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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,38-44

A perícope de Marcos 12,38-44, proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B, ocupa um lugar singular dentro da tradição litúrgica da Igreja Católica. Sua proclamação não acontece por acaso. Ela aparece em um momento em que a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre a autenticidade da fé, a relação entre culto e vida, a confiança em Deus e a radicalidade do seguimento de Jesus. O mesmo texto, ou suas variantes paralelas presentes em Lucas 21, 1-4 na segunda-feira da 34ª Semana do Tempo Comum  também encontra espaço nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e de outras Igrejas históricas, testemunhando a força universal dessa narrativa. Trata-se de um Evangelho que atravessa os séculos porque toca uma das questões mais profundas da experiência humana e religiosa: o que realmente oferecemos a Deus quando afirmamos que cremos nele? 

A cena acontece nos últimos dias da vida pública de Jesus. Jerusalém está tomada por peregrinos que chegaram para a celebração da Páscoa. O ambiente é de tensão crescente. Desde sua entrada na Cidade Santa, Jesus tem realizado gestos e pronunciado palavras que confrontam diretamente as estruturas religiosas de seu tempo. Sua expulsão dos vendedores do Templo em Marcos 11,15-19 ecoa as denúncias dos profetas que séculos antes já haviam advertido que Deus não se deixa aprisionar por instituições que perderam sua capacidade de gerar justiça. Quando Jeremias proclama: “Não confieis em palavras mentirosas, dizendo: Templo do Senhor, Templo do Senhor” (Jr 7,4), ele denuncia precisamente a ilusão de uma religião que preserva ritos enquanto abandona a aliança. Jesus se insere nessa mesma tradição profética.

Todo o contexto anterior prepara o leitor para compreender a profundidade da cena da viúva. Em Marcos 12,1-12, na parábola dos vinhateiros homicidas, os responsáveis pela vinha recusam a autoridade do proprietário e matam seus enviados. Em Marcos 12,13-17, Jesus desmascara a hipocrisia daqueles que tentam utilizá-lo em disputas políticas. Em Marcos 12,28-34, ele recoloca no centro da fé o amor a Deus e ao próximo, retomando Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Logo depois, em Marcos 12,38-40, denuncia os escribas que buscam honras e privilégios. Finalmente, surge a figura da viúva pobre. Ela não aparece como personagem secundária. Ela é a resposta concreta ao que significa viver o mandamento maior.

O contraste é intencional. De um lado estão homens reconhecidos socialmente, especialistas da Lei, admirados pelo povo, revestidos de prestígio religioso. Do outro está uma mulher sem nome. No mundo antigo, especialmente na Palestina do primeiro século, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. A morte do marido frequentemente significava insegurança econômica, fragilidade jurídica e exclusão social. Por isso, desde os tempos mais antigos, a Escritura insiste em sua proteção. Em Êxodo 22,22, Deus ordena: “Não afligireis nenhuma viúva nem órfão”. Em Deuteronômio 10,18, afirma-se que o Senhor “faz justiça ao órfão e à viúva”. Em Isaías 1,17, a verdadeira conversão passa por “defender a causa da viúva”. Em Zacarias 7,10, o povo é advertido a não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre.

A presença da viúva em Marcos não surge por acaso. Ela carrega consigo toda uma memória teológica construída ao longo das Escrituras. Sempre que uma viúva aparece na narrativa bíblica, Deus parece revelar algo fundamental sobre seu modo de agir na história. Desde a Torá até os Evangelhos, a viúva torna-se um símbolo vivo daqueles que perderam proteção, segurança e reconhecimento social. Por isso os salmos proclamam Deus como “pai dos órfãos e defensor das viúvas” (Sl 68,5), enquanto a Carta de Tiago afirma que a religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações (Tg 1,27). A verdadeira espiritualidade bíblica nunca se limita ao culto; ela se manifesta no cuidado concreto com aqueles que a sociedade tende a esquecer.

Quando contemplamos a viúva das duas moedas, toda uma galeria de mulheres da Escritura parece caminhar silenciosamente ao seu lado.

  1. Noemi e Rute aparecem como as primeiras grandes representantes dessa tradição. Após perder o marido Elimeleque e depois os filhos Malom e Quilion (Rt 1,3-5), Noemi experimenta a dor do esvaziamento absoluto. Sua história atravessa o sofrimento, a amargura e a insegurança. Ao seu lado permanece Rute, a estrangeira moabita que escolhe a fidelidade quando tudo parece perdido: “Teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus” (Rt 1,16). Através de Boaz, que assume a função do go'el, o resgatador familiar, Deus restaura a herança, a dignidade e a esperança daquela família. O Livro de Rute recorda que a providência divina também se manifesta através da solidariedade humana, da acolhida ao estrangeiro e do compromisso comunitário previsto na Lei, especialmente nas normas relativas à respiga dos campos (Lv 19,9-10; Dt 24,19-22).
  2.  A viúva de Sarepta (1Rs 17,8-24), encontrada por Elias durante uma das mais severas secas da história de Israel. Ela possui apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite. Prepara-se para a última refeição antes da morte. Sua situação lembra a fragilidade da viúva observada por Jesus junto ao tesouro do Templo. Ambas vivem na fronteira da sobrevivência. Contudo, ambas testemunham uma confiança que desafia a lógica da escassez. A farinha não acaba, o azeite não falta e mais tarde o filho morto volta à vida. A narrativa revela que Deus continua agindo mesmo quando os recursos humanos se esgotam.

  3.  Viúva que procura Eliseu (2Rs 4,1-7). Após a morte do marido, os credores ameaçam levar seus filhos como escravos para quitar dívidas. O relato expõe uma realidade econômica cruel, na qual os vulneráveis se tornavam vítimas dos mecanismos de exploração. O azeite multiplicado não produz riqueza supérflua; produz libertação. A dívida é paga e a família preserva sua liberdade. O texto denuncia estruturas econômicas injustas e anuncia um Deus comprometido com a dignidade humana.

  4. Ana, a profetisa (Lc 2,36-38), viúva que atravessou décadas de oração, jejum e esperança. Sua história mostra outra dimensão da experiência da viuvez. Enquanto algumas lutam pela sobrevivência material, Ana testemunha a perseverança espiritual. Ela permanece vigilante diante de Deus até reconhecer no menino Jesus o cumprimento das promessas messiânicas. Sua vida inteira transforma-se em espera fecunda.

  5. A viúva de Naim (Lc 7,11-17). Ela já havia perdido o marido e agora perde também o filho único. Sua dor é completa. Sua solidão é absoluta. Ao vê-la, Jesus é movido de profunda compaixão. Antes mesmo que ela formule qualquer pedido, o Senhor intervém. O cortejo fúnebre é interrompido e a vida triunfa sobre a morte. O relato manifesta um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas se aproxima dele com ternura e misericórdia.

  6. A viúva persistente da parábola de Lucas 18,1-8. Sem prestígio, sem influência e sem recursos, ela insiste diante de um juiz injusto até alcançar justiça. Sua perseverança torna-se símbolo dos pobres que continuam clamando mesmo diante da indiferença das estruturas de poder. A parábola ensina que Deus escuta o clamor dos pequenos e que a esperança não deve ser abandonada.

  7.  A viúva das duas moedas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Nela parece convergir toda a experiência das viúvas anteriores. Como Noemi, conhece a insegurança. Como a viúva de Sarepta, vive a escassez. Como a viúva de Eliseu, está inserida em um sistema que frequentemente pesa sobre os vulneráveis. Como a viúva de Naim, conhece a fragilidade da existência. Como Ana, deposita sua confiança em Deus. Como a viúva persistente, permanece firme apesar da ausência de poder social. Ela torna-se a síntese dos pobres do Senhor, os anawim, aqueles que colocam sua esperança não na riqueza, mas na fidelidade de Deus.

Ao longo de toda a Escritura, Deus demonstra olhar para aquilo que os seres humanos frequentemente não conseguem perceber. Quando Samuel procura o futuro rei de Israel, o Senhor lhe diz: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Essa chave hermenêutica ilumina todo o episódio. Os ricos oferecem grandes quantias. A viúva oferece quase nada. Aos olhos da lógica econômica, sua contribuição é insignificante. Aos olhos do Reino de Deus, ela se torna extraordinária.

Jesus declara que ela deu mais do que todos os outros porque os demais deram do que lhes sobrava, enquanto ela ofereceu tudo o que possuía para viver. O Evangelho desloca completamente os critérios habituais de avaliação. O valor da oferta não é medido pelo montante, mas pela profundidade da entrega. Assim como Abraão colocou seu futuro nas mãos de Deus (Gn 22), como Ana derramou sua alma diante do Senhor (1Sm 1,15), como Maria respondeu “faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38), a viúva oferece a própria existência.Existe ainda uma dimensão cristológica profunda nessa passagem. A viúva não apenas ensina algo sobre a fé. Ela reflete algo do próprio Cristo. Poucos capítulos depois, Jesus entregará não algumas moedas, mas sua própria vida. Como afirma Filipenses 2,6-8, ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo. O que a viúva realiza simbolicamente, Jesus realizará plenamente na cruz. Seu gesto torna-se uma antecipação silenciosa do Calvário.

Por isso, a narrativa não pode ser reduzida a uma reflexão sobre dinheiro. Ela toca o centro do discipulado cristão. Ela pergunta se oferecemos a Deus apenas aquilo que sobra ou se permitimos que toda a nossa vida seja transformada pelo Evangelho. Ela questiona uma religião baseada na aparência e propõe uma espiritualidade fundada na entrega. Não por acaso, Jesus inicia a narrativa denunciando aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40). A expressão possui enorme força social. Ela denuncia sistemas religiosos, econômicos e políticos que se alimentam da vulnerabilidade dos pobres. A mesma crítica atravessa Amós 2,6-7, Isaías 10,1-2, Jeremias 22,13-17 e Miqueias 3,1-3. A preocupação com a justiça social não é um elemento periférico da fé bíblica. Ela pertence ao seu próprio coração.

Essa tradição chega ao Novo Testamento quando Jesus proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Ela reaparece em Mateus 25,31-46, onde os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos se tornam o lugar do encontro com Cristo. Ela ressoa em Tiago 2,1-7, que denuncia privilégios concedidos aos ricos. Ela reaparece em 1 João 3,17, quando o autor pergunta como pode permanecer o amor de Deus naquele que fecha o coração diante do irmão necessitado. Assim, a viúva de Marcos continua viva nas periferias urbanas, nas famílias endividadas, nos idosos abandonados, nos refugiados, nos desempregados, nas vítimas da violência e em todos aqueles cuja dignidade é ameaçada. Ela continua questionando uma religião transformada em espetáculo, um clericalismo que busca privilégios, uma teologia da prosperidade que reduz a bênção divina à riqueza material e toda instrumentalização da fé para projetos de poder. Sua presença recorda que Deus permanece fiel àquilo que revelou desde o Êxodo, passando pelos profetas, pelos salmos e pelos Evangelhos. O Senhor continua ouvindo o clamor dos vulneráveis. Continua defendendo as viúvas. Continua derrubando os poderosos de seus tronos e exaltando os humildes (Lc 1,52). Continua chamando sua Igreja a ser sinal de justiça, misericórdia e solidariedade.

Ao final, a pergunta permanece aberta diante de cada discípulo:  

O que estamos entregando a Deus? Aquilo que sobra ou aquilo que somos? 

Não por acaso, poucos versículos antes deste episódio, Jesus havia sido interrogado sobre o pagamento do imposto ao imperador e respondera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Naquela ocasião, seus adversários apresentaram um denário romano, moeda que trazia gravada a imagem e a inscrição de César, símbolo do poder político, econômico e militar do Império. O valor de um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador rural. Já a viúva não oferece um denário. Ela deposita duas pequenas leptas, as menores moedas em circulação na Palestina do século I. Juntas, valiam cerca de um sessenta e quatro avos de um denário, algo que, em valores atuais, corresponderia apenas a alguns centavos, uma quantia praticamente insignificante aos olhos da economia humana.

Entretanto, é precisamente aqui que Marcos revela a profundidade do Evangelho. Diante de César, discute-se uma moeda que carrega sua imagem. Diante de Deus, apresenta-se uma mulher que oferece a própria vida. O denário levantava a questão sobre a quem pertence o dinheiro; a viúva responde silenciosamente a quem pertence o coração humano. Se a moeda com a imagem de César deve retornar a César, então o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), deve retornar inteiramente a Deus. A viúva compreendeu aquilo que muitos religiosos ainda não haviam compreendido. Ela não entrega apenas duas moedas,  cerca  de R$ 10,00 (dez reais)  nos dias de hoje. Ela entrega a si mesma. Seu gesto atravessa os séculos como uma das mais profundas profissões de fé de toda a Escritura. Nela encontramos a confiança de Abraão que parte sem saber para onde vai (Gn 12,1-4), a perseverança dos profetas que permanecem fiéis em meio às adversidades, a esperança dos pobres do Senhor que aguardam a salvação e a antecipação da entrega total de Cristo na cruz. Sua oferta é pequena aos olhos do mundo, mas imensa aos olhos de Deus, porque nela não há apenas cobre, não há apenas valor monetário, não há apenas esmola. Há uma existência inteira colocada nas mãos daquele que vê o coração (1Sm 16,7), sustenta os humildes (Sl 146,9), exalta os pequenos (Lc 1,52) e jamais abandona aqueles que nele depositam sua confiança. Diante dela, o Evangelho continua perguntando a cada geração: o que em nossa vida ainda pertence a César e o que verdadeiramente já pertence a Deus



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,11-26

Marcos 11,11-26 ocupa um lugar singular na tradição litúrgica cristã porque nos introduz no coração dos últimos dias da vida pública de Jesus. Na Igreja Católica Romana, esta passagem ecoa o seu horizonte mais amplo na celebração da Semana Santa, especialmente no contexto do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, quando a entrada messiânica em Jerusalém é proclamada como início do caminho que conduzirá à cruz e à ressurreição e sua proclamação na sexta-feira da Oitava semana do Tempo Comum ano ciclo par da Igreja  sendo a continuação indireta  da quinta-feira da Oitava semana do Tempo Comum.  Nas Igrejas do Oriente cristão, o Domingo de Ramos abre solenemente a Grande Semana, enquanto as tradições anglicana, luterana, reformada e demais Igrejas históricas leem estes acontecimentos como um dos momentos culminantes da revelação profética de Cristo. Entretanto, reduzir essa narrativa a uma simples história sobre uma figueira que seca ou sobre vendedores expulsos do Templo seria não perceber a profundidade teológica que Marcos cuidadosamente construiu. Estamos diante de uma grande parábola vivida, de uma ação profética que reúne séculos de história bíblica, a memória dos profetas, a esperança messiânica de Israel e a revelação de uma nova forma de relacionamento entre Deus e a humanidade.

O evangelista situa esses acontecimentos imediatamente após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A multidão havia estendido mantos pelo caminho e agitado ramos, evocando a memória dos reis davídicos e alimentando expectativas messiânicas. Muitos esperavam um libertador político. Outros sonhavam com a restauração nacional. Alguns imaginavam o fim da dominação romana. Contudo, Jesus surpreende a todos. Ele não dirige seus passos ao palácio de Herodes, não sobe à fortaleza Antônia para desafiar os soldados de César e não convoca qualquer revolta popular. Seu olhar dirige-se ao Templo. A questão central não é o poder imperial. A questão central é a fidelidade da aliança.
Marcos afirma que Jesus entrou no Templo, observou tudo ao redor e, como já era tarde, retirou-se para Betânia com os Doze (Mc 11,11). À primeira vista, parece um detalhe sem importância. Porém, a narrativa desacelera exatamente para que o leitor perceba a profundidade daquele olhar. O verbo utilizado pelo evangelista sugere uma observação atenta, abrangente, quase contemplativa. Jesus olha como os antigos profetas olhavam. Seu olhar recorda o Deus que viu a aflição de seu povo no Egito (Ex 3,7), que contemplou a corrupção denunciada por Amós (Am 5,11-12), que ouviu o clamor dos pobres e dos órfãos tantas vezes mencionado nos Salmos (Sl 34,7; Sl 146,7-9).  Aqui vale a pena  observar  três  coisas: 

  1. Antes de agir, Jesus contempla: Marcos nos mostra um Mestre que não reage impulsivamente diante da realidade, mas a observa em silêncio, com profundidade e discernimento. Seu olhar percorre o Templo, as pessoas, as estruturas e os acontecimentos. Não é um olhar superficial, mas um olhar profético que busca a verdade escondida sob as aparências. Em uma cultura marcada pela pressa, pelas reações instantâneas e pelos julgamentos precipitados, Jesus revela uma pedagogia diferente. A verdadeira profecia não nasce da agitação nem da indignação momentânea. Ela nasce da contemplação, da escuta e da capacidade de permanecer diante da realidade até que ela revele seu sentido mais profundo.
  2. Antes de denunciar, discerne: O verdadeiro discernimento nasce da capacidade de enxergar além das aparências. Sua palavra não brota de preconceitos, emoções descontroladas ou interesses ideológicos. Brota de um coração inteiramente voltado para o Pai. O discernimento evangélico consiste em enxergar para além das folhas e reconhecer a presença ou a ausência dos frutos. É a capacidade de perceber aquilo que os olhos apressados não veem, distinguindo entre aparência e verdade, entre religiosidade e conversão, entre poder e serviço. Toda denúncia profética autêntica nasce de um longo exercício de escuta de Deus e de atenção à realidade humana.
  3. Antes de julgar, vê a realidade em sua profundidade: O verdadeiro anúncio do Reino não surge da impulsividade. Ele não se deixa seduzir pelas fachadas do poder religioso nem pelas aparências de prosperidade espiritual. Seu olhar alcança as raízes. Vê as dores escondidas, as injustiças normalizadas, as exclusões legitimadas e as esterilidades disfarçadas de sucesso. Por isso seu anúncio do Reino não é fruto da impulsividade, mas da compaixão e da verdade. Somente quem aprende a olhar o mundo com os olhos de Deus é capaz de anunciar uma palavra que não destrói, mas transforma; que não humilha, mas converte; que não condena simplesmente, mas abre caminhos para a vida nova.

Ao cair da tarde, Jesus retorna para Betânia. A geografia aqui também se transforma em teologia. Jerusalém representa o centro religioso, político e econômico da nação. Betânia, pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, representa a casa da amizade e da acolhida. É significativo que Jesus encontre repouso fora dos centros de poder. A história da salvação está repleta dessa lógica divina. Deus chama Abraão para sair das estruturas estabelecidas (Gn 12,1-3). Escolhe Moisés no deserto (Ex 3,1-10). Levanta profetas em tempos de crise institucional. Faz nascer o Messias numa manjedoura. O Reino frequentemente floresce nas periferias antes de alcançar os centros No dia seguinte, Marcos introduz um elemento que se tornará o eixo de toda a narrativa: a fome de Jesus. O evangelista afirma simplesmente que Jesus teve fome (Mc 11,12). A observação parece banal, mas carrega profundo significado teológico. O Filho de Deus assume plenamente a condição humana. Ele conhece o cansaço, a sede, a dor e a fome. Contudo, à medida que a narrativa avança, o leitor percebe que essa fome ultrapassa a necessidade física. Trata-se da fome de Deus por frutos. Trata-se da antiga busca divina por uma humanidade capaz de responder ao amor da aliança.

Desde as primeiras páginas da Escritura, Deus procura frutos. No jardim do Éden, procura comunhão. Após o dilúvio, procura justiça. Na vocação de Abraão, procura um povo que seja bênção para todas as nações. Ao libertar Israel do Egito, procura uma comunidade capaz de testemunhar sua santidade entre os povos. A história bíblica inteira pode ser lida como a história de Deus buscando frutos de fidelidade, misericórdia, justiça e amor. É nesse contexto que Jesus se aproxima da figueira. Marcos observa que ela estava coberta de folhas, mas não possuía frutos. A cena causa estranhamento porque o próprio evangelista informa que não era tempo de figos. Contudo, o objetivo da narrativa não é ensinar botânica. Estamos diante de uma ação profética semelhante às realizadas por Jeremias, Ezequiel e Oseias. Como os antigos profetas, Jesus utiliza um gesto concreto para revelar uma realidade espiritual mais profunda.

A imagem da figueira possui longa história na tradição bíblica. Oseias compara os primeiros tempos de Israel aos primeiros frutos encontrados numa figueira (Os 9,10). Jeremias lamenta que não existam figos na árvore, utilizando essa imagem para descrever a infidelidade do povo (Jr 8,13). Miqueias transforma a ausência de frutos numa poderosa denúncia da corrupção social e moral de sua época (Mq 7,1-6). Joel utiliza a devastação da figueira como símbolo do juízo divino (Jl 1,7). Quando Jesus se aproxima da árvore carregada de folhas, Marcos espera que seus leitores recordem toda essa tradição profética.
A figueira torna-se então um retrato de Israel, mas também de toda religiosidade que conserva sinais exteriores de vitalidade enquanto perde sua capacidade de gerar vida. Há folhas, mas faltam frutos. Há aparência, mas falta substância. Há culto, mas falta justiça. Há devoção pública, mas falta misericórdia. Há instituições religiosas vigorosas, mas enfraquece-se a compaixão pelos pobres, pelos excluídos e pelos sofredores.
Essa denúncia não surge apenas em Marcos. Ela atravessa toda a Escritura. Isaías denuncia um culto que convive com a opressão dos vulneráveis e proclama que Deus prefere a prática da justiça aos sacrifícios vazios (Is 1,10-17). Amós rejeita celebrações religiosas que coexistem com a exploração econômica e exige que o direito corra como um rio perene (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências simples e revolucionárias: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Jesus encontra-se plenamente inserido nessa tradição. Sua crítica não é dirigida contra a religião em si, mas contra a deformação da religião.
É precisamente por isso que Marcos intercala a narrativa da figueira com a purificação do Templo. A figueira aparece antes e depois do episódio do santuário. Essa construção literária não é acidental. A árvore interpreta o Templo e o Templo explica a árvore. A esterilidade da figueira revela a esterilidade de um sistema religioso incapaz de produzir os frutos que Deus procura.
Para compreender a força desse gesto, é necessário recordar o significado do Templo no século I. O santuário de Jerusalém não era apenas um lugar de oração. Era o centro simbólico da identidade nacional. Ali convergiam religião, economia, política e cultura. Peregrinos chegavam de diversas regiões do mundo mediterrâneo. Sacrifícios eram oferecidos diariamente. Tributos eram arrecadados. Animais eram vendidos para o culto. Cambistas trocavam moedas estrangeiras pela moeda aceita no santuário. O Templo constituía o coração visível da vida judaica.

Jesus não ignora a importância dessa instituição. Contudo, ao entrar no átrio e expulsar vendedores e cambistas, ele revela que algo essencial havia se perdido. O problema não reside simplesmente na existência do comércio. O problema encontra-se na transformação da casa de Deus em espaço submetido às mesmas lógicas de exclusão, privilégio e exploração presentes na sociedade.
Por isso Jesus une duas passagens fundamentais da Escritura. A primeira vem de Isaías: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56,7). A segunda vem de Jeremias: “Transformastes esta casa em covil de ladrões” (Jr 7,11). A combinação dessas duas citações revela a profundidade da denúncia. O projeto divino sempre foi universal. O Templo deveria manifestar a acolhida de Deus para todos os povos. Entretanto, aquilo que deveria ser espaço de comunhão havia se tornado instrumento de interesses particulares.
A crítica de Jesus alcança então uma dimensão que ultrapassa Jerusalém e atravessa toda a história religiosa da humanidade. Sempre que a fé se transforma em instrumento de poder, a figueira volta a secar. Sempre que a religião é utilizada para legitimar privilégios, a figueira volta a secar. Sempre que líderes espirituais substituem o serviço pela busca de prestígio, a figueira volta a secar. Sempre que comunidades religiosas se preocupam mais com sua autopreservação do que com o sofrimento humano, a figueira volta a secar.
Essa palavra continua extraordinariamente atual. Em nosso tempo, a instrumentalização da fé assume formas diversas. Em alguns contextos, a religião torna-se ferramenta de projetos político-partidários. Em outros, converte-se em mercado espiritual. Em outros ainda, transforma-se em mecanismo de controle ideológico. A chamada teologia da prosperidade frequentemente reduz a bênção divina ao sucesso econômico individual, esquecendo a centralidade dos pobres no anúncio do Reino. A teologia do domínio corre o risco de substituir o testemunho evangélico pela busca de hegemonia cultural e política. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo Magistério contemporâneo, transforma ministérios de serviço em estruturas de poder. Em todos esses casos, a crítica de Jesus permanece viva.


O Concílio Vaticano II procurou recuperar precisamente a imagem evangélica da Igreja como povo de Deus peregrino na história. A Lumen Gentium recorda que toda autoridade eclesial existe para servir. A Gaudium et Spes afirma que as alegrias e esperanças dos pobres são também as alegrias e esperanças dos discípulos de Cristo. Os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida retomaram essa intuição ao insistirem na opção preferencial pelos pobres como consequência inseparável da fé cristã. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que se identificou com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados (Mt 25,31-46).

Quando os discípulos percebem que a figueira secou desde as raízes, Marcos introduz uma imagem de enorme profundidade espiritual. Não secaram apenas os galhos. Secaram as raízes. Na linguagem bíblica, a raiz representa a origem da vida, o fundamento da existência, aquilo que sustenta toda a árvore. A crise denunciada por Jesus não é superficial. Ela atinge o coração da experiência religiosa. Também hoje é possível encontrar árvores cobertas de folhas. Multiplicam-se discursos religiosos, manifestações públicas de fé, símbolos visíveis e conteúdos espirituais. Contudo, a pergunta permanece: onde estão os frutos? Onde está a justiça para os pobres? Onde está a compaixão pelos que sofrem? Onde está o compromisso com a verdade? Onde está a misericórdia capaz de vencer o ódio e a violência?
A resposta de Jesus não consiste em destruir, mas em reconstruir. Após a denúncia, ele fala da fé, da oração e do perdão. O movimento é profundamente significativo. O velho sistema está secando, mas Deus prepara algo novo. “Tende fé em Deus” (Mc 11,22). A fé não aparece aqui como técnica para obtenção de vantagens pessoais. Trata-se de confiança radical naquele que permanece fiel à sua aliança. A montanha lançada ao mar simboliza aquilo que parece impossível aos olhos humanos. A verdadeira transformação nasce da confiança em Deus e não da força dos sistemas humanos.
Por isso a narrativa culmina numa referência ao perdão. “Quando estiverdes rezando, perdoai” (Mc 11,25). O verdadeiro culto não consiste apenas em ritos corretos. Consiste em relações reconciliadas. A oração autêntica conduz à misericórdia. A comunhão com Deus produz comunhão entre os seres humanos. O amor ao Senhor e o amor ao próximo tornam-se inseparáveis, como Jesus ensinará pouco depois ao resumir toda a Lei no duplo mandamento do amor (Mc 12,29-31).

Ao final desta narrativa, Marcos não oferece respostas fáceis. Ele deixa seus leitores diante de uma pergunta que atravessa os séculos, percorre a história da Igreja e alcança cada geração de discípulos: que tipo de árvore estamos nos tornando diante de Deus? Somos árvores que produzem frutos de justiça, misericórdia, compaixão e solidariedade, ou apenas exibimos a exuberância enganosa das folhas? Nossa fé gera vida para os que sofrem, esperança para os desanimados, dignidade para os esquecidos e acolhida para os excluídos, ou se limita à preservação de aparências religiosas e estruturas de poder? A pergunta não se dirige apenas aos indivíduos. Ela alcança também as comunidades, as Igrejas, as instituições e todas as formas de organização religiosa. Somos verdadeiramente casa de oração para todos os povos, como sonhou o profeta Isaías (Is 56,7), ou nos transformamos em espaços de exclusão, privilégio e autorreferencialidade? Nossa missão aproxima as pessoas do Deus da vida ou as submete a interesses ideológicos, econômicos e políticos que obscurecem a beleza do Evangelho? Produzimos os frutos do Reino ou apenas acumulamos os sinais externos da religião?

Jesus continua entrando em Jerusalém. Continua atravessando os pátios de nossos templos, as estruturas de nossas instituições, os corredores de nossas comunidades e os recantos mais escondidos de nossos corações. Continua observando. Continua contemplando. Continua discernindo. Seu olhar permanece o mesmo olhar que atravessou o Templo naquele entardecer. Um olhar que vê além das aparências, que alcança as raízes e que distingue entre aquilo que apenas parece vivo e aquilo que verdadeiramente gera vida. Ele continua procurando frutos. Não procura prestígio religioso, influência política, poder cultural ou sucesso econômico. Não procura multidões impressionadas, discursos grandiosos ou demonstrações públicas de piedade. Procura os mesmos frutos que Deus buscou desde o princípio de sua aliança com a humanidade: justiça para os pobres, pão para os famintos, dignidade para os humilhados, verdade para os oprimidos, misericórdia para os feridos, reconciliação para os divididos e amor para todos. Procura uma fé capaz de transformar a história e uma espiritualidade que se traduza em serviço concreto ao próximo.

A figueira seca permanece como advertência para toda forma de religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. Mas o Evangelho não termina na esterilidade. O mesmo Jesus que denuncia também restaura. O mesmo Senhor que julga a ausência de frutos oferece a possibilidade da conversão. O mesmo Cristo que purifica o Templo prepara uma nova humanidade reconciliada com Deus, consigo mesma, com os irmãos e com toda a criação. Por isso, a última palavra desta passagem não é condenação, mas esperança. Não é destruição, mas renovação. Não é morte, mas fecundidade. O Reino de Deus continua germinando silenciosamente no mundo, como uma semente escondida na terra. Toda vez que a justiça vence a opressão, a figueira volta a florescer. Toda vez que a misericórdia supera a indiferença, a figueira volta a florescer. Toda vez que a verdade resiste à mentira, a solidariedade vence o egoísmo e o amor triunfa sobre o ódio, a figueira volta a florescer.

Então, diante do olhar de Cristo que continua percorrendo a história, permanece o convite à conversão. Não basta possuir folhas. É necessário produzir frutos. Não basta conservar estruturas. É necessário gerar vida. Não basta falar de Deus. É necessário tornar visível sua compaixão no mundo. Somente os frutos do amor permanecem. Somente os frutos da justiça revelam a autenticidade da fé. Somente os frutos da misericórdia testemunham a presença do Reino. E somente esses frutos anunciam que Deus já começou a fazer novas todas as coisas no meio da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,31-37

 
A perícope de Marcos 7,31-37, proclamada na 6ª-feira da 5ª semana do Tempo Comum do Ano Ímpar e no 23º Domingo do Tempo Comum do Ano B, não pode ser reduzida a um simples episódio de cura entre tantos outros. Trata-se de um momento-chave na pedagogia do Evangelho segundo Marcos, em que a identidade de Jesus e o alcance de sua missão se tornam cada vez mais claros. Após a forte controvérsia sobre a pureza ritual (Mc 7,1-23), na qual Jesus desloca o centro da santidade das práticas exteriores para a interioridade do coração  antecipando o que já denunciavam os profetas (cf. Is 29,13) —, e depois do encontro com a mulher siro-fen9ícia (Mc 7,24-30), onde a fé de uma estrangeira desmonta fronteiras étnicas e religiosas, o Senhor se dirige à região da Decápole. Esse itinerário não é mero dado geográfico: é gesto teológico, é anúncio encarnado.

A Decápole era um conjunto de cidades de forte influência helenista, majoritariamente gentílicas, marcadas por cultura greco-romana. Ao atravessar esse território, Jesus rompe simbolicamente os muros que separavam judeus e pagãos. O Messias de Israel não permanece confinado a um nacionalismo religioso. Ele age fora das fronteiras cultuais, antecipando concretamente o que Isaías proclamara: “Eu te estabeleci como luz das nações” (Is 49,6).  Assim, a cura do surdo com dificuldade de falar não é apenas um ato de compaixão individual; é sinal escatológico. Em Isaías 35,5-6, a abertura dos ouvidos dos surdos e a soltura da língua dos mudos são marcas da chegada do tempo messiânico. Marcos, atento a essa tradição profética, apresenta Jesus como aquele em quem as promessas se cumprem. O “Effatá” (Mc 7,34) ecoa como palavra criadora, semelhante ao “haja” do Gênesis (Gn 1), inaugurando uma nova possibilidade de escuta e de comunicação.

Do ponto de vista antropológico e pastoral, o texto também interpela a condição humana: surdez e mudez não são apenas limitações físicas; simbolizam a incapacidade de ouvir a Palavra e de proclamá-la. Em uma sociedade saturada de discursos, mas pobre de escuta profunda, o Evangelho denuncia a surdez espiritual que nasce do fechamento do coração. A crítica implícita não é apenas dirigida aos pagãos, mas também ao religioso que cumpre ritos e permanece impermeável à conversão interior.

Portanto, essa perícope deve ser lida como revelação progressiva da identidade de Cristo e como manifestação da universalidade do Reino. Jesus atravessa fronteiras geográficas para desinstalar fronteiras interiores. Ele toca, aproxima-se, suspira, fala  e restaura a dignidade humana. A pergunta que emerge para a assembleia não é apenas sobre o que Jesus fez, mas sobre o que ainda precisa ser aberto em nós: quais ouvidos permanecem fechados? Que vozes continuam silenciadas por estruturas religiosas, sociais ou ideológicas que preferem manter o controle a permitir que a Palavra liberte? A introdução dessa reflexão, portanto, nos coloca diante de um Cristo que não se deixa aprisionar por fronteiras culturais nem por sistemas religiosos autorreferenciais. Seu gesto na Decápole anuncia que o Reino é dom oferecido a todos  e que a verdadeira pureza começa quando o coração se deixa abrir.

Esse cenário histórico ilumina a força do gesto. Ao inserir a cura nesse contexto, Marcos sugere que a salvação não está confinada a um espaço sagrado delimitado, mas atravessa territórios considerados impuros. A mesma lógica já aparecera na libertação do geraseno (Mc 5,1-20). Agora, porém, não se trata de expulsar demônios, mas de restaurar a capacidade de ouvir e falar. A comunicação, fundamento da vida social e religiosa, é reconstituída justamente onde a alteridade é mais evidente.

O homem apresentado é surdo e tinha dificuldade de falar. A condição física, no imaginário antigo, frequentemente era associada a culpa ou maldição, como revela a pergunta em João 9,2. Jesus rompe com essa leitura automática. Mais ainda: em Marcos, a surdez adquire dimensão simbólica. Pouco depois, os discípulos serão interpelados: “Tendes ouvidos e não ouvis?” (Mc 8,18). A incapacidade auditiva torna-se metáfora da incompreensão diante do mistério do Reino. Assim, a cura física antecipa a necessidade de abertura espiritual que culminará na confissão de Pedro (Mc 8,29) e que só será plenamente purificada à luz da cruz (Mc 15,39).

Essa simbologia encontra raízes profundas na tradição bíblica. A fé de Israel nasce da escuta: “Ouve, Israel” (Dt 6,4). Isaías denuncia o endurecimento dos ouvidos (Is 6,10), e o Salmo 115 descreve ídolos que têm ouvidos, mas não ouvem. A idolatria produz surdez espiritual. Quando estruturas de poder, riqueza ou ideologia ocupam o lugar de Deus, a capacidade de discernir a verdade se atrofia. Por isso Jeremias 5,21 lamenta um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. A cura narrada por Marcos revela, então, mais que compaixão individual: denuncia a condição humana fechada à revelação.

É nesse contexto que o gesto de Jesus ganha densidade. Ele conduz o homem à parte, longe da multidão (Mc 7,33). A ação divina não se constrói no espetáculo, mas no encontro pessoal. A pedagogia do silêncio percorre toda a Escritura: Elias reconhece o Senhor na brisa suave (1Rs 19,12), e Oseias fala do deserto como lugar de reconquista do coração (Os 2,16). Em contraste com a cultura contemporânea do ruído constante e da exposição permanente, esse detalhe revela que a escuta profunda exige recolhimento. A sociedade hiperconectada corre o risco de tornar-se espiritualmente dispersa, incapaz de atenção interior. O toque nos ouvidos e na língua, acompanhado do suspiro elevado ao céu, revela a corporeidade da salvação. O Verbo se fez carne (Jo 1,14); Deus age na materialidade da história. A saliva, também presente em João 9,6, integrava práticas terapêuticas antigas. Marcos não elimina o elemento cultural, mas o assume, indicando que a graça não destrói a realidade humana, antes a eleva. O suspiro recorda o gemido do Espírito (Rm 8,26) e o clamor do povo no Êxodo (Ex 2,23). O milagre é resposta compassiva, não demonstração de poder.

A palavra aramaica “Efatá” preserva a força do momento. Como “Talitá kum” (Mc 5,41), ela ecoa o imperativo criador de Gênesis 1. Isaías 35,5-6 já anunciara que os ouvidos dos surdos se abririam e a língua do mudo cantaria. Em Mateus 15,29-31, multidões testemunham sinais semelhantes em território gentílico, reforçando o cumprimento messiânico. O Reino se manifesta não por supremacia política, mas por restauração da dignidade humana. Aqui emerge contraste decisivo com espiritualidades que prometem prosperidade material como critério de bênção. O homem curado recebe voz e integração, não riqueza. Jesus já advertira: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A ordem de silêncio (Mc 7,36) aprofunda essa lógica. A identidade de Cristo não pode ser reduzida a taumaturgo popular. O segredo messiânico preserva o mistério que só se revela plenamente na cruz. Quando o centurião proclama a filiação divina de Jesus (Mc 15,39), compreende-se que o verdadeiro poder se manifesta na vulnerabilidade. A teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para legitimar supremacias, é desmentida pelo Crucificado. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).

Esse dinamismo repercute no plano social. No mundo antigo, limitações físicas podiam gerar restrições cultuais (Lv 21,18-20). Jesus rompe a associação entre integridade corporal e dignidade espiritual. Paulo desenvolve essa intuição ao afirmar que os membros mais frágeis são indispensáveis (1Cor 12,22). Em sociedades que ainda marginalizam pessoas com deficiência ou minorias, o texto convoca à inclusão concreta. A Igreja não pode reproduzir exclusões que o Evangelho supera. A abertura dos ouvidos conduz à abertura comunitária. Em Atos 15, a Igreja nascente discerne em diálogo: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). A escuta mútua torna-se critério eclesial. O sacerdócio comum proclamado em 1Pedro 2,9 impede a concentração absoluta da voz num único segmento. Quando práticas clericalistas sufocam a participação do povo, o “Efatá” torna-se chamado à conversão estrutural.

A surdez contemporânea assume novas formas. Polarizações ideológicas, consumo religioso e manipulação midiática produzem ambientes em que a verdade é fragmentada. A advertência de Hebreus 3,15 — “não endureçais o vosso coração” — mantém-se atual. Provérbios 21,13 lembra que quem fecha o ouvido ao pobre não será ouvido. O Evangelho confronta estruturas que ignoram injustiças sociais. Lucas 4,18-19 apresenta o programa messiânico centrado na libertação e na restauração. A cura do surdo-mudo participa dessa mesma dinâmica libertadora. No desfecho, a multidão exclama: “Tudo fez bem” (Mc 7,37), eco de Gênesis 1,31. A nova criação manifesta-se no território da alteridade. O itinerário começa com isolamento e culmina em comunhão. Essa progressão oferece chave hermenêutica para a atualidade: onde Cristo é acolhido, o silêncio imposto pela exclusão transforma-se em palavra de louvor. A esperança cristã, expressa em Apocalipse 21,5 — “Eis que faço novas todas as coisas” — impede que a surdez social seja considerada destino inevitável.

À luz de Marcos 7,31-37, compreendemos que não estamos diante de uma lembrança piedosa de um milagre distante, mas de um apelo que atravessa a história e alcança a Igreja de hoje. A cura do surdo e gago na região da Decápole revela que o agir de Cristo continua sendo abertura: abertura do corpo, da consciência e da comunidade. Se o gesto de Jesus cumpre as promessas messiânicas anunciadas em Isaías 35,5-6, ele também desvela nossa própria condição espiritual. “Efatá” não é apenas palavra dirigida àquele homem; é imperativo dirigido a todos nós. Abrir os ouvidos significa deixar que a Palavra viva e eficaz (Hb 4,12) atravesse nossas resistências, cure nossas distorções e confronte nossas falsas seguranças religiosas. Abrir a boca significa abandonar a cumplicidade com a mentira e testemunhar a verdade na justiça (Ef 4,25), mesmo quando isso desinstala privilégios e estruturas cristalizadas.

Num contexto em que o sagrado pode ser instrumentalizado por ideologias, nacionalismos religiosos ou projetos de poder, o Evangelho recorda que a fé não é mercadoria nem espetáculo. Ela é encontro transformador. A comunidade que acolhe o “Efatá” deixa de ser círculo fechado e torna-se espaço de integração dos marginalizados, ecoando a prática de Jesus que atravessa fronteiras culturais e religiosas. Assim, esta perícope nos conduz a um exame profundo: que surdez ainda carregamos diante do clamor dos pobres? Que mudez nos impede de denunciar injustiças e anunciar esperança? Onde o “Efatá” é acolhido, o poder se converte em serviço (cf. Mc 10,45), a religião deixa de ser aparência e torna-se vida concreta, e a comunhão vence o isolamento. Só então será possível repetir com verdade e responsabilidade a confissão admirada da multidão: “Tudo Ele fez bem.”



DNonato - Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 4,26-34

 

O Evangelho de Marcos 4,26-34 marca presença na liturgia em dois momentos distintos: no 11º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e na sexta-feira da 3ª semana (anos pares). Essa dupla inserção não é mera coincidência, mas um sinal litúrgico eloquente: a semente do Reino não germina apenas na solenidade do domingo, mas também na terra batida do cotidiano, entre o cansaço e a perseverança silenciosa. Situado no coração da pedagogia de Jesus, este texto parabólico recusa respostas fáceis ou promessas de sucesso imediato. Em vez disso, convida-nos a uma conversão profunda do olhar, reeducando nossa percepção sobre o tempo de Deus e as expectativas humanas

Marcos escreve para comunidades pequenas, frágeis, socialmente irrelevantes, marcadas pela perseguição e pela sensação de insignificância histórica. Não são comunidades triunfantes nem hegemônicas; são grupos que vivem à margem do Império, tentando discernir se a fé em Jesus crucificado faz sentido num mundo estruturado pela força, pela dominação e pela violência. Nesse contexto, o Evangelho não sustenta essas comunidades com promessas de crescimento numérico ou prestígio social, mas com a confiança de que Deus age silenciosamente na história, mesmo quando tudo parece imóvel. O Reino anunciado por Jesus não coincide com o imaginário messiânico dominante nem com os projetos religiosos de poder; ele nasce pequeno, cresce escondido e amadurece no tempo de Deus. A parábola da semente lançada na terra remete ao gesto primordial de Deus que planta a vida no caos e confia à criação uma fecundidade própria. O eco de Gênesis é evidente: “Que a terra produza vegetação” (Gn 1,11-12). O ser humano, colocado no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2,15), não é dono da vida, mas cooperador. Exegeticamente, quando Marcos afirma que a terra produz fruto “por si mesma”, não exclui Deus do processo, mas reconhece uma lógica divina inscrita na criação, que precede e excede o controle humano. A sabedoria bíblica sempre advertiu contra a ilusão do domínio: “Muitos são os projetos do coração humano, mas o desígnio do Senhor permanece” (Pr 19,21).

O semeador não controla o crescimento. Ele semeia e retorna à normalidade da vida: dorme, acorda, atravessa o tempo. Essa imagem desmonta toda espiritualidade baseada na ansiedade, na performance religiosa e no controle dos resultados. Marcos, em contraste com Mateus e Lucas, radicaliza essa afirmação. Em Mateus 13, a fecundidade está associada à escuta perseverante; em Lucas 8, ao coração que guarda a Palavra com constância. Marcos, porém, afirma que o Reino cresce mesmo além da consciência do semeador. O crescimento não depende da eficiência humana, mas da fidelidade ao gesto inicial de semear. Essa lógica encontra profundo eco na tradição profética. Isaías descreve a Palavra como chuva que fecunda a terra e não retorna vazia (Is 55,10-11). Jeremias compara o justo a uma árvore plantada junto às águas, que não teme o tempo da seca (Jr 17,7-8). O Salmo 65 celebra o cuidado de Deus que visita a terra e a faz transbordar de vida. Jesus retoma essa tradição e a desloca do campo da expectativa futura para o interior da história presente. O Reino não é apenas promessa escatológica; ele já atua, ainda que de modo discreto e muitas vezes imperceptível.

O crescimento gradual — primeiro o broto, depois a espiga, depois o grão cheio — revela uma pedagogia divina que respeita processos. Aqui o texto dialoga profundamente com a experiência humana. A psicologia reconhece que o amadurecimento saudável exige tempo, elaboração de conflitos e atravessamento da fragilidade. A fé não foge dessa dinâmica. Por isso, a parábola liberta o discípulo da culpa por não corresponder a modelos idealizados de santidade imediata e denuncia discursos religiosos que exigem produtividade espiritual contínua, ignorando a condição humana. Quando Jesus fala da colheita, introduz a dimensão escatológica sem recorrer ao medo. O juízo aparece como revelação da verdade que amadureceu ao longo da história. Joel fala do tempo em que a foice é lançada porque a colheita chegou (Jl 4,13). Mateus retoma essa lógica na parábola do joio e do trigo, onde a separação só ocorre no tempo oportuno (Mt 13,24-30). Lucas fala do tempo da visitação de Deus (Lc 19,44). O juízo não é punição arbitrária, mas desvelamento do que foi gestado no silêncio.

Paulo aprofunda essa compreensão ao afirmar que cada um colherá o que tiver semeado (Gl 6,7-9) e que o crescimento pertence a Deus (1Cor 3,6-7). A história, portanto, não caminha para o vazio, mas para uma plenitude que não pode ser forçada nem antecipada. Essa visão confronta diretamente as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem colheitas imediatas, sucesso visível e ascensão social como sinais da bênção divina. O Evangelho insiste que o Reino cresce na fidelidade cotidiana e muitas vezes na contradição.

A parábola do grão de mostarda aprofunda ainda mais essa inversão simbólica. O que começa pequeno torna-se espaço de abrigo. A imagem dialoga com Ezequiel 17,22-24 e com Daniel 4, onde a árvore abriga povos e nações. Jesus, porém, redefine o símbolo: o Reino não é império que domina, mas comunidade que acolhe. As aves que repousam nos ramos evocam hospitalidade, cuidado e proteção, em contraste com sistemas que exploram e descartam vidas. Essa imagem ganha força quando confrontada com a realidade contemporânea. Vivemos sob a lógica da aceleração, do desempenho e da competição permanente. Também o campo religioso sofre essa pressão, transformando a fé em produto, a espiritualidade em técnica e a missão em marketing. Marcos 4 desautoriza essa lógica ao afirmar que o Reino não cresce pela visibilidade, mas pela fidelidade ao pequeno e ao cotidiano.

É preciso  lembrar ao padres e  pastores e demais clérigos  que o semeador não é dono do crescimento. Quando lideranças religiosas se colocam como mediadoras absolutas da graça ou administradoras exclusivas do Reino, negam o núcleo da parábola. Jesus afirma que autoridade, entre seus discípulos, significa serviço (Mc 10,42-45). Pedro exorta os presbíteros a apascentarem sem dominar (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminho (Lumen Gentium, 9).

Santo Irineu de Lyon afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo, cuja plenitude se constrói no tempo. Agostinho lembrava que Deus age na história sem violentar a liberdade humana. Gregório de Nissa falava do crescimento espiritual como um movimento contínuo em direção a Deus, sem esgotamento do mistério. O Reino cresce, portanto, também no interior da pessoa, como processo de conversão permanente. Essa compreensão do Reino exige uma releitura radical da noção de tempo. O tempo bíblico não se reduz ao chronos mensurável e produtivista, mas se abre ao kairós, o tempo oportuno de Deus. O Eclesiastes lembra que há um tempo para cada coisa (Ecl 3,1), e Habacuque afirma que a visão não falhará, ainda que pareça tardar (Hab 2,3). Esperar, nesse horizonte, não é passividade, mas fidelidade perseverante. Do ponto de vista histórico e sociológico, essa lógica revela que transformações profundas amadurecem no subsolo da história antes de se tornarem visíveis. O Evangelho reconhece essa dinâmica e a inscreve no horizonte teológico. O Reino cresce como fermento escondido na massa (Mt 13,33), transformando por dentro estruturas marcadas pela desigualdade e pela exclusão.

Por isso, Marcos 4 também denuncia uma fé individualista e desencarnada. A semente é lançada num campo comum. O Reino tem dimensão comunitária e histórica. A fé que não se traduz em relações justas e compromisso com os vulneráveis contradiz o Evangelho. Tiago é incisivo ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17).

Esse texto oferece, enfim, profundo consolo espiritual. Ele fala a quem semeia no anonimato, a quem vive a fidelidade cotidiana sem reconhecimento, a quem experimenta o cansaço e a sensação de inutilidade. O Salmo 126 recorda que os que semeiam entre lágrimas colherão com alegria. A esperança cristã não é ingenuidade, mas confiança de que Deus permanece fiel à sua promessa. Ao proclamar Marcos 4,26-34 no 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B e na sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum nos anos pares, a liturgia convida a Igreja a reencontrar sua identidade mais profunda. Essa proclamação acontece dentro de um conjunto mais amplo de leituras que, na tradição litúrgica, reforçam a pedagogia do pequeno, do processo e da confiança. No 11º Domingo do Tempo Comum – Ano B, a primeira leitura é retirada de Ezequiel 17,22-24, onde Deus promete plantar um ramo pequeno que se tornará árvore frondosa. O Salmo responsorial proclama que é bom louvar o Senhor porque o justo cresce como a palmeira e se desenvolve como o cedro do Líbano (Sl 92). A segunda leitura, de 2Coríntios 5,6-10, afirma que caminhamos pela fé e não pela visão. O conjunto das leituras cria um campo hermenêutico coerente: o Reino cresce no oculto, sustenta-se pela confiança e não se mede por critérios imediatos.

Também na liturgia ferial da sexta-feira da 3ª semana do Tempo Comum, nos anos pares, Marcos 4,26-34 dialoga com leituras que reforçam a paciência histórica e a fidelidade cotidiana. A Palavra proclamada nesse dia insere o fiel no ritmo ordinário do Tempo Comum, recordando que a ação de Deus não se limita aos grandes momentos litúrgicos, mas se manifesta na perseverança silenciosa da vida diária. A repetição desse Evangelho ao longo do ano litúrgico revela sua centralidade na compreensão cristã do Reino.

O contexto histórico do texto remete à Palestina do século I, marcada por forte desigualdade social, exploração agrícola, cobrança de impostos abusivos e concentração de terras. A maioria dos ouvintes de Jesus era formada por camponeses que conheciam bem o ritmo da semeadura, a espera angustiada pela chuva e a insegurança da colheita. Falar de sementes, terra e crescimento não era recurso poético abstrato, mas linguagem profundamente encarnada. Jesus não idealiza o campo; Ele fala a partir da experiência concreta de um povo vulnerável, submetido ao poder romano e às elites religiosas locais. Nesse contexto, a imagem de um Reino que cresce sem violência e sem espetáculo constitui uma crítica implícita tanto ao Império Romano quanto às expectativas messiânicas de cunho nacionalista e militar. Enquanto o Império se expandia pela força e pela imposição, Jesus anuncia um Reino que cresce como semente, sem exércitos, sem propaganda e sem coerção. Essa contraposição atravessa todo o Evangelho de Marcos, que apresenta um Messias rejeitado, incompreendido e crucificado.

Outros textos bíblicos retomam imagens semelhantes para falar da ação discreta de Deus na história. O profeta Oséias compara a fidelidade divina ao orvalho que faz brotar a vida (Os 14,6). Zacarias fala de não desprezar o dia das pequenas coisas (Zc 4,10). O Salmo 127 recorda que, se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalham os construtores. No Novo Testamento, Jesus utiliza imagens afins ao falar do fermento escondido na massa (Mt 13,33), do grão de trigo que precisa morrer para dar fruto (Jo 12,24) e da videira e dos ramos, onde a fecundidade depende da permanência e não da agitação (Jo 15,1-8).

A tradição paulina reforça essa mesma lógica. Em Romanos 8, Paulo descreve a criação inteira como que gemendo em dores de parto, aguardando a plenitude que ainda não se manifestou plenamente. Em Filipenses 1,6, ele afirma confiar que aquele que começou a boa obra a levará a termo. A história da salvação, portanto, é marcada por processos, não por atalhos. Ao ser proclamado hoje, esse texto encontra uma realidade marcada por crises múltiplas: crise ecológica, social, política, econômica e também religiosa. A lógica do imediato, do consumo e da visibilidade colonizou não apenas a sociedade, mas também muitas expressões de fé. Igrejas competem por fiéis, líderes disputam influência, e a linguagem religiosa é frequentemente instrumentalizada para legitimar projetos de poder, exclusão e violência simbólica. Nesse cenário, Marcos 4,26-34 ressoa como palavra profundamente contracultural.

A parábola questiona frontalmente a teologia da prosperidade, que associa a bênção de Deus ao sucesso material e à ascensão social. Questiona também a teologia do domínio, que legitima a ocupação de espaços de poder em nome de Deus. Ambas reduzem o Reino a um projeto humano e traem o Evangelho. Jesus nunca prometeu visibilidade, prestígio ou imunidade ao sofrimento; prometeu, sim, a presença fiel de Deus no meio da história.

O texto também interpela a Igreja em sua configuração atual. Em tempos de clericalismo persistente, de centralização excessiva e de autorreferencialidade, a parábola recorda que o crescimento do Reino não depende do controle institucional, mas da ação livre do Espírito. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que a Igreja é sacramento universal de salvação, não a identifica com o Reino, mas a coloca a seu serviço. Essa distinção é fundamental para evitar que a instituição se substitua ao Evangelho.

Por fim, a perícope de Marcos 4,26-34 constitui o fundamento hermenêutico para a esperança cristã no tempo presente. Ela atesta que a fidelidade ordinária, ainda que oculta aos olhos do mundo, possui eficácia histórica e alcance escatológico. Nenhum gesto de amor é estéril. Como nos recorda a Carta aos Hebreus, a nossa garantia reside naquele que é Fiel (Hb 10,23). Assumir essa lógica é um ato de resistência contra a cultura do cinismo e a tirania do imediatismo, descansando na certeza de que o Reino germina — de forma silenciosa, discreta e soberanamente irreversível



DNonato – Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 3, 1-6

O Evangelho segundo Marcos nos conduz, em Mc 3,1-6, a uma das cenas mais densas, inquietantes e reveladoras do ministério público de Jesus: a cura do homem da mão ressequida dentro da sinagoga. Trata-se de um episódio curto em extensão, m
as de profundidade teológica decisiva, 9no qual se condensam tensões centrais do Evangelho: vida e norma, misericórdia e legalismo, revelação e endurecimento do coração. A liturgia da Igreja proclama este texto em dois momentos distintos e, ao mesmo tempo, profundamente interligados: na quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e no 9º Domingo do Tempo Comum, quando ele aparece inseparável da narrativa anterior de Mc 2,23–28, o episódio das espigas colhidas em dia de sábado.

Essa recorrência litúrgica não é casual nem redundante. Ela funciona como um gesto pedagógico da própria Igreja, que nos convida a retornar ao texto, a habitá-lo com mais atenção e a permitir que ele amadureça na escuta comunitária, revelando camadas cada vez mais profundas de sentido. O que está em jogo não é uma mera disputa jurídica sobre a observância do sábado, mas a manifestação de um conflito estrutural: o embate entre o projeto libertador de Deus, centrado na vida e na dignidade humana, e um sistema religioso que, ao absolutizar a norma, perdeu a capacidade de reconhecer a presença de Deus justamente onde a vida clama por restauração.

Nesse cenário, a sinagoga deixa de ser apenas um espaço de culto e torna-se o lugar simbólico onde se confrontam duas teologias, duas imagens de Deus e duas maneiras de compreender a fidelidade. Jesus não apenas cura uma mão atrofiada; Ele desvela a atrofia espiritual de um modelo religioso incapaz de perceber que o sábado existe para a vida, e não a vida para o sábado. É esse deslocamento radical — do legalismo para a misericórdia, da norma para o humano, do controle para a compaixão — que faz de Mc 3,1-6 um texto permanentemente atual, provocativo e decisivo para o discernimento da fé vivida no cotidiano.

Esse conflito começa a ser delineado já em Mc 2,23–28 proclamado ontem, quando os discípulos colhem espigas em dia de sábado porque têm fome. A fome, aqui, não é um detalhe narrativo, mas uma chave hermenêutica decisiva. Na tradição bíblica, a fome expressa a vulnerabilidade humana, o limite constitutivo da criatura, sua dependência radical. Jesus não espiritualiza essa necessidade nem a transforma em motivo de acusação moral. Ao contrário, ele a assume como lugar teológico e recorda a história de Davi, que, diante da urgência da vida, comeu os pães da proposição, reservados aos sacerdotes (1Sm 21,1-6). Com esse gesto interpretativo, Jesus se insere na tradição mais profunda da Escritura, onde a Lei jamais foi pensada como instrumento de morte, mas como caminho de vida. A afirmação “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27) emerge, assim, como síntese antropológica e teológica de grande alcance: Deus não cria normas para esmagar a criatura, mas para torná-la plenamente humana.

É exatamente esse horizonte que ilumina a leitura de Mc 3,1-6. Jesus entra novamente na sinagoga. O advérbio não é neutro. Ele indica perseverança, fidelidade e coragem. Mesmo sabendo que ali será observado, julgado e possivelmente condenado, Jesus não abandona o espaço religioso. A sinagoga é o lugar da Palavra interpretada, da memória da Aliança e da identidade do povo. É justamente nesse espaço que a tensão se torna mais visível. No centro da assembleia está um homem com a mão ressequida. Marcos não lhe dá nome, como se quisesse sublinhar que ele representa todos os anônimos da história, definidos não pelo que são, mas pelo que lhes falta. Na antropologia bíblica, a mão simboliza ação, trabalho, poder, bênção e responsabilidade. Com as mãos, o ser humano constrói, acolhe, cria laços e transforma a realidade. Uma mão ressequida é, portanto, uma existência bloqueada, impedida de agir e de participar plenamente da vida social, econômica e religiosa.

A presença desse homem na sinagoga revela uma contradição inquietante: ele está no espaço da fé, mas permanece com a vida paralisada. A religião convive com a dor sem se deixar afetar por ela. O texto afirma que alguns observavam Jesus para ver se ele curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem. Trata-se de um olhar vigilante, não contemplativo. Não é um olhar que busca compreender, mas que procura motivo para condenar. A fé, assim, degrada-se em tribunal. Nesse contexto, Jesus toma a iniciativa e chama o homem para o centro. O gesto é profundamente simbólico: aquilo que era marginal se torna central, aquilo que era invisível passa a ser visto. A pergunta que Jesus dirige aos presentes 

“É permitido, no sábado, fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou matar?”

Expondo  a perversão de um sistema que, em nome da Lei, tolera a morte. O silêncio dos adversários é revelador. Não é silêncio de escuta, mas de endurecimento do coração.

Marcos utiliza deliberadamente a categoria bíblica da dureza do coração, evocando a memória do faraó no Êxodo, cuja resistência obstinada se opunha ao projeto libertador de Deus (Ex 7–11). Ao aplicar essa imagem aos líderes religiosos, o evangelista denuncia um deslocamento trágico: aqueles que deveriam guardar a memória da libertação tornam-se seus negadores. O olhar de Jesus, descrito como mistura de indignação e tristeza, revela a dor de Deus diante de uma religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. A cura acontece a partir de uma ordem simples: “Estende a mão.” Não há gestos espetaculares nem palavras mágicas. O homem é convidado a um movimento de confiança, a expor aquilo que estava retraído, paralisado, talvez escondido por vergonha ou medo. A restauração acontece no momento em que ele aceita sair da imobilidade.

Esse gesto, aparentemente simples, carrega profunda densidade simbólica e antropológica. A mão ressequida não é apenas um membro doente, mas expressão de uma corporeidade ferida pela exclusão. Na Escritura, o corpo é lugar da revelação. Deus cria com suas mãos (Sl 8,4), liberta com mão forte e braço estendido (Ex 6,6) e abençoa pela imposição das mãos. Ter a mão ressequida é ter a história inscrita no corpo, marcada por estruturas que produzem impotência e silenciamento. Ao curar essa mão em dia de sábado, Jesus revela que a salvação não é abstrata nem desencarnada. Ela passa pelo corpo concreto, situado, ferido. Psicologicamente, o gesto de estender a mão implica superar o medo e a interiorização da exclusão. Teologicamente, proclama que o Reino de Deus começa quando o corpo recupera sua dignidade e sua capacidade de agir na história.

Nos paralelos sinóticos, esse simbolismo se amplia e se aprofunda. Mateus (12,9-14) acrescenta a imagem da ovelha caída no poço, evocando o cuidado concreto com a vida mesmo em dia sagrado. Lucas (6,6-11) especifica que a mão era a direita, intensificando ainda mais a dimensão simbólica da perda, já que a mão direita estava associada à força, à honra e à ação pública. Em todos os relatos, a cura provoca reação violenta. A defesa da Lei se converte em projeto de morte. Marcos é particularmente incisivo ao narrar a aliança entre fariseus e herodianos, grupos distintos, mas unidos na eliminação daquele que devolve vida. A restauração do corpo ameaça estruturas de poder.

Esse conflito só pode ser compreendido plenamente quando se aprofunda o sentido do sábado como tempo messiânico. Na criação, o sábado não é mera interrupção do trabalho, mas coroamento da obra de Deus, quando a vida é contemplada como boa e suficiente (Gn 2,1-3). No Deuteronômio, ele se torna memorial da libertação do Egito (Dt 5,12-15). Guardar o sábado é afirmar que ninguém nasceu para ser escravo. Nos profetas, o sábado se transforma em critério de autenticidade da fé, inseparável da justiça e da libertação dos oprimidos (Is 58). Em Jesus, esse horizonte se radicaliza: o sábado deixa de ser apenas memória do passado e se torna antecipação do Reino. Curar em dia de sábado não é violar a Lei, mas revelar seu sentido escatológico. Onde a vida é restaurada, ali o sábado se cumpre.

A sinagoga, cenário dessa cura, emerge então como espaço de conflito hermenêutico. Ela é o lugar da interpretação da Escritura, da formação da consciência coletiva. É ali que se confrontam duas leituras da Lei: uma hermenêutica do controle, que vigia e exclui, e uma hermenêutica da misericórdia, que coloca a vida concreta como critério. Jesus não rompe com a sinagoga, mas a atravessa criticamente, revelando sua vocação original. Esse conflito atravessa toda a história da fé e chega até a Igreja contemporânea.

O Concílio Vaticano II procurou responder a esse desafio ao afirmar que a Palavra de Deus deve ser lida à luz dos sinais dos tempos (GS 4) e que todo o povo de Deus participa da função profética de Cristo (LG 12). Na tradição latino-americana, os documentos do CELAM aprofundaram essa perspectiva ao articular fé e vida, denunciando estruturas de pecado e assumindo a opção preferencial pelos pobres. A mão ressequida torna-se, assim, símbolo histórico dos corpos feridos da América Latina, e o sábado messiânico, anúncio de libertação concreta.

À luz desse Evangelho, tornam-se evidentes as contradições das teologias que transformam a fé em mercadoria. A teologia da prosperidade converte o sábado em vitrine de sucesso e a mão em instrumento de consumo. A teologia do domínio sacraliza o poder e ignora os corpos esmagados pelo sistema. O individualismo espiritual esvazia a dimensão comunitária do sábado. O clericalismo endurece o coração institucional e impede a escuta do sofrimento real do povo. Todas essas formas de religiosidade entram em choque com o gesto simples e radical de Jesus que devolve vida a quem estava paralisado.

O desfecho do texto, com a decisão de matar Jesus, revela o preço dessa hermenêutica da vida. A cruz começa a ser erguida no momento em que a mão é restaurada. Esse paradoxo atravessa a história cristã e permanece atual. Sempre que a religião escolhe a vida, ela entra em conflito com sistemas que lucram com a morte. O sábado de Jesus não é o da imobilidade, mas o da recriação contínua. É o tempo em que Deus insiste em refazer a criação ferida, começando pelos corpos e pelas instituições chamadas à conversão.

Assim, Marcos 3,1-6 permanece como um texto de força profética inesgotável, capaz de atravessar os séculos e desinstalar toda fé acomodada. Ele nos provoca a discernir que sábado escolhemos celebrar, que mãos estamos realmente dispostos a estender e que hermenêutica sustenta ou trai  nossa adesão ao Evangelho. Não se trata de abolir a Lei, mas de libertá-la de leituras que a tornaram instrumento de controle, exclusão e morte. O Reino de Deus irrompe ali onde a vida concreta é colocada no centro, onde a Palavra recupera sua vocação originária de libertar e não de oprimir, e onde a misericórdia deixa de ser um adorno piedoso para tornar-se o critério último da fidelidade a Deus. Fora disso, resta apenas um sábado vazio, mãos fechadas e uma religião que, em nome de Deus, se distancia perigosamente do próprio Deus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano