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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre São Lucas 6,1-5

Há textos do Evangelho que parecem pequenos episódios do cotidiano, mas carregam dentro de si uma verdadeira crise de interpretação da fé. Lucas 6,1-5 pertence a esse grupo. A cena é breve, porém coloca frente a frente diferentes maneiras de compreender a relação entre Deus, a tradição religiosa e a existência concreta das pessoas. Esse relato não aparece isolado na tradição dos Evangelhos. Ele possui paralelos nos outros dois Evangelhos Sinóticos: Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28. Os três relatos apresentam o mesmo episódio fundamental, mas cada evangelista o organiza segundo sua própria narrativa e perspectiva teológica. A própria tradição bíblica identifica explicitamente esses textos como paralelos.

  • Marcos formula de maneira particularmente direta: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). 
  • Mateus acrescenta à discussão a palavra profética de Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 12,7).
  •  Lucas, por sua vez, conduz o episódio para a afirmação: “O Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5).
 Essas diferenças não são meros detalhes de redação; ajudam a perceber as ênfases próprias de cada narrativa..A liturgia proclama essas três versões em momentos diferentes do Tempo Comum. Marcos 2,23-28 é proclamado na terça-feira da 2ª semana do Tempo Comum; Mateus 12,1-8, na sexta-feira da 15ª semana; e Lucas 6,1-5, no sábado da 22ª semana. O relato está inserido no contexto judaico do século I, no qual o sábado possuía profundo significado religioso e social. Por isso, a controvérsia narrada por Lucas não deve ser reduzida a uma simples discussão sobre uma prática cotidiana. O conflito envolve interpretação da tradição, autoridade religiosa e compreensão daquilo que Deus deseja de seu povo.A liturgia, ao colocar novamente esse texto diante da comunidade, não nos convida apenas a recordar uma discussão antiga. Ela nos coloca diante de uma questão permanente: como uma tradição destinada a aproximar o ser humano de Deus pode ser interpretada sem perder de vista a própria pessoa humana?

Essa pergunta é particularmente importante porque toda comunidade religiosa corre o risco de transformar meios em fins, formas em absolutos e tradições em instrumentos de julgamento. O problema não está necessariamente na existência de normas, ritos ou tradições; está no momento em que aquilo que deveria servir à vida começa a exigir que a vida se submeta cegamente à sua própria estrutura. É nesse ponto que Lucas 6,1-5 começa a ultrapassar os limites de uma controvérsia sobre o sábado. A passagem abre uma discussão muito mais ampla sobre lei, liberdade, consciência, autoridade, tradição, misericórdia e dignidade humana.

E é justamente aí que a Palavra deixa de ser apenas uma história antiga e começa a fazer perguntas desconfortáveis à nossa própria maneira de viver a fé.  Diante da cena aparentemente simples, mas profundamente reveladora do coração da fé. Jesus passa por plantações em dia de sábado, e seus discípulos colhem espigas para comer, sendo criticados pelos fariseus que os observam com olhar rígido, buscando neles a falha. A resposta de Jesus remete a Davi e seus companheiros que comeram os pães da proposição, destinados apenas aos sacerdotes, mostrando que a lei, quando se torna instrumento de exclusão, perde o seu sentido mais profundo. Este episódio, situado no capítulo 6 do Evangelho segundo São Lucas, é proclamado também em paralelo com os relatos de Mateus 12,1-8 e Marcos 2,23-28, e aparece ainda em outro contexto litúrgicos, quando se celebra a centralidade da misericórdia sobre os sacrifícios, ecoando a profecia de Oséias 6,6: “Quero amor, e não sacrifício, conhecimento de Deus, mais que holocaustos.”

Se olharmos bem, Lucas, com seu estilo peculiar, não apenas narra um incidente. Ele introduz um conflito fundamental entre uma leitura legalista da fé e uma abertura para a plenitude da vida que Jesus inaugura. Aqui se encontra o “contexto e o pretexto” da cena. O contexto imediato é o sábado, o dia de descanso, que no judaísmo é sinal da Aliança, recordação da libertação do Egito (cf. Dt 5,15) e do repouso de Deus após a criação (cf. Gn 2,2-3). O pretexto é a denúncia feita contra os discípulos: ao colher espigas e debulhá-las com as mãos, eles estariam violando a lei. Mas o verdadeiro sentido em jogo não é a colheita em si, e sim a visão de Deus que se transmite. Jesus responde com sabedoria profética: não é o sábado que rege o homem, mas o homem que dá sentido ao sábado, porque “o Filho do Homem é senhor também do sábado” (Lc 6,5). O gesto dos discípulos é um gesto de fome, de necessidade, e a fome não espera o relógio da lei. O sábado, em sua intenção original, era dom de libertação, descanso, justiça social, proteção dos pobres e dos trabalhadores, até mesmo dos animais (cf. Ex 20,8-11). Mas no curso da história, foi sendo recoberto por camadas de interpretações rígidas, transformando-se em peso. Jesus denuncia essa distorção: o que deveria ser sinal de vida e liberdade se tornou instrumento de controle e opressão. O paralelo com Marcos 2,27 é ainda mais explícito: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Essa afirmação é revolucionária, porque coloca a dignidade humana acima de qualquer ritualismo que negue a vida. Jeremias já havia advertido contra a falsa compreensão do sábado, recordando que ele não deve ser mero fardo (cf. Jr 17,21-22), e Miqueias 6,8 proclamava: “O que o Senhor te pede é apenas praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”  

O ser humano é mais do que suas práticas exteriores. Somos seres de desejo, de fome, de carência, e também de transcendência. O sábado deveria nutrir esse duplo aspecto — o descanso do corpo e a abertura do espírito — e não reprimir a vida. Mas quantas vezes, ao longo da história, vemos a religião transformada em instrumento de poder? Santo Irineu já advertia no século II: “A glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus” (Adversus Haereses, IV,20,7). Quando se usa o nome de Deus para esmagar vidas, trai-se a própria revelação. Esse evangelho provoca, o olhar dos fariseus de ontem e hoje  sobre os discípulos é o olhar que julga a partir da aparência, fixo na norma, incapaz de ver a necessidade, a fome, a fragilidade. É o olhar que se alimenta da acusação, do policiamento dos gestos alheios, que Freud chamaria de expressão do superego tirânico, e que a sociologia de Michel Foucault analisaria como dispositivo de controle. É o olhar do poder que vigia, e que se sente seguro não na liberdade do outro, mas na sua submissão. Jesus, ao contrário, educa um olhar diferente: não o olhar que condena, mas o olhar que discerne, que enxerga as motivações, que acolhe a necessidade humana.

Podemos perceber que aqui está em jogo a relação entre lei e vida. Kant falaria do imperativo categórico, mas Jesus vai além: não basta a universalidade da norma; é preciso que a norma esteja a serviço da vida. Hegel diria que o espírito supera a letra, e que a liberdade é a verdade da lei. São Tomás de Aquino já havia afirmado que a lei humana e a lei religiosa devem ser ordenadas ao bem comum, e que quando uma lei não conduz à justiça, perde seu caráter de lei. O que Jesus realiza é o cumprimento dessa intuição filosófica e teológica: a lei do sábado deve ser interpretada a partir da vida, e não o contrário. Se faz necessário  lembrar que o sábado, em tempos de opressão estrangeira, era sinal de resistência identitária do povo judeu. Guardar o sábado significava afirmar: “Nós somos o povo da Aliança, e não servos de César.” Mas com o tempo, essa resistência se cristalizou em rigidez. Jesus não abole o sábado, mas o reconduz à sua raiz libertadora. Isso nos ajuda a compreender que toda instituição corre o risco de se corromper quando perde de vista sua razão de ser. A mesma dinâmica acontece na Igreja: quando o culto se torna espetáculo, quando a liturgia vira performance estética desvinculada da vida, quando a fé é reduzida a mercadoria de consumo, perdemos o sentido original do Evangelho. 

A teologia da prosperidade promete bênçãos materiais em troca de sacrifícios financeiros, transformando Deus em banqueiro e a fé em contrato de mercado. A teologia do domínio prega que os cristãos devem conquistar as estruturas de poder para impor sua moral ao mundo, reduzindo o Evangelho a ideologia política. A fé individualista, por sua vez, transforma a relação com Deus em experiência solitária, descompromissada com o próximo e com a justiça. E a fé-mercadoria é aquela que transforma ritos, objetos e experiências religiosas em produtos a serem vendidos, numa lógica de marketing espiritual. Todas essas distorções se assemelham aos fariseus que vigiam os discípulos: preocupam-se com a forma, mas não com a vida. E o clericalismo é outro fruto amargo dessa mesma árvore. Quando o sacerdote se coloca acima do povo, como se fosse dono do sagrado, transforma-se em guardião da lei opressora, e não em ministro da graça. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, chamou o clericalismo de “a peste da Igreja”. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 63-66), recorda que a missão da Igreja é ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho, e não se fechar em legalismos. Na Evangelii Gaudium (n. 49), Francisco insiste que “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.” O Evangelho de hoje ilustra essa opção: Jesus prefere discípulos famintos colhendo espigas a discípulos paralisados pelo medo da lei.

Santo Agostinho, comentando os Salmos, dizia que a lei sem o Espírito mata, mas o Espírito vivifica. Orígenes lembrava que o sábado é figura do repouso em Deus, mas que esse repouso só existe quando o coração está em paz com o próximo. Crisóstomo denunciava os cristãos que, em nome da religião, desprezavam os pobres, chamando-os de “piores que os fariseus”. Ambrósio de Milão afirmava: “Não é o alimento reservado que agrada a Deus, mas o pão repartido.” Basílio de Cesareia pregava que “o pão que tu guardas pertence ao faminto, o manto que escondes no armário pertence ao nu.” A tradição da Igreja nunca foi unânime em torno de rigidez legal, mas sempre buscou interpretar a lei à luz da caridade.

Quando Jesus afirma que o Filho do Homem é senhor do sábado, ele está proclamando que a vida humana, iluminada pelo Espírito, é mais importante que qualquer código fechado. Isso é escandaloso para os legalistas, mas libertador para os que têm fome. E não é apenas fome de pão, mas fome de justiça, fome de dignidade, fome de reconhecimento. O profeta Isaías já havia denunciado um jejum hipócrita, em que se afligia o corpo mas se explorava o trabalhador (cf. Is 58,3-6). Amós criticava os comerciantes que mal esperavam o sábado passar para explorar os pobres (cf. Am 8,4-6). Jesus, ao interpretar o sábado, realiza a mesma denúncia: o descanso verdadeiro é aquele que liberta, não aquele que oprime.

Hoje, quantas vezes não repetimos os erros dos fariseus? 

Quando julgamos a vida alheia a partir das aparências, quando reduzimos a religião a um conjunto de regras externas, quando transformamos Deus em opressor, esquecemos que Ele é Pai amoroso. A psicologia nos lembra que esse tipo de religião gera ansiedade, culpa tóxica, neurose, medo. A sociologia mostra que sistemas religiosos de controle alimentam desigualdades e mantêm privilégios. A antropologia revela que toda sociedade cria ritos, mas quando os ritos se absolutizam, perdem seu poder de gerar vida e se tornam instrumentos de dominação. O Evangelho, porém, insiste: o sábado existe para que todos, inclusive os pobres e marginalizados, possam descansar e viver.

Assim, o texto deste sábado da 22ª semana do Tempo Comum nos recorda que a lei só tem sentido quando promove a vida. Jesus não é contra o sábado; ele é contra o uso do sábado como arma contra os famintos. Ele nos convida a olhar para além da letra, a discernir as motivações, a priorizar o amor. Essa é a Boa Nova: Deus não é um ditador em busca de súditos subservientes, mas Pai amoroso que quer filhos livres e vivos. Seguir Jesus é aprender a ser senhor do sábado, a colocar a vida no centro, a não temer os olhares acusadores, mas a responder com liberdade e misericórdia.

No fim, fica uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer homilia bem comportada: 

  • Que tipo de religião estamos construindo? 

Uma religião que ajuda as pessoas a viver ou uma religião especializada em fiscalizar a vida dos outros? Porque há quem tenha doutorado em pecado alheio, pós-graduação em escândalo e especialização em apontar o dedo, mas, curiosamente, pouca experiência em misericórdia. Conhece o comportamento de todo mundo, sabe quem pode comungar, quem está “fora dos padrões”, quem está vestido corretamente, quem está orando do jeito certo e até quem Deus deveria aceitar, só esqueceram de combinar tudo isso com Jesus. Há uma espécie de “alfândega espiritual” funcionando em certos ambientes religiosos, onde, para uns, a porta é larga, enquanto para outros exigem documento, carimbo, antecedentes religiosos e até comprovante de santidade. Enquanto isso, o Evangelho fica esperando do lado de fora. O problema é que Jesus nunca pareceu muito interessado em montar um departamento de fiscalização da graça. Pelo contrário, ele frequentemente atravessa as fronteiras religiosas que os homens construíram e vai justamente ao encontro daqueles que os especialistas em pureza preferiam manter à distância. Talvez por isso o Evangelho continue sendo perigoso, porque Jesus não veio ensinar pessoas a ficarem “certinhas” diante dos outros, mas a viverem reconciliadas com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

E aqui o clericalismo precisa ouvir uma palavra profética: ministro não é proprietário do sagrado, sacerdote não é gerente de Deus e liderança religiosa não é licença para controlar consciências. Quem transforma o ministério em pedestal já começou a descer do Evangelho, mesmo que continue subindo ao altar. Também precisamos desconfiar daquela religião que fala muito de céu, mas parece ter pouca paciência com quem sofre na terra; daquela que organiza congresso sobre família, mas não sabe acolher uma família em crise; daquela que prega humildade em palco iluminado, com microfone na mão e aplausos garantidos; e daquela que fala de pobreza com uma teologia caríssima e de sacrifício com o cartão de crédito dos outros. Há coisas que só o humor consegue denunciar sem precisar gritar. Jesus desmonta a solenidade dos donos da religião com uma pergunta simples: onde está o ser humano no meio de tanta regra? Talvez seja exatamente aí que nossa conversão precise começar. Antes de perguntar se alguém está cumprindo todas as normas, precisamos perguntar se está conseguindo viver; antes de condenar, precisamos escutar; antes de expulsar, precisamos nos aproximar; e antes de usar Deus para fechar portas, precisamos descobrir se Jesus não está justamente abrindo uma. Porque uma Igreja que precisa diminuir pessoas para parecer santa já perdeu o rumo, uma religião que precisa controlar consciências para manter autoridade já está confessando sua própria fragilidade, e uma fé que se escandaliza mais com uma espiga colhida no sábado do que com uma pessoa esmagada pela vida talvez precise urgentemente voltar a ler o Evangelho. Jesus não precisa de guardas do templo com prancheta na mão, mas de discípulos com coração, consciência e coragem. E, se isso incomodar os profissionais da fiscalização religiosa, que façam uma pausa, respirem fundo e consultem o Evangelho. Só não vale arrancar as páginas que incomodam.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,1-13

O Evangelho de Mateus 25,1-13, conhecido como a parábola das dez virgens, ocupa um lugar expressivo na liturgia cristã. No rito romano da Igreja Católica, esta passagem é proclamada na sexta-feira da 21ª semana do Tempo Comum e também no 32º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Na tradição bizantina, encontra lugar de destaque na Grande e Santa Terça-feira, especialmente nos chamados Ofícios do Esposo, nos quais a Igreja contempla Cristo como o Esposo que vem e chama seu povo à vigilância. As demais Igrejas históricas possuem calendários próprios, mas diversas tradições cristãs preservam, de diferentes maneiras, a mesma temática da espera vigilante diante da vinda do Senhor. A parábola das dez virgens é própria de Mateus, não possuindo uma narrativa paralela direta em Marcos ou Lucas, mas pertence a uma tradição sinótica mais ampla sobre a vigilância. Marcos 13,33-37 proclamado no 1º Domingo do Advento – Ano B e na terça-feira da 9ª Semana do Tempo Comum que  ordena vigiar porque ninguém sabe quando o senhor da casa chegará e Lucas 12,35-40, proclamado  no Dia dos Fiéis Defuntos que fala de servos com as lâmpadas acesas esperando o retorno do seu senhor; Lucas 12,32-48  proclamado  no 19º Domingo do Tempo Comum;  Lucas 12, 35-38 proclamado  na  terças-feira e  Lucas 12,39‑48 proclamado na quarta-feira  da 29ª semana do Tempo Comum desenvolve a responsabilidade do servo fiel; Mateus 24,42-51 proclamado  na  quinta-feira  da  21ª semana do Tempo Comum  apresenta igualmente a necessidade de permanecer preparado. A convergência é evidente: Jesus não entrega aos discípulos um calendário para controlar o futuro, mas uma maneira de viver o presente. A pergunta fundamental não é quando Deus virá, mas que tipo de pessoas seremos quando Ele vier.  Para compreender Mateus 25,1-13, precisamos respeitar o lugar que essa parábola ocupa dentro do Evangelho: 

  1. Jesus está em Jerusalém, depois de sua entrada messiânica narrada em Mateus 21,1-11. 
  2. Sua chegada à cidade não é apenas uma entrada triunfal; é uma visita profética ao centro religioso e político de Israel. 
  3. Ele entra no Templo e denuncia sua transformação em espaço de comércio e exploração, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, conforme Mateus 21,12-13. 
  4. Ele confronta sacerdotes, anciãos, fariseus e escribas. Em Mateus 23,1-12, denuncia autoridades que ensinam, mas não praticam, colocam pesados fardos sobre os outros e procuram os primeiros lugares. 
  5. Em Mateus 23,23, acusa uma religiosidade minuciosa que paga dízimos até das ervas, mas abandona “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. Em Mateus 23,27, compara determinados representantes religiosos a sepulcros caiados, belos por fora e cheios de corrupção por dentro.

Esse pré-texto é decisivo para a leitura da parábola das dez virgens, porque Jesus não está simplesmente ensinando boas maneiras espirituais para pessoas assustadas diante do fim do mundo, mas colocando diante de seus discípulos uma questão muito mais profunda, relacionada à distância que pode existir: 
  1. Entre aparência religiosa e fidelidade verdadeira
  2.  Entre aquilo que se proclama com os lábios e aquilo que efetivamente se vive na realidade.
Mateus 24–25 apresenta justamente essa tensão, pois, antes de falar da chegada do Filho do Homem, Jesus adverte: “Cuidado para que ninguém vos engane” (Mt 24,4), e essa advertência não pode ser tratada como uma introdução secundária, já que constitui uma das chaves para compreender todo o discurso escatológico. Jesus fala de guerras, perseguições, sofrimento, falsos profetas e enganos e, em Mateus 24,23-27, alerta contra aqueles que afirmam que o Cristo está aqui ou ali, como se a presença de Deus pudesse ser capturada por determinadas pessoas, lugares, grupos ou discursos. O problema escatológico, portanto, não consiste apenas em não estar preparado para Deus, mas também em confundir Deus com aquilo que não é Deus, transformar interesses humanos em vontade divina e utilizar a linguagem religiosa para produzir medo, controle e submissão; por isso, o verdadeiro discernimento cristão não nasce da propaganda apocalíptica, das previsões sensacionalistas ou da exploração religiosa do medo, mas da fidelidade ao Evangelho, porque o Cristo que vem não pode ser separado da misericórdia, da justiça, da verdade, do serviço e da entrega da própria vida.  É nesse horizonte que Mateus introduz a parábola: “Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo” (Mt 25,1), e esse “então” estabelece uma ligação direta com o discurso anterior, mostrando que a parábola não aparece como uma história isolada, mas como parte do grande ensinamento de Jesus sobre a vigilância diante da vinda do Filho do Homem. A narrativa matrimonial, portanto, não é um simples enfeite literário nem uma história destinada a ensinar etiqueta religiosa, mas uma imagem social reconhecível pelos ouvintes de Jesus para falar de uma realidade muito mais profunda: a espera pelo Reino e a necessidade de uma fidelidade capaz de atravessar a demora. O casamento possuía enorme importância social no mundo judaico do século I, envolvendo famílias, parentes, alianças, honra, celebração e participação comunitária, embora seja importante não imaginar que existisse um único rito matrimonial judaico, idêntico em todas as regiões e famílias, nem transformar a parábola numa descrição litúrgica completa de um casamento; Mateus apresenta uma cena reconhecível para sua comunidade, na qual uma comitiva espera a chegada do noivo e precisa estar preparada para acompanhá-lo à celebração. Essas mulheres, por isso, não devem ser identificadas automaticamente com as modernas “damas de honra”, pois são participantes da expectativa festiva e carregam lâmpadas porque a chegada do esposo acontece durante a noite, e é justamente essa noite que permitirá a Jesus transformar uma cena cotidiana em uma poderosa imagem da existência humana diante do mistério da espera.

A escolha da figura do esposo, porém, ultrapassa o costume social e mergulha profundamente na tradição bíblica, na qual a relação entre Deus e seu povo é frequentemente expressa por meio da linguagem matrimonial: 
  • Israel é apresentado como esposa de Deus em Isaías 54,5
  • Oseias 2,19-20 descreve a renovação da aliança utilizando a linguagem do compromisso matrimonial e associando essa relação à justiça, ao direito, à misericórdia e à fidelidade. 
  • Jeremias 2,2 recorda o amor do povo nos primeiros tempos da aliança. 
No Novo Testamento, essa imagem ganha uma dimensão cristológica ainda mais evidente quando João Batista identifica Jesus como o esposo e a si mesmo como o amigo do esposo, dizendo:  “Quem tem a esposa é o esposo” (Jo 3,29) e Marcos 2,19-20, também retomado em Mateus 9,15, o próprio Jesus utiliza a imagem do esposo para interpretar sua presença entre os discípulos. Assim, quando Mateus coloca o esposo no centro da parábola, existe uma afirmação profundamente cristológica: o Cristo é aquele que vem ao encontro de seu povo, e o Reino é apresentado como encontro, aliança, comunhão e festa; a salvação não aparece simplesmente como uma recompensa individual concedida àqueles que conseguiram cumprir determinadas regras religiosas, mas como participação numa comunhão preparada por Deus, de modo que o horizonte escatológico se torna essencialmente relacional, porque aquilo que esperamos não é apenas alguma coisa, mas alguém que vem ao nosso encontro.

As dez virgens possuem lâmpadas, todas esperam, todas desejam encontrar o esposo e todas fazem parte exteriormente da mesma comitiva, de modo que, aos olhos de quem observa apenas a aparência, não existe inicialmente uma diferença decisiva entre elas; contudo, justamente quando a espera se prolonga é que a diferença começa a aparecer, pois cinco são chamadas prudentes e cinco insensatas. Mateus utiliza para “prudentes” o termo grego phronimos, palavra que aparece também em Mateus 7,24 para descrever aquele que ouve as palavras de Jesus e as pratica, construindo sua casa sobre a rocha, e essa aproximação é fundamental porque a prudência bíblica não significa simplesmente astúcia, esperteza, inteligência estratégica ou capacidade de prever o futuro, mas sabedoria prática, discernimento e coerência entre aquilo que se escuta e aquilo que se vive. As prudentes não receberam uma informação secreta sobre a hora da chegada do esposo, não conhecem uma fórmula capaz de antecipar o futuro e não possuem um calendário escatológico escondido; elas simplesmente compreenderam que a espera exige preparação e que uma esperança verdadeira precisa organizar a maneira como se vive o presente. É justamente aí que encontramos uma das grandes chaves da parábola: a fé cristã não consiste em descobrir a data do futuro, mas em organizar o presente à luz da esperança.mTodas possuem lâmpadas, mas nem todas possuem óleo suficiente, e aqui é preciso evitar uma interpretação excessivamente rígida, porque o texto não afirma diretamente que o óleo represente graça, boas obras, caridade, Espírito Santo ou qualquer outra realidade específica; essas associações pertencem a interpretações desenvolvidas posteriormente pela tradição cristã, enquanto a própria narrativa deixa clara a função concreta do óleo: ele mantém a lâmpada acesa durante a demora. Por isso, sem transformar o óleo numa alegoria fechada, podemos compreendê-lo simbolicamente como aquilo que sustenta a fidelidade ao longo do tempo, aquilo que impede que a luz desapareça quando a espera se torna cansativa, quando a emoção diminui e quando a realidade deixa de corresponder às expectativas imediatas. Essa compreensão encontra eco no próprio Evangelho de Mateus, pois em 5,14-16 os discípulos são chamados de “luz do mundo” e essa luz deve brilhar por meio das boas obras, enquanto em 7,21 Jesus ensina que não basta dizer “Senhor, Senhor”, sendo necessário fazer a vontade do Pai, e em 22,37-40 resume a Lei no amor a Deus e ao próximo. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma lâmpada religiosa nas mãos, mas possuir aquilo que permite que essa lâmpada permaneça acesa quando a noite se prolonga, porque uma fé que depende exclusivamente da emoção, do entusiasmo, do aplauso ou da aprovação dos outros inevitavelmente entra em crise quando chega o tempo da demora.

E é precisamente a demora do esposo que revela a profundidade da parábola, porque esperar quando tudo acontece rapidamente é relativamente fácil, enquanto permanecer fiel quando a resposta tarda, quando a justiça parece distante, quando a oração parece não ser ouvida, quando o sofrimento se prolonga e quando aqueles que procuram fazer o bem experimentam cansaço exige uma qualidade diferente de fé. A Bíblia conhece profundamente essa experiência: 
  • Habacuque pergunta: “Até quando, Senhor, clamarei, sem que me escutes?” (Hab 1,2)
  • O  Salmo 13 insiste na pergunta “até quando?”
  •  Paulo, em Romanos 8,22-25, descreve a criação inteira gemendo e esperando a redenção
  •  Hebreus 10,36 chama à perseverança. 
A fé bíblica não elimina a demora nem transforma o sofrimento numa ilusão, mas ensina a atravessá-lo sem abandonar a promessa; por isso, a esperança cristã não é uma certeza infantil de que tudo acontecerá imediatamente, mas a capacidade de permanecer fiel quando ainda não vemos o cumprimento daquilo que esperamos.  É significativo, nesse sentido, que todas as dez virgens adormeçam, inclusive as prudentes, porque esse detalhe impede uma leitura moralista da vigilância e mostra que Jesus não está ensinando que o discípulo precisa permanecer fisicamente acordado, vivendo numa tensão permanente e incapaz de descansar. O ser humano possui limites, precisa dormir, repousar e reconhecer sua própria fragilidade, e a diferença entre prudentes e insensatas não está em umas dormirem e outras permanecerem acordadas, mas na preparação que foi realizada antes do sono. A vigilância cristã não é ansiedade permanente, hipercontrole ou medo obsessivo do futuro; é uma disposição interior que permite até mesmo descansar porque a vida está orientada para aquilo que espera. O problema, portanto, não é o descanso do corpo, mas o adormecimento da consciência, não é dormir durante a noite, mas viver espiritualmente adormecido diante de Deus, do próximo, da injustiça e da própria responsabilidade.

Então, à meia-noite, surge o grito: “Eis o esposo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25,6), e a meia-noite representa o momento inesperado que rompe a normalidade, aquele instante em que aquilo que estava sendo esperado se torna presente e obriga cada pessoa a revelar aquilo que realmente preparou. A noite, na Bíblia, pode ser lugar de medo, mas também de revelação: Samuel ouve a voz de Deus durante a noite em 1 Samuel 3,1-10, os pastores recebem o anúncio do nascimento de Jesus durante a noite em Lucas 2,8-20, e Jesus atravessa a noite de sua paixão no Getsêmani em Marcos 14,32-42. A noite, portanto, não significa necessariamente ausência de Deus; muitas vezes é justamente quando as falsas seguranças desaparecem que somos obrigados a descobrir em que realmente confiamos. Toda existência humana conhece suas meias-noites, sejam elas perdas, fracassos, lutos, crises, injustiças, rupturas, decepções ou momentos em que aquilo que parecia sólido deixa de sustentar-nos, e a pergunta do Evangelho não é se teremos noites, mas o que teremos cultivado enquanto elas chegarem. Quando o grito rompe a noite, as mulheres levantam-se e preparam suas lâmpadas, e a espera transforma-se em ação, porque ouvir, levantar, preparar e sair ao encontro formam uma verdadeira pedagogia espiritual. Esperar Deus não significa ficar imóvel, pois o futuro esperado reorganiza o presente e transforma a maneira de viver hoje; quem espera a justiça precisa começar a praticá-la, quem espera a paz precisa recusar a violência, quem espera a reconciliação precisa aprender a perdoar e reparar, e quem espera o Reino precisa resistir àquilo que contradiz sua lógica. A vigilância, portanto, não é passividade religiosa, mas responsabilidade diante do tempo, porque aquilo que esperamos determina aquilo que fazemos enquanto esperamos. É nesse momento que as insensatas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes, e a resposta destas últimas pode causar estranhamento se lida superficialmente, como se Jesus estivesse ensinando egoísmo ou indiferença, mas esse não é o sentido da cena. A Escritura inteira condena a indiferença diante do necessitado:
  • Levítico 19,18 manda amar o próximo
  • Deuteronômio 15,7-11 ordena abrir a mão ao pobre
  •  Isaías 58,6-10 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão
  • Tiago 2,14-17 afirma que uma fé incapaz de responder à necessidade concreta do outro é uma fé morta. 
A questão da parábola é outra: existem responsabilidades que ninguém pode assumir em nosso lugar, pois ninguém pode arrepender-se por nós, ninguém pode construir nosso caráter por nós e ninguém pode responder por nossa consciência diante de Deus. A comunidade pode acompanhar, ensinar, corrigir, perdoar e sustentar, mas não pode produzir, no último instante, uma vida que foi sistematicamente negligenciada. Aqui a parábola toca uma questão profundamente contemporânea, porque vivemos numa época em que muitas pessoas desejam terceirizar a própria consciência, entregando a um líder a tarefa de pensar por elas, a uma instituição a responsabilidade de fornecer todas as respostas, a um pregador o poder de determinar quem são os inimigos e a uma ideologia religiosa a função de dispensar o discernimento. Jesus, porém, chama discípulos à responsabilidade, e “vigiar” significa também discernir, examinar, comparar, avaliar e não entregar a consciência a qualquer autoridade que se apresente como representante absoluto de Deus. Mateus 7,15-20 manda examinar os frutos, Paulo recomenda em 1 Tessalonicenses 5,21: “Examinai tudo e conservai o que é bom”, e 1 João 4,1 orienta a provar os espíritos. Uma fé madura, portanto, não teme perguntas, porque o Evangelho não produz pessoas incapazes de pensar, mas discípulos capazes de discernir.  Quando o esposo chega, as prudentes entram no banquete e a porta se fecha, e essa imagem possui caráter escatológico, recordando que a existência possui consequências e que nem todas as oportunidades permanecem abertas indefinidamente. Existem palavras que não podem ser retiradas, feridas que permanecem, pessoas que partem antes que consigamos pedir perdão e oportunidades de solidariedade que passam, razão pela qual a escatologia cristã não pretende produzir pânico, mas seriedade. A vida possui peso, cada escolha participa da construção de nossa humanidade e cada omissão também, de modo que a afirmação de Paulo em 2 Coríntios 6,2 — “Agora é o tempo favorável” — ganha aqui uma força especial, pois a urgência cristã não significa viver desesperado diante do fim, mas compreender que o presente é o lugar da decisão, da responsabilidade e da graça.

Por isso, a resposta do esposo  “não vos conheço” (Mt 25,12), precisa ser compreendida dentro da linguagem bíblica de relacionamento, especialmente porque Mateus 7,23 utiliza linguagem semelhante. No universo bíblico, “conhecer” não significa simplesmente possuir informação sobre alguém, mas envolve uma dimensão relacional profunda, e o problema da parábola não é apresentar Deus como arbitrário ou cruel, mas mostrar a ruptura entre aquilo que se esperava encontrar e a realidade da vida de quem esperava. A crítica é severa justamente porque pode existir atividade religiosa sem discipulado, ortodoxia verbal sem prática, autoridade sem serviço, culto sem misericórdia e aparência de fé sem transformação da vida, e é exatamente nesse horizonte que a parábola encontra a denúncia de Mateus 23. Uma instituição pode possuir lâmpadas brilhantes e pouco óleo, pode organizar grandes celebrações e possuir pouca misericórdia, pode falar constantemente de Deus e tratar mal as pessoas, pode defender a tradição e abandonar os feridos, pode proteger sua reputação enquanto pessoas concretas sofrem e pode exigir obediência dos outros enquanto resiste à própria conversão. Jesus não autoriza essa religião, porque já havia afirmado: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7), e em Mateus 23,23 coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de uma religiosidade que cumpre minúcias e esquece o essencial. O problema, portanto, não é a tradição religiosa em si, nem a existência da instituição, nem a organização comunitária, mas o momento em que a estrutura passa a proteger a si mesma mais do que a dignidade das pessoas, quando a religião passa a exigir reverência para seus representantes enquanto deixa de ouvir o grito daqueles que sofrem.

É nesse ponto que a parábola também confronta o clericalismo, porque toda autoridade que deixa de ser serviço e passa a ser mecanismo de domínio contradiz a lógica do Reino. Jesus já havia estabelecido esse princípio quando afirmou: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26), mostrando que os governantes das nações dominam, enquanto entre seus discípulos a grandeza deve assumir a forma do serviço. Isso vale para ministros ordenados, dirigentes, lideranças comunitárias e também para qualquer pessoa que utilize a religião como instrumento de superioridade, pois nenhum cargo religioso produz automaticamente fidelidade, nenhum título substitui conversão e nenhuma posição institucional garante reconhecimento diante de Deus. Diante do Esposo, todos permanecem discípulos, e justamente por isso a autoridade cristã só permanece legítima quando se deixa julgar pelo Evangelho, especialmente pelo serviço aos pequenos. Essa crítica alcança inevitavelmente a instrumentalização política da fé, porque a religião pode ser transformada em instrumento de poder, identidade e controle, o nacionalismo pode vestir símbolos cristãos, o autoritarismo pode apresentar-se como defesa da ordem, a violência pode ser chamada de justiça, a exclusão pode ser apresentada como proteção e a pobreza pode ser tratada apenas como fracasso individual. O Evangelho, entretanto, não diviniza partido, líder, mercado, Estado ou nação, pois Jesus afirma em Mateus 20,25-28 que os governantes dominam, mas entre seus discípulos não deve ser assim; em Mateus 5,9, os pacificadores são chamados filhos de Deus, e em Mateus 5,7 os misericordiosos são proclamados bem-aventurados. Qualquer projeto político que utilize o nome de Cristo para legitimar desumanização precisa ser confrontado pela própria palavra de Cristo.

Isso não significa reduzir o Evangelho a uma disputa partidária, porque a crítica profética é muito mais profunda e alcança qualquer ideologia que transforme o poder em absoluto, desumanize o adversário, instrumentalize a religião ou coloque interesses econômicos acima da vida; entretanto, diante do uso contemporâneo de símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência e exclusão por setores da extrema direita, a Igreja não pode permanecer silenciosa, porque o silêncio diante da desumanização pode transformar-se em cumplicidade. O profeta não escolhe a conveniência, mas a fidelidade, e é justamente essa fidelidade que encontramos em Amós 5,21-24, quando Deus rejeita celebrações religiosas acompanhadas de injustiça e exige que o direito corra como água, e em Isaías 1,11-17, quando o culto é denunciado porque não corresponde à prática da justiça. Miqueias 6,8 resume essa exigência divina em três movimentos inseparáveis: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus. Por isso, a vigilância cristã não pode permanecer confinada ao interior da consciência individual, porque precisa enxergar também as estruturas sociais que produzem sofrimento. Mateus 25 não permite uma espiritualidade indiferente à fome, à sede, à migração, à doença, à prisão e à pobreza, já que, na cena do julgamento, em Mateus 25,31-46, o critério decisivo aparece nos gestos concretos de cuidado. O Cristo esperado é encontrado no pequeno e, por isso, a esperança cristã não pode servir como fuga da história; quando trabalhadores são explorados, quando crianças crescem cercadas pela violência, quando migrantes são tratados como ameaça, quando moradores das periferias são vistos como vidas de menor valor e quando a desigualdade naturaliza privilégios, a pergunta da parábola retorna com força: onde está nossa lâmpada? A questão não é apenas se somos individualmente religiosos, mas que tipo de sociedade estamos ajudando a construir, porque a lâmpada cristã não pode iluminar somente o interior do templo, devendo também lançar luz sobre a vida concreta.

A própria sequência de Mateus 25 aprofunda essa responsabilidade: 
  • Porque as virgens perguntam se estamos preparados
  •  A parábola dos talentos, em Mateus 25,14-30, pergunta o que fazemos com aquilo que recebemos
  •  O julgamento das nações, em Mateus 25,31-46, pergunta o que fazemos diante dos vulneráveis
 Vigiar, portanto, não é simplesmente esperar, mas esperar, agir e responder.  A escatologia cristã não retira o discípulo do mundo, mas responsabiliza-o ainda mais diante do mundo, de maneira que esperamos o Reino futuro construindo sinais desse Reino no presente, esperamos a justiça definitiva praticando justiça agora, esperamos a paz de Deus recusando a glorificação da violência e esperamos a mesa definitiva aprendendo desde já a repartir o pão. Essa mensagem ganha força particular numa sociedade marcada por uma profunda crise de sentido, porque vivemos num mundo capaz de produzir informação em quantidade gigantesca, mas nem sempre capaz de produzir sabedoria, no qual temos comunicação instantânea e, simultaneamente, solidão profunda, tecnologias sofisticadas e persistência de desigualdades brutais, enquanto o consumo promete felicidade, o desempenho promete reconhecimento e a exposição pública promete pertencimento. A parábola pergunta o que permanece quando essas promessas perdem sua força e aquilo que parecia garantir nossa segurança revela sua fragilidade, lembrando que a vida não pode ser reduzida àquilo que possuímos, mostramos ou acumulamos, pois a esperança cristã devolve ao presente uma direção: viver hoje de maneira coerente com o futuro de Deus.

Existe ainda uma crítica à procrastinação moral, porque muitas mudanças são adiadas indefinidamente e o pedido de perdão fica para amanhã, a reparação de uma injustiça fica para amanhã, o cuidado com alguém fica para amanhã, a reconciliação fica para amanhã e a conversão fica para amanhã, como se tivéssemos domínio sobre o tempo. Entretanto, o amanhã não está sob nosso controle, e justamente por isso a ansiedade tenta controlar o futuro enquanto a vigilância cristã transforma o presente. O Evangelho não manda viver aterrorizado pelo fim, mas manda levar a vida a sério, compreendendo que cada momento pode tornar-se espaço de graça, responsabilidade e transformação. A verdadeira vigilância consiste, então, em permanecer humano durante a espera, não permitindo que a demora destrua nossa capacidade de amar, nem que a injustiça nos torne semelhantes aos injustos, nem que a mentira se torne conveniente a ponto de abandonar nossa busca pela verdade, nem que a desumanização se torne popular a ponto de nos fazer aceitar como normal aquilo que contradiz a dignidade humana. Vigiar é preservar a misericórdia sem abandonar a justiça, denunciar o mal sem transformar o adversário em objeto de ódio, permanecer desperto diante do sofrimento e reconhecer que Cristo pode encontrar-nos justamente onde nossa religião aprendeu a não procurá-lo.

Por isso, a pergunta de Mateus 25,1-13 precisa chegar à consciência pessoal e comunitária: 
  • Há óleo em nossa lâmpada? 
  • Nossa fé continua viva quando ninguém está olhando? 
  • Nossa oração nos torna mais misericordiosos ou apenas mais convencidos de que temos razão? 
  • Nossa leitura da Bíblia amplia nossa compaixão ou apenas fornece argumentos para condenar os outros? 
  • Nossa comunidade acolhe os feridos ou somente aqueles que se encaixam em seus padrões? 
  • Nossa autoridade serve ou domina? 
  • Nossa Igreja espera Cristo ou apenas protege suas estruturas?
 Essas perguntas são incômodas justamente porque retiram da religião o direito de esconder-se atrás da aparência, pois a parábola não pergunta apenas se temos uma lâmpada, mas se existe óleo, aquilo que sustenta nossa vida quando o aplauso desaparece, quando a emoção religiosa diminui, quando a noite se prolonga e quando ninguém mais está observando. E a parábola das dez virgens não termina com uma explicação detalhada sobre o óleo nem oferece uma fórmula para calcular a chegada de Cristo, mas termina com uma palavra que permanece como advertência e convite: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13). Vigiar é manter a consciência desperta, discernir os sinais do tempo sem transformar cada acontecimento em espetáculo apocalíptico, perceber quando a injustiça se normaliza, quando a mentira se torna método, quando a violência é celebrada, quando a religião é utilizada para dominar e quando o pobre é tornado invisível; é reconhecer, acima de tudo, que Deus não pode ser separado da justiça, da misericórdia e da verdade. Ainda há tempo para preparar a lâmpada, e essa é uma das dimensões mais importantes da palavra de Jesus, porque sua advertência não é somente ameaça, mas oportunidade de conversão. Ainda podemos pedir perdão, reparar danos, abandonar a mentira, romper com a violência, enfrentar preconceitos, questionar o clericalismo, rejeitar a manipulação religiosa, aproximar-nos dos pobres e recuperar a centralidade do Evangelho. 

A Conversão não é apenas sentimento individual, mas mudança de caminho, transformação das relações, das comunidades e também das estruturas que produzem sofrimento; por isso, o profeta não anuncia simplesmente condenação, mas chama o povo a voltar para Deus antes que seja tarde. O esposo vem, mas a hora permanece desconhecida, e a noite continua fazendo parte da história, porque a humanidade ainda convive com guerras, desigualdade, violência, exclusão, sofrimento, manipulação e desesperança; entretanto, o Evangelho continua chamando pessoas a manter a luz acesa, não uma luz artificial produzida para as câmeras nem uma religiosidade construída para impressionar, mas a luz humilde e concreta de quem serve quando poderia dominar, de quem acolhe quando poderia excluir, de quem denuncia a injustiça quando seria mais conveniente permanecer calado, de quem protege a dignidade humana quando a sociedade prefere descartá-la e de quem mantém a esperança quando a realidade parece dizer que não vale mais a pena. No fim, a parábola não permite que nos escondamos atrás de nossas lâmpadas, porque ela nos coloca diante daquilo que sustenta nossa existência, e o óleo torna-se imagem daquilo que permanece quando a noite se prolonga, quando o aplauso desaparece e quando a aparência já não consegue esconder a realidade. É justamente aqui que Mateus 25 alcança seu ponto mais radical: o Cristo que esperamos é também aquele que, na cena do julgamento, se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso; o Esposo que aguardamos é reconhecido no rosto daqueles que muitas vezes nossa sociedade prefere não enxergar. Manter a lâmpada acesa significa, portanto, permanecer capaz de reconhecer o rosto humano diante de nós, porque uma espiritualidade que espera Cristo mas não reconhece o sofrimento humano corre o risco de esperar um Cristo fabricado à sua própria imagem.

A Igreja precisa recuperar essa espiritualidade da espera, não uma Igreja aterrorizada pelo fim, mas desperta para o Reino, não uma Igreja obcecada por datas, mas comprometida com pessoas, não uma Igreja que utiliza o medo para controlar consciências, mas uma comunidade que forma homens e mulheres livres, responsáveis e capazes de discernir, e não uma Igreja preocupada apenas em conservar suas lâmpadas institucionais, mas disposta a perguntar se ainda possui o óleo da misericórdia, da justiça, da verdade e do serviço. Porque uma Igreja pode conservar sua estrutura e perder sua alma, pode defender seus símbolos e esquecer seu Senhor, pode preservar sua autoridade e perder sua capacidade de servir, pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecê-lo no rosto daquele que sofre. Quando chegar o grito da meia-noite, não será suficiente apresentar símbolos, títulos, discursos ou aparências religiosas, porque a questão será se existe luz, se existe amor, se existe justiça, se existe misericórdia e se existe fidelidade, isto é, se existe uma vida preparada para reconhecer o Esposo. Jesus não ensina seus discípulos a descobrir quando o Reino chegará; ensina-os a viver de tal maneira que, quando o Reino se manifestar, sua existência já esteja em sintonia com ele. Por isso, vigiar é não deixar a alma adormecer diante do sofrimento, conservar os olhos abertos quando muitos preferem fechar as cortinas, indignar-se diante da injustiça sem perder a capacidade de amar, buscar a verdade sem transformar a verdade em arma de arrogância, esperar Cristo reconhecendo seus sinais na história e preparar-se para o banquete construindo desde agora relações de justiça, fraternidade e misericórdia. É compreender que o Reino começa a ser percebido quando a vida humana deixa de ser tratada como mercadoria, quando o pobre deixa de ser invisível, quando a autoridade se transforma em serviço, quando a religião deixa de ser instrumento de dominação e quando a misericórdia deixa de ser discurso para tornar-se prática. “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13), e essa palavra atravessa os séculos e chega até nós não como convite ao pânico, mas como convocação à responsabilidade, porque o Cristo vem, embora talvez não venha segundo nossos calendários, nossas previsões ou nossas expectativas religiosas, e talvez nos encontre exatamente onde não costumamos procurá-lo.

Por isso, que nossas lâmpadas estejam acesas e que exista óleo, que nossa fé tenha raízes na justiça, nossa espiritualidade tenha mãos para servir, nossa esperança tenha coragem para resistir e nossa religião tenha humanidade suficiente para reconhecer Deus no rosto do outro. Que não sejamos uma comunidade que apenas sabe falar da chegada do Esposo, mas uma comunidade que aprendeu a viver segundo aquilo que espera; que não sejamos encontrados com as mãos cheias de símbolos religiosos e o coração vazio de misericórdia; que não confundamos autoridade com poder, tradição com imobilismo, doutrina com arrogância ou fé com submissão cega; que não permitamos que a religião seja sequestrada pelo medo, pelo dinheiro, pelo nacionalismo, pelo autoritarismo ou pela lógica daqueles que transformam o nome de Deus em instrumento de dominação. Porque, quando a meia-noite chegar, não será suficiente estar com uma lâmpada na mão; será preciso que exista luz, e essa luz não será medida pela aparência da lâmpada, pelo tamanho da instituição, pela quantidade de discursos, pelo número de seguidores ou pela força de quem ocupa posições de autoridade, mas pela vida que conseguimos construir enquanto esperávamos. Será a luz de uma fé que não fugiu da realidade, de uma esperança que não se entregou ao desespero, de uma justiça que não se vendeu ao poder, de uma misericórdia que não se tornou ingenuidade e de uma verdade que não perdeu a humanidade. Então compreenderemos que o óleo nunca foi apenas aquilo que carregávamos nas mãos, mas aquilo que permitiu que permanecêssemos fiéis durante a noite; e, quando o Esposo chegar, que Ele encontre não apenas uma lâmpada acesa, mas uma vida inteira transformada em luz pelo Evangelho.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano