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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 16,9-15

O Evangelho de Lucas 16,9-15, proclamado no sábado da 31ª semana do Tempo Comum, é uma das mais incisivas palavras de Jesus sobre a fidelidade e o uso dos bens materiais, sendo a continuação direta da parábola do administrador infiel, lida na sexta-feira anterior. Trata-se de um texto de transição e denúncia, onde Jesus, após narrar a parábola, oferece a interpretação espiritual que penetra o âmago da vida cristã: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). Lucas organiza os capítulos 15 e 16 como uma espécie de díptico teológico sobre o uso dos dons. No capítulo 15, o foco recai sobre a misericórdia de Deus e o perdão como dom gratuito; no 16, sobre a administração dos bens e a responsabilidade que nasce da graça. As parábolas do filho pródigo (Lc 15,11-32), do administrador infiel (Lc 16,1-8) e do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) formam, portanto, uma trilogia que revela o coração do Evangelho: toda graça recebida deve ser traduzida em partilha, toda posse deve ser reconduzida ao dom, toda relação deve ser redimida pela comunhão, ecoando o mandamento antigo: “Nada reterás para ti, pois o Senhor teu Deus te abençoará em tudo o que fizeres” (Dt 15,10).

O contexto do texto é profundamente social e espiritual. Jesus fala a discípulos e fariseus num tempo em que a riqueza era vista como sinal de bênção divina (cf. Dt 28,1-14), e a pobreza, como castigo (cf. Jó 4,7-8). Sua palavra, portanto, subverte a lógica religiosa dominante, confrontando o sistema econômico e teológico que legitimava a desigualdade. O termo “dinheiro injusto” (mamona tes adikías) é revelador: Jesus não condena o dinheiro em si, mas a estrutura de injustiça que o cerca. A palavra adikías remete à “injustiça estrutural”, o sistema econômico que oprime e exclui. Quando Ele diz “fazei amigos com o dinheiro injusto” (Lc 16,9), está propondo um gesto profético: usar o produto de um sistema desigual para gerar comunhão, libertação e solidariedade. É o mesmo movimento dos profetas, que denunciaram os que “compram o pobre por um par de sandálias” (Am 8,6) e os que “ajuntam casa a casa, campo a campo, até que não reste mais lugar” (Is 5,8). Assim, Jesus se inscreve na linhagem profética que vê a conversão não apenas como mudança interior, mas como transformação das relações sociais. O Evangelho não é um conselho moral; é uma revolução simbólica e espiritual. A sabedoria de Deus sempre desmascara o poder que oprime (cf. Sb 2,10-20), e a verdadeira religião se mede na justiça praticada (cf. Mq 6,8).

Fazer amigos com o dinheiro injusto não é comprar afeto, mas antecipar o Reino. É um gesto escatológico, porque anuncia já na história a comunhão que nos espera nas “moradas eternas” (Lc 16,9b). A caridade aqui é o primeiro ensaio da eternidade. A fidelidade nas pequenas coisas torna-se, então, critério para as grandes: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito” (Lc 16,10). O “pouco” é o terreno onde se testa o coração, onde o amor se prova (cf. Mt 25,21). O dinheiro, nesse sentido, é um “sacramento profano” que revela a verdade da alma: quem não sabe doar, não sabe amar (cf. 1Jo 3,17). É o mesmo princípio que aparece no julgamento final de Mateus 25, quando o Rei julga os homens não por doutrinas, mas pelos gestos concretos, dar de comer, de beber, acolher, visitar (cf. Mt 25,35-36). As pequenas fidelidades são a matériaprima  do Reino, como as duas moedas da viúva pobre (cf. Mc 12,41-44), que se tornaram o símbolo da entrega total.

Jesus, ao concluir com “não podeis servir a dois senhores” (Lc 16,13), utiliza uma linguagem de totalidade. O verbo douleuein (servir) indica não uma obediência parcial, mas a submissão total do coração. Deus e Mamom não são apenas opções éticas, mas sistemas de adoração. Servir a Deus é entrar na lógica do dom; servir ao dinheiro é entrar na lógica da apropriação. E aqui se desmascara o ídolo moderno: o dinheiro é o simulacro de Deus, uma paródia da transcendência. Ele promete o que só Deus pode dar — segurança, poder, reconhecimento —, mas entrega apenas vazio (cf. Jr 2,13). Por isso Jesus o chama de “senhor”, porque o dinheiro escraviza (cf. Jo 8,34; Rm 6,16). A teologia da prosperidade, tão presente em nosso tempo, é a expressão religiosa dessa idolatria: ela transforma Deus em instrumento do sucesso, a fé em investimento e a bênção em mercadoria (cf. At 8,18-20). É a heresia que confunde o Reino de Deus com o lucro terreno, a cruz com o contrato. Em nome de uma falsa promessa de abundância, legitima-se a ganância e consagra-se o egoísmo. A teologia do domínio, que tenta justificar o poder político e econômico como “sinal da bênção”, é sua irmã espiritual: ambas adoram o mesmo ídolo, apenas com liturgias diferentes.

A crítica de Jesus é dura porque vai ao núcleo da idolatria humana: o coração dividido. Aquele que tenta servir a dois senhores se despedaça interiormente, vive em permanente tensão entre o ser e o ter (cf. Mt 6,24). A psicologia profunda reconhece esse conflito. Viktor Frankl, ao falar do vazio existencial, observou que o homem moderno, privado de sentido, busca preencher o abismo interior com bens materiais. O consumo se torna um anestésico espiritual. Erich Fromm, em sua obra Ter ou Ser?, já havia percebido que a sociedade contemporânea se estruturou sobre o verbo “ter”: ter sucesso, ter dinheiro, ter prestígio. Jesus, porém, propõe a lógica do ser: ser livre, ser fiel, ser dom. A fidelidade, nesse contexto, não é apenas disciplina moral, mas modo de existir. Ser fiel no pouco é resistir ao fascínio do acúmulo, é viver com o essencial (cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33-34).

O capitalismo moderno, por sua vez, criou uma nova religião: a do mercado. Suas catedrais são os shoppings, suas liturgias são as transações, seus sacerdotes são os economistas e seus demônios, a pobreza e a lentidão. Ele promete liberdade, mas entrega servidão; oferece abundância, mas multiplica o vazio. É a anti-beatitude: “Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação” (Lc 6,24). O capitalismo moderno repete Babel: constrói torres de lucro e ergue muros de indiferença (cf. Gn 11,4), esquecendo-se que toda edificação sem Deus desaba (cf. Sl 127,1).

O capitalismo, em sua forma atual, tornou-se uma liturgia blasfema do egoísmo. O “deus mercado” ocupa os altares que antes pertenciam à vida, exige sacrifícios humanos e dita as orações da sociedade de consumo. Suas promessas são falsas e suas bênçãos custam caro: crianças famintas (cf. Lm 4,4), trabalhadores exaustos (cf. Ecl 5,10-12), terras devastadas e corações adoecidos pela indiferença (cf. Rm 8,22). Ele transforma o corpo humano em engrenagem, o tempo em mercadoria e o pobre em estatística. A idolatria do mercado é a nova forma de politeísmo: adoramos índices, lucros e ações como se fossem deuses imortais (cf. Sl 115,4-8). Mas o Evangelho desmascara esse culto e proclama que “não se pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). O “deus mercado” não tem compaixão, apenas cálculo; não conhece amor, apenas lucro. É o bezerro de ouro reerguido com cartões de crédito e algoritmos (cf. Ex 32,1-6), sustentado por templos de vidro e liturgias de consumo. Contra essa idolatria global, o cristão é chamado a ser profeta: denunciar a mentira do lucro infinito e anunciar a verdade do dom, onde cada pessoa vale mais do que qualquer balanço financeiro (cf. Mt 10,31; Lc 12,7).

Jesus não foi socialista no sentido ideológico, mas o seu Evangelho é incompatível com o capitalismo que diviniza o lucro e transforma pessoas em coisas. Ele não propôs a luta de classes, mas a superação das classes pela fraternidade (cf. Mt 23,8; Gl 3,28). Quando anunciou: “Bem-aventurados vós, os pobres” (Lc 6,20), não canonizou a miséria, mas revelou a inversão do Reino, onde o último é o primeiro (cf. Mt 20,16) e o que nada tem é o verdadeiro herdeiro de Deus (cf. Tg 2,5). Ele não pregou a estatização dos bens, mas a comunhão dos corações (cf. At 4,32-35). O que Jesus condena não é a propriedade, mas a idolatria da posse (cf. Mc 10,23-25). Quando disse ao jovem rico: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres” (Mt 19,21), não impôs um programa econômico, mas desvelou a verdade espiritual de quem é escravizado pelo ter. A multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) é o maior manifesto contra o capitalismo: não há mercado, há partilha; não há lucro, há mesa; não há competição, há comunhão. O Evangelho é o contrário do acúmulo: é a ética da sobra repartida (cf. 2Cor 8,13-15), da justiça encarnada e da economia do amor. Jesus não fundou um sistema político, mas instaurou o Reino — e este Reino é a antítese de qualquer lógica que exclua, explore ou acumule às custas da vida alheia. É por isso que a cruz é o maior protesto contra o mercado: nela, o amor se entrega sem cálculo, sem juros, sem retorno (cf. Fl 2,6-8; Hb 9,26).

Os fariseus, “amigos do dinheiro”, riam de Jesus porque não suportavam ver seu próprio reflexo na parábola. A hipocrisia, aqui, é a máscara da autodefesa. O riso é a zombaria de quem teme a verdade. Jesus os desmascara: “O que é estimado entre os homens é abominação diante de Deus” (Lc 16,15). Essa frase resume todo o escândalo do Evangelho. O que o mundo glorifica — poder, aparência, prestígio — Deus rejeita (cf. 1Sm 16,7). E o que o mundo despreza — pobreza, simplicidade, gratuidade — Deus exalta (cf. Lc 1,52-53). A Igreja, quando se alia ao poder, trai essa inversão. O clericalismo, denunciado pela Evangelii Gaudium (n. 93-97), é o rosto religioso dessa idolatria: o desejo de prestígio, o fechamento em si mesma, a tentação de dominar em vez de servir (cf. Mc 10,42-45). Contra essa tentação, o Papa Francisco recorda que “o dinheiro deve servir, não governar” (Fratelli Tutti, n. 168). Servir a Deus é, portanto, servir ao outro, ao pobre, ao pequeno (cf. Mt 25,40; Lc 22,27). A autoridade evangélica é a que se abaixa para lavar os pés, não a que se eleva para receber honras (cf. Jo 13,14-15)

 São Basílio Magno perguntava: “O pão que guardas pertence ao faminto; a roupa que conservas no armário pertence ao nu; o dinheiro que escondes pertence ao necessitado.” Para ele, a avareza não é simples falha moral, mas roubo (cf. Ef 4,28). Santo Ambrósio reforça: “A terra foi feita para todos, e não apenas para os ricos.” A patrística ecoa o próprio Jesus: o uso justo dos bens é critério de salvação (cf. Mt 25,31-46; Lc 12,48). Santo Agostinho via na figura de Mamom o símbolo da escravidão interior: “Servir ao dinheiro é tornar-se servo de um servo.” E São João Crisóstomo adverte: “Quem acumula riquezas enquanto outros morrem de fome é pior que ladrão.” Essa visão patrística, longe de um moralismo ingênuo, é uma teologia da partilha e da comunhão.

A hermenêutica deste texto exige, portanto, uma leitura integral: o que está em jogo não é o dinheiro em si, mas a conversão do coração e a estrutura das relações humanas. A fidelidade no pequeno é o caminho do Reino. Ela começa nas escolhas cotidianas: na forma como tratamos o outro (cf. Lc 10,25-37), no modo como usamos o tempo (cf. Ef 5,15-16), no cuidado com a criação (cf. Gn 2,15), na honestidade com o que administramos (cf. 1Pd 4,10). A Gaudium et Spes (n. 63–66) lembra que “o desenvolvimento econômico deve estar a serviço do homem, e não o homem a serviço da economia.” A crítica de Jesus antecipa essa visão: o dinheiro é instrumento, não fim; servo, não senhor. A verdadeira liberdade nasce quando o ser humano reconhece que tudo é dom e que o amor é o único bem que não empobrece ao ser dividido (cf. 1Cor 13,8).

Servir a Deus é escolher a luz num mundo de sombras (cf. Jo 8,12), é caminhar na contramão das vitrines e das bolsas de valores (cf. Mt 7,13-14), é crer que a verdadeira riqueza é a comunhão (cf. At 2,44-47). O discípulo fiel é aquele que transforma o que passa em eternidade. Que cada gesto de partilha seja uma centelha do Reino, e cada recusa ao ídolo uma semente de liberdade. Porque, no fim, só o amor permanece — e só ele é digno de ser servido (cf. 1Cor 13,13).



DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 12,39‑48

No calendário litúrgico, as palavras de Jesus sobre a vigilância e a fidelidade aparecem em dois momentos distintos. Na quarta-feira da 29ª semana do Tempo Comum, a liturgia proclama Lucas 12,39-48, um forte chamado à vigilância e à responsabilidade diante da vinda inesperada do Filho do Homem. Esse mesmo ensinamento já havia sido proclamado como uma unidade maior (Lucas 12,32-48) no 19º Domingo do Tempo Comum – Ano C, ocasião em que reflete-se sobre a confiança filial, o desapego e o serviço fiel. Realizamos reflexões sobre esse trecho tanto em 2022 quanto em 2025, situando-o dentro desse contexto mais amplo que une fé, desprendimento e vigilância ativa.

Na 29ªSemanadoTempoComum no calendário semanal ,  o mesmo discurso de Jesus é proclamado de forma dividida em dois blocos complementares: na terça-feira, com Lucas 12,35-38, destacando o convite a manter as lâmpadas acesas e o coração desperto e na quarta-feira, com Lucas 12,39-48. Assim, a liturgia nos oferece uma leitura progressiva e integrada: primeiro o chamado à vigilância constante, depois a consciência do serviço fiel e da administração responsável dos dons recebidos, iluminando tanto o caminho cotidiano da semana quanto a celebração dominical.

Hoje somos convidados a entrar na profundidade do ensinamento de Jesus sobre vigilância, fidelidade e responsabilidade. O Evangelho de Lucas 12,39‑48 nos apresenta imagens poderosas de espera ativa e serviço fiel, que não podem ser reduzidas a formalismos ou práticas superficiais, mas exigem de nós uma atenção constante à presença do Senhor em nossas vidas. Quando lemos que “o Filho do Homem virá à hora em que não esperais”, somos confrontados com a certeza de que o tempo do Senhor não se submete aos nossos relógios, planos ou agendas. Essa vinda inesperada não é apenas um acontecimento futuro; ela é uma dimensão presente que exige de nós vigilância, prontidão e responsabilidade na gestão de tudo aquilo que Deus nos confiou.

A primeira parábola nos coloca diante da figura de um dono de casa vigilante que, no entanto, não sabe quando o ladrão chegará. O ladrão, nesse contexto, é mais do que uma ameaça física; ele simboliza todos os perigos que rondam nossa vida de fé, todas as distrações, tentações e seduções que podem arrombar o coração e a comunidade se não estivermos atentos. A casa representa a vida, o dom e a vocação confiados por Deus a cada discípulo. A vigilância não é mera expectativa passiva; é ação concreta de manter a vida alinhada aos valores do Reino, de cultivar a fidelidade nos atos cotidianos, mesmo quando o tempo parece longo ou a vinda do Senhor distante. É o chamado para que cada um de nós viva consciente de que a eternidade se faz presente na maneira como usamos o presente, e que cada gesto de amor, justiça e serviço é uma lâmpada acesa no caminho da vigilância.

A segunda parábola, sobre o administrador que ante a demora do mestre relaxa e abusa das responsabilidades confiadas a ele, aprofunda a dimensão ética da fé. Aqui, Jesus dirige sua advertência à segunda geração cristã, àquelas comunidades que, diante da aparente demora da Parousia, correm o risco de relativizar os valores do Reino ou de acomodar-se em uma fé confortável e individualista. O administrador representa cada um de nós diante dos dons que recebemos: talentos, tempo, habilidades, missão, relações. A fidelidade se manifesta no uso responsável desses dons, na atenção às necessidades dos outros e na consciência de que nada nos pertence de forma absoluta, mas tudo nos é confiado para o bem comum. A demora do Senhor não é desculpa para o relaxamento moral ou espiritual; ao contrário, ela nos convoca a um compromisso contínuo, onde a vigilância e a responsabilidade são medidas pelo amor e pela justiça.

Os símbolos presentes no texto de Lucas são ricos e se entrelaçam com imagens recorrentes no Antigo e Novo Testamento. A casa e o ladrão evocam imagens de proteção e ameaça que encontramos em Provérbios e nos Salmos, onde a vigilância é sinônimo de prudência e cuidado. O servo fiel, que administra bem os bens confiados, ecoa a lógica dos talentos em Mateus 25,14‑30, e as dez virgens (Mateus 25,1‑13) nos lembram que a prontidão é mais importante que a quantidade de recursos ou conhecimento. A expressão “a quem muito foi dado, muito será exigido” sintetiza a ética de responsabilidade que atravessa toda a Escritura, lembrando-nos que a fidelidade não é medida pelo que possuímos, mas pelo uso que fazemos do que nos foi confiado.

A vigilância é um exercício de atenção plena, de autoconsciência e disciplina. O servo que se deixa levar pela preguiça, pelo conforto ou pelo egoísmo exemplifica os efeitos da procrastinação espiritual e da negligência moral. A fé não é um sentimento passivo, mas uma postura ativa que requer esforço, reflexão e maturidade. Na sociologia, essas parábolas falam à organização da vida comunitária, mostrando que a responsabilidade e a administração ética dos bens de Deus impactam diretamente na convivência, na justiça social e na solidariedade. Ignorar a vigilância é permitir que o egoísmo, o abuso e a exploração se instalem, minando a comunidade e corroendo os laços de confiança.

Lucas nos desafia a pensar sobre o tempo, a finitude e a transcendência. A vinda inesperada do Senhor nos lembra que a existência humana é marcada pela contingência, e que a fidelidade não é opcional, mas uma exigência diante do mistério da vida e da morte. A vigilância não é mero cálculo racional, mas disposição ética e espiritual, onde a liberdade encontra limites na responsabilidade e na atenção ao outro. A antropologia nos mostra que essas imagens do servo, do mestre e da casa eram familiares aos ouvintes originais de Lucas, mas que Jesus transforma, subvertendo a lógica social do domínio e da exploração, propondo um modelo de serviço mútuo, confiança e administração compartilhada dos bens confiados.

Historicamente, a comunidade lucana vivia uma tensão constante entre a espera da Parousia e a realidade de um mundo marcado por injustiças, opressão e demora aparente na ação divina. A demora de Cristo não é sinal de ausência ou falha, mas convite à vigilância e à fidelidade. Cada ação, cada decisão ética, cada momento de serviço fiel se torna significativo porque se insere nesse tempo “entre”, no qual a história humana continua sendo moldada pela graça e pela responsabilidade dos discípulos.

As críticas às correntes contemporâneas de teologia da prosperidade, do domínio, do individualismo e da fé‑mercadoria encontram eco direto neste texto. A promessa de recompensa não é baseada na acumulação de bens ou no sucesso pessoal, mas na fidelidade e na responsabilidade na administração do que nos foi confiado. A lógica do domínio e do poder, que muitas vezes permeia instituições e ministérios, é confrontada pelo exemplo do servo fiel, que não abusa dos outros, mas distribui o sustento no tempo próprio. O individualismo, que reduz a fé a experiência pessoal ou a consumo de bênçãos, é desafiado pela ênfase comunitária e pela prestação de contas: ninguém é fiel sozinho; a vigilância é ética, espiritual e social. A fé‑mercadoria, que transforma dons espirituais em bens de consumo, é contrária à exigência de serviço, responsabilidade e compromisso.

Os líderes e ministros, que recebem maiores dons e responsabilidades, são igualmente avaliados por sua fidelidade e serviço. A administração dos bens e do cuidado pastoral não é prerrogativa de poder, mas incumbência de serviço. A demora do Senhor não justifica a negligência nem a busca de privilégios. “A quem muito foi dado, muito será exigido” aplica-se igualmente ao sacerdote, ao líder comunitário, ao leigo engajado: a responsabilidade é proporcional ao dom recebido.

No tom profético, Lucas nos confronta hoje: a vida não espera a hora perfeita. O Senhor pode vir a qualquer momento, e o que Ele encontra em nossa casa, em nosso coração, em nossa comunidade, é o critério de fidelidade. Não se trata de temor paralisante, mas de compromisso ético e espiritual: nossas ações, escolhas e cuidados são a manifestação concreta de nossa vigilância e responsabilidade. Cada gesto de amor, cada ato de justiça, cada serviço humilde é uma lâmpada acesa, pronta para o encontro. O risco da demora é a acomodação, a tentação do egoísmo, a ilusão de que a espera nos autoriza ao relaxamento ou ao abuso.

Assim, a mensagem de Lucas 12,39‑48 permanece radical e atual: viver atentos, vigilantes, conscientes dos dons recebidos, e administrar esses dons com justiça, humildade e serviço, porque o tempo é dom e responsabilidade. A parábola nos lembra que a demora do Senhor não significa impunidade, mas oportunidade de fidelidade; que os dons não são propriedade, mas missão; que a vigilância não é ansiedade, mas prontidão; e que a prestação de contas é medida do amor e da fidelidade. A chamada é clara: sejamos discípulos vigilantes, administradores fiéis, servos justos, para que, quando o Mestre vier, encontre nossa vida, nossa comunidade e nosso ministério prontos, iluminados e transformados pelo amor que recebemos e compartilhamos.

Portanto, neste tempo litúrgico, seja na Quarta‑feira da 29ª Semana do Tempo Comum, seja no 19º Domingo do Tempo Comum, Lucas nos oferece um chamado à consciência plena, à responsabilidade ética, à vigilância espiritual e à fidelidade nos dons de Deus. Não podemos adiar o compromisso, nem acomodar-nos diante da aparente demora. Devemos vigiar, trabalhar, servir, amar e administrar o que nos foi confiado, para que nossa vida, nossa comunidade e nosso testemunho permaneçam fiéis ao Reino que já está presente, mas ainda se revelará em plenitude. Que cada um de nós reconheça a urgência do agora, a responsabilidade proporcional aos dons recebidos e a necessidade de viver sempre em prontidão, para que, ao final da jornada, possamos ouvir: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te porei.”

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sábado, 20 de setembro de 2025

Um outro olhar sobre Lucas 16,1-13 - 25º domingo do tempo comum

O  25º domingo do tempo comum  nos convida  a nos alimentar na mesa da Palavra  no mosaico da nossa liturgia dominical: Amós 8,4-7; Salmo 112(113) com refrão “Louvai o Senhor, que levanta os fracos”; 1 Timóteo 2,1-8; Lucas 16,1-13, já fizemos   essa proclamação  em 2022  em nosso  blog e também  no YouTube  em 2022

A liturgia deste domingo nos convida a refletir profundamente sobre a relação entre riqueza, justiça e fidelidade a Deus. Amós 8,4-7 denuncia com veemência a exploração dos pobres: “Ouvi isto, vós que esmagais o necessitado e destruís os pobres da terra, dizendo: ‘Quando acabará a lua nova para que vendamos o cereal?’”. Este texto, eminentemente profético, atravessa os séculos ao denunciar práticas de manipulação de preços, engano do pobre e ganância institucionalizada, lembrando-nos que Deus não se cala diante da injustiça. Por contraste, o Salmo 112(113) nos conduz ao louvor: “Louvai o Senhor, que levanta os fracos”, reforçando que Deus ergue os humildes e sustenta os oprimidos. Paulo, em 1 Timóteo 2,1-8, exorta à oração universal, incluindo os governantes, destacando a responsabilidade ética de todos na construção de uma sociedade justa e solidária. Por fim, Lucas 16,1-13 apresenta a parábola do administrador infiel, ensinando fidelidade, discernimento e prioridade do Reino sobre o lucro material. Este Evangelho, exclusivo do 25º Domingo do Tempo Comum, desafia a comunidade a refletir sobre a administração ética e espiritual dos bens confiados.

Viver e sobreviver em um mundo capitalista exige plena consciência de nossa inserção nesse contexto, mas sem nos submeter aos valores do lucro absoluto. Para orientar nossas escolhas, é essencial estabelecer prioridades claras, sempre nessa ordem: 

  1.  Deus, cuja presença e ação dispensam explicação; segundo, nós mesmos, reconhecendo a necessidade de reservar tempo à meditação, planejamento e organização interior, como ensina Lucas 14,7-14; 
  2.  A  família, que constitui nossa base nos dias tristes e escuros e nos conecta à nossa origem;
  3. O emprego / vida profissional, que em tempos de crise é indispensável e deve ser exercido com responsabilidade; 
  4. A participação na Igreja, lembrando que ocupar cargos ou funções em uma comunidade só é legítimo se estivermos quites com as outras três prioridades. 

Essas prioridades não podem ser negligenciadas por qualquer motivo. Com frequência, encontramos pessoas que trabalham de sol a sol sem reservar tempo para oração, cuidado de si mesmas ou atenção à família, buscando apenas retorno financeiro.

A liturgia coloca diante de nós um aparente conflito: Amós denuncia práticas ilícitas e exploratórias, enquanto o Evangelho de Lucas narra o episódio do administrador infiel, que poderia parecer elogiar a esperteza em benefício próprio. No entanto, o coração do texto está nos versículos 10-13, onde Jesus esclarece: “Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Jesus nos ensina que fidelidade, integridade e prioridade do Reino devem orientar toda nossa conduta, incluindo a administração dos bens materiais. Todo desvio transforma a riqueza em armadilha, enquanto a fidelidade no pouco nos prepara para receber aquilo que é verdadeiro e eterno.

A Palestina do século I, contexto histórico do Evangelho, vivia sob uma economia de clientela, impostos pesados e profundas desigualdades. Administradores frequentemente cobravam mais do que deviam, e a astúcia era um meio de sobrevivência. Na parábola, o administrador reduz dívidas para garantir seu futuro, e o patrão elogia sua esperteza. Jesus não louva a corrupção, mas utiliza a narrativa para ensinar que os filhos da luz devem agir com inteligência ética e responsabilidade diante das crises. Mateus 6,24, Marcos 10,17-31 e Mateus 25,14-30 reforçam que fidelidade no pouco precede a fidelidade no muito, e que não se pode servir a dois senhores.

A hermenêutica cristã nos mostra que a fidelidade na gestão dos bens terrenos é preparação para a vida eterna. Aristóteles e Tomás de Aquino distinguem riqueza como meio para o bem comum da acumulação egoísta. A psicologia alerta que o apego ao dinheiro gera ansiedade e alienação; a sociologia e a antropologia evidenciam que sociedades equilibradas valorizam partilha e reciprocidade. Amós, o Salmo 112 e Lucas 16 formam um bloco profético que denuncia injustiça, anuncia esperança e ensina a fidelidade ética e espiritual.

A patrística é clara: Santo Agostinho afirma que “o dinheiro é bom servo, mas péssimo senhor”; São João Crisóstomo denuncia ricos que exploram os pobres; Basílio de Cesareia exorta à partilha justa e o Magistério contemporâneo complementa: Gaudium et Spes (63-66) lembra que a economia deve servir à pessoa humana; Francisco, em Evangelii Gaudium (53-60), denuncia a economia da exclusão; em Fratelli Tutti (122-127; 177), prioriza fraternidade e justiça sobre o lucro. Clericalismo e fé como mercadoria distorcem a mensagem de Cristo e transformam o Evangelho em instrumento de poder ou enriquecimento.

O Evangelho nos desafia a combater distorções modernas: teologia da prosperidade, fé-mercadoria, clericalismo e individualismo espiritual. A parábola evidencia que fidelidade, criatividade ética e serviço aos pobres são critérios de verdade. A antropologia cristã lembra que a vida se realiza em relação, e que decisões econômicas ou éticas impactam toda a comunidade. Clericalismo e idolatria do lucro corrompem, enquanto fidelidade e criatividade evangelizam. Lucas 16 exige coragem, discernimento e responsabilidade.

A realidade contemporânea, marcada pelo neoliberalismo, concentração de riqueza e políticas de exclusão, ecoa a denúncia de Amós: manipulação de preços, exploração do pobre, ganância institucionalizada. A economia que marginaliza os frágeis e idolatra o lucro contradiz o Reino. Lucas 16 nos chama à fidelidade no pouco e à ousadia ética. O administrador infiel age diante da crise; somos convidados a reconhecer limites, assumir responsabilidade e transformar desafios em oportunidades de serviço ao Reino. O Salmo 112 reforça a esperança: Deus levanta os fracos e exalta os humildes.

A exegese sinótica confirma: não se pode servir a dois senhores (Mt 6,24; Lc 16,13). Fidelidade nos bens terrenos anuncia fidelidade nos bens eternos. Mateus 25,14-30 evidencia que cada dom confiado exige responsabilidade, criatividade e coragem. Marcos 8,36 e Lucas 12,20-21 alertam contra o acúmulo injusto. Filosofia ética, psicologia do apego e sociologia das desigualdades confirmam a urgência do discernimento e da administração justa. Patrística reforça que riqueza exige virtude e caridade.

O Magistério atual dialoga com a profecia: economia a serviço da pessoa (GS), denúncia da exclusão (EG), fraternidade acima do lucro (FT). Clericalismo, riqueza idolatrada e fé-mercadoria contradizem o Evangelho. O caminho profético exige fidelidade criativa, ousadia ética, serviço ao Reino e atenção aos pobres. Santo Agostinho lembra que apego material é obstáculo à graça; São João Crisóstomo exige partilha; Francisco afirma que política e economia devem servir à vida, não à lógica do lucro. A Igreja deve permanecer íntegra.

A liturgia deste domingo nos desafia: riqueza não é mal em si, mas seu absolutismo destrói o ser humano. Amós denuncia injustiça, o Salmo proclama esperança, Paulo exorta à oração universal, Lucas chama à fidelidade criativa. Não se pode servir a dois senhores. Fidelidade no pouco prepara para o muito, e administração ética anuncia o Reino. Cada gesto justo, cada ação responsável diante do dinheiro, cada defesa dos pobres e cada oração comunitária revela que servimos a Deus, e não ao ídolo Mamom. O Evangelho é convite a viver integralmente, lúcidos e proféticos, no cuidado do próximo e na fidelidade a Deus.

O administrador infiel é espelho: criatividade diante da crise, responsabilidade diante do patrão, ousadia diante da urgência. Se até os filhos deste mundo agem com esperteza para garantir interesses terrenos, quanto mais os filhos da luz devem agir com inteligência ética. Fidelidade no pouco é preparação para o muito (Lc 16,10). Lucas ensina ética e escatologia integradas, prudência e justiça social.

A dimensão histórica mostra que economia injusta produz sofrimento estrutural. Amós denuncia comerciantes que manipulavam medidas, vendiam pobres e aguardavam o fim do sábado para explorar (Am 8,4-7). Sistemas econômicos desiguais e centralizadores marginalizam a população mais frágil e perpetuam desigualdades. Hoje, políticas neoliberais e corrupção institucional reproduzem essas injustiças, lembrando que a fidelidade na gestão dos bens materiais não é opcional, mas condição para viver segundo o Reino.

O Evangelho conclui com um chamado profético: ser fiel no pouco, renunciar ao lucro injusto, servir ao Reino antes de qualquer riqueza. O dinheiro, em si, não é mal; mas quando se torna senhor, escraviza, corrompe e afasta de Deus. Jesus nos convida à audácia ética, à fidelidade integral e à justiça. Cada ação nossa, cada decisão econômica ou social, é testemunho do Reino que se realiza onde a justiça, a solidariedade e a integridade são vividas, mesmo em um mundo marcado por desigualdade, ganância e exploração.

Que neste 25º domingo do tempo comum possamos reconhecer a urgência da ética, da fidelidade e da partilha, lembrando que o Reino de Deus se manifesta onde a justiça, a fraternidade e a integridade são vividas, e que cada gesto fiel e responsável é sinal do Reino presente entre nós.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


domingo, 14 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre João 19,25-27 - Memória da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores.

A contemplação de Maria aos pés da cruz encontra sua expressão litúrgica na Memória da Bem-aventurada Virgem Maria das Dores, celebrada pela Igreja em 15 de setembro logo após  a liturgia da Festa de Exaltação da Santa Cruz celebrada ontem. Celebrar hoje   Nossa Senhora das Dores / da Piedade como uma   ocasião para recordar sua coragem, fidelidade e esperança diante do sofrimento e da morte de seu Filho. A memória litúrgica está profundamente ligada à tradição devocional das Sete Dores de Maria, cuja espiritualidade se desenvolveu e se consolidou particularmente entre os séculos XVII e XVIII, ressaltando a participação singular da Mãe de Jesus no mistério da salvação e sua permanência fiel junto àquele que, na cruz, entrega a própria vida. Nesse horizonte, o relato de João 19,25-27 ocupa lugar de especial importância, pois apresenta Maria não como uma figura passiva diante da tragédia, mas como aquela que permanece junto à cruz, compartilhando, na fé, o sofrimento do Filho e tornando-se também sinal de uma fidelidade que atravessa a dor sem perder a esperança. Proclamado na Liturgia da Paixão do Senhor, especialmente na Sexta-feira Santa, e em celebrações marianas próprias, esse texto permite contemplar não apenas a profundidade da dor materna, mas também o gesto de Jesus que, no momento extremo, estabelece entre sua mãe e o discípulo amado uma nova relação de cuidado e pertença, gesto que a tradição cristã reconhece como expressão do surgimento de uma nova fraternidade e como sinal da missão materna de Maria junto ao novo povo de Deus. Assim, a presença de Maria no Calvário ultrapassa a dimensão de uma experiência individual de sofrimento e se transforma em testemunho de fé, resistência, compaixão e esperança, iluminando todos aqueles que permanecem junto aos crucificados da história. 

Maria, mãe de Jesus, pode ser contemplada, na perspectiva bíblico-teológica, como expressão do povo da antiga aliança que permaneceu fiel às promessas de Deus e aguardou o Messias com uma esperança ativa, perseverante e atravessada pelo sofrimento. Nela ressoa a memória de tantas mulheres e homens que, ao longo da história de Israel, sustentaram a confiança em Deus mesmo quando a realidade parecia contrariar suas promessas: 

  • Ana, que derramou suas lágrimas diante do Senhor e transformou sua esterilidade em súplica confiante.
  • Raquel, cujo pranto pelos filhos, retomado por Jeremias 31,15, tornou-se símbolo da dor de um povo que espera consolação.
  • Miriã, que participou da condução de Israel na travessia do deserto e testemunhou a presença de Deus junto ao seu povo.
  • Jeremias, cuja voz se levantou em meio à perseguição e ao sofrimento; e 
  • Sofonias, que anunciou a restauração de um povo humilhado, mas não abandonado pelo Senhor. 
Essa esperança percorre também a tradição profética: Isaías apresenta o Servo sofredor, ferido por causa das transgressões humanas, Gênesis 3,15, na leitura cristã posterior, tornou-se uma das principais imagens da vitória definitiva sobre o mal, permitindo contemplar Maria em relação tipológica com, Eva, como aquela que participa do início da nova criação. A mesma dinâmica aparece nos Salmos, que dão voz à experiência concreta de um povo que sofre, clama, espera e confia: o Salmo 22 expressa a angústia do justo perseguido e, à luz do Novo Testamento, será associado à paixão de Cristo; o Salmo 34 proclama que, embora sejam muitas as aflições do justo, o Senhor não o abandona; o Salmo 31 transforma a perseguição em oração de confiança; o Salmo 73 enfrenta o desconcerto provocado pela aparente prosperidade dos ímpios e reafirma a fidelidade a Deus; o Salmo 126 celebra a restauração depois do tempo de lágrimas; e o Salmo 130 transforma o clamor que nasce das profundezas em espera confiante pela misericórdia divina. As Lamentações, especialmente nos capítulos 1 e 3, aprofundam essa espiritualidade do sofrimento, apresentando a dor de um povo ferido, mas ainda capaz de esperar porque a misericórdia do Senhor não se esgota. Essa mesma confiança atravessa Habacuque 3,17-19, cuja profissão de fé permanece firme mesmo quando a figueira não floresce, as colheitas fracassam e os recursos desaparecem, e encontra eco na tradição sapiencial, na qual o livro da Sabedoria afirma a atenção de Deus aos humildes e a transformação do sofrimento injustamente suportado em justiça, enquanto Eclesiastes reconhece que a existência humana é marcada por diferentes tempos, inclusive tempos de choro e de consolo, recordando que a verdadeira sabedoria nasce do reconhecimento dos limites humanos diante de Deus. No horizonte das promessas messiânicas, Miquéias 5,2 aponta para Belém como lugar de onde surgirá aquele que há de governar Israel, enquanto Isaías 7,14 e 9,5-6 alimenta a esperança da vinda do Emanuel, o Deus-conosco, cuja presença definitiva será reconhecida pelos cristãos em Jesus. Maria, portanto, não aparece isolada dessa história: ela está inserida na longa caminhada de um povo que aprendeu a esperar, sofrer, clamar e confiar, tornando-se, na narrativa cristã, uma figura privilegiada da fidelidade de Israel que alcança sua plenitude em Cristo. Ao pé da cruz, essa fidelidade assume sua forma mais radical, pois Maria permanece junto ao Filho quando a promessa parece atravessar a noite mais profunda, e é precisamente nesse cenário que o Evangelho de João apresenta o discípulo amado como representante da comunidade dos seguidores de Jesus, um novo povo constituído não simplesmente por vínculos de sangue, pertencimento étnico ou herança religiosa, mas pela adesão à pessoa e à missão de Cristo. Quando Jesus entrega sua mãe ao discípulo e o discípulo a acolhe, estabelece-se uma relação que ultrapassa o âmbito meramente familiar e assume uma dimensão eclesial e simbólica: a antiga história da promessa é acolhida na comunidade da nova aliança, e Maria passa a ocupar, no relato joanino, um lugar inseparável da comunidade que nasce da cruz. Essa realidade encontra consonância com a afirmação de Paulo em Gálatas 3,28, segundo a qual, em Cristo, as antigas fronteiras de distinção que sustentavam privilégios e exclusões perdem sua função como critérios de pertencimento à comunidade da salvação: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; todos vós sois um só em Cristo Jesus”. Assim, a cena do Calvário pode ser compreendida como uma ponte entre a promessa e seu cumprimento, entre a antiga e a nova aliança, entre a dor e a esperança, mostrando que a fidelidade de Deus não elimina magicamente o sofrimento, mas atravessa a história humana e cria, a partir dela, novas relações de cuidado, fraternidade e comunhão. Maria permanece, então, como memória viva de Israel e testemunha da fidelidade à promessa, enquanto o discípulo amado representa a comunidade que acolhe essa história e a transforma em compromisso concreto com o outro; juntos, no horizonte do Evangelho de João, tornam-se sinal de que a nova aliança não rompe arbitrariamente com a antiga, mas a leva à sua realização em Cristo, reunindo pessoas diferentes em uma comunidade fundada não no poder, na exclusão ou na superioridade religiosa, mas na fé, no amor, no cuidado mútuo e na permanência junto daquele que, na cruz, entrega a própria vida para que todos tenham vida.

Nos relatos sinóticos, Mateus 27,55 registra que as mulheres permaneciam “de longe, observando”, Lucas 23,49 afirma que elas “permaneciam ali, observando”, enquanto Marcos 15,40 destaca que eram mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, revelando, em sua presença silenciosa e constante, uma forma de fidelidade que não depende da visibilidade, do protagonismo ou do reconhecimento público, mas se manifesta no compromisso, no cuidado e na perseverança junto daquele que sofre. A experiência de Maria junto à cruz integra sofrimento e ação, pois sua permanência não constitui mera contemplação passiva da dor, mas uma presença ativa, marcada pela solidariedade, pela memória e pela fidelidade à promessa de Deus, mostrando que permanecer junto ao outro em sua hora mais difícil também é uma forma de agir sobre a realidade. Sob a perspectiva antropológica e sociológica, essa presença adquire ainda maior densidade em uma sociedade marcada por estruturas patriarcais, na qual as mulheres frequentemente eram relegadas às margens dos espaços públicos de decisão e autoridade; ao permanecerem junto à cruz, elas ocupam um espaço de resistência cultural e testemunhal, preservando a memória de Jesus, sustentando vínculos comunitários e participando da transmissão de uma esperança que não se deixa destruir pela violência. Nesse sentido, o sofrimento vivido em comunhão não produz apenas lamento, mas pode gerar solidariedade, consciência, justiça e transformação das relações humanas. O gesto de Jesus ao confiar sua mãe ao discípulo amado, em João 19,26-27, aprofunda essa perspectiva ao revelar uma ética relacional na qual a dignidade humana se manifesta na responsabilidade pelo outro: diante da morte, Jesus não encerra sua missão em si mesmo, mas cria uma nova relação de cuidado e pertencimento, fazendo da mãe e do discípulo uma comunidade de responsabilidade mútua. Essa cena confronta diretamente as teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso, bem como toda forma de fé transformada em mercadoria, espetáculo, status ou instrumento de poder, porque, aos pés da cruz, não há triunfo baseado em privilégios, riqueza ou domínio, mas entrega, vulnerabilidade, cuidado e comunhão. Maria e o discípulo amado tornam-se, assim, testemunhas de uma fé que não precisa exibir poder para ser verdadeira, pois sua força se manifesta na capacidade de permanecer, cuidar e assumir responsabilidade pelo outro. Essa compreensão encontra ressonância na tradição patrística: Santo Irineu, ao desenvolver sua teologia da recapitulação, apresenta Cristo como aquele que recapitula e restaura a humanidade, permitindo compreender a fidelidade de Maria dentro desse movimento de restituição e reconciliação que alcança toda a criação; Orígenes, ao contemplar Maria junto à cruz, reconhece na profundidade de seu sofrimento a manifestação de um amor que permanece fiel e de uma obediência que participa do mistério pelo qual Deus faz nascer vida onde a humanidade enxerga apenas fracasso e morte; São João Crisóstomo, ao destacar a responsabilidade assumida pelo discípulo amado, permite perceber que a salvação cristã não se reduz a uma experiência individual, mas se concretiza em relações de comunhão e responsabilidade; Santo Ambrósio, ao associar Maria à figura da nova Eva e ao novo Éden, ajuda a compreender como, na tradição cristã, a fidelidade daquela que permanece junto ao Filho participa simbolicamente da passagem da antiga humanidade ferida para uma esperança renovada; e Tertuliano, ao enfatizar a dimensão comunitária da vida cristã, contribui para perceber no cuidado mútuo entre Maria e o discípulo uma antecipação da vocação da Igreja como corpo unido, solidário e responsável por seus membros. Assim, junto à cruz, Maria não representa simplesmente uma mãe mergulhada na dor, mas a mulher que permanece quando muitos se afastam, guarda a memória quando a violência parece querer apagar a esperança e testemunha, por sua presença, que a fidelidade cristã não se mede pelo poder que se ostenta, pelo espaço que se ocupa ou pelo reconhecimento que se recebe, mas pela capacidade de permanecer junto dos vulneráveis, assumir responsabilidades e transformar o sofrimento compartilhado em solidariedade, esperança e compromisso com a vida.

A presença de Maria ao pé da cruz revela a força das mulheres na preservação da memória, da fé e da tradição cristã, sobretudo porque sua permanência silenciosa junto ao Crucificado contrasta com estruturas de poder que, ao longo da história, procuraram reduzir ou silenciar a voz e a participação feminina na comunidade. Em João 19,25-27, Maria não aparece como espectadora passiva da morte do Filho, mas como aquela que permanece quando o projeto de Jesus parece humanamente derrotado, e é precisamente nessa permanência que sua fidelidade adquire densidade teológica e profética. Ao lado dela está o discípulo amado, cuja presença expressa a responsabilidade de acolher, cuidar e assumir vínculos novos diante da ruptura provocada pela cruz. Nesse sentido, a cena joanina não pode ser reduzida a uma experiência exclusivamente devocional, pois manifesta uma comunidade que nasce do próprio drama da cruz, fundada não no poder, no prestígio ou na posse, mas na relação, no cuidado e na responsabilidade pelo outro. A tradição da Igreja reconhece em Maria um modelo de fé, esperança e caridade: a Lumen Gentium apresenta sua peregrinação de fé em profunda união com o mistério de Cristo, enquanto a Redemptoris Mater contempla sua participação singular no sofrimento e na missão do Filho, mostrando que sua maternidade se abre, pela graça, à comunidade dos discípulos. Essa perspectiva confronta diretamente toda forma de religiosidade que transforma o Evangelho em promessa de riqueza, dominação, sucesso individual ou reconhecimento social, pois a lógica da cruz revela precisamente o contrário: Deus se manifesta no serviço, na entrega, na solidariedade e na defesa da vida ameaçada. O testemunho de Maria, portanto, coloca em crise uma fé reduzida à prosperidade ou ao individualismo e também questiona o clericalismo quando este converte ministério em status, autoridade em privilégio e comunidade em espaço de exclusão, pois, como insiste o magistério do Papa Francisco, a Igreja é chamada a crescer mediante uma cultura do encontro, do serviço humilde, da proximidade e da corresponsabilidade de todos os batizados. Essa perspectiva encontra profundas raízes nas Escrituras de Israel, onde os profetas denunciam continuamente a injustiça e recordam que Deus não permanece indiferente diante da opressão dos pobres e vulneráveis: Amós confronta uma religião separada da justiça; Oséias denuncia a ruptura da aliança e convoca à fidelidade: 

  •  Joel anuncia a ação de Deus em meio às crises do povo.
  • Habacuque interroga o silêncio diante da violência.
  • Sofonias aponta para o remanescente humilde que confia no Senhor.
  • Naum, em seu contexto histórico particular, proclama o juízo contra a violência imperial. 
  • Jeremias 31,31-34 anuncia a nova aliança inscrita no coração.
  • Ezequiel 36,25-27 fala da purificação e da renovação interior mediante um coração novo e um espírito novo, temas que encontram sua plenitude cristológica na nova aliança estabelecida por Cristo. 
A literatura sapiencial, por sua vez, acrescenta à reflexão a importância do discernimento, da prudência, da paciência e do temor do Senhor, mostrando que a verdadeira sabedoria não consiste na acumulação de poder ou bens, mas na capacidade de reconhecer o sentido da existência diante de Deus. No Novo Testamento, a trajetória de Maria é marcada por essa mesma tensão entre promessa e sofrimento: 

  • Simeão anuncia, em Lucas 2,34-35, que uma espada traspassará sua alma.
  • Mateus 2,13-18 apresenta a fuga para o Egito e o massacre dos inocentes, situando a família de Jesus dentro da realidade histórica da violência e da perseguição.
  •  Atos 1,14 encontra Maria reunida com os discípulos em oração, não isolada, mas inserida na comunidade que aguarda o Espírito. 
Assim, aquela que esteve junto à cruz também permanece junto à Igreja nascente, atravessando o sofrimento e participando da esperança de uma nova comunidade. As  epístolas aprofundam essa compreensão ao afirmar:

  • Romanos 8,35-39, que nenhuma tribulação, sofrimento, perseguição ou morte pode separar os que vivem em Cristo do amor de Deus.
  • 1Coríntios 12,12-27 apresenta a Igreja como um corpo no qual cada membro possui dignidade e responsabilidade, de modo que a dor de um repercute em todos e a vida de cada pessoa não pode ser compreendida isoladamente. 
  • Hebreus 12,1-2 ao convocar os fiéis à perseverança, coloca diante deles a multidão das testemunhas e orienta o olhar para Jesus, aquele que percorreu até o fim o caminho da cruz.
  • Filipenses 2,5-11 apresenta a lógica da kenosis, isto é, do esvaziamento e da humildade de Cristo. Essa lógica que ilumina também a compreensão da fidelidade de Maria, não como exercício de poder, mas como disponibilidade diante de Deus.
  • Colossenses 1,24-27 insere o sofrimento dos membros da comunidade no horizonte do corpo de Cristo, embora seja necessário compreendê-lo não como se o sofrimento humano acrescentasse algo à eficácia salvífica da cruz, mas como participação histórica e comunitária na missão de Cristo. 
No horizonte escatológico, Apocalipse 12 apresenta a mulher revestida de sol dentro de uma linguagem simbólica complexa, relacionada à comunidade do povo de Deus e posteriormente também interpretada pela tradição cristã em chave mariana, enquanto Apocalipse 21,3 conduz a narrativa à sua consumação: “Eis a tenda de Deus com os seres humanos”. Nesse horizonte, Maria pode ser contemplada, na tradição cristã, como sinal da humanidade acolhida por Deus e como figura da Igreja peregrina que espera a plenitude da comunhão, mas sem perder de vista que a promessa escatológica ultrapassa qualquer identificação individual e alcança toda a criação reconciliada. Dessa maneira, a memória de Nossa Senhora das Dores não celebra simplesmente uma mulher que sofreu, mas contempla, à luz da fé cristã, uma discípula que permaneceu quando muitos fugiram, uma mãe que atravessou a violência sem transformar a dor em ódio e uma testemunha cuja fidelidade aponta para a esperança. A Boa Nova de Jesus Cristo, portanto, não se realiza na exibição religiosa, no lucro, na dominação, no clericalismo, na busca de prestígio ou numa fé individualista desconectada da realidade, mas na fidelidade concreta, na presença junto aos crucificados da história, na defesa da dignidade humana, no cuidado com os vulneráveis e na comunhão capaz de atravessar gerações. Maria das Dores permanece, assim, como sinal de uma esperança que não ignora o sofrimento nem o romantiza, mas o atravessa sem abandonar o amor; e o discípulo amado aparece como modelo daquele que acolhe a responsabilidade de cuidar, mostrando que a verdadeira herança da promessa não se mede por riquezas, poder ou reconhecimento, mas pela capacidade de permanecer junto de quem sofre, assumir o outro como irmão e transformar a fidelidade em prática concreta de amor, justiça e comunhão, até que a promessa alcance sua plenitude, quando Deus fará morada definitiva entre seu povo e “a morte não existirá mais” (Ap 21,3-4).

A união entre o antigo e o novo povo, entre o sofrimento e a promessa, entre mãe e filho, revela que a história da salvação não é uma sucessão fragmentada de acontecimentos, mas uma realidade contínua, relacional e profundamente humana, na qual os fiéis de ontem e de hoje se encontram diante da cruz e são chamados a viver a fidelidade não como ritual vazio ou mera observância religiosa, mas como prática concreta capaz de transformar a vida e as relações. Nesse horizonte, João 19,25-27 nos conduz ao momento culminante da paixão de Cristo, no Calvário, quando Jesus, pregado à cruz, se aproxima da morte, e o evangelista, com particular sensibilidade teológica e narrativa, apresenta uma cena que se distingue dos relatos sinóticos pela atenção dada à presença das mulheres e, sobretudo, à relação entre Jesus, sua mãe e o discípulo amado. “Junto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.” Mais do que registrar simplesmente quem permanecia naquele lugar de sofrimento, João constrói uma cena carregada de significado, na qual a presença junto à cruz se transforma em testemunho de fidelidade, resistência e comunhão. Maria não aparece como espectadora distante da dor do Filho, mas como aquela que permanece, e essa permanência, em um contexto marcado pelo abandono, pela violência e pelo fracasso aparente da missão de Jesus, possui profundo valor teológico e antropológico: estar junto de quem sofre é uma forma concreta de amor, e permanecer quando seria mais fácil fugir constitui uma expressão de fidelidade que não depende de palavras grandiosas. Ao confiar sua mãe ao discípulo e o discípulo à sua mãe, Jesus também estabelece uma nova relação de cuidado e pertencimento, indicando que, diante da cruz, os vínculos humanos são recriados pela lógica do amor e da responsabilidade mútua. Assim, somos convidados a reconhecer nossas próprias cruzes e, ao mesmo tempo, a não ignorar as cruzes daqueles que sofrem ao nosso redor, compreendendo que cada gesto de cuidado, cada presença solidária, cada compromisso com quem foi ferido pela vida e cada permanência ao lado dos vulneráveis pode tornar-se participação concreta na missão de Cristo. A fé, portanto, não se reduz à contemplação da cruz como símbolo religioso nem à repetição de práticas devocionais, mas se manifesta na capacidade de permanecer junto dos que sofrem, defender a dignidade humana e transformar a compaixão em compromisso, porque o Evangelho que nasce aos pés da cruz não produz espectadores indiferentes, mas discípulos capazes de assumir a responsabilidade pelo outro.

Este detalhe já revela múltiplas dimensões teológicas e humanas: 

  • Maria não está sozinha, mas cercada por mulheres que representam a continuidade do antigo povo, a memória das promessas e uma fidelidade que não se deixa vencer pela dor. 
  • A presença dessas mulheres amplia o sentido da cena e mostra que o sofrimento diante da cruz não é uma experiência isolada, mas uma realidade compartilhada por aqueles que permanecem quando todas as certezas parecem desmoronar. 
  • Entre elas está Maria Madalena, discípula que acompanhou Jesus desde o início de seu ministério e cuja presença simboliza a perseverança daqueles que, mesmo diante do fracasso aparente da missão, não abandonam o caminho do Mestre, evocando a memória de mulheres do Antigo Testamento, como:  Ana, Débora e Abigail, cuja trajetória também testemunha fé, coragem, discernimento e esperança em meio às adversidades. 
É nesse ambiente de dor, fidelidade e comunhão que João apresenta o gesto de Jesus: “Vendo sua mãe e perto dela o discípulo a quem amava, disse à mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27). A declaração, embora simples em sua forma, possui extraordinária densidade teológica, pois, no momento extremo de sua morte, Jesus não se fecha em seu próprio sofrimento, mas continua atento às relações, estabelece uma nova responsabilidade de cuidado e cria entre sua mãe e o discípulo um vínculo que ultrapassa os limites da família biológica. Ao entregar Maria ao discípulo amado e, simultaneamente, confiar o discípulo à sua mãe, Jesus transforma uma relação marcada pela perda em uma relação fundada na acolhida, na responsabilidade e na comunhão, fazendo da cruz não apenas o lugar da morte, mas também o espaço onde nasce uma nova forma de pertencimento. Nesse gesto, a tradição cristã reconhece ainda uma dimensão eclesial: Maria é acolhida pela comunidade dos discípulos, enquanto o discípulo é chamado a acolhê-la, tornando-se sinal de uma Igreja cuja identidade não se sustenta no isolamento, no poder ou em vínculos meramente institucionais, mas na capacidade de cuidar, acolher e permanecer junto daqueles que sofrem. Assim, aos pés da cruz, a dor não destrói a comunidade; ao contrário, torna-se ocasião para o surgimento de novos vínculos, revelando que seguir Jesus implica assumir a responsabilidade pelo outro e compreender que a fé cristã só encontra sua autenticidade quando se transforma em presença, cuidado e solidariedade concreta.

O termo “mulher”, utilizado por Jesus, é carregado de profundo significado teológico e não deve ser compreendido como uma forma de tratamento distante ou impessoal, mas como uma expressão de respeito que insere Maria no horizonte simbólico da Escritura e a reconhece como mulher de fé, testemunha e participante ativa da história da salvação. No Evangelho de João, essa designação remete à linguagem bíblica na qual a mulher pode assumir uma dimensão representativa do povo de Deus, da comunidade fiel que permanece firme diante da provação e encontra seu cumprimento no mistério pascal de Cristo. Aos pés da cruz: 

  • Maria não aparece apenas como mãe biológica do Crucificado, mas como aquela que permanece fiel no momento em que muitos abandonaram o Mestre, tornando-se sinal da fidelidade do povo da aliança. 
  • O discípulo amado, por sua vez, não é apresentado somente em sua identidade individual, mas como figura do discípulo que acolhe Jesus pela fé e permanece unido a ele até o fim; por isso, ao receber Maria como sua mãe, ele representa a comunidade dos discípulos que nasce do acontecimento da cruz e é chamada a acolher, preservar e transmitir a fé. 
O gesto de Jesus, portanto, ultrapassa uma simples preocupação filial e adquire dimensão eclesial e simbólica: a mulher e o discípulo são colocados numa relação de pertencimento, cuidado e comunhão que aponta para a nova aliança inaugurada pela entrega de Cristo. Nesse sentido, Maria torna-se sinal da continuidade entre a promessa e seu cumprimento, entre a história de Israel e a comunidade reunida em torno do Ressuscitado, enquanto o discípulo assume a responsabilidade de acolher essa herança e transformá-la em vida comunitária. O gesto possui, assim, um caráter profundamente profético, pois antecipa uma das dimensões fundamentais da missão da Igreja: acolher, cuidar, proteger, educar na fé, preservar a memória do Evangelho e construir relações de comunhão nas quais ninguém seja abandonado diante da dor, da fragilidade ou da cruz. 

João descreve a cena de João 19,25-27  com extraordinária economia de palavras, mas cada elemento narrativo carrega profundo significado simbólico: a presença junto à cruz expressa proximidade, fidelidade e perseverança, enquanto a ordem das personagens: primeiro Maria, depois o discípulo amado, revelando uma intencionalidade teológica que coloca a Mãe de Jesus no centro desse momento decisivo. O evangelista não descreve diretamente o sofrimento físico ou emocional de Maria, mas sua dor está profundamente implícita na contemplação silenciosa do Filho crucificado, e sua presença não assume a forma de uma atitude passiva ou meramente resignada; ao contrário, ela permanece de pé, firme na fé, na fidelidade e na adesão ao desígnio de Deus. À luz de Lucas 2,35, a espada que haveria de atravessar sua alma encontra aqui uma de suas expressões mais dramáticas: diante da cruz, Maria experimenta no próprio coração o cumprimento doloroso da missão de Jesus, mas não abandona o caminho quando a promessa parece atravessar a noite do sofrimento. Sua permanência junto ao Crucificado manifesta, assim, a fé do remanescente fiel de Israel, aquele que conserva a esperança e permanece obediente mesmo quando as circunstâncias parecem contradizer as promessas de Deus. Nesse sentido, Maria torna-se modelo de uma fé madura, que não depende de triunfos imediatos, de recompensas ou de respostas fáceis, mas permanece comprometida com Deus também diante do fracasso aparente, da injustiça e da morte. A cena alcança ainda uma dimensão comunitária decisiva quando Jesus estabelece entre sua mãe e o discípulo uma nova relação de cuidado e responsabilidade: “Mulher, eis aí teu filho”; “Eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27). A cruz, portanto, não produz isolamento, mas inaugura vínculos; no momento em que a violência tenta romper relações, Jesus cria uma comunidade fundada na acolhida, na responsabilidade e no cuidado mútuo. Por isso, João 19,25-27 também contém uma crítica implícita a toda compreensão deformada da fé que transforma a religião em mercadoria, instrumento de poder, espetáculo ou mecanismo de autopromoção, bem como ao individualismo que busca salvação para si enquanto permanece indiferente à dor do outro. Aos pés da cruz, não há espaço para uma espiritualidade baseada na lógica da prosperidade, do prestígio ou da dominação, porque o Crucificado revela que a verdadeira salvação passa pela entrega, pela solidariedade e pela comunhão. Maria e o discípulo permanecem juntos diante daquele que sofre, e Jesus transforma essa presença em compromisso concreto de cuidado; desse modo, a comunidade cristã é chamada a compreender que seguir o Evangelho não significa fugir das feridas da história, mas permanecer junto dos crucificados de cada tempo, reconhecendo que a fé autêntica se verifica não apenas naquilo que se proclama diante de Deus, mas também na maneira como se permanece ao lado daqueles que sofrem.

João 19,25-27 nos conduz ao coração do mistério da cruz e revela, na presença de Maria junto ao Filho crucificado, a força de uma fé que não abandona a vida quando ela é atravessada pela dor, pela violência e pela aparente derrota. Maria permanece de pé junto à cruz, não como alguém que compreende plenamente o sentido do sofrimento, mas como aquela que, mesmo ferida, recusa-se a fugir, a negar a realidade ou a permitir que a desesperança tenha a última palavra; sua presença silenciosa torna-se uma forma de resistência e testemunho diante da morte. O discípulo amado, por sua vez, representa a dimensão relacional da existência humana, pois Jesus, no momento extremo, estabelece entre sua mãe e o discípulo uma nova responsabilidade de cuidado: “Mulher, eis o teu filho”; “Eis a tua mãe”. A cruz, portanto, não produz isolamento, mas inaugura uma comunidade fundada na acolhida, na responsabilidade e na solidariedade. Historicamente, a presença das mulheres junto à crucificação também confronta a lógica de uma sociedade marcada por estruturas patriarcais, pois são elas que aparecem como testemunhas da morte de Jesus e, na tradição cristã, como guardiãs da memória da paixão, da morte e da ressurreição, sustentando a continuidade da fé quando muitos dos discípulos haviam desaparecido. O evangelho não transforma essa presença em mero detalhe narrativo: coloca-a no centro da revelação, mostrando que aqueles que permanecem junto aos crucificados da história participam de maneira decisiva da construção da memória e da esperança. Por isso, João 19,25-27 não pode ser reduzido a uma cena de afeto familiar; trata-se de uma profunda catequese sobre o modo como o amor cristão se concretiza quando a vida é ameaçada, sobre como a fé se manifesta quando as palavras já não são suficientes e sobre como a comunidade nasce quando pessoas diferentes assumem umas pelas outras uma responsabilidade que não pode ser delegada. Maria junto à cruz também nos confronta com uma espiritualidade que não procura Deus apenas nos espaços de triunfo, segurança e sucesso, mas é capaz de reconhecê-lo no território doloroso onde estão os crucificados, os esquecidos, os pobres, os abandonados e todos aqueles cuja dignidade é ferida pela injustiça. Há, portanto, uma dimensão profética nessa cena: permanecer junto à cruz significa não normalizar o sofrimento humano, não transformar a dor dos outros em estatística, não utilizar a religião para justificar a indiferença e não construir uma fé que fala muito de Deus, mas permanece distante daqueles que clamam por justiça, acolhimento e dignidade. A presença de Maria denuncia, silenciosamente, toda religiosidade que prefere a aparência da devoção à responsabilidade concreta com a vida, todo clericalismo que concentra poder enquanto mantém os vulneráveis à margem e toda espiritualidade desencarnada que contempla a cruz de longe, sem se comprometer com os crucificados de hoje. Ao entregar Maria ao discípulo e o discípulo a Maria, Jesus aponta para uma comunidade na qual ninguém pertence apenas a si mesmo, porque a fé cria vínculos, responsabilidades e compromisso com o outro. A verdadeira comunidade cristã não se reconhece apenas por seus discursos, seus ritos ou suas estruturas, mas pela capacidade de acolher os feridos, proteger os vulneráveis, ouvir aqueles que foram silenciados e permanecer ao lado de quem atravessa a noite da existência. Por isso, contemplar Maria ao pé da cruz é deixar-se interpelar por uma pergunta que continua atual: onde estamos quando alguém sofre? De que lado permanecemos quando a injustiça se torna conveniente, quando os poderosos tentam silenciar os frágeis e quando a dor alheia deixa de provocar nossa consciência? A cena do Calvário desloca a fé do campo das palavras para o território da responsabilidade e nos recorda que seguir Jesus não significa apenas professar uma doutrina, mas assumir uma maneira de viver na qual o sofrimento do outro jamais pode ser tratado como problema alheio. Maria permanece, o discípulo acolhe, e dessa permanência nasce uma nova relação; assim, a cruz não encerra a história, mas transforma a dor em compromisso, o lamento em esperança e a perda em responsabilidade compartilhada. João 19,25-27 nos chama, portanto, a uma fé encarnada, comunitária e profética, capaz de permanecer quando seria mais fácil fugir, de cuidar quando seria mais cômodo ignorar e de levantar a voz quando a injustiça pretende transformar o sofrimento em silêncio. A Boa Nova só se torna verdadeiramente visível quando a memória da cruz se transforma em prática de solidariedade e quando aqueles que se dizem discípulos de Jesus aprendem a reconhecer, acolher e defender a dignidade dos crucificados do nosso tempo. Permanecer junto à cruz é, enfim, escolher a vida, assumir o compromisso com o outro e testemunhar que nenhuma estrutura de poder, nenhuma violência e nenhuma noite da história terá a palavra definitiva, porque a fidelidade de Deus continua abrindo caminhos de esperança onde o mundo insiste em anunciar apenas derrota.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Marcos 6, 17-29 - Martírio de São João Batista

 
A memória do martírio de João Batista, narrada em Marcos 6,17-29  texto apresenta uma narrativa que atravessa o tempo, tornando-se paradigmática para a compreensão do destino dos profetas e para a reflexão sobre o discipulado de Jesus. A cena do banquete de Herodes, em contraste com a ceia do Reino que Jesus prepara, é um retrato histórico e simbólico das tensões entre poder e verdade, aparência e essência, vaidade e profecia. Herodes reconhecia em João um “homem justo e santo” (Mc 6,20), mas, dominado pelo medo de perder sua imagem diante dos convidados e pela pressão de sua esposa Herodíades, preferiu sacrificar a vida do profeta em nome da vaidade e da manutenção de sua própria autoridade. Trata-se de uma cena que revela como a lógica do poder se sobrepõe à dignidade da vida quando a verdade incomoda os poderosos.

Nos paralelos sinóticos, Mateus 14,1-12 reforça a mesma tensão, acentuando a figura de Herodíades como motor da intriga, enquanto Lucas 9,7-9 mostra Herodes intrigado com Jesus, confundindo-o com João Batista ressuscitado ou com Elias. Essa confusão não é casual, mas indica que a voz profética não se cala mesmo quando silenciada pela violência: “a palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2,9). O destino de João antecipa o de Jesus, que também será entregue por covardia política e pressão social. O evangelista Marcos, ao narrar a morte de João em meio a um banquete de aparências, prepara o leitor para compreender que a cruz de Cristo é a resposta ao sistema de morte que devora os profetas.

A tradição bíblica nos mostra que João Batista é o último elo de uma corrente profética que atravessa o Antigo Testamento. O paralelo com Elias é explícito: em 2 Reis 1,8, Elias é descrito como “um homem vestido de pelos, com um cinto de couro em torno dos rins”, descrição que Marcos retoma em 1,6 para apresentar João. Jesus mesmo reconhece essa identidade simbólica: “Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como está escrito a seu respeito” (Mc 9,13). Elias enfrentou Acab e Jezabel denunciando a idolatria e a injustiça social, e João enfrenta Herodes e Herodíades denunciando o adultério e a corrupção do poder. Ambos representam a fidelidade a Deus em meio à perseguição, ambos incomodam o poder estabelecido, ambos são sinais de que o Espírito de Deus não se curva diante das estruturas humanas. A antropologia religiosa mostra como as figuras proféticas encarnam a alteridade radical, sendo estranhas ao sistema porque denunciam suas contradições. A psicologia das massas também ajuda a compreender como líderes frágeis como Herodes, para manter o favor social, se deixam levar por manipulações, ainda que em seu íntimo reconheçam a verdade do profeta.

O episódio do martírio de João tem também uma profunda dimensão sociológica: mostra a tensão entre poder político e religioso, entre a busca de prestígio e a verdade. Herodes, representante de um poder dependente de Roma, é retratado como um governante sem autonomia, frágil, escravo das aparências. A execução de João, realizada para satisfazer um pedido num banquete, demonstra como as estruturas políticas, sociais e religiosas podem transformar a vida humana em moeda de troca. É nesse sentido que a crítica à teologia da prosperidade, do domínio e do individualismo se torna necessária: elas reproduzem, no campo religioso, a mesma lógica que Herodes encarnava — usar a fé como instrumento de autopromoção, manipulação e poder, em vez de como caminho de libertação.

O magistério da Igreja tem sido firme na denúncia dessas distorções. A Evangelii Gaudium (n. 55) recorda que a idolatria do dinheiro e do poder cria uma “economia da exclusão” que sacrifica vidas humanas, exatamente como no banquete de Herodes. A Gaudium et Spes (n. 27) afirma que “tudo quanto atenta contra a vida, como o homicídio, o genocídio, o aborto, a eutanásia, bem como qualquer violação da dignidade humana, desonra profundamente o Criador”. João foi morto por se opor a um sistema de morte que reduzia a vida a capricho de conveniência. Hoje, a teologia da prosperidade e do domínio faz algo semelhante ao pregar que vidas valem pelo sucesso ou pelo poder que conquistam, esquecendo a lógica da cruz e da solidariedade.

Os Padres da Igreja também se detiveram neste episódio. Orígenes via no martírio de João um sinal de que a verdade não pode ser aprisionada pelos homens, ainda que a voz profética seja calada fisicamente. Santo Agostinho, em seus sermões, lembrava que João não apenas anunciou Cristo, mas seguiu o mesmo caminho de perseguição, tornando-se modelo para os discípulos de todos os tempos. A patrística, nesse sentido, interpreta a morte do Batista como antecipação da Páscoa de Jesus, porque revela que a verdade provoca perseguição e que a justiça exige coragem até o extremo testemunho.

Do ponto de vista filosófico, a cena questiona a ética do poder. Herodes é o retrato do homem dividido, dilacerado entre a consciência do justo e a pressão social, entre a verdade interior e o desejo de agradar. Hannah Arendt diria que sua covardia é expressão da banalidade do mal: não foi por convicção, mas por fraqueza, que mandou matar. A psicologia social revela como a necessidade de aprovação pode gerar cumplicidade com a injustiça. Esse retrato ecoa em nossos dias, quando governantes e líderes religiosos se deixam levar por conveniências, silenciam diante da corrupção ou sacrificam a vida dos pobres em nome de alianças políticas.

A crítica ao clericalismo também se impõe. Se Herodes representa a política corrompida, Herodíades encarna a manipulação, e a corte simboliza o círculo de bajuladores, hoje vemos setores eclesiais que se comportam de maneira semelhante, alimentando a vaidade, buscando aplausos e perseguindo profetas que denunciam os escândalos de poder e abuso dentro da própria Igreja. A Fratelli Tutti (n. 115) nos adverte contra as formas de fechamento e de idolatria do poder que destroem a fraternidade. João, por sua vez, nos convida a permanecer na verdade sem medo, mesmo que isso custe a perseguição.

A história confirma que a lógica do martírio acompanha todos os que ousam denunciar as injustiças. Desde Elias até João, de Jesus até os mártires da Igreja primitiva, de Santo Oscar Romero até tantas vítimas de regimes autoritários, a verdade exige sangue. A antropologia da religião mostra como o martírio se torna um “memorial perigoso”, no sentido de que recorda sempre a tensão entre o poder e a verdade, entre o Reino de Deus e os reinos humanos. A Igreja, ao celebrar o martírio de João Batista, não exalta a violência sofrida, mas proclama que a última palavra pertence à fidelidade de Deus e não ao poder dos homens.

Por isso, celebrar João Batista é pedir coragem profética em nosso tempo. É reconhecer que a verdade não pode ser negociada, que a justiça não pode ser relativizada, que a fé não é mercadoria nem espetáculo. É assumir, como discípulos de Cristo, que a perseguição não é sinal de fracasso, mas de fidelidade. É fazer ecoar nas ruas de hoje a mesma voz que clamava no deserto: “Preparai o caminho do Senhor” (Mc 1,3). Assim como Elias enfrentou Jezabel, assim como João enfrentou Herodíades, assim como Jesus enfrentou Pilatos e o Sinédrio, somos chamados a enfrentar as estruturas de injustiça e de mentira, ainda que isso custe nossa tranquilidade e nossa vida.

O martírio de João Batista permanece um espelho profético para nossa geração. Ele nos recorda que o Reino de Deus não se constrói com banquetes de vaidade, mas com a entrega generosa da vida. Ele nos desafia a não sermos Herodes, covardes diante da verdade, nem Herodíades, manipuladores por interesse, nem convidados de banquete, indiferentes à injustiça. Ele nos chama a ser discípulos que permanecem fiéis até o fim, porque “felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,10)

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 19, 3-12.

Na sexta-feira da 19ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar, a liturgia nos apresenta o evangelho de Mateus 19,3-12, sendo a continuação  do  texto do dia anterior que, além de integrar o caminho de Jesus rumo a Jerusalém, é central para celebrações matrimoniais e catequeses sobre a vida familiar. É neste contexto que os fariseus, movidos não por sincera busca de sabedoria, mas com intenção de armadilha, perguntam se é lícito ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo. A pergunta, aparentemente simples, traz consigo camadas de complexidade: polarizada entre as escolas de Hillel e Shammai, refletia tensões jurídicas, sociais e políticas do judaísmo do século I. Qualquer resposta poderia colocar Jesus em conflito com as autoridades e a opinião pública. Já vemos ressonâncias dessa tensão no episódio de João Batista denunciando o casamento ilícito de Herodes (cf. Mt 14,3-4), mostrando que a questão do divórcio era mais do que legal: era instrumento de controle moral e poder social.

Jesus, contudo, não se deixa aprisionar pelo legalismo ou pelas armadilhas farisaicas. Ele retorna ao princípio criador: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?” (Gn 1,27). E continua: “Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Ao evocar Gênesis, Jesus desloca o centro da discussão da exceção legal para o projeto divino: a união conjugal não é um mero contrato ou formalidade social, mas aliança indissolúvel, reflexo da fidelidade de Deus. Nos paralelos sinóticos, vemos Marcos 10,2-12 reforçar a reciprocidade, aplicando a exigência também ao homem, enquanto Lucas, de forma mais concisa (Lc 16,18), sublinha a radicalidade da fidelidade. A expressão “uma só carne” transcende a união física: aponta para comunhão de vida, entrega mútua e compromisso que se enraíza no amor-ágape, no qual cada cônjuge busca o bem do outro.

Historicamente, a prática do repúdio favorecia o homem e deixava a mulher vulnerável, marginalizada social, econômica e religiosamente. A resposta de Jesus, portanto, não é apenas teológica, mas contracultural e profética: denuncia sistemas patriarcais injustos e qualquer lógica que transforme pessoas em objetos descartáveis. Essa denúncia mantém-se atual diante das teologias da prosperidade e do domínio, que instrumentalizam a fé para lucro e poder; do individualismo que rompe compromissos em nome de felicidade desvinculada de responsabilidade; e da fé-mercadoria, que transforma sacramentos e relações humanas em produtos de consumo. Jesus propõe um amor que é radical, fecundo e resistente a qualquer lógica de interesse ou utilidade, lembrando que o amor verdadeiro exige entrega, compromisso e doação total.

A profundidade desse ensinamento se revela também nas dimensões antropológicas e psicológicas. A indissolubilidade do matrimônio não aprisiona, mas promove liberdade madura: a verdadeira liberdade não é ausência de vínculos, mas a escolha consciente de permanecer no amor mesmo diante de provas e dificuldades. Santo Agostinho, com sua profundidade mística, afirmava: “Ama e faz o que quiseres”, mostrando que o amor verdadeiro orienta todas as decisões para o bem do outro. São João Crisóstomo via no lar cristão uma “pequena Igreja”, onde marido e esposa se santificam mutuamente, educam os filhos e constroem comunidades que testemunham a graça de Deus. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (48-52), reforça que o matrimônio é vocação de amor e serviço à vida, e não mero contrato civil, e o Papa Francisco, na Amoris Laetitia (n. 87-88, 170-171), enfatiza que a fidelidade conjugal é dom que sustenta, mesmo nas fragilidades e crises da vida cotidiana.

Do ponto de vista exegético, a “cláusula de exceção” de Mateus (“salvo motivo de fornicação”) exige cuidado hermenêutico. O termo grego porneia refere-se a uniões proibidas à luz da Lei (cf. Lv 18), e não autoriza o divórcio por adultério de forma simplista. Jesus não flexibiliza a aliança: ele a radicaliza, chamando à fidelidade plena e à consciência moral, lembrando que a verdadeira entrega é inseparável da responsabilidade e do cuidado pelo outro.

Reconhecendo que essa exigência pode parecer dura, Jesus introduz também o celibato “por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,12). Dessa forma, tanto o matrimônio quanto a vida consagrada se apresentam como dons escatológicos, antecipações do banquete eterno (cf. Ap 19,7; Ap 21,4), revelando que o amor verdadeiro é íntegro, fecundo e total. A Igreja é chamada, nesse horizonte, a cuidar das famílias feridas, a orientar sem esmagar e a proclamar a verdade sem condenar, seguindo o exemplo de Cristo, que veio “cheio de graça e verdade” (Jo 1,14).

O evangelho desta sexta-feira da 19ª semana do Tempo Comum,  não se limita a denunciar infidelidades conjugais: ele convoca à fidelidade social e eclesial. Denuncia líderes que promovem um evangelho de lucro, clericalismo que manipula o povo e mercantilização da liturgia e dos sacramentos. O amor que Jesus propõe deve ser vivido em todas as relações humanas, sustentando lares, comunidades e sociedade, resistindo à fragmentação e à cultura do descarte. É um amor que resiste à lógica do mercado, à instrumentalização das pessoas e ao domínio sobre o outro. O texto também nos oferece imagens poéticas e simbólicas que ajudam a interiorizar o mistério do amor conjugal: o matrimônio como árvore de raízes profundas, capaz de resistir às tempestades; o amor como rio que sustenta e dá vida; a fidelidade como fogo que aquece sem consumir, constante e vivo. Essas imagens permitem perceber que o evangelho não é apenas norma ou lei, mas convite à vida plena, experiência de comunhão e antecipação do Reino.

Mateus 19,3-12 nos conduz muito além de uma discussão sobre casamento, separação ou divórcio. Ao retornar ao princípio da criação, Jesus desloca a pergunta dos fariseus;   “é permitido?”,   para uma questão muito mais profunda: que tipo de relação Deus deseja que construamos? “Os dois serão uma só carne” não fala apenas de união física, mas de comunhão, responsabilidade, reciprocidade e cuidado. O outro não é propriedade, objeto de conveniência ou alguém que pode ser simplesmente descartado..Por isso, a palavra de Jesus continua profética diante de uma sociedade marcada pelo individualismo e pela cultura do descarte. O amor cristão não pode ser reduzido ao sentimento passageiro nem à satisfação dos próprios interesses. É compromisso, presença, cuidado e responsabilidade. Mas essa fidelidade jamais pode ser utilizada para justificar violência, abuso ou opressão. Defender a aliança significa também defender a dignidade daqueles que carregam feridas, porque o Evangelho não pode ser transformado em instrumento de condenação.

Essa palavra também alcança a própria Igreja. Não é possível proclamar fidelidade no matrimônio e, ao mesmo tempo, tolerar clericalismo, abuso de poder, manipulação da consciência ou mercantilização da fé. A fidelidade que Jesus pede precisa atravessar todas as relações humanas. O amor que sustenta uma família deve também sustentar uma comunidade; o amor que rejeita a lógica da posse deve rejeitar igualmente toda forma de dominação. No horizonte do Reino, tanto o matrimônio quanto o celibato podem tornar-se caminhos de entrega e serviço. A existência humana encontra sua verdadeira fecundidade quando deixa de perguntar apenas “o que receberei?” e começa a perguntar “o que posso oferecer?”. É essa passagem do interesse para o dom, da posse para a comunhão e do individualismo para a responsabilidade que torna o amor um sinal do Reino de Deus. Assim, o Evangelho nos convida a construir relações com raízes profundas, capazes de atravessar tempestades sem perder a esperança. A Igreja é chamada a anunciar a verdade sem esmagar, acompanhar sem abandonar e acolher sem transformar a misericórdia em relativismo. Porque o amor de Cristo não descarta, não domina e não transforma pessoas em mercadoria: ele cuida, permanece, transforma e dá vida.

E caminhamos para aquele dia anunciado pelo Apocalipse, quando o amor encontrará sua plenitude e “não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem dor” (Ap 21,4). Então compreenderemos plenamente que toda verdadeira fidelidade vivida na história era apenas um sinal daquela comunhão definitiva para a qual Deus conduz a humanidade.  Essa perícope  também, nos convida a viver e testemunhar o amor radical de Cristo, tanto na vida conjugal quanto na vida comunitária. É chamado a amar com compromisso total, a resistir às injustiças sociais e eclesiais, e a construir um mundo onde a fidelidade, o cuidado mútuo e a entrega sincera se tornam sinais proféticos do Reino de Deus. No final, participaremos do banquete eterno, onde não haverá lágrimas, separações ou morte, mas apenas o abraço definitivo do Esposo (Cristo) com sua Esposa( Igreja), a plena comunhão de amor que transcende o tempo e revela a eternidade de Deus.

DNonato -Teólogo do Cotidiano