A Decápole era um conjunto de cidades de forte influência helenista, majoritariamente gentílicas, marcadas por cultura greco-romana. Ao atravessar esse território, Jesus rompe simbolicamente os muros que separavam judeus e pagãos. O Messias de Israel não permanece confinado a um nacionalismo religioso. Ele age fora das fronteiras cultuais, antecipando concretamente o que Isaías proclamara: “Eu te estabeleci como luz das nações” (Is 49,6). Assim, a cura do surdo com dificuldade de falar não é apenas um ato de compaixão individual; é sinal escatológico. Em Isaías 35,5-6, a abertura dos ouvidos dos surdos e a soltura da língua dos mudos são marcas da chegada do tempo messiânico. Marcos, atento a essa tradição profética, apresenta Jesus como aquele em quem as promessas se cumprem. O “Effatá” (Mc 7,34) ecoa como palavra criadora, semelhante ao “haja” do Gênesis (Gn 1), inaugurando uma nova possibilidade de escuta e de comunicação.
Do ponto de vista antropológico e pastoral, o texto também interpela a condição humana: surdez e mudez não são apenas limitações físicas; simbolizam a incapacidade de ouvir a Palavra e de proclamá-la. Em uma sociedade saturada de discursos, mas pobre de escuta profunda, o Evangelho denuncia a surdez espiritual que nasce do fechamento do coração. A crítica implícita não é apenas dirigida aos pagãos, mas também ao religioso que cumpre ritos e permanece impermeável à conversão interior.
Portanto, essa perícope deve ser lida como revelação progressiva da identidade de Cristo e como manifestação da universalidade do Reino. Jesus atravessa fronteiras geográficas para desinstalar fronteiras interiores. Ele toca, aproxima-se, suspira, fala e restaura a dignidade humana. A pergunta que emerge para a assembleia não é apenas sobre o que Jesus fez, mas sobre o que ainda precisa ser aberto em nós: quais ouvidos permanecem fechados? Que vozes continuam silenciadas por estruturas religiosas, sociais ou ideológicas que preferem manter o controle a permitir que a Palavra liberte? A introdução dessa reflexão, portanto, nos coloca diante de um Cristo que não se deixa aprisionar por fronteiras culturais nem por sistemas religiosos autorreferenciais. Seu gesto na Decápole anuncia que o Reino é dom oferecido a todos e que a verdadeira pureza começa quando o coração se deixa abrir.
Esse cenário histórico ilumina a força do gesto. Ao inserir a cura nesse contexto, Marcos sugere que a salvação não está confinada a um espaço sagrado delimitado, mas atravessa territórios considerados impuros. A mesma lógica já aparecera na libertação do geraseno (Mc 5,1-20). Agora, porém, não se trata de expulsar demônios, mas de restaurar a capacidade de ouvir e falar. A comunicação, fundamento da vida social e religiosa, é reconstituída justamente onde a alteridade é mais evidente.
O homem apresentado é surdo e tinha dificuldade de falar. A condição física, no imaginário antigo, frequentemente era associada a culpa ou maldição, como revela a pergunta em João 9,2. Jesus rompe com essa leitura automática. Mais ainda: em Marcos, a surdez adquire dimensão simbólica. Pouco depois, os discípulos serão interpelados: “Tendes ouvidos e não ouvis?” (Mc 8,18). A incapacidade auditiva torna-se metáfora da incompreensão diante do mistério do Reino. Assim, a cura física antecipa a necessidade de abertura espiritual que culminará na confissão de Pedro (Mc 8,29) e que só será plenamente purificada à luz da cruz (Mc 15,39).
Essa simbologia encontra raízes profundas na tradição bíblica. A fé de Israel nasce da escuta: “Ouve, Israel” (Dt 6,4). Isaías denuncia o endurecimento dos ouvidos (Is 6,10), e o Salmo 115 descreve ídolos que têm ouvidos, mas não ouvem. A idolatria produz surdez espiritual. Quando estruturas de poder, riqueza ou ideologia ocupam o lugar de Deus, a capacidade de discernir a verdade se atrofia. Por isso Jeremias 5,21 lamenta um povo que tem olhos e não vê, ouvidos e não ouve. A cura narrada por Marcos revela, então, mais que compaixão individual: denuncia a condição humana fechada à revelação.
É nesse contexto que o gesto de Jesus ganha densidade. Ele conduz o homem à parte, longe da multidão (Mc 7,33). A ação divina não se constrói no espetáculo, mas no encontro pessoal. A pedagogia do silêncio percorre toda a Escritura: Elias reconhece o Senhor na brisa suave (1Rs 19,12), e Oseias fala do deserto como lugar de reconquista do coração (Os 2,16). Em contraste com a cultura contemporânea do ruído constante e da exposição permanente, esse detalhe revela que a escuta profunda exige recolhimento. A sociedade hiperconectada corre o risco de tornar-se espiritualmente dispersa, incapaz de atenção interior. O toque nos ouvidos e na língua, acompanhado do suspiro elevado ao céu, revela a corporeidade da salvação. O Verbo se fez carne (Jo 1,14); Deus age na materialidade da história. A saliva, também presente em João 9,6, integrava práticas terapêuticas antigas. Marcos não elimina o elemento cultural, mas o assume, indicando que a graça não destrói a realidade humana, antes a eleva. O suspiro recorda o gemido do Espírito (Rm 8,26) e o clamor do povo no Êxodo (Ex 2,23). O milagre é resposta compassiva, não demonstração de poder.
A palavra aramaica “Efatá” preserva a força do momento. Como “Talitá kum” (Mc 5,41), ela ecoa o imperativo criador de Gênesis 1. Isaías 35,5-6 já anunciara que os ouvidos dos surdos se abririam e a língua do mudo cantaria. Em Mateus 15,29-31, multidões testemunham sinais semelhantes em território gentílico, reforçando o cumprimento messiânico. O Reino se manifesta não por supremacia política, mas por restauração da dignidade humana. Aqui emerge contraste decisivo com espiritualidades que prometem prosperidade material como critério de bênção. O homem curado recebe voz e integração, não riqueza. Jesus já advertira: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A ordem de silêncio (Mc 7,36) aprofunda essa lógica. A identidade de Cristo não pode ser reduzida a taumaturgo popular. O segredo messiânico preserva o mistério que só se revela plenamente na cruz. Quando o centurião proclama a filiação divina de Jesus (Mc 15,39), compreende-se que o verdadeiro poder se manifesta na vulnerabilidade. A teologia do domínio, que instrumentaliza a fé para legitimar supremacias, é desmentida pelo Crucificado. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).
Esse dinamismo repercute no plano social. No mundo antigo, limitações físicas podiam gerar restrições cultuais (Lv 21,18-20). Jesus rompe a associação entre integridade corporal e dignidade espiritual. Paulo desenvolve essa intuição ao afirmar que os membros mais frágeis são indispensáveis (1Cor 12,22). Em sociedades que ainda marginalizam pessoas com deficiência ou minorias, o texto convoca à inclusão concreta. A Igreja não pode reproduzir exclusões que o Evangelho supera. A abertura dos ouvidos conduz à abertura comunitária. Em Atos 15, a Igreja nascente discerne em diálogo: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15,28). A escuta mútua torna-se critério eclesial. O sacerdócio comum proclamado em 1Pedro 2,9 impede a concentração absoluta da voz num único segmento. Quando práticas clericalistas sufocam a participação do povo, o “Efatá” torna-se chamado à conversão estrutural.
A surdez contemporânea assume novas formas. Polarizações ideológicas, consumo religioso e manipulação midiática produzem ambientes em que a verdade é fragmentada. A advertência de Hebreus 3,15 — “não endureçais o vosso coração” — mantém-se atual. Provérbios 21,13 lembra que quem fecha o ouvido ao pobre não será ouvido. O Evangelho confronta estruturas que ignoram injustiças sociais. Lucas 4,18-19 apresenta o programa messiânico centrado na libertação e na restauração. A cura do surdo-mudo participa dessa mesma dinâmica libertadora. No desfecho, a multidão exclama: “Tudo fez bem” (Mc 7,37), eco de Gênesis 1,31. A nova criação manifesta-se no território da alteridade. O itinerário começa com isolamento e culmina em comunhão. Essa progressão oferece chave hermenêutica para a atualidade: onde Cristo é acolhido, o silêncio imposto pela exclusão transforma-se em palavra de louvor. A esperança cristã, expressa em Apocalipse 21,5 — “Eis que faço novas todas as coisas” — impede que a surdez social seja considerada destino inevitável.
À luz de Marcos 7,31-37, compreendemos que não estamos diante de uma lembrança piedosa de um milagre distante, mas de um apelo que atravessa a história e alcança a Igreja de hoje. A cura do surdo e gago na região da Decápole revela que o agir de Cristo continua sendo abertura: abertura do corpo, da consciência e da comunidade. Se o gesto de Jesus cumpre as promessas messiânicas anunciadas em Isaías 35,5-6, ele também desvela nossa própria condição espiritual. “Efatá” não é apenas palavra dirigida àquele homem; é imperativo dirigido a todos nós. Abrir os ouvidos significa deixar que a Palavra viva e eficaz (Hb 4,12) atravesse nossas resistências, cure nossas distorções e confronte nossas falsas seguranças religiosas. Abrir a boca significa abandonar a cumplicidade com a mentira e testemunhar a verdade na justiça (Ef 4,25), mesmo quando isso desinstala privilégios e estruturas cristalizadas.
Num contexto em que o sagrado pode ser instrumentalizado por ideologias, nacionalismos religiosos ou projetos de poder, o Evangelho recorda que a fé não é mercadoria nem espetáculo. Ela é encontro transformador. A comunidade que acolhe o “Efatá” deixa de ser círculo fechado e torna-se espaço de integração dos marginalizados, ecoando a prática de Jesus que atravessa fronteiras culturais e religiosas. Assim, esta perícope nos conduz a um exame profundo: que surdez ainda carregamos diante do clamor dos pobres? Que mudez nos impede de denunciar injustiças e anunciar esperança? Onde o “Efatá” é acolhido, o poder se converte em serviço (cf. Mc 10,45), a religião deixa de ser aparência e torna-se vida concreta, e a comunhão vence o isolamento. Só então será possível repetir com verdade e responsabilidade a confissão admirada da multidão: “Tudo Ele fez bem.”
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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