segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,1-13.

Há textos do Evangelho que não escandalizam por dizer algo novo, mas por dizer o óbvio que se prefere esquecer. Marcos 7,1-13 pertence a essa categoria. Ele não trata de heresias doutrinais nem de debates abstratos, mas da distância perigosa entre fé professada e vida vivida. Proclamado na liturgia da terça-feira da 5ª Semana do Tempo Comum, nos Anos impat e par do Lecionário Romano, este Evangelho se insere num tempo aparentemente comum, mas espiritualmente decisivo: o tempo em que a fé deixa o abrigo das grandes solenidades e se mede com o cotidiano concreto da existência. O Tempo Comum não é intervalo neutro; é o chão onde a Palavra encontra a vida real, com suas contradições sociais, políticas, religiosas e existenciais.

É exatamente nesse chão que a religião corre maior risco de se deformar. Quando o sagrado se transforma em hábito automático, o rito se dissocia da ética e a linguagem religiosa deixa de tocar a realidade, instala-se uma fé funcional, capaz de manter estruturas, mas incapaz de gerar conversão. Por isso, Marcos 7, 1-13  não ocupa um lugar periférico no itinerário litúrgico da Igreja. Trata-se de um núcleo crítico do Evangelho, onde está em jogo a fé como caminho de humanização ou como mecanismo de controle. Aqui não se discute apenas uma prática ritual, mas a própria possibilidade de uma vida reconciliada diante de Deus. O Evangelho ganha contornos ainda mais incisivos quando lido num tempo marcado pela instrumentalização da fé, pela mercantilização do sagrado e pela sacralização de projetos de poder. Marcos nessa perícope  atravessa práticas religiosas, estruturas e discursos piedosos como lâmina profética que separa tradição viva de tradição morta, fé encarnada de religião vazia. O texto não acusa indivíduos isolados; ele desvela um sistema religioso que perdeu o vínculo com a vida.

O contexto histórico ajuda a compreender a radicalidade do confronto. Marcos escreve para uma comunidade atravessada por tensões culturais e religiosas, formada por cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A explicação detalhada dos costumes de purificação das mãos, dos utensílios e dos leitos (Mc 7,3-4) indica que seus destinatários não dominavam esses códigos. A exegese deixa claro que essas explicações não servem para reforçar as práticas, mas para relativizá-las. O problema não é higiene, mas halakhah: um sistema normativo que nasceu com intenção legítima:   preservar a identidade do povo após o exílio babilônico, mas que, com o tempo, absolutizou a tradição oral a ponto de sufocar a vida.

Não é irrelevante que os fariseus e escribas venham de Jerusalém. Jerusalém não é apenas um ponto geográfico; é o centro simbólico do poder religioso. Dali emanam interpretações oficiais da Lei, critérios de pureza e fronteiras entre quem pertence e quem deve ser excluído. Ao observarem os discípulos comendo sem lavar as mãos, não fazem uma constatação neutra, mas exercem vigilância moral e controle simbólico. A antropologia cultural mostra que ritos de purificação funcionam como marcadores de identidade e mecanismos de separação social. Quem não os cumpre ameaça a ordem estabelecida. A resposta de Jesus não entra no jogo técnico da casuística religiosa. Ele desmonta o sistema pela raiz. Ao citar Isaías 29,13 — “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, insere-se conscientemente na longa tradição profética de Israel. Amós denuncia cultos que não produzem justiça (Am 5,21-24). Isaías rejeita jejuns que não libertam os oprimidos (Is 58,6-7). Jeremias desmascara a falsa segurança no Templo (Jr 7,1-11). O Salmo 50 afirma que Deus não precisa de sacrifícios, mas de fidelidade. Em 1Samuel 15,22, ouve-se que obedecer é melhor que sacrificar. Jesus não rompe com essa tradição; ele a resgata de sua captura religiosa.

Quando Jesus desloca o foco para o coração, mobiliza a antropologia bíblica. O coração não é o lugar das emoções passageiras, mas o centro da decisão ética e da escuta de Deus (Dt 6,5; Pr 4,23). Um coração distante produz uma religião funcional, mas não relacional. Práticas religiosas que não alcançam a consciência geram dissociação interior. A psicologia contemporânea reconhece que a ruptura entre discurso e prática produz culpa, rigidez moral e projeção do mal no outro. Uma fé exteriorizada tende ao controle; uma fé integrada gera liberdade interior e responsabilidade ética. O exemplo dos religiosos preocupados  em construir salas é predios,l e evitar o cuidado com os  mais pobres, revelando  uma religião  instrumentalizada.  legitimando  a quebra de vínculos  essenciais para vivermos a fé cristã. Jesus confronta diretamente Êxodo 20,12 e Deuteronômio 5,16. A tradição bíblica insiste que a aliança com Deus passa pelo cuidado com o outro, especialmente os mais frágeis (Eclo 3,1-16). A ciência histórica confirma que, nas sociedades antigas, o cuidado com os idosos era sinal de coesão social. Quando a religião justifica o abandono, ela se converte em idolatria.

Os paralelos sinóticos reforçam essa leitura. Mateus 15,1-9 retoma a crítica ao culto vazio. Lucas 11,37-44 denuncia a obsessão pela pureza exterior enquanto o interior permanece cheio de injustiça. Em Marcos 2,27, Jesus afirma que o sábado foi feito para o ser humano. Esse é um princípio hermenêutico decisivo: toda norma existe para servir à vida. A tradição que mata deixa de ser tradição e se transforma em caricatura religiosa.

O símbolo da mesa atravessa silenciosamente todo o texto. Comer juntos é sinal de comunhão, pertencimento e igualdade. As refeições de Jesus com pecadores (Mc 2,15-17) já haviam escandalizado o sistema religioso. A mesa eucarística, denunciada por Paulo quando se torna espaço de desigualdade (1Cor 11,17-34), confirma que não existe culto autêntico onde alguns têm pão e outros têm fome. Toda mesa que separa em nome de Deus contradiz o Deus que se oferece como pão.

A crítica alcança também a oração. Em diálogo com Mateus 6,5-6, fica claro que orar em segredo não é negar a dimensão comunitária da fé, mas purificar a intenção. A oração como espetáculo religioso transforma Deus em plateia e o fiel em ator. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) mostra que a oração sem conversão reforça a injustiça. O Catecismo recorda que a oração é relação viva e pessoal com Deus (CIC 2558), não capital simbólico.

A oração autêntica reorganiza a vida inteira. Jesus ora antes das decisões (Lc 6,12), no meio da missão (Mc 1,35) e na angústia extrema (Mc 14,32-42). Contemplação e ação não se opõem. O ativismo sem oração esgota; a oração sem compromisso aliena. O Concílio Vaticano II afirma que não existe fé cristã desconectada da história humana (GS 1).

A vigilância emerge como eixo dessa espiritualidade integrada. “Vigiai e orai” (Mc 14,38) é convite à lucidez, não ao medo. Pedro liga vigilância à oração (1Pd 4,7). Paulo associa vigilância à sobriedade histórica (Rm 13,11-14). Vigilância cristã é consciência crítica: não naturalizar a injustiça, não espiritualizar a violência, não sacralizar sistemas que produzem exclusão.

O Salmo 127 recorda que toda ação humana perde o sentido quando se absolutiza. “Se o Senhor não constrói a casa…” é crítica à autossuficiência, não convite à passividade. A Doutrina Social da Igreja insiste que desenvolvimento sem justiça não é progresso, mas regressão. Documentos da CNBB reafirmam que evangelizar é promover vida digna. Fé e política não se confundem, mas a fé jamais pode se omitir.

Nesse ponto, o tripé: profecia, sacerdócio e reinado aparece como síntese da missão cristã:

  •  Profecia não é previsão do futuro, mas desvelamento do presente; impede que a injustiça se normalize (Lc 4,18-19). Sacerdócio não é privilégio, mas mediação solidária entre a dor do povo e o coração de Deus (Hb 5,1-2). 
  • Reinado não se expressa no domínio, mas no serviço (Mc 10,42-45). O Vaticano II afirma que essa tríplice missão pertence a todo o povo de Deus (LG 10-13). Quando a Igreja abdica da profecia para preservar prestígio, reduz o sacerdócio a ritualismo e confunde reinado com influência política, deixa de ser sinal do Reino.

À luz desse Evangelho, torna-se inevitável a crítica às teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso. Elas deslocam o centro da fé para o sucesso pessoal, transformam a graça em mercadoria e Deus em instrumento. A fé capturada por lógicas de dominação deixa de questionar o poder e passa a servi-lo. O Evangelho apresenta um Messias pobre, itinerante e crucificado (Lc 2,7; Mt 8,20; Mc 15). A prosperidade bíblica está ligada à justiça, à fidelidade e ao cuidado com os vulneráveis (Sl 1; Jr 17,5-8).

Essa crítica alcança o clericalismo, entendido como deformação da autoridade eclesial. Jesus proíbe a lógica do poder entre os seus (Mt 23,8-12). O Papa Francisco denunciava  o clericalismo como raiz de crises eclesiais. A CNBB insiste na sinodalidade, na escuta do povo e na conversão pastoral. Autoridade cristã só se legitima quando vivida como serviço.

Diante de uma realidade marcada por fome, violência, racismo, intolerância religiosa e destruição ambiental, Marcos 7,1-13 impede uma fé indiferente. A criação geme (Rm 8,22). Orar sem escutar esse gemido é repetir a religião denunciada por Jesus. A fé cristã não torna ninguém superior; torna-se critério de responsabilidade histórica.

Marcos  não oferece soluções fáceis. Ele desinstala para reconstruir. No Tempo Comum, onde nada parece extraordinário, o Evangelho revela sua força mais subversiva: denunciar uma religião que fala de Deus, mas se afasta da vida. A Palavra não rejeita a tradição, mas a liberta do que a sufoca; não condena o culto, mas exige que tenha cheiro de gente; não despreza a oração, mas recusa que ela sirva de álibi para a indiferença. 

No chão aparentemente comum da existência cotidiana, o Evangelho continua a derrubar cercas, a misturar mesas e a lembrar que Deus não habita mãos lavadas por medo, mas corações convertidos pela misericórdia. Ali, longe dos holofotes do poder religioso, a fé reencontra sua verdade mais simples e mais exigente: amar a Deus passa, inevitavelmente, por cuidar da vida.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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