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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,38-44

 
O Evangelho de Lucas 4, 38-44  da quarta-feira da 22ª semana do Tempo Comum  nos conduz  a uma cena profundamente humana e ao mesmo tempo carregada de sentido teológico: Jesus sai da sinagoga de Cafarnaum e entra na casa de Simão, onde cura a sogra deste, que estava com febre. Em seguida, ao entardecer, todos os que tinham doentes os trazem até Ele, e Jesus os cura, impondo as mãos sobre cada um. Espíritos imundos saem de muitas pessoas, gritando que Ele é o Filho de Deus, mas Jesus os repreende e não permite que falem. Ao amanhecer, retira-se para um lugar deserto, mas as multidões O procuram e tentam retê-lo. Ele, porém, anuncia que deve pregar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso foi enviado. Essa passagem também está presente em outras variantes nos sinóticos (cf. Mc 1,29-39; Mt 8,14-17), revela tanto a dimensão terapêutica e libertadora do ministério de Jesus quanto a tensão entre a busca humana por milagres imediatos e o verdadeiro sentido de sua missão.

O texto se enraíza no contexto do capítulo quarto de Lucas, onde Jesus inaugura sua missão pública após ser batizado no Jordão, cheio do Espírito Santo, e resistir às tentações no deserto. Sua ida a Nazaré, onde proclama a Palavra de Isaías e se identifica como o Ungido que veio libertar os pobres, os cativos e os oprimidos (cf. Lc 4,18-19), já nos prepara para compreender que os milagres não são espetáculos, mas sinais da irrupção do Reino de Deus. O pretexto imediato da narrativa é a febre da sogra de Pedro, mas o contexto é mais profundo: a febre simboliza as forças que paralisam a vida, e a mão de Jesus, que se estende para levantar, é gesto de restauração integral. O verbo usado para “levantar” ecoa o da ressurreição (cf. Lc 24,6; At 3,7), indicando que todo ato de cura em Jesus é antecipação da vitória sobre a morte.

Na tradição sinótica, Marcos oferece uma versão quase idêntica (Mc 1,29-39), enquanto Mateus, ao narrar a cura da sogra de Pedro, destaca o cumprimento da profecia de Isaías: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Isso nos ajuda a compreender que não se trata apenas de atos isolados de compaixão, mas da realização das promessas messiânicas. Jesus não é um curandeiro popular nem um mágico, mas Aquele que assume sobre si as dores do povo, revelando um Deus que não permanece distante, mas que toca, que levanta, que restitui dignidade. Essa lógica está em sintonia com outros relatos de cura: o paralítico descido pelo telhado (Lc 5,17-26), a mulher com hemorragia (Lc 8,43-48), o cego de Jericó (Lc 18,35-43) e tantos outros, onde a cura física se entrelaça com a fé, o perdão e a reintegração na comunidade.

A tradição bíblica mais antiga já apontava para esse Deus que cura e liberta. O Salmo 103 recorda: “É Ele quem perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades” (Sl 103,3). O Salmo 147 proclama que o Senhor “cura os corações feridos e enfaixa suas feridas” (Sl 147,3). O profeta Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado; salva-me, e serei salvo” (Jr 17,14). Em 2 Reis 5, vemos o episódio de Naamã, o sírio leproso que é purificado ao mergulhar no Jordão, sinal de que a salvação de Deus se estende além das fronteiras de Israel. Essas passagens iluminam a missão de Jesus: Ele é a encarnação da promessa de um Deus que não abandona seu povo, mas intervém na história para restaurar a vida.

A  reflexão  do texto pode nos iluminar esse aspecto. Muitos dos que buscam a religião o fazem movidos pela dor, pela fragilidade, pelo medo da morte ou pela necessidade de proteção. Há algo legítimo nesse impulso: o ser humano é vulnerável e busca apoio no transcendente. Contudo, o risco é permanecer em uma relação utilitarista com Deus, reduzindo-o a um distribuidor de favores. A sogra de Pedro, uma vez curada, levanta-se e põe-se a servir. Eis o sinal da maturidade da fé: quem é tocado por Cristo não se fecha em si mesmo, mas passa a viver para os outros. A psicologia profunda mostra que a cura não é completa se não leva à superação do narcisismo, e a espiritualidade bíblica confirma que o verdadeiro encontro com Deus desemboca no amor-serviço. O mesmo se vê no episódio dos dez leprosos (Lc 17,11-19), em que apenas um retorna para agradecer, mostrando que a cura mais profunda é a gratidão e a fé.

 Vale  recorda que as multidões acorrem a Jesus não apenas como indivíduos isolados, mas como comunidades marcadas por desigualdades, pobreza e exclusão. Na Palestina do século I, a doença não era apenas uma condição física, mas também social e religiosa: o enfermo era impuro, marginalizado, afastado da vida comunitária (cf. Lv 13–14). Ao curar, Jesus reintegra, devolve o lugar na comunidade, rompe com os mecanismos de exclusão. Isso toca diretamente a crítica às teologias da prosperidade e do domínio, que hoje transformam a fé em mercadoria, prometendo saúde, riqueza e sucesso a quem paga dízimos ou oferta. Essas teologias invertem o Evangelho, colocando Deus como servo do lucro humano e usando a religião como instrumento de poder. O Evangelho de hoje denuncia esse desvio: Jesus não veio fundar um mercado de milagres, mas inaugurar um Reino de amor gratuito. Como recorda Paulo, “Não é para o próprio interesse que cada um deve olhar, mas para o interesse dos outros” (Fl 2,4). E ainda: “O amor não busca os próprios interesses” (1Cor 13,5).

O texto é  uma provocação. O ser humano busca constantemente o sentido da vida e teme o absurdo da morte. Muitos procuram a religião para aplacar essa angústia, como já indicava Pascal ao falar do “Deus das consolações” em contraste com o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” (cf. Ex 3,6). Kierkegaard lembrava que a fé não é fuga da angústia, mas atravessamento da angústia na confiança em Deus. Jesus, ao retirar-se para um lugar deserto, mostra que não se deixa aprisionar pelas expectativas das massas, mas permanece fiel ao chamado do Pai. A fé madura não é o preenchimento de um vazio com ilusões, mas a coragem de seguir Jesus no caminho da cruz, onde a vida encontra sua plenitude (cf. Lc 9,23-24). Esse caminho já havia sido prefigurado no Servo Sofredor de Isaías (Is 53), que não busca glória, mas entrega-se em amor.

 Santo Agostinho, ao comentar os milagres de Cristo, dizia que eles são sinais visíveis de uma realidade invisível: “As curas do corpo são sinais da cura da alma”. São João Crisóstomo, por sua vez, advertia que não se deve seguir Cristo apenas pelos milagres, mas pelo ensino e pela vida nova que Ele oferece. O milagre, isolado, pode seduzir; mas só a Palavra gera discípulos. O mesmo vemos em João, onde os sinais apontam para uma realidade maior: “Estes sinais foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). A tradição da Igreja sempre insistiu que os sacramentos são sinais eficazes da graça, não porque ofereçam saúde física ou prosperidade material, mas porque comunicam a vida nova de Cristo. São Irineu dizia: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”.

Os documentos da Igreja também reforçam essa compreensão. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, recorda que a Igreja não pode se afastar das alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade (GS 1), mas sua missão não se reduz a resolver problemas imediatos: ela é chamada a anunciar o Reino, que ilumina e transforma a realidade. A Evangelii Gaudium de Francisco denuncia a tentação de uma fé mercantilizada, onde o Evangelho é reduzido a “um conjunto de ideias para consumo” (EG 93), e chama a uma Igreja em saída, que não se deixa prender pelos interesses de alguns, mas vai ao encontro dos pobres e marginalizados. A Fratelli Tutti insiste que a verdadeira fraternidade se constrói no serviço e no amor concreto (FT 115), o mesmo serviço que a sogra de Pedro realiza após ser curada. Recorda ainda que a caridade não se esgota em gestos de compaixão individual, mas deve gerar transformações sociais (cf. FT 186).

É mportante compreender que a religião sempre foi espaço de busca de sentido e de mediação com o sagrado. Nas culturas antigas, a doença era vista como castigo divino, e a cura como restauração da ordem cósmica. Jesus subverte esse esquema: não culpa o doente, não reforça estigmas, não cobra pagamento, não exige oferendas. Ele cura porque ama, e sua autoridade vem do Espírito Santo, não das instituições de poder (cf. Lc 4,14). Essa atitude confronta também o clericalismo, que transforma o ministério ordenado em privilégio e poder. O gesto de Jesus de impor as mãos e curar não é monopólio de uma casta, mas sinal do Reino que se expande por meio do Espírito. Uma Igreja clericalizada, que controla a graça como se fosse propriedade sua, trai a lógica do Evangelho. Paulo já advertia: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

A cena final é profundamente profética: as multidões querem reter Jesus, mas Ele afirma: “Eu devo anunciar também a outras cidades a Boa-Nova do Reino, porque para isso fui enviado”. Aqui está a essência de sua missão. Ele não se deixa aprisionar pelas demandas imediatas nem se contenta em ser curandeiro local. Seu horizonte é o Reino universal, que não se limita a Cafarnaum, mas se abre a todos os povos. Isso ecoa a profecia de Isaías: “É pouco que sejas meu servo apenas para restaurar as tribos de Jacó... Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Essa universalidade é também uma correção para uma Igreja que, muitas vezes, busca seu conforto institucional em vez de sair ao encontro das periferias. O verdadeiro discipulado não é apego a milagres, mas seguimento do Mestre que caminha sempre adiante. Como diz Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).

Em síntese, a passagem de Lucas 4,38-44 nos convida a uma fé adulta. Muitos procuram a religião por medo ou interesse; Jesus nos chama a uma relação de amor, onde curados por Ele nos tornamos servidores uns dos outros. Ele não é o mágico que cumpre nossos desejos, mas o Senhor que nos envia a amar e a anunciar o Reino. Essa fé contrasta com as caricaturas promovidas pela teologia da prosperidade, pela fé-mercadoria, pelo clericalismo e pelo individualismo espiritualista. A Palavra hoje nos chama a deixar que Ele nos levante de nossas febres — sejam físicas, sociais, espirituais ou existenciais — e nos insira no dinamismo do serviço. Como a sogra de Pedro, como os tantos curados e libertos, somos chamados a transformar o dom recebido em doação. E como o próprio Cristo, devemos permanecer fiéis ao chamado maior: anunciar o Reino em toda parte, até que todos reconheçam a presença de Deus que cura, liberta e salva.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,31-37

O Evangelho nos conduz hoje a Cafarnaum, cidade às margens do lago da Galileia, onde Jesus entra numa sinagoga e ali manifesta a força da sua palavra. O evangelista Lucas destaca que todos ficavam admirados, pois Ele ensinava “com autoridade”, e não como os mestres religiosos de sua época. O episódio do homem possuído que se levanta e grita diante de Jesus revela o confronto decisivo: o Reino de Deus se põe diante do império do mal, e o mal, embora grite e se agite, não resiste.

Este texto é proclamado na liturgia da terça-feira da 22ª semana do Tempo Comum, mas também ressoa em outros momentos do ciclo litúrgico, especialmente quando se recorda o início do ministério de Jesus. Faz parte de um conjunto de textos em que a Igreja nos apresenta Cristo como Aquele que, ungido pelo Espírito em Nazaré, agora passa a realizar concretamente a libertação prometida. É como se a liturgia quisesse nos recordar, em meio à rotina dos dias, que a missão da Igreja é prolongar esta autoridade que liberta e não que aprisiona, que cura e não que controla, que gera vida e não exploração.

O contexto imediato é importante: em Nazaré, Jesus havia lido o rolo de Isaías, proclamando que fora enviado para anunciar a boa-nova aos pobres, libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o ano da graça do Senhor (Lc 4,18-19). Os seus conterrâneos não aceitaram sua palavra e tentaram matá-lo. Diante da rejeição, Ele segue para Cafarnaum, e ali sua palavra encontra espaço e produz libertação. A rejeição em Nazaré contrasta com a acolhida em Cafarnaum, revelando que a missão de Jesus só pode frutificar onde há abertura de coração.

Os sinóticos nos ajudam a alargar a compreensão. Marcos 1,21-28 narra a mesma cena: Jesus ensina na sinagoga, e o povo fica admirado com sua autoridade, pois até os espíritos impuros lhe obedecem. Mateus, embora não traga esse episódio, termina o Sermão da Montanha com a mesma nota: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Essa convergência mostra que, desde o início, os evangelistas querem sublinhar que a autoridade de Jesus não está ligada a um cargo ou a uma instituição, mas à sua própria pessoa, à sua vida coerente e à sua união com o Pai.

A questão hermenêutica fundamental é: de onde vem a autoridade de Jesus? Não era uma autoridade política, porque não ocupava cargos. Não era uma autoridade religiosa institucional, porque não fazia parte da elite sacerdotal nem do grupo dos escribas. Sua autoridade vinha do Espírito Santo, que o ungiu no batismo e o conduziu no deserto. Vinha da coerência entre a sua palavra e a sua vida. Vinha do amor que se tornava concreto em compaixão, em cuidado, em proximidade. É por isso que as pessoas simples o reconhecem, enquanto as elites o rejeitam.

O grito do espírito impuro — “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” — ecoa como resistência do mal diante da luz. Psicologicamente, podemos ver nesse grito a reação da sombra, aquilo que Jung descreve como a parte reprimida e não integrada do ser humano. Quando a luz de Cristo se aproxima, nossas sombras não suportam, e se agitam. O processo de libertação passa pela revelação daquilo que estava oculto. Não há cura sem desvelamento. Jesus obriga o mal a se mostrar, a sair das sombras, para que o homem possa ser restituído à sua verdadeira identidade.

Sociologicamente, esse “espírito impuro” pode ser lido como símbolo das ideologias e estruturas que oprimem os povos. Pode ser a idolatria do mercado que transforma a fé em mercadoria, como vemos na teologia da prosperidade que promete bênçãos em troca de dízimos, transformando Deus em um contrato comercial. Pode ser a teologia do domínio, que busca o poder político para impor a fé, negando a liberdade de consciência. Pode ser o individualismo, que fecha cada pessoa em seu próprio mundo e a impede de viver a comunhão. Pode ser também o clericalismo, esse mal dentro da própria Igreja, que transforma o ministério em privilégio, que fala em nome de Deus, mas oprime o povo com pesos que ele mesmo não carrega. Esse espírito impuro está dentro da sinagoga, no espaço religioso. E não é justamente isso que vemos hoje, quando a Igreja se deixa contaminar por ideologias de poder, quando o altar se torna palco, quando a liturgia vira espetáculo?

Do ponto de vista filosófico, é útil recordar a distinção entre potestas e auctoritas já feita no mundo romano. Potestas é o poder imposto pela força; auctoritas é o reconhecimento de uma vida que inspira confiança. Jesus não tem potestas, mas tem auctoritas. Sua palavra não precisa de coerção porque é verdade. Hannah Arendt dizia que a autoridade só existe onde há reconhecimento, e que desaparece quando precisa se impor pela violência. A autoridade de Jesus não é violenta, mas gera adesão. É a força da verdade que atrai.

A patrística ilumina ainda mais. São Cirilo de Jerusalém lembrava que os demônios reconhecem Jesus como “Santo de Deus”, mas não por amor, e sim por medo. Saber quem Ele é não basta: é preciso segui-lo. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o homem vivo”, e aqui vemos a glória de Deus quando o homem liberto volta a ser ele mesmo, não mais escravo do mal. São João Crisóstomo sublinhava que a palavra de Cristo é simples, mas poderosa, porque nasce da coerência entre vida e anúncio. É um convite para a Igreja hoje: mais do que discursos pomposos, precisamos de testemunho coerente.

O Magistério da Igreja ressoa essa mensagem. A Gaudium et Spes (n. 37) recorda que “toda a história humana está impregnada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. A Evangelii Gaudium denuncia a tentação de transformar a missão em negócio, advertindo contra a “mundanidade espiritual” que esvazia a força do Evangelho. A Fratelli Tutti insiste que a verdade deve ser buscada sempre no amor e na fraternidade, contra toda manipulação e mentira. Quando olhamos para a cena da sinagoga de Cafarnaum, vemos que ela continua a se repetir na história: o Cristo liberta, mas os poderes resistem; o povo se admira, mas muitos preferem a escravidão.

Há também um paralelo litúrgico a destacar. Quando rezamos o Pai-Nosso e pedimos: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, estamos ecoando a experiência daquele homem da sinagoga. Ele foi liberto porque o Cristo estava presente. Na liturgia, Cristo continua presente, sua palavra continua a expulsar os demônios que nos cercam. Mas é preciso abrir-se a Ele, deixar que sua autoridade toque nossa vida.

É também importante recordar os paralelos com outras expulsões de demônios. O possesso geraseno (Mc 5,1-20; Lc 8,26-39) mostra que o mal pode escravizar não apenas uma pessoa, mas toda uma comunidade, representada pela legião. A libertação gera medo, e a cidade expulsa Jesus, preferindo conviver com os porcos a acolher a liberdade. Em Mateus 12,28, Jesus diz: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus”. Cada exorcismo é um sinal escatológico: o Reino está presente, e as forças do mal perdem espaço.

Hoje, esse Evangelho é uma convocação profética. Ele nos chama a não ter medo do mal, mas a cultivar o bem. A autoridade de Jesus não se compra, não se negocia, não se impõe; ela se acolhe. É preciso deixar que essa autoridade nos liberte também de nossos próprios demônios: a ganância, o ódio, a indiferença, a tentação de manipular a fé. É preciso deixar que sua palavra nos contamine de amor, para que possamos contagiar o mundo com a força do bem.

O povo exclamava: “Que palavra é esta?” Essa pergunta continua aberta. O que a palavra de Jesus é para nós? Espetáculo ou vida? Curiosidade ou seguimento? O espírito impuro grita: “Que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré?” E nós, que resposta damos? Queremos mantê-lo à distância ou deixamos que Ele nos toque e nos liberte?

O mal pode gritar, mas não terá a última palavra. A última palavra é sempre de Deus, e essa palavra é vida, é liberdade, é amor. É a autoridade de Cristo que continua a nos libertar. Que hoje, ao ouvir este Evangelho, possamos acolher essa autoridade em nós, e viver como testemunhas de um Reino que não se compra, não se negocia e não se vende, mas que se constrói na coerência entre palavra e vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 30 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 4,16-30

 
A perícope de Lucas 4,16-21 ocupa um lugar privilegiado na vida litúrgica da Igreja. Ela é proclamada integralmente na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum, quando a comunidade retoma o caminho ordinário da escuta da Palavra e do discipulado cotidiano, e aparece também em forma condensada no 3º Domingo do Tempo Comum do ano C, dia que, por iniciativa do Papa Francisco, foi instituído como o Domingo da Palavra de Deus, ressaltando a centralidade da Escritura na vida e na missão da Igreja. Além disso, o mesmo núcleo temático ressoa profundamente na Missa do Crisma, celebrada na Quinta-feira Santa, quando o bispo consagra os santos óleos e renova-se o compromisso ministerial, evocando explicitamente a unção do Espírito que configura Cristo como aquele que foi enviado para evangelizar os pobres. Nas tradições das Igrejas históricas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, este texto é igualmente reconhecido como uma epifania da identidade messiânica de Jesus e como síntese programática de sua missão. A liturgia, ao situá-lo nesses momentos, não apenas recorda um acontecimento passado, mas atualiza um princípio teológico fundamental: a Palavra de Deus é sempre contemporânea, sempre hoje.
A cena se insere no início do ministério público de Jesus segundo o Evangelho de Lucas. Após o batismo no Jordão, onde o Espírito desce sobre ele em forma corpórea como uma pomba, e após a experiência do deserto, marcada pelo confronto com as tentações que pretendiam desviar sua missão para caminhos de poder, espetáculo e domínio, Jesus retorna à Galileia “no poder do Espírito” (Lc 4,14). Este detalhe não é meramente descritivo, mas profundamente teológico. Ele indica que tudo o que se segue será ação do Espírito na história. O retorno a Nazaré, sua terra de origem, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um movimento simbólico de encarnação da missão no espaço concreto da vida cotidiana.
Nazaré, pequena aldeia da Galileia, estava distante dos centros de poder político e religioso como Jerusalém e Cesareia. Era um lugar marginal no mapa do mundo antigo, expressão das periferias históricas onde a vida se desenrola sob condições de invisibilidade social. A Galileia do primeiro século era uma região marcada por tensões econômicas e culturais, com forte presença de camponeses submetidos à exploração tributária do Império Romano e das elites locais. A leitura desse contexto, iluminada pela história do Mediterrâneo antigo, revela que a proclamação de Jesus não ocorre em um vazio neutro, mas em um ambiente de desigualdade estrutural, opressão econômica e expectativa messiânica.
Ao entrar na sinagoga, Jesus se insere na tradição viva de Israel. A sinagoga, surgida no período do exílio e consolidada no pós-exílio, era o espaço da memória coletiva, da leitura da Torá e dos Profetas, da oração comunitária e da formação da identidade do povo. O gesto de levantar-se para ler (Lc 4,16) é carregado de significado. Não se trata apenas de uma função litúrgica, mas de uma tomada de posição diante da tradição. Ele recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que proclama a unção do Espírito sobre o enviado. O texto de Isaías 61,1-2, combinado com elementos de Isaías 58,6, anuncia libertação, cura, restauração e justiça.
Quando Jesus lê “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18), ele não está apenas citando uma profecia, mas reinterpretando toda a expectativa messiânica de Israel. A unção, no mundo bíblico, designa a consagração para uma missão específica. Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de eleição divina. Aqui, porém, a unção não legitima poder político nem status religioso, mas uma missão voltada aos pobres, aos cativos, aos cegos e aos oprimidos. Trata-se de uma inversão radical da lógica dominante.
O termo “pobres” não deve ser reduzido a uma categoria puramente espiritual. No contexto bíblico, especialmente na tradição dos anawim, refere-se aos que são materialmente despossuídos e socialmente vulneráveis, mas também abertos à ação de Deus. A boa nova anunciada a eles é concreta, histórica, libertadora. A libertação dos cativos remete tanto à experiência do exílio quanto às diversas formas de escravidão e opressão presentes na sociedade. A recuperação da vista aos cegos evoca não apenas curas físicas, mas a iluminação interior que permite perceber a realidade à luz de Deus. A libertação dos oprimidos aponta para a ruptura de estruturas injustas.
O anúncio do “ano da graça do Senhor” remete diretamente à tradição jubilar de Levítico 25. O jubileu era um tempo de reconfiguração social, no qual as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as terras devolvidas. Era uma tentativa concreta de impedir a concentração de riqueza e restaurar a igualdade. Ao assumir esse horizonte, Jesus projeta a fé bíblica para além do ritualismo e a inscreve no campo da justiça social. A teologia se encontra com a sociologia, a espiritualidade com a economia, a liturgia com a vida.
Quando Jesus declara “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21), ele introduz a categoria do hoje como chave hermenêutica. O hoje não é apenas um tempo cronológico, mas um tempo teológico, o kairos da salvação. Em Lucas, essa categoria aparece em momentos decisivos, como no anúncio aos pastores “Hoje vos nasceu um Salvador” (Lc 2,11) e na conversão de Zaqueu “Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19,9). O hoje rompe com a lógica de uma fé projetada apenas para o futuro e convoca à transformação do presente.
A reação dos ouvintes revela a complexidade da experiência humana. Inicialmente, há admiração pelas palavras cheias de graça (Lc 4,22). No entanto, rapidamente emerge a resistência. “Não é este o filho de José?” A pergunta, aparentemente inocente, carrega uma carga de deslegitimação. Trata-se de um mecanismo antropológico e psicológico conhecido: a dificuldade de reconhecer o extraordinário no ordinário, o novo no familiar. A psicologia social aponta que grupos tendem a rejeitar aqueles que rompem expectativas internas, pois isso ameaça a estabilidade simbólica do coletivo.
Jesus responde evocando a tradição profética de Elias e Eliseu (Lc 4,25-27), lembrando que a ação de Deus ultrapassa as fronteiras de Israel. A viúva de Sarepta e Naamã, o sírio, são estrangeiros que experimentam a graça divina. Essa universalização do horizonte é profundamente subversiva. Ela desmonta qualquer pretensão de exclusivismo religioso e aponta para a universalidade da salvação. No entanto, essa abertura é percebida como ameaça, e a admiração se transforma em fúria.
O paralelo com Marcos 6,1-6 e Mateus 13,53-58 confirma o tema do profeta rejeitado em sua terra, mas Lucas radicaliza o sentido ao colocar esse episódio no início da missão. Trata-se de uma chave interpretativa para todo o Evangelho. A missão de Jesus será marcada pela proclamação da libertação, pela abertura aos marginalizados e pela rejeição por parte daqueles que se consideram detentores da verdade e do poder religioso.
A tradição patrística reconheceu nessa passagem um núcleo fundamental da cristologia. A recapitulação em Cristo, como desenvolvida por Irineu, indica que toda a história encontra nele seu sentido. Orígenes enfatiza o caráter sempre atual do hoje da Palavra. Agostinho destaca que a Escritura se cumpre na vida daqueles que a acolhem com fé. Essa leitura patrística reforça a dimensão existencial do texto.
No horizonte do magistério contemporâneo, a Constituição Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as da Igreja. A Evangelii Gaudium denuncia a economia da exclusão e convoca a uma Igreja em saída. A Fratelli Tutti critica a cultura do descarte e propõe uma fraternidade universal. Os documentos do CELAM, especialmente Medellín e Puebla, aprofundam a opção preferencial pelos pobres como exigência evangélica. A CNBB, em suas diretrizes pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja comprometida com a justiça social.
Diante desse quadro, a Palavra de Lucas 4 assume um caráter profético incontornável. Ela denuncia as formas contemporâneas de instrumentalização da religião. Quando a fé é capturada por projetos político-partidários que promovem exclusão, violência e autoritarismo, ela se distancia do Evangelho. A teologia da prosperidade, ao reduzir a bênção divina ao sucesso material, trai a lógica do Reino, que privilegia os pobres. A teologia do domínio, ao buscar poder e controle, contradiz o caminho de serviço de Jesus.
O clericalismo aparece como uma deformação interna da Igreja, quando o ministério se transforma em privilégio e poder, em vez de serviço. Isso sufoca a dimensão profética e impede a participação do povo de Deus. A aliança entre discursos religiosos e ideologias de extrema direita, marcada por nacionalismo excludente e desprezo pelos pobres, esvazia o Evangelho de sua força libertadora.
A atualidade do texto se revela nos desafios contemporâneos. A desigualdade social crescente, a exclusão de milhões, a violência estrutural, a crise de sentido e a manipulação religiosa são sinais de um mundo que precisa urgentemente do anúncio do Reino. A Palavra proclamada em Nazaré continua a ecoar como denúncia e promessa. Ela desinstala, inquieta, convoca à conversão.
A experiência humana diante dessa Palavra é marcada por ambiguidade. Há desejo de mudança, mas também medo. A liberdade proposta pelo Evangelho implica responsabilidade. A psicologia mostra como mecanismos de defesa surgem diante de verdades que exigem transformação. No entanto, é nesse confronto que se abre a possibilidade de uma vida nova.
Jesus passa pelo meio deles e segue seu caminho (Lc 4,30). Este detalhe final é profundamente simbólico. A rejeição não interrompe a missão. O projeto de Deus não é bloqueado pela resistência humana. A história continua aberta. A Palavra continua a ser proclamada. O Espírito continua a agir.
A contemplação dessa cena conduz a uma tomada de posição. Não é possível permanecer neutro diante dela. Ou se acolhe o hoje da salvação, assumindo suas implicações pessoais e sociais, ou se recusa, permanecendo nas estruturas que geram morte. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não pode ser cúmplice da injustiça. Ela é chamada a ser fermento de transformação, sinal de esperança, voz profética.
Assim, a sinagoga de Nazaré se torna espelho da humanidade. Nela se refletem nossas expectativas, nossas resistências, nossas contradições. E nela ressoa a Palavra que continua a dizer hoje: a libertação é possível, a justiça é necessária, a graça é oferecida. Cabe a cada geração decidir se acolhe ou rejeita esse anúncio. O Evangelho permanece como critério, como luz e como caminho para uma humanidade reconciliada, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida e a vida, em todas as suas formas, seja plenamente valorizada.
Naquele contexto  os olhares se cruzavam em curiosidade e orgulho local e hoje sonos  chamados a nos perguntar: 

  • Qual é o nosso projeto “hoje”? 
  • Onde precisamos deixar que a Palavra se cumpra? 
  • Onde resistimos, como os nazarenos, porque a mensagem nos incomoda? 
  • E como comunidade, estamos dispostos a abrir espaço para os pobres, os estrangeiros, os diferentes, ou continuamos a reproduzir muros e exclusões? 

A Boa Nova de Jesus não cabe em templos fechados, nem em projetos de poder, mas floresce quando a Palavra é acolhida como fermento de vida nova, reconciliação e justiça.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano