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sábado, 5 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 6,6-11

O Evangelho de Lucas 6,6-11 é proclamado na liturgia ferial da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 23ª semana do Tempo Comum, (sendo a continuação  da liturgia do 22⁰ Sabado do tempo comum,)  dentro da leitura contínua do Evangelho segundo Lucas. A passagem apresenta Jesus entrando na sinagoga em dia de sábado e encontrando ali um homem cuja mão direita era atrofiada e  em Lucas 14,1-6, encontramos novamente Jesus diante de uma pessoa necessitada de cura em dia de sábado. Desta vez, trata-se de um homem hidrópico, e a cena acontece não na sinagoga, mas na casa de um dos chefes dos fariseus. Também nesse episódio, Jesus é observado pelos religiosos e coloca diante deles a questão sobre a legitimidade de curar no sábado: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” (Lc 14,3). A liturgia ferial proclama essa segunda narrativa na sexta-feira da 30ª semana do Tempo Comum. Temos, portanto, duas narrativas lucanas muito próximas, com a mesma controvérsia central sobre a cura no sábado, mas com personagens, ambientes e desenvolvimentos diferentes. 

  1. Em Lucas 6, Jesus está na sinagoga
  2. Em Lucas 14, está à mesa, na casa de um chefe dos fariseus.
  3.  Em Lucas 6, o homem possui a mão direita atrofiada
  4.  Em Lucas 14, há diante de Jesus um homem com hidropisia. ..
  5. No primeiro relato, Jesus pergunta se é permitido no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixá-la perecer
  6.  no segundo, pergunta diretamente se é permitido curar no sábado.
  7. Ao redor dele estão escribas e fariseus, que observam Jesus atentamente, procurando uma ocasião para acusá-lo.
 A cena, portanto, não é apenas o relato de uma cura: Lucas apresenta um confronto entre Jesus e uma determinada compreensão da Lei, colocando diante da comunidade uma questão fundamental sobre a relação entre Lei, religião, misericórdia e vida humanaA repetição do tema dentro do próprio Evangelho de Lucas é teologicamente significativa. Lucas parece querer mostrar que o conflito não se reduz a um episódio isolado: Jesus confronta repetidamente uma interpretação da Lei quando ela se torna incapaz de responder misericordiosamente diante do sofrimento humano. O tema do sábado retorna porque a questão fundamental continua sendo a mesma: o que a religião faz quando encontra uma pessoa necessitada? O episódio possui paralelos nos outros dois Evangelhos sinóticos: Mateus 12,9-13 e Marcos 3,1-6 proclamado  na Quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e e também integra uma proclamação dominical particularmente significativa: no 9º Domingo do Tempo Comum, Ano B, o Evangelho é Marcos 2,23–3,6, reunindo o episódio dos discípulos que arrancam espigas no sábado e, em seguida, a cura do homem da mão atrofiada. 

A passagem não é apenas uma memória de algo que aconteceu no passado. Ela se torna uma palavra profética para a Igreja de hoje porque continua colocando diante de nós uma questão fundamental: o que fazemos quando a norma entra em conflito com a vida concreta de uma pessoa? Em Lucas 6,6-11, Jesus está na sinagoga e encontra um homem cuja mão direita era atrofiada. Lucas chama atenção para essa condição concreta porque não estamos diante de uma questão abstrata, mas de uma pessoa marcada por uma limitação e por uma necessidade real. Ao mesmo tempo, alguns observadores estão atentos para verificar se Jesus irá curá-lo naquele dia de sábado. O sofrimento daquele homem corre o risco de desaparecer diante da preocupação com a interpretação da norma. É nesse cenário que Jesus o chama para o centro. Aquele que poderia permanecer invisível é colocado diante de todos, e Jesus não permite que seja reduzido à sua condição física nem transformado em objeto de uma disputa religiosa. Antes de qualquer discussão sobre normas, existe uma pessoa. Então Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la perecer?” (Lc 6,9). A pergunta desloca o eixo da discussão. Já não basta perguntar mecanicamente o que é permitido ou proibido; é preciso discernir, diante da realidade concreta, aquilo que produz vida. Jesus não despreza a Lei, mas confronta uma interpretação que perdeu de vista sua finalidade. A norma religiosa não pode ser aplicada de maneira que a vida humana se torne secundária. Essa perspectiva encontra uma formulação particularmente forte no Evangelho de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Embora nossa reflexão esteja centrada em Lucas, essa palavra do Evangelho paralelo ilumina o conflito: a norma não pode tornar-se um fim em si mesma a ponto de sacrificar a pessoa que deveria servir. Marcos acrescenta que Jesus olha para aqueles que o observavam com ira e tristeza diante da dureza de seus corações (Mc 3,5), enquanto Lucas conduz a narrativa até a ordem de Jesus: “Estende a mão.” (Lc 6,10). O homem estende a mão, e ela é restaurada. A cura significa concretamente recuperação de uma capacidade corporal e abertura para novas possibilidades de vida. O Evangelho não afirma que Lucas tenha construído deliberadamente uma alegoria sobre exclusão social, mas sua narrativa permite perceber a dimensão humana da restauração: Jesus encontra uma necessidade concreta e age em favor da vida. É justamente nessa ação que a tradição cristã encontrou também uma dimensão espiritual. Santo Ambrósio, ao comentar o Evangelho de Lucas, relaciona a mão estendida à prática da caridade e à disposição para ajudar o necessitado. Essa leitura não substitui o sentido histórico do texto, mas amplia sua recepção: a relação com Deus precisa produzir uma disposição concreta para o bem do outro. O gesto de Jesus, portanto, não termina naquela sinagoga. Ele continua interpelando a comunidade cristã sempre que regras, costumes e estruturas passam a ocupar o lugar que deveria pertencer à vida humana. Quantas vezes conseguimos enxergar a norma, mas não conseguimos enxergar a pessoa? A questão é especialmente importante porque o problema não está simplesmente na existência de normas. Toda comunidade necessita de princípios, referências e critérios. O problema começa quando a norma deixa de estar a serviço da vida e passa a exigir que a vida seja sacrificada para preservá-la. Uma instituição religiosa pode conservar seus ritos, seus cargos, seus discursos e suas estruturas e, ainda assim, perder o essencial do Evangelho. Pode falar muito sobre Deus e tornar-se incapaz de reconhecer aquilo que Deus está mostrando através da realidade humana. Por isso, a Igreja não existe para proteger sua própria imagem diante daqueles que sofrem, mas para testemunhar o Cristo que se aproxima dos seres humanos, restaura sua dignidade e anuncia a vida. Suas estruturas, seus ministérios e suas normas encontram sua legitimidade quando estão a serviço dessa missão. A dimensão antropológica e pastoral do relato aparece justamente aí: não é necessário transformar artificialmente a mão atrofiada em símbolo de todas as formas de exclusão, porque o texto já apresenta uma realidade humana suficientemente forte — um homem diante de Jesus, uma comunidade religiosa ao seu redor e uma necessidade que exige discernimento. O desafio para a Igreja é não perder a pessoa concreta por trás das categorias religiosas. Essa realidade continua presente em comunidades onde pessoas carregam feridas produzidas não apenas pelas circunstâncias da vida, mas também pela indiferença, pelo julgamento, pelo abuso de autoridade ou pela preocupação excessiva com a reputação institucional. Quando isso acontece, a religião pode preservar sua aparência e, ao mesmo tempo, perder sua finalidade. A crítica não é estranha à tradição bíblica. Os profetas de Israel já denunciavam a separação entre culto e justiça: Isaías questionava uma religião que multiplicava práticas enquanto negligenciava o direito e a justiça (Is 1,10-17); Amós denunciava celebrações religiosas quando a justiça não corria como um rio (Am 5,21-24); Miquéias resumia a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele (Mq 6,8). Jesus permanece nessa tradição quando afirma: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7). Assim, Lucas 6 não apresenta apenas uma discussão sobre o sábado, mas revela o conflito permanente entre uma religião que pode se fechar sobre seus próprios mecanismos e uma fé que permanece aberta à vida. Uma comunidade pode possuir doutrina, ritos, autoridades e estruturas legítimas e, ainda assim, precisar de conversão quando essas estruturas deixam de servir à missão recebida de Cristo. O profeta não é simplesmente aquele que denuncia os pecados dos outros; é aquele que permite que a Palavra de Deus julgue também a própria comunidade. Por isso, Lucas 6 precisa alcançar nossas práticas, prioridades e estruturas eclesiais, sobretudo quando elas deixam de servir à vida. Estamos usando o Evangelho para libertar pessoas ou a religião para preservar estruturas? A resposta aparece menos nos discursos do que na maneira como uma comunidade acolhe, escuta, corrige, acompanha e restaura aqueles que sofrem. Onde a dignidade é respeitada, a justiça praticada e a misericórdia transformada em ação, o Evangelho deixa de ser apenas proclamado e passa a ser vivido. É nesse horizonte que a palavra de Jesus — “Estende a mão” (Lc 6,10) — adquire uma força que atravessa os séculos. Ela foi dirigida inicialmente a um homem concreto, dentro de uma sinagoga concreta, mas continua ecoando como chamado para uma Igreja que não pode permanecer indiferente diante da dor humana. Estender a mão significa aproximar-se, acolher, restaurar e colocar a vida novamente no centro da missão. A verdadeira fidelidade ao Evangelho não transforma a pessoa em serva da estrutura; coloca a estrutura a serviço da vida, da justiça e da misericórdia. É assim que a Igreja deixa de ser apenas guardiã de normas e se torna testemunha do Cristo que restaura. Não podemos honrar verdadeiramente a Deus enquanto ignoramos aquele que está sofrendo diante de nós.

A sinagoga de Lucas 6 continua sendo uma imagem possível de nossas comunidades. O homem da mão atrofiada continua representando todos aqueles que chegam carregando suas limitações, feridas, fracassos, dores e necessidades. Ao redor dele também continuam existindo os observadores, aqueles que conhecem a norma, sabem apontar o que é permitido ou proibido, mas nem sempre sabem estender a mão para quem sofre. Por isso, antes de perguntarmos simplesmente “o que é permitido?”, o Evangelho nos obriga a fazer perguntas mais profundas: onde está a vida, quem está sofrendo, quem precisa ser restaurado e se a nossa religião está ajudando essa pessoa a recuperar sua dignidade e a estender novamente a mão ou se, ao contrário, está contribuindo para mantê-la paralisada à margem da comunidade. Lucas 6,6-11, portanto, não é apenas uma narrativa sobre uma mão atrofiada. É uma palavra sobre o Deus que deseja restaurar a vida, sobre uma religião chamada à misericórdia e sobre uma comunidade que precisa decidir de que lado ficará quando a interpretação da norma entra em conflito com a necessidade concreta de uma pessoa. Jesus não ignora a Lei, mas confronta uma interpretação religiosa que, em nome da própria norma, pode perder de vista a finalidade maior da vontade de Deus: a vida, a dignidade e o bem do ser humano. O centro da cena não deveria ser a norma isolada do sofrimento, mas a pessoa concreta que está diante de Jesus. Por isso, quando Jesus diz “Estende a mão”, sua palavra atravessa o tempo e chega também às nossas comunidades. Ele não está apenas ordenando um gesto físico; está devolvendo àquele homem a possibilidade de participar novamente, de recuperar sua dignidade e de ocupar seu lugar no meio da comunidade. A mão que estava atrofiada torna-se sinal de uma vida que pode ser reconstruída. Talvez, então, a pergunta mais profunda do Evangelho não seja apenas se a mão daquele homem foi curada naquele sábado, mas se nós ainda somos capazes de estender nossas próprias mãos diante de Deus, diante do próximo e diante daqueles que a sociedade e, algumas vezes, a própria religião deixaram à margem. Afinal, uma comunidade verdadeiramente fiel ao Evangelho não pode ser aquela que simplesmente sabe dizer o que é permitido, mas aquela que, seguindo Jesus, reconhece quem está sofrendo, aproxima-se de quem foi excluído e trabalha para que mãos paralisadas pela dor, pelo abandono, pelo preconceito, pela pobreza, pelo fracasso ou pela própria experiência religiosa possam novamente se abrir para a vida. Lucas conduz o leitor até a cena da cura do homem da mão atrofiada por meio de uma sequência cuidadosamente construída. Jesus já havia chamado os primeiros discípulos, curado enfermos, perdoado pecados, acolhido Levi e provocado controvérsias relacionadas ao jejum e ao sábado. Em Lucas 5,31-32, declara que veio chamar pecadores e, em 5,36-39, apresenta as imagens do remendo novo e do vinho novo, preparando o leitor para compreender que a presença do Reino de Deus não pode ser aprisionada por interpretações incapazes de acolher sua novidade. Em Lucas 6,1-5, os discípulos colhem espigas em dia de sábado, e Jesus recorda o episódio de Davi em 1 Samuel 21,1-6, concluindo que o Filho do Homem é senhor do sábado. Assim, a narrativa prepara uma questão muito mais profunda do que uma simples discussão sobre calendário religioso: trata-se de discernir como a vontade de Deus deve ser interpretada quando uma norma religiosa entra em tensão com uma necessidade humana concreta.  A Torá, entretanto, não deve ser apresentada como inimiga do ser humano. Fazer isso seria historicamente injusto e teologicamente equivocado. Na tradição bíblica, a Lei é expressão da aliança e orientação para um povo que havia experimentado a libertação. O próprio sábado possui uma dimensão profundamente social. Êxodo 20,8-11 estabelece o descanso, enquanto Deuteronômio 5,12-15 relaciona o mandamento à memória da escravidão no Egito: aquele que conheceu a opressão não deveria reproduzi-la sobre os outros. O descanso alcançava trabalhadores, servos, estrangeiros e animais. O mandamento continha, portanto, uma crítica à lógica de uma existência permanentemente submetida à produção. Quando Jesus intervém no sábado, não está simplesmente destruindo essa tradição, mas recuperando seu propósito diante de uma interpretação que corre o risco de colocar o mandamento acima da pessoa. É nesse contexto que a presença de um homem com a mão direita atrofiada adquire força narrativa e teológica. A mão não representa apenas uma parte do corpo; ela está relacionada ao trabalho, à capacidade de produzir, sustentar-se, participar da vida comunitária e exercer autonomia. Sua limitação poderia significar dependência econômica e redução das possibilidades de inserção social. Lucas, porém, não reduz aquele homem à sua deficiência. Ele está na sinagoga, participando do espaço comunitário de oração e escuta, e sua presença recorda que a fragilidade não elimina o direito de pertencer. O corpo marcado pela limitação torna-se precisamente o lugar onde a verdadeira finalidade da Lei será revelada...

Os escribas e fariseus observam Jesus atentamente, procurando saber se ele curaria no sábado para encontrar motivo de acusação. O problema aparece na inversão do olhar: diante de uma pessoa que sofre, a preocupação central passa a ser a possibilidade de incriminar alguém. O sofrimento humano deixa de ocupar o centro e transforma-se em instrumento de disputa religiosa. Esse mecanismo não pertence apenas ao passado. Ele reaparece sempre que uma pessoa concreta desaparece atrás de uma regra, de uma estatística, de um discurso, de uma estrutura ou de uma disputa institucional. O outro deixa de ser alguém diante de nós e passa a ser apenas um caso que precisa ser classificado. Jesus rompe essa lógica ao chamar o homem para o centro. O gesto é mais eloquente do que qualquer discurso: aquele que poderia permanecer invisível torna-se o ponto de referência da assembleia. A pessoa antes observada a partir de sua deficiência é reconhecida como sujeito. Esse movimento está em continuidade com o programa apresentado em Lucas 4,18-19, quando Jesus anuncia boa notícia aos pobres, liberdade aos cativos e libertação aos oprimidos. O Reino modifica a direção do olhar: aquilo que normalmente é empurrado para as margens passa a interpelar o centro. É então que Jesus formula a pergunta decisiva: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou destruí-la?” A questão desloca o debate do campo meramente formal para o discernimento moral. Não basta perguntar se uma determinada ação está tecnicamente autorizada por uma regra; é necessário discernir se aquilo que estamos fazendo corresponde ao caráter de Deus. A misericórdia não aparece como simples concessão sentimental, mas como parte da própria revelação bíblica. Oséias 6,6 coloca a misericórdia acima dos sacrifícios; Miquéias 6,8 resume o caminho desejado por Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com ele. Jesus, portanto, não inventa uma religião paralela ao judaísmo. Ele participa da própria tradição profética de Israel, que denunciava continuamente uma religiosidade capaz de preservar ritos enquanto negligenciava a justiça. Isaías 1,11-17 rejeita uma abundância de cerimônias acompanhada de injustiça; Amós 5,21-24 denuncia festas, cânticos e celebrações quando a sociedade permanece marcada pela opressão; Isaías 58,6-7 identifica o verdadeiro jejum com a libertação dos oprimidos e a partilha do pão. A crítica de Jesus nasce desse mesmo horizonte: o problema não está na existência da religião, do culto ou da Lei, mas na sua deformação quando a observância perde sua finalidade e se transforma em instrumento de acusação, exclusão ou indiferença.

Jesus manda o homem estender a mão, e ele o faz; sua mão é restaurada. A cura acontece sem espetáculo e sem transformar o homem em objeto de exibição. O sinal está na restituição de uma capacidade concreta. A pessoa recupera uma possibilidade de ação que antes estava comprometida. Essa dimensão é fundamental para compreender a salvação nos Evangelhos: Deus não trabalha apenas no plano das ideias religiosas, mas toca corpos, relações, vínculos, consciências e condições concretas de existência. Por isso, Tiago 2,14-17 questiona uma fé que oferece palavras piedosas a quem não possui alimento ou roupa, enquanto 1 João 3,17-18 pergunta como o amor de Deus pode permanecer em alguém que vê o irmão necessitado e fecha o coração. A fé bíblica não se satisfaz com declarações abstratas de compaixão; ela precisa produzir gestos capazes de devolver dignidade, participação e possibilidade de vida.vOs relatos paralelos de Mateus 12,9-14 e Marcos 3,1-6 aprofundam diferentes aspectos da mesma tradição. Mateus acrescenta o exemplo da ovelha que cai numa cova, reforçando que, se alguém socorre um animal em situação de perigo, quanto mais uma pessoa deve ser socorrida. Marcos apresenta Jesus olhando ao redor com indignação e tristeza diante da dureza dos corações. Lucas, por sua vez, concentra a cena na pergunta sobre fazer o bem, salvar ou destruir. As perspectivas literárias são diferentes, mas convergem num mesmo ponto: a interpretação religiosa não pode ser utilizada para justificar a omissão diante de quem necessita de auxílio. E é importante preservar o contexto histórico para evitar qualquer leitura antissemita. Jesus está dentro do universo judaico do primeiro século e participa de um debate interno de Israel sobre a interpretação da Lei. Ele não está combatendo “os judeus” como povo nem tratando a Torá como uma invenção perversa. O próprio Novo Testamento apresenta personagens e correntes judaicas de maneira complexa: Paulo se identifica como fariseu em Filipenses 3,5; Nicodemos dialoga com Jesus em João 3; Gamaliel aconselha prudência em Atos 5,34-39. A crítica de Jesus dirige-se a uma determinada postura diante da Lei, especialmente quando a observância deixa de servir à vida e passa a funcionar como mecanismo de condenação. Esse discernimento ultrapassa o ambiente da sinagoga porque toda sociedade produz normas, instituições e autoridades. Leis podem proteger direitos, organizar responsabilidades e impedir abusos, mas também podem ser instrumentalizadas para conservar privilégios. Instituições são necessárias, porém podem desenvolver mecanismos destinados mais à própria preservação do que à finalidade para a qual foram criadas. O mesmo pode acontecer nas comunidades religiosas: a tradição pode conservar a memória da fé ou transformar-se em argumento contra toda renovação; a disciplina pode favorecer maturidade ou produzir medo; a autoridade pode servir ou dominar. Marcos 2,27 oferece uma síntese decisiva: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado.” A afirmação estabelece uma ordem de prioridades. Leis, costumes e instituições existem para servir à vida humana e à convivência, não para exigir que pessoas sejam sacrificadas à sua manutenção. Esse princípio alcança a economia, a política, a administração pública, o direito e também as comunidades de fé. Quando uma organização se torna incapaz de rever seus procedimentos diante do sofrimento humano, corre o risco de proteger sua própria lógica em vez de cumprir sua missão. É justamente nesse ponto que o Evangelho interpela a Igreja. A comunidade cristã necessita de autoridade, ministérios, normas e organização, mas tudo isso deve permanecer subordinado ao Evangelho. Jesus estabelece em Marcos 10,42-45 uma diferença radical entre o poder que domina e a autoridade que serve, e em João 13,12-15 confirma essa lógica ao lavar os pés dos discípulos. A autoridade cristã não se demonstra pela distância que mantém das pessoas, mas pela capacidade de aproximar-se delas e colocar-se a serviço. O clericalismo aparece quando essa ordem se inverte, quando uma função religiosa passa a conferir privilégios pessoais, quando a instituição se torna mais preocupada com sua imagem do que com as pessoas feridas e quando a voz institucional se torna mais importante do que a dignidade daqueles que deveriam ser acolhidos. Uma Igreja fiel ao Evangelho precisa, por isso, criar espaços reais de escuta, responsabilidade, correção e prestação de contas, sobretudo diante daqueles que possuem menos poder para serem ouvidos.

A mão atrofiada pode também ser compreendida como imagem das muitas formas pelas quais a existência humana é limitada por condições que as pessoas nem sempre escolheram: pobreza, desemprego, precariedade habitacional, deficiência, violência, abandono, falta de oportunidades e exclusão social. Isso não significa reduzir toda dificuldade humana a explicações simplistas, mas reconhecer que a fé não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. Isaías 10,1-2 denuncia aqueles que utilizam o poder para retirar direitos dos vulneráveis; Provérbios 31,8-9 ordena falar em favor de quem não consegue defender-se; Amós 5,24 exige que a justiça atravesse a vida pública. A fé bíblica, portanto, não pode ser confinada à esfera privada. Ela pergunta como decisões econômicas, políticas, jurídicas e comunitárias afetam pessoas concretas. Fazer o bem inclui reconhecer que determinadas formas de organização social podem produzir sofrimento e que a responsabilidade cristã exige transformar aquilo que desumaniza.  A mão humana pode construir, alimentar, cuidar e abraçar, mas também pode ferir. O Evangelho não transforma a paz em ingenuidade nem a misericórdia em abandono das vítimas. Mateus 5,9 chama felizes os que promovem a paz, enquanto 5,44 radicaliza essa proposta ao falar do amor aos inimigos. Romanos 12,19-21 impede o discípulo de reproduzir o mal como princípio de resposta. Isso não significa eliminar responsabilidade, proteção ou reparação diante de uma injustiça; significa impedir que a vingança seja elevada à condição de virtude. A justiça cristã precisa proteger quem sofreu, responsabilizar quem praticou o mal e buscar reparação sem transformar a violência em fundamento permanente das relações. Eles já se aproximam da cena com uma conclusão praticamente formada e procuram no comportamento dele aquilo que confirme sua suspeita. Esse mecanismo de confirmação permanece presente na vida contemporânea. Muitas vezes julgamos pessoas antes de conhecer suas histórias, interpretamos comportamentos sem compreender suas circunstâncias e transformamos diferenças em ameaças. O Evangelho não pede ausência de discernimento; Jesus denuncia o pecado, confronta a hipocrisia e estabelece limites. O que ele rejeita é o julgamento arrogante e superficial. Mateus 7,1-5 chama a atenção para a necessidade de reconhecer primeiro nossas próprias contradições, enquanto João 7,24 pede que não se julgue pelas aparências, mas segundo a justiça. Discernir é diferente de condenar; corrigir é diferente de humilhar; estabelecer limites é diferente de excluir. A maturidade cristã consiste em sustentar convicções sem perder a humanidade. Esse princípio também alcança os conflitos políticos e culturais do nosso tempo. O farisaísmo não pertence exclusivamente a uma religião, partido ou ideologia. Ele surge sempre que alguém transforma sua própria posição em medida absoluta da humanidade dos outros. Pode aparecer entre conservadores ou progressistas, religiosos ou secularizados, militantes ou críticos da religião. Manifesta-se quando condenamos determinada violência e justificamos outra porque foi praticada por aqueles que consideramos aliados; quando defendemos valores abstratos sem considerar suas consequências concretas; quando transformamos adversários em inimigos absolutos ou usamos princípios morais seletivamente. O Evangelho exige coerência: não podemos pedir misericórdia para nós enquanto desejamos destruição para aqueles que pensam diferente. A misericórdia evangélica não elimina a verdade nem impede a crítica; ela impede que a crítica seja desumanizada.

Jesus não propõe uma sociedade sem critérios nem ensina que tudo é relativo. Ele exige que nossos critérios sejam submetidos à verdade, à justiça, à misericórdia e ao discernimento. A religião vazia constitui uma das maiores advertências dessa passagem porque pode conservar ritos, linguagem sagrada e aparência de fidelidade enquanto perde a capacidade de perceber o sofrimento que acontece diante dos próprios olhos. Em Lucas 11,39-42, Jesus denuncia aqueles que se preocupam com aparências enquanto negligenciam a justiça e o amor de Deus; em Mateus 23,23 coloca entre as coisas mais importantes da Lei a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Sua crítica não é contra a espiritualidade, mas contra uma espiritualidade desconectada da realidade. Uma religião que não consegue reconhecer a pessoa ferida que está diante dela pode manter suas estruturas, seus discursos e seus ritos, mas perdeu o centro ético do Evangelho. Por isso, a narrativa exige conversão não apenas individual, mas também comunitária e institucional. Antes de identificar os fariseus nos outros, precisamos reconhecer nossas próprias resistências. Também podemos utilizar normas para evitar responsabilidades, certezas para fugir de perguntas, tradições para proteger privilégios ou argumentos religiosos para justificar indiferença. Podemos transformar a fé em abrigo contra a realidade quando ela deveria abrir nossos olhos para aquilo que acontece nela. O homem da mão atrofiada nos obriga a olhar novamente porque existe alguém diante de nós, existe uma necessidade concreta e existe uma possibilidade de agir. O desfecho da narrativa mostra que essa liberdade tem um preço. Depois da cura, os adversários ficam furiosos e começam a discutir o que poderiam fazer contra Jesus; Marcos 3,6 informa que os fariseus saíram e passaram a tramar com os herodianos contra ele. Aquele que restaurou uma pessoa tornou-se ameaça para aqueles comprometidos com determinada ordem. A reação antecipa o caminho da cruz: Jesus não será perseguido porque deixou de fazer o bem, mas porque sua maneira de revelar Deus confronta certezas, interesses e mecanismos de poder. A cruz revelará de forma extrema o conflito entre a lógica do Reino e aqueles que preferem preservar seus próprios interesses. A Igreja precisa guardar essa memória com temor e humildade, porque nenhuma comunidade está imune à tentação de proteger sua imagem, esconder seus fracassos ou silenciar aqueles que incomodam. Uma comunidade verdadeiramente evangélica precisa ser capaz de ouvir críticas, reconhecer erros, acolher pessoas feridas e permitir que a verdade provoque transformação. Sua segurança não pode estar na suposta perfeição de suas estruturas, mas em Cristo, que morreu e ressuscitou. A mão restaurada permanece, assim, como uma imagem poderosa da dinâmica do Evangelho: Jesus não apenas percebe o sofrimento; ele age. Não apenas denuncia uma interpretação inadequada; oferece outro caminho. Não apenas fala sobre dignidade; coloca uma pessoa vulnerável no centro e devolve-lhe a capacidade de agir. Essa é a dinâmica que o discípulo é chamado a prolongar. A fé precisa tornar-se presença, cuidado, defesa dos vulneráveis, compromisso com a justiça e coragem diante de tudo aquilo que desumaniza

No fim, a pergunta de Jesus permanece diante de cada consciência e de cada comunidade: fazer o bem ou fazer o mal, salvar ou deixar perecer? A resposta não pode ser apenas verbal, porque aparece na maneira como tratamos aqueles que dependem de nós, utilizamos nossa autoridade, interpretamos nossas normas, reagimos diante do sofrimento e acolhemos aqueles que não correspondem às nossas expectativas. O homem que estende a mão diante de Jesus recorda que nenhuma pessoa deve ser sacrificada para que uma regra, uma instituição, uma tradição, uma ideologia ou uma reputação permaneça intacta. O Evangelho nos ensina, portanto, a distinguir fidelidade de rigidez, autoridade de dominação, tradição de imobilismo e discernimento de condenação. Quando uma pessoa ferida estiver diante de nós, não poderemos esconder sua humanidade atrás de procedimentos ou discursos religiosos. O verdadeiro culto não está em preservar uma aparência de fidelidade enquanto alguém continua sofrendo, mas em permitir que a vontade de Deus produza vida. Naquele sábado, Jesus mostrou que a Lei encontra sua plenitude quando serve à vida, que a autoridade encontra sua legitimidade quando serve às pessoas e que a fé encontra sua verdade quando se transforma em misericórdia concreta. A mão restaurada torna-se, assim, um sinal profético: onde o Evangelho chega, aquilo que estava atrofiado deve encontrar possibilidade de movimento, aquilo que estava excluído deve encontrar lugar e aquilo que estava submetido à indiferença deve voltar ao centro da atenção humana e cristã.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 13,18-23

A explicação da parábola do semeador em Mateus 13,18-23 é proclamada na Liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 16ª Semana do Tempo Comum, continuando o Evangelho do dia anterior Mateus 13, 10-17,  sendo Proclamadp anualmente, variando apenas a primeira leitura, evidenciando que a catequese de Jesus sobre a acolhida da Palavra possui um valor permanente para a formação dos discípulos. Já a parábola completa, unida à sua explicação Mateus 13,1-23, é proclamada no 15º Domingo do Tempo Comum do Ano A, permitindo que toda a comunidade contemple, em uma única celebração, tanto o anúncio da parábola quanto a interpretação oferecida pelo próprio Cristo. Além desses momentos, esse texto também é frequentemente utilizado em retiros, encontros de formação bíblica, celebrações centradas na Palavra de Deus e na Liturgia das Horas, por sua riqueza espiritual, catequética e missionária. Os Evangelhos sinóticos preservam essa mesma tradição com acentos próprios e complementares. Marcos 4,1-20 é proclamado na quarta-feira da 3ª Semana do Tempo Comkum, reunindo a parábola e sua explicação no grande discurso parabólico de Jesus e destacando a força da Palavra que cresce e produz frutos apesar das resistências humanas. Lucas 8,4-15, proclamado no sábado da 24ª Semana do Tempo Comum, enfatiza a perseverança dos que acolhem a Palavra "com coração bom e generoso", conservando-a fielmente até que produza frutos duradouros. Embora cada evangelista apresente nuances próprias, os três convergem ao afirmar que a fecundidade do Reino depende da acolhida concreta da Palavra na existência humana. Essa distribuição ao longo do Ano Litúrgico revela a profunda pedagogia da Igreja. A liturgia não proclama esse Evangelho apenas para recordar um ensinamento de Jesus, mas para conduzir progressivamente os fiéis ao amadurecimento da fé.  Nas demais Igrejas históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e diversas tradições reformadas que seguem o Lecionário Comum Revisado, essa perícope ou suas variantes em Marcos 4,13-20 e Lucas 8,11-15 é proclamada durante o Tempo Comum ou após a Epifania, inserida no conjunto das parábolas do Reino, enfatizando a responsabilidade humana diante da Palavra de Deus e a fecundidade da graça na história.  Ao reapresentar essa parábola em diferentes tempos e contextos celebrativos, a Igreja quer  recorda que a escuta da Palavra não é um acontecimento isolado, mas um processo permanente de conversão. A Palavra de Deus continua sendo semeada em cada geração e interpela continuamente pessoas, famílias, comunidades e sociedades inteiras, chamando-as a superar a superficialidade, a resistência e a idolatria para se tornarem terra fecunda, capaz de produzir frutos de santidade, justiça, misericórdia e esperança para a transformação do mundo...

A explicação da parábola do semeador não é apenas um comentário sobre uma imagem agrícola. Ela constitui uma das mais profundas chaves hermenêuticas oferecidas pelo próprio Jesus para compreender toda a sua missão. Depois de narrar a parábola às multidões e explicar aos discípulos por que fala em parábolas, afirmando que "a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus" (Mt 13,11), Jesus revela agora o significado de cada elemento da narrativa. Não é apenas uma interpretação de uma história. É uma interpretação da própria existência humana diante da ação de Deus. O contexto narrativo é decisivo. Nos capítulos anteriores, Mateus mostra uma crescente oposição contra Jesus. Os fariseus já tramam sua morte (Mt 12,14), sua família é relativizada diante da nova família formada pelos que fazem a vontade do Pai (Mt 12,46-50), e a multidão cresce enquanto também cresce a incompreensão. A parábola nasce exatamente nesse ambiente de acolhida e rejeição. A pergunta implícita é inevitável. Se Jesus anuncia o Reino com autoridade divina, por que tantos não o acolhem? A resposta está na qualidade dos terrenos e não na qualidade da semente.

Jesus identifica a semente como "a Palavra do Reino" (Mt 13,19). Trata-se do anúncio da soberania de Deus que transforma pessoas, relações e estruturas. Não é uma palavra qualquer. É aquela mesma Palavra criadora que, desde Gênesis, faz surgir a vida (Gn 1), que os profetas comparavam à chuva que fecunda a terra e jamais volta sem produzir fruto (Is 55,10-11), e que João identifica com o próprio Verbo eterno feito carne (Jo 1,1-14). A Palavra não comunica apenas informações religiosas. Ela comunica a própria vida de Deus. No mundo agrícola da Palestina do primeiro século, o semeador lançava a semente antes mesmo do preparo completo do terreno. Era natural que parte caísse sobre caminhos endurecidos pelo constante trânsito das pessoas, sobre regiões pedregosas onde uma fina camada de terra escondia grandes rochas calcárias, entre espinhos que rapidamente sufocavam o crescimento das plantas e sobre terras férteis capazes de produzir colheitas extraordinárias. Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes para falar da geografia interior do coração humano.

O primeiro terreno representa aqueles que escutam sem compreender (Mt 13,19). A palavra "compreender", no Evangelho de Mateus, vai muito além da inteligência racional. Significa acolher, assimilar, converter-se. O Maligno arrebata a Palavra porque ela nunca chegou a penetrar verdadeiramente na vida. A superficialidade espiritual torna-se uma forma de esterilidade. Em uma sociedade marcada pelo excesso de informações, pela velocidade das redes sociais, pelo consumo contínuo de conteúdos e pela incapacidade crescente de silêncio e contemplação, a Palavra corre o risco de ser apenas mais uma informação entre tantas outras. O coração endurecido pelo individualismo, pelo preconceito, pelo ódio e pela autossuficiência torna-se semelhante ao caminho compactado sobre o qual nenhuma semente consegue penetrar.

O segundo terreno descreve quem acolhe a Palavra com entusiasmo imediato, mas sem raízes (Mt 13,20-21). A imagem das pedras ocultas revela uma religiosidade emocional, incapaz de enfrentar a perseverança exigida pelo discipulado. A fé não se sustenta apenas sobre experiências intensas ou celebrações emocionantes. Ela precisa criar raízes profundas na oração, na comunidade, na escuta constante das Escrituras, na prática da justiça e na fidelidade cotidiana. O próprio Jesus advertirá que quem deseja segui-lo deve tomar diariamente a própria cruz (Lc 9,23). A psicologia contemporânea confirma que personalidades construídas apenas sobre emoções instantâneas dificilmente desenvolvem resiliência diante do sofrimento. O Evangelho propõe justamente o contrário. A maturidade espiritual nasce da permanência, da esperança e da fidelidade.

O terceiro terreno representa aqueles que permitem que os espinhos cresçam juntamente com a Palavra (Mt 13,22). Jesus identifica esses espinhos como as preocupações do mundo e a sedução das riquezas. Aqui está uma das críticas mais contundentes do Evangelho à idolatria econômica. Não é a riqueza em si que é condenada, mas sua capacidade de ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus. O dinheiro promete segurança absoluta, reconhecimento, felicidade e poder. Entretanto, como recorda Jesus, "não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). A felicidade verdadeira jamais nasce da acumulação. O texto inicial desta reflexão recorda precisamente essa verdade. Quando Deus deixa de ser o valor absoluto, qualquer outro valor assume características idolátricas e termina produzindo sofrimento. O coração humano foi criado para o infinito. Nenhuma riqueza, nenhum sucesso e nenhuma forma de poder conseguem preencher essa sede. Essa crítica torna-se especialmente atual diante da expansão de certas correntes religiosas que identificam prosperidade econômica com bênção divina. A chamada teologia da prosperidade reduz Deus a instrumento para realização de desejos individuais e transforma a fé em mecanismo de obtenção de sucesso financeiro. O Evangelho segue caminho oposto. Jesus nasceu pobre (Lc 2,7), viveu sem possuir onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), proclamou felizes os pobres (Lc 6,20), identificou-se com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os presos (Mt 25,31-46) e anunciou um Reino cuja lógica é serviço e partilha.

O quarto terreno representa aqueles que escutam, compreendem e produzem fruto (Mt 13,23). A colheita de trinta, sessenta e cem por um ultrapassa qualquer expectativa agrícola da Palestina antiga. Trata-se de uma linguagem simbólica que manifesta a superabundância da graça divina. Deus nunca economiza sua fecundidade. Onde encontra um coração disponível, produz frutos muito além das capacidades humanas. Paulo desenvolverá essa mesma ideia ao falar do fruto do Espírito, composto por amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5,22-23). Marcos (Mc 4,13-20) conserva praticamente a mesma estrutura, mas enfatiza ainda mais o dinamismo do crescimento da Palavra. Lucas (Lc 8,11-15), por sua vez, acrescenta que o bom terreno é formado pelos que conservam a Palavra "com coração bom e generoso" e perseveram até produzir fruto. Cada evangelista ilumina um aspecto diferente da mesma realidade. Mateus insiste na compreensão da Palavra. Marcos destaca sua força transformadora. Lucas ressalta a perseverança paciente. Juntas, essas tradições mostram que ouvir, compreender, guardar e perseverar constituem um único caminho de discipulado. A parábola revela que toda sociedade forma determinados tipos de terreno humano. Estruturas sociais profundamente desiguais tendem a endurecer corações pela violência, pelo medo e pela exclusão. A sociologia da religião demonstra que comunidades marcadas apenas pelo consumo religioso produzem frequentemente uma fé superficial, enquanto comunidades comprometidas com a solidariedade, a justiça e a participação tendem a favorecer uma espiritualidade mais madura. A Palavra nunca é recebida em abstrato. Ela encontra pessoas inseridas em culturas, relações econômicas, conflitos políticos e experiências históricas concretas.

Jesus fala de quatro terrenos porque utiliza uma imagem agrícola comum da Palestina do século I, mas também porque esses quatro tipos representam, de forma simbólica, as principais atitudes humanas diante da Palavra de Deus. Não se trata de uma classificação exaustiva da humanidade, mas de uma tipologia pedagógica. Do ponto de vista literário e hermenêutico, o número quatro possui forte simbolismo na Bíblia. Frequentemente representa a universalidade da realidade criada: os quatro pontos cardeais (Is 11,12), os quatro ventos (Ez 37,9; Mt 24,31) e os quatro seres viventes (Ez 1; Ap 4). Assim, os quatro terrenos sugerem que toda a humanidade está diante da mesma Palavra e é chamada a responder a ela e .sob a perspectiva agrícola, Jesus descreve exatamente os quatro tipos de solo que um camponês encontrava ao lançar a semente:

  1. O caminho endurecido, pisado pelos viajante
  2. O  terreno pedregoso, com fina camada de terra sobre rochas calcárias
  3. O  terreno tomado por espinhos
  4. A terra fértil e preparada para a colheita

A parábola parte da experiência cotidiana para revelar uma verdade espiritual, porém, esses quatro terrenos não representam quatro grupos fixos de pessoas. Representam quatro possibilidades que coexistem dentro de cada ser humano. Em certos momentos somos caminho endurecido, fechados à Palavra; em outros, somos pedregosos, acolhendo-a sem profundidade; às vezes permitimos que os espinhos das preocupações, do consumismo, da ambição ou do poder sufoquem a fé; e, pela graça de Deus, também podemos nos tornar terra boa. É significativo que Jesus apresente três terrenos infrutíferos e apenas um fecundo. O objetivo não é transmitir pessimismo, mas mostrar que produzir fruto exige conversão, perseverança e abertura constante à ação de Deus. Ao mesmo tempo, a colheita extraordinária da terra boa trinta, sessenta e cem por um  revela que a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas.  Os números trinta, sessenta e cem por um (Mt 13,23) têm um significado que vai além de uma medida agrícola. Eles revelam, ao mesmo tempo, a realidade concreta da agricultura palestina e a superabundância da ação de Deus.

  • Primedo ponto de vista histórico, uma colheita na Palestina do século I dificilmente alcançava cem por um. Colheitas entre sete e dez por um já eram consideradas boas. Trinta por um era excelente; sessenta por um, extraordinária; cem por um, quase inacreditável. Jesus usa uma hipérbole para mostrar que, quando a Palavra é acolhida, seus frutos ultrapassam qualquer expectativa humana.
  • O segundo ponto, os três números indicam que Deus não exige que todos produzam a mesma quantidade de frutos. Há discípulos que produzem trinta, outros sessenta e outros cem por um. O que importa não é a comparação, mas a fecundidade. Cada pessoa responde à graça conforme os dons recebidos, sua vocação e sua fidelidade. Essa ideia aparece também na parábola dos talentos (Mt 25,14-30), em que Deus não pede resultados idênticos, mas fidelidade.
  • O terceiro ponto, a sequência crescente 30 → 60 → 100 manifesta que a graça de Deus não apenas vence os obstáculos, mas os supera abundantemente. A parábola começa mostrando três fracassos aparentes: a semente no caminho, nas pedras e entre os espinhos. Humanamente, parece que a semeadura foi um insucesso. Entretanto, o último terreno produz uma colheita tão extraordinária que compensa todas as perdas anteriores. É uma mensagem de esperança: o mal, a rejeição e a resistência não têm a última palavra; a fecundidade do Reino é sempre maior.
  •  Quarto ponto, essa lógica percorre toda a Escritura. José é vendido pelos irmãos, mas salva seu povo (Gn 50,20). O pequeno grupo de discípulos transforma o mundo (At 17,6). A cruz, sinal de derrota, torna-se sinal de vitória na ressurreição. Deus age de tal modo que sua graça é sempre maior do que o pecado e a resistência humana.
Os Padres da Igreja também ofereceram leituras simbólicas. São Jerônimo e Santo Agostinho viram nesses números diferentes graus de santidade e maturidade espiritual. Outros autores antigos relacionaram o trinta à vida cristã fiel, o sessenta à maior renúncia e o cem à plenitude da caridade. Embora essas interpretações sejam espiritualmente ricas, o sentido principal do texto permanece: a Palavra acolhida nunca produz um fruto pequeno; ela gera uma abundância que só pode ser explicada pela ação de Deus.Assim, quando se afirma que "a fecundidade da graça supera amplamente as resistências humanas", significa que Jesus encerra a parábola com uma mensagem de esperança. Embora três terrenos pareçam impedir o sucesso da semeadura, basta que a Palavra encontre um coração verdadeiramente aberto para produzir uma colheita extraordinária. O Reino de Deus não é medido pelas perdas da semeadura, mas pela abundância dos frutos que a graça faz nascer. É por isso que a última imagem da parábola não é a dos espinhos nem das pedras, mas a da colheita transbordante: onde Deus encontra terra boa, sua graça realiza infinitamente mais do que as limitações humanas poderiam imaginar.

Por isso, a pergunta central da parábola não é: "Em qual dos quatro terrenos eu me encaixo?" A pergunta é: "Que partes do meu coração ainda são caminho, pedras ou espinhos, e como posso permitir que Deus as transforme em terra boa?" A parábola é um convite permanente à conversão, mostrando que nenhum terreno está condenado a permanecer estéril quando se deixa trabalhar pelo divino Semeador. Esta parábola também possui uma dimensão profética. Ela denuncia toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de poder. Sempre que a religião é utilizada para legitimar ideologias autoritárias, nacionalismos excludentes, discursos de ódio ou projetos político-partidários que absolutizam líderes humanos, a Palavra acaba sufocada entre espinhos. Da mesma forma, o clericalismo denunciado repetidamente pelo Magistério recente transforma ministros em donos da Igreja, quando o Evangelho os chama ao serviço humilde (Mc 10,42-45). A comunidade cristã não existe para proteger privilégios religiosos, mas para testemunhar o Reino de Deus na história..O Concílio Vaticano II recorda que "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (Gaudium et Spes, 1). A Constituição Dei Verbum ensina que Deus continua falando ao seu povo mediante as Escrituras, convidando toda a Igreja à escuta obediente da Palavra (DV 21). A exortação apostólica Evangelii Gaudium, especialmente nos números 49 e 53, alerta contra uma economia da exclusão e convoca a Igreja a sair ao encontro das periferias. A encíclica Fratelli Tutti insiste na fraternidade como resposta à cultura da indiferença. Em sintonia com essa tradição, os documentos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida reafirmam que a evangelização exige compromisso concreto com a justiça, a dignidade humana e a opção preferencial pelos pobres. Também a CNBB, em sucessivos documentos pastorais, recorda que a Palavra proclamada deve gerar compromisso com a transformação da realidade e a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A felicidade, portanto, não nasce da satisfação de desejos ilimitados nem da conquista de poder, riqueza ou prestígio religioso. A felicidade bíblica nasce quando o coração se torna terra boa para Deus. Quem coloca no centro da existência qualquer realidade diferente do Senhor inevitavelmente experimentará a fragilidade dos ídolos. O dinheiro passa. O poder termina. A fama desaparece. As ideologias envelhecem. As paixões humanas mudam. Somente Deus permanece eternamente fiel (Sl 146,6). Mateus 13,18-23 convida cada discípulo a abandonar a tentação de perguntar quem são os outros terrenos para perguntar humildemente qual terreno existe hoje dentro de si mesmo. Todos carregamos caminhos endurecidos, pedras escondidas, espinhos persistentes e também espaços férteis onde a graça continua trabalhando silenciosamente. A conversão consiste exatamente em permitir que Deus transforme progressivamente toda a nossa existência em terra boa.

 Palavra de Deus continua sendo lançada com generosidade sobre toda a humanidade. O Senhor não faz distinção entre povos, culturas ou condições sociais; sua graça alcança tanto os que vivem nas periferias do mundo quanto os que ocupam os centros do poder. Contudo, permanece a mesma pergunta que atravessa os séculos: 

  • Que espaço estamos oferecendo para que essa Palavra transforme nossa existência? 

Num tempo em que a verdade é frequentemente substituída pela manipulação, a fé pelo espetáculo, a religião pelo mercado e o Evangelho pelos interesses do poder, Cristo continua chamando sua Igreja à conversão. Não basta proclamar a Palavra; é necessário deixar-se julgar por ela. Não basta defender símbolos religiosos; é preciso viver a justiça, a misericórdia, a fraternidade e a fidelidade ao Reino de Deus. Toda espiritualidade que ignora os pobres, legitima a exclusão, alimenta o ódio, absolutiza ideologias ou transforma a religião em instrumento de dominação revela que os espinhos continuam sufocando a semente. O Evangelho anuncia que Deus é capaz de transformar terrenos áridos em campos fecundos. Nenhum coração está definitivamente condenado à esterilidade quando se abre à ação da graça. Por isso, a esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo nem da confiança nas estruturas humanas, mas da certeza de que o Espírito Santo continua renovando a face da terra e suscitando discípulos que fazem da própria vida uma resposta ao chamado de Cristo.

Que a Igreja jamais se conforme com uma fé estéril, acomodada ou cúmplice das injustiças, mas permaneça fiel à missão recebida do Senhor: anunciar a verdade, denunciar tudo o que desfigura a dignidade humana, consolar os que sofrem, defender os pequenos, promover a paz e testemunhar, com coragem profética, que somente o Reino de Deus é absoluto. Então a semente lançada por Cristo produzirá, também em nossa geração, uma colheita abundante de santidade, justiça, solidariedade e esperança, para a glória de Deus e para a vida do mundo.  A semente cai sobre cidades marcadas pela violência, sobre povos feridos pela fome, sobre trabalhadores explorados, sobre migrantes, sobre jovens sem horizonte, sobre famílias fragmentadas, sobre comunidades divididas e também sobre corações sedentos de sentido. O semeador não deixa de semear porque alguns terrenos resistem. Assim também Deus nunca desiste da humanidade. Cada geração é novamente convidada a acolher o Reino com inteligência iluminada pela fé, coração disponível à misericórdia e mãos comprometidas com a justiça. Somente então a felicidade deixará de ser uma ilusão construída pelos falsos deuses deste mundo para tornar-se fruto maduro da presença viva de Deus, produzindo uma colheita abundante de amor, fraternidade e esperança que transforma pessoas, comunidades e a própria história.

DNonato  - Teólogo do Cotidiano 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,13-17.

A perícope de Marcos 12,13-17 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no Tempo Comum, particularmente na terça-feira da nona semana do Tempo Comum no ano par. Seus paralelos em Mateus 22,15-22 proclamado no 29º Domingo do Tempo Comum (Ano A) e Lucas 20,20-26. Nas Igrejas históricas, como as tradições Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e Reformadas, esta passagem integra igualmente os lecionários que percorrem a vida pública de Jesus, sendo reconhecida como um dos textos fundamentais para a compreensão da relação entre fé, poder, consciência e responsabilidade humana diante de Deus e da sociedade.

O episódio ocorre nos últimos dias da vida terrena de Jesus. Jerusalém vive uma tensão crescente. A cidade está cheia de peregrinos por ocasião da Páscoa. O domínio romano pesa sobre o povo. O Templo tornou-se o centro das disputas religiosas, econômicas e políticas. Jesus havia entrado em Jerusalém montado num jumentinho, gesto carregado de significado messiânico, conforme Zacarias 9,9. Em seguida, expulsara os vendedores do Templo, denunciando sua transformação em "covil de ladrões" (Marcos 11,17; Jeremias 7,11). Depois contou a parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos 12,1-12), uma crítica severa às lideranças religiosas que haviam transformado a herança de Deus em propriedade privada.

É nesse ambiente de conflito crescente que surgem os fariseus e os herodianos. Marcos registra que eles foram enviados para apanhar Jesus em alguma palavra. O verbo utilizado sugere uma armadilha cuidadosamente preparada. Não se trata de busca sincera da verdade. O objetivo é eliminar Jesus.

A pergunta parece simples: "É lícito pagar imposto a César ou não?" (Marcos 12,14). Contudo, por trás dela existe uma armadilha mortal. Se Jesus respondesse que o imposto deveria ser pago, poderia ser acusado diante do povo de colaborar com a opressão romana. Se respondesse negativamente, poderia ser denunciado às autoridades imperiais como agitador político. O imposto mencionado era o tributo per capita exigido pelo Império Romano. Era símbolo visível da dominação estrangeira. Muitos judeus o consideravam uma afronta à soberania divina. Entre os zelotas, a recusa do imposto era uma forma de resistência nacionalista. Entre as elites colaboracionistas, o pagamento era aceito como necessidade política.

A genialidade da resposta de Jesus não consiste numa fuga diplomática. Consiste em revelar uma dimensão mais profunda da realidade. Ele pede uma moeda. A simples presença daquela moeda já denuncia uma contradição. Os próprios acusadores carregam consigo o símbolo econômico do império que dizem rejeitar. A moeda possuía a imagem do imperador Tibério e uma inscrição que o identificava como filho do divino Augusto. Para muitos judeus, aquilo se aproximava da idolatria. O segundo mandamento proibia imagens utilizadas para fins religiosos (Êxodo 20,4). O imperador reivindicava atributos que pertenciam somente a Deus.

Jesus pergunta: "De quem é esta imagem e inscrição?" Eles respondem: "De César". Então vem a frase que atravessou os séculos: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Marcos 12,17).

Frequentemente essa frase foi utilizada para justificar separações simplistas entre religião e vida pública. Entretanto, a profundidade da resposta vai muito além disso. A palavra imagem remete imediatamente ao relato da criação. Em Gênesis 1,26-27, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. A moeda traz a imagem de César. Por isso pode ser devolvida a César. Mas o ser humano traz a imagem de Deus. Portanto, pertence inteiramente a Deus.

A pergunta verdadeira não é sobre a moeda. É sobre a pessoa humana. A moeda carrega o rosto do imperador. O pobre, o estrangeiro, a viúva, o órfão, a criança, o doente, o trabalhador explorado carregam a imagem do Criador. O que pertence a César é infinitamente menor do que aquilo que pertence a Deus. Jesus não legitima o absolutismo do Estado. Pelo contrário, relativiza todo poder político. César recebe apenas aquilo que é seu. Nada mais. Sua autoridade encontra limites. Nenhum governante pode reivindicar para si aquilo que pertence exclusivamente a Deus.

Aqui encontramos um dos fundamentos da crítica bíblica a toda forma de idolatria política. Os profetas já haviam denunciado reis que se colocavam acima da justiça divina. Amós condenou os que exploravam os pobres (Amós 5,11-12). Isaías denunciou governantes corruptos (Isaías 1,23). Miqueias criticou líderes que transformavam a justiça em mercadoria (Miqueias 3,11). Daniel descreveu os impérios humanos como feras que devoram povos e nações (Daniel 7). O Evangelho não autoriza a divinização do poder. Não permite que governos, partidos, líderes ou projetos ideológicos ocupem o lugar de Deus.

Ao longo da história, muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar sistemas de dominação. Reis foram apresentados como representantes exclusivos da vontade divina. Ditaduras buscaram apoio religioso para justificar perseguições. Movimentos nacionalistas transformaram símbolos religiosos em ferramentas de exclusão e violência. Quando a fé deixa de servir ao Reino de Deus para servir a projetos de poder, ela perde sua dimensão profética.

O próprio Jesus recusou esse caminho. Em João 6,15, rejeitou ser proclamado rei segundo as expectativas políticas da multidão. Em Mateus 4,8-10, recusou a oferta dos reinos do mundo apresentada pelo tentador. Seu Reino não se constrói pela força das armas nem pela imposição ideológica. Vivemos numa época marcada por profundas polarizações. Muitos grupos tentam capturar a linguagem religiosa para fortalecer projetos de poder. A fé transforma-se em bandeira ideológica. O Evangelho é reduzido a slogan político. Textos bíblicos são retirados de seu contexto para legitimar preconceitos, desigualdades e práticas autoritárias.

A tradição latino-americana tem refletido profundamente sobre esse problema. A Conferência de Medellín afirmou que a Igreja deve assumir compromisso concreto com a libertação dos pobres. Puebla aprofundou a noção da opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo destacou a dignidade humana diante das novas formas de exclusão. Aparecida recordou que o discipulado missionário exige compromisso com a transformação da realidade social. Esses documentos não identificam o Evangelho com partidos políticos específicos. Porém insistem que a fé possui consequências sociais concretas. Não existe verdadeira espiritualidade cristã indiferente ao sofrimento humano.

O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, ensina que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja não pode fechar-se numa espiritualidade desencarnada. Quando Jesus fala sobre César e Deus, ele não separa céu e terra. Ele estabelece uma hierarquia. Deus permanece acima de qualquer poder histórico.

Essa verdade torna-se particularmente importante diante das distorções promovidas por certas formas de teologia da prosperidade. Quando a bênção divina é reduzida ao sucesso econômico, a lógica do mercado ocupa o lugar da lógica do Reino. A cruz desaparece. A solidariedade perde espaço. Os pobres passam a ser vistos como culpados pela própria condição.

Jesus nasceu numa família simples (Lucas 2,24). Viveu entre trabalhadores da Galileia. Aproximou-se dos marginalizados. Declarou bem-aventurados os pobres (Lucas 6,20). Advertiu contra a idolatria das riquezas (Mateus 6,24). Morreu fora das muralhas da cidade, entre condenados. O Reino anunciado por Jesus não é medido pelo acúmulo de bens, mas pela prática da justiça, da misericórdia e da fraternidade. Quando ministros religiosos assumem posições de privilégio, superioridade ou domínio, contradizem diretamente o exemplo de Cristo. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que os governantes das nações dominam seus povos, mas entre seus discípulos deve ser diferente. Quem deseja ser grande deve tornar-se servo.

A frase de Jesus sobre César e Deus convida a Igreja a permanecer livre diante dos poderes deste mundo:

  •  Livre para dialogar. 
  • Livre para colaborar na construção do bem comum. 
  • Livre para denunciar injustiças.
A missão profética da Igreja não consiste em conquistar o Estado. Consiste em testemunhar o Reino. Sob a perspectiva antropológica, esta passagem revela algo fundamental sobre a condição humana. Todo ser humano vive entre múltiplas pertenças. Pertence a uma família, a uma cultura, a uma nação, a instituições sociais. Contudo, nenhuma dessas pertenças esgota sua identidade.

A  imagem de Deus inscrita em cada pessoa confere dignidade inviolável. Nenhum governo pode conceder essa dignidade. Nenhum governo pode retirá-la. Por isso, toda forma de discriminação racial, econômica, cultural ou religiosa constitui uma afronta ao projeto criador de Deus. O texto também revela a tendência humana de buscar segurança em estruturas de poder. Muitas pessoas projetam em líderes políticos expectativas messiânicas. Esperam deles salvação, redenção ou sentido absoluto. 

Essa dinâmica produz idolatrias modernas. Quando um líder é transformado em objeto de devoção inquestionável, quando críticas tornam-se proibidas, quando a verdade é subordinada à lealdade ideológica, o espaço da fé autêntica é substituído pelo culto ao poder. Ele desloca o centro da confiança humana para Deus. A comparação com Mateus 22,15-22 e Lucas 20,20-26 revela aspectos interessantes. Mateus enfatiza a hipocrisia dos interlocutores. Lucas destaca a tentativa de entregar Jesus à autoridade romana. Marcos, por sua vez, preserva uma narrativa marcada pela admiração diante da sabedoria de Jesus. As diferenças redacionais mostram como cada evangelista ilumina dimensões específicas do mesmo acontecimento. Todos, porém, convergem numa mesma afirmação fundamental: Deus não pode ser instrumentalizado por interesses políticos.

A questão central permanece viva em cada  geração.O que pertence a César?

  • As estruturas administrativas, 
  • os mecanismos legítimos de organização social, 
  • as responsabilidades cívicas, 
  • os deveres da cidadania.

O que pertence a Deus?

  • Pertence a Deus o coração humano. 
  • Pertence a Deus a consciência. 
  • Pertence a Deus a dignidade da pessoa
  •  Pertence a Deus a vida. 
  • Pertence a Deus a história.

  1. Quando César pretende ocupar esse espaço, transforma-se em ídolo.
  2. Quando a religião legitima essa pretensão, transforma-se em idolatria.
  3. Quando a Igreja esquece os pobres para aproximar-se dos poderosos, perde sua credibilidade profética.
  4. Quando comunidades cristãs trocam o Evangelho pela busca de influência política, deixam de anunciar o Reino para administrar interesses.

A América Latina conhece profundamente essa tentação. Nossa história está marcada por desigualdades persistentes, concentração de riqueza, violência estrutural e exclusão social. Em muitos contextos, a linguagem religiosa foi utilizada para justificar privilégios e silenciar questionamentos. Entretanto, a tradição profética continua viva. Ela ecoa nas Comunidades Eclesiais de Base. Ecoa nos mártires da justiça. Ecoa nos agentes pastorais que servem silenciosamente nas periferias. Ecoa nos cristãos que defendem os direitos humanos. Ecoa nas mulheres e homens que recusam transformar a fé em instrumento de dominação.

O Evangelho de Marcos nos convida a reconhecer: 

  • Que a verdadeira soberania pertence somente a Deus.
  • Não ao mercado.
  • Não ao dinheiro.
  • Não ao nacionalismo.
  • Não ao clericalismo.
  • Não aos impérios antigos ou modernos.
  • Somente Deus é absoluto.

A própria imagem da moeda reaparece de maneira surpreendente em outra passagem do Evangelho. Em Lucas 15,8-10, Jesus fala da mulher que perde uma dracma e acende uma lâmpada, varre cuidadosamente a casa e procura até encontrá-la. problemada na quinta-feira da  31ª Semana do Tempo Comum. À primeira vista, trata-se apenas de uma pequena moeda extraviada. Contudo, à luz de Marcos 12,17, emerge um simbolismo mais profundo. Se a moeda do tributo traz a imagem de César e retorna a César, a moeda perdida pode ser vista como figura da humanidade que traz em si a imagem de Deus e que, mesmo perdida nos labirintos do pecado, da injustiça, da idolatria e da alienação, continua sendo preciosa aos olhos do seu Criador. A mulher que procura incansavelmente a moeda torna-se imagem do próprio Deus que não se conforma com a perda de nenhum de seus filhos. Enquanto os impérios procuram arrecadar moedas para sustentar seu poder, Deus procura pessoas para restaurar sua dignidade. Enquanto César reivindica aquilo que carrega sua efígie, Deus busca aquilo que traz sua imagem. A alegria da mulher que encontra a moeda perdida antecipa a alegria divina diante de cada ser humano reencontrado pela graça. Dessa forma, a moeda de Marcos 12 deixa de ser apenas um objeto de tributação e torna-se também um símbolo da identidade humana: fomos criados à imagem de Deus (Gênesis 1,26-27), podemos nos perder entre os poderes deste mundo, mas jamais deixamos de pertencer Àquele que nos procura com amor paciente até nos reencontrar.

Por isso, a resposta de Jesus permanece como uma das palavras mais profundas, libertadoras e revolucionárias de toda a Escritura. Ela impede que o Estado se transforme em divindade. Impede que a religião se torne serva dos impérios. Impede que o ser humano esqueça sua origem, sua vocação e seu destino. Ao mesmo tempo, revela que toda autoridade humana é relativa diante da soberania absoluta de Deus, pois "do Senhor é a terra e tudo o que nela existe" (Salmo 24,1), e "não há autoridade que não venha de Deus" (Romanos 13,1), embora toda autoridade seja continuamente julgada pelos critérios da justiça divina. A moeda retorna a César porque traz sua imagem. Mas o coração humano retorna a Deus porque traz inscrita a sua imagem desde o princípio da criação (Gênesis 1,26-27). O ser humano não é propriedade dos impérios, dos mercados, das ideologias nem dos sistemas religiosos. Pertence Àquele que o criou, o chamou pelo nome e o sustenta na existência. Como recorda o profeta Isaías: "Tu és precioso aos meus olhos, eu te amo" (Isaías 43,4). Por isso, toda vez que uma pessoa é humilhada, explorada ou descartada, é a própria imagem de Deus que está sendo profanada.

Quando o ser humano retorna a Deus, descobre que a verdadeira adoração não consiste apenas em palavras, ritos ou observâncias externas. Os profetas já haviam denunciado o vazio de uma religião separada da justiça. Amós proclamava: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Amós 5,24). Isaías advertia que Deus rejeita cultos que convivem com a opressão dos pobres (Isaías 1,11-17). Miqueias sintetiza a vontade divina afirmando que o Senhor pede apenas que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia e caminhemos humildemente com Ele (Miqueias 6,8). Jesus retoma essa tradição ao afirmar que os mandamentos maiores são amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo (Marcos 12,29-31). Ao final da narrativa, os adversários ficam admirados. O espanto nasce porque Jesus rompe as falsas alternativas apresentadas pelos poderes de seu tempo. Ele recusa tanto a submissão idolátrica ao império quanto o nacionalismo religioso que sonhava substituir uma dominação por outra. Seu horizonte é mais amplo. É o horizonte do Reino de Deus. Um Reino que não nasce da violência nem da imposição, mas da conversão do coração. Um Reino que cresce como semente lançada na terra (Marcos 4,26-29), como fermento escondido na massa (Mateus 13,33), como pequena semente de mostarda destinada a tornar-se grande árvore (Marcos 4,30-32).

Marcos 12,13-17 permanece, portanto, como um chamado permanente à conversão:. 

  • Conversão pessoal para que Deus ocupe verdadeiramente o centro de nossa existência. 
  • Conversão eclesial para que a Igreja seja sinal do Reino e não instrumento de interesses econômicos, ideológicos ou partidários. 
  • Conversão social para que as estruturas políticas, econômicas e culturais estejam a serviço da dignidade humana, especialmente dos pobres, dos excluídos e dos crucificados da história, nos quais Cristo continua presente (Mateus 25,31-46). 
Diante da moeda marcada pela imagem de César, Jesus aponta para uma realidade infinitamente maior. Diante do rosto humano marcado pela imagem de Deus, ele revela o valor sagrado de cada pessoa. Diante dos impérios que passam, dos sistemas que se sucedem e dos poderes que reivindicam para si a última palavra, ele anuncia silenciosamente aquilo que os profetas haviam esperado e que o Apocalipse proclamará com força: "O reino do mundo passou para o nosso Senhor e para o seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 11,15). A última palavra da história não pertence aos Césares. Não pertence aos mercados. Não pertence aos exércitos. Não pertence aos impérios religiosos nem aos impérios econômicos. A última palavra pertence ao Deus da vida, que ressuscitou Jesus dentre os mortos (Atos 2,24) e inaugurou uma nova criação (2 Coríntios 5,17). Por isso, a esperança cristã não se apoia na força dos poderosos, mas na fidelidade de Deus. O ser humano encontra sua plenitude não quando se ajoelha diante dos Césares da história, mas quando reconhece no Deus revelado por Jesus Cristo a fonte da justiça que restaura, da verdade que liberta (João 8,32), da misericórdia que cura, da fraternidade que reconcilia e da vida em abundância prometida a toda a humanidade (João 10,10). É nessa pertença radical a Deus que nasce a verdadeira liberdade. É nessa liberdade que floresce a dignidade humana. E é dessa dignidade que brota a coragem profética de viver, anunciar e testemunhar o Reino de Deus no coração da história.

DNonato - Teólogo do Cotidiano, mais  valioso  que uma moeda.