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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 9,14-15.


Na Quarta-feira de Cinzas, quando a Igreja impõe as cinzas e proclama “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) ou “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19), não se inaugura apenas um tempo litúrgico, mas um itinerário antropológico e espiritual que atravessa a história da salvação. A liturgia desse dia é austera, mas profundamente densa: Joel 2,12-18 convoca ao retorno do coração; o Salmo 50 suplica um coração puro; 2Coríntios 5,20–6,2 anuncia o tempo favorável; Mateus 6,1-6.16-18 purifica a prática da esmola, da oração e do jejum. Poucos dias depois, na sexta-feira depois das Cinzas, proclama-se Mateus 9,14-15. A pedagogia da Igreja é clara: a conversão interior anunciada na Quarta-feira encontra seu fundamento cristológico na revelação do Noivo. Mateus 9,14-15 situa-se no bloco narrativo de Mateus 8–9, onde dez milagres são organizados em dois conjuntos intercalados por ensinamentos sobre o discipulado. O evangelista não constrói uma crônica dispersa, mas uma catequese estruturada. O chamado de Mateus, a refeição com pecadores, a controvérsia sobre o jejum e as parábolas do remendo novo e do vinho novo formam um conjunto coerente. O problema levantado pelos discípulos de João não é meramente ascético; é eclesiológico e cristológico. Se os fariseus jejuam e os discípulos de João também, por que os discípulos de Jesus não o fazem? A resposta desloca o eixo da prática para a presença do Esposo.

A imagem nupcial possui densidade veterotestamentária. Oséias 2 apresenta Deus como esposo fiel diante da infidelidade de Israel. Isaías 54 proclama: “Teu criador é teu esposo”. Isaías 62 anuncia que o Senhor se alegrará com seu povo como o noivo com a noiva. Ezequiel 16 descreve a história de amor e traição. O Cântico dos Cânticos canta a reciprocidade apaixonada. Ao afirmar-se como Noivo, Jesus reivindica uma identidade divina implícita. Mateus escreve para uma comunidade que reconhece nessa linguagem o cumprimento das promessas. A hermenêutica cristã lê o texto não como abolição do jejum, mas como sua transformação pascal.

“Dias virão em que o noivo lhes será tirado.” A expressão anuncia a paixão. O verbo sugere violência, antecipando a cruz. A comunidade pós-pascal vive nesse intervalo entre a retirada e a manifestação gloriosa. O jejum cristão nasce dessa tensão escatológica. Ele não é negação da bondade da criação, pois 1Timóteo 4,4 afirma que tudo o que Deus criou é bom, mas é exercício de liberdade diante do bem criado. A Escritura apresenta múltiplas formas de jejum: Moisés jejua quarenta dias (Ex 34,28); Elias caminha sustentado pelo alimento recebido (1Rs 19,8); Davi jejua em intercessão (2Sm 12,16); Nínive proclama jejum coletivo (Jn 3,5); Ester convoca três dias de abstinência (Est 4,16). O jejum é súplica, luto, preparação, discernimento.

No Novo Testamento, além de Mateus 6 e 9, encontramos Atos 13,2-3 e 14,23, onde a comunidade jejua antes de enviar missionários e instituir presbíteros. O jejum está ligado ao discernimento e à missão. Não é gesto isolado, mas eclesial. Paulo, em 1Coríntios 9,27, fala de disciplinar o próprio corpo para não ser reprovado. Romanos 8 apresenta a luta entre carne e Espírito não como dualismo ontológico, mas como tensão ética. A antropologia bíblica não separa corpo e alma; o “coração” é centro da pessoa inteira. Jejuar é educar o desejo, ordenar o apetite, reconhecer que o ser humano não vive só de pão (Dt 8,3; Mt 4,4).

A tradição patrística aprofundou essa compreensão. São Basílio pergunta: “De que serve abster-se de carne se devoras teu irmão?” São João Crisóstomo insiste que o jejum verdadeiro é libertar o oprimido. Santo Agostinho associa jejum e caridade como duas asas da penitência. A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que a liturgia é fonte e ápice da vida cristã; a Quaresma prepara para a celebração do mistério pascal. Paulo VI, na Paenitemini, recorda que a penitência possui dimensão interior, social e eclesial. O Catecismo da Igreja Católica, nos números 1430-1439, afirma que a conversão é obra da graça e resposta humana. João Paulo II, em Reconciliatio et Paenitentia, sublinha a dimensão social do pecado. Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens são também as da Igreja.

No plano disciplinar, a Igreja Católica Romana determina jejum e abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. O jejum consiste numa refeição principal e duas menores que não se equiparem a uma refeição completa; a abstinência de carne é observada nas sextas-feiras da Quaresma, podendo ser substituída por outra forma de penitência fora do tempo quaresmal, conforme as conferências episcopais. A norma obriga os fiéis segundo idade e condição, mas sempre com prudência pastoral. A disciplina não é legalismo, mas pedagogia.

Nas Igrejas Ortodoxas, a Grande Quaresma é marcada por rigor ascético mais amplo. Tradicionalmente, abstém-se de carne, laticínios, ovos e, em muitos dias, também de azeite e vinho. O jejum é intensificado na Semana Santa. A dimensão cósmica da espiritualidade oriental percebe o jejum como restauração da harmonia entre humanidade e criação. Ele é integrado à oração litúrgica, especialmente à Liturgia dos Dons Pré-Santificados.

Na Comunhão Anglicana, a disciplina varia, mas o Livro de Oração Comum mantém a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa como dias de jejum. A ênfase recai na conversão pessoal e na responsabilidade comunitária. Em todos esses contextos, permanece a convicção de que o jejum não substitui a justiça nem dispensa a caridade.

A  histórica mostra que práticas ascéticas existem em diversas culturas. A antropologia revela que o controle ritual do alimento possui significado identitário. Contudo, no cristianismo, o jejum é inseparável do evento Cristo. Ele não é técnica de autossuperação nem mecanismo de barganha com o divino. Quando se transforma em instrumento para obter prosperidade material, distorce-se o Evangelho. A chamada teologia da prosperidade, ao prometer sucesso financeiro como sinal inequívoco da bênção, entra em tensão com textos como Lucas 9,23, que convoca a tomar a cruz, e Filipenses 2,6-11, que apresenta o esvaziamento do Filho.

A espiritualidade do “eu sozinho”, típica de uma cultura hiperindividualista, também ameaça a compreensão bíblica do jejum. Mateus 9 situa a prática no contexto de uma comunidade reunida em torno do Noivo. O Documento de Aparecida insiste que não há discípulo sem comunidade. O CELAM recorda que a conversão é pessoal e estrutural. Em um ano de eleições, quando discursos religiosos são frequentemente instrumentalizados para legitimar projetos de poder, o jejum torna-se gesto profético. Ele questiona a tentação de reduzir a fé a identidade ideológica. Ele recorda que o Reino não se identifica plenamente com nenhum projeto político.

A Campanha da Fraternidade promovida anualmente pela Igreja no Brasil sempre propõe reflexão social concreta. Independentemente do tema específico proposto para 2026, sua metodologia ver, julgar e agir convida a articular fé e realidade. O jejum quaresmal, inserido nesse contexto, não pode ignorar as feridas sociais: desigualdade, violência, manipulação de consciências, desinformação, exploração econômica. Isaías 58 permanece critério hermenêutico: o jejum que Deus deseja é soltar as correntes da injustiça, repartir o pão, acolher o pobre.

Psicologicamente, o jejum rompe padrões de consumo automático. Em sociedades marcadas por estímulos constantes e gratificação imediata, abster-se voluntariamente de alimento revela que a liberdade não coincide com satisfazer todo desejo. Ele educa a vontade, amplia a consciência, fortalece a empatia. Ao sentir a própria fome, o fiel pode lembrar-se da fome estrutural de milhões. Assim, o jejum conecta experiência pessoal e responsabilidade social.

A Quaresma não é culto à tristeza, mas caminho para a alegria pascal. A imagem do Noivo impede leitura meramente penitencialista. O jejum não nega a festa; prepara para ela. Apocalipse 19 fala das núpcias do Cordeiro. A Eucaristia é antecipação desse banquete. Ao jejuar, a Igreja intensifica o desejo da comunhão plena. A ausência sensível educa para a presença sacramental e para a esperança escatológica.

O clericalismo que tranforma o ministério em poder, denunciado reiteradamente no magistério recente, transforma práticas espirituais em instrumentos de distinção ou controle. Quando o jejum é imposto sem acompanhamento ou utilizado para medir santidade, perde-se sua natureza evangélica. O Evangelho segundo Mateus 6 adverte contra a ostentação. A penitência deve ser discreta, orientada ao Pai que vê no segredo.

A realidade contemporânea apresenta desafios inéditos: polarizações, redes sociais que amplificam conflitos, campanhas eleitorais que mobilizam símbolos religiosos. O jejum quaresmal, vivido com autenticidade, pode purificar o coração coletivo. Ele chama à escuta, ao discernimento, à responsabilidade ética. Ele impede que a fé seja reduzida a slogan.

No princípio da Quaresma, as cinzas recordam a condição mortal. No meio do caminho, o Evangelho do Noivo revela a razão do jejum. No fim, a Vigília Pascal proclama que a morte foi vencida. Entre pó e luz, a Igreja caminha sustentada pela Palavra e pelos sacramentos. O jejum, praticado segundo a disciplina católica, ortodoxa e anglicana, enraizado na Escritura e iluminado pelo magistério, permanece sinal de amor ao Esposo, de solidariedade com os pobres e de esperança no Reino.

Quando o Noivo vier em plenitude, cessará o jejum. Até lá, ele é memória da cruz, crítica profética às falsas espiritualidades, resistência ao individualismo e preparação para o banquete eterno. Em um tempo histórico complexo, inclusive marcado por processos eleitorais e tensões sociais, a Quaresma recorda que a verdadeira conversão começa no coração, se traduz em justiça e culmina na comunhão.

DNonato - Teólogo do Cotidiano

sábado, 13 de setembro de 2025

Um olhar sobre João 3,13-17 - Festa da Exaltação da Santa Cruz

A festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada em 14 de setembro, é um mergulho no mistério paradoxal da fé cristã: aquilo que aos olhos do mundo parecia derrota, humilhação e fim, torna-se sinal de vitória, amor e vida plena, tem a seguinte liturgia: a   1ª leitura Números 21,4b-9;Salmo 77(78),1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c); a 2⁰ leitura Filipenses  2,6-11 e Evangelho  de  João 3,13-17 que iremos aprofundar

  • A primeira leitura (Nm 21,4b-9) recorda a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, pela qual o povo, ao olhar, era curado do veneno da serpente. É um anúncio simbólico: quem contempla com fé o Crucificado encontra salvação e cura para as feridas mais profundas da existência.
  • O hino de Filipenses (2,6-11) mostra a dinâmica da cruz: Cristo, sendo Deus, não se apegou a sua condição divina, mas esvaziou-se, assumindo nossa humanidade até a morte de cruz. Essa humilhação, porém, não é fracasso, mas caminho para a exaltação, pois é no amor radical e na entrega total que Deus manifesta sua glória.

A liturgia deste dia, portanto, não celebra o sofrimento em si, mas a transformação da cruz em fonte de esperança. Olhar para a Cruz é olhar para o amor extremo de Deus, que se faz frágil por nós e nos abre um horizonte de vida e ressurreição.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz, tem uma origem que remonta ao século IV, ligada à dedicação da Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, construída por ordem do imperador Constantino, após a descoberta da cruz por sua mãe, Helena. Não se trata de um culto à cruz como objeto material, mas da memória viva e celebrativa do mistério pascal: a cruz é exaltada porque nela Cristo não apenas sofreu, mas venceu o pecado e a morte, transformando o que era sinal de humilhação em fonte de vida nova. A liturgia deste dia proclama o Evangelho de João 3,13-17, passagem que coloca em palavras a síntese do amor de Deus: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Aqui, a cruz é interpretada não como derrota, mas como o ápice da revelação do amor, o momento em que Deus assume o abismo da dor humana e o transforma em caminho de salvação.

A liturgia usa este texto também no 4º Domingo da Quaresma, chamado Laetare, justamente como alento no meio do caminho penitencial, recordando que o centro da fé cristã não é a dor, mas a esperança que brota da entrega de Cristo. João apresenta a cena do diálogo com Nicodemos, um mestre da Lei que procura Jesus de noite, movido pelo desejo sincero de compreender, mas ao mesmo tempo cheio de receios. A noite em João é mais que uma referência temporal: é símbolo de incerteza, de ambiguidade, de busca entre sombras (Jo 3,2). Ali, Jesus evoca a serpente erguida por Moisés no deserto (Nm 21,4-9), quando o povo, mordido pelas serpentes, recebia a vida ao olhar para o sinal levantado. O paralelo é direto: “assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem deve ser levantado, para que todo o que nele crê tenha vida eterna” (Jo 3,14-15).

A cruz, portanto, é a nova serpente: sinal paradoxal, escândalo para uns, loucura para outros (1Cor 1,18), mas força de Deus para os que creem. Na carta aos Gálatas, Paulo insiste: “Quanto a mim, longe esteja gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). E aos Filipenses ele escreve: “Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou sobremaneira” (Fl 2,8-9). A exaltação da cruz já está inscrita no próprio movimento pascal: humilhação e glória se entrelaçam no mesmo mistério.

Nos sinóticos, a cena da crucifixão é relatada com intensidade. Marcos e Mateus sublinham o clamor de Jesus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46), ecoando o Salmo 22, que começa em tom de lamento, mas termina em confiança. Lucas nos dá outra chave, mostrando o crucificado que perdoa: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34) e que se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). João, por sua vez, mostra Jesus como quem reina do alto da cruz, entregando sua mãe ao discípulo amado (Jo 19,26-27) e consumando a missão: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). A cruz é o centro da revelação: nela se encontra a justiça do Servo sofredor de Isaías 53, que levou sobre si as nossas dores e foi traspassado por causa de nossas iniquidades. Toda cultura humana lida com símbolos de dor e superação. 

A cruz, no Império Romano, era o símbolo máximo da humilhação pública, reservado aos escravos e subversivos. Que um crucificado seja proclamado Filho de Deus é uma inversão radical da lógica social. Por isso Paulo escreve aos Coríntios: “Pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas para os que são chamados, força e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24). A sociologia da religião mostra que símbolos assim podem ser instrumentalizados: quantas vezes a cruz foi usada para legitimar conquistas coloniais, cruzadas, discursos nacionalistas e até práticas de exclusão? Mas o Cristo da cruz é aquele que se identifica com os pobres e pequenos (Mt 25,31-46), que se fez servo (Mc 10,45), que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58).

Hegel dizia que a cruz revela a reconciliação dos contrários: a morte gera vida, a finitude abre para o infinito. Nietzsche, por sua vez, via na cruz um símbolo de negação da vida. Mas a teologia cristã responde que, longe de negar a vida, a cruz é a afirmação plena de que nenhuma dor é inútil quando se torna oferta de amor. O próprio Jesus declarou: “Se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Para os Padres da Igreja, a cruz é árvore da vida. Santo Irineu já dizia: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”. São João Crisóstomo pregava: “A cruz é mais luminosa que o sol”. Santo Agostinho comentava: “A paixão de Cristo é suficiente para ser modelo de toda a vida” (In Ioannem, tr. 84).

O texto joanino nos convoca a romper com a visão mercantilizada da fé. A teologia da prosperidade reduz a cruz a um amuleto contra sofrimento, quando na verdade ela denuncia sistemas que geram dor. A teologia do domínio transforma a cruz em bandeira política, quando deveria ser memória da entrega gratuita. O individualismo a reduz a símbolo decorativo no peito, sem compromisso comunitário. A fé-mercadoria vende crucifixos caros, mas silencia diante dos crucificados de hoje: pobres, negros, indígenas, mulheres violentadas, jovens sem futuro, trabalhadores descartados. Mas a Escritura é clara: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4,20). O clericalismo também trai a cruz: quando o clero se coloca acima do povo, esquece que o Cristo da cruz lavou os pés dos discípulos (Jo 13,14-15) e se fez servo.

O Papa Francisco denunciou isso na  Evangelii Gaudium, ao afirmar que a Igreja deve ser “casa paterna onde há lugar para todos” (EG 47), e em Fratelli Tutti, quando chama à fraternidade que rompe exclusões: “Ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva” (FT 137). O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes (63–66), recorda que o ser humano só se realiza no dom de si. A cruz toca também nossa dimensão interior. Carregar a cruz, no sentido evangélico, não é buscar sofrimento, mas aprender a lidar com nossas sombras, limites e perdas. É o convite à resiliência, à capacidade de transformar a dor em sentido, o luto em memória fecunda, a perda em solidariedade. O próprio Jesus, ao falar da cruz, convida a seguir com liberdade e entrega: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23).

A festa da Exaltação surgiu não como devoção intimista, mas como celebração pública da vitória do cristianismo sobre a perseguição. Mas, em tempos de cristandade, o risco foi usar a cruz como símbolo de poder político. Hoje, em tempos de neoliberalismo, a cruz pode ser reduzida a símbolo de mercado religioso. Daí a necessidade de recuperar seu sentido original: não objeto de ostentação, mas sinal do amor de Deus que se esvazia e se dá.

Os povos indígenas e africanos, ao se encontrarem com a cruz, reinterpretaram-na em chave de resistência: a cruz erguida em quilombos e aldeias não era símbolo de colonizador, mas sinal de esperança e força espiritual. A cruz, assim, pode ser ressignificada como símbolo de libertação, como eco da palavra de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Por tudo isso, a Festa da Exaltação da Santa Cruz é chamada a ser um ato de memória e profecia. Memória, porque nos recorda a raiz da fé, o amor incondicional de Deus que entrega o Filho. Profecia, porque denuncia todos os sistemas que ainda crucificam e conclama a Igreja a estar junto dos crucificados. Como dizia São Romero da América: “Se me matarem, ressuscitarei no povo”. A cruz é exatamente isso: morte e ressurreição, derrota e vitória, fragilidade e potência do amor.

Celebrar a Exaltação da Santa Cruz é entrar, com Nicodemos, no mistério que ultrapassa nossas certezas e deixar ressoar a pergunta: “Como pode ser isso?” (Jo 3,9). Jesus não oferece uma explicação abstrata, mas revela na própria entrega o caminho da vida nova: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16). Por isso, a cruz não pode permanecer como simples símbolo religioso, ornamento ou objeto de devoção; ela se torna critério de discernimento e modo de viver, porque nela contemplamos um Deus que não domina, não oprime nem se coloca acima dos outros, mas se entrega por amor e se aproxima dos que sofrem. Como proclama Paulo, “a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, é força de Deus” (1Cor 1,18); e o hino de Filipenses revela que essa força passa pela humildade de Cristo, que “esvaziou-se a si mesmo” e assumiu a condição de servo (Fl 2,6-11). Exaltar a Cruz, portanto, é permitir que ela nos desinstale, confronte nossas ambições, denuncie toda religião que busca poder, prestígio ou autorreferência e nos conduza ao serviço, à justiça, à compaixão e à defesa da vida, especialmente daqueles que permanecem feridos e esquecidos à margem. A Igreja só honra verdadeiramente a Cruz quando aceita deixar-se julgar por ela e, em vez de usá-la para se enfeitar ou legitimar privilégios, assume o caminho do Crucificado: descer ao encontro dos últimos, carregar com eles as dores da história e transformar a fé em compromisso concreto com o amor que salva.


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DNonato – Teólogo do Cotidiano