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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,18-23

A explicação da parábola do semeador em Mateus 13,18-23 é proclamada na Liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, continuando o Evangelho do dia anterior Mateus 13, 10-17,  sendo Proclamadp anualmente, variando apenas a primeira leitura, evidenciando que a catequese de Jesus sobre a acolhida da Palavra possui um valor permanente para a formação dos discípulos. Já a parábola completa, unida à sua explicação Mateus 13,1-23, é proclamada no 15º Domingo do Tempo Comum do Ano A, permitindo que toda a comunidade contemple, em uma única celebração, tanto o anúncio da parábola quanto a interpretação oferecida pelo próprio Cristo. Além desses momentos, esse texto também é frequentemente utilizado em retiros, encontros de formação bíblica, celebrações centradas na Palavra de Deus e na Liturgia das Horas, por sua riqueza espiritual, catequética e missionária. Os Evangelhos sinóticos preservam essa mesma tradição com acentos próprios e complementares. Marcos 4,1-20 é proclamado na quarta-feira da 3ª Semana do Tempo Comkum, reunindo a parábola e sua explicação no grande discurso parabólico de Jesus e destacando a força da Palavra que cresce e produz frutos apesar das resistências humanas. Lucas 8,4-15, proclamado no sábado da 24ª Semana do Tempo Comum, enfatiza a perseverança dos que acolhem a Palavra "com coração bom e generoso", conservando-a fielmente até que produza frutos duradouros. Embora cada evangelista apresente nuances próprias, os três convergem ao afirmar que a fecundidade do Reino depende da acolhida concreta da Palavra na existência humana. Essa distribuição ao longo do Ano Litúrgico revela a profunda pedagogia da Igreja. A liturgia não proclama esse Evangelho apenas para recordar um ensinamento de Jesus, mas para conduzir progressivamente os fiéis ao amadurecimento da fé.  Nas demais Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e diversas tradições reformadas que seguem o Lecionário Comum Revisado, essa perícope ou suas variantes em Marcos 4,13-20 e Lucas 8,11-15 é proclamada durante o Tempo Comum ou após a Epifania, inserida no conjunto das parábolas do Reino, enfatizando a responsabilidade humana diante da Palavra de Deus e a fecundidade da graça na história.  Ao reapresentar essa parábola em diferentes tempos e contextos celebrativos, a Igreja quer  recorda que a escuta da Palavra não é um acontecimento isolado, mas um processo permanente de conversão. A Palavra de Deus continua sendo semeada em cada geração e interpela continuamente pessoas, famílias, comunidades e sociedades inteiras, chamando-as a superar a superficialidade, a resistência e a idolatria para se tornarem terra fecunda, capaz de produzir frutos de santidade, justiça, misericórdia e esperança para a transformação do mundo...

A explicação da parábola do semeador não é apenas um comentário sobre uma imagem agrícola. Ela constitui uma das mais profundas chaves hermenêuticas oferecidas pelo próprio Jesus para compreender toda a sua missão. Depois de narrar a parábola às multidões e explicar aos discípulos por que fala em parábolas, afirmando que "a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus" (Mt 13,11), Jesus revela agora o significado de cada elemento da narrativa. Não é apenas uma interpretação de uma história. É uma interpretação da própria existência humana diante da ação de Deus. O contexto narrativo é decisivo. Nos capítulos anteriores, Mateus mostra uma crescente oposição contra Jesus. Os fariseus já tramam sua morte (Mt 12,14), sua família é relativizada diante da nova família formada pelos que fazem a vontade do Pai (Mt 12,46-50), e a multidão cresce enquanto também cresce a incompreensão. A parábola nasce exatamente nesse ambiente de acolhida e rejeição. A pergunta implícita é inevitável. Se Jesus anuncia o Reino com autoridade divina, por que tantos não o acolhem? A resposta está na qualidade dos terrenos e não na qualidade da semente.

Jesus identifica a semente como "a Palavra do Reino" (Mt 13,19). Trata-se do anúncio da soberania de Deus que transforma pessoas, relações e estruturas. Não é uma palavra qualquer. É aquela mesma Palavra criadora que, desde Gênesis, faz surgir a vida (Gn 1), que os profetas comparavam à chuva que fecunda a terra e jamais volta sem produzir fruto (Is 55,10-11), e que João identifica com o próprio Verbo eterno feito carne (Jo 1,1-14). A Palavra não comunica apenas informações religiosas. Ela comunica a própria vida de Deus. No mundo agrícola da Palestina do primeiro século, o semeador lançava a semente antes mesmo do preparo completo do terreno. Era natural que parte caísse sobre caminhos endurecidos pelo constante trânsito das pessoas, sobre regiões pedregosas onde uma fina camada de terra escondia grandes rochas calcárias, entre espinhos que rapidamente sufocavam o crescimento das plantas e sobre terras férteis capazes de produzir colheitas extraordinárias. Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes para falar da geografia interior do coração humano.

O primeiro terreno representa aqueles que escutam sem compreender (Mt 13,19). A palavra "compreender", no Evangelho de Mateus, vai muito além da inteligência racional. Significa acolher, assimilar, converter-se. O Maligno arrebata a Palavra porque ela nunca chegou a penetrar verdadeiramente na vida. A superficialidade espiritual torna-se uma forma de esterilidade. Em uma sociedade marcada pelo excesso de informações, pela velocidade das redes sociais, pelo consumo contínuo de conteúdos e pela incapacidade crescente de silêncio e contemplação, a Palavra corre o risco de ser apenas mais uma informação entre tantas outras. O coração endurecido pelo individualismo, pelo preconceito, pelo ódio e pela autossuficiência torna-se semelhante ao caminho compactado sobre o qual nenhuma semente consegue penetrar.

O segundo terreno descreve quem acolhe a Palavra com entusiasmo imediato, mas sem raízes (Mt 13,20-21). A imagem das pedras ocultas revela uma religiosidade emocional, incapaz de enfrentar a perseverança exigida pelo discipulado. A fé não se sustenta apenas sobre experiências intensas ou celebrações emocionantes. Ela precisa criar raízes profundas na oração, na comunidade, na escuta constante das Escrituras, na prática da justiça e na fidelidade cotidiana. O próprio Jesus advertirá que quem deseja segui-lo deve tomar diariamente a própria cruz (Lc 9,23). A psicologia contemporânea confirma que personalidades construídas apenas sobre emoções instantâneas dificilmente desenvolvem resiliência diante do sofrimento. O Evangelho propõe justamente o contrário. A maturidade espiritual nasce da permanência, da esperança e da fidelidade.

O terceiro terreno representa aqueles que permitem que os espinhos cresçam juntamente com a Palavra (Mt 13,22). Jesus identifica esses espinhos como as preocupações do mundo e a sedução das riquezas. Aqui está uma das críticas mais contundentes do Evangelho à idolatria econômica. Não é a riqueza em si que é condenada, mas sua capacidade de ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus. O dinheiro promete segurança absoluta, reconhecimento, felicidade e poder. Entretanto, como recorda Jesus, "não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). A felicidade verdadeira jamais nasce da acumulação. O texto inicial desta reflexão recorda precisamente essa verdade. Quando Deus deixa de ser o valor absoluto, qualquer outro valor assume características idolátricas e termina produzindo sofrimento. O coração humano foi criado para o infinito. Nenhuma riqueza, nenhum sucesso e nenhuma forma de poder conseguem preencher essa sede. Essa crítica torna-se especialmente atual diante da expansão de certas correntes religiosas que identificam prosperidade econômica com bênção divina. A chamada teologia da prosperidade reduz Deus a instrumento para realização de desejos individuais e transforma a fé em mecanismo de obtenção de sucesso financeiro. O Evangelho segue caminho oposto. Jesus nasceu pobre (Lc 2,7), viveu sem possuir onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), proclamou felizes os pobres (Lc 6,20), identificou-se com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (Mt 25,31-46) e anunciou um Reino cuja lógica é serviço e partilha.

O quarto terreno representa aqueles que escutam, compreendem e produzem fruto (Mt 13,23). A colheita de trinta, sessenta e cem por um ultrapassa qualquer expectativa agrícola da Palestina antiga. Trata-se de uma linguagem simbólica que manifesta a superabundância da graça divina. Deus nunca economiza sua fecundidade. Onde encontra um coração disponível, produz frutos muito além das capacidades humanas. Paulo desenvolverá essa mesma ideia ao falar do fruto do Espírito, composto por amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5,22-23). Marcos (Mc 4,13-20) conserva praticamente a mesma estrutura, mas enfatiza ainda mais o dinamismo do crescimento da Palavra. Lucas (Lc 8,11-15), por sua vez, acrescenta que o bom terreno é formado pelos que conservam a Palavra "com coração bom e generoso" e perseveram até produzir fruto. Cada evangelista ilumina um aspecto diferente da mesma realidade. Mateus insiste na compreensão da Palavra. Marcos destaca sua força transformadora. Lucas ressalta a perseverança paciente. Juntas, essas tradições mostram que ouvir, compreender, guardar e perseverar constituem um único caminho de discipulado. A parábola revela que toda sociedade forma determinados tipos de terreno humano. Estruturas sociais profundamente desiguais tendem a endurecer corações pela violência, pelo medo e pela exclusão. A sociologia da religião demonstra que comunidades marcadas apenas pelo consumo religioso produzem frequentemente uma fé superficial, enquanto comunidades comprometidas com a solidariedade, a justiça e a participação tendem a favorecer uma espiritualidade mais madura. A Palavra nunca é recebida em abstrato. Ela encontra pessoas inseridas em culturas, relações econômicas, conflitos políticos e experiências históricas concretas.

Jesus fala de quatro terrenos porque utiliza uma imagem agrícola comum da Palestina do século I, mas também porque esses quatro tipos representam, de forma simbólica, as principais atitudes humanas diante da Palavra de Deus. Não se trata de uma classificação exaustiva da humanidade, mas de uma tipologia pedagógica. Do ponto de vista literário e hermenêutico, o número quatro possui forte simbolismo na Bíblia. Frequentemente representa a universalidade da realidade criada: os quatro pontos cardeais (Is 11,12), os quatro ventos (Ez 37,9; Mt 24,31) e os quatro seres viventes (Ez 1; Ap 4). Assim, os quatro terrenos sugerem que toda a humanidade está diante da mesma Palavra e é chamada a responder a ela e .sob a perspectiva agrícola, Jesus descreve exatamente os quatro tipos de solo que um camponês encontrava ao lançar a semente:

  1. O caminho endurecido, pisado pelos viajante
  2. O  terreno pedregoso, com fina camada de terra sobre rochas calcárias
  3. O  terreno tomado por espinhos
  4. A terra fértil e preparada para a colheita

A parábola parte da experiência cotidiana para revelar uma verdade espiritual, porém, esses quatro terrenos não representam quatro grupos fixos de pessoas. Representam quatro possibilidades que coexistem dentro de cada ser humano. Em certos momentos somos caminho endurecido, fechados à Palavra; em outros, somos pedregosos, acolhendo-a sem profundidade; às vezes permitimos que os espinhos das preocupações, do consumismo, da ambição ou do poder sufoquem a fé; e, pela graça de Deus, também podemos nos tornar terra boa. É significativo que Jesus apresente três terrenos infrutíferos e apenas um fecundo. O objetivo não é transmitir pessimismo, mas mostrar que produzir fruto exige conversão, perseverança e abertura constante à ação de Deus. Ao mesmo tempo, a colheita extraordinária da terra boa trinta, sessenta e cem por um  revela que a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas.  Os números trinta, sessenta e cem por um (Mt 13,23) têm um significado que vai além de uma medida agrícola. Eles revelam, ao mesmo tempo, a realidade concreta da agricultura palestina e a superabundância da ação de Deus.

  • Primedo ponto de vista histórico, uma colheita na Palestina do século I dificilmente alcançava cem por um. Colheitas entre sete e dez por um já eram consideradas boas. Trinta por um era excelente; sessenta por um, extraordinária; cem por um, quase inacreditável. Jesus usa uma hipérbole para mostrar que, quando a Palavra é acolhida, seus frutos ultrapassam qualquer expectativa humana.
  • O segundo ponto, os três números indicam que Deus não exige que todos produzam a mesma quantidade de frutos. Há discípulos que produzem trinta, outros sessenta e outros cem por um. O que importa não é a comparação, mas a fecundidade. Cada pessoa responde à graça conforme os dons recebidos, sua vocação e sua fidelidade. Essa ideia aparece também na parábola dos talentos (Mt 25,14-30), em que Deus não pede resultados idênticos, mas fidelidade.
  • O terceiro ponto, a sequência crescente 30 → 60 → 100 manifesta que a graça de Deus não apenas vence os obstáculos, mas os supera abundantemente. A parábola começa mostrando três fracassos aparentes: a semente no caminho, nas pedras e entre os espinhos. Humanamente, parece que a semeadura foi um insucesso. Entretanto, o último terreno produz uma colheita tão extraordinária que compensa todas as perdas anteriores. É uma mensagem de esperança: o mal, a rejeição e a resistência não têm a última palavra; a fecundidade do Reino é sempre maior.
  •  Quarto ponto, essa lógica percorre toda a Escritura. José é vendido pelos irmãos, mas salva seu povo (Gn 50,20). O pequeno grupo de discípulos transforma o mundo (At 17,6). A cruz, sinal de derrota, torna-se sinal de vitória na ressurreição. Deus age de tal modo que sua graça é sempre maior do que o pecado e a resistência humana.
Os Padres da Igreja também ofereceram leituras simbólicas. São Jerônimo e Santo Agostinho viram nesses números diferentes graus de santidade e maturidade espiritual. Outros autores antigos relacionaram o trinta à vida cristã fiel, o sessenta à maior renúncia e o cem à plenitude da caridade. Embora essas interpretações sejam espiritualmente ricas, o sentido principal do texto permanece: a Palavra acolhida nunca produz um fruto pequeno; ela gera uma abundância que só pode ser explicada pela ação de Deus.Assim, quando se afirma que "a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas", significa que Jesus encerra a parábola com uma mensagem de esperança. Embora três terrenos pareçam impedir o sucesso da semeadura, basta que a Palavra encontre um coração verdadeiramente aberto para produzir uma colheita extraordinária. O Reino de Deus não é medido pelas perdas da semeadura, mas pela abundância dos frutos que a graça faz nascer. É por isso que a última imagem da parábola não é a dos espinhos nem das pedras, mas a da colheita transbordante: onde Deus encontra terra boa, sua graça realiza infinitamente mais do que as limitações humanas poderiam imaginar.

Por isso, a pergunta central da parábola não é: "Em qual dos quatro terrenos eu me encaixo?" A pergunta é: "Que partes do meu coração ainda são caminho, pedras ou espinhos, e como posso permitir que Deus as transforme em terra boa?" A parábola é um convite permanente à conversão, mostrando que nenhum terreno está condenado a permanecer estéril quando se deixa trabalhar pelo divino Semeador. Esta parábola também possui uma dimensão profética. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de poder. Sempre que a religião é utilizada para legitimar ideologias autoritárias, nacionalismos excludentes, discursos de ódio ou projetos político-partidários que absolutizam líderes humanos, a Palavra acaba sufocada entre espinhos. Da mesma forma, o clericalismo denunciado repetidamente pelo Magistério recente transforma ministros em donos da Igreja, quando o Evangelho os chama ao serviço humilde (Mc 10,42-45). A comunidade cristã não existe para proteger privilégios religiosos, mas para testemunhar o Reino de Deus na história..O Concílio Vaticano II recorda que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1). A Constituição Dei Verbum ensina que Deus continua falando ao seu povo mediante as Escrituras, convidando toda a Igreja à escuta obediente da Palavra (DV 21). A exortação apostólica Evangelii Gaudium, especialmente nos números 49 e 53, alerta contra uma economia da exclusão e convoca a Igreja a sair ao encontro das periferias. A encíclica Fratelli Tutti insiste na fraternidade como resposta à cultura da indiferença. Em sintonia com essa tradição, os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida reafirmam que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a opção preferencial pelos pobres. Também a CNBB, em sucessivos documentos pastorais, recorda que a Palavra proclamada deve gerar compromisso com a transformação da realidade e a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A felicidade, portanto, não nasce da satisfação de desejos ilimitados nem da conquista de poder, riqueza ou prestígio religioso. A felicidade bíblica nasce quando o coração se torna terra boa para Deus. Quem coloca no centro da existência qualquer realidade diferente do Senhor inevitavelmente experimentará a fragilidade dos ídolos. O dinheiro passa. O poder termina. A fama desaparece. As ideologias envelhecem. As paixões humanas mudam. Somente Deus permanece eternamente fiel (Sl 146,6). Mateus 13,18-23 convida cada discípulo a abandonar a tentação de perguntar quem são os outros terrenos para perguntar humildemente qual terreno existe hoje dentro de si mesmo. Todos carregamos caminhos endurecidos, pedras escondidas, espinhos persistentes e também espaços férteis onde a graça continua trabalhando silenciosamente. A conversão consiste exatamente em permitir que Deus transforme progressivamente toda a nossa existência em terra boa.

 Palavra de Deus continua sendo lançada com generosidade sobre toda a humanidade. O Senhor não faz distinção entre povos, culturas ou condições sociais; sua graça alcança tanto os que vivem nas periferias do mundo quanto os que ocupam os centros do poder. Contudo, permanece a mesma pergunta que atravessa os séculos: 

  • Que espaço estamos oferecendo para que essa Palavra transforme nossa existência? 

Num tempo em que a verdade é frequentemente substituída pela manipulação, a fé pelo espetáculo, a religião pelo mercado e o Evangelho pelos interesses do poder, Cristo continua chamando sua Igreja à conversão. Não basta proclamar a Palavra; é necessário deixar-se julgar por ela. Não basta defender símbolos religiosos; é preciso viver a justiça, a misericórdia, a fraternidade e a fidelidade ao Reino de Deus. Toda espiritualidade que ignora os pobres, legitima a exclusão, alimenta o ódio, absolutiza ideologias ou transforma a religião em instrumento de dominação revela que os espinhos continuam sufocando a semente. O Evangelho anuncia que Deus é capaz de transformar terrenos áridos em campos fecundos. Nenhum coração está definitivamente condenado à esterilidade quando se abre à ação da graça. Por isso, a esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo nem da confiança nas estruturas humanas, mas da certeza de que o Espírito Santo continua renovando a face da terra e suscitando discípulos que fazem da própria vida uma resposta ao chamado de Cristo.

Que a Igreja jamais se conforme com uma fé estéril, acomodada ou cúmplice das injustiças, mas permaneça fiel à missão recebida do Senhor: anunciar a verdade, denunciar tudo o que desfigura a dignidade humana, consolar os que sofrem, defender os pequenos, promover a paz e testemunhar, com coragem profética, que somente o Reino de Deus é absoluto. Então a semente lançada por Cristo produzirá, também em nossa geração, uma colheita abundante de santidade, justiça, solidariedade e esperança, para a glória de Deus e para a vida do mundo.  A semente cai sobre cidades marcadas pela violência, sobre povos feridos pela fome, sobre trabalhadores explorados, sobre migrantes, sobre jovens sem horizonte, sobre famílias fragmentadas, sobre comunidades divididas e também sobre corações sedentos de sentido. O semeador não deixa de semear porque alguns terrenos resistem. Assim também Deus nunca desiste da humanidade. Cada geração é novamente convidada a acolher o Reino com inteligência iluminada pela fé, coração disponível à misericórdia e mãos comprometidas com a justiça. Somente então a felicidade deixará de ser uma ilusão construída pelos falsos deuses deste mundo para tornar-se fruto maduro da presença viva de Deus, produzindo uma colheita abundante de amor, fraternidade e esperança que transforma pessoas, comunidades e a própria história.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,24-30,

O Evangelho de Mateus 13,24-30, que narra a Parábola do Joio e do Trigo, é proclamado na Liturgia da Igreja Católica Romana no sábado da 16ª Semana do Tempo Comum, anualmente. Entretanto, quando esse sábado coincide com uma celebração de maior grau litúrgico,  como a Festa de São Tiago Apóstolo, celebrada em 25 de julho, cujo Evangelho próprio é Mateus 20,20-28 —, a liturgia da festa prevalece sobre a do Tempo Comum, conforme as normas do calendário litúrgico, continuando o Evangelho  da sexta-feira Mateus  13 , 18-23   preparando o texto  da segunda-feira  da 17ª semana do Tempo Comum  Mateus 13,31-35 e   Mateus 13,36-43, é proclamada na  terça-feira  da 17ª Semana do Tempo Comum, permitindo que a Igreja proponha primeiro a escuta da narrativa e, dias depois, conduza os fiéis à interpretação dada pelo próprio Senhor.. Embora a temática do Reino de Deus e a imagem da semente estejam amplamente presentes nos três Evangelhos Sinóticos, a Parábola do Joio e do Trigo é exclusiva de Mateus, não possuindo paralelo direto em Marcos nem em Lucas. Essa singularidade confere à narrativa um lugar privilegiado na teologia mateana, pois expressa, com extraordinária profundidade, a convivência entre o bem e o mal durante o tempo presente e a certeza de que o discernimento definitivo pertence unicamente a Deus. Mais do que responder a uma questão agrícola ou moral, Jesus revela a lógica do Reino dos Céus, que não se impõe pela eliminação imediata dos maus, mas manifesta a longanimidade divina, oferecendo tempo para a conversão e conduzindo a história, com paciência e justiça, até sua plena consumação. Nas Igrejas Ortodoxas Bizantinas, embora a distribuição litúrgica siga outro lecionário, esta parábola também é proclamada em diversos domingos dedicados ao ensinamento sobre o Reino de Deus. As Igrejas Anglicanas, Luteranas, Reformadas, Metodistas e outras comunidades cristãs históricas igualmente a conservam em seus lecionários, sobretudo no período após Pentecostes, reconhecendo nela um dos ensinamentos centrais de Cristo sobre a paciência de Deus, o discernimento espiritual e o juízo final.

A parábola do joio e do trigo está inserida no grande discurso parabólico de Mateus 13, o terceiro dos cinco grandes discursos estruturantes do Evangelho segundo Mateus. Antes desta passagem, Jesus havia contado a parábola do semeador .no 15⁰  domingo  do tempo  comum Mateus 13,1-23, que depois  novamente  proclamada na  16ª  semana  do tempo comum,  mostrando que a Palavra encontra diferentes tipos de terreno humano. Em seguida, apresenta uma sucessão de parábolas sobre o Reino dos Céus, entre elas o joio e o trigo, o grão de mostarda, o fermento, qur foi  proclamado   no  domingo  da 16ª Semana do Tempo Comum Mateus 13,24-43 e  no  a 17ª domingo  do tempo comum se proclama  a parábola  do tesouro escondido, da  perola e da rede,  Mateus 13,44-52. Não se trata de narrativas isoladas, mas de um conjunto pedagógico cuidadosamente organizado pelo evangelista para mostrar que o Reino cresce discretamente na história, enfrenta resistências, amadurece lentamente e somente alcançará sua plenitude na consumação dos tempos.
Mateus escreve para comunidades marcadas por conflitos internos, perseguições externas e pela difícil convivência entre judeus e gentios convertidos ao cristianismo. Muitos esperavam um Reino que eliminasse imediatamente os maus e recompensasse os justos. Jesus, porém, desconstrói essa expectativa. O Reino já está presente, mas ainda convive com as ambiguidades da história. O julgamento pertence a Deus, não aos seres humanos. A imagem utilizada por Jesus nasce da experiência agrícola da Palestina do século I. O trigo era a base da alimentação e representava a vida, enquanto o joio, provavelmente o Lolium temulentum, uma planta muito semelhante ao trigo durante seu crescimento inicial, tornava-se distinguível apenas quando os frutos apareciam. Suas raízes frequentemente se entrelaçavam às do trigo, tornando impossível arrancar uma sem destruir a outra. A legislação romana conhecia inclusive práticas criminosas de semear joio no campo alheio para provocar prejuízo, o que torna ainda mais concreta a narrativa de Jesus. O cenário é profundamente simbólico.

  •  O semeador representa o Filho do Homem, como o próprio Jesus explicará posteriormente (Mt 13,37). 
  • O campo não é apenas a Igreja, mas o mundo inteiro (Mt 13,38). 
  • O trigo são os filhos do Reino. O joio representa aqueles que aderem ao mal. O inimigo é o diabo. 
  • A colheita simboliza o fim dos tempos, e os ceifeiros representam os anjos (Mt 13,39-43). 
Entretanto, antes da explicação alegórica, a narrativa já produz um ensinamento essencial: Deus não governa o mundo pela lógica da eliminação imediata, mas pela paciência redentora.
A pergunta dos empregados continua profundamente atual. "Queres que vamos arrancá-lo?" (Mt 13,28). Essa pergunta acompanha toda a história humana. É a tentação permanente de dividir o mundo entre puros e impuros, santos e condenados, bons e maus, amigos e inimigos. É a lógica presente na história de Caim e Abel (Gn 4), na intolerância dos amigos de Jó (Jó 4–25), na violência religiosa denunciada pelos profetas (Is 1,10-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8) e até mesmo na atitude dos discípulos que desejaram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana (Lc 9,51-56). Jesus rejeita essa mentalidade.
Sua resposta surpreende: "Não, para que não aconteça que, ao arrancar o joio, arranqueis também o trigo" (Mt 13,29)..Essa resposta revela uma das maiores diferenças entre a justiça humana e a justiça divina. Os seres humanos julgam pela aparência. Deus conhece as profundezas do coração (1Sm 16,7). Aquilo que hoje parece joio pode tornar-se trigo pela ação da graça. 

  • O perseguidor Saulo transforma-se em Paulo (At 9). 
  • O publicano Levi torna-se evangelista (Mt 9,9). 
  • Zaqueu converte-se (Lc 19,1-10).
  •  O ladrão crucificado ao lado de Jesus recebe a promessa do paraíso (Lc 23,39-43). 
  • Pedro, que negou Cristo três vezes (Mt 26,69-75), torna-se testemunha da Ressurreição (Jo 21,15-19). 
Deus nunca reduz uma pessoa ao seu pior momento. A parábola revela também a complexidade da condição humana. O bem e o mal não existem apenas em grupos distintos. Eles atravessam o coração de cada pessoa. Jeremias afirma que o coração humano é enganoso (Jr 17,9), Paulo descreve esse conflito interior ao confessar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O Reino de Deus não começa eliminando pessoas, mas convertendo corações.

É  preciso  reconhecer que amadurecer implica integrar conflitos internos, reconhecer limites, enfrentar sombras pessoais e abandonar mecanismos de projeção. Frequentemente, aquilo que condenamos com maior intensidade nos outros corresponde a aspectos não reconciliados dentro de nós mesmos. Jesus desloca o foco do julgamento externo para a conversão interior. Antes de procurar o joio na vida alheia, é preciso permitir que Deus transforme nosso próprio coração..E  mostra que grupos religiosos frequentemente constroem sua identidade pela exclusão de quem pensa diferente. Essa tendência estava presente entre alguns fariseus e reaparece continuamente na história. Sempre existe a tentação de transformar a comunidade dos discípulos numa comunidade dos perfeitos. Contudo, a Igreja nunca foi uma assembleia de impecáveis, mas um povo de pecadores chamados à santidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Igreja é ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação, caminhando continuamente pelo caminho da penitência e da renovação, conforme ensina a Constituição Lumen Gentium (n. 8)..Por isso, esta parábola constitui uma forte denúncia contra o clericalismo,  pois  quando ministros ordenados ou lideranças religiosas assumem a postura de proprietários da graça, confundem a autoridade recebida com poder absoluto e passam a decidir quem merece ou não permanecer na comunidade, deixam de agir segundo o Evangelho. O Papa Francisco denunciou repetidas vezes o clericalismo como uma perversão da missão da Igreja, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (nn. 102-104), afirmando que ele sufoca os carismas, impede a corresponsabilidade dos leigos e transforma o serviço em privilégio. A parábola também interpela a instrumentalização política da religião. Sempre que o nome de Deus é utilizado para legitimar projetos de dominação, nacionalismos religiosos, autoritarismos ou idolatrias políticas, o Evangelho é reduzido a instrumento ideológico. Jesus nunca permitiu que o Reino fosse confundido com qualquer projeto de poder terreno (Jo 18,36). Sua autoridade manifesta-se no serviço (Mc 10,42-45), na misericórdia (Mt 9,13) e na entrega da própria vida (Jo 13,1-15). A cruz desmonta definitivamente toda pretensão de um messianismo baseado na força.

Nesse horizonte, também merecem crítica as expressões religiosas influenciadas pela teologia da prosperidade e pela chamada teologia do domínio, que frequentemente identificam bênção divina com riqueza, sucesso econômico, influência política ou conquista de espaços de poder. Essa lógica contradiz frontalmente as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), ignora o Cristo pobre (2Cor 8,9) e silencia diante da realidade dos crucificados da história. A Conferência de Aparecida recorda que a missão da Igreja consiste em formar discípulos missionários comprometidos com a vida plena para todos, especialmente para os pobres e excluídos (Documento de Aparecida, nn. 391-398). Da mesma forma, quando determinadas expressões religiosas se aproximam de projetos autoritários, de discursos de ódio ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a violência, demonizam adversários e transformam diferenças políticas em guerras espirituais, ocorre um grave esvaziamento da mensagem de Jesus. O Evangelho não legitima a cultura da eliminação, mas a cultura do encontro. A fraternidade universal proposta pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti rejeita toda forma de exclusão, xenofobia, autoritarismo e manipulação das consciências em nome da religião.
A parábola não relativiza a existência do mal. Pelo contrário, reconhece sua presença concreta na história. Há injustiça, exploração econômica, corrupção, racismo, misoginia, violência doméstica, destruição ambiental, guerras, fome e exclusão. Há estruturas de pecado, como ensinava São João Paulo II na Exortação Reconciliatio et Paenitentia e na Encíclica Sollicitudo Rei Socialis. A CNBB, em sucessivos documentos sociais e nas Campanhas da Fraternidade, recorda que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a defesa dos mais vulneráveis. O CELAM, desde Medellín até Aparecida, insiste que a fé cristã possui inevitáveis consequências sociais e históricas. Contudo, Jesus distingue claramente entre combater o mal e eliminar pessoas. A justiça do Reino combate estruturas injustas, denuncia sistemas opressores e enfrenta o pecado, mas nunca abandona a esperança da conversão humana. Essa é uma diferença decisiva. O discípulo combate a mentira, mas não perde a esperança no mentiroso. Enfrenta a corrupção, mas continua acreditando na possibilidade de arrependimento. Denuncia a violência sem abandonar a misericórdia. Age segundo o exemplo daquele que rezou pelos próprios algozes (Lc 23,34).
A parábola possui ainda um profundo sentido escatológico. O tempo presente é o tempo da paciência de Deus. Pedro recordará que o Senhor não demora em cumprir sua promessa, mas é paciente, querendo que todos cheguem ao arrependimento (2Pd 3,9). Essa paciência não significa indiferença diante do mal, mas oportunidade para a conversão. A colheita virá. O julgamento pertence a Deus. A justiça definitiva não será fruto da vingança humana, mas da santidade divina.  

Jesus ao  afirma que "os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retorna  diretamente a esperança escatológica anunciada em Daniel 12,3, onde aqueles que permaneceram fiéis resplandecem como as estrelas pelos séculos eternos. A história, portanto, não caminha para o triunfo do mal, mas para a manifestação definitiva da justiça e da glória de Deus. Essa esperança já havia sido anunciada no livro da Sabedoria (Sb 12,13-19), que apresenta um Deus cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia. Porque é soberano sobre todas as coisas, Deus não necessita agir com violência; ao contrário, governa o universo com justiça, paciência e clemência, concedendo aos pecadores tempo para o arrependimento. É precisamente essa lógica que ilumina a resposta do dono do campo: permitir que trigo e joio cresçam juntos não significa tolerar o mal, mas revelar que a misericórdia antecede o julgamento e que a justiça divina nunca se confunde com precipitação ou vingança. Essa promessa alcança sua plenitude na visão do Apocalipse (Ap 21,1-5), quando João contempla o novo céu e a nova terra, a Nova Jerusalém descendo de junto de Deus, e ouve a proclamação: "Eis a morada de Deus com os seres humanos." Nesse Reino consumado já não haverá morte, luto, dor ou lágrimas, porque tudo o que pertence ao velho mundo terá passado. O campo da história, marcado por ambiguidades, dará lugar à criação plenamente reconciliada, onde a presença de Deus será a fonte definitiva da vida. Por fim, São Paulo anuncia o horizonte último da história ao afirmar que, depois de vencer todo poder contrário e destruir a própria morte, Cristo entregará o Reino ao Pai, "para que Deus seja tudo em todos" (1Cor 15,28). A consumação do Reino não consiste apenas na derrota do mal, mas na plena comunhão de toda a criação com Deus, quando sua vontade será perfeitamente realizada e sua vida preencherá todas as coisas. É para essa esperança que a Parábola do Joio e do Trigo aponta. Ela convida a Igreja e cada discípulo a viverem o tempo presente com perseverança, discernimento e misericórdia, sem ceder à tentação de ocupar o lugar do Juiz. Enquanto aguardamos a colheita definitiva, somos chamados a cultivar o trigo da justiça, da compaixão e da fidelidade ao Evangelho, certos de que a paciência de Deus não é sinal de ausência, mas expressão de seu amor salvador. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte, mas ao Reino definitivo de Deus, no qual a justiça resplandecerá, a criação será renovada e o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado triunfará para sempre.

Cada cristão é convidado a perguntar não onde está o joio na vida dos outros, mas quanto ainda precisa permitir que Deus purifique o próprio coração. O Reino cresce silenciosamente, muitas vezes escondido, como o trigo que amadurece sem fazer barulho. Deus continua semeando vida em meio às contradições da história. Cabe aos discípulos cultivar a esperança, perseverar na justiça, resistir às seduções do poder e permanecer fiéis ao Evangelho da misericórdia.

.Enquanto tantos desejam arrancar pessoas, Jesus continua cultivando vidas, enquanto muitos proclamam condenações definitivas e Deus continua oferecendo tempo para a conversão. Enquanto o mundo constrói muros, o Reino semeia reconciliação. Esta é a esperança cristã. Não uma esperança ingênua que ignora o mal, mas uma esperança pascal que acredita que a graça de Deus possui força maior do que qualquer pecado, que a misericórdia é mais poderosa do que a condenação e que o amor revelado em Cristo crucificado e ressuscitado permanece a última e definitiva palavra sobre a história humana.

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 13, 47-53

A perícope de Mateus 13, 47-53  proclamado  na Quinta-feira  da 17ª semana do Tempo Comum, sendo parte do Evangelho  de Mateus 13,44 -52 proclamado  no 17⁰ Domingo do Tempo Comum  sendo a continuidade  do Evangelho  de Mateus 13,44-46 proclamado na quarta-feira da 17ª semana do Tempo Comum .

O Evangelho  de Mateus é cuidadosamente estruturado em cinco grandes discursos, ecoando simbolicamente os cinco livros que anuncia: 
  • Que Jesus, é Deus  e nos oferece uma nova Lei
  •  Ele nos  revela  uma nova criação
  • Uma nova caminhada do Êxodo. Cada um desses blocos discursivos é encerrado por uma fórmula semelhante,  “quando Jesus terminou de dizer essas palavras...” (cf. Mt 7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1) e é precedido por uma seção narrativa que o prepara. 
Podemos  dividir o evagelho em 7 partes: 
  1. Prólogo:  Mt 1,1–2,23 Genealogia, nascimento e infância de Jesus.
  2. Primeiro livro (Mt 3,1–7,29): Preparação para o ministério (João Batista, batismo e tentações), início da missão na Galileia e o Sermão da Montanha com a Temática   da chegada do Reino e a justiça do Reino.
  3. Segundo livro (Mt 8,1–11,1) Dez milagres, vocação dos discípulos e discurso missionário,  com a temática dos sinais do Reino e a missão dos discípulos.
  4. Terceiro livro (Mt 11,2–13,53): Crescente aceitação e rejeição de Jesus; discurso das parábolas,  com a  tematixa do mistério e a revelação do Reino por meio das parábolas.
  5. Quarto livro (Mt 13,54–19,1): Reações ao ministério de Jesus, confissão de Pedro, transfiguração e discurso comunitário, com a temática da  comunidade do Reino (a Igreja) e a vida fraterna
  6. Quinto livro (Mt 19,2–26,1); Caminho para Jerusalém, ensinamentos sobre o discipulado e discurso escatológico (Mt 24–25),  com a temática do:  Reino consumado, o juízo final e a vigilância."
  7. Epílogo (Mt 26,2–28,20): Paixão, morte e ressurreição de Jesus, que culmina com o envio missionário: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações..." (Mt 28,19-20
 Ao encerrarmos o terceiro livro com a perícope de Mt 13,47-53,  a parábola da rede lançada ao mar e a imagem do escriba discípulo, somos colocados diante do momento de decisão: entre compreender ou rejeitar, entre discernir ou endurecer o coração. Com isso, abre-se o quarto livro (Mt 13,54–18,35), que se concentrará na formação da comunidade do Reino, onde Jesus ensina como seus discípulos devem viver entre si, perdoar-se mutuamente, buscar os pequenos e exercer a autoridade no serviço. A passagem que hoje meditamos, portanto, é um limiar: ela conclui a revelação parabólica do Reino e nos conduz ao caminho da prática concreta no seio da comunidade e da história.  Jesus compara o Reino dos Céus a uma rede lançada ao mar que apanha peixes de toda espécie. Esta imagem, enraizada no cotidiano dos pescadores da Galileia, é ao mesmo tempo simples e profundamente escatológica. A rede representa a ação inclusiva da pregação do Reino, que abrange toda a humanidade sem distinção inicial. Mas, no fim, haverá separação,  o discernimento entre o justo e o injusto, entre o que é fecundo e o que é estéril. A separação final não cabe aos homens, mas aos anjos, e acontece "ao fim do mundo" (Mt 13,49), linguagem claramente escatológica, que nos remete a Daniel 12,2-3 e à expectativa profética de um juízo definitivo. Neste cenário, as parábolas se tornam uma espécie de catequese apocalíptica: revelam o Reino como realidade já presente, mas cuja consumação se dará plenamente na intervenção final de Deus.

A rede, que tudo acolhe, exige vigilância e decisão. Não se pode viver indefinidamente no espaço da indiferença ou da neutralidade espiritual. A imagem da seleção dos peixes, bons e maus, se articula com a parábola do joio e do trigo (Mt 13,24-30.36-43), onde o julgamento não é apressado, mas é certo. Ambas as parábolas enfatizam que o tempo presente é de anúncio, acolhida e transformação, mas o tempo escatológico trará a verdade definitiva. A rede lançada ao mar é o anúncio do Evangelho que atravessa a história; o critério de discernimento é a justiça do Reino, vivida concretamente em misericórdia, compaixão e fidelidade (cf. Mt 25,31-46). Esse juízo anunciado por Jesus não é punitivista, mas revelador: ele expõe o que cada um se tornou, ou seja, revela a verdade do coração humano. Aqui está a crítica à religião do espetáculo, da aparência e do culto performático: Deus não se deixa enganar por quem grita "Senhor, Senhor" (Mt 7,21), mas reconhece aqueles que se comprometeram com o bem, mesmo que no escondimento. Trata-se de uma escatologia do amor prático e do serviço, e não do medo ou da condenação arbitrária. A justiça que salva é aquela que se torna pão partilhado, visita ao encarcerado, acolhida ao estrangeiro, e não rituais vazios ou discursos triunfalistas. O Reino é para os que vivem a bem-aventurança de ser pobre em espírito, manso, faminto de justiça, construtor da paz (cf. Mt 5,1-12).

No contexto contemporâneo, essa rede evangélica pode ser contrastada, de forma simbólica e profética, com as redes digitais e sociais que também capturam multidões. A metáfora da rede, que em tempos antigos evocava o mar e os peixes, hoje pode evocar algoritmos e timelines. As redes digitais, assim como a rede do Reino, são espaços que acolhem toda espécie, mas nelas também se misturam verdade e mentira, solidariedade e ódio, evangelho e idolatria. Há uma nova forma de pescaria, onde corações e mentes são fisgados não pela Palavra, mas pela estética do consumo, da violência simbólica e da manipulação ideológica. As redes podem ser espaço de missão e anúncio, mas também podem ser utilizadas como redes que prendem e deformam, como armadilhas digitais que escravizam e afastam da verdade. Cabe aos discípulos discernirem que tipo de peixe estão se tornando e que rede estão ajudando a lançar: a do Reino que liberta ou a do mercado que aprisiona. Paulo, em Efésios 4,14-15, adverte que não sejamos levados por qualquer vento de doutrina, nem enganados por artimanhas humanas, mas que cresçamos na verdade e no amor. A escatologia, portanto, não é apenas um juízo futuro, mas também um chamado urgente para discernirmos que tipo de rede estamos tecendo no presente.

Por isso, Jesus termina esta série de parábolas dizendo que todo escriba instruído nas coisas do Reino é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13,52). O discípulo que compreende as parábolas e se deixa formar por elas torna-se capaz de ler a história com os olhos de Deus. Aqui, há um elogio à hermenêutica da continuidade: o Novo não anula o Antigo, mas o reinterpreta à luz da plenitude do Reino. O escriba do Reino é aquele que reconhece em Jesus o cumprimento das promessas, mas também a ruptura necessária com os modelos religiosos de exclusão, legalismo e opressão. É alguém que aprendeu a discernir os sinais dos tempos e que vive com os pés na história e os olhos no horizonte escatológico. Esta perícope é, portanto, uma chave de leitura para toda a missão cristã. Ela denuncia os sistemas religiosos que mantêm as redes rasgadas, que pescam apenas para si e que descartam os peixes pequenos. Denuncia a teologia da prosperidade que transforma o Reino em mercado e a fé em moeda de troca. Denuncia o clericalismo que se arroga o direito de julgar os outros, esquecendo que o julgamento pertence apenas a Deus. E denuncia, sobretudo, o individualismo de uma espiritualidade sem corpo, sem cruz e sem comunidade. A rede do Reino não é para capturar, mas para incluir; não é para segregar, mas para reunir. E a separação final não é tarefa nossa, mas da justiça divina, que tudo vê e tudo pesa. Enquanto isso, resta-nos lançar a rede com fidelidade, sabendo que o mar do mundo é vasto, imprevisível, mas habitado por Deus. 

Como Paulo nos recorda em 2⁰ Coríntios 5,10, todos devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo. A escatologia paulina não é marcada pela angústia, mas pela esperança vigilante: a certeza de que o Senhor ressuscitado reunirá os seus, separará com justiça, e estabelecerá, enfim, a comunhão plena. A rede do Reino é, portanto, imagem dessa tensão entre o já e o ainda não: já somos pescados pelo Evangelho, mas ainda caminhamos em meio às águas turvas do mundo. Já temos a graça, mas ainda lutamos contra as trevas. Já há colheita, mas ainda há tempo para conversão. A escatologia, longe de ser fuga do mundo, é mergulho profundo na história com os olhos voltados para a plenitude que há de vir. É urgência da graça. É responsabilidade de fé. É anúncio que julga e acolhe. É rede que inclui, purifica e conduz à luz definitiva do Reino que não terá fim.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 22 de julho de 2025

Um breve Olhar Sobre Mateus 13,1-9.

A Palavra como Semente, o Mundo como Solo
Era uma vez um mar, uma barca e uma multidão. E no centro, um semeador essa é cena da pericope proclamada na quarta-feira da 16ª semana do tempo comum Mateus 13,1-9. Assim começa um dos ensinamentos mais densos de Jesus, não com dogmas nem decretos, mas com sementes lançadas ao vento. A Palavra, como o sopro da criação (Gn 1,3), percorre os ares e busca morada nos corações. Jesus sai de casa, senta-se à beira do mar, entra num barco e dali fala (Mt 13,1-2). O mar – símbolo do caos, da travessia e do mistério – torna-se palco de uma revelação silenciosa. Como em Gênesis o Espírito pairava sobre o Tehom, o abismo primordial (Gn 1,2), assim agora Jesus, o Verbo feito carne, paira sobre o mar, anunciando um novo tempo de criação. A barca – figura da comunidade eclesial – sustenta o Verbo que semeia. E a multidão – imagem da humanidade fragmentada – escuta à distância, cada um com seu próprio tipo de solo interior.
A pedagogia de Jesus desconcerta: Ele não oferece respostas prontas, mas parábolas que desinstalam. A do semeador (Mt 13,3-9), ecoada por Marcos (4,1-9) e Lucas (8,4-8), é mais que metáfora agrícola – é denúncia e apelo. Deus semeia com generosidade absurda: lança sementes até mesmo sobre o caminho, entre pedras e espinhos. É o Reino semeado sem cálculo, sem meritocracia, sem exclusivismo religioso. Deus insiste em semear onde a lógica humana desistiria. Isso por si só já confronta a teologia da prosperidade, que só enxerga graça onde há colheita abundante, ignorando a presença divina nas secas e nos desertos.
O caminho, primeiro solo mencionado, representa os corações endurecidos pela passagem dos muitos – é o lugar da banalização, da fé reduzida a jargões. A Palavra ali não penetra; é comida pelas aves, símbolo do maligno (Mt 13,4.19). São os que ouvem, mas não escutam; que frequentam, mas não se deixam transformar. São as calçadas da religião formalista, onde o Evangelho é atropelado por dogmas ocos e por tradições que matam o espírito (cf. Mc 7,13). Isaías já havia denunciado: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13; Mt 15,8).
As pedras falam dos corações entusiasmados, mas rasos. É a fé emocionalizada, que celebra milagres mas não suporta a cruz. Aqueles que recebem com alegria, mas não criam raízes (Mt 13,5-6.20-21). Aqui está a crítica à religiosidade imediatista, moldada por algoritmos de autoajuda e cultos-show. A psicologia nos lembra que há uma busca inconsciente por respostas rápidas ao sofrimento. Mas o Evangelho exige maturidade afetiva, resiliência interior, perseverança silenciosa. A Palavra precisa de raiz, e raiz só cresce no tempo e na terra do compromisso. Bonhoeffer chamou isso de “graça cara”: ela exige tudo de nós, porque é tudo de Deus. Como diz Hebreus: “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu” (Hb 5,8). 
Os espinhos são os ídolos contemporâneos: o consumo, o prestígio, o acúmulo, a obsessão pela visibilidade. A Palavra germina, mas é sufocada (Mt 13,7.22). Não morre por falta de sol, mas por excesso de concorrência. A teologia do domínio se alimenta desses espinhos: promete sucesso, status e poder em nome de Deus, tornando o Evangelho uma plataforma de autopromoção. É a fé como mercadoria: quem paga mais, colhe mais; quem crê mais, conquista mais. Mas o Reino não se vende nem se troca. Ele é dom. E o Espírito sopra onde quer – não onde o mercado determina.
O apóstolo Paulo, profundamente enraizado no mistério do Cristo que semeia e faz crescer, reforça essa dinâmica com imagens da lavoura de Deus: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3,6-7). Para ele, a missão não é espetáculo nem vaidade espiritual, mas serviço silencioso. O verdadeiro semeador é cooperador de Deus (1Cor 3,9), e não dono do campo. Paulo também denuncia os “pregadores de si mesmos”, que buscam bajulação ou aplauso (cf. 2Cor 4,5), e reafirma que o Evangelho não é mercadoria a ser vendida (2Cor 2,17). Como ele mesmo viveu: “com lágrimas, provações e trabalho de minhas próprias mãos” (At 20,33-35), o discipulado exige entrega, humildade e fidelidade. A Palavra não busca palcos, mas corações dispostos a se tornarem terra boa – mesmo que isso custe o labor invisível da semeadura perseverante. 

Mas Deus não é mercadoria. Amós já denunciava que viria um tempo de fome – não de pão, mas de ouvir a Palavra do Senhor (Am 8,11). Contudo, essa Palavra não se compra. Ela exige justiça: “Antes corra o julgamento como as águas, e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). A semente do Reino só frutifica onde há sede de justiça, não de prestígio religioso. A boa terra, finalmente, é a vida que escuta, compreende e frutifica (Mt 13,8.23). Mas essa terra não nasce pronta: ela é cuidada, arada, convertida. A antropologia bíblica lembra que o coração é o centro da pessoa (Pr 4,23). Escutar com o coração é mais do que entender – é deixar-se transformar. Como diz o Deuteronômio: “Escuta, Israel!” (Dt 6,4). Essa escuta é ativa, ética, política. Pois quem ouve de verdade, resiste ao mal, denuncia a injustiça e transforma a história. Assim foi com os profetas, com Maria, com os mártires de todas as eras.

A Palavra não está longe, nem está no céu, nem além-mar. Ela está “muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração, para que a pratiques” (Dt 30,14). Ela está dentro, não apenas como doutrina a ser compreendida, mas como vida a ser vivida. Como afirmam os profetas, o solo precisa ser arado. Jeremias clama: “Lavrai para vós um campo novo, não semeeis entre espinhos” (Jr 4,3). E Oséias ecoa: “Semeai justiça, colhereis amor; lavrai o campo de fallow, pois é tempo de buscar o Senhor” (Os 10,12). A boa terra não nasce pronta – ela nasce do desejo de conversão, da coragem de romper com as estruturas endurecidas do coração.

Deus promete: “Tirar-vos-ei o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito” (Ez 36,26-27). A conversão não é apenas moral; é antropológica e espiritual: mudança de centro, de sensibilidade, de direção. Como nos ensina Isaías, “Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam sem antes regar a terra, fazendo-a germinar e produzir, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e cumprirá o propósito para o qual a enviei” (Is 55,10-11). Essa Palavra, como água viva, fecunda até mesmo os desertos existenciais, se houver abertura sincera.

Essa parábola também denuncia o clericalismo. O semeador é Cristo, sim, mas também somos nós: leigas e leigos, pobres e indígenas, mães e militantes, catequistas e professores. A Palavra não pertence ao altar; pertence ao povo. O Papa Francisco (†2025), cuja memória viva ainda ecoa em nossos passos, nos alertou contra a “auto-referencialidade da Igreja” (Evangelii Gaudium, n. 95) e insistiu que todos os batizados são chamados a semear, a sair, a ouvir os clamores da terra e dos pobres. O clericalismo endurece o solo; o discipulado o fecunda. Todavia, há uma urgência profética em nos questionarmos sobre aqueles que almejam a missão além-mar, buscando horizontes distantes, quando ao seu redor tantas terras – suas comunidades, seus bairros, suas famílias – clamam por semeadura e cuidado. Essa busca por missões longínquas não pode ser uma fuga que negligencia o campo presente, que jaz árido, esquecido e pedregoso. A missão autêntica nasce do compromisso com o chão onde se vive, do amor ao próximo imediato, da coragem de arar as terras mais difíceis próximas a nós, antes de buscar outros territórios. Como lembra Gaudium et Spes, a Igreja é chamada a “renovar a ordem temporal” (GS 43), e não a terceirizar a transformação para outros lados, enquanto deixa de cultivar a justiça e a esperança onde está plantada. O verdadeiro missionário é aquele que primeiro faz frutificar a sua própria terra, preparando-se assim para, se for chamado, semear além-mar com raiz firme e coração íntegro. Também é urgente criticar o individualismo espiritualizado. O Reino não é projeto privado de salvação, mas horizonte comum de transformação. A semente frutifica para o outro. Como ensina Gaudium et Spes, a missão da Igreja é “unir a fé com a vida” e “renovar a ordem temporal” (GS 43). Não basta rezar; é preciso cultivar justiça. Não basta escutar; é preciso dar frutos. Não basta acolher a Palavra; é preciso torná-la carne no mundo.

A tradição patrística reforça esse caminho. Santo Irineu dizia que “a glória de Deus é o ser humano vivo, e a vida do ser humano é a visão de Deus”. A vida, portanto, é o terreno da glória. Uma terra viva, justa, fecunda, profética. Uma terra onde a Palavra, mesmo quando pequena como semente de mostarda, carrega a força da transformação (cf. Mt 13,31-32). 

O Reino cresce mesmo quando não percebemos. Como na parábola do crescimento misterioso (Mc 4,26-29), “a terra por si mesma produz fruto”. Essa confiança no processo lento da Palavra é também um ato de resistência profética contra a lógica do imediatismo e da performance.  A Palavra de Deus “é viva, eficaz e mais cortante que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4,12). Ela não é consolo barato, mas cirurgia do Espírito. Não é anestesia; é transformação.

Como diz o Eclesiastes: “Quem observa o vento não semeará; e quem olha para as nuvens não colherá (...) pela manhã semeia a tua semente e à tarde não retires a tua mão, pois não sabes qual delas prosperará” (Ecl 11,4.6). O profeta não semeia para colher aplausos, mas porque acredita na força da Palavra que trabalha no invisível.  O semeador continua lançando sementes do barco sobre o mar do caos. A multidão ainda escuta – alguns com pressa, outros com medo, outros com esperança. A Palavra ainda busca solo fértil, não perfeito, mas disponível. O Espírito ainda sopra, como brisa suave (1Rs 19,12), sem espetáculo nem propaganda. Resta a cada um de nós perguntar, com honestidade e tremor: que tipo de solo temos sido? Que tipo de colheita temos oferecido? 

Como disse Jesus: “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28). Pois a colheita do Reino não se mede em números, mas em frutos de justiça, partilha, compaixão e profecia. Semeemos, então, mesmo quando o chão parece árido. Pois Deus é especialista em fazer florescer onde ninguém mais acredita

DNonato – Teólogo do Cotidiano