as de profundidade teológica decisiva, 9no qual se condensam tensões centrais do Evangelho: vida e norma, misericórdia e legalismo, revelação e endurecimento do coração. A liturgia da Igreja proclama este texto em dois momentos distintos e, ao mesmo tempo, profundamente interligados: na quarta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum e no 9º Domingo do Tempo Comum, quando ele aparece inseparável da narrativa anterior de Mc 2,23–28, o episódio das espigas colhidas em dia de sábado.
Essa recorrência litúrgica não é casual nem redundante. Ela funciona como um gesto pedagógico da própria Igreja, que nos convida a retornar ao texto, a habitá-lo com mais atenção e a permitir que ele amadureça na escuta comunitária, revelando camadas cada vez mais profundas de sentido. O que está em jogo não é uma mera disputa jurídica sobre a observância do sábado, mas a manifestação de um conflito estrutural: o embate entre o projeto libertador de Deus, centrado na vida e na dignidade humana, e um sistema religioso que, ao absolutizar a norma, perdeu a capacidade de reconhecer a presença de Deus justamente onde a vida clama por restauração.
Nesse cenário, a sinagoga deixa de ser apenas um espaço de culto e torna-se o lugar simbólico onde se confrontam duas teologias, duas imagens de Deus e duas maneiras de compreender a fidelidade. Jesus não apenas cura uma mão atrofiada; Ele desvela a atrofia espiritual de um modelo religioso incapaz de perceber que o sábado existe para a vida, e não a vida para o sábado. É esse deslocamento radical — do legalismo para a misericórdia, da norma para o humano, do controle para a compaixão — que faz de Mc 3,1-6 um texto permanentemente atual, provocativo e decisivo para o discernimento da fé vivida no cotidiano.
Esse conflito começa a ser delineado já em Mc 2,23–28 proclamado ontem, quando os discípulos colhem espigas em dia de sábado porque têm fome. A fome, aqui, não é um detalhe narrativo, mas uma chave hermenêutica decisiva. Na tradição bíblica, a fome expressa a vulnerabilidade humana, o limite constitutivo da criatura, sua dependência radical. Jesus não espiritualiza essa necessidade nem a transforma em motivo de acusação moral. Ao contrário, ele a assume como lugar teológico e recorda a história de Davi, que, diante da urgência da vida, comeu os pães da proposição, reservados aos sacerdotes (1Sm 21,1-6). Com esse gesto interpretativo, Jesus se insere na tradição mais profunda da Escritura, onde a Lei jamais foi pensada como instrumento de morte, mas como caminho de vida. A afirmação “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27) emerge, assim, como síntese antropológica e teológica de grande alcance: Deus não cria normas para esmagar a criatura, mas para torná-la plenamente humana.
É exatamente esse horizonte que ilumina a leitura de Mc 3,1-6. Jesus entra novamente na sinagoga. O advérbio não é neutro. Ele indica perseverança, fidelidade e coragem. Mesmo sabendo que ali será observado, julgado e possivelmente condenado, Jesus não abandona o espaço religioso. A sinagoga é o lugar da Palavra interpretada, da memória da Aliança e da identidade do povo. É justamente nesse espaço que a tensão se torna mais visível. No centro da assembleia está um homem com a mão ressequida. Marcos não lhe dá nome, como se quisesse sublinhar que ele representa todos os anônimos da história, definidos não pelo que são, mas pelo que lhes falta. Na antropologia bíblica, a mão simboliza ação, trabalho, poder, bênção e responsabilidade. Com as mãos, o ser humano constrói, acolhe, cria laços e transforma a realidade. Uma mão ressequida é, portanto, uma existência bloqueada, impedida de agir e de participar plenamente da vida social, econômica e religiosa.
A presença desse homem na sinagoga revela uma contradição inquietante: ele está no espaço da fé, mas permanece com a vida paralisada. A religião convive com a dor sem se deixar afetar por ela. O texto afirma que alguns observavam Jesus para ver se ele curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem. Trata-se de um olhar vigilante, não contemplativo. Não é um olhar que busca compreender, mas que procura motivo para condenar. A fé, assim, degrada-se em tribunal. Nesse contexto, Jesus toma a iniciativa e chama o homem para o centro. O gesto é profundamente simbólico: aquilo que era marginal se torna central, aquilo que era invisível passa a ser visto. A pergunta que Jesus dirige aos presentes
“É permitido, no sábado, fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou matar?”
Expondo a perversão de um sistema que, em nome da Lei, tolera a morte. O silêncio dos adversários é revelador. Não é silêncio de escuta, mas de endurecimento do coração.
Marcos utiliza deliberadamente a categoria bíblica da dureza do coração, evocando a memória do faraó no Êxodo, cuja resistência obstinada se opunha ao projeto libertador de Deus (Ex 7–11). Ao aplicar essa imagem aos líderes religiosos, o evangelista denuncia um deslocamento trágico: aqueles que deveriam guardar a memória da libertação tornam-se seus negadores. O olhar de Jesus, descrito como mistura de indignação e tristeza, revela a dor de Deus diante de uma religião que perdeu sua capacidade de gerar vida. A cura acontece a partir de uma ordem simples: “Estende a mão.” Não há gestos espetaculares nem palavras mágicas. O homem é convidado a um movimento de confiança, a expor aquilo que estava retraído, paralisado, talvez escondido por vergonha ou medo. A restauração acontece no momento em que ele aceita sair da imobilidade.
Esse gesto, aparentemente simples, carrega profunda densidade simbólica e antropológica. A mão ressequida não é apenas um membro doente, mas expressão de uma corporeidade ferida pela exclusão. Na Escritura, o corpo é lugar da revelação. Deus cria com suas mãos (Sl 8,4), liberta com mão forte e braço estendido (Ex 6,6) e abençoa pela imposição das mãos. Ter a mão ressequida é ter a história inscrita no corpo, marcada por estruturas que produzem impotência e silenciamento. Ao curar essa mão em dia de sábado, Jesus revela que a salvação não é abstrata nem desencarnada. Ela passa pelo corpo concreto, situado, ferido. Psicologicamente, o gesto de estender a mão implica superar o medo e a interiorização da exclusão. Teologicamente, proclama que o Reino de Deus começa quando o corpo recupera sua dignidade e sua capacidade de agir na história.
Nos paralelos sinóticos, esse simbolismo se amplia e se aprofunda. Mateus (12,9-14) acrescenta a imagem da ovelha caída no poço, evocando o cuidado concreto com a vida mesmo em dia sagrado. Lucas (6,6-11) especifica que a mão era a direita, intensificando ainda mais a dimensão simbólica da perda, já que a mão direita estava associada à força, à honra e à ação pública. Em todos os relatos, a cura provoca reação violenta. A defesa da Lei se converte em projeto de morte. Marcos é particularmente incisivo ao narrar a aliança entre fariseus e herodianos, grupos distintos, mas unidos na eliminação daquele que devolve vida. A restauração do corpo ameaça estruturas de poder.
Esse conflito só pode ser compreendido plenamente quando se aprofunda o sentido do sábado como tempo messiânico. Na criação, o sábado não é mera interrupção do trabalho, mas coroamento da obra de Deus, quando a vida é contemplada como boa e suficiente (Gn 2,1-3). No Deuteronômio, ele se torna memorial da libertação do Egito (Dt 5,12-15). Guardar o sábado é afirmar que ninguém nasceu para ser escravo. Nos profetas, o sábado se transforma em critério de autenticidade da fé, inseparável da justiça e da libertação dos oprimidos (Is 58). Em Jesus, esse horizonte se radicaliza: o sábado deixa de ser apenas memória do passado e se torna antecipação do Reino. Curar em dia de sábado não é violar a Lei, mas revelar seu sentido escatológico. Onde a vida é restaurada, ali o sábado se cumpre.
A sinagoga, cenário dessa cura, emerge então como espaço de conflito hermenêutico. Ela é o lugar da interpretação da Escritura, da formação da consciência coletiva. É ali que se confrontam duas leituras da Lei: uma hermenêutica do controle, que vigia e exclui, e uma hermenêutica da misericórdia, que coloca a vida concreta como critério. Jesus não rompe com a sinagoga, mas a atravessa criticamente, revelando sua vocação original. Esse conflito atravessa toda a história da fé e chega até a Igreja contemporânea.
O Concílio Vaticano II procurou responder a esse desafio ao afirmar que a Palavra de Deus deve ser lida à luz dos sinais dos tempos (GS 4) e que todo o povo de Deus participa da função profética de Cristo (LG 12). Na tradição latino-americana, os documentos do CELAM aprofundaram essa perspectiva ao articular fé e vida, denunciando estruturas de pecado e assumindo a opção preferencial pelos pobres. A mão ressequida torna-se, assim, símbolo histórico dos corpos feridos da América Latina, e o sábado messiânico, anúncio de libertação concreta.
À luz desse Evangelho, tornam-se evidentes as contradições das teologias que transformam a fé em mercadoria. A teologia da prosperidade converte o sábado em vitrine de sucesso e a mão em instrumento de consumo. A teologia do domínio sacraliza o poder e ignora os corpos esmagados pelo sistema. O individualismo espiritual esvazia a dimensão comunitária do sábado. O clericalismo endurece o coração institucional e impede a escuta do sofrimento real do povo. Todas essas formas de religiosidade entram em choque com o gesto simples e radical de Jesus que devolve vida a quem estava paralisado.
O desfecho do texto, com a decisão de matar Jesus, revela o preço dessa hermenêutica da vida. A cruz começa a ser erguida no momento em que a mão é restaurada. Esse paradoxo atravessa a história cristã e permanece atual. Sempre que a religião escolhe a vida, ela entra em conflito com sistemas que lucram com a morte. O sábado de Jesus não é o da imobilidade, mas o da recriação contínua. É o tempo em que Deus insiste em refazer a criação ferida, começando pelos corpos e pelas instituições chamadas à conversão.
Assim, Marcos 3,1-6 permanece como um texto de força profética inesgotável, capaz de atravessar os séculos e desinstalar toda fé acomodada. Ele nos provoca a discernir que sábado escolhemos celebrar, que mãos estamos realmente dispostos a estender e que hermenêutica sustenta ou trai nossa adesão ao Evangelho. Não se trata de abolir a Lei, mas de libertá-la de leituras que a tornaram instrumento de controle, exclusão e morte. O Reino de Deus irrompe ali onde a vida concreta é colocada no centro, onde a Palavra recupera sua vocação originária de libertar e não de oprimir, e onde a misericórdia deixa de ser um adorno piedoso para tornar-se o critério último da fidelidade a Deus. Fora disso, resta apenas um sábado vazio, mãos fechadas e uma religião que, em nome de Deus, se distancia perigosamente do próprio Deus.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

É meu amigo, olhos fito em Jesus!!! Jesus não parou frente às pancadas!!!!
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