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sábado, 8 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,22-33 - 19⁰ Domingo do Tempo Comum

No 19º Domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia da Igreja Católica proclama  a seguinte  liturgia: I Reis 19,9a.11-13a; Salmo (85),9ab-l0.11-12.13-14 (R. 8); Romanos  9,1-5 e  o Evangelho de Mateus 14,22-33. A Palavra de Deus proclamada neste 19º Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar um dos grandes fios condutores da história da salvação: o Deus da aliança jamais abandona o seu povo durante a caminhada. Da travessia do deserto às águas do mar da Galileia, das montanhas da revelação às comunidades do Novo Testamento, a Escritura testemunha que a iniciativa pertence sempre ao Senhor, que permanece fiel mesmo quando a fragilidade humana parece prevalecer. A Bíblia não apresenta uma fé construída sobre certezas absolutas ou sobre o controle dos acontecimentos, mas sobre a confiança naquele que continua conduzindo a história para a realização do seu Reino. Essa dinâmica percorre toda a revelação bíblica. O Deus que chama Abraão a caminhar sem conhecer o destino (Gn 12,1-4), que acompanha Israel pelo deserto (Ex 13,21-22), que sustenta os profetas em tempos de infidelidade e que, na plenitude dos tempos, envia o seu Filho ao mundo (Gl 4,4-5), é o mesmo Deus que continua agindo na vida da Igreja. Sua fidelidade não depende das circunstâncias favoráveis, mas de sua própria natureza, pois "o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em amor" (Sl 103,8). Assim, a liturgia deste domingo convida os fiéis a relerem a própria existência à luz dessa certeza: Deus permanece presente mesmo quando sua ação não corresponde às expectativas humanas. As leituras, portanto, revelam um itinerário espiritual que conduz da escuta à confiança, da esperança ao compromisso, da fragilidade humana à certeza da presença divina. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de reconhecer que a mesma Palavra continua iluminando os desafios do presente. O Deus da Bíblia permanece Senhor da história e continua chamando seu povo à perseverança, à fidelidade e à esperança, até que toda a criação participe plenamente da vida nova inaugurada em Cristo.

Vale a pena lembrar  que a tradição do Lecionário Romano organiza essas leituras não por mera associação temática, mas segundo uma profunda pedagogia teológica que revela o modo como Deus conduz a história da salvação.  A tempestade enfrentada pelos discípulos,  silêncio misterioso que envolve Elias no Horeb, a esperança anunciada pelo salmista e a  dor de Paulo pelo seu povo formam uma única narrativa espiritual que conduz o povo de Deus a compreender que a fé jamais floresce na fuga da realidade, mas precisamente no interior das crises da história. O Cristo que caminha sobre as águas é o mesmo Deus que falou a Moisés na montanha, que se revelou a Elias na brisa suave, que sustentou a esperança de Israel e que continua presente na travessia da Igreja em meio às tempestades do mundo. Esta unidade bíblica torna-se um chamado permanente para que a comunidade cristã reconheça que a verdadeira espiritualidade nunca se separa da justiça, da dignidade humana e da defesa da vida, pois o Deus revelado nas Escrituras é sempre aquele que escuta o clamor dos pobres, faz justiça aos oprimidos e permanece fiel à sua aliança.

  • I Reis 19,9a.11-13a: ilumina profundamente a compreensão do Evangelho. Elias acabara de enfrentar o poder opressor representado pelo rei Acab e pela rainha Jezabel, denunciando uma religião corrompida pelo culto a Baal e pela utilização da fé como instrumento de dominação política. Depois da vitória no Monte Carmelo, o profeta não encontra reconhecimento nem segurança, mas perseguição, medo e solidão. Exausto, deseja morrer e foge para o Horeb, o monte da aliança, lugar onde Moisés encontrara o Senhor. A narrativa possui enorme densidade teológica. Elias entra na caverna, imagem que representa tanto o abrigo físico quanto a crise interior de um homem que já não compreende os caminhos de Deus. A ordem divina é clara: "Sai e permanece no monte diante do Senhor" (1Rs 19,11). Seguem-se o vento impetuoso, o terremoto e o fogo, sinais tradicionalmente associados às teofanias do Antigo Testamento. Entretanto, o texto afirma repetidamente que o Senhor não estava neles. Somente após esses fenômenos manifesta-se "uma voz de silêncio suave", ou, conforme outra tradução possível do hebraico, "o murmúrio de uma brisa delicada". A expressão hebraica qol demamah daqqah reúne paradoxalmente os conceitos de voz, silêncio e delicadeza, indicando que Deus não se impõe pela violência, pelo espetáculo ou pelo medo. Sua presença manifesta-se na profundidade da escuta, na humildade da comunhão e na paciência da história. Essa passagem ultrapassa a experiência individual de Elias. Ela denuncia toda tentativa de identificar Deus com manifestações de força, triunfalismo ou poder coercitivo. O profeta esperava um Deus que interviesse esmagando seus adversários, mas encontra um Deus que reconstrói lentamente o coração ferido do mensageiro antes de enviá-lo novamente à missão. A revelação não elimina o conflito histórico, mas transforma a maneira como o discípulo participa dele. O Senhor não legitima a violência religiosa nem confirma os delírios messiânicos de poder; revela-se na humildade de quem permanece fiel à vida mesmo quando todas as aparências parecem anunciar o fracasso. Essa pedagogia divina atravessa toda a Escritura e alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, cuja autoridade nasce do serviço, cuja força manifesta-se na misericórdia e cuja vitória realiza-se pela entrega da própria vida. Assim, Elias prepara espiritualmente o caminho para compreender o Cristo que surgirá caminhando sobre o mar, não como conquistador imperial, mas como Senhor que vence o caos sem reproduzir sua violência.
  • O Salmo 84(85): aprofunda essa mesma esperança ao anunciar: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar: é a paz que ele vai anunciar". A paz proclamada pelo salmista não corresponde à ausência de conflitos nem à tranquilidade produzida pela submissão dos mais fracos. Na tradição bíblica, shalom significa plenitude de relações restauradas entre Deus, a humanidade e toda a criação. Por isso, o salmo une elementos inseparáveis: misericórdia e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam. A justiça não aparece como consequência da paz, mas como sua condição indispensável. Não existe paz onde a dignidade humana é negada, onde multidões vivem descartadas, onde a fome convive com a abundância, onde a exploração do trabalho é naturalizada ou onde a violência se converte em linguagem política. A esperança do salmista nasce da convicção de que Deus permanece fiel à sua promessa e continua fazendo germinar a justiça na terra. A liturgia coloca essas palavras antes do Evangelho para recordar que a travessia da barca não conduz apenas à superação dos medos individuais, mas à construção histórica de um mundo reconciliado segundo os critérios do Reino de Deus.
  •  Romanos 9,1-5: introduz outra dimensão decisiva da fé cristã. Paulo manifesta uma dor intensa ao contemplar parte de seu próprio povo recusando reconhecer Jesus como Messias. Sua tristeza não nasce do ressentimento nem do desejo de condenação, mas do amor. O apóstolo chega a afirmar que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos segundo a carne. Essa declaração revela a profundidade da caridade cristã. A missão evangelizadora nunca pode transformar-se em sentimento de superioridade religiosa nem em instrumento de exclusão. Paulo contempla Israel recordando todos os dons recebidos: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e, sobretudo, o fato de que o próprio Cristo nasceu desse povo segundo a carne. O apóstolo reconhece que Deus permanece fiel mesmo quando os seres humanos falham. Sua reflexão rompe qualquer tentação de substituir o amor pela arrogância religiosa ou pela pretensão de monopolizar a graça divina.

A relação entre essas leituras encontra seu ápice no Evangelho de Mateus.

  1.  Elias experimenta Deus no silêncio que supera a lógica da força. 
  2. O salmista proclama que a justiça precede a paz verdadeira.
  3.  Paulo sofre porque ama um povo que ainda não reconheceu plenamente o caminho de Deus. 
Então surge Jesus caminhando sobre as águas durante a noite, dirigindo-se aos discípulos ameaçados pela tempestade. A sequência não é casual. A liturgia conduz progressivamente o olhar da comunidade para compreender que a revelação definitiva de Deus acontece naquele que atravessa o caos sem ser vencido por ele. O mar, na tradição bíblica, representa muito mais que um fenômeno natural. Simboliza as forças do mal, da morte, da desordem e de tudo aquilo que ameaça a criação querida por Deus. Quando Mateus apresenta Jesus caminhando sobre as águas, afirma simbolicamente que o Senhor exerce domínio sobre todas as potências que escravizam a humanidade. Não se trata de uma demonstração destinada a impressionar espectadores, mas da manifestação de que nenhuma tempestade histórica possui a palavra definitiva sobre o destino do povo de Deus.  Olhando pra realidade  atual, quando muitos procuram Deus no espetáculo, na demonstração de poder, no sucesso econômico, na influência política ou na promessa de soluções imediatas para todas as dificuldades humanas. Crescem discursos religiosos que identificam bênção com riqueza, fé com prosperidade material e eleição divina com domínio sobre os outros. Em muitos contextos, a linguagem cristã é utilizada para justificar projetos de poder, alimentar polarizações ideológicas e legitimar sistemas que aprofundam desigualdades. Quando a religião abandona o caminho do serviço para tornar-se instrumento de conquista política, ela deixa de anunciar o Reino de Deus e passa a servir aos reinos deste mundo. A Escritura, porém, conduz em direção oposta. O Deus de Elias fala no silêncio. O Deus do salmista faz florescer a justiça. O Deus anunciado por Paulo permanece fiel ao amor. O Deus revelado em Jesus aproxima-se da barca ameaçada não para fortalecer privilégios, mas para salvar vidas. É nessa direção que a comunidade cristã será convidada, pelo Evangelho que segue, a reconhecer o Senhor que continua vindo ao encontro da humanidade em meio às tempestades da história.

A narrativa de Mateus 14,22-33 proclamada nesse 19⁰ domingo do tempo comum, não  sendo  a mossa  primeira  vez  que paramos  para  refletir  em nosso blog  temos: Um olhar no texto de São Mateus 14,22-33 / 19⁰ Domingo do Tempo Comum . e tal passagem  também é  proclamada na terça-feira  da 18ª  semana do Tempo Comum  ampliada Mateus 14,22-36, e a mesma cena também  é   relatada em João 6,16-21 proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa e  na Quarta-feira após a Epifania do Senhor  Marcos 6,45-56. Mateus  traz  um detalhe que frequentemente passa despercebido, mas que possui enorme densidade teológica. O evangelista afirma que Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e partir antes dele para a outra margem, enquanto despedia as multidões. O verbo utilizado indica uma ação deliberada. Os discípulos não entram na travessia por iniciativa própria, mas em obediência ao Mestre. A tempestade, portanto, não nasce da desobediência nem constitui um castigo divino. Ela faz parte do próprio caminho do discipulado. Esta afirmação rompe uma compreensão religiosa que interpreta todo sofrimento como consequência imediata do pecado pessoal ou como sinal de abandono de Deus. O Evangelho revela exatamente o contrário. É possível estar realizando a vontade de Cristo e, ainda assim, enfrentar ventos contrários, noites prolongadas, cansaço e sensação de impotência. A fé bíblica jamais prometeu imunidade diante das dores da existência. Ela anuncia a certeza de uma presença que transforma o significado da travessia, mesmo quando as ondas parecem anunciar o naufrágio. Enquanto os discípulos lutam contra o mar, Jesus sobe sozinho ao monte para rezar. Mateus apresenta um contraste carregado de significado espiritual: 

  •  De um lado está a agitação da água, o esforço humano, o medo e a insegurança. 
  • De outro está o silêncio da oração, a intimidade filial com o Pai e a comunhão que sustenta toda a missão de Jesus.
 Antes de enfrentar a cruz, antes de ensinar às multidões e antes de realizar qualquer sinal extraordinário, Cristo recolhe-se à oração. Não se trata de fuga da realidade, mas da fonte onde a missão encontra sua força. A tradição cristã sempre compreendeu que a contemplação autêntica conduz inevitavelmente ao compromisso com a história. Quem verdadeiramente encontra Deus não se torna indiferente ao sofrimento humano. Ao contrário, passa a enxergar o mundo com os olhos do próprio Criador, reconhecendo em cada pessoa a imagem divina frequentemente desfigurada pela pobreza, pela exclusão e pelas múltiplas formas de violência. 

O evangelista informa que a barca já estava muitos estádios distante da terra, açoitada pelas ondas porque o vento era contrário. A imagem da barca tornou-se, desde os primeiros séculos do cristianismo, um dos símbolos mais expressivos da Igreja peregrina. Ela não navega em águas tranquilas, mas atravessa um mundo marcado por conflitos, perseguições, divisões e desafios permanentes. Essa leitura eclesial, contudo, não pode reduzir a narrativa à vida interna da comunidade cristã. A barca  representa toda a humanidade submetida às tempestades produzidas pela injustiça estrutural, pelas guerras, pela degradação ambiental, pela fome, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, pela exploração econômica e pela crescente banalização da vida. Os ventos que ameaçam a embarcação não pertencem apenas ao universo espiritual. Eles possuem rostos concretos, expressam sistemas políticos e econômicos que concentram riqueza, descartam trabalhadores, mercantilizam direitos fundamentais e transformam seres humanos em números estatísticos ou instrumentos de produção.

A quarta vigília da noite, momento em que Jesus se aproxima dos discípulos, possui também profundo valor simbólico. Trata-se das horas que antecedem o amanhecer, precisamente quando a escuridão parece mais intensa e o corpo humano experimenta maior desgaste. Na linguagem bíblica, a noite representa o tempo da espera, da provação e da aparente ausência de respostas. Deus, porém, frequentemente age quando toda esperança parece esgotada. Assim aconteceu no Êxodo, quando Israel atravessou o mar rumo à liberdade. Assim ocorreu na ressurreição, quando a luz venceu definitivamente as trevas da morte. Mateus ensina que Deus não trabalha segundo o relógio da ansiedade humana. Sua intervenção não elimina a responsabilidade dos discípulos nem substitui seu esforço, mas revela que a história jamais escapa ao horizonte de sua providência. A esperança cristã não nasce do otimismo ingênuo, mas da confiança naquele que continua conduzindo a criação mesmo quando os acontecimentos parecem caminhar em direção oposta.

Ao verem Jesus caminhando sobre as águas, os discípulos acreditam estar diante de um fantasma. O medo altera sua capacidade de discernimento. Quantas vezes a humanidade contemporânea também confunde a presença libertadora de Deus com uma ameaça aos próprios interesses. Sempre que o Evangelho questiona privilégios, denuncia idolatrias ou exige solidariedade, surgem vozes que procuram desqualificá-lo como se fosse um perigo para a ordem social. Não é raro que a fidelidade às Bem-aventuranças seja apresentada como ingenuidade, que a defesa dos pobres seja acusada de ideologia, que a promoção da paz seja confundida com fraqueza e que a misericórdia seja tratada como ausência de justiça. O medo cria caricaturas de Deus, em vez do Pai revelado por Jesus, muitos preferem uma divindade moldada pelos interesses do mercado, do nacionalismo religioso ou das disputas partidárias. Dessa forma, a fé deixa de converter a sociedade e passa a ser convertida em instrumento de conservação de privilégios.

A primeira palavra pronunciada por Jesus rompe essa lógica: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo." A expressão "Sou eu" traduz a fórmula grega egó eimi, que recorda diretamente a revelação do nome divino em Êxodo 3,14. Mateus não apresenta apenas um mestre confortando discípulos assustados. Revela aquele em quem o próprio Deus se faz presente na história. A coragem solicitada por Cristo não é fruto de autoconfiança nem de heroísmo individual. Ela nasce do reconhecimento de que Deus continua caminhando junto ao seu povo. Essa certeza possui consequências profundamente sociais. Quem acredita na presença do Ressuscitado não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento. A esperança cristã jamais legitima passividade. Ao contrário, impulsiona homens e mulheres a colaborarem com Deus na construção de relações mais justas, combatendo toda forma de exclusão, discriminação e opressão. Pedro responde com um pedido surpreendente: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas." O discípulo compreende que seguir Jesus significa abandonar a segurança aparente da embarcação. A barca oferece proteção relativa, mas não substitui a confiança no Senhor. Pedro aprende que a fé não consiste em permanecer imóvel conservando garantias humanas, mas em colocar a própria existência a serviço do Reino. A Igreja também é continuamente chamada a sair de suas zonas de conforto. Sempre que se fecha em autorreferencialidade, preocupando-se mais com prestígio institucional do que com o anúncio do Evangelho, perde a ousadia missionária que caracterizou as primeiras comunidades cristãs. A missão exige disposição para encontrar as periferias humanas, existenciais e sociais, onde Cristo continua esperando seus discípulos na pessoa dos pobres, dos migrantes, dos enfermos, dos encarcerados, das vítimas da violência, dos idosos abandonados e de todos aqueles cuja dignidade é diariamente ferida. Ele consegue caminhar enquanto mantém o olhar fixo em Jesus. O problema surge quando passa a contemplar a força do vento. Mateus descreve uma dinâmica espiritual que permanece atual. O medo cresce quando as circunstâncias ocupam o lugar que pertence à confiança em Deus. Isso não significa ignorar os problemas concretos da realidade, mas impedir que eles determinem a última palavra sobre a existência. A desesperança constitui uma das formas mais sutis de escravidão contemporânea. Ela convence pessoas e comunidades de que nada pode mudar, de que a injustiça é inevitável, de que a pobreza sempre existirá e de que toda tentativa de transformação está condenada ao fracasso. O Evangelho recusa esse fatalismo. A fé cristã não promete ausência de dificuldades, mas oferece uma liberdade interior capaz de enfrentar as estruturas do pecado sem sucumbir ao desânimo. É essa esperança ativa que impulsionou os profetas de Israel, fortaleceu os mártires, inspirou homens e mulheres comprometidos com os direitos humanos e continua sustentando todos aqueles que trabalham pela justiça, mesmo quando seus esforços parecem pequenos diante da imensidão das tempestades históricas.

O grito de Pedro, "Senhor, salva-me!", constitui uma das orações mais breves e mais profundas de toda a Escritura. Quando o discípulo percebe que está afundando, desaparecem qualquer pretensão de autossuficiência, qualquer desejo de protagonismo e qualquer ilusão de controle absoluto sobre a realidade. Resta apenas a verdade da condição humana diante de Deus. O Evangelho mostra que a salvação não é conquista do mérito pessoal, nem recompensa reservada aos mais fortes, mas dom concedido àquele que reconhece sua necessidade do Senhor. Jesus imediatamente estende a mão e o segura. O advérbio utilizado por Mateus indica que não existe demora entre o clamor sincero e a iniciativa salvadora de Cristo. A mão estendida de Jesus torna-se, assim, uma imagem da graça divina que continuamente se inclina sobre uma humanidade marcada por fracassos, feridas e contradições. Essa mão permanece estendida na história por meio daqueles que fazem da própria vida um serviço aos outros, transformando solidariedade em sinal concreto da presença de Deus no mundo. O episódio revela também que o verdadeiro oposto da fé não é a dúvida, mas a indiferença. Pedro duvida, vacila e quase afunda, mas continua voltado para Jesus e continua clamando por Ele. A dúvida pode tornar-se caminho de amadurecimento quando conduz a uma busca mais profunda da verdade. Muito mais perigosa é a religião satisfeita consigo mesma, incapaz de examinar a própria consciência e convencida de possuir Deus como propriedade exclusiva. Os profetas denunciaram repetidamente essa deformação espiritual. Amós rejeitou um culto que convivia pacificamente com a exploração dos pobres. Isaías declarou inúteis os sacrifícios oferecidos por mãos que praticavam a injustiça. Jeremias desmontou a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantiria a proteção divina, enquanto a vida do povo permanecia distante da aliança. Jesus assume integralmente essa tradição profética ao ensinar que a autenticidade da fé se verifica na prática da misericórdia, da justiça e do amor ao próximo.

Essa perspectiva torna-se especialmente necessária diante das múltiplas formas de instrumentalização da religião presentes na sociedade contemporânea. Sempre que a fé é utilizada para legitimar projetos político-partidários, para alimentar cultos à personalidade ou para transformar líderes religiosos em figuras incontestáveis, rompe-se a lógica do Evangelho. Cristo jamais convocou discípulos para defender interesses de grupos de poder. Chamou homens e mulheres para testemunhar o Reino de Deus, cuja medida é a dignidade da pessoa humana. A Igreja deixa de ser sinal do Reino quando permite que a cruz seja substituída pelos símbolos da dominação, quando o púlpito se converte em plataforma eleitoral ou quando o anúncio da Palavra é reduzido à propaganda ideológica. O Evangelho não pertence à direita nem à esquerda enquanto categorias absolutas da política, mas julga criticamente todas elas a partir da justiça, da misericórdia e da verdade. Por isso, toda ideologia que absolutiza o mercado, banaliza a violência, despreza os pobres ou transforma adversários em inimigos inconciliáveis entra em conflito com a lógica do Reino inaugurado por Jesus. Nesse mesmo horizonte é necessário discernir criticamente a teologia da prosperidade e a chamada teologia do domínio. Ambas compartilham, ainda que com linguagens diferentes, uma compreensão profundamente distante da revelação bíblica. A primeira reduz a bênção divina ao sucesso econômico, à ascensão social e à realização individual, sugerindo que riqueza material seja sinal privilegiado do favor de Deus. A segunda apresenta a missão cristã como conquista de espaços de poder, controle cultural e hegemonia política, aproximando a esperança escatológica dos mecanismos de imposição próprios dos impérios humanos. Em ambas, a cruz perde centralidade e o discipulado é substituído pela lógica da vitória permanente. Entretanto, o Novo Testamento apresenta um Messias:

  • Que nasce numa família simples
  • Viveu entre trabalhadores
  •  Aproximou-se dos marginalizado
  •  Tocou os  leprosos
  •  AcolheU pecadores
  • Denunciou as hipocrisias religiosas 
  •  Entregou a própria vida por amor. 
O Reino anunciado por Jesus cresce como semente, fermento e grão de mostarda, jamais como imposição autoritária ou supremacia religiosa.  Quando essas correntes teológicas se aproximam de projetos autoritários ou de ideologias de extrema direita que absolutizam a força, a exclusão e o nacionalismo religioso, o Evangelho sofre um profundo esvaziamento de sua dimensão libertadora. O Cristo que lava os pés dos discípulos é substituído por imagens de poder triunfalistabe a  compaixão pelos vulneráveis cede lugar ao discurso meritocrático que responsabiliza exclusivamente os pobres por sua própria condição. A acolhida aos diferentes transforma-se em suspeita permanente. A busca da paz é confundida com fraqueza. A fraternidade universal proclamada por Jesus torna-se limitada às fronteiras de grupos considerados moral, cultural ou religiosamente superiores. Essa deformação contradiz frontalmente a revelação bíblica, segundo a qual Deus manifesta predileção justamente pelos órfãos, pelas viúvas, pelos estrangeiros, pelos famintos e por todos aqueles que a sociedade tende a invisibilizar.

A Doutrina Social da Igreja reconhece nessa tradição bíblica a opção preferencial pelos pobres, não como exclusão dos demais, mas como consequência do próprio amor universal de Deus. Quem ama verdadeiramente a todos dirige atenção especial àqueles cuja dignidade está mais ameaçada. Essa opção percorre toda a história da salvação. Está presente no Êxodo, na legislação social de Israel, na pregação dos profetas, nas Bem-aventuranças, na multiplicação dos pães, na parábola do bom samaritano e no julgamento final descrito em Mateus 25, onde o critério decisivo será o cuidado dispensado aos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. A comunidade cristã trai sua identidade quando transforma a assistência aos pobres em gesto ocasional de beneficência, sem questionar as estruturas que continuamente reproduzem miséria, concentração de riqueza e exclusão. A caridade autêntica não dispensa a justiça; antes, exige sua construção permanente.  desfecho da narrativa possui um significado eclesial profundamente consolador. Quando Jesus entra na barca, o vento cessa. Não porque todas as dificuldades da história tenham desaparecido definitivamente, mas porque a presença do Senhor restitui à comunidade sua verdadeira identidade. Os discípulos então se prostram e professam: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." Esta é a primeira profissão de fé explícita feita pelos discípulos no Evangelho de Mateus. Ela nasce depois da tempestade, não antes. O conhecimento de Cristo amadurece na travessia, na fidelidade e no encontro concreto com sua ação salvadora. Também a Igreja de hoje somente conservará sua credibilidade se permanecer na mesma direção. Sua autoridade não dependerá de influência política, poder econômico ou prestígio institucional, mas da coerência com o Evangelho, da defesa incondicional da vida, da promoção da paz, da coragem profética diante das injustiças e da proximidade com aqueles que carregam o peso da cruz na história. Diante desse Evangelho, cada comunidade cristã é chamada a examinar sua própria travessia. É necessário perguntar se nossas celebrações alimentam discípulos missionários ou apenas consumidores de experiências religiosas; se nossas estruturas aproximam ou afastam os pobres; se nossa linguagem anuncia esperança ou reproduz discursos de medo; se nossa espiritualidade conduz ao serviço ou fortalece privilégios; se nossas escolhas refletem o Reino proclamado por Jesus ou apenas repetem os valores de uma cultura marcada pela competição, pelo individualismo e pela indiferença. A resposta a essas perguntas não pode permanecer apenas no plano das ideias. Ela exige conversão concreta, compromisso cotidiano e disposição para seguir o Cristo que continua caminhando sobre as águas revoltas da história. Somente assim a Igreja permanecerá fiel à missão recebida do Senhor, tornando-se sinal da misericórdia de Deus, sacramento da esperança para os pobres e testemunha da justiça que antecipa, no tempo presente, a plenitude do Reino que há de vir.

A  liturgia deste domingo recorda que a fé bíblica não é um caminho de fuga do mundo, mas de permanência fiel nele. Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus revela-se como Aquele que caminha com seu povo, sustenta os que perseveram e conduz a história para a plenitude do seu Reino. Essa esperança encontra sua expressão máxima na promessa de Cristo: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). A presença do Senhor não elimina imediatamente as dificuldades da existência, mas impede que elas tenham a palavra definitiva sobre a humanidade. Por isso, a comunidade cristã é chamada a viver uma fé encarnada na realidade, alimentada pela Palavra, fortalecida pela oração e confirmada pelo serviço ao próximo. O seguimento de Jesus exige discernimento para reconhecer sua presença nos sinais discretos da graça, coragem para permanecer fiel em tempos de incerteza e esperança para continuar anunciando o Reino, mesmo quando os frutos parecem demorados. Como ensina o autor da Carta aos Hebreus, "a fé é a garantia daquilo que se espera e a certeza daquilo que não se vê" (Hb 11,1).

Que esta Palavra desperte em nossas comunidades uma confiança renovada no Deus vivo, que continua realizando sua obra na história por meio daqueles que se deixam conduzir pelo Espírito Santo. E que, fortalecidos pela Eucaristia e iluminados pelas Escrituras, possamos viver como discípulos de Jesus Cristo, testemunhando com a vida que o amor de Deus permanece mais forte do que o medo, a esperança mais poderosa do que o desânimo e a fidelidade do Senhor maior do que todas as incertezas do nosso tempo. Assim, a Igreja continuará sendo, no coração da história, sinal do Reino que já está presente e anúncio da plenitude que Deus prepara para toda a criação.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano 


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 11,27-33


No calendário litúrgico da Igreja Católica Romana, Marcos 11,27-33 é proclamado na liturgia ferial do Tempo Comum no ano par, especialmente no Sábado da Oitava Semana. Contudo, sua temática ultrapassa o contexto de uma única celebração, pois integra o conjunto dos acontecimentos que antecedem a Paixão do Senhor e aparece em formas paralelas nos Evangelhos de Mateus (Mt 21,23-27) e Lucas (Lc 20,1-8) sendo uma continuidade direta do Evangelho do dia anterior, sendo frequentemente retomada nas tradições litúrgicas das Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais Igrejas históricas durante os ciclos que conduzem à Semana Santa. Trata-se de uma passagem decisiva porque revela o confronto entre a autoridade de Deus manifestada em Jesus e as estruturas religiosas que haviam se acomodado à lógica do poder. Não é apenas uma discussão teológica sobre legitimidade religiosa. É um choque entre duas compreensões de mundo, entre a fidelidade ao Reino de Deus e a preservação de privilégios humanos.

O episódio ocorre em Jerusalém, nos últimos dias do ministério público de Jesus. O contexto imediato é fundamental para compreender a profundidade da narrativa. Pouco antes, Jesus havia entrado na Cidade Santa sob aclamações populares, cumprindo a profecia messiânica de Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião... Eis que teu rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde, montado num jumento” (Zc 9,9; Mc 11,1-11). Em seguida, Marcos narra a maldição da figueira estéril (Mc 11,12-14), símbolo profético de um povo chamado a produzir frutos de justiça, mas que havia se tornado incapaz de corresponder à sua vocação. A imagem recorda Isaías 5,1-7, onde Israel é comparado a uma vinha da qual Deus esperava uvas boas, mas que produziu apenas frutos amargos. Depois, Jesus purifica o Templo (Mc 11,15-19), denunciando sua transformação em espaço de exploração econômica e religiosa. Ao citar Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele recorda que a Casa de Deus deveria ser “casa de oração para todos os povos”, e não “covil de ladrões”. É somente depois desses acontecimentos que os sumos sacerdotes, escribas e anciãos se aproximam para questioná-lo.

A pergunta parece simples: “Com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu autoridade para fazê-las?” (Mc 11,28). Contudo, ela revela uma tensão muito mais profunda. A palavra utilizada no texto grego é exousia, que significa autoridade legítima, poder reconhecido, capacidade de agir em nome de uma realidade superior. Desde o início do Evangelho, Marcos procura demonstrar que Jesus possui uma autoridade singular;

  1.  Ele ensina com autoridade e não como os escribas (Mc 1,22).
  2.  Expulsa espíritos impuros com autoridade (Mc 1,27). 
  3. Perdoa pecados, algo que pertence somente a Deus (Mc 2,10). 
  4. Domina o vento e o mar, levando os discípulos a perguntarem admirados: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4,41). 
Sua autoridade não nasce de títulos acadêmicos, de uma linhagem sacerdotal ou de uma investidura institucional. Ela nasce de sua íntima comunhão com o Pai, conforme testemunha João: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). É a autoridade daquele que foi enviado para realizar a vontade divina e anunciar a chegada do Reino (Mc 1,14-15). Jesus, porém, não responde diretamente. Como os profetas de Israel, utiliza uma pergunta para revelar o coração de seus interlocutores. “O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me” (Mc 11,30). A referência a João Batista não é acidental. João representa a última grande voz profética da antiga aliança. Sua missão havia sido preparar os caminhos do Senhor, conforme anunciado por Isaías 40,3 e Malaquias 3,1. Ele denunciou a corrupção moral das lideranças, chamou o povo à conversão e apontou para Jesus como o Cordeiro de Deus (Jo 1,29). Reconhecer a origem divina do ministério de João significaria reconhecer também a legitimidade de Jesus. Por isso, a pergunta desmonta a armadilha preparada pelas autoridades religiosas.

O evangelista descreve então um dos momentos mais reveladores da pratica e vivência  humana. Os líderes não procuram discernir a verdade. Eles calculam as consequências políticas de cada resposta. “Se dissermos: do céu, ele dirá: por que não acreditastes nele? Mas se dissermos: dos homens...” (Mc 11,31-32). O medo da reação popular paralisa sua sinceridade. Eles não estão interessados na vontade de Deus, mas na preservação de sua posição social. Essa atitude atravessa toda a história bíblica. O faraó endurece o coração diante dos sinais de Deus (Ex 7–12). Saul resiste à correção profética de Samuel para preservar seu trono (1Sm 15,24-30). Acab rejeita Elias porque suas palavras ameaçam seus interesses (1Rs 18,17-18). Jeremias é perseguido porque denuncia uma religião que se refugiava em ilusões de segurança enquanto praticava injustiças (Jr 7,1-15). Amós é expulso do santuário de Betel porque sua mensagem confrontava os privilégios das elites (Am 7,10-17). Em todos esses casos, a questão central não era falta de conhecimento religioso, mas incapacidade de acolher a verdade quando ela exigia conversão.

A resposta final das autoridades é emblemática: “Não sabemos” (Mc 11,33). Não se trata de ignorância intelectual. Trata-se de uma cegueira espiritual escolhida. Eles sabem mais do que admitem, mas recusam-se a reconhecer aquilo que percebem. O mesmo fenômeno aparece no Evangelho de João quando se afirma que “a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (Jo 3,19). A antropologia bíblica compreende que o pecado não afeta apenas os comportamentos externos. Ele obscurece a percepção da realidade. O ser humano pode tornar-se incapaz de reconhecer a verdade não porque ela seja invisível, mas porque ela ameaça seus interesses, suas seguranças e suas estruturas de poder.

O contexto histórico amplia ainda mais a compreensão do texto. Jerusalém do século I era uma cidade marcada por fortes desigualdades econômicas e tensões políticas. O Templo não era apenas um centro religioso. Funcionava também como instituição econômica, administrativa e simbólica. A aristocracia sacerdotal mantinha relações delicadas com o poder romano e exercia significativa influência sobre a vida do povo. Nesse cenário, a ação de Jesus representava uma ameaça profunda. Ele anunciava um Reino onde os últimos seriam os primeiros (Mc 10,31), declarava bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), denunciava aqueles que “devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40) e ensinava que a verdadeira grandeza consiste em servir (Mc 10,42-45). Sua autoridade não reforçava os mecanismos de dominação; ao contrário, revelava sua fragilidade diante da soberania de Deus.

É precisamente aqui que a passagem adquire extraordinária atualidade. A crítica de Jesus não se dirige à religião enquanto experiência de fé, oração e encontro com Deus. Ela se dirige à religião quando esta perde sua dimensão profética e se transforma em instrumento de poder. Os profetas já haviam denunciado essa deformação. Isaías condenava jejuns que ignoravam os pobres (Is 58,1-12). Amós rejeitava liturgias desvinculadas da justiça social: “Corra o direito como a água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias ensinava que Deus não deseja apenas sacrifícios, mas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus (Mq 6,8). Jesus insere-se plenamente nessa tradição profética. À luz do Novo Testamento e da tradição da Igreja, a autoridade autêntica jamais pode ser confundida com domínio ou privilégio. O Concílio Vaticano II, especialmente em Lumen Gentium e Gaudium et Spes, recorda que toda autoridade eclesial existe para servir ao povo de Deus e promover a dignidade humana. O Papa Francisco retomou repetidamente essa intuição ao denunciar o clericalismo como uma perversão da missão cristã. Quando ministros ordenados ou lideranças religiosas se colocam acima da comunidade, transformando o serviço em poder, reproduzem exatamente a lógica combatida por Jesus. O próprio Cristo declarou: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja servo de todos” (Mc 10,44). A autoridade cristã não se manifesta pela capacidade de controlar consciências, mas pela disposição de lavar os pés dos irmãos, como na última ceia (Jo 13,1-15).

Essa reflexão torna-se particularmente necessária diante das formas contemporâneas de instrumentalização da fé. Em diversas partes do mundo, a religião tem sido utilizada para legitimar projetos de poder, discursos autoritários e ideologias excludentes. Em vez de anunciar o Reino de Deus, algumas lideranças transformam o Evangelho em ferramenta de mobilização partidária ou em justificativa para privilégios econômicos. A chamada teologia da prosperidade, por exemplo, frequentemente substitui a centralidade da cruz pela promessa de sucesso material. Entretanto, o Cristo dos Evangelhos nasce numa manjedoura (Lc 2,7), identifica-se com os pobres (Mt 25,31-46), proclama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6) e entrega a própria vida pelos outros (Mc 15,37). O Evangelho jamais reduz a bênção divina ao enriquecimento individual. Sua lógica é a solidariedade, a partilha e a comunhão. Os documentos latino-americanos de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundam essa perspectiva ao insistirem que a evangelização exige compromisso concreto com os pobres e excluídos. A opção preferencial pelos pobres não nasce de uma ideologia, mas da própria prática de Jesus. O Deus revelado nas Escrituras escuta o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7), protege órfãos, viúvas e estrangeiros (Dt 10,18-19), derruba poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52). Ignorar os pobres significa ignorar uma das dimensões centrais da revelação bíblica.

Por isso, Marcos 11,27-33 continua sendo uma palavra profundamente provocadora para a Igreja e para a sociedade,  gera pelo.menos duas  perguntas sobre a autoridade, que  permanece aberta:

  •  Quem fala em nome de Deus? 
  • Quem realmente testemunha o Evangelho? 

O critério oferecido pelas Escrituras é claro: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). A autoridade que vem de Deus produz vida, justiça, misericórdia, reconciliação e esperança. A autoridade que nasce apenas dos interesses humanos produz exclusão, medo, manipulação e violência. Os sumos sacerdotes, escribas e anciãos não conseguiram reconhecer a ação divina porque estavam presos à lógica da autopreservação. Jesus, ao contrário, manifesta a autoridade daquele que nada busca para si, mas tudo orienta para o Reino do Pai.

Ao final da narrativa, Jesus não responde explicitamente à pergunta de seus adversários. Contudo, toda a sua vida constitui a resposta. Sua autoridade está em suas palavras e em seus gestos, em suas curas e em sua compaixão, em sua proximidade com os pecadores e marginalizados, em sua denúncia da hipocrisia religiosa, em sua fidelidade ao Pai até a cruz e, sobretudo, em sua ressurreição. 

A verdadeira autoridade de Cristo não se impõe pela força. Ela se revela na verdade, no amor e no serviço. Diante dela, cada discípulo é chamado a discernir se deseja apenas uma religião que confirme suas certezas ou se está disposto a acolher o Deus vivo que continuamente questiona, converte e transforma. A resposta dada a essa pergunta determinará não apenas a autenticidade da fé pessoal, mas também a capacidade da Igreja de permanecer fiel ao Evangelho que recebeu e ao Reino que é chamada a anunciar em meio às dores, contradições e esperanças da história humana.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 6,16-21

A narrativa de João 6,16-21, proclamada no sábado da segunda semana da Páscoa no ciclo litúrgico da Igreja Católica, revela-se como um ponto de condensação teológica no interior da pedagogia pascal. Não se trata apenas de uma recordação narrativa, mas de uma inserção existencial da comunidade no mistério do Ressuscitado que continua a se manifestar nas travessias da história. Ao ser proclamado nesse momento específico, o texto desloca o olhar da assembleia da experiência da abundância visível, presente na multiplicação dos pães em João 6,1-15, para a experiência da ausência, da noite e da instabilidade. Essa transição não é acidental, mas profundamente formativa, pois corresponde à dinâmica real da fé, que não se sustenta apenas nos momentos de clareza, mas se purifica nas zonas de ambiguidade.
A articulação com Mateus 14,22-33, Marcos 6,45-52 e, em chave indireta, Lucas 8,22-25, amplia o horizonte interpretativo e evidencia que a tradição cristã primitiva reconheceu nesse conjunto narrativo uma chave hermenêutica para compreender a identidade de Jesus e a experiência da comunidade. O domínio sobre as águas, a travessia noturna, o medo dos discípulos e a palavra de Jesus compõem um campo simbólico denso, que precisa ser explorado não apenas em sua literalidade, mas em sua profundidade antropológica, teológica e histórica.
O pré-texto da multiplicação dos pães estabelece o primeiro eixo simbólico fundamental: o alimento. O pão, à luz de Êxodo 16,4-15, não é apenas sustento físico, mas sinal da fidelidade de Deus que acompanha o povo no deserto. Em Deuteronômio 8,2-3, esse alimento é reinterpretado como pedagogia que ensina a depender da Palavra. Quando Jesus retoma essa tradição em Mateus 4,4, ele desloca o centro da existência da segurança material para a confiança no Deus que fala. No entanto, a reação da multidão em João 6,15 revela uma tendência recorrente na história humana: transformar o dom em instrumento de poder. A tentativa de fazer Jesus rei não nasce apenas do entusiasmo, mas de uma expectativa moldada por estruturas de dominação, como já denunciado em 1 Samuel 8,10-18. Aqui emerge um dos primeiros grandes símbolos do texto: o messianismo deturpado, que busca capturar Deus dentro de projetos humanos.
A montanha para a qual Jesus se retira constitui outro símbolo decisivo. Na tradição bíblica, a montanha é lugar de revelação, como em Êxodo 24,12 e 1 Reis 19,11-13, mas também espaço de distanciamento crítico em relação às estruturas de poder. Em Salmo 121,1-2, ela é o lugar de onde vem o auxílio, e em Isaías 2,2-3, torna-se centro de ensino e justiça. Ao subir a montanha, Jesus não apenas se retira, mas recusa ser reduzido a uma função política. Ele reafirma que a revelação de Deus não se submete às expectativas humanas. A montanha, portanto, simboliza a transcendência de Deus frente às tentativas de instrumentalização religiosa.
Em contraste com a subida de Jesus, os discípulos descem ao mar. Esse movimento descendente é carregado de significado. O mar, em Gênesis 1,2, representa o caos primordial. Em Daniel 7,2-3, dele emergem os impérios opressores, e em Apocalipse 21,1, sua ausência indica a superação definitiva do mal. A descida ao mar, portanto, simboliza a entrada na zona de instabilidade, onde a vida é ameaçada. Em Jonas 1,3-5, o mar reage à desordem humana, mostrando que o caos não é apenas natural, mas também ético e espiritual. A barca, nesse contexto, torna-se símbolo da comunidade humana e eclesial, frágil e exposta, mas chamada a atravessar.
A noite intensifica essa simbologia. Em João, a noite é mais do que ausência de luz, é ausência de sentido. Em João 9,4 e 11,10, ela é o tempo da impossibilidade de agir e de discernir. Em Sabedoria 17,2-3, ela é descrita como experiência de medo e ignorância. No entanto, Salmo 139,11-12 afirma que nem as trevas são escuras para Deus, e Êxodo 13,21-22 recorda que Deus guia o povo também à noite. A noite, portanto, simboliza a experiência existencial de crise, onde a fé é despojada de certezas imediatas e convidada a confiar além do visível.
O vento contrário em João 6,18 introduz outro elemento simbólico ambíguo. Em Eclesiastes 1,6, o vento é força imprevisível, e em Jeremias 4,11-12, pode ser instrumento de julgamento. Contudo, em João 3,8 e Atos 2,2, o vento é também sinal do Espírito. Essa ambiguidade revela que a mesma realidade que desestabiliza pode também ser lugar de ação divina. O vento contrário simboliza as forças históricas, sociais e interiores que resistem ao projeto de Deus, mas que não escapam à sua soberania.
É nesse cenário que ocorre a teofania central: Jesus caminhando sobre as águas. Esse gesto deve ser lido à luz de Jó 9,8 e Salmo 77,19, onde Deus é aquele que pisa o mar. Em Isaías 40,12 e Provérbios 8,29, Deus domina as águas e estabelece seus limites. Ao realizar esse gesto, Jesus não apenas manifesta poder, mas revela sua identidade divina. Ele se apresenta como aquele que atravessa o caos sem ser dominado por ele. O caminhar sobre as águas é, portanto, símbolo da soberania de Deus sobre todas as forças que ameaçam a vida.
A palavra de Jesus, “Eu sou. Não tenhais medo” em João 6,20, constitui o centro teológico do texto. A expressão “Eu sou” remete a Êxodo 3,14 e às declarações de Isaías 41,4; 43,10 e 46,4, onde Deus afirma sua identidade como único Senhor da história. Não se trata de uma simples identificação, mas de uma revelação do ser divino presente na história humana. O “não tenhais medo”, por sua vez, ecoa Gênesis 15,1, Isaías 41,10 e Apocalipse 1,17, revelando que a presença de Deus não elimina o perigo, mas transforma a relação com ele. O medo, que em Juízes 6,22-23 e Daniel 10,7-9 aparece como reação ao sagrado, é ressignificado pela proximidade de Deus.
A barca acolhe Jesus, e imediatamente chega à margem. Esse detalhe, aparentemente simples, possui uma profundidade simbólica extraordinária. A barca representa a comunidade, como em Marcos 4,35-41, mas também a própria existência humana em travessia. A chegada à margem remete a Josué 3,14-17, à entrada na terra prometida, e a Hebreus 4,9-11, ao descanso escatológico. A presença de Cristo não elimina a travessia, mas a conduz ao seu sentido pleno.
Nos relatos paralelos, a figura de Pedro em Mateus 14,28-31 introduz o símbolo da fé em tensão. Ele caminha sobre as águas enquanto mantém o olhar em Jesus, mas afunda ao fixar-se no vento. Essa dinâmica encontra eco em Tiago 1,6 e Lucas 22,31-32, revelando que a fé não é ausência de dúvida, mas perseverança em meio a ela. Já a incompreensão dos discípulos em Marcos 6,52, associada ao endurecimento do coração, remete a Isaías 6,9-10 e Ezequiel 12,2, denunciando a dificuldade humana de reconhecer a ação de Deus.
No horizonte antropológico, a travessia simboliza os processos de transformação. Em Salmo 66,10-12, o povo passa pelo fogo e pela água, e em 2 Coríntios 4,8-9, a experiência de limite não conduz à destruição, mas à renovação. A psicologia da espiritualidade reconhece nesses processos momentos de crise que geram amadurecimento. O medo, longe de ser negado, é integrado e transformado pela confiança.
No plano social e profético, o mar agitado assume rostos concretos. Ele se manifesta nas estruturas de injustiça denunciadas em Isaías 10,1-2 e Amós 5,11-12, na exploração criticada em Tiago 5,1-5 e na desigualdade que fere a dignidade humana. A tentativa de instrumentalizar Jesus em João 6,15 continua presente em contextos onde a fé é usada para legitimar projetos de poder. Jeremias 7,4-11 denuncia essa manipulação, e Miquéias 6,8 reafirma a centralidade da justiça, da misericórdia e da humildade.
O clericalismo, denunciado em Ezequiel 34,2-4 e Mateus 23,8-12, aparece como uma distorção da barca, que deixa de ser espaço de comunhão para se tornar estrutura de dominação. Jesus, ao lavar os pés em João 13,12-15, redefine radicalmente a autoridade como serviço. Qualquer prática religiosa que se afaste desse horizonte se torna vazia, como denunciado em Isaías 29,13 e Marcos 7,6-7. A esperança escatológica ilumina todo o percurso. Em Apocalipse 7,16-17, Deus enxuga as lágrimas, e em Apocalipse 22,1-2, as águas tornam-se fonte de vida. O mar, antes símbolo de caos, é transformado. A travessia encontra seu cumprimento na comunhão plena com Deus.

Assim, o relato de Evangelho de João 6,16-21, quando interpretado no horizonte mais amplo da revelação, não se reduz a um episódio isolado, mas se manifesta como uma condensação densa da história da salvação e da própria condição humana. A barca frágil sobre as águas agitadas evoca não apenas a comunidade dos discípulos, mas toda a humanidade lançada no mar ambíguo da existência, como já ressoa no caos primordial de Gênesis 1,2 e na experiência de desamparo descrita em Salmos 107,23-30. A noite que envolve os discípulos não é somente ausência de luz, mas espaço teológico onde a fé é purificada, à semelhança do clamor de Israel na escuridão da opressão narrada em Êxodo.
Nesse cenário, o Ressuscitado se revela não como aquele que evita o conflito da história, mas como aquele que a atravessa soberanamente. Caminhar sobre o mar não é gesto de espetáculo, mas afirmação de senhorio sobre as forças que, na linguagem simbólica bíblica, representam o caos, a morte e tudo aquilo que ameaça a vida. Há aqui uma profunda chave hermenêutica: Deus não atua segundo a lógica do controle ou da imposição, mas segundo a lógica da presença fiel. Ele se aproxima, fala, se deixa reconhecer e convida à confiança. A palavra “Sou eu, não tenhais medo” ecoa o Nome revelado em Êxodo 3,14 e encontra ressonância na promessa reiterada em Isaías 43,1-2, onde o Senhor assegura sua presença nas águas e no fogo da história.
Essa presença, porém, não legitima estruturas de dominação nem espiritualiza o sofrimento. Ao contrário, ela desestabiliza sistemas que produzem medo, exclusão e morte. Em chave sociológica e profética, o texto denuncia toda forma de poder que se alimenta do caos para se manter, seja no âmbito político, religioso ou econômico. A travessia dos discípulos torna-se, assim, imagem da travessia dos povos que resistem às tempestades impostas por projetos desumanizantes, incluindo aqueles que instrumentalizam a fé para justificar desigualdades ou reforçar autoritarismos. Do ponto de vista existencial, o medo experimentado na barca é profundamente humano. Não é negado nem reprimido, mas transformado pela experiência de encontro. A fé que emerge não é alienação, mas reconfiguração do olhar, uma passagem da percepção do caos como ameaça absoluta para a confiança na presença que sustenta a travessia, trata-se de uma mudança de eixo: do controle para a confiança, da ansiedade paralisante para a abertura relacional.
Por isso, a narrativa não aponta para uma fuga da realidade, mas para um modo novo de habitá-la. A travessia continua sendo exigente, o vento continua contrário e a noite, muitas vezes, persiste. No entanto, a presença do Ressuscitado inaugura uma nova leitura da história, na qual o destino não é determinado pelas forças do caos, mas pela fidelidade de Deus que se faz próximo. A barca chega à margem não porque o mar deixou de ser mar, mas porque a presença foi acolhida. Permanece, portanto, um chamado concreto e urgente: reconhecer o Senhor que vem ao encontro nas encruzilhadas da história, discernir sua voz em meio às vozes que geram medo e assumir uma prática de fé que não se rende ao fatalismo nem se acomoda a estruturas injustas. A promessa não é a ausência de tempestades, mas a certeza de que nenhuma delas tem a palavra final. A história, mesmo atravessada por crises e contradições, está aberta à ação de Deus, que continua a vir, a falar e a conduzir, orientando a humanidade para o horizonte de vida plena que Ele mesmo inaugurou.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Um breve olhar sobre João 7,40-53


A perícope de João 7,40-53 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana no tempo da Quaresma, geralmente no sábado da quarta semana quaresmal, inserida no caminho progressivo de preparação para a Páscoa. Este tempo litúrgico, marcado pela conversão, pelo exame de consciência e pela escuta mais atenta da Palavra, coloca essa passagem em um contexto de discernimento sobre quem é Jesus e qual é a resposta que o discípulo é chamado a dar. Nas Igrejas históricas, tanto no rito romano quanto em tradições como a bizantina e outras expressões do cristianismo antigo, textos semelhantes do Evangelho de João são utilizados no período que antecede a celebração da Ressurreição, reforçando o tema do conflito crescente entre Jesus e as autoridades religiosas, que culminará na paixão. A leitura desta passagem não é acidental, mas profundamente pedagógica: ela convida a comunidade a confrontar sua própria adesão a Cristo em meio a tensões, dúvidas e resistências.

O texto de João 7,40-53 situa-se no contexto da Festa das Tendas, uma das grandes celebrações do judaísmo, descrita em Levítico 23,33-43, que recordava a peregrinação do povo no deserto e a fidelidade de Deus na história. Jerusalém, nesse período, estava cheia de peregrinos, carregada de expectativa messiânica e fervor religioso. É nesse cenário que Jesus se levanta e proclama palavras que dividem profundamente o povo. Alguns reconhecem nele o profeta anunciado em Deuteronômio 18,15, outros o identificam como o Cristo, enquanto muitos permanecem presos a critérios superficiais, como a origem geográfica do Messias, evocando Miqueias 5,2, que fala de Belém como lugar de nascimento. Essa divergência revela uma tensão hermenêutica entre a leitura literal e limitada das Escrituras e a revelação viva que se manifesta em Jesus. A divisão do povo é um elemento central da narrativa. João utiliza frequentemente a categoria do “cisma” como sinal de que a presença de Jesus provoca discernimento e crise. Não há neutralidade diante dele. A reação das autoridades religiosas, sobretudo fariseus e chefes dos sacerdotes, expõe uma estrutura de poder que se sente ameaçada. Eles enviam guardas para prender Jesus, mas estes retornam sem cumprir a ordem, impressionados pela autoridade de sua palavra. “Nunca ninguém falou como este homem” (João 7,46) torna-se uma confissão involuntária da singularidade de Cristo. A Palavra que deveria ser reconhecida como libertadora é, no entanto, rejeitada por aqueles que se consideram seus guardiões.

A dureza de coração, mencionada na reflexão inicial, aparece aqui como fechamento hermenêutico. Não se trata apenas de incredulidade, mas de uma recusa ativa em permitir que Deus fale de maneira nova. Essa atitude remete à crítica profética já presente em Isaías 29,13, retomada por Jesus em Marcos 7,6, quando denuncia um culto que honra a Deus com os lábios, mas mantém o coração distante. A religião, quando instrumentalizada, torna-se um sistema de controle, e não um caminho de encontro com o Deus vivo.

Nicodemos, que já havia aparecido em João 3,1-21, surge novamente como uma figura de transição. Ele representa aquele que, mesmo inserido na estrutura religiosa, começa a questionar a injustiça do julgamento precipitado. Sua pergunta, “Por acaso a nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo?” (João 7,51), ecoa o princípio jurídico de Deuteronômio 1,16-17 e 17,6, que exige escuta e testemunho antes de qualquer condenação. No entanto, sua voz é rapidamente silenciada, revelando como os sistemas fechados não toleram fissuras internas.

Do ponto de vista histórico e sociológico, essa passagem reflete o conflito entre diferentes grupos dentro do judaísmo do primeiro século. Fariseus, saduceus, sacerdotes e o povo comum viviam tensões quanto à interpretação da Lei, à expectativa messiânica e ao relacionamento com o poder romano. A Palestina era uma região marcada por opressão política, desigualdade econômica e forte religiosidade. Nesse contexto, a figura de Jesus emerge como uma ameaça não apenas teológica, mas também social e política. Sua mensagem de Reino, que coloca os pobres no centro, como em Lucas 4,18-19, desestabiliza estruturas de privilégio. A antropologia cultural nos ajuda a compreender que a identidade religiosa, naquele contexto, estava profundamente ligada à pertença comunitária e à observância da Lei. Questionar as autoridades religiosas era, de certa forma, questionar a própria ordem social. Por isso, a rejeição de Jesus não pode ser reduzida a uma questão de fé individual, mas deve ser entendida como resistência de um sistema que teme perder seu controle simbólico e material.

A psicologia da religião também ilumina essa passagem ao mostrar como o medo do novo, a necessidade de segurança e o apego a estruturas conhecidas podem impedir a abertura ao transcendente. A figura de Jesus provoca uma ruptura com padrões estabelecidos, exigindo uma conversão que envolve não apenas crenças, mas toda a existência. Essa exigência gera resistência, especialmente quando implica perda de poder ou status. No plano teológico, João apresenta Jesus como a Palavra encarnada, o Logos que revela plenamente o Pai, conforme João 1,1-18. A rejeição dessa Palavra é, portanto, uma rejeição do próprio Deus. No entanto, essa rejeição não impede o avanço do projeto divino. Pelo contrário, ela faz parte do mistério da cruz, onde a aparente derrota se transforma em vitória, como afirma João 12,32, quando Jesus diz que será elevado para atrair todos a si.

Comparando com os Evangelhos Sinóticos, encontramos paralelos na rejeição de Jesus em sua própria terra, como em Marcos 6,1-6, e nas controvérsias com fariseus, como em Mateus 23. No entanto, João aprofunda a dimensão teológica do conflito, apresentando-o como um confronto entre luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte. A linguagem simbólica joanina amplia o horizonte da narrativa, convidando o leitor a uma leitura espiritual mais profunda. Os documentos da Igreja reforçam essa dimensão crítica e profética. O Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum, afirma que a Palavra de Deus deve ser acolhida com fé viva e interpretada à luz do Espírito (DV 5). A Gaudium et Spes convida a Igreja a ler os sinais dos tempos e a responder aos desafios do mundo contemporâneo com discernimento e compromisso (GS 4). Na América Latina, documentos como Medellín e Puebla, bem como as orientações do CELAM, destacam a opção preferencial pelos pobres como critério de fidelidade ao Evangelho. A CNBB, em seus textos pastorais, insiste na necessidade de uma Igreja em saída, comprometida com a justiça social e a dignidade humana.

À luz dessa tradição, a passagem de João 7,40-53 se torna um espelho para a realidade atual. Ainda hoje, vemos a fé sendo instrumentalizada para fins político-partidários, transformada em ferramenta de dominação e controle. A teologia da prosperidade reduz o Evangelho a um mecanismo de sucesso individual, ignorando o chamado à solidariedade e à partilha, como em Atos 2,44-45. O clericalismo, denunciado repetidamente pelo magistério recente, distorce a missão pastoral ao concentrar poder e silenciar o protagonismo dos leigos. A aproximação entre religião e projetos autoritários, especialmente aqueles associados a ideologias de extrema direita, revela uma grave distorção do Evangelho. Jesus não se alinha com estruturas de opressão, mas se coloca ao lado dos marginalizados, dos excluídos, dos que não têm voz. Sua prática, como vemos em Mateus 25,31-46, identifica-se com os pobres, os presos, os doentes. Qualquer expressão religiosa que legitime a violência, a exclusão ou a desigualdade trai o coração do Evangelho.

A divisão do povo diante de Jesus continua presente na sociedade contemporânea. 

  • Há aqueles que reconhecem sua voz e se deixam transformar por ela.
  •  Há aqueles que, por medo ou interesse, preferem manter-se fechados
Aí surge uma pergunta: Quem  é  você  nessas questões?
A Quaresma, nesse sentido, é um tempo de decisão. Não basta uma adesão superficial. É necessário um encontro real, que transforme a mente e o coração, como exorta Romanos 12,2.

A Eucaristia, mencionada na reflexão inicial, é o lugar privilegiado desse encontro. Nela, Cristo se faz presente de maneira concreta, oferecendo-se como alimento e comunhão. Participar da Eucaristia implica assumir o compromisso de viver segundo o Evangelho, de romper com estruturas de pecado e de construir uma sociedade mais justa. Não se trata de um rito vazio, mas de uma experiência que exige coerência de vida.

Diante de tudo isso, a passagem de João 7,40-53 nos desafia a examinar nossas próprias resistências. Onde estamos fechando o coração? Quais são as estruturas que nos impedem de reconhecer a ação de Deus? Estamos dispostos a ouvir a Palavra, mesmo quando ela nos confronta? Ou preferimos uma religião confortável, que não exige conversão?

A conclusão que emerge não é de condenação, mas de convite. Deus continua falando, continua agindo, continua chamando. A divisão não é o fim, mas o início de um processo de discernimento. Aquele que se abre à verdade encontra vida. Aquele que se fecha, permanece na escuridão. Como diz João 8,12, “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”. Que esta reflexão nos conduza a uma fé mais autêntica, comprometida e libertadora, capaz de enfrentar as sombras do nosso tempo com a luz do Evangelho. Que possamos, como Nicodemos, ter a coragem de questionar as injustiças, e como os guardas, reconhecer a autoridade de uma Palavra que transforma. E que, sobretudo, não sejamos encontrados entre aqueles que, por dureza de coração, perderam a oportunidade de reconhecer o Deus que passou por suas vidas.

DNonato - Teólogo do cotidiano