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domingo, 19 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 12,38-42

 
A geração que pede sinais e o sinal que exige conversão

O Evangelho do "sinal de Jonas" ocupa um lugar singular na pedagogia da Igreja. A mesma tradição é proclamada em diferentes momentos do Ano Litúrgico, convidando a comunidade cristã a aprofundar continuamente o mistério da conversão. Em Mateus 12,38-42, proclamado na Segunda-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, escribas e fariseus exigem um sinal extraordinário de Jesus e recebem como resposta apenas o sinal de Jonas. A mesma mensagem ressoa em Lucas 11,29-32, proclamado na Segunda-feira da 28ª Semana do Tempo Comum e na Quarta-feira da 1ª Semana da Quaresma, onde o evangelista insiste que nenhuma geração será conduzida à fé por espetáculos, mas pela conversão do coração. Já em Marcos 8,11-13, proclamado na Segunda-feira da 6ª Semana do Tempo Comum, Jesus responde ao pedido de um sinal com um profundo suspiro, revelando a dor diante da dureza humana e recusando alimentar uma fé baseada em provas extraordinárias. A repetição dessa perícope ao longo do Lecionário Romano não é casual. Ela revela que a tentação de exigir sinais, em vez de acolher o próprio Cristo como o grande sinal do Pai, acompanha todas as gerações. O problema nunca foi a ausência de milagres, mas a resistência à conversão. O sinal oferecido por Deus não satisfaz a curiosidade nem alimenta o desejo de controle; ele desinstala, chama ao discipulado e conduz ao mistério pascal. O sinal de Jonas aponta para Cristo morto e ressuscitado, cuja cruz continua sendo escândalo para uns e loucura para outros (cf. 1Cor 1,23), mas permanece como a manifestação definitiva do amor de Deus e o fundamento da esperança cristã.

Os maus cristãos não têm fé, mas também não abjuram; escoram-se numa pretensa neutralidade, como se pudessem suspender indefinidamente o compromisso com a Verdade. Dizem: “Se Deus me desse um sinal, eu acreditaria…”. A voz que ecoa hoje nos púlpitos, nas redes e nos parlamentos travestidos de púlpitos, é semelhante à dos fariseus e escribas: “Mestre, queremos ver um sinal realizado por ti” (Mt 12,38). Mas não é a fé que fala,  é a suspeita disfarçada, a religiosidade cínica que deseja manipular Deus com performances visíveis. É a lógica do tentador que sugere a Jesus lançar-se do pináculo do Templo para obrigar os anjos a um milagre (Mt 4,6). Mas o Deus da revelação não é o Deus da chantagem espiritual. Jesus desmascara esse espírito: é uma geração má e adúltera. A palavra grega usada para "adúltera" (moichalís) possui um peso simbólico denso: não se trata apenas da infidelidade conjugal no sentido sexual, mas da quebra da aliança com Deus, como denunciaram os profetas. A aliança entre Deus e Israel é apresentada como um matrimônio (Os 2,16-20; Jr 2–3; Ez 16; Ez 23), e toda idolatria é descrita como adultério. É o culto da aparência, do poder e da autopreservação, uma religiosidade sem relação, culto sem compaixão, doutrina sem misericórdia.

O escândalo do Evangelho é este: o sinal já foi dado, mas os que se dizem conhecedores da Lei, peritos da tradição e defensores do templo, não o reconhecem. Eles não são apenas ignorantes,  são obstinados. São os que, como o rei Acaz nos dias de Isaías (cf. Is 7,10-14), recusam-se a confiar no Deus vivo. Quando o profeta oferece ao rei a chance de pedir um sinal, Acaz responde com falsa piedade: “Não pedirei, não colocarei o Senhor à prova” (Is 7,12). Mas não é reverência,  é medo de se comprometer com o Reino. Diante disso, Deus mesmo dá o sinal: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele se chamará Emanuel” (Is 7,14). Esse sinal,  o da Virgem que dá à luz é retomado em Mateus no início do evangelho (Mt 1,23), unindo a promessa messiânica ao nascimento do Salvador. Agora, no capítulo 12, o mesmo evangelista nos mostra que aquele que é o sinal encarnado está diante dos olhos dos religiosos… e mesmo assim eles pedem mais.

 Como não perceber a ironia profética?  

O Emanuel está ali,   o Deus-conosco  e ainda assim eles exigem um espetáculo. O sinal não é espetáculo para agradar aos sentidos, mas convite à conversão profunda. Este pedido por sinais não é novo nem exclusivo da geração de Jesus. Lucas registra uma passagem similar em que Jesus denuncia: “Esta geração é má; ela procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas” (Lc 11,29). Marcos reforça a dureza do coração humano diante do milagre, que mesmo diante da evidência, permanece incrédulo (Mc 8,11-13). Esses ecos sinóticos revelam uma realidade humana perene: o medo do compromisso, a busca por segurança emocional, o desejo por controle da fé, que se manifesta em ansiedade e superficialidade. A fé genuína, por outro lado, exige risco, entrega e confiança no invisível. Mas essa resistência não é apenas teológica; é também psicológica. A fé implica vulnerabilidade, é abrir mão do controle e do conforto ilusório. Muitos se agarram à dúvida como escudo para evitar o vazio e o risco do amor. O medo do fracasso, da rejeição, do sofrimento, bloqueia o salto para a confiança. É a “zona de conforto” da alma, que se recusa a entrar na profundidade do deserto interior, no silêncio do ventre onde Deus se faz presente.

Jesus recusa entregar-lhes um sinal conforme suas expectativas manipuladoras: “Nenhum sinal lhes será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas” (Mt 12,39). E aqui se abre uma densidade simbólica que une a Escritura, a Tradição e a vida concreta. Jonas, lançado ao mar e engolido por um peixe (cf. Jn 2,1), é símbolo da descida aos infernos, da morte abraçada em solidariedade profética, da conversão pela dor e pela esperança. Sua permanência de três dias no ventre do monstro marinho ecoa agora como figura da permanência de Jesus no ventre da terra,  não por fuga, como Jonas, mas por fidelidade. O túmulo se tornará útero; a morte, travessia; o escuro, anúncio de um novo dia. A ressurreição é o grande sinal que Jesus oferece, mas ela só será visível aos que creem com o coração como Maria, que não pediu sinais, mas disse sim ao sinal.

  • Santo Agostinho interpreta que Jonas prefigura Cristo, pois “assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim também Cristo esteve três dias e três noites no seio da terra. Um foi lançado para fora, o outro ressuscitou” (Sermão 97). 
  • Orígenes aprofunda: “O peixe que engole Jonas é a morte que engole Cristo; mas como Jonas não foi destruído, tampouco a morte pode reter o Senhor” (Homilia sobre Jonas). A alegoria une Antigo e Novo Testamento numa única história de amor e redenção.  cidade de Nínive, capital do império opressor, simboliza o “inimigo” que se converte ao ouvir a Palavra. A ironia é que os estrangeiros ouvem e se arrependem, enquanto Israel persiste na dureza do coração. 
  • O profeta Efrém, no século IV, já dizia: “Nínive ouviu uma só pregação e se converteu; Israel escutou muitos profetas e permaneceu no orgulho” (Comentário sobre Jonas). 

O símbolo da rainha do Sul (1Rs 10,1-10) aponta na mesma direção. Vem de longe, mulher, pagã, mas vem com desejo de sabedoria. Como Maria de Betânia, que escolhe “a melhor parte” aos pés de Jesus (Lc 10,42), ela representa os que ouvem e acolhem a Palavra. O Reino é escuta antes de ser milagre. E como ensina o Documento de Aparecida, a escuta verdadeira exige sair da zona de conforto: “Não se pode evangelizar permanecendo ao lado do poder, mas apenas caminhando com os que sofrem” (DAp, n. 363). Jesus é o novo Jonas, o verdadeiro profeta, o sinal que não vem do céu para deslumbrar, mas da terra para redimir. E é também maior que Salomão, pois sua sabedoria não enriquece palácios, mas acolhe os pobres e inquieta os sistemas religiosos. A rainha do Sul percorreu longas distâncias para ouvir a sabedoria humana de Salomão, mas ali estavam mestres da Lei que nem mesmo se moviam do lugar para acolher a Sabedoria encarnada, a Palavra feita carne.

A geração que pede sinais é a mesma que ignora o grito dos pobres, o clamor das vítimas, a presença silenciosa de Deus nos pequenos. É a geração de corações endurecidos que, mesmo vendo curas e escutando parábolas, não muda de caminho. São como Acaz, como os líderes de Jerusalém, como tantos hoje que exigem de Deus milagres enquanto sustentam estruturas de morte, opressão e indiferença. Os fariseus e escribas, ao colaborarem com o império romano e sustentarem privilégios religiosos e sociais, ilustram como sistemas humanos podem travar o progresso do Reino. Não é diferente hoje, quando poderes políticos e econômicos alimentam estruturas que mantêm a exclusão, a injustiça e a violência.

 Quantos hoje pedem sinais, mas fecham os olhos à cruz que caminha em suas ruas?  

A incredulidade de hoje não é ausência de evidência, mas excesso de ruído. A hipermodernidade, marcada pelo excesso de estímulos e pela cultura do espetáculo, nos impede de perceber o sinal silencioso que se esconde na rotina. Como lembra Bento XVI, “quem não reconhece a verdade no amor crucificado, não reconhecerá nenhum outro sinal” (Jesus de Nazaré, vol. 2). A fé não nasce de demonstrações,  nasce da abertura ao Mistério. “Se não escutam Moisés nem os profetas, ainda que alguém ressuscite dos mortos, não acreditarão” (Lc 16,31). 

A fé mercantilizada  teologia da prosperidade, da autoridade espiritual absolutista, da barganha com o sagrado, não compreende esse sinal. Como advertiu São João Paulo II: “Não é o milagre, mas a cruz, que é a prova do amor” (Redemptor Hominis, n. 9). E como disse Dom Hélder Câmara: “Os que têm medo da cruz não compreenderam nada do Evangelho.” Hoje, muitas “igrejas” transformaram o milagre em espetáculo e a fé em mercadoria de consumo. Propagandas vendem curas, bênçãos e “unções” como produtos numa prateleira de supermercado espiritual. O altar vira palco e o púlpito, estúdio de marketing; as promessas de prosperidade financeira e saúde são ofertadas em troca de dízimos e submissão. A fé, que deveria ser caminho de conversão e entrega, reduz-se a uma relação de troca, um contrato emocional de ganhos rápidos, enganando corações sedentos e famintos por sentido. Essa espetacularização da fé gera dependência de performances, alimenta o clericalismo e mascara a pobreza real da vida, convertendo a graça em mercadoria e o Evangelho em show. É a religião vazia que denuncia Jesus em Mateus: “geração má e adúltera” que pede sinais, mas rejeita o sinal do amor crucificado. Vivemos hoje o paradoxo de uma geração que, sedenta por “sinais”, se contenta com a fé transformada em espetáculo. Como os fariseus que exigiam milagres visíveis, muitos se encantam com pregadores que acumulam milhões de seguidores e likes, transformando o Evangelho em espetáculo de curtidas e visualizações. Mas o Cristo que promovem não é o Cordeiro imolado, nem o Servo sofredor que abraça a cruz. É o bezerro de ouro da teologia da prosperidade, do domínio e da autoajuda vazia, um falso Messias fabricado para satisfazer o ego, inflar o orgulho e garantir o consumo religioso.

Este é o bezerro dourado do espetáculo midiático: um Cristo que não chama à conversão, mas confirma o ego e a idolatria do poder; um evangelho que não denuncia as estruturas de opressão, mas as legitima; uma fé que não se entrega, mas se exibe. A lógica do “milagre” vira mercadoria, e a cruz é substituída por aplausos e números de audiência. O Papa Francisco, em seu testemunho luminoso e profético, denunciou essa lógica em Evangelii Gaudium, quando falou da “idolatria do dinheiro” (n. 55), da “fé que esconde a verdade para favorecer os poderosos” (n. 218) e do clericalismo que “se fecha em castas e privilégios” (n. 104-109). É um sistema que evita a cruz e prefere o espetáculo, a mercadoria, o controle.

A fé não está: 

  •  Nas grandes performances, mas nas pequenas fidelidades; 
  • Nos palácios eclesiásticos.
  •  Nas redes sociais, mas na sarça ardente do deserto (Ex 3)
A fé está 
  • Na manjedoura de Belém (Lc 2)
  • Na cruz de Jesus (Jo 19). 
A cruz é o sinal maior da presença divina: um amor que se entrega e se doa, um Reino que não se impõe pela força, mas cresce como fermento escondido na massa (Mt 13,33). O sinal de Jonas é o sinal do silêncio fecundo, do esvaziamento, da descida que gera vida. É o convite para que, como o profeta relutante, desçamos ao ventre da realidade, escutemos os gritos abafados do povo e anunciemos a justiça com ternura. É o grão de trigo que morre para dar fruto (Jo 12,24), o servo que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que fumega (Is 42,3). Quem busca milagres para crer se torna escravo do que vê. Quem crê no sinal de Jonas é livre para amar mesmo na escuridão. E se hoje a fé parece enfraquecida, não é por falta de milagres, mas por excesso de distrações. É tempo de descer, como Jonas. De silenciar, como Cristo. De morrer, como o grão. Porque só no fundo da terra nasce o Reino. Ali, no invisível, Deus ainda faz novas todas as coisas (Ap 21,5).

O Papa Francisco nos recordou também, a partir da Fratelli Tutti, que a conversão pessoal e comunitária é inseparável da transformação social: “Ninguém se salva sozinho; a fraternidade e a amizade social são um caminho indispensável para a paz” (FT, n. 6). Assim, o chamado à conversão é também um chamado à justiça, à solidariedade e ao cuidado com o próximo. Que este sinal,  o amor crucificado, seja para nós hoje o chamado urgente à conversão, à fidelidade que gera vida, e à esperança firme que resiste ao ruído e à superficialidade. Que não sejamos apenas espectadores do sinal, mas profetas e profetisas que desçam ao ventre da história para gerar vida, justiça e fraternidade.

A pergunta do Evangelho continua ecoando sobre a Igreja e sobre o mundo: que sinal ainda esperamos, se o Crucificado-Ressuscitado já foi entregue à humanidade? O verdadeiro drama do nosso tempo não é a falta de evidências da presença de Deus, mas a recusa em reconhecer seus sinais nos crucificados da história. Cristo continua presente no pobre ignorado, na criança faminta, no migrante rejeitado, na vítima da violência, no trabalhador explorado, na criação devastada e em todos aqueles cuja dignidade é negada. Quem fecha os olhos para esses sinais dificilmente reconhecerá Deus, ainda que o céu se rasgue diante deles. O sinal de Jonas continua sendo o chamado para descer ao ventre da história, abandonar a superficialidade religiosa e permitir que a cruz transforme nossas estruturas pessoais, eclesiais e sociais. Não haverá verdadeira evangelização enquanto a fé for reduzida a espetáculo, a religião servir ao poder e o Evangelho for utilizado para justificar privilégios, exclusões ou idolatrias.

A Igreja será fiel ao seu Senhor não quando produzir sinais extraordinários para impressionar o mundo, mas quando for sinal vivo da misericórdia, da justiça e da fraternidade do Reino. O discípulo de Cristo não procura aplausos; procura permanecer aos pés da cruz, onde nasce a vida nova. É ali que Deus continua realizando o maior de todos os milagres: transformar corações de pedra em corações de carne (cf. Ez 36,26). Que não sejamos a geração que pede sinais, mas a geração que se torna sinal. Que nossa vida anuncie o Cristo crucificado e ressuscitado não apenas com palavras, mas com escolhas concretas em favor da verdade, da justiça, da paz e dos pobres. Porque, enquanto muitos continuam procurando Deus nos espetáculos do poder, Ele permanece silenciosamente presente no amor que se entrega, na esperança que resiste e na cruz que continua gerando ressurreição. Somente quem desce com Cristo ao ventre da realidade poderá testemunhar, diante de um mundo sedento de sentido, que o Reino de Deus já está no meio de nós (cf. Lc 17,21).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sábado, 17 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 2,13-17

A proclamação de Marcos 2,13-17 no sábado da 1ª semana do Tempo Comum, no ciclo ferial do Lecionário Romano, carrega uma densidade vocacional que, à primeira vista, pode passar despercebida, mas que é decisiva para a compreensão do texto e para a vida da Igreja. Trata-se de um relato situado no início do ministério público de Jesus, quando Marcos ainda vai delineando, passo a passo, a identidade do Messias e a gramática concreta do Reino de Deus. Antes de qualquer discurso programático ou definição teológica abstrata, o Evangelho apresenta um chamado: Jesus passa, vê, chama e cria uma nova possibilidade de vida ali onde tudo parecia já determinado.

Não é casual que esse Evangelho seja proclamado no Tempo Comum. Longe de ser um tempo “neutro” ou espiritualmente secundário, ele é o tempo da vocação vivida no ordinário da existência, no chão da história, onde se entrelaçam trabalho, relações, conflitos sociais, ambivalências morais e estruturas que produzem exclusão. É nesse cenário que a vocação se revela não como fuga do mundo, mas como resposta concreta a um chamado que acontece no meio da vida real. Jesus não convoca Levi a abandonar uma abstração, mas uma mesa concreta, um sistema concreto, uma identidade socialmente marcada. A vocação, aqui, não é desencarnada: ela atravessa biografias feridas, profissões ambíguas e escolhas que carregam peso ético e social.

O movimento vocacional em Marcos 2,13-17 nasce do olhar de Jesus que reconhece possibilidade onde a sociedade enxerga apenas rótulo e condenação. O chamado não acontece no espaço do sagrado institucionalizado, mas na beira do caminho, no lugar do trabalho, no cotidiano atravessado por tensões econômicas e religiosas. Ao chamar Levi, Jesus revela que o Reino de Deus não se inaugura selecionando os “aptos” segundo critérios de pureza, mas convocando pessoas reais para um caminho de conversão que começa com a experiência de ser visto, chamado e acolhido.

Assim, a cena da mesa partilhada com publicanos e pecadores não é apenas um gesto de misericórdia, mas um ato profundamente vocacional e eclesial. Sentar-se à mesa é afirmar pertença, criar comunhão e inaugurar um novo modo de existir. A vocação cristã, à luz desse texto, não se reduz a uma função ou estado de vida, mas se configura como participação na lógica do Reino, que desestabiliza ordens excludentes e reorienta a vida a partir da misericórdia. No Tempo Comum, quando a fé é provada na rotina e não no extraordinário, Marcos 2,13-17 recorda que a vocação nasce exatamente aí: no cotidiano ferido, quando Jesus passa, chama e transforma a mesa da exclusão em espaço de comunhão.

Jesus sai novamente para a beira do mar. Em Marcos, o mar não é apenas um cenário geográfico, mas um símbolo carregado de densidade teológica. Ele remete ao caos primordial de Gênesis 1, às forças ameaçadoras evocadas nos Salmos (Sl 69; Sl 89,10) e à instabilidade da existência humana. É também o espaço da vida econômica do povo, lugar de trabalho, sobrevivência e exploração. Jesus ensina ali, fora do Templo, deslocando o centro do sagrado institucional para o meio da vida concreta. Essa escolha dialoga com a tradição profética que denuncia um culto separado da justiça, como em Amós 5,21-24 e Isaías 1,10-17.

É nesse contexto que Jesus vê Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos. O verbo “ver” é  decisivo. Assim como Deus vê a aflição do seu povo no Egito (Ex 3,7), Jesus vê Levi para além do estigma social. A realidade histórica revela que os cobradores de impostos eram agentes de um sistema colonial romano, responsáveis por extorquir o próprio povo. Eram considerados impuros, traidores e excluídos da vida religiosa. Levi não é apenas um “pecador individual”, mas alguém inserido numa estrutura injusta. Ainda assim, Jesus o chama.

Levi está sentado. Sentar-se, em Marcos, indica uma fixação existencial. Ele está preso a um lugar social, econômico e simbólico. O chamado de Jesus — “Segue-me” — não é uma proposta intimista, mas um convite a uma ruptura radical. Levi se levanta. O verbo utilizado é o mesmo que Marcos emprega para falar da ressurreição (Mc 16,6). Antes da Páscoa, Levi já experimenta uma páscoa concreta: passa da morte social para a possibilidade de uma vida nova. Esse movimento ecoa textos como Is 60,1 (“Levanta-te, resplandece”) e Os 6,2, onde levantar-se é sinal de restauração.

A narrativa avança e Jesus está à mesa na casa de Levi. A mesa, na tradição bíblica, é lugar de comunhão, aliança e partilha de vida. Comer junto significa reconhecer o outro como igual. No Antigo Testamento, a mesa aparece como sinal de bênção (Sl 23,5), de promessa escatológica (Is 25,6) e de reconciliação (Gn 43,34). Ao sentar-se com cobradores de impostos e pecadores, Jesus redefine radicalmente os critérios de pertença ao povo de Deus. Não é a pureza ritual que garante lugar, mas a abertura ao encontro e à conversão.

Marcos observa que “muitos” o seguiam. Esse detalhe rompe com a lógica elitista da religião. O discipulado não é restrito a poucos moralmente irrepreensíveis, mas aberto a todos os que se deixam tocar pelo chamado. Essa perspectiva encontra eco em Joel 3,1-2, retomado em Atos 2,17, onde o Espírito é derramado sobre toda carne, sem distinção.

A reação dos escribas dos fariseus revela o conflito central do texto. Eles murmuram, como o povo no deserto (Ex 16; Nm 14), incapazes de reconhecer a ação libertadora de Deus quando ela rompe seus esquemas. A murmuração não é apenas crítica; é resistência à conversão. Eles questionam os discípulos, não Jesus diretamente, revelando um mecanismo típico de controle religioso indireto, que busca minar a autoridade do mestre enfraquecendo a comunidade.

A resposta de Jesus é impressionante: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.” A imagem do médico insere Jesus numa tradição sapiencial que vê Deus como aquele que cura (Ex 15,26; Sl 103,3; Sb 16,12). Jesus não legitima o pecado nem a injustiça, mas denuncia a autossuficiência religiosa que se fecha à misericórdia. Aqui ecoa Oséias 6,6 — explicitamente citado em Mateus 9,13 —, onde Deus rejeita um culto sem compaixão.

Os paralelos sinóticos enriquecem a compreensão. Mateus 9,9-13 enfatiza a misericórdia como critério hermenêutico da Lei. Lucas 5,27-32 acrescenta o detalhe da grande festa, sublinhando a alegria como sinal do Reino, em consonância com textos como Sofonias 3,17 e Isaías 55. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu confirma que o acolhimento gera transformação concreta, inclusive na relação com o dinheiro e com os pobres. João, ainda que não relate a cena, partilha da mesma teologia ao apresentar Jesus dialogando com a mulher samaritana (Jo 4) e defendendo a adúltera (Jo 8), rompendo fronteiras morais e religiosas.

Marcos 2,13-17 revela o poder restaurador do olhar que não reduz a pessoa ao erro. Levi, constantemente desumanizado, encontra em Jesus alguém que o chama pelo nome e lhe confia uma missão. A identidade precede a moral. Isso confronta práticas religiosas baseadas na culpa e no medo. Sociologicamente, o texto denuncia mecanismos de exclusão que sustentam privilégios simbólicos. Toda sociedade cria “pecadores oficiais” para preservar sua autoimagem de justiça. Jesus desmonta essa lógica e a  narrativa aproxima-se de uma ética da alteridade, onde o outro não é julgado a partir da norma, mas acolhido em sua vulnerabilidade. revelando  um Deus que não se distancia da história concreta, mas entra nela, assumindo riscos. Historicamente, o texto expõe o conflito entre um movimento profético itinerante e um sistema religioso aliado ao poder.

À luz desse Evangelho, tornam-se inevitáveis as críticas proféticas às teologias da prosperidade e do domínio, que transformam Deus em avalista do sucesso econômico e tratam os pobres como culpados por sua condição. Jesus não chama Levi por sua riqueza, mas apesar de sua inserção num sistema opressor. Também confronta a fé como mercadoria, denunciada implicitamente quando a mesa substitui o palco e a comunhão se sobrepõe ao espetáculo. A graça não se compra (At 8,20). E o clericalismo é igualmente desmascarado. Os escribas falam em nome de Deus, mas não conseguem sentar-se com o povo. O Concílio Vaticano II insiste numa Igreja que compartilha a vida humana. A Gaudium et Spes afirma que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja (GS 1). A Lumen Gentium recorda que todo o povo de Deus participa da missão (LG 9-12), rompendo com uma visão elitista e sacralizada do ministério. A Dei Verbum sublinha que a Revelação acontece na história concreta (DV 2), não fora dela.

A CNBB, como as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e o Documento de Aparecida do CELAM  assumido pela Igreja no Brasil, reforçam a imagem de uma Igreja em saída, samaritana, próxima das periferias existenciais. Uma Igreja que não se senta à mesa com os feridos trai o Evangelho que proclama.

Marcos 2,13-17 permanece, assim, como um espelho incômodo para a Igreja de todos os tempos. Ele pergunta com quem nos sentamos, quem chamamos, quem consideramos irrecuperável. Pergunta se ainda acreditamos que a mesa é lugar de conversão ou se a transformamos em prêmio para os “justos”. O Jesus que passa pela coletoria continua passando pelas estruturas que exploram e excluem, chamando pessoas concretas a se levantarem. E continua ouvindo murmurações religiosas.

No fim, este Evangelho nos devolve ao núcleo do Reino: Deus não começa pela exclusão, mas pelo encontro; não pela condenação, mas pela misericórdia que gera transformação. Não há discipulado sem mesa partilhada, não há santidade sem compaixão, não há Igreja fiel sem coragem profética para romper com as teologias que adoecem a fé. Jesus continua dizendo: “Segue-me”. E essa palavra ainda tem poder de nos levantar.

O Evangelho  de Marcos 2,13-17 revela-se de uma atualidade quase desconcertante. Vivemos em sociedades marcadas por novas coletorias de impostos, mais sofisticadas e menos visíveis: sistemas financeiros que esmagam os pobres, lógicas econômicas que transformam pessoas em números, algoritmos que decidem quem é relevante e quem pode ser descartado. Levi continua sentado à beira do caminho, agora não apenas como indivíduo, mas como símbolo de milhões de pessoas aprisionadas em engrenagens que elas mesmas não controlam. Jesus continua passando por esses lugares periféricos do mundo globalizado, onde a dignidade humana é negociada.

O chamado de Jesus, hoje, confronta diretamente uma cultura meritocrática que sacraliza o sucesso e demoniza o fracasso. A teologia da prosperidade encontra aqui seu antievangelho: Jesus não chama os vencedores do sistema, mas entra justamente em suas contradições para libertar tanto o explorado quanto o explorador. A conversão de Levi não é apenas moral; é estrutural. Isso dialoga com a denúncia profética de Isaías 58, que rejeita um jejum desvinculado da justiça social, e com Tiago 5,1-6, onde a riqueza acumulada às custas do sofrimento clama contra seus proprietários.

A mesa de Levi, transposta para o hoje, questiona as mesas seletivas da Igreja e da sociedade. Quem tem lugar nas mesas de decisão política, econômica e eclesial? Quem continua do lado de fora? A pandemia, as crises migratórias, o crescimento das populações em situação de rua e o encarceramento em massa revelam que ainda escolhemos quem merece cuidado. Jesus, ao sentar-se com os considerados indesejáveis, antecipa aquilo que o Vaticano II afirmará séculos depois: a Igreja deve ler os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho (GS 4). Não há fidelidade cristã sem compromisso com a realidade histórica.

A murmuração dos escribas encontra eco nas resistências atuais a uma Igreja verdadeiramente sinodal. Sempre que a Igreja tenta caminhar com os feridos da história, surgem vozes que acusam perda de identidade, relativização da doutrina ou ameaça à tradição. Marcos revela que essa resistência não é nova: ela nasce do medo de perder privilégios simbólicos. Jesus, porém, não negocia a misericórdia. Ele reafirma que a norma existe para a vida, não a vida para a norma, como já havia afirmado em Marcos 2,27.

Do ponto de vista antropológico, o texto ilumina a crise de sentido que atravessa o mundo contemporâneo. Muitos, como Levi, permanecem sentados em lugares que adoecem a alma, não por maldade, mas por falta de alternativas. A psicologia social mostra como sistemas injustos produzem subjetividades marcadas pela culpa e pela resignação. O Evangelho rompe esse ciclo ao afirmar que ninguém está definitivamente preso ao seu papel social. Essa lógica dialoga com Romanos 8,1, onde Paulo proclama que não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.

A crítica ao clericalismo ganha ainda mais força quando confrontada com escândalos e abusos que feriram profundamente a credibilidade eclesial. Marcos 2 recorda que a autoridade de Jesus nasce da proximidade, não da separação. O Vaticano II, ao recuperar a imagem da Igreja como Povo de Deus (LG 9), oferece um antídoto contra toda forma de poder sacralizado. Uma Igreja que não se deixa interpelar pelos Levi de hoje corre o risco de se tornar irrelevante ou, pior, cúmplice de sistemas de exclusão.

A fé como mercadoria também encontra forte contestação neste texto. Em um tempo de religiões midiáticas, espiritualidades de consumo rápido e promessas de soluções mágicas, a mesa de Jesus permanece simples e exigente. Não há ingresso, não há barganha, não há espetáculo. Há encontro. Isso ressoa com Atos 2,42-47, onde a comunidade primitiva persevera na partilha do pão e dos bens, e com 1Coríntios 11,17-34, onde Paulo denuncia uma eucaristia que reproduz desigualdades.

Por fim, Marcos 2,13-17 projeta uma esperança ativa. O Reino não se constrói pela exclusão dos imperfeitos, mas pela transformação paciente da realidade. Jesus não espera que o mundo se torne justo para agir; Ele age para que o mundo possa tornar-se mais justo. Essa dinâmica inspira uma espiritualidade encarnada, comprometida com os pobres, com a justiça social e com a dignidade humana, em sintonia com a opção preferencial pelos pobres reafirmada pela Igreja latino-americana e assumida pela CNBB.

O texto  não revela apenas como memória do passado, mas como critério para o presente e horizonte para o futuro. O chamado de Jesus continua ecoando nas periferias geográficas e existenciais do mundo atual. Ele ainda passa, ainda vê, ainda chama. A pergunta decisiva permanece: estamos dispostos a nos levantar e segui-lo, mesmo que isso signifique abandonar lugares de segurança, romper alianças injustas e sentar-nos à mesa com aqueles que o sistema insiste em descartar?

E tal perícope permanece como lembrança piedosa de um Jesus distante, mas se impõe como critério permanente de discernimento e como horizonte ético-espiritual para a Igreja de hoje e de amanhã. O Cristo que passa pela coletoria continua atravessando as ruas feridas, as calçadas ocupadas por corpos descartados, as periferias onde a vida é constantemente negada. Ele ainda vê quem o sistema insiste em não enxergar; ainda chama aqueles que foram reduzidos a números, estigmas ou estatísticas. Por isso, a pergunta deixa de ser apenas bíblica e se torna profundamente histórica: estamos dispostos a nos levantar, como Levi, mesmo quando isso implica romper com privilégios, alianças injustas e comodidades cúmplices?

São Oscar Romero recorda, com sua própria vida entregue, que uma Igreja que não se mistura com os pobres corre o risco de trair o Evangelho que anuncia. “Uma Igreja que não sofre perseguição, mas goza dos privilégios do poder, deve ser temida”, advertia ele, ecoando o escândalo de um Jesus que prefere a mesa dos pecadores ao conforto dos justos. No mesmo espírito, o testemunho cotidiano do padre Júlio Lancellotti nos lembra que seguir Jesus hoje passa por ajoelhar-se diante dos que vivem no chão, tocar feridas abertas, defender vidas criminalizadas e resistir a uma religião higienizada que transforma o Evangelho em discurso e abandona a carne concreta dos pobres.

Assim, Marcos 2,13-17 continua nos julgando e nos convocando. Ou nos levantamos para seguir Jesus até as mesas incômodas da história, ou permanecemos sentados, protegendo sistemas que Ele jamais abençoou. O chamado permanece vivo. A resposta, porém, depende de nós.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 13, 47-53

A perícope de Mateus 13, 47-53  proclamado  na Quinta-feira  da 17ª semana do Tempo Comum, sendo parte do Evangelho  de Mateus 13,44 -52 proclamado  no 17⁰ Domingo do Tempo Comum  sendo a continuidade  do Evangelho  de Mateus 13,44-46 proclamado na quarta-feira da 17ª semana do Tempo Comum .

O Evangelho  de Mateus é cuidadosamente estruturado em cinco grandes discursos, ecoando simbolicamente os cinco livros que anuncia: 
  • Que Jesus, é Deus  e nos oferece uma nova Lei
  •  Ele nos  revela  uma nova criação
  • Uma nova caminhada do Êxodo. Cada um desses blocos discursivos é encerrado por uma fórmula semelhante,  “quando Jesus terminou de dizer essas palavras...” (cf. Mt 7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1) e é precedido por uma seção narrativa que o prepara. 
Podemos  dividir o evagelho em 7 partes: 
  1. Prólogo:  Mt 1,1–2,23 Genealogia, nascimento e infância de Jesus.
  2. Primeiro livro (Mt 3,1–7,29): Preparação para o ministério (João Batista, batismo e tentações), início da missão na Galileia e o Sermão da Montanha com a Temática   da chegada do Reino e a justiça do Reino.
  3. Segundo livro (Mt 8,1–11,1) Dez milagres, vocação dos discípulos e discurso missionário,  com a temática dos sinais do Reino e a missão dos discípulos.
  4. Terceiro livro (Mt 11,2–13,53): Crescente aceitação e rejeição de Jesus; discurso das parábolas,  com a  tematixa do mistério e a revelação do Reino por meio das parábolas.
  5. Quarto livro (Mt 13,54–19,1): Reações ao ministério de Jesus, confissão de Pedro, transfiguração e discurso comunitário, com a temática da  comunidade do Reino (a Igreja) e a vida fraterna
  6. Quinto livro (Mt 19,2–26,1); Caminho para Jerusalém, ensinamentos sobre o discipulado e discurso escatológico (Mt 24–25),  com a temática do:  Reino consumado, o juízo final e a vigilância."
  7. Epílogo (Mt 26,2–28,20): Paixão, morte e ressurreição de Jesus, que culmina com o envio missionário: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações..." (Mt 28,19-20
 Ao encerrarmos o terceiro livro com a perícope de Mt 13,47-53,  a parábola da rede lançada ao mar e a imagem do escriba discípulo, somos colocados diante do momento de decisão: entre compreender ou rejeitar, entre discernir ou endurecer o coração. Com isso, abre-se o quarto livro (Mt 13,54–18,35), que se concentrará na formação da comunidade do Reino, onde Jesus ensina como seus discípulos devem viver entre si, perdoar-se mutuamente, buscar os pequenos e exercer a autoridade no serviço. A passagem que hoje meditamos, portanto, é um limiar: ela conclui a revelação parabólica do Reino e nos conduz ao caminho da prática concreta no seio da comunidade e da história.  Jesus compara o Reino dos Céus a uma rede lançada ao mar que apanha peixes de toda espécie. Esta imagem, enraizada no cotidiano dos pescadores da Galileia, é ao mesmo tempo simples e profundamente escatológica. A rede representa a ação inclusiva da pregação do Reino, que abrange toda a humanidade sem distinção inicial. Mas, no fim, haverá separação,  o discernimento entre o justo e o injusto, entre o que é fecundo e o que é estéril. A separação final não cabe aos homens, mas aos anjos, e acontece "ao fim do mundo" (Mt 13,49), linguagem claramente escatológica, que nos remete a Daniel 12,2-3 e à expectativa profética de um juízo definitivo. Neste cenário, as parábolas se tornam uma espécie de catequese apocalíptica: revelam o Reino como realidade já presente, mas cuja consumação se dará plenamente na intervenção final de Deus.

A rede, que tudo acolhe, exige vigilância e decisão. Não se pode viver indefinidamente no espaço da indiferença ou da neutralidade espiritual. A imagem da seleção dos peixes, bons e maus, se articula com a parábola do joio e do trigo (Mt 13,24-30.36-43), onde o julgamento não é apressado, mas é certo. Ambas as parábolas enfatizam que o tempo presente é de anúncio, acolhida e transformação, mas o tempo escatológico trará a verdade definitiva. A rede lançada ao mar é o anúncio do Evangelho que atravessa a história; o critério de discernimento é a justiça do Reino, vivida concretamente em misericórdia, compaixão e fidelidade (cf. Mt 25,31-46). Esse juízo anunciado por Jesus não é punitivista, mas revelador: ele expõe o que cada um se tornou, ou seja, revela a verdade do coração humano. Aqui está a crítica à religião do espetáculo, da aparência e do culto performático: Deus não se deixa enganar por quem grita "Senhor, Senhor" (Mt 7,21), mas reconhece aqueles que se comprometeram com o bem, mesmo que no escondimento. Trata-se de uma escatologia do amor prático e do serviço, e não do medo ou da condenação arbitrária. A justiça que salva é aquela que se torna pão partilhado, visita ao encarcerado, acolhida ao estrangeiro, e não rituais vazios ou discursos triunfalistas. O Reino é para os que vivem a bem-aventurança de ser pobre em espírito, manso, faminto de justiça, construtor da paz (cf. Mt 5,1-12).

No contexto contemporâneo, essa rede evangélica pode ser contrastada, de forma simbólica e profética, com as redes digitais e sociais que também capturam multidões. A metáfora da rede, que em tempos antigos evocava o mar e os peixes, hoje pode evocar algoritmos e timelines. As redes digitais, assim como a rede do Reino, são espaços que acolhem toda espécie, mas nelas também se misturam verdade e mentira, solidariedade e ódio, evangelho e idolatria. Há uma nova forma de pescaria, onde corações e mentes são fisgados não pela Palavra, mas pela estética do consumo, da violência simbólica e da manipulação ideológica. As redes podem ser espaço de missão e anúncio, mas também podem ser utilizadas como redes que prendem e deformam, como armadilhas digitais que escravizam e afastam da verdade. Cabe aos discípulos discernirem que tipo de peixe estão se tornando e que rede estão ajudando a lançar: a do Reino que liberta ou a do mercado que aprisiona. Paulo, em Efésios 4,14-15, adverte que não sejamos levados por qualquer vento de doutrina, nem enganados por artimanhas humanas, mas que cresçamos na verdade e no amor. A escatologia, portanto, não é apenas um juízo futuro, mas também um chamado urgente para discernirmos que tipo de rede estamos tecendo no presente.

Por isso, Jesus termina esta série de parábolas dizendo que todo escriba instruído nas coisas do Reino é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13,52). O discípulo que compreende as parábolas e se deixa formar por elas torna-se capaz de ler a história com os olhos de Deus. Aqui, há um elogio à hermenêutica da continuidade: o Novo não anula o Antigo, mas o reinterpreta à luz da plenitude do Reino. O escriba do Reino é aquele que reconhece em Jesus o cumprimento das promessas, mas também a ruptura necessária com os modelos religiosos de exclusão, legalismo e opressão. É alguém que aprendeu a discernir os sinais dos tempos e que vive com os pés na história e os olhos no horizonte escatológico. Esta perícope é, portanto, uma chave de leitura para toda a missão cristã. Ela denuncia os sistemas religiosos que mantêm as redes rasgadas, que pescam apenas para si e que descartam os peixes pequenos. Denuncia a teologia da prosperidade que transforma o Reino em mercado e a fé em moeda de troca. Denuncia o clericalismo que se arroga o direito de julgar os outros, esquecendo que o julgamento pertence apenas a Deus. E denuncia, sobretudo, o individualismo de uma espiritualidade sem corpo, sem cruz e sem comunidade. A rede do Reino não é para capturar, mas para incluir; não é para segregar, mas para reunir. E a separação final não é tarefa nossa, mas da justiça divina, que tudo vê e tudo pesa. Enquanto isso, resta-nos lançar a rede com fidelidade, sabendo que o mar do mundo é vasto, imprevisível, mas habitado por Deus. 

Como Paulo nos recorda em 2⁰ Coríntios 5,10, todos devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo. A escatologia paulina não é marcada pela angústia, mas pela esperança vigilante: a certeza de que o Senhor ressuscitado reunirá os seus, separará com justiça, e estabelecerá, enfim, a comunhão plena. A rede do Reino é, portanto, imagem dessa tensão entre o já e o ainda não: já somos pescados pelo Evangelho, mas ainda caminhamos em meio às águas turvas do mundo. Já temos a graça, mas ainda lutamos contra as trevas. Já há colheita, mas ainda há tempo para conversão. A escatologia, longe de ser fuga do mundo, é mergulho profundo na história com os olhos voltados para a plenitude que há de vir. É urgência da graça. É responsabilidade de fé. É anúncio que julga e acolhe. É rede que inclui, purifica e conduz à luz definitiva do Reino que não terá fim.

DNonato – Teólogo do Cotidiano