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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,28b-34

 
O Evangelho de Marcos 12,28b-34 ocupa um lugar particularmente significativo na tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Romana esta passagem é proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando a comunidade cristã escuta o diálogo entre Jesus e o escriba acerca do maior mandamento da Lei.  Nessas duas ocasiões a Igreja apresenta esse trecho como síntese da vida cristã, como se a própria liturgia quisesse recordar que toda prática religiosa, toda espiritualidade e toda moral encontram seu eixo nesse duplo mandamento do amor. Em diversas tradições litúrgicas de Igrejas históricas que seguem lecionários semelhantes, como comunidades anglicanas, luteranas e reformadas, esta mesma passagem ou suas variantes sinóticas também aparecem em ciclos que enfatizam o mandamento do amor como núcleo da revelação bíblica. Assim, ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs reconhecem nesse diálogo um ponto de convergência da fé, onde a Lei, os Profetas e o próprio Evangelho encontram sua síntese viva.

Para compreender plenamente essa passagem é necessário situá-la dentro do movimento narrativo do Evangelho de Marcos. Jesus encontra-se em Jerusalém, na fase final de sua missão pública. A cidade não é apenas um espaço geográfico. Ela concentra o coração simbólico, religioso e político de Israel. O Templo domina o horizonte espiritual da nação e representa o centro da vida religiosa. Ali convergem peregrinos vindos de toda a região, sacerdotes ligados ao culto, mestres da Lei responsáveis pela interpretação da Torá e autoridades vinculadas tanto ao poder religioso quanto ao poder político mediado pelo domínio romano.

Pouco antes do diálogo com o escriba, Jesus havia realizado um gesto profundamente profético ao expulsar os vendedores do Templo, denunciando a transformação da casa de oração em espaço de comércio e exploração, conforme Marcos 11,15-17. Citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11, ele proclama que a casa de Deus deveria ser casa de oração para todos os povos, mas havia se tornado um covil de ladrões. Esse gesto não pode ser interpretado apenas como indignação moral diante do comércio religioso. Trata-se de uma denúncia contra um sistema que instrumentalizava a religião para manter estruturas de poder e exclusão. O gesto de Jesus insere-se na longa tradição profética de Israel, que continuamente recordava que o culto verdadeiro não pode ser separado da justiça.

A partir desse momento o Evangelho apresenta uma sequência de debates entre Jesus e diversos grupos religiosos. Fariseus e herodianos interrogam Jesus sobre o tributo a César em Marcos 12,13-17. Saduceus questionam a ressurreição dos mortos em Marcos 12,18-27. Esses diálogos revelam o clima de tensão teológica e política que envolve o ministério de Jesus em Jerusalém. Não são discussões abstratas. São disputas que tocam diretamente a forma de compreender Deus, a Lei, a autoridade religiosa e a própria organização da sociedade.

É nesse ambiente que surge a pergunta do escriba. O evangelista observa um detalhe significativo. O escriba percebeu que Jesus havia respondido bem às discussões anteriores. Esse detalhe sugere que sua pergunta não nasce necessariamente de hostilidade, mas de uma busca honesta por discernimento. No judaísmo do primeiro século existiam intensos debates sobre a interpretação da Lei. A tradição rabínica identificava 613 mandamentos presentes na Torá, entre prescrições positivas e negativas. Diante dessa multiplicidade de normas, muitos mestres procuravam compreender qual seria o princípio fundamental capaz de orientar toda a vida religiosa do povo.

Quando o escriba pergunta qual é o primeiro de todos os mandamentos, Jesus responde citando uma oração central da fé de Israel. “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”, conforme Deuteronômio 6,4. Essas palavras constituem o início do Shema Israel, oração que os judeus recitavam diariamente ao amanhecer e ao entardecer. Ela expressa a identidade espiritual de Israel como povo que reconhece o Deus único como fundamento de toda a existência. Essa confissão monoteísta não é apenas uma declaração teológica. Ela representa um chamado à fidelidade exclusiva a Deus em meio a um mundo onde diversos povos cultuavam múltiplas divindades ligadas ao poder, à fertilidade ou à guerra.

Logo em seguida Jesus continua citando Deuteronômio 6,5: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Na antropologia bíblica essas expressões não indicam partes isoladas do ser humano, mas dimensões complementares de uma existência integral. Amar a Deus significa orientar toda a vida para Ele.

O coração, na linguagem bíblica, não é apenas o lugar das emoções. Ele representa o centro da consciência moral e da decisão humana. Provérbios 4,23 afirma que do coração brotam as fontes da vida. O coração é o espaço interior onde o ser humano escuta Deus e decide seus caminhos. Por isso o salmista suplica: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”, conforme Salmo 51,12. O profeta Ezequiel anuncia uma promessa profundamente ligada a essa transformação interior quando transmite a palavra divina: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo”, conforme Ezequiel 36,26.

A alma, ou nefesh, refere-se ao sopro vital que anima a existência humana. O entendimento indica a dimensão da inteligência e do discernimento. A força remete às energias físicas, sociais e materiais que sustentam a vida cotidiana. Amar a Deus com todas essas dimensões significa reconhecer que a relação com o Criador não é apenas um sentimento religioso, mas uma orientação completa da existência.

Logo após citar esse mandamento, Jesus acrescenta outro que declara inseparável do primeiro. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, conforme Levítico 19,18. A originalidade da resposta de Jesus não está apenas em citar esses dois textos da Torá, mas em uni-los de forma indissolúvel. O amor a Deus e o amor ao próximo formam uma única realidade espiritual e ética.

Essa síntese percorre toda a Escritura. O apóstolo João afirma que quem diz amar a Deus mas odeia o irmão torna-se mentiroso, conforme 1 João 4,20. O apóstolo Paulo escreve que quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei, conforme Romanos 13,8. No hino ao amor presente em 1 Coríntios 13, Paulo afirma que mesmo os maiores dons espirituais perdem sentido se não forem acompanhados pelo amor. O escriba reconhece a profundidade dessa síntese e afirma que amar a Deus e ao próximo vale mais do que todos os sacrifícios e holocaustos. Essa resposta ecoa diretamente a tradição profética de Israel. Ao longo da história bíblica os profetas denunciaram repetidamente uma religião centrada em rituais enquanto ignorava a justiça social.

Em Oséias 6,6 Deus declara que deseja misericórdia e não sacrifícios. Em Isaías 1,11-17 o Senhor rejeita cultos vazios e convoca o povo a aprender a fazer o bem, buscar a justiça, socorrer o oprimido e defender o órfão e a viúva. Em Amós 5,24 o profeta proclama que o direito deve correr como água e a justiça como um rio que nunca seca. Em Miquéias 6,8 encontramos uma síntese admirável da espiritualidade bíblica quando o profeta afirma que Deus pede apenas que o ser humano pratique a justiça, ame a misericórdia e caminhe humildemente com seu Deus. Quando Jesus afirma ao escriba que ele não está longe do Reino de Deus, revela algo essencial sobre a natureza do Reino. O Reino não é apenas uma realidade futura reservada ao fim dos tempos. Ele começa a germinar sempre que a vida humana se orienta pela lógica do amor, da justiça e da misericórdia.

Os evangelhos sinóticos apresentam essa tradição com nuances próprias. Em Mateus 22,34-40 Jesus declara que desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Em Lucas 10,25-28 o diálogo conduz à parábola do bom samaritano. Nessa narrativa um estrangeiro, pertencente a um povo considerado impuro pelos judeus, torna-se exemplo de compaixão. Um sacerdote e um levita passam adiante diante do homem ferido na estrada. O samaritano, porém, aproxima-se, cuida das feridas e garante sua recuperação. A parábola amplia radicalmente o significado da palavra próximo. No contexto cultural do Mediterrâneo antigo, o termo próximo muitas vezes estava ligado ao pertencimento ao próprio grupo religioso ou étnico. A solidariedade era frequentemente delimitada por fronteiras de identidade. Jesus rompe essa lógica. O próximo não é apenas quem pertence ao mesmo povo, à mesma religião ou à mesma posição social. O próximo é qualquer pessoa cuja dor se cruza com nossa existência na estrada da história.

A ampliação da fraternidade  proposta  por Jesus  encontra ecos também em diversas tradições éticas da humanidade. Dentro do judaísmo antigo, o rabino Hillel ensinava que a essência da Lei poderia ser resumida na regra de não fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós. No mundo grego, pensadores estoicos defendiam a ideia de uma fraternidade universal baseada na razão comum que habita todos os seres humanos. No Oriente, tradições associadas a Confúcio também destacavam a benevolência e o respeito mútuo como fundamentos da ordem social. Esses paralelos revelam que a humanidade sempre buscou caminhos éticos baseados no respeito e na compaixão. No entanto, no ensinamento de Jesus essa ética encontra seu fundamento último na própria natureza de Deus.

Essa  visão  de forma  aparece no Sermão da Montanha. Em Mateus 5,44-45 Jesus convida seus discípulos a amar os inimigos e rezar pelos perseguidores para se tornarem filhos do Pai celeste, pois Deus faz nascer o sol sobre bons e maus e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Aqui se revela a raiz teológica do amor ao próximo. Deus não distribui sua bondade apenas aos que pertencem a um grupo específico. A criação inteira participa da generosidade divina e esse horizonte transforma radicalmente a compreensão da vida social. Se Deus faz o sol nascer para todos, então nenhuma ideologia religiosa pode reivindicar monopólio da graça ou justificar exclusões baseadas em poder, riqueza ou identidade. O amor ao próximo torna-se expressão concreta da própria universalidade da misericórdia divina.

O contexto histórico da Palestina do primeiro século ilumina ainda mais a radicalidade desse ensinamento. A sociedade estava marcada por fortes desigualdades econômicas. Pequenas elites sacerdotais e aristocráticas concentravam riqueza e poder enquanto grande parte da população camponesa enfrentava pobreza crescente. O sistema de impostos imposto pelo domínio romano agravava ainda mais essa realidade. Nesse cenário o mandamento do amor ao próximo possuía implicações sociais profundas. Levítico 19, de onde Jesus cita esse mandamento, inclui orientações claras sobre justiça social. O texto ordena não explorar o trabalhador, não reter o salário do pobre, não cometer injustiça nos tribunais, não discriminar o estrangeiro e não oprimir o fraco. O amor ao próximo na tradição bíblica não é apenas sentimento interior. Ele se manifesta em práticas concretas de justiça. Essa preocupação aparece também em Deuteronômio 24,17-22, onde o povo é chamado a proteger o órfão, a viúva e o estrangeiro. Esses grupos representavam as categorias mais vulneráveis da sociedade antiga. Defender sua dignidade era sinal de fidelidade à aliança com Deus.

O  impacto desse ensinamento. Nas sociedades antigas a solidariedade frequentemente se limitava ao próprio grupo. Identidade religiosa, étnica ou familiar definia quem era digno de cuidado. Ao afirmar que o próximo pode ser qualquer pessoa necessitada, Jesus rompe barreiras profundamente enraizadas.  O ser humano busca sentido, pertencimento e reconhecimento. Quando a religião se transforma apenas em sistema de normas ou instrumento de controle social, ela pode gerar medo e alienação. O ensinamento de Jesus aponta para uma espiritualidade que integra interioridade e compromisso ético, contemplação e responsabilidade social.

Essa visão encontra eco em documentos importantes da Igreja contemporânea. O Concílio Vaticano II afirma em Gaudium et Spes 1 que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade são também as da comunidade cristã. O mesmo documento afirma em Gaudium et Spes 27 que toda forma de injustiça social constitui ofensa ao Criador.

Na América Latina os documentos do CELAM aprofundaram essa dimensão social da fé. Medellín destacou que a evangelização exige compromisso com a libertação dos pobres. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres como exigência do Evangelho. Aparecida recorda que a fé cristã deve transformar estruturas injustas que produzem exclusão e sofrimento. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também tem reiterado que o amor ao próximo exige compromisso com políticas públicas que promovam justiça social, dignidade humana e defesa da vida em todas as suas dimensões.

Nesse horizonte emerge o caráter profético do ensinamento de Jesus. Ao longo da história muitas vezes a religião foi instrumentalizada para legitimar projetos de poder. Quando a fé é usada para justificar dominação, exclusão ou intolerância, o Evangelho é distorcido. Jesus já denunciava esse perigo ao criticar líderes religiosos que se preocupavam com minúcias rituais enquanto negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade, conforme Mateus 23,23. Essa denúncia permanece atual quando discursos religiosos são utilizados para sustentar ideologias autoritárias, manipulações políticas ou projetos de dominação que esvaziam o Evangelho de sua força libertadora.

Algumas correntes contemporâneas, como a chamada teologia da prosperidade, reduzem a fé a promessa de sucesso econômico individual. Essa visão contrasta profundamente com o testemunho bíblico que apresenta Jesus identificando-se com os pobres, os pequenos e os excluídos, conforme Mateus 25,40. O Evangelho não promete prosperidade automática. Ele anuncia um Reino que coloca os pobres no centro da atenção divina.

Outro desafio é o clericalismo, quando a autoridade religiosa se transforma em poder distante do povo. O Concílio Vaticano II recorda que toda a Igreja é povo de Deus chamado ao serviço e à comunhão. A autoridade na comunidade cristã deve refletir o estilo de Jesus, que declarou ter vindo não para ser servido, mas para servir, conforme Marcos 10,45.

O Papa Francisco recorda na Evangelii Gaudium 188 que a fé autêntica implica um profundo desejo de transformar o mundo. Na encíclica Laudato Si 49 ele afirma que o clamor da terra e o clamor dos pobres formam um único clamor que sobe diante de Deus.

O mandamento do amor ao próximo continua desafiando os cristãos diante das feridas do mundo contemporâneo. Desigualdade social, violência urbana, exclusão econômica, migrações forçadas e crise ambiental revelam que a humanidade ainda luta para construir relações baseadas na justiça e na solidariedade.

A tradição espiritual da Igreja encontra no coração de Cristo um símbolo dessa síntese entre amor a Deus e amor à humanidade. O coração aberto de Jesus revela um amor que se entrega completamente. Em João 15,13 ele afirma que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.

Assim a pergunta do escriba continua ecoando através dos séculos.

 Qual é o maior mandamento?

A resposta de Jesus permanece clara e exigente: Amar a Deus com todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

 Essa síntese não é apenas um princípio moral abstrato. Ela é um caminho concreto de transformação da história. O Reino de Deus começa a manifestar-se sempre que a lógica do amor substitui a lógica da violência, da exploração e da indiferença.

O Evangelho convida cada geração a redescobrir essa verdade fundamental. A verdadeira religião não consiste apenas em ritos ou discursos, mas em permitir que o amor de Deus transforme o coração humano e inspire novas relações sociais. Quando o coração humano se abre à compaixão divina, nasce uma nova forma de viver. Comunidades tornam-se espaços de solidariedade. A fé torna-se força de justiça. A esperança torna-se energia para transformar o mundo. Nesse caminho o ensinamento de Marcos 12,28b-34 continua iluminando a consciência humana. Ele recorda que toda a Lei e toda a revelação encontram sua plenitude no amor. Amar a Deus e amar o próximo é o coração do Evangelho e o caminho pelo qual o Reino de Deus começa a florescer na história.



DNonato - Teólogo do cotidiano 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 22,34-40 - 20⁰ Sexta-feira do Tempo Comum/30º Domingo do Tempo Comum.

Na sexta-feira da 20ª semana do Tempo Comum, a Igreja Católica de rito romano proclama Mateus 22,34-40, a pergunta dirigida a Jesus sobre o maior mandamento da Lei. A mesma passagem retorna no 30º Domingo do Tempo Comum, no Ano A do ciclo trienal, em profunda sintonia com Êxodo 22,20-26, que proíbe a opressão do estrangeiro, da viúva e do órfão, e com 1Tessalonicenses 1,5c-10, que apresenta uma comunidade convertida dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. No conjunto das tradições cristãs históricas, embora os calendários, lecionários e distribuições das leituras não coincidam integralmente, o duplo mandamento do amor constitui um dos grandes eixos da proclamação bíblica, da catequese e da espiritualidade das Igrejas. As tradições Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e outras comunidades históricas conservam, cada uma segundo sua própria organização litúrgica, a centralidade do amor a Deus e ao próximo como expressão fundamental da vida cristã. Marcos 12,28-34, Lucas 10,25-28 e a tradição joanina, sobretudo João 13,34-35 e 1João 4,7-21, testemunham essa mesma convicção. A pergunta que Jesus recebe, porém, continua atravessando os séculos com uma força desconcertante: se amar a Deus e amar o próximo é o centro da Lei e dos Profetas, o que acontece quando a religião fala continuamente de Deus, mas produz desprezo pela vida, exclusão, violência, medo e indiferença?

Para compreender a passagem, é preciso evitar uma leitura superficial e também uma caricatura do judaísmo do tempo de Jesus. A discussão sobre a centralidade dos mandamentos fazia parte da rica tradição interpretativa judaica. A Torá possuía muitos preceitos, e refletir sobre sua hierarquia ou sobre os princípios capazes de resumir a vontade de Deus era uma questão legítima no interior do debate religioso. Portanto, o problema não está simplesmente no fato de um doutor da Lei perguntar a Jesus qual é o maior mandamento. No próprio Evangelho de Marcos, o escriba aparece de modo relativamente favorável e dialoga com Jesus até receber dele a afirmação: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). Mateus, entretanto, situa a pergunta num contexto narrativo mais tenso. Jesus está em Jerusalém, nos últimos dias de seu ministério público, e diversas autoridades procuram confrontá-lo e testar sua autoridade. Pouco antes, ele entrou na cidade, dirigiu-se ao Templo e denunciou sua transformação em espaço de exploração, evocando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11: «Minha casa será chamada casa de oração», mas «vós a transformais em covil de ladrões» (Mt 21,12-13). Seguem-se as parábolas dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e do banquete nupcial, todas carregadas de conflito e julgamento sobre a recusa da ação de Deus (Mt 21,28-22,14). Depois, fariseus e herodianos perguntam sobre o imposto a César (Mt 22,15-22), os saduceus discutem a ressurreição (Mt 22,23-33), e então surge a pergunta sobre o maior mandamento. .O cenário é Jerusalém, cidade santa, centro do Templo e da identidade religiosa de Israel, mas também cidade profundamente marcada por tensões sociais e políticas. Naquele período, a Judeia estava sob domínio romano. O poder imperial estava presente, os impostos pesavam sobre a população, havia desigualdades econômicas, concentração de terras e diferentes grupos religiosos disputando interpretações sobre a identidade de Israel e o futuro do povo. Jerusalém tornava-se particularmente movimentada durante as grandes peregrinações, e a proximidade da Páscoa aumentava a tensão. A memória da libertação do Egito era celebrada justamente numa terra submetida ao domínio estrangeiro. O Templo era o coração religioso da nação, mas estava inserido numa complexa realidade econômica e institucional. É nesse ambiente que Jesus fala do amor. E isso impede que reduzamos sua resposta a uma frase espiritualizada. A pergunta sobre Deus é feita no meio de conflitos reais. A resposta de Jesus toca diretamente a maneira como o poder é exercido, como a riqueza é distribuída, como os vulneráveis são tratados e como a religião interpreta a própria história. Jesus responde citando Deuteronômio 6,5: «Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento» (Mt 22,37). A passagem está ligada ao Shemá: «Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor» (Dt 6,4). Marcos conserva expressamente essa introdução: «Ouve, Israel» (Mc 12,29). A fé bíblica começa pela escuta. Antes de falar em nome de Deus, é preciso escutar Deus. Antes de usar a religião para confirmar nossas certezas, é preciso deixar-se questionar pela Palavra. Antes de transformar a Bíblia em arma contra os outros, é necessário permitir que ela julgue nossas próprias escolhas. O verbo «ouvir», no horizonte bíblico, não significa apenas captar sons. Significa acolher, obedecer, responder, permitir que a palavra recebida transforme a vida. Deus não é propriedade de uma instituição, de um líder, de uma nação ou de uma ideologia. Ele não pertence ao grupo que grita mais alto seu nome. Amar a Deus, nesse contexto, também não significa apenas experimentar uma emoção religiosa. O coração, na antropologia bíblica, é o centro da pessoa, lugar da memória, da inteligência, da vontade e da decisão. A alma, ou a vida, indica a existência concreta. O entendimento, destacado na formulação de Mateus, chama atenção para a dimensão do discernimento. Amar a Deus envolve pensar. Uma fé que despreza a inteligência, demoniza perguntas e exige submissão cega pode produzir obediência exterior, mas não necessariamente fidelidade a Deus. Esta dimensão possui enorme importância no mundo contemporâneo, marcado pela circulação de mentiras, fake news, teorias conspiratórias e manipulações emocionais. Quantas pessoas são levadas a acreditar que toda informação recebida de uma autoridade religiosa deve ser aceita sem exame? Quantas vezes o medo é usado para impedir o pensamento? Quantas falsidades são apresentadas como revelação divina apenas porque confirmam aquilo que determinado grupo já deseja acreditar? Paulo recomenda: «Examinai tudo e ficai com o que é bom» (1Ts 5,21). Romanos 12,2 fala da transformação pela renovação da mente para discernir a vontade de Deus. Amar a Deus com o entendimento é recusar uma fé preguiçosa, manipulável e inimiga da verdade.

Mas Jesus não para no primeiro mandamento. «O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,39). A palavra «semelhante» é decisiva. Jesus não apresenta o amor ao próximo como um simples complemento moral ou uma consequência opcional da experiência religiosa. Ele aproxima os dois mandamentos de tal forma que um se torna inseparável do outro. O amor ao próximo é semelhante ao amor a Deus porque é na relação com o outro que a fidelidade a Deus se torna visível na história. Aquele que afirma amar o invisível, mas despreza o visível, precisa ser confrontado pela Palavra. Por isso João afirma: «Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso» (1Jo 4,20). Não há aqui uma redução de Deus ao ser humano, mas uma afirmação radical da encarnação. O Deus bíblico escolheu relacionar-se com a humanidade. O Deus de Jesus Cristo fez-se carne (Jo 1,14). Não se pode, portanto, adorar corretamente o Deus encarnado enquanto se despreza a carne ferida do outro.

  • A passagem citada por Jesus, Levítico 19,18, encontra-se num contexto social concreto. «Não furtareis, não mentireis, nem usareis de falsidade uns com os outros» (Lv 19,11). «Não oprimirás o teu próximo nem o explorarás» (Lv 19,13). «Não cometerás injustiça no julgamento» (Lv 19,15). «Não odiarás o teu irmão em teu coração» (Lv 19,17). E o mesmo capítulo amplia a questão ao afirmar: «Quando um estrangeiro residir convosco em vossa terra, não o oprimireis. O estrangeiro que reside convosco será para vós como um natural da terra, e tu o amarás como a ti mesmo» (Lv 19,33-34). Esta é uma das dimensões mais proféticas do texto. O próximo não é apenas quem pertence ao nosso grupo. O próximo não é apenas quem compartilha nossa religião, nossa nacionalidade, nossa classe social ou nossas opiniões políticas. O estrangeiro também deve ser amado. O diferente também possui dignidade. Aquele que chega de fora não pode ser transformado em inimigo apenas por ser diferente. A Bíblia impede que o amor seja aprisionado por fronteiras identitárias.  É precisamente isso que a primeira leitura do 30º Domingo do Tempo Comum aprofunda: «Não maltratarás nem oprimirás o estrangeiro» (Ex 22,20). «Não prejudicareis a viúva nem o órfão» (Ex 22,21). Se clamarem, Deus afirma: «Eu ouvirei o seu clamor» (Ex 22,22). A viúva, o órfão e o estrangeiro representam, no universo social do antigo Israel, pessoas particularmente vulneráveis à exploração e à exclusão. Não se trata de uma categoria sentimental, mas de uma realidade social. Quem não possuía proteção familiar, propriedade, herança ou pertencimento pleno à comunidade estava mais exposto à violência. O Deus do Êxodo toma posição diante dessa vulnerabilidade. «Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor» (Ex 3,7). Esta imagem atravessa toda a Bíblia. Deus vê. Deus ouve. Deus não é indiferente ao sofrimento humano.

A segunda leitura do 30⁰  domingo do Tempo comum, 1Tessalonicenses 1,5c-10, introduz a questão da conversão dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro. Esta palavra é indispensável para nosso tempo. Idolatria não é apenas ajoelhar-se diante de uma estátua. Idolatria é absolutizar aquilo que não é Deus. O dinheiro pode tornar-se ídolo. O poder pode tornar-se ídolo. Um líder religioso ou político pode tornar-se ídolo. Uma ideologia pode tornar-se ídolo. Mas também o Estado, a pátria, a bandeira, a ordem e a segurança podem ser transformados em absolutos. Amar a própria nação é uma coisa. Transformar a nação em realidade sagrada, superior à dignidade de outros povos e pessoas, é outra. O patriotismo pode expressar cuidado e responsabilidade pela comunidade. O nacionalismo autoritário, porém, pode transformar a pátria em ídolo e dividir o mundo entre os que merecem proteção e os que podem ser sacrificados. Quando símbolos nacionais ocupam o lugar do discernimento moral, quando a bandeira se torna mais importante que os pobres, quando a segurança é usada para justificar toda forma de violência, já não estamos diante do amor a Deus, mas diante de uma idolatria política.

Marcos, Mateus e Lucas conservam o mesmo núcleo, mas cada Evangelho o desenvolve segundo sua própria perspectiva. 

  • Em Marcos 12,28-34, proclamada em dois momentos específicos do calendário litúrgico. O primeiro acontece na sexta-feira da terceira semana da Quaresma, quando o caminho penitencial que conduz à Páscoa coloca diante dos fiéis o chamado à conversão profunda do coração e  o segundo momento  no 31º Domingo do Tempo Comum do Ano B, quando  o escriba reconhece que amar a Deus e ao próximo «vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (Mc 12,33). Jesus lhe diz: «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34). A oposição entre amor e sacrifício não significa desprezo pela tradição cultual de Israel, mas recusa de um culto separado da vida. Nenhuma celebração substitui a misericórdia. 
  • Mateus, por sua vez, apresenta a resposta no interior de uma sequência de conflitos que culminará nas denúncias contra aqueles que negligenciam «a justiça, a misericórdia e a fidelidade» (Mt 23,23).
  •  Lucas modifica a pergunta e pergunta pelo caminho da vida eterna (Lc 10,25-37) Proclamasi no 15⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano C. Depois, responde à tentativa de limitar o significado de próximo mediante a parábola do samaritano O homem ferido está caído à margem do caminho. O sacerdote passa. O levita passa. O samaritano, membro de um grupo desprezado por muitos judeus, vê, sente compaixão, aproxima-se, toca as feridas, cuida e paga. Lucas transforma uma discussão teórica numa cena concreta. Não basta saber quem deve ser amado. É preciso tornar-se próximo.

A cultura da punição também precisa ser confrontada a partir desse horizonte. Existe uma religiosidade que parece confiar mais no castigo do que na conversão, mais na humilhação do culpado do que na possibilidade de transformação. Jesus, entretanto, cita o profeta Oseias: «Quero misericórdia e não sacrifício» (Mt 9,13; 12,7; cf. Os 6,6). Misericórdia não significa negar a gravidade do mal ou eliminar a responsabilidade. Significa recusar que a punição seja nossa última palavra. Em Mateus 18,21-35, Jesus conduz Pedro para além do cálculo da vingança e apresenta o perdão como experiência inseparável da consciência de ter sido perdoado. Uma sociedade que só sabe encarcerar, eliminar, humilhar e vingar precisa perguntar se ainda acredita na conversão humana. A justiça é necessária, mas uma justiça sem humanidade pode tornar-se outra forma de violência. A misericórdia não é impunidade. É a recusa de abandonar definitivamente o ser humano àquilo de pior que ele fez. Jesus não apenas ensina o amor. Ele o encarna. «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34). O modo como ele ama culmina na entrega. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos» (Jo 15,13). Filipenses 2,5-8 apresenta Cristo que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e desce até a morte de cruz. A cruz, portanto, não pode ser transformada em símbolo de dominação. É profundamente contraditório utilizar o sinal daquele que foi executado pelo poder imperial como instrumento para glorificar a violência, a superioridade e o autoritarismo. Jesus é Senhor, mas seu senhorio não se manifesta como tirania. Diante de Pilatos, ele declara: «Meu Reino não é deste mundo» (Jo 18,36), isto é, sua origem e sua lógica não procedem dos mecanismos de violência que organizam os impérios. Quando os discípulos discutem grandeza, Jesus afirma: «Os chefes das nações as dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,25-26). Entre vós não deverá ser assim. Esta frase deveria permanecer diante de todo governante, líder religioso e instituição cristã.

Por isso a teologia do domínio deve ser discernida criticamente quando se transforma na pretensão de conquistar o Estado, controlar a cultura, impor crenças e submeter consciências em nome de Deus. A fé cristã possui consequências públicas e não deve ser confinada à esfera privada, mas uma coisa é testemunhar valores e trabalhar democraticamente pelo bem comum, outra é imaginar que a sociedade deve ser dominada por uma elite religiosa. Cristo não precisa de coerção para ser Senhor. O Evangelho não avança pela violência. A Igreja que esquece isso pode conquistar espaços e perder a alma. A mesma crítica deve ser dirigida ao clericalismo, que transforma serviço em privilégio, ministério em status e autoridade em controle. Jesus denuncia aqueles que «amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros» (Mt 23,4), enquanto «o maior entre vós será aquele que vos serve» (Mt 23,11). Onde há medo de perguntas, silenciamento das consciências, desprezo pelos leigos e leigas ou proteção institucional acima da dignidade das pessoas, o Evangelho do amor precisa ser novamente proclamado. A teologia da prosperidade também precisa ser criticada quando apresenta Deus como mecanismo de enriquecimento individual e sugere que a pobreza é consequência de falta de fé. Jesus não anuncia um Evangelho de enriquecimento automático. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6,24). Ele reconhece o perigo das riquezas que aprisionam o coração (Mt 19,23-24) e chama seus discípulos a buscar primeiro o Reino e sua justiça (Mt 6,33). A questão não é demonizar o trabalho, os bens ou a prosperidade, mas denunciar uma teologia que transforma a vítima da desigualdade em culpada por sua própria miséria. O pobre não precisa ser convencido de que sua fome é fracasso espiritual. Precisa de pão, justiça, trabalho digno, moradia, saúde e respeito. O samaritano não fez um discurso motivacional ao homem ferido. Ele aproximou-se e cuidou.

Essa dimensão social do Evangelho encontra profunda continuidade na tradição da Igreja. Gaudium et Spes 1 declara que as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos seres humanos, especialmente dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Gaudium et Spes 27 condena tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana. A tradição latino-americana, particularmente Medellín, Puebla e Aparecida, aprofundou a opção preferencial pelos pobres, compreendendo-a como consequência da fé no Deus do Êxodo, dos Profetas e de Jesus. O pobre não é um objeto de caridade ocasional. É sujeito de dignidade e de direitos. Uma Igreja comprometida com o Evangelho não romantiza a pobreza. Ela pergunta por suas causas. Não basta alimentar quem tem fome se continuamos aceitando um sistema que produz multidões famintas. A crise ecológica também entra nesse horizonte. Amar o próximo significa amar também aqueles que ainda nascerão. A destruição das florestas, das águas e das condições básicas de vida não atinge todos igualmente. Os pobres são geralmente os primeiros a sofrer com enchentes, secas, calor extremo, falta de saneamento e deslocamentos forçados. O lucro imediato de alguns pode transformar-se em sofrimento prolongado para milhões. A criação não é simples depósito de recursos destinados à exploração sem limites. Gênesis apresenta a humanidade como parte da criação e responsável por cultivá-la e guardá-la (Gn 2,15). Quando a ganância destrói as condições de vida do planeta, o próximo de amanhã já está sendo ferido pelas escolhas de hoje.

Também precisamos olhar para a cultura digital, onde a religião pode ser convertida em espetáculo de agressividade. É possível publicar uma oração pela manhã e passar o dia insultando pessoas. É possível citar Jesus e alimentar redes de difamação. É possível defender a família enquanto se desprezam famílias pobres, mães abandonadas, crianças sem proteção e pessoas submetidas à violência. A psicologia ajuda a compreender parte desse fenômeno. O medo, a insegurança e a necessidade de pertencimento tornam as pessoas vulneráveis a discursos que prometem certezas absolutas. Líderes autoritários oferecem segurança em troca de submissão, identidade em troca de hostilidade e pertencimento em troca da fabricação de inimigos. A religião manipulada torna-se terreno fértil para esse processo. A fé madura, ao contrário, não exige a destruição da inteligência. Ela pode conviver com perguntas, reconhecer a complexidade da realidade e recusar soluções que dependam do ódio.

É nesse ponto que a crítica às expressões religiosas associadas a projetos autoritários e à extrema direita precisa ser feita com precisão evangélica. Não se trata de afirmar que toda pessoa politicamente situada à direita seja inimiga do Evangelho, nem de transformar o cristianismo em propriedade da esquerda. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Mas toda ideologia deve ser julgada pelo Evangelho. Quando movimentos de extrema direita glorificam a violência, transformam minorias em inimigos, difundem medo, exaltam soluções autoritárias, desprezam pobres ou utilizam símbolos religiosos para blindar seus líderes contra qualquer crítica, a consciência cristã não pode permanecer neutra. A cruz não pode ser usada para santificar a crueldade. Jesus não autoriza seus discípulos a construir a unidade por meio do ódio. Ele não pergunta qual grupo possui mais poder. Ele pergunta pelo amor.

Amar, contudo, não é sentimentalismo e não significa passividade diante da injustiça. Os profetas amaram seu povo e, por isso, denunciaram seus pecados. Jesus amou o Templo e, por isso, confrontou sua corrupção. Amou os pobres e, por isso, denunciou quem os explorava. Amou a verdade e, por isso, não se submeteu às armadilhas do poder. A denúncia profética é uma forma de amor quando seu objetivo é interromper a destruição e abrir caminho para a conversão. A conversão, por sua vez, não é apenas sentimento de culpa. Na linguagem bíblica, converter-se é mudar de caminho. É abandonar os ídolos, reorganizar a vida e retornar ao Deus que chama para a justiça. Essa conversão possui uma dimensão pessoal, comunitária e social. Pessoalmente, precisamos perguntar qual Deus estamos realmente amando. Talvez tenhamos construído um Deus que concorda com nossos preconceitos e protege nossos privilégios. Comunitariamente, as paróquias, comunidades, movimentos e instituições eclesiais precisam perguntar se são lugares de serviço, escuta e participação ou espaços de concentração de poder e medo. Os ministros ordenados precisam perguntar se sua autoridade se parece com o serviço de Cristo. Os leigos e leigas precisam reconhecer sua responsabilidade e não entregar sua consciência a ninguém. Socialmente, a fé precisa perguntar por que tantos vivem sem o necessário enquanto outros acumulam em excesso; por que a violência atinge de maneira desigual; por que o estrangeiro é tratado como ameaça; por que tantas pessoas sofrem sozinhas. «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17).

No fim, Jesus oferece um centro, e esse centro é radical. Amar a Deus e amar o próximo não são duas metades separadas da vida cristã. São um único movimento que sobe a Deus e se torna visível na história. Quem ama a Deus não pode permanecer indiferente ao ser humano. Quem ama verdadeiramente o ser humano é conduzido para além do próprio egoísmo, em direção ao mistério de Deus. A oração que sobe ao céu precisa modificar nossas mãos na terra. O culto precisa produzir justiça. A fé precisa produzir misericórdia. A Igreja precisa produzir serviço.

A  pergunta decisiva deste Evangelho seja simplesmente esta: Amas ou não  amas? 

  • Amas quando o pobre te incomoda? 
  • Amas quando o estrangeiro desperta teu medo? 
  • Amas quando o outro pensa diferente? 
  • Amas a verdade quando ela ameaça a reputação da instituição à qual pertences? 
  • Amas a justiça quando ela exige renunciar a privilégios? 
  • Amas a misericórdia quando seria mais fácil pedir punição? 
  • Amas a paz quando o ódio te oferece pertencimento e aplausos?

Mateus 22,34-40 permanece como um critério de discernimento para a religião, para a Igreja e para a sociedade. Toda doutrina deve ser interrogada pelos seus frutos. Toda interpretação bíblica deve ser confrontada com a justiça e a misericórdia. Todo projeto político deve ser examinado a partir da dignidade humana. Toda autoridade religiosa deve ser medida pelo serviço. Quando a religião deixa de produzir misericórdia, Deus pode continuar sendo pronunciado pelos lábios, mas já não está sendo obedecido pela vida. E, talvez, seja necessário terminar onde a própria liturgia nos colocou: diante do estrangeiro, da viúva e do órfão; diante do ferido à margem do caminho; diante do faminto, do sedento, do nu, do enfermo e do preso. É ali que a pergunta sobre o amor deixa de ser teoria. É ali que Deus espera ser amado. Não apenas no templo, não apenas na celebração, não apenas nas palavras corretas, mas no rosto concreto daquele cuja dor interpela nossa humanidade. A comunidade cristã que compreende isso não poderá ser indiferente. Seus ministros deverão servir, seus leigos deverão participar, suas paróquias deverão acolher, suas comunidades deverão partilhar e sua fé deverá tornar-se presença concreta no mundo.

Porque toda vez que uma pessoa ferida permanece caída à margem do caminho, o Evangelho de Mateus 22 volta a ser proclamado diante de nós como uma pergunta que não permite neutralidade: onde está o teu amor? Toda vez que o estrangeiro é transformado em ameaça, que o pobre é tratado como culpado pela própria pobreza, que a viúva e o órfão são esquecidos, Êxodo 22 continua ecoando como a voz do Deus que vê a aflição, escuta o clamor e não aceita que a dignidade humana seja negociada. Toda vez que o dinheiro, o poder, a pátria, a ideologia, o líder político ou religioso ocupa o lugar que pertence somente a Deus, a palavra de 1Tessalonicenses 1,9 volta a nos chamar à conversão: abandonar os ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e  toda vez que a Igreja prefere prestígio ao serviço, autoridade ao cuidado, silêncio à verdade ou preservação institucional à defesa dos vulneráveis, a voz de Jesus atravessa os corredores do poder religioso e continua dizendo: «Entre vós não deverá ser assim» (Mt 20,26). O Evangelho, portanto, não termina quando a liturgia termina. Ele continua na rua, na periferia, no hospital, na escola, no local de trabalho, na casa onde alguém chora em silêncio, na mesa onde falta alimento, na família marcada pela violência, no coração de quem perdeu o sentido da vida e na existência daquele que aprendeu a esconder sua dor porque ninguém parecia disposto a escutá-la. É ali que o mandamento do amor precisa ganhar carne. Porque o próximo não é uma abstração teológica. O próximo possui nome, rosto, história, feridas, sonhos, contradições e necessidades. O próximo pode estar diante de nós justamente quando preferiríamos não vê-lo.

Por isso,  a pergunta mais importante deste Evangelho não seja «qual é o maior mandamento?», porque Jesus já respondeu. 

  • A pergunta que permanece é outra: O que estamos fazendo com aquilo que já sabemos? 

Podemos:  conhecer a Escritura e continuar indiferentes,  participar da liturgia e permanecer incapazes de misericórdia,  defender a ortodoxia e abandonar a justiça, falar de Deus e construir muros contra o irmão,  carregar símbolos religiosos e ao mesmo tempo, colaborar com estruturas que humilham, exploram e descartam pessoas.

 Conhecer o mandamento não basta: 

  1. O escriba de Marcos sabia responder corretamente.
  2.  O samaritano de Lucas soube transformar a resposta em gesto. 
Entre saber e viver existe o espaço onde a fé revela sua verdade e é nesse espaço que a Igreja precisa realizar continuamente seu exame de consciência. Não apenas perguntar: 

  1.  quantas pessoas participam de suas celebrações, 
  2. quantos projetos possui, 
  3. quantas atividades realiza 
  4.  quanta influência consegue exercer na sociedade
A perguntar algo muito mais simples e muito mais exigente: 

  1. Quem está sendo amado?
  2.  Quem está sendo escutado? 
  3. Quem continua ficando do lado de fora? 
  4. Quem tem medo de falar? 
  5. Quem foi ferido pela própria comunidade religiosa?
  6.  Quem procura a Igreja e encontra uma porta aberta? 
  7. Quem procura Deus e encontra apenas burocracia, julgamento ou indiferença? 
A grandeza de uma comunidade cristã não se mede pela quantidade de poder que acumula, mas pela quantidade de vidas que consegue acolher, cuidar, reconciliar e defender. Também a nossa consciência precisa ser confrontada. Hoje  para muitos  é  mais fácil denunciar o pecado do mundo do que reconhecer os ídolos que construímos dentro de nós. . O mesmo Deus que perdoa nossa fragilidade nos chama a olhar com misericórdia para a fragilidade alheia,  a mesma graça que desejamos receber precisa transformar a maneira como tratamos quem errou. E aqui está a radicalidade do cristianismo: amar não significa concordar com tudo, tolerar toda injustiça ou abandonar a verdade. Jesus ama e confronta. Ama é: denuncia,  cura e chama à conversão. O amor cristão não é cumplicidade com o mal, mas compromisso com a vida. Por isso o profeta pode denunciar e continuar amando e por isso Jesus pode confrontar os poderosos sem transformar o outro em objeto de ódio. A misericórdia não elimina a justiça; purifica-a da vingança. A verdade não elimina o amor; impede que o amor se transforme em sentimentalismo e a justiça não elimina a misericórdia; impede que a misericórdia seja reduzida a uma palavra vazia.

No fim, tudo retorna àquele homem caído à margem da estrada. Ele não sabia quem passaria por ali,  não podia controlar quem o encontraria e  não podia oferecer nada em troca. Estava simplesmente ferido. E o samaritano não perguntou primeiro se aquele homem merecia ajuda, qual era sua religião, sua origem, sua posição política ou sua história pessoal. Ele viu e  porque viu, deixou-se afetar. Porque se deixou afetar, aproximou-se. Porque se aproximou, tocou a ferida. Porque tocou a ferida, cuidou. Porque cuidou, assumiu responsabilidade. Talvez seja esta a gramática mais simples do Evangelho: ver, deixar-se tocar, aproximar-se, cuidar e permanecer responsável.

É por isso que Mateus 22 não pode ser reduzido a uma bonita frase sobre amor. Ele é uma sentença contra toda religião que tenta separar Deus do ser humano. Ele desmonta o culto que não produz misericórdia, a espiritualidade que não produz responsabilidade, a autoridade que não produz serviço e a fé que não produz justiça. Ele coloca diante de nós o Deus de Deuteronômio, o Deus do Êxodo, o Deus dos Profetas e o Deus revelado em Jesus Cristo. Um Deus que não permanece indiferente diante do grito dos vulneráveis. Um Deus que não se deixa capturar pelos palácios do poder. Um Deus que não precisa de violência para ser Deus. Um Deus que se revela no amor e chama seu povo a tornar esse amor visível na história. Essa é  a grande conversão de que precisamos: sair de uma religião que pergunta apenas «o que devo acreditar?» e entrar numa fé que também pergunta «como devo viver?, sair de uma religião preocupada apenas em defender fronteiras e entrar numa espiritualidade capaz de construir pontes., sair da necessidade de vencer todas as discussões e recuperar a capacidade de escutar, sair do culto ao poder e redescobrir o serviço, sair da fé utilizada como arma política e reencontrar o Evangelho como Boa-Nova para os pobres, os feridos, os esquecidos e todos aqueles que o mundo considera descartáveis. 

Porque o Evangelho continua sendo proclamado não somente quando a assembleia se reúne diante do altar, mas cada vez que a vida humana nos coloca diante de uma escolha. Entre passar adiante ou parar. . É nessa hora que a fé deixa de ser discurso e se transforma em testemunho e  a liturgia ultrapassa as paredes do templo, que a Bíblia deixa de ser apenas um livro que lemos e começa a ser uma Palavra que nos lê e  a oração deixa de ser apenas voz e se transforma em compromisso e  a Igreja deixa de ser apenas instituição e se torna comunidade de discípulos.

Amar a Deus. Amar o próximo. Não como palavras para decorar, mas como uma existência para assumir e não como slogan religioso, mas como prática cotidiana.  E quando isso acontece, a palavra de Jesus deixa de ser apenas proclamada e começa a ser vivida. Então o Evangelho deixa de ser somente uma religião que fala sobre Deus e se torna uma Boa-Nova que revela Deus na história. Porque Deus é amor (1Jo 4,8), e onde o amor se torna justiça, misericórdia, serviço, reconciliação e defesa da vida, ali o Reino de Deus começa novamente a nascer entre nós. Que a nossa fé tenha coragem de chegar até esse lugar. Que nossas Igrejas tenham coragem de chegar até esse lugar. Que nossas consciências tenham coragem de chegar até esse lugar. Porque, no fim, diante de Deus, talvez permaneça apenas aquilo que conseguimos transformar em amor. E a pergunta que atravessa a Lei, os Profetas, o Evangelho, a cruz e a história continua sendo a mesma: diante de Deus e diante do próximo, o que fizemos com o amor que recebemos?

DNonato -Teólogo do Cotidiano