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sábado, 18 de julho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 13,24-43 - 16⁰ Domingo do Tempo Comum

 
Na liturgia da Igreja Católica Romana, o Evangelho de Mateus 13,24-43 é proclamado no 16º Domingo do Tempo Comum do Ano A, constituindo o centro da Liturgia da Palavra desse domingo. Alguns de seus trechos também aparecem em celebrações feriais do Tempo Comum como por exemplo na liturgia da segunda-feira da 17ª semana do Tempo Comum tMateus 13, 31-35. Sabemos do Evangelho segundo Mateus percorre o chamado Discurso das Parábolas e não e a primeira vez que abordamos a reflexão de Mateus 13,24-43 e ja abordamos a temática  em 2023,. As Igrejas históricas que seguem o Lecionário Comum Revisado, entre elas diversas Igrejas Anglicanas, Luteranas, Metodistas, Presbiterianas e Reformadas, igualmente proclamam essa perícope no período denominado Tempo Comum ou Tempo depois de Pentecostes, reconhecendo nela uma das mais profundas catequeses de Jesus acerca do mistério do Reino de Deus. Também as Igrejas Ortodoxas, embora organizem seu calendário litúrgico segundo tradição própria, conservam essas parábolas na memória e na catequese, interpretando-as à luz da economia da salvação e da expectativa escatológica. Essa convergência litúrgica manifesta que a Palavra de Deus ultrapassa fronteiras confessionais e continua convocando toda a Igreja de Cristo à conversão, ao discernimento e à esperança.

A Liturgia da Palavra deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta uma extraordinária unidade teológica: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43.

  • Sabedoria 12,13.16-19, revela um Deus cuja força se manifesta na misericórdia. O autor sagrado escreve em um contexto marcado pela dominação helenística, quando o povo judeu buscava preservar sua identidade diante da cultura grega. Em vez de apresentar Deus como um soberano arbitrário que governa pelo medo, o texto afirma que o verdadeiro poder divino consiste na justiça inseparável da compaixão. "O teu poder é o princípio da justiça" (Sb 12,16). Deus, precisamente porque é Senhor absoluto, não precisa recorrer à violência para afirmar sua autoridade. Seu julgamento é paciente, sua correção é pedagógica e sua misericórdia abre continuamente espaço para o arrependimento. 
  • O Salmo 85(86) responde a essa revelação com a profissão de fé: "Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel". O salmista não descreve um Deus distante, mas um Deus que escuta o clamor do pobre, inclina o ouvido para quem sofre e permanece fiel à sua aliança apesar das infidelidades humanas. A bondade divina não é sentimentalismo nem complacência diante do mal. Trata-se da fidelidade do Deus da Aliança, cuja misericórdia nunca anula sua justiça, mas lhe confere um horizonte de restauração. O refrão do salmo torna-se, assim, uma chave hermenêutica para compreender todas as leituras deste domingo.
  • Romanos 8,26-27, São Paulo aprofunda essa mesma dinâmica ao afirmar que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. O ser humano, marcado pelos limites da condição criada e pelas consequências do pecado, nem sequer sabe rezar como convém. Contudo, o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. A ação salvadora de Deus não acontece apenas no exterior da história, mas também na interioridade humana. Enquanto a primeira leitura revela um Deus paciente diante da humanidade, Paulo mostra um Deus que habita a própria fragilidade humana, sustentando-a por dentro com sua graça.

Essa unidade culmina no Evangelho de Mateus 13,24-43. Jesus apresenta as parábolas do joio e do trigo, do grão de mostarda e do fermento, concluindo com a explicação da primeira delas diante dos discípulos. O fio condutor é evidente. O Deus cuja força se manifesta na misericórdia, celebrado pelo salmista e experimentado na ação silenciosa do Espírito Santo, revela agora, por meio de Jesus, o modo como seu Reino atua na história. Não através da imposição, da violência ou da eliminação imediata do mal, mas mediante uma paciência ativa que conduz a humanidade para o tempo da colheita. Essa unidade entre as leituras não é apenas temática. Ela expressa uma continuidade da Revelação. A Sabedoria prepara o caminho para compreender a pedagogia divina. O Salmo transforma essa revelação em oração. Paulo revela sua realização na vida interior dos discípulos. Jesus manifesta sua plenitude ao revelar o Reino inaugurado em sua própria pessoa. Como ensina a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus fala de muitas maneiras ao longo da história, conduzindo progressivamente seu povo até a plenitude da Revelação em Cristo (DV 2, 4, 15 e 16). As leituras deste domingo constituem um exemplo luminoso dessa pedagogia divina.

Para compreender a força da parábola do joio e do trigo é necessário voltar ao contexto narrativo do Evangelho de Mateus. Nada no texto aparece de forma isolada sendo uma continuidade do Evangelho do domingo passado Mateus 13, 1-23 e  sendo uma referência  de forma indireta  do Evangelho  do dia anterior,  O  evangelista constrói cuidadosamente uma sequência que revela o crescimento das tensões entre Jesus e as lideranças religiosas de seu tempo. Desde o Sermão da Montanha (Mt 5–7), Jesus apresenta uma interpretação da Lei fundada na misericórdia e na justiça interior, superando uma religiosidade centrada apenas na observância externa. Em seguida, manifesta a chegada do Reino mediante curas, exorcismos e sinais de libertação (Mt 8–9). Ao enviar os Doze em missão (Mt 10), anuncia que o Reino deve ser proclamado gratuitamente e que inevitavelmente encontrará resistência.

No capítulo 11, cresce a incompreensão. João Batista, preso por Herodes Antipas, pergunta se Jesus é realmente aquele que deveria vir (Mt 11,2-6). As cidades da Galileia permanecem indiferentes aos sinais realizados (Mt 11,20-24). No capítulo 12, o conflito se intensifica. Os fariseus acusam Jesus por causa do sábado (Mt 12,1-14), atribuem sua ação ao poder de Belzebu (Mt 12,24) e conspiram para eliminá-lo. A rejeição das autoridades religiosas torna-se cada vez mais explícita.
É precisamente nesse contexto de conflito que Jesus começa a ensinar em parábolas (Mt 13). As parábolas não surgem como histórias ingênuas destinadas apenas à memorização popular. Elas constituem uma linguagem profética. Assim como Natã confrontou Davi mediante uma parábola (2Sm 12,1-7), Jesus utiliza narrativas aparentemente simples para revelar a verdade sobre o Reino e, ao mesmo tempo, desmascarar os mecanismos de fechamento do coração humano. As parábolas acolhem quem busca sinceramente a verdade e desestabilizam quem pretende reduzir Deus aos próprios esquemas religiosos.
O cenário geográfico também possui importância. Mateus informa que Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar (Mt 13,1). O lago da Galileia era o centro econômico daquela região. Ali conviviam pescadores, agricultores, comerciantes, cobradores de impostos, soldados romanos e viajantes provenientes de diferentes culturas. Era uma região marcada por desigualdades econômicas, concentração fundiária e forte pressão tributária exercida tanto pelo Império Romano quanto pela dinastia herodiana. Muitos pequenos agricultores perdiam suas terras, tornando-se trabalhadores temporários ou endividados. Nesse ambiente de instabilidade social, falar de sementes, colheitas e campos significava falar da própria sobrevivência do povo.

O campo da parábola não é apenas uma paisagem bucólica. Representa o lugar onde a vida acontece. É o espaço do trabalho, da esperança, da luta diária pelo pão. Também por isso Jesus dirá mais tarde que "o campo é o mundo" (Mt 13,38). A missão do Reino não acontece fora da história, mas dentro dela, exatamente onde convivem justiça e injustiça, solidariedade e exploração, fidelidade e pecado.
A agricultura palestinense ajuda a compreender melhor a narrativa. O trigo era o principal alimento da região. Entre ele crescia frequentemente uma planta muito semelhante durante as primeiras fases do desenvolvimento, conhecida hoje como joio ou Lolium temulentum. Enquanto jovem, era praticamente impossível distingui-la do trigo. Apenas quando surgiam as espigas a diferença tornava-se evidente. Além disso, arrancar o joio prematuramente podia destruir também as raízes do trigo, pois ambas cresciam entrelaçadas. Jesus parte dessa realidade agrícola conhecida de seus ouvintes para construir uma das imagens mais profundas de toda a tradição evangélica.
Seu ensinamento rompe frontalmente com expectativas muito presentes no judaísmo do século I. Diversos grupos aguardavam um Messias que realizaria imediatamente o julgamento definitivo, separando bons e maus já no presente. Alguns movimentos, como a comunidade de Qumran, entendiam-se como os únicos verdadeiramente puros, separados dos pecadores e do restante de Israel. Jesus, porém, apresenta outra lógica. O Reino já chegou, mas sua plenitude ainda não se consumou. O mal continua presente, porém não possui a última palavra. Deus não abandona a história, tampouco precipita um julgamento movido pela impaciência humana. Sua paciência não significa omissão, mas oportunidade permanente para que a conversão produza frutos.
Essa perspectiva constitui uma das grandes novidades da revelação cristã. A história permanece aberta porque Deus continua acreditando na possibilidade da transformação humana. A paciência divina não nasce da fraqueza, mas da soberania de seu amor. É exatamente essa verdade que une Sabedoria, o Salmo, Romanos e o Evangelho. O Deus forte é aquele que espera. O Deus justo é aquele que concede tempo. O Deus santo é aquele que continua semeando esperança mesmo em um mundo onde o joio parece crescer com assustadora rapidez..É justamente nesse horizonte que Jesus começa a revelar, por meio das parábolas, o mistério do Reino de Deus, mostrando que sua presença discreta, paciente e transformadora desafia todas as expectativas humanas de poder, impondo uma nova maneira de compreender a ação de Deus na história e preparando seus discípulos para discernir, com sabedoria e esperança, o tempo presente e a colheita futura.

Jesus inicia a parábola dizendo: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo" (Mt 13,24). A expressão "Reino dos Céus", característica do Evangelho de Mateus, corresponde ao "Reino de Deus" utilizado por Marcos e Lucas. O evangelista escreve para uma comunidade de forte matriz judaica, que evitava pronunciar diretamente o nome divino em sinal de reverência. A mudança de expressão, contudo, não altera o conteúdo teológico. O Reino não designa um lugar para onde se vai após a morte, mas o senhorio de Deus que já irrompe na história através da pessoa, da palavra e da ação de Jesus (Mt 4,17; Mc 1,15; Lc 4,18-21).

Primeiro detalhe da parábola merece atenção. O semeador lança "boa semente", a origem do mal não está em Deus. Toda a Escritura testemunha essa verdade desde o relato da criação e ao concluir sua obra, Deus contempla tudo o que fizera e vê que era "muito bom" (Gn 1,31). Também o livro da Sabedoria afirma que Deus não criou a morte nem sente prazer na destruição dos viventes (Sb 1,13-14), a  criação nasce da bondade divina e conserva, apesar das marcas do pecado, a dignidade fundamental que lhe foi conferida pelo Criador. Entretanto, Jesus prossegue afirmando: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25). O sono dos trabalhadores não representa negligência moral. Dormir faz parte da condição humana. A imagem indica, antes, os limites da criatura diante do mistério do mal. Nem tudo pode ser explicado por causas imediatamente identificáveis. O mal ultrapassa frequentemente nossa capacidade de compreensão. A Bíblia jamais oferece uma teoria filosófica definitiva sobre sua origem, mas insiste em afirmar que ele não procede de Deus. Existe um adversário, chamado posteriormente por Jesus de diabo (Mt 13,39), cuja ação consiste precisamente em corromper aquilo que Deus criou para a vida.

É significativo que o inimigo atue durante a noite. Na tradição bíblica, a noite simboliza frequentemente o espaço da insegurança, do medo, da ignorância e das forças que se opõem à vida. Não por acaso, o Evangelho de João observa que Judas saiu para entregar Jesus e acrescenta: "Era noite" (Jo 13,30). Não se trata apenas de uma indicação cronológica, mas de um símbolo espiritual. O mal prospera onde falta vigilância, discernimento e comunhão com Deus.
Quando o trigo cresce e produz espigas, aparece também o joio (Mt 13,26). Até esse momento ambos eram praticamente indistinguíveis. A parábola revela, assim, um profundo conhecimento da condição humana. Nem tudo o que aparenta ser bom produz frutos de vida. Tampouco toda fragilidade significa ausência da graça. Jesus desloca o discernimento das aparências para os frutos, antecipando o ensinamento do Sermão da Montanha: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16-20). Essa observação possui enorme importância antropológica. A experiência humana é marcada por ambiguidades. Nenhuma pessoa é inteiramente reduzida aos seus acertos nem completamente definida pelos seus fracassos. A psicologia contemporânea reconhece que a personalidade humana abriga tensões, conflitos internos, processos de amadurecimento e possibilidades permanentes de transformação. A tradição cristã sempre compreendeu que a santidade não consiste na ausência de luta, mas na abertura contínua à ação da graça. São Paulo descreve esse drama interior ao afirmar: "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7,19). O próprio apóstolo conclui, porém, que a vitória pertence à graça manifestada em Cristo (Rm 7,25). Quando os servos perguntam se devem arrancar imediatamente o joio (Mt 13,28), expressam uma tentação permanente da humanidade. Desejam um mundo purificado instantaneamente, uma comunidade composta apenas pelos considerados justos, uma sociedade onde toda diferença seja eliminada pela força. A resposta do proprietário surpreende: "Não, para que não aconteça que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita" (Mt 13,29-30). Essa resposta jamais deve ser interpretada como tolerância diante da injustiça. Jesus combateu vigorosamente a hipocrisia religiosa (Mt 23), denunciou a exploração dos pobres (Mt 21,12-13), enfrentou poderes políticos e religiosos e jamais permaneceu indiferente diante do sofrimento humano. A paciência de Deus não significa neutralidade ética. Significa reconhecer que o julgamento definitivo pertence exclusivamente ao Senhor da história. Enquanto houver tempo, permanece aberta a possibilidade da conversão.

Essa perspectiva corrige tanto o rigorismo quanto a permissividade. De um lado, impede que seres humanos assumam para si o lugar reservado a Deus, condenando pessoas como se conhecessem definitivamente seus corações. De outro, não relativiza o pecado nem elimina a responsabilidade moral. O joio continua sendo joio, mas seu destino definitivo pertence ao julgamento divino, não às precipitações humanas..

É precisamente aqui que Mateus estabelece uma diferença significativa em relação aos demais Sinóticos. Marcos e Lucas não conservam essa parábola do joio e do trigo. Em compensação, ambos registram outros ensinamentos que convergem na mesma direção. Marcos apresenta a parábola da semente que cresce sozinha (Mc 4,26-29), exclusiva de seu Evangelho, mostrando que o Reino possui um dinamismo próprio, independente da ansiedade humana. Lucas, por sua vez, insiste repetidamente na misericórdia divina, especialmente nas parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do pai misericordioso (Lc 15). Cada evangelista destaca um aspecto particular do mesmo mistério. Mateus enfatiza a convivência entre trigo e joio até a consumação dos tempos. Marcos destaca o crescimento silencioso do Reino. Lucas evidencia a alegria de Deus diante da conversão do pecador. As três perspectivas não se contradizem; completam-se mutuamente.
Depois da parábola do joio, Jesus apresenta duas pequenas imagens: o grão de mostarda (Mt 13,31-32) e o fermento (Mt 13,33). Ambas revelam a lógica paradoxal do Reino. O grão de mostarda era proverbialmente conhecido por seu tamanho diminuto. Apesar disso, desenvolve-se de maneira surpreendente. A imagem recorda diversas profecias veterotestamentárias nas quais grandes árvores acolhem aves em seus ramos, simbolizando povos reunidos sob a ação salvadora de Deus (Ez 17,22-24; Dn 4,7-18). Jesus, porém, substitui o majestoso cedro do Líbano por uma simples planta de mostarda, comum nos campos da Palestina. O Reino cresce não segundo a lógica da ostentação, mas da humildade. 

Essa é uma constante em todo o Evangelho. Deus escolhe:

  •  Abraão, um idoso sem descendência (Gn 12,1-3). 
  •  Moisés, que se considera incapaz de falar (Ex 4,10). 
  • Davi, o menor entre os filhos de Jessé (1Sm 16,11-13). 
  • Faz nascer o Salvador numa estrebaria (Lc 2,7).
  • Escolhe pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo (Mt 4,18-22). 
A lógica divina contraria sistematicamente os critérios do prestígio humano.

A segunda imagem, a do fermento, aprofunda ainda mais essa inversão. Uma mulher mistura pequena quantidade de fermento em três medidas de farinha até que toda a massa fique fermentada. O detalhe da mulher não é secundário. Em uma sociedade fortemente patriarcal, Jesus coloca uma mulher como protagonista de uma parábola sobre o Reino. Enquanto muitos ambientes religiosos restringiam a participação feminina, Jesus reconhece, em diversas ocasiões, o protagonismo das mulheres na acolhida e difusão da Boa-Nova (Lc 8,1-3; Jo 4,7-42; Mt 28,1-10). A parábola do fermento possui um detalhe que frequentemente passa despercebido: "O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado" (Mt 13,33). A expressão "três medidas de farinha" traduz o grego tria sata. Um saton correspondia aproximadamente a 13 litros. Assim, três medidas equivaliam a cerca de 39 litros de farinha, quantidade suficiente para produzir entre 40 e 60 quilos de massa, capaz de alimentar aproximadamente 100 a 150 pessoas. Jesus não descreve a preparação do pão para uma família comum, mas uma quantidade extraordinária, típica de um grande banquete.

Esse detalhe possui profundo significado simbólico.

  • Em primeiro lugar, remete ao episódio de Abraão e Sara em Mambré (Gn 18,6), quando Abraão ordena a Sara: "Toma depressa três medidas de farinha fina, amassa-a e faz pães." Mateus pressupõe que seus ouvintes conhecem essa narrativa. Assim como a hospitalidade de Abraão prepara a promessa do nascimento de Isaac, o fermento prepara a manifestação do Reino. A parábola evoca a fidelidade de Deus às suas promessas e o banquete messiânico esperado por Israel.
  • Em segundo lugar, a enorme quantidade de massa simboliza a superabundância do Reino de Deus. O Reino nunca é escasso. Deus não distribui sua graça em pequenas porções. A pequena quantidade de fermento transforma toda a massa. O contraste é intencional: algo quase invisível modifica uma realidade imensamente maior. É a lógica da graça, que age silenciosamente, mas alcança dimensões universais.

Isaías 25,6-9, o Reino definitivo é descrito como um grande banquete preparado por Deus para todos os povos. A quantidade exagerada de farinha aponta precisamente para essa abundância messiânica. Deus prepara alimento para toda a humanidade, não apenas para um grupo privilegiado. A  massa representa a humanidade em sua totalidade. Todos somos feitos da mesma "farinha", compartilhamos a mesma condição humana, marcada por fragilidade e esperança. O fermento representa a presença transformadora do Reino, que age no interior da pessoa, das comunidades e da história. A transformação acontece de dentro para fora. O fermento não muda apenas uma parte da massa; toda ela é penetrada por sua ação. Assim também o Evangelho não pretende reformar superficialmente a sociedade, mas transformar as estruturas mais profundas da existência humana.

A protagonista da parábola também merece atenção. Jesus apresenta uma mulher preparando o pão, atividade cotidiana do ambiente doméstico. Em uma sociedade patriarcal, ele escolhe justamente uma mulher para simbolizar a ação do Reino. Isso revela que Deus atua tanto no espaço público quanto no cotidiano aparentemente simples da vida familiar. O Reino cresce não apenas nos grandes acontecimentos da história, mas também na fidelidade escondida, no trabalho silencioso, no cuidado diário e nos gestos de amor que passam despercebidos. Assim, a imagem do fermento e das três medidas de farinha anuncia que o Reino de Deus começa discretamente, mas possui uma força transformadora irresistível. O que parece pequeno e oculto é capaz de renovar toda a humanidade. A abundância da massa anuncia a universalidade da salvação; o fermento revela a eficácia silenciosa da graça; a mulher manifesta que Deus realiza sua obra também através da simplicidade da vida cotidiana. É a lógica do Evangelho: Deus transforma o mundo não pela imposição da força, mas pela fecundidade escondida do amor que, pouco a pouco, faz crescer toda a massa até sua plena maturidade.

O fermento trabalha escondido. Não produz espetáculo. Age silenciosamente no interior da massa. Também assim atua o Reino de Deus. Essa imagem confronta uma religiosidade fascinada pela visibilidade, pelo poder e pelo sucesso imediato. O Reino não cresce por estratégias de dominação nem pela imposição ideológica. Cresce pela transformação interior das pessoas e das relações humanas, 

A história da Igreja confirma essa verdade sempre que permaneceu fiel ao Evangelho. As maiores transformações cristãs frequentemente nasceram longe dos centros de poder. Brotam do testemunho dos mártires, das comunidades perseguidas, da fidelidade dos pobres, do serviço silencioso das famílias, da perseverança de religiosos e religiosas, da ação escondida de incontáveis leigos que, sem ocupar posições de destaque, fermentam a sociedade com justiça, solidariedade e esperança Os Padres da Igreja perceberam essa riqueza simbólica. Santo Agostinho via o fermento como a caridade, que, embora pequena em seu início, dilata toda a vida do cristão. São João Crisóstomo afirmava que, assim como o fermento desaparece na massa sem deixar de agir, também o discípulo de Cristo transforma o mundo sem buscar reconhecimento. Orígenes interpretava o fermento como a Palavra de Deus, que penetra progressivamente toda a inteligência e todo o coração humano.

A afirmação de Jesus de que "o campo é o mundo" (Mt 13,38) impede qualquer leitura reducionista da parábola. O Reino de Deus não se limita ao espaço visível da Igreja, embora a Igreja seja, conforme ensina o Concílio Vaticano II, "como que o sacramento, isto é, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O Reino é maior que a Igreja e a Igreja existe para servir ao Reino. Essa distinção é fundamental para evitar que a comunidade cristã se torne autorreferencial, fechada sobre si mesma ou convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Como recorda o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 49), a Igreja é chamada a sair de si mesma para alcançar as periferias humanas e existenciais, preferindo ser uma Igreja ferida por ter saído às estradas do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela autorreferencialidade.

A parábola do joio e do trigo também desfaz uma das ilusões mais perigosas da religião: a pretensão de dividir a humanidade entre puros e impuros, salvos e condenados, amigos de Deus e inimigos absolutos. Ao longo da história, essa lógica alimentou perseguições, guerras religiosas, exclusões e violências praticadas em nome da própria fé. Jesus, porém, recusa entregar aos servos o poder de arrancar o joio. Não porque ignore o mal, mas porque conhece a fragilidade do discernimento humano. Quantas vezes a história mostrou que aqueles considerados "joio" tornaram-se testemunhas luminosas do Evangelho, enquanto pessoas aparentemente irrepreensíveis revelaram profunda corrupção moral e espiritual?
Essa advertência permanece extraordinariamente atual. Vivemos uma época marcada pela polarização, pela cultura do cancelamento, pelo julgamento precipitado e pela incapacidade de reconhecer a complexidade da experiência humana. As redes sociais frequentemente transformam pessoas em caricaturas, reduzindo indivíduos inteiros a um único erro, uma opinião ou um episódio isolado. O Evangelho não elimina a responsabilidade moral, mas impede que alguém ocupe o lugar do Juiz definitivo da história.
Ao mesmo tempo, a parábola não pode ser utilizada para justificar passividade diante da injustiça. Esperar a colheita não significa cruzar os braços diante da violência, da exploração e da mentira. Toda a tradição profética da Escritura demonstra exatamente o contrário. Isaías denuncia os governantes que transformam o direito em opressão (Is 1,10-20; 5,20-23). Amós condena aqueles que "vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias" (Am 2,6), proclamando que Deus deseja "que o direito corra como a água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina em três exigências inseparáveis: "praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética.

Por isso, a paciência de Deus jamais pode ser confundida com conivência diante das estruturas de pecado. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, recorda que além do pecado pessoal existem estruturas sociais que favorecem e reproduzem a injustiça. Bento XVI, na Caritas in Veritate, insiste que a caridade exige compromisso concreto com a verdade e com a justiça. O Papa Francisco, tanto na Fratelli Tutti quanto na Laudato Si', denuncia uma economia que descarta pessoas, destrói a criação e transforma o lucro em critério absoluto da vida social. Em todos esses documentos, a tradição da Igreja reafirma que o Reino anunciado por Jesus possui inevitáveis consequências sociais, econômicas, culturais e políticas..Nesse horizonte, torna-se necessária uma palavra profética sobre o uso instrumental da religião. Sempre que a fé é transformada em ferramenta para conquistar poder político, controlar consciências ou legitimar projetos de dominação, deixa de servir ao Reino e passa a servir aos interesses humanos. Jesus recusou explicitamente essa tentação quando rejeitou as propostas do tentador no deserto (Mt 4,1-11) e quando afirmou diante de Pilatos: "Meu Reino não é deste mundo" (Jo 18,36). Isso não significa que o Evangelho seja indiferente à vida pública. Ao contrário, significa que a Igreja deve iluminar a sociedade a partir do Evangelho, sem submeter a Boa-Nova a projetos partidários ou ideológicos..Essa advertência vale para qualquer tentativa de capturar Cristo em favor de um projeto de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para justificar discursos de ódio, exclusão, racismo, xenofobia, misoginia ou desprezo pelos pobres, ocorre uma grave inversão do Evangelho. O Cristo que acolheu publicanos, pecadores, mulheres marginalizadas, estrangeiros e enfermos jamais pode ser transformado em bandeira de exclusão. O Reino cresce como fermento, não como instrumento de dominação.

Por isso também a chamada teologia da prosperidade entra em profunda tensão com o ensinamento das parábolas do Reino. Ao identificar bênção divina com riqueza material, sucesso financeiro ou ascensão social, ela reduz a salvação a uma lógica de mercado. Entretanto, Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Mt 5,3; Lc 6,20), alerta contra o poder sedutor das riquezas (Mt 6,19-24; 19,23-24) e identifica sua presença precisamente nos famintos, nos estrangeiros, nos doentes e nos presos (Mt 25,31-46). O Reino não transforma Deus em fornecedor de prosperidade, mas converte o coração humano para que ninguém passe necessidade. A teologia do domínio contradiz frontalmente o Evangelho. Sempre que se pretende estabelecer uma hegemonia religiosa sobre a sociedade, confundindo missão evangelizadora com conquista de poder cultural ou político, perde-se a lógica do grão de mostarda e do fermento. Jesus nunca impôs adesão pela força. Chamou discípulos livres. Convenceu pelo testemunho, não pela coerção. O Reino cresce por atração, não por imposição. Nesse contexto, o clericalismo representa outra deformação profundamente criticada pelo Magistério contemporâneo. O Papa Francisco tem insistido repetidamente que o clericalismo reduz o povo de Deus à passividade e transforma o ministério ordenado em exercício de poder, quando deveria ser expressão de serviço. O próprio Jesus advertiu seus discípulos: "Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve" (Mt 20,26-28). O Reino anunciado nas parábolas não conhece castas espirituais. Todos os batizados participam da missão de Cristo, ainda que em ministérios diversos. Como ensina a Lumen Gentium, todo o povo de Deus participa da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo (LG 9-17).

Na América Latina, Medellín, Puebla, Santo Domingo e especialmente o Documento de Aparecida aprofundaram essa compreensão missionária. Aparecida recorda que a Igreja não pode permanecer indiferente diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o continente. Os discípulos missionários são chamados a testemunhar uma fé inseparável da promoção da dignidade humana, da justiça social e da defesa da vida. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas do próprio Evangelho, pois o Deus revelado em Jesus escuta primeiro o clamor dos pequenos, dos esquecidos e dos que sofrem. Também a CNBB tem insistido que evangelização e compromisso social são dimensões inseparáveis da missão da Igreja. A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente que a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade constituem princípios permanentes da ação cristã na sociedade. A parábola do joio e do trigo convida a discernir continuamente quais sementes estamos cultivando em nossas comunidades, em nossas famílias, em nossas instituições e em nossa vida pública.

A dimensão escatológica da parábola impede tanto o desespero quanto a ingenuidade. O mal existe e produz sofrimento real. Guerras, fome, corrupção, violência urbana, tráfico de pessoas, destruição ambiental, desigualdade econômica e manipulação religiosa continuam ferindo profundamente a humanidade. Entretanto, nenhuma dessas realidades possui a palavra definitiva sobre a história. A colheita pertence a Deus. Essa esperança distingue profundamente a visão cristã de qualquer pessimismo histórico. São Paulo já afirmava que "toda a criação geme e sofre como em dores de parto" (Rm 8,22). Poucos versículos depois do trecho proclamado neste domingo, o apóstolo contempla uma criação inteira aguardando sua libertação definitiva. A esperança cristã não ignora o sofrimento presente, mas recusa acreditar que ele seja eterno. O Espírito Santo continua intercedendo na fraqueza humana (Rm 8,26-27), sustentando silenciosamente o crescimento do Reino, assim como o fermento transforma toda a massa. Ao concluir a explicação da parábola, Jesus anuncia: "Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai" (Mt 13,43), retomando a visão de Daniel 12,3. Não se trata da exaltação de uma elite religiosa, mas da promessa de que a justiça de Deus finalmente triunfará. Os que hoje trabalham pela paz, defendem a dignidade humana, acolhem os pobres, promovem a reconciliação, resistem à corrupção e permanecem fiéis ao Evangelho talvez pareçam pequenos como um grão de mostarda ou invisíveis como o fermento escondido na massa. Contudo, é exatamente por meio dessa fidelidade discreta que Deus continua transformando a história.

Assim, as quatro leituras deste domingo: Sabedoria: 12,13.16-19; Salmo: 85(86) com a resposta Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel, Romanos 8,26-27 e o evangelho de Mateus 13,24-43. convergem para uma única profissão de fé. 

  1. O Deus do livro da  Sabedoria manifesta sua força na misericórdia. 
  2.    O Salmista canta sua bondade e fidelidade. 
  3.   Paulo em Romanos 8, 26-27  revela que esse Deus habita nossa fraqueza pelo Espírito Santo. 
  4. Jesus anuncia em Mateus 13,24-43 seu Reino cresce silenciosamente no meio das ambiguidades da história, sem se confundir com elas nem ser vencido por elas.
Na realidade  do mundo onde se semeia joio  e trido que o discípulo de Cristo é chamado a viver a esperança ativa, recusando tanto o fanatismo quanto a indiferença, tanto a violência quanto a omissão, no mesmo  mundo tentado pelo autoritarismo, pela idolatria do poder, pela manipulação da religião e pelo desprezo aos mais vulneráveis, o Evangelho continua proclamando que a verdadeira força pertence ao amor, que a última palavra pertence à justiça misericordiosa de Deus e que, apesar da presença persistente do joio, o trigo amadurecerá para a colheita do Reino, onde toda lágrima será enxugada e a criação inteira participará da liberdade e da glória dos filhos e filhas de Deus (Ap 21,4; Rm 8,19-21) e nesse contexto  que o discípulo  é  chamado  a ser fermento.
DNonato - Teólogo do Cotidiano 


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,47-54

O Evangelho de Lucas 11,47-54 é proclamado na quinta-feira da 28ª semana do Tempo Comum, em meio a um ciclo de leituras que revelam a tensão entre o desígnio amoroso de Deus e a recusa humana em acolhê-lo. Nesse mesmo dia, a liturgia propõe a carta aos Efésios (1,1-10), na qual Paulo anuncia o projeto divino de recapitular todas as coisas em Cristo. É belo e provocante perceber o contraste: enquanto o Apóstolo contempla a unidade de todas as criaturas no amor, Jesus denuncia o fechamento religioso que mata os profetas. A Igreja reza, portanto, entre dois mundos — o do plano de Deus, que reconcilia, e o do coração humano, que ainda resiste.

jesus pronuncia palavras cortantes: “Ai de vós, que construís os túmulos dos profetas, mas vossos pais os mataram! Assim sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais” (Lc 11,47-48). O termo “ai” não é maldição, mas lamento. É a dor de Deus diante da cegueira humana. O grego ouai exprime compaixão indignada, como um suspiro de quem ama e sofre com o endurecimento do outro. Jesus não fala como juiz, mas como amante ferido: lamenta o destino de um povo que se acostumou a calar as vozes que o chamavam à conversão.O contexto é tenso: os fariseus e doutores da Lei se consideravam guardiões da tradição, mas haviam transformado a Lei em muralha. Construíam túmulos para os profetas não por veneração verdadeira, mas para controlar sua memória. Ao sepultar os profetas, sepultavam a exigência de conversão que vinha com eles. É mais fácil homenagear o mártir do passado do que escutar o profeta do presente. Assim, a hipocrisia religiosa se perpetua sob o disfarce da piedade.

A ironia de Jesus é amarga: aqueles que honram os profetas mortos são os mesmos que perseguem os vivos. O profetismo é sempre incômodo, porque desinstala, desmascara e denuncia. Do Gênesis ao Apocalipse, o fio da história bíblica é o mesmo: Deus fala, e o homem resiste. Desde o sangue de Abel até o de Zacarias, a Escritura narra uma longa genealogia da violência contra a verdade. O Evangelho de Lucas retoma essa linha para mostrar que Jesus é o ponto culminante dessa história — o último e definitivo Profeta, o Verbo que encarna a Palavra que o mundo tenta silenciar.

Mas a sabedoria de Deus é paciente. “Eu lhes enviarei profetas e apóstolos”, diz o texto, “a uns matarão e perseguirão” (Lc 11,49). Essa Sabedoria, personificada no Antigo Testamento, é expressão do Espírito que sopra onde quer. Negar o profeta é apagar o Espírito. E apagar o Espírito é sufocar o sopro mesmo da vida. Onde o Espírito é livre, há profecia; onde o Espírito é controlado, há túmulos.

O “ai” de Jesus, portanto, é também um grito pneumatológico: é o Espírito que chora dentro dele, lamentando o endurecimento humano. A profecia nasce sempre do Espírito, não da vaidade. Ela é sopro, não discurso. É fogo que aquece e queima. Por isso os profetas nunca são neutros: eles trazem o oxigênio da verdade, e o mundo os asfixia.

Sabemos que o  profeta é o mediador entre o divino e o humano. Vive a tensão entre o céu e a terra, entre a transcendência e o chão da história. Em toda cultura, ele representa a voz da alteridade — o Outro que nos convoca a sair de nós mesmos. O fariseu, ao contrário, teme a alteridade: quer um Deus espelho, não um Deus outro. Quer um Deus que confirme suas certezas, não um Deus que o desinstale. Por isso, o fariseu não suporta o profeta. A profecia é a pedagogia da alteridade: nela aprendemos que o rosto do outro é a primeira página do Evangelho.

O texto denuncia uma religião que espiritualiza a injustiça. Aqueles que matam os profetas o fazem em nome da ordem, da tradição, da pureza doutrinal. São defensores da moral, mas traidores da vida. Transformam a fé em instrumento de poder e o sagrado em moeda. É o mesmo mecanismo que sustenta, hoje, as teologias da prosperidade e do domínio. A religião-mercado vende milagres como produtos e transforma Deus em patrocinador de sucesso. É a nova idolatria: dourada, triunfalista, espetacular. Uma espiritualidade líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que o sagrado se consome e se descarta conforme o humor do mercado.

O profeta, no entanto, não se curva a essa lógica. Ele não vende conforto, oferece conversão. E por isso é sempre perseguido. Quando o púlpito vira palco, o altar se torna vitrine e o Evangelho se reduz a marketing, os profetas se tornam subversivos perigosos. Mas são eles que mantêm acesa a chama da autenticidade espiritual..Do ponto de vista psicológico, o fariseísmo é o mecanismo de defesa da alma religiosa. Freud chamaria de recalque da verdade; Jung, de sombra espiritual. O ser humano teme o profeta porque ele obriga a olhar para dentro. O profeta é o espelho que revela o que escondemos sob nossas certezas. Carl Rogers diria que a autenticidade é a base da maturidade. O fariseu, então, é o imaturo espiritual — aquele que vive de máscaras, com medo da transparência. A religião, quando se torna disfarce do ego, mata o Evangelho.

Nietzsche denunciava  a religião que reprime a vida, e Jesus denunciava  exatamente isso: a fé usada para dominar. Hannah Arendt alertou que o mal se banaliza quando o coração se acostuma à injustiça. E é disso que fala o Evangelho: a banalização do mal em nome do bem. Quando a fé se torna rotina, o Evangelho morre no hábito. A palavra “ai” é o choque necessário para despertar a consciência..A patrística reconheceu a atualidade desse perigo. Santo Agostinho advertia: “Ai daqueles que amam mais a honra dos homens do que a glória de Deus, pois constroem monumentos aos santos e matam a verdade que os santos pregaram.” João Crisóstomo denunciava que os ministros da Igreja podem tornar-se cúmplices da morte espiritual do povo quando buscam prestígio em vez de serviço. Orígenes acrescentava que o profeta vive já no tempo de Deus, e por isso é sempre estrangeiro entre os homens — a história tenta domesticá-lo, mas ele fala com acento do céu.

Essa denúncia se dirige também a nós, Igreja do século XXI. O clericalismo, que o Papa Francisco tantas vezes denunciou, é a forma moderna de trancar a porta do Reino. “Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência: vós mesmos não entrastes e impedistes os que queriam entrar!” (Lc 11,52). A imagem da chave é símbolo poderoso: representa o acesso ao mistério. Quando o ministro se coloca como dono da chave, transforma a mediação em barreira. O Evangelho não precisa de guardiões, mas de testemunhas.

A Gaudium et Spes recorda que o homem só se realiza no dom sincero de si. A Evangelii Gaudium denuncia o clericalismo como desfiguração da missão. E a Fratelli Tutti amplia o horizonte: a fé só é verdadeira quando gera fraternidade. O profeta, portanto, é o guardião da comunhão. Ele reconecta o humano ao divino, o pobre ao rico, o centro à periferia. É a ponte viva entre mundos que o medo separa.

A exegese nos mostra que, após essas palavras, “os escribas e fariseus começaram a pressioná-lo fortemente e a armar-lhe ciladas” (Lc 11,53). É o início da perseguição. A luz provoca a escuridão. O mesmo Espírito que o impulsiona à verdade desperta a ira dos que preferem as trevas. Assim também na história: quanto mais o Evangelho é fiel, mais ele incomoda os poderes deste mundo. O sangue dos profetas continua a clamar da terra (Ap 6,9).

Mas mesmo entre os escombros da religião morta, o Espírito sopra. O mesmo vento que ergueu Ezequiel diante do vale de ossos secos continua a percorrer a história. Há sempre um resto fiel, um pequeno grupo que, entre feridas e esperança, resiste ao império da morte e prepara o caminho da vida. A profecia é o suspiro de Deus que insiste.

Hoje, a perseguição aos profetas se dá por meios sutis. Não se apedreja mais, mas se cancela. O martírio acontece em pixels e algoritmos. As redes sociais se tornaram tribunais públicos onde a superficialidade julga a profundidade. O Evangelho da vida é abafado pelo ruído do espetáculo. Mas o profeta continua a falar, mesmo que sua voz pareça frágil. É no sussurro do vento, e não no trovão, que Deus se revela (1Rs 19,11-13).

Há, portanto, uma dimensão espiritual que atravessa o texto: a vitória silenciosa da vida. O Reino de Deus não triunfa pela força, mas pela fidelidade. A cruz é o túmulo e o berço da profecia. No corpo transpassado de Cristo, o sangue de todos os profetas encontra sentido. O profetismo não termina no Gólgota; ressuscita com o Ressuscitado.

O cristão autêntico, portanto, é aquele que assume o risco do profeta. Ser discípulo é viver na contramão da cultura da morte. É preferir a verdade à conveniência, a compaixão ao poder, o serviço ao prestígio. É enfrentar o sistema com o poder desarmado do amor. A fé autêntica é sempre subversiva, porque nasce da liberdade interior do Espírito.

Assim, o texto de Lucas não é apenas denúncia — é também promessa. Promessa de que o Espírito continua a suscitar profetas em cada geração. Talvez não usem batina, talvez não falem em templos, talvez cantem nas ruas ou escrevam nas redes; mas sua voz é a mesma: a da Sabedoria que clama nas praças, convidando à vida. Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

E quando o último túmulo for aberto, quando o último profeta silenciado for reabilitado pela verdade, compreenderemos que o Reino de Deus não é o império dos poderosos, mas a comunhão dos que amam. Porque os túmulos dos profetas se tornarão berços da esperança. Toda vez que o amor renasce em meio à perseguição, o Reino da Vida rompe o silêncio da pedra e faz do sepulcro um altar de ressurreição

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 11,5-13

 
Há textos que o Espírito Santo faz ecoar mais de uma vez na liturgia, como se dissesse: “Vocês ainda não compreenderam tudo o que há aqui.” Lucas 11,5-13 é um desses. Ele atravessa todos os anos litúrgicos, proclamado integralmente no 17º Domingo do Tempo Comum no ano C, em continuidade com o ensinamento do “Pai-Nosso”, e retorna, dividido, nas quartas e quintas-feiras da 27ª semana do Tempo Comum. Essa repetição não é acaso: é insistência do próprio Espírito, que sabe o quanto resistimos em aprender o sentido da oração perseverante. Jesus não fala de pedir como quem busca objetos; fala de permanecer diante do Pai com fé, mesmo quando o silêncio é a única resposta.

A parábola é simples e profundamente humana: um homem, surpreendido pela chegada de um amigo, vai à casa do vizinho à meia-noite para pedir três pães. É um gesto inconveniente, quase absurdo, mas a urgência o move. O vizinho, do lado de dentro, responde: “Não me incomodes; a porta já está fechada, e meus filhos e eu estamos deitados.” Contudo, Jesus afirma que, mesmo que não se levante por amizade, acabará cedendo “por causa da importunação”. E, em seguida, vem a promessa: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei, e vos será aberto.” O contraste final é de uma ternura desarmante: se até os pais humanos, frágeis e limitados, sabem dar boas coisas aos filhos, “quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem”. Lucas, mais do que qualquer outro evangelista, transforma a oração num lugar teológico de encontro com o Espírito. Em Mateus, o paralelo termina dizendo que o Pai dará “coisas boas”; em Lucas, o dom é o Espírito Santo. É como se Jesus purificasse nossas intenções: não se trata de pedir coisas, mas de deixar que o Espírito seja o dom que nos transforma. A oração não é instrumento de poder, mas caminho de transformação. Deus não é fornecedor de milagres, é presença que amadurece.

O contexto torna o sentido mais claro. Logo antes, os discípulos pedem: “Senhor, ensina-nos a orar.” Jesus lhes ensina o “Pai-Nosso”, e, em seguida, conta esta parábola. A estrutura é pedagógica: primeiro, a forma da oração; depois, o espírito da oração. O “Pai-Nosso” revela quem é Deus e quem somos nós; a parábola revela como devemos perseverar. E não é um convite a uma piedade intimista, mas a uma fé madura, forjada no conflito e na espera. Os discípulos de Jesus enfrentarão prisões, perseguições e injustiças. A oração perseverante será o fôlego da fé, o modo de respirar quando o mundo tentar sufocá-los. O pedido à meia-noite simboliza o clamor humano nas horas sombrias, quando as forças se esgotam e Deus parece distante. É nessas madrugadas da existência que a fé se revela. O homem que pede encarna a alma orante que não desiste; o vizinho relutante, a aparente resistência divina. Os três pães representam o necessário — não o luxo, mas o essencial. Três é o número da plenitude mínima, da suficiência. E o fato de ele pedir não para si, mas para outro — “um amigo me chegou de viagem” — revela a alma intercessora da oração cristã: quem ora verdadeiramente, ora pelo mundo.

A oração é, portanto, compromisso com o bem do outro. Não se reza para fugir, mas para permanecer de pé. O dom prometido, o Espírito Santo, é o sopro que sustenta a comunhão e refaz o amor. Deus não concede qualquer coisa; concede o que nos torna mais humanos. “Bater”, no texto grego, exprime continuidade: “continuem pedindo, continuem buscando, continuem batendo.” A oração é movimento constante, perseverança existencial, estado de abertura. Santo Agostinho dizia que “Deus quer ser vencido pela oração, não porque resista, mas porque deseja despertar o desejo.” A oração muda o orante antes de mudar o mundo.

O contraste da parábola é pedagógico. O vizinho relutante representa o limite humano; Deus, ao contrário, é aquele que abre antes mesmo que batamos. Contudo, Jesus usa a figura do homem cansado para dizer: se até um homem dormindo pode atender, quanto mais o Deus que é Amor. O aparente silêncio de Deus não é indiferença, é pedagogia: Ele amadurece o desejo pela demora, fortalece a fé pela espera.

Essa lógica reaparece em Lucas 18,1-8, com a viúva insistente diante do juiz injusto, e em Mateus 15,21-28, com a mulher cananeia. Em ambos, a insistência é expressão de confiança. O silêncio divino é o ventre da esperança: onde não há resposta, nasce a fidelidade. Orar é suportar o silêncio com amor.

Psicologicamente, essa parábola ensina a lidar com a frustração. Vivemos numa cultura da pressa e do controle; queremos resultados instantâneos, respostas imediatas, orações de “entrega express”. Mas a fé não é aplicativo de entrega, é caminho de gestação. Orar é treinar o coração para esperar. É o exercício espiritual da paciência. Em tempos de ansiedade e burnout, a oração perseverante é revolução interior. O homem da parábola não se fecha, não se resigna; ele age. Ele vai, pede, insiste. Sua oração é ativa. É a imagem da espiritualidade que une contemplação e ação. Pedir, buscar e bater são três dimensões da existência orante: pensar, desejar e agir.

O pedido de  pão no meio da noite remete à cultura da hospitalidade no mundo semita. Acolher o viajante era dever sagrado. Negar pão a um hóspede era desonra coletiva. A parábola, portanto, revela também a conversão social que o Reino exige: abrir a porta da compaixão em meio à indiferença. Na casa trancada está a imagem de um mundo egoísta; no homem que bate, a imagem da Igreja que insiste por justiça. Hoje, as portas fechadas têm outros nomes: templos que não acolhem os pobres, instituições religiosas que protegem estruturas eclesiásticas mas não pessoas, fiéis que confundem espiritualidade com consumo religioso. O chamado de Jesus é claro: abrir as portas.

Orar é, pois, ato político e profético. É a recusa de se conformar com o sistema da indiferença. Cada súplica é um protesto contra o fatalismo. Quando o mundo diz “não há saída”, o orante responde “há um Deus”. A oração insistente é resistência à desesperança. Ela impede que a alma se acomode. O discípulo que ora se torna subversivo da lógica dominante, porque acredita que o amor ainda é possível.

O “bater à porta” é gesto ontológico: o ser humano é aquele que reconhece sua carência e se abre ao Outro. Orar é o gesto do ser incompleto que busca plenitude. A oração destrói o narcisismo espiritual e nos faz seres relacionais. Kierkegaard dizia: “A oração não muda Deus, muda quem reza.” Nela, o desejo egoísta se purifica até se tornar comunhão.

A teologia lucana culmina num ponto de virada: o dom que o Pai dá não são “coisas boas”, mas o Espírito Santo. É um golpe na teologia da prosperidade, que transforma a fé em mercado. O Pai não é distribuidor de milagres, é Amor que dá o que mais precisamos, não o que mais queremos. O Evangelho liberta da idolatria dos milagres, do clericalismo que faz da oração um privilégio, da espiritualidade de palco que transforma a fé em show. Jesus fala de um homem qualquer — um leigo, um vizinho, um amigo —, não de um sacerdote. O Reino começa nas casas, nas cozinhas, nas madrugadas em que alguém ainda ousa bater.

O Vaticano II recorda que todos os batizados participam do sacerdócio comum de Cristo. A oração, portanto, não é monopólio, mas missão compartilhada. E a Gaudium et Spes lembra que as alegrias e dores do mundo são também as da Igreja. Orar é solidarizar-se. A Evangelii Gaudium insiste que a oração missionária abre o coração. O discípulo que ora não foge da realidade; mergulha nela com compaixão. Quem recebe o Espírito se torna pão partilhado.

 Orígenes via nesse homem noturno a alma que busca o Pão da Vida até ser alimentada. João Crisóstomo ensinava que “Deus tarda para acender o desejo do dom”. Gregório Magno dizia: “Se paramos de rezar, o Espírito se apaga em nós.” Para os Padres, orar era manter o fogo aceso — um fogo que se alimenta de paciência.

Sabemos que Lucas escrevia para comunidades cansadas, decepcionadas com o atraso da volta do Senhor. O convite à perseverança era resistência espiritual. O homem que bate à meia-noite é imagem da Igreja que, na escuridão do Império, continua batendo — e, no nosso tempo, continua batendo nas portas da injustiça, das guerras, da desigualdade e da indiferença. A oração é o modo de não desistir do Reino.

Por isso, essa parábola é profundamente profética. Em um tempo em que muitos se acomodam à frieza do mundo e à superficialidade da fé, Jesus nos pede para continuar batendo. Mesmo quando as portas da Igreja se fecham por medo ou elitismo, a fé popular continua insistindo — nas novenas, nas romarias, nas velas acesas nas janelas das periferias. É ali que o Espírito mora: no povo que insiste.

A oração insistente é, portanto, o contrário da resignação. É resistência, é amor que não desiste. Como dizia São Romero da América, “na semana injusta, a oração é a força dos que não têm força.” É essa fé que mantém o mundo respirando. Orar é manter o fogo da esperança aceso nas noites longas da história. Não é fugir, é resistir amando.

Lucas 11,5-13 nos recorda que a fé não é pressa, é perseverança. Orar é insistir na bondade de Deus quando tudo parece contrário. É continuar batendo porque sabemos que, do outro lado, há um Pai — não um tirano, mas um Amor. É aprender a desejar o que Deus quer dar, e não o que nosso ego exige receber. É descobrir que o maior dom não é a resposta, mas o Espírito que nos ensina a esperar.

Que esse Evangelho, repetido ano após ano, encontre em nós um coração que não se cansa de pedir, buscar e bater. Que a insistência se torne forma de amor, e o amor, forma de oração. Que, quando a noite do mundo parecer longa, sejamos nós os amigos que continuam batendo até que a porta da esperança se abra e o pão da vida seja partilhado entre todos.



DNonato – Teólogo do Cotidiano


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 9,51-56

O Evangelho de Lucas, no capítulo 9, versículos 51 a 56, nos coloca diante de um momento decisivo da vida de Jesus: a sua decisão firme de subir a Jerusalém. O texto litúrgico recorda que, “ao se completarem os dias de sua elevação, Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). A liturgia proclama esse trecho específico na terça-feira da 26ª semana do Tempo Comum, mas convém lembrar que a narrativa aparece de forma mais ampla, até o versículo 62, no 13º Domingo do Tempo Comum do Ano C, quando o chamado radical ao discipulado se torna ainda mais evidente. Essa contextualização litúrgica é importante porque nos ajuda a perceber como a Igreja distribui, ao longo do ano, os momentos pedagógicos da caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, caminho que é, ao mesmo tempo, histórico e teológico, pessoal e comunitário, pedagógico e profético.

Lucas organiza o Evangelho de tal maneira que Jerusalém se torna o ponto de chegada e, ao mesmo tempo, o lugar da revelação do verdadeiro sentido da missão. Não se trata apenas de um deslocamento geográfico, mas de um caminho de entrega radical, de revelação da identidade messiânica de Jesus e de desmascaramento das falsas compreensões do poder religioso e político. Ao tomar a firme decisão, Jesus se coloca em oposição ao fluxo da história marcada pela dominação imperial de Roma e pela cumplicidade de setores do judaísmo oficial. Essa decisão é também a manifestação da liberdade plena de quem sabe que amar exige atravessar o risco, enfrentar as rejeições e expor-se à violência.

A recusa dos samaritanos em acolher Jesus neste caminho (Lc 9,53) tem raízes históricas e culturais. Os samaritanos não acolheram Jesus nem aqueles que iam a Jerusalém porque a divisão histórica e religiosa entre judeus e samaritanos era profunda. Após a conquista assíria do Reino do Norte, os israelitas foram deportados e povos estrangeiros se estabeleceram na região, misturando-se com os remanescentes locais (2Rs 17,24-34). Essa mistura gerou uma identidade religiosa diferente, centrada no monte Garizim e em práticas que os judeus de Jerusalém consideravam ilegítimas. Para os samaritanos, os judeus representavam exclusão, arrogância e centralização do culto em Jerusalém, o que gerava desconfiança e ressentimento. Assim, qualquer judeu que se dirigisse a Jerusalém era visto como representante de uma tradição que os marginalizava e desautorizava sua fé local, tornando natural a rejeição a Jesus e aos mensageiros que anunciavam a boa nova do Reino.

Quando Tiago e João, inflamados de zelo, pedem que desça fogo do céu sobre os samaritanos (Lc 9,54), a cena não é apenas histórica, mas profética. Ela denuncia a tentação humana de transformar Deus em instrumento de vingança, poder ou exclusão. No mundo contemporâneo, essa mesma lógica aparece nas polarizações ideológicas que atravessam sociedades inteiras. Há aqueles que, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, acreditam que a verdade política ou religiosa que defendem justifica ataques simbólicos ou reais sobre os adversários. A violência não é apenas física; é também cultural, econômica e espiritual. O fogo que Tiago e João queriam fazer cair sobre os samaritanos encontra ecos nos discursos de ódio que se espalham entre setores de diferentes tradições políticas, muitas vezes travestidos de zelo religioso ou moral.

Entre católicos e evangélicos, por exemplo, percebe-se a mesma tentação de fazer “descer fogo” sobre o outro. É a disputa pelo controle do discurso público, o julgamento moral, a demonização do diferente, transformando a fé em arma de imposição. Entre cristãos e grupos de matriz africana, essa mesma lógica se manifesta quando há tentativa de deslegitimar práticas religiosas ou de coagir sincretismos, esquecendo que o Evangelho de Jesus atravessa fronteiras culturais e reconhece a alteridade como parte da criação divina. A recusa em acolher o diferente, que Jesus confronta na Samaria, se repete hoje quando se deseja impor uma fé única e uniforme, negando a pluralidade legítima da experiência humana.

Essa lógica de exclusão também se observa nas tensões entre heterossexuais e a comunidade LGBTQIAPN+. Muitos querem transformar diferenças de orientação e identidade em justificativa para discriminação, agressão simbólica ou até física, ignorando o princípio cristão da dignidade de cada pessoa, criada à imagem de Deus (Gn 1,27). O fogo que se deseja fazer cair sobre os outros é sempre expressão de medo, insegurança e incapacidade de conviver com a alteridade. Lucas nos lembra, com clareza, que a missão de Jesus não é consumir ou destruir, mas atravessar as barreiras do ódio e da incompreensão, abrindo caminho para reconciliação e diálogo.

A polarização religiosa e ideológica, portanto, não é neutra. Ela reproduz a lógica de Tiago e João, que preferem a destruição do outro à paciência pedagógica de Jesus. Extremismos de qualquer lado — políticos, religiosos ou culturais — tendem a reduzir a complexidade do humano, transformando pessoas em inimigos a serem apagados. A repreensão de Jesus é, assim, uma advertência atemporal: Deus não é instrumento de vingança, e o verdadeiro discípulo não se deixa arrastar pela lógica da intolerância, mas pela coragem de caminhar, dialogar e testemunhar o amor, mesmo diante da rejeição.

Jerusalém  é o lugar do poder religioso e político, mas também o lugar do sacrifício pascal. Ao decidir subir a Jerusalém, Jesus sabe que enfrentará o sinédrio, Herodes, Pilatos e o templo transformado em mercado (cf. Lc 19,46). Ele caminha para o coração do sistema que transforma a fé em mercadoria, que instrumentaliza Deus para legitimar privilégios. Essa crítica é profundamente atual diante das novas formas de “templo” erigidas por pastores digitais, padres empresários e políticos messiânicos, que vendem prosperidade e domínio como se fossem o Evangelho. A teologia da prosperidade, ao prometer bênçãos materiais em troca de dízimos e fidelidade, repete a lógica da barganha que Jesus denunciou. A teologia do domínio, ao confundir fé com poder político e imposição cultural, reedita o pedido dos discípulos: fazer descer fogo contra os outros. Ambas negam a cruz, porque não aceitam que a vitória de Deus se manifeste na fragilidade do amor crucificado. Orígenes, comentando este trecho, dizia que Jesus não veio para destruir os pecadores, mas para destruir o pecado, e que o fogo que ele traz não é o da vingança, mas o da purificação interior. Santo Agostinho, por sua vez, advertia que os discípulos, ao pedirem fogo, estavam cegos pelo desejo de glória humana, enquanto o Mestre os chamava a um caminho de humildade. Essa tensão entre a tentação da glória e a pedagogia da cruz atravessa toda a história da Igreja, manifestando-se hoje no clericalismo, que transforma o ministério em privilégio, e na religião-espetáculo, que busca aplausos em vez de conversão.

Aqui  se revela  uma cena  de um confronto entre duas concepções de poder: a potência como dom de si ou a potência como imposição sobre o outro. Nietzsche criticava o cristianismo como moral dos fracos; mas, em Jesus, vemos que a verdadeira força não está em dominar, mas em entregar-se. Hannah Arendt lembrava que a violência nunca cria poder verdadeiro, apenas destrói; poder autêntico nasce do consenso, da palavra e da ação conjunta. Jesus, ao rejeitar o fogo da vingança, funda um poder novo, que é o poder do amor reconciliador.

Precisamos  saber que as culturas humanas sempre usaram o sagrado como justificativa para eliminar inimigos. René Girard mostrou como os mecanismos do bode expiatório estruturaram sociedades inteiras, legitimando a violência contra minorias. Jesus, ao repreender os discípulos, rompe com essa lógica sacrificial: ele não autoriza a violência, mas se oferece a si mesmo como vítima inocente, revelando a injustiça do sistema e abrindo o caminho da reconciliação.

O Magistério da Igreja também insiste nessa chave. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n. 78), afirma que a paz nunca é fruto da violência, mas da justiça e do amor. A Evangelii Gaudium (n. 93-97) denuncia a mundanidade espiritual que leva muitos a buscar prestígio e poder em nome da fé. E a Fratelli Tutti (n. 25-28) recorda que as guerras e divisões sempre nascem da incapacidade de reconhecer o outro como irmão. Assim, ao repreender os discípulos, Jesus já antecipa o coração do Evangelho social: não se trata de excluir, mas de abrir espaço para o encontro.

Se olharmos para os paralelos sinóticos, veremos que esse episódio é exclusivo de Lucas, mas a lógica da rejeição e da incompreensão aparece em Marcos e Mateus em outras formas, como na rejeição de Jesus em Nazaré (Mc 6,1-6; Mt 13,54-58) ou no envio dos discípulos em meio a perseguições (Mt 10,16-23). O tema é constante: seguir Jesus significa enfrentar incompreensões, rejeições, até mesmo da parte dos mais próximos. A Samaria é, assim, um espelho das nossas próprias resistências: quantas vezes recusamos acolher Jesus porque ele não vem confirmar nossos preconceitos, mas desinstalar nossas seguranças?

O texto conclui de modo sóbrio: “E seguiram para outra aldeia” (Lc 9,56). Não há vingança, não há fogo, não há espetáculo. Apenas a continuidade do caminho. Jesus não se prende à recusa, não perde tempo em guerras inúteis. Ele segue adiante, porque sua missão é maior do que as pequenas disputas humanas. Esse detalhe é profundamente pedagógico: a Igreja também precisa aprender a seguir adiante, sem se enredar em polarizações vazias, sem gastar energia em guerras culturais que apenas alimentam o ódio.

O caminho para Jerusalém é, portanto, o caminho da fidelidade ao amor até o fim. É o caminho que rejeita o clericalismo, a fé como mercadoria, a violência travestida de zelo, a religião que se vende ao poder. É o caminho que chama cada discípulo a vencer a tentação de fazer descer fogo sobre os outros, para deixar que o fogo do Espírito desça primeiro sobre si. Só assim a missão se cumpre, e a história encontra novo rumo.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 5,33-39

O Evangelho proclamado nesta sexta-feira, na 22ª Semana do Tempo Comum do ano impar, apresenta uma das mais belas imagens usadas por Jesus: a do Esposo e a do vinho novo em odres novos. É um texto que também encontramos em Mateus 9,14-17 que já refletimos proclamado  no sábado da 13ª Semana do Tempo Comum  ano  e em Marcos 2,18-22 proclamado   na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, sempre em diálogo com os fariseus e os discípulos de João Batista, que questionavam por que os discípulos de Jesus não jejuavam como os outros. A liturgia nos recorda este trecho como convite a romper com práticas religiosas estéreis e abrir-nos à novidade da graça. Não é por acaso que esse Evangelho aparece em dias comuns, fora de grandes festas litúrgicas: ele é, em si, uma convocação para que o ordinário de nossas vidas seja transformado em extraordinário pela presença do Esposo.

Os fariseus e mestres da Lei tinham feito do jejum e das práticas ascéticas um critério de identidade e status. O problema não era o jejum em si, já recomendado pelos profetas como Isaías (cf. Is 58,6-7), mas a forma como ele era usado: como espetáculo de piedade, instrumento de exclusão e medida de superioridade espiritual. Jesus responde com uma imagem desconcertante: “Podem fazer jejuar os convidados do casamento enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado; então jejuarão”. A festa nupcial era, no imaginário bíblico, o símbolo da aliança de Deus com seu povo (cf. Os 2,16-22; Is 62,4-5). Jesus se apresenta como o Esposo: sua presença inaugura a festa do Reino. Jejuar na festa seria negar a alegria de um Deus que visita o seu povo.

Aqui já se percebe a ruptura entre duas concepções religiosas: de um lado, a religião do controle, do luto perpétuo, da disciplina rígida que sufoca; do outro, a religião da vida, da celebração, da comunhão que transborda. O filósofo Nietzsche criticava o cristianismo dizendo que os cristãos “não tinham cara de ressuscitados”. É essa caricatura de fé sisuda, triste e sem alegria que Jesus desmonta. Ele não rejeita o jejum, mas o coloca em seu devido lugar: como expressão de busca, e não como moeda de prestígio. O verdadeiro jejum é o que rompe correntes de injustiça, liberta os oprimidos, reparte o pão com os famintos (cf. Is 58,6-7).

A parábola do remendo e dos odres prolonga essa crítica. Remendo novo em pano velho rasga ainda mais; vinho novo em odre velho se perde. A novidade do Evangelho não cabe em estruturas endurecidas, sejam elas rituais, sociais ou mentais. Paulo dirá em 2Coríntios 3,6 que “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. E em Jeremias 31,31-34 Deus já havia prometido uma nova aliança, não escrita em pedra, mas gravada no coração. O vinho novo é essa vida no Espírito, anunciada também por Joel 2,28, quando Deus derramaria seu Espírito sobre toda carne, jovens e velhos, homens e mulheres, escravos e livres.

A patrística entendeu isso com força. São João Crisóstomo ensinava que “o jejum verdadeiro é afastar-se do mal, refrear a língua, dominar a cólera, afastar a concupiscência, caluniar menos, jurar menos, mentir menos” (Homiliae in Matthaeum). Orígenes via no vinho novo o próprio Cristo, que não se deixa aprisionar em categorias velhas. Santo Agostinho afirmava: “Amemos, e façamos o que quisermos”, porque o amor é o único odre capaz de conter a plenitude do Evangelho. Basílio Magno alertava que quem jejuava apenas da comida, mas devorava o próximo com fofocas e injustiças, não entendia nada do espírito de Cristo.

O ser humano precisa de ritos, mas também precisa de sentido. Quando o rito se transforma em peso sem alma, torna-se alienação. A psicologia mostra que práticas religiosas podem tanto libertar quanto adoecer, dependendo se estão a serviço da vida ou da repressão. A sociologia confirma: quando a religião se torna instrumento de poder e de distinção social, ela gera exclusão e desigualdade. Historicamente, sabemos que o judaísmo do tempo de Jesus estava dividido entre grupos que disputavam quem interpretava melhor a Lei. Nesse ambiente, a proposta de Jesus soa radical: não se trata de competir na rigidez, mas de anunciar um Deus que é festa, presença, amor que transborda.

Esse texto nos coloca diante de uma crítica urgente às teologias distorcidas de hoje. A teologia da prosperidade transforma o Evangelho em barganha e faz do jejum um investimento para obter bens materiais. A teologia do domínio, muito comum nos discursos da extrema-direita religiosa, usa a fé como arma de poder político, exigindo sacrifícios que alimentam o ego dos líderes, mas não libertam o povo. O individualismo religioso reduz tudo à busca de uma espiritualidade de bem-estar, transformando a fé em mercadoria. E o clericalismo, como denuncia o Papa Francisco, é “uma perversão” que aprisiona a novidade do Espírito em odres velhos de poder e privilégio. Nesse contexto, o Evangelho de hoje é uma pancada profética: o vinho novo de Cristo não cabe nesses odres corrompidos.

A Gaudium et Spes (n. 63-66) denuncia a mercantilização da vida, mostrando que o ser humano vale mais pela dignidade do que pelo consumo. A Evangelii Gaudium insiste que a Igreja não pode ser alfândega que controla, mas casa aberta que acolhe. A Fratelli Tutti recorda que a verdadeira religião gera fraternidade, não muros de exclusão. Tudo isso ecoa o mesmo chamado: odres novos para o vinho novo.

Mas quem são os odres novos hoje?

 Não são as estruturas rígidas, nem os palácios dourados do clero, nem os pregadores digitais que vendem bênçãos online. Os odres novos são o povo pobre, que com sua fé simples acolhe a novidade do Evangelho. É a mãe que reparte o pouco alimento, o jovem que resiste à lógica da violência, o trabalhador que não perde a esperança. É entre os pobres que o vinho novo do Reino encontra espaço para transbordar.

Amós já havia denunciado os que “vendem o justo por prata e o pobre por um par de sandálias” (Am 8,6). Jesus, ao purificar o Templo, denuncia a religião como mercado (Jo 2,13-17). Hoje, vemos a mesma cena se repetir quando igrejas se transformam em empresas e padres ou pastores em gestores de marketing religioso. O vinho novo de Cristo não cabe nesse sistema. Ele rompe, derrama, transborda para as ruas, para as casas, para a vida.

Não nos enganemos: é mais fácil continuar remendando pano velho do que deixar-se renovar. A mudança dói, porque exige conversão. Mas o Espírito sopra. Como dizia Santo Irineu, “a glória de Deus é o ser humano vivo”. Um ser humano vivo não cabe em esquemas de morte.

O final do Evangelho é provocador: “Ninguém que bebeu o vinho velho quer o novo, pois diz: o velho é melhor”. Jesus conhece nossa resistência. Preferimos a segurança do velho, mesmo que morto, à ousadia do novo que exige risco. Mas o Reino não espera. O vinho novo já foi derramado. Como em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ele é melhor, mais abundante, mais surpreendente. Ele é sinal de que Deus não nos dá migalhas, mas transborda em graça.

Eis o chamado deste Evangelho: deixar-se transformar em odres novos, capazes de acolher o vinho da alegria, da justiça e do amor. Que nossa vida não seja remendo em pano velho, mas veste nova do Espírito. Que nosso jejum não seja espetáculo, mas reconciliação. Que nossa religião não seja mercado, mas festa do Esposo. Que não devoremos nossos irmãos com a boca, enquanto nos vangloriamos de abstinências exteriores. Que sejamos Igreja em saída, odres novos, pobres com os pobres, para que o vinho novo do Reino transborde sobre toda a terra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 7 de junho de 2025

Um outro olhar no texto de João 20,19-23 — Domingo de Pentecostes

A liturgia deste Domingo de Pentecostes convida-nos a contemplar o sopro que renova a humanidade, a chama que inflama a fé e a força que rompe as portas do medo e da indiferença. 

No ciclo litúrgico atual, João 14,15-16.23b-26 é proclamado na Missa do Dia da Solenidade de Pentecostes, apresentando a promessa do Espírito no contexto do discurso de despedida durante a Última Ceia. Já João 20,19-23 é proclamado na Missa Vespertina da Vigília de Pentecostes e também retorna em outros momentos importantes do calendário litúrgico. Na oitava da Páscoa, especialmente no Segundo Domingo da Páscoa do Ano C, a liturgia proclama João 20,19-31, integrando esta aparição do Ressuscitado ao tema da fé pascal e da misericórdia. Além disso, João 20,19-23 possui forte presença sacramental e eclesial na reflexão sobre reconciliação, missão e dom do Espírito. A própria disposição litúrgica destes textos revela uma hermenêutica da Igreja: a Vigília contempla o Espírito como dom do Ressuscitado que recria a comunidade; a Missa do Dia apresenta o Espírito como presença permanente que sustenta a missão.

Já refletimos sobre o evangelho do domingo de Pentecostes  em junho de  2022 com texto,   Um olhar sobre João 20,19-23 e também já fizemos 3 vídeos falando do mesmo texto em 2022, 2023 e 2024, mas hoje vamos mergulhar mais fundo, ampliando a  nossa visão  sobre esse texto fundamental para  fé e missão de quem se diz cristão.

“Ao anoitecer do primeiro dia da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco!’” (Jo 20,19).

O “primeiro dia da semana” anuncia o tempo novo, o tempo da Ressurreição, quando a luz insiste em romper as trevas. O sol se põe no calendário humano, mas o Ressuscitado atravessa as portas fechadas — não apenas de madeira, mas também as barreiras do medo, da insegurança, da dor e da desesperança. As portas fechadas são o símbolo do coração ferido, da comunidade dispersa e traumatizada pelo drama da cruz. Jesus entra. Ele não exige, não acusa, não condena. Sua presença é uma presença de paz, de reconciliação e de esperança. Ele se põe no meio, no centro da comunidade. Seu primeiro dom é a paz — uma paz que cura, que reconstrói, que liberta (cf. Is 57,19). Esta paz não é ausência de conflito, mas a presença viva do Reino que vence o medo e a violência.

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, a Solenidade de Pentecostes encerra o Tempo Pascal e constitui uma das grandes colunas do ano litúrgico, juntamente com a Páscoa e o Natal. As leituras proclamadas em Atos  2,1-11; Salmo 103(104); I Coríntios 12,3b-7.12-13 ou Romanos 8,8-17; João 14,15-16.23b-26 ou João 20,19-23 aparecem tanto na Vigília quanto na Missa do Dia e revelam duas dimensões inseparáveis do mesmo mistério: a efusão do Espírito sobre a Igreja e a presença permanente do Ressuscitado na comunidade. Na tradição oriental, especialmente na Igreja Ortodoxa, Pentecostes é celebrado como manifestação plena da vida trinitária e renovação da criação; entre antigas Igrejas históricas, como a Igreja Copta Ortodoxa e a Igreja Apostólica Armênia, permanece a compreensão de Pentecostes como o nascimento da comunidade messiânica anunciada pelos profetas.

As leituras propostas pela liturgia desdobram diante da Igreja o mistério do Espírito Santo em ação. Elas não oferecem apenas uma doutrina sobre o Espírito, mas revelam sua presença criadora, histórica e transformadora: 

  • Atos mostra o Espírito reunindo povos;
  • Salmo contempla o Espírito renovando a criação; 
  • I Coríntios, Paulo apresenta o Espírito formando o Corpo de Cristo e gerando filhos e filhas de Deus;
  •  João revela o Espírito como dom do Ressuscitado e presença permanente na comunidade.

Contudo, Pentecostes não começa em Jerusalém. Seu horizonte nasce nas primeiras páginas da Escritura. “No princípio Deus criou o céu e a terra... e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,1-2). Desde o início, a presença do Espírito está ligada à vida e à ordem do mundo. O caos inicial não permanece abandonado; Deus age sobre ele. Esta imagem torna-se decisiva para compreender Pentecostes: o Espírito transforma caos em criação, dispersão em comunhão e medo em missão.

  • A primeira leitura, Atos 2,1-11, situa-se num momento historicamente significativo. Pentecostes coincide com a festa celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originalmente associada às colheitas (Ex 23,16; Dt 16,9-10), a festa passou a recordar a Aliança do Sinai. Lucas retoma esta memória e realiza uma releitura cristológica e eclesial. O vento, o fogo e a voz divina que marcaram o Sinai (Ex 19,16-19) reaparecem agora em Jerusalém. No Sinai nasce Israel como povo; em Pentecostes nasce a Igreja missionária..Os sinais narrados por Lucas possuem forte valor simbólico. O vento remete à criação (Gn 1,2), à abertura do mar (Ex 14,21) e à visão dos ossos secos (Ez 37,9-10). O fogo recorda a sarça ardente (Ex 3,2), a manifestação no Sinai (Ex 19,18) e a coluna luminosa do êxodo (Ex 13,21). O milagre das línguas dialoga diretamente com Babel (Gn 11,1-9): ali a humanidade fragmenta-se; aqui a diversidade permanece, mas torna-se lugar de comunhão.
  • O Salmo 103 amplia o horizonte e conduz a assembleia para a dimensão cósmica da ação divina: “Enviais o vosso Espírito e renovais a face da terra” (Sl 104,30). O salmo não contempla apenas a humanidade, mas toda a criação. Animais, águas, campos e ciclos da vida aparecem sustentados continuamente por Deus. A renovação evocada pelo salmista não significa mera restauração moral; trata-se de recriação contínua. Quando Deus retira o sopro, a vida retorna ao pó (Sl 104,29); quando envia seu Espírito, tudo renasce.
  • A segunda  leitura I Coríntios 12,3b-7.12-13, o foco recai sobre a comunidade. Corinto vivia tensões internas, desigualdades e disputas. Paulo responde afirmando que há diversidade de dons e unidade no Espírito. O corpo torna-se imagem eclesial. Nenhum membro é autossuficiente. “Todos fomos batizados num só Espírito” (1Cor 12,13). Já Rm 8,8-17 desloca o olhar para a experiência interior e existencial. O Espírito não produz escravidão, mas filiação: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). O medo é substituído pela confiança.

É neste horizonte que os Evangelhos joaninos devem ser lidos. Jo 14,15-16.23b-26 situa-se dentro dos capítulos 13–17, conhecidos como discurso de despedida. Historicamente, a cena está localizada na Última Ceia; teologicamente, porém, o evangelista escreve para comunidades do final do século I, provavelmente marcadas por perseguições, separações internas e sensação de ausência. A comunidade já não vê Jesus fisicamente e enfrenta a pergunta: como permanecer fiel quando o Mestre não está visivelmente presente?

A resposta de João é profundamente teológica. Jesus não promete substituição; promete permanência. “Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro defensor” (Jo 14,16). O contexto literário é decisivo. Pouco antes Jesus havia lavado os pés dos discípulos (Jo 13,1-15), anunciado a traição (Jo 13,21-30) e revelado sua partida iminente (Jo 13,33). O ambiente é de ruptura e incerteza. A promessa do Espírito surge precisamente no momento do medo.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Na hermenêutica joanina, guardar não significa mera obediência jurídica. O verbo possui sentido existencial: acolher, viver e permanecer. O mandamento central é o amor (Jo 13,34). Portanto, a fidelidade a Cristo não é legalismo, mas permanência na lógica do amor. O texto prossegue: “Nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). Esta afirmação possui enorme densidade exegética. No Antigo Testamento, a presença de Deus estava ligada ao tabernáculo (Ex 25,8), ao templo (1Rs 8,10-13) e à glória divina que acompanhava Israel (Ez 43,1-5). João desloca esta presença. O novo lugar da habitação divina deixa de ser o edifício e passa a ser a comunidade dos discípulos. A Igreja torna-se espaço da presença.

O Espírito é descrito como aquele que “ensinará tudo e fará recordar” (Jo 14,26). O verbo recordar possui importância decisiva no quarto Evangelho. Não se trata de simples memória intelectual. Em Jo 2,22, após a ressurreição, os discípulos recordam as palavras de Jesus e compreendem as Escrituras. Em Jo 12,16, só depois da glorificação entendem plenamente sua entrada em Jerusalém. O Espírito atua precisamente neste processo: conduz a comunidade à compreensão progressiva do mistério de Cristo.

João 20,19-23, proclamado na Vigília de Pentecostes, apresenta outra perspectiva complementar. Se Jo 14 é promessa, Jo 20 é cumprimento. O texto situa-se “ao anoitecer do primeiro dia da semana” (Jo 20,19). O detalhe temporal possui enorme valor teológico. O “primeiro dia” remete ao início da criação (Gn 1,1-5). João está narrando uma nova criação. As portas fechadas por medo (Jo 20,19) constituem elemento central da narrativa. Exegeticamente, o detalhe vai além da descrição física. Representa a situação existencial da comunidade: medo, luto, fracasso e desorientação. Os discípulos testemunharam a prisão (Jo 18,12), a crucifixão (Jo 19,18) e a morte. A comunidade encontra-se paralisada.

Então Jesus entra e coloca-se “no meio”. Este posicionamento possui significado eclesiológico. O centro da comunidade não é mais o trauma, mas a presença do Ressuscitado. Sua primeira palavra é paz: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Esta paz ecoa as promessas proféticas: Is 9,6 apresenta o Messias como príncipe da paz; Is 32,17 associa paz e justiça; Mq 4,3 descreve a superação da violência. Jesus mostra as mãos e o lado (Jo 20,20). O Ressuscitado conserva as marcas da paixão. A glória não elimina a história. As feridas permanecem transfiguradas. Existe aqui uma profunda antropologia do sofrimento: Deus não apaga as cicatrizes humanas; redime-as.

Em seguida vem o gesto central: “Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). A relação com Gn 2,7 é evidente. Assim como Deus soprou vida sobre o primeiro ser humano, Cristo sopra vida sobre a nova humanidade. O paralelo com Ez 37 também é importante: os ossos secos recebem novamente vida. O cenáculo torna-se lugar de recriação.

Aqui vale a pena observar  alguns detalhes  sobre alguns fatos  no texto de João 20,19-23

  1. O primeiro dia da semana (Jo 20,19); primeiro dia da semana” não é apenas uma marca temporal. João o apresenta como sinal de uma nova criação. Assim como a criação começou com a luz (Gn 1,3-5), a Ressurreição inaugura um tempo novo. Cristo ressuscitado inicia uma nova humanidade (2Cor 5,17; Ap 21,5).
  2. As portas fechadas (Jo 20,19): As portas fechadas simbolizam o medo, o trauma e a fragilidade humana após a cruz. Representam o coração ferido e a comunidade paralisada. Na Escritura, o medo frequentemente conduz ao fechamento e ao esconder-se (Gn 3,8-10; 1Rs 19,3-4; Jn 1,3). 
  3. Jesus entra no cenáculo (Jo 20,19): O Ressuscitado atravessa as barreiras humanas. Sua entrada simboliza a vitória sobre a morte, o medo e a desesperança. Cristo entra onde a vida parece interrompida e renova o povo, como Deus fez com os ossos secos no exílio (Ez 37,1-14).
  4. Jesus no meio da comunidade (Jo 20,19): Jesus coloca-se “no meio”. O centro da comunidade deixa de ser o medo e passa a ser Cristo. A presença de Deus no meio do povo é tema constante da Escritura (Lv 26,11-12; Mt 18,20; Ap 21,3).
  5. A paz esteja convosco (Jo 20,19.21): A paz oferecida por Jesus é plenitude, reconciliação e restauração. Não é ausência de conflito, mas presença do Reino. Os profetas ligam paz e justiça (Is 9,6; Is 32,17; Mq 4,3; Sl 85,10).
  6. As mãos e o lado feridos (Jo 20,20): As feridas permanecem no Ressuscitado. Elas simbolizam a memória redimida da paixão. Deus não apaga a história humana; transforma-a. O lado aberto recorda a cruz e a vida que brota dela (Jo 19,34; Is 53,5; Zc 12,10).
  7. A alegria dos discípulos (Jo 20,20): A alegria nasce do encontro com o Ressuscitado. O medo dá lugar à esperança. Cumpre-se a promessa de Jesus: “A vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16,20-22; Sl 30,11-12).
  8. O envio missionário (Jo 20,21): "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” O cenáculo deixa de ser refúgio e torna-se ponto de partida. A comunidade é enviada ao mundo para continuar a missão de Cristo (Mt 28,19-20; At 1,8; Lc 4,18-19).
  9. O sopro do Ressuscitado (Jo 20,22):Jesus sopra sobre os discípulos e comunica vida nova. O gesto recorda a criação do ser humano (Gn 2,7) e a visão dos ossos secos (Ez 37,9-10). O Ressuscitado realiza uma nova criação (2Cor 5,17).
  10. O Espírito Santo (Jo 20,22): O Espírito é dom do Ressuscitado e presença permanente de Deus. Ele ensina, recorda, fortalece e conduz a comunidade (Jo 14,16-17.26; Rm 8,14; At 2,1-4).
  11. O perdão dos pecados (Jo 20,23): O mandato do perdão simboliza a missão reconciliadora da Igreja. A comunidade nasce como espaço de cura, reconciliação e restauração da vida (2Cor 5,18-20; Mt 18,18; Tg 5,16).
  12. O cenáculo: O cenáculo é símbolo da Igreja nascente. Lugar do medo que se torna lugar da missão; espaço fechado que se abre ao mundo. Ali se unem cruz, Ressurreição e Pentecostes (At 1,13-14; At 2,1-4).

O envio do Espírito conduz imediatamente à missão: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Missão e Espírito aparecem inseparáveis. A comunidade não recebe o Espírito para fechamento, mas para saída. O  mandato ligado ao perdão: “A quem perdoardes os pecados serão perdoados” (Jo 20,23). No contexto joanino, o perdão está ligado à reconciliação e à restauração da comunhão. O Ressuscitado forma uma comunidade reconciliadora, chamada a testemunhar a vida nova..Todo este conjunto litúrgico revela um movimento progressivo. Atos mostra o Espírito reunindo povos; o Salmo contempla o Espírito renovando a criação; Paulo apresenta o Espírito formando comunhão e filiação; João revela o Espírito como presença do Ressuscitado e força missionária.

Por isso Pentecostes permanece atual. O Espírito continua transformando medo em esperança, dispersão em comunhão e sofrimento em missão. Continua renovando a terra e conduzindo a Igreja. Diante de um mundo marcado por violência, desigualdade, crises de sentido e fragmentação humana, a liturgia continua fazendo ecoar a oração do salmista: “Enviais o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 104,30). Renovar significa recriar. Significa permitir que Deus continue escrevendo sua obra na história humana.

O Ressuscitado continua entrando nas portas fechadas da humanidade e repetindo aquilo que disse no cenáculo: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Continua atravessando os medos que aprisionam, as feridas que dividem, as injustiças que ferem a dignidade humana e os silêncios que sufocam a esperança. Continua colocando-se no meio do seu povo, não como memória distante, mas como presença viva e atuante na história. E continua soprando vida sobre o mundo. O mesmo sopro que pairava sobre as águas da criação (Gn 1,2), que deu vida ao ser humano (Gn 2,7), que levantou os ossos secos no exílio (Ez 37,9-10) e incendiou a Igreja em Pentecostes (At 2,1-4), permanece renovando a face da terra (Sl 104,30). O Espírito continua transformando medo em coragem, dispersão em comunhão, luto em esperança e fechamento em missão.

Pentecostes, portanto, não pertence apenas ao passado da Igreja; permanece como acontecimento permanente. Enquanto houver povos divididos, pobres esquecidos, vidas feridas, criação ferida pelo egoísmo humano e corações encerrados pelo medo, o Espírito continuará chamando a Igreja a sair do cenáculo e a tornar presente a força libertadora do Evangelho. Por isso, a oração do salmista permanece atual e necessária: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 104,30). Renovar é recriar. É permitir que Deus continue escrevendo sua obra na história humana. É abrir as portas para que o Ressuscitado permaneça no meio da comunidade e do mundo.

Porque onde o Espírito sopra, a vida renasce; onde Cristo está presente, a paz floresce; e onde o Evangelho é vivido, a história nunca permanece a mesma. Pentecostes continua acontecendo onde portas se abrem, onde feridas são transformadas em serviço, onde pobres voltam a ser vistos e onde a Igreja abandona o medo para reencontrar sua missão. O Espírito não foi dado para conservar cinzas, mas para acender fogo; não para erguer muros, mas para reunir povos; não para sustentar privilégios, mas para renovar a face da terra. Onde o Espírito sopra, a vida resiste, a esperança renasce e a história volta a caminhar.

Hoje, diante do altar, peçamos:

Vem, Espírito Santo!

Vem, incendiar nossos corações, para que nenhuma cruz seja sem sentido, nenhuma lágrima, em vão, e nenhum dom, sepultado.

Vem, Espírito de compaixão, de coragem e de justiça.

Renova a tua Igreja. Renova a nossa fé.

Renova o rosto da terra.

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado, sopro entre ruínas.