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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,38-44

A perícope de Marcos 12,38-44, proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B, ocupa um lugar singular dentro da tradição litúrgica da Igreja Católica. Sua proclamação não acontece por acaso. Ela aparece em um momento em que a Igreja convida os fiéis a refletirem sobre a autenticidade da fé, a relação entre culto e vida, a confiança em Deus e a radicalidade do seguimento de Jesus. O mesmo texto, ou suas variantes paralelas presentes em Lucas 21, 1-4 na segunda-feira da 34ª Semana do Tempo Comum  também encontra espaço nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e de outras Igrejas históricas, testemunhando a força universal dessa narrativa. Trata-se de um Evangelho que atravessa os séculos porque toca uma das questões mais profundas da experiência humana e religiosa: o que realmente oferecemos a Deus quando afirmamos que cremos nele? 

A cena acontece nos últimos dias da vida pública de Jesus. Jerusalém está tomada por peregrinos que chegaram para a celebração da Páscoa. O ambiente é de tensão crescente. Desde sua entrada na Cidade Santa, Jesus tem realizado gestos e pronunciado palavras que confrontam diretamente as estruturas religiosas de seu tempo. Sua expulsão dos vendedores do Templo em Marcos 11,15-19 ecoa as denúncias dos profetas que séculos antes já haviam advertido que Deus não se deixa aprisionar por instituições que perderam sua capacidade de gerar justiça. Quando Jeremias proclama: “Não confieis em palavras mentirosas, dizendo: Templo do Senhor, Templo do Senhor” (Jr 7,4), ele denuncia precisamente a ilusão de uma religião que preserva ritos enquanto abandona a aliança. Jesus se insere nessa mesma tradição profética.

Todo o contexto anterior prepara o leitor para compreender a profundidade da cena da viúva. Em Marcos 12,1-12, na parábola dos vinhateiros homicidas, os responsáveis pela vinha recusam a autoridade do proprietário e matam seus enviados. Em Marcos 12,13-17, Jesus desmascara a hipocrisia daqueles que tentam utilizá-lo em disputas políticas. Em Marcos 12,28-34, ele recoloca no centro da fé o amor a Deus e ao próximo, retomando Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Logo depois, em Marcos 12,38-40, denuncia os escribas que buscam honras e privilégios. Finalmente, surge a figura da viúva pobre. Ela não aparece como personagem secundária. Ela é a resposta concreta ao que significa viver o mandamento maior.

O contraste é intencional. De um lado estão homens reconhecidos socialmente, especialistas da Lei, admirados pelo povo, revestidos de prestígio religioso. Do outro está uma mulher sem nome. No mundo antigo, especialmente na Palestina do primeiro século, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. A morte do marido frequentemente significava insegurança econômica, fragilidade jurídica e exclusão social. Por isso, desde os tempos mais antigos, a Escritura insiste em sua proteção. Em Êxodo 22,22, Deus ordena: “Não afligireis nenhuma viúva nem órfão”. Em Deuteronômio 10,18, afirma-se que o Senhor “faz justiça ao órfão e à viúva”. Em Isaías 1,17, a verdadeira conversão passa por “defender a causa da viúva”. Em Zacarias 7,10, o povo é advertido a não oprimir o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre.

A presença da viúva em Marcos não surge por acaso. Ela carrega consigo toda uma memória teológica construída ao longo das Escrituras. Sempre que uma viúva aparece na narrativa bíblica, Deus parece revelar algo fundamental sobre seu modo de agir na história. Desde a Torá até os Evangelhos, a viúva torna-se um símbolo vivo daqueles que perderam proteção, segurança e reconhecimento social. Por isso os salmos proclamam Deus como “pai dos órfãos e defensor das viúvas” (Sl 68,5), enquanto a Carta de Tiago afirma que a religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações (Tg 1,27). A verdadeira espiritualidade bíblica nunca se limita ao culto; ela se manifesta no cuidado concreto com aqueles que a sociedade tende a esquecer.

Quando contemplamos a viúva das duas moedas, toda uma galeria de mulheres da Escritura parece caminhar silenciosamente ao seu lado.

  1. Noemi e Rute aparecem como as primeiras grandes representantes dessa tradição. Após perder o marido Elimeleque e depois os filhos Malom e Quilion (Rt 1,3-5), Noemi experimenta a dor do esvaziamento absoluto. Sua história atravessa o sofrimento, a amargura e a insegurança. Ao seu lado permanece Rute, a estrangeira moabita que escolhe a fidelidade quando tudo parece perdido: “Teu povo será meu povo e teu Deus será meu Deus” (Rt 1,16). Através de Boaz, que assume a função do go'el, o resgatador familiar, Deus restaura a herança, a dignidade e a esperança daquela família. O Livro de Rute recorda que a providência divina também se manifesta através da solidariedade humana, da acolhida ao estrangeiro e do compromisso comunitário previsto na Lei, especialmente nas normas relativas à respiga dos campos (Lv 19,9-10; Dt 24,19-22).
  2.  A viúva de Sarepta (1Rs 17,8-24), encontrada por Elias durante uma das mais severas secas da história de Israel. Ela possui apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite. Prepara-se para a última refeição antes da morte. Sua situação lembra a fragilidade da viúva observada por Jesus junto ao tesouro do Templo. Ambas vivem na fronteira da sobrevivência. Contudo, ambas testemunham uma confiança que desafia a lógica da escassez. A farinha não acaba, o azeite não falta e mais tarde o filho morto volta à vida. A narrativa revela que Deus continua agindo mesmo quando os recursos humanos se esgotam.

  3.  Viúva que procura Eliseu (2Rs 4,1-7). Após a morte do marido, os credores ameaçam levar seus filhos como escravos para quitar dívidas. O relato expõe uma realidade econômica cruel, na qual os vulneráveis se tornavam vítimas dos mecanismos de exploração. O azeite multiplicado não produz riqueza supérflua; produz libertação. A dívida é paga e a família preserva sua liberdade. O texto denuncia estruturas econômicas injustas e anuncia um Deus comprometido com a dignidade humana.

  4. Ana, a profetisa (Lc 2,36-38), viúva que atravessou décadas de oração, jejum e esperança. Sua história mostra outra dimensão da experiência da viuvez. Enquanto algumas lutam pela sobrevivência material, Ana testemunha a perseverança espiritual. Ela permanece vigilante diante de Deus até reconhecer no menino Jesus o cumprimento das promessas messiânicas. Sua vida inteira transforma-se em espera fecunda.

  5. A viúva de Naim (Lc 7,11-17). Ela já havia perdido o marido e agora perde também o filho único. Sua dor é completa. Sua solidão é absoluta. Ao vê-la, Jesus é movido de profunda compaixão. Antes mesmo que ela formule qualquer pedido, o Senhor intervém. O cortejo fúnebre é interrompido e a vida triunfa sobre a morte. O relato manifesta um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas se aproxima dele com ternura e misericórdia.

  6. A viúva persistente da parábola de Lucas 18,1-8. Sem prestígio, sem influência e sem recursos, ela insiste diante de um juiz injusto até alcançar justiça. Sua perseverança torna-se símbolo dos pobres que continuam clamando mesmo diante da indiferença das estruturas de poder. A parábola ensina que Deus escuta o clamor dos pequenos e que a esperança não deve ser abandonada.

  7.  A viúva das duas moedas (Mc 12,41-44; Lc 21,1-4). Nela parece convergir toda a experiência das viúvas anteriores. Como Noemi, conhece a insegurança. Como a viúva de Sarepta, vive a escassez. Como a viúva de Eliseu, está inserida em um sistema que frequentemente pesa sobre os vulneráveis. Como a viúva de Naim, conhece a fragilidade da existência. Como Ana, deposita sua confiança em Deus. Como a viúva persistente, permanece firme apesar da ausência de poder social. Ela torna-se a síntese dos pobres do Senhor, os anawim, aqueles que colocam sua esperança não na riqueza, mas na fidelidade de Deus.

Ao longo de toda a Escritura, Deus demonstra olhar para aquilo que os seres humanos frequentemente não conseguem perceber. Quando Samuel procura o futuro rei de Israel, o Senhor lhe diz: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Essa chave hermenêutica ilumina todo o episódio. Os ricos oferecem grandes quantias. A viúva oferece quase nada. Aos olhos da lógica econômica, sua contribuição é insignificante. Aos olhos do Reino de Deus, ela se torna extraordinária.

Jesus declara que ela deu mais do que todos os outros porque os demais deram do que lhes sobrava, enquanto ela ofereceu tudo o que possuía para viver. O Evangelho desloca completamente os critérios habituais de avaliação. O valor da oferta não é medido pelo montante, mas pela profundidade da entrega. Assim como Abraão colocou seu futuro nas mãos de Deus (Gn 22), como Ana derramou sua alma diante do Senhor (1Sm 1,15), como Maria respondeu “faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38), a viúva oferece a própria existência.Existe ainda uma dimensão cristológica profunda nessa passagem. A viúva não apenas ensina algo sobre a fé. Ela reflete algo do próprio Cristo. Poucos capítulos depois, Jesus entregará não algumas moedas, mas sua própria vida. Como afirma Filipenses 2,6-8, ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo. O que a viúva realiza simbolicamente, Jesus realizará plenamente na cruz. Seu gesto torna-se uma antecipação silenciosa do Calvário.

Por isso, a narrativa não pode ser reduzida a uma reflexão sobre dinheiro. Ela toca o centro do discipulado cristão. Ela pergunta se oferecemos a Deus apenas aquilo que sobra ou se permitimos que toda a nossa vida seja transformada pelo Evangelho. Ela questiona uma religião baseada na aparência e propõe uma espiritualidade fundada na entrega. Não por acaso, Jesus inicia a narrativa denunciando aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40). A expressão possui enorme força social. Ela denuncia sistemas religiosos, econômicos e políticos que se alimentam da vulnerabilidade dos pobres. A mesma crítica atravessa Amós 2,6-7, Isaías 10,1-2, Jeremias 22,13-17 e Miqueias 3,1-3. A preocupação com a justiça social não é um elemento periférico da fé bíblica. Ela pertence ao seu próprio coração.

Essa tradição chega ao Novo Testamento quando Jesus proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Ela reaparece em Mateus 25,31-46, onde os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos se tornam o lugar do encontro com Cristo. Ela ressoa em Tiago 2,1-7, que denuncia privilégios concedidos aos ricos. Ela reaparece em 1 João 3,17, quando o autor pergunta como pode permanecer o amor de Deus naquele que fecha o coração diante do irmão necessitado. Assim, a viúva de Marcos continua viva nas periferias urbanas, nas famílias endividadas, nos idosos abandonados, nos refugiados, nos desempregados, nas vítimas da violência e em todos aqueles cuja dignidade é ameaçada. Ela continua questionando uma religião transformada em espetáculo, um clericalismo que busca privilégios, uma teologia da prosperidade que reduz a bênção divina à riqueza material e toda instrumentalização da fé para projetos de poder. Sua presença recorda que Deus permanece fiel àquilo que revelou desde o Êxodo, passando pelos profetas, pelos salmos e pelos Evangelhos. O Senhor continua ouvindo o clamor dos vulneráveis. Continua defendendo as viúvas. Continua derrubando os poderosos de seus tronos e exaltando os humildes (Lc 1,52). Continua chamando sua Igreja a ser sinal de justiça, misericórdia e solidariedade.

Ao final, a pergunta permanece aberta diante de cada discípulo:  

O que estamos entregando a Deus? Aquilo que sobra ou aquilo que somos? 

Não por acaso, poucos versículos antes deste episódio, Jesus havia sido interrogado sobre o pagamento do imposto ao imperador e respondera: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Naquela ocasião, seus adversários apresentaram um denário romano, moeda que trazia gravada a imagem e a inscrição de César, símbolo do poder político, econômico e militar do Império. O valor de um denário correspondia aproximadamente ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador rural. Já a viúva não oferece um denário. Ela deposita duas pequenas leptas, as menores moedas em circulação na Palestina do século I. Juntas, valiam cerca de um sessenta e quatro avos de um denário, algo que, em valores atuais, corresponderia apenas a alguns centavos, uma quantia praticamente insignificante aos olhos da economia humana.

Entretanto, é precisamente aqui que Marcos revela a profundidade do Evangelho. Diante de César, discute-se uma moeda que carrega sua imagem. Diante de Deus, apresenta-se uma mulher que oferece a própria vida. O denário levantava a questão sobre a quem pertence o dinheiro; a viúva responde silenciosamente a quem pertence o coração humano. Se a moeda com a imagem de César deve retornar a César, então o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), deve retornar inteiramente a Deus. A viúva compreendeu aquilo que muitos religiosos ainda não haviam compreendido. Ela não entrega apenas duas moedas,  cerca  de R$ 10,00 (dez reais)  nos dias de hoje. Ela entrega a si mesma. Seu gesto atravessa os séculos como uma das mais profundas profissões de fé de toda a Escritura. Nela encontramos a confiança de Abraão que parte sem saber para onde vai (Gn 12,1-4), a perseverança dos profetas que permanecem fiéis em meio às adversidades, a esperança dos pobres do Senhor que aguardam a salvação e a antecipação da entrega total de Cristo na cruz. Sua oferta é pequena aos olhos do mundo, mas imensa aos olhos de Deus, porque nela não há apenas cobre, não há apenas valor monetário, não há apenas esmola. Há uma existência inteira colocada nas mãos daquele que vê o coração (1Sm 16,7), sustenta os humildes (Sl 146,9), exalta os pequenos (Lc 1,52) e jamais abandona aqueles que nele depositam sua confiança. Diante dela, o Evangelho continua perguntando a cada geração: o que em nossa vida ainda pertence a César e o que verdadeiramente já pertence a Deus



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 6,24-34

 

A Confiança como Rebelião: A Subversão do Reino Contra Mamom

A perícope de Mateus 6,24-34, proclamada na liturgia da Igreja Católica no 11º Sábado do Tempo Comum e também no 8º Domingo do Tempo Comum do Ano A, sendo a continuação  do Evangelho da sexta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum  e esta   Evangelho sinotico de  Lucas 12,39‑48 Na quarta-feira da 29ª semana do Tempo ou Lucas 12, 32-48 - 19º Domingo do Tempo Comum apresenta dos ensinamentos mais desafiadores e libertadores de Jesus. Sua mensagem não oferece um consolo superficial nem uma fuga espiritual diante das inquietações da vida. Ao contrário, constitui uma profunda crítica às falsas seguranças que dominam o coração humano. Quando afirma que ninguém pode servir a Deus e a Mamom, Jesus desmascara a idolatria do dinheiro, do acúmulo, do consumo e da obsessão pelo controle, realidades que continuam estruturando grande parte das relações sociais e econômicas de nosso tempo..A confiança inabalável em Deus, proposta por Jesus, é uma verdadeira rebelião sagrada contra os ídolos que prometem segurança, mas geram ansiedade, exclusão e medo. O Mestre convida seus discípulos a uma nova lógica existencial: a lógica do Reino de Deus. Nela, a confiança substitui a preocupação excessiva, a providência divina relativiza a busca desenfreada por garantias materiais, e a partilha vence a avareza. Contemplando os pássaros do céu e os lírios do campo, Jesus revela que a criação inteira testemunha o cuidado amoroso do Pai. Assim, o presente deixa de ser apenas o tempo cronológico das urgências e se torna kairos, o tempo oportuno da graça, onde a vida é acolhida como dom e o Reino é buscado acima de todas as coisas.

"Mamom", em aramaico, não é um substantivo neutro. É nome de senhor. É figura simbólica de um poder espiritual que exige culto. Como Baal nos tempos antigos, é uma divindade sedutora que promete segurança, mas cobra em troca a alma do adorador. Não por acaso, Jesus não descreve o dinheiro como um bem neutro, mas como um senhor rival de Deus. A escolha entre servir a Deus ou a Mamom é a escolha entre liberdade e escravidão. Como adverte São João Crisóstomo: “nada é mais escravizante que a riqueza quando se torna fim e não meio”. A crítica de Jesus, portanto, é estrutural, não meramente ética. Ele toca a raiz da alienação humana: o desejo desordenado de possuir como forma de garantir a própria existência — desejo este que se converte em sistema social, ideologia e mercado. Do ponto de vista exegético, o texto está situado no coração do Sermão da Montanha — o manifesto do Reino. Jesus ali não oferece conselhos morais avulsos, mas delineia um ethos escatológico: uma forma de viver desde já a realidade do Reino vindouro. A estrutura do discurso progride com intencionalidade pedagógica: começa com o alerta contra o duplo senhorio (v. 24), convida à contemplação da criação (vv. 26-30) e culmina no chamado radical à busca do Reino (v. 33). A repetição do verbo “não vos preocupeis” (merimnáo, em grego) funciona como refrão que desconstrói a ansiedade como modo de ser e revela uma espiritualidade alternativa, fundada na confiança radical, que  não é ingenuidade, mas resultado de uma antropologia elevada. O ser humano, segundo a tradição bíblica, é mais que consumidor  é imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). O valor da vida não se mede por bens acumulados (cf. Lc 12,15). A criação é sacramento da providência, como sugerem os lírios do campo e as aves do céu. O olhar que Jesus propõe é um olhar contemplativo, que vê na natureza o testemunho da fidelidade divina. Como escreveu São Gregório de Nissa: “quem conhece a si mesmo contempla a Deus também nas criaturas”.

A ansiedade descrita por Jesus é mais que um distúrbio psicológico. É uma doença espiritual enraizada em uma cultura que nega o limite, idolatra o futuro e exige autossuficiência. Na lógica neoliberal contemporânea, a ansiedade se torna virtude produtiva: sujeitos ansiosos rendem mais, consomem mais, obedecem mais. A promessa de segurança vendida pelos mercados  por meio de seguros, previdências, investimentos é, muitas vezes, máscara de um sistema que explora a insegurança para lucrar com ela. O "espírito do capitalismo", como dizia Max Weber, se nutre da ansiedade produtiva. E é contra esse espírito que o Espírito de Deus se ergue. Jesus, ao dizer “basta a cada dia o seu mal” (Mt 6,34), está propondo uma revolução temporal. Ele nos chama a viver o presente, a redescobrir a sacramentalidade do agora. Aqui há um eco da filosofia de Kierkegaard, que via na angústia a vertigem da liberdade: somos sufocados não pelos fatos, mas pela multiplicidade de possibilidades que tentamos controlar. Confiar em Deus é, portanto, um ato de libertação interior que tem consequências externas: altera nossas relações, nossa economia, nosso modo de habitar o mundo.

É preciso lembrar: Jesus não elogia a pobreza como fatalismo, mas denuncia a riqueza idolatrada como violência. Seu discurso está em consonância com os profetas como Amós e Isaías, que denunciaram as elites que oprimiam os pobres enquanto festejavam nos palácios (cf. Am 6,1-6; Is 5,8). Está também em profunda harmonia com os Padres da Igreja: São Basílio Magno questionava: “Como ousas chamar de teu o que foi dado para todos?” Santo Ambrósio afirmava: “A terra foi feita para todos, mas poucos a tomaram para si”. A espiritualidade cristã verdadeira é incompatível com a acumulação injusta e o desprezo pelos pequenos. Hoje, essa incompatibilidade exige urgência profética diante da ascensão da extrema direita, que, em nome de um pseudocristianismo de valores, abençoa armas, exclui os estrangeiros e justifica a desigualdade. Não há nada de evangélico nisso. O nacionalismo excludente, o armamentismo, o racismo estrutural e a fobia ao diferente são pecados sociais que ferem o corpo de Cristo. Jesus foi perseguido por desestabilizar as estruturas religiosas e políticas do seu tempo; seria hoje perseguido pelos mesmos que dizem segui-lo enquanto promovem a exclusão. O clericalismo, por sua vez, é o braço religioso desse sistema. Quando a Igreja se fecha em si mesma, quando seus ministros se comportam como príncipes e não como servidores, quando transformam a liturgia em um espetáculo emocional e sentimentalista, ela deixa de ser celebração da vida, e o dirigente se reduz a um mestre de cerimônias, um popstar. Deixa de ser Pastor com "P" de povo e se torna artista, influenciador ou qualquer outra coisa — menos ministro do sagrado. A fé celebrada no altar perde a mística da confiança, a verdadeira autoridade, que, como lembra Santo Inácio de Antioquia, “é aquela que se abaixa para lavar os pés”. A fé cristã não é obediência cega, mas seguimento livre e amoroso de Cristo, que nos chama a discernir os sinais dos tempos e a denunciar os ídolos de cada época.

O Magistério da Igreja, em sua melhor expressão, confirma essa leitura. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, afirma que a Igreja está inserida no mundo e sofre com ele. O Papa Francisco, especialmente em Evangelii Gaudium e Laudato Si’, denuncia a “globalização da indiferença” e a “ditadura da economia sem rosto”. Ele nos convida a uma ecologia integral que é, ao mesmo tempo, cuidado com a Terra, com os pobres e com a alma humana. O apelo de Jesus para olhar os lírios do campo é também uma convocação a resistir ao paradigma tecnocrático que devasta o planeta e desumaniza a vida. A confiança, neste contexto, torna-se profecia. Não é alienação, mas compromisso. Não é passividade, mas coragem. É a virtude dos que ousam viver contra a corrente. Dos que se recusam a vender a alma por estabilidade. Dos que preferem a liberdade dos filhos à segurança dos escravos. Dos que vivem a bem-aventurança da partilha e da sobriedade, mesmo sendo considerados tolos por um mundo que valoriza o acúmulo e o status.. Viver assim é escandaloso. E é por isso que salva. Como escreveu Paulo aos coríntios: “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1Cor 1,25). A comunidade primitiva entendeu isso: vendiam seus bens, partilhavam o pão, oravam juntos (cf. At 2,42-47). Era um escândalo para Roma, onde o valor supremo era o poder. É um escândalo para o mundo de hoje, onde o valor supremo é o lucro. O convite permanece: buscar primeiro o Reino e a sua justiça. Isso significa escolher a gratuidade sobre o cálculo, a relação sobre a competição, a esperança sobre o medo. Significa confiar no Deus que alimenta os pássaros, veste os lírios e conhece cada fio de nosso cabelo. Confiar nesse Deus é dizer ‘não’ ao medo e ‘sim’ à liberdade; é reconhecer que o agora é tempo de graça e que o Reino já pulsa no cotidiano dos que resistem com fé, partilham com coragem e esperam com justiça.

E aqui   brota  algumas  perguntas: 
  • A quem temos servido? 
  • O que guia nossas escolhas? 
  • Em que ou em quem temos confiado?

É tempo de conversão. É tempo de dizer, como o salmista: “Só em Deus repousa minha alma, dele vem minha salvação” (Sl 62,2).

Esse repouso é revolucionário. É o descanso dos que já não temem o amanhã, porque sabem que o hoje é dom. É o descanso dos que vivem o Reino aqui e agora, como fermento, como semente, como lluz. Viver segundo a lógica apresentada por Jesus em Mateus 6,24-34 continua sendo um escândalo. Num mundo estruturado pela acumulação, pela competição e pelo medo da escassez, confiar radicalmente na providência de Deus parece insensatez. No entanto, é precisamente essa “loucura” que revela a verdadeira sabedoria divina, como recorda Paulo: “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1Cor 1,25). A primeira comunidade cristã compreendeu a profundidade desse ensinamento: perseverava na comunhão, repartia os bens segundo a necessidade de cada um e testemunhava que a segurança não estava na riqueza acumulada, mas na fidelidade de Deus (cf. At 2,42-47). Era um sinal de contradição diante do Império Romano; continua sendo um sinal de contradição diante dos impérios econômicos e culturais de nossos dias.. O  chamado de Jesus permanece atual e urgente: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”. Buscar o Reino significa colocar a gratuidade acima do interesse, a fraternidade acima da concorrência, a solidariedade acima do individualismo e a esperança acima do medo. Significa reconhecer que a vida não é sustentada pelo poder do dinheiro, mas pelo amor providente do Pai, que alimenta os pássaros do céu, reveste os lírios do campo e conhece cada necessidade de seus filhos. Quem acolhe essa verdade aprende a viver o presente como kairos, tempo da graça e da ação de Deus na história..Assim, a confiança cristã não é passividade nem alienação; é uma forma de resistência espiritual e histórica contra tudo aquilo que reduz a dignidade humana à lógica do mercado. Confiar em Deus é recusar a escravidão da ansiedade, é libertar-se da tirania do possuir e abrir-se à liberdade dos filhos e filhas de Deus. O Reino já se faz presente onde homens e mulheres partilham com generosidade, resistem à injustiça com coragem e permanecem firmes na esperança. Ali, no chão da vida cotidiana, floresce a certeza de que o Pai continua cuidando de sua criação e conduzindo a história para a plenitude de seu Reino.

DNonato - Teólogo do cotidiano