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terça-feira, 2 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,18-27

Marcos 12,18-27 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na quarta-feira da nona semana do Tempo Comum sendo uma continuidade do texto da terça-feira da nona semana. O mesmo episódio encontra seus paralelos em Mateus 22,23-33 e Lucas 20,27-40, sendo igualmente proclamado em diferentes momentos do Ano Litúrgico. Nas Igrejas Ortodoxas, nas tradições bizantinas, anglicanas, luteranas e em outras Igrejas históricas, esta passagem ocupa lugar de destaque entre os textos que narram os últimos debates de Jesus em Jerusalém antes de sua paixão. Situado no coração dos acontecimentos que antecedem a cruz, este Evangelho revela não apenas uma controvérsia doutrinal sobre a ressurreição, mas um confronto entre duas maneiras de compreender Deus, a Escritura, a história humana e o destino da criação. Há pessoas que encontram prazer em discutir religião. Nem sempre essas discussões nascem da busca sincera pela verdade ou do desejo de viver mais profundamente o Evangelho. Muitas vezes transformam-se em disputas de poder, em afirmações rígidas de posições previamente definidas, em tentativas de vencer debates e humilhar adversários. O resultado costuma ser o aprofundamento das divisões, a multiplicação dos preconceitos e o enfraquecimento da capacidade de escuta. O episódio de Marcos 12,18-27 apresenta exatamente esse cenário. Os saduceus não se aproximam de Jesus para aprender. Aproximam-se para testá-lo. Não desejam ampliar sua compreensão de Deus. Desejam defender uma visão religiosa fechada em seus próprios limites.

O contexto da narrativa é decisivo para compreender sua profundidade. Desde sua entrada em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a antiga profecia de Zacarias sobre o rei humilde que viria trazer a paz (Zc 9,9; Mc 11,1-11), Jesus tornou-se alvo de sucessivos questionamentos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas colocaram em dúvida sua autoridade (Mc 11,27-33). Os fariseus e herodianos tentaram comprometê-lo politicamente através da questão do tributo a César (Mc 12,13-17). Agora entram em cena os saduceus. Historicamente, os saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal de Jerusalém. Eram poucos em número, mas possuíam enorme influência religiosa, econômica e política. Estavam fortemente ligados ao funcionamento do Templo e frequentemente mantinham relações de acomodação com o poder romano. Diferentemente dos fariseus, aceitavam principalmente a autoridade da Torá escrita e rejeitavam muitas tradições desenvolvidas posteriormente no judaísmo. Segundo Atos 23,8, não acreditavam na ressurreição dos mortos, nem em anjos, nem em espíritos. Sua visão religiosa encontrava-se profundamente vinculada à preservação da ordem estabelecida.

Também não é irrelevante que o debate aconteça no Templo de Jerusalém. O Templo era muito mais do que um lugar de oração. Era o centro da vida nacional, religiosa, econômica e simbólica de Israel. Ali convergiam peregrinações, sacrifícios, tributos e decisões que afetavam toda a sociedade. O fato de Jesus confrontar os saduceus nesse espaço revela uma dimensão profética profunda. O lugar destinado a manifestar a presença de Deus havia se tornado, em muitos aspectos, um ambiente de disputas, interesses e mecanismos de controle. A controvérsia não ocorre à margem da religião institucional. Ela acontece em seu próprio coração. Os saduceus apresentam a Jesus uma questão baseada na lei do levirato, estabelecida em Deuteronômio 25,5-10. Essa legislação possuía importante função social. Numa sociedade agrária e patriarcal, a viúva sem filhos encontrava-se em situação extremamente vulnerável. O casamento com o irmão do falecido procurava garantir proteção à mulher e preservar a continuidade da família. Entretanto, aquilo que fora criado para proteger a vida é transformado pelos saduceus em instrumento de polêmica.

Há um detalhe frequentemente esquecido. No centro da narrativa encontra-se uma mulher sem nome. Os saduceus não demonstram qualquer interesse por sua história, seus sentimentos ou sua dignidade. Ela aparece apenas como objeto de um debate teológico. Sua existência concreta desaparece atrás de uma construção argumentativa. O fato possui enorme relevância para uma leitura contemporânea. Quantas vezes pessoas reais são transformadas em objetos de discussão? Quantas vezes mulheres, pobres, migrantes, povos indígenas, negros, moradores das periferias e outros grupos vulneráveis são reduzidos a temas abstratos em disputas ideológicas ou religiosas? Jesus sempre recoloca a pessoa humana no centro. O Reino de Deus não trabalha com categorias abstratas. Trabalha com rostos, histórias e vidas concretas..A pergunta apresentada pelos saduceus é conhecida. Sete irmãos casam-se sucessivamente com a mesma mulher. Todos morrem sem deixar descendência. Finalmente morre também a mulher. Então perguntam: “Na ressurreição, quando ressuscitarem, de qual deles ela será esposa?” (Mc 12,23).

A questão parece sofisticada, mas revela uma profunda limitação espiritual. Os saduceus imaginam a eternidade como mera continuação da realidade presente. Projetam sobre Deus as estruturas sociais do seu tempo. Não conseguem imaginar que a ação divina possa transcender os limites da experiência humana. Seu erro não está apenas numa conclusão equivocada. Está numa compreensão reduzida do próprio Deus.

A resposta de Jesus é direta: “Não estais enganados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Mc 12,24). Essas palavras atingem o centro do problema. Os saduceus conhecem os textos, mas não compreendem seu significado profundo. Possuem informação religiosa, mas não sabedoria espiritual. Sabem citar a Escritura, mas não percebem a direção para a qual ela aponta.

A crítica de Jesus ecoa toda a tradição profética. Isaías denunciava um povo que honrava Deus com os lábios enquanto mantinha o coração distante (Is 29,13). Jeremias combatia a falsa segurança daqueles que acreditavam que a simples existência do Templo garantia a proteção divina (Jr 7,1-15). Amós proclamava que Deus rejeita cultos que convivem com a exploração dos pobres e exige que a justiça corra como um rio e a retidão como uma torrente perene (Am 5,21-24). Miqueias sintetizava a vontade divina em três atitudes fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). O problema dos saduceus não é apenas exegético. É espiritual. Eles desconhecem o poder de Deus. Toda a Escritura testemunha justamente esse poder que abre caminhos onde ninguém os vê. É o Deus que chama Abraão quando tudo parece impossível (Gn 12,1-4). É o Deus que promete descendência a Sara apesar da esterilidade (Gn 18,9-15). É o Deus que ouve o clamor dos escravos no Egito (Ex 3,7-10), abre o mar diante deles (Ex 14,21-31) e os alimenta no deserto (Ex 16,1-36). É o Deus que sustenta Elias durante a seca (1Rs 17,1-16), fortalece Jeremias diante das perseguições (Jr 1,4-10) e faz reviver os ossos secos da visão de Ezequiel (Ez 37,1-14).

Os saduceus não pertencem apenas ao passado. Sua mentalidade reaparece sempre que a religião perde a capacidade de deixar-se surpreender por Deus. Reaparece quando a Escritura é utilizada para justificar preconceitos. Reaparece quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Reaparece quando lideranças religiosas confundem fidelidade ao Evangelho com defesa de ideologias. Reaparece quando se conhece a letra, mas se ignora o Espírito. Jesus prossegue afirmando que, na ressurreição, homens e mulheres não se casam nem são dados em casamento, mas vivem como os anjos diante de Deus (Mc 12,25). Não se trata de desprezo pelo matrimônio. Desde Gênesis 2,24, a união entre homem e mulher é apresentada como dom divino. O que Jesus revela é que a plenitude futura ultrapassa as estruturas históricas da existência presente. A vida ressuscitada não é mera repetição da vida terrena. É uma realidade nova, transformada pela comunhão plena com Deus.

A esperança da ressurreição amadureceu lentamente na história de Israel. Os textos mais antigos do Antigo Testamento apresentam uma compreensão ainda limitada da vida após a morte. Contudo, progressivamente, a fé do povo vai descobrindo que a fidelidade de Deus não pode ser vencida pela morte. O salmista proclama: “Não abandonarás minha vida na mansão dos mortos” (Sl 16,10). Em outro momento afirma: “Depois me receberás na glória” (Sl 73,24). Jó, em meio ao sofrimento, confessa sua esperança no Deus vivo (Jó 19,25-27). Isaías anuncia que Deus destruirá a morte para sempre e enxugará toda lágrima dos rostos (Is 25,8). Também proclama que os mortos tornarão a viver (Is 26,19). Daniel fala do despertar daqueles que dormem no pó da terra (Dn 12,2). Os mártires de Israel enfrentam a perseguição sustentados pela certeza de que Deus lhes devolverá a vida (2Mc 7,9.14.23). Jesus assume toda essa tradição e a conduz à sua plenitude. Utilizando precisamente a Torá reconhecida pelos saduceus, cita Êxodo 3,6. Diante da sarça ardente, Deus apresenta-se a Moisés como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Então Jesus conclui: “Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,27).

A profundidade desse argumento é extraordinária. Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus continua ligado a eles por sua aliança. A morte não rompe aquilo que Deus estabelece em seu amor. O fundamento da esperança bíblica não está numa suposta imortalidade natural da alma, mas na fidelidade inquebrantável de Deus..Há uma ironia profunda nesta cena. Os saduceus discutem teoricamente a possibilidade da ressurreição diante daquele que, poucos dias depois, será preso, condenado, crucificado e colocado num sepulcro. Sem perceber, interrogam justamente aquele que oferecerá à humanidade a resposta definitiva para sua pergunta. A resposta final de Jesus não será um argumento intelectual. Será o túmulo vazio da manhã de Páscoa (Mc 16,1-8).

Toda a fé cristã repousa sobre esse acontecimento. Por isso Paulo afirma: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1Cor 15,17). Em 1 Coríntios 15, Paulo desenvolve uma das mais profundas reflexões sobre a ressurreição. O que é semeado na fraqueza ressuscita na força. O que é semeado corruptível ressuscita incorruptível. O último inimigo a ser vencido é a morte (1Cor 15,26)..A mesma esperança aparece em João 11,25, quando Jesus declara diante do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não diz apenas que haverá ressurreição. Afirma que a própria vida definitiva de Deus já está presente nele.

Essa visão possui profundas consequências antropológicas. A cultura contemporânea frequentemente mede o valor humano pelo desempenho, pelo sucesso econômico, pela visibilidade social ou pela capacidade de consumo. Nesse contexto, a morte aparece como fracasso absoluto. O Evangelho apresenta uma alternativa radical. O valor da vida não depende daquilo que possuímos, produzimos ou controlamos. O valor da vida nasce do amor de Deus.  O Evangelho não elimina esse medo através de explicações abstratas. Ele o atravessa mediante uma promessa. A promessa de que a vida está segura nas mãos daquele que criou o universo e conduz a história para sua plenitude.

Essa esperança possui também profundas consequências sociais. Os saduceus representam uma religião acomodada à ordem estabelecida. Seu horizonte termina nos limites do presente. A fé bíblica, ao contrário, alimenta a esperança dos pobres, dos perseguidos e dos marginalizados. O cântico de Maria proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52-53). Jesus inicia sua missão anunciando boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e esperança aos oprimidos (Lc 4,18-19). No julgamento final descrito em Mateus 25,31-46, a autenticidade da fé é medida pelo cuidado com os famintos, os doentes, os estrangeiros e os encarcerados.

Por isso a esperança da ressurreição não conduz à fuga da história. Conduz ao compromisso com a transformação da história. Quem acredita no Deus dos vivos não pode permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da exploração econômica e das múltiplas formas de exclusão presentes no mundo. No Brasil contemporâneo, a proclamação de que Deus é Deus dos vivos assume um caráter profundamente profético. Ela confronta as desigualdades persistentes, a banalização da violência, a cultura do descarte e a naturalização do sofrimento de milhões de pessoas. Cada criança que passa fome, cada jovem vítima da violência, cada família privada de dignidade desafia a consciência cristã a tornar concreto o anúncio do Reino. É nesse horizonte que devem ser lidos os grandes documentos da Igreja latino-americana. Medellín denunciou as estruturas de pecado que produzem injustiça. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Santo Domingo insistiu na nova evangelização. Aparecida convocou a Igreja a formar discípulos missionários comprometidos com a transformação da realidade. Todos esses documentos recordam que a fé cristã não pode ser reduzida a devoções privadas nem a espiritualidades desencarnadas.

O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja existe para servir ao Reino de Deus. Por essa razão, o clericalismo constitui uma grave deformação da missão cristã. Sempre que o ministério se transforma em privilégio, a autoridade em domínio e a religião em instrumento de controle, afasta-se do caminho de Jesus. O Senhor foi explícito ao afirmar que quem deseja ser o primeiro deve fazer-se servo de todos (Mc 10,42-45). O gesto do lava-pés permanece como critério permanente para toda liderança eclesial (Jo 13,1-17).

Também merece discernimento crítico toda forma de teologia que identifica a bênção divina com prosperidade econômica. Jesus jamais estabeleceu tal equivalência. Pelo contrário, advertiu repetidamente sobre os perigos espirituais da riqueza (Mc 10,17-31). Em Lucas 6,20-26, proclama felizes os pobres e dirige severas advertências aos ricos satisfeitos. O Reino de Deus não se fundamenta na acumulação, mas na partilha.Da mesma forma, toda tentativa de instrumentalizar a fé para projetos de dominação política contradiz o Evangelho. Sempre que símbolos religiosos são utilizados para justificar intolerâncias, exclusões ou discursos de ódio, repete-se o erro dos grupos religiosos enfrentados por Jesus. O Evangelho não foi dado para legitimar poderes humanos, mas para anunciar a misericórdia, a justiça e a dignidade de toda pessoa.

Marcos 12,18-27 continua extraordinariamente atual porque apresenta um Deus maior do que todas as nossas construções religiosas. Deus é maior que nossas categorias teológicas. Maior que nossas disputas ideológicas. Maior que nossas instituições. Maior que nossos medos. Maior que a própria morte. O Deus revelado por Jesus é o Deus que chama Abraão para partir rumo ao desconhecido (Gn 12,1), que escuta o clamor dos escravos (Ex 3,7), que sustenta os profetas perseguidos (Jr 20,11), que consola os exilados (Is 40,1), que ressuscita seu Filho dentre os mortos (Mc 16,6) e que conduz toda a criação para os novos céus e a nova terra anunciados pelo Apocalipse (Ap 21,1-5).

O Evangelho termina, mas sua pergunta continua ecoando através dos séculos: 

  • Quem é o Deus em quem acreditamos? 
  • O Deus aprisionado por nossos esquemas ou o Deus das surpresas?
  •  O Deus das certezas fechadas ou o Deus que continuamente faz novas todas as coisas? 
Diante das cruzes erguidas ao longo da história, diante das lágrimas dos pobres, diante das guerras, das injustiças e das inúmeras formas de sofrimento humano, a Igreja continua proclamando a mesma esperança. O túmulo não é o destino final da humanidade. O último capítulo da história não pertence à violência, nem à opressão, nem à morte. Pertence ao Deus que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Por isso os discípulos continuam caminhando. Por isso os mártires continuaram testemunhando. Por isso os pobres continuam esperando. Por isso a Igreja continua anunciando que o amor é mais forte que a morte (Ct 8,6), que Cristo ressuscitou dentre os mortos como primícias dos que adormeceram (1Cor 15,20) e que aquele que ressuscitou Jesus também dará vida aos nossos corpos mortais por meio de seu Espírito (Rm 8,11).

Porque Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. E diante dele todos vivem (Lc 20,38). Essas palavras não encerram apenas uma discussão teológica ocorrida nos pátios do Templo de Jerusalém. Elas anunciam o futuro da criação, iluminam o presente da história e sustentam a esperança daqueles que continuam acreditando que nenhuma noite é eterna, que nenhuma injustiça terá a última palavra e que nada poderá separar a humanidade do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,38-39).



DNonato -  Teólogo  do Cotidiano 

domingo, 31 de maio de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,1-12

O Evangelho de Marcos 12,1-12 é proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na segunda-feira da 9ª Semana do Tempo Comum logo após  o domingo  de Pentecostes  ou da Santíssima Trindade , sempre ocorre entre o fim de maio e o início de junho.  Inserida no Tempo Comum, etapa do ano litúrgico dedicada à contemplação da manifestação do Reino de Deus na vida, na missão e nos ensinamentos de Jesus Cristo, esta passagem ocupa um lugar singular porque se encontra nos últimos dias do ministério público do Senhor em Jerusalém, pouco antes dos acontecimentos da Paixão. A mesma tradição narrativa aparece nas versões paralelas de Mateus 21,33-46  proclamado na  Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma e no  27⁰ Domingo  do Ano A quando a Igreja convida os fiéis a um profundo exame de consciência diante da fidelidade ao Reino.  e Lucas 20,9-19, sendo proclamada em diversos momentos do calendário litúrgico.  Nas Igrejas Ortodoxas e nas demais Igrejas históricas da tradição apostólica, a parábola dos vinhateiros homicidas também ocupa lugar de destaque nos itinerários espirituais que conduzem à celebração da Páscoa. Não por acaso. Trata-se de um texto que sintetiza toda a história da salvação, revelando o amor perseverante de Deus, a resistência humana à sua vontade, o drama da rejeição dos profetas, o envio do Filho amado e a esperança que brota da vitória pascal sobre a morte.

Ao aproximarmo-nos desta parábola, somos convidados a compreender que Jesus não está apenas contando uma história. Está interpretando a história inteira da relação entre Deus e a humanidade. Está revelando a profundidade do coração divino e, ao mesmo tempo, desmascarando os mecanismos de dominação, violência e apropriação que atravessam a experiência humana. A narrativa nasce em um contexto de conflito crescente. Depois da entrada messiânica em Jerusalém, narrada em Marcos 11,1-11, depois da purificação do Templo em Marcos 11,15-19 e depois dos confrontos com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos acerca de sua autoridade em Marcos 11,27-33, Jesus dirige-se precisamente aos líderes religiosos que controlavam o centro do poder espiritual de Israel. A parábola é, portanto, uma denúncia profética pronunciada no coração do sistema religioso.

Para compreender plenamente o texto, é necessário voltar ao seu pré-texto bíblico. O pano de fundo fundamental encontra-se em Isaías 5,1-7, conhecido como o cântico da vinha. O profeta descreve Deus como um agricultor apaixonado que prepara cuidadosamente sua vinha. Escolhe uma terra fértil, remove as pedras, planta videiras escolhidas, constrói uma torre de vigilância e escava um lagar. Tudo é realizado com dedicação e esperança. Contudo, quando chega o momento da colheita, a vinha produz frutos amargos. O próprio profeta explica o significado da imagem: a vinha é Israel. Deus esperava direito e encontrou derramamento de sangue; esperava justiça e ouviu o clamor dos oprimidos. Jesus retoma essa tradição profética e a aprofunda.

Mas Isaías não é o único antecedente. O Salmo 80 apresenta Israel como uma videira que Deus arrancou do Egito e plantou na Terra Prometida: “Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações para plantá-la” (Sl 80,9). Jeremias lamenta que a videira escolhida tenha degenerado: “Eu te havia plantado como vide excelente” (Jr 2,21). Oseias afirma que Israel se tornou uma vinha abundante que multiplicou altares para si mesmo (Os 10,1). Ezequiel utiliza repetidamente a imagem da videira para refletir sobre a fidelidade e a infidelidade do povo (Ez 15,1-8; 17,1-10). Portanto, quando Jesus fala da vinha, seus ouvintes compreendem imediatamente que está falando da história da aliança entre Deus e Israel.

 A região onde Jesus  vivia  encontrava-se submetida ao domínio romano. A concentração de terras nas mãos de grandes proprietários era crescente. Muitos camponeses haviam perdido suas pequenas propriedades e trabalhavam como arrendatários ou diaristas. As cargas tributárias impostas pelo império agravavam a pobreza das populações rurais. A imagem de uma vinha arrendada a agricultores era perfeitamente familiar ao povo. Contudo, Jesus utiliza essa realidade econômica para revelar uma realidade espiritual mais profunda. O problema central não é a administração da vinha, mas a transformação dos administradores em proprietários. Os vinhateiros esquecem que receberam uma missão. Passam a agir como donos daquilo que pertence a Deus. Desde o Gênesis, a humanidade enfrenta a tentação de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Em Gênesis 3, o ser humano deseja tornar-se como Deus. Em Gênesis 11, constrói a torre de Babel para alcançar os céus por suas próprias forças. Em Êxodo 32, fabrica um bezerro de ouro para controlar o sagrado. Em 1 Samuel 8, pede um rei semelhante aos das outras nações, substituindo a confiança em Deus pela lógica do poder. O pecado aparece repetidamente como tentativa de transformar dom em posse, vocação em privilégio, serviço em domínio.

Os servos enviados pelo proprietário representam a longa história dos profetas. Deus jamais abandona seu povo. Envia continuamente mensageiros para recordar a aliança, denunciar injustiças e convocar à conversão. Jeremias lamenta que o Senhor tenha enviado seus servos desde os primeiros dias, mas eles não quiseram escutá-los (Jr 7,25-26). Neemias recorda que muitos profetas foram perseguidos e mortos (Ne 9,26). O autor da Carta aos Hebreus apresenta uma verdadeira galeria dos testemunhos da fé, descrevendo homens e mulheres que sofreram perseguições, prisões, torturas e morte por causa da fidelidade a Deus (Hb 11,32-38). A história de Israel confirma essa realidade. Elias foi perseguido por Acab e Jezabel (1Rs 19,1-18). Amós foi expulso do santuário de Betel (Am 7,10-17). Jeremias foi preso e lançado numa cisterna (Jr 38,1-13). Zacarias foi assassinado no Templo (2Cr 24,20-22). Jesus recordará essa trajetória ao lamentar: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mt 23,37). A parábola condensa séculos de resistência humana à Palavra de Deus.

A sucessão de servos maltratados revela também algo essencial sobre o coração divino. Deus não desiste. Continua enviando mensageiros. Continua oferecendo oportunidades de conversão. A paciência divina atravessa toda a Escritura. O Senhor é descrito como “clemente e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade” (Ex 34,6). O livro da Sabedoria afirma que Deus corrige pouco a pouco aqueles que erram para conduzi-los ao arrependimento (Sb 12,2). O apóstolo Pedro escreverá que a demora de Deus não é negligência, mas paciência, pois deseja que todos cheguem à conversão (2Pd 3,9). O ponto culminante da parábola ocorre quando o proprietário decide enviar o filho amado. Esta expressão possui enorme profundidade cristológica. Remete ao Salmo 2,7: “Tu és meu Filho”. Recorda as palavras pronunciadas no batismo de Jesus: “Tu és o meu Filho amado; em ti pus o meu agrado” (Mc 1,11). Evoca também a Transfiguração: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9,7). O filho não é apenas mais um mensageiro. É o herdeiro. É a revelação plena do Pai. A Carta aos Hebreus proclama: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; nestes dias falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2).

Aqui aparece uma das afirmações mais extraordinárias do Evangelho. Deus responde à violência humana não com destruição imediata, mas com a oferta de si mesmo. Envia seu Filho. João expressará essa verdade com palavras inesquecíveis: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16). O envio do Filho constitui a suprema manifestação da misericórdia divina. Entretanto, os vinhateiros decidem matar o herdeiro. O motivo é revelador: acreditam que poderão apoderar-se da herança. Surge aqui uma profunda análise da psicologia humana. O desejo de poder frequentemente nasce do medo de perder privilégios. A inveja transforma o outro em ameaça. A presença de Jesus incomoda aqueles que construíram sua identidade sobre posições de prestígio e controle. O mesmo fenômeno aparece na história de Caim e Abel (Gn 4,1-16), nos irmãos de José (Gn 37,11), em Saul diante de Davi (1Sm 18,6-9) e nos adversários dos profetas.

Ao expulsarem o filho para fora da vinha e assassiná-lo, os vinhateiros antecipam simbolicamente a própria paixão de Cristo. Jesus será conduzido para fora das muralhas de Jerusalém para ser crucificado (Jo 19,17). A Carta aos Hebreus reconhece explicitamente essa relação ao afirmar que Jesus sofreu fora das portas da cidade para santificar o povo com seu sangue (Hb 13,12). O Filho amado assume o destino dos rejeitados, dos marginalizados e dos excluídos da história. A resposta de Deus à violência humana não será a vingança, mas a ressurreição. É nesse contexto que Jesus cita o Salmo 118,22-23: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Esta passagem ocupa lugar central na teologia do Novo Testamento. Isaías havia anunciado uma pedra firme colocada em Sião (Is 28,16). Daniel contemplou uma pedra que derrubava os impérios e enchia toda a terra (Dn 2,34-35). Pedro proclama diante do Sinédrio que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores e transformada em pedra angular (At 4,11-12). Paulo afirma que Cristo é o fundamento da nova humanidade reconciliada (Ef 2,20). A Primeira Carta de Pedro apresenta Jesus como pedra viva sobre a qual é edificada uma casa espiritual (1Pd 2,4-8).

A rejeição do Filho não representa o fracasso do plano divino. Ao contrário, torna-se caminho de salvação. O Servo Sofredor de Isaías 53, desprezado e rejeitado pelos homens, torna-se fonte de cura para muitos. A cruz revela a profundidade do amor de Deus e desmascara a violência dos sistemas que se sustentam pela exclusão.

Neste ponto, a parábola ultrapassa o contexto do primeiro século e interpela todas as épocas. Ela não fala apenas dos líderes religiosos de Jerusalém. Fala de qualquer pessoa, grupo ou instituição que transforma um dom recebido em instrumento de dominação. A vinha continua sendo de Deus. Nenhuma autoridade religiosa, política ou econômica pode reivindicar sua posse absoluta.

A crítica profética de Jesus permanece atual diante das formas contemporâneas de manipulação religiosa. Isaías denunciava um culto separado da justiça (Is 1,10-17). Jeremias criticava a falsa segurança de quem transformava o Templo em esconderijo para práticas injustas (Jr 7,1-15). Amós rejeitava celebrações religiosas que ignoravam os pobres: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Miqueias resumia a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8). Essas denúncias permanecem profundamente atuais. Sempre que a religião é instrumentalizada para fins partidários, utilizada para legitimar projetos de poder ou transformada em mecanismo de controle social, a lógica dos vinhateiros reaparece. O Evangelho resiste a qualquer tentativa de captura ideológica. Jesus não serviu aos interesses das elites religiosas nem aos projetos imperiais de Roma. Sua prática foi marcada pela proximidade aos pobres, aos enfermos, aos excluídos e aos pecadores.

Nesse contexto, torna-se necessário discernir criticamente fenômenos religiosos que identificam bênção com riqueza, sucesso econômico com aprovação divina e prosperidade material com sinal privilegiado da graça. Tal perspectiva entra em tensão com a tradição profética e com o próprio Evangelho. Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20), adverte contra o poder sedutor das riquezas (Mc 10,23-25) e identifica sua presença nos famintos, nos estrangeiros, nos enfermos e nos encarcerados (Mt 25,31-46).

Precisamos   tomar  cuidado  para que  o ministério  não perc a sua  condição de  serviço ganhe   status  de privilégio, reproduzindo  a lógica dos vinhateiros. Jesus ensinou claramente: “Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (Mc 10,44). O Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Dogmática Lumen Gentium, reafirma que toda autoridade na Igreja existe para o serviço do povo de Deus. O Documento de Aparecida denuncia formas de autorreferencialidade e convida a Igreja latino-americana a uma permanente conversão missionária. A exortação apostólica Evangelii Gaudium insiste numa Igreja em saída, próxima dos pobres e comprometida com a transformação da realidade. A parábola ilumina igualmente as questões sociais contemporâneas. Deus espera frutos de justiça. Isaías 58,6-12 identifica o verdadeiro culto com a libertação dos oprimidos, a partilha do pão e o acolhimento dos necessitados. Zacarias convoca à defesa da viúva, do órfão, do estrangeiro e do pobre (Zc 7,9-10). Tiago afirma que a fé sem obras é morta (Tg 2,14-17). A Doutrina Social da Igreja recorda constantemente o destino universal dos bens e a função social da propriedade.

À luz da realidade latino-americana, essa mensagem adquire particular urgência. Medellín denunciou as estruturas de injustiça que produzem pobreza e exclusão. Puebla reconheceu nos pobres os rostos sofredores de Cristo. Aparecida reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão constitutiva da evangelização. Não se trata de ideologia, mas de fidelidade ao Evangelho daquele que veio anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19). A entrega da vinha a outros, mencionada na parábola, não deve ser interpretada como rejeição de Israel. O próprio apóstolo Paulo rejeita essa ideia ao perguntar: “Porventura Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum” (Rm 11,1). O que Jesus anuncia é a universalização da aliança. A promessa feita a Abraão destina-se a todas as nações (Gn 12,3; Gl 3,8). Em Cristo, judeus e gentios são reconciliados num só corpo (Ef 2,11-22). A vinha torna-se espaço de comunhão universal.

O Novo Testamento desenvolve essa perspectiva através da imagem da videira verdadeira em João 15,1-8. Cristo é a videira. Os discípulos são os ramos. A fecundidade não depende do poder, do prestígio ou da força institucional, mas da permanência no amor. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Os frutos esperados por Deus são aqueles descritos por Paulo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão e domínio de si (Gl 5,22-23).

Por fim, a parábola aponta para a esperança escatológica. A história não termina com a violência dos vinhateiros. Não termina na cruz. O Deus da aliança continua conduzindo sua vinha. O Ressuscitado inaugura uma nova criação. O Apocalipse contempla a plenitude desse projeto quando anuncia novos céus e nova terra, onde não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21,1-5). A pedra rejeitada tornou-se fundamento de uma humanidade reconciliada. Marcos 12,1-12 permanece, portanto, como uma das mais poderosas sínteses de toda a revelação bíblica. Nela convergem a história da aliança, a missão dos profetas, a identidade do Filho amado, o mistério da cruz, a esperança da ressurreição e o chamado permanente à conversão. A parábola denuncia toda forma de apropriação do sagrado, toda manipulação da fé e toda estrutura de poder que se afasta do projeto de Deus. Ao mesmo tempo, anuncia a paciência divina, a universalidade da salvação e a vitória definitiva do amor.

Diante dessa Palavra, cada discípulo, cada comunidade e cada geração são colocados perante uma decisão fundamental. A parábola não fala apenas dos vinhateiros de ontem, mas dos homens e mulheres de todos os tempos. A pergunta que ressoa no coração da narrativa continua ecoando através dos séculos:

  •  Que frutos a vinha do Senhor está produzindo?
  •  Estamos acolhendo o Filho amado enviado pelo Pai ou continuamos rejeitando sua presença quando ela questiona nossos interesses, privilégios e seguranças?
  •  Estamos construindo uma sociedade inspirada pela justiça do Reino ou reproduzindo estruturas de exclusão, desigualdade e violência? 
A resposta a essas perguntas ultrapassa o âmbito da espiritualidade privada. Ela se manifesta nas escolhas concretas da vida pessoal, familiar, comunitária, eclesial, econômica e política. Toda vez que a dignidade humana é defendida, que os pobres são reconhecidos como sujeitos de sua própria história, que a justiça prevalece sobre a exploração, que a misericórdia vence a indiferença e que a verdade triunfa sobre a mentira, a vinha do Senhor produz os frutos que Ele espera. Toda vez que a fé é transformada em serviço, que a autoridade se converte em cuidado e que o poder se submete à lógica do amor, o Reino de Deus torna-se visível no meio da história.

A vinha continua sendo do Senhor. O mundo continua pertencendo ao Criador. A história não está entregue definitivamente às forças da injustiça, da violência ou da morte. O Filho continua sendo enviado através da Palavra proclamada, dos sacramentos celebrados, do clamor dos pobres, do testemunho dos santos e dos sinais discretos da graça que florescem no cotidiano. A pedra rejeitada pelos construtores continua sendo a pedra angular sobre a qual Deus edifica uma nova humanidade reconciliada, conforme anunciaram os profetas, testemunharam os apóstolos e proclamou a Igreja ao longo dos séculos. Por isso, a última palavra da parábola não é o julgamento, mas a esperança. Não é a morte do Filho, mas sua exaltação. Não é a violência dos vinhateiros, mas a fidelidade inabalável de Deus. O Senhor da vinha continua trabalhando pacientemente na história, chamando homens e mulheres à conversão, suscitando profetas, renovando sua Igreja e conduzindo a criação para a plenitude do seu Reino. À luz da Ressurreição, sabemos que nenhuma rejeição pode impedir o triunfo do amor, nenhuma injustiça pode anular a promessa divina e nenhuma noite é capaz de sufocar definitivamente a luz do Evangelho.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de reconhecer o Filho amado, de permanecer unidos à verdadeira videira e de produzir frutos de justiça, compaixão, fraternidade e paz. E que, quando o Senhor vier ao encontro de sua vinha, encontre em nós não a lógica da apropriação e do domínio, mas a alegria dos servos fiéis que fizeram de suas vidas um testemunho vivo do Reino de Deus, para a glória do Pai e para a vida do mundo.



DNonato - Vivendo o sacerdócio comum, servidor na vinha do Reino, um teólogo do cotidiano 


quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,28b-34

 
O Evangelho de Marcos 12,28b-34 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Romana esta passagem é proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a comunidade cristã escuta o diálogo entre Jesus e o escriba acerca do maior mandamento da Lei.  Nessas duas ocasiões a Igreja apresenta esse trecho como síntese da vida cristã, como se a própria liturgia quisesse recordar que toda prática religiosa, toda espiritualidade e toda moral encontram seu eixo nesse duplo mandamento do amor. Em diversas tradições litúrgicas de Igrejas históricas que seguem lecionários semelhantes, como comunidades anglicanas, luteranas e reformadas, esta mesma passagem ou suas variantes sinóticas também aparecem em ciclos que enfatizam o mandamento do amor como núcleo da revelação bíblica. Assim, ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs reconhecem nesse diálogo um ponto de convergência da fé, onde a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho encontram sua síntese viva.

Para compreender plenamente essa passagem é necessário situá-la dentro do movimento narrativo do Evangelho de Marcos. Jesus encontra-se em Jerusalém, na fase final de sua missão pública. A cidade não é apenas um espaço geográfico. Ela concentra o coração simbólico, religioso e político de Israel. O Templo domina o horizonte espiritual da nação e representa o centro da vida religiosa. Ali convergem peregrinos vindos de toda a região, sacerdotes ligados ao culto, mestres da Lei responsáveis pela interpretação da Torá e autoridades vinculadas tanto ao poder religioso quanto ao poder político mediado pelo domínio romano.

Pouco antes do diálogo com o escriba, Jesus havia realizado um gesto profundamente profético ao expulsar os vendedores do Templo, denunciando a transformação da casa de oração em espaço de comércio e exploração, conforme Marcos 11,15-17. Citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele proclama que a casa de Deus deveria ser casa de oração para todos os povos, mas havia se tornado um covil de ladrões. Esse gesto não pode ser interpretado apenas como indignação moral diante do comércio religioso. Trata-se de uma denúncia contra um sistema que instrumentalizava a religião para manter estruturas de poder e exclusão. O gesto de Jesus insere-se na longa tradição profética de Israel, que continuamente recordava que o culto verdadeiro não pode ser separado da justiça.

A partir desse momento o Evangelho apresenta uma sequência de debates entre Jesus e diversos grupos religiosos. Fariseus e herodianos interrogam Jesus sobre o tributo a César em Marcos 12,13-17. Saduceus questionam a ressurreição dos mortos em Marcos 12,18-27. Esses diálogos revelam o clima de tensão teológica e política que envolve o ministério de Jesus em Jerusalém. Não são discussões abstratas. São disputas que tocam diretamente a forma de compreender Deus, a Lei, a autoridade religiosa e a própria organização da sociedade.

É nesse ambiente que surge a pergunta do escriba. O evangelista observa um detalhe significativo. O escriba percebeu que Jesus havia respondido bem às discussões anteriores. Esse detalhe sugere que sua pergunta não nasce necessariamente de hostilidade, mas de uma busca honesta por discernimento. No judaísmo do primeiro século existiam intensos debates sobre a interpretação da Lei. A tradição rabínica identificava 613 mandamentos presentes na Torá, entre prescrições positivas e negativas. Diante dessa multiplicidade de normas, muitos mestres procuravam compreender qual seria o princípio fundamental capaz de orientar toda a vida religiosa do povo.

Quando o escriba pergunta qual é o primeiro de todos os mandamentos, Jesus responde citando uma oração central da fé de Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, conforme Deuteronômio 6,4. Essas palavras constituem o início do Shema Israel, oração que os judeus recitavam diariamente ao amanhecer e ao entardecer. Ela expressa a identidade espiritual de Israel como povo que reconhece o Deus único como fundamento de toda a existência. Essa confissão monoteísta não é apenas uma declaração teológica. Ela representa um chamado à fidelidade exclusiva a Deus em meio a um mundo onde diversos povos cultuavam múltiplas divindades ligadas ao poder, à fertilidade ou à guerra.

Logo em seguida Jesus continua citando Deuteronômio 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Na antropologia bíblica essas expressões não indicam partes isoladas do ser humano, mas dimensões complementares de uma existência integral. Amar a Deus significa orientar toda a vida para Ele.

O coração, na linguagem bíblica, não é apenas o lugar das emoções. Ele representa o centro da consciência moral e da decisão humana. Provérbios 4,23 afirma que do coração brotam as fontes da vida. O coração é o espaço interior onde o ser humano escuta Deus e decide seus caminhos. Por isso o salmista suplica: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”, conforme Salmo 51,12. O profeta Ezequiel anuncia uma promessa profundamente ligada a essa transformação interior quando transmite a palavra divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo”, conforme Ezequiel 36,26.

A alma, ou nefesh, refere-se ao sopro vital que anima a existência humana. O entendimento indica a dimensão da inteligência e do discernimento. A força remete às energias físicas, sociais e materiais que sustentam a vida cotidiana. Amar a Deus com todas essas dimensões significa reconhecer que a relação com o Criador não é apenas um sentimento religioso, mas uma orientação completa da existência.

Logo após citar esse mandamento, Jesus acrescenta outro que declara inseparável do primeiro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, conforme Levítico 19,18. A originalidade da resposta de Jesus não está apenas em citar esses dois textos da Torá, mas em uni-los de forma indissolúvel. O amor a Deus e o amor ao próximo formam uma única realidade espiritual e ética.

Essa síntese percorre toda a Escritura. O apóstolo João afirma que quem diz amar a Deus mas odeia o irmão torna-se mentiroso, conforme 1 João 4,20. O apóstolo Paulo escreve que quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei, conforme Romanos 13,8. No hino ao amor presente em 1 Coríntios 13, Paulo afirma que mesmo os maiores dons espirituais perdem sentido se não forem acompanhados pelo amor. O escriba reconhece a profundidade dessa síntese e afirma que amar a Deus e ao próximo vale mais do que todos os sacrifícios e holocaustos. Essa resposta ecoa diretamente a tradição profética de Israel. Ao longo da história bíblica os profetas denunciaram repetidamente uma religião centrada em rituais enquanto ignorava a justiça social.

Em Oséias 6,6 Deus declara que deseja misericórdia e não sacrifícios. Em Isaías 1,11-17 o Senhor rejeita cultos vazios e convoca o povo a aprender a fazer o bem, buscar a justiça, socorrer o oprimido e defender o órfão e a viúva. Em Amós 5,24 o profeta proclama que o direito deve correr como água e a justiça como um rio que nunca seca. Em Miquéias 6,8 encontramos uma síntese admirável da espiritualidade bíblica quando o profeta afirma que Deus pede apenas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus. Quando Jesus afirma ao escriba que ele não está longe do Reino de Deus, revela algo essencial sobre a natureza do Reino. O Reino não é apenas uma realidade futura reservada ao fim dos tempos. Ele começa a germinar sempre que a vida humana se orienta pela lógica do amor, da justiça e da misericórdia.

Os evangelhos sinóticos apresentam essa tradição com nuances próprias. Em Mateus 22,34-40 Jesus declara que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Em Lucas 10,25-28 o diálogo conduz à parábola do bom samaritano. Nessa narrativa um estrangeiro, pertencente a um povo considerado impuro pelos judeus, torna-se exemplo de compaixão. Um sacerdote e um levita passam adiante diante do homem ferido na estrada. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas e garante sua recuperação. A parábola amplia radicalmente o significado da palavra próximo. No contexto cultural do Mediterrâneo antigo, o termo próximo muitas vezes estava ligado ao pertencimento ao próprio grupo religioso ou étnico. A solidariedade era frequentemente delimitada por fronteiras de identidade. Jesus rompe essa lógica. O próximo não é apenas quem pertence ao mesmo povo, à mesma religião ou à mesma posição social. O próximo é qualquer pessoa cuja dor se cruza com nossa existência na estrada da história.

A ampliação da fraternidade  proposta  por Jesus  encontra ecos também em diversas tradições éticas da humanidade. Dentro do judaísmo antigo, o rabino Hillel ensinava que a essência da Lei poderia ser resumida na regra de não fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós. No mundo grego, pensadores estoicos defendiam a ideia de uma fraternidade universal baseada na razão comum que habita todos os seres humanos. No Oriente, tradições associadas a Confúcio também destacavam a benevolência e o respeito mútuo como fundamentos da ordem social. Esses paralelos revelam que a humanidade sempre buscou caminhos éticos baseados no respeito e na compaixão. No entanto, no ensinamento de Jesus essa ética encontra seu fundamento último na própria natureza de Deus.

Essa  visão  de forma  aparece no Sermão da Montanha. Em Mateus 5,44-45 Jesus convida seus discípulos a amar os inimigos e rezar pelos perseguidores para se tornarem filhos do Pai celeste, pois Deus faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Aqui se revela a raiz teológica do amor ao próximo. Deus não distribui sua bondade apenas aos que pertencem a um grupo específico. A criação inteira participa da generosidade divina e esse horizonte transforma radicalmente a compreensão da vida social. Se Deus faz o sol nascer para todos, então nenhuma ideologia religiosa pode reivindicar monopólio da graça ou justificar exclusões baseadas em poder, riqueza ou identidade. O amor ao próximo torna-se expressão concreta da própria universalidade da misericórdia divina.

O contexto histórico da Palestina do primeiro século ilumina ainda mais a radicalidade desse ensinamento. A sociedade estava marcada por fortes desigualdades econômicas. Pequenas elites sacerdotais e aristocráticas concentravam riqueza e poder enquanto grande parte da população camponesa enfrentava pobreza crescente. O sistema de impostos imposto pelo domínio romano agravava ainda mais essa realidade. Nesse cenário o mandamento do amor ao próximo possuía implicações sociais profundas. Levítico 19, de onde Jesus cita esse mandamento, inclui orientações claras sobre justiça social. O texto ordena não explorar o trabalhador, não reter o salário do pobre, não cometer injustiça nos tribunais, não discriminar o estrangeiro e não oprimir o fraco. O amor ao próximo na tradição bíblica não é apenas sentimento interior. Ele se manifesta em práticas concretas de justiça. Essa preocupação aparece também em Deuteronômio 24,17-22, onde o povo é chamado a proteger o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esses grupos representavam as categorias mais vulneráveis da sociedade antiga. Defender sua dignidade era sinal de fidelidade à aliança com Deus.

O  impacto desse ensinamento. Nas sociedades antigas a solidariedade frequentemente se limitava ao próprio grupo. Identidade religiosa, étnica ou familiar definia quem era digno de cuidado. Ao afirmar que o próximo pode ser qualquer pessoa necessitada, Jesus rompe barreiras profundamente enraizadas.  O ser humano busca sentido, pertencimento e reconhecimento. Quando a religião se transforma apenas em sistema de normas ou instrumento de controle social, ela pode gerar medo e alienação. O ensinamento de Jesus aponta para uma espiritualidade que integra interioridade e compromisso ético, contemplação e responsabilidade social.

Essa visão encontra eco em documentos importantes da Igreja contemporânea. O Concílio Vaticano II afirma em Gaudium et Spes 1 que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. O mesmo documento afirma em Gaudium et Spes 27 que toda forma de injustiça social constitui ofensa ao Criador.

Na América Latina os documentos do CELAM aprofundaram essa dimensão social da fé. Medellín destacou que a evangelização exige compromisso com a libertação dos pobres. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho. Aparecida recorda que a fé cristã deve transformar estruturas injustas que produzem exclusão e sofrimento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também tem reiterado que o amor ao próximo exige compromisso com políticas públicas que promovam justiça social, dignidade humana e defesa da vida em todas as suas dimensões.

Nesse horizonte emerge o caráter profético do ensinamento de Jesus. Ao longo da história muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Quando a fé é usada para justificar dominação, exclusão ou intolerância, o Evangelho é distorcido. Jesus já denunciava esse perigo ao criticar líderes religiosos que se preocupavam com minúcias rituais enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade, conforme Mateus 23,23. Essa denúncia permanece atual quando discursos religiosos são utilizados para sustentar ideologias autoritárias, manipulações políticas ou projetos de dominação que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora.

Algumas correntes contemporâneas, como a chamada teologia da prosperidade, reduzem a fé a promessa de sucesso econômico individual. Essa visão contrasta profundamente com o testemunho bíblico que apresenta Jesus identificando-se com os pobres, os pequenos e os excluídos, conforme Mateus 25,40. O Evangelho não promete prosperidade automática. Ele anuncia um Reino que coloca os pobres no centro da atenção divina.

Outro desafio é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em poder distante do povo. O Concílio Vaticano II recorda que toda a Igreja é povo de Deus chamado ao serviço e à comunhão. A autoridade na comunidade cristã deve refletir o estilo de Jesus, que declarou ter vindo não para ser servido, mas para servir, conforme Marcos 10,45.

O Papa Francisco recorda na Evangelii Gaudium 188 que a fé autêntica implica um profundo desejo de transformar o mundo. Na encíclica Laudato Si 49 ele afirma que o clamor da terra e o clamor dos pobres formam um único clamor que sobe diante de Deus.

O mandamento do amor ao próximo continua desafiando os cristãos diante das feridas do mundo contemporâneo. Desigualdade social, violência urbana, exclusão econômica, migrações forçadas e crise ambiental revelam que a humanidade ainda luta para construir relações baseadas na justiça e na solidariedade.

A tradição espiritual da Igreja encontra no coração de Cristo um símbolo dessa síntese entre amor a Deus e amor à humanidade. O coração aberto de Jesus revela um amor que se entrega completamente. Em João 15,13 ele afirma que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.

Assim a pergunta do escriba continua ecoando através dos séculos.

 Qual é o maior mandamento?

A resposta de Jesus permanece clara e exigente: Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

 Essa síntese não é apenas um princípio moral abstrato. Ela é um caminho concreto de transformação da história. O Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a lógica do amor substitui a lógica da violência, da exploração e da indiferença.

O Evangelho convida cada geração a redescobrir essa verdade fundamental. A verdadeira religião não consiste apenas em ritos ou discursos, mas em permitir que o amor de Deus transforme o coração humano e inspire novas relações sociais. Quando o coração humano se abre à compaixão divina, nasce uma nova forma de viver. Comunidades tornam-se espaços de solidariedade. A fé torna-se força de justiça. A esperança torna-se energia para transformar o mundo. Nesse caminho o ensinamento de Marcos 12,28b-34 continua iluminando a consciência humana. Ele recorda que toda a Lei e toda a revelação encontram sua plenitude no amor. Amar a Deus e amar o próximo é o coração do Evangelho e o caminho pelo qual o Reino de Deus começa a florescer na história.



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