O deserto, na tradição bíblica, não é espaço de evasão, mas de recomposição. É o lugar onde Israel reaprende a confiar, onde o excesso é desmascarado, onde o desejo é purificado e onde a Palavra volta a ocupar o centro. Ao conduzir os discípulos para um lugar à parte, Jesus propõe uma pedagogia espiritual profundamente encarnada: a missão só permanece fiel quando nasce da escuta, e a ação só é evangélica quando respeita os ritmos do corpo e da alma. Uma missão que não retorna à escuta corre o risco de se tornar violência, mesmo quando realizada em nome de Deus.
Marcos sublinha que os discípulos relatam a Jesus tudo o que fizeram e ensinaram. Não se trata de um relatório de desempenho nem de prestação de contas baseada em eficiência. Não há traço de triunfalismo, nem culto ao resultado. O Evangelho, já aqui, desmonta a lógica religiosa que mede fidelidade por números, bênção por visibilidade e missão por produtividade. Jesus escuta, mas seu olhar não se fixa nos feitos; Ele contempla os corpos cansados, o ritmo exausto, a interioridade fragilizada.
É nesse contexto que emerge uma das afirmações mais perturbadoras do texto: “Eles não tinham tempo nem para comer” (Mc 6,31). Comer, na Escritura, é gesto profundamente humano e teológico. Desde o Gênesis, o alimento aparece como dom confiado à humanidade; no Êxodo, a fome se torna lugar de revelação; nos Salmos, Deus é aquele que prepara a mesa; nos Evangelhos, Jesus come com os excluídos, multiplica o pão e se deixa reconhecer no partir do pão. Quando Marcos afirma que não havia tempo nem para comer, ele revela uma ruptura da dignidade básica da vida, um cotidiano onde até o essencial é sacrificado em nome da urgência.
A Bíblia conhece bem essa experiência. Os profetas denunciam sistemas que enriquecem explorando o cansaço alheio. Amós acusa os que esmagam os pobres enquanto vivem no luxo; Isaías rejeita o jejum que convive com a opressão do trabalhador; Jeremias condena quem constrói prosperidade fazendo o próximo trabalhar sem justiça (Jr 22,13). O clamor do povo exausto atravessa os Salmos e as Lamentações, revelando que o cansaço coletivo não é falha moral individual, mas consequência de estruturas injustas que roubam o tempo de viver.
Nesse horizonte, o convite de Jesus: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”, adquire força subversiva. Descansar não é luxo espiritual, mas resistência. É ruptura com a lógica do Egito, onde o faraó aumenta a produção e retira o descanso (Ex 5). É retorno à teologia do sábado, que nasce como memória política da libertação: “Lembra-te de que foste escravo” (Dt 5,15). O sábado protege o corpo do pobre, do estrangeiro, do trabalhador e até do animal. Ele afirma que ninguém pertence totalmente ao sistema, porque todos pertencem a Deus.
O mundo contemporâneo, porém, reconfigura o Egito em novas linguagens. A cultura da produtividade contínua, da disponibilidade permanente e da urgência sem pausa transforma o cansaço em virtude e o descanso em culpa. A escala 6×1 se torna símbolo dessa lógica: consome corpos, fragmenta vínculos, empobrece a espiritualidade e reduz o ser humano à função que exerce. A Escritura não legitima esse modelo. O Salmo 127 desmonta a mística do esforço incessante ao afirmar que Deus concede repouso aos seus amados; Provérbios adverte que o excesso de trabalho pode custar a própria vida; o Eclesiastes questiona o sentido de uma existência consumida pelo labor sem horizonte. Jesus não romantiza a exaustão. Ele não diz que o sofrimento contínuo purifica nem que o cansaço agrada a Deus. Sua postura se aproxima da experiência de Elias, que só reencontra a Palavra depois de comer, beber e dormir. Antes da correção, vem o cuidado. Antes da missão renovada, vem o descanso. Isso revela uma antropologia profundamente encarnada: uma espiritualidade que ignora o corpo se torna violenta, e uma fé que despreza o limite humano acaba servindo à opressão.
O descanso planejado, no entanto, é interrompido pela chegada da multidão. Jesus vê o povo e se compadece. O olhar é teológico. É o mesmo olhar de Deus sobre o sofrimento no Egito, sobre a humilhação dos esquecidos, sobre a dor silenciosa dos pobres. A imagem das “ovelhas sem pastor” não é romântica, mas profética. Denuncia lideranças que abandonam, exploram ou mercantilizam o cuidado. Os profetas já haviam acusado esse tipo de pastoreio, e Jesus se apresenta como contraponto vivo a essas estruturas. A resposta de Jesus é ensinar. Na Bíblia, ensinar é libertar. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Um povo exausto perde a capacidade de pensar, discernir e resistir. Uma sociedade cansada questiona menos, sonha menos e se submete mais facilmente. Por isso, defender o descanso é também defender a liberdade. Onde o tempo é roubado, a consciência é anestesiada.
Essa lógica confronta diretamente os ministros do alta que fazem do ministério uma produção e vive a espiritualidades do ativismo. Jesus denuncia os que impõem fardos pesados e não os carregam. Ele afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado. Esse princípio se estende legitimamente ao trabalho: o trabalho existe para servir à vida, não para consumi-la. O Magistério da Igreja ecoa essa tradição bíblica. A Gaudium et Spes afirma que o desenvolvimento econômico deve respeitar os ritmos humanos. A Laborem Exercens reconhece o descanso semanal como direito fundamental. A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata. A Laudato Si’ relaciona a exploração do tempo humano à devastação da criação. A Fratelli Tutti insiste que não há fraternidade onde o tempo de viver é roubado.
À luz do Evangelho, a escala 6×1 revela uma antropologia incompatível com o Reino. Ela normaliza o esgotamento, enfraquece os vínculos comunitários e transforma a vida em mercadoria. A Escritura afirma o contrário: que o ser humano é pó animado pelo sopro de Deus, não engrenagem produtiva; que a vida é dom, não produto; que o descanso antecipa o Reino. A Carta aos Hebreus proclama que “resta um repouso sabático para o povo de Deus”. Esse repouso não é fuga da história, mas critério para julgá-la. Onde o descanso é negado, o Evangelho é traído. Onde o cansaço é glorificado, a fé se torna cúmplice da opressão. Onde não há tempo nem para comer, a Boa Nova precisa ser anunciada com ainda mais clareza.
Jesus continua vendo os cansados, continua se compadecendo e continua convidando ao descanso. E chama sua Igreja a não pactuar com nenhuma estrutura que transforme o tempo de viver em mercadoria. Defender o descanso é proclamar o Evangelho. Denunciar a exploração do tempo é fidelidade bíblica. Anunciar esse Cristo solidário com os exaustos é um ato profundamente profético, urgente e libertador.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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