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terça-feira, 14 de abril de 2026

Um.breve olhar sobre João 3,16-21

A  perícope de João 3,16-21, proclamada na quarta-feira da segunda semana da Páscoa, deve ser compreendida em profunda continuidade com o texto proclamado no dia anterior, quando a liturgia apresenta João 3,7b-15  semdo a continuação  da se segunda-feira  João  3, 1-8   Essa unidade não é apenas temática, mas estrutural e teológica. O diálogo com Nicodemos, iniciado na noite de Jerusalém (João 3,1-2), se desdobra progressivamente, passando da incompreensão inicial ao anúncio explícito do mistério da salvação. A Igreja, ao distribuir esse texto em dois dias consecutivos no tempo pascal, convida a comunidade a percorrer um verdadeiro itinerário catequético, que vai do chamado ao novo nascimento até a revelação do amor salvífico de Deus manifestado no Filho. Esse mesmo conjunto aparece, com variações, no quarto domingo da Quaresma (João 3,14-21) e na Festa da Exaltação da Santa Cruz (João 3,13-17), mostrando que a tradição litúrgica lê esse texto sempre à luz do mistério pascal, onde cruz e ressurreição formam uma única realidade teológica.

Ao entrar nesse itinerário, torna-se necessário perceber que o encontro entre Jesus e Nicodemos não se limita a um diálogo pontual, mas expressa uma tensão estrutural entre dois modos de compreender a relação com Deus. Nicodemos, fariseu e membro do Sinédrio, representa uma tradição religiosa profundamente enraizada na Lei, na identidade coletiva e na mediação institucional. No contexto do primeiro século, essa estrutura não era apenas religiosa, mas também social e política, funcionando como elemento de organização do povo sob a dominação romana, conforme se pode intuir em João 11,48. A religião, nesse cenário, corre o risco de se tornar instrumento de estabilidade e controle, mais preocupada com a manutenção de uma ordem do que com a abertura ao agir surpreendente de Deus. O encontro com Jesus, portanto, não é apenas espiritual, mas também profundamente crítico, pois desestabiliza uma lógica consolidada.

A noite em que Nicodemos se aproxima de Jesus revela mais do que prudência; ela expressa uma condição existencial. A noite, no Evangelho de João, é o espaço da busca ainda não iluminada, da fé que começa a se mover, mas que ainda carrega medo e ambiguidade. Em João 9,4, a noite aparece como limite da ação, e em João 11,10, como lugar de tropeço. No entanto, é também na noite que se inicia o caminho para a luz. Nicodemos encarna essa humanidade que, mesmo cercada por discursos religiosos, experimenta um vazio de sentido e se vê compelida a buscar algo mais profundo. Essa experiência ecoa na contemporaneidade, onde muitos vivem entre pertença religiosa e inquietação interior, marcados por uma espiritualidade fragmentada.

A exigência de nascer do alto introduzida por Jesus não é um convite a melhorar o que já existe, mas a permitir que algo radicalmente novo aconteça. O nascimento, enquanto símbolo, aponta para origem, identidade e pertença. Em Gênesis 2,7, o ser humano recebe o sopro de Deus e se torna vivente, indicando que sua vida está enraizada no dom divino. Quando Jesus fala de nascer da água e do Espírito (João 3,5), ele retoma e amplia essa dinâmica criadora. A água, associada à purificação em Ezequiel 36,25, e o Espírito, como força recriadora presente em Gênesis 1,2, indicam uma transformação integral. Não se trata de uma mudança superficial, mas de uma recriação que atinge o centro da pessoa. Em 2 Coríntios 5,17, essa realidade é expressa como nova criação, e em Tiago 1,18, como geração pela palavra da verdade.

Essa nova condição não pode ser reduzida a uma experiência privada. Ela possui implicações sociais profundas, pois rompe com identidades construídas sobre exclusão e hierarquia. Em Gálatas 3,28, a nova vida em Cristo dissolve fronteiras que sustentavam desigualdades. O novo nascimento, portanto, inaugura uma humanidade reconciliada, onde a dignidade não é determinada por status, mas pelo amor de Deus. Essa dimensão desafia estruturas religiosas que perpetuam distinções e exclusões em nome da tradição.

A imagem do vento, ou do Espírito, aprofunda essa compreensão ao afirmar que o agir de Deus não pode ser controlado. O vento sopra onde quer (João 3,8), evocando a liberdade divina que se manifesta desde a criação até a história da salvação. Em Ezequiel 37,9-10, o sopro devolve vida ao que estava morto, e em Atos 2,1-4, inaugura uma comunidade nova, rompendo barreiras culturais e linguísticas. Esse símbolo confronta diretamente qualquer tentativa de instrumentalizar Deus, seja por estruturas religiosas, seja por interesses políticos. O Espírito não se submete a agendas humanas; ele desinstala, provoca e recria.

A referência à serpente levantada no deserto (Números 21,8-9) introduz uma chave hermenêutica decisiva. O povo, ferido pelo veneno, encontra cura ao olhar para o sinal levantado. Esse gesto implica reconhecimento da própria condição e abertura à ação de Deus. Em Sabedoria 16,6-7, fica claro que não era o objeto que salvava, mas o próprio Deus. Jesus retoma esse símbolo e o ressignifica ao aplicá-lo à sua própria elevação. A cruz torna-se, assim, lugar de revelação do amor e da vida. Em João 12,32, a elevação atrai todos, indicando que a cruz possui uma dimensão universal. O que era sinal de morte torna-se sinal de vida, revelando uma lógica que subverte as expectativas humanas de poder.

Ao alcançar João 3,16-21, o texto revela o fundamento último de todo esse movimento: o amor de Deus. Esse amor não é abstrato nem seletivo; ele se dirige ao mundo, entendido em sua complexidade e contradição. O mundo, que em João pode significar resistência a Deus (João 15,18-19), é precisamente o objeto desse amor. Em Romanos 5,8, Deus demonstra seu amor ao entregar o Filho quando ainda éramos pecadores. Essa gratuidade desmonta qualquer lógica meritocrática e revela um Deus que toma a iniciativa.

A entrega do Filho manifesta uma lógica de doação radical, em consonância com Filipenses 2,6-8, onde Cristo se esvazia. Esse esvaziamento redefine o conceito de poder, afastando-o da dominação e aproximando-o do serviço. Em Marcos 10,45, o Filho do Homem vem para servir e dar a vida. Essa lógica confronta diretamente estruturas que utilizam a religião para legitimar poder e controle, revelando a incoerência de uma fé que não se traduz em serviço.

A vida eterna, apresentada como finalidade dessa entrega, não é apenas futura, mas presente. Em João 17,3, ela é definida como conhecimento de Deus, não no sentido intelectual, mas relacional. A fé, portanto, é adesão existencial, confiança que reorienta a vida. Em Hebreus 11,1, ela é fundamento da esperança, e em Habacuque 2,4, caminho de vida.

A afirmação de que Deus não enviou o Filho para condenar o mundo (João 3,17) corrige imagens distorcidas de Deus e revela sua intenção salvífica universal, como também se expressa em 1 Timóteo 2,4. No entanto, o juízo não desaparece; ele se desloca para a resposta humana à luz. A luz, símbolo central, aparece desde João 1,4-5 como princípio de vida e revelação. Em Gênesis 1,3, ela inaugura a criação.

A oposição entre luz e trevas em João 3,19-21 revela não apenas uma realidade moral, mas uma dinâmica existencial e social. As trevas podem ser compreendidas como estruturas de pecado, sistemas que se sustentam na injustiça e na ocultação. Em Efésios 5,11-13, essas obras devem ser denunciadas. A preferência pelas trevas revela medo da verdade, apego a privilégios e resistência à transformação. Em João 12,42-43, muitos não confessam a fé por medo das consequências.

A luz, ao contrário, revela e transforma. Aproximar-se dela implica aceitar a verdade sobre si e sobre o mundo. Em Hebreus 4,13, tudo está exposto diante de Deus. Essa revelação possui um caráter profundamente profético, pois desmascara não apenas o indivíduo, mas também estruturas sociais injustas. Em Isaías 5,20, a inversão de valores é denunciada, e em Amós 5,12, a opressão é confrontada.

A expressão “praticar a verdade” (João 3,21) sintetiza essa integração entre fé e vida. Não se trata apenas de conhecer, mas de viver. Em Tiago 1,22, somos chamados a ser praticantes da palavra, e em Miqueias 6,8, a prática da justiça, da misericórdia e da humildade define a verdadeira fidelidade. Essa prática possui implicações concretas na vida social, especialmente no compromisso com os mais vulneráveis.

Nesse ponto, a tradição da Igreja na América Latina ilumina a compreensão do texto ao insistir que a fé autêntica se expressa na opção pelos pobres, em sintonia com Lucas 4,18-19 e Mateus 25,31-46. O amor de Deus não pode ser reduzido a experiência intimista; ele exige compromisso com a dignidade humana. A luz do Evangelho, portanto, não apenas consola, mas também incomoda, questiona e convoca à transformação.

A crítica à instrumentalização da religião torna-se inevitável. Quando a fé é utilizada para legitimar projetos de poder, para sustentar desigualdades ou para manipular consciências, ela se distancia do Evangelho. Em Mateus 23, Jesus denuncia uma religiosidade que se preocupa com aparência, mas negligencia a justiça. Em 2 Pedro 2,1-3, há advertência contra aqueles que exploram a fé para benefício próprio. Essas advertências permanecem atuais diante de formas contemporâneas de distorção religiosa, incluindo a teologia da prosperidade e alianças com ideologias que negam o Evangelho.

Do ponto de vista existencial, a resistência à luz pode ser compreendida como medo de enfrentar a própria verdade. Jeremias 17,9 descreve o coração humano como complexo e difícil de compreender. A luz de Cristo, ao iluminar essa interioridade, convida a um processo de conversão que envolve coragem e humildade. Esse processo não é instantâneo, como mostra a trajetória de Nicodemos ao longo do Evangelho. Em João 7,50-52, ele aparece defendendo Jesus de forma tímida, e em João 19,39, participa do sepultamento, indicando um amadurecimento progressivo.

Esse percurso revela que a fé é caminho, não evento isolado. Da noite à luz, da dúvida à adesão, da estrutura à experiência, o ser humano é conduzido por um processo que envolve escuta, confronto e transformação. Esse caminho continua na história, em cada pessoa que se abre à luz e em cada comunidade que busca viver a verdade.

Assim, João 3,16-21, inserido nesse itinerário, não é apenas uma afirmação teológica, mas um chamado existencial e profético. Ele revela um Deus que ama radicalmente, que se entrega sem reservas e que chama à vida plena. Ao mesmo tempo, confronta cada pessoa e cada sociedade com a necessidade de escolher entre luz e trevas, entre verdade e ilusão, entre compromisso e acomodação. Essa escolha se manifesta na vida concreta, nas relações, nas estruturas e nas decisões que moldam a história, convidando a humanidade a caminhar na luz que vem de Deus e que continua a brilhar, mesmo em meio às sombras.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,43b-45

Ontem  como hoje o  povo  fica  maravilhado os sinais de Jesus, nesse  25º sábado do Tempo Comum o texto  de Lucas 9, 43b-45 que mostra os discípulos se calavam diante da sua palavra. De um lado, entusiasmo ruidoso; de outro, silêncio carregado de medo. Eis o contraste que atravessa o Evangelho deste sábado: o milagre é celebrado, mas o mistério da cruz permanece incompreendido. Lucas nos mostra que aplaudir os prodígios é mais fácil que escutar a profecia; seguir o espetáculo é mais confortável que entrar no caminho de Jerusalém.

Enquanto todos se admiravam com o que fazia, Jesus se volta para os seus e lhes diz: “O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens”. Este não é um anúncio isolado. Lucas já havia registrado um primeiro anúncio em 9,22: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Depois deste segundo, em 9,43b-45, ainda haverá um terceiro, em 18,31-34: “Tudo o que os profetas escreveram acerca do Filho do Homem se cumprirá. Será entregue, escarnecido, insultado, cuspido, açoitado e morto; mas ao terceiro dia ressuscitará”. O evangelista sublinha que “nada compreenderam dessas coisas; o sentido permanecia oculto para eles, e não entendiam o que dizia”.

Nos paralelos de Marcos e Mateus, essa progressão também aparece: primeiro em Marcos 8,31 e Mateus 16,21, logo após a confissão de Pedro em Cesareia; depois em Marcos 9,30-32 e Mateus 17,22-23; por fim, em Marcos 10,32-34 e Mateus 20,17-19. O quadro é nítido: Jesus repete, insiste, retoma, aprofunda. A pedagogia do Mestre não se reduz a um anúncio seco, mas a um caminho que acompanha a incompreensão dos discípulos. Em Marcos, eles “não entendiam e tinham medo de perguntar”. Em Mateus, “ficaram profundamente entristecidos”. Em Lucas, “não compreendiam porque o sentido lhes estava oculto”. Três nuances diferentes, mas uma mesma realidade: a cruz é sempre um escândalo difícil de assimilar.

Esses anúncios progressivos ecoam o Antigo Testamento. O primeiro, em Cesareia, lembra a rejeição dos profetas, sobretudo Jeremias, que experimenta a conspiração dos poderosos (Jr 18,18; 20,7-10). O segundo, no meio dos milagres, recorda o Servo Sofredor de Isaías (Is 50,4-7), que enfrenta a violência sem resistir. O terceiro, no caminho de Jerusalém, retoma o Salmo 22, em que o justo é escarnecido, cuspido, entregue às mãos de inimigos, mas confia que Deus não o abandonará. O conjunto mostra que a cruz não é acidente, mas cumprimento da Escritura: “Tudo o que os profetas escreveram se cumprirá” (Lc 18,31).

A dificuldade dos discípulos em compreender não é sinal apenas de fraqueza, mas expressão de um processo humano profundo. Do ponto de vista psicológico, o medo de perguntar pode ser entendido como mecanismo de defesa: não se formula em palavras aquilo que ameaça desestabilizar. Do ponto de vista antropológico, estamos diante do mistério da morte, experiência que as culturas elaboraram com mitos, ritos e símbolos, mas que sempre permanece como enigma último. Do ponto de vista espiritual, o não-entendimento faz parte da pedagogia divina: a fé não se impõe pela claridade imediata, mas amadurece na obscuridade. Dei Verbum recorda que a revelação é gradual, como luz que se acende aos poucos, até se plenificar em Cristo (DV 2).

Os Padres da Igreja nos ajudam a penetrar nesse mistério. Orígenes via no escândalo da cruz a chave para compreender toda a Escritura: sem o Cristo entregue, nada se explica. Gregório de Nissa reconhecia que o Filho, ao ser entregue, abraça plenamente a condição humana, inclusive a fragilidade de ser rejeitado. Tertuliano via no medo dos discípulos um espelho do cristão que hesita diante das exigências da fé, preferindo uma religião sem renúncia. Agostinho, por sua vez, recordava que a incompreensão dos apóstolos não era obstáculo para a graça, mas caminho: “crer é já começar a compreender”.

Essa leitura encontra eco imediato em Paulo. Aos coríntios ele escreve: “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós que somos salvos é poder de Deus” (1Cor 1,18). Os gregos buscavam sabedoria, os judeus sinais, mas a Igreja nascente proclamava um Messias crucificado: escândalo para uns, insensatez para outros, mas para os que creem, força e sabedoria divinas (1Cor 1,22-25). Na carta aos Filipenses, esse mistério se torna hino: “Cristo Jesus, sendo de condição divina, não considerou ser igual a Deus, mas esvaziou-se, tomando a forma de servo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-11). O anúncio da paixão, que os discípulos não compreendiam, é aqui interpretado como kenosis: o esvaziamento radical que se torna exaltação.

Se olharmos a realidade de hoje, percebemos que continuamos a preferir o aplauso dos sinais ao silêncio da cruz. Multiplicam-se pregadores que prometem prosperidade, poder, domínio, uma vida sem dor — teologias que transformam a fé em mercadoria e a esperança em contrato. Mas o Evangelho insiste em outro caminho: não o triunfo imediato, mas a entrega generosa. Evangelii Gaudium denuncia esse reducionismo, lembrando que a fé não é ideologia nem mercado, mas experiência de encontro com um Deus que se fez pobre (EG 93-97). Gaudium et Spes nos adverte que a grandeza humana se mede na capacidade de doar-se, não de dominar (GS 24). E Fratelli Tutti insiste: só há futuro quando reconhecemos o outro como irmão, não como inimigo a subjugar (FT 215).

A crítica se estende também ao clericalismo, essa tentação que transforma o ministério em privilégio, como se o discípulo estivesse acima da comunidade. Mas o Evangelho de hoje desmonta essa lógica: nem os mais próximos de Jesus compreendem de imediato; todos precisam aprender, inclusive os apóstolos. A Igreja não é dos que sabem, mas dos que escutam; não dos que possuem, mas dos que se deixam conduzir.

Podemos dizer  que  a fé como salto no absurdo, ato que atravessa o escândalo. Nietzsche denunciava a busca do poder travestido de religião, alerta que ainda ecoa diante das teologias do domínio. Hannah Arendt lembrava que a banalidade do mal se revela quando aceitamos passivamente a lógica da violência, como se a entrega de um inocente fosse natural. O Evangelho nos coloca diante desse dilema: aplaudir o espetáculo ou acompanhar o condenado?

A cena de Lucas termina sem resposta dos discípulos. Eles permanecem calados, entre a admiração do povo e o anúncio da entrega. Esse silêncio nos inquieta. Também nós muitas vezes preferimos não perguntar, não aprofundar, não nos comprometer. Preferimos aplaudir de longe a ação de Deus, sem nos deixar interpelar pela exigência da cruz.

Mas Jesus não se cala. Ele insiste: “O Filho do Homem vai ser entregue”. É o verbo da doação, do amor levado até o fim. E aqui a liturgia nos ajuda a compreender: este evangelho é proclamado no sábado da 25ª semana do Tempo Comum, quando a Igreja nos convida a entrar no mistério da cruz não como espectadores, mas como discípulos em formação. É também um anúncio que se repete em domingos e sextas-feiras da Quaresma, sempre como preparação para a Páscoa.

O povo aplaude, os discípulos se calam, Jesus caminha. A cena permanece aberta. E nós, onde estamos? Entre os que buscam sinais, entre os que têm medo de perguntar, ou entre os que ousam seguir com Ele até Jerusalém? A fé verdadeira não nasce no aplauso, mas na escuta; não se alimenta de promessas fáceis, mas do amor que se entrega; não floresce no medo, mas na coragem de perguntar e caminhar.

E assim, contemplamos o Cristo como semente que cai na terra, invisível, silenciosa, mas destinada a frutificar; como o cordeiro que caminha ao matadouro, sem protestar, sem artifício; como o servo sofredor que, em cada golpe, revela a fidelidade de Deus. Seguir Jesus não é buscar aplausos ou certezas imediatas, mas permitir que a Palavra transforme o coração, que o escândalo da cruz nos desperte, e que a esperança da ressurreição nos conduza. Eis o convite: caminhar, calados mas atentos, amando até o fim, até que a loucura da cruz se revele sabedoria e força para a vida.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,18-22

O evangelho  de Lucas 9, 18-22, proclamado na liturgia da Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum também   proclamado  no 12º Domingo do Tempo Comum do ciclo C até o versículo 24, toca o centro da fé cristã: a identidade de Jesus e a correção da falsa imagem que se pode ter do Messias. O contexto é marcante: Jesus está em oração, sozinho, e os discípulos estão com ele. Lucas sublinha constantemente a oração como lugar da revelação e do discernimento (cf. Lc 3,21; 6,12; 11,1). É nesse ambiente de recolhimento, onde a intimidade com o Pai se torna espaço de revelação, que Jesus interpela os discípulos: “Quem dizem as multidões que eu sou?”. A pergunta não é uma curiosidade, mas uma provocação pedagógica: confronta-os com o contraste entre a opinião popular e o chamado a reconhecer a verdade mais profunda.

As respostas soam variadas: João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou. Há ecos da expectativa judaica messiânica, enraizada em textos como Malaquias 3,23-24, que anuncia o retorno de Elias antes do dia do Senhor. Contudo, essas respostas revelam apenas fragmentos de verdade. Não tocam a essência. Por isso, Jesus vai além: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Aqui não basta repetir opiniões alheias, é preciso um posicionamento existencial. Pedro, porta-voz dos discípulos, confessa: “O Cristo de Deus”.

Mas Jesus imediatamente adverte com severidade: não anunciem isso publicamente. Por quê? Porque a noção de “Cristo” ou “Messias” estava impregnada de expectativas políticas, nacionalistas e triunfalistas. Era a esperança de um rei guerreiro que libertaria Israel do jugo romano, que restabeleceria a glória davídica e que implantaria o domínio do povo eleito sobre os demais. Essa mentalidade, que hoje poderíamos chamar de teologia da glória sem cruz, precisava ser desconstruída. Por isso, Jesus anuncia o caminho real do Messias: sofrer, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.

O paradoxo da cruz atravessa toda a tradição sinótica. Marcos (8,27-33) apresenta a mesma cena em Cesareia de Filipe, onde Pedro confessa Jesus como Messias, mas logo em seguida é repreendido por pensar segundo a lógica humana, e não de Deus. Mateus (16,13-20)  proclamado  no 21º Domingo do Tempo Comum,  também proclamado  até o versículo  19 no  dia dos Santos  Pedro e Paulo  ao narrar a mesma confissão, acrescenta a bem-aventurança de Pedro e a promessa das chaves do Reino, mas também não omite a advertência de que o Messias deve sofrer. Em todos os sinóticos, a confissão messiânica está imediatamente vinculada ao anúncio da paixão: não há Cristo sem cruz, não há glória sem entrega, não há ressurreição sem morte.

No coração desse relato, vale recordar os aspectos comuns e as diferenças nos sinóticos. Marcos (8,27-33) apresenta a cena em Cesareia de Filipe, com a mesma confissão de Pedro, mas ressalta de modo mais abrupto a incompreensão do discípulo, a ponto de Jesus repreendê-lo como “satanás” por pensar segundo os homens. Mateus (16,13-20), além de narrar a confissão, introduz a promessa das chaves e o papel de Pedro como fundamento visível da comunidade, revelando uma dimensão eclesial mais explícita, mas igualmente sem omitir a necessidade do Messias sofrer. Lucas (9,18-22), diferentemente, insere o episódio em clima de oração, sublinhando a centralidade do discernimento diante de Deus. Em todos, o eixo é o mesmo: confissão de fé e anúncio da paixão estão inseparavelmente unidos. A diferença está no acento teológico de cada evangelista — Marcos destaca o confronto entre messianismo humano e divino, Mateus ressalta a dimensão eclesial e a autoridade confiada, e Lucas ilumina a relação íntima de Jesus com o Pai como fonte de sua identidade. Ao mesmo tempo, o Evangelho de João, embora não narre essa cena da mesma forma, oferece sua própria maneira de revelar a identidade de Jesus: os sete grandes “Eu sou” (Jo 6,35; 8,12; 10,7.11; 11,25; 14,6; 15,1), que evocam o nome divino revelado a Moisés (Ex 3,14), tornam explícito aquilo que nos sinóticos aparece em forma de confissão. Assim, João apresenta de forma mais direta e teológica o que os sinóticos revelam de modo narrativo e pedagógico: Jesus é o Messias, mas um Messias que carrega a cruz e que é, ao mesmo tempo, o próprio “Eu sou” de Deus no meio da história humana.

Esse é o ponto onde a hermenêutica lucana se torna essencial. Lucas, ao destacar o momento de oração, recorda que a identidade de Jesus não se compreende pela lógica das massas, nem pela manipulação religiosa, mas no silêncio diante de Deus. A oração abre ao discernimento. A confissão verdadeira não nasce da propaganda nem da emoção das multidões, mas da experiência profunda do encontro com o Cristo que se doa.

Hoje, em nosso tempo, a pergunta de Jesus ecoa com ainda mais força: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Vivemos em meio a imagens distorcidas de Cristo. Para alguns, Ele é um ídolo da prosperidade, que garante sucesso financeiro e saúde plena, como se fosse um amuleto mágico. Essa leitura, chamada de teologia da prosperidade, transforma a fé em mercadoria, o Evangelho em empresa, e a cruz em decoração sem escândalo. Para outros, Jesus é apresentado como líder de um projeto de domínio, quase um general que legitima guerras, exclusões e ódio, usado por grupos políticos que se apropriam do cristianismo para justificar a extrema-direita e seus projetos de poder. Há ainda os que reduzem a fé a uma experiência individualista, descomprometida com a realidade social, um “Cristo privado” que consola apenas o eu e fecha os olhos para a dor dos outros.

Essas visões são denunciadas pelo próprio Jesus quando Ele insiste que o Messias deve sofrer e ser rejeitado. O Reino não se implanta pelo poder da espada, mas pela força do amor que se entrega. É nesse sentido que São Paulo fala da loucura da cruz (1Cor 1,18-25): o que para o mundo é fraqueza, em Deus é força; o que parece derrota, em Cristo é vitória.

Hoje como ontem  temos as  falsas imagens de Jesus se enraízam em contextos de manipulação religiosa e política. A fé é transformada em capital simbólico, negociada em palcos que mais parecem shows do que espaços de encontro com o mistério. A religião, quando colonizada pelo mercado, perde sua alma profética e se torna mecanismo de controle. A antropologia, por sua vez, lembra que toda sociedade projeta suas expectativas no sagrado, criando ídolos que confortam seus desejos. Mas a revelação cristã desconstrói essas projeções: Deus não cabe em nossos esquemas. O Messias não é o que esperamos, mas o que precisamos.

Muitos buscam em Jesus apenas uma compensação para suas carências, uma figura que responda a desejos imediatos. No entanto, o encontro autêntico com Cristo passa pela aceitação da própria vulnerabilidade e pelo enfrentamento do sofrimento. A cruz não é um castigo, mas o lugar onde o amor assume até as últimas consequências a condição humana. Nesse sentido, a fé amadurece quando deixa de ser infantil, baseada em recompensas, e se torna adesão responsável ao caminho de Jesus.

Lembrando que o problema da verdade não pode ser reduzido à opinião. Como dizia Sócrates, é preciso sair da doxa (opinião) e buscar a alétheia (verdade). A pergunta de Jesus “E vós, quem dizeis que eu sou?” não busca repetir o senso comum, mas conduzir a uma decisão pessoal e comunitária que exige compromisso. Heidegger lembraria que a verdade é desvelamento, revelação. Aqui, a revelação é o próprio Cristo que se dá, não como mito triunfalista, mas como realidade encarnada, ferida e ressuscitada.

Sabemos que o título de Messias era perigoso na época de Jesus. As autoridades religiosas e políticas viam nele uma ameaça. Por isso, a advertência de Jesus de não divulgar ainda sua identidade messiânica é um recurso pedagógico e estratégico. Ele não quer ser confundido com os messias nacionalistas que se levantaram em Israel, nem com líderes revolucionários que buscavam derrubar Roma pela violência. Seu projeto era radicalmente diferente: instaurar o Reino de Deus pela via da compaixão, do perdão e da entrega.

A patrística nos ajuda a aprofundar ainda mais essa compreensão. Santo Agostinho dizia que “Pedro confessou uma vez por todos, mas cada dia a Igreja confessa Cristo” (Sermão 295). Para ele, a confissão de Pedro é fundamento e também missão permanente: reconhecer Cristo não apenas com palavras, mas com a vida. Orígenes, ao comentar este evangelho, afirma que “dizer que Jesus é o Cristo não é suficiente, é preciso compreender que Ele é o Cristo crucificado” (Comentário a Mateus, XII). Já Santo Irineu recordava que o Cristo verdadeiro não é o fruto da imaginação humana, mas a plena revelação do Pai no Filho encarnado (Adversus Haereses).

O Magistério da Igreja reforça essa visão. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (n. 10), afirma que “o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”. Em Evangelii Gaudium (n. 93), o Papa Francisco denuncia o mundanismo espiritual que busca a glória humana em vez da glória de Deus, advertindo contra a tentação de transformar a fé em espetáculo ou em poder. E em Fratelli Tutti (n. 272), recorda que a verdadeira grandeza do cristão está em fazer-se próximo, como o Bom Samaritano, não em se colocar acima dos outros.

O clericalismo,  que foi denunciado pelo Papa Francisco como “um dos males mais graves que ameaça a Igreja” (Carta ao Povo de Deus, 2018), também é uma distorção desse evangelho. Quando padres, bispos ou líderes eclesiásticos se colocam como donos da fé, como se fossem os mediadores absolutos, caem na tentação de se fazerem messias paralelos. Mas o verdadeiro Cristo não é posse de ninguém: Ele é dom para todos, especialmente para os pobres e marginalizados.

Assim, diante de Lucas 9,18-22, somos convidados a rever nossas concepções de Messias. Não basta declarar que Jesus é o Cristo; é preciso reconhecer que Ele é o Cristo crucificado e ressuscitado, aquele que caminha na contramão das expectativas triunfalistas. O discípulo, por sua vez, não pode seguir outro caminho senão o da entrega. A pergunta de Jesus continua viva: “E tu, quem dizes que eu sou?”. Nossa resposta não pode ser apenas verbal, mas existencial. É preciso confessá-lo no compromisso com a justiça, na solidariedade com os pequenos, na luta contra toda forma de opressão, na recusa de transformar a fé em mercado, poder ou privilégio.

O evangelho de hoje, ao ser proclamado na sexta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, insere-se no ritmo do Tempo Comum, mas já aponta para a radicalidade do seguimento. A liturgia não nos deixa esquecer que cada Eucaristia é memória da cruz e da ressurreição, convite a participar da entrega de Cristo. Não é à toa que a confissão messiânica está vinculada à mesa do Senhor: confessar Cristo é também partilhar seu corpo entregue e seu sangue derramado.

Portanto, diante desse texto, nossa tarefa é dupla: desmontar as falsas imagens de Jesus e viver a verdadeira confissão de fé. Como Pedro, podemos dizer: “Tu és o Cristo de Deus”. Mas que nossas vidas digam também: “Tu és o Cristo que sofre, morre e ressuscita, e eu sigo teus passos, mesmo que isso me custe carregar minha própria cruz”. Esse é o único caminho que gera nova história, o único Messias que pode transformar a humanidade.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


sábado, 13 de setembro de 2025

Um olhar sobre João 3,13-17 - Festa da Exaltação da Santa Cruz

A festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada em 14 de setembro, é um mergulho no mistério paradoxal da fé cristã: aquilo que aos olhos do mundo parecia derrota, humilhação e fim, torna-se sinal de vitória, amor e vida plena, tem a seguinte liturgia: a   1ª leitura Números 21,4b-9;Salmo 77(78),1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c); a 2⁰ leitura Filipenses  2,6-11 e Evangelho  de  João 3,13-17 que iremos aprofundar

  • A primeira leitura (Nm 21,4b-9) recorda a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, pela qual o povo, ao olhar, era curado do veneno da serpente. É um anúncio simbólico: quem contempla com fé o Crucificado encontra salvação e cura para as feridas mais profundas da existência.
  • O hino de Filipenses (2,6-11) mostra a dinâmica da cruz: Cristo, sendo Deus, não se apegou a sua condição divina, mas esvaziou-se, assumindo nossa humanidade até a morte de cruz. Essa humilhação, porém, não é fracasso, mas caminho para a exaltação, pois é no amor radical e na entrega total que Deus manifesta sua glória.

A liturgia deste dia, portanto, não celebra o sofrimento em si, mas a transformação da cruz em fonte de esperança. Olhar para a Cruz é olhar para o amor extremo de Deus, que se faz frágil por nós e nos abre um horizonte de vida e ressurreição.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz, tem uma origem que remonta ao século IV, ligada à dedicação da Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, construída por ordem do imperador Constantino, após a descoberta da cruz por sua mãe, Helena. Não se trata de um culto à cruz como objeto material, mas da memória viva e celebrativa do mistério pascal: a cruz é exaltada porque nela Cristo não apenas sofreu, mas venceu o pecado e a morte, transformando o que era sinal de humilhação em fonte de vida nova. A liturgia deste dia proclama o Evangelho de João 3,13-17, passagem que coloca em palavras a síntese do amor de Deus: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Aqui, a cruz é interpretada não como derrota, mas como o ápice da revelação do amor, o momento em que Deus assume o abismo da dor humana e o transforma em caminho de salvação.

A liturgia usa este texto também no 4º Domingo da Quaresma, chamado Laetare, justamente como alento no meio do caminho penitencial, recordando que o centro da fé cristã não é a dor, mas a esperança que brota da entrega de Cristo. João apresenta a cena do diálogo com Nicodemos, um mestre da Lei que procura Jesus de noite, movido pelo desejo sincero de compreender, mas ao mesmo tempo cheio de receios. A noite em João é mais que uma referência temporal: é símbolo de incerteza, de ambiguidade, de busca entre sombras (Jo 3,2). Ali, Jesus evoca a serpente erguida por Moisés no deserto (Nm 21,4-9), quando o povo, mordido pelas serpentes, recebia a vida ao olhar para o sinal levantado. O paralelo é direto: “assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem deve ser levantado, para que todo o que nele crê tenha vida eterna” (Jo 3,14-15).

A cruz, portanto, é a nova serpente: sinal paradoxal, escândalo para uns, loucura para outros (1Cor 1,18), mas força de Deus para os que creem. Na carta aos Gálatas, Paulo insiste: “Quanto a mim, longe esteja gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). E aos Filipenses ele escreve: “Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou sobremaneira” (Fl 2,8-9). A exaltação da cruz já está inscrita no próprio movimento pascal: humilhação e glória se entrelaçam no mesmo mistério.

Nos sinóticos, a cena da crucifixão é relatada com intensidade. Marcos e Mateus sublinham o clamor de Jesus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46), ecoando o Salmo 22, que começa em tom de lamento, mas termina em confiança. Lucas nos dá outra chave, mostrando o crucificado que perdoa: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34) e que se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). João, por sua vez, mostra Jesus como quem reina do alto da cruz, entregando sua mãe ao discípulo amado (Jo 19,26-27) e consumando a missão: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). A cruz é o centro da revelação: nela se encontra a justiça do Servo sofredor de Isaías 53, que levou sobre si as nossas dores e foi traspassado por causa de nossas iniquidades. Toda cultura humana lida com símbolos de dor e superação. 

A cruz, no Império Romano, era o símbolo máximo da humilhação pública, reservado aos escravos e subversivos. Que um crucificado seja proclamado Filho de Deus é uma inversão radical da lógica social. Por isso Paulo escreve aos Coríntios: “Pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas para os que são chamados, força e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24). A sociologia da religião mostra que símbolos assim podem ser instrumentalizados: quantas vezes a cruz foi usada para legitimar conquistas coloniais, cruzadas, discursos nacionalistas e até práticas de exclusão? Mas o Cristo da cruz é aquele que se identifica com os pobres e pequenos (Mt 25,31-46), que se fez servo (Mc 10,45), que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58).

Hegel dizia que a cruz revela a reconciliação dos contrários: a morte gera vida, a finitude abre para o infinito. Nietzsche, por sua vez, via na cruz um símbolo de negação da vida. Mas a teologia cristã responde que, longe de negar a vida, a cruz é a afirmação plena de que nenhuma dor é inútil quando se torna oferta de amor. O próprio Jesus declarou: “Se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Para os Padres da Igreja, a cruz é árvore da vida. Santo Irineu já dizia: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”. São João Crisóstomo pregava: “A cruz é mais luminosa que o sol”. Santo Agostinho comentava: “A paixão de Cristo é suficiente para ser modelo de toda a vida” (In Ioannem, tr. 84).

O texto joanino nos convoca a romper com a visão mercantilizada da fé. A teologia da prosperidade reduz a cruz a um amuleto contra sofrimento, quando na verdade ela denuncia sistemas que geram dor. A teologia do domínio transforma a cruz em bandeira política, quando deveria ser memória da entrega gratuita. O individualismo a reduz a símbolo decorativo no peito, sem compromisso comunitário. A fé-mercadoria vende crucifixos caros, mas silencia diante dos crucificados de hoje: pobres, negros, indígenas, mulheres violentadas, jovens sem futuro, trabalhadores descartados. Mas a Escritura é clara: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O clericalismo também trai a cruz: quando o clero se coloca acima do povo, esquece que o Cristo da cruz lavou os pés dos discípulos (Jo 13,14-15) e se fez servo.

O Papa Francisco denunciou isso na  Evangelii Gaudium, ao afirmar que a Igreja deve ser “casa paterna onde há lugar para todos” (EG 47), e em Fratelli Tutti, quando chama à fraternidade que rompe exclusões: “Ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva” (FT 137). O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (63–66), recorda que o ser humano só se realiza no dom de si. A cruz toca também nossa dimensão interior. Carregar a cruz, no sentido evangélico, não é buscar sofrimento, mas aprender a lidar com nossas sombras, limites e perdas. É o convite à resiliência, à capacidade de transformar a dor em sentido, o luto em memória fecunda, a perda em solidariedade. O próprio Jesus, ao falar da cruz, convida a seguir com liberdade e entrega: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23).

A festa da Exaltação surgiu não como devoção intimista, mas como celebração pública da vitória do cristianismo sobre a perseguição. Mas, em tempos de cristandade, o risco foi usar a cruz como símbolo de poder político. Hoje, em tempos de neoliberalismo, a cruz pode ser reduzida a símbolo de mercado religioso. Daí a necessidade de recuperar seu sentido original: não objeto de ostentação, mas sinal do amor de Deus que se esvazia e se dá.

Os povos indígenas e africanos, ao se encontrarem com a cruz, reinterpretaram-na em chave de resistência: a cruz erguida em quilombos e aldeias não era símbolo de colonizador, mas sinal de esperança e força espiritual. A cruz, assim, pode ser ressignificada como símbolo de libertação, como eco da palavra de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Por tudo isso, a Festa da Exaltação da Santa Cruz é chamada a ser um ato de memória e profecia. Memória, porque nos recorda a raiz da fé, o amor incondicional de Deus que entrega o Filho. Profecia, porque denuncia todos os sistemas que ainda crucificam e conclama a Igreja a estar junto dos crucificados. Como dizia São Romero da América: “Se me matarem, ressuscitarei no povo”. A cruz é exatamente isso: morte e ressurreição, derrota e vitória, fragilidade e potência do amor.

Celebrar a Exaltação da Santa Cruz é entrar, com Nicodemos, no mistério que ultrapassa nossas certezas e deixar ressoar a pergunta: “Como pode ser isso?” (Jo 3,9). Jesus não oferece uma explicação abstrata, mas revela na própria entrega o caminho da vida nova: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16). Por isso, a cruz não pode permanecer como simples símbolo religioso, ornamento ou objeto de devoção; ela se torna critério de discernimento e modo de viver, porque nela contemplamos um Deus que não domina, não oprime nem se coloca acima dos outros, mas se entrega por amor e se aproxima dos que sofrem. Como proclama Paulo, “a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, é força de Deus” (1Cor 1,18); e o hino de Filipenses revela que essa força passa pela humildade de Cristo, que “esvaziou-se a si mesmo” e assumiu a condição de servo (Fl 2,6-11). Exaltar a Cruz, portanto, é permitir que ela nos desinstale, confronte nossas ambições, denuncie toda religião que busca poder, prestígio ou autorreferência e nos conduza ao serviço, à justiça, à compaixão e à defesa da vida, especialmente daqueles que permanecem feridos e esquecidos à margem. A Igreja só honra verdadeiramente a Cruz quando aceita deixar-se julgar por ela e, em vez de usá-la para se enfeitar ou legitimar privilégios, assume o caminho do Crucificado: descer ao encontro dos últimos, carregar com eles as dores da história e transformar a fé em compromisso concreto com o amor que salva.


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DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 16,24-28

O Evangelho de Mateus 16,24-28 integra a Liturgia da Palavra da sexta-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, também  é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum do Ano A, mostrando que o chamado ao discipulado não pertence a um tempo litúrgico específico, mas acompanha a caminhada permanente da Igreja. A mesma tradição é preservada pelos outros evangelhos sinóticos: Marcos 8,34–9,1 e Lucas 9,23-27, testemunhando que o convite de Jesus a renunciar a si mesmo, tomar a própria cruz e segui-lo ocupou um lugar central na catequese das primeiras comunidades cristãs. A presença dessa passagem nos três evangelhos revela que o seguimento de Cristo não é um tema secundário, mas um dos eixos fundamentais da identidade cristã. Diante desse consenso da tradição evangélica, a Palavra convida cada geração de discípulos a confrontar seus critérios de sucesso, poder e realização com os critérios do Reino de Deus, que inauguram uma nova maneira de compreender a vida, a liberdade,  a esperança e  o que intensifica seu caráter de discernimento e seguimento. Sua força está na ruptura que provoca, no corte que impõe e na libertação que oferece. Não se trata de uma fala decorativa ou inspiracional. É palavra-cruz: aquela que fere a superfície para alcançar o coração.

Mateus 16,24-28 só pode ser plenamente compreendido à luz da cena anterior, ocorrida em Cesareia de Filipe (Mt 16,13-23). É nesse contexto que Jesus dirige aos discípulos duas perguntas decisivas: "Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?" e, em seguida, "E vós, quem dizeis que eu sou?". Feitas em Cesareia de Filipe — região marcada pelo culto ao imperador César e a diversas divindades pagãs —, essas perguntas constituem uma profunda provocação. Jesus não busca confirmar sua popularidade nem recolher opiniões a seu respeito; ele confronta a lógica de um mundo que identifica glória com dominação, poder com prestígio e sucesso com força..A resposta de Pedro:  "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo",  é correta do ponto de vista da fé e nasce de uma revelação do Pai. Contudo, sua reação logo em seguida revela que ele ainda compreendia o messianismo segundo as expectativas humanas: um Messias glorioso, poderoso e imune ao sofrimento. Por isso, quando Jesus anuncia sua paixão, Pedro procura demovê-lo desse caminho. A resposta de Jesus é firme: "Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço" (Mt 16,23). A repreensão não é dirigida à pessoa de Pedro, mas à tentação de afastar o Messias do caminho da cruz e de reduzir o projeto de Deus aos critérios humanos de poder e triunfo.

Essa ambiguidade de Pedro revela nossa própria contradição: professamos a fé com os lábios, mas muitas vezes resistimos ao caminho que ela exige. Queremos um Cristo que nos livre da dor, e não aquele que caminha conosco por dentro dela. Desejamos uma fé que nos eleve acima das fragilidades, não uma que nos desça até o chão da humanidade. Mas Jesus é claro: seguir seus passos passa pela cruz. Não como punição ou moralismo, mas como travessia de entrega, de perda fecunda, de amor sem garantias. A cruz, neste evangelho, não é castigo nem romantização do sofrimento. É o lugar onde o amor se recusa a compactuar com a lógica do domínio. Onde a justiça não se vende ao poder. Onde a esperança se faz resistência. 

Como dizia Santo Agostinho, “a cruz era o leito nupcial onde Cristo desposou a humanidade” — não por força, mas por amor que se entrega até o fim. Essa entrega revela um Deus que se solidariza com os sofredores, não que os culpa ou os pune. A cruz, assim, é critério do Reino, e só pode ser compreendida por quem ama até o fim. Ela não é símbolo de derrota, mas de fidelidade radical ao bem, mesmo quando isso custa tudo. Esse caminho da cruz, porém, tem raízes profundas na história de Israel. O Servo Sofredor de Isaías (cf. Is 52,13–53,12) já anunciava essa forma subversiva de messianismo: não triunfante, mas solidário; não vingador, mas vulnerável. Jesus retoma essa tradição e a leva ao extremo. Ao contrário dos messias esperados por muitos, ele não toma o ppoder,  toma a cruz. Não subjuga inimigos — oferece a outra face. E ali, na rejeição e na dor, manifesta a face de Deus. É nesse mesmo horizonte que se movem os profetas, que não buscavam agradar, mas denunciar. Como Jeremias, que dizia: “Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir… a palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de vergonha e zombaria o dia inteiro” (Jr 20,7-8). O discipulado cristão, portanto, herda essa vocação profética de ir na contramão da lógica dominante — não por masoquismo, mas por fidelidade. 

Ao ser proclamado numa sexta-feira do Tempo Comum, este texto não apenas antecipa o escândalo da cruz pascal, mas nos recorda que a sexta-feira é sempre tempo de descer com Cristo às dores do mundo. E descer não com lamentos, mas com compaixão ativa. Pedro queria um Cristo que resolvesse, que evitasse a dor, que triunfasse rápido. Como muitos hoje, desejava um Messias funcional: para vencer eleições, legitimar impérios religiosos, garantir estabilidade. Também hoje há quem projete sobre Jesus o desejo de um messias gerencial, que administre a ordem e mantenha privilégios. É o Cristo do capital, da estabilidade a qualquer custo, da meritocracia disfarçada de bênção. Mas o Evangelho resiste a essa caricatura: o Crucificado não é coach nem CEO, é o servo sofredor que carrega a dor do outro nos ombros (cf. Is 53). Jesus desmascara essa tentação. A cruz, no seguimento cristão, não é uma metáfora, é um caminho. Um processo. Um critério.

E como recordou  o Papa Francisco, “a conversão pastoral exige que a Igreja saia de si mesma e vá ao encontro das periferias” (Evangelii Gaudium, n. 20). Na lógica da cruz, seguir Jesus é, portanto, deslocar-se da segurança da auto referência para o risco do amor encarnado, sempre pascal, sempre pascal. O Concílio Vaticano II também reconhece que o ser humano não se realiza plenamente senão pelo dom sincero de si mesmo (cf. Gaudium et Spes, n. 24). E o dom sincero de si passa, necessariamente, pela experiência de esvaziamento, de compaixão concreta e de resistência amorosa às estruturas de injustiça.

Por isso, o seguimento não acontece nos discursos inflamados, mas nos passos que abraçam os últimos. Não nos shows de fé, mas nas escolhas cotidianas de fidelidade, perdão e justiça. E isso, sim, é conversão. É no cuidado das feridas da cidade, no abraço ao pobre, na escuta ao aflito, que o discipulado se torna visível. É ali, onde o mundo despreza, que o Reino se insinua. A cruz não é adereço nem slogan. É praxis pascal. Corpo entregue. Vida fecunda. Esperança que não cede ao cinismo.

Na liturgia da Palavra deste dia,  seja no 22º Domingo do Tempo Comum, seja na sexta-feira da 18ª semana do Tempo Comum, a Igreja nos oferece um espelho:

  •  Que tipo de messias buscamos? 
  • Que tipo de discípulo estamos dispostos a ser? 

A resposta não está no que dizemos com a boca, mas no que carregamos com o coração. Porque a fé, sem cruz, vira performance e a cruz, sem amor, vira opressão.

A cruz, quando assumida com ternura e fidelidade ao Evangelho, torna-se o sinal da Páscoa acontecendo em nós. Ela deixa de ser instrumento de morte para transformar-se em caminho de vida, porque, em Cristo, o amor mostrou-se mais forte que o pecado, a violência e a morte (cf. Rm 8,35-39). Não há ressurreição verdadeira sem o compromisso amoroso com as dores que continuam crucificando os pequenos, os pobres, os esquecidos e todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. A Páscoa não nos afasta do sofrimento humano; ao contrário, envia-nos ao encontro dele com a compaixão do próprio Cristo. Não há discipulado autêntico sem corpo entregue, sem vida repartida, sem esperança que sangra, mas insiste em florescer. Foi esse o caminho percorrido por Jesus: "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13,1). Segui-lo significa aprender que a lógica do Reino não é a do acúmulo, mas a da partilha; não a da força que domina, mas a do amor que serve (cf. Mc 10,42-45). A cruz, portanto, não glorifica o sofrimento; glorifica o amor que permanece fiel mesmo quando tudo parece perdido. É somente perdendo-nos no Cristo que se entrega que seremos encontrados na Vida que não se explica pelos critérios do mundo, mas se revela na gratuidade de Deus. Como ensina o próprio Jesus: "Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará" (Mt 16,25). A verdadeira vida nasce quando deixamos de viver apenas para nós mesmos e nos tornamos dom para os outros. A cruz é o lugar onde Deus nos espera, não para nos condenar, mas para nos transformar. É ali que o orgulho cede lugar à humildade, a indiferença se converte em misericórdia, o medo dá espaço à confiança e o egoísmo aprende a linguagem da comunhão. O madeiro da cruz torna-se, assim, a árvore da vida, anunciada desde o Gênesis e plenamente revelada no mistério pascal de Cristo. Onde os olhos humanos enxergam fracasso, Deus faz brotar a esperança; onde o mundo contempla apenas ruínas, o Espírito Santo faz germinar uma nova criação (cf. 2Cor 5,17).

Por isso, a ressurreição não começa apenas na manhã do terceiro dia. Ela começa sempre que o amor vence o ódio, o perdão rompe o ciclo da vingança, a justiça resiste à opressão e a esperança se recusa a morrer. Cada gesto de misericórdia, cada escolha pela verdade e cada compromisso com a dignidade dos mais vulneráveis tornam presente a vitória do Ressuscitado. É na cruz acolhida por amor e vivida como entrega que a vida nova já desponta. Ali, onde tudo parece ruína aos olhos do mundo, Deus inaugura silenciosamente a ressurreição. No fim, o Evangelho não oferece respostas fáceis, mas abre um horizonte novo de existência. Aquele que aprende a caminhar com Cristo descobre que a verdadeira grandeza não se mede por aquilo que acumula, controla ou conquista, mas pela capacidade de fazer da própria vida um espaço onde Deus continua agindo na história. O discípulo amadurece quando deixa de perguntar apenas o que espera de Deus e passa a perguntar o que Deus espera dele em favor do próximo. Assim, o seguimento torna-se uma vocação cotidiana de fidelidade, discernimento e serviço. É nessa dinâmica que a Igreja continua sua missão: não como comunidade de vencedores, mas como povo peregrino que, sustentado pela graça, anuncia que o amor de Deus permanece mais forte que o medo, a violência e a morte.

DNonato- Teólogo do Cotidiano.


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 16,13-23

O Evangelho de Mateus 16,13-23 é proclamado na 5ª-feira da 18ª semana do Tempo Comum e em outras ocasiões, como na festa da Cátedra de São Pedro (quando se lê até o versículo 19) e em solenidades que recordam o ministério apostólico. Ao situar este trecho no contexto da oração e da escuta comunitária, a Igreja nos convida a retornar, vez após vez, à pergunta que Jesus dirige aos discípulos e que continua viva e urgente em cada geração. É uma pergunta que não se dirige apenas a um grupo de pescadores da Galileia, mas que atravessa os séculos e chega até nós, desafiando nossas certezas e confrontando nossas imagens de Deus (Sl 139,1-4; Jr 17,9-10).

Quando Jesus chega à região de Cesareia de Filipe, não é por acaso nem por turismo. Trata-se de um lugar carregado de simbolismo político, religioso e cultural. A cidade, reconstruída e ampliada por Filipe, filho de Herodes, era um polo de culto pagão, onde se erguia um templo em homenagem ao imperador romano — adorado como “filho de deus” na ideologia imperial (Rm 13,1-7) — e onde antigas tradições cananeias associavam a nascente do Jordão ao deus Pã, símbolo de fertilidade e força selvagem. Ali, distante do Templo de Jerusalém e de suas seguranças ritualísticas (Sl 122,1), Jesus conduz os discípulos para um terreno onde o poder imperial, a idolatria econômica e as expectativas messiânicas populares se encontram e se confundem. É nesse contexto de disputa de lealdades e significados que Ele pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13).

A expressão “Filho do Homem” — vinda de Daniel 7,13-14 — evoca não apenas a humanidade de Jesus, mas uma figura escatológica a quem é dado domínio eterno, diferente dos reinos violentos simbolizados por bestas (Ap 13). É também um título que Jesus usa para falar de si mesmo de forma velada, abrindo espaço para que as pessoas cheguem ao reconhecimento não pela imposição, mas pelo encontro (Jo 1,14). A pergunta é meticulosamente pedagógica: antes de chegar à fé pessoal, é preciso confrontar o rumor das multidões (Lc 12,2-3). E as respostas que chegam a Ele ecoam a memória profética de Israel: “uns dizem João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou algum dos profetas” (Mt 16,14; cf. Mc 8,28; Lc 9,19). João Batista, o pregador do arrependimento (Mt 3,1-12); Elias, o profeta que enfrentou reis e falsos deuses (1Rs 18); Jeremias, o homem das lágrimas e da denúncia contra a religião vazia (Jr 7,1-15); ou algum profeta que ousou falar em nome de Deus contra a injustiça (Am 5,21-24).

Todas essas comparações são honrosas, mas insuficientes. Reconhecem em Jesus algo de extraordinário, mas ainda o reduzem às categorias do passado, incapazes de perceber a novidade absoluta que Ele encarna (Is 43,18-19). É a tentação de encaixar Deus nos moldes antigos, de esperar que o Messias venha confirmar nossas agendas e não subvertê-las (Jr 23,16-22). O povo vê milagres, ouve palavras de autoridade, percebe compaixão (Mt 9,35), mas continua preso ao imaginário de um messias político, nacionalista ou milagreiro, capaz de restaurar a glória de Israel e derrotar Roma pela força (Mt 20,25-28). Então Jesus desloca o foco: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). A mudança de pronome é decisiva. Agora não se trata mais da opinião pública, mas da confissão pessoal (Rm 10,9-10). A fé não se apoia apenas no que ouvimos dizer; precisa nascer do encontro vivo (Jo 20,29). É Pedro quem toma a palavra: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). No grego, Christós significa “Ungido” e ecoa o hebraico Mashiach, aquele consagrado para uma missão única (Sl 2,2). Mas Pedro acrescenta algo ousado: “Filho do Deus vivo”, uma profissão que remete ao Deus revelado em Êxodo (Ex 3,14), vivo e atuante, em contradição com o imperador, chamado “filho do divino” em Roma (At 17,22-31). Aqui, a confissão é um ato de resistência teológica e política: o verdadeiro Filho de Deus não é César, mas Jesus (Fl 2,5-11).

Jesus confirma: “Não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16,17). A expressão “carne e sangue” é um semitismo para indicar a limitação humana (1Co 2,14). Pedro não chegou a essa conclusão por lógica ou por pesquisa de opinião; foi um dom, fruto da intimidade com o Mestre e da abertura ao Espírito (Jo 14,26). É o mesmo que Paulo recordará em 1Coríntios 2,10-16: “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus”. Então Jesus declara: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). No aramaico de Jesus, provavelmente a frase foi Kepha, e sobre esta kepha edificarei a minha comunidade. A palavra kepha pode ser entendida como “penhasco” ou “rocha firme” (Sl 61,2), e a imagem da pedra na Escritura evoca firmeza, mas também remete ao próprio Deus como rocha de Israel (Sl 18,3; Is 28,16). O profeta Isaías já anunciava a pedra angular, escolhida e preciosa, fundamento seguro para todos os que creem, uma rocha firme em meio às tempestades da história (Is 28,16). Aqui, a missão de Pedro não é a de um soberano terreno, mas de um fundamento vivo, chamado a sustentar a comunhão (Ef 2,20-22). As “portas do inferno” — na mentalidade bíblica, o poder da morte e do caos — não vencerão a comunidade que permanece fiel ao Evangelho (Sl 24,7-10; Ap 21,8). Paulo lembra que essa Igreja é “edifício santo, templo do Espírito” (Ef 2,20-22), sustentada pela pedra angular, Jesus Cristo.

O “poder das chaves” (Mt 16,19) não é licença para autoritarismo religioso, mas responsabilidade de abrir e fechar, ligar e desligar, reconciliar e excluir o mal, não as pessoas (Jo 20,22-23). A Lumen Gentium (27) recorda que a autoridade na Igreja deve ser serviço, não domínio; cuidado, não manipulação (Mt 23,8-12). Quando a autoridade se converte em mecanismo de autopreservação, acúmulo de bens ou manipulação de consciências, ela trai o Cristo Servo, que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). O Papa Francisco em Evangelii Gaudium (109-111) denuncia a mundanidade espiritual e o clericalismo que “distorcem o sentido da missão, levando a Igreja a perder o frescor da novidade do Evangelho”.

Mas logo vem a virada dramática. A partir daquele momento, Jesus começa a explicar que é necessário ir a Jerusalém, sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16,21; cf. Mc 8,31; Lc 9,22). É o caminho do Servo Sofredor de Isaías 53, não o do conquistador armado (Is 53,3-12). Paulo relembra que a cruz é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23) e que o verdadeiro discipulado passa por tomar a cruz (Gl 2,20; Lc 14,27). Pedro, que há pouco fora rocha, agora se torna obstáculo: “Deus não permita, Senhor! Isso nunca te acontecerá!” (Mt 16,22). Ele pensa proteger Jesus, mas está tentando desviá-lo do projeto do Pai. Por isso ouve palavras duras: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (Mt 16,23). Jesus é a “pedra de tropeço e rochedo de escândalo” para os que rejeitam o Reino (1Pd 2,8).

Este episódio revela a fragilidade humana: podemos confessar a fé num momento e, no instante seguinte, distorcê-la pelos nossos medos e interesses. O medo da dor, a busca de segurança e a sede de glória nos levam a projetar sobre Deus nossas ambições. É a lógica das teologias da prosperidade e do domínio, que pregam um Cristo sem cruz, um Reino sem renúncia, uma fé mensurada por posses e conquistas políticas (Lc 6,24-26). É também a tentação do clericalismo, que transforma a missão em privilégio e a graça em mercadoria (2Tm 3,1-5). Como alerta a Gaudium et Spes (63–66), as estruturas econômicas e políticas que absolutizam o lucro e o poder geram desigualdade e violência; a Igreja não pode se calar diante delas sem trair o Evangelho (Mt 25,31-46).

A antropologia mostra que, em todas as culturas, líderes são investidos de expectativas messiânicas. No tempo de Jesus, sob a opressão romana, o povo ansiava por libertação política (Sl 136). Jesus redefine o messianismo: não é conquista pela espada, mas entrega radical; não é supremacia, mas serviço; não é exclusão, mas mesa aberta (Mt 20,25-28; Lc 22,27). São João Crisóstomo dirá: “O poder na Igreja é mais pesado do que honroso, pois exige carregar o peso das almas”.

A cena de Cesareia de Filipe, portanto, é um alerta para nós. Não basta repetir fórmulas corretas; é preciso encarnar a lógica do Evangelho. Na sociedade do espetáculo, proliferam falsos profetas que transformam o Evangelho em espetáculo e mercadoria, banalizando a cruz e vendendo uma fé anestesiada, que conforta os poderosos e abandona os pobres (Mt 7,15-20; 2Tm 4,3-4). O Cristo vivo não cabe em slogans; Ele derruba tronos (Lc 1,52), chama a perder a vida para encontrá-la (Mt 16,25) e caminha com os descartados do sistema (Mt 25,40).

Responder à pergunta de Jesus é aceitar o caminho da cruz, da entrega e da comunhão. É reconhecer que no trono está o Cordeiro imolado (Ap 5,6), não o predador triunfante; que segui-lo é sair “fora do acampamento, levando sua humilhação” (Hb 13,13), mesmo que isso signifique enfrentar rejeição e perder privilégios. É viver, como ensina Fratelli Tutti (3), uma fraternidade aberta que se opõe tanto ao ídolo do mercado quanto à idolatria da nação.

Cesareia de Filipe não é apenas um lugar na história; é um espelho diante do qual cada geração da Igreja deve se examinar. É o ponto onde se decide se seguiremos o Cristo vivo ou se usaremos Seu nome para legitimar nossos próprios projetos. É o lugar onde se escolhe entre ser rocha ou pedra de tropeço, entre pensar como Deus ou como os homens. Seguir Jesus é permitir que Ele desconstrua nossos falsos messianismos e edifique sobre a pedra viva que é Ele mesmo (1Pd 2,4-6) uma Igreja humilde, aberta e fraterna.

No fim, a verdadeira rocha não é a que se vangloria da própria firmeza, mas a que se deixa lapidar pelo amor que dá a vida. Quem pensa como Deus sabe que a Igreja permanece de pé não por muros altos ou alianças de conveniência, mas porque está apoiada na pedra angular rejeitada pelos construtores (Sl 118,22; Mt 21,42). E é justamente essa pedra — ferida, desprezada e aparentemente frágil — que se torna fundamento de um mundo novo, onde “a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 85,11) e onde cada porta estará aberta para acolher o pobre, o estrangeiro, o ferido e o perdido (Is 58,6-10). 

Que cada um de nós, hoje, diante da pergunta de Jesus, escolha ser pedra viva edificada na humildade e no serviço, rejeitando o poder mundano e acolhendo a cruz que liberta e recria. Que nossa Igreja, mesmo ferida e rejeitada, permaneça firme e profética, denunciando os falsos messias do mercado, do nacionalismo e da vaidade, e abrindo suas portas a todos os que buscam justiça, paz e fraternidade verdadeira.9



DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 21 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 15,9-11

“Como o Pai me amou, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor.” (Jo 15,9)
O trecho de João 15,9-11 insere-se no chamado discurso da videira verdadeira, que ocupa o coração da última ceia na tradição joanina. Na liturgia da Igreja Católica romana, esse texto é proclamado de modo recorrente no tempo pascal, especialmente no VI Domingo da Páscoa do Ano B, na quinta-feira da quinta semana do Tempo Pascal e também em celebrações feriais do mesmo período, quando a comunidade cristã contempla a intimidade de Jesus com seus discípulos antes da paixão. Nas tradições das Igrejas antigas do Oriente e do Ocidente, ainda que com variações de lecionários, este conjunto de palavras de Jesus é sempre associado ao tempo pascal, quando a Igreja relê a vida do Ressuscitado como permanência de amor que nasce da cruz e se desdobra na vida comunitária. No horizonte mais amplo da espiritualidade cristã, este texto também ecoa na Liturgia das Horas e em celebrações monásticas, onde a imagem da videira e dos ramos sustenta uma teologia da comunhão contínua com Cristo.
Esse não é um conselho piedoso. É uma convocação insurgente. É como se Jesus dissesse: "Permanecei na contramão, quando o ódio for lei. Permanecei na partilha, quando a lógica for o acúmulo. Permanecei no abraço, quando tudo gritar pelo muro. Permanecei no amor, quando a religião servir ao trono e não à cruz."
Aqui, o amor não é ideia abstrata. É carne, é corpo, é chão. O amor de Jesus sangra com os feridos de Gaza, com os indígenas expulsos de suas terras, com os pobres humilhados pelas filas do osso e pelas filas da fé. É o amor que arde e se doa, como o fogo da sarça (Ex 3,2), que consome sem destruir. Amar, para Jesus, é permanecer fiel quando tudo desaba. É continuar levantando caídos, mesmo quando a estrutura inteira empurra para o chão.9
Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja plena.” (Jo 15,11)
Mas que alegria é essa, que nasce no meio do conflito? É a alegria do Cristo que chora, mas não desiste. É a alegria de quem carrega a cruz não por prazer, mas por fidelidade. É a alegria que se encarna na memória de Irmã Dorothy Stang, que andava pelos igarapés da Amazônia com a Bíblia em uma mão e os direitos dos pobres na outra. Foi assassinada por anunciar que a terra é dom de Deus, não mercadoria para poucos. Suas últimas palavras foram: “Este é o Evangelho de Jesus Cristo.” Ela permaneceu no amor — até a morte. Essa é a alegria plena que brota quando o Reino acontece: no gesto de partilha, no abraço ao doente, no perdão que desmonta o ódio.
Desde o Gênesis, sabemos: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18). A solidão imposta é violência. O Evangelho denuncia toda lógica que divide, segrega, hierarquiza. A antropologia bíblica nos lembra que não existimos fora da relação. E toda relação que não passa pelo amor, torna-se dominação. O neoliberalismo, com sua meritocracia cruel, mata antes de matar. Primeiro retira o nome; depois, a dignidade; por fim, a vida. Jesus, ao dizer “permanecei no meu amor”, está dizendo: “Permanecei humanos. Permanecei livres. Permanecei inteiros, mesmo que tudo vos tente destruir.” 
Esse enquadramento litúrgico não é mero dado organizacional, mas chave hermenêutica. A Igreja, ao colocar esse texto no coração do tempo pascal, interpreta a ressurreição não como suspensão da história, mas como intensificação da presença do amor no interior das contradições do mundo. A Páscoa, nesse sentido, não é fuga, mas permanência. Não é evasão da realidade, mas entrada mais profunda nela. É nesse horizonte que as palavras de Jesus devem ser escutadas: “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (Jo 15,9).
O contexto joanino é decisivo para compreender essa afirmação. O Evangelho de João nasce de uma comunidade marcada por conflito, deslocamento e reinterpretação da fé após a destruição do templo e a reorganização do judaísmo rabínico. Trata-se de um cristianismo em situação liminar, que precisa redefinir sua identidade sem perder a memória de Jesus. O discurso da videira verdadeira (Jo 15,1-17), inserido no bloco da última ceia (Jo 13–17), responde a essa crise oferecendo uma chave existencial: permanecer.
O verbo permanecer, no grego menō, atravessa todo o Evangelho como categoria teológica fundamental. Ele não indica apenas continuidade temporal, mas habitação mútua, permanência vital, enraizamento ontológico. Permanecer no amor, portanto, não é aderir a uma norma externa, mas habitar uma forma de vida que reconfigura toda a existência. O amor, aqui, não é sentimento psicológico nem virtude moral isolada, mas realidade trinitária comunicada historicamente.
Esse amor tem origem no Pai, manifesta-se no Filho e é participado pelos discípulos. Trata-se de uma estrutura relacional que rompe qualquer leitura individualista da fé. Nesse sentido, João não apresenta apenas uma ética do amor, mas uma ontologia da comunhão. A vida cristã não é definida pelo que o sujeito faz isoladamente, mas pelo lugar que ocupa nessa circulação de amor.
O pré-texto imediato reforça essa radicalidade. Em João 13, Jesus lava os pés dos discípulos, gesto que subverte as hierarquias do mundo mediterrâneo antigo, estruturado por códigos rígidos de honra e vergonha. O mestre assume a posição do servo, redefinindo autoridade como serviço. Em seguida, anuncia a traição e a dispersão, indicando que a comunidade será atravessada pela fragilidade, pela violência e pela ruptura. O discurso da videira não idealiza a comunidade, mas a insere em um processo de permanência em meio ao colapso.
A imagem da videira com texto proclamado ontem que tem profundo enraizamento bíblico. Em Isaías 5, Israel é descrito como vinha plantada por Deus, mas que produz frutos de injustiça. O Salmo 80 retoma essa imagem em tom de lamento, pedindo restauração. Jesus, ao afirmar ser a videira verdadeira, não nega essa tradição, mas a cumpre em si mesmo. Ele assume o lugar de Israel como mediação viva da aliança. A pertença a Deus não se dá mais por mediação institucional ou étnica, mas por incorporação vital em Cristo.
No mundo agrícola do Mediterrâneo antigo, a videira era cultura central, exigindo cuidado constante, poda rigorosa e vigilância permanente. A metáfora não é decorativa, mas estrutural. Ela indica que a vida espiritual não é espontânea no sentido superficial, mas processo contínuo de formação, purificação e fidelidade. A poda, mencionada no início do discurso da videira, indica que a fecundidade nasce da perda e do discernimento.
A antropologiaxs bíblica que sustenta esse texto rejeita qualquer concepção de indivíduo isolado. Desde o Gênesis, a existência humana é relacional: “Não é bom que o ser humano esteja só” (Gn 2,18). A solidão é apresentada como condição de ruptura, não como ideal de autonomia. O pecado, nesse horizonte, não é apenas transgressão moral, mas destruição da comunhão. Caim e Abel (Gn 4,8-10) tornam-se paradigma da violência que nasce quando o vínculo é rompido.
Quando Jesus diz “permanecei no meu amor”, ele está oferecendo uma alternativa histórica a essa lógica de ruptura. Trata-se de permanecer humano em um mundo que constantemente desumaniza. Essa permanência não é passividade, mas resistência ativa contra forças que fragmentam a vida.
A tradição sinótica reforça essa centralidade do amor como núcleo da revelação. Em Mateus 22,37-40, o amor a Deus e ao próximo resume toda a Lei. Em Lucas 10, o próximo é redefinido como aquele que se aproxima na ferida, independentemente de fronteiras religiosas ou culturais. Em Marcos 12, o amor aparece como critério hermenêutico de toda Escritura. João, porém, radicaliza essa tradição ao transformar o amor em esfera de existência: não apenas agir por amor, mas permanecer nele.
“Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). Essa alegria não é emoção superficial nem ausência de conflito. É uma alegria escatológica, nascida da cruz e iluminada pela ressurreição. Trata-se de uma alegria que não elimina o sofrimento, mas o atravessa com sentido. Ela desafia tanto o niilismo contemporâneo quanto formas religiosas que prometem plenitude sem transformação da realidade.
A história da Igreja testemunha essa permanência no amor em figuras que encarnaram o Evangelho em situações extremas. Irmã Dorothy Stang, na Amazônia, compreendeu que defender os pobres da terra era inseparável da fidelidade a Cristo. Oscar Romero, em El Salvador, percebeu que não podia separar o altar do sofrimento do povo assassinado. Ambos revelam que o amor joanino não é abstração, mas história ferida assumida como lugar teológico.
A tradição latino-americana aprofundou essa leitura ao afirmar a opção preferencial pelos pobres como eixo hermenêutico da fé. Medellín, Puebla e Aparecida insistem que a Igreja só é fiel ao Evangelho quando se coloca ao lado dos excluídos. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, já havia afirmado que as alegrias e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação desloca a eclesiologia de uma estrutura fechada para uma presença encarnada na história.
Nesse horizonte, torna-se inevitável a crítica às formas de religião que se afastam da lógica do Evangelho. O clericalismo, enquanto deformação da autoridade, transforma serviço em privilégio e obscurece a dimensão servidora da Igreja. Jesus, ao lavar os pés, desmantela qualquer pretensão de poder religioso separado da vida concreta do povo. Da mesma forma, o uso da fé como instrumento político-partidário representa uma traição ao Evangelho, quando este é reduzido a legitimação de projetos de poder.
O profeta Amós já havia denunciado essa dissociação entre culto e justiça: “Odeio vossas festas… que o direito corra como água” (Am 5,21-24). A teologia da prosperidade, ao associar fé a sucesso econômico, inverte a lógica da cruz e esvazia o escândalo do Evangelho. Paulo já advertia que a cruz é loucura para o mundo (1Cor 1,18), mas é nela que se revela a sabedoria de Deus.
No contexto contemporâneo, marcado por desigualdade estrutural, violência social, crise ambiental e manipulação religiosa, o texto de João 15 torna-se palavra crítica. Permanecer no amor significa resistir a sistemas que produzem descartabilidade humana. Significa recusar a normalização da injustiça. Significa reconhecer que a fé cristã não pode ser neutra diante do sofrimento dos povos.
A  fé não deve  se articula com estruturas de poder. Ela pode legitimar dominação ou alimentar emancipação. Por isso, o Evangelho permanece como instância crítica permanente de qualquer ordem social. A antropologia cultural revela que sociedades organizam seus valores em torno de centros simbólicos. No cristianismo, esse centro não é o poder, mas a cruz, isto é, a entrega da vida como expressão de amor.
É preciso  compreender que permanecer no amor é também um processo de integração do sujeito em meio à fragmentação contemporânea. Em sociedades marcadas pela aceleração e pela competição, essa permanência se torna espaço de reconstrução do sentido. Contudo, no Evangelho, essa reconstrução não se fecha no interior do sujeito, mas se abre à transformação do mundo.
Os documentos do Magistério e a tradição pastoral latino-americana insistem que a fé deve se traduzir em compromisso histórico com a dignidade humana. A Igreja, quando fiel ao Evangelho, não se organiza como poder, mas como serviço; não como exclusão, mas como comunhão; não como domínio, mas como presença solidária.
No centro de tudo permanece a palavra de Jesus: “Permanecei no meu amor” (Jo 15,9). Permanecer aqui não é estabilidade estática, mas fidelidade dinâmica em meio às contradições da história. É permanecer quando o mundo convida à desistência. É permanecer quando a violência parece triunfar. É permanecer quando a religião se corrompe. É permanecer quando tudo parece negar o amor.
E é justamente nesse permanecer que se revela a alegria prometida. Não a alegria da ausência de dor, mas a alegria da presença de sentido. Não a alegria da vitória sobre o outro, mas da comunhão que resiste. Não a alegria que se encerra em si mesma, mas a que se torna força histórica de transformação.
Assim, João 15,9-11 não é apenas texto para contemplação, mas convocação existencial e histórica. Ele chama a Igreja e cada comunidade cristã a reencontrar sua identidade no amor que permanece, no serviço que se doa e na esperança que resiste. Permanecer no amor é permanecer humano quando tudo desumaniza, permanecer fiel quando tudo fragmenta e permanecer no caminho de Cristo quando o mundo escolhe outros senhores..
Francisco, o bispo de Roma que agora repousa no seio dos pobres de Deus, viveu o Evangelho com os pés sujos de mundo. Denunciou a “economia que mata”, abraçou os migrantes, lavou os pés de presidiários, gritou contra o clericalismo, enfrentou os fariseus de farda e terno. E mesmo cercado de lobos, permaneceu no amor.  Num tempo em que igrejas se tornavam balcões e pastores se faziam CEOs, Francisco ousou lembrar que Jesus nasceu entre animais, morreu entre bandidos e ressuscitou entre covardes. E mesmo assim, não desistiu da humanidade.  
 “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12)
Amar como Ele amou é recusar-se a aceitar o mundo como está. É plantar beleza onde reina o concreto. É dizer não ao racismo, ao machismo, à homofobia, ao fascismo. É não permitir que a religião seja cúmplice do ódio. É viver como sarça viva: ardendo, resistindo, iluminando.
E se for preciso perder tudo para não perder o amor — então que tudo se perca. Porque só o amor permanece. Só o amor liberta. Só o amor salva.
 “Se não tiver amor, nada sou.” (1Cor 13, 1
DNonato  - Graduado  em História, teólogo  do cotidiano