sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

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