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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 14,1.7-11

A  liturgia do sábado da 30ª Semana do Tempo Comum dá continuidade ao Evangelho proclamado na sexta-feira, ambos extraídos de Lucas 14. Na sexta-feira, Lucas 14,1-6 apresenta Jesus diante de um homem que sofria de hidropisia, questionando uma interpretação religiosa da Lei que poderia colocar a observância formal do sábado acima da misericórdia e da vida humana. No sábado, Lucas 14,1.7-11 prossegue com a mesma cena, agora destacando a observação de Jesus sobre os convidados que disputam os primeiros lugares à mesa. Essa continuidade narrativa não é acidental: depois de confrontar uma religiosidade incapaz de reconhecer a urgência do sofrimento humano, Jesus questiona as relações sociais organizadas pela busca de prestígio, pela competição e pela desigualdade. O mesmo ensinamento ganha uma dimensão mais ampla no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, quando a Igreja proclama Lucas 14,1.7-14, acrescentando a orientação para que a hospitalidade seja oferecida aos pobres, aos aleijados, aos coxos e aos cegos, sem expectativa de retribuição. Temos, portanto, uma unidade temática que relaciona misericórdia, humildade e acolhimento. A mensagem também encontra ressonância nas tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas e em outras comunidades cristãs históricas, embora cada tradição possua seu próprio calendário e lecionário, sem necessariamente proclamar essas passagens nas mesmas datas. A Palavra ultrapassa a ocasião litúrgica e interpela toda comunidade que invoca o nome de Deus, mas convive com privilégios, exclusões e disputas por reconhecimento.

O Evangelho situa Jesus na casa de um dos principais fariseus, em um sábado, para participar de uma refeição. Lucas informa que os presentes o observavam atentamente. A narrativa anterior já havia apresentado um homem doente, cuja condição exigia uma resposta concreta de misericórdia. Agora, o olhar de Jesus se volta para os convidados, que escolhiam os lugares de honra. A refeição, no mundo mediterrâneo antigo, não era apenas uma necessidade alimentar ou uma oportunidade de convivência. Ela possuía significado social, religioso e político, pois estabelecia vínculos, expressava pertencimento e tornava visíveis as posições ocupadas pelas pessoas. A proximidade com o anfitrião podia representar reconhecimento, prestígio e influência. Por isso, a disposição dos convidados à mesa revelava mais do que preferências individuais: manifestava uma organização social na qual a honra era distribuída de maneira desigual. Jesus percebe essa realidade e transforma uma situação cotidiana em oportunidade de ensinamento. Não inicia um discurso abstrato sobre virtudes, mas parte de um comportamento concreto para revelar o que acontece quando a necessidade de reconhecimento se torna mais importante do que a fraternidade. A questão fundamental não é simplesmente onde alguém se senta, mas por que precisa ocupar uma posição superior e quais pessoas são desvalorizadas quando a convivência se transforma numa competição permanente. Para compreender a força dessa intervenção, precisamos considerar o contexto histórico da Palestina do século I, submetida ao domínio romano e marcada por desigualdades econômicas, tributárias e sociais. As relações de patronagem constituíam um elemento importante da organização da sociedade. Pessoas influentes ofereciam proteção, recursos e oportunidades, enquanto esperavam lealdade, serviços e reconhecimento. As refeições podiam fortalecer essas relações, estabelecendo redes de reciprocidade entre indivíduos e famílias. O convite, a posição ocupada e a possibilidade de participar de determinados círculos sociais funcionavam como sinais de distinção. A cultura da honra e da vergonha influenciava profundamente o comportamento público, pois a reputação de uma pessoa estava relacionada ao reconhecimento recebido dos outros. Não devemos, entretanto, imaginar que todas as refeições seguissem um modelo rígido ou que os costumes fossem idênticos em todas as regiões. O que podemos afirmar é que os banquetes constituíam espaços nos quais as diferenças sociais podiam ser demonstradas e reforçadas. É nesse ambiente que Jesus questiona a necessidade de conquistar os primeiros lugares. Sua intervenção não é uma simples recomendação de boas maneiras, mas uma crítica à mentalidade que transforma a posição social em medida do valor humano. A pessoa passa a acreditar que é importante porque está acima de alguém, esquecendo que a dignidade não deveria depender de uma classificação estabelecida pelos poderosos.

Ao observar os convidados, Jesus percebe como escolhiam os primeiros lugares e apresenta uma situação relacionada a uma festa de casamento. A imagem do banquete nupcial possui grande significado na tradição bíblica. Casamentos eram ocasiões de celebração, encontro familiar e fortalecimento dos vínculos comunitários. A mesa reunia pessoas, mas também tornava perceptíveis as diferenças de posição e consideração. Jesus utiliza essa experiência conhecida para apresentar uma advertência: quem ocupa precipitadamente o lugar de honra pode ser obrigado a cedê-lo a alguém considerado mais importante. A consequência é a vergonha pública de precisar abandonar a posição pretendida e ocupar um lugar inferior. Em contrapartida, aquele que escolhe um lugar menos destacado poderá ser chamado pelo anfitrião para uma posição melhor. A imagem revela a fragilidade da honra conquistada pela presunção. Quem procura antecipar o reconhecimento dos outros corre o risco de experimentar a própria humilhação. A orientação de Jesus, contudo, não deve ser interpretada como uma técnica de autopromoção disfarçada de humildade, como se ocupar o último lugar fosse uma estratégia para receber posteriormente uma posição superior. O ensinamento questiona a ansiedade de quem precisa controlar a própria imagem e transformar cada encontro numa oportunidade de afirmação pessoal. A humildade começa quando a pessoa deixa de tratar os outros como concorrentes e reconhece que sua dignidade não depende de vencer uma disputa por prestígio. A advertência culmina no versículo 11: 

  • “Todo aquele que se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. 
Essa sentença não aparece isoladamente na tradição bíblica. Em Provérbios 25,6-7, encontramos uma orientação sapiencial para não reivindicar precipitadamente a presença dos poderosos nem procurar uma posição que ainda não foi concedida. Jesus retoma esse horizonte, mas o insere na compreensão do Reino de Deus, conferindo-lhe uma dimensão espiritual e ética mais profunda. A questão deixa de ser apenas a prudência necessária para evitar constrangimentos sociais. A sentença questiona a própria lógica da exaltação humana e o Evangelho não apresenta a posição social, a riqueza ou o reconhecimento público como garantias de valor diante de Deus. A mesma inversão aparece no cântico de Maria, em Lucas 1,46-55, quando ela proclama que Deus dispersa os soberbos, derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. O Magnificat anuncia uma ação divina que desestabiliza a pretensão dos grupos dominantes de transformar seus privilégios em direitos naturais ou em sinais de superioridade moral. Essa inversão não significa que toda pessoa pobre seja necessariamente justa ou que toda pessoa rica seja culpada. Significa que nenhum privilégio humano pode ocupar o lugar da justiça divina e que a condição social de alguém jamais determina sua dignidade diante de Deus.

A sequência narrativa anterior esclarece ainda mais o significado do episódio.

  •  Lucas 13,10-17, Jesus cura uma mulher encurvada em dia de sábado e enfrenta a indignação do chefe da sinagoga, preocupado com sua interpretação da Lei. A mulher, entretanto, estava diante de uma necessidade concreta de libertação. 
  • Lucas 13,22-30, Jesus fala da porta estreita e questiona a falsa segurança daqueles que imaginam possuir garantias de participação no Reino apenas por sua proximidade religiosa. 
  • Lucas 13,31-35, manifesta coragem diante das ameaças de Herodes e lamenta a resistência de Jerusalém à ação de Deus. 
  • Lucas 14,1-6, encontra um homem com hidropisia e questiona se é permitido curar no sábado. Seus interlocutores permanecem em silêncio diante da pergunta sobre fazer o bem ou deixar alguém sofrer. 
Logo depois, em Lucas 14,7-11, o olhar de Jesus se dirige à disputa por posições. A continuidade revela uma crítica que alcança diferentes dimensões da existência religiosa e social. Primeiro, a misericórdia é colocada acima de uma interpretação legalista; depois, a humildade é colocada acima da ambição por reconhecimento. Jesus não separa a relação com Deus da maneira como as pessoas tratam umas às outras. A fidelidade religiosa precisa produzir libertação, solidariedade e relações humanas mais justas. A comparação com Marcos e Mateus exige uma distinção exegética importante. Lucas 14,7-11 não possui uma reprodução narrativa direta em Marcos 10,35-45 ou Mateus 20,20-28. Nessas passagens, encontramos episódios diferentes, mas uma convergência temática significativa. Em Marcos, Tiago e João solicitam posições de honra junto a Jesus na glória, provocando a indignação dos demais discípulos. Jesus questiona o modelo de autoridade dos governantes que dominam os povos e estabelece outra lógica para a comunidade: quem deseja ser grande deve tornar-se servidor, e quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos. Em Mateus, a solicitação é apresentada pela mãe dos filhos de Zebedeu, mas a resposta também confronta a ambição presente no grupo. A diferença redacional entre os evangelistas demonstra que cada narrativa organiza o ensinamento de acordo com sua construção teológica e em Lucas 14, Jesus observa a competição entre convidados durante uma refeição. Marcos e Mateus, confronta diretamente a ambição dos discípulos por posições de autoridade. As situações não são idênticas, mas revelam uma mesma resistência de Jesus à transformação da grandeza em dominação. Essa relação encontra expressão ainda mais próxima em Lucas 22,24-27, quando os discípulos discutem novamente quem seria considerado o maior e Jesus se apresenta como aquele que está entre eles servindo. A autoridade cristã não se legitima pela distância em relação às pessoas, mas pela responsabilidade de cuidar delas.
Os profetas denunciaram repetidamente a separação entre práticas religiosas e responsabilidade social. Em Isaías 1,11-17, Deus questiona sacrifícios, assembleias e celebrações quando a injustiça permanece presente na vida do povo. A exigência é aprender a fazer o bem, procurar a justiça e defender os oprimidos. Em Amós 5,21-24, a denúncia torna-se ainda mais contundente: Deus rejeita solenidades religiosas que não correspondem à prática da justiça e exige que o direito corra como água e a justiça como um rio permanente. Miqueias 6,6-8 resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na caminhada humilde com Deus. Essa tradição impede que a humildade seja confundida com passividade diante da opressão. Uma pessoa humilde não se considera dona da verdade, mas também não utiliza sua modéstia como justificativa para permanecer indiferente ao sofrimento. Reconhecer os próprios limites não significa renunciar à responsabilidade de denunciar a violência, a exploração e a exclusão. A humildade bíblica é uma disposição que permite escutar, aprender, corrigir erros e reconhecer a dignidade de quem foi colocado à margem. Sua consequência ultrapassa a vida interior, alcançando a organização da sociedade, a distribuição dos recursos e o exercício da autoridade. Essa exigência alcança diretamente as comunidades cristãs e suas estruturas de liderança. Quando a autoridade eclesial se transforma em instrumento de controle, quando a participação dos leigos é tratada como ameaça, quando perguntas legítimas são confundidas com desobediência e quando a reputação institucional recebe mais proteção do que as vítimas de abusos, a disputa pelos primeiros lugares reaparece sob vestes religiosas. O clericalismo contradiz a lógica de Jesus porque transforma uma responsabilidade ministerial em privilégio e substitui o serviço pela superioridade. Em Mateus 23,8-12, Jesus hoje  questiona a busca por títulos e posições que estabelecem distâncias entre os membros da comunidade. Sua advertência não elimina as diferentes responsabilidades e ministérios, mas impede que sejam utilizados para construir uma classe superior de pessoas. Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo assumindo a condição de servo e esvaziando-se, tornando-se obediente até a morte de cruz. Esse esvaziamento não significa aceitar abusos, silenciar vítimas ou exigir que os vulneráveis suportem indefinidamente a violência. Trata-se da liberdade daquele que não utiliza sua condição para explorar ou dominar. Uma Igreja coerente com essa mensagem precisa promover transparência, participação, responsabilidade institucional e proteção dos vulneráveis. Nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade ao Evangelho enquanto transforma sua própria preservação em prioridade absoluta.

A realidade da sociedade  dita cristã  onde  concentração de riqueza, a precarização do trabalho, a desigualdade no acesso à educação, à saúde e à moradia e a indiferença diante da fome revelam estruturas que distribuem oportunidades de maneira profundamente desigual. Não basta recomendar humildade aos pobres enquanto os grupos privilegiados preservam mecanismos que lhes permitem acumular vantagens e transferir os custos da desigualdade para os mais vulneráveis. A mensagem de Jesus não oferece um programa partidário pronto, mas estabelece critérios éticos para avaliar projetos políticos, decisões econômicas e instituições. Quando o poder serve exclusivamente aos interesses de quem já possui influência, a lógica do Reino é contrariada. Quando discursos políticos transformam adversários em inimigos desumanizados, utilizam o medo para manipular a população ou invocam Deus para legitimar violência e autoritarismo, a religião corre o risco de converter-se em instrumento de dominação. Isso não significa identificar automaticamente todas as pessoas de direita ou de esquerda com essas práticas. Significa avaliar criticamente os frutos concretos dos discursos e das ações. A fé não pertence a partidos, governantes ou líderes carismáticos. Sua credibilidade depende da verdade, da justiça, da misericórdia e da defesa da dignidade humana, inclusive quando esses compromissos contrariam interesses políticos, econômicos ou religiosos. 
Infelizmente a sociedade contemporânea também reproduz a disputa pelos primeiros lugares por meio da exposição permanente, da comparação e da transformação da existência em espetáculo. As redes sociais ampliam possibilidades de comunicação, denúncia e participação, mas também podem alimentar a necessidade compulsiva de aprovação, a agressividade e a construção de identidades baseadas na aparência. O reconhecimento público passa a funcionar como medida de valor, enquanto a escuta, a responsabilidade e o trabalho silencioso parecem insuficientes diante da busca por visibilidade. A psicologia ajuda a compreender como a insegurança pode alimentar comportamentos competitivos e como a necessidade de pertencimento pode tornar as pessoas vulneráveis à manipulação de grupos e lideranças que oferecem uma falsa sensação de superioridade moral. A pessoa passa a acreditar que precisa vencer o outro para existir, que discordar significa atacar e que admitir um erro representa perder valor. Jesus apresenta outro caminho: uma identidade fundamentada na relação com Deus e na responsabilidade pelo próximo. A humildade não elimina a necessidade humana de reconhecimento, mas impede que essa necessidade determine todas as escolhas. Quem compreende sua dignidade não precisa humilhar o adversário para afirmar sua própria existência. A conversão também se manifesta na capacidade de dialogar, reconhecer erros, abandonar preconceitos e resistir à manipulação que transforma diferenças humanas em justificativas para a violência. 

O desenvolvimento da passagem no 22º Domingo do Tempo Comum, Ano C, amplia a crítica para a responsabilidade daquele que organiza a mesa. Em Lucas 14,12-14, Jesus dirige-se ao anfitrião e recomenda que não convide somente amigos, parentes e vizinhos ricos, capazes de retribuir o benefício. Propõe, em vez disso, acolher pobres, aleijados, coxos e cegos, pessoas que não podem devolver a hospitalidade nos mesmos termos. O ensinamento desloca o olhar da posição ocupada pelos convidados para os critérios utilizados na escolha de quem participa. A questão deixa de ser apenas quem deseja sentar-se perto do anfitrião e passa a ser quem recebe o convite e quem permanece excluído. A hospitalidade não pode ser reduzida a investimento numa rede de favores, prestígio e reciprocidade. Jesus questiona a organização das relações sociais quando elas dependem exclusivamente da possibilidade de retorno. Essa orientação continua interpelando famílias, instituições, empresas e comunidades religiosas que acolhem com facilidade pessoas influentes, mas mantêm distância daqueles cuja pobreza, deficiência ou história de sofrimento incomoda. Acolher verdadeiramente não significa conservar os pobres numa condição permanente de dependência. Significa reconhecer seus direitos, eliminar barreiras, ampliar sua participação e trabalhar para que ninguém precise mendigar aquilo que lhe é devido por dignidade e justiça.

A referência à recompensa na ressurreição dos justos, em Lucas 14,14, acrescenta uma dimensão escatológica ao ensinamento. Jesus não apresenta a generosidade como uma transação comercial com Deus, na qual cada gesto seria realizado para garantir uma vantagem futura. Ele questiona justamente a lógica da reciprocidade calculada, segundo a qual todo benefício precisa produzir retorno equivalente. A esperança da ressurreição anuncia que a justiça divina ultrapassa os sistemas humanos de reconhecimento e que o valor de uma ação não depende de sua recompensa imediata. Em Mateus 6,1-4, Jesus adverte contra a prática da justiça destinada a conquistar aplausos, ensinando que a esmola não deve transformar-se em espetáculo. Em Tiago 2,1-9, a comunidade cristã é advertida contra a discriminação entre a pessoa ricamente vestida e aquela que chega em condição de pobreza. Favorecer o rico e desprezar o necessitado contradiz a fé professada. Primeira João 3,17 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que possui recursos, vê o irmão necessitado e fecha o coração. A espiritualidade cristã não pode ser medida pelo volume de orações, títulos religiosos ou discursos doutrinários quando falta disposição para compartilhar, reparar injustiças e reconhecer no outro uma vida dotada de valor próprio.
Hoje a  conversão proposta por Jesus precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. 
  • No plano pessoal, exige examinar a necessidade de reconhecimento, as atitudes diante daqueles que consideramos inferiores e os privilégios que preferimos não questionar. No plano comunitário, requer relações menos competitivas, liderança responsável, acolhimento efetivo e decisões que considerem a realidade dos mais vulneráveis. 
  • No plano social, convoca à transformação das condições que produzem fome, exclusão, violência e desigualdade. Não se trata de reduzir a fé a uma militância partidária, mas de reconhecer que nenhuma espiritualidade pode permanecer indiferente às consequências concretas das escolhas humanas. A denúncia profética não autoriza o orgulho de quem se imagina moralmente superior. 
Os profetas falavam em nome de uma aliança que também exigia conversão do próprio povo. Jesus reúne firmeza e misericórdia: confronta a hipocrisia, questiona os poderosos, acolhe os feridos e oferece possibilidades de mudança. Sua mensagem não permite que a religião seja utilizada para anestesiar consciências ou justificar injustiças. O verdadeiro encontro com Deus precisa produzir uma transformação que possa ser reconhecida na maneira como tratamos as pessoas, distribuímos responsabilidades e enfrentamos as situações que ameaçam a vida.

A humildade evangélica, não significa aceitar humilhações, suportar violência doméstica, tolerar exploração no trabalho ou permanecer em silêncio diante de abusos praticados por autoridades religiosas e políticas. A submissão imposta aos vulneráveis não é a humildade ensinada por Jesus. Ao contrário, quando alguém utiliza a linguagem religiosa para exigir obediência incondicional, impedir denúncias ou proteger privilégios, está contradizendo o sentido do serviço cristão. A pessoa humilde reconhece que não é superior aos outros, mas também sabe que ninguém tem o direito de retirar sua dignidade. Por isso, a defesa de direitos, a denúncia de injustiças e a construção de mecanismos de proteção não são atitudes contrárias à espiritualidade. São expressões concretas de responsabilidade ética. A cruz de Cristo não pode ser instrumentalizada para obrigar vítimas a permanecer em situações de violência. A prática de Jesus mostra que a misericórdia se aproxima de quem sofre, enquanto a verdade confronta aquilo que produz sofrimento. Uma comunidade que deseja seguir o Mestre precisa aprender a proteger os vulneráveis, responsabilizar os agentes de violência e criar condições para que todos participem plenamente da vida coletiva. A mesa de Lucas 14 torna-se, assim, uma imagem poderosa para avaliar a sociedade e a própria Igreja. Quem escolhe os convidados? Quem distribui os lugares? Quem decide quais pessoas merecem ser ouvidas? Quem permanece do lado de fora enquanto os mesmos grupos concentram reconhecimento e influência? Essas perguntas não pertencem apenas ao passado bíblico. Estão presentes nas instituições que reproduzem privilégios, nos ambientes profissionais que descartam os trabalhadores mais frágeis, nas políticas públicas que ignoram populações inteiras e nas comunidades religiosas que confundem fidelidade com silêncio. O Evangelho não pede que as diferenças de responsabilidade desapareçam, mas que nenhuma função seja transformada em instrumento de superioridade. A autoridade deve ser exercida com competência, prestação de contas e compromisso com o bem comum. A liderança que não escuta, não presta contas e não reconhece os próprios limites corre o risco de transformar serviço em domínio. A humildade cristã não é ausência de firmeza, mas liberdade diante da vaidade e responsabilidade diante da vida. Ela permite reconhecer que a verdade não pertence exclusivamente a quem ocupa uma posição de destaque e que a experiência dos pobres e excluídos precisa participar das decisões que afetam sua existência.
No fim, a pergunta decisiva não é quem merece ocupar o primeiro lugar, mas que espécie de humanidade construímos quando todos precisam disputar reconhecimento. Uma sociedade organizada pela competição permanente produz medo, solidão e exclusão, mesmo quando justifica suas desigualdades com discursos de mérito, tradição ou religiosidade. A comunidade do Reino de Deus é chamada a outra lógica: servir sem humilhar, acolher sem calcular vantagens e exercer autoridade sem transformar pessoas em instrumentos. Lucas 14,1.7-11 não ensina passividade diante da injustiça, mas libertação da vaidade que escraviza e das hierarquias que desumanizam. A continuação dominical, em Lucas 14,1.7-14, mostra que essa transformação precisa chegar à organização concreta da mesa, incluindo aqueles que não possuem influência ou capacidade de retribuição. A verdadeira elevação não nasce da conquista do assento mais importante, mas da disposição de levantar quem foi derrubado, ouvir quem foi silenciado e abrir caminhos para quem permaneceu excluído. A humildade deixa, então, de ser uma virtude apenas proclamada e se transforma em força histórica, espiritual e social. Onde o orgulho cede lugar à justiça, onde a autoridade se converte em serviço e onde a hospitalidade rompe os limites do privilégio, o Evangelho recupera sua radicalidade. É ali que a fé deixa de ser aparência, a religião reencontra sua responsabilidade profética e o Reino de Deus começa a ganhar forma na vida cotidiana.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 24 de outubro de 2026

Olhando novamente Mateus 22,34-40 - 30⁰ Domingo do Tempo Comum

No 30⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana reúne Êxodo 22,20-26, o Salmo 17(18), 1Tessalonicenses 1,5c-10 e Mateus 22,34-40 numa unidade teológica que impede separar a experiência de Deus da responsabilidade pela vida humana. 
  •  Êxodo 22,20-26: proíbe oprimir o estrangeiro, prejudicar a viúva e o órfão e explorar o pobre, enquanto o salmo apresenta o Senhor como rochedo, fortaleza e libertador daqueles que clamam por socorro. 
  • 1Tessalonicenses 1,5c-10: Paulo, por sua vez, recorda uma comunidade que acolheu o Evangelho em meio às tribulações e abandonou os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. 
No Evangelho de Mateus 22,34-40, Jesus reúne a Lei e os Profetas em dois mandamentos inseparáveis: amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento e amar o próximo como a si mesmo. A relação entre essas leituras revela que o Deus que escuta o clamor dos vulneráveis é o mesmo a quem se deve amar com a totalidade da existência, e esse amor precisa tornar-se reconhecível nas relações humanas. A celebração litúrgica, portanto, não oferece apenas ensinamentos espirituais, mas apresenta um critério para examinar a consciência, as instituições religiosas e as estruturas sociais que determinam quem pode viver com dignidade e quem permanece abandonado.
O Evangelho de Mateus 22,34-40 também  aparece  na sexta-feira da 20⁰ semana do Tempo Comum, e a temática  volta na  liturgia  proclamada no Sábado da 9ª Semana do Tempo Comum e no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano B  comMarcos 12,28-44  e  Lucas 10,25-37, que desenvolve a questão do amor ao próximo por meio da parábola do samaritano, é proclamado na segunda-feira da 27ª semana do tempo comum  e no 15⁰ domingo do tempo comum  do Ano C. As Igrejas ortodoxas, anglicanas, luteranas e outras comunidades cristãs históricas também reconhecem a centralidadde desses mandamentos, embora seus calendários e lecionários apresentem distribuições próprias. A convergência entre essas tradições testemunha que o amor não constitui um tema secundário da espiritualidade cristã, mas um princípio fundamental para interpretar a Escritura e discernir a autenticidade do discipulado. A pergunta que atravessa esses textos permanece especialmente incômoda quando a religião fala constantemente de Deus, mas convive tranquilamente com a exclusão, a violência, a desigualdade e a indiferença diante do sofrimento humano.
Para compreender a resposta de Jesus, é necessário considerar o contexto histórico e narrativo sem reduzir o judaísmo do primeiro século a uma religião de formalismos vazios. A Torá contém numerosos mandamentos, e os mestres de Israel discutiam como compreender sua unidade e identificar os princípios centrais da vontade divina. A pergunta sobre o maior mandamento era legítima dentro dessa tradição interpretativa. Mateus, entretanto, situa o episódio numa sequência de confrontos em Jerusalém, depois da entrada de Jesus na cidade e de sua intervenção no Templo, quando denuncia sua transformação em espaço de exploração e evoca Isaías 56,7 e Jeremias 7,11 (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, além das controvérsias sobre o imposto a César e a ressurreição dos mortos (Mt 21,28-22,33). Nesse ambiente de disputas, a pergunta sobre o maior mandamento ultrapassa uma discussão acadêmica: coloca em questão a autoridade de Jesus e o significado concreto da fidelidade a Deus. 
Jerusalém era o centro religioso de Israel, lugar do Templo e das grandes peregrinações, mas também estava submetida ao domínio imperial romano. Os tributos, a concentração de terras, as desigualdades econômicas e as tensões políticas marcavam a existência cotidiana de grande parte da população. Durante a Páscoa, a memória da libertação do Egito adquiria particular intensidade, pois o povo celebrava sua história de emancipação enquanto vivia sob uma potência estrangeira. Nesse cenário, Jesus não oferece uma resposta que permita à religião refugiar-se numa espiritualidade indiferente aos conflitos sociais. Sua síntese da Lei e dos Profetas exige que a relação com Deus seja examinada à luz da maneira como as pessoas exercem o poder, tratam os pobres e respondem às necessidades daqueles que não dispõem de proteção. O amor não é uma abstração desligada da história, mas uma exigência que confronta os interesses estabelecidos e revela a distância entre a profissão religiosa e a prática cotidiana.
Jesus começa citando Deuteronômio 6,5, mandamento associado ao Shemá, a confissão fundamental de Israel: 
  • “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4-5). 
Marcos conserva explicitamente essa introdução (Mc 12,29), recordando que a fé começa pela escuta. Na linguagem bíblica, ouvir não significa simplesmente receber sons, mas acolher uma palavra capaz de orientar decisões e transformar comportamentos. Amar a Deus com todo o coração significa comprometer al inteligência, a vontade, a memória e os afetos; amá-lo com toda a alma significa entregar-lhe a existência inteira; fazê-lo com todo o entendimento, como destaca Mateus, implica discernimento e responsabilidade intelectual. Uma fé que exige submissão cega, demoniza perguntas e transforma líderes em autoridades incontestáveis pode produzir conformidade exterior, mas não necessariamente fidelidade ao Deus vivo. Paulo recomenda que os cristãos examinem tudo e conservem o que é bom (1Ts 5,21), enquanto Romanos 12,2 apresenta a renovação da mente como condição para discernir a vontade divina. Num mundo marcado pela desinformação, pelas teorias conspiratórias e pela manipulação emocional, amar a Deus também significa recusar a mentira, investigar os fatos e não confundir convicções pessoais com revelações incontestáveis.
O segundo mandamento, retirado de Levítico 19,18, determina que se ame o próximo como a si mesmo. Jesus afirma que ele é semelhante ao primeiro, estabelecendo entre ambos uma relação inseparável (Mt 22,39). Não se trata de acrescentar uma obrigação social a uma espiritualidade que poderia existir independentemente dela, mas de reconhecer que o amor a Deus se torna visível nas relações humanas. A primeira carta de João expressa essa consequência com radicalidade: quem afirma amar a Deus, mas odeia o irmão, contradiz a própria confissão religiosa (1Jo 4,20). Essa afirmação não reduz Deus à humanidade; recorda que o Deus cristão se revelou na encarnação, fazendo-se presente na história humana em Jesus Cristo (Jo 1,14). Por isso, é profundamente contraditório venerar o Cristo encarnado e desprezar os corpos feridos pela fome, pela exploração, pelo racismo, pela guerra ou pela violência doméstica. A fé perde sua coerência quando proclama a dignidade de Deus, mas considera negociável a dignidade de pessoas concretas.
O contexto de Levítico torna ainda mais evidente a dimensão social desse mandamento. O mesmo capítulo que ordena amar o próximo proíbe a fraude, a exploração, a injustiça nos julgamentos e o ódio cultivado no coração (Lv 19,11-18). Mais adiante, determina que o estrangeiro residente seja tratado como um membro da comunidade e amado como a si mesmo (Lv 19,33-34). O próximo, portanto, não pode ser limitado àqueles que compartilham nossa nacionalidade, religião, classe social ou orientação política. A primeira leitura do domingo aprofunda essa exigência ao proibir a opressão do estrangeiro e a exploração da viúva e do órfão (Ex 22,20-26). Essas figuras representam pessoas particularmente vulneráveis numa sociedade em que o pertencimento familiar, a propriedade e as redes de proteção determinavam grande parte das possibilidades de sobrevivência. A legislação bíblica impede que a fragilidade alheia se transforme em oportunidade de enriquecimento e declara que Deus ouvirá o clamor dos oprimidos. Essa imagem remete à memória fundadora do Êxodo, quando o Senhor afirma ter visto a aflição do povo, ouvido seu grito e conhecido seus sofrimentos (Ex 3,7). O Deus bíblico não permanece indiferente diante da dor humana.
O Salmo 17(18) amplia essa perspectiva ao apresentar o Senhor como rochedo, fortaleza, libertador e abrigo. Essas imagens expressam a confiança de quem encontra sustentação quando a existência é ameaçada, mas também convocam a comunidade de fé a participar concretamente da proteção dos vulneráveis. Não basta cantar que Deus é refúgio para quem sofre se a própria comunidade permanece indiferente às pessoas que precisam de amparo. A oração litúrgica perde sua coerência quando os lábios proclamam a fidelidade divina, enquanto as mãos se fecham diante da fome, da violência e da injustiça. Os profetas já haviam denunciado essa separação entre culto e responsabilidade: 
  • Isaías exige que se aprenda a fazer o bem e se defenda o oprimido (Is 1,11-17).
  • Amós proclama que o direito deve correr como água e a justiça como torrente permanente (Am 5,21-24).
  •  Miqueias resume a vontade de Deus na prática da justiça, no amor à misericórdia e numa caminhada humilde com o Senhor (Mq 6,8). 
Jesus permanece nessa tradição quando denuncia a negligência da justiça, da misericórdia e da fidelidade por parte de pessoas preocupadas com a aparência de observância religiosa (Mt 23,23). A carta aos Tessalonicenses acrescenta outra dimensão ao conjunto litúrgico ao falar da conversão dos ídolos para o serviço ao Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1,9). A idolatria não se limita à adoração de imagens, pois também ocorre quando realidades humanas são transformadas em absolutos e passam a exigir lealdade acima da consciência e da dignidade alheia. O dinheiro torna-se ídolo quando o lucro vale mais que a vida; o poder, quando a autoridade se considera imune à crítica; a pátria, quando seus símbolos são colocados acima da dignidade de outros povos; e a segurança, quando serve para justificar qualquer forma de violência. Essa advertência ilumina criticamente expressões da extrema direita que mobilizam símbolos cristãos para proteger líderes, espalham medo, transformam minorias em inimigos e apresentam soluções autoritárias como se fossem exigências da fé. Não se deve confundir toda pessoa de direita com essas práticas, nem transformar o Evangelho em propriedade de qualquer partido. O critério cristão exige que toda ideologia seja julgada por seus frutos e por sua relação com a justiça, a verdade e a dignidade humana. Quando o pobre é acusado de sua própria miséria, o estrangeiro é tratado como ameaça e a violência é celebrada como demonstração de força, a religião corre o risco de servir a ídolos políticos em vez de testemunhar o Deus libertador.
Os relatos sinóticos iluminam diferentes dimensões dessa mesma exigência. Marcos 12,28-44, o escriba dialoga com Jesus e reconhece que amar a Deus e ao próximo vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios. Jesus lhe diz que não está longe do Reino de Deus (Mc 12,33-34), sem desprezar a tradição cultual de Israel, mas mostrando que nenhuma prática religiosa substitui a fidelidade à vontade divina. Mateus situa a resposta num ambiente mais conflituoso e conclui que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22,40). Lucas, por sua vez, desenvolve a questão mediante a parábola do samaritano, depois que um especialista pergunta quem é o próximo que deve amar (Lc 10,25-37). O sacerdote e o levita encontram o homem ferido e passam adiante, enquanto o samaritano, pertencente a um grupo frequentemente desprezado, aproxima-se, trata as feridas, providencia transporte e assume os custos do cuidado. Lucas desloca a discussão da definição teórica para a responsabilidade concreta: a pergunta decisiva não é apenas quem merece ser amado, mas se estamos dispostos a tornar-nos próximos de quem sofre.
A sequência de ações do samaritano revela a gramática prática do Evangelho.  Ele vê o homem caído, permite que a situação o afete, aproxima-se e cuida de suas feridas, transformando a compaixão em responsabilidade. Essa narrativa confronta uma sociedade habituada a administrar a miséria sem questionar as estruturas que a produzem. Não basta sentir pena das pessoas que vivem nas ruas, dos migrantes, dos desempregados ou daqueles que sofrem dependência e exclusão; é necessário compreender as causas do abandono e construir respostas que protejam a dignidade humana. A compaixão não substitui a justiça pública, mas impede que a justiça se transforme numa burocracia indiferente. A justiça, por sua vez, amplia a compaixão ao procurar impedir que novas pessoas sejam submetidas às mesmas formas de sofrimento. A misericórdia cristã não significa impunidade nem negação da gravidade do mal. Significa responsabilizar quem causa danos, proteger as vítimas e recusar que a vingança seja a palavra definitiva sobre a existência humana. Quando Jesus afirma que deseja misericórdia e não sacrifício (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6), denuncia uma religiosidade que prefere condenar a abrir caminhos de transformação.
O amor anunciado por Jesus manifesta-se também na maneira como ele compreende a autoridade. A carta aos Filipenses apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e se entrega até a morte de cruz (Fl 2,5-8). A cruz, instrumento de execução utilizado pelo poder imperial, não pode ser legitimamente convertida em símbolo de superioridade, crueldade ou autorização para perseguir adversários. Jesus ensina que os governantes das nações dominam seus subordinados, mas declara que entre seus discípulos a lógica deve ser diferente, pois o maior é chamado a servir (Mt 20,25-28). Essa exigência confronta o clericalismo quando o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em controle e a preservação institucional se torna mais importante que a dignidade das pessoas. Uma Igreja fiel ao Evangelho não deve temer perguntas honestas, silenciar a participação dos leigos e das leigas nem proteger abusos para conservar prestígio. Sua autoridade precisa ser exercida como serviço, escuta e cuidado, reconhecendo que nenhuma instituição pode reivindicar fidelidade a Cristo enquanto abandona aqueles que necessitam de defesa.
A responsabilidade pelo próximo alcança igualmente a organização econômica e o cuidado da criação. Jesus adverte que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro (Mt 6,24), denunciando a possibilidade de a riqueza ocupar o lugar da consciência. O problema não está no trabalho, nos bens ou na busca legítima de melhores condições de vida, mas numa ordem social que naturaliza a concentração excessiva enquanto milhões enfrentam insegurança alimentar, moradia precária e acesso insuficiente à saúde. A tradição social cristã, especialmente a partir de Gaudium et Spes, recorda que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade, particularmente dos pobres e sofredores, também pertencem aos discípulos de Cristo. A opção preferencial pelos pobres, aprofundada na tradição latino-americana, não transforma o pobre em objeto de caridade ocasional, mas reconhece sua dignidade e seus direitos. Também a crise ecológica exige uma conversão coerente com o amor ao próximo, porque a destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida atinge primeiro as populações mais vulneráveis e compromete as gerações futuras. A humanidade recebe a responsabilidade de cultivar e guardar a criação (Gn 2,15), não de explorá-la sem limites em nome do lucro imediato. Diante dessas exigências, a conversão cristã precisa alcançar simultaneamente a consciência pessoal, a vida comunitária e as estruturas sociais. Cada pessoa deve perguntar se não construiu uma imagem de Deus que confirma seus preconceitos e protege seus privilégios; cada comunidade precisa examinar se oferece acolhimento, participação e cuidado ou se produz medo e silenciamento; e a sociedade deve questionar as relações econômicas e políticas que condenam determinadas populações ao abandono. A primeira carta de João torna essa responsabilidade incontornável ao perguntar como pode permanecer o amor de Deus naquele que possui bens, vê o irmão em necessidade e fecha o coração (1Jo 3,17). O amor não significa concordar com tudo, tolerar abusos ou abandonar a verdade, assim como a denúncia profética não precisa transformar o adversário em objeto de ódio. Jesus ama e confronta, acolhe e chama à conversão, denuncia a injustiça e protege a vida. A misericórdia impede que a justiça se reduza à vingança, enquanto a verdade impede que o amor se torne cumplicidade com o mal.
No fim, a pergunta sobre o maior mandamento já recebeu sua resposta, mas a responsabilidade de vivê-la permanece diante de cada geração. Podemos conhecer a Escritura e continuar indiferentes, participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia, defender a ortodoxia e abandonar a justiça ou carregar símbolos religiosos enquanto colaboramos com estruturas que humilham pessoas. O escriba de Marcos reconheceu a centralidade do amor, mas o samaritano de Lucas demonstrou como esse reconhecimento se transforma em cuidado. É nesse intervalo entre saber e viver que a fé revela sua verdade. Por isso, a comunidade cristã precisa perguntar quem está sendo escutado, quem continua do lado de fora, quem tem medo de falar e quem procura Deus, mas encontra julgamento, burocracia ou indiferença. Sua grandeza não se mede pelo poder acumulado, mas pela capacidade de acolher, reconciliar, defender e transformar vidas. Quando a religião pronuncia o nome de Deus enquanto despreza a vida, conserva palavras sagradas, mas contradiz o coração da aliança. O Evangelho, porém, continua a ser proclamado nas ruas, nos hospitais, nas periferias e nas casas onde alguém sofre em silêncio, sempre que somos confrontados com a escolha entre passar adiante e aproximar-nos. Amar a Deus e amar o próximo não são tarefas concorrentes, mas um único movimento que se dirige ao mistério divino e se torna visível na história. Onde o amor assume a forma de justiça, misericórdia, serviço e defesa da dignidade humana, o Reino de Deus começa a nascer entre nós, e a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas e a cruz permanece diante de nossa consciência: O que estamos fazendo com o amor que recebemos?
DNonato - Teólogo do Cotidiano. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,1-13

O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que  ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado  no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48  proclamado  no 19º Domingo do Tempo Comum;  Lucas 12, 35-38 proclamado  na  terças-feira e  Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira  da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado  na  quinta-feira  da  21ª semana do Tempo Comum  apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier.  Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho: 

  1. Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11. 
  2. Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel. 
  3. Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13. 
  4. Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares. 
  5. Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.

Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir: 
  1. Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
  2.  Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida.  É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.

A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial: 
  • Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
  • Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade. 
  • Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança. 
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo:  “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.

As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.

E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência: 
  • Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
  • O  Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
  •  Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
  •  Hebreus 10,36 chama à perseverança. 
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos.  É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.

Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
  • Levítico 19,18 manda amar o próximo
  • Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
  •  Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
  • Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta. 
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir.  Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.

Por isso, a resposta do esposo  “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.

É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.

Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.

A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade: 
  • Porque as virgens perguntam se estamos preparados
  •  A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
  •  O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
 Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder.  A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.

Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.

Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária: 
  • Há óleo em nossa lâmpada? 
  • Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando? 
  • Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão? 
  • Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros? 
  • Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões? 
  • Nossa autoridade serve ou domina? 
  • Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
 Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho. 

A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.

A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.

Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano