o Ressuscitado se revela não como aquele que evita o conflito da história, mas como aquele que a atravessa soberanamente. Caminhar sobre o mar não é gesto de espetáculo, mas afirmação de senhorio sobre as forças que, na linguagem simbólica bíblica, representam o caos, a morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Há aqui uma profunda chave hermenêutica: Deus não atua segundo a lógica do controle ou da imposição, mas segundo a lógica da presença fiel. Ele se aproxima, fala, se deixa reconhecer e convida à confiança. A palavra “Sou eu, não tenhais medo” ecoa o Nome revelado em Êxodo 3,14 e encontra ressonância na promessa reiterada em Isaías 43,1-2, onde o Senhor assegura sua presença nas águas e no fogo da história.
Essa presença, porém, não legitima estruturas de dominação nem espiritualiza o sofrimento. Ao contrário, ela desestabiliza sistemas que produzem medo, exclusão e morte. Em chave sociológica e profética, o texto denuncia toda forma de poder que se alimenta do caos para se manter, seja no âmbito político, religioso ou econômico. A travessia dos discípulos torna-se, assim, imagem da travessia dos povos que resistem às tempestades impostas por projetos desumanizantes, incluindo aqueles que instrumentalizam a fé para justificar desigualdades ou reforçar autoritarismos. Do ponto de vista existencial, o medo experimentado na barca é profundamente humano. Não é negado nem reprimido, mas transformado pela experiência de encontro. A fé que emerge não é alienação, mas reconfiguração do olhar, uma passagem da percepção do caos como ameaça absoluta para a confiança na presença que sustenta a travessia, trata-se de uma mudança de eixo: do controle para a confiança, da ansiedade paralisante para a abertura relacional.
Por isso, a narrativa não aponta para uma fuga da realidade, mas para um modo novo de habitá-la. A travessia continua sendo exigente, o vento continua contrário e a noite, muitas vezes, persiste. No entanto, a presença do Ressuscitado inaugura uma nova leitura da história, na qual o destino não é determinado pelas forças do caos, mas pela fidelidade de Deus que se faz próximo. A barca chega à margem não porque o mar deixou de ser mar, mas porque a presença foi acolhida. Permanece, portanto, um chamado concreto e urgente: reconhecer o Senhor que vem ao encontro nas encruzilhadas da história, discernir sua voz em meio às vozes que geram medo e assumir uma prática de fé que não se rende ao fatalismo nem se acomoda a estruturas injustas. A promessa não é a ausência de tempestades, mas a certeza de que nenhuma delas tem a palavra final. A história, mesmo atravessada por crises e contradições, está aberta à ação de Deus, que continua a vir, a falar e a conduzir, orientando a humanidade para o horizonte de vida plena que Ele mesmo inaugurou.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 11 de abril de 2026

Olhando novamente João 20,19-31 - Domingo da Misericórdia; 2⁰ domingo da Páscoa

O segundo domingo da Páscoa, celebrado como Domingo da Divina Misericórdia por iniciativa de João Paulo II em profunda sintonia com a experiência espiritual de Faustina Kowalska, desvela com densidade teológica o núcleo do mistério pascal. A ressurreição não se reduz à vitória sobre a morte; ela se configura como irruptio histórica de uma misericórdia que não retrocede diante do pecado, da violência ou da negação humana, mas se oferece como potência recriadora que restaura, reconcilia e envia (Ef 2,4-5). Celebrar a misericórdia neste horizonte pascal é subverter as lógicas retributivas e meritocráticas que estruturam tanto as relações sociais quanto certas expressões religiosas marcadas pelo legalismo. Trata-se de afirmar que Deus não opera segundo a contabilidade do mérito, mas segundo a superabundância da graça (Rm 5,20), que inaugura uma nova condição existencial. A cruz, longe de ser anulada, é reinterpretada em sua radicalidade: não como instrumento de condenação, mas como lugar onde o amor se revela em sua forma mais extrema,  a entrega que não responde à violência com violência, mas a desarma desde dentro (Lc 23,34).

No contexto contemporâneo, atravessado por discursos de ódio, polarizações ideológicas e instrumentalizações da fé, a celebração da misericórdia assume caráter eminentemente profético. Ela confronta tanto o moralismo excludente quanto o clericalismo autorreferencial, denunciando toda religião que se esvazia de compaixão concreta (Mt 9,13). Ao mesmo tempo, anuncia que a última palavra sobre a história não pertence ao juízo punitivo, mas à graça que recria todas as coisas (Ap 21,5). Assim, a misericórdia não é um atributo periférico de Deus, mas o seu próprio modo de ser e agir na história — uma força que, ao invés de legitimar estruturas de exclusão, inaugura caminhos de reconciliação, justiça e vida nova. Celebrá-la é, portanto, comprometer-se com uma prática histórica que torne visível, no cotidiano, o que já foi inaugurado na Páscoa: a vitória do amor que não desiste da humanidade (Jo 20,19-23).

A liturgia deste segundo domingo da Páscoa se apresenta como um grande mosaico teológico e existencial, no qual a experiência do Ressuscitado não é apenas proclamada, mas encarnada na vida concreta da comunidade como refletimos nos  anos anteriores e a seguinte: Atos dos Apóstolos 2,42-47; Salmos 117(118),2-4.13-15.22-24; Primeira Carta de Pedro 1,3-9; Evangelho de João 20,19-31.

  •  Atos dos Apóstolos 2,42-47,  nos apresenta  a fé pascal que se traduz em um modo de vida alternativo e profundamente subversivo. A perseverança na doutrina apostólica, a comunhão, a fração do pão e a oração (At 2,42) não são apenas práticas devocionais, mas elementos constitutivos de uma nova configuração social. A partilha dos bens (At 2,45) não pode ser reduzida a gesto de caridade ocasional, mas deve ser compreendida como ruptura com estruturas de acumulação que geram exclusão (Dt 15,4; Lv 25). Trata-se de uma economia do Reino, onde a dignidade humana precede o lucro. Em um mundo contemporâneo marcado pela desigualdade extrema, pela concentração de riqueza e pela naturalização da pobreza, esse texto ressoa como denúncia profética e como anúncio de uma possibilidade histórica concreta. A mesa partilhada torna-se sinal escatológico, antecipando o banquete universal anunciado pelos profetas (Is 25,6), onde ninguém é excluído
  • .O Salmo 117(118) aprofunda essa leitura ao proclamar a permanência da misericórdia divina na história (Sl 118,1). A imagem da pedra rejeitada que se torna angular (Sl 118,22), assumida no Novo Testamento como chave cristológica (Mt 21,42; At 4,11; 1Pd 2,7), revela uma inversão radical dos critérios humanos. Deus constrói a partir do que o mundo descarta. Essa imagem, relida à luz das realidades atuais, confronta sistemas que marginalizam populações inteiras, descartando vidas em nome do progresso. O “dia que o Senhor fez” (Sl 118,24) não é apenas memória litúrgica, mas anúncio de uma nova ordem histórica inaugurada na ressurreição, onde a morte não possui mais domínio definitivo (1Cor 15,54-57). 
  • A I Pedro 1,3-9 insere essa esperança no interior das contradições da existência humana. A regeneração para uma esperança viva (1Pd 1,3) não aliena da dor, mas a atravessa. A imagem do ouro provado no fogo (1Pd 1,7) revela que a fé amadurece na tensão, no sofrimento e na incerteza. Em uma sociedade marcada por crises existenciais, sofrimento psíquico e perda de sentido, essa palavra se apresenta como resistência espiritual. Crer sem ver (1Pd 1,8) não é irracionalidade, mas abertura à presença de Deus que se manifesta de modo discreto e, muitas vezes, oculto na história.

É nesse horizonte que o Evangelho de João 20,19-31 se revela como uma narrativa profundamente simbólica e existencial. A comunidade reunida com as portas fechadas (Jo 20,19) encarna não apenas o medo imediato após a morte de Jesus, mas uma condição humana recorrente: o fechamento diante da ameaça, a incapacidade de elaborar o sofrimento, a tendência a transformar o medo em estrutura. As portas fechadas são símbolo de uma Igreja que, quando dominada pelo medo, se torna defensiva, autorreferencial e incapaz de missão. São também imagem de sociedades que constroem muros, rejeitam o diferente e se organizam a partir da exclusão.

O Ressuscitado, no entanto, não é impedido por essas barreiras. Ele se coloca no meio (Jo 20,19), e esse “meio” é carregado de densidade teológica. Cristo torna-se o centro reorganizador da comunidade (Cl 1,17), deslocando o medo e instaurando uma nova lógica relacional. A saudação “A paz esteja convosco” (Jo 20,19.21.26) introduz o shalom bíblico, que não é mera ausência de conflito, mas plenitude de vida fundada na justiça (Is 32,17). Em contraste com a paz imposta por sistemas autoritários, sustentada pela violência e pela coerção, a paz de Cristo nasce da vulnerabilidade assumida e da entrega total (Jo 14,27).

As chagas (Jo 20,20) constituem um dos símbolos mais densos do texto. Elas revelam que a ressurreição não nega a história, mas a assume e a transfigura. O corpo glorificado carrega a memória da violência, impedindo qualquer tentativa de espiritualização alienante. As chagas são denúncia permanente de todas as formas de opressão (Is 53,5) e, ao mesmo tempo, lugar de revelação do amor. No contexto contemporâneo, elas podem ser lidas nos corpos feridos pela fome, pela guerra, pelo racismo estrutural, pela violência urbana e pela exclusão social. Reconhecer o Ressuscitado implica reconhecer essas chagas na história e comprometer-se com sua transformação (Mt 25,40). O lado aberto (Jo 19,34) amplia essa simbologia, tornando-se imagem de uma Igreja que nasce do dom total de Cristo. O sangue e a água evocam vida, sacramento e comunhão. Remetem à criação da humanidade (Gn 2,21-23) e à promessa de uma vida que jorra abundantemente (Jo 7,37-39). Trata-se de uma eclesiologia que não se funda no poder, mas na entrega.

O sopro de Jesus (Jo 20,22) retoma o gesto criador de Deus (Gn 2,7) e a visão de Ezequiel (Ez 37), indicando uma nova criação. O Espírito Santo é apresentado como força vital que recria a comunidade e a impulsiona para a missão. Em um mundo sufocado por discursos de morte, manipulações ideológicas e desinformação, esse sopro representa a possibilidade de uma nova humanidade, capaz de falar outra linguagem, de viver outra lógica. O envio (Jo 20,21) estabelece uma continuidade entre a missão de Jesus e a da comunidade (Jo 17,18). A Igreja não é enviada para dominar, mas para servir, para reconciliar, para curar. O perdão dos pecados (Jo 20,23), nesse contexto, revela-se como uma das expressões mais profundas dessa missão. No entanto, aqui se impõe uma palavra profética necessária. Quando esse dom é distorcido por práticas clericais marcadas pela teologia da culpa, pela manipulação das consciências e pelo controle espiritual, ocorre uma negação prática do Evangelho. A Escritura denuncia o acusador como aquele que escraviza (Ap 12,10), enquanto Cristo se revela como aquele que liberta (Jo 8,36). O perdão autêntico não humilha, não aprisiona, não negocia a graça, mas restitui a dignidade e reintegra o ser humano à comunhão (Lc 15,20-24). Toda estrutura eclesial que obscurece essa verdade precisa ser confrontada à luz da misericórdia pascal.

A dúvida de Tomé  não é fracasso, mas expressão de uma busca autêntica. Ele representa o ser humano contemporâneo, marcado pela necessidade de experiência concreta e pela desconfiança diante de discursos vazios. Ao desejar tocar as chagas, Tomé recusa uma fé desencarnada. Jesus acolhe essa busca, revelando uma pedagogia que respeita o processo humano. O encontro no oitavo dia (Jo 20,26) simboliza a nova criação, o tempo escatológico que já irrompe na história. A profissão de fé “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28) constitui o ápice da revelação joanina, unindo transcendência e história. A bem-aventurança final (Jo 20,29) amplia essa experiência para todas as gerações, conectando-se com a fé daqueles que, sem ver, permanecem firmes (1Pd 1,8).

No contexto das comunidades joaninas, essa narrativa oferecia identidade em meio à exclusão. Hoje, ela continua a desafiar uma Igreja frequentemente tentada pelo poder, pelo clericalismo e pela aliança com projetos políticos excludentes. A instrumentalização da fé, a teologia da prosperidade que mercantiliza a graça (Mt 6,24) e as aproximações com ideologias autoritárias são formas concretas de negar a lógica do Ressuscitado..O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é sacramento de unidade (Lumen Gentium 1) e chamada a discernir os sinais dos tempos (Gaudium et Spes 4). Isso exige coragem profética para denunciar estruturas de morte e anunciar caminhos de vida. A tradição profética permanece como critério (Am 5,24; Is 58,6-7). Deus não aceita cultos vazios, mas exige justiça.

Precisamos reconhecer que a experiência pascal continua a acontecer. O Ressuscitado ccontinua atravessando  as portas fechadas do medo, das instituições rígidas e das consciências aprisionadas, e se coloca no meio. Sua presença desinstala, questiona  e envia. Ele permanece como o centro, oferecendo o verdadeiro shalom e perdão, não aquele sustentado pela força, mas aquele que nasce da justiça e da reconciliação.

No texto desse domingo  vale.a pena destacar  João 20,23  que nasce no contexto do Ressuscitado que sopra sobre a comunidade e diz “recebei o Espírito Santo”. Não é uma outorga de poder isolado, mas um gesto criacional, que ecoa Gênesis 2,7, quando o sopro de Deus faz surgir vida. Aqui, o sopro não cria apenas indivíduos, mas uma comunidade reconciliadora. O verbo grego utilizado para perdoar, “aphíēmi”, carrega a ideia de soltar, libertar, deixar ir. Já “reter” não é simplesmente punir, mas manter preso aquilo que não foi transformado. O texto, portanto, não legitima um controle espiritual, mas revela uma responsabilidade coletiva: a comunidade, animada pelo Espírito, participa do movimento de libertação ou de aprisionamento que o pecado produz.

Quando esse versículo é lido de forma isolada, pode ser instrumentalizado como ferramenta de poder clerical, como se alguns poucos detivessem a chave do acesso a Deus. Mas o próprio Evangelho de João constrói outra lógica. Em João 20, o Ressuscitado aparece a um grupo reunido, não a uma elite separada. O dom é comunitário, não privatizado. A autoridade não é jurídica, mas relacional e espiritual. Trata-se de um discernimento comunitário sobre a vida, a verdade e a reconciliação.

A hermenêutica desse texto exige diálogo com outras tradições bíblicas. Em Evangelho de Mateus 18,18, o “ligar e desligar” também é dado à comunidade reunida, num contexto de cuidado fraterno e restauração, não de dominação. Em Segunda Carta aos Coríntios 5,18-19, o ministério da reconciliação é confiado à Igreja como um todo: Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo. Não há aqui monopólio, mas vocação compartilhada. A culpa pode ser caminho de consciência ou instrumento de opressão. Quando mediada pelo Espírito, ela conduz à metanoia, à transformação profunda do ser. Quando manipulada, torna-se mecanismo de controle, gerando dependência, medo e submissão. A história da Igreja revela tensões constantes entre esses dois polos: o perdão como libertação e o perdão como moeda de poder.

O uso clerical da culpa como domínio contradiz o próprio movimento de Jesus, que perdoa antes mesmo da confissão formal, como em Evangelho de Lucas 7,48, ou na cruz em Lucas 23,34. O perdão, nesses casos, não é resposta a um rito, mas expressão de uma graça que antecede e provoca a conversão. A retenção dos pecados, à luz de João 20,23, pode ser entendida como a incapacidade de uma comunidade de gerar caminhos de reconciliação, deixando as pessoas presas às suas rupturas, não como uma sentença autoritária pronunciada por líderes. Quando o perdão é centralizado em uma figura clerical, cria-se uma assimetria de poder que fragiliza o tecido comunitário. A comunidade deixa de ser sujeito e passa a ser objeto. O Evangelho, porém, aponta para uma descentralização: onde dois ou três estão reunidos, ali se manifesta a presença que reconcilia. O poder, nesse sentido, não é domínio, mas serviço. Não é controle da culpa, mas promoção da vida.

A crítica  não é contra o ministério, mas contra sua deformação. O clericalismo transforma um dom em instrumento de hierarquia rígida, enquanto o Espírito distribui dons para edificação comum. O perdão, quando vivido na lógica do Reino, rompe cadeias, restitui dignidade e reconstrói relações. Quando capturado por estruturas de poder, aprisiona consciências e obscurece a gratuidade da graça. Assim, João 20,23 não legitima um tribunal espiritual, mas convoca a comunidade a ser espaço de libertação concreta. Perdoar é participar da ação divina que recria a vida. Reter não é condenar, mas reconhecer que, sem caminhos reais de justiça e reconciliação, o pecado continua produzindo morte. O verdadeiro poder, portanto, não está na mão de quem controla o perdão, mas na comunidade que, movida pelo Espírito, se torna sinal vivo de graça, verdade e libertação

Reconhecer essa presença implica assumir a responsabilidade histórica de tornar visível essa nova humanidade. Que a comunidade, iluminada por essa Palavra, tenha a coragem de abrir suas portas, de abandonar o medo e de assumir sua vocação profética. Que se torne sinal concreto de misericórdia em meio às feridas do mundo, fiel ao Cristo que vive e que continua a recriar a história com a força invencível do seu amor


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DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 10,31-42


 A passagem de João 10,31-42 é proclamada na liturgia da Igreja Católica na sexta-feira da quinta semana da Quaresma, dentro de um itinerário espiritual denso que conduz a comunidade ao limiar do mistério pascal. Esse momento litúrgico, especialmente após a renovação promovida pelo Concílio Vaticano II, assume um caráter de tensão escatológica, no qual a Igreja contempla não apenas os eventos que levaram à cruz, mas o drama permanente entre a revelação de Deus e a resistência humana. Já na tradição anterior ao Concílio, esse período era marcado como tempo da Paixão, sublinhando que o caminho de Cristo é atravessado por conflito, rejeição e fidelidade radical. Em comunhão com as Igrejas históricas, essa leitura ecoa a memória do justo perseguido, como em Isaías 53,3, Sabedoria 2,12-20, Salmo 2,1-2 e também Salmo 69,4. A história da salvação revela continuamente que o justo é rejeitado não por erro, mas por fidelidade à verdade de Deus.

O texto se insere no coração do discurso do Bom Pastor, onde Jesus Cristo se apresenta como aquele que conhece, chama e dá a vida (Jo 10,11.14-15). A afirmação “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) constitui um dos ápices da cristologia joanina. Essa unidade se ilumina à luz de João 1,1-14, João 5,19-23, João 14,9 e João 17,21-23, revelando uma comunhão que é, ao mesmo tempo, identidade e missão. Colossenses 1,15-20 apresenta Cristo como imagem do Deus invisível, enquanto Hebreus 1,1-3 o descreve como expressão exata do ser divino. Filipenses 2,6-11 acrescenta que essa identidade divina se manifesta na kenosis, no esvaziamento. Aqui se revela um Deus que não domina, mas se entrega.

A reação dos interlocutores, que pegam pedras para apedrejá-lo, revela um mecanismo de autodefesa religiosa profundamente enraizado. A Lei, dada como caminho de vida (Deuteronômio 30,15-20), torna-se instrumento de morte quando separada do Espírito (cf. 2 Coríntios 3,6). Levítico 24,16 é evocado, mas sua aplicação revela distorção. A pedra, na Escritura, carrega múltiplos sentidos. Em Gênesis 28,18, é lugar de encontro com Deus; em Êxodo 17,6, dela brota água; em Isaías 8,14, torna-se pedra de tropeço; em Daniel 2,34-35, derruba impérios; em Salmo 118,22, é rejeitada e depois exaltada; em 1 Coríntios 10,4, é rocha espiritual. Ao empunhar pedras contra Jesus, os líderes rejeitam a própria base da revelação.

Esse processo de rejeição se constrói ao longo do Evangelho. Em João 5,16-18, inicia-se com a cura no sábado. Em João 7,19, Jesus denuncia que ninguém cumpre plenamente a Lei. Em João 8,58-59, a revelação do “Eu Sou” intensifica o conflito. Em João 9,39-41, a cegueira espiritual é exposta. João 3,19-20 oferece a chave: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas. Efésios 4,18 fala do obscurecimento da mente. O endurecimento do coração, presente em Êxodo 7–11 e retomado em Isaías 6,9-10 e Hebreus 3,7-13, revela um fechamento progressivo. O medo, como em Gênesis 3,10, leva à fuga; o amor, como em 1 João 4,18, liberta.

A resposta de Jesus em João 10,34-36, citando o Salmo 82,6, revela uma hermenêutica que liberta a Escritura de leituras opressoras. Ele se apresenta como aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo (Jo 10,36), em continuidade com João 3,17, João 6,27 e João 17,18. Essa dimensão missionária encontra eco em Isaías 61,1-2 e em Lucas 4,18-19. Crer, no Evangelho de João, é entrar numa relação que transforma a existência (Jo 3,16-21; Jo 6,35-40; Jo 20,31). Não se trata de adesão intelectual, mas de comunhão. A verdade, em João, é pessoal e relacional. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Permanecer na palavra conduz à liberdade (Jo 8,31-32). A verdade santifica (Jo 17,17). Diante de Pilatos, Jesus afirma que veio dar testemunho da verdade (Jo 18,37), enquanto Pilatos responde com ceticismo (Jo 18,38). Esse diálogo ecoa na crise contemporânea, onde a verdade é relativizada. Romanos 1,25 fala da troca da verdade pela mentira. 2 Tessalonicenses 2,10-12 denuncia a recusa do amor à verdade.

As obras de Jesus confirmam sua identidade. Em João 10,37-38, Ele aponta para suas obras como testemunho. Em João 5,36 e João 14,11, elas revelam o agir do Pai. Em Mateus 11,4-5, os sinais do Reino são concretos. Isaías 35,5-6 já anunciava essa restauração. O Espírito atua nesse processo, como em João 1,32-33, João 3,5-8 e João 16,13. Em Atos 10,38, vemos que Jesus passou fazendo o bem, ungido pelo Espírito. O deslocamento para o Jordão possui profundo significado teológico. O Jordão é lugar de travessia (Josué 3–4), de purificação (2 Reis 5,10-14), de profecia (2 Reis 2) e de início (Mateus 3,13-17), onde João Batista prepara o caminho (Isaías 40,3). Jerusalém representa o centro do poder (Jeremias 7,4-11 denuncia sua corrupção). Ao ir ao Jordão, Jesus realiza um gesto profético semelhante ao de Oséias 2,16, onde Deus conduz o povo ao deserto para falar ao coração.

No Jordão, o povo reconhece a verdade (Jo 10,41-42). Isso ecoa em João 1,12, onde os que o recebem tornam-se filhos de Deus. Em Lucas 7,29-30, os humildes acolhem a mensagem. Em 1 Coríntios 1,26-29, Deus escolhe os fracos para confundir os fortes. A fé nasce onde há abertura. Os sinóticos confirmam essa dinâmica. Marcos 3,6, Lucas 4,28-30 e Mateus 21,42-46 mostram a rejeição crescente. A tradição profética reforça: Jeremias 20,7-11, Amós 7,10-17, Zacarias 7,11-12. Atos 7,51-52 acusa a resistência ao Espírito.

A reflexão eclesial, especialmente no Concílio Vaticano II, afirma que a revelação se dá na história (Dei Verbum). A Gaudium et Spes liga fé e realidade humana. Na América Latina, o CELAM e a CNBB insistem na justiça social (cf. Miqueias 6,8). A dimensão profética denuncia o uso da religião como instrumento de poder. Mateus 6,24, Mateus 23, Tiago 5,1-6 e Amós 5,21-24 revelam essa crítica. Isaías 1,11-17 denuncia culto vazio. A teologia da prosperidade contradiz Lucas 12,15 e 1 Timóteo 6,9-10.

O donos de igrejas  são  confrontados por Marcos 10,42-45 e João 13,1-15. Ezequiel 34 denuncia os maus pastores. Quando a fé se alinha a projetos autoritários, trai o Evangelho. Romanos 1,18 e 2 Timóteo 4,3-4 alertam. A tradição patrística confirma. Agostinho de Hipona vê Cristo como verdade que ilumina o interior. João Crisóstomo denuncia a dureza do coração.  No presente, o apedrejamento continua. João 15,18-20 já advertia sobre a rejeição. 1 João 3,13 confirma. A injustiça social clama (Provérbios 14,31). Mateus 25,31-46 identifica Cristo nos pobres. Tiago 2,1-7 denuncia discriminação.

A Igreja é chamada a sair. O envio não é uma metáfora piedosa, mas o próprio movimento do coração de Deus que se prolonga na história. “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21) não é apenas continuidade, é participação na mesma missão. Em Mateus 28,19-20, essa missão se expande sem fronteiras, rompendo qualquer pretensão de exclusividade religiosa ou cultural. Em Atos 1,8, ela se desdobra em direção às periferias geográficas e existenciais, até os confins da terra. Por isso, a Igreja não pode permanecer encerrada em Jerusalém, entendida como símbolo de segurança institucional, de controle religioso e de autorreferencialidade. É chamada a ir ao Jordão, lugar de travessia, de conversão, de recomeço, onde a fé não é sustentada por estruturas, mas pela escuta viva da Palavra. O Jordão corre silencioso, como em Salmo 114,3, testemunha de passagens antigas e sempre novas. Suas águas carregam a memória do Êxodo prolongado, da promessa que se cumpre, da fidelidade de Deus que não abandona seu povo. Ali, onde Josué ergue pedras como memorial (Josué 4,6-7), aprendemos que a pedra não é apenas instrumento de morte, mas também sinal de memória, de aliança, de intervenção divina na história. As pedras que antes foram levantadas para ferir podem, pela graça, ser recolhidas para recordar. O que mata pode ser redimido. O que foi rejeitado pode se tornar fundamento.

Cristo permanece como pedra angular (Efésios 2,20), aquele que sustenta toda a construção. Ele é o único fundamento (1 Coríntios 3,11), diante do qual todas as falsas seguranças desmoronam. E nós, chamados a nos aproximar dele, tornamo-nos pedras vivas (1 Pedro 2,4-5), não para erguer muros de exclusão, mas para construir uma casa espiritual aberta, onde a dignidade humana seja reconhecida e a vida seja defendida. Essa construção não é estática, é dinâmica, feita de relações, de justiça, de misericórdia. Hebreus 13,12-13 nos convida a sair para fora do acampamento, a abandonar os espaços de conforto e privilégio, para encontrar o Cristo que sofre à margem. Esse movimento é exigente. Ele implica ruptura com lógicas de poder, com alianças que negam o Evangelho, com uma religiosidade que se fecha em si mesma. Filipenses 3,20 recorda que nossa cidadania está nos céus, mas essa cidadania não nos aliena da história; ao contrário, nos compromete ainda mais com a transformação do mundo segundo o coração de Deus.

A fidelidade ao Senhor exige atravessar. Não há discipulado sem êxodo. Isaías 43,1-2 nos lembra que Deus caminha conosco nas águas e nos rios, mas não nos dispensa da travessia. É preciso deixar o medo que paralisa, a autodefesa que endurece, a ilusão de controle que impede a confiança. Caminhar na verdade, como em 3 João 1,4, é permitir que a vida seja continuamente iluminada pela Palavra, mesmo quando isso exige conversão. Viver o amor, como em João 13,34-35, é assumir a forma concreta do Evangelho, que se traduz em serviço, acolhida e compromisso com os que sofrem. Neste ponto, a contemplação se aprofunda. As pedras continuam nas mãos da humanidade. Podem ser lançadas ou depositadas. Podem ferir ou lembrar. O coração humano oscila entre o fechamento e a abertura, entre o medo e a confiança, entre a rejeição e a fé. O drama de João 10 não terminou. Ele se prolonga na história, nas escolhas cotidianas, nas estruturas que sustentamos ou transformamos.

Mas o Reino continua a nascer. Não como imposição, mas como semente. Não como domínio, mas como presença. Entre Jerusalém e o Jordão, entre o centro e a margem, entre o poder e a vida, Deus continua agindo. E aqueles que escutam a voz do Pastor, que se deixam conduzir pela verdade, tornam-se sinais dessa nova realidade. A travessia permanece aberta. O convite permanece vivo. E a fidelidade ao Senhor continua sendo o caminho pelo qual a história pode ser transfigurada.



DNonato – Teólogo do Cotidia

sexta-feira, 20 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 7,40-53


A perícope de João 7,40-53 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no tempo da Quaresma, geralmente no sábado da quarta semana quaresmal, inserida no caminho progressivo de preparação para a Páscoa. Este tempo litúrgico, marcado pela conversão, pelo exame de consciência e pela escuta mais atenta da Palavra, coloca essa passagem em um contexto de discernimento sobre quem é Jesus e qual é a resposta que o discípulo é chamado a dar. Nas Igrejas históricas, tanto no rito romano quanto em tradições como a bizantina e outras expressões do cristianismo antigo, textos semelhantes do Evangelho de João são utilizados no período que antecede a celebração da Ressurreição, reforçando o tema do conflito crescente entre Jesus e as autoridades religiosas, que culminará na paixão. A leitura desta passagem não é acidental, mas profundamente pedagógica: ela convida a comunidade a confrontar sua própria adesão a Cristo em meio a tensões, dúvidas e resistências.

O texto de João 7,40-53 situa-se no contexto da Festa das Tendas, uma das grandes celebrações do judaísmo, descrita em Levítico 23,33-43, que recordava a peregrinação do povo no deserto e a fidelidade de Deus na história. Jerusalém, nesse período, estava cheia de peregrinos, carregada de expectativa messiânica e fervor religioso. É nesse cenário que Jesus se levanta e proclama palavras que dividem profundamente o povo. Alguns reconhecem nele o profeta anunciado em Deuteronômio 18,15, outros o identificam como o Cristo, enquanto muitos permanecem presos a critérios superficiais, como a origem geográfica do Messias, evocando Miqueias 5,2, que fala de Belém como lugar de nascimento. Essa divergência revela uma tensão hermenêutica entre a leitura literal e limitada das Escrituras e a revelação viva que se manifesta em Jesus. A divisão do povo é um elemento central da narrativa. João utiliza frequentemente a categoria do “cisma” como sinal de que a presença de Jesus provoca discernimento e crise. Não há neutralidade diante dele. A reação das autoridades religiosas, sobretudo fariseus e chefes dos sacerdotes, expõe uma estrutura de poder que se sente ameaçada. Eles enviam guardas para prender Jesus, mas estes retornam sem cumprir a ordem, impressionados pela autoridade de sua palavra. “Nunca ninguém falou como este homem” (João 7,46) torna-se uma confissão involuntária da singularidade de Cristo. A Palavra que deveria ser reconhecida como libertadora é, no entanto, rejeitada por aqueles que se consideram seus guardiões.

A dureza de coração, mencionada na reflexão inicial, aparece aqui como fechamento hermenêutico. Não se trata apenas de incredulidade, mas de uma recusa ativa em permitir que Deus fale de maneira nova. Essa atitude remete à crítica profética já presente em Isaías 29,13, retomada por Jesus em Marcos 7,6, quando denuncia um culto que honra a Deus com os lábios, mas mantém o coração distante. A religião, quando instrumentalizada, torna-se um sistema de controle, e não um caminho de encontro com o Deus vivo.

Nicodemos, que já havia aparecido em João 3,1-21, surge novamente como uma figura de transição. Ele representa aquele que, mesmo inserido na estrutura religiosa, começa a questionar a injustiça do julgamento precipitado. Sua pergunta, “Por acaso a nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo?” (João 7,51), ecoa o princípio jurídico de Deuteronômio 1,16-17 e 17,6, que exige escuta e testemunho antes de qualquer condenação. No entanto, sua voz é rapidamente silenciada, revelando como os sistemas fechados não toleram fissuras internas.

Do ponto de vista histórico e sociológico, essa passagem reflete o conflito entre diferentes grupos dentro do judaísmo do primeiro século. Fariseus, saduceus, sacerdotes e o povo comum viviam tensões quanto à interpretação da Lei, à expectativa messiânica e ao relacionamento com o poder romano. A Palestina era uma região marcada por opressão política, desigualdade econômica e forte religiosidade. Nesse contexto, a figura de Jesus emerge como uma ameaça não apenas teológica, mas também social e política. Sua mensagem de Reino, que coloca os pobres no centro, como em Lucas 4,18-19, desestabiliza estruturas de privilégio. A antropologia cultural nos ajuda a compreender que a identidade religiosa, naquele contexto, estava profundamente ligada à pertença comunitária e à observância da Lei. Questionar as autoridades religiosas era, de certa forma, questionar a própria ordem social. Por isso, a rejeição de Jesus não pode ser reduzida a uma questão de fé individual, mas deve ser entendida como resistência de um sistema que teme perder seu controle simbólico e material.

A psicologia da religião também ilumina essa passagem ao mostrar como o medo do novo, a necessidade de segurança e o apego a estruturas conhecidas podem impedir a abertura ao transcendente. A figura de Jesus provoca uma ruptura com padrões estabelecidos, exigindo uma conversão que envolve não apenas crenças, mas toda a existência. Essa exigência gera resistência, especialmente quando implica perda de poder ou status. No plano teológico, João apresenta Jesus como a Palavra encarnada, o Logos que revela plenamente o Pai, conforme João 1,1-18. A rejeição dessa Palavra é, portanto, uma rejeição do próprio Deus. No entanto, essa rejeição não impede o avanço do projeto divino. Pelo contrário, ela faz parte do mistério da cruz, onde a aparente derrota se transforma em vitória, como afirma João 12,32, quando Jesus diz que será elevado para atrair todos a si.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, encontramos paralelos na rejeição de Jesus em sua própria terra, como em Marcos 6,1-6, e nas controvérsias com fariseus, como em Mateus 23. No entanto, João aprofunda a dimensão teológica do conflito, apresentando-o como um confronto entre luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte. A linguagem simbólica joanina amplia o horizonte da narrativa, convidando o leitor a uma leitura espiritual mais profunda. Os documentos da Igreja reforçam essa dimensão crítica e profética. O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum, afirma que a Palavra de Deus deve ser acolhida com fé viva e interpretada à luz do Espírito (DV 5). A Gaudium et Spes convida a Igreja a ler os sinais dos tempos e a responder aos desafios do mundo contemporâneo com discernimento e compromisso (GS 4). Na América Latina, documentos como Medellín e Puebla, bem como as orientações do CELAM, destacam a opção preferencial pelos pobres como critério de fidelidade ao Evangelho. A CNBB, em seus textos pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja em saída, comprometida com a justiça social e a dignidade humana.

À luz dessa tradição, a passagem de João 7,40-53 se torna um espelho para a realidade atual. Ainda hoje, vemos a fé sendo instrumentalizada para fins político-partidários, transformada em ferramenta de dominação e controle. A teologia da prosperidade reduz o Evangelho a um mecanismo de sucesso individual, ignorando o chamado à solidariedade e à partilha, como em Atos 2,44-45. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo magistério recente, distorce a missão pastoral ao concentrar poder e silenciar o protagonismo dos leigos. A aproximação entre religião e projetos autoritários, especialmente aqueles associados a ideologias de extrema direita, revela uma grave distorção do Evangelho. Jesus não se alinha com estruturas de opressão, mas se coloca ao lado dos marginalizados, dos excluídos, dos que não têm voz. Sua prática, como vemos em Mateus 25,31-46, identifica-se com os pobres, os presos, os doentes. Qualquer expressão religiosa que legitime a violência, a exclusão ou a desigualdade trai o coração do Evangelho.

A divisão do povo diante de Jesus continua presente na sociedade contemporânea. 

  • Há aqueles que reconhecem sua voz e se deixam transformar por ela.
  •  Há aqueles que, por medo ou interesse, preferem manter-se fechados
Aí surge uma pergunta: Quem  é  você  nessas questões?
A Quaresma, nesse sentido, é um tempo de decisão. Não basta uma adesão superficial. É necessário um encontro real, que transforme a mente e o coração, como exorta Romanos 12,2.

A Eucaristia, mencionada na reflexão inicial, é o lugar privilegiado desse encontro. Nela, Cristo se faz presente de maneira concreta, oferecendo-se como alimento e comunhão. Participar da Eucaristia implica assumir o compromisso de viver segundo o Evangelho, de romper com estruturas de pecado e de construir uma sociedade mais justa. Não se trata de um rito vazio, mas de uma experiência que exige coerência de vida.

Diante de tudo isso, a passagem de João 7,40-53 nos desafia a examinar nossas próprias resistências. Onde estamos fechando o coração? Quais são as estruturas que nos impedem de reconhecer a ação de Deus? Estamos dispostos a ouvir a Palavra, mesmo quando ela nos confronta? Ou preferimos uma religião confortável, que não exige conversão?

A conclusão que emerge não é de condenação, mas de convite. Deus continua falando, continua agindo, continua chamando. A divisão não é o fim, mas o início de um processo de discernimento. Aquele que se abre à verdade encontra vida. Aquele que se fecha, permanece na escuridão. Como diz João 8,12, “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. Que esta reflexão nos conduza a uma fé mais autêntica, comprometida e libertadora, capaz de enfrentar as sombras do nosso tempo com a luz do Evangelho. Que possamos, como Nicodemos, ter a coragem de questionar as injustiças, e como os guardas, reconhecer a autoridade de uma Palavra que transforma. E que, sobretudo, não sejamos encontrados entre aqueles que, por dureza de coração, perderam a oportunidade de reconhecer o Deus que passou por suas vidas.

DNonato - Teólogo do cotidiano 

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11, 37-41

O fariseu ajeita o assento, observa cada gesto, mede o olhar do hóspede. O perfume do pão recém-assado se mistura ao silêncio constrangido. Jesus chega, senta-se, e não lava as mãos. O escândalo está servido antes da refeição começar. Não se trata de descuido, mas de provocação. O gesto é símbolo e denúncia: Deus está cansado de mãos limpas que não tocam feridas, de ritos impecáveis que ignoram a dor humana. O Evangelho proclamado nesta terça-feira da 28ª semana do Tempo Comum (Lucas 11,37–41) é daqueles que expõem o nervo da religião, rasgando o verniz da aparência para revelar o que pulsa no coração.
Jesus, convidado a uma refeição na casa de um fariseu, surpreende o anfitrião ao sentar-se à mesa sem realizar as abluções rituais prescritas pela tradição dos anciãos. O espanto do fariseu é o espelho do escândalo religioso: Jesus rompe com o formalismo que confunde pureza com aparência. A liturgia da Igreja proclama esse texto também nas memórias de santos e santas que, como Ele, denunciaram a hipocrisia das práticas religiosas desumanas, revelando que Deus não se deixa aprisionar por rituais vazios, mas habita o interior que ama, partilha e serve.
O contexto de Lucas é teologicamente denso. O evangelista, que escreve a comunidades marcadas por tensões entre judeus e cristãos de origem pagã, apresenta Jesus como aquele que revela o coração de Deus e desmascara o coração endurecido da religião institucionalizada. A refeição — lugar de comunhão e fraternidade — transforma-se em espaço de confronto. O gesto de Jesus, aparentemente banal, torna-se sinal profético. Ao não lavar as mãos, Ele mostra que a impureza não vem de fora, mas do interior, da corrupção do coração (cf. Mc 7,15). O fariseu, defensor da pureza ritual, revela sua própria impureza interior: julga, condena, escandaliza-se, enquanto ignora a fome e a miséria ao redor.
“Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubo e maldade” (Lc 11,39). É com essa sentença que Jesus rompe o silêncio cortante do jantar. O que Ele diz não é apenas uma crítica moral; é uma denúncia teológica. Deus não habita nas mãos limpas, mas no coração livre. A purificação ritual, separada da ética e da compaixão, é idolatria. Essa mesma denúncia ecoa em Mateus 23,25–26: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de ganância e intemperança.” E Marcos 7,1–23 reforça o mesmo ensinamento, quando Jesus cita Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Is 29,13).
Esses paralelos sinóticos revelam uma coerência profética que remonta à raiz hebraica da fé. Os profetas sempre denunciaram o culto desvinculado da justiça. Amós gritou: “Eu odeio, desprezo as vossas festas; não suporto as vossas assembleias solenes. Corra o direito como as águas, e a justiça como um rio perene” (Am 5,21.24). Isaías clamou: “Lavai-vos, purificai-vos, cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; buscai o direito, socorrei o oprimido” (Is 1,16–17). Miquéias resumiu o essencial: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). O mesmo Deus que libertou Israel do Egito não exigiu mãos lavadas, mas pés em caminho. A pureza do Êxodo é o movimento, não o ritual; é o sair do Egito da indiferença para o deserto da confiança. Jesus, herdeiro dessa tradição profética, retoma o fio rompido entre fé e vida.
O símbolo do copo e do prato é uma metáfora antropológica. O copo é o interior humano, a consciência, o coração — lugar das motivações, desejos e afetos. Limpar apenas o exterior é mascarar o ego, é criar uma persona religiosa que busca aprovação social e status espiritual. A psicologia profunda, especialmente em Jung, chamaria isso de “sombra não integrada”: a parte de nós que negamos e projetamos nos outros. Os fariseus de ontem e de hoje são aqueles que projetam sua própria impureza nos outros, construindo uma moral de fachada para esconder sua vaidade espiritual.
Na dimensão sociológica, o texto revela uma crítica à religião como instrumento de poder. O legalismo religioso funciona como mecanismo de controle: define quem é puro e quem é impuro, quem pertence e quem é excluído. Jesus desestabiliza essa lógica, porque Sua mesa é inclusiva — Ele come com publicanos e pecadores, acolhe mulheres e estrangeiros, toca os impuros. Sua transgressão ritual é libertação social. Por isso, a denúncia de Jesus é perigosa: desmascara o sistema religioso que legitima desigualdades sob o manto da pureza.
Teologicamente, o gesto de Jesus revela o verdadeiro culto: a misericórdia. Ele conclui: “Dai antes esmola do que possuís, e tudo ficará puro para vós” (Lc 11,41). A esmola, aqui, não é apenas caridade ocasional; é símbolo de partilha existencial. É a tradução da conversão interior em prática concreta. Santo Agostinho comentava que “dar esmola é purificar o coração, porque quem partilha o que tem liberta-se do que o possui.” São João Crisóstomo, em sua homilia sobre os pobres, dizia: “Não lavar as mãos não torna impuro, mas negar o pão a quem tem fome é o maior dos pecados.”
Quem dá, purifica. Quem reparte, reza com as mãos. Quem toca as feridas do mundo, comunga com o próprio Cristo. Porque o altar verdadeiro não é o de mármore — é o coração que sangra e ama. Dar esmola é mais do que um ato: é uma mística. É o gesto que devolve ao humano a dignidade divina. É tornar-se ponte entre a abundância e a carência, entre o pão e a esperança.
Essa lógica é frontalmente oposta à teologia da prosperidade que invade nossos templos e telas. Enquanto Jesus fala de desprendimento, os pregadores do lucro falam de acúmulo. Enquanto o Evangelho convida à partilha, eles transformam a fé em investimento e Deus em acionista. Essa deformação não é cristianismo, é idolatria financeira travestida de piedade. Como denunciou o Papa Francisco na Evangelii Gaudium, “a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão na idolatria do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano.”
A teologia do domínio, que prega poder e conquista, é outro rosto do mesmo farisaísmo moderno. Ela sacraliza o autoritarismo e chama de bênção o que é opressão. Jesus, ao contrário, revela que o Reino de Deus não se impõe, se propõe; não domina, serve; não conquista, acolhe. “Entre vós não será assim: quem quiser ser o maior, seja o servo de todos” (Mc 10,43–44). O clericalismo, denunciado tantas vezes pelo Papa Francisco, é filho dessa mesma lógica: reduz o ministério a privilégio e o altar a trono. Esquece que o Cristo que preside é o que lava os pés, não o que exige reverência. Hoje, quando templos disputam fiéis como empresas disputam clientes e padres e pastores competem por visibilidade digital, o gesto de Jesus sentado à mesa sem lavar as mãos soa como provocação divina: menos palco, mais pão.
A filosofia moral ajuda-nos a entender a profundidade do gesto de Jesus. Ele não rejeita os ritos em si, mas a absolutização deles. O rito é linguagem simbólica do invisível, mas quando o símbolo se torna fim em si mesmo, degenera em fetiche. Kierkegaard dizia que a fé sem interioridade é estética, não ética; é performance, não compromisso. O problema não é o rito, mas a inversão de valores que o transforma em máscara para o vazio espiritual.
Jesus  vem reordenar o sagrado. Ele desloca o eixo da pureza do corpo para o coração, do templo para a casa, da lei para o amor. Essa mudança é civilizacional. A religião, que até então demarcava fronteiras, passa a ser caminho de comunhão. A fé torna-se experiência existencial, não sistema normativo. A purificação, antes ritual, torna-se ética: viver de modo puro é viver com compaixão.
É aqui que o paralelo com o gesto de Pilatos se torna ainda mais revelador. Quando Pilatos, diante do clamor do povo, lava as mãos (Mt 27,24), ele simboliza a covardia política e espiritual de quem se exime da responsabilidade pelo sofrimento do inocente. As mãos lavadas de Pilatos contrastam com as mãos não lavadas de Jesus. Um lava as mãos para fugir da justiça; o outro não as lava para revelar a injustiça. Um busca se manter puro aos olhos do poder; o outro se contamina pelo amor aos esquecidos. Pilatos lava para preservar o império; Jesus deixa de lavar para inaugurar o Reino. As mãos lavadas de Pilatos são símbolo da omissão que mata; as mãos não lavadas de Jesus são sinal da compaixão que salva. Entre os dois gestos se decide o destino da humanidade: a religião do medo ou a fé do amor.
No horizonte da Gaudium et Spes, a fé autêntica deve iluminar as estruturas humanas, sociais e econômicas, libertando-as da idolatria do lucro e da indiferença. Quando Jesus fala de dar esmola, está proclamando uma nova economia da graça: o amor como medida da pureza. “Tudo vos será puro” não é promessa mágica, mas consequência ética: quem reparte o pão purifica o coração. Também a Fratelli Tutti recorda que “a vida é a arte do encontro, mesmo com aqueles de quem discordamos”. O fariseu fecha-se no ritual; Jesus abre-se ao encontro. O fariseu busca distinguir-se; Jesus busca aproximar-se. O fariseu quer ser visto; Jesus quer ver. O fariseu lava as mãos; Jesus toca as feridas. Por isso, a Boa Nova é subversiva: ela não purifica pela água externa, mas pelo fogo do amor que consome o egoísmo.
Lucas escreve esse episódio quando a comunidade cristã já começa a sofrer as tentações do poder e do legalismo interno. É uma advertência para nós: não basta proclamar Jesus com os lábios se o coração está corrompido pela vaidade e pelo prestígio. A Igreja corre o risco de ser farisaica quando se preocupa mais com paramentos do que com pessoas, mais com rubricas do que com o pão dos pobres, mais com o decoro litúrgico do que com a justiça social.
Esse trecho  do evangelho nos convida à coerência interior. Lavar o exterior e ignorar o interior é viver uma cisão da alma. A espiritualidade autêntica é integração, não aparência. Jesus chama a essa integração: “Limpai primeiro o interior do copo, para que também o exterior fique limpo” (Mt 23,26). A pureza começa onde o ego morre e o amor renasce.
O gesto de Jesus, portanto, é um chamado à conversão profunda. Não uma conversão moralista, mas libertadora. Uma fé que não se mede por normas, mas por gestos de amor. Uma Igreja que não se define por leis, mas por compaixão. Uma espiritualidade que não teme sujar as mãos para lavar as feridas do mundo.
Diante dessa Palavra, somos interpelados: quantas vezes limpamos o copo por fora com nossas aparências religiosas enquanto o interior está cheio de indiferença, consumismo e vaidade espiritual? Quantas vezes usamos a fé para nos exibir em vez de servir? Quantas vezes confundimos ortodoxia com arrogância e pureza com isolamento? Jesus desmonta essas máscaras com uma frase simples: “Dai esmola do que possuís.”
Dar esmola é dar-se. É libertar-se da idolatria do eu. É romper com a lógica da acumulação e da aparência. É fazer da fé um movimento de saída, não de exibição. Essa é a pureza que Deus reconhece: o amor que se torna pão, o perdão que se torna gesto, a fé que se torna carne.
Essa é a Boa Nova: a pureza não está nas mãos lavadas, mas no coração que partilha. A santidade não é brilho exterior, é transparência interior. A fé não é etiqueta religiosa, é encontro que transforma. Que nossas comunidades redescubram o essencial: não há culto verdadeiro sem justiça, nem liturgia sem partilha, nem pureza sem misericórdia.
Que o Cristo, que ousou sentar-se à mesa sem lavar as mãos, desperte em nós uma Igreja que não tema sujar-se para servir, que prefira as mãos calejadas às mãos limpas e que descubra, na lama do mundo, o brilho da graça. Porque o Reino começa quando o copo do coração transborda amor.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,51-56

O Evangelho de Lucas, no capítulo 9, versículos 51 a 56, nos coloca diante de um momento decisivo da vida de Jesus: a sua decisão firme de subir a Jerusalém. O texto litúrgico recorda que, “ao se completarem os dias de sua elevação, Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). A liturgia proclama esse trecho específico na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, mas convém lembrar que a narrativa aparece de forma mais ampla, até o versículo 62, no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, quando o chamado radical ao discipulado se torna ainda mais evidente. Essa contextualização litúrgica é importante porque nos ajuda a perceber como a Igreja distribui, ao longo do ano, os momentos pedagógicos da caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, caminho que é, ao mesmo tempo, histórico e teológico, pessoal e comunitário, pedagógico e profético.

Lucas organiza o Evangelho de tal maneira que Jerusalém se torna o ponto de chegada e, ao mesmo tempo, o lugar da revelação do verdadeiro sentido da missão. Não se trata apenas de um deslocamento geográfico, mas de um caminho de entrega radical, de revelação da identidade messiânica de Jesus e de desmascaramento das falsas compreensões do poder religioso e político. Ao tomar a firme decisão, Jesus se coloca em oposição ao fluxo da história marcada pela dominação imperial de Roma e pela cumplicidade de setores do judaísmo oficial. Essa decisão é também a manifestação da liberdade plena de quem sabe que amar exige atravessar o risco, enfrentar as rejeições e expor-se à violência.

A recusa dos samaritanos em acolher Jesus neste caminho (Lc 9,53) tem raízes históricas e culturais. Os samaritanos não acolheram Jesus nem aqueles que iam a Jerusalém porque a divisão histórica e religiosa entre judeus e samaritanos era profunda. Após a conquista assíria do Reino do Norte, os israelitas foram deportados e povos estrangeiros se estabeleceram na região, misturando-se com os remanescentes locais (2Rs 17,24-34). Essa mistura gerou uma identidade religiosa diferente, centrada no monte Garizim e em práticas que os judeus de Jerusalém consideravam ilegítimas. Para os samaritanos, os judeus representavam exclusão, arrogância e centralização do culto em Jerusalém, o que gerava desconfiança e ressentimento. Assim, qualquer judeu que se dirigisse a Jerusalém era visto como representante de uma tradição que os marginalizava e desautorizava sua fé local, tornando natural a rejeição a Jesus e aos mensageiros que anunciavam a boa nova do Reino.

Quando Tiago e João, inflamados de zelo, pedem que desça fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54), a cena não é apenas histórica, mas profética. Ela denuncia a tentação humana de transformar Deus em instrumento de vingança, poder ou exclusão. No mundo contemporâneo, essa mesma lógica aparece nas polarizações ideológicas que atravessam sociedades inteiras. Há aqueles que, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, acreditam que a verdade política ou religiosa que defendem justifica ataques simbólicos ou reais sobre os adversários. A violência não é apenas física; é também cultural, econômica e espiritual. O fogo que Tiago e João queriam fazer cair sobre os samaritanos encontra ecos nos discursos de ódio que se espalham entre setores de diferentes tradições políticas, muitas vezes travestidos de zelo religioso ou moral.

Entre católicos e evangélicos, por exemplo, percebe-se a mesma tentação de fazer “descer fogo” sobre o outro. É a disputa pelo controle do discurso público, o julgamento moral, a demonização do diferente, transformando a fé em arma de imposição. Entre cristãos e grupos de matriz africana, essa mesma lógica se manifesta quando há tentativa de deslegitimar práticas religiosas ou de coagir sincretismos, esquecendo que o Evangelho de Jesus atravessa fronteiras culturais e reconhece a alteridade como parte da criação divina. A recusa em acolher o diferente, que Jesus confronta na Samaria, se repete hoje quando se deseja impor uma fé única e uniforme, negando a pluralidade legítima da experiência humana.

Essa lógica de exclusão também se observa nas tensões entre heterossexuais e a comunidade LGBTQIAPN+. Muitos querem transformar diferenças de orientação e identidade em justificativa para discriminação, agressão simbólica ou até física, ignorando o princípio cristão da dignidade de cada pessoa, criada à imagem de Deus (Gn 1,27). O fogo que se deseja fazer cair sobre os outros é sempre expressão de medo, insegurança e incapacidade de conviver com a alteridade. Lucas nos lembra, com clareza, que a missão de Jesus não é consumir ou destruir, mas atravessar as barreiras do ódio e da incompreensão, abrindo caminho para reconciliação e diálogo.

A polarização religiosa e ideológica, portanto, não é neutra. Ela reproduz a lógica de Tiago e João, que preferem a destruição do outro à paciência pedagógica de Jesus. Extremismos de qualquer lado — políticos, religiosos ou culturais — tendem a reduzir a complexidade do humano, transformando pessoas em inimigos a serem apagados. A repreensão de Jesus é, assim, uma advertência atemporal: Deus não é instrumento de vingança, e o verdadeiro discípulo não se deixa arrastar pela lógica da intolerância, mas pela coragem de caminhar, dialogar e testemunhar o amor, mesmo diante da rejeição.

Jerusalém  é o lugar do poder religioso e político, mas também o lugar do sacrifício pascal. Ao decidir subir a Jerusalém, Jesus sabe que enfrentará o sinédrio, Herodes, Pilatos e o templo transformado em mercado (cf. Lc 19,46). Ele caminha para o coração do sistema que transforma a fé em mercadoria, que instrumentaliza Deus para legitimar privilégios. Essa crítica é profundamente atual diante das novas formas de “templo” erigidas por pastores digitais, padres empresários e políticos messiânicos, que vendem prosperidade e domínio como se fossem o Evangelho. A teologia da prosperidade, ao prometer bênçãos materiais em troca de dízimos e fidelidade, repete a lógica da barganha que Jesus denunciou. A teologia do domínio, ao confundir fé com poder político e imposição cultural, reedita o pedido dos discípulos: fazer descer fogo contra os outros. Ambas negam a cruz, porque não aceitam que a vitória de Deus se manifeste na fragilidade do amor crucificado. Orígenes, comentando este trecho, dizia que Jesus não veio para destruir os pecadores, mas para destruir o pecado, e que o fogo que ele traz não é o da vingança, mas o da purificação interior. Santo Agostinho, por sua vez, advertia que os discípulos, ao pedirem fogo, estavam cegos pelo desejo de glória humana, enquanto o Mestre os chamava a um caminho de humildade. Essa tensão entre a tentação da glória e a pedagogia da cruz atravessa toda a história da Igreja, manifestando-se hoje no clericalismo, que transforma o ministério em privilégio, e na religião-espetáculo, que busca aplausos em vez de conversão.

Aqui  se revela  uma cena  de um confronto entre duas concepções de poder: a potência como dom de si ou a potência como imposição sobre o outro. Nietzsche criticava o cristianismo como moral dos fracos; mas, em Jesus, vemos que a verdadeira força não está em dominar, mas em entregar-se. Hannah Arendt lembrava que a violência nunca cria poder verdadeiro, apenas destrói; poder autêntico nasce do consenso, da palavra e da ação conjunta. Jesus, ao rejeitar o fogo da vingança, funda um poder novo, que é o poder do amor reconciliador.

Precisamos  saber que as culturas humanas sempre usaram o sagrado como justificativa para eliminar inimigos. René Girard mostrou como os mecanismos do bode expiatório estruturaram sociedades inteiras, legitimando a violência contra minorias. Jesus, ao repreender os discípulos, rompe com essa lógica sacrificial: ele não autoriza a violência, mas se oferece a si mesmo como vítima inocente, revelando a injustiça do sistema e abrindo o caminho da reconciliação.

O Magistério da Igreja também insiste nessa chave. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 78), afirma que a paz nunca é fruto da violência, mas da justiça e do amor. A Evangelii Gaudium (n. 93-97) denuncia a mundanidade espiritual que leva muitos a buscar prestígio e poder em nome da fé. E a Fratelli Tutti (n. 25-28) recorda que as guerras e divisões sempre nascem da incapacidade de reconhecer o outro como irmão. Assim, ao repreender os discípulos, Jesus já antecipa o coração do Evangelho social: não se trata de excluir, mas de abrir espaço para o encontro.

Se olharmos para os paralelos sinóticos, veremos que esse episódio é exclusivo de Lucas, mas a lógica da rejeição e da incompreensão aparece em Marcos e Mateus em outras formas, como na rejeição de Jesus em Nazaré (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58) ou no envio dos discípulos em meio a perseguições (Mt 10,16-23). O tema é constante: seguir Jesus significa enfrentar incompreensões, rejeições, até mesmo da parte dos mais próximos. A Samaria é, assim, um espelho das nossas próprias resistências: quantas vezes recusamos acolher Jesus porque ele não vem confirmar nossos preconceitos, mas desinstalar nossas seguranças?

O texto conclui de modo sóbrio: “E seguiram para outra aldeia” (Lc 9,56). Não há vingança, não há fogo, não há espetáculo. Apenas a continuidade do caminho. Jesus não se prende à recusa, não perde tempo em guerras inúteis. Ele segue adiante, porque sua missão é maior do que as pequenas disputas humanas. Esse detalhe é profundamente pedagógico: a Igreja também precisa aprender a seguir adiante, sem se enredar em polarizações vazias, sem gastar energia em guerras culturais que apenas alimentam o ódio.

O caminho para Jerusalém é, portanto, o caminho da fidelidade ao amor até o fim. É o caminho que rejeita o clericalismo, a fé como mercadoria, a violência travestida de zelo, a religião que se vende ao poder. É o caminho que chama cada discípulo a vencer a tentação de fazer descer fogo sobre os outros, para deixar que o fogo do Espírito desça primeiro sobre si. Só assim a missão se cumpre, e a história encontra novo rumo.

DNonato – Teólogo do Cotidiano