
Marcos 11,11-26 ocupa um lugar singular na tradição litúrgica cristã porque nos introduz no coração dos últimos dias da vida pública de Jesus. Na Igreja Católica Romana, esta passagem ecoa o seu horizonte mais amplo na celebração da Semana Santa, especialmente no contexto do
Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, quando a entrada messiânica em Jerusalém é proclamada como início do caminho que conduzirá à cruz e à ressurreição e sua proclamação na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum ano ciclo par da Igreja sendo a continuação da
quinta-feira da Oitava semana do Tempo Comum. Nas Igrejas do Oriente cristão, o Domingo de Ramos abre solenemente a Grande Semana, enquanto as tradições anglicana, luterana, reformada e demais Igrejas históricas leem estes acontecimentos como um dos momentos culminantes da revelação profética de Cristo. Entretanto, reduzir essa narrativa a uma simples história sobre uma figueira que seca ou sobre vendedores expulsos do Templo seria não perceber a profundidade teológica que Marcos cuidadosamente construiu. Estamos diante de uma grande parábola vivida, de uma ação profética que reúne séculos de história bíblica, a memória dos profetas, a esperança messiânica de Israel e a revelação de uma nova forma de relacionamento entre Deus e a humanidade.
O evangelista situa esses acontecimentos imediatamente após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A multidão havia estendido mantos pelo caminho e agitado ramos, evocando a memória dos reis davídicos e alimentando expectativas messiânicas. Muitos esperavam um libertador político. Outros sonhavam com a restauração nacional. Alguns imaginavam o fim da dominação romana. Contudo, Jesus surpreende a todos. Ele não dirige seus passos ao palácio de Herodes, não sobe à fortaleza Antônia para desafiar os soldados de César e não convoca qualquer revolta popular. Seu olhar dirige-se ao Templo. A questão central não é o poder imperial. A questão central é a fidelidade da aliança.
Marcos afirma que Jesus entrou no Templo, observou tudo ao redor e, como já era tarde, retirou-se para Betânia com os Doze (Mc 11,11). À primeira vista, parece um detalhe sem importância. Porém, a narrativa desacelera exatamente para que o leitor perceba a profundidade daquele olhar. O verbo utilizado pelo evangelista sugere uma observação atenta, abrangente, quase contemplativa. Jesus olha como os antigos profetas olhavam. Seu olhar recorda o Deus que viu a aflição de seu povo no Egito (Ex 3,7), que contemplou a corrupção denunciada por Amós (Am 5,11-12), que ouviu o clamor dos pobres e dos órfãos tantas vezes mencionado nos Salmos (Sl 34,7; Sl 146,7-9). Aqui vale a pena observar três coisas:
- Antes de agir, Jesus contempla: Marcos nos mostra um Mestre que não reage impulsivamente diante da realidade, mas a observa em silêncio, com profundidade e discernimento. Seu olhar percorre o Templo, as pessoas, as estruturas e os acontecimentos. Não é um olhar superficial, mas um olhar profético que busca a verdade escondida sob as aparências. Em uma cultura marcada pela pressa, pelas reações instantâneas e pelos julgamentos precipitados, Jesus revela uma pedagogia diferente. A verdadeira profecia não nasce da agitação nem da indignação momentânea. Ela nasce da contemplação, da escuta e da capacidade de permanecer diante da realidade até que ela revele seu sentido mais profundo.
- Antes de denunciar, discerne: O verdadeiro discernimento nasce da capacidade de enxergar além das aparências. Sua palavra não brota de preconceitos, emoções descontroladas ou interesses ideológicos. Brota de um coração inteiramente voltado para o Pai. O discernimento evangélico consiste em enxergar para além das folhas e reconhecer a presença ou a ausência dos frutos. É a capacidade de perceber aquilo que os olhos apressados não veem, distinguindo entre aparência e verdade, entre religiosidade e conversão, entre poder e serviço. Toda denúncia profética autêntica nasce de um longo exercício de escuta de Deus e de atenção à realidade humana.
- Antes de julgar, vê a realidade em sua profundidade: O verdadeiro anúncio do Reino não surge da impulsividade. Ele não se deixa seduzir pelas fachadas do poder religioso nem pelas aparências de prosperidade espiritual. Seu olhar alcança as raízes. Vê as dores escondidas, as injustiças normalizadas, as exclusões legitimadas e as esterilidades disfarçadas de sucesso. Por isso seu anúncio do Reino não é fruto da impulsividade, mas da compaixão e da verdade. Somente quem aprende a olhar o mundo com os olhos de Deus é capaz de anunciar uma palavra que não destrói, mas transforma; que não humilha, mas converte; que não condena simplesmente, mas abre caminhos para a vida nova.
Ao cair da tarde, Jesus retorna para Betânia. A geografia aqui também se transforma em teologia. Jerusalém representa o centro religioso, político e econômico da nação. Betânia, pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, representa a casa da amizade e da acolhida. É significativo que Jesus encontre repouso fora dos centros de poder. A história da salvação está repleta dessa lógica divina. Deus chama Abraão para sair das estruturas estabelecidas (Gn 12,1-3). Escolhe Moisés no deserto (Ex 3,1-10). Levanta profetas em tempos de crise institucional. Faz nascer o Messias numa manjedoura. O Reino frequentemente floresce nas periferias antes de alcançar os centros No dia seguinte, Marcos introduz um elemento que se tornará o eixo de toda a narrativa: a fome de Jesus. O evangelista afirma simplesmente que Jesus teve fome (Mc 11,12). A observação parece banal, mas carrega profundo significado teológico. O Filho de Deus assume plenamente a condição humana. Ele conhece o cansaço, a sede, a dor e a fome. Contudo, à medida que a narrativa avança, o leitor percebe que essa fome ultrapassa a necessidade física. Trata-se da fome de Deus por frutos. Trata-se da antiga busca divina por uma humanidade capaz de responder ao amor da aliança.
Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus procura frutos. No jardim do Éden, procura comunhão. Após o dilúvio, procura justiça. Na vocação de Abraão, procura um povo que seja bênção para todas as nações. Ao libertar Israel do Egito, procura uma comunidade capaz de testemunhar sua santidade entre os povos. A história bíblica inteira pode ser lida como a história de Deus buscando frutos de fidelidade, misericórdia, justiça e amor. É nesse contexto que Jesus se aproxima da figueira. Marcos observa que ela estava coberta de folhas, mas não possuía frutos. A cena causa estranhamento porque o próprio evangelista informa que não era tempo de figos. Contudo, o objetivo da narrativa não é ensinar botânica. Estamos diante de uma ação profética semelhante às realizadas por Jeremias, Ezequiel e Oseias. Como os antigos profetas, Jesus utiliza um gesto concreto para revelar uma realidade espiritual mais profunda.
A imagem da figueira possui longa história na tradição bíblica. Oseias compara os primeiros tempos de Israel aos primeiros frutos encontrados numa figueira (Os 9,10). Jeremias lamenta que não existam figos na árvore, utilizando essa imagem para descrever a infidelidade do povo (Jr 8,13). Miqueias transforma a ausência de frutos numa poderosa denúncia da corrupção social e moral de sua época (Mq 7,1-6). Joel utiliza a devastação da figueira como símbolo do juízo divino (Jl 1,7). Quando Jesus se aproxima da árvore carregada de folhas, Marcos espera que seus leitores recordem toda essa tradição profética.
A figueira torna-se então um retrato de Israel, mas também de toda religiosidade que conserva sinais exteriores de vitalidade enquanto perde sua capacidade de gerar vida. Há folhas, mas faltam frutos. Há aparência, mas falta substância. Há culto, mas falta justiça. Há devoção pública, mas falta misericórdia. Há instituições religiosas vigorosas, mas enfraquece-se a compaixão pelos pobres, pelos excluídos e pelos sofredores.
Essa denúncia não surge apenas em Marcos. Ela atravessa toda a Escritura. Isaías denuncia um culto que convive com a opressão dos vulneráveis e proclama que Deus prefere a prática da justiça aos sacrifícios vazios (Is 1,10-17). Amós rejeita celebrações religiosas que coexistem com a exploração econômica e exige que o direito corra como um rio perene (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências simples e revolucionárias: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Jesus encontra-se plenamente inserido nessa tradição. Sua crítica não é dirigida contra a religião em si, mas contra a deformação da religião.
É precisamente por isso que Marcos intercala a narrativa da figueira com a purificação do Templo. A figueira aparece antes e depois do episódio do santuário. Essa construção literária não é acidental. A árvore interpreta o Templo e o Templo explica a árvore. A esterilidade da figueira revela a esterilidade de um sistema religioso incapaz de produzir os frutos que Deus procura.
Para compreender a força desse gesto, é necessário recordar o significado do Templo no século I. O santuário de Jerusalém não era apenas um lugar de oração. Era o centro simbólico da identidade nacional. Ali convergiam religião, economia, política e cultura. Peregrinos chegavam de diversas regiões do mundo mediterrâneo. Sacrifícios eram oferecidos diariamente. Tributos eram arrecadados. Animais eram vendidos para o culto. Cambistas trocavam moedas estrangeiras pela moeda aceita no santuário. O Templo constituía o coração visível da vida judaica.
Jesus não ignora a importância dessa instituição. Contudo, ao entrar no átrio e expulsar vendedores e cambistas, ele revela que algo essencial havia se perdido. O problema não reside simplesmente na existência do comércio. O problema encontra-se na transformação da casa de Deus em espaço submetido às mesmas lógicas de exclusão, privilégio e exploração presentes na sociedade.
Por isso Jesus une duas passagens fundamentais da Escritura. A primeira vem de Isaías: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56,7). A segunda vem de Jeremias: “Transformastes esta casa em covil de ladrões” (Jr 7,11). A combinação dessas duas citações revela a profundidade da denúncia. O projeto divino sempre foi universal. O Templo deveria manifestar a acolhida de Deus para todos os povos. Entretanto, aquilo que deveria ser espaço de comunhão havia se tornado instrumento de interesses particulares.
A crítica de Jesus alcança então uma dimensão que ultrapassa Jerusalém e atravessa toda a história religiosa da humanidade. Sempre que a fé se transforma em instrumento de poder, a figueira volta a secar. Sempre que a religião é utilizada para legitimar privilégios, a figueira volta a secar. Sempre que líderes espirituais substituem o serviço pela busca de prestígio, a figueira volta a secar. Sempre que comunidades religiosas se preocupam mais com sua autopreservação do que com o sofrimento humano, a figueira volta a secar.
Essa palavra continua extraordinariamente atual. Em nosso tempo, a instrumentalização da fé assume formas diversas. Em alguns contextos, a religião torna-se ferramenta de projetos político-partidários. Em outros, converte-se em mercado espiritual. Em outros ainda, transforma-se em mecanismo de controle ideológico. A chamada teologia da prosperidade frequentemente reduz a bênção divina ao sucesso econômico individual, esquecendo a centralidade dos pobres no anúncio do Reino. A teologia do domínio corre o risco de substituir o testemunho evangélico pela busca de hegemonia cultural e política. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo Magistério contemporâneo, transforma ministérios de serviço em estruturas de poder. Em todos esses casos, a crítica de Jesus permanece viva.
O Concílio Vaticano II procurou recuperar precisamente a imagem evangélica da Igreja como povo de Deus peregrino na história. A Lumen Gentium recorda que toda autoridade eclesial existe para servir. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo. Os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida retomaram essa intuição ao insistirem na opção preferencial pelos pobres como consequência inseparável da fé cristã. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que se identificou com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados (Mt 25,31-46).
Quando os discípulos percebem que a figueira secou desde as raízes, Marcos introduz uma imagem de enorme profundidade espiritual. Não secaram apenas os galhos. Secaram as raízes. Na linguagem bíblica, a raiz representa a origem da vida, o fundamento da existência, aquilo que sustenta toda a árvore. A crise denunciada por Jesus não é superficial. Ela atinge o coração da experiência religiosa. Também hoje é possível encontrar árvores cobertas de folhas. Multiplicam-se discursos religiosos, manifestações públicas de fé, símbolos visíveis e conteúdos espirituais. Contudo, a pergunta permanece: onde estão os frutos? Onde está a justiça para os pobres? Onde está a compaixão pelos que sofrem? Onde está o compromisso com a verdade? Onde está a misericórdia capaz de vencer o ódio e a violência?
A resposta de Jesus não consiste em destruir, mas em reconstruir. Após a denúncia, ele fala da fé, da oração e do perdão. O movimento é profundamente significativo. O velho sistema está secando, mas Deus prepara algo novo. “Tende fé em Deus” (Mc 11,22). A fé não aparece aqui como técnica para obtenção de vantagens pessoais. Trata-se de confiança radical naquele que permanece fiel à sua aliança. A montanha lançada ao mar simboliza aquilo que parece impossível aos olhos humanos. A verdadeira transformação nasce da confiança em Deus e não da força dos sistemas humanos.
Por isso a narrativa culmina numa referência ao perdão. “Quando estiverdes rezando, perdoai” (Mc 11,25). O verdadeiro culto não consiste apenas em ritos corretos. Consiste em relações reconciliadas. A oração autêntica conduz à misericórdia. A comunhão com Deus produz comunhão entre os seres humanos. O amor ao Senhor e o amor ao próximo tornam-se inseparáveis, como Jesus ensinará pouco depois ao resumir toda a Lei no duplo mandamento do amor (Mc 12,29-31).
Ao final desta narrativa, Marcos não oferece respostas fáceis. Ele deixa seus leitores diante de uma pergunta que atravessa os séculos, percorre a história da Igreja e alcança cada geração de discípulos: que tipo de árvore estamos nos tornando diante de Deus? Somos árvores que produzem frutos de justiça, misericórdia, compaixão e solidariedade, ou apenas exibimos a exuberância enganosa das folhas? Nossa fé gera vida para os que sofrem, esperança para os desanimados, dignidade para os esquecidos e acolhida para os excluídos, ou se limita à preservação de aparências religiosas e estruturas de poder? A pergunta não se dirige apenas aos indivíduos. Ela alcança também as comunidades, as Igrejas, as instituições e todas as formas de organização religiosa. Somos verdadeiramente casa de oração para todos os povos, como sonhou o profeta Isaías (Is 56,7), ou nos transformamos em espaços de exclusão, privilégio e autorreferencialidade? Nossa missão aproxima as pessoas do Deus da vida ou as submete a interesses ideológicos, econômicos e políticos que obscurecem a beleza do Evangelho? Produzimos os frutos do Reino ou apenas acumulamos os sinais externos da religião?
Jesus continua entrando em Jerusalém. Continua atravessando os pátios de nossos templos, as estruturas de nossas instituições, os corredores de nossas comunidades e os recantos mais escondidos de nossos corações. Continua observando. Continua contemplando. Continua discernindo. Seu olhar permanece o mesmo olhar que atravessou o Templo naquele entardecer. Um olhar que vê além das aparências, que alcança as raízes e que distingue entre aquilo que apenas parece vivo e aquilo que verdadeiramente gera vida. Ele continua procurando frutos. Não procura prestígio religioso, influência política, poder cultural ou sucesso econômico. Não procura multidões impressionadas, discursos grandiosos ou demonstrações públicas de piedade. Procura os mesmos frutos que Deus buscou desde o princípio de sua aliança com a humanidade: justiça para os pobres, pão para os famintos, dignidade para os humilhados, verdade para os oprimidos, misericórdia para os feridos, reconciliação para os divididos e amor para todos. Procura uma fé capaz de transformar a história e uma espiritualidade que se traduza em serviço concreto ao próximo.
A figueira seca permanece como advertência para toda forma de religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. Mas o Evangelho não termina na esterilidade. O mesmo Jesus que denuncia também restaura. O mesmo Senhor que julga a ausência de frutos oferece a possibilidade da conversão. O mesmo Cristo que purifica o Templo prepara uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma, com os irmãos e com toda a criação. Por isso, a última palavra desta passagem não é condenação, mas esperança. Não é destruição, mas renovação. Não é morte, mas fecundidade. O Reino de Deus continua germinando silenciosamente no mundo, como uma semente escondida na terra. Toda vez que a justiça vence a opressão, a figueira volta a florescer. Toda vez que a misericórdia supera a indiferença, a figueira volta a florescer. Toda vez que a verdade resiste à mentira, a solidariedade vence o egoísmo e o amor triunfa sobre o ódio, a figueira volta a florescer.
Então, diante do olhar de Cristo que continua percorrendo a história, permanece o convite à conversão. Não basta possuir folhas. É necessário produzir frutos. Não basta conservar estruturas. É necessário gerar vida. Não basta falar de Deus. É necessário tornar visível sua compaixão no mundo. Somente os frutos do amor permanecem. Somente os frutos da justiça revelam a autenticidade da fé. Somente os frutos da misericórdia testemunham a presença do Reino. E somente esses frutos anunciam que Deus já começou a fazer novas todas as coisas no meio da história humana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano
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