É nesse chão concreto que Marcos situa a cena de Mc 3,7-12: às margens do lago, longe dos espaços oficiais do poder religioso, em meio a uma multidão marcada pela dor, pela exclusão e pela busca desesperada de cura e sentido. E é exatamente nesse mesmo chão e hoje atravessado por desigualdades, polarizações, adoecimentos sociais e espirituais que esse texto precisa ser lido, interpretado e proclamado. Não como memória distante de um passado sagrado, mas como Palavra viva que continua a deslocar, provocar e desinstalar, convidando o discípulo a reconhecer onde, no cotidiano aparentemente comum, a presença de Jesus ainda incomoda, cura e liberta.
A retirada de Jesus para a beira do mar, portanto, não pode ser lida apenas como movimento, mas como gesto teológico e político. Marcos deixa claro que o conflito que se instaura não é acidental, mas estrutural. Fariseus e herodianos, grupos ideologicamente distintos, unem-se contra Jesus. A aliança é reveladora. Quando a religião se sente ameaçada em seu controle simbólico e o poder político se sente ameaçado em sua estabilidade, ambos encontram um inimigo comum naquele que devolve dignidade aos corpos e liberdade às consciências. Essa lógica atravessa toda a história bíblica.
- Elias é perseguido ao desmascarar o conluio entre Acab e Jezabel (1Rs 18–19).
- Amós é expulso do santuário por tocar nos privilégios do rei (Am 7,10-17).
- Jeremias é acusado de traição por anunciar a verdade incômoda (Jr 26).
O destino dos profetas sempre foi esse: serem acusados não por mentirem, mas por dizerem a verdade no lugar errado. Marcos insere Jesus nessa linhagem profética, mas com uma radicalidade inédita. Ele não apenas denuncia estruturas; ele as desestabiliza a partir da vida concreta dos pequenos. A cura, no Evangelho, é linguagem política. Onde a vida é restaurada, o sistema que se alimenta da morte começa a ruir. Não se trata de política partidária, mas de uma política do Reino, que recoloca o ser humano no centro e relativiza toda forma de poder que se absolutiza. Por isso, a perseguição antecede a cruz. O Gólgota não será um acidente jurídico nem uma fatalidade histórica, mas o desfecho coerente de uma prática fiel ao Reino de Deus.
O mar reaparece como espaço simbólico decisivo. Em Marcos, ele é lugar de medo, travessia e revelação. É ali que os discípulos experimentam a fragilidade da fé diante da tempestade (Mc 4,35-41), revelando uma comunidade ainda imatura, dominada pelo pânico quando o controle se perde. É ali também que Jesus caminha sobre as águas, retomando imagens do Antigo Testamento que afirmam que somente Deus domina o caos primordial (Jó 9,8; Sl 77,20). Colocar Jesus à beira do mar é situá-lo no limiar entre ordem e desordem, entre o mundo como ele se apresenta historicamente e o mundo como Deus o sonha escatologicamente. O Reino nasce sempre nas fronteiras, nunca nos centros estabilizados.
A multidão que o segue, oriunda de regiões diversas, representa um Israel ampliado, ferido e plural. Galileia, Judeia, Jerusalém, Idumeia, Tiro e Sidônia não são apenas nomes geográficos; são mundos sociais distintos, atravessados por tensões étnicas, religiosas e econômicas. Marcos constrói deliberadamente essa cartografia para mostrar que o Reino não se deixa capturar por identidades exclusivistas nem por fronteiras sacralizadas. Já se antecipa aqui a lógica pascal e missionária que romperá definitivamente os limites do judaísmo institucional, sem romper com suas raízes. A cena aponta para Pentecostes, onde povos e línguas diversas escutam a mesma Boa-Nova (At 2). A Igreja nasce plural ou trai sua origem evangélica.
Essa multidão é composta por corpos vulneráveis. O Evangelho não espiritualiza o sofrimento nem o transforma em abstração moral. Doença, possessão e exclusão caminham juntas porque o ser humano é apresentado como unidade indivisível. A antropologia bíblica recusa o dualismo que separa alma e corpo, fé e história, espiritualidade e política. “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14) não é apenas um dogma cristológico, mas chave hermenêutica de toda a prática de Jesus. Quando ele se deixa tocar, legitima o corpo como lugar teológico, desautoriza espiritualidades desencarnadas e confronta sistemas religiosos que culpabilizam a pobreza, moralizam a dor ou naturalizam a desigualdade estrutural.
É nesse ponto que a teologia da prosperidade entra em colapso. Ela não sabe o que fazer com uma multidão que busca vida sem garantias de sucesso, ascensão social ou retorno financeiro. Seu discurso transforma Deus em gestor de benefícios, a fé em investimento e o culto em balcão de negócios. Marcos, porém, apresenta um Cristo que cura sem prometer prosperidade, acolhe sem exigir contrapartidas e se deixa tocar sem transformar o milagre em propaganda religiosa. “De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8) deixa de ser conselho moral para se tornar critério teológico de autenticidade evangélica. O pedido de Jesus para que haja um barco disponível revela um discernimento fino sobre os limites da relação entre líder e povo. O barco impede que a proximidade se transforme em esmagamento. Há aqui uma leitura antropológica profunda da ambiguidade das massas: o mesmo povo que busca libertação pode, sem consciência crítica, sufocar aquele que o liberta. Jesus não se deixa capturar nem pela elite religiosa nem pelo entusiasmo acrítico da multidão. Surge, assim, uma crítica implícita tanto ao clericalismo quanto ao messianismo populista. Ele não se coloca acima, mas também não se dissolve na massa. Preserva a alteridade necessária para que o encontro permaneça libertador.
Esse detalhe ilumina de modo contundente a vida da Igreja hoje. O Concílio Vaticano II recorda que a autoridade eclesial só pode ser compreendida como serviço e nunca como privilégio (Lumen Gentium, 27). O clericalismo, ao absolutizar funções, títulos e hierarquias, rompe esse equilíbrio evangélico e transforma o ministério em poder autorreferencial. O Documento de Aparecida denuncia com clareza essa tentação ao afirmar que uma Igreja fechada em si mesma perde sua credibilidade missionária. O barco, no Evangelho, não é trono nem fortaleza; é instrumento provisório a serviço da vida.
O reconhecimento de Jesus pelos espíritos impuros aprofunda ainda mais o drama teológico do texto. Eles sabem quem ele é, mas não o seguem. Aqui se rompe qualquer identificação entre fé e mera ortodoxia verbal. “Até os demônios creem — e tremem” (Tg 2,19). O silêncio imposto por Jesus protege o mistério de sua identidade contra reduções ideológicas e manipulações religiosas. Ele não aceita ser proclamado Messias fora do caminho da cruz. Toda cristologia que ignora a cruz acaba se tornando ideologia religiosa a serviço do poder. Esse ponto é decisivo para a crítica à fé como mercadoria. Quando Jesus é apresentado apenas como solucionador de problemas, perde-se o núcleo do Evangelho. João relata que, após a multiplicação dos pães, Jesus se retira porque o povo quer fazê-lo rei (Jo 6,15). Mais adiante, ele confronta essa lógica com palavras duras: “Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados” (Jo 6,26). Marcos 3 já antecipa esse discernimento. Jesus cura, mas não se deixa capturar pelo consumo religioso nem pela lógica do espetáculo.
Emerge aqui um Jesus que não alimenta projeções nem dependências infantis. Ele não se apresenta como salvador mágico das angústias humanas, mas como caminho de amadurecimento. Em Marcos, o discipulado é sempre processo, nunca espetáculo. Os discípulos erram, fogem, negam, mas são chamados a permanecer. A fé adulta nasce quando se atravessa a frustração, aceita-se o limite e escolhe-se a fidelidade cotidiana, mesmo sem milagres visíveis.
Também a teologia do domínio se desfaz diante desse texto. Jesus não instrumentaliza a fé para conquistar territórios, impor valores pela força ou legitimar projetos políticos excludentes. Seu Reino não se confunde com nenhum império. “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36) não significa alienação histórica, mas recusa radical da lógica violenta do poder. O Reino de Deus transforma a história a partir de baixo, como fermento silencioso, como semente escondida, como gesto pequeno e persistente que corrói estruturas injustas sem reproduzir sua violência.
Os documentos do CELAM ajudam a atualizar essa leitura. Medellín fala de libertação integral porque reconhece que a fé toca todas as dimensões da vida. Puebla denuncia a idolatria do dinheiro como pecado estrutural. Aparecida convoca a uma Igreja em saída, desinstalada, pobre para os pobres. Tudo isso encontra fundamento em cenas como Marcos 3,7-12. Jesus não espera que os feridos cheguem ao centro; ele vai às margens. Não constrói templos monumentais; constrói relações. Não promete glória; promete vida em abundância.
A comunidade de Marcos vive sob perseguição e insegurança. Muitos cristãos já experimentaram a violência do Estado, a suspeita das autoridades e a fragilidade cotidiana da existência. O Evangelho não lhes oferece consolo barato nem triunfalismo religioso, mas sentido. Seguir Jesus é perigoso, mas é o único caminho que não trai a vida. “Quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho a salvará” (Mc 8,35) não é retórica espiritual; é experiência concreta de resistência e esperança e esse texto reafirma que a salvação é sempre relacional. A cura reintegra o sujeito à comunidade, rompe o isolamento e restaura vínculos. O isolamento, seja social, religioso ou afetivo, é forma de morte simbólica. Por isso, a fé individualista não encontra espaço aqui. O Evangelho é sempre plural, comunitário e histórico. Não existe cristianismo solitário nem espiritualidade desencarnada.
Marcos 3,7-12 continua a nos desinstalar. Vivemos cercados por multidões feridas, agora também digitais, atravessadas por algoritmos, consumo e ansiedade crônica. A tentação de transformar Jesus em produto religioso talvez nunca tenha sido tão grande. O texto nos obriga a perguntar, sem evasivas: estamos formando discípulos ou consumidores? Comunidades ou plateias? Servidores ou celebridades religiosas?
Celebrar essa Boa-Nova na quinta-feira da segunda semana do Tempo Comum é aceitar que a santidade se constrói no ordinário da vida, no conflito e na fidelidade silenciosa e persistente. É reconhecer que o mar continua agitado, que os espíritos impuros continuam mudando de rosto e que as alianças entre religião e poder permanecem perigosas. Mas é também afirmar, com esperança crítica e fé madura, que a força que sai de Jesus continua gerando vida onde tudo parece sufocado.
Precisarmos saber que Marcos. proclama. Não uma fé confortável, mas verdadeira. Não um Cristo domesticado, mas livre. Não uma religião de mercado, mas um caminho de vida. E enquanto essa Palavra continuar sendo lida com honestidade, escutada com coragem e vivida com fidelidade, ela seguirá sendo Evangelho, notícia boa demais para ser neutralizada, profunda demais para ser vendida, exigente demais para ser ignorada.
Porque o Evangelho, quando acolhido sem anestesia, desinstala. Ele atravessa as camadas de autopreservação religiosa, desmonta pactos silenciosos com o poder, denuncia espiritualidades que prometem glória sem cruz e sucesso sem entrega. Em Marcos, a Boa-Nova não se apresenta como discurso edificante para manter tudo como está, mas como força que inaugura conflito, conversão e deslocamento. Seguir Jesus, nesse horizonte, não é aderir a um sistema de crenças tranquilizador, mas entrar num caminho onde a vida é continuamente chamada a se refazer à luz do Reino.
Por isso, esse Evangelho permanece incômodo. Ele não legitima privilégios, não absolve indiferenças, não sacraliza violências. Ele chama pescadores cansados, gente ferida, corpos marcados e consciências inquietas, e os coloca em marcha. Exige escuta atenta, discernimento honesto e escolhas concretas. Não oferece atalhos espirituais nem recompensas imediatas, mas a possibilidade real de uma vida reconciliada, livre do medo que paralisa e da fé que se vende. E é exatamente aí que sua força permanece intacta. Enquanto houver quem ouse lê-lo sem reduzi-lo a slogan, proclamá-lo sem transformá-lo em produto e vivê-lo sem negociá-lo com o conforto do sistema, o Evangelho segundo Marcos continuará sendo o que sempre foi: palavra que levanta, confronta e envia; anúncio que não adormece consciências, mas as desperta; Boa-Nova que não se acomoda ao mundo, porque nasce do Deus que entra na história para transformá-la de dentro para fora.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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