O que está em jogo não é simplesmente uma discussão sobre o sábado ou uma divergência entre Jesus e os fariseus. O Evangelho nos coloca diante de uma pergunta decisiva: que tipo de Deus anunciamos quando absolutizamos a lei e esquecemos a vida? Ao caminhar com seus discípulos pelos campos e, depois, ao entrar na sinagoga, Jesus revela que a fidelidade a Deus não se mede pela rigidez da norma, mas pela capacidade de proteger, curar e humanizar. O sábado, sinal da aliança e do descanso prometido por Deus, não pode se transformar em instrumento de opressão nem em justificativa para a indiferença diante da fome e da dor.
Proclamado ao longo do Tempo Comum, esse texto funciona como um espelho incômodo. Ele ilumina a tensão permanente entre religião e misericórdia, entre trabalho e dignidade humana, entre práticas sagradas e o cuidado concreto com as pessoas. Mais do que resolver uma controvérsia, Jesus desvela o rosto de um Deus comprometido com a vida plena e propõe um projeto de humanidade no qual a lei existe para servir o ser humano, e não para esmagá-lo. É essa chave hermenêutica, simples e exigente, que Marcos 2,23–28 e 3,1–6 continuam oferecendo à comunidade cristã de todos os tempos. O autor sagrado constrói esse episódio dentro de uma sequência narrativa marcada pelo conflito. Desde o início do capítulo 2, Jesus atravessa fronteiras simbólicas: perdoa pecados fora do templo, toca corpos interditados, senta-se à mesa com publicanos, relativiza o jejum e, agora, atravessa campos em dia de sábado. Esses conflitos não são acidentais; eles revelam uma incompatibilidade estrutural entre o Reino de Deus e uma religião fechada em si mesma. Onde a fé se converte em sistema de controle, o Evangelho se manifesta como ruptura.
O cenário é simples e cotidiano: Jesus e seus discípulos caminham pelos campos. O detalhe é importante. Não estão no templo, nem na sinagoga, mas no caminho. Marcos insiste nessa teologia do caminho, onde a vida acontece e onde a fé é provada. Os discípulos sentem fome e arrancam espigas. O gesto, permitido pela Torá (Dt 23,26), torna-se escandaloso apenas porque acontece no sábado. A acusação dos fariseus revela uma leitura da lei que perdeu seu vínculo com a vida concreta e passou a funcionar como fim em si mesma. Para compreender a gravidade desse deslocamento, é necessário retomar o sentido bíblico do sábado. Em Gênesis 2, o descanso de Deus não é ausência de ação, mas plenitude da criação. Deus descansa porque a obra está completa e boa. No Deuteronômio, o sábado assume um caráter explicitamente social e político: ele é memória da libertação do Egito (Dt 5,15). Descansar é lembrar que ninguém foi criado para ser escravo. O sábado nasce, portanto, como protesto contra toda lógica de exploração e como garantia de dignidade para todos, inclusive servos, estrangeiros e animais.
Esse dado é fundamental para a leitura de Marcos 2. Quando o sábado é reduzido a uma norma religiosa desvinculada da vida, ele trai sua própria origem. Jesus não está abolindo o sábado, mas resgatando seu sentido mais profundo. Sua resposta aos fariseus, ao recordar o episódio de Davi em 1Sm 21, insere-se numa tradição bíblica que sempre soube relativizar a norma diante da necessidade humana. Davi, faminto e perseguido, come os pães sagrados. A Escritura, portanto, já continha em si uma hermenêutica da misericórdia. Essa hermenêutica atravessa toda a tradição profética. Isaías denuncia um culto que convive com a injustiça (Is 1,10-17). Amós rejeita celebrações que ocultam a exploração (Am 5,21-24). Oséias sintetiza essa crítica ao afirmar que Deus quer misericórdia, não sacrifício (Os 6,6). Jesus não inaugura essa perspectiva; ele a leva às últimas consequências. Em Mateus 12, ao retomar esse mesmo episódio, Jesus cita explicitamente Oséias, revelando que o conflito não é novo, mas estrutural.
A frase central de Marcos — “O sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” — funciona como eixo antropológico e teológico de todo o texto. Aqui se explicita o conflito entre lei e misericórdia. A lei é necessária, mas não é absoluta. Quando a lei deixa de servir à vida, ela se torna ídolo. A misericórdia, longe de ser exceção, é o critério que revela o verdadeiro sentido da lei. Esse princípio percorre toda a Escritura e encontra eco na afirmação paulina de que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Cor 3,6).
Marcos aprofunda esse conflito ao concluir que “o Filho do Homem é senhor também do sábado”. A expressão “Filho do Homem” carrega uma ambiguidade fecunda: remete à fragilidade humana (Ez 2,1) e, ao mesmo tempo, à figura escatológica de Daniel 7, que recebe autoridade para instaurar um reino de justiça. Jesus reivindica autoridade não para endurecer a lei, mas para libertá-la. Seu senhorio não se exerce pelo domínio, mas pelo cuidado com a vida ameaçada. Os paralelos sinóticos ampliam essa compreensão. Lucas (6,1-5) reforça a autoridade de Jesus sobre o sábado. Mateus (12,1-8) acrescenta o argumento sacerdotal e a citação profética. Em Mc 3,1-6, o conflito atinge seu ápice: curar ou não curar no sábado? Jesus revela que a omissão diante do sofrimento é, em si, uma escolha pela morte. A lei sem misericórdia gera violência religiosa, ainda que travestida de zelo.
Esse conflito entre lei e misericórdia não permanece no plano religioso. Ele atravessa as estruturas sociais. O sábado, enquanto tempo de descanso, tem implicações diretas na organização do trabalho. À luz do Evangelho, não se trata apenas de uma prática cultual, mas de um projeto social. O descanso semanal é expressão concreta da dignidade humana. Negá-lo é negar algo essencial à condição humana. Nesse horizonte, o debate contemporâneo sobre o fim da escala 6×1 ganha densidade teológica e pastoral. Jornadas exaustivas, com apenas um dia de descanso, reproduzem uma lógica semelhante à do Egito faraônico. Sacrificam corpos, vínculos familiares e saúde mental em nome da produtividade. À luz de Marcos 2, trata-se de uma violação do princípio sabático. Defender o direito ao descanso não é ideologizar a fé, mas resgatar sua raiz bíblica.
Jesus afirma que o sábado existe para o ser humano. Uma pastoral comprometida com o Evangelho não pode ignorar sistemas de trabalho que adoecem pessoas. O próprio Jesus denuncia estruturas que “amarram fardos pesados sobre os outros” (Mt 23,4) e afirma que “o trabalhador é digno de seu salário” (Lc 10,7). O descanso é parte desse salário simbólico e existencial. A psicologia contemporânea confirma essa intuição bíblica. A ausência de pausas gera esgotamento emocional, ansiedade e depressão. Se faz necessário denunciar a precarização como forma moderna de escravidão e é preciso mostra que o ser humano necessita de ritmos, ritos e pausas para manter sua identidade. O sábado, nesse sentido, é profundamente humano antes de ser religioso.
É nesse ponto que se revela o choque com as teologias da prosperidade e do domínio. Ao absolutizar desempenho, sucesso e produtividade, essas correntes transformam Deus em patrocinador de um sistema que consome vidas. A bênção passa a ser medida por resultados, e o fracasso é interpretado como falta de fé. Jesus, ao legitimar a fome dos discípulos, desmonta essa lógica. No Reino que ele anuncia, o limite não é pecado; é condição humana.
A fé como mercadoria também é desmascarada. Quando a religião se submete à lógica do mercado, ela exige engajamento contínuo, sem descanso, e transforma a espiritualidade em performance. O sábado desaparece, substituído por campanhas, eventos e metas. Jesus restitui à fé seu caráter de dom gratuito. A vida não é moeda de troca com Deus.
Hoje eviste aqueles que tem uma ideia de que poucos detêm o monopólio da interpretação da vontade divina é relativizada pela prática de Jesus. Ele interpreta a Escritura a partir da vida concreta e não do privilégio institucional. O Concílio Vaticano II retoma essa intuição ao afirmar que a Igreja deve ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho (Gaudium et Spes, 4) e ao reafirmar o primado da pessoa humana (GS, 26).
Santo Irineu afirmava que “a glória de Deus é o ser humano vivo”. Orígenes via o sábado como libertação progressiva do que desumaniza. Agostinho falava do verdadeiro descanso como repouso em Deus que se manifesta no amor concreto ao próximo. Para os Padres, a lei encontra sua plenitude quando gera vida.
Marcos escreve para comunidades submetidas à pressão do Império Romano e a conflitos internos. O evangelho do sábado é também um evangelho de resistência. Ele afirma que Deus não se alia a sistemas que esmagam os pequenos. O Filho do Homem é senhor do sábado porque é senhor da história, não para dominar, mas para libertar.
Lido hoje, Marcos 2,23-28 continua a provocar. Ele nos obriga a escolher entre uma religião que protege normas e uma fé que protege vidas. O conflito entre lei e misericórdia atravessa nossas igrejas, nossas pastorais e nossas estruturas sociais. Onde a fé se alia à exploração, o sábado é traído. Onde a fé defende o descanso, a dignidade e o limite, Deus repousa. O sábado permanece, assim, como critério permanente de discernimento profético, atravessando a Escritura como memória de libertação e horizonte de esperança. Ele nasce no coração do Êxodo, quando Deus escuta o clamor dos escravizados e interrompe a lógica do faraó (Ex 3,7; 5,4–9), e se consolida como sinal de aliança: “Lembra-te de que foste escravo… por isso o Senhor te ordenou guardar o sábado” (Dt 5,15). Não é simples pausa ritual, mas pedagogia da liberdade, limite imposto ao trabalho que devora a vida (Ex 20,8–11), descanso estendido ao pobre, ao estrangeiro, ao animal (Ex 23,12), antecipação concreta de um mundo reconciliado. Por isso os profetas o assumem como termômetro da fidelidade a Deus e à justiça:
- Isaías o vincula à prática do direito e da misericórdia (Is 58,6–14)
- Jeremias o coloca como fronteira entre vida e ruína coletiva (Jr 17,19–27)
- Ezequiel o chama de “sinal” profanado quando a vida é desprezada (Ez 20,12–24)
- Oséias lembra que Deus quer misericórdia, não sacrifícios que oprimem (Os 6,6).
Em Marcos 2,23–28, Jesus recoloca o sábado em seu eixo original e radicaliza seu sentido: ele não o abole, mas o liberta das mãos do legalismo que o havia sequestrado. Ao afirmar que “o sábado foi feito para o ser humano, e não o ser humano para o sábado” (Mc 2,27), Jesus retoma o fio do Gênesis, onde o descanso de Deus não é cansaço, mas contemplação da vida boa (Gn 2,1–3), e o entrelaça com a tradição davídica que antepõe a vida à norma (1Sm 21,1–6). A autoridade do “Filho do Homem, senhor do sábado” (Mc 2,28) não é tirânica, mas pastoral: é a autoridade daquele que cura no sábado (Mc 3,1–6), que devolve dignidade aos corpos feridos e expõe a perversão de uma religião capaz de proteger a lei e sacrificar pessoas. Aqui o sábado denuncia jornadas desumanas (cf. Tg 5,1–6), espiritualidades adoecidas que confundem obediência com submissão (Mt 23,4), e teologias cúmplices do mercado que transformam pessoas em meios e não em fins (cf. Am 8,4–6). E anuncia, ao mesmo tempo, um Reino onde o jugo é suave e o fardo é leve (Mt 11,28–30), onde a glória de Deus é o ser humano vivo (cf. Jo 10,10), onde toda norma encontra seu critério último no amor que salva (Rm 13,8–10).
Por isso, o sábado permanece como escândalo e esperança: escândalo para sistemas que absolutizam a produtividade, o lucro e o controle; esperança para os que têm fome, para os cansados e sobrecarregados, para todos os que esperam “novos céus e nova terra” onde a justiça habita (Is 65,17; Ap 21,1–4). Em Marcos 2,23–28, não se trata apenas de um debate sobre espigas colhidas, mas da proclamação de que Deus não se alia a estruturas que esmagam a vida. O sábado, relido à luz de Jesus, torna-se profecia viva: memória de libertação, crítica permanente a toda forma de opressão e anúncio de um mundo no qual o ser humano não existe para sustentar o sistema, mas o sistema é continuamente julgado e convertido a serviço da vida.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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