- Antes de agir, Jesus contempla: Marcos nos mostra um Mestre que não reage impulsivamente diante da realidade, mas a observa em silêncio, com profundidade e discernimento. Seu olhar percorre o Templo, as pessoas, as estruturas e os acontecimentos. Não é um olhar superficial, mas um olhar profético que busca a verdade escondida sob as aparências. Em uma cultura marcada pela pressa, pelas reações instantâneas e pelos julgamentos precipitados, Jesus revela uma pedagogia diferente. A verdadeira profecia não nasce da agitação nem da indignação momentânea. Ela nasce da contemplação, da escuta e da capacidade de permanecer diante da realidade até que ela revele seu sentido mais profundo.
- Antes de denunciar, discerne: O verdadeiro discernimento nasce da capacidade de enxergar além das aparências. Sua palavra não brota de preconceitos, emoções descontroladas ou interesses ideológicos. Brota de um coração inteiramente voltado para o Pai. O discernimento evangélico consiste em enxergar para além das folhas e reconhecer a presença ou a ausência dos frutos. É a capacidade de perceber aquilo que os olhos apressados não veem, distinguindo entre aparência e verdade, entre religiosidade e conversão, entre poder e serviço. Toda denúncia profética autêntica nasce de um longo exercício de escuta de Deus e de atenção à realidade humana.
- Antes de julgar, vê a realidade em sua profundidade: O verdadeiro anúncio do Reino não surge da impulsividade. Ele não se deixa seduzir pelas fachadas do poder religioso nem pelas aparências de prosperidade espiritual. Seu olhar alcança as raízes. Vê as dores escondidas, as injustiças normalizadas, as exclusões legitimadas e as esterilidades disfarçadas de sucesso. Por isso seu anúncio do Reino não é fruto da impulsividade, mas da compaixão e da verdade. Somente quem aprende a olhar o mundo com os olhos de Deus é capaz de anunciar uma palavra que não destrói, mas transforma; que não humilha, mas converte; que não condena simplesmente, mas abre caminhos para a vida nova.
Ao cair da tarde, Jesus retorna para Betânia. A geografia aqui também se transforma em teologia. Jerusalém representa o centro religioso, político e econômico da nação. Betânia, pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, representa a casa da amizade e da acolhida. É significativo que Jesus encontre repouso fora dos centros de poder. A história da salvação está repleta dessa lógica divina. Deus chama Abraão para sair das estruturas estabelecidas (Gn 12,1-3). Escolhe Moisés no deserto (Ex 3,1-10). Levanta profetas em tempos de crise institucional. Faz nascer o Messias numa manjedoura. O Reino frequentemente floresce nas periferias antes de alcançar os centros No dia seguinte, Marcos introduz um elemento que se tornará o eixo de toda a narrativa: a fome de Jesus. O evangelista afirma simplesmente que Jesus teve fome (Mc 11,12). A observação parece banal, mas carrega profundo significado teológico. O Filho de Deus assume plenamente a condição humana. Ele conhece o cansaço, a sede, a dor e a fome. Contudo, à medida que a narrativa avança, o leitor percebe que essa fome ultrapassa a necessidade física. Trata-se da fome de Deus por frutos. Trata-se da antiga busca divina por uma humanidade capaz de responder ao amor da aliança.
Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus procura frutos. No jardim do Éden, procura comunhão. Após o dilúvio, procura justiça. Na vocação de Abraão, procura um povo que seja bênção para todas as nações. Ao libertar Israel do Egito, procura uma comunidade capaz de testemunhar sua santidade entre os povos. A história bíblica inteira pode ser lida como a história de Deus buscando frutos de fidelidade, misericórdia, justiça e amor. É nesse contexto que Jesus se aproxima da figueira. Marcos observa que ela estava coberta de folhas, mas não possuía frutos. A cena causa estranhamento porque o próprio evangelista informa que não era tempo de figos. Contudo, o objetivo da narrativa não é ensinar botânica. Estamos diante de uma ação profética semelhante às realizadas por Jeremias, Ezequiel e Oseias. Como os antigos profetas, Jesus utiliza um gesto concreto para revelar uma realidade espiritual mais profunda.
Ao final desta narrativa, Marcos não oferece respostas fáceis. Ele deixa seus leitores diante de uma pergunta que atravessa os séculos, percorre a história da Igreja e alcança cada geração de discípulos: que tipo de árvore estamos nos tornando diante de Deus? Somos árvores que produzem frutos de justiça, misericórdia, compaixão e solidariedade, ou apenas exibimos a exuberância enganosa das folhas? Nossa fé gera vida para os que sofrem, esperança para os desanimados, dignidade para os esquecidos e acolhida para os excluídos, ou se limita à preservação de aparências religiosas e estruturas de poder? A pergunta não se dirige apenas aos indivíduos. Ela alcança também as comunidades, as Igrejas, as instituições e todas as formas de organização religiosa. Somos verdadeiramente casa de oração para todos os povos, como sonhou o profeta Isaías (Is 56,7), ou nos transformamos em espaços de exclusão, privilégio e autorreferencialidade? Nossa missão aproxima as pessoas do Deus da vida ou as submete a interesses ideológicos, econômicos e políticos que obscurecem a beleza do Evangelho? Produzimos os frutos do Reino ou apenas acumulamos os sinais externos da religião?
Jesus continua entrando em Jerusalém. Continua atravessando os pátios de nossos templos, as estruturas de nossas instituições, os corredores de nossas comunidades e os recantos mais escondidos de nossos corações. Continua observando. Continua contemplando. Continua discernindo. Seu olhar permanece o mesmo olhar que atravessou o Templo naquele entardecer. Um olhar que vê além das aparências, que alcança as raízes e que distingue entre aquilo que apenas parece vivo e aquilo que verdadeiramente gera vida. Ele continua procurando frutos. Não procura prestígio religioso, influência política, poder cultural ou sucesso econômico. Não procura multidões impressionadas, discursos grandiosos ou demonstrações públicas de piedade. Procura os mesmos frutos que Deus buscou desde o princípio de sua aliança com a humanidade: justiça para os pobres, pão para os famintos, dignidade para os humilhados, verdade para os oprimidos, misericórdia para os feridos, reconciliação para os divididos e amor para todos. Procura uma fé capaz de transformar a história e uma espiritualidade que se traduza em serviço concreto ao próximo.
A figueira seca permanece como advertência para toda forma de religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. Mas o Evangelho não termina na esterilidade. O mesmo Jesus que denuncia também restaura. O mesmo Senhor que julga a ausência de frutos oferece a possibilidade da conversão. O mesmo Cristo que purifica o Templo prepara uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma, com os irmãos e com toda a criação. Por isso, a última palavra desta passagem não é condenação, mas esperança. Não é destruição, mas renovação. Não é morte, mas fecundidade. O Reino de Deus continua germinando silenciosamente no mundo, como uma semente escondida na terra. Toda vez que a justiça vence a opressão, a figueira volta a florescer. Toda vez que a misericórdia supera a indiferença, a figueira volta a florescer. Toda vez que a verdade resiste à mentira, a solidariedade vence o egoísmo e o amor triunfa sobre o ódio, a figueira volta a florescer.
Então, diante do olhar de Cristo que continua percorrendo a história, permanece o convite à conversão. Não basta possuir folhas. É necessário produzir frutos. Não basta conservar estruturas. É necessário gerar vida. Não basta falar de Deus. É necessário tornar visível sua compaixão no mundo. Somente os frutos do amor permanecem. Somente os frutos da justiça revelam a autenticidade da fé. Somente os frutos da misericórdia testemunham a presença do Reino. E somente esses frutos anunciam que Deus já começou a fazer novas todas as coisas no meio da história humana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano

