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sábado, 4 de abril de 2026

Oitava, que isso?

 

A ideia de “oitava” na tradição cristã nasce de uma intuição profundamente bíblica: quando Deus age de forma decisiva na história, o tempo humano, marcado pela sucessão e pelo desgaste, não consegue conter plenamente a densidade desse agir. Por isso, a celebração não se esgota em um único dia, mas se estende por oito, formando como que um único grande dia prolongado, no qual cada jornada não repete mecanicamente a anterior, mas aprofunda, interioriza e atualiza o acontecimento central. Trata-se de uma pedagogia do sagrado que resiste à superficialidade, convidando o fiel não apenas a lembrar, mas a habitar o mistério.

Esse dinamismo não surge de forma arbitrária, mas encontra suas raízes na própria estrutura simbólica das Escrituras. No Antigo Testamento, o número sete expressa a totalidade da criação, como se vê no relato de Gn 1–2, onde o ciclo semanal culmina no repouso divino. O oito, por sua vez, aponta para aquilo que ultrapassa essa totalidade, indicando uma ruptura qualitativa, uma abertura para o novo que vem de Deus. Assim, a circuncisão ao oitavo dia (Gn 17,12; Lc 2,21) não é um detalhe ritual, mas sinal de inserção numa realidade que transcende o simples dado biológico: é entrada na Aliança, marca de pertencimento a um povo chamado a viver segundo uma promessa. De modo semelhante, certas celebrações cultuais prolongadas insinuam que o tempo litúrgico não é mera cronologia, mas espaço teológico onde Deus age e transforma.

No cristianismo, essa simbologia atinge seu ápice na ressurreição de Cristo. Jesus ressuscita no primeiro dia da semana (Mc 16,2), mas esse primeiro dia é simultaneamente interpretado pela tradição patrística como o oitavo dia, isto é, o início de uma nova criação que não está mais sujeita às limitações do tempo antigo. Aqui se revela uma chave hermenêutica fundamental: o domingo não é apenas um memorial cíclico, mas antecipação escatológica. Ele inaugura uma temporalidade nova, onde o futuro de Deus irrompe no presente humano. Prolongar a celebração pascal por oito dias, portanto, não é um acréscimo devocional, mas uma afirmação teológica de que a ressurreição não cabe em um instante, pois ela redefine toda a realidade.

A Oitava da Páscoa, a mais antiga e central da tradição litúrgica, expressa isso com radicalidade. Durante esses dias, a Igreja celebra cada jornada como se fosse o próprio domingo da ressurreição, insistindo que a vitória sobre a morte não pode ser fragmentada. A narrativa de Jo 20,19-29 ilumina essa dinâmica de maneira singular. Entre a primeira aparição do Ressuscitado e o encontro com Tomé, há um intervalo de oito dias. Esse dado não é meramente cronológico, mas teológico e antropológico: ele revela que a fé não se impõe instantaneamente, mas amadurece no tempo, atravessando dúvidas, resistências e feridas. Tomé encarna a condição humana que precisa tocar, verificar, elaborar. A oitava, nesse sentido, não é apenas liturgia, mas processo interior, caminho psicológico e espiritual no qual o medo se transforma em reconhecimento e a incredulidade em profissão de fé.

O Natal, por sua vez, desenvolve sua oitava para afirmar com igual força o mistério da encarnação. Nos primeiros séculos, diante de interpretações que diluíam a humanidade de Cristo, a Igreja insiste em prolongar a celebração do nascimento, como que dizendo: Deus entrou na história de modo irrevogável. A presença de figuras como Estêvão (At 7) dentro dessa oitava não é acidental. O primeiro mártir manifesta que o Deus que se faz carne gera uma humanidade nova, capaz de viver e morrer de maneira diferente. A encarnação, portanto, não é ideia abstrata, mas realidade concreta que se inscreve nos corpos, nas relações sociais e nas estruturas históricas. Ela denuncia toda forma de desumanização e convoca a uma existência marcada pela entrega e pela justiça.

Pentecostes, que por séculos também foi celebrado com oitava, aprofunda essa lógica ao evidenciar que o dom do Espírito Santo não se reduz a um evento pontual. Em Atos 2, o Espírito rompe as barreiras linguísticas e culturais, criando uma comunhão que não elimina as diferenças, mas as reconcilia. Aqui se pode estabelecer um paralelo exegético com Gn 11, a narrativa de Babel. Se ali a diversidade se torna motivo de dispersão e incompreensão, em Pentecostes ela se transforma em espaço de unidade na diferença. A oitava, nesse contexto, sublinha que a ação do Espírito é contínua, desinstaladora, sempre contrária a qualquer tentativa de aprisionar a fé em projetos de poder, nacionalismos estreitos ou uniformizações ideológicas.

Ao longo da história, outras festas também foram dotadas de oitavas, como Epifania e Corpus Christi, evidenciando a riqueza da tradição litúrgica. No entanto, as reformas posteriores, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, buscaram simplificar essas estruturas, não por empobrecimento, mas por um retorno à centralidade do mistério pascal. Permanecem de modo mais explícito as oitavas da Páscoa e do Natal, justamente porque nelas se concentram os dois grandes eixos da fé cristã: o Deus que se faz carne e o Deus que vence a morte.

A motivação profunda das oitavas, portanto, não é estética nem meramente devocional. Trata-se de uma resistência espiritual e existencial à lógica de um mundo que consome tudo rapidamente, inclusive o sagrado. Em uma cultura marcada pela pressa, pelo imediatismo e por uma religiosidade muitas vezes reduzida a performance ou instrumento de legitimação de poder, a oitava se impõe como um chamado à permanência. Permanecer no mistério é permitir que ele desça das palavras para a vida, que desestabilize certezas, que confronte estruturas injustas.

Nesse sentido, a oitava carrega uma dimensão profética incontornável. Ela denuncia uma fé superficial, que celebra sem se converter, que exalta Deus enquanto ignora o sofrimento humano, que se alia a projetos de exclusão e violência em nome de uma suposta ortodoxia. Contra isso, o prolongamento litúrgico afirma que não há verdadeira celebração sem transformação. O Cristo ressuscitado não legitima sistemas de morte; ele os desmascara. O Deus encarnado não sustenta privilégios; ele se identifica com os vulneráveis. O Espírito derramado não uniformiza para controlar; ele diversifica para libertar.

Viver uma oitava, portanto, é entrar em um processo que envolve todas as dimensões da existência. É deixar que o tempo de Deus atravesse o tempo humano, reconfigurando afetos, relações e práticas sociais. É permitir que o “oitavo dia”, sinal da nova criação, não permaneça restrito ao espaço litúrgico, mas se traduza em compromisso concreto com a vida, com a justiça e com a dignidade humana. Não se trata de repetição vazia, mas de aprofundamento contínuo. Não é prolongamento artificial, mas abertura real ao eterno que irrompe na história.

Assim, a oitava deixa de ser apenas uma categoria litúrgica e se torna uma chave de leitura da própria existência cristã. Viver como quem habita o oitavo dia é existir segundo a lógica do Reino que já começou, ainda que não plenamente consumado. É afirmar, no meio das contradições do mundo, que a vida tem a última palavra sobre a morte, que a comunhão é mais forte que a divisão e que a graça de Deus continua a agir, silenciosa e poderosa, na trama concreta da história

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 8 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 19,25-34 - Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja.

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 19,25-34 é proclamado na memória da Bem Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, celebrada na segunda feira após a Solenidade de Pentecostes. Esta memória foi instituída por Papa Francisco em 2018 e possui profundo significado teológico e eclesial, pois a Igreja que acaba de celebrar o dom do Espírito volta o olhar para aquela que permaneceu no cenáculo com os discípulos “unidos em oração” (At 1,14), reconhecendo nela não apenas a Mãe do Senhor, mas também figura, imagem e expressão materna da própria Igreja. O Evangelho proclamado nesta memória situa Maria aos pés da cruz, no momento culminante da obra redentora, e apresenta sua maternidade ampliada ao discípulo amado e, nele, a toda comunidade cristã. Embora esta formulação litúrgica seja própria do rito romano, o mistério de Maria junto ao Crucificado atravessa toda a tradição cristã histórica. As Igrejas orientais contemplam a Theotokos junto à cruz durante a Semana Santa e a veneram como ícone da humanidade reconciliada e da Igreja fiel

É  preciso lembrar  que a memória de Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja lê a cena da cruz não apenas como morte de Jesus, mas como nascimento da c8omunidade dos discípulos. No conjunto geral , João transforma a crucifixão em uma teologia da nova criação: Maria torna-se mãe dos discípulos, Jesus é o novo Cordeiro, e do seu lado aberto nasce a Igreja pelo sangue e pela água,  vale a pena olha os detalhes 

  1.  A cruz como novo “Éden” e novo inícioJoão coloca tudo aos pés da cruz. O Calvário torna-se lugar de nova criação. Assim como em Gênesis surge a humanidade, da cruz nasce a nova humanidade reconciliada.
  2. Maria “de pé” (Jo 19,25)O verbo é importante: Maria não aparece desfalecida, mas em pé (hestēkeisan, no grego). É imagem de fidelidade, resistência e permanência junto à dor.
  3. Mulher, este é teu filho”: Jesus não chama Maria de “mãe”, mas de “mulher” (gynai), como em Jo 2 nas bodas de Caná. Há paralelo simbólico  Caaná → início dos sinais. Vesus a cruz consumação da missão:  Maria aparece no começo e no fim do ministério joanino.
  4.  O discípulo amado:  O “discípulo que Jesus amava” é visto por muitos exegetas como símbolo do discípulo ideal, da Igreja e da comunidade fiel. Assim, Maria torna-se mãe dos discípulos.
  5.  “Daquela hora em diante” A “hora” em João é categoria teológica. Não é apenas relógio: é o momento da glorificação pela cruz.
  6.  “Tenho sede” (Jo 19,28): Não é só sede física. Em João há forte simbolismo: Jesus que ofereceu “água viva” (Jo 4) agora experimenta a sede humana até o extremo.
  7.  O vinagre:  O vinagre remete ao Salmo 69,21: “na minha sede me deram vinagre”. João mostra cumprimento das Escrituras, mas aqui não  gesto  de caridade  do guarda  romano, mas outra  humilhação  foi lhe oferecido  uma mistura   usada para limpeza  no banheiro  de campanha dos  soldados 
  8. Tudo está consumado” (Tetélestai): No grego tetélestai significa: completado, levado à plenitude. Não é derrota; é missão cumprida.
  9.  “Entregou o espírito”: João usa expressão ambígua: pode significar morrer, mas também entregar o Espírito. Há antecipação de Pentecostes.
  10. Nenhum osso quebrado (Jo 19,33):  Recorda o cordeiro pascal de Êxodo 12,46, cujos ossos não podiam ser quebrados. Jesus aparece como o novo Cordeiro.
  11. . O lado aberto pela lança:  O lado transpassado tornou-se símbolo clássico da misericórdia e da abertura total de Cristo à humanidade.
  12. . Sangue e água (Jo 19,34):  Um dos símbolos mais ricos do texto: Sangue → Eucaristia, vida entregue.  Água → Batismo, Espírito, purificação. Os Padres da Igreja viram aqui o nascimento sacramental da Igreja.
  13.  Paralelo com Eva: Alguns Padres, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio, comparavam: Eva nasce do lado de Adão (Gn 2). A Igreja nasce do lado aberto de Cristo, o “novo Adão”.
  14. . Maria + sangue + água = ícone da Igreja nascente: Por isso esta leitura é escolhida para “Maria, Mãe da Igreja”: Maria está presente no momento em que a comunidade nasce do lado aberto de Cristo. 
  15.  As quatro mulheres junto à cruz:  João destaca mulheres permanecendo quando muitos fugiram: presença, fidelidade e testemunho.
 A tradição patrística oriental contempla Maria como aquela que permanece junto ao sofrimento do Filho e participa da esperança da nova criação. Também nas tradições reformadas históricas, ainda que a mariologia assuma formas diversas, João 19 permanece referência fundamental para compreender discipulado, fidelidade e comunidade. 

O texto joanino não pode ser compreendido isoladamente. O Calvário não surge repentinamente. Ele é o ápice de uma longa caminhada que começa desde o princípio das Escrituras. João abre seu Evangelho retomando deliberadamente Gênesis: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). O eco de Gênesis 1,1 não é acidental. O evangelista anuncia que em Cristo inicia-se uma nova criação. Quando afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), utiliza o verbo eskénosen, evocando a tenda da presença divina no deserto (Ex 25,8; Ex 40,34-35). O Deus que caminhava com Israel agora arma sua tenda na fragilidade humana. Toda a narrativa joanina conduz progressivamente para a “hora”. Maria aparece apenas duas vezes no Evangelho de João e ambas são decisivas. Em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ela está no início dos sinais. No Calvário (Jo 19,25-27), está no momento da consumação. Entre esses dois episódios desenrola-se todo o caminho do discipulado. Em Caná, Maria diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). No Calvário ela silencia. Em Caná, a hora ainda não chegou (Jo 2,4). Na cruz, a hora se cumpre (Jo 12,23; Jo 13,1; Jo 17,1). A mulher que testemunhou o primeiro sinal permanece agora diante da entrega total. O Evangelho cria uma moldura teológica: Maria acompanha o início e a consumação da nova criação.

O Calvário deve ser lido à luz de toda a Escritura. Quando Jesus chama Maria de “mulher” em Caná (Jo 2,4) e novamente na cruz (Jo 19,26), João estabelece uma ponte com Gênesis. O termo remete à mulher de Gênesis 3,15, onde Deus anuncia inimizade entre a serpente e sua descendência. A tradição cristã verá aí a figura da nova Eva. Se Eva esteve associada ao drama da queda, Maria aparece vinculada à redenção. A imagem ganha profundidade quando recordamos Gênesis 2,21-23. Eva nasce do lado de Adão. Em João 19,34, do lado aberto de Cristo brotam sangue e água. A patrística verá neste gesto o nascimento da Igreja. Santo Agostinho afirmará que a Igreja nasce do lado aberto do novo Adão adormecido na cruz.

O contexto histórico amplia ainda mais esta leitura. A Palestina do primeiro século estava sob domínio romano. O império organizava a sociedade por meio da tributação, militarização e concentração de poder. A crucificação era instrumento de intimidação política. O Gólgota localizava-se fora das muralhas de Jerusalém (Hb 13,12), próximo de vias públicas, pois as execuções eram realizadas em locais visíveis para funcionarem como advertência pública. A cruz era linguagem imperial. Roma transformava corpos em mensagem de poder e medo. O Evangelho subverte radicalmente esta lógica: o lugar da humilhação torna-se lugar da revelação; o espaço da morte converte-se em espaço de vida; aquilo que o império utilizava para intimidar transforma-se no sinal supremo do amor.

Jesus morre dentro desta realidade histórica concreta. Sua morte não é abstração espiritual nem acontecimento desligado da vida social. Ela acontece no interior de estruturas políticas, econômicas e religiosas marcadas por desigualdade, exclusão e violência. O Reino anunciado por Jesus confrontava tais estruturas. Quando proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4,18), retomando Isaías 61,1-2, assume explicitamente a tradição profética. Esta tradição atravessa toda a Escritura. Deus escuta o clamor dos escravizados (Ex 3,7). Isaías denuncia jejuns sem justiça (Is 58,6-7). Amós condena liturgias divorciadas da vida (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina no compromisso com a justiça e a misericórdia (Mq 6,8). Jeremias critica a falsa segurança religiosa baseada apenas no templo (Jr 7,4-11). A crítica profética nunca foi contra a fé, mas contra sua manipulação.

João escreve dentro desta tradição e, ao chegar ao Calvário, apresenta Maria, Maria de Cléofas, Maria Madalena e o discípulo amado junto à cruz (Jo 19,25). Aqui aparece uma diferença importante em relação aos sinóticos. Marcos mostra as mulheres observando à distância (Mc 15,40). Mateus conserva a mesma tradição (Mt 27,55-56). Lucas amplia a presença feminina e inclui o lamento das mulheres de Jerusalém (Lc 23,27-31). João aproxima as mulheres do Crucificado. O movimento é profundamente teológico. Aquilo que estava distante torna-se proximidade. A comunidade joanina aproxima-se do sofrimento.

Maria permanece de pé. O verbo grego hestêkê indica firmeza, perseverança e resistência. Lucas já havia preparado esta cena quando Simeão profetiza: “Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). O sofrimento não surge inesperadamente. Ele faz parte do caminho. Entretanto, Maria não abandona o Filho. Ela permanece. A antropologia do Mediterrâneo antigo ajuda a compreender esta cena. As mulheres possuíam papel central nos rituais de luto, preservando a memória dos mortos e guardando seus nomes. Maria insere-se nesta tradição, mas a transcende. Ela não apenas lamenta; testemunha. Não apenas chora; permanece. Seu luto torna-se resistência e esperança.

Neste ponto emerge uma das imagens mais profundas da revelação bíblica: a Igreja possui rosto feminino. Não se trata de uma categoria biológica, mas teológica e relacional. Os profetas descrevem Israel como esposa amada (Os 2,16-22), mulher restaurada após o exílio (Is 54,1-8) e Sião que volta a gerar filhos (Is 66,7-13). Jerusalém aparece como mãe (Sl 87,5; Is 49,14-18). Outras figuras femininas ampliam esta simbologia. Rebeca atravessa o deserto rumo à aliança (Gn 24). Rute permanece fiel (Rt 1,16). Ana canta a reversão da história (1Sm 2,1-10). Ester arrisca a vida pelo povo (Est 4,16). A mulher forte de Provérbios sustenta a vida e protege os frágeis (Pr 31,10-31). Todas estas imagens convergem na Igreja.

Paulo apresenta a Igreja como esposa amada por Cristo (Ef 5,25-32). O Apocalipse contempla a mulher vestida de sol (Ap 12,1-6), frequentemente compreendida pela tradição tanto como Maria quanto como a Igreja peregrina e perseguida. O livro termina apresentando a Jerusalém celeste descendo do céu “como esposa adornada para seu esposo” (Ap 21,2). João 19 participa desta tradição. Aos pés da cruz nasce uma Igreja materna. Ela não nasce do poder, mas da ferida; não nasce do império, mas da entrega; não nasce do trono, mas do lado aberto. Por isso a tradição a chamará Mater Ecclesia. Sua missão mais profunda não é dominar, mas gerar; não é impor, mas acolher; não é reproduzir estruturas imperiais, mas nutrir a vida. Quando a Igreja esquece esta dimensão e assume lógica de autorreferência, clericalismo e poder, corre o risco de perder seu rosto evangélico. Quando recupera sua identidade bíblica, volta a ser tenda do encontro (Ex 33,7), esposa fiel (Ap 19,7), cidade refúgio (Sl 46,5) e mãe dos viventes da nova criação.

O centro da narrativa chega quando Jesus diz: “Mulher, eis teu filho”, e depois ao discípulo: “Eis tua mãe” (Jo 19,26-27). O gesto ultrapassa o cuidado familiar. A tradição patrística, o magistério e a teologia reconhecem nele um gesto eclesiológico. O discípulo amado representa todos os discípulos. A maternidade de Maria expande-se para a comunidade. Esta maternidade já estava anunciada no Magnificat (Lc 1,46-55), que dialoga diretamente com o cântico de Ana (1Sm 2,1-10). Maria canta um Deus que derruba poderosos de seus tronos (Lc 1,52), eleva humildes (Lc 1,52) e sacia famintos (Lc 1,53). O Magnificat não é espiritualismo intimista. É anúncio profético. Maria não pode ser reduzida a devoção alienante. Ela é mulher do Êxodo, mulher dos profetas, mulher do Reino.

A cruz revela esta solidariedade radical de Deus com as vítimas da história. Isaías descreve o Servo sofredor como rejeitado e desprezado (Is 53,3). A Carta aos Hebreus recorda que Cristo sofre fora da cidade (Hb 13,12-13), junto dos excluídos. Quando o soldado abre o lado de Jesus (Jo 19,34), João reúne toda a memória bíblica. A água recorda o rio do Éden (Gn 2,10), a água da rocha no deserto (Ex 17,6), o rio do templo de Ezequiel (Ez 47,1-12) e a fonte aberta anunciada por Zacarias (Zc 13,1). O sangue remete à aliança do Sinai (Ex 24,8), ao cordeiro pascal (Ex 12,13) e à nova aliança anunciada por Jeremias (Jr 31,31-34). No próprio Evangelho de João, a água aparece no novo nascimento (Jo 3,5), na samaritana (Jo 4,14) e na festa das tendas (Jo 7,37-39). O lado aberto torna-se fonte sacramental. A Igreja nasce do sangue e da água. João reforça esta leitura ao afirmar que nenhum osso foi quebrado (Jo 19,36), evocando o cordeiro pascal (Ex 12,46; Nm 9,12). Depois cita Zacarias: “Olharão para aquele que transpassaram” (Zc 12,10). Toda a Escritura converge para o Crucificado. O evangelista acrescenta ainda outro detalhe profundo ao afirmar que Jesus “entregou o espírito” (Jo 19,30). O verbo ultrapassa a simples descrição da morte. Muitos intérpretes veem aqui antecipação pentecostal. O Espírito começa a ser comunicado já na cruz. Pentecostes nasce do Calvário. A Igreja nasce simultaneamente do lado aberto e do sopro do Crucificado. Por isso Maria reaparece em Atos 1,14 reunida com a comunidade em oração. O Calvário conduz ao cenáculo.

O magistério aprofundou esta visão. Lumen Gentium apresenta Maria como figura e modelo da Igreja (LG 58-69). Marialis Cultus, de Papa Paulo VI, destaca Maria como modelo de discípula. Redemptoris Mater, de Papa João Paulo II, desenvolve sua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Evangelii Gaudium apresenta Maria como mãe evangelizadora e companheira do povo peregrino.

A tradição Latino-americana ampliou esta leitura a partir das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, nas quais a Igreja buscou discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho e da realidade social do continente.

  •  Medellín, Colômbia, de 26 de agosto a 7 de setembro de 1968, como II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, tornou-se a principal recepção pastoral latino-americana do Concílio Vaticano II, à realidade latino-americana. Seu tema central foi “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. O documento denunciou as estruturas de injustiça, a pobreza estrutural, a dependência econômica e as violências sociais presentes no continente, afirmando a necessidade de uma Igreja comprometida com a promoção humana, a justiça e a libertação dos pobres. Medellín tornou-se marco para a opção preferencial pelos pobres e para a leitura pastoral da realidade social latino-americana.
  • Puebla realizada em Puebla de los Ángeles, México, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, como III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, aprofundou a recepção de Medellín e teve como tema “A evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento contemplou o “rosto sofredor de Cristo” presente nos pobres, indígenas, afrodescendentes, trabalhadores, migrantes, mulheres marginalizadas, crianças abandonadas e jovens sem perspectivas. Puebla consolidou a expressão “opção preferencial pelos pobres”, não como categoria ideológica, mas cristológica e evangélica, reconhecendo Cristo presente nos rostos crucificados da história.
  • Santo Domingo,  realizada na  República Dominicana, de 12 a 28 de outubro de 1992, durante o contexto dos 500 anos da evangelização das Américas, constituiu a IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e teve como lema “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). A Conferência insistiu na Nova Evangelização, no diálogo entre fé e cultura, na dignidade humana e na evangelização inculturada, reafirmando a missão libertadora da Igreja diante das transformações culturais e sociais do continente
  • Aparecida realizada no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo, Brasil, de 13 a 31 de maio de 2007, constituiu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho. Seu tema foi “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida” (Jo 10,10) e o lema “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). O documento retomou a opção pelos pobres, insistiu numa Igreja em saída missionária, discípula, samaritana e próxima dos descartados. O então cardeal Papa Francisco, à época arcebispo de Buenos Aires, teve papel decisivo na redação final do documento, cujos ecos reaparecerão depois em Evangelii Gaudium

Neste percurso, a Igreja latino-americana foi progressivamente reconhecendo que o Calvário continua presente nos corpos feridos do continente: nas vítimas da desigualdade, nas periferias urbanas, nos povos originários, nos migrantes, nos trabalhadores explorados, nas mulheres vítimas de violência, nos jovens mortos pela exclusão e nos pobres descartados por modelos econômicos excludentes. É  preciso  lembrar que América Latina também possui seus mártires. Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia, tornando-se testemunha da fidelidade ao Evangelho e aos pobres,  Dom Adriano Hipólito, 3⁰  bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado em 22 de setembro de 1976, espancado, despido, pintado de vermelho e abandonado em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. No mesmo dia, seu carro foi levado e explodido diante da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no bairro da Glória, tornando-se um dos símbolos da violência da ditadura contra setores da Igreja comprometidos com os direitos humanos, os pobres e a justiça social e Dom Hélder Câmara foi frequentemente chamado de “comunista” por recordar que a caridade cristã exige também perguntar pelas causas estruturais da pobreza.

É preciso  ter consciência  que a cruz de Cristo e os documentos latino-americanos convergem na mesma pergunta profética: onde estão hoje os crucificados da história?   Mateus responde: o faminto, o estrangeiro, o preso e o doente (Mt 25,35-40). Tiago denuncia comunidades que favorecem ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João afirma que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê (1Jo 4,20). Maria permanece junto deles. Seu rosto aparece nas mães que enterram filhos, nos refugiados, nos pobres descartados, nos povos expulsos de suas terras. O pranto de Raquel continua ecoando (Jr 31,15; Mt 2,18).

Por isso João 19 torna-se denúncia profética contra toda instrumentalização da religião. Jesus critica os que impõem fardos (Mt 23,4), condena a busca do poder (Mc 10,42-45) e lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). O clericalismo contradiz esta lógica porque transforma serviço em privilégio e ministério em poder. A fé também corre risco quando capturada por nacionalismos religiosos, projetos autoritários e ideologias de dominação. Jesus recusou tais tentações no deserto (Mt 4,1-11). Recusou o espetáculo, recusou o domínio e recusou o poder desvinculado da cruz.

Quando a religião se transforma em instrumento de controle, perde sua força profética. Isaías já denunciava esta deformação (Is 29,13). Jesus retoma a crítica (Mt 15,8). Amós rejeita liturgias sem justiça (Am 5,21-24). Oséias proclama: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). Também a teologia da prosperidade entra em tensão com a lógica do Crucificado quando reduz bênção a sucesso individual. Jesus diz: “Quem quiser seguir-me, tome sua cruz” (Mc 8,34). Paulo recorda que Deus escolheu os fracos (1Cor 1,27). Tiago pergunta se Deus não escolheu os pobres deste mundo (Tg 2,5). Atos descreve comunidades marcadas pela partilha (At 2,44-45; At 4,32).

A última imagem da Escritura não é a cruz, mas a cidade. A Jerusalém nova desce do céu “como esposa adornada” (Ap 21,2). A história termina com uma mulher e uma cidade. O Deus do Êxodo que ouviu escravos, o Deus dos profetas que defendeu pobres e o Deus do Calvário que se solidarizou com as vítimas conduz a criação para uma nova humanidade. Maria permanece neste horizonte como mulher do sim, do Magnificat, da cruz, do cenáculo e da esperança. Ela continua junto à cruz, continua entre os pobres, continua nas mães que choram e nas comunidades que resistem. Continua gerando esperança onde a morte parece triunfar.   

A Igreja nasceu de uma ferida aberta. Enquanto houver quem permaneça de pé diante da dor humana, o Evangelho continuará renascendo na história.


Prof. DNonato – Teólogo do cotidiano.

sábado, 7 de junho de 2025

Um outro olhar no texto de João 20,19-23 — Domingo de Pentecostes

A liturgia deste Domingo de Pentecostes convida-nos a contemplar o sopro que renova a humanidade, a chama que inflama a fé e a força que rompe as portas do medo e da indiferença. 

No ciclo litúrgico atual, João 14,15-16.23b-26 é proclamado na Missa do Dia da Solenidade de Pentecostes, apresentando a promessa do Espírito no contexto do discurso de despedida durante a Última Ceia. Já João 20,19-23 é proclamado na Missa Vespertina da Vigília de Pentecostes e também retorna em outros momentos importantes do calendário litúrgico. Na oitava da Páscoa, especialmente no Segundo Domingo da Páscoa do Ano C, a liturgia proclama João 20,19-31, integrando esta aparição do Ressuscitado ao tema da fé pascal e da misericórdia. Além disso, João 20,19-23 possui forte presença sacramental e eclesial na reflexão sobre reconciliação, missão e dom do Espírito. A própria disposição litúrgica destes textos revela uma hermenêutica da Igreja: a Vigília contempla o Espírito como dom do Ressuscitado que recria a comunidade; a Missa do Dia apresenta o Espírito como presença permanente que sustenta a missão.

Já refletimos sobre o evangelho do domingo de Pentecostes  em junho de  2022 com texto,   Um olhar sobre João 20,19-23 e também já fizemos 3 vídeos falando do mesmo texto em 2022, 2023 e 2024, mas hoje vamos mergulhar mais fundo, ampliando a  nossa visão  sobre esse texto fundamental para  fé e missão de quem se diz cristão.

“Ao anoitecer do primeiro dia da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco!’” (Jo 20,19).

O “primeiro dia da semana” anuncia o tempo novo, o tempo da Ressurreição, quando a luz insiste em romper as trevas. O sol se põe no calendário humano, mas o Ressuscitado atravessa as portas fechadas — não apenas de madeira, mas também as barreiras do medo, da insegurança, da dor e da desesperança. As portas fechadas são o símbolo do coração ferido, da comunidade dispersa e traumatizada pelo drama da cruz. Jesus entra. Ele não exige, não acusa, não condena. Sua presença é uma presença de paz, de reconciliação e de esperança. Ele se põe no meio, no centro da comunidade. Seu primeiro dom é a paz — uma paz que cura, que reconstrói, que liberta (cf. Is 57,19). Esta paz não é ausência de conflito, mas a presença viva do Reino que vence o medo e a violência.

No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, a Solenidade de Pentecostes encerra o Tempo Pascal e constitui uma das grandes colunas do ano litúrgico, juntamente com a Páscoa e o Natal. As leituras proclamadas em Atos  2,1-11; Salmo 103(104); I Coríntios 12,3b-7.12-13 ou Romanos 8,8-17; João 14,15-16.23b-26 ou João 20,19-23 aparecem tanto na Vigília quanto na Missa do Dia e revelam duas dimensões inseparáveis do mesmo mistério: a efusão do Espírito sobre a Igreja e a presença permanente do Ressuscitado na comunidade. Na tradição oriental, especialmente na Igreja Ortodoxa, Pentecostes é celebrado como manifestação plena da vida trinitária e renovação da criação; entre antigas Igrejas históricas, como a Igreja Copta Ortodoxa e a Igreja Apostólica Armênia, permanece a compreensão de Pentecostes como o nascimento da comunidade messiânica anunciada pelos profetas.

As leituras propostas pela liturgia desdobram diante da Igreja o mistério do Espírito Santo em ação. Elas não oferecem apenas uma doutrina sobre o Espírito, mas revelam sua presença criadora, histórica e transformadora: 

  • Atos mostra o Espírito reunindo povos;
  • Salmo contempla o Espírito renovando a criação; 
  • I Coríntios, Paulo apresenta o Espírito formando o Corpo de Cristo e gerando filhos e filhas de Deus;
  •  João revela o Espírito como dom do Ressuscitado e presença permanente na comunidade.

Contudo, Pentecostes não começa em Jerusalém. Seu horizonte nasce nas primeiras páginas da Escritura. “No princípio Deus criou o céu e a terra... e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,1-2). Desde o início, a presença do Espírito está ligada à vida e à ordem do mundo. O caos inicial não permanece abandonado; Deus age sobre ele. Esta imagem torna-se decisiva para compreender Pentecostes: o Espírito transforma caos em criação, dispersão em comunhão e medo em missão.

  • A primeira leitura, Atos 2,1-11, situa-se num momento historicamente significativo. Pentecostes coincide com a festa celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originalmente associada às colheitas (Ex 23,16; Dt 16,9-10), a festa passou a recordar a Aliança do Sinai. Lucas retoma esta memória e realiza uma releitura cristológica e eclesial. O vento, o fogo e a voz divina que marcaram o Sinai (Ex 19,16-19) reaparecem agora em Jerusalém. No Sinai nasce Israel como povo; em Pentecostes nasce a Igreja missionária..Os sinais narrados por Lucas possuem forte valor simbólico. O vento remete à criação (Gn 1,2), à abertura do mar (Ex 14,21) e à visão dos ossos secos (Ez 37,9-10). O fogo recorda a sarça ardente (Ex 3,2), a manifestação no Sinai (Ex 19,18) e a coluna luminosa do êxodo (Ex 13,21). O milagre das línguas dialoga diretamente com Babel (Gn 11,1-9): ali a humanidade fragmenta-se; aqui a diversidade permanece, mas torna-se lugar de comunhão.
  • O Salmo 103 amplia o horizonte e conduz a assembleia para a dimensão cósmica da ação divina: “Enviais o vosso Espírito e renovais a face da terra” (Sl 104,30). O salmo não contempla apenas a humanidade, mas toda a criação. Animais, águas, campos e ciclos da vida aparecem sustentados continuamente por Deus. A renovação evocada pelo salmista não significa mera restauração moral; trata-se de recriação contínua. Quando Deus retira o sopro, a vida retorna ao pó (Sl 104,29); quando envia seu Espírito, tudo renasce.
  • A segunda  leitura I Coríntios 12,3b-7.12-13, o foco recai sobre a comunidade. Corinto vivia tensões internas, desigualdades e disputas. Paulo responde afirmando que há diversidade de dons e unidade no Espírito. O corpo torna-se imagem eclesial. Nenhum membro é autossuficiente. “Todos fomos batizados num só Espírito” (1Cor 12,13). Já Rm 8,8-17 desloca o olhar para a experiência interior e existencial. O Espírito não produz escravidão, mas filiação: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). O medo é substituído pela confiança.

É neste horizonte que os Evangelhos joaninos devem ser lidos. Jo 14,15-16.23b-26 situa-se dentro dos capítulos 13–17, conhecidos como discurso de despedida. Historicamente, a cena está localizada na Última Ceia; teologicamente, porém, o evangelista escreve para comunidades do final do século I, provavelmente marcadas por perseguições, separações internas e sensação de ausência. A comunidade já não vê Jesus fisicamente e enfrenta a pergunta: como permanecer fiel quando o Mestre não está visivelmente presente?

A resposta de João é profundamente teológica. Jesus não promete substituição; promete permanência. “Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro defensor” (Jo 14,16). O contexto literário é decisivo. Pouco antes Jesus havia lavado os pés dos discípulos (Jo 13,1-15), anunciado a traição (Jo 13,21-30) e revelado sua partida iminente (Jo 13,33). O ambiente é de ruptura e incerteza. A promessa do Espírito surge precisamente no momento do medo.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Na hermenêutica joanina, guardar não significa mera obediência jurídica. O verbo possui sentido existencial: acolher, viver e permanecer. O mandamento central é o amor (Jo 13,34). Portanto, a fidelidade a Cristo não é legalismo, mas permanência na lógica do amor. O texto prossegue: “Nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). Esta afirmação possui enorme densidade exegética. No Antigo Testamento, a presença de Deus estava ligada ao tabernáculo (Ex 25,8), ao templo (1Rs 8,10-13) e à glória divina que acompanhava Israel (Ez 43,1-5). João desloca esta presença. O novo lugar da habitação divina deixa de ser o edifício e passa a ser a comunidade dos discípulos. A Igreja torna-se espaço da presença.

O Espírito é descrito como aquele que “ensinará tudo e fará recordar” (Jo 14,26). O verbo recordar possui importância decisiva no quarto Evangelho. Não se trata de simples memória intelectual. Em Jo 2,22, após a ressurreição, os discípulos recordam as palavras de Jesus e compreendem as Escrituras. Em Jo 12,16, só depois da glorificação entendem plenamente sua entrada em Jerusalém. O Espírito atua precisamente neste processo: conduz a comunidade à compreensão progressiva do mistério de Cristo.

João 20,19-23, proclamado na Vigília de Pentecostes, apresenta outra perspectiva complementar. Se Jo 14 é promessa, Jo 20 é cumprimento. O texto situa-se “ao anoitecer do primeiro dia da semana” (Jo 20,19). O detalhe temporal possui enorme valor teológico. O “primeiro dia” remete ao início da criação (Gn 1,1-5). João está narrando uma nova criação. As portas fechadas por medo (Jo 20,19) constituem elemento central da narrativa. Exegeticamente, o detalhe vai além da descrição física. Representa a situação existencial da comunidade: medo, luto, fracasso e desorientação. Os discípulos testemunharam a prisão (Jo 18,12), a crucifixão (Jo 19,18) e a morte. A comunidade encontra-se paralisada.

Então Jesus entra e coloca-se “no meio”. Este posicionamento possui significado eclesiológico. O centro da comunidade não é mais o trauma, mas a presença do Ressuscitado. Sua primeira palavra é paz: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Esta paz ecoa as promessas proféticas: Is 9,6 apresenta o Messias como príncipe da paz; Is 32,17 associa paz e justiça; Mq 4,3 descreve a superação da violência. Jesus mostra as mãos e o lado (Jo 20,20). O Ressuscitado conserva as marcas da paixão. A glória não elimina a história. As feridas permanecem transfiguradas. Existe aqui uma profunda antropologia do sofrimento: Deus não apaga as cicatrizes humanas; redime-as.

Em seguida vem o gesto central: “Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). A relação com Gn 2,7 é evidente. Assim como Deus soprou vida sobre o primeiro ser humano, Cristo sopra vida sobre a nova humanidade. O paralelo com Ez 37 também é importante: os ossos secos recebem novamente vida. O cenáculo torna-se lugar de recriação.

Aqui vale a pena observar  alguns detalhes  sobre alguns fatos  no texto de João 20,19-23

  1. O primeiro dia da semana (Jo 20,19); primeiro dia da semana” não é apenas uma marca temporal. João o apresenta como sinal de uma nova criação. Assim como a criação começou com a luz (Gn 1,3-5), a Ressurreição inaugura um tempo novo. Cristo ressuscitado inicia uma nova humanidade (2Cor 5,17; Ap 21,5).
  2. As portas fechadas (Jo 20,19): As portas fechadas simbolizam o medo, o trauma e a fragilidade humana após a cruz. Representam o coração ferido e a comunidade paralisada. Na Escritura, o medo frequentemente conduz ao fechamento e ao esconder-se (Gn 3,8-10; 1Rs 19,3-4; Jn 1,3). 
  3. Jesus entra no cenáculo (Jo 20,19): O Ressuscitado atravessa as barreiras humanas. Sua entrada simboliza a vitória sobre a morte, o medo e a desesperança. Cristo entra onde a vida parece interrompida e renova o povo, como Deus fez com os ossos secos no exílio (Ez 37,1-14).
  4. Jesus no meio da comunidade (Jo 20,19): Jesus coloca-se “no meio”. O centro da comunidade deixa de ser o medo e passa a ser Cristo. A presença de Deus no meio do povo é tema constante da Escritura (Lv 26,11-12; Mt 18,20; Ap 21,3).
  5. A paz esteja convosco (Jo 20,19.21): A paz oferecida por Jesus é plenitude, reconciliação e restauração. Não é ausência de conflito, mas presença do Reino. Os profetas ligam paz e justiça (Is 9,6; Is 32,17; Mq 4,3; Sl 85,10).
  6. As mãos e o lado feridos (Jo 20,20): As feridas permanecem no Ressuscitado. Elas simbolizam a memória redimida da paixão. Deus não apaga a história humana; transforma-a. O lado aberto recorda a cruz e a vida que brota dela (Jo 19,34; Is 53,5; Zc 12,10).
  7. A alegria dos discípulos (Jo 20,20): A alegria nasce do encontro com o Ressuscitado. O medo dá lugar à esperança. Cumpre-se a promessa de Jesus: “A vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16,20-22; Sl 30,11-12).
  8. O envio missionário (Jo 20,21): "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” O cenáculo deixa de ser refúgio e torna-se ponto de partida. A comunidade é enviada ao mundo para continuar a missão de Cristo (Mt 28,19-20; At 1,8; Lc 4,18-19).
  9. O sopro do Ressuscitado (Jo 20,22):Jesus sopra sobre os discípulos e comunica vida nova. O gesto recorda a criação do ser humano (Gn 2,7) e a visão dos ossos secos (Ez 37,9-10). O Ressuscitado realiza uma nova criação (2Cor 5,17).
  10. O Espírito Santo (Jo 20,22): O Espírito é dom do Ressuscitado e presença permanente de Deus. Ele ensina, recorda, fortalece e conduz a comunidade (Jo 14,16-17.26; Rm 8,14; At 2,1-4).
  11. O perdão dos pecados (Jo 20,23): O mandato do perdão simboliza a missão reconciliadora da Igreja. A comunidade nasce como espaço de cura, reconciliação e restauração da vida (2Cor 5,18-20; Mt 18,18; Tg 5,16).
  12. O cenáculo: O cenáculo é símbolo da Igreja nascente. Lugar do medo que se torna lugar da missão; espaço fechado que se abre ao mundo. Ali se unem cruz, Ressurreição e Pentecostes (At 1,13-14; At 2,1-4).

O envio do Espírito conduz imediatamente à missão: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). Missão e Espírito aparecem inseparáveis. A comunidade não recebe o Espírito para fechamento, mas para saída. O  mandato ligado ao perdão: “A quem perdoardes os pecados serão perdoados” (Jo 20,23). No contexto joanino, o perdão está ligado à reconciliação e à restauração da comunhão. O Ressuscitado forma uma comunidade reconciliadora, chamada a testemunhar a vida nova..Todo este conjunto litúrgico revela um movimento progressivo. Atos mostra o Espírito reunindo povos; o Salmo contempla o Espírito renovando a criação; Paulo apresenta o Espírito formando comunhão e filiação; João revela o Espírito como presença do Ressuscitado e força missionária.

Por isso Pentecostes permanece atual. O Espírito continua transformando medo em esperança, dispersão em comunhão e sofrimento em missão. Continua renovando a terra e conduzindo a Igreja. Diante de um mundo marcado por violência, desigualdade, crises de sentido e fragmentação humana, a liturgia continua fazendo ecoar a oração do salmista: “Enviais o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 104,30). Renovar significa recriar. Significa permitir que Deus continue escrevendo sua obra na história humana.

O Ressuscitado continua entrando nas portas fechadas da humanidade e repetindo aquilo que disse no cenáculo: “A paz esteja convosco” (Jo 20,19). Continua atravessando os medos que aprisionam, as feridas que dividem, as injustiças que ferem a dignidade humana e os silêncios que sufocam a esperança. Continua colocando-se no meio do seu povo, não como memória distante, mas como presença viva e atuante na história. E continua soprando vida sobre o mundo. O mesmo sopro que pairava sobre as águas da criação (Gn 1,2), que deu vida ao ser humano (Gn 2,7), que levantou os ossos secos no exílio (Ez 37,9-10) e incendiou a Igreja em Pentecostes (At 2,1-4), permanece renovando a face da terra (Sl 104,30). O Espírito continua transformando medo em coragem, dispersão em comunhão, luto em esperança e fechamento em missão.

Pentecostes, portanto, não pertence apenas ao passado da Igreja; permanece como acontecimento permanente. Enquanto houver povos divididos, pobres esquecidos, vidas feridas, criação ferida pelo egoísmo humano e corações encerrados pelo medo, o Espírito continuará chamando a Igreja a sair do cenáculo e a tornar presente a força libertadora do Evangelho. Por isso, a oração do salmista permanece atual e necessária: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” (Sl 104,30). Renovar é recriar. É permitir que Deus continue escrevendo sua obra na história humana. É abrir as portas para que o Ressuscitado permaneça no meio da comunidade e do mundo.

Porque onde o Espírito sopra, a vida renasce; onde Cristo está presente, a paz floresce; e onde o Evangelho é vivido, a história nunca permanece a mesma. Pentecostes continua acontecendo onde portas se abrem, onde feridas são transformadas em serviço, onde pobres voltam a ser vistos e onde a Igreja abandona o medo para reencontrar sua missão. O Espírito não foi dado para conservar cinzas, mas para acender fogo; não para erguer muros, mas para reunir povos; não para sustentar privilégios, mas para renovar a face da terra. Onde o Espírito sopra, a vida resiste, a esperança renasce e a história volta a caminhar.

Hoje, diante do altar, peçamos:

Vem, Espírito Santo!

Vem, incendiar nossos corações, para que nenhuma cruz seja sem sentido, nenhuma lágrima, em vão, e nenhum dom, sepultado.

Vem, Espírito de compaixão, de coragem e de justiça.

Renova a tua Igreja. Renova a nossa fé.

Renova o rosto da terra.

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado, sopro entre ruínas.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 21,20-25

 


Na  sexta-feira  da 7ª  semana  da Páscoa  de 2025 , no texto  Um breve olha sobre João  21, 15-19 escutamos a voz do Ressuscitado junto à fogueira,  lembrando  que  o calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 21,20-25 é proclamado no sábado da sétima semana da Páscoa, no limiar da Solenidade de Pentecostes. Essa localização não é acidental, mas teologicamente estruturante: a Igreja encerra o Tempo Pascal ouvindo o último trecho do quarto Evangelho exatamente quando se prepara para a efusão do Espírito Santo narrada em At 2,1-13.   Jesus convida Pedro a amar mais profundamente: “Tu me amas? Apascenta minhas ovelhas”.O apóstolo  talvez ainda inseguro, talvez ainda ferido por sua tríplice negação, se inquieta com o destino daquele que estivera tão próximo do Mestre até a cruz. Jesus, porém, responde com firmeza e amor: "Que te importa? Tu, segue-me!". Essa resposta de Jesus não é um mero desvio de assunto; é uma convocação a uma maturidade espiritual que rompe com a lógica da comparação e da competitividade. Numa sociedade marcada pelo narcisismo, pela cultura do desempenho e pela obsessão com status e influência também presentes nas estruturas eclesiásticas e religiosas, o seguimento de Jesus nos chama a nos libertar da vaidade de querermos saber mais sobre o outro do que sobre o nosso próprio caminho. João  21, 20-25  nos  traz  Jesus e comunidade apostólica diante do calor brando das brasas e do peso existencial da missão, Pedro volta o olhar para o discípulo amado.   O Ressuscitado deixa de ser percebido na visibilidade histórica direta para tornar-se presença sacramental, comunitária e pneumática na Igreja. O Evangelho termina como texto escrito, mas não termina como acontecimento. Nas tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, o Evangelho de João é lido como Evangelho da luz, da vida e da nova criação durante todo o tempo pascal. No Ocidente, católicos, ortodoxos, anglicanos e luteranos reconhecem nesse epílogo uma síntese do discipulado, da memória apostólica e da continuidade viva do Cristo na história.
A fogueira acesa pelo próprio Jesus (Jo 21,9). Não é um detalhe trivial. No simbolismo bíblico, o fogo é presença divina, memória da aliança, lugar de epifania e purificação. E essa fogueira da manhã, acesa na luz do dia, dialoga diretamente com outra fogueira: a da noite escura da negação (Jo 18,18). Ali, Pedro aquecia-se no pátio do sumo sacerdote, envolto pelas sombras da noite, tomado pelo medo, pela insegurança, pela pressão social. Ao redor do fogo, negou conhecer Aquele a quem prometera fidelidade até o fim.

Agora, ao amanhecer, Pedro se encontra novamente diante de uma fogueira — mas desta vez, não nas trevas da covardia, e sim na claridade da graça. A noite da traição dá lugar à manhã da reconciliação. O fogo que antes aquecia um coração dividido, agora aquece um coração restaurado. Jesus não o confronta com acusações, mas o reconfigura com amor. E o lugar da queda se torna o lugar do recomeço. A psicologia existencial nos ajuda a compreender que a memória do trauma só é curada quando revisitamos o espaço ferido com um novo sentido. A cena da fogueira matinal revela esse processo espiritual e humano de ressignificação. A pedagogia do Ressuscitado é profundamente simbólica e terapêutica: ele não anula o passado, mas o integra, purifica e transfigura. É no mesmo espaço simbólico que a dor é visitada para se tornar graça. Pedro não apaga a noite que viveu, mas a transforma com o sol da presença de Cristo ressuscitado. Onde antes houve medo, agora há missão. Onde houve negação, agora há apascentamento.

Na raiz da pergunta de Pedro ecoa uma tentação antiga e humana: a de medir nosso valor em relação ao outro. A antropologia nos mostra como o desejo mimético (René Girard) gera rivalidade, conflitos e até violência, quando desejamos não apenas o que o outro tem, mas desejamos ser o outro. A pergunta “E este, que será dele?” carrega não apenas curiosidade, mas a insegurança de quem ainda mede sua própria dignidade pela comparação. O Evangelho, porém, propõe outra lógica: cada discípulo é chamado a seguir Jesus a partir de sua própria história, vocação e resposta. Não há lugar para competição entre irmãos e irmãs no discipulado. O  discípulo amado representa o seguimento silencioso, fiel e contemplativo, que reconhece Jesus no partir do pão, que permanece aos pés da cruz e que não se coloca em evidência, mas testemunha com profundidade. Pedro, por sua vez, representa o seguimento ativo, comunitário, pastoral. Ambos são necessários à Igreja, e nenhum é superior ao outro. A diversidade de carismas e vocações só é fecunda quando está submetida ao único critério do amor: “como eu vos amei” (Jo 13,34)

A compreensão de João 21,20-25 exige o retorno ao conjunto do Evangelho. O prólogo afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), estabelecendo a encarnação como chave hermenêutica de toda a narrativa. Deus não se revela em abstrações, mas na carne, na história, no cotidiano. Jesus atravessa os espaços concretos da vida humana: encontra Nicodemos em Jo 3, dialoga com a samaritana em Jo 4, alimenta multidões em Jo 6, cura o cego de nascença em Jo 9, ressuscita Lázaro em Jo 11, lava os pés dos discípulos em Jo 13 e entrega sua vida na cruz em Jo 19. Quando o Evangelho parece encerrado em Jo 20,30-31, o capítulo 21 reabre a narrativa e reconduz os discípulos à Galileia, ao espaço das redes, do trabalho e da vida ordinária. Esse retorno não é repetição, mas transfiguração: a ressurreição não abandona a história, mas a reorganiza a partir de dentro.

O cenário geográfico é decisivo. O mar da Galileia ou lago de Tiberíades (Lc 5,1; Jo 6,1) situa-se numa região marcada por tensões sociais e econômicas no século I, sob domínio romano e administração herodiana. Pescadores e camponeses viviam sob sistemas de tributação e dependência que frequentemente geravam empobrecimento e vulnerabilidade. Jesus forma sua comunidade nesse contexto periférico. O Reino de Deus não nasce no centro do poder religioso de Jerusalém nem nas estruturas imperiais de Roma, mas entre trabalhadores, pescadores e marginalizados. A encarnação já anunciada em Jo 1,14 continua aqui sua lógica histórica. A narrativa inicia-se com a noite da pesca infrutífera: “Naquela noite nada apanharam” (Jo 21,3). Em João, a noite possui densidade simbólica: Nicodemos procura Jesus à noite (Jo 3,2), Judas sai na noite da traição (Jo 13,30). Agora os discípulos também estão na noite, expressão da experiência humana de vazio, fracasso e desorientação. Essa experiência permanece profundamente atual. O homem contemporâneo vive entre excesso de produção e escassez de sentido. O Eclesiastes já interrogava essa condição ao dizer: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). A psicologia contemporânea descreve esse fenômeno como crise existencial marcada por ansiedade, esgotamento e perda de sentido.

É nesse contexto que o Ressuscitado aparece ao amanhecer (Jo 21,4). A luz rompe a noite como em Gn 1,3, inaugurando uma nova criação. João retoma sua própria teologia da luz: “A luz brilha nas trevas” (Jo 1,5) e “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). O Ressuscitado não apenas ressuscita, ele recria. Ao chegarem à margem, os discípulos encontram pão, peixe e um fogo aceso (Jo 21,9). O termo anthrakia aparece apenas aqui e em Jo 18,18, quando Pedro nega Jesus. O mesmo fogo da negação torna-se fogo da reconciliação. A memória da queda não é eliminada, mas transfigurada. A espiritualidade cristã não é negação do passado, mas sua cura. Após a tríplice pergunta “Tu me amas?” (Jo 21,15-17), que reverte as três negações de Pedro (Jo 18,15-27), Jesus anuncia o caminho da entrega: “Quando fores velho, estenderás as mãos” (Jo 21,18). O discipulado não é poder, mas fidelidade; não é domínio, mas doação. O Cristo ressuscitado permanece sendo o Cristo crucificado (Mc 8,34; Jo 12,24).

É nesse ponto que surge a pergunta de Pedro: “Senhor, e este?” (Jo 21,21). Essa pergunta revela uma das estruturas mais profundas da experiência humana: a tendência à comparação. Diante da própria vocação, o ser humano desloca o olhar para o outro. Em vez de habitar seu caminho, mede-se pelo caminho alheio. A antropologia e a psicologia contemporâneas reconhecem nesse movimento uma das fontes da ansiedade, da inveja e da desorientação existencial. O próprio Antigo Testamento já advertia contra essa dinâmica (Ex 20,17; Pr 14,30). Jesus responde de forma decisiva: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me” (Jo 21,22). Essa resposta condensa toda a espiritualidade cristã. O discipulado não é comparação, mas fidelidade. O Evangelho termina como começou: com um chamado ao seguimento (Jo 1,43). Seguir não é aderir a uma ideia, mas entrar em um caminho.

Na tradição da Igreja, essa passagem é também compreendida como exortação à humildade e à liberdade interior. A resposta de Jesus desmonta qualquer pretensão de controle sobre a vocação do outro. Ela impede hierarquias espirituais absolutizadas e desautoriza qualquer tentativa de submeter o mistério de Deus a estruturas de domínio humano. O verdadeiro pastoreio não se exerce na verticalidade do poder, mas na horizontalidade do serviço, como o próprio Cristo demonstra no lava-pés de Jo 13,1-15. O Papa Francisco retoma constantemente essa lógica ao afirmar que o pastor deve caminhar com o povo e não acima dele. Essa perspectiva atinge diretamente o clericalismo, entendido como deformação da vida eclesial quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recupera a Igreja como Povo de Deus em caminho histórico. Antes da hierarquia está o batismo; antes da autoridade está o discipulado. Quando essa ordem se inverte, a Igreja perde sua configuração evangélica.

A tradição latino-americana aprofundou essa consciência. Conferência de Medellín denunciou estruturas de injustiça social. Conferência de Puebla reconheceu nos pobres o rosto de Cristo. Conferência de Aparecida reafirmou o discipulado missionário e a opção pelos pobres. Essas intuições não são acréscimos externos, mas consequências da encarnação. João 21 também exige discernimento crítico diante do uso instrumental da religião. A Escritura inteira denuncia a fusão entre fé e poder quando esta se converte em instrumento de dominação. Jesus rejeita o poder imperial em Mt 4,8-10, recusa a coroação política em Jo 6,15, entra em Jerusalém sobre um jumento em Mt 21,5 e morre fora das estruturas de poder em Lc 23,33. Sempre que a religião se associa a projetos autoritários, ela se afasta do Crucificado. Da mesma forma, as distorções da teologia da prosperidade e das teologias do domínio devem ser confrontadas. O Evangelho não promete riqueza, mas presença; não promete poder, mas comunhão. Jesus nasce pobre (Lc 2,7), vive sem segurança material (Mt 8,20) e proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20). Tiago denuncia a exploração dos pobres (Tg 5,1-6). O Ressuscitado de João 21 encontra discípulos cansados e redes vazias, oferecendo pão e sentido, não acumulação.

O Evangelho conclui com uma abertura radical: “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez... nem o mundo inteiro poderia conter os livros” (Jo 21,25). Essa afirmação não é apenas hipérbole literária, mas teologia da continuidade. Cristo não cabe no texto porque continua vivo na história. Cada gesto de misericórdia prolonga o Evangelho. Cada comunidade que reparte pão conforme At 2,42-47 continua João. Cada defesa da dignidade humana prolonga a presença do Ressuscitado. Por isso, o Evangelho termina sem fechamento definitivo e com um chamado que atravessa os séculos: “Tu, segue-me:"

  • Segue-me como Abraão em Gn 12,1.
  • Segue-me como Isaías em Is 6,8.
  • Segue-me como Maria em Lc 1,38.
  • Segue-me como os discípulos que deixaram as redes em Mt 4,20.

Segue-me até que o Reino anunciado pelos profetas encontre sua plenitude em Ap 21,1-5, quando Deus enxugará toda lágrima e fará novas todas as coisas. Porque o Evangelho termina, mas a missão continua. O livro fecha suas páginas, mas o Ressuscitado permanece caminhando pelas margens da história, junto aos pobres, aos feridos e aos que ainda regressam da noite trazendo redes vazias e esperança ferida e seguir Jesus é permanecer fiel no meio das contradições da história, sem ceder à lógica do poder, sem cair na comparação, sem transformar a fé em instrumento de dominação.

Seguir  é caminhar na direção da justiça, da misericórdia e da verdade. Assim, o Espírito que se aproxima em Pentecostes não é apenas força extraordinária, mas presença que conduz a Igreja a viver o mesmo caminho do Cristo: serviço, comunhão e fidelidade na história.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Inspirado no Evangelho, na Teologia da Libertação e na fidelidade ao povo de Deus em sua peregrinação esperançosa.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Um breve olha sobre João 17, 20-26

 

A perícope de João 17,20-26 ocupa um lugar profundamente significativo no itinerário litúrgico da Igreja, especialmente no Tempo Pascal, quando a comunidade cristã caminha entre a celebração da Ascensão do Senhor e a expectativa de Pentecostes, vivendo a tensão espiritual entre a ausência visível do Ressuscitado e a promessa da presença permanente do Espírito Santo (At 1,8; Jo 14,16-18) na quinta-feira  da sétima semana da Páscoa rito romano, este texto é proclamado durante a sétima semana da Páscoa, inserindo-se no movimento que conduz a Igreja da contemplação do Cristo glorificado para a missão no mundo. Em alguns ciclos litúrgicos, variantes desta oração aparecem associadas às celebrações ligadas à unidade dos cristãos e à missão eclesial. Nas tradições orientais, particularmente nas Igrejas bizantinas, esta passagem é contemplada como expressão do Cristo exaltado que continua intercedendo pelo povo diante do Pai (Hb 7,25; Rm 8,34). As Igrejas históricas oriundas da Reforma igualmente preservam esta leitura no ciclo pascal, reconhecendo nela um dos mais elevados testemunhos sobre a comunhão desejada por Cristo. Não se trata apenas da conclusão do ministério público de Jesus, mas do seu testamento espiritual às portas da paixão sendo  uma  continuação  direta  da leitura  da quarta-feira da sétima semana 

A oração de Jesus em João 17, 20-26 é uma reflexão ampliada e profética que ressoa com força em nosso tempo, clamando por comunhão em meio à crescente fragmentação. Antes mesmo da criação do mundo, antes de respirarmos nosso primeiro ar, Jesus já intercedia por nós. Sua oração não é um murmúrio distante, mas uma convocação poderosa que atravessa os séculos: “Que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti” (João 17,21). Esse é o mistério central da vida cristã,   a união profunda e inseparável do Pai e do Filho, um convite aberto para que participemos desse amor eterno.

Ao meditarmos esse chamado, recordamos o prólogo do Evangelho de João, que revela a origem e a eternidade dessa comunhão: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1,1). O Verbo, que é Jesus, não habita apenas a unidade trinitária, mas é a expressão viva e criadora desse amor. Assim, a oração de Jesus ecoa o “princípio” divino que sustenta toda a criação (João 1,3), convidando-nos a uma comunhão radical, que ultrapassa o tempo e as circunstâncias humanas. Esta leitura não surge isoladamente. Ela é continuidade orgânica do caminho iniciado nos dias anteriores. O itinerário joanino conduziu a comunidade desde o lava-pés (Jo 13,1-15), passando pelo mandamento novo do amor (Jo 13,34-35), pela promessa do Paráclito (Jo 14,16.26), pela imagem da videira e dos ramos (Jo 15,1-8), pela advertência sobre as perseguições (Jo 15,18-21) e pela promessa de que a tristeza seria transformada em alegria (Jo 16,20-22). Agora chegamos ao ápice. O Cristo deixa de falar diretamente aos discípulos e eleva os olhos ao Pai (Jo 17,1). Aquele que lavou os pés torna-se o sacerdote que oferece não animais nem vítimas externas, mas a própria vida (Hb 9,11-14). A oração sacerdotal emerge como síntese do Evangelho e antecipação da cruz.

Os Evangelhos Sinóticos apresentam este mesmo momento sob outra perspectiva. Mateus, Marcos e Lucas conduzem-nos ao Getsêmani (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46), onde Jesus experimenta a angústia da hora, a solidão e a entrega total à vontade do Pai. João não descreve diretamente esta cena; em seu lugar, oferece-nos a oração sacerdotal. As tradições não se opõem, mas se completam. Nos Sinóticos contemplamos o Cristo que assume o peso da condição humana e enfrenta a proximidade da paixão; em João contemplamos o Cristo que interpreta teologicamente sua missão e transforma a iminência da cruz em revelação da glória e do amor.

O cenário histórico e social desta oração não pode ser ignorado. Jerusalém do século I encontrava-se sob o domínio do Império Romano (Lc 2,1-2). A Palestina vivia marcada por desigualdades, tributos pesados e tensões religiosas (Mt 22,15-22). O Templo era simultaneamente centro espiritual, econômico e político (Mc 11,15-18). Fariseus, saduceus, essênios e zelotas apresentavam respostas distintas diante da ocupação romana e da esperança messiânica. O povo carregava o peso da pobreza, das exclusões e das expectativas de libertação (Lc 4,18-19). Nesse ambiente marcado por fragmentações, Jesus não organiza resistência armada (Mt 26,52), não constrói projetos de hegemonia (Jo 6,15) nem instrumentaliza o sagrado para fins políticos. Seu gesto derradeiro é rezar. Este detalhe possui enorme densidade teológica. Enquanto Roma impunha unidade pela espada, Cristo propõe unidade pela comunhão. Enquanto o império estruturava relações hierárquicas rígidas, Jesus reunia pescadores (Mc 1,16-20), mulheres (Lc 8,1-3), pobres (Lc 6,20), estrangeiros (Mt 8,5-13), publicanos (Lc 5,29-32) e marginalizados (Mc 1,40-45). Enquanto sistemas religiosos erguiam muros entre puro e impuro (Mc 7,1-23), ele atravessava fronteiras, dialogava com samaritanos (Jo 4,4-42), acolhia pecadores (Lc 19,1-10) e devolvia dignidade aos esquecidos. A oração sacerdotal nasce exatamente como resposta divina a um mundo fragmentado.

Quando Jesus afirma: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra” (Jo 17,20), o horizonte da oração rompe os limites do cenáculo. Pela primeira vez, o Evangelho inclui explicitamente todas as gerações futuras dentro da intercessão do Cristo. A oração atravessa os mártires (Ap 6,9-11), alcança as comunidades perseguidas (1Pd 4,12-16), acompanha a missão apostólica (Mt 28,19-20), chega às periferias humanas e existenciais, abraça os pobres, os migrantes, os esquecidos e os que ainda nascerão. Nós estamos dentro desta oração. Esta universalização remete imediatamente ao prólogo joanino: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O Verbo pelo qual tudo foi criado (Jo 1,3; Cl 1,15-17) é o mesmo que agora intercede pela humanidade. O Cristo histórico revela-se Cristo cósmico. O princípio encontra sua plenitude. O Deus que cria por amor deseja restaurar a criação pela comunhão (Ef 1,9-10).

Chegamos então ao centro da oração: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21). Esta unidade não significa uniformidade institucional nem simples convivência social. O “como” joanino possui profundidade ontológica e relacional. Jesus não pede apenas coexistência; pede participação na própria comunhão trinitária. Aqui encontramos uma das maiores intuições da tradição cristã. Deus não aparece como solidão absoluta, mas como comunhão eterna. O Pai vive em relação ao Filho, o Filho permanece no Pai (Jo 14,10-11) e o Espírito torna presente esta comunhão (Jo 15,26). O universo nasce do encontro e não do isolamento.

A antropologia bíblica já anunciava esta verdade desde o Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Este versículo ultrapassa a dimensão matrimonial e revela uma estrutura existencial profunda. O ser humano é criado para a alteridade. Ele realiza sua identidade na relação. O pecado rompe esta vocação. Caim destrói a fraternidade (Gn 4,8-10). Babel simboliza fragmentação e orgulho (Gn 11,1-9). Pentecostes restaura a comunhão entre os povos (At 2,1-11). Pentecostes aparece como resposta e reversão simbólica de Babel. Se em Babel a pretensão humana produz dispersão e ruptura, em Pentecostes o Espírito reúne os povos sem eliminar suas diferenças. Línguas, culturas e histórias permanecem distintas, mas tornam-se capazes de comunhão. A unidade desejada por Cristo não destrói identidades; ela reconcilia diferenças no amor. Assim, João 17 encontra em Atos 2 um dos seus primeiros cumprimentos históricos e eclesiais.

O pecado divide; o Espírito reúne. A sociologia contemporânea confirma esta crise justamente pela ausência. Nunca existiram tantas formas de conexão e, ao mesmo tempo, tanto isolamento. O individualismo moderno enfraqueceu vínculos comunitários. A lógica neoliberal frequentemente transforma pessoas em recursos e relações em utilidades. O outro torna-se concorrente. A experiência comunitária enfraquece e surgem solidão, ansiedade, perda de sentido e fragmentação social.

Durkheim já percebia que o rompimento dos laços sociais produzia anomia. A psicologia contemporânea mostra que a ausência de pertencimento afeta identidade, esperança e saúde emocional. João 17 aparece então como resposta profundamente humana. Na filosofia contemporânea, este drama existencial encontra eco na crítica de Martin Heidegger ao esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso e objeto funcional. O Evangelho segue caminho oposto. A pessoa humana reencontra sua verdade na relação, porque foi criada à imagem do Deus-comunhão (Gn 1,26-27). Em Cristo, a identidade humana realiza-se não no isolamento, mas na alteridade e no encontro (Rm 12,4-5). João 17 ultrapassa, assim, o horizonte estritamente religioso e apresenta uma resposta antropológica, espiritual e existencial à crise contemporânea.

Jesus ora contra a solidão, contra a fragmentação e contra uma humanidade ferida. Entretanto, esta unidade não elimina as diferenças. Paulo oferece uma chave decisiva ao falar do corpo e dos muitos membros (1Cor 12,12-27). A diversidade não é ameaça; é dom. O Espírito distribui carismas distintos (1Cor 12,4-11). O corpo possui muitos membros e todos são necessários (Rm 12,4-8). O Apocalipse contempla povos, línguas e nações reunidos diante do Cordeiro (Ap 7,9). A comunhão cristã não destrói alteridades; ela as reconcilia.

Por isso, toda tentativa de construir unidade pela imposição contradiz o Evangelho. O autoritarismo produz uniformidade; Cristo produz comunhão. A uniformidade silencia; a comunhão escuta. A uniformidade elimina diferenças; a comunhão as acolhe e as transforma em riqueza. Esta reflexão torna-se inevitavelmente profética diante da realidade contemporânea. Vivemos tempos marcados por polarizações, instrumentalizações da fé e manipulações religiosas. Em muitos contextos, o Evangelho é transformado em instrumento ideológico, a religião converte-se em mecanismo de poder e o Cristo crucificado é reduzido a símbolo de projetos de dominação.

Os profetas já denunciavam esta deformação. Isaías criticava o culto vazio (Is 29,13; Is 58,1-8). Amós condenava liturgias separadas da justiça (Am 5,21-24). Jeremias denunciava a falsa segurança religiosa (Jr 7,1-11). Miqueias recordava que Deus pede justiça, misericórdia e humildade (Mq 6,8). Jesus assume esta tradição. Ele denuncia a religião que oprime (Mt 23,1-36), critica o peso imposto pelos líderes (Mt 23,4), expulsa os vendilhões do Templo (Mt 21,12-13) e confronta a hipocrisia religiosa (Lc 11,37-54). A oração sacerdotal denuncia toda espiritualidade incapaz de ouvir o sofrimento humano.

Neste horizonte, torna-se necessária uma crítica às expressões religiosas marcadas pela teologia da prosperidade, pela teologia do domínio e pelas instrumentalizações da fé. Quando o Reino é reduzido à lógica do mercado, desaparecem os pobres do centro do Evangelho. Mas Cristo continua identificando-se com famintos, estrangeiros e excluídos (Mt 25,31-46). Maria já anunciava esta inversão no Magnificat: “Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). Jesus proclama felizes os pobres (Lc 6,20). O juízo final passa pelos pequenos (Mt 25,40). Tiago denuncia a opressão dos trabalhadores (Tg 5,1-6). O CELAM, em Medellín e Puebla, retomou esta tradição profética ao denunciar estruturas injustas e reafirmar a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária e próxima das periferias. A Gaudium et Spes recorda que as alegrias e sofrimentos dos pobres são também os da Igreja. O Documento de Aparecida aprofunda esta perspectiva ao recordar que os rostos concretos dos pobres, migrantes, povos originários, desempregados, pessoas em situação de rua, dependentes químicos e tantas periferias humanas interpelam diretamente a missão da Igreja (DAp 391-398). Evangelizar não é afastar-se das dores do mundo, mas aproximar-se delas à maneira do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). A comunhão desejada por Cristo torna-se concreta quando a Igreja assume a defesa da dignidade humana, da justiça social e da vida ameaçada.

Jesus prossegue: “Eu lhes dei a glória que me deste” (Jo 17,22). Na Escritura, glória não significa prestígio, mas presença divina. O kabod enche o tabernáculo (Ex 40,34), envolve o Sinai (Ex 24,16) e manifesta-se no Templo (1Rs 8,10-11). João, porém, desloca esta compreensão para a cruz. “O Filho do Homem foi glorificado” (Jo 13,31). O lugar da glória torna-se o Calvário. A cruz converte-se em trono. O amor revela-se mais forte que a violência. A entrega vence a lógica do domínio.

Esta visão desmonta toda teologia do poder. O Reino não cresce pela imposição, mas pelo serviço. “Quem quiser ser o primeiro seja servo” (Mc 10,44). O lava-pés torna-se chave hermenêutica da autoridade (Jo 13,12-15). Por isso o clericalismo representa grave deformação eclesial. Jesus advertiu: “O maior entre vós seja aquele que serve” (Mt 23,11). Pedro exorta os presbíteros a não dominarem o rebanho (1Pd 5,2-3). O Concílio Vaticano II recuperou em Lumen Gentium a imagem da Igreja como Povo de Deus. O batismo antecede funções. A comunhão precede estruturas. O ministério existe para servir.

A oração avança: “Eu neles e tu em mim” (Jo 17,23). Entramos aqui no horizonte místico da participação divina. Pedro fala da participação na natureza divina (2Pd 1,4). Paulo afirma: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20). A comunidade torna-se templo do Espírito (1Cor 3,16). Jesus promete: “Faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). A tradição oriental chamou este movimento de theosis. Não significa perder a humanidade, mas realizá-la plenamente. Irineu afirmava que a glória de Deus é o ser humano vivo.

Esta perspectiva possui enorme força ética. Se toda pessoa carrega dignidade, então exclusão, racismo, xenofobia, desigualdade e violência tornam-se escândalos espirituais. A oração sacerdotal converte-se em denúncia histórica contra estruturas que descartam vidas e silenciam marginalizados. Jesus conclui: “Pai, quero que onde eu estou estejam também comigo aqueles que me deste” (Jo 17,24). Surge aqui a dimensão escatológica. O Reino ainda não alcançou plenitude. Caminhamos entre promessa e esperança. O Apocalipse contempla a nova Jerusalém onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,1-5). Isaías anuncia novos céus e nova terra (Is 65,17). Paulo fala da criação que geme esperando redenção (Rm 8,18-23).

A esperança cristã não é fuga do mundo. É compromisso com a história. Quem espera o Reino trabalha pela justiça. Quem espera a paz constrói reconciliação. Quem espera a comunhão combate exclusões. A oração sacerdotal continua aberta na história. Ela ainda denuncia clericalismos, confronta instrumentalizações da fé e chama a Igreja à conversão. Num mundo marcado por desigualdade, violência e crise de sentido, João 17 continua sendo palavra profética e Boa Nova. Que a Igreja volte ao Evangelho dos pobres (Lc 4,18), escute o clamor dos oprimidos (Ex 3,7), torne-se casa de comunhão (Ef 2,19-22) e sinal do Reino (Mt 5,13-16). E que o amor trinitário revelado no Verbo eterno (Jo 1,1-18) conduza toda criação à plenitude em Cristo (Ef 1,10; Ap 22,1-5).

Na filosofia, esse drama existencial encontra eco na crítica à cultura do esquecimento do ser, que reduz o humano a mero recurso (cf. Heidegger). O Evangelho, ao contrário, nos chama a reencontrar o ser na comunhão, a realizar nossa identidade na relação com o outro, à imagem da comunhão trinitária (cf. Romanos 12,4-5). Teologicamente, a oração de Jesus em João 17 é o coração da sua missão: conduzir-nos à vida plena, que consiste em permanecer no amor recíproco entre o Pai e o Filho (cf. João 15,9-12). Essa vida não é um ideal abstrato, mas uma exigência concreta para a missão da Igreja, como nos lembrou o Papa Francisco em Evangelii Gaudium (n. 99), ressaltando que a Igreja “não pode estar fechada, dividida ou vivendo isolada”. Porém, diante desse chamado, denunciamos o vazio de fé que habita muitas práticas religiosas, onde os ritos perdem significado e a vivência do Evangelho se esvazia em discursos ideológicos desconectados do amor de Deus (cf. Isaías 29,13). O clericalismo, que o Papa Francisco combateu com vigor, essa chaga que paralisa a vida da Igreja, transformando-a em uma estrutura autoritária e excludente, em vez de uma casa de comunhão e serviço (cf. Mateus 23,1-12). A verdadeira autoridade cristã nasce do serviço humilde e da entrega, e não do poder ou da rigidez (cf. Marcos 10,42-45).

Assim, a oração de Jesus ilumina e denuncia o fechamento e a fragmentação que sufocam a Igreja e o mundo. Ela é um chamado urgente a resistir à cultura do medo, da exclusão e da intolerância, para construir uma comunhão que acolha a diversidade, fortaleça a escuta e viva a caridade, formando o corpo de Cristo em unidade (cf. 1 Coríntios 13). Que essa oração nos mova a sermos irmãos e irmãs que buscam o Reino da justiça, da paz e do amor (cf. Mateus 5,9), denunciando os poderes que se levantam contra a unidade e a vida plena, acolhendo a voz dos marginalizados e rompendo com o clericalismo que os silencia (cf. Mateus 25,40). Que a Igreja se torne, enfim, verdadeira casa de comunhão, testemunho vivo do amor trinitário para um mundo fragmentado e sedento de esperança.

O texto termina afirmando: “Para que o amor com que me amaste esteja neles” (Jo 17,26). Tudo converge para o amor. Ele é o centro da Lei (Mt 22,37-40), o cumprimento dos mandamentos (Rm 13,10), o vínculo da perfeição (Cl 3,14) e a realidade maior que permanece (1Cor 13,13).

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado, semeador da unidade num mundo fragmentado.