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sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


domingo, 3 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 16,21-27 / 22º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia deste 22º Domingo do Tempo Comum, Ano A, coloca diante de nós Jeremias 20,7-9, o Salmo 62(63),2-4.5-6.8-9, Romanos 12,1-2 e Mateus 16,21-27. Esses quatro textos não aparecem como peças isoladas, mas como uma única caminhada espiritual que conduz da experiência interior da Palavra à transformação da existência, da sede de Deus ao discernimento, do discernimento à entrega e da entrega:

  1. Jeremias 20,7-9, apresenta a fidelidade  e o drama de quem foi alcançado por uma Palavra que não consegue mais silenciar que  nos introduz nesse caminho a partir de uma experiência profundamente humana. O profeta está cansado, ferido e decepcionado. Sua missão não lhe trouxe prestígio nem reconhecimento; trouxe resistência. Ele anuncia uma Palavra que incomoda e, por isso, experimenta oposição. Chega a desejar o silêncio, como se pudesse interromper sua vocação para escapar do conflito. Entretanto, descobre que não consegue tratar a Palavra como algo externo à sua existência. Ela se tornou fogo dentro de seus ossos. A imagem é extraordinariamente expressiva: a Palavra não é apenas uma mensagem que o profeta transmite aos outros, mas uma realidade que o atravessa, confronta sua consciência e reorganiza sua própria vida. Jeremias gostaria de calar, mas não consegue, porque a fidelidade à Palavra tornou-se uma necessidade interior. O profeta revela, assim, que uma experiência autêntica de Deus não deixa a pessoa exatamente como estava antes.
  2.  O Salmo 62(63) traz o salmista  que transforma a sede em busca de Deus. O Salmo amplia essa experiência por meio de outra imagem: a sede. “Minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água.” O salmista fala a partir de uma realidade na qual a água não representa luxo, mas sobrevivência. A terra seca depende da água para produzir vida, e o ser humano reconhece que também existe dentro dele uma sede que nenhuma conquista material consegue resolver definitivamente. O salmo não apresenta essa sede como fraqueza, mas como consciência da própria condição. A pessoa que reconhece sua necessidade deixa de imaginar que é autossuficiente. Ela descobre que precisa de uma fonte maior que seus próprios recursos. A sede de Deus, portanto, não é fuga da realidade; é reconhecimento de que a existência humana não encontra seu sentido último apenas naquilo que possui, controla ou conquista. Essa sede, porém, não pode ser espiritualizada de maneira que despreze as necessidades concretas. A Bíblia não coloca Deus contra o pão, a dignidade, a justiça ou a vida cotidiana. O próprio Jesus ensina seus discípulos a pedir o pão de cada dia e, diante das multidões famintas, não responde apenas com palavras religiosas, mas preocupa-se com aquilo que as pessoas precisam para viver. A espiritualidade bíblica reconhece simultaneamente a sede de Deus e a fome do ser humano. Por isso, buscar o Senhor não significa abandonar o mundo, mas aprender a enxergá-lo com outros olhos. Quanto mais profunda é a relação com Deus, maior deveria ser a sensibilidade diante daquilo que fere a dignidade humana
  3. Romanos 12,1-2 onde  Paulo  nos   mostra que essa experiência religiosa precisa alcançar o corpo, a mente, as escolhas e as relações e  o apóstolo  Paulo conduz a comunidade em Romanos 12,1-2. Depois de apresentar ao longo da Carta aos Romanos a iniciativa misericordiosa de Deus, ele pede que os cristãos ofereçam seus corpos como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O corpo, aqui, representa a existência concreta. Paulo desloca a compreensão do culto: a adoração cristã não pode ficar confinada ao espaço religioso, porque a própria vida se torna lugar da resposta a Deus. O culto continua nas relações familiares, no trabalho, na maneira de exercer autoridade, na forma de tratar os vulneráveis, nas escolhas econômicas, na participação social, na utilização da palavra e na maneira como lidamos com quem pensa diferente. A celebração não termina quando deixamos o templo. Ela precisa tornar-se existência. Por isso Paulo acrescenta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12,2). O verbo utilizado aponta para uma mudança profunda na forma de pensar e discernir. Não se conformar não significa rejeitar tudo o que existe na sociedade nem imaginar que o cristão vive fora da história. Significa não aceitar automaticamente como normal aquilo que contradiz a dignidade humana e o projeto de Deus. A fé precisa desenvolver uma consciência capaz de perguntar: Quem está sendo beneficiados, quem está sendo silenciado, quem permanece à margem e quais valores estão orientando nossas decisões?Paulo não oferece uma teoria política ou econômica, mas estabelece um princípio ético: a mente renovada pelo Evangelho não pode simplesmente reproduzir a mentalidade dominante quando ela transforma pessoas em instrumentos, descarta os vulneráveis ou considera inevitável aquilo que poderia ser transformado. É justamente aqui que Romanos encontra Mateus. 
Jesus não chama seus discípulos apenas para uma experiência espiritual interior; chama-os para uma maneira diferente de existir. Mateus 16,21-27 aparece imediatamente depois da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe. Esse detalhe narrativo é decisivo. Pedro acabara de reconhecer: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.” Sua resposta estava correta, mas sua compreensão ainda era incompleta. Ele sabia dizer quem Jesus era, mas ainda não compreendia que tipo de Messias Jesus seria. O Evangelho mostra, portanto, que uma confissão correta pode coexistir com uma compreensão equivocada. É possível pronunciar o nome de Jesus e ainda carregar uma imagem dele moldada por expectativas humanas. Ele revela em Jesus o caminho concreto dessa transformação: reconhecer quem Ele é, compreender o sentido de sua missão e aceitar que segui-lo significa abandonar a centralidade do próprio ego para colocar a vida a serviço do Reino. A pergunta que atravessa toda a liturgia não é simplesmente quanto sofrimento estamos dispostos a suportar, mas que transformação acontece em nós quando levamos a sério a Palavra de Deus.

Jesus  esta em cesareia de Filipe, que  ficava ao norte da Galileia conforme  narrativa do 21⁰ domingo do Tempo Comum, uma região marcada por referências políticas, culturais e religiosas do mundo helenístico e romano. Ali, cercado por diferentes símbolos de poder, Jesus pergunta primeiro o que as pessoas dizem a seu respeito e depois pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde com a confissão messiânica. Entretanto, imediatamente depois, Jesus começa a revelar o significado de sua missão: deverá ir a Jerusalém, sofrer nas mãos das autoridades, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A sequência é fundamental para Mateus. O título “Messias” precisa ser reinterpretado à luz da cruz e da ressurreição. Jesus não corresponde à expectativa de um salvador que conquista pela força, elimina adversários e estabelece seu poder por meio da dominação. Seu messianismo se manifesta no serviço, na entrega, na misericórdia e na fidelidade ao Reino.

Jerusalém, nesse contexto, não é apenas um destino geográfico. É o centro religioso da Judeia, lugar do Templo e das principais instituições religiosas, inserido numa realidade política marcada pela presença romana. Jesus caminha para o centro onde religião, autoridade e poder se encontravam em relações complexas. Seu anúncio da paixão não deve ser interpretado como uma busca deliberada pelo sofrimento. Ele não escolhe a dor por amor à dor. O que ele escolhe é permanecer fiel à missão recebida. O conflito surge porque uma existência orientada pela justiça, pela misericórdia e pela verdade inevitavelmente confronta interesses que prefeririam conservar determinadas estruturas. A paixão é consequência de uma vida coerente com o Reino. Pedro, entretanto, não aceita essa perspectiva. Toma Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá.” A reação parece nascer do afeto, mas contém uma tentativa de afastar Jesus do caminho que ele acaba de anunciar. Por isso Jesus responde de maneira severa: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mt 16,23). Satanás significa adversário. Pedro torna-se adversário não porque deixou de amar Jesus, mas porque seu amor está misturado com uma expectativa que pretende determinar o caminho do Mestre.

A expressão “vai para trás de mim” merece atenção especial. No texto grego, a ideia de estar “atrás” de Jesus reaparece imediatamente no chamado ao discipulado: “Se alguém quer vir após mim...” O discípulo precisa permanecer atrás do Mestre. Pedro havia começado seguindo Jesus, mas naquele momento tenta colocar-se à frente para indicar-lhe o caminho que deveria tomar. A repreensão de Jesus recoloca as posições: quem segue não pode ocupar o lugar daquele que conduz. Essa inversão continua sendo uma tentação religiosa. Uma comunidade pode começar seguindo o Evangelho e, pouco a pouco, passar a utilizar o Evangelho para legitimar seus próprios interesses. Pode afirmar que defende Cristo enquanto tenta moldar Cristo à sua imagem. Pode falar em nome de Deus e, ao mesmo tempo, proteger privilégios que o próprio Jesus questionaria. Essa advertência possui particular importância quando pensamos na autoridade dentro da Igreja. O problema não é a existência do ministério ordenado, que pertence à estrutura sacramental da tradição católica, mas a transformação do serviço em privilégio e da autoridade em domínio. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deve ser assim” (Mc 10,43). Na comunidade cristã, a grandeza não é medida pela capacidade de controlar, mas pela disposição de servir. João 13 apresenta Jesus lavando os pés dos discípulos. Aquele que é chamado de Senhor ajoelha-se diante daqueles que deve conduzir. O gesto redefine a autoridade. A liderança cristã não deveria produzir medo, dependência ou submissão cega, mas cuidado, responsabilidade, proteção e liberdade. Quando uma função pastoral se torna instrumento de autopreservação institucional, algo da lógica de Jesus foi perdido. É nesse momento que Jesus amplia o chamado para todos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A renúncia de si não significa desprezar a própria existência, destruir a personalidade ou odiar o próprio corpo. Significa retirar o ego do centro absoluto. É deixar de considerar nossos desejos, medos, interesses e certezas como medida de todas as coisas. Renunciar a si mesmo é reconhecer que a vida não foi recebida apenas para autopreservação. Ela possui uma dimensão de dom. A pessoa madura não vive apenas perguntando o que pode ganhar, mas também o que pode oferecer, quem precisa dela e que tipo de mundo suas escolhas estão ajudando a construir.

A  imagem da cruz precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de Jesus. A crucificação era uma execução romana pública, marcada pela humilhação e pela exposição do condenado. Não era originalmente um símbolo religioso, mas um instrumento de violência utilizado também como mecanismo de intimidação. Falar de cruz naquele ambiente significava falar de um preço extremo que poderia ser imposto a quem entrasse em conflito com o poder. Por isso, quando Jesus chama seus discípulos a tomar a cruz, não está ensinando a procurar sofrimento. Está dizendo que o discípulo precisa estar disposto a permanecer fiel mesmo quando essa fidelidade tiver consequências. Essa distinção é fundamental. Nem todo sofrimento é uma cruz cristã. Existem dores próprias da condição humana, como enfermidades, perdas, lutos e limitações. Existem também sofrimentos produzidos pela ação humana: violência, exploração, abuso, fome, racismo, desigualdade, humilhação e exclusão. Não podemos dizer às vítimas que Deus deseja que permaneçam submetidas a essas situações. Jesus não transforma a injustiça em vontade divina. Pelo contrário, aproxima-se dos feridos, acolhe os excluídos e denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros. Em Mateus 11,28, chama os cansados e sobrecarregados para junto de si. Portanto, carregar a cruz significa assumir o custo de uma existência fiel ao amor, não santificar as cruzes que a sociedade fabrica para os vulneráveis.

A tradição profética ajuda a impedir uma interpretação acomodada do Evangelho. Isaías denuncia uma religiosidade cheia de ritos quando falta justiça; Amós rejeita celebrações quando o direito é esmagado; Miqueias resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. Jesus permanece nessa tradição. Em Mateus 23,23, critica aqueles que dão enorme importância aos detalhes religiosos enquanto negligenciam “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. A questão não é escolher entre oração e compromisso social, mas compreender que a oração perde sua autenticidade quando não produz uma vida transformada. É por isso que a sede do Salmo e o sacrifício vivo de Romanos se encontram no caminho de Jesus. Quem tem sede de Deus não deveria tornar-se indiferente à sede do outro. Quem oferece a própria vida a Deus precisa permitir que essa entrega alcance sua relação com os demais. Quem renova a mente deixa de aceitar passivamente os padrões de uma sociedade quando eles contradizem o Evangelho. A experiência espiritual torna-se discernimento e o discernimento torna-se prática. A Palavra que queimava dentro de Jeremias transforma-se em vida oferecida em Paulo e encontra em Jesus seu modelo definitivo de fidelidade. Essa perspectiva também questiona uma sociedade marcada pelo individualismo. Somos constantemente estimulados a medir o valor da existência pelo patrimônio, pelo consumo, pelo status, pela aparência, pelo número de seguidores ou pela capacidade de influência. A pergunta de Jesus permanece desconcertante: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” (Mt 16,26). Ele não condena o trabalho, a prosperidade ou o desejo legítimo de uma vida digna. O que denuncia é a inversão pela qual possuir se torna mais importante que ser, vencer mais importante que amar e acumular mais importante que repartir. Uma sociedade pode aumentar sua riqueza e, simultaneamente, produzir abandono; pode desenvolver tecnologias extraordinárias e conviver com pessoas sem acesso ao mínimo necessário para viver com dignidade.

O Evangelho também nos obriga a pensar sobre a violência. Jesus não apresenta a força armada como fundamento de seu Reino. Quando Pedro utiliza a espada para defendê-lo, Jesus manda guardá-la. A paz anunciada por Cristo não é passividade diante da injustiça, mas superação da lógica segundo a qual a violência é a resposta natural para todos os conflitos. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Promover a paz exige enfrentar as causas da violência, proteger quem está vulnerável, defender a verdade e construir relações sociais nas quais a dignidade humana seja respeitada. A paz bíblica não é silêncio imposto aos fracos; é justiça capaz de criar condições para a vida. A manipulação religiosa também está sob o julgamento do Evangelho. Quando Deus é utilizado para controlar consciências, quando a Bíblia é empregada para impedir perguntas, quando a autoridade se torna intocável, quando uma instituição preocupa-se mais em preservar sua reputação do que em escutar pessoas feridas, ou quando o medo é apresentado como obediência, a religião corre o risco de afastar-se do caminho de Jesus. A verdade cristã não deveria produzir escravos de líderes. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Uma comunidade fiel ao Evangelho não precisa apagar a consciência das pessoas para manter sua autoridade; precisa formar consciências capazes de discernir, amar e assumir responsabilidade.

Mateus 16,27 completa esse ensinamento quando Jesus afirma que o Filho do Homem dará a cada pessoa segundo suas obras. A fé não pode permanecer apenas no discurso. Jesus insiste em outros momentos que não basta dizer “Senhor, Senhor”. Em Mateus 25, o critério do julgamento passa pelo modo como tratamos quem tem fome, sede, está enfermo, estrangeiro ou preso. A fé torna-se visível nas relações. Não basta perguntar se acreditamos em Cristo; precisamos perguntar se nossa maneira de viver torna reconhecível o Cristo em quem dizemos acreditar. A doutrina que não produz misericórdia permanece incompleta; a oração que não gera responsabilidade corre o risco de transformar-se em fuga; a celebração que não alcança a vida pode tornar-se apenas hábito religioso. Nesse sentido, a Eucaristia possui uma força particularmente profunda. O Cristo que caminha para Jerusalém é o mesmo que a tradição cristã reconhece no pão partido e no cálice partilhado. A Eucaristia recorda sacramentalmente uma vida oferecida. Por isso, participar da mesa do Senhor deveria ampliar nossa disposição para repartir a existência. Não faria sentido receber o pão eucarístico enquanto permanecemos indiferentes ao pão que falta na mesa de alguém. A comunhão celebrada no altar precisa tornar-se comunhão na vida. O sacramento não nos retira da realidade; envia-nos de volta a ela com uma responsabilidade renovada. Também por isso a cruz precisa ser contemplada sempre à luz da ressurreição. Jesus não anuncia apenas sofrimento e morte; anuncia também que ressuscitará ao terceiro dia. A cruz revela o preço da fidelidade, mas a ressurreição revela que a morte não possui a palavra final. Essa perspectiva impede duas distorções igualmente perigosas. De um lado, o triunfalismo religioso, que imagina que quem possui fé nunca enfrentará dificuldades. De outro, uma espiritualidade do sofrimento, que transforma a dor em destino inevitável e considera a resignação uma virtude absoluta. O Evangelho não promete uma existência sem lágrimas. Promete que as lágrimas não terão a última palavra.

A Bíblia é suficientemente realista para reconhecer a fragilidade humana. Jeremias cansou-se. Elias, em sua crise, desejou morrer. Jó questionou. Os salmos registraram abandono, medo e lágrimas. Jesus chorou diante da morte de Lázaro e experimentou profunda angústia no Getsêmani. A fé não exige que escondamos nossas feridas para parecer fortes. Ela nos ensina a atravessá-las sem permitir que elas destruam nossa capacidade de amar. A coragem cristã não consiste em nunca sentir medo, mas em não permitir que o medo determine sozinho nossas decisões. Há momentos em que perseverar significa simplesmente continuar fazendo o bem possível, mesmo sem aplausos e sem garantias. É aqui que Jeremias volta a iluminar Mateus. O profeta queria calar, mas havia um fogo dentro dele. Jesus sabe que o caminho de Jerusalém será difícil, mas permanece fiel. O discípulo, por sua vez, é chamado a não abandonar o Mestre quando a lógica do Reino contrariar suas expectativas. Não se trata de procurar inimigos, provocar perseguições ou considerar toda crítica uma prova de santidade. Existe uma diferença entre sofrer por fidelidade e sofrer pelas consequências de nossos próprios erros. A humildade cristã precisa reconhecer essa diferença. Podemos ser contestados porque defendemos a justiça, mas também podemos ser contestados porque fomos injustos. Podemos ser rejeitados por dizer a verdade, mas também podemos ser rejeitados porque não soubemos amar. O discernimento é indispensável.

Por isso, a renovação da mente de que fala Paulo é tão importante. A Palavra precisa converter não apenas nossas emoções, mas também nossos critérios. Uma fé adulta aprende a examinar a própria consciência. Pergunta se está defendendo o Evangelho ou apenas suas preferências; se está servindo aos pequenos ou protegendo privilégios; se está seguindo Jesus ou tentando fazer Jesus seguir suas próprias convicções. A conversão cristã não consiste somente em abandonar determinados comportamentos individuais. Consiste também em permitir que Deus transforme a maneira como interpretamos a realidade, exercemos autoridade, utilizamos nossos recursos e nos posicionamos diante do sofrimento alheio. Assim, a pergunta central deste domingo não é “quanto sofrimento consigo suportar?”, mas “que Jesus estou seguindo?”. Um Jesus sem cruz pode ser fabricado para satisfazer expectativas de poder. Um Jesus sem pobres pode ser utilizado para tranquilizar consciências. Um Jesus sem justiça pode ser transformado em símbolo de prestígio. Um Jesus sem misericórdia pode ser utilizado para condenar. O Jesus dos Evangelhos, entretanto, não se deixa aprisionar por essas imagens. Ele é o Messias que serve, cura, acolhe, confronta a hipocrisia, denuncia aquilo que desumaniza, perdoa, lava os pés dos discípulos e entrega a própria vida.

Segui-lo significa permitir que ele também desmonte nossas falsas imagens de Deus. Significa deixar morrer em nós a necessidade de controlar tudo, a arrogância de possuir sempre a razão, a indiferença diante do sofrimento e a tentação de transformar a religião em instrumento de superioridade. Significa reconhecer que autoridade sem serviço pode transformar-se em dominação, que fé sem justiça pode tornar-se aparência e que culto sem compromisso pode esconder uma consciência acomodada. A conversão começa no interior, mas não termina no interior. A Palavra recebida precisa tornar-se comportamento, relação, responsabilidade e compromisso com a vida. Quando a liturgia reúne Jeremias, o salmista, Paulo e Mateus, ela apresenta um movimento único. Jeremias mostra a Palavra que penetra e incomoda. O salmista revela a sede que reconhece nossa dependência de Deus. Paulo mostra que essa experiência deve renovar nossa mente e transformar nossa existência em culto vivo. Mateus apresenta Jesus como aquele que encarna plenamente esse caminho e chama os discípulos a segui-lo. Não são quatro mensagens diferentes. É uma única convocação: deixar Deus transformar a maneira como pensamos, desejamos e vivemos.  Talvez não consigamos mudar todas as estruturas que nos cercam. Algumas portas permanecerão fechadas, determinadas pessoas não compreenderão nossa caminhada e algumas feridas precisarão de tempo para cicatrizar. Isso, porém, não nos dispensa da responsabilidade sobre aquilo que está ao nosso alcance. Podemos escolher não devolver ódio com ódio. Podemos impedir que o sofrimento produza em nós desprezo pelos outros. Podemos defender quem foi silenciado, repartir aquilo que temos, corrigir nossos erros, pedir perdão, reparar danos quando possível, acolher quem está ferido e denunciar aquilo que produz morte. A fidelidade cristã não exige que controlemos o resultado de tudo; exige que sejamos responsáveis pelo modo como caminhamos.

Quando Jesus pergunta que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, ele não está propondo uma existência de fracasso. Está perguntando pelo sentido. Podemos conquistar muitas coisas e perder aquilo que nos torna humanos. Podemos proteger tanto nossos interesses que já não conseguimos acolher ninguém. Podemos defender tanto nossa imagem que perdemos a capacidade de reconhecer nossos erros. Podemos construir uma religião tão preocupada consigo mesma que já não escuta o clamor de quem sofre. Podemos preservar estruturas e perder o Evangelho. A verdadeira renúncia, então, não é destruir nossa identidade, mas abandonar aquilo que impede nossa capacidade de amar.

A cruz de Cristo não glorifica a dor; revela a fidelidade. Não transforma a vítima em culpada; desmascara a violência que mata. Não pede submissão à injustiça; exige perseverança no amor. Não termina no sepulcro; abre-se para a ressurreição. Por isso, tomar a cruz não significa procurar sofrimento. Significa não abandonar o caminho do Reino quando esse caminho exigir coragem. A pessoa que segue Jesus não precisa fabricar conflitos para provar sua fé, mas também não pode abandonar a verdade apenas para preservar conforto, prestígio ou aaprovação  

Que a Palavra que ardeu em Jeremias também encontre espaço em nós, não para produzir ódio, mas responsabilidade. Que a sede do salmista nos liberte da ilusão de autossuficiência e nos conduza à fonte que dá sentido à existência. Que Paulo nos ensine a oferecer não apenas palavras religiosas, mas a própria vida, permitindo que nossa mente seja renovada para discernir o que corresponde ao Evangelho. Que Pedro nos recorde que até uma confissão sincera precisa passar pela conversão e que ninguém deve colocar-se à frente de Jesus para obrigá-lo a seguir nossas expectativas. Que a cruz nos ensine a fidelidade e que a ressurreição nos impeça de transformar a dor em destino e que a Igreja seja cada vez mais uma comunidade que escuta antes de julgar, serve antes de dominar, acolhe antes de excluir e protege os vulneráveis antes de defender privilégios. Que a autoridade seja serviço, que a doutrina seja acompanhada pela misericórdia, que a oração produza responsabilidade e que a Eucaristia nos torne mais sensíveis ao pão que falta na mesa dos pobres. Que não utilizemos Deus para legitimar interesses particulares, nem a religião para controlar consciências. Que saibamos distinguir fidelidade de arrogância, prudência de acomodação, sofrimento inevitável de injustiça produzida e perseverança de simples resistência em reconhecer nossos próprios erros.

E quando vierem as aflições, quando o caminho parecer longo, quando o reconhecimento não chegar e quando as lágrimas aparecerem sem aviso, possamos lembrar que Jesus nunca prometeu uma estrada sem dificuldades. “No mundo tereis aflições. Mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33). Essa palavra não elimina a dor, mas impede que ela se transforme em desespero. A ressurreição afirma que a morte não é soberana, que a violência não terá eternamente a última palavra, que a mentira não pode destruir definitivamente a verdade e que o amor não é ingenuidade diante da realidade. A esperança cristã não fecha os olhos para o sofrimento; atravessa-o acreditando que a vida pode nascer justamente onde o poder humano imaginou ter colocado um ponto ffinal..Seguir Jesus, portanto, é aprender uma nova maneira de existir. É permitir que a Palavra se torne fogo sem transformar esse fogo em violência. É reconhecer nossa sede sem tentar preenchê-la com ídolos de poder, consumo ou reconhecimento. É renovar a mente para não reproduzir automaticamente as injustiças do tempo presente. É colocar a existência concreta no altar do serviço. É permanecer próximo dos pequenos. É questionar a autoridade quando ela se transforma em dominação. É resistir à manipulação religiosa. É defender a dignidade humana sem transformar nossa defesa em arrogância. É continuar amando quando o amor tiver um preço. A grande conversão proposta por esta liturgia começa dentro de nós, mas não termina em nós. Jeremias pergunta se teremos coragem de escutar a Palavra quando ela nos incomodar. O salmista pergunta de que estamos realmente sedentos. Paulo pergunta se nossa mente está sendo renovada ou apenas reproduzindo a lógica do mundo. Jesus pergunta se somos capazes de segui-lo sem tentar substituir seu caminho pelas nossas expectativas. Essas perguntas se encontram numa única decisão: permitir que Cristo determine a direção de nossa existência. E se  faz necessário  saber:

  • Não precisamos ser fortes o tempo inteiro. 
  • Não precisamos possuir todas as respostas. 
  • Não precisamos procurar sofrimento para provar nossa fé.
 Precisamos porém:  

  • Estar dispostos a continuar no caminho quando a fidelidade ao amor exigir coragem. 
  • Reconhecer quando erramos, recomeçar quando caímos.
  • pedir perdão quando ferimos
  • Defender a vida quando ela estiver ameaçada 
  • Permanecer abertos à conversão
  •  Preciso  ter  consciência  que a santidade cristã não é uma imagem de perfeição construída para ser admirada; é uma existência que permanece em processo de transformação.

No fim, a pergunta de Jesus continua diante de nós: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” A resposta do Evangelho está na própria maneira de Jesus viver. A vida não encontra seu sentido último no domínio, na acumulação ou na autopreservação absoluta, mas na capacidade de tornar-se dom. Renunciar ao egoísmo não significa empobrecer a existência; significa libertá-la para a comunhão. Tomar a cruz não significa amar a dor; significa permanecer fiel ao amor. Renovar a mente não significa fugir do mundo; significa aprender a discernir dentro dele. Ter sede de Deus não significa abandonar a realidade; significa encontrar uma fonte que nos torne mais humanos diante dela. Por isso, caminhemos atrás de Jesus. Não à frente dele, tentando determinar o que ele deveria fazer; não ao lado dele apenas quando o caminho for confortável; nem para longe dele quando sua mensagem contrariar nossas expectativas. Caminhemos atrás dele, como discípulos que ainda precisam aprender. Que nossa fé tenha mãos para servir, pés para caminhar, olhos para enxergar os invisíveis, ouvidos para escutar os feridos e coração para acolher. Que nossa oração tenha compromisso, nossa esperança tenha coragem, nossa autoridade tenha serviço e nossa religião tenha misericórdia. Que a Palavra recebida no domingo continue ardendo durante a semana e que a Eucaristia celebrada no altar se prolongue na vida cotidiana.

A cruz não será a última palavra. A ressurreição será. Por isso, não caminhamos porque somos invulneráveis, mas porque confiamos na graça; não porque nunca sentimos medo, mas porque o medo não precisa governar nossa existência; não porque sejamos superiores aos outros, mas porque também precisamos ser continuamente convertidos. Seguimos porque Jesus continua dizendo “segue-me”. E seguir esse chamado significa colocar a vida diante de Deus como oferta viva, renovar a mente, reconhecer a própria sede, assumir as consequências da fidelidade e permanecer comprometido com aquilo que Jesus colocou no centro de sua missão: a vida, a misericórdia, a justiça, a dignidade humana e o amor.. Que, ao final desta celebração, não saiamos apenas com uma ideia religiosa a mais, mas com uma decisão concreta. Que sejamos menos conformados com aquilo que desumaniza, menos preocupados em preservar privilégios, menos dispostos a utilizar Deus para justificar nossas escolhas e mais disponíveis para servir. Que saibamos ouvir a Palavra quando ela nos corrige, reconhecer nossa sede quando ela nos revela, renovar a mente quando ela nos desafia e seguir Jesus quando seu caminho contrariar nossas expectativas. Então nossa fé deixará de ser apenas discurso e se tornará existência. E nossa existência, oferecida como culto vivo, poderá testemunhar que perder a vida por amor não significa destruí-la, mas encontrá-la em sua forma mais verdadeira: aberta a Deus, comprometida com o próximo e colocada a serviço de um mundo no qual a justiça, a misericórdia, a dignidade e a vida tenham, finalmente, a última palavra.DNonato - Teólogo Cotidiano 


sábado, 15 de julho de 2023

Um olhar sobre Mateus 13,1-23 - 15⁰ Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum do Ano A reúne Isaías 55,10-11, o Salmo 64(65), Romanos 8,18-23 e Mateus 13,1-23 numa unidade teológica admirável, construída em torno da fecundidade da Palavra de Deus, da esperança da criação e da responsabilidade humana diante do Reino. O Evangelho de Mateus 13,1-23 é proclamado neste domingo do Lecionário Romano e ocupa um lugar central na pedagogia litúrgica da Igreja, inaugurando o chamado Discurso das Parábolas (Mt 13). Seus relatos paralelos são encontrados em Marcos 4,1-20 e Lucas 8,4-15, sendo igualmente proclamados em diversos momentos do calendário das Igrejas Ortodoxas e de muitas Igrejas históricas oriundas da Reforma, que reconhecem nesta parábola uma das mais profundas sínteses do anúncio de Jesus sobre o Reino de Deus. A tradição patrística sempre viu neste texto não apenas uma explicação sobre diferentes modos de acolher a Palavra, mas um verdadeiro retrato da história da salvação, da liberdade humana e da ação perseverante de Deus que jamais deixa de semear. As quatro leituras não foram reunidas apenas por possuírem imagens agrícolas. Elas formam um único movimento teológico.

  •  Isaías 55,10-11: contempla a Palavra que desce como chuva. 
  • Salmo 64(65 canta a terra visitada por Deus. 
  • Romanos 8,18-23, Paulo contempla toda a criação gemendo enquanto espera sua redenção definitiva. 
  • Mateus 13,1-23: apresenta a semente lançada sobre os diversos terrenos do coração humano. Chuva, terra, sementes, crescimento, esperança e colheita constituem um único horizonte de revelação. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus é apresentado como aquele que faz brotar vida onde parecia existir apenas esterilidade.

O primeiro texto conduz-nos ao chamado Livro da Consolação, compreendido entre Isaías 40 e 55. A maioria dos estudiosos reconhece que esta seção não pertence ao profeta Isaías do século VIII a.C., mas a um profeta anônimo que anunciou a esperança durante o exílio babilônico, aproximadamente entre os anos 550 e 539 a.C. Jerusalém havia sido destruída por Nabucodonosor em 587 a.C. O Templo encontrava-se em ruínas. A monarquia davídica havia desaparecido. Grande parte da população vivia deportada na Babilônia. O povo perguntava se Deus ainda permanecia fiel à sua Aliança. Era uma crise política, nacional, religiosa e existencial. A antiga segurança construída sobre a terra prometida, sobre o Templo e sobre a dinastia de Davi parecia definitivamente perdida. É exatamente nesse cenário de derrota que Deus pronuncia uma das mais belas afirmações de toda a Escritura. "Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem terem regado a terra, fecundando-a e fazendo-a germinar, para dar semente ao semeador e pão para alimento, assim será minha palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia; antes realizará tudo aquilo que desejo e cumprirá sua missão" (Is 55,10-11).

O texto utiliza uma das palavras mais importantes da teologia bíblica. Em hebraico, "palavra" é dābār. O termo não significa apenas discurso, linguagem ou comunicação. Dābār também significa acontecimento, realidade, ação eficaz. Para a mentalidade hebraica, falar e agir não são realidades separadas. Quando Deus fala, algo acontece. Sua Palavra produz aquilo que anuncia. Não existe distância entre a vontade divina e sua realização..É  exatamente assim que começa toda a Bíblia. "Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita" (Gn 1,3). A criação inteira nasce da Palavra. O Salmo 33 confirma esta mesma compreensão: "Pela Palavra do Senhor foram feitos os céus" (Sl 33,6). O autor da Carta aos Hebreus afirma que "a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante que qualquer espada de dois gumes" (Hb 4,12). O prólogo do Evangelho de João identifica definitivamente essa Palavra com a própria pessoa de Cristo: "No princípio era o Verbo... tudo foi feito por meio dele" (Jo 1,1-3). Mais adiante, João proclama: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14). Aquilo que Isaías anunciava poeticamente alcança sua plenitude na Encarnação. Jesus é a Palavra que não volta ao Pai sem cumprir plenamente sua missão redentora.

Isaías utiliza imagens profundamente enraizadas na realidade agrícola da Palestina e de todo o Crescente Fértil. Diferentemente das grandes civilizações irrigadas pelos rios Nilo, Tigre e Eufrates, Israel dependia quase exclusivamente das chuvas. O livro do Deuteronômio já lembrava essa diferença ao afirmar que a Terra Prometida "bebe água da chuva do céu" (Dt 11,11). As chamadas chuvas temporãs, no início do outono, preparavam o solo para a semeadura. As chuvas serôdias, na primavera, garantiam o amadurecimento da colheita. Sem elas não havia trigo, cevada, oliveiras nem vinhas. A fome era consequência direta da ausência da chuva, frequentemente compreendida pelos profetas como sinal das rupturas da Aliança (Dt 28,12-24; Jr 5,24-25; Am 4,7). A chuva, portanto, não representa apenas um fenômeno meteorológico. Ela simboliza a fidelidade de Deus que continuamente sustenta a vida. O mesmo ocorre com a neve mencionada por Isaías. Embora rara nas regiões baixas da Palestina, ela era comum nas montanhas do Líbano e do Hermon, alimentando nascentes e reservatórios naturais que garantiam água durante o verão. O profeta mostra que toda a dinâmica da natureza torna-se uma grande parábola da ação divina.

Há uma progressão extremamente significativa em Isaías. A chuva produz terra fértil. A terra produz semente. A semente produz pão. Não se trata apenas de uma sequência agrícola. É uma teologia da vida. A Palavra gera alimento. O alimento preserva a existência humana. Deus não fala para satisfazer curiosidades religiosas. Ele fala para gerar vida abundante. O pão mencionado pelo profeta antecipa também o pão eucarístico, no qual Cristo continua alimentando seu povo (Jo 6,32-58). Ao afirmar que sua Palavra jamais retorna vazia, Deus não promete ausência de resistência humana. O próprio contexto do exílio demonstra isso. Muitos continuaram incrédulos. Outros preferiram acomodar-se à Babilônia. Entretanto, a eficácia da Palavra não depende do sucesso imediato nem dos critérios humanos de produtividade. Essa é uma das grandes lições da história bíblica. Noé pregou durante décadas antes do dilúvio (Gn 6–9). Jeremias passou a vida enfrentando rejeições (Jr 20,7-18). Ezequiel foi enviado a um povo de "coração obstinado" (Ez 2,3-7). O Servo Sofredor aparentemente fracassa aos olhos do mundo (Is 53), mas realiza plenamente o desígnio divino. Jesus termina crucificado entre criminosos, contudo justamente ali manifesta a vitória definitiva do amor sobre o pecado e sobre a morte (Fl 2,6-11).

O Salmo 64(65) prolonga poeticamente essa mesma visão. Trata-se de um grande hino de ação de graças pela fecundidade da terra e pela providência divina. "Visitais a terra e a regais; cumulais sua riqueza. Os canais de Deus estão cheios de água" (Sl 65,10). A palavra "visitar", frequentemente utilizada na Escritura, possui enorme densidade teológica. Em hebraico, o verbo pāqad não significa uma visita ocasional, mas uma intervenção salvadora de Deus na história. O Senhor visita Sara tornando possível o nascimento de Isaac (Gn 21,1). Visita seu povo no Egito preparando a libertação (Ex 3,16). Zacarias retomará essa tradição ao proclamar: "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e libertou seu povo" (Lc 1,68). No Salmo, Deus visita também a própria criação. A terra deixa de ser apenas cenário da história humana para tornar-se participante da Aliança. O universo inteiro é apresentado como destinatário da bênção divina. A natureza não é divinizada, mas tampouco é reduzida a simples objeto de exploração econômica. Ela pertence ao Senhor. "Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém" (Sl 24,1). Essa compreensão possui enorme atualidade. A crise ecológica contemporânea revela precisamente o rompimento dessa visão bíblica. A lógica da exploração ilimitada transforma rios em esgoto, florestas em mercadorias, animais em simples recursos econômicos e pessoas em consumidores. O ser humano deixa de administrar a criação como jardim, segundo Gênesis 2,15, para comportar-se como proprietário absoluto. A encíclica Laudato Si' recorda que a criação é dom recebido, jamais propriedade privada. O Papa Francisco insiste que "não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada" (Laudato Si', 67). Essa afirmação recupera precisamente a espiritualidade presente no Salmo 64(65). O salmista descreve Deus irrigando os sulcos, nivelando os torrões, amolecendo a terra com chuvas abundantes e coroando o ano com sua bondade (Sl 65,11-14). Não há oposição entre natureza e graça. A ação divina manifesta-se através dos processos naturais. A fertilidade da terra torna-se um sacramento da generosidade de Deus. O trabalho humano permanece indispensável, mas nunca substitui o dom divino. Paulo recordará essa mesma verdade ao afirmar: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer" (1Cor 3,6). A espiritualidade bíblica jamais separa oração e responsabilidade histórica. A terra visitada por Deus exige também agricultores comprometidos. A bênção divina não elimina o trabalho humano. O próprio Gênesis apresenta Adão colocado no jardim "para cultivá-lo e guardá-lo" (Gn 2,15). Os dois verbos hebraicos utilizados, ʿābad e šāmar, significam servir, cultivar, proteger e cuidar. A vocação humana nunca foi dominar de maneira despótica, mas exercer uma administração responsável da criação. Quando a ganância substitui o cuidado, a terra geme. Quando o lucro torna-se absoluto, a criação sofre. É exatamente essa realidade que São Paulo desenvolverá de maneira extraordinária na segunda leitura.

A segunda leitura, retirada de Romanos 8,18-23, constitui um dos textos mais profundos de toda a teologia paulina e uma das maiores reflexões bíblicas sobre a esperança, a criação e o destino da humanidade. A Carta aos Romanos foi escrita provavelmente entre os anos 56 e 58 d.C., durante a permanência de Paulo em Corinto (At 20,2-3). Diferentemente das cartas dirigidas a comunidades por ele fundadas, Romanos apresenta uma síntese madura de sua teologia. O apóstolo escreve a uma Igreja situada no coração do Império Romano, formada por judeus e gentios convertidos, marcada por tensões culturais, perseguições crescentes e desafios internos. Após expor a justificação pela fé (Rm 1–5), a vida nova em Cristo (Rm 6–7) e a ação libertadora do Espírito Santo (Rm 8,1-17), Paulo amplia surpreendentemente seu horizonte. A salvação não diz respeito apenas ao ser humano. Ela alcança toda a criação.

O apóstolo inicia afirmando: "Considero que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura que deverá ser revelada em nós" (Rm 8,18). O verbo grego logízomai, traduzido como "considero", pertence ao vocabulário do discernimento e do cálculo racional. Paulo não fala movido por ingenuidade ou sentimentalismo. Ele conhece a realidade da dor. Sofreu perseguições (2Cor 11,23-28), prisões (At 16,23-24), naufrágios (2Cor 11,25), fome, rejeições e enfermidades (2Cor 12,7-10). Sua esperança nasce da experiência pascal do Cristo ressuscitado e não da negação do sofrimento.

A glória futura mencionada pelo apóstolo não significa fuga da história. A palavra grega dóxa, correspondente ao hebraico kabôd, indica a manifestação plena da presença de Deus. Desde o Êxodo, a glória do Senhor acompanha Israel na nuvem (Ex 16,10; 24,16-17), enche o Tabernáculo (Ex 40,34-35) e posteriormente o Templo (1Rs 8,10-11). No Novo Testamento, essa glória manifesta-se em Cristo (Jo 1,14; 2,11; 17,5). Paulo afirma que essa mesma glória será plenamente compartilhada pelos que vivem unidos ao Ressuscitado (Rm 8,30; Fl 3,20-21).

Em seguida, o apóstolo emprega uma palavra extraordinária: "A criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus" (Rm 8,19). O termo grego apokaradokía aparece apenas aqui e em Filipenses 1,20 em todo o Novo Testamento. Literalmente descreve alguém que estica o pescoço para enxergar algo que ainda está distante. É uma imagem de expectativa intensa. Paulo personifica toda a criação, apresentando-a como alguém que contempla o horizonte aguardando o momento da redenção definitiva.

A palavra ktísis, traduzida por "criação", possui amplo significado. Não se refere apenas à natureza, mas ao conjunto da ordem criada. Céus, terra, animais, plantas e humanidade compartilham uma mesma história marcada pela bondade original do Criador (Gn 1,31), pela ruptura provocada pelo pecado (Gn 3) e pela esperança da restauração final (Ap 21–22). A antropologia bíblica jamais separa radicalmente o ser humano do restante da criação. O homem foi formado do pó da terra ('adamah) e por isso recebe o nome de Adão ('adam) (Gn 2,7). Sua existência está profundamente vinculada ao destino da terra.

Paulo afirma que a criação foi submetida à "vaidade" (Rm 8,20). A palavra grega mataiótēs não significa superficialidade, mas frustração, inutilidade, incapacidade de alcançar plenamente sua finalidade. O termo recorda a expressão repetida em Eclesiastes: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" (Ecl 1,2). A criação continua bela, continua revelando Deus (Sl 19,2; Sb 13,1-9), mas carrega as marcas da desordem introduzida pelo pecado humano. Não foi Deus quem criou um mundo destinado à corrupção. A própria narrativa do Gênesis insiste que tudo era "muito bom" (Gn 1,31). A desarmonia surge quando o ser humano rompe a comunhão com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a terra (Gn 3,17-19). Essa visão possui enorme profundidade antropológica. A Escritura mostra que o pecado nunca permanece restrito ao interior da consciência. Ele produz consequências sociais, políticas, econômicas e ambientais. O homicídio de Caim faz a terra beber o sangue de Abel (Gn 4,10-12). A violência humana corrompe toda a criação antes do dilúvio (Gn 6,11-13). Os profetas denunciam que a idolatria, a injustiça e a exploração fazem a própria terra entrar em luto (Os 4,1-3; Jr 12,4). A crise ecológica contemporânea confirma tragicamente essa percepção bíblica. O aquecimento global, o desmatamento, a poluição dos rios, a perda da biodiversidade e a cultura do descarte não são apenas problemas técnicos. Revelam uma crise espiritual e ética que nasce de uma compreensão equivocada da relação entre humanidade, criação e Deus.

Por isso Paulo afirma que a criação "geme e sofre as dores do parto até agora" (Rm 8,22). O verbo grego systenázō, "gemer juntamente", também aparece somente aqui em toda a Escritura. O sofrimento da criação não é isolado. Toda a realidade participa desse clamor. O apóstolo acrescenta outro verbo igualmente raro, synōdínō, "sofrer dores de parto". A imagem é extraordinariamente significativa. Não são dores de morte, mas dores de nascimento. O sofrimento presente não anuncia o fim da esperança, mas prepara uma nova criação. Isaías já havia recorrido à mesma imagem ao anunciar a restauração de Sião (Is 26,17-19; 66,7-14). Jesus utilizará essa metáfora para falar das tribulações que antecedem a plenitude do Reino (Jo 16,20-22). Essa perspectiva alcança sua culminância no livro do Apocalipse. João contempla "um novo céu e uma nova terra" (Ap 21,1), onde Deus enxugará toda lágrima, não haverá mais morte, luto nem dor (Ap 21,4). A esperança cristã não consiste na destruição do mundo material, mas em sua transformação definitiva. A ressurreição de Cristo inaugura precisamente essa nova criação (2Cor 5,17; Cl 1,15-20).

É importante perceber que Paulo evita qualquer espiritualismo desencarnado. A redenção prometida não significa abandono do mundo, mas sua transfiguração. Essa compreensão inspirou profundamente o Concílio Vaticano II. A Constituição Gaudium et Spes ensina que a esperança cristã não diminui a responsabilidade histórica, mas fortalece o compromisso com a construção de uma sociedade mais justa (GS 39). A Constituição Lumen Gentium recorda que toda a Igreja caminha peregrina na história, antecipando sacramentalmente a plenitude do Reino (LG 48). Bento XVI, na Exortação Apostólica Verbum Domini, reafirma que a Palavra de Deus nunca afasta o cristão das realidades concretas da vida, mas ilumina todas elas à luz do Evangelho. Paulo acrescenta que também nós "gememos interiormente, aguardando a adoção filial, a redenção do nosso corpo" (Rm 8,23). Aqui encontra-se outro aspecto decisivo da antropologia cristã. A salvação não se limita à alma. O corpo participa plenamente do projeto redentor. Contra diversas correntes filosóficas do mundo greco-romano que desprezavam a matéria, o cristianismo afirma a dignidade do corpo humano. O Filho de Deus assumiu nossa carne (Jo 1,14), morreu corporalmente na cruz (Lc 23,46) e ressuscitou com um corpo glorificado (Lc 24,39). Da mesma forma, a esperança cristã aponta para a ressurreição dos mortos (1Cor 15,12-58), e não para uma libertação da matéria.

Esse ensinamento possui enorme importância para a sociedade contemporânea. Vivemos entre dois extremos igualmente perigosos. De um lado, uma cultura consumista transforma o corpo em objeto de mercado, mercadoria ou instrumento de prazer. De outro, persistem espiritualidades desencarnadas que desprezam a realidade histórica, social e política, reduzindo a fé a uma experiência privada. Paulo rejeita ambos os extremos. O corpo humano, a criação e a história são lugares da ação salvadora de Deus. A partir dessa compreensão torna-se impossível anunciar o Evangelho permanecendo indiferente às injustiças que desfiguram a dignidade humana. Medellín afirmou que a miséria constitui uma injustiça que clama aos céus. Puebla recordou que os rostos sofredores dos pobres revelam o rosto do próprio Cristo. O Documento de Aparecida insiste que não existe verdadeiro discipulado sem compromisso com a vida, com a justiça e com os excluídos. A CNBB, em sucessivos documentos sociais, reafirma que evangelização e promoção da dignidade humana são dimensões inseparáveis da missão da Igreja.

Essa mesma perspectiva exige discernimento diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Sempre que a fé é reduzida a instrumento de enriquecimento, de dominação política ou de conquista de poder, a Palavra deixa de ser semente do Reino para transformar-se em mecanismo ideológico. A teologia da prosperidade reduz a bênção de Deus ao sucesso econômico, ignorando a centralidade da cruz, da solidariedade e da partilha. A teologia do domínio identifica o Reino de Deus com projetos de hegemonia cultural ou política, esquecendo que Jesus recusou explicitamente o poder baseado na força (Mt 4,8-10; Jo 18,36). Também o clericalismo, denunciado repetidamente pelo Papa Francisco, contradiz a lógica do Evangelho ao substituir o serviço pela busca de privilégios e controle. Da mesma forma, quando comunidades cristãs se deixam capturar por ideologias autoritárias, por discursos de ódio ou pela absolutização de projetos político-partidários, correm o risco de obscurecer a universalidade da Boa-Nova anunciada por Cristo. O Evangelho interpela todas as culturas e correntes políticas, mas não pode ser reduzido a instrumento de nenhuma delas. Depois de conduzir o leitor da criação que geme para a esperança da nova criação, Paulo prepara o terreno para compreender a parábola do semeador. A mesma Palavra eficaz anunciada por Isaías, a mesma terra fecundada celebrada pelo salmista e a mesma criação que aguarda a plenitude da redenção tornam-se agora o cenário da pregação de Jesus às margens do mar da Galileia. A semente que será lançada pelo Semeador divino não cai sobre um mundo abandonado por Deus, mas sobre uma criação que continua sendo visitada pela graça, chamada à conversão e destinada à plenitude do Reino.

Quando Mateus inicia o capítulo 13 afirmando que "naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira-mar" (Mt 13,1), não está apenas descrevendo um deslocamento geográfico. Cada detalhe possui profundo significado narrativo e teológico. A expressão "naquele mesmo dia" liga imediatamente esta cena aos acontecimentos do capítulo anterior. A parábola do semeador nasce em um contexto de crescente rejeição ao ministério de Jesus. Em Mateus 11,20-24, cidades inteiras recusam sua mensagem. Em Mateus 12,1-14, surgem conflitos sobre o sábado. Em Mateus 12,22-37, os fariseus chegam ao ponto de atribuir ao poder de Belzebu as obras realizadas pelo Espírito Santo. Pouco depois, os escribas e fariseus pedem um sinal extraordinário (Mt 12,38-42), revelando que sua incredulidade não nasce da falta de evidências, mas da dureza do coração. Finalmente, quando sua própria família o procura (Mt 12,46-50), Jesus amplia o conceito de parentesco, afirmando que sua verdadeira família é formada por aqueles que fazem a vontade do Pai. Todo esse pré-texto conduz naturalmente à pergunta que domina o capítulo 13: por que alguns acolhem a Palavra enquanto outros permanecem fechados ao Reino? O movimento de Jesus também possui forte valor simbólico. Ele sai da casa e dirige-se ao mar. Em Mateus, a casa frequentemente representa o espaço de Israel e da comunidade dos discípulos (Mt 10,12-14; 13,36; 17,25), enquanto o mar evoca o mundo, os povos e até as forças caóticas da criação, conforme a simbologia veterotestamentária (Sl 74,13-14; Is 57,20; Dn 7,2-3). Jesus não permanece fechado no espaço religioso. O Reino rompe fronteiras. A Palavra dirige-se a toda a humanidade.

Ao entrar numa barca para ensinar (Mt 13,2), Jesus realiza um gesto que a tradição patrística interpretou como figura da própria Igreja. Orígenes via na barca o lugar onde Cristo continua ensinando através da comunidade dos discípulos. Santo Agostinho enxergava nela a Igreja navegando pelas tempestades da história sem perder a presença do Senhor. A barca já aparecia como espaço privilegiado da revelação em episódios anteriores, como a pesca milagrosa (Lc 5,1-11) e a tempestade acalmada (Mt 8,23-27). Não é por acaso que Jesus ensina a partir dela. O Evangelho nasce dentro de uma comunidade, mas destina-se às multidões que permanecem na margem. A multidão permanece em pé na praia enquanto Jesus está sentado na barca (Mt 13,2). Na cultura judaica, sentar-se era a postura própria do mestre autorizado. Assim ensinavam os rabinos nas sinagogas. O mesmo gesto aparece quando Jesus proclama o Sermão da Montanha (Mt 5,1). Mateus apresenta Cristo como o novo Moisés, aquele que interpreta definitivamente a Lei e revela os mistérios do Reino. O evangelista afirma então que Jesus "falou-lhes muitas coisas em parábolas" (Mt 13,3). A palavra grega parabolé traduz o hebraico mashal, termo muito mais amplo do que simples comparação. O mashal podia designar provérbios (Pr 1,1), enigmas (Ez 17,2), alegorias (Jz 9,7-15), sentenças sapienciais e narrativas simbólicas. A parábola não pretende apenas transmitir informação; ela provoca decisão. Diante dela, ninguém permanece neutro. Como observava o biblista Joachim Jeremias, as parábolas obrigam o ouvinte a entrar na narrativa e reconhecer-se dentro dela.

Jesus inicia dizendo: "Eis que o semeador saiu para semear" (Mt 13,3). O personagem permanece anônimo porque representa, antes de tudo, o próprio Deus que continuamente toma a iniciativa da salvação. A Escritura inteira apresenta Deus como aquele que sai ao encontro da humanidade. Caminha no jardim procurando Adão (Gn 3,9). Chama Abraão para deixar sua terra (Gn 12,1). Vai ao encontro de Moisés na sarça ardente (Ex 3,1-10). Envia profetas ao povo rebelde (Jr 7,25). Finalmente, envia seu Filho ao mundo (Jo 3,16-17). A missão sempre começa com Deus. A graça precede qualquer resposta humana. 

Na Palestina do primeiro século, o método de cultivo diferia daquele conhecido em muitas regiões modernas. Frequentemente o agricultor lançava primeiro a semente e somente depois passava o arado. Por isso parte dos grãos inevitavelmente caía sobre caminhos endurecidos, terrenos pedregosos ou áreas tomadas por espinhos. Jesus parte de uma cena absolutamente comum aos camponeses da Galileia. Sua linguagem nasce da vida concreta dos pobres. O Reino é anunciado através da experiência cotidiana daqueles que trabalhavam a terra, e não mediante categorias filosóficas reservadas às elites.

O primeiro terreno é o caminho. "Vieram as aves e comeram as sementes" (Mt 13,4). Mais tarde Jesus explica que se trata daquele que ouve a Palavra sem compreendê-la; então o Maligno vem e arrebata o que foi semeado em seu coração (Mt 13,19). A referência recorda imediatamente a profecia de Isaías 6,9-10, retomada por Jesus em Mt 13,13-15. Deus não endurece arbitrariamente o coração humano. A linguagem profética descreve o resultado da repetida recusa da verdade. O faraó, por exemplo, endurece sucessivamente seu coração (Ex 7,13; 8,15; 9,34), até que Deus confirma a escolha livre que ele próprio fez. A liberdade humana pode transformar-se em fechamento permanente quando se recusa continuamente a conversão. O caminho representa uma consciência endurecida pelo hábito. A repetição do egoísmo, da violência e da indiferença cria estruturas interiores resistentes ao Evangelho. A psicologia contemporânea confirma que padrões repetidos moldam profundamente a personalidade. A tradição bíblica já intuía essa realidade ao insistir na necessidade de guardar o coração, "porque dele procedem as fontes da vida" (Pr 4,23). A Palavra não consegue penetrar onde a consciência foi completamente pavimentada pela autossuficiência.

Esse endurecimento não é apenas individual. Também existe um coração coletivo. Povos, instituições e comunidades podem tornar-se incapazes de ouvir. Quando interesses econômicos justificam a destruição ambiental, quando sistemas políticos naturalizam a pobreza, quando grupos religiosos absolutizam suas próprias interpretações e deixam de escutar o clamor dos pequenos, o caminho endurecido da parábola torna-se realidade histórica. O pecado assume dimensão estrutural, como recordaram repetidamente Medellín, Puebla e a Doutrina Social da Igreja. O segundo terreno é pedregoso. A semente brota rapidamente, mas não possui raízes profundas e seca ao aparecer o sol (Mt 13,5-6). Mateus explica que representa quem acolhe a Palavra com entusiasmo imediato, porém abandona a fé diante das dificuldades e perseguições (Mt 13,20-21). Marcos acrescenta que essa perseverança é provada "por causa da Palavra" (Mc 4,17). Lucas destaca que esses discípulos "acreditam por algum tempo" (Lc 8,13).

A geografia da Galileia ajuda a compreender a imagem. Muitas áreas possuíam uma fina camada de terra cobrindo extensas placas de calcário. A umidade inicial favorecia uma germinação rápida, mas as raízes encontravam logo a pedra, impedindo seu aprofundamento. Exteriormente havia crescimento; interiormente faltava sustentação.  Jesus descreve aqui uma religiosidade superficial. Existe entusiasmo, emoção e até linguagem religiosa, mas não existe discipulado. A fé torna-se dependente de milagres, prosperidade, reconhecimento social ou experiências emocionais intensas. Quando chegam a cruz, o silêncio de Deus, a perseguição ou a decepção, tudo desmorona. É exatamente o contrário da espiritualidade apresentada pelos Salmos, por Jó e pelos profetas, que aprendem a permanecer fiéis mesmo durante a noite da fé (Sl 42; Jó 19,25-27; Hc 3,17-19).

Essa advertência possui enorme atualidade. Em uma cultura marcada pela velocidade, pelo imediatismo e pelo consumo, cresce a tentação de transformar a religião em experiência emocional passageira. Busca-se uma espiritualidade capaz de produzir satisfação instantânea, mas incapaz de sustentar uma vida inteira de fidelidade. O Evangelho, porém, nunca prometeu facilidade. Jesus advertiu claramente: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (Mt 16,24). O discípulo não é maior que seu Mestre (Mt 10,24). A maturidade espiritual nasce da perseverança, da oração, da escuta constante da Palavra e da prática cotidiana da caridade.  É justamente quando a fé cria raízes profundas que ela se torna capaz de enfrentar as tempestades da história. Como a árvore plantada junto às águas descrita pelo Salmo 1 e por Jeremias 17,7-8, o verdadeiro discípulo continua produzindo frutos mesmo nos tempos de seca, porque sua esperança não depende das circunstâncias, mas da fidelidade daquele que continua semeando sua Palavra em todas as gerações.

O terceiro terreno apresentado por Jesus talvez seja o mais inquietante para os discípulos de todas as épocas, justamente porque nele a Palavra chega a germinar. Não há rejeição imediata, como acontece no caminho endurecido, nem entusiasmo efêmero, como no terreno pedregoso. A semente cresce, mas é lentamente sufocada pelos espinhos. Jesus explica que esses espinhos são "as preocupações do mundo e a sedução das riquezas" (Mt 13,22). Marcos amplia a lista acrescentando "a ambição das outras coisas" (Mc 4,19), enquanto Lucas menciona "as preocupações, as riquezas e os prazeres da vida" (Lc 8,14). Os três evangelistas convergem ao mostrar que o maior inimigo do Reino nem sempre é a perseguição aberta, mas a lenta ocupação do coração por aquilo que toma o lugar de Deus. Na tradição bíblica, os espinhos aparecem pela primeira vez em Gênesis 3,17-18 como consequência da ruptura da comunhão entre Deus, o ser humano e a criação. A terra, destinada a produzir alimento, passa também a produzir espinhos. O símbolo retorna continuamente nos profetas para indicar idolatria, injustiça e abandono da Aliança (Is 5,1-7; Jr 4,3; Os 10,12). Jesus recupera essa tradição e mostra que o coração humano também pode tornar-se uma terra abandonada, onde crescem espontaneamente os espinhos do egoísmo, da avareza e da autossuficiência.

É significativo que Jesus não condene o trabalho, a administração dos bens ou as responsabilidades da vida. A Escritura reconhece o valor do trabalho desde Gênesis 2,15 e louva a sabedoria de quem administra corretamente os bens recebidos (Pr 31,10-31; Mt 25,14-30). O problema surge quando as preocupações deixam de ser administradas pela fé e passam a governar a existência. O próprio Jesus advertirá mais adiante: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). O termo utilizado por Mateus é Mammon, expressão aramaica que personifica a riqueza transformada em ídolo. Quando o dinheiro deixa de ser instrumento e torna-se senhor, o Reino começa a ser sufocado. Essa advertência possui enorme relevância para o nosso tempo. Vivemos em uma sociedade marcada pela lógica do desempenho, do consumo e da competição permanente. O valor das pessoas frequentemente é medido por sua capacidade de produzir, consumir e acumular. A publicidade cria necessidades artificiais, as redes sociais estimulam comparações constantes e o mercado transforma quase tudo em mercadoria, inclusive a espiritualidade. O coração humano torna-se um terreno ocupado por inúmeras vozes que disputam sua atenção, sua confiança e sua esperança.

Nesse contexto, a crítica de Jesus alcança também certas deformações religiosas contemporâneas. Quando a fé é reduzida à promessa de enriquecimento individual, perde-se o núcleo do Evangelho. A chamada teologia da prosperidade interpreta bênção quase exclusivamente como sucesso econômico, ignorando que Cristo nasceu numa família pobre (Lc 2,24), viveu sem possuir onde reclinar a cabeça (Mt 8,20) e proclamou felizes os pobres (Lc 6,20; Mt 5,3). Da mesma forma, a chamada teologia do domínio identifica o Reino de Deus com projetos de conquista de poder cultural ou político, esquecendo que Jesus recusou explicitamente a lógica da dominação: "Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim; quem quiser ser o maior faça-se vosso servo" (Mt 20,25-28). Também o clericalismo se revela um espinho que sufoca a Palavra. Sempre que ministros ordenados ou lideranças eclesiais compreendem a autoridade como privilégio e não como serviço, obscurecem o rosto do Bom Pastor. O Concílio Vaticano II recorda que toda autoridade na Igreja existe para edificar o Povo de Deus (Lumen Gentium, 18-27). O Papa Francisco insiste repetidamente que o clericalismo infantiliza os leigos, reduz a corresponsabilidade e impede que a Igreja viva sua verdadeira vocação missionária. Jesus nunca organizou uma comunidade baseada em privilégios, mas em serviço, lava-pés (Jo 13,1-15) e entrega da própria vida.

A parábola também interpela toda tentativa de instrumentalizar a fé para fins político-partidários ou ideológicos. O Reino anunciado por Jesus não se identifica com projetos de poder nem pode ser apropriado por qualquer corrente política. Sempre que o nome de Deus é utilizado para justificar autoritarismos, exclusões, violência simbólica ou discursos de ódio contra grupos sociais, migrantes, pobres ou adversários, o Evangelho é reduzido a instrumento de dominação. Isso vale para qualquer ideologia que pretenda submeter a Boa-Nova aos seus próprios interesses. A missão profética da Igreja consiste precisamente em anunciar a soberania de Deus acima de todo poder humano (At 5,29), defendendo a dignidade de cada pessoa criada à sua imagem (Gn 1,26-27).

Depois de apresentar os três terrenos infecundos, Jesus fala finalmente da boa terra. "A semente semeada em terra boa é aquele que ouve a Palavra, compreende-a e produz fruto, um cem, outro sessenta e outro trinta por um" (Mt 13,23). Mateus é o único dos sinóticos que enfatiza explicitamente a compreensão da Palavra. O verbo grego syníēmi não significa apenas entender intelectualmente, mas discernir, integrar e deixar que a Palavra transforme a existência. Não basta escutar. Também os adversários de Jesus o escutavam. A diferença está em permitir que a Palavra reorganize a vida.

A boa terra não nasce pronta. Assim como o agricultor prepara cuidadosamente o solo, também o coração necessita ser cultivado. Os profetas já haviam utilizado essa imagem. Jeremias exortava: "Lavrai para vós um campo novo e não semeeis entre espinhos" (Jr 4,3). Oseias repetia: "Semeai para vós justiça, colhei misericórdia; lavrai uma terra nova" (Os 10,12). A conversão consiste precisamente nesse trabalho interior que remove pedras, arranca espinhos e rompe o endurecimento produzido pelo pecado.

O fruto esperado por Jesus não pode ser reduzido a práticas religiosas isoladas. Em todo o Evangelho de Mateus, produzir frutos significa viver concretamente a vontade de Deus. João Batista advertia: "Produzi frutos dignos de conversão" (Mt 3,8). Jesus afirma que toda árvore é conhecida por seus frutos (Mt 7,16-20). No discurso escatológico, os frutos aparecem como obras de misericórdia: dar de comer aos famintos, acolher estrangeiros, visitar os doentes e os presos (Mt 25,31-46). O Evangelho de João aprofundará essa perspectiva ao apresentar Cristo como a videira verdadeira e os discípulos como os ramos chamados a permanecer nele para produzir muito fruto (Jo 15,1-17). Paulo, por sua vez, identifica esses frutos com o amor, a alegria, a paz, a paciência, a bondade, a fidelidade, a mansidão e o domínio de si (Gl 5,22-23).

É igualmente significativo que a colheita produza cem, sessenta e trinta por um. Na agricultura palestinense do primeiro século, uma colheita de sete ou dez vezes já era considerada excelente. Cem por um representa uma fecundidade extraordinária, quase inacreditável. Jesus utiliza deliberadamente uma hipérbole para mostrar que a ação de Deus supera infinitamente os cálculos humanos. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes invisível aos olhos do mundo, mas seus frutos ultrapassam toda expectativa. Essa lógica reaparece na pequena semente de mostarda que se torna uma grande árvore (Mt 13,31-32), no fermento que transforma toda a massa (Mt 13,33) e no grão de trigo que, ao morrer, produz muito fruto (Jo 12,24).

A tradição dos Padres da Igreja contemplou nessa fecundidade a ação conjunta da graça e da liberdade. Orígenes insistia que Deus oferece igualmente sua Palavra a todos, mas respeita profundamente a resposta humana. São João Crisóstomo observava que o semeador não deixa de lançar sementes mesmo onde sabe que encontrará resistência, revelando a infinita paciência divina. Santo Agostinho via nos diferentes terrenos não quatro grupos fixos de pessoas, mas quatro possibilidades presentes em cada coração. Em diferentes momentos da vida, todos experimentamos endurecimentos, superficialidades, espinhos e também tempos de verdadeira fecundidade. A parábola, portanto, não serve para julgar os outros, mas para examinar continuamente a própria consciência.

Essa interpretação permanece extremamente atual. Em uma sociedade marcada por polarizações, torna-se fácil identificar os "maus terrenos" apenas nos adversários. Jesus, porém, dirige sua Palavra antes de tudo aos discípulos. A pergunta decisiva não é quem são os outros, mas que tipo de solo estamos oferecendo ao Evangelho. Existe dentro de nós um caminho endurecido pela indiferença? Permanecem pedras de orgulho, ressentimento ou autossuficiência? Crescem espinhos de consumismo, ambição ou medo? Ou estamos permitindo que a Palavra transforme nossas relações familiares, nossas escolhas econômicas, nosso compromisso social, nossa participação política e nossa vida comunitária?

A liturgia deste domingo responde afirmativamente à esperança anunciada por Isaías. A Palavra continua descendo como chuva. O Salmo proclama que Deus continua visitando a terra e tornando-a fecunda. Paulo afirma que toda a criação continua aguardando sua plena libertação. Jesus revela que essa Palavra permanece sendo semeada generosamente em cada geração. A iniciativa continua pertencendo a Deus, mas a fecundidade do Reino passa também pela liberdade humana que acolhe, compreende e pratica a Palavra.

Por isso, a conversão pedida pelo Evangelho não é apenas moral nem exclusivamente individual. Ela é pessoal, comunitária e social. Exige comunidades capazes de colocar a Palavra acima de interesses institucionais, Igrejas que sirvam em vez de dominar, cristãos que testemunhem a justiça em vez de instrumentalizar a fé para projetos de poder, discípulos que reconheçam nos pobres, nos sofredores e na criação ferida um lugar privilegiado da presença de Cristo. Como recorda a Constituição Dei Verbum, a Palavra de Deus permanece viva e eficaz em todos os tempos. Como afirma Evangelii Gaudium, ela possui força própria e continua transformando a história. E como ensina o Documento de Aparecida, somente discípulos missionários profundamente enraizados na Palavra poderão colaborar na construção de uma sociedade reconciliada, fraterna e fiel ao Reino de Deus.  Assim, a grande pergunta que ecoa ao final desta liturgia permanece dirigida a cada geração da Igreja: que terra estamos oferecendo ao Semeador? A resposta não será dada por discursos religiosos nem por identidades confessionais, mas pelos frutos concretos de justiça, misericórdia, comunhão, cuidado com a criação e amor ao próximo. Onde esses frutos aparecem, ali a Palavra cumpriu sua missão, confirmando a promessa de Isaías de que jamais volta vazia, realizando plenamente aquilo para o qual Deus a enviou e antecipando, já no presente, a nova criação aguardada por toda a humanidade e por toda a criação.

DNonato - Teólogo Cotidiano