O texto situa-se imediatamente após dois episódios decisivos: a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44) e a travessia de Jesus sobre as águas (Mc 6,45-52). Esses três quadros formam uma unidade teológica. No primeiro, Jesus enfrenta a fome estrutural; no segundo, atravessa o caos; no terceiro, toca os corpos feridos. A fome, o medo e a doença não aparecem como fatalidades naturais, mas como expressões de uma ordem social injusta. A exegese marcana mostra que o Evangelho não separa jamais o anúncio do Reino das condições concretas da vida. A travessia do lago, símbolo bíblico do caos primordial (cf. Gn 1,2; Sl 69,2), prepara o leitor para compreender que o poder de Jesus não é mágico, mas libertador: Ele caminha sobre aquilo que paralisa e ameaça a vida.
É preciso destaca que, assim que Jesus saiu do barco, o povo "imediatamente o reconheceu". Ampliando a reflexão, este "reconhecimento" é o primeiro passo da fé operante. Em um mundo onde os pobres eram invisíveis aos olhos do poder e da religião oficial, o povo simples desenvolve um olhar aguçado para a verdadeira autoridade. A reação é epidêmica: "percorreram toda a região" e "começaram a trazer os doentes". Há uma pressa sagrada na narrativa de Marcos — uma urgência que denuncia nossa letargia espiritual. A multidão não espera; ela entende que o tempo da graça (kairós) invadiu o tempo cronológico (chronos), e que a oportunidade de salvação é agora.
O autor apresenta a dimensão sacramental da matéria. O texto diz que os doentes imploravam para tocar "ao menos a orla do seu manto"
- O Símbolo: A orla (possivelmente o tzitzit judaico) representa a observância da Lei e a santidade de Deus.
- O Gesto: Ao permitir ser tocado, Jesus subverte a lógica de pureza da época, onde tocar um doente ou um fluxo de sangue tornaria o mestre impuro.
- A Consequência: Aqui, a santidade de Jesus não é contaminada pela doença, mas a sua virtude "contagia" o doente com a cura.
Portanto, ao meditarmos sobre Marcos 6,53-56, somos convidados a ver que cada gesto de Jesus carrega implicações espirituais, sociais e políticas. Ele transforma o espaço público em santuário e valida a fé daqueles que, mesmo sem palavras teológicas sofisticadas, sabem que basta um toque na humanidade de Cristo para que a vida seja restaurada.
Se faz necessário saber que ao chegar a Genesaré, território fértil às margens do lago da Galileia, Jesus é imediatamente reconhecido. Marcos utiliza o verbo epiginōskō, que indica um reconhecimento profundo, não superficial. Não se trata de fama religiosa, mas de identificação existencial. O povo reconhece Jesus porque sua presença devolve sentido onde havia abandono. Esse reconhecimento não passa pelo Templo nem pelas autoridades religiosas, mas pelos corpos marcados pela dor. Há aqui uma crítica implícita à mediação institucional da fé. Diferente dos es8cribas e fariseus, Jesus não é reconhecido por títulos, mas pela vida que brota ao seu redor. Como afirma o Evangelho de João: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5), e são os que vivem nas trevas da história que primeiro a percebem.
A Galileia do século I era uma região explorada economicamente, submetida a tributos romanos e herodianos, com crescente concentração de terras e empobrecimento dos camponeses. A ciência histórica e a sociologia bíblica demonstram que a doença estava intimamente ligada à miséria, à má alimentação, às condições precárias de vida e ao estresse social. Além disso, a legislação cultual transformava muitos doentes em impuros, excluindo-os da convivência comunitária (Lv 13–15). O corpo adoecido era também um corpo socialmente descartado. Marcos escreve sabendo disso. Por isso, quando descreve o povo correndo pelas aldeias e cidades para trazer os doentes, ele está revelando um movimento de resistência coletiva: a vida se organiza para encontrar a Vida.
Os doentes são colocados nas praças. Esse detalhe é decisivo. A praça (agorá) é o espaço público por excelência, lugar do comércio, das decisões políticas, do convívio social. Marcos desloca a doença do espaço privado e escondido para o centro da vida social. A teologia do Evangelho confronta diretamente toda espiritualidade que privatiza o sofrimento e o transforma em problema individual. A dor é social, e sua cura também precisa ser. Isaías já denunciava o jejum que ignora o corpo ferido do outro (Is 58,3-7). Jesus assume essa tradição profética e a radicaliza com sua presença. Onde a religião escondia, Ele expõe; onde a sociedade silenciava, Ele escuta.
O pedido do povo para tocar a orla do manto de Jesus carrega uma densidade simbólica profunda. A orla remete às franjas prescritas em Números 15,37-41, sinal da Aliança, memória concreta da Lei no corpo. Tocar a orla é tocar a fidelidade de Deus à sua promessa. Marcos já havia apresentado esse gesto na narrativa da mulher com hemorragia (Mc 5,25-34), estabelecendo um paralelo intencional. Em ambos os textos, o toque rompe barreiras religiosas, sociais e psicológicas. A mulher era considerada impura; os doentes de Genesaré, igualmente. O gesto revela uma fé que não pede autorização ao sistema religioso para existir.
Do ponto de vista antropológico e psicológico, o toque é linguagem primária de reconhecimento e pertencimento. Jesus não cura por decreto, mas por proximidade. Em uma sociedade marcada pelo isolamento, pelo medo do corpo do outro e pela virtualização das relações, esse Evangelho recupera a centralidade da presença. A salvação passa pelo encontro. Isso desmonta qualquer teologia que reduza a fé a fórmulas, ritos automáticos ou promessas de sucesso. A cura acontece na relação, não na técnica; no vínculo, não no objeto.
Marcos afirma que todos os que tocavam em Jesus eram curados, mas o próprio Evangelho relativiza qualquer leitura mágica dessa afirmação. Em Nazaré, Jesus não pôde realizar muitos sinais por causa da incredulidade (Mc 6,5). A hermenêutica bíblica exige ler o texto no conjunto da obra. A cura é sinal, não garantia. Ela aponta para o Reino, não o esgota. A salvação que Jesus oferece é integral, mas não alienante. Ela não elimina automaticamente o sofrimento histórico, mas inaugura uma nova forma de atravessá-lo. A cruz permanece no horizonte do Evangelho. O mesmo Jesus que cura em Genesaré será rejeitado, torturado e executado pelo poder político-religioso (Mc 15).
Marcos 6,53-56 desmonta as teologias da prosperidade e do domínio, que prometem sucesso individual em troca de práticas religiosas. Essas correntes transformam Deus em instrumento de ascensão social e culpabilizam os pobres por sua própria miséria. O Evangelho de Marcos segue na direção oposta. Jesus se identifica com os feridos da história, não com os vencedores do sistema. Jeremias denuncia os profetas que anestesiam a dor do povo com discursos religiosos vazios (Jr 6,14). Tiago é ainda mais contundente ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tg 2,17). A fé que não se traduz em justiça social é idolatria.
Marcos também critica o individualismo religioso. Ninguém se cura sozinho. Os doentes são levados por outros. A comunidade se torna mediadora da vida. Paulo retoma essa lógica ao afirmar que o corpo de Cristo sofre e se alegra junto (1Cor 12,26). A salvação cristã é sempre relacional. Isso confronta uma espiritualidade autocentrada, consumista e meritocrática, muito presente no cenário religioso contemporâneo.
Há ainda uma crítica radical aos donos do sagrado religiosos. Jesus não controla o acesso à graça, não exige pureza prévia, não transforma o cuidado em privilégio de poucos. Ele se deixa tocar, se expõe, se mistura. Oséias já havia anunciado que Deus prefere misericórdia a sacrifício (Os 6,6). O Concílio Vaticano II recupera essa intuição ao afirmar que a Igreja é, antes de tudo, Povo de Deus em caminhada histórica (Lumen Gentium, 9). O clericalismo, ao absolutizar funções e hierarquias, trai essa eclesiologia e se afasta do Evangelho.
Os documentos do CELAM aprofundam essa leitura à luz da realidade latino-americana. Medellín denuncia as estruturas de pecado que produzem pobreza e doença. Puebla reconhece nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Cristo crucificado. Aparecida convoca a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro das periferias existenciais (DAp 372). O Papa Francisco retomou essa tradição profética ao afirmou que prefere uma Igreja ferida por sair às ruas a uma Igreja doente por se fechar (Evangelii Gaudium, 49).
Na atualidade é inevitável não ver os fatos. Os doentes continuam sendo colocados nas praças: hospitais públicos sucateados, filas intermináveis por atendimento, territórios periféricos abandonados, populações negras e indígenas expostas à violência estrutural, trabalhadores adoecidos e pela lógica neoliberal, pessoas em sofrimento psíquico invisibilizadas. A nossa realidade mostra que a doença continua atravessada por classe, raça e território. Espiritualizar essa realidade é negar o Evangelho.
Marcos 6,53-56 não é apenas um relato de milagres; é uma bússola que nos reconduz ao núcleo da fé cristã. Ao vermos Jesus caminhando pelas praças e povoados, entendemos que a maior cura não é o simples reestabelecimento biológico, mas a restauração integral das relações humanas e divinas. A vida eterna, como define João 17,3, é conhecer a Deus no chão concreto e poeirento da história, longe das abstrações de uma espiritualidade desencarnada. Vivemos tempos perigosos onde pedir milagres é legítimo, mas transformar o Deus da Vida em um produto de consumo religioso é a mais sutil das idolatrias. O Evangelho de hoje nos lança um desafio inadiável: precisamos sair dos templos para tocar as feridas reais do povo, assim como o povo buscava tocar a orla do manto de Jesus. Porém, esse toque exige uma contrapartida: permitir que Cristo toque e desmonte nossas estruturas eclesiais endurecidas, nossas teologias muitas vezes estéreis e nossas práticas clericalizadas que afastam os pequeninos. Se a nossa fé não se traduzir em compaixão visceral, em denúncia profética das injustiças e em compromisso irrenunciável com os pobres, ela não passará de um ornamento religioso, vazio de sentido. O Evangelho é fiel à sua lógica radical: ele não veio para decorar o mundo, mas para salvá-lo.
E ainda podemos nos interrogar olhando para Marcos 6,53-56: O que resta em nossos corações? Resta a certeza de que a fé cristã não acontece em laboratórios teológicos, mas na poeira da estrada, no encontro humano. A cura verdadeira é, e sempre será, a restauração do amor e das relações. Jesus nos ensina que a vida eterna é conhecer o Pai no 'agora' da nossa história (Jo 17,3), abraçando a realidade como ela é. Mas fica o alerta severo: há uma linha tênue entre a devoção sincera e o consumismo espiritual. Buscar a Deus pelo milagre é humano; usar Deus como produto é idolatria. O convite hoje é para que saiamos de nossa zona de conforto religiosa. Precisamos ter a ousadia de tocar as feridas abertas de nossa sociedade. E, mais difícil ainda, precisamos deixar que Jesus toque as áreas endurecidas de nossa própria religiosidade — nossas certezas absolutas, nosso clericalismo, nossas teologias que não geram vida. Se a nossa fé não nos leva a chorar com os que choram e a lutar pelos pobres, ela é apenas um adereço estético. O Evangelho é fogo que arde e transforma; ele jamais aceitará ser uma fé decorativa em nossa vida."
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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