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sábado, 14 de março de 2026

Olhando novamente: Lucas 18,9-14

A parábola do fariseu e do publicano

,narrada no Evangelho de Lucas 18,9-14, ocupa um lugar particularmente expressivo na memória litúrgica e espiritual do cristianismo. Na tradição da Igreja Católica romana, essa passagem é proclamada de maneira solene no
trigésimo domingo do Tempo Comum do Ano C, dentro do ciclo trienal das leituras dominicais. Neisse domingo, a comunidade cristã escuta o texto em diálogo com o Livro do Eclesiástico 35,12-14.16-18 e com a segunda carta a Timóteo 4,6-8.16-18, formando um conjunto litúrgico que destaca a eficácia da oração humilde e a gratuidade da justificação que provém da misericórdia divina e temos  algumas reflexões  em nosso canal do YouTube, nas  nossas redes sociais  e aqui mesmo  pelo menos  duas em 2022 e 2025

O mesmo  texto  de Lucas 18,9-14 conhecida  como a parábola do Publicano e do Fariseu  é proclamada novamente na liturgia ferial do sábado da terceira semana da Quaresma, quando o itinerário penitencial da Igreja convida os fiéis a um exame interior mais profundo. Nesse contexto quaresmal, o texto ressoa como um apelo à conversão que ultrapassa a mera observância exterior e alcança a verdade mais íntima da consciência humana. Nas Igrejas do Oriente, especialmente na Igreja Ortodoxa e em outras comunidades cristãs históricas, essa narrativa inaugura o chamado Domingo do Fariseu e do Publicano, primeiro marco do período preparatório para a Grande Quaresma. Tal convergência entre tradições litúrgicas distintas revela que a história contada por Jesus não é um ensinamento moral isolado, mas uma síntese do caminho espiritual cristão. Aproximar-se de Deus exige abandonar a lógica da autossuficiência religiosa e redescobrir a humildade daquele que reconhece sua dependência da graça. A pedagogia espiritual da liturgia quaresmal aprofunda essa verdade ao conduzir a comunidade cristã por um itinerário que desmonta progressivamente as ilusões de uma religiosidade superficial. Durante a terceira semana da Quaresma, os textos evangélicos proclamados insistem que o critério último da fidelidade a Deus não está na aparência das práticas religiosas, mas na verdade do amor vivido. No Evangelho de Mateus 22,34-40, Jesus recorda que toda a Lei e os Profetas encontram sua síntese no duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo, ecoando as antigas palavras do Deuteronômio 6,5 e do Levítico 19,18. Ao mesmo tempo, ele denuncia a dureza de coração daqueles que se recusam a reconhecer a ação libertadora de Deus por causa de interesses religiosos ou políticos, como se observa em Evangelho de Lucas 11,14-23. Em outro momento, recorda que os profetas frequentemente foram rejeitados em sua própria terra, evocando episódios narrados no Primeiro Livro dos Reis 17,8-16 e no Segundo Livro dos Reis 5,1-14. Ao fazer memória dessas histórias, Jesus mostra que a graça divina não se deixa aprisionar por fronteiras culturais ou religiosas. Nenhum povo, tradição ou instituição possui monopólio sobre a misericórdia de Deus. A Palavra de Deus, proclamada na liturgia, desmonta lentamente qualquer pretensão de segurança espiritual baseada apenas na pertença institucional ou na observância formal da Lei.

Dentro desse horizonte pedagógico, a parábola do fariseu e do publicano aparece como culminação desse processo de purificação espiritual. O evangelista introduz a narrativa com uma observação decisiva ao afirmar que Jesus contou essa história para alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos e desprezavam os outros. Essa indicação funciona como chave interpretativa da parábola. O problema denunciado por Jesus não é simplesmente o pecado moral evidente, mas a autossuficiência espiritual que pode esconder-se até mesmo dentro da prática religiosa. Desde as primeiras páginas da Escritura, a tentação humana consiste em tentar construir a própria justiça sem depender da graça. No relato do Livro do Gênesis 3,1-7, a serpente seduz o ser humano com a promessa de tornar-se semelhante a Deus por si mesmo. A narrativa do fariseu e do publicano mostra que essa mesma tentação reaparece dentro da religião quando a fé se transforma em instrumento de autoafirmação e distinção moral.

A cena ocorre no templo de Jerusalém, centro espiritual e simbólico da vida judaica do primeiro século. Reconstruído e ampliado por Herodes, o templo dominava a paisagem da cidade e representava o lugar onde o céu e a terra se encontravam. Subir ao templo significava participar da antiga tradição de peregrinação do povo de Israel. Os salmos de peregrinação expressam a alegria dessa subida quando proclamam: “Que alegria quando me disseram: vamos à casa do Senhor” (Sl 122,1). Contudo, a parábola mostra que a proximidade geográfica do sagrado não garante a comunhão com Deus. Dois homens entram no mesmo templo, dirigem-se ao mesmo espaço litúrgico e realizam o mesmo gesto exterior de oração. Ainda assim, apenas um deles experimenta a graça da justificação. A narrativa revela que a verdadeira distância ou proximidade de Deus não depende do espaço físico, mas da atitude interior. O fariseu aparece como figura de respeitabilidade religiosa. Historicamente, os fariseus desempenharam papel relevante na preservação da identidade espiritual do povo de Israel após o exílio e durante o período do segundo templo. Eram estudiosos da Lei, dedicados à interpretação das Escrituras e à prática rigorosa dos mandamentos. Muitas das ações mencionadas pelo fariseu na parábola possuem fundamento na tradição bíblica. O jejum regular e o pagamento do dízimo eram práticas recomendadas nas Escrituras, como se observa em Levítico 27,30 e Deuteronômio 14,22. O problema não está nessas práticas em si mesmas, mas no modo como são interiorizadas. A oração do fariseu torna-se uma espécie de relatório espiritual apresentado diante de Deus. Ele enumera suas obras e agradece por não ser como os outros homens.

A psicologia da religião ajuda a compreender esse fenômeno. O ser humano frequentemente constrói sua identidade por meio de comparações. Ao afirmar que não é como os outros, o fariseu estabelece uma fronteira simbólica entre si e aqueles que considera moralmente inferiores. Esse mecanismo de distinção aparece em diversas culturas e contextos sociais. A religião pode tornar-se um espaço onde essas fronteiras são reforçadas. Quando isso acontece, a fé deixa de ser encontro com Deus e transforma-se em instrumento de afirmação do ego religioso. A tradição profética de Israel denunciou repetidamente essa distorção. No Livro de Isaías 58,6-7, Deus declara que o jejum verdadeiro consiste em libertar os oprimidos e repartir o pão com o faminto. O profeta Amós proclama que Deus rejeita liturgias que não se traduzem em justiça social, como se lê em Amós 5,21-24. O publicano, por sua vez, representa uma figura marginalizada no contexto social da época. Os cobradores de impostos trabalhavam a serviço do Império Romano e eram frequentemente associados à exploração econômica e à corrupção. Por essa razão, eram considerados pecadores públicos e excluídos da respeitabilidade religiosa. Na narrativa, o publicano permanece à distância, não levanta os olhos ao céu e bate no peito em sinal de arrependimento. Sua oração é breve, mas profundamente verdadeira. Ele simplesmente diz: “Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador” (Lc 18,13). Essa súplica ecoa a tradição bíblica do clamor dos pobres que atravessa toda a Escritura. Os salmos proclamam repetidamente que Deus está próximo dos corações contritos e escuta o clamor daqueles que sofrem.

A conclusão da parábola surpreende os ouvintes ao afirmar que o publicano voltou para casa justificado, enquanto o fariseu não. A palavra justificar possui grande densidade teológica na tradição bíblica. Na reflexão de Paulo em Carta aos Romanos 3,23-24, todos pecaram e são justificados gratuitamente pela graça de Deus. A justificação não é recompensa por méritos acumulados, mas dom gratuito que restaura a relação entre Deus e a humanidade. Essa convicção já estava presente nos salmos, quando o orante reconhece que nenhum ser humano é plenamente justo diante de Deus.

A parábola também dialoga com outras palavras de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Em Evangelho de Mateus 23,12, Jesus afirma que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Em Evangelho de Marcos 10,31 declara que muitos primeiros serão últimos e os últimos serão primeiros. Essas afirmações revelam uma característica fundamental da mensagem do Reino de Deus. A lógica divina frequentemente subverte os critérios de prestígio e hierarquia presentes na sociedade humana. Essa inversão possui profundas implicações sociais e eclesiais. Ao longo da história, a religião foi muitas vezes instrumentalizada para legitimar estruturas de poder ou para justificar desigualdades sociais. Discursos religiosos podem ser utilizados para sustentar projetos autoritários ou ideologias de exclusão. Quando isso acontece, a fé corre o risco de transformar-se em capital simbólico de superioridade moral, repetindo a lógica do fariseu da parábola. O Concílio Vaticano II recorda na constituição Gaudium et Spes que a Igreja deve compartilhar as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade, especialmente dos pobres. Essa perspectiva foi aprofundada nas reflexões pastorais do CELAM, que reafirmaram a opção preferencial pelos pobres como expressão concreta da fidelidade ao Evangelho.

No contexto latino-americano, essa opção possui profundas implicações sociais. A fé cristã não pode ser reduzida a discurso espiritual desvinculado das realidades históricas. O Deus revelado por Jesus escuta o clamor daqueles que vivem nas periferias sociais e existenciais. A oração do publicano torna-se símbolo desse clamor que atravessa a história humana. Ela recorda que a graça divina se manifesta precisamente onde o coração humano reconhece sua fragilidade e se abre à misericórdia. A parábola do fariseu e do publicano permanece, assim, como um espelho espiritual para cada geração. Ela convida a Igreja e cada pessoa a examinar continuamente sua própria prática religiosa. A fé pode tornar-se caminho de comunhão e libertação, mas também pode degenerar em instrumento de distinção e poder. Quando a religião se alia a projetos de dominação ou a ideologias que desprezam os pobres, ela se afasta da lógica do Evangelho.

No silêncio da oração do publicano, porém, a fé reencontra sua autenticidade. Ele não apresenta méritos nem reivindica privilégios diante de Deus. Apenas reconhece sua necessidade de misericórdia. Essa atitude revela a verdade fundamental da experiência espiritual cristã. O encontro com Deus não acontece quando o ser humano se exalta, mas quando se abre com humildade à graça que transforma a vida. Nesse encontro silencioso entre a pobreza humana e a misericórdia divina, o templo deixa de ser apenas um edifício de pedra e torna-se espaço interior de reconciliação. A vida humana é então reencontrada em sua verdade mais profunda, sustentada pelo amor que permeia toda a criação. Quando o ser humano abandona suas máscaras e se apresenta diante de Deus com sinceridade, cumpre-se a antiga palavra do salmista: o Senhor escuta o clamor do pobre e o liberta de suas angústias. É nesse movimento de humildade e graça que o Evangelho revela sua força transformadora e continua abrindo caminhos de justiça, compaixão e esperança na história.

DNonato - Quase  um publicano, mas o im pecador público com certeza.



segunda-feira, 9 de março de 2026

Um breve olhar sobre Mateus18,21-35

 

Em algum momento da vida todos se encontram diante de uma pergunta que toca profundamente a experiência humana. Até onde vai o perdão? Quantas vezes é possível recomeçar uma relação ferida, reconstruir vínculos quebrados ou libertar o coração do peso das mágoas acumuladas ao longo da história pessoal e coletiva? A pergunta atravessa culturas, religiões e gerações. Ela surge quando a vida nos confronta com o erro, a falha, a traição e a fragilidade humana. É nesse horizonte existencial que o Evangelho segundo Mateus18,21-35 apresenta o diálogo entre Pedro e Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mateus 18,21).

Essa passagem ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. Na tradição da Igreja Católica Romana ela é proclamada integralmente no 24º Domingo do Tempo Comum do ciclo A do Lecionário dominical. Nesse domingo a comunidade cristã escuta e medita sobre o perdão sem limites como expressão concreta da vida do Reino de Deus. O mesmo texto também aparece na liturgia ferial, especialmente na terça-feira da 3ª semana da Quaresma e  sua variantes de  Mateus 18,21–19,1, proclamado na quinta-feira da 19ª semana do Tempo Comum no Ano Ímpar,  período no qual a Igreja convida os fiéis a um caminho profundo de conversão e reconciliação. Nas tradições das Igrejas históricas que utilizam o Lecionário Comum Revisado, como muitas comunidades luteranas, anglicanas e reformadas, essa mesma passagem aparece igualmente no ciclo dominical próximo desse período do ano litúrgico. Assim, diferentes tradições cristãs convergem ao reconhecer que o perdão é uma das colunas centrais da ética do Evangelho.

A pergunta de Pedro não surge isoladamente. Ela está inserida no grande discurso comunitário de Jesus presente no capítulo 18 do Evangelho de Mateus. Esse capítulo constitui uma verdadeira pedagogia da vida comunitária. Ele começa com a pergunta sobre quem é o maior no Reino dos Céus (Mateus 18,1). Jesus responde colocando uma criança no centro e afirmando que quem quiser entrar no Reino precisa tornar-se pequeno (Mateus 18,3-4). Em seguida aparece a advertência contra o escândalo dos pequenos (Mateus 18,6-9), a parábola da ovelha perdida (Mateus 18,10-14) e o ensinamento sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). Somente depois desse caminho pedagógico aparece a pergunta de Pedro sobre o perdão.

No judaísmo do primeiro século o perdão era considerado uma virtude importante, mas possuía limites práticos. Alguns mestres rabínicos ensinavam que seria razoável perdoar até três vezes. Depois disso a pessoa poderia considerar encerrada a relação. Pedro, ao propor sete vezes, acredita estar oferecendo um gesto de generosidade espiritual acima do esperado. O número sete possui grande importância simbólica na Bíblia. Ele remete à plenitude e à perfeição divina. Em Gênesis 2,2-3 Deus conclui a criação no sétimo dia e consagra esse tempo como descanso sagrado. O sete, portanto, representa o tempo de Deus, a plenitude da obra criadora.

A resposta de Jesus, porém, rompe completamente com a lógica da contabilidade moral. “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18,22). Alguns manuscritos traduzem setenta e sete vezes, mas o sentido permanece o mesmo. Trata-se de uma expressão semítica que indica algo ilimitado. O perdão no Reino de Deus não pode ser medido por cálculos matemáticos. Essa resposta também ecoa uma antiga tradição do livro do Gênesis. Em Gênesis 4,24 Lamec, descendente de Caim, proclama uma vingança multiplicada ao afirmar que seria vingado setenta e sete vezes. Jesus inverte completamente essa lógica da violência acumulada. Onde a tradição humana multiplicava a vingança, Jesus multiplica a misericórdia.

A partir dessa resposta Jesus apresenta a parábola do servo impiedoso. A narrativa começa com uma imagem conhecida no mundo antigo. “O Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos” (Mateus 18,23). No contexto do antigo Oriente e do mundo mediterrâneo era comum que governadores e administradores regionais prestassem contas ao soberano. Esses administradores frequentemente controlavam impostos, tributos e recursos econômicos.

Um desses servos aparece devendo ao rei dez mil talentos (Mateus 18,24). Para compreender o impacto dessa cifra é necessário entender o sistema monetário do mundo bíblico:

  • Um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador comum. Essa informação aparece claramente na parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20,2.Um talento correspondia aproximadamente a seis mil denários. Isso significa que um talento representava cerca de seis mil dias de trabalho. Considerando que um trabalhador trabalhava aproximadamente trezentos dias por ano, um talento equivaleria a cerca de vinte anos de trabalho. A dívida mencionada na parábola é de dez mil talentos. Dez mil talentos correspondem, portanto, a sessenta milhões de denários. Em termos de dias de trabalho isso significa sessenta milhões de dias. 

Se fizermos uma comparação aproximada com a realidade atual e imaginarmos um salário diário equivalente a cerca de cem reais, um denário hoje poderia corresponder aproximadamente a esse valor diário.

Assim, cem denários equivaleriam a cerca de dez mil reais. Já sessenta milhões de denários corresponderiam aproximadamente a seis bilhões de reais. Trata-se de uma soma absolutamente impensável para qualquer pessoa comum. Jesus utiliza deliberadamente esse exagero para provocar impacto narrativo e revelar a dimensão simbólica da história.

Nesse ponto aparece um detalhe que merece atenção. A estrutura numérica da dívida envolve o número seis. Um talento corresponde a seis mil denários. A dívida gigantesca é construída a partir da multiplicação desse número. Na simbologia bíblica o número seis possui um significado particular. Ele representa o tempo humano da história ainda incompleta.

Em Gênesis 1,26-31 o ser humano é criado no sexto dia da criação. O sexto dia representa o tempo do trabalho, da construção histórica e da realidade humana que ainda caminha rumo à plenitude do sétimo dia. O sete representa o descanso de Deus e a plenitude da criação. O livro do Êxodo reforça essa dinâmica ao estabelecer o ritmo do trabalho e do descanso. “Seis dias trabalharás e farás todas as tuas obras, mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor teu Deus” (Êxodo 20,9-10). O sábado surge como limite ético ao trabalho humano. Ele lembra que a vida humana não pode ser reduzida a produção e lucro.

Na tradição apocalíptica o número seis aparece também associado às estruturas humanas que pretendem ocupar o lugar de Deus. Em Apocalipse 13,18 surge a famosa referência ao número 666, símbolo de sistemas políticos e econômicos que se absolutizam e transformam poder humano em idolatria.

Quando a parábola menciona uma dívida construída sobre seis mil denários multiplicados milhares de vezes, ela toca simbolicamente nesse universo do trabalho humano, da economia e das estruturas sociais que muitas vezes produzem desigualdade e opressão. Essa simbologia permite também um diálogo com realidades contemporâneas do mundo do trabalho. Em muitas sociedades existe a chamada escala seis por um, na qual trabalhadores trabalham seis dias consecutivos e descansam apenas um. Embora essa escala seja juridicamente reconhecida em muitos contextos, ela frequentemente se torna instrumento de desgaste humano quando associada a salários baixos, jornadas intensas e ausência de condições dignas.

A tradição bíblica, no entanto, sempre defendeu limites éticos ao trabalho. O mandamento do sábado foi uma revolução social no mundo antigo. Ele afirmava que nem o patrão, nem o servo, nem o estrangeiro poderiam trabalhar sem descanso (Êxodo 23,12). O descanso semanal lembrava que o ser humano não é propriedade do sistema econômico. O livro do Deuteronômio reforça esse princípio ao recordar que o descanso sabático está ligado à memória da libertação da escravidão no Egito (Deuteronômio 5,15). Descansar é reconhecer que a dignidade humana é maior que qualquer sistema de produção.

Quando observamos situações contemporâneas nas quais trabalhadores vivem presos a jornadas exaustivas ou a dívidas impagáveis, percebemos como estruturas econômicas modernas continuam reproduzindo lógicas antigas de opressão. Pessoas trabalham para sobreviver dentro de sistemas que acumulam riquezas gigantescas enquanto mantêm multidões na precariedade.

Nesse sentido a parábola de Jesus também dialoga com a antiga tradição do Jubileu bíblico descrita em Levítico 25. No ano jubilar as dívidas eram canceladas, escravos eram libertados e terras devolvidas às famílias originais. O Jubileu lembrava que nenhuma estrutura econômica poderia se tornar absoluta. A terra pertence a Deus e a dignidade humana deve sempre prevalecer. A Doutrina Social da Igreja retoma esse princípio ao afirmar que a economia deve estar a serviço da vida humana. Documentos como Laborem Exercens insistem que o trabalho é para a pessoa e não a pessoa para o trabalho.

Voltando à parábola, o servo incapaz de pagar a dívida cai de joelhos diante do rei e suplica paciência (Mateus 18,26). O texto afirma que o senhor teve compaixão dele, perdoou a dívida e o deixou partir (Mateus 18,27). O verbo utilizado no texto grego indica uma compaixão profunda que nasce das entranhas. Essa misericórdia revela o coração da revelação bíblica. O Salmo 130,3 pergunta: “Se observas as culpas, Senhor, quem poderá subsistir?” O Salmo 103,8 proclama: “O Senhor é misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor.”

É exatamente nesse ponto que a parábola se conecta profundamente com a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos. No coração do Pai Nosso encontramos uma súplica que expressa essa mesma lógica espiritual: “Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mateus 6,12). A oração cristã por excelência coloca o perdão no centro da relação com Deus e com o próximo. Quando a comunidade reza o Pai Nosso, ela reconhece que todos são devedores da misericórdia divina e que ninguém pode pedir perdão a Deus enquanto se recusa a oferecê-lo aos irmãos. A parábola do servo impiedoso funciona quase como uma explicação narrativa dessa petição da oração. Jesus transforma em história aquilo que no Pai Nosso aparece como súplica. Pedir perdão a Deus implica assumir a responsabilidade de construir relações reconciliadas na história. O servo perdoado, no entanto, encontra um companheiro que lhe devia cem denários (Mateus 18,28). Embora cem denários representem um valor significativo, trata-se de uma dívida pequena quando comparada à dívida gigantesca que ele próprio recebeu perdão.

Mesmo assim ele agarra o companheiro pelo pescoço e exige pagamento imediato. Aqui aparece uma dimensão profunda da condição humana. O ser humano frequentemente deseja misericórdia para si e justiça implacável para os outros. O apóstolo Paulo reconhece essa contradição ao escrever: “Tu que julgas o outro, condenas a ti mesmo” (Romanos 2,1).

Os outros servos ficam profundamente entristecidos ao presenciar a injustiça (Mateus 18,31). Isso revela que o pecado nunca é apenas individual. Ele fere o tecido da comunidade. Quando o rei toma conhecimento da situação ele chama o servo e denuncia sua incoerência: “Não devias também tu ter compaixão do teu companheiro?” (Mateus 18,33).

Outros textos do Novo Testamento confirmam essa mesma perspectiva. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Colossenses 3,13). “Sede bondosos e compassivos uns para com os outros” (Efésios 4,32). O próprio Jesus na cruz proclama: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). A tradição da Igreja sempre reconheceu que o perdão é parte essencial da vida cristã. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é chamada a ser sinal de reconciliação para o mundo (Lumen Gentium 1). A constituição Gaudium et Spes afirma que as divisões humanas contradizem o projeto de Deus para a humanidade.

Na América Latina os documentos de Medellín e Puebla recordam que o perdão cristão não pode ser separado da justiça. Perdoar não significa legitimar a opressão, mas romper o ciclo da violência e abrir caminhos de reconciliação. A parábola também denuncia distorções religiosas que transformam a fé em instrumento de poder. Quando líderes religiosos utilizam o discurso moral para controlar pessoas ou legitimar projetos políticos autoritários, o Evangelho é esvaziado de sua força libertadora. O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco representa exatamente essa deformação.

Os profetas bíblicos já denunciavam religiões vazias que ignoravam a justiça social. Isaías proclamava: “Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Isaías 1,17). Amós denunciava cultos que ignoravam a justiça (Amós 5,24). Em um mundo marcado por polarizações, discursos de ódio e manipulação religiosa, a mensagem de Mateus 18 permanece profundamente atual. O Reino de Deus começa a aparecer quando pessoas e comunidades escolhem a misericórdia em vez da vingança e a justiça em vez da opressão.

O perdão não é apenas um gesto oferecido ao outro. Ele é também libertação interior. A carta aos Hebreus adverte para que nenhuma raiz de amargura brote no coração humano (Hebreus 12,15). O ressentimento prolongado aprisiona a pessoa ao passado. O perdão abre espaço para um futuro novo.

Perdoar exige coragem. Exige reconhecer a própria fragilidade e confiar que a misericórdia é mais forte que o mal.

No final das contas a parábola coloca cada pessoa diante de uma escolha espiritual profunda. Existe a economia da cobrança infinita, na qual dívidas são acumuladas, erros são lembrados eternamente e relações permanecem aprisionadas ao passado. E existe a economia da misericórdia, na qual o perdão abre caminhos de reconciliação e esperança. O Evangelho de Jesus convida a humanidade a escolher essa segunda economia. Onde o perdão floresce, a história deixa de ser repetição de violência e começa a tornar-se espaço de vida nova.

Assim a pergunta de Pedro continua ecoando através dos séculos. Quantas vezes devemos perdoar? A resposta de Jesus permanece desafiadora e libertadora.

  • O perdão não tem limite porque o amor de Deus não tem limite.

Quando essa lógica começa a transformar o coração humano, algo novo acontece na história. Relações são restauradas, comunidades são curadas e a esperança volta a florescer.

Todos somos devedores perdoados. E o futuro da humanidade depende da capacidade de transformar essa misericórdia recebida em misericórdia compartilhada. Somente quando o perdão deixa de ser teoria e se torna prática cotidiana é que o Reino de Deus começa verdadeiramente a aparecer no meio da história humana. Nesse caminho exigente e libertador a justiça encontra a misericórdia e a dignidade humana reencontra seu lugar diante do Deus que é amor.



DNonato, Teólogo  do cotidiano

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Um outro olha sobre Mateus 6,1-6.16-18 / Quarta-feira de Cinzas

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas inaugura o tempo sagrado da Quaresma com um chamado que atravessa a superfície da religiosidade e alcança o coração. As leituras de Joel 2,12-18; Salmo 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17;  II Coríntios 5,20–6,2; Mateus 6,1-6.16-18 compõem uma única convocação: voltar ao Senhor com verdade. Não se trata de um rito externo nem de uma tradição repetida por costume, mas de um movimento interior que envolve mente, afetos, escolhas e estruturas de vida.

A cinza na fronte proclama que somos frágeis, mas também anuncia que somos chamados à transformação.  A memória da finitude purifica os delírios de grandeza e nos devolve ao essencial. Diante de Deus não há máscaras que resistam. O tempo da Quaresma começa assim, com um gesto simples e radical. Um sinal visível de uma decisão invisível. Um convite a deixar cair as aparências para que nasça, no silêncio do coração, uma vida reconciliada com Deus e comprometida com a fraternidade concreta. 

Neste caminho quaresmal, a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).  que nos recorda que conversão nunca é apenas individual. A espiritualidade bíblica é inseparável da responsabilidade social. 

  • Jejuar sem justiça é hipocrisia.
  •  Orar sem compromisso com os que sofrem é ilusão. 
  • Oferecer esmola sem rever estruturas que geram exclusão é paliativo.

 A Quaresma nos chama a uma fé encarnada, capaz de enfrentar as desigualdades, as violências e as formas de religião vazia que anestesiam a consciência.

Quando Mateus 6,1-6.16-18 ressoa na assembleia, não é apenas um texto proclamado: é lâmina que atravessa intenções, desnuda motivações e expõe o coração. Ele ecoa de modo emblemático na Quarta-feira de Cinzas e retorna na 11ª semana do Tempo Comum, como se a pedagogia divina insistisse que a conversão não é estação litúrgica, mas estado permanente da alma. A mesma Palavra que inaugura o deserto acompanha o cotidiano; a mesma exigência que abre a Quaresma vigia o Tempo Comum. Não há pausa para a autenticidade.  O risco da hipocrisia não é sazonal. Ele ronda toda experiência religiosa, infiltra-se nas práticas mais nobres e pode vestir-se de piedade. Jesus, inserido no Sermão da Montanha (Mt 5–7), concretiza a justiça superior anunciada em Mt 5,20. Não é formalismo legal; é fidelidade ao querer do Pai. Quando Ele adverte: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos”, O problema não é a esmola, a oração ou o jejum; é o palco interior que transforma o sagrado em performance.

A tríade proposta por Jesus:  esmola, oração e jejum,  já era central no judaísmo do Segundo Templo. Tobias 12,8-9 afirma que oração, jejum e esmola são boas quando acompanhadas de justiça. O jejum marcava o Dia da Expiação (Lv 16); a oração estruturava as horas (Sl 55,18; Dn 6,11); a tzedaká expressava justiça social. Jesus não rompe com essa tradição; leva-a à plenitude (Mt 5,17). Interioriza-a radicalmente. Não abole o rito; liberta-o da vaidade.  Os símbolos do texto revelam profundidade espiritual. O quarto fechado  evoca intimidade. Fechar a porta significa interromper o fluxo da aprovação social. O Pai-Nosso, ensinado no plural, impede individualismo; mas a oração exibicionista é desmascarada. O rosto desfigurado dos que jejuam para parecer piedosos contrasta com a unção e a lavagem do rosto. A unção, na Escritura, é sinal de alegria (Sl 23,5; Is 61,3). O jejum cristão não é espetáculo de tristeza, mas disciplina orientada para Deus. 

É nesse horizonte que o Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18 se torna decisivo. Jesus denuncia a prática religiosa feita para ser vista. A esmola, a oração e o jejum, pilares da espiritualidade judaica do século I, são recolocados no lugar da autenticidade. O Pai vê no segredo. O critério não é a visibilidade social, mas a verdade interior. A crítica de Jesus não é contra a prática religiosa em si, mas contra o coração dividido que transforma o sagrado em espetáculo e o pobre em vitrine. 

A liturgia oferece a chave hermenêutica desse Evangelho já em Joel 2,12-18. O profeta ergue a voz em meio a uma crise nacional devastadora. Uma praga de gafanhotos, símbolo de juízo e colapso econômico, atingira o povo. Campos arrasados, fome, culto interrompido. Nesse contexto histórico concreto, a tentação era preservar aparências religiosas enquanto a justiça permanecia negligenciada. Joel proclama: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2,12). O verbo hebraico shuv indica retorno radical, mudança de direção existencial. E insiste: “Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes”. No contexto histórico de uma crise nacional marcada por calamidade e devastação, o apelo não é teatral, mas existencial. A conversão pedida é integral, pessoal e comunitária. O pecado, na perspectiva bíblica, não é apenas falha individual, mas ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra. Por isso, o retorno precisa ser concreto, visível na justiça, na misericórdia e na reconstrução da vida social.  Rasgar as vestes era gesto tradicional de luto. Rasgar o coração é ruptura interior. É abandonar cumplicidades com o pecado estrutural. É desinstalar-se de práticas que sustentam desigualdades. O profeta convoca jejum, assembleia solene, choro sacerdotal entre o vestíbulo e o altar (Jl 2,17), mas deixa claro: o gesto exterior só tem sentido se for expressão de interioridade dilacerada. A tradição profética ecoa essa denúncia: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13); “Aprendei a fazer o bem, buscai o direito” (Is 1,17); “Corra o direito como água” (Am 5,24).

O Salmo 50(51) aprofunda essa experiência. Associado ao arrependimento de Davi após sua queda (cf. 2Sm 12), revela que o pecado é ruptura relacional antes de ser infração jurídica: “Contra vós pequei” (Sl 51,6). A súplica “Criai em mim um coração puro” (Sl 51,12) utiliza o verbo bara’, o mesmo de Gn 1,1, indicando recriação. Conversão não é retoque moral; é nova criação. A antropologia bíblica é lúcida: o mal brota do interior (Mc 7,21-23). Por isso, antes de qualquer promessa de ação, a assembleia repete: “Tende piedade”. O reconhecimento da própria miséria precede qualquer prática religiosa.  O Salmo dá voz à consciência que reconhece sua própria verdade. “Criai em mim um coração que seja puro”. A tradição sapiencial de Israel compreende o coração como centro das decisões. Converter-se é permitir que Deus recrie esse centro. Não é autopunição, é recriação. A cinza que recebemos não é sinal de condenação, mas de lucidez. Recorda “Tu és pó e ao pó voltarás” como em Gênesis 3,19, não para humilhar, mas para libertar da ilusão de autossuficiência que alimenta idolatrias modernas, inclusive aquelas que se travestem de poder religioso ou político

Paulo, em 2Cor 5,20–6,2, amplia o horizonte: “Reconciliai-vos com Deus… é agora o tempo favorável”. O apóstolo fala como embaixador. O termo katallagē indica restauração de vínculos rompidos. Não se trata de experiência intimista, mas de nova criação (2Cor 5,17). O kairos não admite adiamentos. A Quaresma não é dramatização anual do arrependimento; é ocasião concreta de decisão histórica. A graça precede o esforço, mas exige resposta. A reconciliação não é fuga do mundo, mas compromisso com ele. Na antropologia paulina, o ser humano é chamado a viver uma nova criação inaugurada em Cristo. Essa novidade não combina com espiritualidade de aparência nem com fé usada como instrumento de dominação ou autopromoção.

A Palestina do século I  onde Jesus  andou, vivia sob a lógica de honra e vergonha. A visibilidade pública era capital simbólico. A sociologia ajuda a compreender como o campo religioso pode produzir distinção e poder. O capital religioso converte-se facilmente em capital político. Jesus desmonta esse mecanismo. Sua crítica não atinge apenas indivíduos, mas estruturas que transformam o sagrado em instrumento de legitimação.  O narcisismo é  traço cultural na atualidade   sendo amplificado pelas redes sociais. A espiritualidade pode tornar-se extensão do ego. Constrói-se persona piedosa para ocultar fragilidades. Quando a esmola vira autopromoção, perde sua essência. Quando a oração se transforma em demonstração pública de poder, deixa de ser encontro. O Pai que vê no secreto desmonta o narcisismo religioso.

Tanto o primeiro  como o segundo Testamento  mantém unidade entre culto e justiça. Isaías 58 declara que o jejum autêntico é libertar o oprimido e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,7). Amós 5 rejeita cânticos sem retidão. Mateus 25 recorda que o julgamento final se dá pela solidariedade concreta aos pequenos. O segredo não exclui compromisso social; purifica sua intenção. A interioridade gera responsabilidade histórica.

Nesse horizonte, a Quaresma encontra expressão concreta na Campanha da Fraternidade 2026, com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego eskēnōsen indica que Deus armou sua tenda entre os homens, evocando a presença no deserto (Ex 25,8). A Encarnação revela um Deus que escolhe proximidade. Se Deus habita nossa precariedade, a falta de moradia digna torna-se ferida teológica.

A moradia é mais que construção física. É espaço de identidade, pertencimento, memória e proteção. Antropologicamente, estrutura vínculos; psicologicamente, oferece segurança. Sua ausência expõe à violência e à invisibilidade. Defender moradia digna é defender a vida integral. No Ano Jubilar (Lv 25), a terra era devolvida para restaurar justiça social. A comunidade primitiva testemunhava que “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). A fé bíblica não legitima desigualdade nem naturaliza exclusão.

Na realidade brasileiro contemporâneo, marcado por polarizações e instrumentalização da religião, Mateus 6 permanece denúncia profética. Jejuns convocados como marketing ideológico, orações transmitidas como demonstração de força, caridades exibidas para construir imagem pública: já receberam sua recompensa. O Evangelho não legitima exclusão; coloca o pobre no centro. A fé que se alia a projetos de poder e abandona o Crucificado trai sua origem. Quando o ministro se coloca no centro e obscurece o serviço, contradiz o modelo do Bom Pastor (Jo 10,11). “O maior entre vós seja servo” (Mt 23,11). A Igreja é Povo de Deus (cf. Lumen Gentium 9). Conversão atinge estruturas eclesiais. A Quaresma é ocasião de exame comunitário, não apenas individual.

Assim, Joel convoca retorno; o Salmo suplica recriação; Paulo proclama reconciliação; Mateus purifica intenções; João anuncia Encarnação; Isaías exige justiça; Atos testemunha partilha. A Escritura inteira converge para um ponto: Deus deseja verdade no íntimo e justiça nas relações. A Quaresma não inaugura medo, mas verdade. Convida a rasgar o coração, não as vestes; a abandonar o palco e entrar no silêncio; a deixar que o Pai, que vê no secreto, molde a vida.

A Quarta-feira de Cinzas nos conduz ao coração do Evangelho: não a uma religião de vitrine, mas a uma fé que se deixa purificar no segredo. Em Evangelho segundo Mateus 6,1-6.16-18, Jesus desmonta a espiritualidade performática e denuncia a busca por aplausos. Esmola, oração e jejum não são instrumentos de autopromoção, mas caminhos de conversão que só fazem sentido quando brotam de um coração reconciliado com Deus e comprometido com os irmãos.

A cinza imposta na liturgia  de hoje recorda finitude e possibilidade. É símbolo de limite e de esperança. O pó não é sentença final; é matéria que Deus pode recriar. O Reino cresce como semente oculta (Mc 4,26-29). A conversão começa no segredo, mas transborda na história. O quarto fechado conduz à praça pública transformada.

Quando Deus arma sua tenda entre nós, ecoa o mistério da Encarnação. Ele não legitima desigualdades; Ele se aproxima das periferias da história. O Deus bíblico não habita palácios de vaidade, mas caminha com o povo no deserto, escuta o clamor do oprimido e toma partido da vida ameaçada, como vemos em Êxodo 3,7-8. Por isso, a fé autêntica ajoelha-se no quarto fechado e levanta-se para transformar a realidade concreta. Não há verdadeira oração que não deságue em justiça; não há jejum agradável a Deus que ignore a fome do pobre, como denuncia Isaías 58,6-7.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos provoca a sair do ritualismo estéril e a assumir um compromisso histórico. Conversão não é encenação litúrgica, é mudança de mentalidade e de prática. É rever estilos de vida, estruturas que produzem exclusão e discursos religiosos que abençoam privilégios enquanto silenciam diante da miséria. A cinza que hoje toca nossa fronte não é maquiagem espiritual; é memória da nossa fragilidade e chamado à responsabilidade. Somos pó, mas pó chamado a amar, a servir e a reconstruir vínculos.

Olhando  para o tema não  tem como não  recorda  os três  T do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, ele retoma o coração da tradição bíblica e da Doutrina Social da Igreja. Não se trata de retórica política, mas de Evangelho encarnado na história. Desde o Gênesi.

  •  Terra aparece como dom confiado ao cuidado humano Gn 2,15 e promessa destinada a um povo que não pode viver na escravidão permanente Ex 3,7-8. A concentração injusta da terra já era denunciada pelos profetas Is 5,8, porque a fé bíblica nunca separou culto e justiça.
  • Trabalho participa da obra criadora de Deus Gn 2,3. Ele dignifica, sustenta e integra a pessoa na comunidade. Quando o salário é retido ou a exploração se torna regra, a Escritura fala com clareza Tg 5,4. O descanso sabático Ex 20,8-11 revela que ninguém é máquina produtiva. A economia que sacrifica pessoas em nome do lucro contradiz a lógica do Reino.
  • Teto, tema que ganha força na reflexão da Campanha da Fraternidade 2026 com o tema Fraternidade e Moradia, iluminado pelo lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), toca o núcleo da dignidade humana. A casa é espaço de proteção, identidade e memória. Em Êxodo 12 a salvação passa pela porta marcada do lar. Em Josué 24,15 a fé envolve toda a casa. Em Atos 2,46 a Igreja nasce nas casas. Quando Jesus afirma que não tem onde reclinar a cabeça Lc 9,58, ele se identifica com os que vivem na precariedade. Em Mateus 25,35 o critério do juízo inclui acolher quem não tem abrigo.

A antropologia mostra que o lar estrutura vínculos e segurança emocional. A psicologia confirma que a ausência de moradia estável gera rupturas profundas na subjetividade. A sociologia evidencia que a exclusão habitacional amplia violência e desigualdade. Não se pode falar de fraternidade ignorando famílias empurradas para periferias sem infraestrutura ou vivendo sob marquises enquanto imóveis permanecem vazios por especulação. A tradição profética insiste que o jejum agradável a Deus inclui repartir o pão e recolher em casa os pobres sem abrigo Is 58,7. Não é símbolo, é prática concreta. A fé que se contenta com discursos morais e se cala diante da injustiça estrutural torna-se religião vazia. Terra, teto e trabalho formam um tripé inseparável da dignidade. Onde falta teto, ali o Evangelho convoca a comunidade cristã a ser sinal de justiça, presença e transformação histórica.

Num tempo marcado por polarizações, indiferença social e tentativas de instrumentalizar a fé para projetos de poder, o Evangelho nos devolve ao essencial. O Pai que vê no segredo também vê o que fazemos, ou deixamos de fazer, pelos pequenos, como recorda Mateus 25,31-46. Não basta repetir práticas devocionais; é preciso encarnar a misericórdia. A oração que agrada a Deus é aquela que nos desinstala. O jejum que Ele acolhe é o que rompe com o egoísmo. A esmola que Ele reconhece é a que restitui dignidade, não a que perpetua dependências.

Se Deus armou sua tenda entre nós, somos chamados a construir uma sociedade onde ninguém seja descartado, onde ninguém viva sem teto, sem chão, sem lugar. A conversão quaresmal é também social e pública, porque toca as estruturas que ferem a vida. É compromisso com a justiça, com a verdade e com a fraternidade concreta.

O tempo é favorável. Não para aparências, mas para decisões. Não para discursos inflamados, mas para coerência. Não para uma religião de fachada, mas para um discipulado que une contemplação e ação. Que a cinza nos lembre quem somos; que o Evangelho nos recorde para quem vivemos; e que a fraternidade se torne prática cotidiana.

Conversão não é teatro. É caminho. É escolha diária. É compromisso com Deus que se prova no amor ao próximo. O resto é aparência que o vento leva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano