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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 14,1-12

 
A Palavra de Deus nunca é uma recordação inofensiva do passado. Ela atravessa os séculos para julgar o presente, revelar as máscaras do poder e despertar a consciência daqueles que desejam seguir Jesus. No Sábado da 17ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos coloca diante da memória de João Batista, não para contemplarmos apenas a tragédia de um mártir, mas para discernirmos os mecanismos que transformam a mentira em política, a religião em espetáculo e a omissão em virtude. A narrativa de Mateus 14,1-12 nos obriga a perguntar quem continua pagando o preço da verdade em nossos dias e quais interesses ainda exigem o silêncio daqueles que anunciam a justiça do Reino. O Evangelho não nos permite permanecer espectadores: ele nos convoca a escolher entre a fidelidade ao Deus da vida e a sedução dos poderes que continuam sacrificando pessoas para preservar privilégios.

No Sábado da 17ª Semana do Tempo Comum em nossa  liturgia  somos convidados  a ler  Mateus 14,1-12 sendo a continuação  da leitura  da sexta-feira  da 17ª semana do Tempo Comum. O Evangelho narra a motivação  para a  decapitação de João Batista, que  não é apenas o epílogo de um destino trágico, mas o prenúncio de uma lógica que atravessa toda a história da salvação e ainda vigora hoje: a morte dos profetas sempre precede a crucificação do justo. Em tempos em que a verdade é manipulada e o sagrado é vendido, a voz que clama no deserto continua sendo um incômodo a ser calado. Este Evangelho, portanto, não fala apenas de Herodes, João e Jesus,  fala também de nós, de nossos palácios e nossas bandejas de conveniência. Quando a Palavra encarnada começa a provocar abalos nos alicerces dos sistemas religiosos e políticos, a reação dos poderes estabelecidos se faz previsível: o silenciamento. O martírio de João não inaugura uma exceção, mas confirma a regra que paira sobre toda voz que denuncia as alianças espúrias entre o sagrado e o império, entre a fé e o espetáculo, entre a religião e o poder. Assim como a cabeça do Precursor foi entregue numa bandeja para satisfazer os caprichos de um palácio, também o corpo do Cristo será entregue à cruz para preservar os interesses do templo (cf. Mt 26,3-4; Jo 11,47-53). O texto de Mateus 14,1-12, à primeira vista um relato de morte, revela-se, na verdade, como um espelho perturbador das estruturas que ainda hoje matam a verdade em nome da estabilidade.

A cena do banquete de Herodes, narrada também em Marcos 6,14-29, é uma liturgia às avessas. O palácio se converte em templo profanado. Em vez de pão partilhado, há corpos objetificados. Em vez de mesa da vida, um palco de morte. Herodes, como Pilatos depois dele, cede ao medo e ao poder de outros,  a esposa, a filha e aos convidados.  Revelando que o verdadeiro tirano é escravo da própria imagem. João morre não apenas por denunciar um adultério (cf. Lv 18,16), mas por ter a coragem de lembrar ao poder seus limites. Sua palavra ecoa o espírito dos profetas que enfrentaram reis e sacerdotes, como:

  • Natã diante de Davi (2Sm 12,1-10)
  • Elias diante de Acab (1Rs 18)
  • Amós diante dos sacerdotes de Betel (Am 7,10-17)
  • Jeremias confrontando a falsa segurança do templo (Jr 7,1-15).
João carrega em seu corpo o conflito entre Reino e sistema, entre verdade e conveniência, entre a fidelidade ao chamado e a tentação do silêncio cúmplice. Herodes é retrato do poder covarde, representa uma religiosidade teatral, que escuta com curiosidade a palavra profética (cf. Mc 6,20), mas se recusa a converter-se. Prefere manter-se simpático à profecia do que comprometer-se com ela. Quantas vezes também nossas estruturas religiosas cultivam essa curiosidade estéril: ouvimos palavras bonitas nos púlpitos e nas redes sociais, mas evitamos qualquer abalo real em nossos privilégios ou estruturas. O Evangelho denuncia, mais uma vez, a incoerência de uma religião que admira profetas mortos, mas persegue os vivos (cf. Mt 23,29-37),  bem a cara de muitas paróquias  da atualidade...

O banquete da morte de João antecede o banquete da vida oferecido por Jesus, poucos versículos depois, em Mateus 14,13-21, o evangelista narrará a multiplicação dos pães. A contraposição é nítida e teológica: no banquete de Herodes, há festa para poucos, manipulação do corpo e morte. No banquete de Jesus, há compaixão (Mt 14,14), partilha e abundância para todos. João é morto em um palácio onde prevalece a vaidade,  Jesus alimenta as multidões no deserto, onde reina a esperança. Um banquete alimenta o sistema; o outro, inaugura o Reino e o Evangelho não é neutro: aponta com clareza de que lado Deus está. Essa narrativa revela também a lógica da perseguição que recai sobre toda voz que ousa romper com a normalidade opressora. A prisão de João ecoa as prisões de Pedro (At 12,1-11) e de Paulo (At 16,23-34), e antecipa o cárcere de Jesus (Mt 26,47-57). O cárcere, na Escritura, é lugar onde a verdade parece sufocada, mas também lugar de revelação.

  •  José interpretou sonhos no cárcere (Gn 40–41)
  •  Daniel resistiu no cárcere dos leões (Dn 6), 
  • Paulo escreveu cartas que ainda hoje alimentam a fé.
  •  João, preso, segue fiel. Sua voz não se cala diante do medo é o oposto do que hoje se vende como "sabedoria": a diplomacia da covardia, o silêncio da conveniência, a prudência que pactua com a injustiça.

Vivemos num tempo em que muitos cristãos preferem Herodes a João: preferem o conforto das cortes eclesiais à coragem do deserto, preferem a visibilidade dos banquetes ao silêncio fecundo da coerência. As teologias da prosperidade que prometem proteção divina como moeda de troca para doações e obediência, são o novo rosto da religião palaciana. A fé como mercadoria, o clericalismo triunfalista, o individualismo espiritualizado que transforma o Evangelho em autoajuda e a missão em palco, tudo isso são versões modernas do mesmo jogo: decapitam a profecia e servem-na em bandejas douradas. João morre como viveu: de pé, diante da verdade. Sua cabeça cortada é memória que interpela, é ferida aberta na carne do mundo que insiste em calar os que incomodam. Sua morte clama contra as teologias do domínio, da glória fácil e da fé domesticada. E sua vida, mesmo encerrada no cárcere, permanece como farol que ilumina o caminho daqueles e daquelas que ousam anunciar o Reino, mesmo quando tudo parece escuro. Porque o Reino não vem com espetáculo (Lc 17,20), mas com fidelidade e  às vezes, custa caro se manter fiel,  custa a cabeça, custa a cruz, mas gera ressurreição. João não viveu para si, sua voz ecoa ainda hoje nos desertos da história, clamando por um mundo em que a verdade não seja silenciada e em que a justiça não seja moeda de troca. Enquanto houver profetas decapitados e cristãos domesticados, a história de João continuará se repetindo. Mas enquanto houver memória profética e coragem pascal, sua morte continuará sendo semente de ressurreição. Porque a última palavra nunca é da espada;  é do Reino (cf. Ap 5,5-6; 19,11-16). Como João, também mártires de nossa história recente tombaram com a voz ferida e a consciência em pé. 

  • Dom Romero, assassinado no altar
  •  Dorothy Stang, baleada com a Bíblia na mão
São rostos contemporâneos desta mesma fidelidade. Suas mortes, como a de João, denunciam uma fé que se alia ao latifúndio, ao lucro e à opressão. Mas suas vozes continuam ecoando: “A missão da Igreja é defender os pobres. E enquanto houver injustiça, a Igreja deve gritar” (Dom Romero).
  • Que tipo de fé estamos cultivando: a que agrada aos palácios ou a que incomoda o sistema? 
  • Que tipo de Igreja estamos sendo: corpo profético que clama no deserto ou ornamento de banquetes cheios de vaidade? 

A memória de João clama por discípulos e discípulas que não se vendam por segurança institucional, que não troquem a profecia pelo aplauso, e que prefiram a cruz à cumplicidade. Onde houver fidelidade encarnada, mesmo silenciosa e perseguida, ali o Reino continuará germinando. E a cabeça cortada de João será sempre semente da Palavra que ninguém poderá calar (cf. Is 55,10-11) e essa  memória não pertence ao museu dos heróis da fé; ela permanece como critério para discernir a autenticidade do discipulado cristão. Toda Igreja que perde sua voz profética corre o risco de tornar-se apenas administradora do sagrado, incapaz de anunciar a liberdade dos pobres, denunciar a injustiça e consolar os feridos da história. O Reino de Deus continua nascendo onde homens e mulheres preferem a fidelidade ao Evangelho em vez da segurança oferecida pelos palácios deste mundo. Que o testemunho de João nos livre da neutralidade diante da injustiça e da tentação de transformar a cruz em ornamento. Pois o Espírito de Deus continua suscitando profetas em cada geração, e nenhuma prisão, nenhuma espada e nenhum poder conseguem aprisionar a Palavra que procede do Senhor. A voz pode ser silenciada, mas a verdade permanece de pé; o mártir pode tombar, mas o Reino continua avançando, porque a esperança dos que pertencem a Cristo jamais será decapitada.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 15, 18-21

 “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim.” (Jo 15,18)

Este versículo é mais do que uma advertência. É um chamado à fidelidade radical. Jesus alerta seus discípulos de que o caminho do Reino não se alinha com os valores deste mundo. A fé cristã autêntica não busca aplausos, mas se enraíza na cruz, símbolo de escândalo (cf. 1Cor 1,23), resistência e amor não domesticado. O ódio do mundo não é acidente de percurso, mas resposta à luz que incomoda as trevas (cf. Jo 3,19-20). A rejeição é a marca do discipulado fiel.

Na 5ª Semana da Páscoa a Igreja ler o Evangelho de João os  capítulos 14 e 15 e no  sabado   proclama   João 15,18-21 encerrando  a semana, onde Jesus prepara os discípulos para a dureza do testemunho fiel: “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim”. Não se trata de um convite ao vitimismo religioso, mas de uma convocação à fidelidade radical ao Reino de Deus. Cristo revela que o Evangelho entra inevitavelmente em choque com as estruturas de poder, mentira e injustiça que sustentam o mundo quando este se fecha à verdade de Deus. A Palavra proclamada neste dia pascal recorda que a fé cristã autêntica não procura aplausos nem prestígio social. Ela nasce da cruz e permanece marcada pelo escândalo do Crucificado (cf. 1Cor 1,23), sinal de amor não domesticado, resistência profética e entrega total. A rejeição sofrida pelos discípulos não é acidente de percurso, mas consequência da luz que denuncia as trevas (cf. Jo 3,19-20). O mundo odeia aquilo que desmascara sua violência, sua hipocrisia religiosa e seus sistemas de exclusão.

Jesus deixa claro que o discípulo não pode esperar tratamento diferente daquele dado ao Mestre: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós” (Jo 15,20). Em tempos marcados pelo clericalismo, pelo uso ideológico da fé e pela banalização do Evangelho, esta Palavra ressoa como denúncia e chamado. O seguimento de Cristo exige coragem para permanecer na verdade, mesmo quando ela incomoda poderes religiosos, políticos e econômicos. A rejeição, nesse sentido, torna-se marca do discipulado fiel e sinal de pertença Àquele que foi crucificado fora dos muros da cidade. A liturgia deste sábado da 5ª Semana da Páscoa não exalta o sofrimento pelo sofrimento, mas anuncia a esperança daqueles que permanecem unidos a Cristo em meio às perseguições da história. O Ressuscitado continua caminhando com os que não negociam a dignidade humana, a justiça e a verdade do Evangelho.

Jesus não promete estabilidade institucional, ascensão social ou hegemonia cultural. Pelo contrário: “Sereis odiados de todos por causa do meu nome” (Mt 10,22). E Paulo reafirma com clareza: “Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3,12). A opção pelo Evangelho é opção pela contramão, pelo confronto com os poderes que, ontem e hoje, se sustentam sobre a injustiça.

Historicamente, os mártires não foram mortos por defenderem doutrinas, mas por denunciarem estruturas opressoras. Jesus foi crucificado por dizer que o Templo havia se tornado um “covil de ladrões” (Mt 21,13), por curar em dia de sábado (Mc 3,1-6), por afirmar que “os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31). Não morreu por ser “religioso”, mas por ser profundamente humano — e, por isso mesmo, profundamente divino.

A Igreja dos mártires sempre foi uma Igreja pobre, peregrina e profética. Dom Helder Câmara perguntava: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.” A perseguição nasce da denúncia. E como denunciamos, hoje, um sistema global onde 1% da população concentra quase metade da riqueza do planeta?

A antropologia social ensina que todo grupo tende a rejeitar o que não compreende ou ameaça sua coesão. O discípulo de Jesus é, por definição, um “estrangeiro e peregrino” (Hb 11,13). Ele não se molda ao esquema deste mundo (cf. Rm 12,2). Ele não consome o que todos consomem, não odeia os inimigos, não busca o primeiro lugar. Isso o torna estranho. Ser cristão é, hoje, ser exilado cultural. A cultura do capital, do descarte e da meritocracia não compreende o louvor da partilha, da mansidão e da gratuidade.

A cruz de Cristo não é instrumento de opressão, mas de libertação. No entanto, o cristianismo muitas vezes foi cooptado por interesses de classe, nacionalismo e poder. O Papa Francisco denuncia o clericalismo como uma das maiores pragas eclesiais: “O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus e não apenas a uns poucos eleitos.” (EG 102). Clericalismo é idolatria do cargo, é o anti-Evangelho disfarçado de piedade. Quando ministros ordenados se tornam corretores da fé a serviço de elites, eles traem o Cristo pobre e perseguido. Quando o altar se transforma em palanque ideológico e os sacramentos em instrumentos de controle, perdemos o Espírito. Onde há aliança entre púlpito e autoritarismo, há apostasia.

Essa é a denúncia profética que o Magistério latino-americano fez desde Medellín: “A Igreja deve denunciar, a partir da fé e do Evangelho, tudo aquilo que destrói o ser humano e ameaça sua dignidade.” (Medellín, Justiça, n. 3). Puebla foi ainda mais incisiva ao afirmar que há “estruturas de pecado que geram miséria, exclusão e morte” (Puebla, 28). A Igreja que caminha com os pobres será sempre incômoda para os que lucram com a injustiça.

A extrema-direita radical, com sua retórica de ódio, armamentismo, xenofobia e racismo, representa uma grave distorção do cristianismo. Usar o nome de Jesus para justificar políticas excludentes é profanação. A mesma cruz que hoje aparece em comícios e slogans políticos foi a cruz usada pelo Império para eliminar um subversivo galileu que lavava os pés dos pobres e acolhia pecadoras. “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem mal!” (Is 5,20).

Jesus se colocou sempre ao lado dos descartados. Tocou leprosos, defendeu adúlteras, acolheu estrangeiros. O Reino que Ele anunciou é incompatível com o neoliberalismo que transforma tudo em mercadoria. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24) é uma sentença. Não há conciliação possível entre o Evangelho e um sistema que tolera a fome de muitos para sustentar o excesso de poucos.

A Conferência de Aparecida denuncia: “A idolatria do mercado e do dinheiro nega a dignidade da pessoa humana” (DAp 395). O Papa Francisco, no mesmo espírito, afirma com veemência: “Essa economia mata” (EG 53). Quem ousa denunciar isso será perseguido. Mas o silêncio diante dessas estruturas é cumplicidade.

A perseguição não é sinal de derrota, mas de autenticidade. Como nos lembra Paulo: “Somos entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.” (2Cor 4,11). Não estamos sós. O Espírito anima a resistência. A memória dos mártires nos guia: Dom Oscar Romero, profeta da América Latina, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia; Martin Luther King, morto por sonhar com justiça racial; Irmã Dorothy Stang, tombada por defender a floresta e os pobres do Pará

“Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt 5,10). Ser odiado pelo mundo, quando se vive o Evangelho, não é maldição. É sinal de bem-aventurança.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.