Há algo profundamente contraditório quando a religião se encanta demais com seus próprios símbolos e se esquece da realidade para a qual esses símbolos deveriam apontar. A crítica não é contra a beleza, a tradição ou a liturgia; é contra o risco permanente de transformar meios em fins, de substituir o Evangelho pela sua encenação.7
Biblicamente, a advertência é antiga. Os profetas de Israel denunciaram repetidamente uma religião rica em ritos e pobre em justiça. Isaías ecoa a voz divina contra um culto que mantém as aparências enquanto ignora os vulneráveis (Is 1,11-17). Amós é ainda mais contundente ao afirmar que Deus rejeita celebrações religiosas quando a justiça não corre como um rio e a retidão como um ribeiro perene (Am 5,21-24).
No Novo Testamento, a tensão reaparece. Jesus de Nazaré não confronta apenas pecadores comuns; confronta principalmente sistemas religiosos que haviam confundido prestígio espiritual com fidelidade a Deus. Em Mateus 23, critica líderes que ampliam vestes, buscam lugares de honra, títulos e reconhecimento público. O problema não era a roupa em si, mas o coração que encontrava na religião um instrumento de poder e distinção social.
É significativo lembrar que Jesus nunca vestiu casula, estola, mitra, barrete ou qualquer insígnia associada posteriormente ao ministério ordenado ou mesmo ao poder religioso do seu tempo. Caminhou pelas estradas da Galileia como um judeu do seu tempo, fez parte do laos, sendo um leigo. Só mais tarde depois da sua morte, ressurreição e ascensão na idade media o ordenaram ou lhe atribuiram o sacramento da ordem. Sua autoridade não vinha de vestimentas especiais nem de símbolos religiosos. Vinha da coerência entre palavra e vida, da proximidade com os pobres, da compaixão pelos feridos e da fidelidade ao Pai. O cristianismo nasceu seguindo um carpinteiro itinerante que lavava pés, partilhava mesas e tocava leprosos, não um dignitário cercado por honras e privilégios.
O próprio apóstolo Paulo combateu qualquer tentativa de transformar lideranças em objeto de veneração. Diante das divisões da comunidade de Corinto, perguntou: "O que é Apolo? O que é Paulo?". E respondeu: apenas servos por meio dos quais outros chegaram à fé. Para Paulo, o ministro não é o centro da comunidade; é instrumento. Seu maior testemunho não foi construir uma imagem de si mesmo, mas poder afirmar: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2,20). A autoridade cristã nasce justamente desse deslocamento do ego para que Cristo ocupe o centro.
Historicamente, essa tensão acompanha toda a trajetória da Igreja. À medida que o cristianismo se institucionalizou e se aproximou dos centros de poder, surgiram debates sobre riqueza, influência e clericalismo. Em diferentes épocas, vozes proféticas lembraram que a Igreja corre perigo quando se aproxima demais dos palácios e se afasta das periferias. Entre essas vozes está Francisco de Assis. Em uma sociedade fascinada por títulos, prestígio e distinções, escolheu a pobreza, a fraternidade e a simplicidade. Seu testemunho continua sendo um chamado para que a Igreja desça dos tronos simbólicos que constrói para si mesma e volte às estradas onde Cristo caminha com os pobres. Francisco compreendeu que o Evangelho perde sua força quando a autoridade deixa de servir e passa a buscar ser sservida, não vamos nos atrever a comentar sobre que fizeram e fazem com as ordens medigantes
Sob a perspectiva sociológica, esse fenômeno não é exclusivo do cristianismo. Instituições religiosas como um todo, tendem naturalmente a desenvolver estruturas, hierarquias e símbolos de autoridade. Embora isso possa contribuir para a organização, também produz o risco da burocratização da fé. A experiência viva do Evangelho pode ser substituída pela busca de prestígio institucional. O cargo passa a importar mais que a missão; a imagem mais que o serviço; a autoridade mais que a fraternidade.
É nesse terreno que floresce o clericalismo. O ministro deixa de ser irmão entre irmãos para tornar-se uma figura separada, quase uma elite espiritual. A comunidade passa a girar em torno de sua personalidade, de sua influência ou de sua popularidade. O resultado é uma inversão do Evangelho: quem deveria apontar para Cristo passa a apontar para si mesmo.
Essa compreensão atravessa também a tradição patrística. João Crisóstomo advertia que não se pode honrar o corpo de Cristo presente no altar enquanto se despreza o corpo de Cristo presente nos pobres, sem esquecer Santo Agostinho de Hipona que disse:
Para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquele é o nome do encargo aceito; este, da graça. Aquele indica o perigo; este, a salvação
Convosco sou cristão: a identidade comum: Ao afirmar “convosco sou cristão”, Agostinho recorda que a graça de Cristo é o fundamento da vida de todos os fiéis. Antes de qualquer função ou ministério, ele se reconhece discípulo entre discípulos, participante da mesma fé e necessitado da mesma misericórdia.
Para vós sou bispo: a responsabilidade do serviço: Quando diz “para vós sou bispo”, Agostinho não fala de privilégio ou prestígio, mas de encargo. O ministério episcopal é uma responsabilidade diante de Deus e da comunidade, marcada pelo dever de cuidar, orientar e prestar contas pelo rebanho confiado ao seu cuidado.
Autoridade como serviço, não como domínio: A frase resume uma compreensão profundamente evangélica da liderança. O pastor não se coloca acima do povo, mas caminha com ele. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço, na humildade e na partilha da mesma fé, seguindo o exemplo de Cristo, que veio para servir e não para ser servido.
Para os pais e mães da Igreja dos primeiros séculos, a autenticidade da fé não era medida pela riqueza dos ornamentos, mas pela capacidade da Igreja de reconhecer no necessitado o rosto do próprio Senhor. O problema nunca foi a beleza colocada a serviço do sagrado; o problema é quando a estética passa a ocupar o lugar da misericórdia.
Mas o centro da fé cristã permanece desconcertante. Na última ceia, não encontramos Cristo exigindo reverências; encontramos Cristo ajoelhado com uma toalha nas mãos (Jo 13). O gesto não é um detalhe sentimental. É uma redefinição radical da autoridade. No Reino de Deus, grandeza não significa ser servido, mas servir. Por isso, o verdadeiro escândalo não é a ausência de ornamentos, mas a ausência de compaixão. Não é a simplicidade das vestes, mas a pobreza da escuta. Não é a falta de prestígio, mas a falta de compromisso com os que sofrem.
Óscar Romero em pleno século XX compreendeu isso quando afirmou que "a glória de Deus é que o pobre viva" também nos lembra "Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida" Não foi uma frase pronunciada do conforto de um gabinete. Foi uma convicção selada com sangue. Romero foi perseguido, incompreendido, acusado injustamente de fomentar divisões e atacado por aqueles que preferiam uma Igreja acomodada às estruturas de poder. Acabou assassinado enquanto celebrava a Eucaristia. Sua morte permanece como denúncia contra toda religião que faz as pazes com a injustiça e como testemunho de que seguir Cristo exige mais coragem do que prestígio.
É triste ver hoje, uma geração de ministros católicos ou Protestantes mais preocupados: Em ser vistos do que em ver; mais interessados em ser celebrados do que em celebrar a presença de Cristo entre os pequenos.
A missão não é transformar-se em celebridade religiosa, mas tornar Cristo visível.
Não é acumular seguidores, mas formar discípulos.
Não é construir uma imagem, mas testemunhar uma verdade.
Quando quem preside a comunidade busca para si os aplausos, o status e os holofotes, deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para si mesmo. O ministério torna-se palco, a vocação transforma-se em carreira e o serviço corre o risco de ser substituído pela autopromoção. O protagonismo do Reino não pertence ao líder, mas a Cristo. Quem preside é chamado:
a servir, não a ocupar o centro da cena;
a conduzir as pessoas ao Evangelho, não à própria imagem.
Toda liderança cristã que se alimenta da vaidade, da busca por reconhecimento e da necessidade de admiração afasta-se daquele que, sendo Senhor, tomou a toalha para lavar os pés dos discípulos e escolheu a cruz em vez dos aplausos. Porque, no Reino de Deus, a grandeza não está em ser visto, mas em servir; não está em receber honras, mas em amar sem exigir reconhecimento.
Talvez por isso as críticas do Papa Francisco ao clericalismo tenham provocado tanto incômodo. Repetidas vezes ele denunciou uma Igreja excessivamente preocupada com aparências, títulos, privilégios e autorreferencialidade. Em tom bem-humorado, chegou a ironizar certos excessos estéticos presentes em ambientes eclesiásticos, como rendas e adornos que pareciam saídos do antigo guarda-roupa de uma avó. A observação continha uma provocação profunda: quando a preocupação com a aparência ocupa espaço demais, corre-se o risco de esquecer o essencial. O Evangelho não é tecido de seda, renda ou veludo. É encontro, serviço, compaixão e proximidade.
O Reino floresce onde:
alguém visita o doente sem publicar a foto,
escuta o aflito sem esperar recompensa,
reparte o pão sem calcular prestígio
permanece fiel mesmo quando ninguém está olhando.
Ali, longe dos aplausos, a fé eencontra sua verdade mais profunda.
Menos espetáculo, mais Evangelho.
Menos pose, mais presença.
Menos títulos, mais serviço.
Menos poder, mais compaixão.
Menos palácios, mais estrada.
Menos tronos, mais toalhas.
Menos ornamento, mais vida
Porque o centro nunca foi o sacerdote, o bispo, o pastor, a instituição ou o espetáculo. O centro continua sendo Cristo o Deus que trocou o poder pelo serviço, a distância pela proximidade e a glória dos poderosos pela companhia dos pequenos. E é somente quando a Igreja volta seus olhos para esse Cristo que reencontra sua vocação mais bela: servir, amar e caminhar junto ao povo
.DNonato - Servo inútil; não faço mais que a obrigação. (cf. Lucas 17,10)
No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, João 19,25-34 é proclamado na memória da Bem Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, celebrada na segunda feira após a Solenidade de Pentecostes. Esta memória foi instituída por Papa Francisco em 2018 e possui profundo significado teológico e eclesial, pois a Igreja que acaba de celebrar o dom do Espírito volta o olhar para aquela que permaneceu no cenáculo com os discípulos “unidos em oração” (At 1,14), reconhecendo nela não apenas a Mãe do Senhor, mas também figura, imagem e expressão materna da própria Igreja. O Evangelho proclamado nesta memória situa Maria aos pés da cruz, no momento culminante da obra redentora, e apresenta sua maternidade ampliada ao discípulo amado e, nele, a toda comunidade cristã. Embora esta formulação litúrgica seja própria do rito romano, o mistério de Maria junto ao Crucificado atravessa toda a tradição cristã histórica. As Igrejas orientais contemplam a Theotokos junto à cruz durante a Semana Santa e a veneram como ícone da humanidade reconciliada e da Igreja fiel
É preciso lembrar que a memória de Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja lê a cena da cruz não apenas como morte de Jesus, mas como nascimento da c8omunidade dos discípulos. No conjunto geral , João transforma a crucifixão em uma teologia da nova criação: Maria torna-se mãe dos discípulos, Jesus é o novo Cordeiro, e do seu lado aberto nasce a Igreja pelo sangue e pela água, vale a pena olha os detalhes
A cruz como novo “Éden” e novo início: João coloca tudo aos pés da cruz. O Calvário torna-se lugar de nova criação. Assim como em Gênesis surge a humanidade, da cruz nasce a nova humanidade reconciliada.
Maria “de pé” (Jo 19,25): O verbo é importante: Maria não aparece desfalecida, mas em pé (hestēkeisan, no grego). É imagem de fidelidade, resistência e permanência junto à dor.
“Mulher, este é teu filho”: Jesus não chama Maria de “mãe”, mas de “mulher” (gynai), como em Jo 2 nas bodas de Caná. Há paralelo simbólico Caaná → início dos sinais. Vesus a cruz → consumação da missão: Maria aparece no começo e no fim do ministério joanino.
O discípulo amado: O “discípulo que Jesus amava” é visto por muitos exegetas como símbolo do discípulo ideal, da Igreja e da comunidade fiel. Assim, Maria torna-se mãe dos discípulos.
“Daquela hora em diante” A “hora” em João é categoria teológica. Não é apenas relógio: é o momento da glorificação pela cruz.
“Tenho sede” (Jo 19,28): Não é só sede física. Em João há forte simbolismo: Jesus que ofereceu “água viva” (Jo 4) agora experimenta a sede humana até o extremo.
O vinagre: O vinagre remete ao Salmo 69,21: “na minha sede me deram vinagre”. João mostra cumprimento das Escrituras, mas aqui não gesto de caridade do guarda romano, mas outra humilhação foi lhe oferecido uma mistura usada para limpeza no banheiro de campanha dos soldados
“Tudo está consumado” (Tetélestai): No grego tetélestai significa: completado, levado à plenitude. Não é derrota; é missão cumprida.
“Entregou o espírito”: João usa expressão ambígua: pode significar morrer, mas também entregar o Espírito. Há antecipação de Pentecostes.
Nenhum osso quebrado (Jo 19,33): Recorda o cordeiro pascal de Êxodo 12,46, cujos ossos não podiam ser quebrados. Jesus aparece como o novo Cordeiro.
. O lado aberto pela lança: O lado transpassado tornou-se símbolo clássico da misericórdia e da abertura total de Cristo à humanidade.
. Sangue e água (Jo 19,34): Um dos símbolos mais ricos do texto: Sangue → Eucaristia, vida entregue. Água → Batismo, Espírito, purificação. Os Padres da Igreja viram aqui o nascimento sacramental da Igreja.
Paralelo com Eva: Alguns Padres, como Santo Agostinho e Santo Ambrósio, comparavam: Eva nasce do lado de Adão (Gn 2). A Igreja nasce do lado aberto de Cristo, o “novo Adão”.
. Maria + sangue + água = ícone da Igreja nascente: Por isso esta leitura é escolhida para “Maria, Mãe da Igreja”: Maria está presente no momento em que a comunidade nasce do lado aberto de Cristo.
As quatro mulheres junto à cruz: João destaca mulheres permanecendo quando muitos fugiram: presença, fidelidade e testemunho.
A tradição patrística oriental contempla Maria como aquela que permanece junto ao sofrimento do Filho e participa da esperança da nova criação. Também nas tradições reformadas históricas, ainda que a mariologia assuma formas diversas, João 19 permanece referência fundamental para compreender discipulado, fidelidade e comunidade.
O texto joanino não pode ser compreendido isoladamente. O Calvário não surge repentinamente. Ele é o ápice de uma longa caminhada que começa desde o princípio das Escrituras. João abre seu Evangelho retomando deliberadamente Gênesis: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). O eco de Gênesis 1,1 não é acidental. O evangelista anuncia que em Cristo inicia-se uma nova criação. Quando afirma que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), utiliza o verbo eskénosen, evocando a tenda da presença divina no deserto (Ex 25,8; Ex 40,34-35). O Deus que caminhava com Israel agora arma sua tenda na fragilidade humana. Toda a narrativa joanina conduz progressivamente para a “hora”. Maria aparece apenas duas vezes no Evangelho de João e ambas são decisivas. Em Caná da Galileia (Jo 2,1-11), ela está no início dos sinais. No Calvário (Jo 19,25-27), está no momento da consumação. Entre esses dois episódios desenrola-se todo o caminho do discipulado. Em Caná, Maria diz: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). No Calvário ela silencia. Em Caná, a hora ainda não chegou (Jo 2,4). Na cruz, a hora se cumpre (Jo 12,23; Jo 13,1; Jo 17,1). A mulher que testemunhou o primeiro sinal permanece agora diante da entrega total. O Evangelho cria uma moldura teológica: Maria acompanha o início e a consumação da nova criação.
O Calvário deve ser lido à luz de toda a Escritura. Quando Jesus chama Maria de “mulher” em Caná (Jo 2,4) e novamente na cruz (Jo 19,26), João estabelece uma ponte com Gênesis. O termo remete à mulher de Gênesis 3,15, onde Deus anuncia inimizade entre a serpente e sua descendência. A tradição cristã verá aí a figura da nova Eva. Se Eva esteve associada ao drama da queda, Maria aparece vinculada à redenção. A imagem ganha profundidade quando recordamos Gênesis 2,21-23. Eva nasce do lado de Adão. Em João 19,34, do lado aberto de Cristo brotam sangue e água. A patrística verá neste gesto o nascimento da Igreja. Santo Agostinho afirmará que a Igreja nasce do lado aberto do novo Adão adormecido na cruz.
O contexto histórico amplia ainda mais esta leitura. A Palestina do primeiro século estava sob domínio romano. O império organizava a sociedade por meio da tributação, militarização e concentração de poder. A crucificação era instrumento de intimidação política. O Gólgota localizava-se fora das muralhas de Jerusalém (Hb 13,12), próximo de vias públicas, pois as execuções eram realizadas em locais visíveis para funcionarem como advertência pública. A cruz era linguagem imperial. Roma transformava corpos em mensagem de poder e medo. O Evangelho subverte radicalmente esta lógica: o lugar da humilhação torna-se lugar da revelação; o espaço da morte converte-se em espaço de vida; aquilo que o império utilizava para intimidar transforma-se no sinal supremo do amor.
Jesus morre dentro desta realidade histórica concreta. Sua morte não é abstração espiritual nem acontecimento desligado da vida social. Ela acontece no interior de estruturas políticas, econômicas e religiosas marcadas por desigualdade, exclusão e violência. O Reino anunciado por Jesus confrontava tais estruturas. Quando proclama em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4,18), retomando Isaías 61,1-2, assume explicitamente a tradição profética. Esta tradição atravessa toda a Escritura. Deus escuta o clamor dos escravizados (Ex 3,7). Isaías denuncia jejuns sem justiça (Is 58,6-7). Amós condena liturgias divorciadas da vida (Am 5,21-24). Miqueias resume a vontade divina no compromisso com a justiça e a misericórdia (Mq 6,8). Jeremias critica a falsa segurança religiosa baseada apenas no templo (Jr 7,4-11). A crítica profética nunca foi contra a fé, mas contra sua manipulação.
João escreve dentro desta tradição e, ao chegar ao Calvário, apresenta Maria, Maria de Cléofas, Maria Madalena e o discípulo amado junto à cruz (Jo 19,25). Aqui aparece uma diferença importante em relação aos sinóticos. Marcos mostra as mulheres observando à distância (Mc 15,40). Mateus conserva a mesma tradição (Mt 27,55-56). Lucas amplia a presença feminina e inclui o lamento das mulheres de Jerusalém (Lc 23,27-31). João aproxima as mulheres do Crucificado. O movimento é profundamente teológico. Aquilo que estava distante torna-se proximidade. A comunidade joanina aproxima-se do sofrimento.
Maria permanece de pé. O verbo grego hestêkê indica firmeza, perseverança e resistência. Lucas já havia preparado esta cena quando Simeão profetiza: “Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). O sofrimento não surge inesperadamente. Ele faz parte do caminho. Entretanto, Maria não abandona o Filho. Ela permanece. A antropologia do Mediterrâneo antigo ajuda a compreender esta cena. As mulheres possuíam papel central nos rituais de luto, preservando a memória dos mortos e guardando seus nomes. Maria insere-se nesta tradição, mas a transcende. Ela não apenas lamenta; testemunha. Não apenas chora; permanece. Seu luto torna-se resistência e esperança.
Neste ponto emerge uma das imagens mais profundas da revelação bíblica: a Igreja possui rosto feminino. Não se trata de uma categoria biológica, mas teológica e relacional. Os profetas descrevem Israel como esposa amada (Os 2,16-22), mulher restaurada após o exílio (Is 54,1-8) e Sião que volta a gerar filhos (Is 66,7-13). Jerusalém aparece como mãe (Sl 87,5; Is 49,14-18). Outras figuras femininas ampliam esta simbologia. Rebeca atravessa o deserto rumo à aliança (Gn 24). Rute permanece fiel (Rt 1,16). Ana canta a reversão da história (1Sm 2,1-10). Ester arrisca a vida pelo povo (Est 4,16). A mulher forte de Provérbios sustenta a vida e protege os frágeis (Pr 31,10-31). Todas estas imagens convergem na Igreja.
Paulo apresenta a Igreja como esposa amada por Cristo (Ef 5,25-32). O Apocalipse contempla a mulher vestida de sol (Ap 12,1-6), frequentemente compreendida pela tradição tanto como Maria quanto como a Igreja peregrina e perseguida. O livro termina apresentando a Jerusalém celeste descendo do céu “como esposa adornada para seu esposo” (Ap 21,2). João 19 participa desta tradição. Aos pés da cruz nasce uma Igreja materna. Ela não nasce do poder, mas da ferida; não nasce do império, mas da entrega; não nasce do trono, mas do lado aberto. Por isso a tradição a chamará Mater Ecclesia. Sua missão mais profunda não é dominar, mas gerar; não é impor, mas acolher; não é reproduzir estruturas imperiais, mas nutrir a vida. Quando a Igreja esquece esta dimensão e assume lógica de autorreferência, clericalismo e poder, corre o risco de perder seu rosto evangélico. Quando recupera sua identidade bíblica, volta a ser tenda do encontro (Ex 33,7), esposa fiel (Ap 19,7), cidade refúgio (Sl 46,5) e mãe dos viventes da nova criação.
O centro da narrativa chega quando Jesus diz: “Mulher, eis teu filho”, e depois ao discípulo: “Eis tua mãe” (Jo 19,26-27). O gesto ultrapassa o cuidado familiar. A tradição patrística, o magistério e a teologia reconhecem nele um gesto eclesiológico. O discípulo amado representa todos os discípulos. A maternidade de Maria expande-se para a comunidade. Esta maternidade já estava anunciada no Magnificat (Lc 1,46-55), que dialoga diretamente com o cântico de Ana (1Sm 2,1-10). Maria canta um Deus que derruba poderosos de seus tronos (Lc 1,52), eleva humildes (Lc 1,52) e sacia famintos (Lc 1,53). O Magnificat não é espiritualismo intimista. É anúncio profético. Maria não pode ser reduzida a devoção alienante. Ela é mulher do Êxodo, mulher dos profetas, mulher do Reino.
A cruz revela esta solidariedade radical de Deus com as vítimas da história. Isaías descreve o Servo sofredor como rejeitado e desprezado (Is 53,3). A Carta aos Hebreus recorda que Cristo sofre fora da cidade (Hb 13,12-13), junto dos excluídos. Quando o soldado abre o lado de Jesus (Jo 19,34), João reúne toda a memória bíblica. A água recorda o rio do Éden (Gn 2,10), a água da rocha no deserto (Ex 17,6), o rio do templo de Ezequiel (Ez 47,1-12) e a fonte aberta anunciada por Zacarias (Zc 13,1). O sangue remete à aliança do Sinai (Ex 24,8), ao cordeiro pascal (Ex 12,13) e à nova aliança anunciada por Jeremias (Jr 31,31-34). No próprio Evangelho de João, a água aparece no novo nascimento (Jo 3,5), na samaritana (Jo 4,14) e na festa das tendas (Jo 7,37-39). O lado aberto torna-se fonte sacramental. A Igreja nasce do sangue e da água. João reforça esta leitura ao afirmar que nenhum osso foi quebrado (Jo 19,36), evocando o cordeiro pascal (Ex 12,46; Nm 9,12). Depois cita Zacarias: “Olharão para aquele que transpassaram” (Zc 12,10). Toda a Escritura converge para o Crucificado. O evangelista acrescenta ainda outro detalhe profundo ao afirmar que Jesus “entregou o espírito” (Jo 19,30). O verbo ultrapassa a simples descrição da morte. Muitos intérpretes veem aqui antecipação pentecostal. O Espírito começa a ser comunicado já na cruz. Pentecostes nasce do Calvário. A Igreja nasce simultaneamente do lado aberto e do sopro do Crucificado. Por isso Maria reaparece em Atos 1,14 reunida com a comunidade em oração. O Calvário conduz ao cenáculo.
O magistério aprofundou esta visão. Lumen Gentium apresenta Maria como figura e modelo da Igreja (LG 58-69). Marialis Cultus, de Papa Paulo VI, destaca Maria como modelo de discípula. Redemptoris Mater, de Papa João Paulo II, desenvolve sua presença no mistério de Cristo e da Igreja. Evangelii Gaudium apresenta Maria como mãe evangelizadora e companheira do povo peregrino.
A tradição Latino-americana ampliou esta leitura a partir das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, nas quais a Igreja buscou discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho e da realidade social do continente.
Medellín, Colômbia, de 26 de agosto a 7 de setembro de 1968, como II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, tornou-se a principal recepção pastoral latino-americana do Concílio Vaticano II, à realidade latino-americana. Seu tema central foi “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. O documento denunciou as estruturas de injustiça, a pobreza estrutural, a dependência econômica e as violências sociais presentes no continente, afirmando a necessidade de uma Igreja comprometida com a promoção humana, a justiça e a libertação dos pobres. Medellín tornou-se marco para a opção preferencial pelos pobres e para a leitura pastoral da realidade social latino-americana.
Puebla realizada em Puebla de los Ángeles, México, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, como III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, aprofundou a recepção de Medellín e teve como tema “A evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento contemplou o “rosto sofredor de Cristo” presente nos pobres, indígenas, afrodescendentes, trabalhadores, migrantes, mulheres marginalizadas, crianças abandonadas e jovens sem perspectivas. Puebla consolidou a expressão “opção preferencial pelos pobres”, não como categoria ideológica, mas cristológica e evangélica, reconhecendo Cristo presente nos rostos crucificados da história.
Santo Domingo, realizada na República Dominicana, de 12 a 28 de outubro de 1992, durante o contexto dos 500 anos da evangelização das Américas, constituiu a IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e teve como lema “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). A Conferência insistiu na Nova Evangelização, no diálogo entre fé e cultura, na dignidade humana e na evangelização inculturada, reafirmando a missão libertadora da Igreja diante das transformações culturais e sociais do continente
Aparecida realizada no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo, Brasil, de 13 a 31 de maio de 2007, constituiu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho. Seu tema foi “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida” (Jo 10,10) e o lema “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). O documento retomou a opção pelos pobres, insistiu numa Igreja em saída missionária, discípula, samaritana e próxima dos descartados. O então cardeal Papa Francisco, à época arcebispo de Buenos Aires, teve papel decisivo na redação final do documento, cujos ecos reaparecerão depois em Evangelii Gaudium
Neste percurso, a Igreja latino-americana foi progressivamente reconhecendo que o Calvário continua presente nos corpos feridos do continente: nas vítimas da desigualdade, nas periferias urbanas, nos povos originários, nos migrantes, nos trabalhadores explorados, nas mulheres vítimas de violência, nos jovens mortos pela exclusão e nos pobres descartados por modelos econômicos excludentes. É preciso lembrar que América Latina também possui seus mártires. Óscar Romero foi assassinado enquanto celebrava a Eucaristia, tornando-se testemunha da fidelidade ao Evangelho e aos pobres, Dom Adriano Hipólito, 3⁰ bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado em 22 de setembro de 1976, espancado, despido, pintado de vermelho e abandonado em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. No mesmo dia, seu carro foi levado e explodido diante da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no bairro da Glória, tornando-se um dos símbolos da violência da ditadura contra setores da Igreja comprometidos com os direitos humanos, os pobres e a justiça social e Dom Hélder Câmara foi frequentemente chamado de “comunista” por recordar que a caridade cristã exige também perguntar pelas causas estruturais da pobreza.
É preciso ter consciência que a cruz de Cristo e os documentos latino-americanos convergem na mesma pergunta profética: onde estão hoje os crucificados da história? Mateus responde: o faminto, o estrangeiro, o preso e o doente (Mt 25,35-40). Tiago denuncia comunidades que favorecem ricos e desprezam pobres (Tg 2,1-9). João afirma que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê (1Jo 4,20). Maria permanece junto deles. Seu rosto aparece nas mães que enterram filhos, nos refugiados, nos pobres descartados, nos povos expulsos de suas terras. O pranto de Raquel continua ecoando (Jr 31,15; Mt 2,18).
Por isso João 19 torna-se denúncia profética contra toda instrumentalização da religião. Jesus critica os que impõem fardos (Mt 23,4), condena a busca do poder (Mc 10,42-45) e lava os pés dos discípulos (Jo 13,1-15). O clericalismo contradiz esta lógica porque transforma serviço em privilégio e ministério em poder. A fé também corre risco quando capturada por nacionalismos religiosos, projetos autoritários e ideologias de dominação. Jesus recusou tais tentações no deserto (Mt 4,1-11). Recusou o espetáculo, recusou o domínio e recusou o poder desvinculado da cruz.
Quando a religião se transforma em instrumento de controle, perde sua força profética. Isaías já denunciava esta deformação (Is 29,13). Jesus retoma a crítica (Mt 15,8). Amós rejeita liturgias sem justiça (Am 5,21-24). Oséias proclama: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6). Também a teologia da prosperidade entra em tensão com a lógica do Crucificado quando reduz bênção a sucesso individual. Jesus diz: “Quem quiser seguir-me, tome sua cruz” (Mc 8,34). Paulo recorda que Deus escolheu os fracos (1Cor 1,27). Tiago pergunta se Deus não escolheu os pobres deste mundo (Tg 2,5). Atos descreve comunidades marcadas pela partilha (At 2,44-45; At 4,32).
A última imagem da Escritura não é a cruz, mas a cidade. A Jerusalém nova desce do céu “como esposa adornada” (Ap 21,2). A história termina com uma mulher e uma cidade. O Deus do Êxodo que ouviu escravos, o Deus dos profetas que defendeu pobres e o Deus do Calvário que se solidarizou com as vítimas conduz a criação para uma nova humanidade. Maria permanece neste horizonte como mulher do sim, do Magnificat, da cruz, do cenáculo e da esperança. Ela continua junto à cruz, continua entre os pobres, continua nas mães que choram e nas comunidades que resistem. Continua gerando esperança onde a morte parece triunfar.
A Igreja nasceu de uma ferida aberta. Enquanto houver quem permaneça de pé diante da dor humana, o Evangelho continuará renascendo na história.
“Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim.” (Jo 15,18)
Este versículo é mais do que uma advertência. É um chamado à fidelidade radical. Jesus alerta seus discípulos de que o caminho do Reino não se alinha com os valores deste mundo. A fé cristã autêntica não busca aplausos, mas se enraíza na cruz, símbolo de escândalo (cf. 1Cor 1,23), resistência e amor não domesticado. O ódio do mundo não é acidente de percurso, mas resposta à luz que incomoda as trevas (cf. Jo 3,19-20). A rejeição é a marca do discipulado fiel.
Na 5ª Semana da Páscoa a Igreja ler o Evangelho de João os capítulos 14 e 15 e no sabado proclama João 15,18-21 encerrando a semana, onde Jesus prepara os discípulos para a dureza do testemunho fiel: “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim”. Não se trata de um convite ao vitimismo religioso, mas de uma convocação à fidelidade radical ao Reino de Deus. Cristo revela que o Evangelho entra inevitavelmente em choque com as estruturas de poder, mentira e injustiça que sustentam o mundo quando este se fecha à verdade de Deus. A Palavra proclamada neste dia pascal recorda que a fé cristã autêntica não procura aplausos nem prestígio social. Ela nasce da cruz e permanece marcada pelo escândalo do Crucificado (cf. 1Cor 1,23), sinal de amor não domesticado, resistência profética e entrega total. A rejeição sofrida pelos discípulos não é acidente de percurso, mas consequência da luz que denuncia as trevas (cf. Jo 3,19-20). O mundo odeia aquilo que desmascara sua violência, sua hipocrisia religiosa e seus sistemas de exclusão.
Jesus deixa claro que o discípulo não pode esperar tratamento diferente daquele dado ao Mestre: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós” (Jo 15,20). Em tempos marcados pelo clericalismo, pelo uso ideológico da fé e pela banalização do Evangelho, esta Palavra ressoa como denúncia e chamado. O seguimento de Cristo exige coragem para permanecer na verdade, mesmo quando ela incomoda poderes religiosos, políticos e econômicos. A rejeição, nesse sentido, torna-se marca do discipulado fiel e sinal de pertença Àquele que foi crucificado fora dos muros da cidade. A liturgia deste sábado da 5ª Semana da Páscoa não exalta o sofrimento pelo sofrimento, mas anuncia a esperança daqueles que permanecem unidos a Cristo em meio às perseguições da história. O Ressuscitado continua caminhando com os que não negociam a dignidade humana, a justiça e a verdade do Evangelho.
Jesus não promete estabilidade institucional, ascensão social ou hegemonia cultural. Pelo contrário: “Sereis odiados de todos por causa do meu nome” (Mt 10,22). E Paulo reafirma com clareza: “Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3,12). A opção pelo Evangelho é opção pela contramão, pelo confronto com os poderes que, ontem e hoje, se sustentam sobre a injustiça.
Historicamente, os mártires não foram mortos por defenderem doutrinas, mas por denunciarem estruturas opressoras. Jesus foi crucificado por dizer que o Templo havia se tornado um “covil de ladrões” (Mt 21,13), por curar em dia de sábado (Mc 3,1-6), por afirmar que “os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31). Não morreu por ser “religioso”, mas por ser profundamente humano — e, por isso mesmo, profundamente divino.
A Igreja dos mártires sempre foi uma Igreja pobre, peregrina e profética. Dom Helder Câmara perguntava: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.” A perseguição nasce da denúncia. E como denunciamos, hoje, um sistema global onde 1% da população concentra quase metade da riqueza do planeta?
A antropologia social ensina que todo grupo tende a rejeitar o que não compreende ou ameaça sua coesão. O discípulo de Jesus é, por definição, um “estrangeiro e peregrino” (Hb 11,13). Ele não se molda ao esquema deste mundo (cf. Rm 12,2). Ele não consome o que todos consomem, não odeia os inimigos, não busca o primeiro lugar. Isso o torna estranho. Ser cristão é, hoje, ser exilado cultural. A cultura do capital, do descarte e da meritocracia não compreende o louvor da partilha, da mansidão e da gratuidade.
A cruz de Cristo não é instrumento de opressão, mas de libertação. No entanto, o cristianismo muitas vezes foi cooptado por interesses de classe, nacionalismo e poder. O Papa Francisco denuncia o clericalismo como uma das maiores pragas eclesiais: “O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus e não apenas a uns poucos eleitos.” (EG 102). Clericalismo é idolatria do cargo, é o anti-Evangelho disfarçado de piedade. Quando ministros ordenados se tornam corretores da fé a serviço de elites, eles traem o Cristo pobre e perseguido. Quando o altar se transforma em palanque ideológico e os sacramentos em instrumentos de controle, perdemos o Espírito. Onde há aliança entre púlpito e autoritarismo, há apostasia.
Essa é a denúncia profética que o Magistério latino-americano fez desde Medellín: “A Igreja deve denunciar, a partir da fé e do Evangelho, tudo aquilo que destrói o ser humano e ameaça sua dignidade.” (Medellín, Justiça, n. 3). Puebla foi ainda mais incisiva ao afirmar que há “estruturas de pecado que geram miséria, exclusão e morte” (Puebla, 28). A Igreja que caminha com os pobres será sempre incômoda para os que lucram com a injustiça.
A extrema-direita radical, com sua retórica de ódio, armamentismo, xenofobia e racismo, representa uma grave distorção do cristianismo. Usar o nome de Jesus para justificar políticas excludentes é profanação. A mesma cruz que hoje aparece em comícios e slogans políticos foi a cruz usada pelo Império para eliminar um subversivo galileu que lavava os pés dos pobres e acolhia pecadoras. “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem mal!” (Is 5,20).
Jesus se colocou sempre ao lado dos descartados. Tocou leprosos, defendeu adúlteras, acolheu estrangeiros. O Reino que Ele anunciou é incompatível com o neoliberalismo que transforma tudo em mercadoria. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24) é uma sentença. Não há conciliação possível entre o Evangelho e um sistema que tolera a fome de muitos para sustentar o excesso de poucos.
A Conferência de Aparecida denuncia: “A idolatria do mercado e do dinheiro nega a dignidade da pessoa humana” (DAp 395). O Papa Francisco, no mesmo espírito, afirma com veemência: “Essa economia mata” (EG 53). Quem ousa denunciar isso será perseguido. Mas o silêncio diante dessas estruturas é cumplicidade.
A perseguição não é sinal de derrota, mas de autenticidade. Como nos lembra Paulo: “Somos entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.” (2Cor 4,11). Não estamos sós. O Espírito anima a resistência. A memória dos mártires nos guia: Dom Oscar Romero, profeta da América Latina, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia; Martin Luther King, morto por sonhar com justiça racial; Irmã Dorothy Stang, tombada por defender a floresta e os pobres do Pará
“Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt 5,10). Ser odiado pelo mundo, quando se vive o Evangelho, não é maldição. É sinal de bem-aventurança.
DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.