A cinza na fronte proclama que somos frágeis, mas também anuncia que somos chamados à transformação. A memória da finitude purifica os delírios de grandeza e nos devolve ao essencial. Diante de Deus não há máscaras que resistam. O tempo da Quaresma começa assim, com um gesto simples e radical. Um sinal visível de uma decisão invisível. Um convite a deixar cair as aparências para que nasça, no silêncio do coração, uma vida reconciliada com Deus e comprometida com a fraternidade concreta.
Neste caminho quaresmal, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). que nos recorda que conversão nunca é apenas individual. A espiritualidade bíblica é inseparável da responsabilidade social.
- Jejuar sem justiça é hipocrisia.
- Orar sem compromisso com os que sofrem é ilusão.
- Oferecer esmola sem rever estruturas que geram exclusão é paliativo.
A Quaresma nos chama a uma fé encarnada, capaz de enfrentar as desigualdades, as violências e as formas de religião vazia que anestesiam a consciência.
Quando Mateus 6,1-6.16-18 ressoa na assembleia, não é apenas um texto proclamado: é lâmina que atravessa intenções, desnuda motivações e expõe o coração. Ele ecoa de modo emblemático na Quarta-feira de Cinzas e retorna na 11ª semana do Tempo Comum, como se a pedagogia divina insistisse que a conversão não é estação litúrgica, mas estado permanente da alma. A mesma Palavra que inaugura o deserto acompanha o cotidiano; a mesma exigência que abre a Quaresma vigia o Tempo Comum. Não há pausa para a autenticidade. O risco da hipocrisia não é sazonal. Ele ronda toda experiência religiosa, infiltra-se nas práticas mais nobres e pode vestir-se de piedade. Jesus, inserido no Sermão da Montanha (Mt 5–7), concretiza a justiça superior anunciada em Mt 5,20. Não é formalismo legal; é fidelidade ao querer do Pai. Quando Ele adverte: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos”, O problema não é a esmola, a oração ou o jejum; é o palco interior que transforma o sagrado em performance.
A tríade proposta por Jesus: esmola, oração e jejum, já era central no judaísmo do Segundo Templo. Tobias 12,8-9 afirma que oração, jejum e esmola são boas quando acompanhadas de justiça. O jejum marcava o Dia da Expiação (Lv 16); a oração estruturava as horas (Sl 55,18; Dn 6,11); a tzedaká expressava justiça social. Jesus não rompe com essa tradição; leva-a à plenitude (Mt 5,17). Interioriza-a radicalmente. Não abole o rito; liberta-o da vaidade. Os símbolos do texto revelam profundidade espiritual. O quarto fechado evoca intimidade. Fechar a porta significa interromper o fluxo da aprovação social. O Pai-Nosso, ensinado no plural, impede individualismo; mas a oração exibicionista é desmascarada. O rosto desfigurado dos que jejuam para parecer piedosos contrasta com a unção e a lavagem do rosto. A unção, na Escritura, é sinal de alegria (Sl 23,5; Is 61,3). O jejum cristão não é espetáculo de tristeza, mas disciplina orientada para Deus.
É nesse horizonte que o Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18 se torna decisivo. Jesus denuncia a prática religiosa feita para ser vista. A esmola, a oração e o jejum, pilares da espiritualidade judaica do século I, são recolocados no lugar da autenticidade. O Pai vê no segredo. O critério não é a visibilidade social, mas a verdade interior. A crítica de Jesus não é contra a prática religiosa em si, mas contra o coração dividido que transforma o sagrado em espetáculo e o pobre em vitrine.
A liturgia oferece a chave hermenêutica desse Evangelho já em Joel 2,12-18. O profeta ergue a voz em meio a uma crise nacional devastadora. Uma praga de gafanhotos, símbolo de juízo e colapso econômico, atingira o povo. Campos arrasados, fome, culto interrompido. Nesse contexto histórico concreto, a tentação era preservar aparências religiosas enquanto a justiça permanecia negligenciada. Joel proclama: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). O verbo hebraico shuv indica retorno radical, mudança de direção existencial. E insiste: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. No contexto histórico de uma crise nacional marcada por calamidade e devastação, o apelo não é teatral, mas existencial. A conversão pedida é integral, pessoal e comunitária. O pecado, na perspectiva bíblica, não é apenas falha individual, mas ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra. Por isso, o retorno precisa ser concreto, visível na justiça, na misericórdia e na reconstrução da vida social. Rasgar as vestes era gesto tradicional de luto. Rasgar o coração é ruptura interior. É abandonar cumplicidades com o pecado estrutural. É desinstalar-se de práticas que sustentam desigualdades. O profeta convoca jejum, assembleia solene, choro sacerdotal entre o vestíbulo e o altar (Jl 2,17), mas deixa claro: o gesto exterior só tem sentido se for expressão de interioridade dilacerada. A tradição profética ecoa essa denúncia: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13); “Aprendei a fazer o bem, buscai o direito” (Is 1,17); “Corra o direito como água” (Am 5,24).
O Salmo 50(51) aprofunda essa experiência. Associado ao arrependimento de Davi após sua queda (cf. 2Sm 12), revela que o pecado é ruptura relacional antes de ser infração jurídica: “Contra vós pequei” (Sl 51,6). A súplica “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12) utiliza o verbo bara’, o mesmo de Gn 1,1, indicando recriação. Conversão não é retoque moral; é nova criação. A antropologia bíblica é lúcida: o mal brota do interior (Mc 7,21-23). Por isso, antes de qualquer promessa de ação, a assembleia repete: “Tende piedade”. O reconhecimento da própria miséria precede qualquer prática religiosa. O Salmo dá voz à consciência que reconhece sua própria verdade. “Criai em mim um coração que seja puro”. A tradição sapiencial de Israel compreende o coração como centro das decisões. Converter-se é permitir que Deus recrie esse centro. Não é autopunição, é recriação. A cinza que recebemos não é sinal de condenação, mas de lucidez. Recorda “Tu és pó e ao pó voltarás” como em Gênesis 3,19, não para humilhar, mas para libertar da ilusão de autossuficiência que alimenta idolatrias modernas, inclusive aquelas que se travestem de poder religioso ou político
Paulo, em 2Cor 5,20–6,2, amplia o horizonte: “Reconciliai-vos com Deus… é agora o tempo favorável”. O apóstolo fala como embaixador. O termo katallagē indica restauração de vínculos rompidos. Não se trata de experiência intimista, mas de nova criação (2Cor 5,17). O kairos não admite adiamentos. A Quaresma não é dramatização anual do arrependimento; é ocasião concreta de decisão histórica. A graça precede o esforço, mas exige resposta. A reconciliação não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. Na antropologia paulina, o ser humano é chamado a viver uma nova criação inaugurada em Cristo. Essa novidade não combina com espiritualidade de aparência nem com fé usada como instrumento de dominação ou autopromoção.
A Palestina do século I onde Jesus andou, vivia sob a lógica de honra e vergonha. A visibilidade pública era capital simbólico. A sociologia ajuda a compreender como o campo religioso pode produzir distinção e poder. O capital religioso converte-se facilmente em capital político. Jesus desmonta esse mecanismo. Sua crítica não atinge apenas indivíduos, mas estruturas que transformam o sagrado em instrumento de legitimação. O narcisismo é traço cultural na atualidade sendo amplificado pelas redes sociais. A espiritualidade pode tornar-se extensão do ego. Constrói-se persona piedosa para ocultar fragilidades. Quando a esmola vira autopromoção, perde sua essência. Quando a oração se transforma em demonstração pública de poder, deixa de ser encontro. O Pai que vê no secreto desmonta o narcisismo religioso.
Tanto o primeiro como o segundo Testamento mantém unidade entre culto e justiça. Isaías 58 declara que o jejum autêntico é libertar o oprimido e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,7). Amós 5 rejeita cânticos sem retidão. Mateus 25 recorda que o julgamento final se dá pela solidariedade concreta aos pequenos. O segredo não exclui compromisso social; purifica sua intenção. A interioridade gera responsabilidade histórica.
Nesse horizonte, a Quaresma encontra expressão concreta na Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego eskēnōsen indica que Deus armou sua tenda entre os homens, evocando a presença no deserto (Ex 25,8). A Encarnação revela um Deus que escolhe proximidade. Se Deus habita nossa precariedade, a falta de moradia digna torna-se ferida teológica.
A moradia é mais que construção física. É espaço de identidade, pertencimento, memória e proteção. Antropologicamente, estrutura vínculos; psicologicamente, oferece segurança. Sua ausência expõe à violência e à invisibilidade. Defender moradia digna é defender a vida integral. No Ano Jubilar (Lv 25), a terra era devolvida para restaurar justiça social. A comunidade primitiva testemunhava que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). A fé bíblica não legitima desigualdade nem naturaliza exclusão.
Na realidade brasileiro contemporâneo, marcado por polarizações e instrumentalização da religião, Mateus 6 permanece denúncia profética. Jejuns convocados como marketing ideológico, orações transmitidas como demonstração de força, caridades exibidas para construir imagem pública: já receberam sua recompensa. O Evangelho não legitima exclusão; coloca o pobre no centro. A fé que se alia a projetos de poder e abandona o Crucificado trai sua origem. Quando o ministro se coloca no centro e obscurece o serviço, contradiz o modelo do Bom Pastor (Jo 10,11). “O maior entre vós seja servo” (Mt 23,11). A Igreja é Povo de Deus (cf. Lumen Gentium 9). Conversão atinge estruturas eclesiais. A Quaresma é ocasião de exame comunitário, não apenas individual.
Assim, Joel convoca retorno; o Salmo suplica recriação; Paulo proclama reconciliação; Mateus purifica intenções; João anuncia Encarnação; Isaías exige justiça; Atos testemunha partilha. A Escritura inteira converge para um ponto: Deus deseja verdade no íntimo e justiça nas relações. A Quaresma não inaugura medo, mas verdade. Convida a rasgar o coração, não as vestes; a abandonar o palco e entrar no silêncio; a deixar que o Pai, que vê no secreto, molde a vida.
A Quarta-feira de Cinzas nos conduz ao coração do Evangelho: não a uma religião de vitrine, mas a uma fé que se deixa purificar no segredo. Em Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18, Jesus desmonta a espiritualidade performática e denuncia a busca por aplausos. Esmola, oração e jejum não são instrumentos de autopromoção, mas caminhos de conversão que só fazem sentido quando brotam de um coração reconciliado com Deus e comprometido com os irmãos.
A cinza imposta na liturgia de hoje recorda finitude e possibilidade. É símbolo de limite e de esperança. O pó não é sentença final; é matéria que Deus pode recriar. O Reino cresce como semente oculta (Mc 4,26-29). A conversão começa no segredo, mas transborda na história. O quarto fechado conduz à praça pública transformada.
Quando Deus arma sua tenda entre nós, ecoa o mistério da Encarnação. Ele não legitima desigualdades; Ele se aproxima das periferias da história. O Deus bíblico não habita palácios de vaidade, mas caminha com o povo no deserto, escuta o clamor do oprimido e toma partido da vida ameaçada, como vemos em Êxodo 3,7-8. Por isso, a fé autêntica ajoelha-se no quarto fechado e levanta-se para transformar a realidade concreta. Não há verdadeira oração que não deságue em justiça; não há jejum agradável a Deus que ignore a fome do pobre, como denuncia Isaías 58,6-7.
A Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a sair do ritualismo estéril e a assumir um compromisso histórico. Conversão não é encenação litúrgica, é mudança de mentalidade e de prática. É rever estilos de vida, estruturas que produzem exclusão e discursos religiosos que abençoam privilégios enquanto silenciam diante da miséria. A cinza que hoje toca nossa fronte não é maquiagem espiritual; é memória da nossa fragilidade e chamado à responsabilidade. Somos pó, mas pó chamado a amar, a servir e a reconstruir vínculos.
Olhando para o tema não tem como não recorda os três T do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, ele retoma o coração da tradição bíblica e da Doutrina Social da Igreja. Não se trata de retórica política, mas de Evangelho encarnado na história. Desde o Gênesi.
- Terra aparece como dom confiado ao cuidado humano Gn 2,15 e promessa destinada a um povo que não pode viver na escravidão permanente Ex 3,7-8. A concentração injusta da terra já era denunciada pelos profetas Is 5,8, porque a fé bíblica nunca separou culto e justiça.
- Trabalho participa da obra criadora de Deus Gn 2,3. Ele dignifica, sustenta e integra a pessoa na comunidade. Quando o salário é retido ou a exploração se torna regra, a Escritura fala com clareza Tg 5,4. O descanso sabático Ex 20,8-11 revela que ninguém é máquina produtiva. A economia que sacrifica pessoas em nome do lucro contradiz a lógica do Reino.
- Teto, tema que ganha força na reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), toca o núcleo da dignidade humana. A casa é espaço de proteção, identidade e memória. Em Êxodo 12 a salvação passa pela porta marcada do lar. Em Josué 24,15 a fé envolve toda a casa. Em Atos 2,46 a Igreja nasce nas casas. Quando Jesus afirma que não tem onde reclinar a cabeça Lc 9,58, ele se identifica com os que vivem na precariedade. Em Mateus 25,35 o critério do juízo inclui acolher quem não tem abrigo.
A antropologia mostra que o lar estrutura vínculos e segurança emocional. A psicologia confirma que a ausência de moradia estável gera rupturas profundas na subjetividade. A sociologia evidencia que a exclusão habitacional amplia violência e desigualdade. Não se pode falar de fraternidade ignorando famílias empurradas para periferias sem infraestrutura ou vivendo sob marquises enquanto imóveis permanecem vazios por especulação. A tradição profética insiste que o jejum agradável a Deus inclui repartir o pão e recolher em casa os pobres sem abrigo Is 58,7. Não é símbolo, é prática concreta. A fé que se contenta com discursos morais e se cala diante da injustiça estrutural torna-se religião vazia. Terra, teto e trabalho formam um tripé inseparável da dignidade. Onde falta teto, ali o Evangelho convoca a comunidade cristã a ser sinal de justiça, presença e transformação histórica.
Num tempo marcado por polarizações, indiferença social e tentativas de instrumentalizar a fé para projetos de poder, o Evangelho nos devolve ao essencial. O Pai que vê no segredo também vê o que fazemos, ou deixamos de fazer, pelos pequenos, como recorda Mateus 25,31-46. Não basta repetir práticas devocionais; é preciso encarnar a misericórdia. A oração que agrada a Deus é aquela que nos desinstala. O jejum que Ele acolhe é o que rompe com o egoísmo. A esmola que Ele reconhece é a que restitui dignidade, não a que perpetua dependências.
Se Deus armou sua tenda entre nós, somos chamados a construir uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde ninguém viva sem teto, sem chão, sem lugar. A conversão quaresmal é também social e pública, porque toca as estruturas que ferem a vida. É compromisso com a justiça, com a verdade e com a fraternidade concreta.
O tempo é favorável. Não para aparências, mas para decisões. Não para discursos inflamados, mas para coerência. Não para uma religião de fachada, mas para um discipulado que une contemplação e ação. Que a cinza nos lembre quem somos; que o Evangelho nos recorde para quem vivemos; e que a fraternidade se torne prática cotidiana.
Conversão não é teatro. É caminho. É escolha diária. É compromisso com Deus que se prova no amor ao próximo. O resto é aparência que o vento leva.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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