Mostrando postagens com marcador #ProfeciaHoje. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #ProfeciaHoje. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 7,1-13.

Há textos do Evangelho que não escandalizam por dizer algo novo, mas por dizer o óbvio que se prefere esquecer. Marcos 7,1-13 pertence a essa categoria. Ele não trata de heresias doutrinais nem de debates abstratos, mas da distância perigosa entre fé professada e vida vivida. Proclamado na liturgia da terça-feira da 5ª Semana do Tempo Comum, nos Anos impat e par do Lecionário Romano, este Evangelho se insere num tempo aparentemente comum, mas espiritualmente decisivo: o tempo em que a fé deixa o abrigo das grandes solenidades e se mede com o cotidiano concreto da existência. O Tempo Comum não é intervalo neutro; é o chão onde a Palavra encontra a vida real, com suas contradições sociais, políticas, religiosas e existenciais.

É exatamente nesse chão que a religião corre maior risco de se deformar. Quando o sagrado se transforma em hábito automático, o rito se dissocia da ética e a linguagem religiosa deixa de tocar a realidade, instala-se uma fé funcional, capaz de manter estruturas, mas incapaz de gerar conversão. Por isso, Marcos 7, 1-13  não ocupa um lugar periférico no itinerário litúrgico da Igreja. Trata-se de um núcleo crítico do Evangelho, onde está em jogo a fé como caminho de humanização ou como mecanismo de controle. Aqui não se discute apenas uma prática ritual, mas a própria possibilidade de uma vida reconciliada diante de Deus. O Evangelho ganha contornos ainda mais incisivos quando lido num tempo marcado pela instrumentalização da fé, pela mercantilização do sagrado e pela sacralização de projetos de poder. Marcos nessa perícope  atravessa práticas religiosas, estruturas e discursos piedosos como lâmina profética que separa tradição viva de tradição morta, fé encarnada de religião vazia. O texto não acusa indivíduos isolados; ele desvela um sistema religioso que perdeu o vínculo com a vida.

O contexto histórico ajuda a compreender a radicalidade do confronto. Marcos escreve para uma comunidade atravessada por tensões culturais e religiosas, formada por cristãos vindos do judaísmo e do paganismo. A explicação detalhada dos costumes de purificação das mãos, dos utensílios e dos leitos (Mc 7,3-4) indica que seus destinatários não dominavam esses códigos. A exegese deixa claro que essas explicações não servem para reforçar as práticas, mas para relativizá-las. O problema não é higiene, mas halakhah: um sistema normativo que nasceu com intenção legítima:   preservar a identidade do povo após o exílio babilônico, mas que, com o tempo, absolutizou a tradição oral a ponto de sufocar a vida.

Não é irrelevante que os fariseus e escribas venham de Jerusalém. Jerusalém não é apenas um ponto geográfico; é o centro simbólico do poder religioso. Dali emanam interpretações oficiais da Lei, critérios de pureza e fronteiras entre quem pertence e quem deve ser excluído. Ao observarem os discípulos comendo sem lavar as mãos, não fazem uma constatação neutra, mas exercem vigilância moral e controle simbólico. A antropologia cultural mostra que ritos de purificação funcionam como marcadores de identidade e mecanismos de separação social. Quem não os cumpre ameaça a ordem estabelecida. A resposta de Jesus não entra no jogo técnico da casuística religiosa. Ele desmonta o sistema pela raiz. Ao citar Isaías 29,13 — “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”, insere-se conscientemente na longa tradição profética de Israel. Amós denuncia cultos que não produzem justiça (Am 5,21-24). Isaías rejeita jejuns que não libertam os oprimidos (Is 58,6-7). Jeremias desmascara a falsa segurança no Templo (Jr 7,1-11). O Salmo 50 afirma que Deus não precisa de sacrifícios, mas de fidelidade. Em 1Samuel 15,22, ouve-se que obedecer é melhor que sacrificar. Jesus não rompe com essa tradição; ele a resgata de sua captura religiosa.

Quando Jesus desloca o foco para o coração, mobiliza a antropologia bíblica. O coração não é o lugar das emoções passageiras, mas o centro da decisão ética e da escuta de Deus (Dt 6,5; Pr 4,23). Um coração distante produz uma religião funcional, mas não relacional. Práticas religiosas que não alcançam a consciência geram dissociação interior. A psicologia contemporânea reconhece que a ruptura entre discurso e prática produz culpa, rigidez moral e projeção do mal no outro. Uma fé exteriorizada tende ao controle; uma fé integrada gera liberdade interior e responsabilidade ética. O exemplo dos religiosos preocupados  em construir salas é predios,l e evitar o cuidado com os  mais pobres, revelando  uma religião  instrumentalizada.  legitimando  a quebra de vínculos  essenciais para vivermos a fé cristã. Jesus confronta diretamente Êxodo 20,12 e Deuteronômio 5,16. A tradição bíblica insiste que a aliança com Deus passa pelo cuidado com o outro, especialmente os mais frágeis (Eclo 3,1-16). A ciência histórica confirma que, nas sociedades antigas, o cuidado com os idosos era sinal de coesão social. Quando a religião justifica o abandono, ela se converte em idolatria.

Os paralelos sinóticos reforçam essa leitura. Mateus 15,1-9 retoma a crítica ao culto vazio. Lucas 11,37-44 denuncia a obsessão pela pureza exterior enquanto o interior permanece cheio de injustiça. Em Marcos 2,27, Jesus afirma que o sábado foi feito para o ser humano. Esse é um princípio hermenêutico decisivo: toda norma existe para servir à vida. A tradição que mata deixa de ser tradição e se transforma em caricatura religiosa.

O símbolo da mesa atravessa silenciosamente todo o texto. Comer juntos é sinal de comunhão, pertencimento e igualdade. As refeições de Jesus com pecadores (Mc 2,15-17) já haviam escandalizado o sistema religioso. A mesa eucarística, denunciada por Paulo quando se torna espaço de desigualdade (1Cor 11,17-34), confirma que não existe culto autêntico onde alguns têm pão e outros têm fome. Toda mesa que separa em nome de Deus contradiz o Deus que se oferece como pão.

A crítica alcança também a oração. Em diálogo com Mateus 6,5-6, fica claro que orar em segredo não é negar a dimensão comunitária da fé, mas purificar a intenção. A oração como espetáculo religioso transforma Deus em plateia e o fiel em ator. A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) mostra que a oração sem conversão reforça a injustiça. O Catecismo recorda que a oração é relação viva e pessoal com Deus (CIC 2558), não capital simbólico.

A oração autêntica reorganiza a vida inteira. Jesus ora antes das decisões (Lc 6,12), no meio da missão (Mc 1,35) e na angústia extrema (Mc 14,32-42). Contemplação e ação não se opõem. O ativismo sem oração esgota; a oração sem compromisso aliena. O Concílio Vaticano II afirma que não existe fé cristã desconectada da história humana (GS 1).

A vigilância emerge como eixo dessa espiritualidade integrada. “Vigiai e orai” (Mc 14,38) é convite à lucidez, não ao medo. Pedro liga vigilância à oração (1Pd 4,7). Paulo associa vigilância à sobriedade histórica (Rm 13,11-14). Vigilância cristã é consciência crítica: não naturalizar a injustiça, não espiritualizar a violência, não sacralizar sistemas que produzem exclusão.

O Salmo 127 recorda que toda ação humana perde o sentido quando se absolutiza. “Se o Senhor não constrói a casa…” é crítica à autossuficiência, não convite à passividade. A Doutrina Social da Igreja insiste que desenvolvimento sem justiça não é progresso, mas regressão. Documentos da CNBB reafirmam que evangelizar é promover vida digna. Fé e política não se confundem, mas a fé jamais pode se omitir.

Nesse ponto, o tripé: profecia, sacerdócio e reinado aparece como síntese da missão cristã:

  •  Profecia não é previsão do futuro, mas desvelamento do presente; impede que a injustiça se normalize (Lc 4,18-19). Sacerdócio não é privilégio, mas mediação solidária entre a dor do povo e o coração de Deus (Hb 5,1-2). 
  • Reinado não se expressa no domínio, mas no serviço (Mc 10,42-45). O Vaticano II afirma que essa tríplice missão pertence a todo o povo de Deus (LG 10-13). Quando a Igreja abdica da profecia para preservar prestígio, reduz o sacerdócio a ritualismo e confunde reinado com influência política, deixa de ser sinal do Reino.

À luz desse Evangelho, torna-se inevitável a crítica às teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo religioso. Elas deslocam o centro da fé para o sucesso pessoal, transformam a graça em mercadoria e Deus em instrumento. A fé capturada por lógicas de dominação deixa de questionar o poder e passa a servi-lo. O Evangelho apresenta um Messias pobre, itinerante e crucificado (Lc 2,7; Mt 8,20; Mc 15). A prosperidade bíblica está ligada à justiça, à fidelidade e ao cuidado com os vulneráveis (Sl 1; Jr 17,5-8).

Essa crítica alcança o clericalismo, entendido como deformação da autoridade eclesial. Jesus proíbe a lógica do poder entre os seus (Mt 23,8-12). O Papa Francisco denunciava  o clericalismo como raiz de crises eclesiais. A CNBB insiste na sinodalidade, na escuta do povo e na conversão pastoral. Autoridade cristã só se legitima quando vivida como serviço.

Diante de uma realidade marcada por fome, violência, racismo, intolerância religiosa e destruição ambiental, Marcos 7,1-13 impede uma fé indiferente. A criação geme (Rm 8,22). Orar sem escutar esse gemido é repetir a religião denunciada por Jesus. A fé cristã não torna ninguém superior; torna-se critério de responsabilidade histórica.

Marcos  não oferece soluções fáceis. Ele desinstala para reconstruir. No Tempo Comum, onde nada parece extraordinário, o Evangelho revela sua força mais subversiva: denunciar uma religião que fala de Deus, mas se afasta da vida. A Palavra não rejeita a tradição, mas a liberta do que a sufoca; não condena o culto, mas exige que tenha cheiro de gente; não despreza a oração, mas recusa que ela sirva de álibi para a indiferença. 

No chão aparentemente comum da existência cotidiana, o Evangelho continua a derrubar cercas, a misturar mesas e a lembrar que Deus não habita mãos lavadas por medo, mas corações convertidos pela misericórdia. Ali, longe dos holofotes do poder religioso, a fé reencontra sua verdade mais simples e mais exigente: amar a Deus passa, inevitavelmente, por cuidar da vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 5,13-16 - 5⁰ Domingo do tempo comum

  • Mateus 5,13-16: identidade recebida, missão assumida

O texto de Mateus 5,13-16, proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, encontra-se em profunda unidade com as leituras de Isaías 58,7-10, do Salmo 111(112),4-5.6-7.8a.9 e de 1Coríntios 2,1-5. Essa articulação não é casual nem meramente temática, mas revela a pedagogia própria da liturgia da Igreja, que conduz progressivamente a assembleia do reconhecimento da identidade do discípulo à explicitação de sua missão histórica. As Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) delineiam o rosto do discípulo segundo o Reino; o chamado a ser sal da terra e luz do mundo explicita as consequências públicas, sociais e históricas dessa identidade.

A hermenêutica do texto exige que Mateus 5,13-16 seja lido como desdobramento direto das Bem-aventuranças proclamada no domingo passado. Não se trata de uma nova proposta ética, mas de sua consequência inevitável. O discípulo que acolheu o espírito do Reino não pode permanecer invisível, neutro ou indiferente diante da realidade concreta. O verbo utilizado por Jesus é decisivo: “vós sois”. Não se trata de uma meta futura, de um ideal abstrato ou de uma virtude opcional, mas de uma condição já recebida e, ao mesmo tempo, confiada. A identidade precede a ação, mas não a dispensa; ao contrário, torna-a inescapável. A liturgia, ao propor essa continuidade, desloca a fé do âmbito da intimidade religiosa para o horizonte da responsabilidade histórica.

Esse mesmo texto reaparece na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares, recordando que a radicalidade do Evangelho não pertence apenas ao espaço solene do domingo, mas atravessa o cotidiano da vida. A Palavra proclamada na assembleia litúrgica deve tornar-se critério permanente de discernimento e ação. A repetição litúrgica não é redundância, mas insistência pedagógica diante da recorrente tentação humana de fragmentar fé e vida, culto e compromisso, oração e justiça.

Jesus pronuncia essas palavras num contexto histórico concreto, marcado por exploração econômica, concentração de terras e opressão política. A Galileia do século I era uma região empobrecida, submetida à lógica imperial romana e a sistemas religiosos frequentemente associados ao poder. A exegese do texto impede, portanto, qualquer leitura espiritualizante ou abstrata. O chamado a ser sal da terra e luz do mundo nasce no interior de uma realidade ferida e dirige-se à sua transformação. Como em Lucas 4,18-19, a Boa-Nova anunciada por Jesus possui destinatários concretos: os pobres, os cativos, os oprimidos, os invisibilizados da história.

O símbolo do sal, no horizonte bíblico, carrega profunda densidade teológica. Ele remete à aliança, à fidelidade e à preservação da vida: “Não deixarás faltar o sal da aliança do teu Deus” (Lv 2,13; cf. Nm 18,19; 2Cr 13,5). Num mundo sem meios modernos de conservação, o sal era condição de sobrevivência. Aplicado ao discipulado cristão, isso significa que a fé possui uma função vital na sociedade: preservar a dignidade humana, impedir a banalização do mal e resistir à corrupção das relações sociais. Quando Jesus adverte que o sal pode perder o sabor, denuncia uma fé que abdica de sua força profética em troca de acomodação, aceitação social ou privilégio religioso. Fé que não preserva a vida concreta perde sua razão de ser (cf. Ez 33,31).

A imagem da luz amplia essa responsabilidade. Israel fora chamado a ser “luz para as nações” (Is 42,6; 49,6), não  estamos falando de vela do altar não por superioridade moral, mas para que, por meio de sua história, os povos reconhecessem o Deus da justiça e da misericórdia. Em Mateus, essa vocação é estendida aos discípulos de Jesus. A luz não pode ser escondida nem privatizada. A cidade edificada sobre o monte é, por natureza, visível. A fé cristã possui, portanto, uma dimensão pública irrenunciável. Toda tentativa de confiná-la ao espaço do culto ou da consciência individual contradiz o Evangelho e a tradição profética (cf. Am 5,21-24).

É nesse ponto que Isaías 58,7-10 oferece uma chave hermenêutica decisiva. O profeta denuncia uma religião que multiplica práticas cultuais, mas convive pacificamente com a fome, a miséria e a opressão. O verdadeiro culto, segundo Isaías, manifesta-se na partilha do pão, no acolhimento do pobre e na libertação dos oprimidos. Só então “a tua luz romperá como a aurora”. A convergência entre Isaías e Mateus revela que não existe oposição entre fé e compromisso social; existe, sim, oposição radical entre fé autêntica e religião vazia. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética e a leva às últimas consequências.

O Salmo 111(112) descreve o justo como alguém que “é luz nas trevas”, generoso, compassivo e firme na justiça. Não se trata de um indivíduo isolado, mas de uma presença que sustenta a vida comunitária. Na tradição bíblica, justiça e misericórdia não se opõem, mas caminham juntas (cf. Mq 6,8). Do ponto de vista psicológico, essa fé gera estabilidade interior e coragem ética. O justo não ignora o mal, mas também não se deixa paralisar por ele. Sua confiança em Deus torna-se fonte de esperança coletiva.

Paulo, em 1Coríntios 2,1-5, aprofunda essa lógica ao rejeitar uma fé baseada na eloquência, no prestígio ou na sabedoria dominante. Ele anuncia um Cristo crucificado para que a fé não se apoie no poder humano, mas na força de Deus. Essa perspectiva constitui uma crítica teológica contundente às teologias da prosperidade, do domínio e da fé transformada em mercadoria. Prometer sucesso individual como sinal inequívoco da bênção divina contradiz o Evangelho daquele que “se fez pobre” (2Cor 8,9) e que não tinha onde reclinar a cabeça (Lc 9,58). Buscar poder em nome de Deus reproduz a lógica das tentações que o próprio Jesus recusou no deserto (cf. Mt 4,8-10).

Do ponto de vista antropológico e psicológico, o individualismo religioso contemporâneo produz sujeitos fragilizados, culpabilizados e ansiosos. Oferece promessas de prosperidade, mas silencia diante do sofrimento estrutural e do fracasso humano. O Evangelho propõe outra lógica: o ser humano se realiza na doação, não no acúmulo (cf. At 20,35). Ser sal e luz é afirmar, com a própria vida, que ninguém é descartável, porque todos são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).

Essa compreensão possui implicações políticas inevitáveis, entendendo política em seu sentido mais profundo: o cuidado com a vida comum. A instrumentalização da fé por projetos autoritários, excludentes ou violentos contradiz frontalmente o Evangelho. Jesus foi claro: “Não pode a árvore boa dar frutos maus” (Mt 7,18). Uma fé que legitima o ódio, o racismo, o desprezo pelos pobres ou a exclusão dos diferentes não é fé cristã, mas ideologia religiosa travestida de piedade.

Nesse horizonte, o Documento 105 da CNBB assume relevância central ao afirmar que os leigos e leigas são verdadeiros sujeitos eclesiais, chamados a viver sua fé no mundo e a transformar as realidades temporais à luz do Reino. O documento denuncia o clericalismo como uma distorção eclesial que enfraquece a missão e apaga a luz do testemunho cristão. Uma Igreja que concentra o protagonismo no clero e reduz os leigos a meros consumidores de sacramentos contradiz Mateus 5 e a eclesiologia do Concílio Vaticano II (cf. LG 31; DAp 210).

A luz que deve brilhar não é a do discípulo, mas a de Cristo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O discípulo apenas reflete essa luz quando caminha com Ele. Por isso, o critério último é a glória do Pai, manifestada em gestos concretos de justiça, misericórdia e amor (cf. Mt 25,31-46). Tudo o que não gera vida não glorifica a Deus, por mais religioso que pareça.

A afirmação de Jesus de que os discípulos são sal da terra e luz do mundo deve ser compreendida também como uma ruptura com as expectativas religiosas do seu tempo. Muitos aguardavam um Messias que restaurasse o poder político de Israel ou reforçasse uma identidade religiosa fechada e defensiva. Jesus frustra essas expectativas ao não retirar seus seguidores da história, mas ao lançá-los ainda mais profundamente nela. O discipulado não é fuga, mas inserção crítica. A fé cristã não cria guetos religiosos; ela gera presença transformadora.

Essa perspectiva é confirmada quando se observa que Jesus não estabelece fronteiras geográficas ou culturais para a missão. “Vós sois a luz do mundo” refere-se ao mundo inteiro, com suas contradições e ambiguidades. Essa universalidade impede qualquer leitura exclusivista ou sectária do Evangelho. A luz não pertence a um grupo que se julga puro, mas é dom confiado a discípulos frágeis, conscientes de que também caminham entre luzes e sombras. Essa consciência impede tanto o moralismo quanto o triunfalismo religioso.

É importante notar que Mateus escreve para uma comunidade que começa a se estruturar institucionalmente. Há, portanto, o risco real de que a comunidade cristã substitua o dinamismo do Evangelho por normas rígidas e seguranças identitárias. A advertência sobre o sal que perde o sabor funciona como crítica preventiva à institucionalização sem profecia. Sempre que a Igreja se preocupa mais em se preservar do que em servir, mais em se defender do que em se doar, o sal começa a perder sua força.

Essa advertência torna-se especialmente atual num contexto em que a fé cristã é instrumentalizada para garantir status social, influência política ou vantagens econômicas. A religião passa a funcionar como capital simbólico, e não como caminho de conversão. Jesus, porém, não chama seus discípulos a ocupar espaços de poder, mas a transformar relações. Ele não promete sucesso, mas fecundidade. A fecundidade do Evangelho não se mede por números ou aplausos, mas pela capacidade de gerar vida onde ela está ameaçada (cf. Jo 15,8.16).

A luz, nesse sentido, não elimina imediatamente as trevas, mas permite caminhar nelas sem se perder. Essa imagem é profundamente antropológica. A condição humana é marcada por ambiguidades, limites e conflitos internos. Uma espiritualidade que promete clareza total e soluções imediatas para todos os problemas cai na ilusão. A luz do Evangelho não anestesia a dor nem nega a complexidade da vida; ela oferece sentido, discernimento e esperança. “A lâmpada para os meus pés é a tua palavra” (Sl 119,105). A Palavra ilumina o caminho, não o substitui.

Essa compreensão impede também uma leitura fundamentalista do texto. Jesus não apresenta um manual de comportamento, mas propõe um modo de existir. O discípulo é chamado a discernir, em cada contexto histórico, como ser sal e luz. Isso exige maturidade espiritual, consciência crítica e abertura ao Espírito. É nesse ponto que a tradição da Igreja insiste na formação integral dos fiéis, especialmente dos leigos, chamados a atuar nas realidades temporais com autonomia e responsabilidade evangélica.

O Documento 105 da CNBB reforça que a missão dos leigos não é delegada, mas própria. Eles não são extensão do clero no mundo, mas Igreja presente nas estruturas da sociedade. Essa afirmação rompe com a lógica do clericalismo e reafirma a corresponsabilidade de todo o povo de Deus. Quando os leigos são tratados como auxiliares passivos, a Igreja empobrece e o Evangelho perde alcance. A luz não circula; concentra-se.

Essa concentração produz distorções espirituais e psicológicas. Alguns clérigos tentam   infantilizar os fiéis, criando dependência e medo, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o clero com expectativas messiânicas impossíveis de sustentar. O resultado é uma comunidade frágil, pouco crítica e facilmente manipulável. Jesus, ao contrário, forma discípulos adultos na fé, capazes de discernir, decidir e agir. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). A amizade supõe liberdade e maturidade.

E a  teologias da prosperidade e do domínio deve ser compreendida nesse mesmo horizonte. Essas correntes oferecem segurança ilusória em troca de submissão espiritual. Prometem sucesso, mas silenciam diante do sofrimento que não encontra explicação. Transformam a fé em técnica e Deus em instrumento. Biblicamente, essa lógica aproxima-se mais da idolatria denunciada pelos profetas do que da fé em Javé. “O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6). Onde falta discernimento, a fé se degrada.

A tradição profética, retomada e radicalizada por Jesus, insiste que o critério último da autenticidade religiosa é a defesa da vida, sobretudo a vida dos mais vulneráveis. Isaías, Amós, Miqueias e Jeremias convergem nesse ponto. Jesus se insere explicitamente nessa linhagem quando afirma que o julgamento final se dará a partir do cuidado com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (cf. Mt 25,31-46). Essa passagem funciona como chave hermenêutica de todo o Evangelho e ilumina diretamente Mateus 5,13-16. A luz que não alcança os crucificados da história é falsa.

Essa perspectiva confronta duramente a tentativa contemporânea de alinhar cristianismo e projetos autoritários. A fé cristã não pode ser reduzida a identidade cultural nem a instrumento de guerra simbólica. O Reino anunciado por Jesus não se impõe pela força, mas se propõe pelo testemunho. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação, mas recusa da lógica violenta do poder. Onde o Evangelho é usado para legitimar exclusão, ele é traído.

A  presença cristã como sal e luz implica participação crítica nos processos políticos  e social além  do campo  eclesial  Não se trata de oferecer respostas simplistas, mas de manter viva a pergunta pela dignidade humana. A fé cristã, quando fiel a si mesma, atua como consciência incômoda da sociedade. Ela recorda que o valor da pessoa não se reduz à sua utilidade econômica, que a vida não pode ser sacrificada no altar do lucro e que a política deve servir ao bem comum. Essa atuação exige discernimento e humildade. O discípulo não é dono da verdade, mas testemunha da esperança. Pedro exorta as comunidades a estarem prontas a dar razão de sua esperança, “mas com mansidão e respeito” (1Pd 3,15). A luz do Evangelho não ofusca; esclarece. O sal não agride; transforma silenciosamente. Essa postura evita tanto o proselitismo agressivo quanto o silêncio cúmplice.

Celebrar o 5º Domingo do Tempo Comum é, portanto, renovar a consciência de que a fé cristã é essencialmente missionária. Não no sentido de expansão institucional, mas de fidelidade ao Reino. A Eucaristia, centro da vida cristã, não encerra a missão; ela a inaugura. “Ide em paz” não é despedida, mas envio. O altar aponta para a rua, para o trabalho, para a política, para as periferias existenciais.

Ser sal da terra e luz do mundo é aceitar viver na tensão permanente entre o já e o ainda não do Reino. É caminhar sem garantias, sustentado pela Palavra e pelo Espírito. É errar, recomeçar e perseverar. É compreender que a fidelidade ao Evangelho tem custo, mas também sentido. “No mundo tereis tribulações, mas coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Que reconheçamos, com lucidez e humildade, a urgência de levar o sabor do Evangelho aos lugares onde ele se diluiu, de fazer brilhar a luz onde ela foi ocultada e de romper com toda acomodação às trevas. Iluminada por Cristo, a Igreja é chamada a voltar a ser sinal do Reino no meio do mundo — não por discursos autorreferenciais ou práticas religiosas estéreis, mas por gestos concretos de justiça, misericórdia e cuidado com a vida. Somente assim, como afirma Jesus, “vendo as vossas boas obras”, homens e mulheres glorificarão o Pai que está nos céus (cf. Mt 5,16).  Aceitando o envio que brota da Palavra proclamada e do pão partilhado. A Eucaristia não nos afasta da realidade histórica; ao contrário, devolve-nos a ela com olhos convertidos e mãos disponíveis. A mesa do Senhor não nos isola do mundo, mas nos compromete com ele, especialmente com os que vivem nas margens da dignidade.

Ser sal da terra e luz do mundo é assumir o risco da fidelidade ao Evangelho: enfrentar conflitos, denunciar estruturas injustas, resistir às alianças com a morte e construir, mesmo em meio às contradições, sinais concretos do Reino. Não se trata de heroísmo religioso, mas de coerência evangélica. Como Paulo, a Igreja é chamada a confessar: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16) — não um evangelho domesticado, acomodado ao poder ou ao medo, mas o Evangelho que ilumina as trevas, preserva a vida e devolve esperança aos crucificados da história.

Essa é a luz que nos foi confiada. E ela não pode ser escondida, negociada nem apagada.

Queremos reproduzir   a conclusão  da reflexão  de 2023  texto  de hoje  nos convoca  um compromisso, todos nós queremos os benefícios de Mateus 5,1-12, mas para tê-los se faz necessário viver o texto de hoje,  ser sal e  dar sabor e conservar o alimento,  ser luz é  compromisso com a verdade do evangelho, é ter transparência  em seus atos, dando um testemunho coerente com atitudes da defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, ser sal é saber a medida certa, pois na medida errada tudo perde o sabor e o sentido.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,42-46

O Evangelho proclamado nesta quarta-feira da 28ª semana do Tempo Comum nos situa novamente à mesa de um fariseu — espaço que, à primeira vista, poderia parecer apenas um jantar, mas que, sob o olhar atento de Jesus, transforma-se em cenário de revelação, confronto e discernimento. Na sociedade judaica do primeiro século, a refeição era ato social, ritual religioso e também espaço pedagógico. Ser convidado para comer com alguém não era mero gesto de cortesia; era sinal de reconhecimento público e ocasião para demonstrar sabedoria e piedade. Jesus, porém, subverte essa expectativa: não vem para elogiar quem se mostra piedoso, mas para denunciar as contradições do coração religioso e revelar que a verdadeira observância da Lei deve sempre estar permeada pela justiça, pela misericórdia e pelo amor de Deus.

Desde Lucas 11,37, acompanhamos que Jesus foi convidado à refeição e não se limitou às formalidades. Cada gesto do anfitrião e cada cuidado com as aparências se tornam ocasião de revelação. A mesa, lugar de comunhão, transforma-se em cátedra profética. Os “ais” de Jesus não são maldições, mas lamentações — gritos que brotam da compaixão e da indignação diante da hipocrisia. Essa tradição de denúncia nasce dos profetas: Jeremias, Isaías e Amós já haviam clamado contra o culto vazio e a religiosidade sem justiça. Isaías advertia: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13), e Amós gritava: “Quero a justiça correndo como um rio e a retidão como um riacho perene” (Am 5,24). Jesus, portanto, não rompe a tradição profética — Ele a cumpre, mostrando que a fé verdadeira não é aparência nem rito, mas transformação profunda do coração e da vida.

 “Ai de vós, fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as outras ervas, mas deixais de lado a justiça e o amor de Deus. Vós deveríeis praticar isso, sem deixar de lado aquilo.”

O dízimo, que deveria ser sinal de gratidão e partilha, tornou-se instrumento de ostentação. A observância mecânica, sem amor nem compaixão, gera falsa religiosidade. Mateus, em seu paralelo (23,23), reforça que o essencial da Lei é a justiça, a misericórdia e a fidelidade — sem as quais todo ritual se torna vazio. Paulo, por sua vez, recorda que “a fé sem obras é morta” (Tg 2,26), e que o amor é o vínculo da perfeição (Cl 3,14).
Hoje, essa lógica reaparece em contextos onde o sucesso da Igreja é medido por números, arrecadações e prestígio de líderes. A teologia da prosperidade, a fé-mercadoria e o culto à riqueza repetem a lógica farisaica sob nova roupagem. A espiritualidade se converte em produto de consumo, e o Evangelho é distorcido para legitimar poder e status. No entanto, a fé autêntica não é transação, mas comunhão; não é moeda, mas serviço. Deus não se reconhece em quem exibe piedade, mas em quem pratica justiça, reparte o pão e defende os pobres.

Neste ponto, o Evangelho lança sobre nós uma pergunta incômoda e necessária:
Quantas pessoas entram na Igreja por causa da nossa atitude? E quantas saem?
Essas não são questões estatísticas, mas espirituais. Elas medem a coerência entre fé e vida, entre o que professamos e o que praticamos. Muitas vezes imaginamos que nossa fé é assunto íntimo, reservado a ritos e orações. No entanto, cada gesto, cada palavra e até o silêncio testemunham algo de Deus. Somos, queiramos ou não, sinais vivos do Evangelho.

Quando nossas atitudes são marcadas pelo amor, paciência, perdão e cuidado, as portas da fé se abrem: alguém vê compaixão em nossos olhos e se aproxima de Deus. Mas quando agimos com indiferença, orgulho ou hipocrisia, afastamos corações que buscavam acolhida. A incoerência é escândalo espiritual; o amor coerente é pregação silenciosa. Por isso, a verdadeira evangelização começa na conversão interior: o que o outro encontra em mim — julgamento ou misericórdia, peso ou leveza, muro ou ponte?

“Ai de vós, fariseus, porque gostais dos primeiros assentos nas sinagogas e das saudações nas praças públicas.”

A denúncia agora é contra o culto à visibilidade. O fariseu que busca os primeiros lugares simboliza o ego religioso que precisa de aplausos. O Papa Francisco tem advertido que o clericalismo é uma das formas mais sutis de mundanidade espiritual: ele transforma o serviço em carreira e o altar em palco. Psicologicamente, o fariseu manifesta a necessidade de aprovação e o medo da invisibilidade; sociologicamente, ele encarna a manipulação da fé para legitimar poder e excluir os pobres; antropologicamente, é a repetição de um padrão milenar em que o sagrado é usado como escudo de status. Em nossos tempos, essa tentação se manifesta também nas redes sociais, na busca por seguidores e curtidas “em nome de Deus”, mas com o coração distante do Evangelho do serviço.

 “Ai de vós, porque sois como túmulos que não se veem, sobre os quais os homens andam sem saber.”

Na tradição judaica, o túmulo invisível tornava impuro quem passava por cima dele sem perceber. Jesus usa essa imagem para revelar a religião que mata sob aparência de santidade. A fé sem compaixão é sepulcro branco: bela por fora, morta por dentro. Ezequiel viu o vale de ossos secos (Ez 37) e profetizou sobre a necessidade do Espírito para reviver o que estava morto. Assim também, sem o Espírito, toda estrutura religiosa se torna ossário.
Santo Agostinho ensinava que a Lei foi dada para conduzir à graça; São João Crisóstomo denunciava os que oprimem os pobres; São Gregório Magno alertava para o perigo do poder clerical. A Igreja só é viva quando o amor é sua alma. Quando o rito é usado para ocultar a injustiça, o altar se torna túmulo; mas quando a liturgia reflete misericórdia, o túmulo se abre e a vida ressuscita.

 “Mestre, falando assim, insultas-nos também a nós!”

A reação do doutor da Lei revela a resistência típica à palavra profética. Em todas as épocas, a voz da verdade é percebida como ofensa pelos que se acomodam à hipocrisia. Jeremias, Ezequiel, João Batista e até o próprio Cristo foram perseguidos por denunciar as estruturas de opressão. Psicologicamente, o doutor da Lei representa o ego ferido, incapaz de acolher a correção; espiritualmente, simboliza a rigidez de quem confunde a letra da Lei com a vontade de Deus.
L
“Ai de vós também, mestres da Lei, porque carregais os homens com fardos insuportáveis, e vós mesmos não os tocais nem com um dedo.”

A denúncia é clara: a Lei sem compaixão oprime; a autoridade sem serviço domina. Quantas vezes a religião se torna peso, em vez de caminho? Quantas vezes a moral é usada como arma, e não como cuidado? Jesus revela que o verdadeiro mestre é aquele que caminha junto, que alivia o peso, que toca com ternura o fardo alheio. A teologia do domínio e as estruturas autorreferenciais traem o Evangelho. O verdadeiro ministério, ensinam os Padres da Igreja, é o que conduz à liberdade e ao amor.

Assim, o Evangelho nos recorda: a salvação não está na observância exterior, mas na conversão interior. Amor e justiça são inseparáveis — o amor sem justiça é conivência; a justiça sem amor é vingança. A fé exige engajamento social, denúncia profética e compromisso com a dignidade humana. Cada fariseu e cada doutor da Lei habitam em nós: o orgulho, o medo da crítica, o desejo de controle. A conversão começa no espelho da consciência, quando deixamos o Espírito moldar o coração.

A mesa do fariseu torna-se, assim, escola de misericórdia. O “ai de vós” de Jesus é também convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados...” (Mt 11,28). Ele não quer destruir, mas libertar; não deseja acusar, mas curar. Quando a fé se dobra diante do amor, o sepulcro se abre e a vida ressuscita.

Mais discípulos, menos juízes.
Mais serviço, menos vaidade.
Mais compaixão, menos aparência.
A fé autêntica não é espetáculo, mercadoria ou instrumento de poder. É justiça, misericórdia e humildade. Amar é cumprir a Lei. Servir é fazer justiça. A misericórdia é o caminho seguro do Reino. Que cada cristão, na comunidade, na Igreja e no cotidiano, se pergunte: até que ponto sou fariseu? Até que ponto minhas práticas revelam amor verdadeiro?
Que o Espírito nos transforme; que a Lei seja guia; que o amor seja critério. E que aprendamos, com o Mestre de Nazaré, a viver o Evangelho não como imposição, mas como vida — vida que acolhe, cura, perdoa e liberta.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

domingo, 3 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 14,13-21

“O Banquete do Reino: Partilha, Profecia e a Eucaristia como Desafio à Igreja do Poder e da Escassez”

A liturgia  da Segunda-feira da 18ª semana do Tempo Comum  nos traz o texto  de Mateus 14,13-21 que traz a temática  da multiplicação  dos pães  que  já  refletinos  outras  vezes como por exemplo nos   texto: Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 - Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso  e  Um breve olhar sobre João 6, 1-15 em 2025 e também  no nosso  canal do YouTube 

Enquanto Herodes celebra o banquete da morte com os poderosos, Jesus celebra o banquete da vida com o povo simples. No contexto imediato, Jesus recebe a notícia do assassinato de João Batista. Em vez de reagir com violência ou fuga definitiva, recolhe-se para um lugar deserto. Mas o deserto não permanece vazio: o povo o segue, faminto de esperança e de sentido. Essa fuga aparente é, na verdade, um ato profético que revela uma fidelidade irreversível à missão do Reino.

No deserto, lugar de provação e memória libertadora do Êxodo, Jesus torna-se o novo Moisés que não apenas fala, mas alimenta. A cena remete ao maná que Deus entregou ao povo hebreu no caminho da libertação (Ex 16). O deserto torna-se palco do milagre da compaixão e da reorganização da vida. Jesus não chama para si os que o seguem, mas os reúne sobre a relva — espaço comum e igualitário, evocando o Salmo 23: “Preparas uma mesa para mim à vista dos meus inimigos” (Sl 23,5). Ali, longe do luxo opressor do palácio de Herodes, o banquete anuncia a nova aliança onde a dignidade do último se torna fundamento do Reino.

A multidão é grande e faminta; os discípulos propõem que a enviem embora para comprar alimento. Jesus, porém, desafia a lógica da escassez e da evasão: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mt 14,16). Este é um convite a assumir responsabilidade, a romper com a passividade e a cumplicidade com sistemas de exclusão. O gesto que se segue — tomar, abençoar, partir e distribuir — é o gesto eucarístico por excelência (cf. Mt 26,26; Lc 22,19). A partilha torna-se sacramento do Reino: não um espetáculo, mas um compromisso radical com a vida.

O pouco dos cinco pães e dois peixes torna-se superabundância. Na fragilidade do que temos está a força da comunhão. A psicologia existencial nos mostra que o medo da escassez paralisa e aprisiona, mas o dom ativado por Jesus rompe o ciclo do egoísmo, refunda a confiança e reinventa os vínculos humanos. Sociologicamente, Jesus organiza a multidão em grupos — como lembra Marcos 6,39-40 — evidenciando que o Reino exige estruturação comunitária, e não confusão ou caridade esporádica.

O simbolismo dos doze cestos recolhidos (Mt 14,20-21) aponta para a plenitude escatológica do novo Israel, reunido em torno do Messias, superando a fragmentação tribal e religiosa. Essa multiplicação difere da outra narrada em Mateus 15 e Marcos 8, que ocorre entre gentios e tem o número sete como símbolo da universalidade e perfeição divina. Aqui, o contexto judaico e o número doze reafirmam a continuidade da Aliança, agora renovada pela lógica do dom e da partilha.

Essa narrativa encontra contraponto na parábola do rico insensato (Lc 12,13-21 proclamado no 18º Domingo do tempo comum do ano c ), que acumula para si e despreza o outro, tornando-se louco ao perder a vida que tentou preservar. Em contrapartida, Jesus mostra que é no repartir o pouco que a vida se faz plena. O evangelho denuncia, assim, a lógica do mercado e do individualismo que amontoa para poucos e exclui a maioria, propondo uma economia do Reino fundada no cuidado, no vínculo e na solidariedade. 

A crítica é também à teologia da prosperidade e da fé mercantilizada, que transforma o Evangelho em mercadoria e a bênção em transação. O Papa Francisco adverte que “a adoração do antigo bezerro de ouro [...] persiste em muitas formas do culto ao dinheiro” (Evangelii Gaudium, 55). A Igreja, fiel à sua missão, deve denunciar uma economia que marginaliza os pobres e transformar-se em fermento de justiça e partilha, conforme ensina o Concílio Vaticano II: “a economia deve estar a serviço da pessoa humana” (Gaudium et Spes, 63). Os Padres da Igreja, como São João Crisóstomo, lembram que não se honra o Corpo de Cristo acumulando riquezas enquanto o pobre passa fome. Santo Agostinho reforça: “Tornai-vos aquilo que recebestes na Eucaristia: Corpo de Cristo”. A Igreja primitiva (At 2,44-46) vivia essa partilha radical, que deve continuar sendo a marca do cristão e da comunidade eclesial. Na perspectiva antropológica, o ato de comer juntos é fundante para a construção das culturas e identidades. Jesus, ao promover o banquete no deserto, funda uma nova humanidade que não é regida pela lógica da competição, mas pela lógica do dom. Psicologicamente, saciar a fome não é só nutrir o corpo, mas curar a alma faminta de justiça e sentido. O milagre é, portanto, transformação integral da pessoa e da sociedade.

A multiplicação dos pães nos revela o Deus que se entrega e convida a entregar-se. Não é um gesto isolado, mas sinal escatológico do banquete definitivo do Reino de Deus (Mt 8,11; Ap 7,16). Cada Eucaristia é ensaio desse Reino onde “não haverá mais fome, nem sede” (Ap 7,16). Celebrar o pão partido e partilhado é assumir compromisso com a justiça e a fraternidade hoje.

Se a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã (Lumen Gentium, 11), ela exige transformação: não basta dizer “Senhor, Senhor” se não partilhamos o pão e a vida. O milagre acontece quando deixamos a lógica dos celeiros do rico insensato para sentar com o povo na relva, organizando a esperança em comunidade. É tempo de romper com os palácios do clericalismo e da vaidade para caminhar com os pequenos e os esquecidos. É tempo de fazer do Evangelho um pão repartido — não um produto de consumo. É tempo de ser Igreja servidora, profética, solidária. E então, o milagre do Reino poderá acontecer novamente em nossas mãos e corações.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


segunda-feira, 28 de julho de 2025

Eu não creio!

Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.” (1Jo 5,21)

O deus que não reconheço

Um desabafo teológico de quem já não suporta os ídolos travestidos de divindade

Preciso dizer, com o peso do corpo e da alma: esse deus que tantos adoram, eu não reconheço. Não creio nele. Não consigo. Não me alcança.

Esse deus que me empurram nas bocas inflamadas, nos palcos convertidos em púlpito, nos altares de ouro congelado e nos silêncios cúmplices das sacristias... esse deus me fere. Me engasga. Me oprime, fere porque agride a dignidade; engasga porque não cabe no sopro do Espírito; oprime porque se veste com o peso da Lei sem o perfume da graça.

Como incenso amargo que sobe, mas não chega ao céu. Como fardo posto sobre os ombros dos outros, que Deus jamais pediu que carregássemos. Não creio no deus que uns e outros de batina, mitra e báculo dizem representar. Um deus entronizado em estruturas de pedra, que protege os fortes e silencia as vítimas. 

Um deus vestido de hierarquia, de moral sem ternura, de rito vazio, e de poder sem compaixão. Um deus que acoberta abusos, que canoniza o silêncio, que se assenta em cátedras mas não escuta o clamor do povo¹.

Finge santidade, mas é cúmplice da dor que não assume, um deus que é só protocolo, cerimonial e batina engomada, mas que não conhece os becos, não senta nas calçadas, não fala a língua da dor e não chora com as mães sem resposta.

Não creio no deus que nomeia CEOs e não pastores, que se senta em mesas de conselho e não em rodas de partilha,  não creio no deus que aplaude relatórios de lucro, mas não chora pelas demissões em massa do trabalhador assalariado.

Não creio no deus que calcula almas em planilhas, que transforma gente em recurso, e o pão em mercadoria. Que confunde gestão com missão, e transforma a comunidade dos pequenos em empresa de resultados.

Não creio no deus que veste terno de grife e pisa firme nos salões refrigerados, mas nunca se descalça diante da sarça ardente do sofrimento humano. Desconhece o chão da existência, onde Deus se revela em fogo que não consome, mas convoca. Não creio no deus dos bispos, padres que demitem pais e mães de família em nome da eficiência, do corte de gasto em vez de cortar no próprio salário, que fecha portas com justificativas técnicas enquanto crianças perdem o sustento. 

Eles seguem o deus dinheiro, eles sabem que esse não é o Deus da vida, é um ídolo de mercado, travestido de divindade. Eu creio no Deus que desce aos porões das fábricas, que escuta o pranto dos dispensados, que caminha com os que saem cabisbaixos com a carteira na mão e a dignidade ferida. O Deus que não maximiza lucros, mas multiplica esperanças. O Deus que diz: “Conheço tuas aflições, e não te esqueço” (Ap 2,9).

Não creio nesse deus aprisionado no direito canônico, esculpido em estatutos frios e regimentos inflexíveis.  Não  creio no deus que pesa a fé na balança da obediência ao papel timbrado, e não na imensidão da compaixão de um coração dilatado².

Não creio no  deus das normas litúrgicas absolutas, que confunde zelo com escrúpulo, e santidade com estéril conformismo, que só se manifesta quando o incenso é aprovado, a cor litúrgica está no tempo certo, com número  de velas exato e  todo  gesto milimetricamente ensaiado. Não creio no deus que se irrita com uma cor fora da estação, mas não se abala com a fome no altar do mundo³.ão creio no deus que mora no missal, mas nunca passou por um leito de dor de um hospital. Não creio  no deus que se emociona com latim, mas não fala a língua da dor. Não creio no deus que exige sacrifícios humanos, que sorri para cruzes em nome da disciplina, mas esquece quem está pendurado nelas⁴. O mesmo que ainda pede Isaque no altar, mas ignora que Deus já ensinou, com Abraão, a suspender a faca. Não deus creio  no deus que se deixa comprar com moedas, e troca bênçãos por boletos pagos.

Não creio no deus que se contenta com aplausos, mas nunca se curva para lavar os pés de ninguém⁵.

Não creio no deus que me ensinaram a temer desde criança, que me diziam ser amor, mas que ainda usam para me calar, me julgar, me reduzir... esse deus me confunde. 

Me disseram que esse deus era o Pai, mas ele me tratava como servo amedrontado. Me falaram de amor, mas senti vigilância. Me prometeram consolo, e me deram silêncio.

E confesso: por vezes, quase acreditei nele, quase o servi e quase me curvei. Mas ele nunca respondeu às minhas lágrimas, nunca veio na madrugada do meu desespero e nunca me abraçou quando tudo desabava.

Não creio no deus que abençoa armas, que prega submissão de mulheres em nome da “ordem”, que condena o corpo e a dança, mas celebra a morte em horário nobre,  Não creio no deus que bate continência para ditadores, e cita versículos para justificar injustiças⁶.

Esse deus... é o bezerro de ouro dos nossos dias — fundido com medo, adorado com culpa, erguido pelos Arãos de hoje que dizem, como Arão diante do bezerro: “Foi o povo que pediu”⁷. Fundido com o medo, moldado com a culpa, polido com doutrina, e erguido como espetáculo. E seguem moldando deuses que aplaudem o mercado, enquanto Moisés ainda luta no alto da montanha por justiça e libertação.

Não creio no deus que criminaliza os pobres, que espiritualiza a miséria, que condena o afeto entre iguais e idolatra famílias de fachada. Esse deus é ídolo de mercado, produto de marketing teológico. climatizado, que mora no ar-condicionado e se recusa a suar com os trabalhadores, não suporta o calor das vielas.

Não creio no deus que celebra a ressurreição com cantos afinados, mas promove a morte com políticas frias e omissões calculadas.

O deus que sorri em aleluias dominicais, mas faz vistas grossas ao genocídio da juventude preta, ao extermínio dos povos originários, à dor dos migrantes e à fome cravada no estômago das periferias.

Não creio no deus que prega unidade nos púlpitos, mas semeia divisão nos bastidores — entre os que podem e os que não podem, os que servem e os que mandam, os puros e os impuros.

Não creio no deus de discursos bonitos e práticas excludentes, que levanta bandeiras de paz mas abençoa os senhores da guerra, não é o Deus de Jesus.

Não creio no deus, que fala de paz em congressos, mas nunca visita o chão da violência onde mães enterram filhos sem resposta.

Porque o Deus que creio é aquele que rompeu o túmulo e as cercas, que uniu o que o sistema separava, que estendeu os braços na cruz para abraçar todos os lados da história.

O Deus que ressuscita a vida onde só restavam ossos secos (Ez 37,5).

O Deus que não divide para reinar, mas se reparte para viver com todos.

“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5).

Porque enquanto houver cruzes, ele estará nelas. E enquanto houver túmulos, ele os fará tremer.

Porque Ele ainda caminha com os de Emaús, parte o pão no fim da tarde, reacende esperanças e revela-se no caminho. (Cf. Lc 24,13-35)

Não creio nesse deus que alguns celebram em catedrais, com véus e homilias polidas, enquanto crianças morrem sem pão e jovens pobres são ceifados no sonho e no corpo na periferia,  Não creio no deus que teme o povo, que protege os donos da verdade, que prefere a casta dos puros à ternura dos pecadores⁸.

Mas eu creio.

Creio no Deus do Êxodo, que ouviu o clamor dos escravos⁹, que viu a aflição de Hagar no deserto¹⁰, a ousadia de Rute entre os espigadores¹¹, e a coragem de Ester diante do rei¹².

Creio no Deus dos profetas, que denunciaram reis e sacerdotes¹³, que rasgaram vestes, quebraram jugos, e disseram: “Não é este o jejum que quero?”¹⁴

Creio no Deus de Maria, que fez do ventre um tambor de libertação¹⁵.

No Deus de Jesus, que nasceu sem berço¹⁶, viveu sem casa¹⁷, e morreu sem defesa¹⁸ na entrada da cidade.

O Deus que tocou impuros¹⁹, perdoou adúlteras²⁰, questionou os moralistas²¹, ergueu os caídos²², escutou os invisíveis, e se retirava para chorar²³.

Esse Deus lavou pés²⁴, não lavou as mãos como Pilatos²⁵.

Suas mãos têm o cheiro do mundo, a poeira da estrada, a memória dos que ninguém toca.

Esse Deus multiplicou pão²⁶, não miséria.

Fez da mesa um espaço de reconciliação, não de controle,

onde cabe traidor e discípulo, onde pão e perdão se repartem juntos. E quando falaram em templo, ele preferiu o corpo humano²⁷. Esse Deus não precisa de mitra nem báculo, nem de documentos carimbados, nem de velas em número par.

Precisa de olhos que enxerguem, ouvidos que escutem, mãos que abracem. 

Não exige sacrifício, deseja misericórdia²⁸.

Não busca templos cheios, mas corações abertos, feridos, dispostos a amar de novo. 

E se me chamarem de herege por não adorar o deus deles, responderei com ternura e firmeza:

Não perdi a fé. 

Apenas me libertei dos ídolos.

Eu vi o Deus vivo.

O Deus que sangra com os pobres, que sonha com os poetas, que anda com as mães de Maio, com os famintos da terra, com os corpos negados pela moral sagrada.

Esse Deus me chamou pelo nome.

Não disse “ajoelha”.

Disse:“Levanta! Caminha! Fala. Denuncia. Desperta. Luta. Ama. Renasce.”

Esse é o Deus que sigo.

O Deus da vida.

O Deus de todos os exilados.

O Deus que ressuscita o mundo onde os deuses do sistema só sabem enterrar.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

---

Notas:

1. Cf. Mt 23,4 – “Atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a levantá-los nem com um dedo.”

2. Cf. 1Sm 16,7 – “O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, o Senhor vê o coração.”

3. Cf. Tg 2,16 – “Se lhes disserem: ‘Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos’, mas não lhes derem o necessário para o corpo, que proveito há nisso?”

4. Cf. Os 6,6 – “Quero misericórdia, e não sacrifícios.”

5. Cf. Jo 13,14 – “Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés...”

6. Cf. Mt 4,6 – até o diabo cita versículos para manipular Jesus.

7. Cf. Ex 32,1-4 – Arão forja o bezerro de ouro “porque o povo pediu.

8. Cf. Lc 18,11 – “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens...”

9. Cf. Ex 3,7 – “Ouvi o clamor do meu povo que está no Egito.”

10. Cf. Gn 16,13 – Hagar dá a Deus o nome: “Tu és o Deus que me vê.”

11. Cf. Rt 2,2 – Rute pede para respigar entre os campos, ousando quebrar convenções

12. Cf. Est 4,16 – Ester entra no palácio: “Se eu perecer, pereci.”

13. Cf. 1Rs 21 – Elias contra Acab e Jezabel por causa de Nabot.

14. Cf. Is 58,6 – “O jejum que eu quero é soltar as amarras da injustiça...”

15. Cf. Lc 1,46-55 – O Magnificat de Maria.

16. Cf. Lc 2,7 – “...porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

17. Cf. Mt 8,20 – “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.”

18. Cf. Mt 27,12-14 – “Mas ele nada respondeu.”

19. Cf. Mc 1,41 – Jesus toca e cura o leproso.

20. Cf. Jo 8,11 – “Eu também não te condeno.”

21. Cf. Mt 23 – série de “Ai de vós...” contra os hipócritas.

22. Cf. Lc 13,11-13 – Mulher encurvada, curada e erguida.

23. Cf. Jo 11,35 – “Jesus chorou.”

24. Cf. Jo 13,5 – Jesus lavou os pés dos discípulos.

25. Cf. Mt 27,24 – Pilatos “lavou as mãos”.

26. Cf. Mc 6,41 – Multiplicação dos pães e peixes.

27. Cf. Jo 2,21 – “Ele falava do templo do seu corpo.”

28. Cf. Mt 9,13 e Os 6,6 – “Quero misericórdia, não sacrifício.”

29. Cf. Ap 21,5 – “Eis que faço novas todas as coisas.”

30. Cf. Lc 4,18 – “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres…”

31. Cf. Lc 24,13-35 – Jesus caminha com os desiludidos de Emaús, parte o pão e reacende a esperança.