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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo XXXV

 
O Inverno da Alma e a Promessa de um Amor Sem Muros  essa é  uma  das visões  que a canção  Nikita  de Elton John  nos inspira para construirmos esse texto.

Todos nós erguemos muros. Mas não somos os únicos a carregar pedras: aqueles que amamos também levantam suas barreiras, silenciosas, invisíveis, intocáveis — uma arquitetura fria do adeus. Nikita não é apenas a guarda distante na fronteira de uma canção de Elton John; ela é a metáfora viva, a carne pulsante de todos aqueles que perdemos não para a morte, mas para o silêncio opaco, para o medo covarde, para as escolhas intransponíveis que não pudemos compartilhar. Ao som daquela melodia, somos tragados não só para o coração gelado da Guerra Fria, mas para o inverno profundo de nossas próprias almas, quando alguém que nos era o ar fechou a porta com um estrondo mudo, erguendo paredes que o amor, mesmo com toda a sua força, não conseguiu atravessar.

O peito se inunda com a memória ácida da saudade — lembrança lancinante de quem foi nosso chão, nosso porto em tempestade, nosso calor de fogueira na madrugada mais fria. Alguém que partiu sem fazer barulho, que se calou por dentro, que se escondeu atrás de barreiras que só existem na geografia da alma. Nikita, como essa pessoa, é a lembrança que arde: um rosto que ainda sentimos na pele como a brisa do verão que não volta, um riso que ecoa em um corredor vazio da memória, um perfume que insiste em nos visitar sem bater à porta. É a presença que, por mais distante, se recusa à rendição, à extinção total.

Existem dores que não vêm da ausência física, mas da impossibilidade desesperada de alcançar o centro do outro. Quantas vezes seguramos uma mão e sentimos que, por dentro, já havia uma muralha erguida até o céu? Quantas vezes sorrimos ao lado do ser amado e, mesmo assim, não conseguimos a chave de sua casa interior? Nikita é o espelho que nos devolve essa verdade: a dor não vem apenas da neve gelada, mas do silêncio que se agiganta, do olhar que chora sem se entregar, do amor que insiste em não nos deixar entrar, em nos manter do lado de fora da vida.

Este muro da alma não se restringe à história ou à política. Ele se manifesta no mais profundo do imaginário. É o Hades de onde jamais retornamos com aqueles que amamos de verdade; é a muralha que separa a utopia da Terra Sem Males dos povos Guarani; é o portão que Exu, em sua ambiguidade, pode abrir e tantas vezes mantém trancado; é o muro invisível que proíbe o toque na Terra Prometida, como a visão dolorosa de Moisés, que só pôde contemplá-la de longe. Cada cultura carrega em seu sangue a ciência de que há limites dilacerantes, fronteiras que não se cruzam no tempo desta vida, ausências que se cravam na eternidade.

E como não pensar no Muro das Lamentações, em Jerusalém? Um dia, ele foi o alicerce do grande Templo, o epicentro do encontro com o Sagrado, da comunhão plena. Hoje é apenas um fragmento teimoso, pedra sobre pedra, testemunho de uma glória que foi e de uma dor que permanece. Ali, entre lágrimas salgadas e súplicas sussurradas, a humanidade recorda: mesmo que o templo desabe em ruínas, a esperança de reconstrução resiste. O amor é isso: um templo que desmorona, que perde todas as paredes de segurança, mas que deixa de pé um único fragmento resistente, diante do qual nos ajoelhamos para chorar, rezar e recordar. E assim, como o povo diante daquele muro sagrado, encostamos a testa na aspereza da saudade, pedindo, em um silêncio que grita, que o amor perdido se transforme na promessa visceral de um reencontro.

Recordamos aquela intimidade voraz que parecia invencível e que agora reside do outro lado de uma fronteira intransponível. A cama sem o calor exato, a mesa sem a melodia do riso certo, a noite sem o abraço-escudo, o coração sem o retorno definitivo. É um luto que não se permite o encerramento, porque não houve adeus completo, porque ainda escutamos, na câmara mais íntima do peito, a voz que não voltará.

Mas mesmo diante desses muros de sofrimento, nós amamos. Amamos em silêncio obstinado, em resistência teimosa. Amamos mesmo sem a reciprocidade esperada, mesmo quando a ausência é a única herança que nos resta. Amar, neste campo de batalha, é carregar no peito uma chama que se recusa à cinza. É o ato político de resistir ao esquecimento. É o mantra sagrado de não permitir que o rancor se torne nossa própria e derradeira muralha.

E nós acreditamos, com uma fé que move montanhas, que os muros caem. Caíram os de concreto armado, como o de Berlim, que parecia a cicatriz eterna do mundo, mas sucumbiu diante da coragem e da esperança indomável de um povo que se recusou à separação. Assim também caem, ainda que no ritmo lento da eternidade, os muros da alma. Talvez não no tempo apressado da história, mas no tempo amplo da eternidade. Talvez não neste lado da vida, mas no outro, onde a promessa é que não haverá mais lágrimas nem despedidas.

Nikita se torna, para sempre, a metáfora sublime e dolorosa de todos aqueles que amamos sem conseguir alcançar. A saudade, essa presença que pesa em nosso corpo, é a lembrança viva de que o amor verdadeiro resiste ao cerco, sobrevive às fronteiras mais sombrias, e carrega em seu DNA a promessa indestrutível de que toda muralha, cedo ou tarde, ruirá. E quando isso acontecer, assim como o Muro de Berlim se abriu em pedaços, os muros que nos separam do outro também ruirão, e o amor, livre e sem ferrolhos, florescerá em sua plenitude sem limites.

Amar é a travessia audaciosa da história, do mito, do silêncio e da distância. Amar é manter acesa a memória sagrada daqueles que nos tocaram profundamente, mesmo que não possamos tocá-los de volta. Amar é, enfim, a certeza nua de que nenhum muro é absoluto, que nenhuma barreira é eterna, e que, na grande tapeçaria do universo, todo amor verdadeiro encontra, por fim, o seu caminho — seja através da coragem que move, da esperança que sustenta ou da própria eternidade que o consagra.

Porque, no fundo, Nikita não é apenas uma história geopolítica de Guerra Fria. Nikita é cada rosto amado que se fez saudade dilacerante, cada coração que fechou as suas portas, cada olhar que nos negou a entrada. E o que nos resta, o nosso único e mais poderoso ato de resistência, é amar — apesar do frio, apesar da distância, apesar de tudo. Amar, com a certeza inabalável de que, um dia, toda muralha se desfará, e o amor florescerá, pleno, sem fronteiras, sem muros, sem ausências.

DNonato - ainda do outro  lado do muro 

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A Questão do sentimento e o Respeito por si mesmo 


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 19, 3-12.

Na sexta-feira da 19ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar, a liturgia nos apresenta o evangelho de Mateus 19,3-12, um texto que, além de integrar o caminho de Jesus rumo a Jerusalém, é central para celebrações matrimoniais e catequeses sobre a vida familiar. É neste contexto que os fariseus, movidos não por sincera busca de sabedoria, mas com intenção de armadilha, perguntam se é lícito ao homem despedir sua mulher por qualquer motivo. A pergunta, aparentemente simples, traz consigo camadas de complexidade: polarizada entre as escolas de Hillel e Shammai, refletia tensões jurídicas, sociais e políticas do judaísmo do século I. Qualquer resposta poderia colocar Jesus em conflito com as autoridades e a opinião pública. Já vemos ressonâncias dessa tensão no episódio de João Batista denunciando o casamento ilícito de Herodes (cf. Mt 14,3-4), mostrando que a questão do divórcio era mais do que legal: era instrumento de controle moral e poder social.

Jesus, contudo, não se deixa aprisionar pelo legalismo ou pelas armadilhas farisaicas. Ele retorna ao princípio criador: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?” (Gn 1,27). E continua: “Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24). Ao evocar Gênesis, Jesus desloca o centro da discussão da exceção legal para o projeto divino: a união conjugal não é um mero contrato ou formalidade social, mas aliança indissolúvel, reflexo da fidelidade de Deus. Nos paralelos sinóticos, vemos Marcos 10,2-12 reforçar a reciprocidade, aplicando a exigência também ao homem, enquanto Lucas, de forma mais concisa (Lc 16,18), sublinha a radicalidade da fidelidade. A expressão “uma só carne” transcende a união física: aponta para comunhão de vida, entrega mútua e compromisso que se enraíza no amor-ágape, no qual cada cônjuge busca o bem do outro.

Historicamente, a prática do repúdio favorecia o homem e deixava a mulher vulnerável, marginalizada social, econômica e religiosamente. A resposta de Jesus, portanto, não é apenas teológica, mas contracultural e profética: denuncia sistemas patriarcais injustos e qualquer lógica que transforme pessoas em objetos descartáveis. Essa denúncia mantém-se atual diante das teologias da prosperidade e do domínio, que instrumentalizam a fé para lucro e poder; do individualismo que rompe compromissos em nome de felicidade desvinculada de responsabilidade; e da fé-mercadoria, que transforma sacramentos e relações humanas em produtos de consumo. Jesus propõe um amor que é radical, fecundo e resistente a qualquer lógica de interesse ou utilidade, lembrando que o amor verdadeiro exige entrega, compromisso e doação total.

A profundidade desse ensinamento se revela também nas dimensões antropológicas e psicológicas. A indissolubilidade do matrimônio não aprisiona, mas promove liberdade madura: a verdadeira liberdade não é ausência de vínculos, mas a escolha consciente de permanecer no amor mesmo diante de provas e dificuldades. Santo Agostinho, com sua profundidade mística, afirmava: “Ama e faz o que quiseres”, mostrando que o amor verdadeiro orienta todas as decisões para o bem do outro. São João Crisóstomo via no lar cristão uma “pequena Igreja”, onde marido e esposa se santificam mutuamente, educam os filhos e constroem comunidades que testemunham a graça de Deus. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (48-52), reforça que o matrimônio é vocação de amor e serviço à vida, e não mero contrato civil, e o Papa Francisco, na Amoris Laetitia (n. 87-88, 170-171), enfatiza que a fidelidade conjugal é dom que sustenta, mesmo nas fragilidades e crises da vida cotidiana.

Do ponto de vista exegético, a “cláusula de exceção” de Mateus (“salvo motivo de fornicação”) exige cuidado hermenêutico. O termo grego porneia refere-se a uniões proibidas à luz da Lei (cf. Lv 18), e não autoriza o divórcio por adultério de forma simplista. Jesus não flexibiliza a aliança: ele a radicaliza, chamando à fidelidade plena e à consciência moral, lembrando que a verdadeira entrega é inseparável da responsabilidade e do cuidado pelo outro.

Reconhecendo que essa exigência pode parecer dura, Jesus introduz também o celibato “por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,12). Dessa forma, tanto o matrimônio quanto a vida consagrada se apresentam como dons escatológicos, antecipações do banquete eterno (cf. Ap 19,7; Ap 21,4), revelando que o amor verdadeiro é íntegro, fecundo e total. A Igreja é chamada, nesse horizonte, a cuidar das famílias feridas, a orientar sem esmagar e a proclamar a verdade sem condenar, seguindo o exemplo de Cristo, que veio “cheio de graça e verdade” (Jo 1,14).

O evangelho desta sexta-feira da 19ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar não se limita a denunciar infidelidades conjugais: ele convoca à fidelidade social e eclesial. Denuncia líderes que promovem um evangelho de lucro, clericalismo que manipula o povo e mercantilização da liturgia e dos sacramentos. O amor que Jesus propõe deve ser vivido em todas as relações humanas, sustentando lares, comunidades e sociedade, resistindo à fragmentação e à cultura do descarte. É um amor que resiste à lógica do mercado, à instrumentalização das pessoas e ao domínio sobre o outro.

Além disso, o texto nos oferece imagens poéticas e simbólicas que ajudam a interiorizar o mistério do amor conjugal: o matrimônio como árvore de raízes profundas, capaz de resistir às tempestades; o amor como rio que sustenta e dá vida; a fidelidade como fogo que aquece sem consumir, constante e vivo. Essas imagens permitem perceber que o evangelho não é apenas norma ou lei, mas convite à vida plena, experiência de comunhão e antecipação do Reino.

Assim, a leitura litúrgica, catequética e contemplativa deste evangelho nos convida a viver e testemunhar o amor radical de Cristo, tanto na vida conjugal quanto na vida comunitária. É chamado a amar com compromisso total, a resistir às injustiças sociais e eclesiais, e a construir um mundo onde a fidelidade, o cuidado mútuo e a entrega sincera se tornam sinais proféticos do Reino de Deus. No final, participaremos do banquete eterno, onde não haverá lágrimas, separações ou morte, mas apenas o abraço definitivo do Esposo com sua Esposa, a plena comunhão de amor que transcende o tempo e revela a eternidade de Deus.

DNonato -Teólogo do Cotidiano