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sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


domingo, 24 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 20,1-16a./ 25º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum, Ano A, apresenta quatro leituras que se iluminam mutuamente: Isaías 55,6-9; Salmo 144(145); Filipenses 1,20c-24.27a e Mateus 20,1-16a. 

  • Isaías 55,6-9 anuncia que os pensamentos e os caminhos de Deus ultrapassam os nossos e Isaías afirma: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55,8). Essa palavra não pode ser utilizada para justificar qualquer injustiça como se fosse simplesmente um misterioso desígnio divino. O profeta chama à conversão do nosso modo de pensar, especialmente quando tentamos colocar Deus dentro das categorias humanas de mérito, recompensa e privilégio.
  • O Salmo 144(145) amplia essa visão ao apresentar uma justiça inseparável da misericórdia: Deus sustenta os que caem, endireita os encurvados e permanece próximo daqueles que o invocam. o o salmista proclama um Senhor clemente, compassivo e próximo dos que caem. 
  • Filipenses 1,20c-24.27a: Paulo leva essa lógica para sua própria existência. Preso e diante da possibilidade da morte, reconhece que permanecer vivo pode ser mais necessário à comunidade. Sua vida não é compreendida como propriedade individual, mas como serviço: “Para mim, viver é Cristo” (Fl 1,21).  Paulo compreende sua existência como serviço à comunidade; e Jesus, na parábola dos trabalhadores da vinha, confronta nossa tendência de transformar a relação com Deus em contabilidade de méritos. A questão que atravessa a liturgia é profundamente humana: como reagimos quando Deus não distribui sua graça segundo os nossos critérios de merecimento? Assim, antes mesmo de ouvirmos a parábola, a liturgia já desloca nosso olhar: a vida cristã não é uma competição por reconhecimento diante de Deus, mas uma existência recebida como graça e transformada em dom.

É nesse horizonte que devemos compreender Mateus 20,1-16a. A parábola é continuação direta do episódio narrado em Mateus 19. Um homem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para possuir a vida eterna; depois de ser confrontado com seu apego às riquezas, vai embora entristecido. Pedro então pergunta:

  •  “Eis que deixamos tudo e te seguimos. Que haveremos de receber?” (Mt 19,27). 
  • Se deixamos mais, receberemos mais? Se trabalhamos mais, teremos maior reconhecimento? 
  • Se chegamos primeiro, ocuparemos posição superior? 
As  perguntas revelam uma mentalidade ainda marcada pela recompensa e Jesus  responde afirmando que muitos primeiros serão últimos e muitos últimos serão primeiros (Mt 19,30), e imediatamente apresenta a parábola. Portanto, o texto não é simplesmente uma narrativa sobre salários. É uma resposta à tentação de transformar o discipulado em sistema de créditos diante de Deus. Até aqueles que deixaram tudo para seguir Jesus poderiam transformar sua vocação em título de superioridade. O proprietário sai de madrugada para contratar trabalhadores para sua vinha e volta à praça às nove horas, ao meio-dia, às três da tarde e finalmente às cinco. O movimento repetido é significativo: ele continua saindo ao encontro daqueles que estão fora. Muitos trabalhadores da Palestina do primeiro século dependiam da contratação diária e permaneciam nas praças esperando uma oportunidade. Um dia sem trabalho podia significar um dia sem sustento. Quando o proprietário pergunta aos últimos por que permanecem ali, eles respondem: “Porque ninguém nos contratou” (Mt 20,7). Essa frase dá profundidade social à parábola. Eles não afirmam simplesmente que não quiseram trabalhar; afirmam que não foram chamados. A praça torna-se, assim, imagem de todos os lugares onde pessoas permanecem disponíveis, mas invisíveis: desempregados, trabalhadores informais, jovens à procura da primeira oportunidade, pessoas consideradas velhas demais, pouco qualificadas ou pouco produtivas. A parábola começa onde frequentemente não olhamos: nos rostos daqueles que esperam.

A vinha, por sua vez, possui uma forte tradição simbólica. Isaías 5,1-7 apresenta Israel como a vinha que Deus plantou e cultivou, esperando dela frutos de justiça, mas encontrando violência e opressão; o Salmo 80(79) também utiliza a imagem da videira para falar do povo conduzido desde o Egito. Quando Jesus fala da vinha, portanto, seus ouvintes reconhecem uma linguagem carregada de significado. A vinha é espaço de cultivo, responsabilidade e fruto. Mas, na parábola, existe uma novidade: o proprietário não permanece simplesmente dentro dela; ele vai continuamente à praça buscar aqueles que ainda estão fora. A imagem impede uma compreensão fechada do Reino e também questiona qualquer tentativa de transformar a comunidade de fé em propriedade de grupos, ministros ou pessoas que chegaram primeiro. A vinha pertence ao Senhor. Ninguém possui a graça como patrimônio particular, e a antiguidade na comunidade não concede superioridade sobre aqueles que chegam depois. Quando chega a noite, o proprietário determina que o pagamento comece pelos últimos. Eles recebem um denário, exatamente como aqueles que suportaram o calor do dia. Os primeiros, então, imaginam que receberão mais, mas recebem aquilo que havia sido combinado, sem qualquer fraude ou injustiça. O conflito nasce quando a generosidade concedida ao outro passa a ser percebida como um prejuízo pessoal. Já não se trata daquilo que receberam, mas daquilo que o outro recebeu. É nesse momento que o proprietário pergunta: “Por que estás com inveja porque sou bom?” (Mt 20,15). O texto grego utiliza a imagem do “olho mau”, expressão associada à inveja e à avareza, revelando uma dimensão profunda da experiência humana: muitas vezes não sofremos apenas porque nos falta alguma coisa, mas porque alguém recebeu aquilo que imaginávamos que deveria pertencer exclusivamente a nós. A comparação transforma a bênção em competição, alimenta o ressentimento e pode até transformar a própria religião em uma disputa por reconhecimento, privilégios e superioridade espiritual.

Jesus  não está dizendo que o esforço humano não tenha valor.  Os primeiros trabalhadores realmente trabalharam mais tempo e suportaram o calor do dia, mas o que ele questiona é a transformação desse esforço em motivo de superioridade diante da graça.  A salvação não é um salário pago depois de acumuladas horas religiosas. Batismo, ministério, oração, serviço, renúncia e anos de participação comunitária são importantes e expressam compromisso com o Evangelho, mas não criam direitos de propriedade sobre Deus, porque a graça permanece graça. É essa a lógica que Paulo também expressa em Romanos 9,16 e Efésios 2,8-9: a salvação não nasce da pretensão humana de merecimento, mas da iniciativa gratuita de Deus, sem que isso elimine a responsabilidade, o compromisso ou a necessidade de justiça. O que Jesus impede é que Deus seja reduzido a um contador de créditos espirituais, como se nossa fidelidade pudesse transformar a graça em recompensa obrigatória. Por isso, quem chegou primeiro é chamado a agradecer pelo caminho percorrido sem desprezar quem chegou depois, enquanto quem chegou depois deve acolher a graça recebida sem transformar sua chegada em uma nova competição. A vida cristã começa a amadurecer quando deixamos de perguntar apenas “Quanto eu mereço?” e passamos a perguntar “O que faço com aquilo que recebi?”. 

Essa compreensão da graça não pode, contudo, ser usada para relativizar a justiça social. Mateus 20 não é uma teoria econômica nem uma autorização para a exploração trabalhista. A própria Bíblia contém uma defesa vigorosa da dignidade do trabalhador: Deuteronômio 24,14-15 determina que o salário do trabalhador pobre seja pago no mesmo dia, porque dele depende sua vida; Jeremias 22,13 denuncia aquele que constrói sua casa sem pagar justamente o trabalhador; Malaquias 3,5 denuncia a exploração dos assalariados; e Tiago 5,4 afirma que o salário retido injustamente clama diante de Deus. A tradição bíblica reconhece, portanto, que por trás do contrato existe uma pessoa, por trás do salário existe uma família e, por trás da força de trabalho, existe uma vida. Por isso, a dignidade do trabalhador não pode ser subordinada exclusivamente à produtividade nem reduzida ao valor econômico que sua força de trabalho representa. Essa perspectiva alcança diretamente a realidade contemporânea das jornadas exaustivas, da precarização, da insegurança profissional e da disponibilidade permanente, quando o trabalhador permanece conectado ao emprego mesmo depois de encerrada sua jornada. A parábola dos trabalhadores da vinha não fornece uma legislação trabalhista, mas oferece um critério profundamente antropológico e ético: o trabalho deve servir à vida, e não consumir a pessoa. O trabalhador não é mercadoria; a família não é obstáculo à produtividade; a saúde não é simplesmente um custo; e o descanso não é desperdício. Êxodo 20,8-11 coloca o sábado na própria estrutura da vida de Israel, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o descanso à memória da libertação do Egito. O povo que conheceu a escravidão não deveria reproduzir, em suas relações sociais, a lógica daquilo que havia experimentado. O descanso, portanto, possui uma dimensão simultaneamente teológica e social: proclama que ninguém pertence integralmente ao trabalho, porque a pessoa humana possui uma dignidade que antecede sua função, sua produtividade e seu salário.

Depois de uma intensa atividade missionária, Jesus diz aos discípulos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,31), mostrando que o descanso não é preguiça nem perda de tempo, mas uma condição necessária para que o serviço permaneça verdadeiramente humano. O próprio Lucas apresenta Jesus retirando-se para lugares solitários para rezar (Lc 5,16), revelando que até mesmo a missão precisa encontrar no silêncio, na oração e no descanso a fonte de sua continuidade. Uma sociedade que exige disponibilidade permanente, leva as metas e as cobranças para dentro de casa e transforma o trabalhador em alguém permanentemente conectado corre o risco de produzir uma nova forma de escravidão sob a linguagem aparentemente neutra da eficiência, da produtividade e do desempenho. Existe vida antes do trabalho, existe vida durante o trabalho e existe vida depois do trabalho, e quando o trabalho ocupa todos esses espaços, deixa de ser instrumento para a realização humana e passa a consumir a própria existência. A questão, portanto, não é apenas econômica, mas profundamente antropológica, porque o trabalhador exausto pode perder a convivência familiar, a participação comunitária, a saúde, a espiritualidade e até mesmo a percepção de que sua existência possui valor para além do salário, da função ou dos resultados que consegue entregar. Gênesis 1,26-31 apresenta o ser humano como imagem de Deus antes de qualquer produtividade econômica, lembrando que o valor da pessoa antecede sua função social e não pode ser reduzido àquilo que ela produz. É por isso que a pergunta de Jesus permanece provocadora: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (Mc 8,36). Numa sociedade capaz de medir metas, salários, índices, desempenho e resultados, continua sendo difícil medir aquilo que verdadeiramente sustenta a existência humana: o afeto, o descanso, a amizade, o cuidado, a solidariedade, a fé, a cultura, a comunidade e a esperança. É justamente nesse ponto que a voz profética das Escrituras continua necessária, porque Amós 5,24 exige que o direito corra como água e a justiça como uma correnteza que não seca; Isaías 58,6-7 relaciona o verdadeiro culto à libertação dos oprimidos, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor daqueles que não conseguem falar por si mesmos; e o Salmo 82,3-4 chama a defender o fraco, o órfão, o pobre e o necessitado. A religião bíblica, portanto, não permite uma fé indiferente diante de estruturas que produzem sofrimento, porque o Deus revelado nas Escrituras não está distante da vida concreta das pessoas, mas se manifesta também na defesa da dignidade humana, na justiça, no cuidado com os vulneráveis e na construção de relações sociais nas quais ninguém seja tratado apenas como força de trabalho.

Jesus também reconhece essa necessidade e, ao mesmo tempo, questiona toda forma de mercantilização da fé. Isaías 55,1 apresenta a água, o vinho e o alimento oferecidos gratuitamente aos necessitados, enquanto Mateus 6,24 adverte que ninguém pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro como senhores absolutos. A graça não é mercadoria, a oração não é mecanismo de manipulação da realidade e a oferta não compra bênçãos. Quando a religião transforma a prosperidade em prova automática da fé, corre o risco de transformar a pobreza em culpa e o sofrimento em fracasso espiritual. O Evangelho, porém, aponta em outra direção: aproxima-se dos pobres, dos doentes, dos excluídos e daqueles que não possuem prestígio, porque Jesus olha primeiro para a pessoa, para sua dignidade e para sua necessidade, e não para sua utilidade, produtividade ou capacidade de oferecer alguma vantagem. Essa crítica alcança também a própria estrutura religiosa, pois Mateus 23,8-12 adverte contra a busca de títulos, honras e posições de superioridade, enquanto Marcos 10,42-45 apresenta o serviço como verdadeiro critério da autoridade. Na lógica do Reino de Deus, a liderança cristã não deveria criar castas espirituais nem transformar ministérios em espaços de privilégio, porque o ministério existe para servir à vida, fortalecer a comunidade e cuidar daqueles que lhe são confiados. Quando uma função religiosa se transforma em privilégio, a liderança em poder pessoal ou a antiguidade em sinal de superioridade, a vinha deixa de ser compreendida como espaço do Reino e começa a reproduzir as mesmas hierarquias de dominação presentes na sociedade. A parábola dos trabalhadores da vinha recorda justamente o contrário: ninguém é proprietário da graça, ninguém pode reivindicar Deus como patrimônio particular e nenhum serviço prestado à comunidade transforma o servidor em dono da vinha. A autoridade cristã só encontra sua legitimidade quando permanece vinculada ao serviço, à proximidade, à justiça e ao cuidado com os últimos, porque, no Evangelho, aquele que deseja ser grande é chamado a colocar-se a serviço dos outros. É nessa perspectiva que Filipenses 1,20c-24.27a apresenta o testemunho de Paulo, para quem viver é Cristo e permanecer vivo significa continuar servindo à comunidade, mostrando que a existência cristã não pode ser reduzida à busca de reconhecimento, recompensa ou posição, mas encontra seu sentido na entrega e no bem daqueles que caminham conosco.

O Magistério da Igreja desenvolve essa compreensão em diferentes documentos, aprofundando a relação entre trabalho, dignidade humana, justiça social e missão cristã. 

  • A Gaudium et Spes, no número 67, afirma a dignidade do trabalho e sua relação com a realização da pessoa.
  • A Laborem Exercens insiste na primazia do trabalho humano sobre o capital e na centralidade do ser humano diante das estruturas econômicas. 
  • A Evangelii Gaudium, no número 53, denuncia uma economia da exclusão e a idolatria do dinheiro, mostrando que uma sociedade que coloca o lucro acima da pessoa acaba produzindo descarte, desigualdade e sofrimento.
  • A Fratelli Tutti retoma a fraternidade e o bem comum como caminhos indispensáveis para a construção de uma sociedade verdadeiramente humana. 
  • A Christifideles Laici, no número 15, utiliza justamente a parábola dos trabalhadores da vinha para refletir sobre a vocação e a missão dos leigos, lembrando que o chamado de Deus não se limita aos espaços internos da Igreja, mas alcança a realidade concreta onde homens e mulheres vivem sua vocação cotidiana.
Por isso, a vinha não está confinada ao templo nem pode ser reduzida aos ambientes estritamente religiosos, pois ela se estende também ao mundo onde se trabalha, se educa, se cuida, se participa, se sofre, se constrói, se luta e se espera. É nesse terreno concreto da existência que a fé é chamada a tornar-se presença, responsabilidade e serviço, porque uma fé que se distancia da vida real corre o risco de transformar-se em discurso abstrato, incapaz de reconhecer as feridas, as esperanças e as necessidades das pessoas. A fé cristã, portanto, não pode fugir da realidade concreta, mas deve entrar nela com a força do Evangelho, colocando a dignidade humana, a justiça, a fraternidade e o bem comum no centro da missão.

Por isso, a questão do trabalho digno não pertence exclusivamente aos sindicatos, aos governos, às empresas ou aos trabalhadores, mas envolve toda a sociedade, porque a dignidade humana não pode ser tratada como responsabilidade de apenas um setor. Uma empresa precisa perguntar se seu lucro é compatível com a dignidade de quem produz, o Estado precisa avaliar suas políticas pelos efeitos concretos que provocam na vida da população, os trabalhadores precisam conhecer e defender seus direitos, as comunidades cristãs precisam examinar suas próprias práticas para não reproduzir precarização, abuso ou silenciamento e os consumidores também participam dessa realidade quando aceitam preços aparentemente baixos sem perguntar quem, muitas vezes, paga o verdadeiro custo daquilo que chega às suas mãos. Não existe neutralidade diante da dignidade humana, porque cada escolha econômica, profissional, institucional ou comunitária produz consequências concretas sobre pessoas, famílias e comunidades. A fé, portanto, possui consequências sociais, pois o corpo do trabalhador, suas necessidades, seus direitos, seu cansaço, sua esperança e sua própria vida também pertencem à história da salvação. É justamente nesse horizonte que Paulo oferece uma síntese decisiva ao afirmar que deseja estar com Cristo, mas reconhece que permanecer vivo pode ser mais necessário aos outros. Sua existência deixa de ser compreendida a partir do benefício individual e passa a ser entendida como serviço: “Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27a). Viver dignamente o Evangelho significa não transformar a fé em instrumento de superioridade, não medir o valor de uma pessoa apenas por sua produtividade e jamais utilizar Deus para justificar aquilo que destrói pessoas em nome do lucro, da eficiência, da autoridade ou de qualquer outra forma de poder. Significa compreender que justiça e misericórdia não são realidades opostas, porque a justiça protege direitos e reconhece aquilo que é devido a cada pessoa, enquanto a misericórdia impede que o ser humano seja reduzido apenas ao direito que possui, fazendo nascer a solidariedade e reconstruindo vínculos onde a competição poderia produzir isolamento, indiferença e exclusão. Nesse sentido, o Evangelho nos conduz para além da lógica de quem merece mais ou menos e nos coloca diante de uma pergunta muito mais profunda: que tipo de sociedade estamos construindo quando aceitamos que alguns sejam tratados como indispensáveis enquanto outros permanecem esquecidos no meio da praça, esperando que alguém finalmente os reconheça?

Quando Jesus conclui dizendo “os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos” (Mt 20,16), não está simplesmente trocando posições numa fila, mas invertendo os critérios pelos quais costumamos avaliar e classificar as pessoas. O Reino de Deus não pergunta quem acumulou mais títulos, quem chegou primeiro, quem possui maior patrimônio, quem trabalhou por mais tempo ou quem ocupa uma posição mais elevada; sua pergunta é outra e muito mais profunda: há espaço para a vida, para a justiça, para a misericórdia e para a fraternidade? A parábola chama os primeiros à humildade, porque ninguém pode transformar sua trajetória em motivo de superioridade, e chama os últimos à esperança, porque chegar depois não significa estar excluído da graça. Ao mesmo tempo, chama a Igreja a sair de suas zonas de conforto e voltar à praça onde existem pessoas esperando, muitas vezes invisíveis aos olhos das estruturas religiosas e sociais. O proprietário continua saindo à praça, e ainda hoje encontra pessoas desempregadas, outras trabalhando muito e vivendo pouco, algumas que têm emprego, mas já não encontram tempo para a família, para o descanso e para si mesmas, e outras que possuem tempo e disposição, mas não encontram oportunidade. Há também pessoas que chegam à Igreja cansadas, feridas e procurando acolhimento, mas encontram julgamento; outras carregam marcas de experiências dolorosas com instituições que deveriam protegê-las e acabam afastando-se justamente dos espaços onde esperavam encontrar cuidado, escuta e esperança. Por isso, a pergunta do Evangelho permanece viva e interpela nossas comunidades: quem está ficando do lado de fora, quem não foi chamado e quem foi considerado velho demais, pobre demais, diferente demais, inconveniente demais ou pouco produtivo demais? A parábola nos obriga a olhar para aqueles que permanecem na praça e a reconhecer que também podemos reproduzir, dentro de nós, de nossas comunidades e de nossas instituições, a mesma lógica de exclusão que criticamos na sociedade. O Evangelho, porém, nos convida a romper essa lógica, porque no Reino de Deus ninguém deve ser reduzido à sua produtividade, ao seu patrimônio, ao cargo que ocupa, ao tempo de serviço ou à importância que os outros lhe atribuem. A graça continua alcançando aqueles que chegaram por último, e a verdadeira grandeza consiste em compreender que, diante de Deus, todos somos chamados a participar da mesma vinha, não como proprietários uns dos outros, mas como irmãos e irmãs responsáveis pela vida, pela justiça, pela misericórdia e pela construção de uma comunidade onde ninguém precise permanecer esquecido na praça.

A resposta cristã não pode ser apenas discursiva, porque a vinha exige trabalhadores dispostos a participar da transformação da realidade. Isso significa construir uma Igreja menos autorreferencial e mais próxima dos feridos, defender relações de trabalho que reconheçam limites, uma economia submetida à dignidade humana, comunidades que não transformem o serviço em poder e uma espiritualidade que não transforme Deus em mercadoria. A verdadeira conversão acontece quando deixamos de perguntar apenas quanto uma pessoa produz e começamos a perguntar como ela está vivendo, compreendendo que nenhuma jornada de trabalho deveria consumir a infância dos filhos, a convivência familiar, a saúde do corpo, a tranquilidade da mente, a participação comunitária ou a experiência de Deus. A esperança cristã não é anestesia diante do sofrimento, mas força para enfrentá-lo e coragem para transformar aquilo que pode ser transformado. Que o Deus cujos pensamentos ultrapassam os nossos nos liberte tanto da inveja dos primeiros quanto da desesperança dos últimos e nos dê olhos para reconhecer os trabalhadores esquecidos nas praças do nosso tempo, assim como coragem para ouvir aqueles que continuam dizendo: “ninguém nos contratou”. Que Ele nos ensine a trabalhar sem transformar o trabalho em ídolo, a servir sem transformar o serviço em poder, a possuir sem transformar a riqueza em senhor e a viver a fé sem transformá-la em mercadoria. Que a Igreja reencontre a radicalidade de Jesus, que jamais permaneceu indiferente diante dos pequenos, dos pobres, dos trabalhadores, dos doentes e dos excluídos, e que nós, chamados em diferentes horas da história, saibamos entrar na vinha não para disputar quem merece mais, mas para participar da obra de Deus, fazendo com que justiça, misericórdia, dignidade e fraternidade deixem de ser apenas palavras e se tornem vida concreta. Porque, na lógica do Reino, a graça não é privilégio, o trabalho não pode destruir a pessoa, a autoridade não pode se transformar em domínio e ninguém deveria permanecer abandonado na praça enquanto houver uma vinha que precisa de trabalhadores e um Deus que continua saindo ao encontro daqueles que esperam.

DNonato - Tempo do Cotidiano 

domingo, 3 de setembro de 2023

Um olhar sobre São Mateus 16,21-27 / 22º Domingo do Tempo Comum .

A liturgia deste 22º Domingo do Tempo Comum, Ano A, coloca diante de nós Jeremias 20,7-9, o Salmo 62(63),2-4.5-6.8-9, Romanos 12,1-2 e Mateus 16,21-27. Esses quatro textos não aparecem como peças isoladas, mas como uma única caminhada espiritual que conduz da experiência interior da Palavra à transformação da existência, da sede de Deus ao discernimento, do discernimento à entrega e da entrega:

  1. Jeremias 20,7-9, apresenta a fidelidade  e o drama de quem foi alcançado por uma Palavra que não consegue mais silenciar que  nos introduz nesse caminho a partir de uma experiência profundamente humana. O profeta está cansado, ferido e decepcionado. Sua missão não lhe trouxe prestígio nem reconhecimento; trouxe resistência. Ele anuncia uma Palavra que incomoda e, por isso, experimenta oposição. Chega a desejar o silêncio, como se pudesse interromper sua vocação para escapar do conflito. Entretanto, descobre que não consegue tratar a Palavra como algo externo à sua existência. Ela se tornou fogo dentro de seus ossos. A imagem é extraordinariamente expressiva: a Palavra não é apenas uma mensagem que o profeta transmite aos outros, mas uma realidade que o atravessa, confronta sua consciência e reorganiza sua própria vida. Jeremias gostaria de calar, mas não consegue, porque a fidelidade à Palavra tornou-se uma necessidade interior. O profeta revela, assim, que uma experiência autêntica de Deus não deixa a pessoa exatamente como estava antes.
  2.  O Salmo 62(63) traz o salmista  que transforma a sede em busca de Deus. O Salmo amplia essa experiência por meio de outra imagem: a sede. “Minha alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água.” O salmista fala a partir de uma realidade na qual a água não representa luxo, mas sobrevivência. A terra seca depende da água para produzir vida, e o ser humano reconhece que também existe dentro dele uma sede que nenhuma conquista material consegue resolver definitivamente. O salmo não apresenta essa sede como fraqueza, mas como consciência da própria condição. A pessoa que reconhece sua necessidade deixa de imaginar que é autossuficiente. Ela descobre que precisa de uma fonte maior que seus próprios recursos. A sede de Deus, portanto, não é fuga da realidade; é reconhecimento de que a existência humana não encontra seu sentido último apenas naquilo que possui, controla ou conquista. Essa sede, porém, não pode ser espiritualizada de maneira que despreze as necessidades concretas. A Bíblia não coloca Deus contra o pão, a dignidade, a justiça ou a vida cotidiana. O próprio Jesus ensina seus discípulos a pedir o pão de cada dia e, diante das multidões famintas, não responde apenas com palavras religiosas, mas preocupa-se com aquilo que as pessoas precisam para viver. A espiritualidade bíblica reconhece simultaneamente a sede de Deus e a fome do ser humano. Por isso, buscar o Senhor não significa abandonar o mundo, mas aprender a enxergá-lo com outros olhos. Quanto mais profunda é a relação com Deus, maior deveria ser a sensibilidade diante daquilo que fere a dignidade humana
  3. Romanos 12,1-2 onde  Paulo  nos   mostra que essa experiência religiosa precisa alcançar o corpo, a mente, as escolhas e as relações e  o apóstolo  Paulo conduz a comunidade em Romanos 12,1-2. Depois de apresentar ao longo da Carta aos Romanos a iniciativa misericordiosa de Deus, ele pede que os cristãos ofereçam seus corpos como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O corpo, aqui, representa a existência concreta. Paulo desloca a compreensão do culto: a adoração cristã não pode ficar confinada ao espaço religioso, porque a própria vida se torna lugar da resposta a Deus. O culto continua nas relações familiares, no trabalho, na maneira de exercer autoridade, na forma de tratar os vulneráveis, nas escolhas econômicas, na participação social, na utilização da palavra e na maneira como lidamos com quem pensa diferente. A celebração não termina quando deixamos o templo. Ela precisa tornar-se existência. Por isso Paulo acrescenta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12,2). O verbo utilizado aponta para uma mudança profunda na forma de pensar e discernir. Não se conformar não significa rejeitar tudo o que existe na sociedade nem imaginar que o cristão vive fora da história. Significa não aceitar automaticamente como normal aquilo que contradiz a dignidade humana e o projeto de Deus. A fé precisa desenvolver uma consciência capaz de perguntar: Quem está sendo beneficiados, quem está sendo silenciado, quem permanece à margem e quais valores estão orientando nossas decisões?Paulo não oferece uma teoria política ou econômica, mas estabelece um princípio ético: a mente renovada pelo Evangelho não pode simplesmente reproduzir a mentalidade dominante quando ela transforma pessoas em instrumentos, descarta os vulneráveis ou considera inevitável aquilo que poderia ser transformado. É justamente aqui que Romanos encontra Mateus. 
Jesus não chama seus discípulos apenas para uma experiência espiritual interior; chama-os para uma maneira diferente de existir. Mateus 16,21-27 aparece imediatamente depois da confissão de Pedro em Cesareia de Filipe. Esse detalhe narrativo é decisivo. Pedro acabara de reconhecer: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.” Sua resposta estava correta, mas sua compreensão ainda era incompleta. Ele sabia dizer quem Jesus era, mas ainda não compreendia que tipo de Messias Jesus seria. O Evangelho mostra, portanto, que uma confissão correta pode coexistir com uma compreensão equivocada. É possível pronunciar o nome de Jesus e ainda carregar uma imagem dele moldada por expectativas humanas. Ele revela em Jesus o caminho concreto dessa transformação: reconhecer quem Ele é, compreender o sentido de sua missão e aceitar que segui-lo significa abandonar a centralidade do próprio ego para colocar a vida a serviço do Reino. A pergunta que atravessa toda a liturgia não é simplesmente quanto sofrimento estamos dispostos a suportar, mas que transformação acontece em nós quando levamos a sério a Palavra de Deus.

Jesus  esta em cesareia de Filipe, que  ficava ao norte da Galileia conforme  narrativa do 21⁰ domingo do Tempo Comum, uma região marcada por referências políticas, culturais e religiosas do mundo helenístico e romano. Ali, cercado por diferentes símbolos de poder, Jesus pergunta primeiro o que as pessoas dizem a seu respeito e depois pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde com a confissão messiânica. Entretanto, imediatamente depois, Jesus começa a revelar o significado de sua missão: deverá ir a Jerusalém, sofrer nas mãos das autoridades, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. A sequência é fundamental para Mateus. O título “Messias” precisa ser reinterpretado à luz da cruz e da ressurreição. Jesus não corresponde à expectativa de um salvador que conquista pela força, elimina adversários e estabelece seu poder por meio da dominação. Seu messianismo se manifesta no serviço, na entrega, na misericórdia e na fidelidade ao Reino.

Jerusalém, nesse contexto, não é apenas um destino geográfico. É o centro religioso da Judeia, lugar do Templo e das principais instituições religiosas, inserido numa realidade política marcada pela presença romana. Jesus caminha para o centro onde religião, autoridade e poder se encontravam em relações complexas. Seu anúncio da paixão não deve ser interpretado como uma busca deliberada pelo sofrimento. Ele não escolhe a dor por amor à dor. O que ele escolhe é permanecer fiel à missão recebida. O conflito surge porque uma existência orientada pela justiça, pela misericórdia e pela verdade inevitavelmente confronta interesses que prefeririam conservar determinadas estruturas. A paixão é consequência de uma vida coerente com o Reino. Pedro, entretanto, não aceita essa perspectiva. Toma Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá.” A reação parece nascer do afeto, mas contém uma tentativa de afastar Jesus do caminho que ele acaba de anunciar. Por isso Jesus responde de maneira severa: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mt 16,23). Satanás significa adversário. Pedro torna-se adversário não porque deixou de amar Jesus, mas porque seu amor está misturado com uma expectativa que pretende determinar o caminho do Mestre.

A expressão “vai para trás de mim” merece atenção especial. No texto grego, a ideia de estar “atrás” de Jesus reaparece imediatamente no chamado ao discipulado: “Se alguém quer vir após mim...” O discípulo precisa permanecer atrás do Mestre. Pedro havia começado seguindo Jesus, mas naquele momento tenta colocar-se à frente para indicar-lhe o caminho que deveria tomar. A repreensão de Jesus recoloca as posições: quem segue não pode ocupar o lugar daquele que conduz. Essa inversão continua sendo uma tentação religiosa. Uma comunidade pode começar seguindo o Evangelho e, pouco a pouco, passar a utilizar o Evangelho para legitimar seus próprios interesses. Pode afirmar que defende Cristo enquanto tenta moldar Cristo à sua imagem. Pode falar em nome de Deus e, ao mesmo tempo, proteger privilégios que o próprio Jesus questionaria. Essa advertência possui particular importância quando pensamos na autoridade dentro da Igreja. O problema não é a existência do ministério ordenado, que pertence à estrutura sacramental da tradição católica, mas a transformação do serviço em privilégio e da autoridade em domínio. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deve ser assim” (Mc 10,43). Na comunidade cristã, a grandeza não é medida pela capacidade de controlar, mas pela disposição de servir. João 13 apresenta Jesus lavando os pés dos discípulos. Aquele que é chamado de Senhor ajoelha-se diante daqueles que deve conduzir. O gesto redefine a autoridade. A liderança cristã não deveria produzir medo, dependência ou submissão cega, mas cuidado, responsabilidade, proteção e liberdade. Quando uma função pastoral se torna instrumento de autopreservação institucional, algo da lógica de Jesus foi perdido. É nesse momento que Jesus amplia o chamado para todos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). A renúncia de si não significa desprezar a própria existência, destruir a personalidade ou odiar o próprio corpo. Significa retirar o ego do centro absoluto. É deixar de considerar nossos desejos, medos, interesses e certezas como medida de todas as coisas. Renunciar a si mesmo é reconhecer que a vida não foi recebida apenas para autopreservação. Ela possui uma dimensão de dom. A pessoa madura não vive apenas perguntando o que pode ganhar, mas também o que pode oferecer, quem precisa dela e que tipo de mundo suas escolhas estão ajudando a construir.

A  imagem da cruz precisa ser compreendida dentro do contexto histórico de Jesus. A crucificação era uma execução romana pública, marcada pela humilhação e pela exposição do condenado. Não era originalmente um símbolo religioso, mas um instrumento de violência utilizado também como mecanismo de intimidação. Falar de cruz naquele ambiente significava falar de um preço extremo que poderia ser imposto a quem entrasse em conflito com o poder. Por isso, quando Jesus chama seus discípulos a tomar a cruz, não está ensinando a procurar sofrimento. Está dizendo que o discípulo precisa estar disposto a permanecer fiel mesmo quando essa fidelidade tiver consequências. Essa distinção é fundamental. Nem todo sofrimento é uma cruz cristã. Existem dores próprias da condição humana, como enfermidades, perdas, lutos e limitações. Existem também sofrimentos produzidos pela ação humana: violência, exploração, abuso, fome, racismo, desigualdade, humilhação e exclusão. Não podemos dizer às vítimas que Deus deseja que permaneçam submetidas a essas situações. Jesus não transforma a injustiça em vontade divina. Pelo contrário, aproxima-se dos feridos, acolhe os excluídos e denuncia aqueles que colocam fardos pesados sobre os outros. Em Mateus 11,28, chama os cansados e sobrecarregados para junto de si. Portanto, carregar a cruz significa assumir o custo de uma existência fiel ao amor, não santificar as cruzes que a sociedade fabrica para os vulneráveis.

A tradição profética ajuda a impedir uma interpretação acomodada do Evangelho. Isaías denuncia uma religiosidade cheia de ritos quando falta justiça; Amós rejeita celebrações quando o direito é esmagado; Miqueias resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. Jesus permanece nessa tradição. Em Mateus 23,23, critica aqueles que dão enorme importância aos detalhes religiosos enquanto negligenciam “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”. A questão não é escolher entre oração e compromisso social, mas compreender que a oração perde sua autenticidade quando não produz uma vida transformada. É por isso que a sede do Salmo e o sacrifício vivo de Romanos se encontram no caminho de Jesus. Quem tem sede de Deus não deveria tornar-se indiferente à sede do outro. Quem oferece a própria vida a Deus precisa permitir que essa entrega alcance sua relação com os demais. Quem renova a mente deixa de aceitar passivamente os padrões de uma sociedade quando eles contradizem o Evangelho. A experiência espiritual torna-se discernimento e o discernimento torna-se prática. A Palavra que queimava dentro de Jeremias transforma-se em vida oferecida em Paulo e encontra em Jesus seu modelo definitivo de fidelidade. Essa perspectiva também questiona uma sociedade marcada pelo individualismo. Somos constantemente estimulados a medir o valor da existência pelo patrimônio, pelo consumo, pelo status, pela aparência, pelo número de seguidores ou pela capacidade de influência. A pergunta de Jesus permanece desconcertante: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” (Mt 16,26). Ele não condena o trabalho, a prosperidade ou o desejo legítimo de uma vida digna. O que denuncia é a inversão pela qual possuir se torna mais importante que ser, vencer mais importante que amar e acumular mais importante que repartir. Uma sociedade pode aumentar sua riqueza e, simultaneamente, produzir abandono; pode desenvolver tecnologias extraordinárias e conviver com pessoas sem acesso ao mínimo necessário para viver com dignidade.

O Evangelho também nos obriga a pensar sobre a violência. Jesus não apresenta a força armada como fundamento de seu Reino. Quando Pedro utiliza a espada para defendê-lo, Jesus manda guardá-la. A paz anunciada por Cristo não é passividade diante da injustiça, mas superação da lógica segundo a qual a violência é a resposta natural para todos os conflitos. “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Promover a paz exige enfrentar as causas da violência, proteger quem está vulnerável, defender a verdade e construir relações sociais nas quais a dignidade humana seja respeitada. A paz bíblica não é silêncio imposto aos fracos; é justiça capaz de criar condições para a vida. A manipulação religiosa também está sob o julgamento do Evangelho. Quando Deus é utilizado para controlar consciências, quando a Bíblia é empregada para impedir perguntas, quando a autoridade se torna intocável, quando uma instituição preocupa-se mais em preservar sua reputação do que em escutar pessoas feridas, ou quando o medo é apresentado como obediência, a religião corre o risco de afastar-se do caminho de Jesus. A verdade cristã não deveria produzir escravos de líderes. “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Uma comunidade fiel ao Evangelho não precisa apagar a consciência das pessoas para manter sua autoridade; precisa formar consciências capazes de discernir, amar e assumir responsabilidade.

Mateus 16,27 completa esse ensinamento quando Jesus afirma que o Filho do Homem dará a cada pessoa segundo suas obras. A fé não pode permanecer apenas no discurso. Jesus insiste em outros momentos que não basta dizer “Senhor, Senhor”. Em Mateus 25, o critério do julgamento passa pelo modo como tratamos quem tem fome, sede, está enfermo, estrangeiro ou preso. A fé torna-se visível nas relações. Não basta perguntar se acreditamos em Cristo; precisamos perguntar se nossa maneira de viver torna reconhecível o Cristo em quem dizemos acreditar. A doutrina que não produz misericórdia permanece incompleta; a oração que não gera responsabilidade corre o risco de transformar-se em fuga; a celebração que não alcança a vida pode tornar-se apenas hábito religioso. Nesse sentido, a Eucaristia possui uma força particularmente profunda. O Cristo que caminha para Jerusalém é o mesmo que a tradição cristã reconhece no pão partido e no cálice partilhado. A Eucaristia recorda sacramentalmente uma vida oferecida. Por isso, participar da mesa do Senhor deveria ampliar nossa disposição para repartir a existência. Não faria sentido receber o pão eucarístico enquanto permanecemos indiferentes ao pão que falta na mesa de alguém. A comunhão celebrada no altar precisa tornar-se comunhão na vida. O sacramento não nos retira da realidade; envia-nos de volta a ela com uma responsabilidade renovada. Também por isso a cruz precisa ser contemplada sempre à luz da ressurreição. Jesus não anuncia apenas sofrimento e morte; anuncia também que ressuscitará ao terceiro dia. A cruz revela o preço da fidelidade, mas a ressurreição revela que a morte não possui a palavra final. Essa perspectiva impede duas distorções igualmente perigosas. De um lado, o triunfalismo religioso, que imagina que quem possui fé nunca enfrentará dificuldades. De outro, uma espiritualidade do sofrimento, que transforma a dor em destino inevitável e considera a resignação uma virtude absoluta. O Evangelho não promete uma existência sem lágrimas. Promete que as lágrimas não terão a última palavra.

A Bíblia é suficientemente realista para reconhecer a fragilidade humana. Jeremias cansou-se. Elias, em sua crise, desejou morrer. Jó questionou. Os salmos registraram abandono, medo e lágrimas. Jesus chorou diante da morte de Lázaro e experimentou profunda angústia no Getsêmani. A fé não exige que escondamos nossas feridas para parecer fortes. Ela nos ensina a atravessá-las sem permitir que elas destruam nossa capacidade de amar. A coragem cristã não consiste em nunca sentir medo, mas em não permitir que o medo determine sozinho nossas decisões. Há momentos em que perseverar significa simplesmente continuar fazendo o bem possível, mesmo sem aplausos e sem garantias. É aqui que Jeremias volta a iluminar Mateus. O profeta queria calar, mas havia um fogo dentro dele. Jesus sabe que o caminho de Jerusalém será difícil, mas permanece fiel. O discípulo, por sua vez, é chamado a não abandonar o Mestre quando a lógica do Reino contrariar suas expectativas. Não se trata de procurar inimigos, provocar perseguições ou considerar toda crítica uma prova de santidade. Existe uma diferença entre sofrer por fidelidade e sofrer pelas consequências de nossos próprios erros. A humildade cristã precisa reconhecer essa diferença. Podemos ser contestados porque defendemos a justiça, mas também podemos ser contestados porque fomos injustos. Podemos ser rejeitados por dizer a verdade, mas também podemos ser rejeitados porque não soubemos amar. O discernimento é indispensável.

Por isso, a renovação da mente de que fala Paulo é tão importante. A Palavra precisa converter não apenas nossas emoções, mas também nossos critérios. Uma fé adulta aprende a examinar a própria consciência. Pergunta se está defendendo o Evangelho ou apenas suas preferências; se está servindo aos pequenos ou protegendo privilégios; se está seguindo Jesus ou tentando fazer Jesus seguir suas próprias convicções. A conversão cristã não consiste somente em abandonar determinados comportamentos individuais. Consiste também em permitir que Deus transforme a maneira como interpretamos a realidade, exercemos autoridade, utilizamos nossos recursos e nos posicionamos diante do sofrimento alheio. Assim, a pergunta central deste domingo não é “quanto sofrimento consigo suportar?”, mas “que Jesus estou seguindo?”. Um Jesus sem cruz pode ser fabricado para satisfazer expectativas de poder. Um Jesus sem pobres pode ser utilizado para tranquilizar consciências. Um Jesus sem justiça pode ser transformado em símbolo de prestígio. Um Jesus sem misericórdia pode ser utilizado para condenar. O Jesus dos Evangelhos, entretanto, não se deixa aprisionar por essas imagens. Ele é o Messias que serve, cura, acolhe, confronta a hipocrisia, denuncia aquilo que desumaniza, perdoa, lava os pés dos discípulos e entrega a própria vida.

Segui-lo significa permitir que ele também desmonte nossas falsas imagens de Deus. Significa deixar morrer em nós a necessidade de controlar tudo, a arrogância de possuir sempre a razão, a indiferença diante do sofrimento e a tentação de transformar a religião em instrumento de superioridade. Significa reconhecer que autoridade sem serviço pode transformar-se em dominação, que fé sem justiça pode tornar-se aparência e que culto sem compromisso pode esconder uma consciência acomodada. A conversão começa no interior, mas não termina no interior. A Palavra recebida precisa tornar-se comportamento, relação, responsabilidade e compromisso com a vida. Quando a liturgia reúne Jeremias, o salmista, Paulo e Mateus, ela apresenta um movimento único. Jeremias mostra a Palavra que penetra e incomoda. O salmista revela a sede que reconhece nossa dependência de Deus. Paulo mostra que essa experiência deve renovar nossa mente e transformar nossa existência em culto vivo. Mateus apresenta Jesus como aquele que encarna plenamente esse caminho e chama os discípulos a segui-lo. Não são quatro mensagens diferentes. É uma única convocação: deixar Deus transformar a maneira como pensamos, desejamos e vivemos.  Talvez não consigamos mudar todas as estruturas que nos cercam. Algumas portas permanecerão fechadas, determinadas pessoas não compreenderão nossa caminhada e algumas feridas precisarão de tempo para cicatrizar. Isso, porém, não nos dispensa da responsabilidade sobre aquilo que está ao nosso alcance. Podemos escolher não devolver ódio com ódio. Podemos impedir que o sofrimento produza em nós desprezo pelos outros. Podemos defender quem foi silenciado, repartir aquilo que temos, corrigir nossos erros, pedir perdão, reparar danos quando possível, acolher quem está ferido e denunciar aquilo que produz morte. A fidelidade cristã não exige que controlemos o resultado de tudo; exige que sejamos responsáveis pelo modo como caminhamos.

Quando Jesus pergunta que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, ele não está propondo uma existência de fracasso. Está perguntando pelo sentido. Podemos conquistar muitas coisas e perder aquilo que nos torna humanos. Podemos proteger tanto nossos interesses que já não conseguimos acolher ninguém. Podemos defender tanto nossa imagem que perdemos a capacidade de reconhecer nossos erros. Podemos construir uma religião tão preocupada consigo mesma que já não escuta o clamor de quem sofre. Podemos preservar estruturas e perder o Evangelho. A verdadeira renúncia, então, não é destruir nossa identidade, mas abandonar aquilo que impede nossa capacidade de amar.

A cruz de Cristo não glorifica a dor; revela a fidelidade. Não transforma a vítima em culpada; desmascara a violência que mata. Não pede submissão à injustiça; exige perseverança no amor. Não termina no sepulcro; abre-se para a ressurreição. Por isso, tomar a cruz não significa procurar sofrimento. Significa não abandonar o caminho do Reino quando esse caminho exigir coragem. A pessoa que segue Jesus não precisa fabricar conflitos para provar sua fé, mas também não pode abandonar a verdade apenas para preservar conforto, prestígio ou aaprovação  

Que a Palavra que ardeu em Jeremias também encontre espaço em nós, não para produzir ódio, mas responsabilidade. Que a sede do salmista nos liberte da ilusão de autossuficiência e nos conduza à fonte que dá sentido à existência. Que Paulo nos ensine a oferecer não apenas palavras religiosas, mas a própria vida, permitindo que nossa mente seja renovada para discernir o que corresponde ao Evangelho. Que Pedro nos recorde que até uma confissão sincera precisa passar pela conversão e que ninguém deve colocar-se à frente de Jesus para obrigá-lo a seguir nossas expectativas. Que a cruz nos ensine a fidelidade e que a ressurreição nos impeça de transformar a dor em destino e que a Igreja seja cada vez mais uma comunidade que escuta antes de julgar, serve antes de dominar, acolhe antes de excluir e protege os vulneráveis antes de defender privilégios. Que a autoridade seja serviço, que a doutrina seja acompanhada pela misericórdia, que a oração produza responsabilidade e que a Eucaristia nos torne mais sensíveis ao pão que falta na mesa dos pobres. Que não utilizemos Deus para legitimar interesses particulares, nem a religião para controlar consciências. Que saibamos distinguir fidelidade de arrogância, prudência de acomodação, sofrimento inevitável de injustiça produzida e perseverança de simples resistência em reconhecer nossos próprios erros.

E quando vierem as aflições, quando o caminho parecer longo, quando o reconhecimento não chegar e quando as lágrimas aparecerem sem aviso, possamos lembrar que Jesus nunca prometeu uma estrada sem dificuldades. “No mundo tereis aflições. Mas tende coragem: eu venci o mundo” (Jo 16,33). Essa palavra não elimina a dor, mas impede que ela se transforme em desespero. A ressurreição afirma que a morte não é soberana, que a violência não terá eternamente a última palavra, que a mentira não pode destruir definitivamente a verdade e que o amor não é ingenuidade diante da realidade. A esperança cristã não fecha os olhos para o sofrimento; atravessa-o acreditando que a vida pode nascer justamente onde o poder humano imaginou ter colocado um ponto ffinal..Seguir Jesus, portanto, é aprender uma nova maneira de existir. É permitir que a Palavra se torne fogo sem transformar esse fogo em violência. É reconhecer nossa sede sem tentar preenchê-la com ídolos de poder, consumo ou reconhecimento. É renovar a mente para não reproduzir automaticamente as injustiças do tempo presente. É colocar a existência concreta no altar do serviço. É permanecer próximo dos pequenos. É questionar a autoridade quando ela se transforma em dominação. É resistir à manipulação religiosa. É defender a dignidade humana sem transformar nossa defesa em arrogância. É continuar amando quando o amor tiver um preço. A grande conversão proposta por esta liturgia começa dentro de nós, mas não termina em nós. Jeremias pergunta se teremos coragem de escutar a Palavra quando ela nos incomodar. O salmista pergunta de que estamos realmente sedentos. Paulo pergunta se nossa mente está sendo renovada ou apenas reproduzindo a lógica do mundo. Jesus pergunta se somos capazes de segui-lo sem tentar substituir seu caminho pelas nossas expectativas. Essas perguntas se encontram numa única decisão: permitir que Cristo determine a direção de nossa existência. E se  faz necessário  saber:

  • Não precisamos ser fortes o tempo inteiro. 
  • Não precisamos possuir todas as respostas. 
  • Não precisamos procurar sofrimento para provar nossa fé.
 Precisamos porém:  

  • Estar dispostos a continuar no caminho quando a fidelidade ao amor exigir coragem. 
  • Reconhecer quando erramos, recomeçar quando caímos.
  • pedir perdão quando ferimos
  • Defender a vida quando ela estiver ameaçada 
  • Permanecer abertos à conversão
  •  Preciso  ter  consciência  que a santidade cristã não é uma imagem de perfeição construída para ser admirada; é uma existência que permanece em processo de transformação.

No fim, a pergunta de Jesus continua diante de nós: “Que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida?” A resposta do Evangelho está na própria maneira de Jesus viver. A vida não encontra seu sentido último no domínio, na acumulação ou na autopreservação absoluta, mas na capacidade de tornar-se dom. Renunciar ao egoísmo não significa empobrecer a existência; significa libertá-la para a comunhão. Tomar a cruz não significa amar a dor; significa permanecer fiel ao amor. Renovar a mente não significa fugir do mundo; significa aprender a discernir dentro dele. Ter sede de Deus não significa abandonar a realidade; significa encontrar uma fonte que nos torne mais humanos diante dela. Por isso, caminhemos atrás de Jesus. Não à frente dele, tentando determinar o que ele deveria fazer; não ao lado dele apenas quando o caminho for confortável; nem para longe dele quando sua mensagem contrariar nossas expectativas. Caminhemos atrás dele, como discípulos que ainda precisam aprender. Que nossa fé tenha mãos para servir, pés para caminhar, olhos para enxergar os invisíveis, ouvidos para escutar os feridos e coração para acolher. Que nossa oração tenha compromisso, nossa esperança tenha coragem, nossa autoridade tenha serviço e nossa religião tenha misericórdia. Que a Palavra recebida no domingo continue ardendo durante a semana e que a Eucaristia celebrada no altar se prolongue na vida cotidiana.

A cruz não será a última palavra. A ressurreição será. Por isso, não caminhamos porque somos invulneráveis, mas porque confiamos na graça; não porque nunca sentimos medo, mas porque o medo não precisa governar nossa existência; não porque sejamos superiores aos outros, mas porque também precisamos ser continuamente convertidos. Seguimos porque Jesus continua dizendo “segue-me”. E seguir esse chamado significa colocar a vida diante de Deus como oferta viva, renovar a mente, reconhecer a própria sede, assumir as consequências da fidelidade e permanecer comprometido com aquilo que Jesus colocou no centro de sua missão: a vida, a misericórdia, a justiça, a dignidade humana e o amor.. Que, ao final desta celebração, não saiamos apenas com uma ideia religiosa a mais, mas com uma decisão concreta. Que sejamos menos conformados com aquilo que desumaniza, menos preocupados em preservar privilégios, menos dispostos a utilizar Deus para justificar nossas escolhas e mais disponíveis para servir. Que saibamos ouvir a Palavra quando ela nos corrige, reconhecer nossa sede quando ela nos revela, renovar a mente quando ela nos desafia e seguir Jesus quando seu caminho contrariar nossas expectativas. Então nossa fé deixará de ser apenas discurso e se tornará existência. E nossa existência, oferecida como culto vivo, poderá testemunhar que perder a vida por amor não significa destruí-la, mas encontrá-la em sua forma mais verdadeira: aberta a Deus, comprometida com o próximo e colocada a serviço de um mundo no qual a justiça, a misericórdia, a dignidade e a vida tenham, finalmente, a última palavra.DNonato - Teólogo Cotidiano